23. Treino para a não-violência.
“Como nós devemos treinar indivíduos ou comunidades nesta difícil arte?” Não existe uma
estradareal,excetoatravésdavivênciadacrença na sua própriavida,que deve serumsermão
vivo. Claro, esta expressão na vida de alguém pressupõe grande estudo, tremenda
perseverança e minuciosa limpeza das impurezas do próprio ser. Pois se para dominar as
ciênciasfísicasvocê temde devotartoda umavida,quantasvidasdeverãosernecessáriaspara
se dominar a maior das forças espirituais que a humanidade já conheceu? Mas porque nos
preocuparmosse formesmoeste ocaso de se levardiversasvidas(lifetimes)?Pois,se esta é a
única coisa permanente na vida, se esta é a única coisa que importa, então seja qual for o
esforçonecessárioase aplicarpara este domínio,este serábemgasto.Busca primeiroo Reino
dos Céus e todo o resto será somado a você. O Reino dos Céus é Ahimsa (H, 14/03/1936, p.
39).
Armas são realmente desnecessárias para o treinamento em ahimsa. Na verdade, as armas,
sejam quais forem, devem ser descartadas, como os Khansaheb fizeram na fronteira da
província.Aquelesque acreditam ser necessário aprender a violência antes de se aprender a
não-violência, acreditam que apenas pecadores podem se tornar santos.
A ausência do medo (o pré-requisito)
Tal qual aquele que treina para a violência deve aprender a arte de matar, aquele que treina
para a não-violênciadeve aprendera arte de morrer. A violência não implica na emancipação
do medo, mas sim em descobrir os meios de se combater a causa do próprio medo. A não-
violência,poroutrolado,nãotemcausa para o medo.O devotodanão-violênciadeve cultivar
a capacidade para o mais alto sacrifício de forma a se tornar livre do medo. Ele não se
atormenta se tiver de perder sua terra, sua saúde, sua vida. Aquele que não superou todo o
medonão pode praticarahimsa emsua perfeição.Odevotode ahimsa tem apenas um medo,
este é o medode Deus. Aquele que busca o refúgio em Deus deve ter um vislumbre da Alma
que transcende ocorpo; e nomomentoque se temtal vislumbre da alma imperecível, perde-
se o amor pelo corpo perecível. O treinamento da não-violência é, assim, diametralmente
oposto ao treinamento da violência. A violência é necessária para a proteção daquilo que é
externo, a não-violência é necessária para a proteção da Alma, a proteção da própria honra.
Esta não-violência não pode ser aprendida ficando-se em casa. Ela precisa de iniciativa. De
forma a testarmos a nós mesmos, nós devemos aprender a desafiar o perigo e a morte,
flagelar a carne e adquirir a capacidade para suportar todos os tipos de dificuldades. Aquele
que treme os calcanharesquandovê duaspessoasbrigandonão é não-violento, mas covarde.
Uma pessoa não-violenta dará a sua vida na prevenção de tais discussões. A bravura da não-
violência é vastamente superior à da violência. O crachá do violento é sua lança, espada ou
rifle. Deus é o escudo dos não-violentos. Este não é um curso para alguém que queira
aprendera não-violência.Mas,serámaisfácil evoluir dos princípios que eu aqui ofereci (H, 1-
9-1940, p268).
A Não-violência do bravo
A não-violência não requer qualquer treinamento externo ou exterior. Ela simplesmente
requera vontade de nãomatar, mesmoem retaliação, e a coragem de enfrentar a morte sem
vingança. Este não é um sermão sobre ahimsa, mas a pura razão e a afirmação de uma lei
universal.Dadaainextinguível fé nalei,nenhumaprovocaçãose provarágrande demaisparao
exercício da paciência. Isto é o que eu descrevi como a não-violência do bravo (H, 8-9-1946,
p296).
Esta não-violência que apenas o indivíduo pode usar não tem muita aplicação em termos de
sociedade. O homem é um ser social. Suas realizações, para terem uso, devem ser tais que
qualquerpessoacomdiligênciapossaalcançar.A prática que pode serexercitadaapenasentre
amigostemo valorde umafagulhapara a não-violência.Estanão terá o mérito de apelar para
ahimsa.‘Inimizades desaparecem frente à ahimsa’; este é um grande aforismo. Isto significa
que a grande inimizade requer igual medida de ahimsa para que diminua. O cultivo desta
virtude pode requerer muita prática, podendo ser estendida a várias próximas vidas. O que
não a torna inútil porestarazão. Viajandoporestarota,o peregrinoiráencontrarexperiências
cada vezmais ricasa cada dia,de forma que ele possaterum vislumbre dabelezaque ele está
destinado a ver no topo. Isto será adicionado a seu entusiasmo. Ninguém pode inferir disto
que o caminho será um carpete contínuo de rosas sem espinhos. Um poeta uma vez cantou
que o caminho para se alcançar Deus deriva apenas dos mais corajosos, nunca dos covardes.
Hoje emdia a atmosferaestátão saturada com veneno que as pessoas se recusam a coletar o
conhecimentodosantigosparacompreenderas variadas e pequenas experiências de ahimsa
emação. ‘Uma viradaruim é neutralizada por uma boa’, é um sábio ditado da experiência de
prática diária.Porque seráque nãopodemosverque se a soma total das atividades do mundo
fosse destrutiva, este já teria chegado ao fim há muito tempo? O amor, de outro modo,
ahimsa,sustentaonossoplaneta.Istodeve serreconhecido.A preciosagraçada vida deve ser
tenazmente cultivada, naturalmente, pois esta é edificante. Descer é fácil, subir não. Com a
grande maioriade nós sendoindisciplinados, culmina a nossa experiência diária de conflito e
juramentos, uns contra os outros, sob qualquer pretexto. Já esta, a grande graça de ahimsa,
recairá com facilidade sob o dono de grande disciplina (H, 14-12-1947, p468).
Retirado de ‘Mind of Mahatma Gandhi’, de R. K. Prabhu e U. R. Rao. Capítulo 23 – Training for Nonviolence.

Não violencia

  • 1.
    23. Treino paraa não-violência. “Como nós devemos treinar indivíduos ou comunidades nesta difícil arte?” Não existe uma estradareal,excetoatravésdavivênciadacrença na sua própriavida,que deve serumsermão vivo. Claro, esta expressão na vida de alguém pressupõe grande estudo, tremenda perseverança e minuciosa limpeza das impurezas do próprio ser. Pois se para dominar as ciênciasfísicasvocê temde devotartoda umavida,quantasvidasdeverãosernecessáriaspara se dominar a maior das forças espirituais que a humanidade já conheceu? Mas porque nos preocuparmosse formesmoeste ocaso de se levardiversasvidas(lifetimes)?Pois,se esta é a única coisa permanente na vida, se esta é a única coisa que importa, então seja qual for o esforçonecessárioase aplicarpara este domínio,este serábemgasto.Busca primeiroo Reino dos Céus e todo o resto será somado a você. O Reino dos Céus é Ahimsa (H, 14/03/1936, p. 39). Armas são realmente desnecessárias para o treinamento em ahimsa. Na verdade, as armas, sejam quais forem, devem ser descartadas, como os Khansaheb fizeram na fronteira da província.Aquelesque acreditam ser necessário aprender a violência antes de se aprender a não-violência, acreditam que apenas pecadores podem se tornar santos. A ausência do medo (o pré-requisito) Tal qual aquele que treina para a violência deve aprender a arte de matar, aquele que treina para a não-violênciadeve aprendera arte de morrer. A violência não implica na emancipação do medo, mas sim em descobrir os meios de se combater a causa do próprio medo. A não- violência,poroutrolado,nãotemcausa para o medo.O devotodanão-violênciadeve cultivar a capacidade para o mais alto sacrifício de forma a se tornar livre do medo. Ele não se atormenta se tiver de perder sua terra, sua saúde, sua vida. Aquele que não superou todo o medonão pode praticarahimsa emsua perfeição.Odevotode ahimsa tem apenas um medo, este é o medode Deus. Aquele que busca o refúgio em Deus deve ter um vislumbre da Alma que transcende ocorpo; e nomomentoque se temtal vislumbre da alma imperecível, perde- se o amor pelo corpo perecível. O treinamento da não-violência é, assim, diametralmente oposto ao treinamento da violência. A violência é necessária para a proteção daquilo que é externo, a não-violência é necessária para a proteção da Alma, a proteção da própria honra. Esta não-violência não pode ser aprendida ficando-se em casa. Ela precisa de iniciativa. De forma a testarmos a nós mesmos, nós devemos aprender a desafiar o perigo e a morte, flagelar a carne e adquirir a capacidade para suportar todos os tipos de dificuldades. Aquele que treme os calcanharesquandovê duaspessoasbrigandonão é não-violento, mas covarde. Uma pessoa não-violenta dará a sua vida na prevenção de tais discussões. A bravura da não- violência é vastamente superior à da violência. O crachá do violento é sua lança, espada ou rifle. Deus é o escudo dos não-violentos. Este não é um curso para alguém que queira aprendera não-violência.Mas,serámaisfácil evoluir dos princípios que eu aqui ofereci (H, 1- 9-1940, p268).
  • 2.
    A Não-violência dobravo A não-violência não requer qualquer treinamento externo ou exterior. Ela simplesmente requera vontade de nãomatar, mesmoem retaliação, e a coragem de enfrentar a morte sem vingança. Este não é um sermão sobre ahimsa, mas a pura razão e a afirmação de uma lei universal.Dadaainextinguível fé nalei,nenhumaprovocaçãose provarágrande demaisparao exercício da paciência. Isto é o que eu descrevi como a não-violência do bravo (H, 8-9-1946, p296). Esta não-violência que apenas o indivíduo pode usar não tem muita aplicação em termos de sociedade. O homem é um ser social. Suas realizações, para terem uso, devem ser tais que qualquerpessoacomdiligênciapossaalcançar.A prática que pode serexercitadaapenasentre amigostemo valorde umafagulhapara a não-violência.Estanão terá o mérito de apelar para ahimsa.‘Inimizades desaparecem frente à ahimsa’; este é um grande aforismo. Isto significa que a grande inimizade requer igual medida de ahimsa para que diminua. O cultivo desta virtude pode requerer muita prática, podendo ser estendida a várias próximas vidas. O que não a torna inútil porestarazão. Viajandoporestarota,o peregrinoiráencontrarexperiências cada vezmais ricasa cada dia,de forma que ele possaterum vislumbre dabelezaque ele está destinado a ver no topo. Isto será adicionado a seu entusiasmo. Ninguém pode inferir disto que o caminho será um carpete contínuo de rosas sem espinhos. Um poeta uma vez cantou que o caminho para se alcançar Deus deriva apenas dos mais corajosos, nunca dos covardes. Hoje emdia a atmosferaestátão saturada com veneno que as pessoas se recusam a coletar o conhecimentodosantigosparacompreenderas variadas e pequenas experiências de ahimsa emação. ‘Uma viradaruim é neutralizada por uma boa’, é um sábio ditado da experiência de prática diária.Porque seráque nãopodemosverque se a soma total das atividades do mundo fosse destrutiva, este já teria chegado ao fim há muito tempo? O amor, de outro modo, ahimsa,sustentaonossoplaneta.Istodeve serreconhecido.A preciosagraçada vida deve ser tenazmente cultivada, naturalmente, pois esta é edificante. Descer é fácil, subir não. Com a grande maioriade nós sendoindisciplinados, culmina a nossa experiência diária de conflito e juramentos, uns contra os outros, sob qualquer pretexto. Já esta, a grande graça de ahimsa, recairá com facilidade sob o dono de grande disciplina (H, 14-12-1947, p468). Retirado de ‘Mind of Mahatma Gandhi’, de R. K. Prabhu e U. R. Rao. Capítulo 23 – Training for Nonviolence.