TR A T A MENTOS O PR E ÇO DA VIDA
Asua saúde, ou de a alguém que você
ama, tem preço? Ok, a resposta óbvia
é não, mas vamo...
ano de vida que um paciente ganha com determinado tra-
tamento' o teto de gasto deveria ser de R$ 33 mil, o equi-
valente ...
imatinibe, para o câncer de mama. Como com-
pra em grande escala, o Ministério da Saúde tem
mais poder de barganhar preços...
Precisamos falar sobre dinheiro - Superinteressante
Precisamos falar sobre dinheiro - Superinteressante
Precisamos falar sobre dinheiro - Superinteressante
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

Precisamos falar sobre dinheiro - Superinteressante

115 visualizações

Publicada em

Em entrevista à revista Superinteressante, o Dr. Stephen Stefani, oncologista especialista em economia da saúde, do Instituto do Câncer do Hospital Mãe de Deus, fala dos gastos com o tratamento para se combater o câncer.

Publicada em: Saúde e medicina
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
115
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
3
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
4
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Precisamos falar sobre dinheiro - Superinteressante

  1. 1. TR A T A MENTOS O PR E ÇO DA VIDA Asua saúde, ou de a alguém que você ama, tem preço? Ok, a resposta óbvia é não, mas vamos reformular a per- gunta: vale a pena vender a sua única casa para dar um mês de sobrevida a um parente com câncer? Ese fossem seis meses? Um ano? As perguntas não são à toa. No caso de um pacien- te com câncer de pele, o gasto men- sal com o mais novo tratamento po- de éhegar a 6 dígitos e superar os R$ 300 mil - e, se ele der sorte, essa con- ta será paga por muitos meses: é que a boa notícia é que a sobrevida dos pa- cientes com câncer é cada vez maior. Amá é que os custos para desen - volver novos medicamentos contra o câncer são altíssimos. Ea cada no- va droga, os benefícios crescem, mas bem pouco. Parte da explicação está na lógica natural do processo. Anti - gamente, a evolução era maior e mais rápida porque saímos do zero na lu- ta contra o câncer. Agora, tentamos aprimorar os tratamentos. PRECISAMOS FALAR SOBRE DINHEIRO por MARCELA DONINI -Para desenvolver um só remédio, a indústria farmacêutica gasta perto de US$ 1bilhão. Esó tem cinco anos para recuperar o valor, antes que a patente seja quebrada. indústria farmacêutica, são as pe- quenas éhances de dar certo. De 10 mil moléculas testadas, com sor- te, apenas uma pode ter potencial para tratamento. Depois de pron- to, mais um problema: a patente. No Brasil, depois de 20 anos, um medicamento vira de domínio pú- blico' ou seja, qualquer laborató- rio pode replicar. O prazo come- ça a contar assim que o laboratório que desenvolveu o remédio regis- tra a patente, o que costuma acon- tecer alguns anos antes do lança- mento comercial. Vão aí uns 15 anos em pesquisa, desenvolvi- mento e testes. Ou seja: os labo- ratórios têm cinco anos para recu- perar aquele US$l bilhão em pes- quisa, o que catapulta o preço do medicamento para as alturas. Muitos desses novos medica- mentos são de terapia-alvo, ou se- ja, são moléculas que atacam ape- nas as cancerigenas, em vez de to- Em1987, os Estados Unidos gastaram US$ 24 bilhões nos cuidados com o câncer. Entre 2001 e 2005, o número dobrou para US$ 48,1bilhões por ano. No Brasil, de 2008 para 2011, os gastos cresceram 51%, e ultrapassaram os R$ 2,2 bilhões; em 2013, o valor subiu para R$ 2,6 bilhões. Hoje, há estimativas de que, para desenvolver um úni- co medicamento contra o câncer, sejam gastos em tor- no de US$ 1bilhão. O que encarece a conta, segundo a das as células do paciente - as saudáveis inclusive - como os remédios tradicionais. Uma evolução, claro, mas ocân- cer é um sistema tão complexo que bloquear uma célula tumoral não impede que outras voltem a se reproduzir se- manas ou meses depois. Atendência é desenvolver dro- gas que bloqueiem diferentes vias moleculares simulta- neamente ou usar vários remédios em combinação, o que levará a tratamentos cada vez mais caros. 36 I CÂNCER I SUPERINTERESSANTE 20 1S QUANTO VALE UM ANO AMAIS DE VIDA? Perguntei lá no começo da reportagem se a saúde tem pre- ço. Pois tem. Para a OMS, braço da ONU para a saúde, vale até três vezes o PIB per capita por ano de vida oferecido ao paciente. Para dar um exemplo: se fosse no Brasil, a cada
  2. 2. ano de vida que um paciente ganha com determinado tra- tamento' o teto de gasto deveria ser de R$ 33 mil, o equi- valente a três vezes o PIB per capita do Brasil. Nos Estados Unidos, o valor é fixado pelo governo: US$ 50 mil para ca- da ano a mais de vida. Assim, um tratamento é considera- do custo-efetivo, ou seja, só valeria a pena ser feito finan- ceiramente' se, do início ao fim, custasse este valor. Mas a realidade é que ele sempre extrapola - e ninguém vai dei- xar o paciente morrer, não é mesmo? oBOLSO EOCÂNCER Cerca de 7S% da população brasileira depende exclusi- vamente do SUS; os outros 2S% são usuários de planos de saúde. Os dois grupos gastam a mesma coisa. Os cus- tos públicos do Brasil com saúde representam 5% do PIB; somando os gastos suplementares (particular e planos), éhegamos a 9% - não precisa ser matemático para ver que a conta não feéha. Os dados se referem à saúde em geral, mas podem ser transpostos para o cenário do câncer. Na prática, isso significa que, enquanto os 2S% têm acesso a tratamentos mais caros e, portanto, quase sempre mais eficazes, os outros 75% têm que disputar entre eles os va- 10res determinados pelo governo para cada tipo e fase de câncer - e por isso, estatisticamente, morrem mais. Há duas formas de o governo oferecer medicamen- tos para o tratamento de câncer. O jeito tradicional é via Apac - a sigla para Autorização de Procedimentos Ambu- 1atoriais de Alta Complexidade. O formato garante o re- embolso de clínicas e hospitais com os gastos - embutidos aí também equipe médica e estrutura, além dos medica- mentos. Isso em tese, já que há medicamentos na lista do SUS que, em 2013, custavam mais do que a previ- são da Apac, como o erlotinibe e o gefitinibe, indi- cados para casos de câncer no pulmão. Os valores reais éhegam a R$ 2,9 mil e R$ 2,3 mil respeétiva- mente, enquanto a Apac é de R$I,1 mil. Questionado pelo Instituto Oncoguia, o Mi- nistério da Saúde teria respondido que apenas 5% dos pacientes com câncer no pulmão são elegíveis para esses medicamentos e que os outros gasta- riam R$IS0 com quimioterapia paliativa, sugerin- do que o que sobra de uns pode completar a con- ta de outros. Porém, segundo os médicos, na prá- tica' nem sempre a conta feéha. Equem fica com os pés de fora desse cobertor curto é o paciente. O que acaba ocorrendo é que o hospital banca ou li- mita o tratamento. "Depois que o paciente está ali na sua frente, você não nega o melhor atendimento possível. O que muitos hospitais fazem é não acei- tar mais casos novos", diz o oncologista e auditor em oncologista Leandro Brust. A mais recente estratégia é a compra cen- tralizada' como no caso do trastuzumabe e do OCASO TRASTUZUMABE Um dos medicamentos mais procurados no SUS, para pacientes com câncer de mama HER 2 positivo, passou aser distribuído pelo governo em 2012,com a expectativa de beneficiar 20% das mulheres com câncer de mama em estágio inicial eavançado. De 2005 a2012, morreram 5.696 pacientes com câncerde mama HER 2positivo atendidas pelo SUS. Hoje ogoverno compra edistribui para os hospitais. Esse custo não entra na conta da Apac,ovalor fechado reembolsado pelo governo por cada paciente atendido pelo SUS.Oproblema aqui éque nem todas paCientes com câncer de mama recebem otrastuzumabe. Os casos de metástase não são contemplados,apesar de estudos comprovarem que aadição do medicamento àquimioterapia dá até 17 meses de sobrevida às pacientes, além dos 20 meses estimados para quem se trata apenas com aterapia tradicional. U8$124 biforam gastos nos EUA US$2,6 biforam gastos no Brasil SUPERINTERESSANTE 2015 I CÂNCER I 37
  3. 3. imatinibe, para o câncer de mama. Como com- pra em grande escala, o Ministério da Saúde tem mais poder de barganhar preços. Um bom negó- cio para os prestadores que pagariam mais ca- ro caso tivessem de adquirir eles próprios, mas com a desvantagem de ter de arcar com custos adicionais, como equipe médica, estrutura hos- pitalar etc. Asaída para oferecer um tratamen- to melhor para pacientes do SUS acaba sendo as pesquisas clínicas (leia mais na página 42). POR QUE NÃO HÁ MAIS GEN~RICOS? Copiar um medicamento biológico como os usados nas terapias-alvo é tão complexo como reproduzir o éhampanhe francês na garagem de casa. Adificuldade de fazer cópia não é pela fal- ta da informação da molécula, que se torna pú- blica após a quebra de patente. Oproblema é re- produzir o cenário adequado, como questões de armazenamento e deslocamento, que os labora- tórios não são obrigados a informar. O médico sanitarista Gonzalo Vecina Ne- to, professor da Faculdade de Saúde Pública da USp, fundador e primeiro diretor-presidente da Anvisa, cita ainda outro motivo para um certo boicote aos genéricos oncológicos. Enovamen- te voltamos à questão da grana. Acompanhe: os médicos reclamam que as consultas via convê- nio estão muito baratas e os hospitais, que as diárias estão defasadas. Nesse cenário, clínicas negociariam com os laboratórios preços mais baixos do que os contratados com os convênios e parte dessa diferença iria para o bolso de al- guns médicos - o que obviamente é ilegal, mas confirmado como prática por muitos especia- listas. No caso de recomendar genéri- cos' essa margem seria menor. "Isso é - TRATAMENTOS O PREÇO DA VIDA valores das mensalidades e do mau atendimen- to -, e entre pacientes e médicos, que atendem rapidinho para ganhar em volume o que per- dem no valor da consulta. Uma guerra de todos contra todos, como sugerem os médicos Drau- zio Varella e Mauricio Ceséhin no livro A Saúde dos Planos de Saúde (Paralela, 2014). OCUSTO DA NÃO PREVENÇÃO Eliminar o fumo, o abuso de álcool, o sedenta- rismo e a má alimentação poderiam represen- tar a economia de 73%gastos globais com casos de câncer relacionados a fatores externos. Con- siderando que cerca de 12% das folhas de pa- gamentos são destinados a custos com planos de saúde, muitas empresas já estão alertas. Uma campanha de prevenção direcionada ao públi- co certo, pode ser bem-sucedida para a saúde do paciente e as finanças da empresa. De acor- do com Rodolfo Milani, da consultoria em saúde Aon, para cada R$ 1investido em prevenção há retorno de R$ 2a R$ 3 ao longo de 12 a 24 meses. A economia vem do quanto se deixa de gastar em exames, por exemplo, e do quanto se per- deria com a ausência de um funcionário doente. No caso do câncer, é preciso ter em mente que existem duas frentes para se planejar economia de gastos: a prevenção, por meio de campanhas uma vida saudável e a detecção precoce dos tu- mores, o que aumenta as éhances de cura.A ve- lha máxima ainda vale: prevenir é mais barato do que remediar.• impróprio, uma vez que o médico não deve e não pode inferir lucros condi- cionados por sua prescrição", afirma o oncologista Stephen Stefani, espe- cialista em economia da saúde. Ve- cina Neto explica que a migração de margem começou em 1994, com o Plano Real. "A indústria, que vive do que produz, teve seus preços alinha- dos, a saúde não. Eem vez de ganhar por produzir serviços, passou a ga- nhar vendendo coisas", diz. "É pre- ciso aumentar o valor da consulta." Eaí entramos na briga entre pIa- nos de saúde e médicos, planos de saúde e pacientes - que reclamam dos Copiar um medicamento como os usados nas terapias- alvo é tão difícil como clonar um éhampanhe francês. Mesmo com a quebra de patente, reproduzir logística e armazenamento dos grandes laboratórios é difícil. SUPERINTERESSANTE 2015 I CÂN CER I 39

×