Coletivo semifusa práticas sociais e a relação com a cidade

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Coletivo semifusa práticas sociais e a relação com a cidade

  1. 1. Antonio Carlos Silva Benvindo Universidade Federal de Minas Gerais COLETIVO SEMIFUSA: práticas sociais e a relação com a cidade RESUMO: Os coletivos culturais se desenvolveram nos últimos anos com contribuição de algumas mudanças, como os avanços tecnológicos e as Leis de Incentivo estabelecidas pelo Ministro da Cultura Gilberto Gil, em 2003.Tais mudanças contribuiram para que os grupos alterassem suas relações com a cidade, reconfigurando também as práticas culturais e sociais dos indivíduos, através de dinâmicas comunicativas nas quais se relacionam coletivamente em busca de dialogar a respeito dos problemas que os setores administrativos não conseguem solucionar, ou mesmo dar a essa instancia de poder as soluções viáveis para as demandas públicas. Assim, através de práticas mobilizadoras, o Coletivo Semifusa se destaca ao propor discussões relevantes para a localidade na qual estão inseridos, trazendo para o debate público questões do interesse de todos, articulado com as novas maneiras de produzir cultura e consequentemente a política. PALAVRAS-CHAVE: Coletivos culturais; Fora do Eixo; Práticas comunicativas mobilizadoras; Coletivo Semifusa; Debate público. 1
  2. 2. Introdução Os Coletivos surgem atualmente como potencializadores de cultura no Brasil. Suas maneiras de trabalhar implicam a utilização dos novos meios de comunicação em massa para disseminar a produção cultural e através dela construir e difundir significados para os locais em que estão inseridos, ressignificando assim a relação do indivíduo com a cidade. Sob esse aspecto, faz-se necessário avaliar a importância que os Coletivos culturais possuem para a comunicação. Esse trabalho tem o intuito de discutir como os Coletivos culturais, especificamente o Coletivo Semifusa de Ribeirão das Neves, tendem a relacionar suas ações com o local em que vivem, como utilizam das ferramentas de comunicação e tecnologias atuais para produzir cultura – e engendrar discussões de caráter político - e como a cidade é vista por eles, num processo mobilizador que tende a integrar a todos. O artigo encontra-se dividido em quatro partes: em um primeiro momento discuto como se caracterizam os coletivos culturais atualmente, como eles fazem suas parcerias e quem são elas, quais são os suportes encontrados por eles para a produção cultural e como isto é discutido, viabilizado e articulado. Mais a frente, na segunda seção, o artigo apresenta o objeto especifico de análise, o Coletivo Semifusa de Ribeirão das Neves. O grupo faz parte de uma Rede de Coletivos maior, mas as suas características o tornam instigante, em virtude do local em que estão inseridos e de os problemas sociais, políticos e culturais dessa cidade serem tão preementes. Pretendo apresentar os principais eventos do Coletivo Semifusa, a maneira de trabalho, como apropriou as novas tecnologias para colocaram em prática seus objetivos e conferirem visibilidade às suas demandas. Na terceira seção, serão discutidas as relações que o grupo propõe com a cidade, destacando a maneira como a cultura pode ser fundamental para as articulações políticas. Nas considerações finais irei ressaltar como o Coletivo Semifusa pode ser um agente de mobilização social, pois através de suas práticas, utilizadas para defender a expressão artística, ele articula outras causas inerentes a causa pública, tendo como viés fundamental a cultura. 2
  3. 3. 1 – Caracterização dos Coletivos culturais O crescimento dos coletivos culturais tem despertado o interesse de estudo de muitos pesquisadores da área da comunicação (Herschmann e Kischinhevsky, 2011; Bentes, 2011; Maia, 2010; Mendonça, 2010; Paulino e Kafino, 2012; Silva e Salgado, 2012; Vicente, 2006), em virtude de sua maneira de trabalhar as novas práticas culturais, sobretudo com a utilização das ferramentas disponíveis na internet como os arquivos de compartilhamento em “nuvem”, redes sociais para divulgação, e sua relação com o local onde estão inseridos. Essas práticas são uteis para desenvolver uma produção e disseminação de novos conteúdos simbólicos e, por consequência, alterar as interações sociais que os integrantes dos Coletivos têm com a cidade, geralmente em uma tentativa de mudar um quadro simbólico de desigualdade e depreciação. Os coletivos têm como características principais a utilização dos padrões da economia solidária, as relações de troca entre artistas e gestores, a habilidade de adaptação e expressão proporcionada pelas novas tecnologias como algumas das vertentes que permeiam suas ações coletivas. A gestão de Gilberto Gil (2003) como Ministro da Cultura, na qual desenvolveu a política de criar editais para fomentar empreendimentos e iniciativas culturais, facilitou e estimulou a elaboração de projetos culturais pelo Brasil todo, principalmente junto aos jovens artistas, e deu ênfase a iniciativas culturais populares e independentes. As mudanças tecnológicas contribuíram muito junto com essa medida administrativa, pois “a esfera digital passou a ser uma forma de alcançar visibilidade, criar identidades: agora, os jovens se insurgem dentro e fora do campo virtual, um complementando o outro” (MENDONÇA, OLIVEIRA, 2010, p. 3). Concretiza-se o que Castells (1999), definiu como “sociedade em rede”, na qual as formas de trabalho são notadamente marcadas por produções colaborativas, como alimentar blogs, sites e conteúdo de release para imprensa organizada de maneira colaborativa, feita através da tecnologia de “nuvem”, ou mesmo os inúmeros e-mails trocados para definir as ações de determinado 3
  4. 4. evento. Além disso, as redes colaborativas também auxiliam os indivíduos e grupos a fortaleceram suas identidades e a negociar com as diferenças de modo a promover trocas pautadas pela tolerância e pelo respeito mútuo: Hoje em dia os processos de contribuição de identidades tem se dado através de projetos culturais onde pessoas vêm se organizando em redes alternativas ou redes de solidariedade social, como forma de se garantirem perante as relações sociais assimétricas e tomarem a direção da constituição da sua identidade e o acesso a cidadania (SILVA, GONZAGA, 2005, p.4). Herschmann e Kischinhevsky (2011) definem que os novos festivais independentes, utilizam estratégias interessantes como os recursos das leis de incentivo a cultura e editais públicos, empregando um intenso uso das tecnologias com intuito de formação, divulgação e mobilização de público. Sob tal aspecto, esse tipo de produção é essencial para as práticas comunicativas dos coletivos culturais, uma vez que tem um baixo custo e atinge um número amplo de pessoas, por exemplo, através das redes sociais. Afinal, atualmente “grupos minoritários, na maioria das vezes invisibilizados, encontram na internet importante espaço para a expressão pública de demandas, em detrimento dos meios de comunicação tradicionais” (GARCEZ, p. 2, 2012). Conforme Castells (1999), a internet, com sua arquitetura discursiva aberta, carrega uma filosofia libertária, com aspiração colaborativa capaz de abrigar manifestações de contracultura, que vai contra os anseios das corporações detentoras dos meios de comunicação que definem o que deve ser consumido como cultura. Assim temos “uma produção cultural emergente, marginalizada pelos espaços institucionais e que vinha sobrevivendo em porões particulares, garagens e consumida apenas pelos amigos mais próximos” (COSTA apud VICENTE, 2006, p.6), produção que ganha notoriedade atendendo a outra demanda de público. Os coletivos atuais desenvolvem ações que se baseiam, em grande medida, nos pilares da Economia Solidária1, ou seja, as trocas são feitas com o propósito de desenvolver 1 Conforme Paul Singer (2002) a economia solidária é outro modo de produção, cujos princípios básicos são a propriedade coletiva ou associada do capital e o direito a liberdade individual. A aplicação desses princípios une todos os que produzem numa única classe de trabalhadores que são possuidores de capital por igual em cada cooperativa ou sociedade econômica. Disponível em: 4
  5. 5. ações em conjunto, geralmente baseadas em relações de reciprocidade, nas quais um valor simbólico é estabelecido a partir de determinado trabalho executado pelo artista ou gestor, a partir do trabalho executado por ele para o Coletivo. Podemos citar o seguinte exemplo: um designer faz uma arte para um evento do Coletivo, é estabelecido um preço para aquela arte, uma moeda “simbólica” e o grupo viabiliza uma maneira de pagar esse designer, seja como patrocínio dos trabalhos do artista no site do Coletivo, ou outra maneira viável. Como ressaltam Kafino e Paulino (2011), não transparece uma preocupação com formas mais tradicionais de remuneração a partir do trabalho com a música2, pelo contrário os participantes dos coletivos procuram associar suas práticas abertamente a conceitos de cultura livre e de economia solidária. Os coletivos usam plataformas atuais de compartilhamento em “nuvem” como Google Docs e as Redes Sociais (como Twitter e Facebook) para sistematizar suas práticas. O principal auxílio conferido, aos grupos aqui estudados vem da Rede Fora do Eixo. Essa rede atua junto a várias parcerias como a Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes), que gerencia os festivais musicais pelo Brasil todo e a plataforma Toque no Brasil3, que disponibiliza o espaço para os artistas deixarem hospedadas suas músicas. Podemos citar também o CMC (Circuito Metropolitano de Cultura), que tem a proposta de construir uma rede de coletivos Culturais da Região Metropolitana de Belo Horizonte e trabalhar de forma integrada. O CMC possui o objetivo de construir pontos de circulação de artistas, participar das construções das políticas culturais de cada cidade da Região Metropolitana de Minas Gerais. Com essas parcerias, os Coletivos Culturais, principalmente os de Minas Gerais se desenvolvem de forma horizontal. Esse Circuito é responsável pelo Circuito Mineiro de Festivais, uma plataforma cultural ampla que busca realmente conectar os festivais com os territórios em que estão inseridos4. A Rede Fora do Eixo desenvolve suas ações estratégicas de apropriação tecnológicas das redes, “inclusive apropriação de ferramentas como o Facebook, Twitter, e outras http://www.incoop.ufscar.br/Links/textos/paul-singer-2002-fundamentos. Acesso dia 8 de Setembro de 2012. 2 A música é apenas um exemplo citado pelo autor mencionado, mas outras artes como audiovisuais, poéticas, enfim outras artes ou mesmo trabalhos são pagos através da Economia solidária. 3 http://tnb.art.br/ 4 Explicação dada verbalmente por Rodolfo Ataíde, membro do Coletivo Semifusa e um dos integrantes do Circuito Mineiro de Coletivos, no dia 7 de Setembro de 2012. 5
  6. 6. causas e objetivos próprios, como fizeram os árabes e os espanhóis, hackeando as novas corporações pós-fordistas” (BENTES, 2011, online5). Segundo Bentes, o Circuito Fora do Eixo é um “potente laboratório de experimentações das novas dinâmicas do trabalho e das subjetividades” (Ibid). Baseado em questões como autonomia, liberdade e um novo “comunismo”, que, segundo a autora, está atrelado à construção do comum, de uma comunidade, de caixas coletivas, moedas coletivas, redes integradas, economia viva e mercados solidários. O Fora do Eixo está “apontando para as novas formas de lutas, novas estratégias e ferramentas, que inclui inclusive pautar as políticas públicas, pautar o parlamento, pautar a mídia (...)” (2011, online). Muito embora, tenhamos que ressaltar que a internet, ainda tem problemas de exclusão por não ser “ainda” acessível a todas as classes sociais, além de utilizar de propriedades de grandes empresas como Google e Facebook, assim os possíveis filtros exercidos por eles, e mesmo a característica difusa da internet muitas vezes torna a produção por demais invisíveis, ainda mais nas periferias da cidade. Assim, os coletivos culturais têm o intuito de estimular a cena independente e formular um projeto cultural no país. Madureira, Freitas e Fonseca (2011) argumentam que o Circuito Fora do Eixo é uma rede que liga os coletivos com a intenção de estimular a circulação de artistas, além de transformar o meio político e econômico em que a difusão cultural se encontra no Brasil. O interesse do Circuito Fora do Eixo segundo os autores supracitados é promover uma mudança social e tecnológica nesse mercado cultural, abrindo espaço para que pequenas comunidades possam desenvolver suas artes através de sua respectiva cultura, mostrando a visão de mundo daquele lugar e transferindo a mesma para todo o país( MADUREIRA, FREITAS E FONSECA, 2011, p.3). Sob esse aspecto, os coletivos culturais que estão atrelados a Rede Fora do Eixo se desenvolvem e promovem a articulação dos bens culturais no país, a estruturação destas redes busca promover a participação dos indivíduos e instituições que as compõem em relações horizontais e colaborativas. 5 Disponível em: http://www.culturaemercado.com.br/pontos-de-vista/a-esquerda-nos-eixos-e-o-novoativismo/ 6
  7. 7. 2 – Coletivo Semifusa: contexto urbano e cena cultural O Coletivo Semifusa atua em Ribeirão das Neves, cidade periférica que faz parte da Região Metropolitana de Belo Horizonte, e possui cerca de 300.000 mil habitantes. A cidade ganhou o estereotipo de “cidade presidiária e dormitório”, em virtude de seus habitantes dependerem em grande parte de Belo Horizonte para trabalharem e pela cidade possuir um número amplo de presídios de segurança máxima, o que ocasionou no local nos últimos anos, um “boom” populacional. Essa transformação aconteceu em virtude de muitas famílias terem se deslocado para ficar próximas a seus parentes presos, ou mesmo pela chegada de imigrantes do interior de Minas e de outros Estados Brasileiros em busca de uma vida diferente na cidade que se desenvolvia. Como Belo Horizonte cresceu em torno da Avenida do Contorno, e “expulsou” os recém-chegados para fora da cidade, a saída foi se locomover rumo a Região Norte da cidade, que atendia os recém-chegados à capital em busca de condições melhores de vida (SOUZA, 2008). Embora tenha ocorrido esse avanço populacional, Ribeirão das Neves tem uma deficiência enorme de oportunidades relacionadas à cultura, sobretudo no que se refere a patrocínios financeiros e ocupação de espaços públicos, muito embora existam vários produtores de cultura interessados em desenvolver projetos culturais e espaços que poderiam ser apropriados para esses projetos culturais, como shows, peças de teatro e intervenções culturais. Essa defasagem cultural não tem pontos definidos, mas se baseia na falta de oportunidade para os atores culturais possam mostrar seus dotes artísticos. Para poder mensurar a Secretaria de Cultura da cidade foi criada recentemente, e não possui outras formas de financiamento, apenas uma parte ínfima do orçamento da Prefeitura, que em 2012 não chegou a 1%, além de não ter leis de incentivos municipais, ou seja, o processo ainda está lento na cidade. Mas se de um lado o poder público não privilegia políticas culturais e, muitas vezes não demonstra interesses por elas, de outro temos um grande envolvimento dos cidadãos em propostas capazes de lhes proporcionar oportunidades de trabalhar e difundir suas produções. Nesse sentido, em 2009 foi criado, o Coletivo Semifusa, formado em sua maior parte por artistas que não tinham onde propagar suas atividades e produções 7
  8. 8. artísticas. Com o passar dos anos, novos integrantes foram conhecendo as práticas do Coletivo e se incorporando para auxiliar, agora há o envolvimento de pessoas com formação distinta da artística, e mais ligadas a área de gestão.6 O Coletivo enuncia como um de seus propósitos a ação de mapear oportunidades culturais, através de Leis de incentivo, ou mesmo negociar espaços com o poder público espaços para a realização de apresentações culturais capazes de conferir notoriedade aos artistas locais, sempre em discussão com o sistema administrativo da cidade. Nesse espírito de diálogo entre representantes do governo e da sociedade civil, atualmente as práticas do Coletivo têm se expandido cada vez mais, não só no âmbito cultural, mas também difundindo discussões de cunho político e trazendo questões de interesse público para serem debatidas por todos aqueles que são por elas afetados. É possível dizer que o Coletivo quer propor uma visão menos estereotipada e depreciativa da cidade de Ribeirão das Neves, contrariando a visão de que ela possui apenas “presídios” e é marcada pela “violência”. Assim, o Coletivo propõe um questionamento e uma revisão das “imagens” negativas associadas à cidade de Ribeirão das Neves (e às pessoas que nela vivem), sem utilizar um discurso de vitimização. Como seus integrantes mesmos mencionam “não queremos ficar reclamando, queremos correr atrás para mudar os estigmas”7 (ATAÍDE, 2012), partindo desse pressuposto “a dinâmica intersubjetiva da busca pela autorrealização perpassa a existência dos sujeitos, mas para alguns, o reconhecimento implica em profundas rupturas com códigos e valores sociais enraizados” (GARCEZ, 2012, p.4). O surgimento deste grupo se deu frente à necessidade dos artistas de Ribeirão das Neves criarem espaços de fomento e visibilidade para os artistas locais. Mas, com o seu 6 O Coletivo Semifusa tem membros que trabalham e/ou estudam, fazem faculdade ou ainda Ensino Médio, que variam de 17 a 30 anos de idade, podemos dessa forma que sua maioria de integrantes é ainda jovem. As ações do grupo são decididas quase que exclusivamente por email, através do Grupo do Gmail. Muitas reuniões são realizadas on-line, utilizando ferramentas como o Skype, Gmail ou Messenger. Os membros atuam no Coletivo no regime de voluntariado, já que nenhum deles usufrui de benefícios financeiros para se dedicar às ações do Grupo. Essa questão vem apenas reforçar a identificação dos integrantes com a cidade, pois por serem jovens eles poderiam ou tem mais condições de não morarem na cidade, ou mesmo se desvincularem dela, reforçando os laços com o local. O intuito é mudar o local em que vivem, atuando localmente e através de ferramentas como a cultura e a consequentemente fazendo política através dela. 7 Citação verbal feita no Pá na Pedra 2012, pelo membro e Diretor Administrativo do Coletivo Semifusa, Rodolfo Ataíde. 8
  9. 9. desenvolvimento e sua integração à Rede Fora do Eixo, o grupo passou a exercer um papel que vai além do simples interesse particular de alguns conjuntos musicais. O Coletivo passou a fomentar conversações e processos de debate capazes de trazer para o cotidiano questões políticas que demandam reflexão conjunta. Nesse sentido, investem também em uma “discussão política essencialmente voltada para processos de troca argumentativa, para a apreciação de cursos alternativos de tomada de decisão e para a busca de fins coletivos” (MARQUES, MAIA, p. 149, 2008). Essa questão do entrelaçamento da cultura e política será retomada mais a frente. O Coletivo atualmente é responsável por três grandes eventos na cidade, “O Grito Rock”, que é um movimento vinculado ao Circuito Fora do Eixo e articulado simultaneamente com outros pelo Brasil e na América Latina. A maioria das questões é decidida por email, ou por arquivo de compartilhamentos em “nuvem”, como o Google Docs, cerca de 400 email’s foram trocados pelo grupo e poucas reuniões presenciais. O evento passa pela questão de curadoria das bandas selecionadas para tocar no evento. A divulgação é basicamente articulada pela Rede Fora do Eixo, e é um evento integrado com outros pelo Brasil afora, no ano de 2012, ganhou uma notoriedade importante ao ser divulgado em horário nobre pela Rede Globo de Televisão. O Grito Rock de Ribeirão das Neves teve 5 bandas, duas delas locais, dentro do objetivo de sempre priorizar as bandas da cidade, um dos artistas gravou um clipe de sua música no evento. Além de música, teve um varal de poesias e exposição de um artista da cidade, sempre no intuito de fomentar a cultura no local. O Festival Neves Encena8 é o segundo evento, realizado no meio do ano, teve sua primeira edição no ano de 2012, a primeira ideia do grupo foi convocar todos os artistas de artes cênicas da cidade para discutir os parâmetros do Festival. A ideia do Coletivo foi inserir todos na discussão, tendo em vista que o grupo não havia promovido nenhum evento desse porte e com o apoio dos grupos ficaria mais fácil de saber os anseios dessa classe artística local. O que se pôde perceber que a classe artística local também não estava muito preparada para contribuir com o evento. Para exemplificar foi criado um grupo no “Gmail” para as decisões serem tomadas, mas teve pouca participação dos 8 O evento articulado no espaço de tempo do dia 20 de Junho de 2012 até o dia da finalização das contas do evento, finalizada 15 de Agosto de 2012, um total de 509 email’s foram trocados para definir a organização do evento, cerca de 5 reuniões presenciais foram feitas, algumas reuniões foram realizada utilizando ferramentas como o Skype, com vídeo e voz. 9
  10. 10. grupos e no fim das contas às decisões mais importantes ficaram para os membros do próprio coletivo decidir, talvez em função do Coletivo já tiver conhecimento das ferramentas de trabalho, como os arquivos de compartilhamento em “nuvem”, ou pelos grupos não terem vivencia na produção de eventos. 9 O terceiro evento é o “Festival Pá na Pedra”,10 realizado todo último trimestre do ano com várias apresentações artísticas, como música, oficinas, workshops, etc. Cerca de 860 e-mails trocados, várias reuniões on-line e algumas presenciais apenas para consolidar o que não se pode fazer utilizando a grande rede e fechar o evento. O “Festival” que expressa as dificuldade de se fazer arte num local como Ribeirão das Neves, em virtude do pouco apoio11 tanto no que se refere ao poder administrativo e a dificuldade de divulgar, por não ter uma imprensa local forte, se relaciona com a ideia de realmente “bater uma pá numa pedra”, literalmente os integrantes do grupo tem que fazer “tudo” desde carregar o som até produzir a comunicação do evento. Além desses eventos especiais, que acontecem com uma certa sazonalidade, o Coletivo se encarrega de fazer eventos esporádicos, contando com a parceria de outros Coletivos da Região Metropolitana, como o “Encontro de Compositores”, que é um momento no qual artistas, fazem um show intimista, solo, de voz e violão com composições próprias em determinados espaços como bar ou atelier. Busca-se através desses eventos construir e dar visibilidade a um novo conjunto de símbolos e representações de Ribeirão das Neves para a sociedade local e para o público externo, criando assim novas práticas culturais para a cidade, e buscando desmitificar os problemas que o local vive como foi supracitado. Isto não significa que os membros do grupo deixaram de assumir uma postura crítica frente às dificuldades enfrentadas pelo município. Segundo seus membros, o diferencial 9 O Coletivo conseguiu ocupar as praças de Ribeirão das Neves com o evento, trazendo teatro para os mais diversos públicos gratuitamente, além de conseguir atingir um público amplo com a inserção do evento em meios de massa como: Super Notícia, Itatiaia e Jornais locais. O público foi de cerca de 2.000 pessoas nos dias do evento e deu uma notoriedade muito interessante ao grupo, porque anteriormente o Coletivo se restringia a projetos com bandas de música. 10 Outra atitude importante do evento nesse ano foi o “Percurso cultural”, um passeio pelos pontos turísticos da cidade, algo que não se tem registro de ter feito no local, desde sua emancipação da cidade de Pedro Leopoldo. Locais que nem a própria população tenha conhecimento da existência na cidade, mas que remete para algo turístico no local. 11 A grande dificuldade está em encontrar apoio junto a empresas que não têm interesse em investir na cidade, por não ser economicamente vantajoso. 10
  11. 11. do “Coletivo Semifusa” está no fato de seus integrantes se organizarem politicamente propondo discussões a respeito da cidade que venham através delas suprir as necessidades que a sociedade necessita e, por meio disso apontar caminhos que indiquem a superação desta condição, assumindo uma postura ativa em relação aos desafios enfrentados pela cidade. Tal postura vai além de reivindicar frente ao poder público políticas que atendam as suas demandas, pois os integrantes do coletivo assumem o compromisso de participar efetivamente do processo de discussão e implementação de tais políticas. Esses debates e a efetiva participação do Coletivo em discussões acerca das políticas públicas e culturais destinadas à cidade acionam estudiosos que tenham como tema a cidade de Ribeirão das Neves. Frequentemente seus trabalhos visam temas recorrentes relacionados às políticas públicas da cidade. Esse assunto será retomado mais a frente. Desse modo, o Coletivo Semifusa torna possível que os cidadãos possam elaborar projetos coletivos que reivindicam não só seu reconhecimento e a acolhida de suas propostas pelo Estado, mas também a identificação legítima de seu status moral no seio da sociedade (MAIA, MARQUES, MENDONÇA, p. 94, 2008). O Coletivo tem se destacado não apenas em seu envolvimento em lutas culturais, pois tem saído desse contexto para reivindicar soluções para questões que tocam interesses mais abrangentes no que se refere à cidade em que estão situados, através de redes que o próprio grupo tem feito e que os permite tecer vínculos colaborativos capazes de acionar debates, afinal “por estarem mais próximas do cotidiano dos sujeitos, são capazes de identificar situações de opressão invisibilizadas e tornar públicas tais situações por meio de um vocabulário público comum” (GARCEZ, 2012, p. 9). No Festival “Pá na Pedra” de 2011, foi lançada a campanha: “O Que Você Sabe Sobre Neves?”. Segundo os integrantes do grupo, o evento buscou resgatar a memória do município, realizando um levantamento histórico, falando sobre as figuras ilustres nascidas no município, buscando catalogar os bens culturais existentes na cidade e divulgar uma série de elementos que pretendem se contrapor às representações negativas sobre o local, salientando a importância da construção de uma identidade positiva sobre Ribeirão das Neves (SILVA, 2012). Essa campanha teve o intuito de buscar construir novas representações sobre a cidade que como mencionamos anteriormente, é reconhecida como “violenta” pelos altos índices de criminalidade. Essa 11
  12. 12. caracterização procura ser alterada através de discussões em workshop’s nos quais os participantes possam debater o tema e procurar soluções para questões que são vistas como problemas para cidade, como aquelas ligadas à juventude, aos movimentos sociais emergentes e ao próprio conceito da campanha. No evento do ano 2012, o Coletivo incorporou o “Observatório” sobre a cidade no “Pá na pedra”, uma iniciativa de alguns pesquisadores da cidade, entre eles o integrante do Coletivo e estudante da UFMG, Marcos Antonio Silva e o advogado William Ferreira e a Cientista Social Nayara Amorim. A intenção do Coletivo Semifusa e dos percussores do Observatório é criar um grupo de estudos que discuta a cidade os problemas e as soluções para esses problemas, através de pesquisas feitas por instituições ou pesquisadores sobre o local. Futuramente, a intenção é que o observatório paute políticas públicas para a cidade e contribua ou promova discussões com o poder público soluções mais viáveis, para problemas como o avanço populacional desordenado, falta de empresas no local para atender a demanda de mão-de-obra do local, espaços e oportunidades de acesso a lazer e cultura, dentre outras questões apontadas por autores que já estudaram a cidade12. Ou seja, em todas as suas ações o Coletivo busca disseminar novas práticas culturais e políticas no intuito de visualizar a cidade como um local diferente do que foi estabelecido por valores simbólicos depreciativos que pouco foram questionados pelos poderes administrativos ao longo dos anos. As discussões promovidas pelo Coletivo apontam que é importante revelar e ter consciência do problema, mas o fundamental é buscar soluções para que a cidade e seus habitantes possam reconfigurar imagens e signos que os prendem a um imaginário opressor e desvalorizante. É claro que alterar estereótipos pode demandar muito tempo, mas é necessário que isso ocorra, pois não adianta simplesmente criticar o local e não tentar reverter a situação. Esse pensamento permeia os princípios do Coletivo Semifusa, e demonstra a capacidade dos sujeitos de refletir e de desenvolver ações para alterar os quadros simbólicos que colocam a cidade e seus moradores em uma situação de ausência de reconhecimento de suas potenciais contribuições, seja no âmbito cultural, humano ou social. 12 Joseane Souza (2009), Paola Rôgedo (2010). 12
  13. 13. Para isso o Coletivo sempre busca divulgar suas ações nos meios de comunicação de massa, veículos com abrangência maior, para dar visibilidade, publicizar, reverberar seus atos, pois “a visibilidade é um recurso essencial para que os sujeitos participem de debates, proponham temas e posicionem seus interesses quanto aos temas debatidos” (HENRIQUES, p.3, 2010). O Coletivo está sempre buscando expor suas demandas e práticas, afinal as informações que fluem nas mídias “influenciam nossas percepções sobre os vários problemas abordados” (HENRIQUES, p.4, 2010). Assim “através da mídia, projetos de mobilização podem não só ganhar visibilidade pública como também expandir a constituição de um novo público em formação” (MAFRA apud HENRIQUES, P. 5, 2010). É importante destacar aqui que nem sempre maior visibilidade significa maior volume de debates e discussões acerca dos problemas definidos pelo Coletivo como dignos de serem considerados por todos. Contudo, a visibilidade envolve não só estampar ações na mídia, mas sobretudo fazer com que os participantes do Coletivo possam ser vistos como interlocutores e como parceiros de diálogos em negociações mais abrangentes, ou seja, que envolvam trocas comunicativas responsáveis por articular esferas institucionais e cívicas. O importante é salientar que a visibilidade conferida a práticas culturais do Coletivo também os permite serem reconhecidos como agentes portadores de uma palavra, capazes de expressar publicamente as injustiças que sofrem, suas demandas e reivindicações, além de justificar seu ponto de vista, procurando alterar formas arraigadas e opressoras de poder.13 3 – Semifusa e práticas políticas Ao longo de seus três anos de existência, os integrantes do Coletivo Semifusa acreditam que além de lutarem por políticas culturais que os favoreçam, têm que reivindicar 13 Nesse sentido, a grande dificuldade percebida nos eventos e na publicização da causa, ainda é a pouca visibilidade conferida aos eventos e discussões do grupo, motivos esses, que esse trabalho não tem condições de mensurar e identificar, mas que podem estar associados à falta de um meio de comunicação de massa na cidade; aos problemas geográficos de uma cidade que tem o modelo de um “arquipélago” ou os próprios problemas de identificação da população, que prefere se vincular a Belo Horizonte e não participar das decisões da cidade em que vivem, utilizando-a apenas para descanso. 13
  14. 14. alternativas para sanar outras deficiências existentes na cidade, como aquelas relacionadas a mudar o estereotipo de “cidade violenta”, ressignificando a cidade onde vivem e fazendo com que seus habitantes não sejam tratados com desprezo . Afinal o local não pode ser reduzido a “apenas” um espaço violento: há outras questões de natureza positiva, que também merecem visibilidade. O grupo assume essa postura questionadora e de resistência porque estava cansado de ver a cidade sendo tratada com desprezo pelo Estado ou mesmo pelos meios de comunicação de massa. Iniciam, portanto, um processo de busca por reconhecimento, por valorização individual e coletiva. (...) reconhecimento é, assim, considerado uma necessidade vital para os sujeitos e ultrapassa a mera tolerância ou cortesia (Taylor, 1992), visto que é fundamental para a constituição das identidades e para a percepção das pessoas como sujeitos dignos de valor e estima (GARCEZ, 2012, p. 4). O grupo sempre esteve ciente de que a cidade se expressa melhor como ator social na medida em que realiza uma articulação entre instituições políticas e sociedade civil (CASTELLS, BORJA, 1996). Essas relações entre governo e cidadãos são, em geral, pouco dialógicas e conflituosas: um tipo de conflito marcado pela dificuldade de se reconhecer o grupo como interlocutor digno de ser ouvido e atendido em suas demandas. Isso acontece porque o Estado, na maioria das vezes, atende aos mais fortes e tende a postergar (ou mesmo ignorar) os interesses dos setores mais “fracos” (ou seja, aqueles marcados pela pouca visibilidade e pela ausência de reconhecimento) ou mais desorganizados. Sabemos que os direitos são fruto de um processo de luta em que há uma forte tensão entre poderes e interesses, e que a sociedade civil precisa estabelecer formas de organização e manifestação que lhe garantam presença e voz nas esferas públicas de debate. Partindo desse pressuposto as manifestações do Coletivo Semifusa (...) se qualificam como uma atividade política numa abrangência social e cultural diferenciada daquela de que se ocupa a esfera institucional com um sentido singular não menos comprometido como instrumento de uma coletividade, o que tem um valor político claro (SOUSA, 2002, p. 3). Assim, as práticas politicas colocadas em cena pelo coletivo questionam não só as desigualdades oriundas de uma forma de opressão simbólica – que retrata Ribeirão das 14
  15. 15. Neves e seus moradores sob o signo da pobreza, da violência e da marginalidade – mas também as desigualdades comunicativas, que dificultam a percepção e o reconhecimento das pessoas como parcerias válidas de debates e diálogos voltados para a solução de problemas de interesse coletivo. Ao mesmo tempo, o coletivo questiona as formas como os espaços públicos da cidade são utilizados e o cerceamento de sua utilização para fins de divulgação da cultura, sobretudo aquela produzida por seus próprios moradores. Nesse sentido, “partimos do princípio que a desigualdade não se vê só no econômico, mas também nas distintas maneiras nas quais conhecem e se apropriam da cidade e de suas ofertas culturais” (SILVA, GONZAGA, 2005, p.3). É com base nesse pressuposto que, o grupo busca reverter esse quadro depreciativo e articular uma mudança, pois As pessoas têm uma necessidade premente de pertencimento / reconhecimento em relação à comunidade ou grupo social no qual estão inseridas. Nesse sentido, é no processo de organização em torno de projetos comuns, sobretudo projetos culturais, em que os indivíduos identificam e compartilham não só o mesmo território, mas seus interesses e necessidades, constituindo suas identidades individuais e coletivas.” (SILVA, GONZAGA, 2005, p.4 ) Essas iniciativas adotadas pelo Coletivo Semifusa estão intrinsecamente integradas à convivência e relacionamento dos integrantes com a cidade e seus múltiplos grupos. A maioria desses integrantes tem sua origem social na classe trabalhadora e negra, intensificando experiências de injúria de desrespeito ligadas à vivência cotidiana em uma cidade periférica, associada a representações negativas e desvalorizantes. Segundo os próprios integrantes, eles são a “periferia da periferia”, pois moram numa cidade com essas características e ainda não fazem parte das famílias tradicionais do local, a maioria deles não nasceu na cidade, mas a adotou como sua a partir de algum momento da vida, provavelmente por influencia dos pais que ali vieram morar (SILVA, 2012). Nem sempre grupos e coletivos dão origem a movimentos sociais capazes de desencadear lutas políticas, de questionar e mudar sanções sociais e políticas. Contudo, assim como os movimentos sociais14, é possível dizer que o Coletivo Semifusa traduz 14 Segundo Melucci, três características são necessárias para identificar um movimento social como fenômeno empírico e como categoria de análise: a) “um movimento é a mobilização de um ator coletivo, definido por uma solidariedade específica, b) que manifesta um conflito (luta contra um adversário para a apropriação e controle de recursos valorizados por ambos) e c) e leva esse conflito para além dos limites 15
  16. 16. questões específicas para a coletividade, colocando um problema para toda a sociedade, desafiando a legitimidade de algumas políticas públicas, descortinando ações consideradas injustas e configurando estratégias de ação que ultrapassam as redes submersas da vida cotidiana para alcançar esferas públicas híbridas de conflito entre o poder administrativo e os cidadãos, dando visibilidade ao conflito, traduzindo o que era pontual em algo mais coletivo e abrangente. Para exemplificar isso, no ano de 2012, o grupo criou uma pauta de políticas públicas referente à cultura e solicitou que a Prefeita eleita assumisse o compromisso com essas políticas ressaltadas por eles. Através dessas diferentes ações culturais, que são permeadas por questões políticas, o Coletivo e suas redes, “têm desmitificado a cultura política que insiste em fortalecer os interesses individuais e de grupos afirmando o alcance da segurança e proteção social através das instituições e das suas leis” (SOUSA, 2002, p. 10). Levando em consideração que a “mobilização não significa levar multidões as ruas”, o Coletivo Semifusa tem conseguido articular “uma rede de pequenos grupos imersos na vida cotidiana que requerem um envolvimento pessoal na experimentação e na prática da inovação cultural (MELUCCI, 1989, p.61). A mobilização existe quando todo um conjunto de reeditores15, em seu trabalho cotidiano, está tomando decisões, desenvolvendo discursos e atuando em função de um imaginário” (MELUCCI apud HENRIQUES, 2010, p.4). O Coletivo Semifusa age como reeditor em Ribeirão das Neves sob o viés que perpassa pela cultura e tem o intuito de trazer uma discussão diferente, pois propõe trazer à tona os problemas da cidade e juntamente articular as mudanças e como elas podem ocorrer na cidade sede do Coletivo. Desse modo, as ações culturais e políticas do coletivo denotam um novo panorama na cidade, uma “voz dos excluídos”, seja através de um show, seja em um sarau, ou até em debate sobre a cidade, o Coletivo quer propor uma demanda de reconhecimento para Ribeirão das Neves e seus habitantes no sentido de devolver a auto-estima aos jovens (gerando um local melhor para sua existência e seu desenvolvimento), através da do sistema de relações sociais a que a ação se destina (rompe as regras do jogo, propõe objetivos não negociáveis, coloca em questão a legitimidade do poder, etc) (2001, p.35). 15 O autor chama de reeditores todas as pessoas que possuem um público próprio sobre o qual têm influência (não necessariamente lideranças formais). É uma “pessoa que pode negar, transformar, introduzir ou criar sentidos frente ao seu público” (TORO, 1996, p. 32). 16
  17. 17. valorização da cultura e das artes e apontando a eles que os caminhos para a mudança exigem luta, conflito e disposição para o diálogo. Considerações finais Diante do que foi apresentado anteriormente, é possível dizer que o Coletivo Semifusa se destaca, por seu viés “mobilizador” e sua dinâmica “político-cultural” de ação e intervenção na cidade. Vimos que o grupo conseguiu mobilizar na cidade em 2012 instaurando um debate político com os candidatos à Prefeitura da cidade, no intuito de dar condições à população para decidir qual candidato ela optaria nas urnas. Outra ação importante, foi a produção de um “manifesto”, que foi chamado pelo grupo de “Proposta à próxima gestão”, que tinha exatamente o intuito de indicar ao futuro prefeito as ações que o grupo consideraria relevantes para sua causa, no caso a Cultura como viés. O manifesto foi assinado pela candidata à Prefeitura do PT, Daniela Corrêa pouco antes das eleições, a candidata foi eleita, o que motivou o grupo cada vez mais a continuar o trabalho, por considerar que terão apoio maior na próxima gestão. O Coletivo acima de tudo, quer fazer política através da cultura, por acreditar que ela permeia a vida social, e pode ser uma fator preponderante para termos uma sociedade mais justa e humana, ao dar condições para um indivíduo “marginalizado” ou, como menciona Garcez (2012), sem “reconhecimento” a ter acesso ou mesmo produzir arte. Por isso a cultura é vista pelo Coletivo acima de tudo como um mobilizador social. Podemos destacar essas ações e os eventos, bem como a tentativa de publicizar os pontos positivos de Ribeirão das Neves como uma “constituição de causas de interesse público” (HENRIQUES, p. 1, 2010). Henriques (2010) ressalta que, para que haja uma mobilização pública em torno de problemas coletivos é preciso que o grupo, nesse caso o Coletivo Semifusa, apresente questões que se enquadrem em algumas características importantes como: concretude; caráter público, viabilidade e sentido amplo. O Coletivo consegue propor questões e temas para reflexão pública que englobem essas características, sobretudo se considerar seus eventos e ações cotidianas, ao trazer para 17
  18. 18. diálogo os problemas da cidade e ouvir os moradores para que ele ajude a definir e a expressarem um problema concreto; expõe o caráter público dos problemas de Ribeirão das Neves e incentiva a formação de esferas públicas de discussão ao gerar argumentos para a solução dos mesmos. O Coletivo constrói assim um processo mobilizador, que insere as questões “num quadro de valores mais amplo, como ‘qualidade de vida’, ‘justiça’, ‘paz’, etc, o que tende a facilitar o compartilhamento de ideias e a criar um horizonte mais amplo no qual a luta conjunta faz sentido para os que dela participam” (HENRIQUES, p. 8, 2010). A partir disso, podemos considerar o Coletivo Semifusa como, um grupo organizado, mobilizador e articulador de políticas e lutas. Pois, à medida que os sujeitos passam a articular suas experiências como um problema de um grupo inteiro, por meio de uma semântica compartilhada entre aqueles que vivenciam experiências semelhantes, desenvolvem sua autonomia pessoal e política (Honneth, 2003a). Esse elo suficientemente forte para estabelecer uma identidade coletiva, traz possibilidade de engajamento cívico dos próprios concernidos em direção às suas lutas por reconhecimento (GARCEZ, 2012, p.18). O Coletivo Semifusa tem um intuito bem definido, fazer, ao lado dos seus parceiros, Ribeirão das Neves um local melhor para todos; além de conseguir produzir uma identificação maior da população com a cidade, desvinculando-se de um conjunto de representações negativas tão impregnados no local ao longo dos anos. Afinal, “as associações e movimentos, em grande parte dos casos, são organizadas exatamente por sujeitos que lutam por reconhecimento e representam sujeitos que, supostamente, experimentam os mesmos prejuízos morais” (GARCEZ, 2012, p.10). Ao se apropriarem das novas tecnologias, Coletivos culturais como o Semifusa procuram expandir suas demandas e conferir maior alcance às suas questões buscando parceiros de discussão, pois a “internet, em sua diversidade, é um espaço potencialmente democrático e permite a emergência de representações não eleitorais que podem, de alguma maneira, trazer a público questões antes invisibilizadas” (GARCEZ, 2012, p.12). Referências bibliográficas 18
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