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Cidades pela retoma público

Notícia sobre 'Cidades pela Retoma' no Público 27FEV 2011

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4 • Cidades • Domingo 27 Fevereiro 2011




 Cidadania
 Provocações em formato low cost

 a O mundo actual está cheio                                                  Sarkozy. Ou nomes mais próximos
 de exemplos de como se cria              Cinco passos                        dos portugueses, como Ernâni
 inquietação a partir da Internet e é     para uma agenda                     Lopes e Augusto Mateus.
 precisamente isso que o movimento                                               As sementes do movimento
 cívico Cidades Pela Retoma quer                                              Cidades Pela Retoma foram lançadas
 promover.                                Aderir ao movimento e exercer       por José Carlos Mota. É a partir
    São académicos que não usam           cidadania requer, igualmente,       de Aveiro que este especialista
 fato e gravata, pelo menos à hora em     mobilização e participação. E       em planeamento do território e
 que exercem as suas provocações          também alguma organização,          docente universitário vai agitando
 cívicas num teclado de computador.       pelo que estão definidos cinco      consciências. “O movimento nasceu
 Não gritam, não são contestatários,      passos que podem conduzir           no quadro de um conjunto de
 pesquisam, reflectem, lançam              à elaboração de uma agenda          dinâmicas cívicas e de profissionais
 bases de discussão e propõem algo        local, no âmbito do “Cidades pela   ligados à investigação em
 de novo para as suas cidades. Vão        Retoma”.                            planeamento do território para
 agarrando ideias na blogosfera,                                              reflexão sobre as cidades e o seu
 numa base de baixo custo, desde          1. Siga a campanha através          papel no desenvolvimento do país”,
 que elas melhorem a qualidade de         do site noeconomicrecovery          explica Mota.
 vida dos cidadãos.                       withoutcities.blogs.sapo.              Muitos outros projectos
    O número de aderentes a este          pt, no Facebook (facebook.          fazem ou fizeram o mesmo no
 movimento já vai na ordem dos            com/cidadespelaretoma) ou           estrangeiro: o Core Cities, focado
 milhares, incluindo 64 plataformas       inscrevendo-se na mailing           no desenvolvimento das cidades
 cívicas nacionais. Juntaram-se           list (groups.google.pt/group/       inglesas; nos Estados Unidos, o
 numa rede de blogues e sites – a         cidadespelaretoma).                 Emerald Cities, que mais não é do
 Global City 2.0 – para pensarem de                                           que uma ampla coligação nacional
 forma colectiva o futuro dos locais      2. Organize um grupo. Marque        em que se misturam sindicatos,
 onde vivem e trabalham. Nesta            um encontro preliminar com          grupos cívicos, especialistas,
 “esquina” da Internet encontram-         pessoas da mesma cidade. É          políticos preocupados em definir
 se 230 blogues, de 15 países, a          importante levar conhecimento       estratégias para tornar as nossas
 que se juntaram nove parceiros           técnico e científico para o         cidades e metrópoles mais verdes.
 institucionais.                          processo de reflexão. Cative           Só isto chegaria para dar voz
    A voz vai, portanto, engrossando      alguém dos quadrantes de            ao que, globalmente, já está
 e tende a contrariar uma certa           economia, cultura, terceiro         sublinhado: “Não há recuperação
 surdez sempre que se fala na palavra     sector, ensino, saúde, política     económica sem as cidades.”
 “cidadania”. “Os benefícios de um        e media que possam ajudar no        Barack Obama, Presidente dos
 processo de inquietação colectiva        lançamento da ideia.                Estados Unidos, terá pensado
 podem ser múltiplos: cria a                                                  o mesmo quando criou, na sua
 oportunidade de conhecer melhor a        3. Crie um blogue/site para         Administração, o gabinete de
 agenda de preocupações que outros        informar a comunidade sobre a       estudos urbanos.
 países estão a construir e com as        ideia.
 quais podemos aprender. Podemos                                              Tirar partido da web
 identificar recursos e potenciais         4. Promova conversas                O movimento luso também se
 desconhecidos e lançar desafios           informais sobre o papel da          concentra em particular nos
 para encontrar iniciativas de baixo      cidade na retoma.                   “instrumentos de política pública
 custo e alto valor acrescentado                                              de cidades – como parcerias para a
 de execução e efeito rápido e            5. Produza uma agenda local         regeneração urbana – e o seu papel
 visível e que possam animar a vida       para a retoma económica e a         na retoma económica”, salienta
 económica e social das nossas            animação social da cidade.          José Carlos Mota, especificando que
 cidades. Uma acção que pode ajudar                                           “a informalidade do movimento
 a combater algum marasmo cívico                                              advém do facto de a sua génese ser
 e ajudar a mudar o quadro mental                                             cívica e estar ligada à necessidade de
 muito caracterizado por um ‘deixar                                           mobilização de reflexão colectiva”.
 andar’”, explica um dos rostos deste                                         Tudo isto “tirando partido das novas
 movimento, José Carlos Mota.             IDM http://www.                     tecnologias, como a Internet”, e as
                                          drummajorinstitute.org              novas ferramentas de comunicação,
 Referências abrangentes                  Emerald Cities http://www.          como os blogues e as redes sociais,
 As referências são muito                 emeraldcities.org                   descreve.
 abrangentes. Nomes como o do             Core Cities http://www.                Mais a norte, está Miguel Barbot,
 pastor protestante Martin Luther         corecities.com/home                 consultor na Sociedade Portuguesa
 King Jr., o activista dos direitos       AcdPorto http://networkedblogs.     de Inovação, formado pelo Instituto
 cívicos norte-americano assassinado      com/anEmX                           de Estudos Superiores Financeiros e
 em 1968. Ou um documento                 Faro1540 www.faro1540.org           Fiscais do Porto. É um dos activistas
 estratégico assinado pelo actual         C.F.                                da Associação de Cidadãos do
 Presidente da França, Nicolas                                                Porto, constituído por profissionais
Cidades • Domingo 27 Fevereiro 2011 • 5




Gente de todas as áreas e profissões está a unir-se num novo movimento chamado Cidades Pela
Retoma. São activistas em ambiente digital que tentam agitar as consciências dos decisores.
Dispensam o fato e a gravata, não dizem mal, estão é atentos, observam tendências, e não tiram
os olhos das medidas de baixo custo que podem dar altos lucros em termos de qualidade
de vida. Será que alguém os ouve? Por Carlos Filipe (textos) e Nuno Saraiva (ilustração)


para melhorar as nossas cidades

                                                                            criativos de áreas tão diversas como
                                                                            a economia, gestão, marketing,
                                                                            sistemas de informação, direito,
                                                                            design ou arquitectura. “É o que
                                                                            nos permite construir e oferecer
                                                                            ideias, em vez de nos limitarmos a
                                                                            protestar”, explica Miguel Barbot,
                                                                            que descreve a ACdP como uma
                                                                            organização informal e aberta a
                                                                            todos os cidadãos preocupados
                                                                            com o futuro da cidade e da Região
                                                                            Norte.

                                                                            Cultura conservadora
                                                                            A gestão autónoma do Aeroporto Sá
                                                                            Carneiro, no Porto, foi a causa que
                                                                            serviu de ponto de partida para este
                                                                            grupo, que defendia um modelo
                                                                            baseado nos princípios da economia
                                                                            social. Os proveitos da exploração
                                                                            do aeroporto seriam investidos para
                                                                            pagar o investimento privado já
                                                                            realizado e todos os lucros seriam
                                                                            canalizados para projectos na
                                                                            região, com o duplo objectivo de
                                                                            apoiar o crescimento do aeroporto
                                                                            e de apoiar socialmente populações
                                                                            mais carenciadas. “Todas as
                                                                            ideias da ACdP são baseadas neste
                                                                            princípio: pensar em soluções
                                                                            criativas com forte impacto
                                                                            económico e social”, sustenta
                                                                            Miguel Barbot.
                                                                               No contexto actual, “a agenda
                                                                            política nacional e local tem
                                                                            de se centrar rapidamente nos
                                                                            instrumentos e meios de promoção
                                                                            do desenvolvimento económico e
                                                                            ainda acentuar a necessidade de
                                                                            pensar como o podemos fazer de
                                                                            forma colectiva”, afirmava esta
                                                                            associação portuense, no fim de
                                                                            um debate realizado em Novembro
                                                                            de 2010. Porém, é mais fácil
                                                                            enunciar do que fazer – inquietar
                                                                            é simples, difícil é criar a partir
                                                                            dessa inquietação –, e por essa
                                                                            razão o grupo já fazia então uma
                                                                            ressalva: “Há que ter em conta
                                                                            uma certa cultura conservadora e
                                                                            pouco avessa à mudança.” Falava-se
                                                                            obviamente dos portugueses.
                                                                               O número 1540 é o ano em que
                                                                            Faro foi elevada a cidade. Desde
                                                                            2009, faz também parte do nome
                                                                            da associação Faro 1540, que se
                                                                            empenha na defesa e promoção do
                                                                            património ambiental e cultural.
                                                                               Conta Bruno Lage, engenheiro
                                                                            do Ambiente e mestre em Gestão
                                                                            e Políticas Ambientais, que “a
                                                                            melhoria substancial do grau de
                                                                            formação dos portugueses” e “o c
6 • Cidades • Domingo 27 Fevereiro 2011
                                                                                                               PAULO PIMENTA
 despertar do conceito de cidadania”
 mobilizaram “a participação
 alargada dos cidadãos na gestão e
 desenvolvimento da sua cidade”.
 Isso, acrescenta Bruno Lage, “não
 só ajudará a corrigir erros e falhas
 técnicas de determinados projectos,
 programas ou planos, como
 permitirá que surjam alternativas”.
    Em Aveiro, José Carlos Mota
 diz que o trabalho na Escola de
 Planeamento Territorial ligada
 à universidade foi uma fonte
 de experiências internacionais
 inspiradoras, que acabaram por
 alimentar o movimento Cidades
 Pela Retoma. Está tudo na Internet,
 pejado de documentos com
 orientações de política pública.                                                        José Carlos Mota (Aveiro)
                                                                                                     FERNANDO VELUDO/NFACTOS
 O Instituto Drum Major (IDM),
 uma respeitada associação cívica
 de Nova Iorque, é uma dessas
 referências. “Apartidária, think
 tank não lucrativo e geradora de
 ideias que alimentam o movimento
 progressista”, o IDM tem como
 farol ideológico Martin Luther King
 Jr. Fundada por Harry Watchel,
 advogado e conselheiro daquele
 antigo líder do movimento que lutou
 pelos direitos cívicos da população
 nos Estados Unidos, o IDM foi
 refundado pelos filhos de ambos,
 William Wachtel e Martin Luther
 King III. Ao seu trabalho se dirigiu,
 com reverência, outro antigo
 Presidente norte-americano, Bill
 Clinton – “uma prioridade urgente                                                           Miguel Barbot (Porto)
 para a nação”.                                                                                                   VASCO CÉLIO


    Os relatórios do IDM destinam-
 se a evidenciar as políticas que
 fragilizam as classes desfavorecidas.
 No caso de Nova Iorque, uma
 análise da política urbana ainda
 recente identificou problemas
 graves que conduzem a um impasse
 no seu desenvolvimento. Por
 exemplo, durante a propagação
 do vírus H1N1 (gripe A), um milhão
 de trabalhadores de Nova Iorque
 não beneficiou de um só dia de
 trabalho pago, quando eles ou
 algum familiar foram afectados pela
 doença. Daí resultou um tombo
 na produtividade e aumentou-se a
 possibilidade de contágio. Na Costa
 Leste dos EUA, em São Francisco,
 fez-se precisamente o contrário – e                                                             Bruno Lage (Faro)
 a comunidade empresarial não se
 queixou de ter sido prejudicada.         Comissão para a Libertação do          tese e referiu que as regiões e as
    Nova Iorque gasta por ano             Crescimento Francês foi composta       cidades terão um papel principal
 milhões de dólares com subsídios         por dezenas de personalidades,         na estratégia UE-2020, para a qual
 ou isenções de taxas para empresas       dos mais variados quadrantes. A        deve ser já iniciada uma agenda de
 privadas desde que estas assumam         liderança foi entregue a Jacques       reforma para encorajar uma nova
 que não vão mudar de cidade.             Attali, escritor, membro do            economia, que se quer inteligente,
 Aparentemente, esta ideia parece         Conselho de Estado, presidente da      ecológica e mais inclusiva”.
 uma lógica imbatível, uma política       PlaNet Finance, organização não           José Carlos Mota insiste que
 defensável, porém, os resultados         lucrativa que assiste instituições     “as cidades – pensadas em rede –
 foram efeitos perversos, como            em 80 países com programas de          têm um potencial interessante de
 concluiu o IDM: Nova Iorque passou       microcrédito.                          articulação de novas abordagens. O
 a subsidiar trabalho precário e                                                 que falta é uma visão que articule
 poucos postos de trabalho novos.         Cidadãos na liderança                  as diferentes políticas em torno
    Em Inglaterra, a união de             Mas que ligações podem todas           desta nova dimensão e que eleve
 vozes, mesmo que algumas sejam           aquelas medidas ter quando             as cidades à categoria de desígnio
 institucionais, ganha importante         centradas na escala portuguesa? O      estratégico”.
 poder de reflexão (e reivindicativo)      que é isso das Cidades Pela Retoma        Mota defende que “a ideia da
 com a plataforma Core Cities, uma        no cenário nacional? Qual o papel      criação de uma agenda local para
 associação de oito municípios e dos      dos decisores? E que benefícios daí    a retoma parece interessante e
 seus presidentes – Birmingham,           podem recolher as comunidades          mobilizadora”. “O esforço inicial
 Bristol, Leeds, Liverpool,               urbanas? José Carlos Mota coloca-as    está dirigido para criar e alimentar
 Manchester, Newcastle, Nottingham        em perspectiva e identifica outros      uma troca de informação entre
 e Sheffield – para a promoção do seu       actores:                               grupos cívicos. Talvez se justifique
 crescimento. Dialoga com Londres,           “Em 2006, o prof. Ernâni Lopes      que o poder local pudesse assumir
 a fim de criar o melhor ambiente          [1942-2010, economista e antigo        esta bandeira como uma prioridade.
 económico, na certeza de que são         ministro das Finanças] sugeriu que     Mas isso não deve inibir o papel
 aquelas cidades que criam a sua          os agentes económicos, sociais e       (liderança ou controlo) dos cidadãos
 própria agenda, e não os gabinetes       culturais deveriam ter coragem para    no processo.
 ministeriais.                            reinventar a economia e o próprio         No Porto, Miguel Barbot destaca
    Em França, o Presidente Sarkozy       país, e que essa reinvenção tinha um   que “os autarcas serão em breve
 e o primeiro-ministro François           terreno privilegiado em áreas como     os políticos mais decisivos, face à
 Fillon não hesitaram em recorrer         o turismo, o ambiente, os serviços     importância das cidades enquanto
 à sociedade civil quando, há um          de valor acrescentado e as cidades.    catalisadores independentes de
 ano, em plena crise, pediram que         Mais recentemente, o comissário        factores e fenómenos económicos,
 se identificasse a melhor forma           europeu da política regional,          sociais e culturais decisivos para o
 de libertar o país desse peso. A         Johannes Hahn, sustentou a mesma       desenvolvimento dos países”.
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  • 1. 4 • Cidades • Domingo 27 Fevereiro 2011 Cidadania Provocações em formato low cost a O mundo actual está cheio Sarkozy. Ou nomes mais próximos de exemplos de como se cria Cinco passos dos portugueses, como Ernâni inquietação a partir da Internet e é para uma agenda Lopes e Augusto Mateus. precisamente isso que o movimento As sementes do movimento cívico Cidades Pela Retoma quer Cidades Pela Retoma foram lançadas promover. Aderir ao movimento e exercer por José Carlos Mota. É a partir São académicos que não usam cidadania requer, igualmente, de Aveiro que este especialista fato e gravata, pelo menos à hora em mobilização e participação. E em planeamento do território e que exercem as suas provocações também alguma organização, docente universitário vai agitando cívicas num teclado de computador. pelo que estão definidos cinco consciências. “O movimento nasceu Não gritam, não são contestatários, passos que podem conduzir no quadro de um conjunto de pesquisam, reflectem, lançam à elaboração de uma agenda dinâmicas cívicas e de profissionais bases de discussão e propõem algo local, no âmbito do “Cidades pela ligados à investigação em de novo para as suas cidades. Vão Retoma”. planeamento do território para agarrando ideias na blogosfera, reflexão sobre as cidades e o seu numa base de baixo custo, desde 1. Siga a campanha através papel no desenvolvimento do país”, que elas melhorem a qualidade de do site noeconomicrecovery explica Mota. vida dos cidadãos. withoutcities.blogs.sapo. Muitos outros projectos O número de aderentes a este pt, no Facebook (facebook. fazem ou fizeram o mesmo no movimento já vai na ordem dos com/cidadespelaretoma) ou estrangeiro: o Core Cities, focado milhares, incluindo 64 plataformas inscrevendo-se na mailing no desenvolvimento das cidades cívicas nacionais. Juntaram-se list (groups.google.pt/group/ inglesas; nos Estados Unidos, o numa rede de blogues e sites – a cidadespelaretoma). Emerald Cities, que mais não é do Global City 2.0 – para pensarem de que uma ampla coligação nacional forma colectiva o futuro dos locais 2. Organize um grupo. Marque em que se misturam sindicatos, onde vivem e trabalham. Nesta um encontro preliminar com grupos cívicos, especialistas, “esquina” da Internet encontram- pessoas da mesma cidade. É políticos preocupados em definir se 230 blogues, de 15 países, a importante levar conhecimento estratégias para tornar as nossas que se juntaram nove parceiros técnico e científico para o cidades e metrópoles mais verdes. institucionais. processo de reflexão. Cative Só isto chegaria para dar voz A voz vai, portanto, engrossando alguém dos quadrantes de ao que, globalmente, já está e tende a contrariar uma certa economia, cultura, terceiro sublinhado: “Não há recuperação surdez sempre que se fala na palavra sector, ensino, saúde, política económica sem as cidades.” “cidadania”. “Os benefícios de um e media que possam ajudar no Barack Obama, Presidente dos processo de inquietação colectiva lançamento da ideia. Estados Unidos, terá pensado podem ser múltiplos: cria a o mesmo quando criou, na sua oportunidade de conhecer melhor a 3. Crie um blogue/site para Administração, o gabinete de agenda de preocupações que outros informar a comunidade sobre a estudos urbanos. países estão a construir e com as ideia. quais podemos aprender. Podemos Tirar partido da web identificar recursos e potenciais 4. Promova conversas O movimento luso também se desconhecidos e lançar desafios informais sobre o papel da concentra em particular nos para encontrar iniciativas de baixo cidade na retoma. “instrumentos de política pública custo e alto valor acrescentado de cidades – como parcerias para a de execução e efeito rápido e 5. Produza uma agenda local regeneração urbana – e o seu papel visível e que possam animar a vida para a retoma económica e a na retoma económica”, salienta económica e social das nossas animação social da cidade. José Carlos Mota, especificando que cidades. Uma acção que pode ajudar “a informalidade do movimento a combater algum marasmo cívico advém do facto de a sua génese ser e ajudar a mudar o quadro mental cívica e estar ligada à necessidade de muito caracterizado por um ‘deixar mobilização de reflexão colectiva”. andar’”, explica um dos rostos deste Tudo isto “tirando partido das novas movimento, José Carlos Mota. IDM http://www. tecnologias, como a Internet”, e as drummajorinstitute.org novas ferramentas de comunicação, Referências abrangentes Emerald Cities http://www. como os blogues e as redes sociais, As referências são muito emeraldcities.org descreve. abrangentes. Nomes como o do Core Cities http://www. Mais a norte, está Miguel Barbot, pastor protestante Martin Luther corecities.com/home consultor na Sociedade Portuguesa King Jr., o activista dos direitos AcdPorto http://networkedblogs. de Inovação, formado pelo Instituto cívicos norte-americano assassinado com/anEmX de Estudos Superiores Financeiros e em 1968. Ou um documento Faro1540 www.faro1540.org Fiscais do Porto. É um dos activistas estratégico assinado pelo actual C.F. da Associação de Cidadãos do Presidente da França, Nicolas Porto, constituído por profissionais
  • 2. Cidades • Domingo 27 Fevereiro 2011 • 5 Gente de todas as áreas e profissões está a unir-se num novo movimento chamado Cidades Pela Retoma. São activistas em ambiente digital que tentam agitar as consciências dos decisores. Dispensam o fato e a gravata, não dizem mal, estão é atentos, observam tendências, e não tiram os olhos das medidas de baixo custo que podem dar altos lucros em termos de qualidade de vida. Será que alguém os ouve? Por Carlos Filipe (textos) e Nuno Saraiva (ilustração) para melhorar as nossas cidades criativos de áreas tão diversas como a economia, gestão, marketing, sistemas de informação, direito, design ou arquitectura. “É o que nos permite construir e oferecer ideias, em vez de nos limitarmos a protestar”, explica Miguel Barbot, que descreve a ACdP como uma organização informal e aberta a todos os cidadãos preocupados com o futuro da cidade e da Região Norte. Cultura conservadora A gestão autónoma do Aeroporto Sá Carneiro, no Porto, foi a causa que serviu de ponto de partida para este grupo, que defendia um modelo baseado nos princípios da economia social. Os proveitos da exploração do aeroporto seriam investidos para pagar o investimento privado já realizado e todos os lucros seriam canalizados para projectos na região, com o duplo objectivo de apoiar o crescimento do aeroporto e de apoiar socialmente populações mais carenciadas. “Todas as ideias da ACdP são baseadas neste princípio: pensar em soluções criativas com forte impacto económico e social”, sustenta Miguel Barbot. No contexto actual, “a agenda política nacional e local tem de se centrar rapidamente nos instrumentos e meios de promoção do desenvolvimento económico e ainda acentuar a necessidade de pensar como o podemos fazer de forma colectiva”, afirmava esta associação portuense, no fim de um debate realizado em Novembro de 2010. Porém, é mais fácil enunciar do que fazer – inquietar é simples, difícil é criar a partir dessa inquietação –, e por essa razão o grupo já fazia então uma ressalva: “Há que ter em conta uma certa cultura conservadora e pouco avessa à mudança.” Falava-se obviamente dos portugueses. O número 1540 é o ano em que Faro foi elevada a cidade. Desde 2009, faz também parte do nome da associação Faro 1540, que se empenha na defesa e promoção do património ambiental e cultural. Conta Bruno Lage, engenheiro do Ambiente e mestre em Gestão e Políticas Ambientais, que “a melhoria substancial do grau de formação dos portugueses” e “o c
  • 3. 6 • Cidades • Domingo 27 Fevereiro 2011 PAULO PIMENTA despertar do conceito de cidadania” mobilizaram “a participação alargada dos cidadãos na gestão e desenvolvimento da sua cidade”. Isso, acrescenta Bruno Lage, “não só ajudará a corrigir erros e falhas técnicas de determinados projectos, programas ou planos, como permitirá que surjam alternativas”. Em Aveiro, José Carlos Mota diz que o trabalho na Escola de Planeamento Territorial ligada à universidade foi uma fonte de experiências internacionais inspiradoras, que acabaram por alimentar o movimento Cidades Pela Retoma. Está tudo na Internet, pejado de documentos com orientações de política pública. José Carlos Mota (Aveiro) FERNANDO VELUDO/NFACTOS O Instituto Drum Major (IDM), uma respeitada associação cívica de Nova Iorque, é uma dessas referências. “Apartidária, think tank não lucrativo e geradora de ideias que alimentam o movimento progressista”, o IDM tem como farol ideológico Martin Luther King Jr. Fundada por Harry Watchel, advogado e conselheiro daquele antigo líder do movimento que lutou pelos direitos cívicos da população nos Estados Unidos, o IDM foi refundado pelos filhos de ambos, William Wachtel e Martin Luther King III. Ao seu trabalho se dirigiu, com reverência, outro antigo Presidente norte-americano, Bill Clinton – “uma prioridade urgente Miguel Barbot (Porto) para a nação”. VASCO CÉLIO Os relatórios do IDM destinam- se a evidenciar as políticas que fragilizam as classes desfavorecidas. No caso de Nova Iorque, uma análise da política urbana ainda recente identificou problemas graves que conduzem a um impasse no seu desenvolvimento. Por exemplo, durante a propagação do vírus H1N1 (gripe A), um milhão de trabalhadores de Nova Iorque não beneficiou de um só dia de trabalho pago, quando eles ou algum familiar foram afectados pela doença. Daí resultou um tombo na produtividade e aumentou-se a possibilidade de contágio. Na Costa Leste dos EUA, em São Francisco, fez-se precisamente o contrário – e Bruno Lage (Faro) a comunidade empresarial não se queixou de ter sido prejudicada. Comissão para a Libertação do tese e referiu que as regiões e as Nova Iorque gasta por ano Crescimento Francês foi composta cidades terão um papel principal milhões de dólares com subsídios por dezenas de personalidades, na estratégia UE-2020, para a qual ou isenções de taxas para empresas dos mais variados quadrantes. A deve ser já iniciada uma agenda de privadas desde que estas assumam liderança foi entregue a Jacques reforma para encorajar uma nova que não vão mudar de cidade. Attali, escritor, membro do economia, que se quer inteligente, Aparentemente, esta ideia parece Conselho de Estado, presidente da ecológica e mais inclusiva”. uma lógica imbatível, uma política PlaNet Finance, organização não José Carlos Mota insiste que defensável, porém, os resultados lucrativa que assiste instituições “as cidades – pensadas em rede – foram efeitos perversos, como em 80 países com programas de têm um potencial interessante de concluiu o IDM: Nova Iorque passou microcrédito. articulação de novas abordagens. O a subsidiar trabalho precário e que falta é uma visão que articule poucos postos de trabalho novos. Cidadãos na liderança as diferentes políticas em torno Em Inglaterra, a união de Mas que ligações podem todas desta nova dimensão e que eleve vozes, mesmo que algumas sejam aquelas medidas ter quando as cidades à categoria de desígnio institucionais, ganha importante centradas na escala portuguesa? O estratégico”. poder de reflexão (e reivindicativo) que é isso das Cidades Pela Retoma Mota defende que “a ideia da com a plataforma Core Cities, uma no cenário nacional? Qual o papel criação de uma agenda local para associação de oito municípios e dos dos decisores? E que benefícios daí a retoma parece interessante e seus presidentes – Birmingham, podem recolher as comunidades mobilizadora”. “O esforço inicial Bristol, Leeds, Liverpool, urbanas? José Carlos Mota coloca-as está dirigido para criar e alimentar Manchester, Newcastle, Nottingham em perspectiva e identifica outros uma troca de informação entre e Sheffield – para a promoção do seu actores: grupos cívicos. Talvez se justifique crescimento. Dialoga com Londres, “Em 2006, o prof. Ernâni Lopes que o poder local pudesse assumir a fim de criar o melhor ambiente [1942-2010, economista e antigo esta bandeira como uma prioridade. económico, na certeza de que são ministro das Finanças] sugeriu que Mas isso não deve inibir o papel aquelas cidades que criam a sua os agentes económicos, sociais e (liderança ou controlo) dos cidadãos própria agenda, e não os gabinetes culturais deveriam ter coragem para no processo. ministeriais. reinventar a economia e o próprio No Porto, Miguel Barbot destaca Em França, o Presidente Sarkozy país, e que essa reinvenção tinha um que “os autarcas serão em breve e o primeiro-ministro François terreno privilegiado em áreas como os políticos mais decisivos, face à Fillon não hesitaram em recorrer o turismo, o ambiente, os serviços importância das cidades enquanto à sociedade civil quando, há um de valor acrescentado e as cidades. catalisadores independentes de ano, em plena crise, pediram que Mais recentemente, o comissário factores e fenómenos económicos, se identificasse a melhor forma europeu da política regional, sociais e culturais decisivos para o de libertar o país desse peso. A Johannes Hahn, sustentou a mesma desenvolvimento dos países”.