Livro de poesia

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Livro de poesia

  1. 1. livro de poesia Cláudio Schuster
  2. 2. livro de poesia reúne poemas dos livros crime perfeito (edição do autor, 1994), risco (edição do autor,1997) e bluz (Editora Bloccos, 1999), além de alguns feitos posteriormente. Cláudio Schuster é jornalista. Nasceu em 1962, em Pelotas (RS). Mora em Florianópolis desde 1986. agosto de 2013
  3. 3. para Juliana, Theo e Pedro.
  4. 4. pensar nos diferencia amar nos poesia
  5. 5. de medo do escuro morro de altura então nem se fala de tudo me assusta um sussurro e gelo todo silêncio me arrepia a alma penada que salta pela janela do quarto do pânico que entro com um simples beijo
  6. 6. se você vem para pouco pouco faz sentido a um louco varrido
  7. 7. crime perfeito venha com violência traga desordem ponha tudo a perder destrua minha vida mate-me e esconda meu corpo entre tuas pernas
  8. 8. diga apenas uma frase incomum dessas que mordem e fazem rir
  9. 9. mal te vejo bem te vi assovioviropássaro
  10. 10. leve ao fogo à chama leve queime aos poucos como o diabo me carregue
  11. 11. quando ela descasca o sol e come seu calor derrete um cálice em chuvas cortantes como dentes de cristal que cravam em colinas de sangue temporais de sorrisos que afundam de rir arcas lotadas de mim
  12. 12. dentro de mim dormem teus dentes sobre um sol mordido
  13. 13. corro o risco que rabisco
  14. 14. giro 360 graus de febre suo vinho me enrolo nos fios de alta tensão e ilumino um sabor com a cabeça nos pés que dançam descalços na calçada de cacos de vidro que brilham na noite como pequenos dias derramados sobre o solo de uma guitarra que explode minhas veias em meteoros que grito sob o riso que me bebe
  15. 15. ilusão azul intocável a tarde passou a noite partiu o dia em pedaços
  16. 16. a obviedade obviamente chutando a poesia procurou-me na seção de achados ora tenha paciência! perdidos não se encontram na seção de achados talvez na sessão de cinema nunca na de achados que achar é fugaz e um tremendo azar para quem quer apenas estar perdido
  17. 17. jogou-se fruta a dentro da minha boca
  18. 18. ela me fodeu louca e estraçalhadamente e tanto que sobraram peças quando tentei remontar o que restou na manhã embaralhada será que por isso saí flutuando?
  19. 19. não me traga me leve me siga me parta em um só
  20. 20. lá vem um poema se aproximando desajeitado tropeçando cambaleando danças acho que esse poema bebeu se abraça em mim e de repente saímos pela rua dançando tropeçando nas margens sóbrias das calçadas e zigue e zague descalços rindo à toa de nossos passos humorísticos acho que bebi um poema bêbado
  21. 21. das alturas jogou-me um azul das profundezas mandei-lhe lavas vermelhas
  22. 22. corro com milhares de coelhos sobre os olhos fechados das colinas que se banham de sol que come sorridente uma cenoura
  23. 23. ria noturna estrelada sobre mim
  24. 24. toque meu coração como quem toca uma canção como quem toca um violão viole minha razão
  25. 25. a vida tanto melhor fica quanto mais da fantasia se aproxima disse a formiguinha beijando tua boca no guardanapo de papel
  26. 26. duelo à sam peckinpah o desejo tem o sabor de uma nudez esvoaçante montada na bala de um beijo veloz como quem num duelo com deus saca antes da dúvida
  27. 27. o copo gira com meus olhos dentro o blues de buddy guy é uma trepada numa noite louca de raios nas minhas veias o mundo é uma besteira dita por alguém que nunca beijaria esta noite no meio das pernas hoje eu não saio eu bebo meus olhos que te olham bêbados de música hoje dá pra rir do mundo depois não sei e nem quero saber
  28. 28. era uma vez uma saudade de viver como se só a vida existisse
  29. 29. jogo as palavras pro ar em bando voam poesias
  30. 30. um poema precisa ter início e um meio de não ter fim
  31. 31. nada que reflete arremessa ameaça estremece a minha pressa não permite ver o visto sem ver o vasto o que não remete não me interessa não me atiça o que não existe é relativo se num dia me matam no outro estou vivo
  32. 32. dia de mais nada dormingar e chover sobre você
  33. 33. as palavras não me fogem pois não as prendo não me faltam porque são livres estão aqui nestes poemas apenas para se divertir
  34. 34. toque do toque que me loque um lance num pique de moleque e o queéque eu faço em chequemateme?
  35. 35. não sei direito como virar tudo pelo avesso
  36. 36. e então todo o mundo parou pra trepar de dia na hora do trabalho e à noite o mundo dormiu exausto feliz e não era mais o mundo quando acordou era uma porra louca voando no espaço pra fecundar o sol que nascia da minha garganta
  37. 37. a vítima se aproxima apunhalando o chão como se apenas caminhasse como se somente fossem sapatos doces a vítima assalta meus olhos apontando mísseis nucleares como se apenas olhasse como se somente fossem olhos os seus a vítima esquarteja meu corpo deslizando uma serra elétrica como se apenas tocasse como se somente fosse uma boca a sua a vítima parte sorrindo como se apenas houvesse cometido um avesso
  38. 38. walking the blues com um pouco de silêncio o mundo poderia ouvir o compasso de teus saltos finos sobre a rua deserta um pouco mais de silêncio e se ouviria nítido como um absurdo o blues que pensei
  39. 39. depois da meia-noite é outro dia é outra noite depois do meio-dia é outro é meio é coisa nenhuma depois quem sabe mais tarde se não for tarde demais
  40. 40. dói tanto que nem sei dói tanto que esqueci
  41. 41. as palavras bocejam está na hora de dormir bom dia
  42. 42. você me come entro em coma você me bebe coca-coma
  43. 43. as farsas estão cansadas de ser repetidas reprisadas em sessões contínuas de tortura de tontura da história
  44. 44. acabou não há mais o que escrever o dito não foi vivido a poesia não cortou o sangue não correu não saciou a boca seca calada
  45. 45. as luzes dançam com o planeta sob meus sapatos que reclamam que bebi demais e ouvem "mas não o suficiente não o suficiente meus caros pra ver tudo duplo como é e não parece ser"
  46. 46. para onde me viro lá está ele real e estupidamente desenhado o mundo
  47. 47. não caibo nas palavras nas frases na poesia e não consigo inventar nada tudo já existe ou não beije-me desafogue minha língua de tudo o que já foi dito
  48. 48. errante ou errei o mundo ou errei a hora
  49. 49. a chuva não simboliza nada a chuva é água que entra e sai e cai sobre uma dor real que inventamos
  50. 50. o homem acordou com o som nos olhos e os olhos no teto de seu pequeno mundo a mulher resmungou pedaços de palavras o homem riu porque pensou ter ouvido o terço de trás para frente riu mais porque pensou que não tinha diferença do terço dito na ordem o som aumentou o teto abaixou o terço no quarto o homem empurrou seu corpo para fora da cama calçou sua bola de ferro pois estava frio e saiu pelo corredor para reclamar da invasão a seu pequeno mundo a mulher que abriu a porta disse que estranhava sua demora para vir escutar música escrever qualquer coisa nas paredes e usar a boca para coisas mais interessantes do que dizer o terço na ordem ou ao revés enquanto ouvia atingiu sete pontos na escala richter
  51. 51. a mulher pegou a bola de ferro e colocou no cabide pois pensou que fosse a causa do frio e da tremedeira que derrubou os dias do calendário em que cristo olha o teto de um mundo pequeno no apartamento do homem o resto da noite poderia levar richter a repensar sua escala pela manhã cabelos atirando para todos os lados atravessou o corredor na contramão das galinhas patos porcos e sapos matinais a mulher preparava o café e tudo o que o homem falou foi assistido em silêncio pelos dias do calendário espalhados pelo chão pela mulher que cobria os ouvidos com algodões amarelos e pelo próprio homem entorpecido com o eco das implosões simultâneas que vinham das noites seguintes os dias desde então não mais existiram varridos pela mulher para debaixo do tapete em que o homem voou
  52. 52. e cristo nem se deu conta distraído com as moscas no teto
  53. 53. um instante ludibriou os ponteiros cordeiros de deus na distração do tempo um momento fugiu com um corte no olhar fazendo jorrar rios ameaçadores e o mundo virou um ponto incapaz de deter frases embriagadas pelos cachos de vinho que colhi de tuas veias
  54. 54. lenda consta que deus antes de ditar os mandamentos fez um teste com as aves proibiu rasantes estabeleceu um teto limitou distâncias censurou canções condenou timbres cobriu de culpa os cortejos por isso enquanto pardais trepam na rua águias perdem-se nas distâncias andorinhas veraneiam manobras ousadas e sabiás cantam à sombra temos medo das alturas o que é uma sensação que demonstra a utilidade do teste divino pois deus percebeu que não era um publicitário e contratou profissionais de primeira capazes de nos convencer da anomalia de nossas asas que cresciam por dentro e das vantagens de pedirmos perdão por comprarmos um produto mais caro mas que dizem lava mais branco as roupas que usaremos no céu
  55. 55. o menino pensava seriamente em atirar-se num abismo imenso para assistir seu funeral e ver o quanto chorariam por ele e dele sentiriam falta quando cresceu viu que o lugar não tinha mais que dois ou três metros de altura achou graça e para zombar-se pulou quebrou uma perna recebeu visitas atenções maternais assinaturas no gesso mas nada comparável ao desejo infantil de querer jogar-se de uma ilusão
  56. 56. ela sussurrou ao meu ouvido que era uma serial killer que meu número era 17 que sentia muito pois eu dançava bem eu danço bem disse pois sou um tira de filme preto & branco nos afastamos para o duelo mas rapidamente voltamos ao beijo mortal são engraçadas as coisas que às vezes vêm à cabeça da gente quando estamos dentro de alguém
  57. 57. por engano acho ela comeu minha poesia e começou a rir como uma panela cheia de milho pipoca e trocou o garfo pelo tridente a faca pelo punhal e saiu matando todas as saudades dos pratos que nunca havia comido pois nunca estão nestes cardápios mal humorados
  58. 58. um dia longo custa-se a passar um dia curto veste-se amarrotado
  59. 59. o reflexo de uma mulher na poça d’água engole a madrugada como espadas como elefantes que saltam da cartola de um bêbado levito sobre a calçada e desapareço noite a dentro
  60. 60. pensava nos estoque de poesia que ainda resta se ainda resta insanidade suficiente aos músicos imagens nos filmes que garimpem lágrimas e sorrisos infantis fazia sol e adormeci sob a sombra da interrogação
  61. 61. bebeu meu coração deixando só a razão sólida da solidão
  62. 62. a luta começa com meu nocaute depois vêm os rounds e eu nu do último segundo até o primeiro não sou Tyson sou Chaplin na lona ao soar do gongo danço com porradas na pesagem mais leve do que nunca solto gargalhadas
  63. 63. esgano o mundo como um lobo faminto e alimento o grito com palavras que solto da prisão perpétua dos dicionários
  64. 64. tango milonga blues tren bala roleta russa
  65. 65. às vezes escrevo coisas que não entendo tanta vezes você lê essas coisas e não entende mas nossos nãoentenderes juntam-se beijam-se e riem por razões que não sabemos e que talvez nem razões sejam
  66. 66. musa ligeira passageira paixão ventonteceumeucoração
  67. 67. roça minhas costas uma pétala que sai da tua boca como uma palavra rouca
  68. 68. drama atiro a pedra sou a pedra e o vidro estilhaçado também sou sendo ainda o corte o sangue a lágrima e o sal pra pipoca
  69. 69. razão dos amantes razantes
  70. 70. convidei o mar para dançar descalço sobre meus pés estelares a canção lunática que guarda escondida sob o atlântico disfarce de um aparente vaivém
  71. 71. frio e no lixo o sol passa pelos furos de um velho guarda-chuva caindo em gotas de luz sobre palavras que comem bergamota e se esquentam como lagartos
  72. 72. eu bem que gostaria de ser normal se o normal fosse ser como este grito que solto de ti
  73. 73. por tuas cordas vocais desço rodopio rodogrito e amorreço no calor do teu canto flambado
  74. 74. os guizos de um poema cintilam cheiros que te fazem dançar sobre meu beijo secular sob meu tempo circular escultor de seixos no ar
  75. 75. talvez tudo não dê em nada não dê um dia os pedaços que junto todos os dias por via das dúvidas
  76. 76. o sol se espanhola pelas peles lentas violetas sonolentos violões letais
  77. 77. se você viesse num dia de sol e frio com este jeito de bolo com café ai que preguiça de morrer
  78. 78. acendo o fogo estouro e como pop-poesia
  79. 79. deus se escreve com dê maiúsculo disse o homem vestindo seu inútil agá minúsculo
  80. 80. abs trair os trilhos transar com o trem azar de quem não descarrila
  81. 81. vim vida da água sou líquido e amo meu deus meus dedos nos teus minha língua me deixa brincar sorrio sou rio que corre e já sou mar viro chuva e orvalho na pele suor e lágrimas à flor da pétala que cobre meu corpo copo de vinho venha me beba bêbada me tenha venha me tenha bêbado de você
  82. 82. a interrogação tortura mas não entrego minhas camaradas dúvidas
  83. 83. ser são sei não que horas são?
  84. 84. ordem que legal tudo no lugar será que consigo me achar?
  85. 85. vaso vazio brinco com as palavras sejam o que sou sejam o que flor
  86. 86. palavras desesperadas formam um dia na palma da mão um dia que recebe outro nome aqui que nome você daria a um outro dia? o resto resta lá fora indescritível com qualquer coisa real só o que não há deve ser descrito para ser visto escrevo para chegar ao poema que não há talvez chegue a ele sem chegar a ninguém minha poesia minhas palavrasdedesordem minha ilusão em você o vício de imaginar que posso viciar você com inquietude crônica ilusão em minhas palavras tão desesperadas que são minha única esperança de ver o pássaro ver de ver o pássaro verde saudar a grande orgia do mundo num dia que nasce na palma da mão movido pela poesia existo pela inexistência
  87. 87. a luva despe a mão na uva leva à boca a lua fruta o gesto veste o rosto visto do ponto de vista deste ritmo livre a poesia vive e eu de persegui-la
  88. 88. um poema me faz carinho diz que a pedra virou caminho
  89. 89. o pássaro humorista e morto em minhas mãos me falou de amores ventanias verões pedradas de garotos contou piadas e achou graça quando disse que ia contar nosso encontro numa poesia só você me vê e ouve assim e isso tudo não faz qualquer sentido não existe é impossível que é do que me interessa falar falei voou sorrindo e morto
  90. 90. só preciso de um poema malcriado para dizer foda-se essa porra toda dou vivas ao palavrão bem-vindo ao meu poema que eu quero mais é mandar deus à puta quem nem o pariu
  91. 91. tomava café e ele veio falar sobre a poesia das pequenas coisas talvez fosse apenas uma desculpa de um solitário talvez estivesse atraído apenas pelo cheiro de café mas tudo bem bebemos juntos estava frio sorrimos como meninos para mulheres bonitas soltamos baforadas sobre as mãos geladas comentei que do ponto de vista daquele instante o andar decidido das pessoas parecia absolutamente sem sentido ainda mais quando o cachorro curtia um facho de sol por onde todos passavam como ponteiros para ele ainda faltava alguma coisa na cena algo que ninguém visse que só pudesse ser escrito foi quando o cachorro sorriu depois falamos besteiras sem direção tão deliciosas como baforadas sobre mãos frias e por fim depois do último gole antes de sair em busca de algum facho de sol disse-lhe que se fosse um dia como ele um poema num dia como aquele não pensaria duas vezes aliás nem pensaria antes de sentar com alguém numa mesa de bar para bebermos poesia expressa que encanta o ar com seu perfume de café
  92. 92. deixei o mundo que se foda vou ser um poema não direi coisa com coisa não darei o endereço quem quiser me achar que se perca
  93. 93. ninguém cabe no mundo nem em si ou num poema a gente simplesmente não tem cabimento
  94. 94. beber vinho uvas no lugar de estrelas num céu verde tão verde imensa infinita parreira para nunca saber se dormimos ou estamos acordados quem está dentro de quem em pé ou deitado girando só estaremos girando luminosos pássaros em bando cagando sobre a bolsa de nova iorque
  95. 95. futebol no barro banho de chuva uva com melancia não faz mal o que mata mesmo é perder pro tempo
  96. 96. tudo ruído cinzas da luz dos olhos caem chuva seca lágrimas caladas nenhum ruído
  97. 97. os presos estão rebelados e sobre o telhado sem telhas onde estão há um homem morto o helicóptero da polícia iça o homem morto o homem morto que gordo flutua no ar com sua bala no corpo do helicóptero da polícia o corpo pousa num campo de futebol de várzea no meio do campo onde começam os jogos e o plantão da Tv termina pois não é a transmissão de um jogo decisivo entra a programação normal os comerciais as liquidações fora de cena longe do que existe pousa um quero-quero ao lado do homem morto e sobre seu corpo gordo o canário que fugiu de uma gaiola e teve mais sorte que seu camarada que só voou morto informa o plantão de inutilidade pública da poesia que flutua crivada de ilusão e morte direto do campo de futebol sem futebol do homem morto que flutuou com sua bala sobre a cidade que não viu nada pois via tudo pela TV
  98. 98. tire os sapatos descalço sinta a terra se mover
  99. 99. água de poço poço sem fundo estou cheio sem tudo
  100. 100. domingo acordo sem mais nem menos choro domingo outono e sol as lágrimas saem pra passear
  101. 101. passava e não via fosse a vida uma cobra mordia
  102. 102. não entro não empurro vou ficar na rua se chover me molho me seco quando vier o sol na rua é que fico não entro não empurro que negócio é esse de porta me dar ordens?
  103. 103. no fundo ando à to(n)a
  104. 104. silêncio ouço o delírio os elefantes tocam blues calo as horas lincho os dias lancho as notas ela canta como lágrimas sinto-me vivo chamem seus amores por favor é uma emergência os elefantes tocam blues é preciso ouvir Linch dirige seu carro o vento contra o rosto de meus delírios ela canta e é sua carícia lenta na imagem impossível estou aqui a ouvir-me leia-me ao sabor do impossível sabor descrevo minha loucura com a língua na sua por favor é uma emergência isso aqui é um grito pois os elefantes tocam blues ela canta como quem embala a morte delicadamente em suas mãos e se ninguém vier dançarei sozinho
  105. 105. se tenho sede vou com sede ao pote tudo acaba meu bem também sou pote também tem sede a morte
  106. 106. regras retas réguas nada afere exata mente desmedida
  107. 107. jogo os olhos pra fora do corpo que liberdade há no rosto? de cima da loucura vem teu beijo e corro e corro que não paro que é preciso dizer que no fim há o fim que liberdade virá depois? a sanidade cansa de cima de teu beijo mais loucura vejo e corro e corro que não paro que liberdade haverá antes de te alcançar?
  108. 108. na minha boca explode tua vida juntando os pedaços da minha
  109. 109. a essas alturas vejo tudo pequeno na palma da mão no copo tristezas afogadas e nós boiando embriagados dizendo bobagens contando piadas ao limão
  110. 110. dogma dog doberman dogma pra mim morde
  111. 111. corro e beijo pedras brilho pois tem sol e peixes pulando em mim
  112. 112. que me importa o quanto já se falou de amor como pode ser lugar comum o incomum da gente? estou a fim de te falar uma longa frase de amor pra que você chegue ao fim cansada e durma sobre mim mesmo que eu acorde de uma longa frase de amor cansado com tua falta dormindo sobre mim que me importa? estou a fim de te falar uma longa frase de amor do amor que me faz humano e mesmo sem amor amante
  113. 113. me faça bem como o sol desta manhã de agosto
  114. 114. o cachorro o gato o galo e a rua todos latem cantam vantagem de ter o som e eu só o sono
  115. 115. lágrimas com gosto de álcool escorrem para a boca do bêbado eterno
  116. 116. meu bem maybe baby talvez rime em inglês não sei quem sabe em que língua calar depois de se deixar dentro de alguém? dá vontade de dormir sem dormir palavras sonâmbulas dançam com óvulos e fazem filhas e lágrimas correm como crianças lágrima que outra palavra assim tão linda em minha língua poderia trazer tal gosto de sal? moondo da lua venha me visitar aprendeu com o sol a me esquentar virei lagarto se alguém olhar atravessado e estiver preocupado que prenda os versos motim fuga em massa cubro você com cobertores que incendeiam a rebelião durma assim como se fosse acordar criança sonhe como se nunca fosse acordar off
  117. 117. on descansar é bom entre demências e dormências flutuam minhas mil cabeças moderno dilema eterno arder ou não arder no fogo do inferno? temperado pro banquete levo comigo um bilhete ao diabo bom apetite piano cobras joaninhas verdes gritos lábios tiros é cedo para dormir é tarde para dormir afinal a noite acorda ou dorme de manhã? ou é a noite o café da manhã e somos sonhos servidos quentes?
  118. 118. giro como a terra em torno de uma só(l) poesia
  119. 119. há um blues no fim do túnel
  120. 120. poemas não são escritos são pintados são imagens que vêm do exílio para criar a breve ilusão de que não somos cegos
  121. 121. gostava das imagens que os delírios exibiam nas febres de 40 dos cinco anos gosto de sonhar gosto de cinema não gosto de AAS
  122. 122. eu saí correndo e aquele amor louco como um brócolis bom para o coração me perseguia e ria da minha cara de fósforo apavorado aquele louco amor me amava loucamente e dançava como uma pitanga pirada que nem sabia dançar e ria muito deslizando como uma bola de ferro sobre uma janela de vidro de febre fazendo voltas em minha respiração e em minhas pernas com uma corda da guitarra do Jimi Hendrix e sorriu como quem lambe o sol quando caí como chuva e rolei como um morango com chantilly para sua boca
  123. 123. vou beijar ameixas na boca e ver se viro uma gueixa louca para que você me tenha como uma lenda
  124. 124. cheguei ao bar sentei ao balcão e pedi uma dose de batom vermelho puro sem gelo nacional ou estrangeiro dei de ombros já havia bebido tantos vestidos pretos naquela madrugada por outros bares que nem sentiria mais o gosto de um bom batom vermelho era o que achava até perceber que a temperatura subiu logo aos 40 graus assim que o garçom colocou o termômetro no copi meus caninos cresceram pela primeira vez em séculos e eu bebi aquela página vermelha num gole só com todos me olhando num inglês em rotação alterada pelo tempo de repente tudo ficou em silêncio e todos tiveram que ouvir aqueles beijos descendo rubros pelo meu pescoço pelo meu peito ninguém respirava qualquer outra cor e o batom vermelho
  125. 125. desceu ainda mais me lambendo e sugando por dentro enquanto eu cravava os dentes no copo sem notar que todos saíam em câmera lenta deixando seus vestidos de noiva seus pijamas e dentaduras nos copos sobre as mesas trêmulas
  126. 126. seus olhos cortaram minha lâmina e você me serviu aos pedaços a você e seus desejos musicais me perfuraram e cortaram como talheres sem fim
  127. 127. então eu disse fodam-se e nenhum dos pingos nos is entendeu e os pingos foram fazer queixa ao bispo dos pingos e eu disse foda-se o bispo os pingos disseram que iriam me processar por desacato ao bispo dos pingos porra do caralho filhos da puta fodam-se todos os pingos nos is
  128. 128. primeiro só o baixo depois o beijo contornando com os outros instrumentos os limites que não existem do perfume das cerejas que me embalam como anjos endiabrados na rede movediça que me enterra no céu do teu blues como num estágio para a morte
  129. 129. uma pipa erguia o menino que ria da vida lá embaixo descer? só quando o tempo romper o fio para ele cair leve dançante como uma folha de outono
  130. 130. que lei explica a gravidade desse nosso caso? ao se juntarem nossos corpos mais pesados que esse ar pesado sobem
  131. 131. não vivo sem você meu clichê não vivo sem você meu cachê não vivo sem você meu sakê não vivo sem você e já esqueci porquê
  132. 132. escrevo para mudar  então mudo de linha ali encontro uma ilusão  sorrindo zombando do mundo  imenso globo ocular  de um olhar perdido  escrevo para mudar então mudo de linha assim mudo de mundo
  133. 133. que nada é a preguiça que encurta meus versos as palavras que se virem poesia
  134. 134. dia de sol e vento velhos papéis voam para o além e outros vêm ao acaso da alma ao sabor das horas sinto o gosto que ainda nem sei
  135. 135. minha vaidade não é ter um poema lido é ter um um poema rido
  136. 136. não me leve a lugar algum nem me fale algo incomum diga boa noite acorde comigo simples assim como um sol nasce todo dia nos horizontes mares e folhas de desenhos infantis simples assim como um sol dentro de mim
  137. 137. procura-se um sorriso largo fácil puro de brinquedo desejado (novo ou usado)
  138. 138. um escritor que não ama escreve um lindo poema de amor e sem entender de onde vem chora e adormece só sem respostas sem ver sem beijar seu amor sorrindo dormindo profundamente ao seu lado
  139. 139. nem o doce mais doce repõe meus níveis de você
  140. 140. para Leonard Cohen velhos poetas caem sobre o mundo envelhecido de novidades sufocantes chovem suas canções cortam meu coração sufocado por sonhos envelhecidos e aos prantos lavo minha alma para o caso de chegar alguém
  141. 141. rime qualquer coisa com coisa alguma mas arrume um jeito de me fazer feliz bata todos os recordes tome anabolizantes chegue antes me faça feliz na contramão e embriagada na velocidade da luz me jogue pra fora da estrada me faça feliz politicamente incorreta a meta justifica os meios corrompa meus medos me faça feliz cometa pecados me mate e me engula me come com gula me faça feliz não meça as palavras não seja educada me mande a merda só me faça feliz
  142. 142. doenças verdadeiras doenças inventadas tudo mata tristezas verdadeiras alegrias inventadas tudo arrasa verdades absolutas mentiras relativas tudo acaba crimes passionais guerras venais tudo ou nada notícias vendidas notícias compradas tudo cala esperanças perdidas teu olhar que me acha tudo é pouco nada basta
  143. 143. bebeu como se fosse água que um cara sem nada para dar trouxe em sua jarra vazia saciou-se com a miragem que um cara sem nada para dizer disse em sua poesia provou do mundo que um cara sem nada para fazer fez em apenas um dia e descansaram domingos a fio
  144. 144. um chocolate e por um triz não sou feliz
  145. 145. aonde você vai tão depressa que não possa cair na desgraça dessa noite lenta que me abraça?
  146. 146. e eu que perdi meus dentes de sabre vagueio até o dia em que tudo se acabe
  147. 147. eu só queria um café à tarde e que o sol me tomasse também e o açúcar do fim não fosse um doce fim dos sonhos que mal provei
  148. 148. como vive um vivente a beber como água a aguardente do amor? cambaleantes dançam nas calçadas embriagadas as verdades do amor dançam e mentem e creio e rezo como vive um vivente sem beber como água a aguardente do amor? embriagado cambaleante escrevo torto e atordoadamente a dúvida é para os sóbrios para os sábios lábios ardentes línguas incandescentes palavras delirantes loucas e impossíveis roucas e improváveis tantas e tão poucas lentas e insanas
  149. 149. a sussurrar sorrindo que o amor não passa de um velho e solitário poeta bêbado teimando infinita e aguardentemente em embriagar verdades e rimar agente

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