1         Pontifícia Universidade Católica            Faculdade de Psicologia             E      TU,         AT?       Aná...
2Agradeço aos que amoaos que me acompanhame aos que acompanhona loucura nossa de cada dia.Agradeço ao tempoque por rexisti...
3AGRADECIMENTOSAos ATs entrevistados pela disponibilidade e pelo trabalho emocionanteque fazem.À Camila por me ajudar a ol...
4SumárioRESUMO ..............................................................................................................
5RESUMO   Este trabalho visa correlacionar três objetos de estudo: a psicanálise, oacompanhamento terapêutico e a psicose....
6APRESENTAÇÃO      No decorrer desta pesquisa me dei conta de que ela vinha ocupar um lugarincômodo em minha vida: não me ...
7contratransferência? Quais as manifestações observáveis da identificaçãoprojetiva? Qual a relação entre identificação pro...
8encontra, se não respostas, talvez hipóteses e, com certeza, muitas novasquestões.   Se ele provocar, instigar a pensar, ...
9INTRODUÇÃO“Eu sou Ofélia. A mulher na forca. A mulher com seios cortados. A mulher comexcesso de dose SOBRE OS LÁBIOS NEV...
10   Estes são trechos da peça de Heiner Müller, Hamlet Máquina. Textos literáriosque nos comovem pela crueza, primariedad...
11I. O ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO   Anteriormente à realização de um trabalho como acompanhante terapêutica,a loucura era ...
12transmissão do que é o trabalho até hoje se dá basicamente por via oral:palestras, cursos, grupos de estudo e discussões...
13   Existem propostas divergentes sobre o papel do AT no tratamento da psicoseque podem ser observadas nos dois livros ex...
14terapêutico busca construir juntamente com o acompanhado, em um trabalhomicroscópico, uma pequena abertura no macro soci...
15      Este livro é essa resposta à qual, de outra forma, eu teria sido submetido.      E tudo que eu peço é que isso me ...
16  O “fora” é pensado no acompanhamento terapêutico, para além da rua, apartir da perspectiva de Rolnik (1995). Segundo e...
17   Também eu não escaparei à descrição da vivência, pois esta foi fundamentalpara o surgimento da necessidade de reflexã...
18havia “carregado”? Aquilo era algo meu despertado pela minha relação com elaou ela teria “colocado” aqueles sentimentos ...
19II. ASPECTOS TEÓRICOS      A parte teórica da pesquisa era, a princípio, uma investigação cujo objetivoera o de embasar ...
20             durante o desenvolvimento da análise e que possuem como             singularidade característica de sua esp...
21diversa sobre a psicose. No entanto, tendo sido o enfoque inicial deste trabalho acontratransferência, e não sendo este ...
22    Assim, segundo Klein, todos vivenciamos, nos primeiros anos da infância,não a psicose, mas ansiedades psicóticas, e ...
23posição de Bion em relação à Freud é que o afastamento da realidade seriailusório, e se daria através do uso da identifi...
243 A Transferência Psicótica   Diversos   autores,   após   Freud,   puderam     constatar   a   existência   detransferê...
25das consequências disto, questão que será retomada ao analisarmos acontratransferência.   Bion (1957) descreve a transfe...
26       “A transferência psicótica típica observada nos esquizofrênicos tratados      por mim e alguns colegas que superv...
27      meias palavras, e a do analista de ouvi-lo, não diferem da comunicação      entre a mãe e seu bebê.” (pág. 112)   ...
28          psicanalítica vem sendo exercida por um número considerável de          pessoas, as quais trocam entre si suas...
29  Em 1950 Paula Heiman publicou um artigo que se tornou um marco na históriada psicanálise, e o motivo de seu rompimento...
30   Assim, a transferência psicótica possui, segundo Meltzer, uma relação muitopróxima à contratransferência.   Winnicott...
31   Haveria, segundo Winnicott, a possibilidade de uma contratransferência“objetiva”. No entanto, ele restringe o uso da ...
32   Esta possibilidade de uma resposta total exige uma grande disponibilidade doanalista na relação analítica. Winnicott ...
33      “A teoria das contratransferências apenas oferece explicação satisfatória      pela metade, por voltar-se para a m...
34lugar na transferência do outro sem, no entanto, atuar (acting out) este papel.Caso isto ocorra, a relação analítica ser...
35      uretrais e implica a evacuação de substâncias venenosas (excrementos),      que são expelidos do eu e introduzidos...
36   A definição dada por Bion (1957) para identificação projetiva é que se trata deum mecanismo onde “(...) o paciente ex...
37   Posteriormente, ele questiona a identificação projetiva como uma fantasiaonipotente, no sentido em que ela efetivamen...
38  Além de ser uma forma de comunicação, a identificação projetiva tambémpode ser usada como uma forma de “evacuação”, qu...
39   Ainda segundo Rosenfeld (1987):      “O analista nessa situação pode ter a nítida experiência, em sua      contratran...
40       que somente mais tarde ele perceba que o que está sentindo é desespero       e depressão ligados a uma sensação d...
41       desse contato com seu paciente pode ficar também seriamente       perturbado, ao tentar tratar de psicóticos. O m...
42   Para Fédida, permanecer no corpo seria engano. É necessário que isto sejatransformado em palavra, para assim ser pass...
43      “(...) o sinistro não seria realmente nada novo, porém algo que sempre foi      familiar à vida psíquica e que só ...
44   Fédida (1988) escreve sobre a experiência do sinistro na contratransferência.Segundo ele, as teorizações sobre a cont...
459 A Interpretação  A partir de uma experiência na contratransferência proveniente de umaidentificação   projetiva,   o  ...
46e não sucumbir atuando contratransferencialmente, por exemplo, é ser analista.É a sobrevivência do analista aos ataques ...
47  Rosenfeld (1952) possui uma posição bastante semelhante à de Bion. Eletambém considera a interpretação um aspecto fund...
48METODOLOGIA  Para a realização deste trabalho, a metodologia utilizada foi entrevista semidirigida. Os sujeitos entrevis...
49   H é acompanhante terapêutico há seis anos e trabalha tanto com pacientespsicóticos quanto com deficientes mentais.II ...
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  1. 1. 1 Pontifícia Universidade Católica Faculdade de Psicologia E TU, AT? Análise das alterações emocionais descritaspor acompanhantes terapêuticos no trabalho com psicóticos Claudia Valentina de Arruda Campos Orientadora: Camila Sampaio Trabalho de conclusão de curso como exigência para graduação no curso de Psicologia. São Paulo 1996
  2. 2. 2Agradeço aos que amoaos que me acompanhame aos que acompanhona loucura nossa de cada dia.Agradeço ao tempoque por rexistirme obriga a parar num pontofazer históriadeste ciclo tortuosoque é escrever/viver.
  3. 3. 3AGRADECIMENTOSAos ATs entrevistados pela disponibilidade e pelo trabalho emocionanteque fazem.À Camila por me ajudar a olhar para o outro.Ao Welson por me ajudar a olhar para mim.À Vilma pela delicadeza.Ao Hemir pelas aulas e histórias.À Lucinha pela atenção e paciência.À Bia Almeida por me ajudar em meus descabelamentos sorrindo.Ao pessoal d’A Casa:Nelson e Leonel, pelos olhos (super-visões),e à Lúcia, Bia Portella, Bia Almeida, Cristina, Renata, Júlio, Rodrigo,Maurício Hermann, Eliane, Maurício Porto, Iso, Kléber, Luciana, João,Claudia e Débora, por acompanharem de perto meu acompanhar.Ao pessoal da Oficina de Inventos:Eliana, Paula, Bia, Kátia e Saulo,pelas discussões regada a vinho e macarronada.À minha família querida.Aos meus amigos e amores que foram, são e serão.
  4. 4. 4SumárioRESUMO ..........................................................................................................................5APRESENTAÇÃO ............................................................................................................6INTRODUÇÃO .................................................................................................................9 I. O ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO ............................................................... 11 II. ASPECTOS TEÓRICOS ......................................................................................... 19 1 A Transferência ................................................................................................... 19 2 A Psicose............................................................................................................. 21 3 A Transferência Psicótica .................................................................................... 24 4 A Contratransferência .......................................................................................... 27 5 A Contratransferência na Psicose........................................................................ 29 6 A Identificação Projetiva ...................................................................................... 34 7 As sensações provocadas pela identificação projetiva ......................................... 40 8 O sinistro na contratransferência vivido a partir da identificação projetiva ........... 42 9 A Interpretação .................................................................................................... 45METODOLOGIA ............................................................................................................. 48 I Sujeitos de pesquisa ................................................................................................ 48 II Entrevista ................................................................................................................ 49 III Metodologia de análise e discussão da entrevista.................................................. 49ANÁLISE E DISCUSSÃO DA ENTREVISTA DE H ......................................................... 51 I O Trabalho do AT..................................................................................................... 51 II O que sente o AT? .................................................................................................. 59 III Hipóteses sobre o sentir: particularidades do acompanhamento terapêutico ......... 79 1. A intimidade: o espaço e o corpo ........................................................................ 80 2. A relação da dupla com o social ......................................................................... 82 3. Duração: tempo e temporalidade ........................................................................ 84 4. O lugar do AT ..................................................................................................... 85 5. A dificuldade em nomear .................................................................................... 87 IV O que fazer com “isso”? ........................................................................................ 88CONCLUSÃO ................................................................................................................. 93BIBLIOGRAFIA ............................................................................................................... 96
  5. 5. 5RESUMO Este trabalho visa correlacionar três objetos de estudo: a psicanálise, oacompanhamento terapêutico e a psicose. Tudo começou quando, ao acompanhar uma moça psicótica, comecei aperceber “coisas estranhas” em mim. Do que se tratava? O que era aquilo?Comecei a investigar e observei que diversos acompanhantes descreviamsensações, vivências particulares, semelhantes em sua estranheza. Passei abuscar referências nos livros, e na falta de material sobre acompanhamento, medirigi à psicanálise: o que existia a respeito das sensações que sentia? Quais asdescrições de análises de pacientes psicóticos? Ao constatar uma proximidadeentre o que era descrito na psicanálise ao que era descrito pelosacompanhantes, decidi investigar as reações emocionais do acompanhanteatravés de um estudo de caso. A entrevista me permitiu descrever oacompanhamento terapêutico e correlacioná-lo à teoria psicanalítica. A pesquisa encontra-se dividida em duas partes: a primeira teórica, ondesão discutidos em especial os conceitos de transferência na psicose,contratransferência e identificação projetiva; e uma segunda, dedicada à análisede entrevista realizada com um acompanhante terapêutico, articulando aexperiência do acompanhamento terapêutico à teoria psicanalítica. Como conclusão, a análise da entrevista possibilitou verificar aproximaçõesentre essas duas clínicas da psicose _ o acompanhamento terapêutico e apsicanálise _ além de destacar quais são as características particulares doacompanhamento terapêutico. A pesquisa também permitiu levantar questõespara investigações futuras.
  6. 6. 6APRESENTAÇÃO No decorrer desta pesquisa me dei conta de que ela vinha ocupar um lugarincômodo em minha vida: não me deixar esquecer, não deixar aquietar,naturalizar, os estranhamentos que eu sentia em meu trabalho comoacompanhante terapêutica. Isto certamente me trouxe desgaste e cansaço acada vez que eu olhava para meu próprio tema. O trabalho de reflexão eprodução teórica foi uma experiência onde senti ser possível retornar à angústiavivida nas situações sobre as quais eu pensava e, a partir do processo reflexivo,ultrapassá-la. Em diversos momentos, mergulhei em minha própria experiência,sendo difícil observar a experiência alheia, mas essa era a tarefa a que me haviaproposto: olhar para fora, para além de minha vivência particular, e produzir umtexto sobre o acompanhamento terapêutico. Ao iniciar o trabalho eu tinha uma questão clara: correlacionar oacompanhamento terapêutico e as reações emocionais descritas pelosacompanhantes de pacientes psicóticos, com a teoria da psicanálise. A partir daí,iniciou-se uma viagem teórica. A princípio, pensei em utilizar a teoria dacontratransferência, e não um autor em particular, porque queria enfocar ofenômeno, as “sensações” descritas por analistas que atendem pacientespsicóticos em seus consultórios. Assim, busquei autores que falassem da reaçãoemocional do analista frente a pacientes psicóticos, e terminei por utilizar umgrande número de autores, sem me aprofundar na construção teórica de cadaum em particular. Nesta busca, novas questões foram surgindo: ao falar de contratransferênciana psicose precisei escrever sobre que referência de psicose estava utilizando,assim como de transferência. As questões pareciam intermináveis: Como se dá atransferência na psicose e qual sua relação com a contratransferência? O que éa identificação projetiva, conceito a que cheguei através da leitura sobre a
  7. 7. 7contratransferência? Quais as manifestações observáveis da identificaçãoprojetiva? Qual a relação entre identificação projetiva, transferência econtratransferência? Pode-se interpretar a partir da percepção da identificaçãoprojetiva? E tudo isso poderia servir para o acompanhamento terapêutico? Ao mesmo tempo em que este caminho foi percorrido, havia outro paralelo: aexperiência como acompanhante terapêutica (AT) me levou a correlacioná-la àexperiência descrita por Freud (1924) do sinistro. O encontro destes doiscaminhos derivou em uma nova questão: Como correlacionar a experiência dosinistro com a contratransferência na psicose? E pude entrever que esta questãome levaria a outras que indicavam para o corpo. O que é o corpo e onde estáinserido o corpo do analista e do acompanhante terapêutico na relação com umindivíduo psicótico? O tempo se foi antes de poder chegar ao corpo. Se vocêestá confuso, imagine eu que a esta altura já nem me lembrava de qual haviasido a questão inicial. Tive que me voltar para as entrevistas e aí redescobrir minha questão. Apartir da análise da entrevista, a discussão busca correlacionar os aspectosteóricos da psicanálise com o acompanhamento terapêutico. Pensando sobre o que perseguia ao construir uma “colcha de retalhos”teórica, me deparei com uma grande ansiedade, e com o desejo de encontraruma resposta, buscar compreender o que havia vivenciado na experiênciaenquanto acompanhante terapêutica. A necessidade de entender o que haviavivido, em momentos, foi maior que qualquer tentativa de organizaçãometodológica que desse um contorno melhor a isto que eu buscava descrever,ao mesmo tempo em que descobria. Certamente ficaram muitas falhas, contradições e buracos. Um trabalho“louco”, como disse uma amiga. Um trabalho que vagueia, mas que ao final
  8. 8. 8encontra, se não respostas, talvez hipóteses e, com certeza, muitas novasquestões. Se ele provocar, instigar a pensar, está cumprido. Um pequeno paralelo como trabalho do AT: apresentar um mundo novo, interno e externo, e deixar que ooutro se ligue, viva.
  9. 9. 9INTRODUÇÃO“Eu sou Ofélia. A mulher na forca. A mulher com seios cortados. A mulher comexcesso de dose SOBRE OS LÁBIOS NEVE a mulher com a cabeça no fogão agás. Ontem deixei de me matar. Estou só com meus seios, minhas coxas, meuventre. Rebento os instrumentos do meu cativeiro - a cadeira, a mesa, a cama.Destruo o campo de batalha que foi o meu lar. Escancaro as portas para que ovento possa entrar e o grito do mundo. Despedaço a janela. Com as mãossangrando rasgo as fotografias dos homens que amei e que se serviram de mimna cama, mesa, na cadeira, no chão. Toco fogo na minha prisão. Atiro minhasroupas no fogo. Exumo do meu peito o relógio que era o meu coração. Vou paraa rua, vestida em meu sangue.” Ofélia Heiner Müler Hamlet Máquina“Arrombo a minha carne lacrada. Quero habitar nas minhas veias, na medida dosmeus ossos, no labirinto do meu crânio. Retiro-me para as minhas vísceras.Sento-me na minha merda, no meu sangue. N’algum lugar são rompidos ventrespara que eu possa morar na minha merda. N’algum lugar ventres são abertospara que eu possa estar sozinho com o meu sangue. Meus pensamentos sãochagas em meu cérebro. O meu cérebro é uma cicatriz. Quero ser uma máquina.Braços para agarrar pernas andar nenhuma dor nenhum pensamento.” Hamlet Heiner Müller Hamlet Máquina
  10. 10. 10 Estes são trechos da peça de Heiner Müller, Hamlet Máquina. Textos literáriosque nos comovem pela crueza, primariedade do que é dito. É a descrição desentimentos de pessoas que vivem algo da radicalidade da experiência humana,radicalidade que podemos encontrar na loucura como uma vivência trágica,particular e tantas vezes inexplicável. Se um texto literário é capaz de nos fazersentir, nos angustiar a partir da possibilidade de vivermos uma parcela do quenos é descrito, o que poderia provocar em alguém a proximidade e o contatocom quem vive uma experiência de tamanha ruptura de seus mundos interno eexterno como a loucura? Este trabalho é uma tentativa de organização de sentimentos de alguém quepôde sentir esta proximidade, relato de uma procura pessoal, da busca de pares,da busca teórica de possíveis explicações para o que foi observado e vivido narelação com uma pessoa “louca”. “Louco” porque: o que é ser louco? O que nosdistancia desta vivência? O que nos garante do lado de cá e eles do lado de lá,além de um muro? Estas sendo questões que me rodeavam permanentementeao acompanhar uma dessas pessoas estranhas. Estranhas estrangeiras em suaterra natal. Esquisitas desconcertantes, desviantes das regras da razão, onde oporquê positivista não encontra uma resposta. Críticas não intencionais à custade suas próprias subjetividades, sem espaço para a existência, fadadas a viverem um tempo, que por ser outro que o tempo da produção, não tem lugar. Eentão, o que é possível? É possível acompanhar, acompanhar a história e o quea mudança dos tempos nos permite.
  11. 11. 11I. O ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO Anteriormente à realização de um trabalho como acompanhante terapêutica,a loucura era para mim pura teoria, filmes, textos literários. Depois de iniciar otrabalho como acompanhante terapêutica de psicóticos, deixaram a teoria de serpura, os filmes ficção e a literatura texto. A teoria, em especial, pude entendê-lacomo experiência sistematizada, flexível, mutável. A partir do acompanhamentocontinuei sem saber o que é ser louco, e este desconforto me levou a falar (asintermináveis conversas dos acompanhantes terapêuticos), escrever e entrevistarpessoas a fim de encontrar outros pensamentos, destes que também vivem estaexperiência. Uma aproximação da loucura através do trabalho comoacompanhante terapêutico (AT). O que faz um acompanhante terapêutico? De uma forma geral saímos compessoas que tem tido dificuldades em sua relação com o mundo. Muitas vezessão pacientes psiquiátricos e com eles vamos ao cinema, ao teatro, a um bar,viajar, etc. Em suma, atividades que as pessoas comumente realizam comamigos (o antigo nome do acompanhante terapêutico era amigo qualificado).Acompanhante e acompanhado buscam no mundo possibilidades de novoscaminhos de circulação, novos contatos deste indivíduo com o social, para que oacompanhado um dia não precise mais de acompanhamento. O acompanhamento terapêutico é uma das formas contemporâneas detratamento da psicose. Existe pouco material publicado sobre esta prática, sendoeste um dos motivos que me levaram a refletir sobre ela. Há apenas dois livrossobre o tema editados em português: Acompanhantes Terapêuticos ePacientes Psicóticos, de Mauer e Resnizky (1987), e A Rua como EspaçoClínico, da Equipe de Acompanhantes Terapêuticos do Hospital Dia A Casa(1991). Além desses, é possível encontrar artigos dispersos, muitas vezespublicados por grupos independentes de acompanhantes terapêuticos. A
  12. 12. 12transmissão do que é o trabalho até hoje se dá basicamente por via oral:palestras, cursos, grupos de estudo e discussões entre acompanhantes. Esta é uma questão intrigante sobre esta prática: como, apesar de possuirmais de 20 anos de existência na Argentina, e pelo menos 13 anos no Brasil, elacontinue ainda sendo transmitida oralmente? Qual seria a dificuldade de teorizarsobre o acompanhamento terapêutico, dificuldade esta a que os acompanhantesterapêuticos tanto se referem? Sem tentar responder a estas questões, pensoem alguns elementos que poderiam direcionar novas pesquisas. Oacompanhamento é uma prática que se dá no quotidiano. Acompanhante eacompanhado percorrem a cidade juntos, buscando realizar atividades que paramuitos seriam básicas em suas vidas, como ir à padaria, ao supermercado,assistir um filme ou passear de carro. Patto (1990) refere-se à dificuldade queencontram os teóricos ao tentar elaborar uma teoria do quotidiano. Além disso, oacompanhamento é um trabalho que possui muitas variáveis, como a questão dovínculo, da interpretação, a ação, a relação do AT com a família doacompanhado, o que torna o tratamento algo difícil de ser configurado,circunscrito. Afinal, disso tudo, o que trata no trabalho como acompanhante?Quais os fatores terapêuticos? Qual o campo específico desta forma detrabalho? Como não se perder frente às inúmeras possibilidades existentes? Estas questões, ainda sem respostas, permitem pensar que é apenas dentroda relação existente entre acompanhante e acompanhado que se pode saber oque é terapêutico, ou analítico, para aquele indivíduo em particular. É a partir desua situação de vida atual que se elabora um projeto terapêutico, sendo possívelpensar que as generalizações do que fazer ao se acompanhar alguém,generalizações estas que poderiam surgir na forma de regras, limites pré-estabelecidos do que é correto ou incorreto dentro de um acompanhamentoterapêutico, correm o risco de funcionar mais como defesa do terapeuta frente àangústia do não saber, do desconhecido em que a relação com a psicose noscoloca, do que como “regras fundamentais” do acompanhamento terapêutico.
  13. 13. 13 Existem propostas divergentes sobre o papel do AT no tratamento da psicoseque podem ser observadas nos dois livros existentes sobre acompanhamentoterapêutico. Resnizky e Mauer (1987) definem as funções do acompanhanteterapêutico como sendo as seguintes: contenção do paciente, oferecimento doacompanhante como modelo de identificação, funcionar como “ego auxiliar” dopaciente, perceber, reforçar e desenvolver a capacidade criativa do paciente,informar sobre o mundo objetivo do paciente, representar o terapeuta, atuarcomo agente ressocializador e, finalmente, servir como catalizador das relaçõesfamiliares. Já a proposta do grupo do hospital dia A Casa (1991) está mais voltada parauma concepção analítica da relação, não sendo possível criar itens tãodeterminados como os citados acima. É importante, nesta forma de pensar oacompanhamento, a formação de um vínculo entre acompanhante eacompanhado, vínculo compreendido no terreno dos fenômenos transferenciaisque permitiria ao acompanhado arriscar-se de uma forma particular no mundo,tendo a sustentação de um companheiro, de um anteparo afetivo entre ele e omundo. A rua é considerada o espaço privilegiado para o trabalho doacompanhamento. Neste espaço de múltiplas possibilidades, o acompanhanteterapêutico busca estar atento às necessidades e capacidades de seuacompanhado. Busca construir com ele um novo roteiro da cidade, acreditandoque quando um indivíduo psicótico consegue fazer demandas, ali existe apossibilidade de este construir novas relações afetivas com o mundo, com a vida.É acreditar, de alguma forma, que a subjetividade se constrói durante toda avida, que a possibilidade de transformação e mudança é algo inerente aohumano, que o social e o quotidiano podem ser terapêuticos. Isto,paradoxalmente, associado à ideia de que este indivíduo não precisa deixar deser um psicótico para habitar este mundo, esta cidade. O acompanhante
  14. 14. 14terapêutico busca construir juntamente com o acompanhado, em um trabalhomicroscópico, uma pequena abertura no macro social. Esta pequena abertura pode se dar em uma ida à farmácia, onde a boaacolhida de um farmacêutico a uma pessoa que delira transformações em seucorpo, respondendo muitas vezes e muitos dias às mesmas perguntas com bomhumor, talvez revele algo _ o fragmento de uma mudança social possível naforma de se relacionar com a loucura. Seria possível considerar estes pequenosacontecimentos uma forma de transformação social? Segundo Baremblitt (1991): “O paciente não é uma forma de ser no mundo, mas sim, uma forma de produzir o mundo, o mundo próprio, único, irrepetível. O desafio do acompanhante terapêutico, ou de quem seja, consiste então, em participar na construção deste mundo, fazendo de maneira com que ele seja compatível com o mundo que é produzido, consagrado e implantado por certas maneiras de ser triunfantes. Maneiras de ser que têm conseguido produzir um mundo no qual o mundo do chamado paciente não tem lugar.” (pág. 81) Quem melhor do que Althusser (1992) para descrever este não lugar nomundo. Sociólogo francês, diagnosticado maníaco depressivo, em novembro de1980 estrangulou a esposa em seu apartamento e não foi a julgamento por tersido “beneficiado” pela impronúncia, ou seja, foi considerado incapaz deresponder em juízo. Posteriormente, Althusser escreveu o livro “O futuro duramuito tempo”, publicado após sua morte, em 1990. Nele descreve o limbo quecabe ao louco em nossa sociedade. O relato é uma resposta à impronúncia quelhe foi imputada. Uma forma de sobrevivência e de existência: “É provável que se julgue chocante que eu não me resigne ao silêncio depois do ato que cometi, e também a impronúncia que o sancionou e da qual, segundo a expressão espontânea, eu me beneficiei. Mas, não tivesse eu esse benefício, e deveria ter sido julgado. E, se tivesse de ser julgado, teria de responder.
  15. 15. 15 Este livro é essa resposta à qual, de outra forma, eu teria sido submetido. E tudo que eu peço é que isso me seja concedido; que me concedam agora o que então poderia ter sido uma obrigação.” (pág. 21) Sobre a impronúncia, o não direito à palavra, ele escreve: “O destino daimpronúncia é na realidade a pedra sepulcral do silêncio.” (pág. 25) Escreve também sobre a condição do louco: “Se falo dessa estranha condição, é porque a vivi e, de certa forma, vivo-a ainda hoje. Mesmo libertado após dois anos de internação psiquiátrica, sou, para uma opinião que conhece meu nome, um desaparecido. Nem morto nem vivo, não ainda enterrado mas ‘sem obra’ - a magnífica expressão de Foucault para designar a loucura: desaparecido.” (pág. 29) O livro que escreve é um retorno ao mundo deste ser “desaparecido”. Mundosexteriores e interiores, mundos familiares, mundo relacional. O AT junto a seuacompanhado busca ligar, criar uma trança entre estes mundos. A partir de umaafetividade lançada sobre ele, é possível buscar relançá-la sobre outros objetos,reconectando quem se desligou da vida, dar voz a quem perdeu o direito à fala.Trabalho de tentativa e erro constantes, desejos frustrados e alegrias enormes. O que é ser um acompanhante terapêutico? Há algo nesta atividade deacompanhar que vai muito além do fazer. Ao acompanhante cabe a capacidadede se co-mover, seguir junto, suportar que alguém sem caminhos claros o guie,ao mesmo tempo em que busca sustentar os afetos que o invadem, comovem. Apossibilidade de suporte sendo um dos atos terapêutico. Assim, se por um ladohá uma grande importância da própria rua enquanto espaço possibilitador paraeste trabalho, o fator que viabilizaria a saída às ruas é o vínculo criado entreacompanhante e acompanhado. Se, por um lado, a rua pode ser pensadaenquanto exterioridade viabilizadora de relações com o fora, o acompanhantetambém é o fora, o terceiro, que entra na casa não apenas de seuacompanhado, mas muitas vezes de uma família desorganizadaemocionalmente.
  16. 16. 16 O “fora” é pensado no acompanhamento terapêutico, para além da rua, apartir da perspectiva de Rolnik (1995). Segundo ela, o fora não seria um lugar,mas uma dimensão da realidade em constante movimento de forças, turbilhão detransformações. Em suas palavras: “(...)Se o fora não é um lugar, como ficaria então o dentro? Onde se dão estas sensações e este estranhamento? Como fica a subjetividade? Pois bem, para sua surpresa ele (AT) constata que o dentro nada mais é do que o interior de uma dobra do fora, estratificação temporária de certas reações de força - exatamente aquelas relações cuja diferença incompatível tivera por efeito desestabilizar os contornos que lhe eram familiares e lhe exigir um processo de subjetivação de um novo tipo. A subjetividade portanto é feita das próprias partículas do fora; ela é o dentro do fora. Um dentro que como um cristal do fora que teria sedimentado em determinada forma, continua a ser trabalhado pelas forças até que a dobra que o constitui se desfaça e outras dobras se façam num só e mesmo movimento. Nesse processo que nunca para, somos levados para fora de nós mesmos e nos tornamos “um sempre outro”. A subjetividade é então este dentro-e-fora indissociáveis, mas também, inconciliáveis: ‘um si e não-si` concomitantemente.” (pág. 8) É no fora de quem se encerrou em uma forma de vida petrificada, exatamentepor ser absolutamente vulnerável, aberto ao avassalamento do mundo, e no forade quem se constituiu dentro quase protegido e semi-lacrado, que ambos,acompanhante e acompanhado, vão caminhar. O acompanhante sendo, em si, o“fora” que adentra o espaço da casa e da família. Neste espaço sem formas definidas é que se dá este passeio peloestranhamento. Estranhamento vivido muitas vezes pelo AT que busca dar umnome ao “isso”, sensação de difícil nomeação, sensações vividas na convivênciacom um psicótico. Este inominável pode encontrar-se, talvez, um pouco maispróximo da fala do que da escrita. Seria possível que isto levasse o AT a referir-se à sua prática basicamente através de casos? Pois este é outroquestionamento constante, o fato de ser tão difícil falar sobre oacompanhamento sem se referir a uma vivência.
  17. 17. 17 Também eu não escaparei à descrição da vivência, pois esta foi fundamentalpara o surgimento da necessidade de reflexão: Saía com minha primeiraacompanhada, Renata, há cerca de quatro meses quando ela me propôs queviajássemos por três dias para o sítio. Passado este período eu retornaria a SãoPaulo e outra acompanhante que também a atendia ficaria com ela no sítio pormais três dias. Aceitei entusiasmada e fomos para o sítio. No terceiro dia daviagem tive uma intoxicação alimentar. Passei mal e voltei para São Paulosentindo fortes dores abdominais. Na volta, eu estava dirigindo sozinha, ecomecei a fantasiar sobre o que se passava comigo. Somente depois de chegara São Paulo pude notar que o teor de minhas fantasias havia sido o mesmo dasfantasias de Renata. O medo da morte desproporcional às causas,persecutoriedade, imaginar as possíveis doenças que poderiam ter meacometido, todos esses sintomas de Renata que nesse momento me encontreireproduzindo. A partir deste momento, minha relação com ela se tornou mais distante edifícil. Passei a ficar irritada nos acompanhamentos, não via a hora passar. Estemovimento não foi unilateral. Na volta da viagem, as duas, acompanhante e aacompanhada, estavam perturbadas. Enquanto eu estava na estrada dirigindo,tinha a sensação de estar intoxicada, e depois de semanas eu continuava mesentindo assim. Associado a isto, sentia culpa, pois meu papel seria o de tratá-lae não estava conseguindo. Eu havia mudado e me tornado supersensível à suaaproximação, irritada com ela e comigo mesma por haver escolhido estar ali.Passadas duas semanas, em supervisão, foi decidido que eu tiraria duassemanas de férias e a frase importante que marcou esta supervisão foi: “Digaque vai sair de férias, mas diga feliz. Deixe as coisas dela com ela.” A separação restauradora me permitiu pensar sobre estas questões e voltar,com menos horas semanais, e sem viagens por um período. Ao mesmo tempo,esta ebulição me levantou perguntas sobre o que havia acontecido. O que eu
  18. 18. 18havia “carregado”? Aquilo era algo meu despertado pela minha relação com elaou ela teria “colocado” aqueles sentimentos em mim? Como era possível que euconsiderasse delírio suas considerações sobre meus poderes sobre seu corpo eao mesmo tempo acreditasse em seus poderes sobre minha mente? Ondeestaria esta “abertura” em mim que havia permitido essa invasão? A partir destasquestões fui buscar bibliografia que se referisse a este tipo de experiência que euhavia vivenciado. Encontrei descrições semelhantes na psicanálise. A investigação sobre o queme acontecia provocou uma ressignificação do conhecimento teórico quepossuía até então. O sentido teórico já não bastava, caso não encontrasse umaequivalência prática na relação. Isto, tomadas as precauções de não ser arelação de acompanhamento o equivalente a uma relação psicanalítica na rua,não permitindo, assim, uma transposição literal dos conceitos psicanalíticos. Noentanto, estes mesmos conceitos poderiam me ajudar a pensar as semelhançase diferenças entre os dois trabalhos. Pude observar fenômenos muitosemelhantes aos descritos como transferência psicótica, contratransferência eidentificação projetiva durante o trabalho de acompanhamento.
  19. 19. 19II. ASPECTOS TEÓRICOS A parte teórica da pesquisa era, a princípio, uma investigação cujo objetivoera o de embasar a análise da entrevista. No decorrer do processo, esta parte foiadquirindo uma dimensão maior que a prevista. Além de interminável, pois não aconsidero terminada, ao terminar a primeira versão do trabalho achava esta parteconfusa, incômoda, indigesta. Havia muito a ser retirado e transformado. Nasegunda versão do trabalho tal era minha irritação e insatisfação com esta parteque a transformei em anexo. Não a queria dentro, “sujando”, o trabalho. Pararealizar a terceira versão, pensei muito no porquê desta parte haver sidoexcluída: ela estava louca em demasia, um tanto árida, esquizoide. E pensei queum trabalho sobre a loucura que exclui de si próprio sua desorganização seafasta de seu objeto. Em função disto, readmiti os aspectos teóricos como parteintegrante do trabalho. Enfim, na quarta versão, aqui presente, reduzi adimensão deste capítulo. Os conceitos investigados são: a partir do conceito de transferência meencaminho para os conceitos de psicose, da transferência na psicose, dacontratransferência, da contratransferência na psicose e da identificaçãoprojetiva. Paralelamente, há também uma investigação a respeito do sinistro emFreud, o sinistro na contratransferência e uma questão final a respeito dapossibilidade de interpretação a partir da contratransferência.1 A Transferência O conceito de transferência é apresentado e retomado em diversos momentona obra de Freud. Em 1905, define da seguinte forma a transferência, ao analisaro Caso Dora: “O que são as transferências? Reedições ou produtos facsímiles dos impulsos e fantasias que serão despertados e feitos conscientes
  20. 20. 20 durante o desenvolvimento da análise e que possuem como singularidade característica de sua espécie a substituição de uma pessoa anterior pela pessoa do médico. Ou para dizer de outro modo: toda uma série de acontecimentos psíquicos anteriores voltam à vida, mas não já como passado, se não como relação atual com a pessoa do médico.” (p. 998 trad. livre) Segundo Freud (1905), a transferência existe em todas as relações humanas,sendo especifico da psicanálise a utilização deste recurso para propiciar aanálise. O tratamento psicanalítico não cria a transferência, mas se limita a“descobri-la”. Posteriormente Freud considerará a transferência como sendo,além de uma forma de resistência, também a mola que impulsionaria otratamento psicanalítico. Freud publicou, em 1910, o texto “Observações psicanalíticas sobre um casode paranóia” também conhecido como o caso Schreber. Nesse texto, afirma nãoser possível a realização de um trabalho analítico com pacientes psicóticos, poisestes não poderiam estabelecer uma relação transferencial. Haveria, nestespacientes, um afastamento de todo interesse pela realidade, pelo mundo exterior.Na psicose, naquele momento chamado por Freud de parafrenia, haveria umaretração da libido objetal para o eu, processo que descreve o fenômeno donarcisismo, que impossibilitaria a relação tranferencial. Posteriormente, diversos autores vieram a contestar esta hipótese freudiana,constatando a ocorrência de uma transferência bastante peculiar na relaçãoanalítica com psicóticos, bastante diferente das características da transferêncianeurótica. Os autores selecionados para descrever a transferência na psicose o foram apartir de seu trabalho sobre a contratransferência e a identificação projetiva, ouseja, foi a partir do estudo sobre a contratransferência e a identificação projetivaque cheguei a Klein, Winnicott, Bion e Rosenfeld, entre outros. Há ainda autoresdentro da psicanálise que, a partir de Lacan, produziram uma teoria bastante
  21. 21. 21diversa sobre a psicose. No entanto, tendo sido o enfoque inicial deste trabalho acontratransferência, e não sendo este um conceito utilizado pela escolalacaniana, não foi possível um aprofundamento sobre a definição de psicose edas forma de transferência na psicose, desde a perspectiva lacaniana.2 A Psicose Freud (1924) em seu artigo Neurose e psicose afirma que o que caracterizariaa psicose seria o afastamento do ego da realidade. “A neurose seria o resultadode um conflito entre o ego e o id, enquanto que na psicose o ego, a serviço do id,retira-se do mundo exterior.” (pág. 2.742 trad. livre) Freud considerava queindivíduos psicóticos eram inanalisáveis. Klein, por sua vez, desenvolveu uma teoria sobre a vida emocional dos bebês.É possível pensar, a partir de suas teorias, que ela realiza com a psicose o queFreud realizou com a neurose, no sentido da “despatologização”. Por que apsicose pode deixar de ser pensada como doença? Em 1946, em “Notas sobrealguns mecanismos esquizoides”, ela escreve: ‘Não será preciso entrar em pormenores quanto ao fato de que algumas outras características das relações objetais esquizoides, por mim anteriormente descritas, podem ser encontradas, em menor grau e de uma forma menos impressionante, em pessoas normais(...). De modo semelhante, as perturbações normais nos processos de pensamento estão ligadas ao desenvolvimento da posição esquizoparanóide. Pois todos nós somos susceptíveis, por vezes, de um enfraquecimento momentâneo do pensamento lógico (...) de fato o ego está temporariamente cindido.” (pág. 329) Neste mesmo artigo Klein (1946) escreve: “Nos primeiros anos da infância, manifestam-se ansiedades características da psicose que obrigam o ego a desenvolver mecanismos específicos de defesa. Nesse período se encontram os pontos de fixação para todos os distúrbios psicóticos.” (pág. 314)
  22. 22. 22 Assim, segundo Klein, todos vivenciamos, nos primeiros anos da infância,não a psicose, mas ansiedades psicóticas, e o que diferenciaria um indivíduopsicótico de um neurótico são os pontos de fixação em uma fase primitiva dodesenvolvimento. Nessa medida, os neuróticos não se isentariam destasansiedades, que estariam incorporadas ao processo psíquico de formação dapersonalidade de qualquer indivíduo. A psicose, deste ponto de vista, pode serpensada não como uma doença, mas como uma possibilidade para qualquer serhumano. A partir de Klein, outros autores se aventuraram pela questão da psicose.Winnicott (1954-5) pouco utiliza as categorias neurótico ou psicótico, mas simrefere-se a pacientes mais ou menos regredidos, o que determina a gravidade decada caso. Winnicott correlaciona o nível de regressão de um indivíduo a fatoresambientais os quais poderiam haver provocado essa forma de defesa. Segundoele, “A doença psicótica se relaciona a um fracasso ambiental em um estádioprimitivo do desenvolvimento emocional de um indivíduo.” (pág. 470) Ao falar em “fracasso ambiental”, Winnicott se refere à relação mãe-bebê. Oque caracteriza este fracasso é a impossibilidade de a mãe dar suporteemocional para as experiências afetivas do bebê. Um indivíduo que vive estaexperiência emocional tem, segundo ele, seu desenvolvimento afetivocomprometido. Bion, por sua vez, dá maior ênfase a aspectos constitutivos do indivíduo. Emrelação à personalidade psicótica, em 1957, ele considera a coexistência de umaparte neurótica e de uma parte psicótica na personalidade de um só indivíduo. Apartir da distinção feita por Freud (1924) entre neurose e psicose, Bion (1957)propõe que na psicose o ego não perderia completamente o contato com arealidade, pois haveria a permanência de uma parte não psicótica dapersonalidade existindo paralelamente a parte psicótica. Outra distinção da
  23. 23. 23posição de Bion em relação à Freud é que o afastamento da realidade seriailusório, e se daria através do uso da identificação projetiva contra o aparelhomental. Segundo Bion, a diferenciação entre as partes psicóticas e nãopsicóticas da personalidade dependeria de uma cisão e de uma fragmentação daparte da personalidade relacionada à percepção da realidade interna e externaem fragmentos muito pequenos, que seriam expulsos através do mecanismo deidentificação projetiva. O significado deste conceito será discutido adiante. Em 1957 ele caracteriza a personalidade psicótica como tendo quatrocaracterísticas fundamentais: “(...) uma preponderância tão grande de impulsos destrutivos, que mesmo o impulso de amor é inundado por eles e transformado em sadismo; um ódio da realidade, interna e externa, que se estende a tudo que contribui para a percepção dela; um terror de aniquilação iminente (Klein 1946) e, finalmente, uma formação prematura e precipitada de relações de objeto (...), cuja fragilidade contrasta acentuadamente com a tenacidade com que são mantidas.” (pág. 70) É possível pensar que a proposta analítica desses autores se relaciona com aforma como é pensada a etiologia da psicose. Enquanto Winnicott considera apsicose como uma defesa que se originaria de uma falha ambiental, Bionenfatiza os fatores constitucionais do indivíduo. Enquanto técnica, Winnicottpreconiza um retorno a este momento em que se deu a falha inicial, através daregressão, para que possa haver uma recomposição do indivíduo, enfatizando oambiente na situação analítica. Bion, por sua vez, dá uma maior ênfase àinterpretação verbal, pois esta seria capaz de “devolver” ao paciente aspectosseus que estariam fragmentados e expelidos fora, buscando reconstituir estapsiquê estilhaçada. A partir desta breve aproximação entre estes autores é possível pensar quecada corpo teórico mereceria um aprofundamento particular. O recorte da teoriaem um ponto poderia esconder pressupostos que não estão sendo discutidosnaquele momento.
  24. 24. 243 A Transferência Psicótica Diversos autores, após Freud, puderam constatar a existência detransferência no tratamento analítico de psicóticos. Ainda que haja diferentesdenominações e caracterizações deste tipo de transferência, uma coisa tem emcomum: ela é diferente da transferência neurótica. Winnicott (1947) afirma que uma das diferenças existentes entre análise deneuróticos e de psicóticos é que os primeiros podem perceber “símbolos”enquanto os segundos são concretos. Isto levaria a uma transferência bastantediferenciada, pois enquanto na neurose haveria o “como se”, na psicose ascoisas “são”. Este caráter de concretude estaria presente na relaçãotransferencial: “Para o neurótico, o divã, o calor e o conforto podem ser o símbolo do amor materno; para o psicótico, seria mais certo dizer que estas coisas são a expressão física do amor do analista. O divã é o colo ou o útero do analista, e o calor é o calor vivo do corpo do analista.” (pág. 347) O outro lado desta formulação de Winnicott é dado por Margareth Little,psicanalista que foi analisada por ele e considerada “borderline”. Little (1992)escreve: “Para mim D.W. não representava a minha mãe. Em minha ilusão detransferência, ele realmente era a minha mãe.” (pág. 95) Winnicott (1963) fala em psicose de transferência. Esta ocorreria empacientes muito regredidos e esta relação analítica seria de grande risco tantopara o analista quanto para o paciente. O risco seria de o analista não se darconta da aproximação de conteúdos muito regredidos e interpretar em umasituação onde o que seria necessário seria apenas dar sustentação para que opaciente pudesse encontrar um caminho próprio. Haveria também riscos para oanalista em função de sua aproximação com as partes psicóticas do paciente e
  25. 25. 25das consequências disto, questão que será retomada ao analisarmos acontratransferência. Bion (1957) descreve a transferência na psicose como tendo as seguintescaracterísticas: maciça, adesiva, rápida e tênue, tendo uma intensidade bastantediferente da intensidade da transferência neurótica. Em suas palavras: “A relação com o analista é prematura, precipitada e intensamente dependente; quando o paciente, sob pressão das pulsões de vida e de morte, amplia o contato, manifestam-se duas correntes simultâneas de fenômenos. Primeiro, a cisão de sua personalidade e a projeção dos fragmentos para dentro do analista (isto é, identificação projetiva) tornam- se hiperativas, com os conseqüentes estados confusionais tais como descritos por Rosenfeld (1952). Segundo, as atividades mentais e as demais atividades através das quais o impulso dominante, seja este de pulsão de vida ou de morte, busca expressar-se, são imediatamente submetidas à mutilação por parte do impulso temporariamente subordinado. Atormentado pelas mutilações e lutando por escapar dos estados confusionais, o paciente retorna à relação restrita. A oscilação entre a tentativa de ampliar o contato e a tentativa de restringi-lo prossegue durante toda a análise.” (pg 70) Rosenfeld (1987), que em muitos aspectos concorda com Bion, discute oporquê desta forma de transferência: “Uma parte importante de minha teoria é que os pacientes psicóticos projetam seus sentimentos porque se sentem assustados demais para lidar com eles ou para refletir a respeito deles sozinhos. O analista, porém, como os pais no desenvolvimento mais normal, tem o potencial de enfrentar os sentimentos e de refletir sobre eles, e é essa capacidade que ele dá aos poucos ao paciente para desenvolver para si mesmo. A natureza de transferência psicótica é que ela proporciona a oportunidade de demonstrar que os sentimentos insuportáveis podem ser contidos e considerados de modo criativo.” (pág. 55/56) Ainda sobre a transferência na psicose, ele descreve duas de suascaracterísticas:
  26. 26. 26 “A transferência psicótica típica observada nos esquizofrênicos tratados por mim e alguns colegas que supervisionei pode ser entendida teoricamente como uma relação em que a identificação projetiva predomina de maneira muito forte.” (pág. 256) “Uma segunda característica da transferência psicótica no tratamento de pacientes esquizofrênicos é que eles tendem a apresentar uma forte transferência erótica desde o início do tratamento.” (pág. 264) Dentro de uma outra vertente do pensamento psicanalítico, McDougall (1978),que dá uma importância maior à questão da linguagem que os autoresanteriormente citados, propõe uma outra denominação para a transferência napsicose. Esta é chamada por ela de “transferência fundamental”. A forma comoela caracteriza esta a transferência de um psicótico com seu analista é aseguinte: “Num certo sentido ele (psicótico) permanece fusionado com o outro. Recusando-se o estatuto de sujeito distinto e autônomo, ele não pode tampouco conceder ao Outro este direito fundamental de ser. Na impossibilidade de se comunicar com partes importantes de si mesmo, ele trata o Outro como uma parte de si próprio: na análise, essa forma de se relacionar será repetida com o analista. Nestes casos, constatamos movimentos de transferência que não têm muita coisa em comum com a relação transferencial que se estabelece entre o sujeito neurótico-normal (para quem a psicanálise foi inventada) e a representação que este faz do analista. O analista vê-se confrontado ao que poderíamos chamar de transferência fundamental, transferência original que procura anular a diferença entre o ser e o Outro, ao mesmo tempo em que se teme uma fusão mortífera. Para mobilizar este elo arcaico, seria necessário que a separação, vivida como morte psíquica, se transformasse num sinal de desejo, de identidade, de vida.” (pág. 112) McDougall (1978) correlaciona a “transferência fundamental” com a forma decomunicação que se estabelece na relação entre o paciente e o analista: “Essa língua privativa procura de uma certa maneira restaurar a unidade mãe-criança, o que torna a comunicação simbólica supérflua. Nesse sentido, a capacidade do analisando de se fazer compreender através de
  27. 27. 27 meias palavras, e a do analista de ouvi-lo, não diferem da comunicação entre a mãe e seu bebê.” (pág. 112) A forma com ela entende o que Winnicott (1947) caracterizou como aimpossibilidade de o psicótico de perceber símbolos, ou seja, que o analista setorne “a mãe” do paciente para este, seria a não realização de uma separaçãoinicial entre a mãe e o bebê. Não tendo havido este luto inicial, o indivíduo estariaimpossibilitado de distinguir entre o analista real e o imaginário, fruto de suatransferência: “(...) em outros pacientes, aqueles para quem a necessidade de existir invade inteiramente o território do desejo, nenhum espaço entre o analista real e o analista imaginário pode ser preservado. Não se pode elaborar o luto de um objeto cuja perda jamais foi reconhecida.” (pg114) A relação analítica pode ser pensada como não possuindo uma relação decausalidade: em função de uma transferência ocorre uma contratransferência,mas dialética, onde a transferência e a contratransferência se determinammutuamente em um processo de constante transformação. Que processos essamodalidade de transferência provoca no analista? Aqui adentramos à questão dacontratransferência.4 A Contratransferência Será apresentado um breve histórico do conceito de contratransferência napsicanálise. Freud, em toda sua obra, utiliza poucas vezes o termo. O conceitofoi introduzido em 1910 no texto “O futuro da terapia psicanalítica”, onde eleescreve: “Outras inovações da técnica se referem à própria pessoa do médico. Se nos fez visível a ‘contra-transferência’ que surge no médico, sob a influência do doente, sobre seu sentir inconsciente, e nos achamos muito inclinados a exigir, como norma geral, o reconhecimento desta ‘contra- transferência’ pelo médico e seu vencimento. Desde que a prática
  28. 28. 28 psicanalítica vem sendo exercida por um número considerável de pessoas, as quais trocam entre si suas impressões, temos observado que nenhum psicanalista chega além de onde lhe permitem seus próprios complexos e resistências, razão pela qual exigimos que todo principiante inicie sua atividade com uma auto-análise e se aprofunde cada vez mais, conforme vá ampliando sua experiência no tratamento dos doentes.” (pág. 1.566, trad. livre) Para Freud, neste momento, os sentimentos surgidos no analista a partir dossentimentos transferenciais de seu paciente, seus sentimentoscontratransferenciais, deveriam ser sobrepujados em sua própria análise.Posteriormente, Freud afirma em seu artigo “O inconsciente”, de 1915: “É muito singular e digno de atenção o feito de que o sistema Inc. de um indivíduo possa relacionar-se ao de outro, eludindo absolutamente o sistema Cc. Este feito merece ser objeto de uma penetrante investigação, encaminhada precisamente a comprovar se a atividade pré-consciente fica excluída em tal processo; mas de qualquer forma, descritivamente o feito é irrebatível.” (pág. 2.077, trad. livre) Assim, se por um lado Freud considera a existência da contratransferênciaum empecilho a ser vencido na relação analítica, ele também dá margem, a partirdas considerações sobre as formas de comunicação inconsciente, a toda a teoriada contratransferência que se desenvolveu posteriormente. Ferenczi, ainda nesta década (1919), defende que tudo o que se passa dolado do analista pode ser considerado contratransferência, e não apenas seuspontos cegos. Ele chegou a desenvolver a técnica de análise mútua (1932), ondeo analista trocaria de papel com o paciente. Depois de realizar algumasexperiências, abandonou a técnica. Klein usa o termo raríssimas vezes e, como Freud, considera que acontratransferência indica aspectos não analisados do analista. Por sua vez,Klein (1946) introduziu o conceito de identificação projetiva, a ser discutido àfrente.
  29. 29. 29 Em 1950 Paula Heiman publicou um artigo que se tornou um marco na históriada psicanálise, e o motivo de seu rompimento com Melanie Klein. Este se chama“Sobre a contratransferência”, onde afirma: “Minha tese é de que a resposta emocional do analista ao paciente na situação analítica representa uma das ferramentas mais importantes para seu trabalho. A contratransferência do analista constitui um instrumento de pesquisa do inconsciente do paciente.” (pág. 105) O que justifica esta afirmação é a premissa básica de que o inconsciente doanalista entenderia o inconsciente do paciente. Para ela, todos os sentimentosdo analista na relação analítica devem ser considerados para sua interpretações.Este artigo se tornou um clássico na teoria da contratransferência. Na época foimuito polêmico, e mesmo hoje levanta questões sobre o uso dos sentimentoscontratransferenciais na análise.5 A Contratransferência na Psicose É possível pensar que as características peculiares da transferência psicóticaestabeleçam uma relação peculiar, um tipo de contratransferência específica notrabalho com psicóticos. A “concretude” da transferência psicótica poderia exigiruma resposta contratransferencial da mesma natureza? E que não apenas oanalista, mas também outras pessoas que tivessem um contato próximo compsicóticos, poderiam viver este tipo de experiência? Meltzer (apud Fédida, 1988) descreve a transferência psicótica como sendoadesiva e a relaciona à contratransferência. Segundo ele: “A transferência ‘colante’ na qual é o analista, mais do que o processo e os objetos internos, que é sentido como sendo único, manifesta-se através de uma enorme pressão sobre a contratransferência do analista.”(pág. 77)
  30. 30. 30 Assim, a transferência psicótica possui, segundo Meltzer, uma relação muitopróxima à contratransferência. Winnicott (1947), sobre este fenômeno, escreve: “Pacientes insanosrepresentam sempre um pesado fardo emocional para os que cuidam deles.”(pág. 341). Esse “fardo emocional” a que se refere Winnicott poderia serobservado a partir das manifestações contratransferenciais em uma relaçãoanalítica. Em suas palavras: “Na análise (análise de pesquisa) ou no manejo comum do tipo mais psicótico de paciente, uma grande pressão é exercida sobre o analista (psiquiatra, enfermeira) e é importante que estudemos as maneiras através das quais a ansiedade de qualidade psicótica, assim como o ódio, são produzidos naqueles que trabalham com pacientes psiquiátricos seriamente doentes. Somente desta maneira pode haver qualquer esperança de se evitar a terapia que se adapta às necessidades do terapeuta em vez de se adaptar às necessidades do paciente.” (pág. 353) Também Winnicott considera a existência de uma forma de “pressão”sentida pelo analista a partir da transferência, mas ele abre a possibilidade deeste tipo de transferência ocorrer em outras relações _ ”psiquiatras, enfermeiras”_ o que poderia ser pensado para o acompanhante terapêutico. Neste artigo de 1947, “O ódio na contratransferência”, Winnicott distinguetrês diferentes possibilidades de aspectos presentes na relação analítica quepodem estar sendo chamados de contratransferência: 1. as identificaçõesreprimidas do analista que se atualizam na relação com um paciente, o queindicaria falta de análise do analista; 2. as identificações do analista que fazemparte de sua experiência pessoal e possibilitariam a relação analítica e 3. a“verdadeira e objetiva contratransferência”, ou seja, a partir da personalidade edos comportamentos “reais” do paciente, a reação de amor e ódio do analistabaseado em sua observação “objetiva”.
  31. 31. 31 Haveria, segundo Winnicott, a possibilidade de uma contratransferência“objetiva”. No entanto, ele restringe o uso da contratransferência na relaçãoanalítica apenas para o caso da análise de psicóticos e antissociais (1947, 1960).Segundo ele, a contratransferência em uma relação analítica com um pacienteneurótico perturbaria a objetividade do analista. Em 1960 ele escreve: “(...) osignificado da palavra contratransferência só pode ser o de aspectos neuróticosque estragam a atitude profissional e perturbam o curso do processo analíticodeterminado pelo paciente.” ( pág. 148) Em 1947 ele já escrevia o seguinte a respeito da importância dacontratransferência na análise de pacientes psicóticos: “Sugiro que se um analista quer analisar psicóticos ou antissociais, ele deve conseguir ter uma consciência tão completa da contratransferência que seja capaz de isolar e estudar suas reações objetivas ao paciente. Estes incluindo ódio. Os fenômenos da contratransferência, às vezes, serão as coisas mais importantes da análise.” (pág. 342) Assim, o entendimento da contratransferência é fundamental quando serefere a este tipo específico de relação analítica. Inclusive porque, segundoWinnicott (1947), é preciso estar consciente das reações contratransferenciaispara que elas permaneçam latentes e não sejam atuadas. Winnicott (1960) escreve que pacientes psicóticos ou borderline precisam deum movimento de regressão muito intenso e que seria este movimento nadireção da fusão que provocaria a contratransferência da forma em que ela se dáneste tipo de relação analítica. Segundo ele: “O psicótico borderline atravessa gradativamente as barreiras que denominei de técnica do analista e atitude profissional e força um relacionamento direto de tipo primitivo, chegando até o limite da fusão.” (pág. 150)
  32. 32. 32 Esta possibilidade de uma resposta total exige uma grande disponibilidade doanalista na relação analítica. Winnicott descreve a possibilidade de um “uso”primitivo do analista pelo paciente em seu artigo “O uso de um objeto” (1971).Neste artigo, ele afirma que este uso só é possível quando o analista conseguetolerar que o paciente se relacione com ele de maneira que pertencem a estágiosmuito iniciais da vida. Nessa experiência, a busca inconsciente do paciente é ade encontrar um objeto que possa sobreviver a ser ‘destruído’, e nesta relação éfundamental que o analista/objeto sobreviva à destruição. Esta vivência podeexercer grande pressão sobre o analista e ele só deveria entrar neste tipo derelação na medida em que se sentisse “seguro” de poder suportar as pressõescontratransferenciais existentes em consequência desta relação primitiva.Winnicott propõe que haveria no analista um ego observador que escaparia àcontratransferência, e que permaneceria “sadio”. Sobre a regressão do analista, Money-Kyrle (1956) também descreve umaidentificação temporária do analista com seu paciente. Segundo ele, estaidentificação só seria possível em função do analista reconhecer no seu pacientepartes de seu self arcaico já analisado. Segundo Rocha (1994), Bion mudou de posição com relação ao uso dacontratransferência. Em 1955, no artigo “A linguagem e o esquizofrênico”, Bionpossui uma posição favorável ao uso da contratransferência. Segundo ele: “O analista que ensaia, em nosso atual estado de ignorância, o tratamento de tais pacientes, deve estar preparado para descobrir que, em uma considerável extensão do tempo analítico, a única evidência em que uma interpretação pode basear-se é a que se propicia através da contratransferência.” (Bion apud Rocha 1994, pág. 121) Em 1962 Bion não se utiliza mais da contratransferência, apesar de estaratento às sensações e sentimentos do analista a fim de interpretar a identificaçãoprojetiva, conceito que será retomado adiante. Segundo Bion (1962):
  33. 33. 33 “A teoria das contratransferências apenas oferece explicação satisfatória pela metade, por voltar-se para a manifestação como sintoma das motivações inconscientes do analista, deixando pois por explicar a psicopatologia do paciente.” (pág. 46) Na revisão de uma série de artigos que foram publicados com o nome“Estudos psicanalíticos revisados”, Bion, segundo Rocha (1994), haveriasuprimido diversas referências à contratransferência. Ele teria passado a utilizaro termo, assim como Freud e Klein, referindo-se aos sentimentos patológicosinconscientes do analista, o que indicaria necessidade de mais análise por partedo analista. Rosenfeld, autor que possui muitos pontos de concordância com Bion,diverge quanto à questão da contratransferência. Ele utiliza o conceito decontratransferência em sua teoria. Em 1952, Rosenfeld defende o uso dacontratransferência como “aparelho receptor sensível” do analista. Em trabalho bastante posterior, Rosenfeld (1987) escreve sobre a existênciae o uso da contratransferência: “Concordo, naturalmente, com muitos outros analistas em que nossa contratransferência é um aspecto muito importante do nosso trabalho. Ajuda-nos consideravelmente a entender a diferença entre o que o paciente nos diz e o que nos vem à mente. Usamos nossa contratransferência para captar o significado mais oculto do que está sendo expresso pelo paciente e para ter consciência daquilo que diz. Esse é um aspecto muito importante de nossa tentativa de descobrir a verdade psíquica.” (pág. 308) Rosenfeld, além de escrever sobre a importância da contratransferência,também defende que em um processo analítico o analista deve ter consciênciade seus sentimentos para que não corra o risco de aceitar o lugar natransferência atuando contratransferencialmente. Segundo Rosenfeld (1987),caberia ao analista sustentar o papel atribuído a ele pelo paciente, aceitar seu
  34. 34. 34lugar na transferência do outro sem, no entanto, atuar (acting out) este papel.Caso isto ocorra, a relação analítica seria levada a um impasse. SegundoRosenfeld (1987): “Às vezes é muito difícil conter as projeções do paciente, principalmente se o analista ou o paciente ficar muito perturbado com o processo (...). Para lidar com a situação é fundamental que o analista esclareça para si mesmo o que sente a respeito do paciente. Então pode elaborar os problemas por si mesmo.” (pág. 253) Rosenfeld destaca os momentos em que as projeções do paciente podem serdifíceis de serem contidas pelo analista, o qual deve estar atento para suacontratransferência. Em algumas situações Rosenfeld (1987) considera que a contratransferênciapode ser a melhor forma de se entender a transferência existente. Segundo ele: “(...) o analista precisará observar muito atentamente seus próprios sentimentos e reações, porque em situações de forte identificação projetiva essa pode ser a principal pista que ele tem a respeito da relação transferencial psicótica.” (pág. 204) Já citada por Bion e Rosenfeld, a identificação projetiva é um conceito quepossibilita um novo pensamento sobre o que se passa na relação analítica comum indivíduo psicótico. Afinal, o que é identificação projetiva e quais suascaracterísticas?6 A Identificação Projetiva Klein em seu artigo “Notas sobre alguns mecanismos esquizoides”, de 1946,define pela primeira vez identificação projetiva. Segundo ela: “A investida fantasiada contra a mãe segue duas linhas principais: uma é o impulso predominantemente oral para sugar, morder, esvaziar de todo conteúdo bom. (...) A outra linha de ataque se deriva dos impulsos anais e
  35. 35. 35 uretrais e implica a evacuação de substâncias venenosas (excrementos), que são expelidos do eu e introduzidos na mãe. Em conjunto com esses excrementos nocivos, expelidos com ódio, as partes destacadas do ego também são projetadas ou, como prefiro dizer, para dentro da mãe. Esses excrementos e partes más do eu têm o intuito não só de causar dano, mas também de controlar e tomar posse do objeto. Na medida em que a mãe passa a conter as partes más do eu, ela não é sentida como um indivíduo separado, mas como o eu mau. Muito do ódio contra algumas partes do eu é agora dirigido para a mãe. Isso conduz a uma forma particular de identificação que estabelece o protótipo de uma relação objetal agressiva. Sugiro para esses processos a expressão ‘identificação projetiva’.” (pág. 322) Ou seja, a identificação projetiva é uma fantasia na qual as partesconsideradas más do ego do bebê seriam destacadas e projetadas para “dentro”da mãe, a qual passaria a conter as partes más do eu, não sendo mais sentidacomo um indivíduo separado do bebê, mas como perseguidora, como o eu mau.Também as partes boas podem ser projetadas, o que levaria a um fortalecimentodo ego e a boas relações de objeto. Segundo Klein, a identificação projetiva não é um problema em si. O quecaracteriza a patologia é o grau em que este mecanismo de defesa é utilizado.Na psicose há um uso excessivo da identificação projetiva, onde as partes másdo eu são projetadas criando uma forma de relação objetal agressiva. A partir de Klein, diversos autores passaram a utilizar este conceito. Bion(1952, 1957, 1959) escreve sobre a identificação projetiva e descreve suacapacidade de despertar emoções no analista, o que caracterizaria tantoaspectos defensivos quanto comunicativos da identificação projetiva. Ele enfatizaa identificação projetiva como uma forma de comunicação. Segundo Bion (1959),a projeção na identificação projetiva se dá de tal forma que leva o analista avivenciar os sentimentos projetados, e este se sente pressionado a atuar estessentimentos. Seria uma característica da parte psicótica da personalidade eatuaria muitas vezes como um ataque aos elos de ligação.
  36. 36. 36 A definição dada por Bion (1957) para identificação projetiva é que se trata deum mecanismo onde “(...) o paciente excinde uma parte da sua personalidade eprojeta para dentro de um objeto onde se instala, por vezes como umperseguidor, deixando correspondentemente empobrecida a psique da qual foiexcindida.” (pág. 70) Sobre a função da identificação projetiva, Bion (1959) escreve: “Aidentificação projetiva lhe possibilita (ao paciente) investigar seus própriossentimentos dentro de uma personalidade forte o suficiente para contê-los.” (pág.106) O analista tem a função de ser o continente destes sentimentos projetadospelo paciente. Estes são projetados por serem insuportáveis e podem serconsiderados, por serem muitas vezes violentos, como um ataque “(...) à paz deespírito do analista e, originalmente, da mãe.” (Bion 1959, pág. 105) Ele considera este um conceito fundamental na clínica da psicose. Sobre aimportância clínica deste conceito, Bion (1956) escreve: “A experiência clínica com essas teorias convenceu-me, na prática, de que o tratamento da personalidade psicótica não terá êxito a menos que se elaborem não só os ataques destrutivos do paciente contra seu ego, mas também o fato de ele substituir a repressão e a introjeção pela identificação projetiva. E mais, admito que mesmo em se tratando de neuróticos graves existe uma personalidade psicótica que tem de ser trabalhada, de modo análogo, para que se obtenha êxito.” (pág. 54) Assim, este é um mecanismo pertencente à parte psicótica da personalidadee pode estar presente em neuróticos graves. Bion correlaciona o uso da identificação projetiva com a incapacidade devivenciar a frustração por parte do paciente. Segundo ele (1962), “O impulso dopaciente a subtrair a fantasia onipotente de identificação projetiva à realidade,diretamente se vincula à sua incapacidade para tolerar a frustração.” (pág. 55)
  37. 37. 37 Posteriormente, ele questiona a identificação projetiva como uma fantasiaonipotente, no sentido em que ela efetivamente provocaria sentimentos noanalista e, portanto, deixaria de ser somente uma fantasia. Segundo Bion (1973): “A teoria de Melanie Klein é que os pacientes têm uma fantasia onipotente, e o modo de verbalizar essa fantasia é que o paciente se sente capaz de expelir certos sentimentos desagradáveis e indesejáveis e colocá-los no analista. Não tenho certeza, pela prática da análise, que se trate apenas de uma fantasia onipotente; ou seja, de algo que o paciente, de fato, não pode fazer. Tenho certeza e que é assim como a teoria deveria ser usada - o modo correto de usar a teoria correta. Mas acho que a teoria correta e a formulação correta não acontecem no consultório. Tenho sentido, e também assim alguns dos meus colegas, que quando o paciente parece estar vivenciando uma identificação projetiva ele pode me fazer sentir perseguido, como se pudesse, na verdade, expelir certos sentimentos maus e empurrá-los para dentro de mim, de modo que, na realidade, eu experimento sentimentos de perseguição e ansiedade. Se isto está correto, ainda é possível sustentar a teoria de uma fantasia onipotente, mas, ao mesmo tempo poderíamos pensar na possibilidade de alguma outra teoria que explicasse aquilo que o paciente faz ao analista, que o leva a sentir-se assim, ou qual o problema do analista, que assim se sente.” (pág. 133/134) Assim, Bion considera a possibilidade de se pensar outra teoria que pudesseexplicar o fato do analista sentir o que é projetado pelo paciente, o que tornariaesta fantasia onipotente do paciente algo mais que fantasia. Rosenfeld (1971) também considera fundamental o entendimento daidentificação projetiva ao tratar a parte psicótica da personalidade do paciente, eescreve sobre as várias formas de uso da identificação projetiva. Segundo ele,esta pode ser utilizada como forma de comunicação, como foi descrito por Bion.A continência destas experiências pelo analista altera a qualidade assustadora einsuportável dessas experiências. Rosenfeld considera fundamental que oanalista seja capaz de colocar em palavras estas experiências através dasinterpretações, o que possibilitaria ao paciente tolerar e pensar sobre estasexperiências que antes eram assustadoras e sem sentido
  38. 38. 38 Além de ser uma forma de comunicação, a identificação projetiva tambémpode ser usada como uma forma de “evacuação”, quando o paciente procuranegar sua realidade psíquica, e como forma de controle do analista, onde a partirde uma crença onipotente, o paciente acredita ter se forçado para dentro doanalista, o qual neste momento é percebido como tendo enlouquecido. Nestemomento é frequente o perigo de desintegração do paciente. Sobre esta situaçãoRosenfeld (1971) observa: “É a excessiva identificação projetiva no processo psicótico que oblitera a diferença entre self e objetos, que causa confusão entre realidade e fantasia e uma regressão ao pensamento concreto devido à perda da capacidade de simbolização e de pensamento simbólico.” (pág. 130) Segundo Rosenfeld (1971, 1987), estes três tipos de identificação projetivapodem existir de forma simultânea ou alternada no mesmo paciente. Para o autor, a identificação projetiva não é idêntica à simbiose. Isto porque,para que haja identificação projetiva é necessário que tenha havido algumadiferenciação entre “eu” e “não eu”, o que não ocorre na simbiose. Rosenfeld (1987) correlaciona a contratransferência à identificação projetiva.Sentimentos muito fortes do paciente podem ser transmitidos ao analista atravésda identificação projetiva, e isto pode causar dificuldades na contratransferência,tornando difícil o trabalho do analista e um impasse na relação analítica. O primeiro ponto descrito é o risco do rompimento da comunicação verbalentre paciente e analista. Segundo Rosenfeld (1987): “Ao investigar tais situações, observei que a identificação projetiva onipotente interfere na capacidade de pensamento verbal e abstrato para produzir uma concretude dos processos mentais, o que acarreta confusão entre realidade e fantasia.“ (pág. 195)
  39. 39. 39 Ainda segundo Rosenfeld (1987): “O analista nessa situação pode ter a nítida experiência, em sua contratransferência, de que não é bom e não tem nada de valor a dar para o paciente. Até mesmo sintomas físicos podem ser experimentados pelo analista com tais pacientes, porque as expulsões do paciente podem ser concretas; ele pode sentir náuseas, assim como o paciente pode realmente vomitar.“ (pág. 196) Sobre a situação em que a identificação projetiva é utilizada como forma dedefesa contra a realidade psíquica, escreve Rosenfeld (1987): “O fato de a identificação projetiva poder ser usada para evacuar e negar a realidade psíquica tem de ser reconhecido juntamente com o fato de que, quando o paciente está tentando lançar o conteúdo mental insuportável para dentro do analista, ele também está forçando a compartilhar as experiências desagradáveis.(...) Tal comportamento por parte do paciente é frequentemente entendido de forma equivocada e interpretado por alguns terapeutas como totalmente agressivo.” (pág. 199) Rosenfeld (1987) alerta que em uma situação de identificação projetiva muitointensa, o analista pode não se dar conta dos problemas do paciente até omomento em que se sente “esmagado“ por eles. Ele sugere que a projeçãorecebida pelo analista “espelha” com exatidão os sentimentos do paciente, eportanto, que o entendimento da reação contratransferencial do analista é ummeio “fundamental” de compreensão das comunicações de pacientes psicóticosvia identificação projetiva. Segundo Rosenfeld (1987): “Emoções muito violentas de amor e ódio, sentimentos confusionais agudos e estados mentais gravemente desintegrados podem ser transmitidos por meio de formas primitivas de identificação projetiva, que às vezes não são registradas de modo facilmente compreensível pelo analista. Quando as emoções são particularmente violentas, o analista pode sentir-se esmagado e ser incapaz de funcionar como continente. Em tais momentos, o paciente comunica-se não-verbalmente por uma força hipnótica primitiva. O analista pode, então, apresentar reações contratransferenciais defensivas, talvez se sentindo irritado. É possível
  40. 40. 40 que somente mais tarde ele perceba que o que está sentindo é desespero e depressão ligados a uma sensação de fracasso.“ (pág. 277) É essencial que as ansiedades expressas pelo paciente na forma deidentificação projetiva sejam “reconciliadas” na mente do analista, inicialmentesentindo o que foi projetado e identificando para si o que foi projetado.7 As sensações provocadas pela identificação projetiva As descrições existentes sobre as sensações vividas pelo analista na situaçãoanalítica de psicóticos são muitas. Rosenfeld (1987) descreve alguns dos efeitos do processo de identificaçãoprojetiva no analista: “A experiência frequentemente produz um forte efeito físico no analista e provoca sonolência ou mal-estar físico. Pode causar grandes dificuldades para a capacidade de pensar ou se concentrar. É como se algo tivesse sido projetado para dentro do analista de modo real e concreto.” (pág. 193) E continua: “A identificação projetiva pode abranger a transformação do self e do objeto, acarretando confusão, despersonalização, vazio, fraqueza e vulnerabilidade à influência, a qual pode chegar a ponto de o indivíduo ser hipnotizado ou até mesmo levado a dormir.(...) Contudo, quando o analista adquire experiência na compreensão da maneira como o paciente psicótico se comunica, está claro que a esmagadora influência da identificação projetiva diminui.” (pág. 204) Rosenfeld (1987) ainda cita os riscos para a personalidade do analista, pois arelação com a parte psicótica da personalidade do outro estimula“inevitavelmente” os sentimentos de impotência e de onipotência no analista.Além disso, ele se refere ao medo mais frequente ao se tratar de psicóticos, queseria o medo de enlouquecer. Segundo ele: “O paciente psicótico projeta, com frequência, seus sentimentos e problemas de modo bastante violento, e qualquer analista que tenha medo
  41. 41. 41 desse contato com seu paciente pode ficar também seriamente perturbado, ao tentar tratar de psicóticos. O medo mais frequente, embora muitas vezes inconsciente, é o de ser levado à loucura pelo paciente.” (pág. 51) É bastante curioso como as referências são frequentemente ligadas ao corpodo analista. Não é uma experiência apenas mental, mas também corporal.Rosenfeld (1987) descreve o relato de uma supervisionanda sua sobre suareação à identificação projetiva da paciente: “Decidi durante a sessão que adeixaria ir, já que ela não conseguia ouvir o que eu estava dizendo. Depois queela se foi, senti uma dor atroz e tive a impressão de que não conseguiria suportá-la.” (pág. 237) Neste caso, é difícil a distinção entre a realidade e a fantasia tanto para oanalista quanto para o paciente, porque envolve o corpo. A analista sente em seucorpo a dor que “seria” da paciente, sem que esta estivesse presente nomomento. A análise que Rosenfeld (1987) faz da situação: “(...) creio que, quando esta(a crise da paciente) ocorreu de fato, de início esmagou-a completamente (aanalista), deixando-a com a incrível dor que Claire (paciente) havia projetadopara dentro dela.” (pág. 238) Esta experiência é bastante confusa, na medida em que parece que há umamistura entre as projeções do paciente e os sentimentos e o corpo do analista. Há autores que se referem especialmente à influência do paciente sobre ocorpo do analista. Fédida (1988) descreve esta influência da seguinte forma: “(...)somos extremamente sensíveis ao poder das palavras e dos gestos: nossopróprio corpo se torna uma cena importante sobre a qual se representam asfantasias mais violentas do inconsciente do paciente.” (pág. 31)
  42. 42. 42 Para Fédida, permanecer no corpo seria engano. É necessário que isto sejatransformado em palavra, para assim ser passível de representação, tanto para oanalista quanto para o paciente. Ainda sobre o aspecto do corpo, Melanie Klein, em 1946, descreve aconcretude física das fantasias inconscientes e que as projeções se dariamdirecionadas a uma parte específica do corpo do receptor, do analista. É possível pensar que é esta concretude corporal, esta sensação de envolvero corpo do analista, que caracteriza a transferência “concreta” existente napsicose, sendo este o “pesado fardo emocional” a que se refere Winnicott em1947. Estas descrições das sensações vividas por analistas serão úteis ao seremcomparadas às sensações dos acompanhantes terapêuticos de psicóticos.8 O sinistro na contratransferência vivido a partir da identificaçãoprojetiva Haver encontrado estas referências sobre a identificação projetiva metrouxeram a sensação de haver achado meus pares. Ali estava a resposta quebuscava. Reencontrei minha experiência teorizada. No entanto, a imagem dedois corpos fechados onde um possuía a capacidade, ainda que não intencional,de “colocar” coisas no outro me trazia certa estranheza. E esta sensaçãoassociada às descrições de indescritibilidade, de estranhamento das sensações,me fez levantar a hipótese de ser este fenômeno um fenômeno que poderia tersido descrito por Freud em seu artigo “Unheimlich”, traduzido como “O estranho”,“O sinistro”, ou “Inquietante estranheza”. Freud (1924) escreve o seguinte sobre o fenômeno do sinistro:
  43. 43. 43 “(...) o sinistro não seria realmente nada novo, porém algo que sempre foi familiar à vida psíquica e que só se tornou estranho mediante o processo de repressão. E este vínculo com a repressão nos ilumina agora a definição de Schelling, segundo a qual o sinistro seria algo que, devendo haver ficado oculto, se há manifestado.” (pág. 2.498, trad. livre) Segundo Freud, o sinistro não é a experiência do novo, mas do familiar.Aquilo que é vivido com a sensação de estranhamento estava já presente masreprimido. Sobre a relação do sinistro com a psicose ele afirma: “O caráter sinistro da epilepsia e da demência tem origem idêntica. O profano vê nelas a manifestação de forças que não suspeitava no próximo, mas cuja existência chega a pressentir obscuramente nos cantos recônditos de sua própria personalidade.” (pág. 2.499, trad. livre) Freud parece apontar para uma familiaridade do “profano” com o louco.Haveria algo já vivido, mas reprimido, que remeteria qualquer ser humano àloucura. Ainda sobre o sinistro, ele escreve: “O sinistro nas vivências se dá quando complexos infantis reprimidos são reanimados por uma impressão exterior, ou quando comunicações primitivas superadas parecem achar uma nova confirmação.” (pág. 2.503, trad. livre) É possível realizar um paralelo entre a afirmação de Freud e a de MelanieKlein sobre as ansiedades psicóticas dos bebês. A vivência do sinistro seriamarcada pelo retorno de algo primitivo que foi reprimido. É possível pensar que, exatamente por se encontrar reprimido, algo de umestágio muito inicial da pessoa do analista é “despertado” pelo psicótico. Algoque remeta às relações objetais primárias, e que quando o psicótico nosaproxima disso através de sua transferência concreta e corporal, tenhamosmanifestações contratransferenciais. A sensação de estranhamento descrita poralguns analistas, algo que ele sente, mas sente que não lhe pertence, pode estarrelacionada à proximidade do reprimido.
  44. 44. 44 Fédida (1988) escreve sobre a experiência do sinistro na contratransferência.Segundo ele, as teorizações sobre a contratransferência são tentativas de tornarpensável a experiência subjetiva do sinistro decorrente da transferência. Sobre o sinistro na relação com transferências “delirantes” ele escreve: “O sinistro - particularmente perceptível nos casos de transferências delirantes - faz o analista viver não apenas a sensação de ser despossuído de seu próprio eu, não apenas de se ver no seu paciente numa imagem que explicita formações recalcadas, mas o torna prisioneiro de seus pensamentos de onipotência dos quais não pode mais sair.” (pág. 82) Fédida fala aqui sobre os riscos de o analista manter-se na situação, tornar-seprisioneiro da imagem que o outro lhe fornece. Daí a característica de o sinistrodestruir temporariamente a capacidade analítica da contratransferência. Fédida (1988) afirma que uma das características ameaçadoras destavivência na contratransferência é a perda da capacidade do analista de suamobilidade mental, em especial a perda da linguagem é sentida como umaameaça. Segundo ele: “A perda da linguagem é certamente o que é vivido como a mais terrível ameaça. Se o analista chega a se ver vendo-se incapaz de mobilidades cinestésicas que lhe são habituais, (...) a angústia contratransferencial é vivida como uma sideração mortífera antes de permitir entender a necessidade do paciente de criar um duplo simbiótico exatamente igual a si.” (pág. 76) A necessidade do paciente é de criar um duplo simbiótico e a do analista denão se deixar aprisionar neste lugar. Fédida (1988) escreve sobre a dificuldadedo analista em compreender o que acontece nestes momentos e que a práticaclínica deveria ajudar, a descrever melhor o fenômeno do sinistro vivenciado peloanalista no tratamento.
  45. 45. 459 A Interpretação A partir de uma experiência na contratransferência proveniente de umaidentificação projetiva, o analista poderia utilizar isto para interpretarverbalmente? Seria a interpretação uma possibilidade de tornar o fenômenoconsciente e assim evitar a situação de impasse de que fala Rosenfeld (1987),onde o analista perderia sua capacidade analítica? Segundo Winnicott (1947), a contratransferência deve ser observada e“guardada”, podendo ser utilizada para uma interpretação em um momentoadequado. Posteriormente, Winnicott parece considerar mais importante a questãoambiental da análise do que a interpretação verbal. Em 1971, em seu livro “Obrincar e a realidade”, ele propõe a situação de “uso do objeto” onde, a partir dapossibilidade de “uso” do analista, o paciente se ligaria ao princípio de realidade.Winnicott formula o seguinte neste artigo: o uso de um objeto é diferente de umarelação de objeto. O analista deveria permitir seu “uso” por pacientes“fronteiriços”, e isto consistiria em “O analista (...) precisa relacionar-se àcapacidade do paciente de colocar o analista fora da área dos fenômenossubjetivos.” (pág. 122) Ou seja, permitir ser usado é poder ser “destruído” pelopaciente. Destruição nesta teoria está intimamente ligada à possibilidade decriação. É fundamental para o paciente que o objeto seja destruído e possasobreviver, pois isto permite que o paciente se dê conta de sua não onipotência,que seu desejo de destruição não possui este poder sobre o mundo. Este é umdado de realidade capaz de transformar a realidade psíquica porque existe atransferência sobre o objeto, o analista, o qual inicialmente se confunde com asprojeções do paciente. O princípio de realidade pode ser alcançado a partir dadestruição das projeções para que o analista se torne externo à própriatransferência e adquira vida própria. Poder sustentar este lugar na transferência,
  46. 46. 46e não sucumbir atuando contratransferencialmente, por exemplo, é ser analista.É a sobrevivência do analista aos ataques que está em jogo, e é fundamentalque isto ocorra para que se dê alguma melhora para o paciente. A destruição“real” do analista, quer por uma ausência concreta ou por uma nãopermeabilidade deste a esta transferência, apenas confirmaria o trauma inicial.Neste momento da teoria a capacidade do objeto de sobreviver, representadopela figura do analista, é muito mais importante do que a interpretação. A partir do texto de Winnicott (1971) sobre o uso do objeto é possível pensarque se encontramos no acompanhante terapêutico um tipo deataque/comunicação semelhante ao descrito na psicanálise, o que, segundoBion, seriam ataques à percepção e ao pensar através do processo deidentificação projetiva, é analítica a sobrevivência do AT aos ataques que sofre.É possível pensar que o trabalho conduzido a partir do princípio da sobrevivênciado objeto permite uma conexão do acompanhado com o princípio de realidade. Bion possui uma posição diversa da apresentada por Winnicott. Segundo ele(1957) o analista em uma interpretação devolve para o paciente o que foiprojetado e nisto se constitui o trabalho analítico: proporcionar o retorno destaspartículas de ego expelidas e que está agregado a elas de volta à personalidade.Segundo Bion (1957): “A identificação projetiva é, assim revertida, e essesobjetos são trazidos de volta pela mesma via pela qual foram expelidos.” (pág.83). O processo de reintrojeção do que foi projetado provocaria, muitas vezes,uma intensa reação por parte do paciente, que sente a entrada do objeto comoum “assalto”. Bion também considera, como Winnicott, a necessidade de contensão, porparte do analista, das projeções do paciente, mas a interpretação seria um passofundamental no tratamento.
  47. 47. 47 Rosenfeld (1952) possui uma posição bastante semelhante à de Bion. Eletambém considera a interpretação um aspecto fundamental na relação analíticacom psicóticos. Segundo ele (1971): “(a) interpretação verbal dos processos de identificação projetiva quando estes aparecem na transferência, o que considero como sendo de importância central na elaboração dos processos psicóticos na situação transferencial.” (pág. 127) Para Rosenfeld (1987), as “experiências inquietantes” que são criadas pelopaciente no analista, desaparecem na medida em que o analista consigacompreender o que se passa. As projeções devem ser verbalizadas peloanalista, para si mesmo, o mais rápido possível, ou ele não entenderá o que sepassa com o paciente e não poderá interpretar. Rosenfeld (1987) também afirma que há pacientes que vivenciam ainterpretação verbal como uma separação do analista, o que pode ser vividocomo uma rejeição ao desejo de unidade não verbal. Nesses casos, ainterpretação verbal poderia ser prejudicial. No entanto, quando o analistaconsegue transmitir o que o paciente sente e precisa, este pode receber ainterpretação como uma forma de acolhimento e contenção. Para isto, éimportante que o analista tenha a capacidade de usar seus próprios sentimentospara compreender a comunicação não verbal de seus pacientes. O caminho apresentado por Rosenfeld é, a partir da identificação projetiva,perceber como esta se manifesta na contratransferência, nomeá-la para si, eentão elaborar uma interpretação que devolva ao paciente o que ele haviacolocado fora.
  48. 48. 48METODOLOGIA Para a realização deste trabalho, a metodologia utilizada foi entrevista semidirigida. Os sujeitos entrevistados são acompanhantes terapêuticos, M e H, querealizam trabalhos com psicóticos. A partir destas duas entrevistas, uma foiescolhida, a de H, para que fosse realizado um estudo de caso aprofundado.I Sujeitos de pesquisa Para que o sujeito entrevistado pudesse servir como sujeito de pesquisa,considerei ser necessário que o AT desse importância à questão do vínculo notratamento. Isto porque há correntes teóricas que valorizam o distanciamento e aaplicação de procedimentos comportamentais na relação com os pacientes.Como eu buscava investigar, não apenas as reações emocionais doacompanhante à relação de acompanhamento, pois talvez isto independa dalinha teórica seguida, mas também, como estas mesmas reações poderiam serconvertidas em tratamento, achei que seria importante que o AT entrevistadoestivesse atento às mobilizações afetivas que pudessem haver ocorrido duranteseus acompanhamentos. Foram realizadas duas entrevistas onde a questão inicial foi relativa ao queeste sujeito acreditava ser o que tratava no seu trabalho como acompanhante.Isto, para investigar a importância dada à questão do vínculo. Ambos os sujeitosentrevistados deram grande importância ao fator relacional no tratamento. Aentrevista escolhida para ser analisada, o foi em decorrência de H possuirexperiência como acompanhante terapêutico de psicóticos e como analista depacientes psicóticos em seu consultório. Isto possibilitou que ele relatasse suapercepção das diferenças e semelhanças entre os dois trabalhos. Na medida emque este é um dos aspectos que esta pesquisa busca enfocar, o fato de Htambém ser analista se tornou um fator determinante na escolha da entrevista.
  49. 49. 49 H é acompanhante terapêutico há seis anos e trabalha tanto com pacientespsicóticos quanto com deficientes mentais.II Entrevista Não havia questões elaboradas antes da entrevista, mas tópicos a seremabordados. No decorrer da entrevista as questões foram formuladas a fim deinvestigar os tópicos considerados relevantes. A entrevista foi gravada eposteriormente transcrita. Os pontos investigados podem ser divididos da seguinte forma: 1. O que caracteriza o trabalho do acompanhante terapêutico de psicóticos? 2. O acompanhante já notou alterações do pensamento, do sentimento ou teve sensações corporais incomuns no decorrer de algum acompanhamento realizado com um psicótico? 3. Caso tenha havido alguma percepção particular, como isto foi entendido? 4. O que pôde ser feito a partir desta percepção? Esta pesquisa visa descrever e analisar a partir de um ponto de vistapsicanalítico as alterações emocionais de acompanhantes terapêuticos, quetrabalham com pacientes psicóticos.III Metodologia de análise e discussão da entrevista A análise e a discussão da entrevista foram realizadas simultaneamente. Istoporque não havia sentido em separar os dados fornecidos por H, da tentativa decorrelacioná-los com a teoria da psicanálise, apresentada no item “Aspectosteóricos”.

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