Versátil, macaúba chega à aviação
DESCOBERTA ||| CULTURA
Inaê Miranda
DA AGÊNCIA ANHANGUERA
inae.miranda@rac.com.br
Uma planta nativa e dez vezes
mais produtiva que a soja, a
macaúba vem despertando a
atenção dos pesquisadores bra-
sileiros, o interesse da indústria
e do setor empresarial de avia-
ção. Rica em ácido oleico e áci-
dos graxos — propriedades es-
senciais para uso na área cos-
mética e no processo de produ-
ção de biocombustíveis avança-
dos —, a palmeira também pro-
mete ser uma solução para a re-
cuperação de áreas de pasta-
gem degradadas e ampliação
da renda no setor agropecuá-
rio. O Instituto Agronômico de
Campinas (IAC) e o Laborató-
rio Nacional de Ciência e Tec-
nologia do Bioetanol (CTBE) se
debruçam sobre a palmeira
com o objetivo de avançar nos
desafios que ainda cercam esta
cultura. Campinas sedia hoje
um evento que vai discutir as
oportunidades e desafios da
palmeira.
Estudioso da macaúba des-
de 2007, o pesquisador Carlos
Colombo, do IAC, diz não ter
dúvidas dos potenciais e da ver-
satilidade da planta, que, entre
outras denominações, também
é conhecida como bocaiúva,
macaúva, coco-de-catarro, co-
co-de-espinho. Segundo ele, a
macaúba produz muito óleo,
tanto em sua polpa quanto na
amêndoa. “O teor de óleo da
polpa é maior que o da amên-
doa. Chega a ter 70% a 85 % de
ácido oleico na composição do
óleo. Isso é espetacular para a
produção de biodiesel e para
alimentação”, diz. O óleo da
amêndoa também é de cadeia
de carbono mais curta e con-
tém ácido láurico, importante
para a produção de cosmético.
Além disso, a polpa é apreciada
na gastronomia e contém pro-
priedades alimentares ricas.
“A planta é extremamente
produtiva. Se comparar com a
soja, que você consegue tirar
por volta de 400 quilos de óleo
em um hectare, a macaúba, co-
locando-se umas 400 plantas
por hectare, você chega a 5 mil
quilos de óleo”, afirma. Outra
vantagem em relação à macaú-
ba, é que é uma planta nativa
da América, ocorrendo princi-
palmente no Brasil. “Ocorre do
México ao Norte da Argentina.
Ocorre muito na região central
do Brasil e região de serrado, es-
pontaneamente. Significa dizer
que planta tem potencial de
áreas climáticas de cultivo ex-
tremamente elástica e que po-
de ser cultivada em todos esses
ambientes em que ela ocorre.
É uma vantagem grande em re-
lação ao dendê, por exemplo,
que pode ser cultivado apenas
na faixa do Equador.”
Aviação
Mateus Chagas, pesquisador
do CTBE, acrescenta que a ma-
caúba é o fruto que deve revolu-
cionar a produção de óleo na
indústria de biocombustíveis
avançados — de aviação — e
também na alimentícia. A prin-
cipal aplicação hoje é em cos-
méticos. “Mas com o potencial
produtivo das plantas acredita-
mos que com o sistema produ-
tivo de larga escala fornecendo
óleo a baixo custo de produção
ele é competitivo para geração
de biocombustíveis avança-
dos.” Foi o que demonstraram
as simulações do CTBE utilizan-
do a biorrefinaria virtual. “E, pe-
las características do óleo gera-
do pela macaúba, pode ser usa-
do tanto para a produção do
diesel como para a produção
de combustível de aviação.”
Projeto
Colombo integra o maior pro-
jeto existente no País envolven-
do, que prevê o plantio de dois
mil hectares da espécie. O pro-
jeto é financiado pelo Banco
Mundial e coordenado por
uma empresa alemã. O IAC es-
tá auxiliando nas atividades de
seleção de matrizes e germina-
ção de sementes que serão cul-
tivadas. “Esse projeto preten-
de o plantio de dois mil hecta-
res de macaúba em área de
pastagem. Identificaram 100
pequenos produtores de re-
gião de pastos de Minas e o
projeto vai fornecer mudas pa-
ra esses agricultores para que
tenham uma renda adicional
na sua propriedade”, explica.
Uma usina também será cons-
truída na região para extração
do óleo. Ele acrescenta que o
projeto tem cunho social im-
portante, já que futuramente o
óleo será processado e extraí-
do. “É uma iniciativa importan-
te e acho que vai mostrar para
que vem essa planta.” Os pes-
quisadores acreditam ainda
no potencial da macaúba para
recuperação das áreas de pas-
tagens: “Colocar a macaúba
nesse tipo de ambiente é inte-
ressante porque você está colo-
cando uma floresta em cima
de um pasto. Protege a grama,
cria um ambiente interessante
para grama se desenvolver,
tem a rede de raiz subterrânea
e isso impede que solo seja le-
vado embora por erosão”, afir-
ma Colombo.
Desafios
Os pesquisadores e investido-
res também se deparam com
alguns desafios que envolvem
a macaúba, entre eles o fato de
ainda não se ter um sistema
de produção em larga escala
consolidado. Atualmente, ape-
nas o Estado de Minas Gerais
planta a macaúba comercial-
mente. Outro gargalo identifi-
cado foi em relação à varieda-
de. “De acordo com dados do
IAC, existe uma variação gran-
de de expectativa de produtivi-
dade das plantas. Se a gente fo-
ca naquelas plantas com po-
tencial produtivo maior, esse
risco do sistema produtivo cai
consideravelmente. Ligado
mais a aspectos tecnológicos,
o que podemos falar é que a
parte de fertilização e opera-
ção de colheita são as duas eta-
pas da produção que são mais
intensivas em custos. Então,
qualquer beneficio tecnológi-
co para desenvolvimento e
aperfeiçoamento dessas eta-
pas também pode contribuir
para redução dos custos e ris-
cos associados a macaúba”,
completou Chagas.
Rica em ácido oleico e ácidos graxos, a polpa da macaúba tem sido muito usada na gastronomia: cultura promete ser uma solução para recuperar áreas de pastagem degradadas e ampliar renda no setor agropecuário
O pesquisador Carlos Colombo e as mudas da palmeira: alta produção
Os pesquisadores ressaltam
que o CTBE e o IAC enxergam
na macaúba um gerador
importante de oportunidades
capaz de transformar o país em
um grande produtor de mais
uma matéria-prima de alta
qualidade e aplicação
tecnológica. Acreditando nesse
potencial, o CTBE promove hoje
o Workshop “Macaúba,
oportunidades e desafios”, no
CTBE, que deve reunir
pesquisadores de todo o Brasil,
além de representantes do
Ministério da Ciência,
Tecnologia e Inovação, BNDES,
Cargill, Petrobras, Embraer, Gol
Linhas Aéreas, entre outros. A
programação tem início às
8h30 e segue até as 17h. Mais
informações estão disponíveis
no site:
http://pages.cnpem.br/wectbe/.
Planta nativa tem propriedades essenciais para uso que vai da área de cosmético a biocombustíveis
Fotos: Leandro Torres/AAN
IAC ajuda na seleção
de sementes para
ampliar cultivo
SAIBA MAIS
CORREIO POPULAR A9CIDADES Campinas, quarta-feira, 7 de junho de 2017
A9

Versátil, macaúba chega à aviação

  • 1.
    Versátil, macaúba chegaà aviação DESCOBERTA ||| CULTURA Inaê Miranda DA AGÊNCIA ANHANGUERA inae.miranda@rac.com.br Uma planta nativa e dez vezes mais produtiva que a soja, a macaúba vem despertando a atenção dos pesquisadores bra- sileiros, o interesse da indústria e do setor empresarial de avia- ção. Rica em ácido oleico e áci- dos graxos — propriedades es- senciais para uso na área cos- mética e no processo de produ- ção de biocombustíveis avança- dos —, a palmeira também pro- mete ser uma solução para a re- cuperação de áreas de pasta- gem degradadas e ampliação da renda no setor agropecuá- rio. O Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e o Laborató- rio Nacional de Ciência e Tec- nologia do Bioetanol (CTBE) se debruçam sobre a palmeira com o objetivo de avançar nos desafios que ainda cercam esta cultura. Campinas sedia hoje um evento que vai discutir as oportunidades e desafios da palmeira. Estudioso da macaúba des- de 2007, o pesquisador Carlos Colombo, do IAC, diz não ter dúvidas dos potenciais e da ver- satilidade da planta, que, entre outras denominações, também é conhecida como bocaiúva, macaúva, coco-de-catarro, co- co-de-espinho. Segundo ele, a macaúba produz muito óleo, tanto em sua polpa quanto na amêndoa. “O teor de óleo da polpa é maior que o da amên- doa. Chega a ter 70% a 85 % de ácido oleico na composição do óleo. Isso é espetacular para a produção de biodiesel e para alimentação”, diz. O óleo da amêndoa também é de cadeia de carbono mais curta e con- tém ácido láurico, importante para a produção de cosmético. Além disso, a polpa é apreciada na gastronomia e contém pro- priedades alimentares ricas. “A planta é extremamente produtiva. Se comparar com a soja, que você consegue tirar por volta de 400 quilos de óleo em um hectare, a macaúba, co- locando-se umas 400 plantas por hectare, você chega a 5 mil quilos de óleo”, afirma. Outra vantagem em relação à macaú- ba, é que é uma planta nativa da América, ocorrendo princi- palmente no Brasil. “Ocorre do México ao Norte da Argentina. Ocorre muito na região central do Brasil e região de serrado, es- pontaneamente. Significa dizer que planta tem potencial de áreas climáticas de cultivo ex- tremamente elástica e que po- de ser cultivada em todos esses ambientes em que ela ocorre. É uma vantagem grande em re- lação ao dendê, por exemplo, que pode ser cultivado apenas na faixa do Equador.” Aviação Mateus Chagas, pesquisador do CTBE, acrescenta que a ma- caúba é o fruto que deve revolu- cionar a produção de óleo na indústria de biocombustíveis avançados — de aviação — e também na alimentícia. A prin- cipal aplicação hoje é em cos- méticos. “Mas com o potencial produtivo das plantas acredita- mos que com o sistema produ- tivo de larga escala fornecendo óleo a baixo custo de produção ele é competitivo para geração de biocombustíveis avança- dos.” Foi o que demonstraram as simulações do CTBE utilizan- do a biorrefinaria virtual. “E, pe- las características do óleo gera- do pela macaúba, pode ser usa- do tanto para a produção do diesel como para a produção de combustível de aviação.” Projeto Colombo integra o maior pro- jeto existente no País envolven- do, que prevê o plantio de dois mil hectares da espécie. O pro- jeto é financiado pelo Banco Mundial e coordenado por uma empresa alemã. O IAC es- tá auxiliando nas atividades de seleção de matrizes e germina- ção de sementes que serão cul- tivadas. “Esse projeto preten- de o plantio de dois mil hecta- res de macaúba em área de pastagem. Identificaram 100 pequenos produtores de re- gião de pastos de Minas e o projeto vai fornecer mudas pa- ra esses agricultores para que tenham uma renda adicional na sua propriedade”, explica. Uma usina também será cons- truída na região para extração do óleo. Ele acrescenta que o projeto tem cunho social im- portante, já que futuramente o óleo será processado e extraí- do. “É uma iniciativa importan- te e acho que vai mostrar para que vem essa planta.” Os pes- quisadores acreditam ainda no potencial da macaúba para recuperação das áreas de pas- tagens: “Colocar a macaúba nesse tipo de ambiente é inte- ressante porque você está colo- cando uma floresta em cima de um pasto. Protege a grama, cria um ambiente interessante para grama se desenvolver, tem a rede de raiz subterrânea e isso impede que solo seja le- vado embora por erosão”, afir- ma Colombo. Desafios Os pesquisadores e investido- res também se deparam com alguns desafios que envolvem a macaúba, entre eles o fato de ainda não se ter um sistema de produção em larga escala consolidado. Atualmente, ape- nas o Estado de Minas Gerais planta a macaúba comercial- mente. Outro gargalo identifi- cado foi em relação à varieda- de. “De acordo com dados do IAC, existe uma variação gran- de de expectativa de produtivi- dade das plantas. Se a gente fo- ca naquelas plantas com po- tencial produtivo maior, esse risco do sistema produtivo cai consideravelmente. Ligado mais a aspectos tecnológicos, o que podemos falar é que a parte de fertilização e opera- ção de colheita são as duas eta- pas da produção que são mais intensivas em custos. Então, qualquer beneficio tecnológi- co para desenvolvimento e aperfeiçoamento dessas eta- pas também pode contribuir para redução dos custos e ris- cos associados a macaúba”, completou Chagas. Rica em ácido oleico e ácidos graxos, a polpa da macaúba tem sido muito usada na gastronomia: cultura promete ser uma solução para recuperar áreas de pastagem degradadas e ampliar renda no setor agropecuário O pesquisador Carlos Colombo e as mudas da palmeira: alta produção Os pesquisadores ressaltam que o CTBE e o IAC enxergam na macaúba um gerador importante de oportunidades capaz de transformar o país em um grande produtor de mais uma matéria-prima de alta qualidade e aplicação tecnológica. Acreditando nesse potencial, o CTBE promove hoje o Workshop “Macaúba, oportunidades e desafios”, no CTBE, que deve reunir pesquisadores de todo o Brasil, além de representantes do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, BNDES, Cargill, Petrobras, Embraer, Gol Linhas Aéreas, entre outros. A programação tem início às 8h30 e segue até as 17h. Mais informações estão disponíveis no site: http://pages.cnpem.br/wectbe/. Planta nativa tem propriedades essenciais para uso que vai da área de cosmético a biocombustíveis Fotos: Leandro Torres/AAN IAC ajuda na seleção de sementes para ampliar cultivo SAIBA MAIS CORREIO POPULAR A9CIDADES Campinas, quarta-feira, 7 de junho de 2017 A9