Poesia trovadoresca a cantiga de amor 10ºano português

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Poesia trovadoresca: Português 10ºano
Cantigas: cantiga de amor

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Poesia trovadoresca a cantiga de amor 10ºano português

  1. 1. A cantiga de amor O lirismo provençal foi certamente conhecido na Península Ibérica bastante cedo[...]. Poesia autóctone e poesia de imitação provençal são, pois, simultaneamente cultivadas nas cortes da Península e mutuamente se influenciam, ocorrendo frequentemente que a cantiga de amor galego-portuguesa apresente refrão e se aproxime da estrutura da poesia popular. No entanto, algo as distingue e as torna inconfundíveis: nas cantigas de amor é o homem que se dirige à amada ("senhor") a confessar os seus sentimentos; pelo contrário, nas cantigas de amigo, é uma rapariga que, enamorada e saudosa, recorda o amigo (namorado) ausente, tomando como confidente a mãe, as amigas e a Natureza.[...] Mas os nossos poetas não se limitam a adaptar, por vezes, à estrutura típica da cantiga de amor, o ritmo e a vivacidade que caracterizam a cantiga de amigo; mesmo na cantiga de imitação provençal [...], a expressão do amor simplifica-se e o sentimento amoroso, não sendo um fingimento humaniza-se e atinge um arrebatamento e um tom de sinceridade vivida [...]. De acordo com o nosso temperamento apaixonado e saudosista, a nossa cantiga de amor exprime a "coita" ou "cuita", paixão infeliz, amor não correspondido que se torna obsessão, repetida em tom de súplica. Assim se cria uma plangência que exprime o comprazimento na dor que culmina com a aspiração a "morrer de amor", um dos tópicos mais repetidos na cantiga de amor galego-portuguesa [...]. FERREIRA, Maria Ema Tarracha,1998. Introdução, in Poesia e Prosa Medievais. 3ª ed. Lisboa: Ulisseia pp. 13-14)(1.ª ed.:1981). A cantiga de amor, afim quanto ao conteúdo da cantiga de amigo, pois ambas desenvolvem, o mais das vezes, o tema do amor não correspondido, distingue-se, no entanto, dela por uma mais acentuada aristocraticidade de tom e de forma. Geralmente estruturada como pedido de amor do poeta à dama ou como lamento pela indiferença e altiva distância dela, a cantiga de amor adota moldes poéticos e fórmulas lexicalizadas de ascendência provençal (por exemplo, a apóstrofe "mia senhor", decalcada sobre o trovadoresco "midons"), mas dilui a sua intensidade expressiva, despersonalizando-os e estereotipando-os. [...] O canto de amor, aqui, não se dirige a uma mulher real, exprimindo sentimentos reais que são a transposição amorosa dos sentimentos do vassalo pelo senhor feudal (admiração, devoção, fidelidade, desejo de ser admitido na sua intimidade), mas é dedicado a uma mulher abstrata (ou extremamente idealizada) objeto de "sentimentos" tópicos, rigidamente fixados em
  2. 2. esquemas convencionais. Disto deriva quer a impressão de incorporeidade da dama na cantiga de amor galego-portuguesa, em contraste com a "carnalidade" concreta, mesmo se tenuemente velada, da dama provençal, quer a ausência de dimensões espaciais e temporais da primeira confrontada com a precisa localização da segunda num contexto histórico- ambiental o mais das vezes bem determinado. LANCIANI,Giulia, 2000.Cantiga de amor. In Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa. 2.ª ed. Lisboa: Caminho(pp. 136-137)(1.ª ed.:1993) A arte de amar dos trovadores Ao contrário da cantiga de amigo, o cantar de amor não sugere ambientes, sejam físicos, determinados por referências ao mundo exterior, ou sociais, resultantes da presença de personagens interessadas no enredo amoroso; não se refere à mãe, ao santo da romaria, às ondas do mar ou às árvores em flor. [...] Não há espaço à volta nos cantares de amor [...], mas só a voz que canta na solidão: uma súplica de apaixonado para que a "senhor" reconheça e premei o seu "serviço", ou um elogio abstrato da beleza dela; ou uma descrição dos tormentos do poeta dirigida à piedade ou "mesura" da "senhor". O amor era concebido à maneira cavaleiresca, como um "serviço". O cavaleiro "servia" a dama pelo tempo que fosse necessário para merecer o seu galardão. Consistia esse serviço em dedicar-lhe os pensamentos, os versos e os atos; em estar presente em certas ocasiões; em não se ausentar sem licença, etc. O servidor está para com a "senhor" como o vassalo para com o suserano [...]. A regra principal deste "serviço" era, além da fidelidade, o segredo. O cavaleiro devia fazer os possíveis para que ninguém sequer suspeitasse o nome da sua senhora, indo até ao sacrifício de se privar do seu convívio, ou de se fingir apaixonado por outra. [...] na grande maioria das cantigas de amor, os requerimentos assíduos do "servidor" visam conseguir da "senhor" uma coisa que se designa pela expressão "fazer bem", É fácil compreender o que significa este eufemismo [...]. Mas o que é próprio das cantigas de amor e do seu modelo provençal é a distância a que o amante se coloca em relação à sua amada, a que chama senhor, tornando-a um objeto
  3. 3. quase inacessível; a atitude é a de uma espécie de ascese1 abstinente, seja qual for a realidade a que as palavras servem de cortina. A regra do segredo não é só, porventura, uma precaução exigida por amores clandestinos, numa sociedade em que o adultério era punido por lei constantemente transgredida, mas uma regra ascética que tornava o amor mais intenso quanto mais solitário e à margem da sociedade. O amor trovadoresco e cavaleiresco é, por ideal, secreto, clandestino e impossível. Fortalecido pelos obstáculos, o amor apura-se ao calor de um longo sofrimento, que os poetas comparam com a agonia da morte. O amor e a morte aparecem constantemente associados nos cancioneiros. Essa morte é a própria vida, porque o sofrimento amoroso dá à vida a intensidade máxima. SARAIVA, António José, 1998.O crepúsculo da Idade Média em Portugal. 5.ª ed. Lisboa: Gradiva (pp. 21-23 e 26)(1.ª ed.:1990) O código do amor cortês O trovador [...] serve a sua dona como o vassalo serve o suserano, com diligência e fidelidade. [...] mas assim como o sistema feudal implicava vários graus de vassalagem, assim também o amor, que se revela na poesia provençal um longo e paciente aprendizado. Para se alcançar o favor supremo da dona, era necessário percorrer quatro estádios: o de aspirante que se consome em suspiros (fenhedor), o de suplicante, que ousa já pedir (precador), o do namorado (entendedor) e o do amante (drut). [...] O amor português é bem mais simples; e, se perde em complicações e subtileza, ganha, sem dúvida, em emoção e sinceridade. Da hierarquia amorosa dos provençais só são conhecidos, entre nós, os dois últimos graus. E o último, o de drut, que deu em português drudo, só o encontramos nas cantigas de escárneo e maldizer. A poesia virginal da cantiga amorosa não podia ir além de entendedor. Esta expressão, sim, que é frequente, e ainda mais a forma verbal entender ua dona. [...] O amor não podia falar uma linguagem desordenada, impetuosa; tinha de conter-se em certos limites de razoável moderação. A esta espécie de válvula de segurança do afeto amoroso deu-se o nome de mesura. A mesura é, deve ser, a virtude suprema do amador, ao qual impõe uma infinita paciência, tão grande, que muitos a comparavam à dos bretões, esperando, séculos e séculos, 1 devoção releigiosa
  4. 4. a vinda do rei Artur. A vontade de não exceder a medida, o receio de que a amada sofra no seu prez, o desejo, enfim, de servir pelo prazer de servir e não pela mira do galardão, encontram- se definidos em mais duma cantiga e correspondem bem à finura da nossa sensibilidade. [...] Além desta atitude submissa e tremente, outra obrigação tinha ainda o perfeito amador: a mais absoluta discrição que lhe vedava sobretudo divulgar o nome da amada. [...]De resto, o segredo, em todos os tempos e países, foi sempre a alma do negócio e também a alma do amor. [...] Enfim, o rasgo mais característico do amor português é a coita de amor, que faz ensandecer e morrer o pobre enamorado. A nossa cantiga impressiona pelo que tem de triste, de fatal, de consumidor. [...] A norma era, ao fim de uma vida votada a um amor infeliz, não compartilhado, morrer...nas cantigas. LAPA, Manuel Rodrigues, 1977.Lições de Literatura Portuguesa: Época Medieval. 9.ª ed. Coimbra: Coimbra Editora (pp. 136-143 )(1.ª ed.:1934)

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