Entrevista
CARLOTACAFIERO
DAREDAÇÃO
Se você estiver passeando por
São Paulo e vir o senhor aí da
foto entrando e saindo de lojas
de eletroeletrônicos e de mate-
riais de construção nas ruas
Santa Ifigênia e Florence de
Abreu, tenha certeza de estar
diantedeumdosmaioresdesig-
nerseartistasplásticosdoBra-
sil e de que ele, provavelmente,
está trabalhando em mais um
objetodearteouescultura.
Guto Lacaz tem 64 anos de
idade e, aos 24, já tinha o
próprio estúdio de design na
Capital, o Arte Moderna. Des-
de então, ganhou mais de 20
prêmios por sua obra e ilus-
trou o mesmo tanto de livros.
É colaborador das revistas
Oca, Caros Amigos (página
Um Desenho) e Wish Report
(editorial Pares Ímpares), e o
que ele mais gosta de fazer,
além de desenhar, é garimpar
objetos que lhes sejam úteis –
aliás, para ele, tudo tem utili-
dade e toda ação humana
resulta em arte.
Apesardonomeedocurrícu-
lo que carrega, Guto ainda en-
contra dificuldade para conse-
guir editoras que apostem em
seus projetos. Foi assim para
publicar o livro oomemhobje-
to, idealizado pela sobrinha,
Isabel Lacaz, que reúne 30
anos de carreira, com objetos,
registros de performances e in-
venções. Publicada em 2009, a
obra foi recusada em quatro
editorasantesdeseraceitapela
DécorBooks.
Menoscomplicadofoipubli-
car o livro Desenhos (88 pági-
nas, R$ 78,00), pela Editora
Dash, que reúne as ilustrações
de Guto para a revista Caros
Amigos. São 16 anos de produ-
ção para uma seção intitula-
da Um Desenho (veja alguns
trabalhos ao lado), com car-
tuns conceituais e de humor
non sense, de traços limpos e
geométricos, e cores chapadas,
características bem conheci-
das da obra de Guto – estilo
este talvez adquirido com o
exercício de criações de logo-
marcasparaempresas.
Eleito recentemente entre os
cinco melhores designers pela
revista Design Gráfico, Guto
formou-se em arquitetura pela
USP, e trabalha com diversos
suportesetécnicas,comoinsta-
lações,ilustraçõeseperforman-
ces.ÉmembrodaAllianceGra-
phique Internationale (AGI) e,
entre os prêmios que recebeu,
constamoda1ºMostradoObje-
to Inusitado; dois prêmios
AbrildeJornalismoporilustra-
ções na revista Playboy; a Bol-
saGuggenheimparaartesplás-
ticas; e o Prêmio APCA Obra
Gráfica. Leia, abaixo, alguns
trechos da entrevista que o ar-
tistaconcedeuparaATribuna,
portelefone.
Como é a mente de um
designer?
(Pensa um pouco) Primeiro,
você fica sempre atento às coi-
sas ao redor, depois isso vira
um modo de vida. Fica sempre
olhando e pensando em me-
lhorar os objetos, vendo alter-
nativasdedesenhosparaaper-
feiçoá-los, ou partir do zero
paracriá-los.Quandoeurece-
bo um convite para realizar
umtrabalho,sejaumainstala-
ção ou um objeto, eu parto do
zero.Vouvisitaroespaço,per-
gunto qual a data de entrega,
faço orçamento, e essa parte é
chatésima. O que eu gosto de
fazerédecriar,produzir,enco-
mendar as peças. Junto as pe-
ças de um lugar com a de
outro. Adoro a parte mecâni-
ca das coisas e de deixá-la
aparente. Adoro garimpar pe-
çasparaasminhasobras,prin-
cipalmente nas lojas da Santa
Ifigênia, da Florence de
Abreu. Sinto-me vivo quando
tenhoumprojeto.
Você colabora com uma revis-
ta de conteúdo bastante poli-
tizadoqueéaCarosAmigos.O
seudesenhoépolítico?
Eu fiz agora o poema visual
Passe Livre, que circulou bas-
tante. Você vai encontrar no
meu site (www.gutolacaz.com.
br). Participei de uma das ma-
nifestações aqui em São Paulo,
eolhaqueeuestudeiarquitetu-
ra na época da ditadura e nun-
ca tinha saído às ruas. Não sou
um cara cabeça para liderar
nada, mas eu diria que o meu
humor é crítico, mas é meio
atemporal. Está mais para o
cartum. Sou colaborador da
Caros Amigos desde o número
zero, quando a página era em
pretoebrancoainda.
Você lançou, não faz muito
tempo, o livro omemhobjeto,
que reúne trabalhos de 30
anosdecarreira.
Isso é obra de uma sobrinha
minha, muito audaciosa, que
conseguiuumaeditoraque,du-
rante três anos, me deixou or-
ganizar minha vida para colo-
cá-la no livro. Foi como uma
arqueologia,porque,nocome-
ço da carreira, quase não nos
preocupamos em documen-
tar as coisas. E boa parte da
minha vida é analógica. En-
tão, eu tive que fotografar e
digitalizar várias obras. Algu-
mas, eu tive até que restaurar.
É um livro que eu já sabia
como deveria ser e o editor foi
generoso, me deumais de 300
páginas, aí eu me esbaldei.
Mesmo assim, deixei muita
coisa, porque não havia espa-
ço, mas o que eu acho funda-
mentaldaminhatrajetóriaes-
tá lá. É um livro muito pes-
soal. A minha mãe, antes de
morrer, falou para a minha
sobrinha faz um livro sobre o
Guto. Mamãe morreu em
2002, e o livro é de 2009. Eu
não acreditava que ia dar cer-
to, pois passei por quatro edi-
torasquederamcalote.
Mesmocomoseunome?
O meu nome não é nada. O
olhar do editor vai para outro
tipodenome.Atéficocontente
que eu tenha público para o
meutrabalho,mas,averdade é
queoqueeufaço,paraopatro-
cinador,aindaéumacoisamui-
toestranha.
Você acha que falta formação
artística para quem trabalha
comomercadoeditorial?
As pessoas que têm dinheiro
nunca foram numa galeria,
elas têm medo de arte. Nada
contra,masvão paraoentrete-
nimentomaisfácil.
Ainda existe a figura do
mecenas?
Issoécoisamaisraraainda.De
vez em quando aparece um,
mas é a cada 50 anos. Teve o
Chichilo Matarazzo, depois o
AssisChateubriand.
Você continua inventando
coisas?
Continuo.Agoramesmo,estou
com uma instalação que está
fazendo o maior sucesso em
uma exposição no Sesc Pom-
peia (Mais de Mil Brinquedos
paraaCriançaBrasileira)que
vai até fevereiro de 2014. O
brinquedoqueinventeichama-
se Trigêmeos Ciclistas, que fiz
com bonecos da cultura popu-
lartrazidosparaoambienteda
escultura contemporânea. É
um brinquedo feito com três
ciclistas pendulares, para ficar
no riacho, e que funciona com
apressãod’água.
Aarteéinútil?
Arte é superútil. Ela tem um
ladoqueaspessoas,àsvezes,se
perguntam: ‘nossa, mas para
que é que serve isso?’ Só por
termos feito essa pergunta, ela
já serviu de alguma coisa,
te provocou. Às vezes, arte
serve mesmo só para nos
incomodar. A arte nasceu
darepresentação,paradei-
xarumregistrodavidacoti-
diana e dos símbolos reli-
giosos, para fazermos con-
tato com o mundo místico
e sobrenatural. Depois,
veio como registro de po-
der, com as pirâmides e a
Muralha da China, por
exemplo,tambémesteveli-
gada à nobreza. Então, a
artesempreteveumautili-
dade. Mas você pode me
perguntar, então, qual a
utilidade da Mona Lisa? A
Mona Lisa é um ícone que
é do turismo francês. Ela é
quase uma guia turística
daFrança.Então,todotra-
balho artístico, ao mesmo
tempo em que ele não ser-
ve para nada, ele serve pa-
ra muita coisa. Depende
de quem fará uso daquilo.
E, às vezes, não servir para
nadatambéméótimo,nes-
te mundo em que tudo
tem que servir para algu-
macoisa.
Os utensílios podem ser
considerados objetos de
arte?
Tudoéarte.Qualqueração
humana resulta em arte,
assimcomotudooqueeste-
ja sobre a face da Terra.
Mas, por uma questão de
compartilhamentodascoi-
sas, falaram que arte é o
queestádentrodomuseue
da galeria, mas não o que
estádentrodosupermerca-
do ou na loja de eletrodo-
méstico.Parafazerumfer-
rodepassar roupa, éexigi-
do o mesmo processo ma-
terial, de dominar e trans-
formar a matéria, que pa-
ra se fazer uma escultura
embronze.
“A arte serve para nos incomodar”
Galeria
“
Aspessoasque
têmdinheironunca
foramaumagaleria.
Elastêmmedodearte”
Históriadevidareal
AUniversodosLivroslançouaobraOsCãesNuncaDeixamde
Amar,deTeresaRhyne,quenarracomoelaeseucãoconseguiram
vencerocâncerdemamaeumtumormaligno,respectivamente
GutoLacaz.
Arquiteto,designer,inventoreartistapástico
galeria@atribuna.com.br
Desenhos feitos para a revista
Caros Amigos, reunidos no
livro 80 Desenhos, publicado
pela Editora Dash
DIVULGAÇÃO
FOTOSREPRODUÇÃO
“
Tudoéarte.
Qualqueração
humanaresulta
emarte,assimcomo
tudooqueestásobrea
facedaTerra”
Terça-feira 13
D-1agosto de2013 www.atribuna.com.br

Entrevista com Guto Lacaz, arquiteto e designer

  • 1.
    Entrevista CARLOTACAFIERO DAREDAÇÃO Se você estiverpasseando por São Paulo e vir o senhor aí da foto entrando e saindo de lojas de eletroeletrônicos e de mate- riais de construção nas ruas Santa Ifigênia e Florence de Abreu, tenha certeza de estar diantedeumdosmaioresdesig- nerseartistasplásticosdoBra- sil e de que ele, provavelmente, está trabalhando em mais um objetodearteouescultura. Guto Lacaz tem 64 anos de idade e, aos 24, já tinha o próprio estúdio de design na Capital, o Arte Moderna. Des- de então, ganhou mais de 20 prêmios por sua obra e ilus- trou o mesmo tanto de livros. É colaborador das revistas Oca, Caros Amigos (página Um Desenho) e Wish Report (editorial Pares Ímpares), e o que ele mais gosta de fazer, além de desenhar, é garimpar objetos que lhes sejam úteis – aliás, para ele, tudo tem utili- dade e toda ação humana resulta em arte. Apesardonomeedocurrícu- lo que carrega, Guto ainda en- contra dificuldade para conse- guir editoras que apostem em seus projetos. Foi assim para publicar o livro oomemhobje- to, idealizado pela sobrinha, Isabel Lacaz, que reúne 30 anos de carreira, com objetos, registros de performances e in- venções. Publicada em 2009, a obra foi recusada em quatro editorasantesdeseraceitapela DécorBooks. Menoscomplicadofoipubli- car o livro Desenhos (88 pági- nas, R$ 78,00), pela Editora Dash, que reúne as ilustrações de Guto para a revista Caros Amigos. São 16 anos de produ- ção para uma seção intitula- da Um Desenho (veja alguns trabalhos ao lado), com car- tuns conceituais e de humor non sense, de traços limpos e geométricos, e cores chapadas, características bem conheci- das da obra de Guto – estilo este talvez adquirido com o exercício de criações de logo- marcasparaempresas. Eleito recentemente entre os cinco melhores designers pela revista Design Gráfico, Guto formou-se em arquitetura pela USP, e trabalha com diversos suportesetécnicas,comoinsta- lações,ilustraçõeseperforman- ces.ÉmembrodaAllianceGra- phique Internationale (AGI) e, entre os prêmios que recebeu, constamoda1ºMostradoObje- to Inusitado; dois prêmios AbrildeJornalismoporilustra- ções na revista Playboy; a Bol- saGuggenheimparaartesplás- ticas; e o Prêmio APCA Obra Gráfica. Leia, abaixo, alguns trechos da entrevista que o ar- tistaconcedeuparaATribuna, portelefone. Como é a mente de um designer? (Pensa um pouco) Primeiro, você fica sempre atento às coi- sas ao redor, depois isso vira um modo de vida. Fica sempre olhando e pensando em me- lhorar os objetos, vendo alter- nativasdedesenhosparaaper- feiçoá-los, ou partir do zero paracriá-los.Quandoeurece- bo um convite para realizar umtrabalho,sejaumainstala- ção ou um objeto, eu parto do zero.Vouvisitaroespaço,per- gunto qual a data de entrega, faço orçamento, e essa parte é chatésima. O que eu gosto de fazerédecriar,produzir,enco- mendar as peças. Junto as pe- ças de um lugar com a de outro. Adoro a parte mecâni- ca das coisas e de deixá-la aparente. Adoro garimpar pe- çasparaasminhasobras,prin- cipalmente nas lojas da Santa Ifigênia, da Florence de Abreu. Sinto-me vivo quando tenhoumprojeto. Você colabora com uma revis- ta de conteúdo bastante poli- tizadoqueéaCarosAmigos.O seudesenhoépolítico? Eu fiz agora o poema visual Passe Livre, que circulou bas- tante. Você vai encontrar no meu site (www.gutolacaz.com. br). Participei de uma das ma- nifestações aqui em São Paulo, eolhaqueeuestudeiarquitetu- ra na época da ditadura e nun- ca tinha saído às ruas. Não sou um cara cabeça para liderar nada, mas eu diria que o meu humor é crítico, mas é meio atemporal. Está mais para o cartum. Sou colaborador da Caros Amigos desde o número zero, quando a página era em pretoebrancoainda. Você lançou, não faz muito tempo, o livro omemhobjeto, que reúne trabalhos de 30 anosdecarreira. Isso é obra de uma sobrinha minha, muito audaciosa, que conseguiuumaeditoraque,du- rante três anos, me deixou or- ganizar minha vida para colo- cá-la no livro. Foi como uma arqueologia,porque,nocome- ço da carreira, quase não nos preocupamos em documen- tar as coisas. E boa parte da minha vida é analógica. En- tão, eu tive que fotografar e digitalizar várias obras. Algu- mas, eu tive até que restaurar. É um livro que eu já sabia como deveria ser e o editor foi generoso, me deumais de 300 páginas, aí eu me esbaldei. Mesmo assim, deixei muita coisa, porque não havia espa- ço, mas o que eu acho funda- mentaldaminhatrajetóriaes- tá lá. É um livro muito pes- soal. A minha mãe, antes de morrer, falou para a minha sobrinha faz um livro sobre o Guto. Mamãe morreu em 2002, e o livro é de 2009. Eu não acreditava que ia dar cer- to, pois passei por quatro edi- torasquederamcalote. Mesmocomoseunome? O meu nome não é nada. O olhar do editor vai para outro tipodenome.Atéficocontente que eu tenha público para o meutrabalho,mas,averdade é queoqueeufaço,paraopatro- cinador,aindaéumacoisamui- toestranha. Você acha que falta formação artística para quem trabalha comomercadoeditorial? As pessoas que têm dinheiro nunca foram numa galeria, elas têm medo de arte. Nada contra,masvão paraoentrete- nimentomaisfácil. Ainda existe a figura do mecenas? Issoécoisamaisraraainda.De vez em quando aparece um, mas é a cada 50 anos. Teve o Chichilo Matarazzo, depois o AssisChateubriand. Você continua inventando coisas? Continuo.Agoramesmo,estou com uma instalação que está fazendo o maior sucesso em uma exposição no Sesc Pom- peia (Mais de Mil Brinquedos paraaCriançaBrasileira)que vai até fevereiro de 2014. O brinquedoqueinventeichama- se Trigêmeos Ciclistas, que fiz com bonecos da cultura popu- lartrazidosparaoambienteda escultura contemporânea. É um brinquedo feito com três ciclistas pendulares, para ficar no riacho, e que funciona com apressãod’água. Aarteéinútil? Arte é superútil. Ela tem um ladoqueaspessoas,àsvezes,se perguntam: ‘nossa, mas para que é que serve isso?’ Só por termos feito essa pergunta, ela já serviu de alguma coisa, te provocou. Às vezes, arte serve mesmo só para nos incomodar. A arte nasceu darepresentação,paradei- xarumregistrodavidacoti- diana e dos símbolos reli- giosos, para fazermos con- tato com o mundo místico e sobrenatural. Depois, veio como registro de po- der, com as pirâmides e a Muralha da China, por exemplo,tambémesteveli- gada à nobreza. Então, a artesempreteveumautili- dade. Mas você pode me perguntar, então, qual a utilidade da Mona Lisa? A Mona Lisa é um ícone que é do turismo francês. Ela é quase uma guia turística daFrança.Então,todotra- balho artístico, ao mesmo tempo em que ele não ser- ve para nada, ele serve pa- ra muita coisa. Depende de quem fará uso daquilo. E, às vezes, não servir para nadatambéméótimo,nes- te mundo em que tudo tem que servir para algu- macoisa. Os utensílios podem ser considerados objetos de arte? Tudoéarte.Qualqueração humana resulta em arte, assimcomotudooqueeste- ja sobre a face da Terra. Mas, por uma questão de compartilhamentodascoi- sas, falaram que arte é o queestádentrodomuseue da galeria, mas não o que estádentrodosupermerca- do ou na loja de eletrodo- méstico.Parafazerumfer- rodepassar roupa, éexigi- do o mesmo processo ma- terial, de dominar e trans- formar a matéria, que pa- ra se fazer uma escultura embronze. “A arte serve para nos incomodar” Galeria “ Aspessoasque têmdinheironunca foramaumagaleria. Elastêmmedodearte” Históriadevidareal AUniversodosLivroslançouaobraOsCãesNuncaDeixamde Amar,deTeresaRhyne,quenarracomoelaeseucãoconseguiram vencerocâncerdemamaeumtumormaligno,respectivamente GutoLacaz. Arquiteto,designer,inventoreartistapástico galeria@atribuna.com.br Desenhos feitos para a revista Caros Amigos, reunidos no livro 80 Desenhos, publicado pela Editora Dash DIVULGAÇÃO FOTOSREPRODUÇÃO “ Tudoéarte. Qualqueração humanaresulta emarte,assimcomo tudooqueestásobrea facedaTerra” Terça-feira 13 D-1agosto de2013 www.atribuna.com.br