MPB JulinhoBittencourt E-mail:julinhobittencourt@hotmail.com
CARLOTACAFIERO
DAREDAÇÃO
Considerada a capital cultural
da Suíça, a cidade da Basileia
figuranahistóriacomoumdos
destinos obrigatórios de gran-
des pensadores como Erasmo
de Roterdã, Fredrich Nietzs-
che e Carl Gustav Jung. Mas é
nocampodamúsicaqueomu-
nicípiotemsedestacadoaolon-
go dos séculos, com suas insti-
tuições centenárias, como a
Academia de Música da Basi-
leia, que promove intercâm-
bioscomdiversospaíses,inclu-
siveoBrasil.
Entreosfrutosoriginadosna
academiaestáaOrquestraSin-
fônica Jovem da Basileia, for-
mada na década de 80 por cer-
ca de 70 jovens instrumentis-
tas – com idades entre 15 e 25
anos –, regidos pelo fagotista
UlrichDietsche.
Pela primeira vez, o conjun-
to está em turnê fora do conti-
nente europeu, e o público da
BaixadaSantistatemoportuni-
dade única, hoje, de assistir à
orquestra no Teatro do Sesc,
como parte da programação
do 47o
Festival Música Nova
GilbertoMendes,quevemsen-
dorealizadodesde25desetem-
bro, em Ribeirão Preto e São
Paulo, e, desde ontem, no Sesc
Santos, com concerto da USP
FilarmônicadeRibeirão.
No repertório da Sinfônica
daBasileia,músicasdecompo-
sitores suíços contemporâneos
– alunos e professores da Aca-
demia – e do santista Gilberto
Mendes,que é o idealizador do
festival e patrono do Departa-
mento de Música do campus
emRibeirãoPretodaUniver-
sidadedeSãoPaulo.
A composição de Gilberto
Mendes que será executada
pelaSinfônicaJovemdaBasi-
leia se chama Ponteio, com-
postanadécadade50,portan-
to,antesdeocompositorade-
rir ao movimento de música
nova, quando mantinha rela-
ções com a obra nacionalista
de Heitor Villa-Lobos e Ca-
margoGuarnieri.
Recentemente, a sinfônica
foi agraciada com o primeiro
prêmionoconcursoVALIAN-
TForum para Orquestras Jo-
vens, no renomado Festival
Internacional Murten Clas-
sics,naSuíça.
De acordo com o diretor
geral do Festival Música No-
va e coordenador do Núcleo
de Pesquisa em Ciências da
PerformancedaUSP,omaes-
tro Rubens Ricciardi, de 49
anos, a vinda da Orquestra
Sinfônica Jovem da Basileia
vem confirmar o caráter cada
vezmaisformativodoevento.
“A pedido de Gilberto Men-
des, o festival perdeu o cará-
terapenasdeconcertosevem
mantendo parcerias com ou-
tras importantes instituições
de ensino da música pelo
mundo. Também queremos
cada vez mais orquestras que
agreguem jovens em sua for-
mação”,diz.
OMAESTRO
Ulrich Dietsche estudou na
AcademiadeMúsicadeBasi-
leia e concluiu seus estudos
com o diploma de músico de
orquestra (fagote) e maestro.
Desde então dirige várias or-
questrasnaregião deBasileia
e na Alemanha. Dá aulas de
fagote a uma classe de crian-
çaseadolescentes.
Nosábado,às19horas,Gil-
berto Mendes lança o livro
Música,CinemadoSom(Edi-
tora Perspectiva), no Auditó-
riodoSesc.
SERVIÇO–ORQUESTRASINFÔNICAJOVEMDA
BASILRIA(ULRICHDIETSCHE,SUÍÇA).HOJE,ÀS
21HORAS,NOTEATRODOSESCSANTOS(RUA
CONSELHEIRORIBAS,136,APARECIDA,
TELEFONE3278-9800).INGRESSOSCUSTAM
DER$2,00AR$10,00.
Uma das boas novidades da
nossa música vem da Zona
Leste de São Paulo, mais pre-
cisamente a Vila Nhocuné,
pequeno bairro encravado na
tríplice fronteira entre Vila
Matilde, Cidade Líder e Ar-
tur Alvim. Reza a lenda que o
local era uma fazenda de um
coronel ou Nhô Coroné, até
virar a corruptela Nhocuné.
Verdade ou não, o ótimo no-
me foi aproveitado pela ban-
da, que acabou batizada Nho-
cuné Soul.
A Nhocuné Soul acaba de
lançar o seu terceiro disco,
também batizado com um no-
me cheio de explicações an-
tropológicas: Banzo, que é a
profunda tristeza que se apo-
derava dos escravos que
eram trazidos da África para
o Brasil, podendo causar até
a morte.
O som da banda, no entan-
to, não tem nada a ver com
tristeza, tragédia ou coisa que
o valha. Muito ao contrário, é
um registro de energia e força,
som e alegria, revolta e prazer
de viver. Numa mistura de
ritmosafro-brasileiros,princi-
palmente o samba-rock e o
samba-soul, a banda conse-
gueumsotaquepróprioemui-
to paulistano numa seara on-
de já reinou, entre outros, o
cariocaJorgeBen.
A formação, que conta com
Jhony Guima (percussão e
voz), Juninho Batucada (per-
cussão e voz), Ronaldo Gama
(baixo), Julio César Silva (ba-
teriaevoz),LuizCouto(guitar-
ra e voz) e Renato Gama (vio-
lão e voz), além da participa-
çãodemetaisecordas,épreci-
sa e envolvente. Uma usina
sonora que se destaca muito
mais pelo suingue do que pelo
peso. Cada instrumentista
cumpre o seu papel fazendo o
som girar discretamente, com
economia de notas e profusão
deideias.
As composições, todas de
integrantes da banda, princi-
palmente dos irmãos Ronaldo
e Renato Gama e de Jhony
Guima, são narrativas do coti-
diano, descrições de persona-
gens e pequenas histórias de
amor entrecortadas de fra-
ses rápidas, extremamente
rítmicas e melodias fortes.
A gravação rola a partir da
autobiográfica e bem-hu-
morada Doutor Buneco e Jo-
hny Guima: “Doutor Bune-
co e Johny Guima, dois su-
jeitos de autoestima se en-
contraram na estrada num
boteco lá na vila. Um falou,
outro olhou. Não sei o que, o
que rolou. Montaram uma
banda e não é que o povo
concordou”.
Apartirdeentão,histórias
e situações prosaicas como
um gol, recados de amor e
personagens – como a exce-
lente Engraxate – inundam
o ouvinte com um desenro-
lar colorido e rico em situa-
ções e um palavreado fluen-
te na malandragem. Entre
elas, pérolas como O Fim de
José da Maravilha, que
anunciaumaespéciedeanti-
Charles, Anjo 45, malandro
regenerado – que não era de
todo o mal – mas não conse-
gue se livrar das “dívidas do
passado”.
Antes do final, a fusão
perfeita entre a soul music
e o samba de roda (com o
Quinteto em Branco e Pre-
to) anuncia o Recado de
um Povo e homenageia
grandes nomes afro-ame-
ricanos. O disco encerra
lindamente com Maloba
Ya Bana Mboka, cantada
na língua banta Lingala,
falada no noroeste da Re-
pública Democrática do
Congo: “Ezali neti ya bi-
loko ya bolingo na ya nzo-
to, Ezali nguya ya bo-
moyi, Ezali etumba ya mo-
limo, Ezali nzela ya boso-
lo, Ngayi molanga nzem-
bo, Maloba ya bana
mboka (A voz do povo,
Coisas do corpo, Força da
Vida, Resistência emocio-
nal, Caminho seguro, Eu
trago comigo a música)”.
Como se não bastasse tan-
to talento, o grupo é genero-
so permitindo que o disco
seja baixado gratuitamente
no blog http://bandanhocu-
nesoul.blogspot.com.br/.
FestivalMúsicaNovacontinua
comaSinfônicadaBasileia
Formada por 70 jovens músicos, orquestra surgida na cidade suíça toca no Sesc Santos
Ulrich Dietsche rege o grupo formado por jovens entre 15 e 25 anos
DIVULGAÇÃO
A Nhocuné Soul e
o novo som de SP
D-2 Galeria ATRIBUNA Quarta-feira 2
www.atribuna.com.br outubro de2013

Sinfônica da Basileia

  • 1.
    MPB JulinhoBittencourt E-mail:julinhobittencourt@hotmail.com CARLOTACAFIERO DAREDAÇÃO Consideradaa capital cultural da Suíça, a cidade da Basileia figuranahistóriacomoumdos destinos obrigatórios de gran- des pensadores como Erasmo de Roterdã, Fredrich Nietzs- che e Carl Gustav Jung. Mas é nocampodamúsicaqueomu- nicípiotemsedestacadoaolon- go dos séculos, com suas insti- tuições centenárias, como a Academia de Música da Basi- leia, que promove intercâm- bioscomdiversospaíses,inclu- siveoBrasil. Entreosfrutosoriginadosna academiaestáaOrquestraSin- fônica Jovem da Basileia, for- mada na década de 80 por cer- ca de 70 jovens instrumentis- tas – com idades entre 15 e 25 anos –, regidos pelo fagotista UlrichDietsche. Pela primeira vez, o conjun- to está em turnê fora do conti- nente europeu, e o público da BaixadaSantistatemoportuni- dade única, hoje, de assistir à orquestra no Teatro do Sesc, como parte da programação do 47o Festival Música Nova GilbertoMendes,quevemsen- dorealizadodesde25desetem- bro, em Ribeirão Preto e São Paulo, e, desde ontem, no Sesc Santos, com concerto da USP FilarmônicadeRibeirão. No repertório da Sinfônica daBasileia,músicasdecompo- sitores suíços contemporâneos – alunos e professores da Aca- demia – e do santista Gilberto Mendes,que é o idealizador do festival e patrono do Departa- mento de Música do campus emRibeirãoPretodaUniver- sidadedeSãoPaulo. A composição de Gilberto Mendes que será executada pelaSinfônicaJovemdaBasi- leia se chama Ponteio, com- postanadécadade50,portan- to,antesdeocompositorade- rir ao movimento de música nova, quando mantinha rela- ções com a obra nacionalista de Heitor Villa-Lobos e Ca- margoGuarnieri. Recentemente, a sinfônica foi agraciada com o primeiro prêmionoconcursoVALIAN- TForum para Orquestras Jo- vens, no renomado Festival Internacional Murten Clas- sics,naSuíça. De acordo com o diretor geral do Festival Música No- va e coordenador do Núcleo de Pesquisa em Ciências da PerformancedaUSP,omaes- tro Rubens Ricciardi, de 49 anos, a vinda da Orquestra Sinfônica Jovem da Basileia vem confirmar o caráter cada vezmaisformativodoevento. “A pedido de Gilberto Men- des, o festival perdeu o cará- terapenasdeconcertosevem mantendo parcerias com ou- tras importantes instituições de ensino da música pelo mundo. Também queremos cada vez mais orquestras que agreguem jovens em sua for- mação”,diz. OMAESTRO Ulrich Dietsche estudou na AcademiadeMúsicadeBasi- leia e concluiu seus estudos com o diploma de músico de orquestra (fagote) e maestro. Desde então dirige várias or- questrasnaregião deBasileia e na Alemanha. Dá aulas de fagote a uma classe de crian- çaseadolescentes. Nosábado,às19horas,Gil- berto Mendes lança o livro Música,CinemadoSom(Edi- tora Perspectiva), no Auditó- riodoSesc. SERVIÇO–ORQUESTRASINFÔNICAJOVEMDA BASILRIA(ULRICHDIETSCHE,SUÍÇA).HOJE,ÀS 21HORAS,NOTEATRODOSESCSANTOS(RUA CONSELHEIRORIBAS,136,APARECIDA, TELEFONE3278-9800).INGRESSOSCUSTAM DER$2,00AR$10,00. Uma das boas novidades da nossa música vem da Zona Leste de São Paulo, mais pre- cisamente a Vila Nhocuné, pequeno bairro encravado na tríplice fronteira entre Vila Matilde, Cidade Líder e Ar- tur Alvim. Reza a lenda que o local era uma fazenda de um coronel ou Nhô Coroné, até virar a corruptela Nhocuné. Verdade ou não, o ótimo no- me foi aproveitado pela ban- da, que acabou batizada Nho- cuné Soul. A Nhocuné Soul acaba de lançar o seu terceiro disco, também batizado com um no- me cheio de explicações an- tropológicas: Banzo, que é a profunda tristeza que se apo- derava dos escravos que eram trazidos da África para o Brasil, podendo causar até a morte. O som da banda, no entan- to, não tem nada a ver com tristeza, tragédia ou coisa que o valha. Muito ao contrário, é um registro de energia e força, som e alegria, revolta e prazer de viver. Numa mistura de ritmosafro-brasileiros,princi- palmente o samba-rock e o samba-soul, a banda conse- gueumsotaquepróprioemui- to paulistano numa seara on- de já reinou, entre outros, o cariocaJorgeBen. A formação, que conta com Jhony Guima (percussão e voz), Juninho Batucada (per- cussão e voz), Ronaldo Gama (baixo), Julio César Silva (ba- teriaevoz),LuizCouto(guitar- ra e voz) e Renato Gama (vio- lão e voz), além da participa- çãodemetaisecordas,épreci- sa e envolvente. Uma usina sonora que se destaca muito mais pelo suingue do que pelo peso. Cada instrumentista cumpre o seu papel fazendo o som girar discretamente, com economia de notas e profusão deideias. As composições, todas de integrantes da banda, princi- palmente dos irmãos Ronaldo e Renato Gama e de Jhony Guima, são narrativas do coti- diano, descrições de persona- gens e pequenas histórias de amor entrecortadas de fra- ses rápidas, extremamente rítmicas e melodias fortes. A gravação rola a partir da autobiográfica e bem-hu- morada Doutor Buneco e Jo- hny Guima: “Doutor Bune- co e Johny Guima, dois su- jeitos de autoestima se en- contraram na estrada num boteco lá na vila. Um falou, outro olhou. Não sei o que, o que rolou. Montaram uma banda e não é que o povo concordou”. Apartirdeentão,histórias e situações prosaicas como um gol, recados de amor e personagens – como a exce- lente Engraxate – inundam o ouvinte com um desenro- lar colorido e rico em situa- ções e um palavreado fluen- te na malandragem. Entre elas, pérolas como O Fim de José da Maravilha, que anunciaumaespéciedeanti- Charles, Anjo 45, malandro regenerado – que não era de todo o mal – mas não conse- gue se livrar das “dívidas do passado”. Antes do final, a fusão perfeita entre a soul music e o samba de roda (com o Quinteto em Branco e Pre- to) anuncia o Recado de um Povo e homenageia grandes nomes afro-ame- ricanos. O disco encerra lindamente com Maloba Ya Bana Mboka, cantada na língua banta Lingala, falada no noroeste da Re- pública Democrática do Congo: “Ezali neti ya bi- loko ya bolingo na ya nzo- to, Ezali nguya ya bo- moyi, Ezali etumba ya mo- limo, Ezali nzela ya boso- lo, Ngayi molanga nzem- bo, Maloba ya bana mboka (A voz do povo, Coisas do corpo, Força da Vida, Resistência emocio- nal, Caminho seguro, Eu trago comigo a música)”. Como se não bastasse tan- to talento, o grupo é genero- so permitindo que o disco seja baixado gratuitamente no blog http://bandanhocu- nesoul.blogspot.com.br/. FestivalMúsicaNovacontinua comaSinfônicadaBasileia Formada por 70 jovens músicos, orquestra surgida na cidade suíça toca no Sesc Santos Ulrich Dietsche rege o grupo formado por jovens entre 15 e 25 anos DIVULGAÇÃO A Nhocuné Soul e o novo som de SP D-2 Galeria ATRIBUNA Quarta-feira 2 www.atribuna.com.br outubro de2013