N
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         Cu est
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           rso a e




                                                                                                          índromes
                                                                                                         síndromes
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Mó Au diç




                                                                                                                                                                                                                  revistA multidisciplinAr dO desenvOlvimentO humAnO
                                                                                                                                                               Julho • Agosto de 2012 • Ano 2 • Nº 4 • R$ 25,00
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             du ti ã
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               lo sm o
                                                                    1 a 3 de novembro de 2012                                                                                                                                                                                                                                    IV o
                                                                    Centro de Eventos Plaza São Rafael
                                                                             Porto Alegre/RS
                                                                         Informações e inscrições:
                                                                      www.concriad.com.br
                                                                                                                                                                                                                                                                             Transtorno bipolar
                                                                                                                                                                                                                                                                                 do humor Francisco B. Assumpção Jr.
                                      Eixos temáticos:                                                                                                                                                                                                                                         Evelyn Kuczynski
        ● Álcool e drogas na adolescência       ● Transtorno de conduta
        ● Bullying                              ● Transtornos alimentares na adolescência
        ● Enurese                               ● Transtornos de ansiedade




                                                                                                         síndromes - Ano 2 - Número 4 - Julho/Agosto de 2012
        ● Problemas de aprendizagem             ● Transtornos de humor
        ● Resiliência                           ● Treinamento de pais
        ● TDAH                                  ● Violência doméstica


                                Palestrantes confirmados:
 ALMIR DEL PRETTE/SP ● ADRIANA BINSFELD/RS ● ADRIANA MELCHIADES/DF ● ADRIANA SELENE ZANONATO/RS
 ALINE HENRIQUES REIS/PR ● ANGELA ALFANO CAMPOS/RJ ● ANERON CANALS/RS ● BENOMY SILBERFARB/RS
CHRISTIAN HAAG KRISTENSEN/RS ● CARMEM BEATRIZ NEUFELD/RS ● CAROLINA SARAIVA DE MACEDO LISBOA/RS




                                                                                                                                                                            ISSN 2237-8677
    DANIELA SCHNEIDER BAKOS/RS ● DANIELA BRAGA/RS ● EDUARDO BUNGE/ARG ● FABIANA GAUY/GO
    FERNANDO GARCIA/ARG ● ILEANA CAPUTTO/URU ● INÊS CAPUTTO/URU ● ISABELA DIAS FONTENELLE/RJ
  LISEANE CARRARO LYSZKOWSKI/RS ● LUCIANA NAGALLI GROPO/PE ● LUCIANA TISSER/RS ● LUIZ PRADO/RS
 MARIA AUGUSTA MANSUR/RS ● MARINA GUSMÃO CAMINHA/RS ● MAYCON TEODORO/MG ● NEIVA TEIN/RS
 NEWRA ROTTA/RS ● RENATA BRASIL/RS ● RENATO CAMINHA/RS ● TÂNIA RUDNICK/RS ● VALQUIRIA TRICOLI/SP
              VINICIUS GUIMARÃES DORNELLES/RS ● ZILDA APARECIDA PEREIRA DEL PRETTE/RS

                                                                                                                                                                                                                                                                       transtorno Bipolar                A importância da
                                            Cursos:                                                                                                                                                                                                                       e depressão                    família para que
         T.R.I – TERAPIA DE RECICLAGEM INFANTIL                                                                                                                                                                                                                          Dr. Miguel Angelo Boarati        tem transtorno
         Marina Caminha e Renato Caminha - RS                                                                                                                                                                                                                            Leandra Migotto Certeza              bipolar
         AVALIAÇÃO E PROMOÇÃO DE HABILIDADES SOCIAIS NO PROCESSO TERAPÊUTICO                                                                                                                                                                                                                              Por Sonia Maria Bandeira
         Zilda Del Prette e Almir Del Prette - SP                                                                                                                                                                                                                         sobre a noção
         UMA INTERVENÇÃO PREVENTIVA EM TCC COM ADOLESCENTES
         Carmem Beatriz Neufeld - SP
                                                                                                                                                                                                                                                                            de tempo                            O sonho
                                                                                                                                                                                                                                                                             Melanie Mendoza            Por Maria de Fátima de Oliveira
         TRATAMENTO DA DESMOTIVAÇÃO DO ADOLESCENTE USUÁRIO DE DROGAS
         Renata Brasil - RS
         TERAPIA DE LOS TRASTORNOS DE ANSIEDAD EN LA NIÑEZ Y ADOLESCÊNCIA                                                                                                                                                                                               escola especial:
         Fernando Garcia - ARG                                                                                                                                                                                                                                            conceitos e
         PADRES DISFUNCIONALES: EL MANEJO Y LA INCLUSION EM LA TERAPIA DE LOS PADRES                                                                                                                                                                                       reflexões
         COM TRANSTORNOS GRAVES DE PERSONALIDAD
                                                                                                                                                                                                                                                                       dra. Alessandra Freitas Russo
         Ileana Caputto - URU
                                                                                                                                                                                                                                                                           Christine Luise Degen
         HIPNOTERAPIA COGNITIVA COM CRIANÇAS
         Benomy Silberfarb - RS
                                                                                                                                                                                                                                                                        inclusão escolar                          13 anos
                                                                                                                                                                                                                                                                            Simone Cucolicchio
               Organização:         Promoção:              Apoio:


                                                                                                                                                                                                                                                                                    www.atlanticaeditora.com.br
síndromes
                                                                                       Julho • Agosto de 2012 • Ano 2 • Nº 4




revista multidisciplinar do desenvolvimento humano



                                                    2
         diretoria
     Ismael Robles Junior                                                  EDITORIAL
  ismael@revistasindromes.com                                              Dr. Francisco Assumpção Junior
 revistasindromes@yahoo.com.br
         (11) 4111 9460



                                                    3
      Antonio Carlos Mello                                                 ARTIgO DO mês
  mello@atlanticaeditora.com.br                                            Transtorno bipolar do humor
 coordenador editorial                                                     Francisco B. Assumpção Jr.
Dr. Francisco B. Assumpção Jr.                                             Evelyn Kuczynski


                                                   10
        colaboraram                                                        EnTREvIsTA
      com essa edição
   Alessandra Freitas Russo                                                Transtorno Bipolar e Depressão
   Carolina Rabello Padovani                                               Dr. Miguel Angelo Boarati
   Cristina de Freitas Cirenza                                             Leandra Migotto Certeza
        Evelyn Kuczynski


                                                   15
       Julianna Di Matteo                                                  DEsEnvOLvImEnTO
Dr. Francisco Assumpção Junior
    Leandra Migotto Certeza                                                Sobre a noção de tempo
Maria Sigride Thomé de Souza                                               Melanie Mendoza


                                                   21
         Simaia Sampaio
 Simone Nascimento Fagundes                                                REAbILITAçãO
    Zein Mohamed Sammour                                                   Escola especial: conceitos e reflexões
                                                                           Dra. Alessandra Freitas Russo
    Administração e vendas
     Antonio Carlos Mello                                                  Christine Luise Degen


                                                   27
   mello@atlanticaeditora.com.br
                                                                           IncLusãO
      Vendas Corporativas
       Antônio Octaviano                                                   Inclusão escolar
 biblioteca@atlaticaeditora.com.br                                         Simone Cucolicchio
   Marketing e Publicidade


                                                   30
     Rainner Penteado                                                      O programa de inclusão de pessoas com
  rainner@atlanticaeditora.com.br                                          deficiência nas empresas – o fortalecimento no
       Editor executivo                                                    processo de fidelização do colaborador
    Dr. Jean-Louis Peytavin
 jeanlouis@atlanticaeditora.com.br
                                                                           Janaina Foleis Fernandes *


                                                   33
        Editor assistente                                                  DE mãE, pRA mãE
        Guillermina Arias
guillermina@atlanticaeditora.com.br                                        A importância da família para que tem transtor-
         Direção de arte                                                   no bipolar
         Cristiana Ribas                                                   Por Sonia Maria Bandeira
 cristiana@atlanticaeditora.com.br                                         Leandra Migotto Certeza


                                                   36
       Atlântica Editora
   Praça Ramos de Azevedo,                                                 ARTIgO DO LEITOR
           206/1910                                                        O programa de inclusão de pessoas com
Centro 01037-010 São Paulo SP
                                                                           deficiência nas empresas – o fortalecimento no
          Atendimento
        (11) 3361 5595                                                     processo de fidelização do colaborador
assinaturas@atlanticaeditora.com.br                                        Janaina Foleis Fernandes


                                                   39
                                                                           Até Quando?
                                                                           Alexandre Soares
                                                                           REpORTAgEm


                                                   40
      Envio de artigos para:                                               O sonho
 artigos@revistasindromes.com                                              Por Maria de Fátima de Oliveira
revistasindromes@yahoo.com.br                                              Leandra Migotto Certeza
  www.atlanticaeditora.com.br

   A revista Síndromes é uma publicação bimestral da Atlântica Editora ltda. em parceria com Editora Robles - Ismael Robles Jr. ME,
  com circulação em todo território nacional. Não é permitida a reprodução total ou parcial dos artigos, reportagens e anúncios publi-
   cados sem prévia autorização, sujeitando os infratores às penalidades legais. As opiniões emitidas em artigos assinados são de
 total responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, a opinião da revista Síndromes. Mandem artigos com no
  máximo 400-500 palavras, consistindo somente em uma opinião embasada em pequena bibliografia (3 ou 4 citações no máximo),
                                      podem estar na mesma página ou em páginas diferentes.
                             Praça Ramos de Azevedo, 206 sl. 1910 - Centro - 01037-010 São Paulo - SP
       Atendimento (11) 3361-5595 - artigos@revistasindromes.com - Assinaturas - E-mail: assinaturas@atlanticaeditora.com.br
EDITORIAL

                                                                            Dr. Francisco assumpção Junior



                                                         Com este, chegamos ao oitavo núme-     mente pela atualidade, sensacionalismo
                                                    ro desta publicação, editada de maneira     e eventual utilidade do tema fornecendo
                                                    ininterrupta durante todo esse período o    assim informações, muitas vezes pouco
                                                    que, convenhamos, não é tarefa fácil em     sérias ou sem embasamento teórico
                                                    um país que prima pelas dificuldades edi-   suficiente.
                                                    toriais, principalmente no que se refere         Esse talvez tenha que ser um cuidado
                                                    a um mercado tão técnico e específico.      quando se lê ou cita determinadas fontes
                                                         Trazemos aqui a mesma estrutura        posto que, essas nem sempre têm o
                                                    das edições anteriores, com o artigo de     cuidado necessário para determinadas
                                                    base referindo-se ao Transtorno Bipolar,    afirmações que, quando feitas de ma-
                                                    quadro que, neste momento, encontra-se      neira impensada, tornam-se de domínio
                                                    no auge do interesse através de divulga-    público causando danos à população
                                                    ção na mídia leiga. Aliás, a questão da     interessada.
                                                    divulgação na mídia não especializada            Nosso princípio tem sido esse.
                                                    talvez seja um tema que deva ser consi-          Nossas informações não são, na
                                                    derado uma vez que cabe diferenciarmos      grande maioria das vezes, novas ou
                                                    artigos de divulgação, apresentados         inovadoras porém tem embasamento
                                                    em revistas específicas como esta, por      suficiente para terem credibilidade.
                                                    exemplo, e artigos divulgados através da         Exatamente por isso é que os artigos
                                                    imprensa leiga.                             têm sido, cada vez mais, selecionados
                                                         Isso porque os primeiros, embora       e controlados para que as informações
                                                    destinados a um público leigo e sem um      apresentadas tenham um caráter de
                                                    caráter científico que prevê uma meto-      aceitação institucional.
                                                    dologia e apresentação características,          Esse é o objetivo que perseguimos e
                                                    têm, como preocupação, a seriedade          que, acreditamos, estejamos alcançando.
                                                    nas informações, representadas através           Esperamos que a leitura deste nú-
                                                    de técnicos responsáveis pelos textos e     mero seja agradável para todos e que as
                                                    pela seleção dos assuntos.                  informações aqui apresentadas sejam
                                                         As publicações gerais, ao contrário,   úteis aos interessados na área.
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012




                                                    habitualmente interessam-se principal-           Boa leitura




                                                                                                                  Francisco b. Assumpção Jr.




      2
A RT I g O D O M ê S




       Transtorno bipolar do humor
                           Francisco B. assumpção Jr.
                                EvElyn KuczynsKi




     Os transtornos do humor (depressão      Tais pacientes apresentam irritabilidade
e transtorno bipolar, entre outras entida-   prevalente e instabilidade do humor (o
des menos veiculadas) são condições          que pode se manifestar por episódios
psiquiátricas que se apresentam (via de      de choro imotivado). A agressividade
regra) na forma de recorrentes períodos      auto- (contra si mesmo) ou heterodiri-
(as chamadas “fases”) de polarização         gida (voltada para outrem) também se
do humor, acompanhados de outros sin-        mostra muito presente. Inquietas, falam
tomas (secundários a esta polarização).      muito mais rápido do que o normal, com
Refutado até muito recentemente entre        grande aumento da distratibilidade, e
crianças e adolescentes (em função de        muitas vezes há o relato de uma reduzida
teorias então vigentes), ainda hoje seu      necessidade de dormir. Pensamentos
diagnóstico é um desafio, dado que mui-      fantasiosos e de grandeza podem se
tas atitudes e comportamentos criam          manifestar na forma de acidentes (muitos
dificuldades no diagnóstico diferencial,     se veem como super-heróis, ou creem ter
gerando muita discussão sobre o tema.        poderes especiais).
     Um indivíduo pode apresentar apenas         Os egípcios e sumerianos, por volta
episódios depressivos ao longo do curso      de 2.600 A. C., já buscavam estabelecer
de sua doença (o denominado “transtorno      um diferencial entre a melancolia (hoje
depressivo recorrente”), mas a presença      denominada “depressão”) e a histeria.
em seu histórico de um único episódio de     Já Hipócrates (460-377 A. C.) apresen-
“mania” (mesmo na ausência de episó-         tou uma classificação para transtornos
dios depressivos) caracteriza o diagnós-     mentais que incluía a melancolia e a         SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012

tico de “transtorno bipolar” (ou “episódio   mania. A mania seria um transtorno
maníaco”, se o quadro não se apresentou      mental agudo (na ausência de febre). A
ainda com recorrências). Uma vez que as      melancolia correspondia a vários tipos de
manifestações de uma fase depressiva         transtornos mentais que se assemelha-
foram extensamente detalhadas em ar-         vam pela cronicidade. De acordo com as
tigo prévio (Kuczynski E & Assumpção Jr      teorias vigentes na época, relacionou tais
FB., 2012), buscaremos nos concentrar        quadros ao temperamento, associando
nos aspectos relacionados a “mania” (em      os coléricos à hostilidade, os sanguíneos
todas as suas particularidades).             à alegria, os melancólicos à depressão,
     A chamada “fase maníaca” é um           e os fleumáticos à apatia e indiferença.
quadro grave e que resulta numa que-         Mas entre crianças estes quadros não
da acentuada do desempenho escolar.          foram descritos até 1621, quando Robert            3
Burton descreve crianças melancólicas       bios de conduta, transtorno do déficit de
                                                    (portadoras de tristeza, desesperança,      atenção-hiperatividade (TDAH), distúrbios
                                                    ausência de prazer...), associando tal      de conduta, transtorno do déficit de
                                                    quadro a pais de má índole, madrastas,      atenção-hiperatividade ou esquizofrenia
                                                    tutores, professores muito rigorosos e      apresentavam os critérios de diagnóstico
                                                    severos, ou omissos e indulgentes, numa     do DSM-III para mania. No início dos anos
                                                    tentativa de explicação psicogenética.      90, passa a se utilizar escalas de avalia-
                                                         Em 1845, Esquirol descreve algumas     ção para transtorno bipolar em crianças
                                                    crianças com quadro maniforme, mas          e adolescentes, visando maior acurácia
                                                    Kraepelin (famoso por haver identificado    diagnóstica.
                                                    e descrito as diferenças entre a psico-          O transtorno maníaco na criança é
                                                    se maníaco-depressiva e a demência          um quadro grave, que afeta seu rela-
                                                    precoce, posteriormente batizada de         cionamento familiar e sua performance
                                                    “esquizofrenia”, com base em sua evo-       escolar. Seu diagnóstico obrigatoriamen-
                                                    lução natural) considerava muita rara a     te exclui o de esquizofrenia, transtorno
                                                    mania em idades precoces, observando        esquizofreniforme, transtorno delirante ou
                                                    ainda que cerca de 0,5% dos pacientes       transtorno psicótico sem outra especifi-
                                                    adultos haviam tido um primeiro episódio    cação, assim como não pode ser firmado
                                                    na infância. Bleuler também descreve        durante o uso associado de drogas psico-
                                                    observações infantis.                       ativas. Esses episódios maníacos podem
                                                         Com a progressiva mudança concei-      ser classificados em leves, moderados ou
                                                    tual e de critérios de diagnóstico, surge   graves, devendo-se especificar presença
                                                    uma visão menos restritiva, com a ob-       ou ausência de sintomas psicóticos.
                                                    servação de que muitos adolescentes e            Já a hipomania se caracteriza pela
                                                    adultos jovens (até então diagnosticados    presença de uma elevação discreta
                                                    como esquizofrênicos) eram portadores       (mas persistente) do humor, da energia
                                                    de transtornos afetivos. Entretanto, a      e da atividade, associada (em geral) a
                                                    dificuldade diagnóstica constituía-se em    um sentimento intenso de bem-estar e
                                                    fator de importância, em função das di-     de eficácia física e psíquica. Aumenta o
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012




                                                    ficuldades observadas (principalmente)      nível de sociabilidade, a produção verbal,
                                                    na avaliação das crianças mais jovens.      a desinibição social e a libido, muitas
                                                         Desta forma, Weinberg (baseado         vezes associada a mesma redução da
                                                    nos critérios de Feighner) elabora uma      necessidade de sono. Não são sintomas,
                                                    adaptação do diagnóstico para crianças      contudo, graves a ponto de deteriorar o
                                                    e adolescentes, dada a necessidade de       desempenho profissional ou desencadear
                                                    se criar critérios e escalas adequadas,     rejeição por parte do grupo social (fato
                                                    voltadas ao diagnóstico dos transtornos     que dificulta o engajamento do paciente
                                                    bipolares nesta faixa etária, adaptadas     em tratamento, já que ele se considera
                                                    aos diferentes níveis de amadurecimen-      “muito bem, não há nada de errado co-
                                                    to. A partir deste modelo, vários autores   migo”). A euforia e a sociabilidade são
                                                    observaram que 50% das crianças diag-       por vezes substituídas por irritabilidade
      4                                             nosticadas como portadoras de distúr-       constante, atitude altiva e pretensiosa
ou comportamento rude. As perturbações         as manias unipolares (nunca episódios
de humor e de comportamento não se en-         depressivos, só fases de mania). Tal clas-
contram acompanhadas de alucinações,           sificação tem sua importância em função
ou de ideias delirantes.                       da caracterização do risco associado de
      Desta forma, podemos ainda encon-        um episódio depressivo ou hipomaníaco
trar:                                          ser apenas o prenúncio de uma fase
• transtorno bipolar, episódio misto,          maníaca franca, por vezes psicótica, com
   numa mistura de sintomas de mania           todos os danos e riscos associados a
   e depressão, constatando-se presença        este tipo de quadro.
   de depressão ao menos por um dia,                 Alguns fatores importantes encon-
   alternado rapidamente com mania;            tram-se associados ao transtorno bipolar.
• transtorno bipolar, tipo depressivo,         São eles: predomínio no sexo masculino;
   onde o episódio atual é de natureza         em meninos de 10 anos ou mais; história
   depressiva (havendo relato de um ou         familiar de transtorno bipolar; alto grau
   mais episódios anteriores de mania);        de insatisfação conjugal entre os pais;
• ciclotimia, onde observamos inúmeros         episódios estressantes (que podem ser
   episódios de hipomania que ocorrem          os fatores desencadeantes do episódio
   em períodos de, ao menos, um ano,           maníaco, embora muitas vezes não se
   podendo se encontrar associados vá-         consiga estabelecer uma relação direta
   rios episódios de humor deprimido ou        entre os eventos).
   perda de interesse ou prazer, que não             Em crianças e adolescentes, seu
   reúnem todos os critérios de diagnósti-     diagnóstico é difícil, com inúmeras razões
   co para um episódio depressivo franco       para que esses pacientes sejam mal diag-
   ao longo do mesmo período de tempo;         nosticados, como por exemplo:
• transtorno bipolar sem outra especi-         • episódios de depressão e/ou hipo-
   ficação (ou SOE), com características           mania leves sendo confundidos com
   maníacas ou hipomaníacas, que não               transtornos de ajustamento (quadro
   satisfazem os critérios para qualquer           comportamental associado a adapta-
   outro transtorno bipolar específico.            ção a situações psicossociais críticas,
                                                   como doenças, internações, separa-        SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012
      Outra classificação (não oficial) uti-       ção conjugal, mudança de local de
liza os conceitos de bipolar I e II (sendo         moradia ou estilo de vida, etc.);
a última caracterizada por apenas hipo-        • episódios precoces de transtornos
mania e depressão), e o termo bipolar              de humor sendo confundidos com an-
III, que é utilizado para descrever aquilo         siedade de separação, fobia escolar,
que o DSM-III chamava de ciclotimia, ou            anorexia ou transtornos de conduta,
bipolar IV (quando mania ou hipomania              incluindo o TDAH;
são precipitadas por medicações antide-        • episódios graves confundidos com
pressivas). Bipolar V descreveria aqueles          esquizofrenia (em função de sin-
indivíduos que tem somente um único epi-           tomatologia), na forma de fuga de
sódio depressivo (com história familiar de         ideias, pensamento incoerente, bem
transtorno bipolar), e bipolar VI identifica       como ideias de conteúdo paranóide,              5
irritabilidade, alucinações e delírios    radouro, e o seguimento dessas crianças
                                                      (secundários ao humor).                   não revela uma evolução na direção do
                                                                                                transtorno bipolar, pelo menos não na
                                                         Apesar dos achados variarem para       forma clássica ou bipolar não complicada,
                                                    os diversos estudiosos do tema, algu-       o que muitas vezes leva a mais confusão
                                                    mas características tem sido sistema-       no processo diagnóstico.
                                                    ticamente apresentadas como distintas            Nunca é demais lembrar que (da
                                                    na fenomenologia e curso do transtorno      mesma maneira que com relação à sinto-
                                                    bipolar pediátrico:                         matologia depressiva) algumas condições
                                                    (1) humor expansivo ou elevado;             clínicas (como o hipertireoidismo, por
                                                    (2) irritabilidade proeminente;             exemplo) e o uso de algumas medicações
                                                    (3) episódios prolongados caracterizados    (entre elas os antidepressivos, os estimu-
                                                       por períodos de sintomatologia sutil;    lantes e os esteroides) pode desencadear
                                                    (4) sintomas depressivos entremeados        sintomas assemelhados ao quadro ma-
                                                       por sintomas maníacos (ou hipoma-        níaco em indivíduos suscetíveis, quadros
                                                       níacos);                                 estes muitas vezes indistinguíveis de
                                                    (5) alta prevalência das chamadas “co-      uma fase maníaca (ou hipomaníaca) de
                                                       morbidades”, especialmente TDAH,         origem endógena. Apenas uma anamnese
                                                       outros transtornos de conduta e trans-   apurada (associada ao exame clínico e
                                                       tornos ansiosos;                         psíquico detalhado) pode prevenir tais
                                                    (6) elevadas taxas de transtornos por uso   incorreções diagnósticas.
                                                       de substâncias psicoativas (entre os          Em crianças (pré-púberes), a clássica
                                                       adolescentes mais velhos);               mania-depressão é rara, apesar de ainda
                                                    (7) grande prevalência de sintomas psi-     não ser claro quão rara é. Por outro lado,
                                                       cóticos e tentativas de suicídio (com    sintomas maníacos e graves instabilida-
                                                       prejuízo funcional significativo).       des das emoções são bem mais comuns
                                                                                                e tem causado grande preocupação. Este
                                                         Devido à semelhança entre os sinto-    grupo específico é heterogêneo, com
                                                    mas da hipomania e do TDAH (como as         sintomatologia maníaca surgindo após
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012




                                                    queixas parentais de um falar excessivo     o início de outras condições clínicas,
                                                    e de ansiedade), esses pacientes podem      neurológicas e psiquiátricas, ou que
                                                    apresentar também um embotamento            reagem com sintomas maníacos ao uso
                                                    cognitivo, um prejuízo da concentração,     de drogas (ilícitas ou prescritas), além
                                                    agitação, logorréia, impulsividade e        das que apresentam atraso ou prejuízo
                                                    anedonia (perda do prazer associado         no desenvolvimento da regulação das
                                                    a atividades previamente prazerosas),       emoções.
                                                    além da dificuldade das crianças com             Em crianças, poucos são os estudos
                                                    TDAH de obter satisfação contínua em        prospectivos de transtorno bipolar, embo-
                                                    atividades que mantêm o interesse das       ra se acredite que possam se apresentar
                                                    crianças normais. Há que se destacar que    como transtornos comportamentais crô-
                                                    a criança com TDAH tem humor irritável.     nicos (com hostilidade, agressividade e
      6                                             No entanto, este último é um quadro du-     distratibilidade). Os estudos já realizados
sugerem que os transtornos afetivos          100.000 em 2003. Levantamento realiza-
tendem a ser familiares. A biologia mo-      do pelo National Institute for Mental Heal-
lecular tem sido usada para determinar       th identificou uma duplicação do número
se as formas mais graves de transtornos      de crianças e adolescentes atendidos por
afetivos bipolares estão ligadas (ou não)    transtorno bipolar em diversos países,
a marcadores genéticos, tais como a          sendo que este aumento chega a 40 ve-
ligação dos transtornos afetivos com o       zes (em algumas localidades dos EUA)!
cromossomo 11. Sabe-se, no entanto,          É possível se tratar de um exagero este
que o aparecimento precoce da depres-        boom diagnóstico da última década, o que
são está associado com o aumento da          sugere um despreparo dos psiquiatras em
carga genética familiar.                     campo, que não se mostram capacitados
     De modo geral, os transtornos afe-      a identificar corretamente sintomas e
tivos são caracterizados por um déficit      sinais do transtorno bipolar nesta faixa
(no caso da depressão) ou excesso (no        etária, o que pode estar levando a que
caso da mania) de um ou mais neuro-          se atribua este rótulo a todo e qualquer
transmissores ou por seu desequilíbrio.      caso de difícil caracterização diagnóstica
Duas hipóteses foram formuladas em           ou que se mostre refratário às opções
relação à fisiopatologia dos transtornos     terapêuticas.
afetivos. A primeira é centrada nas cate-         Estudos retrospectivos e longitudi-
colaminas (como a noradrenalina), e a        nais de evolução natural relatam que 40
outra, na indolamina 5-hidroxitriptamina     a 100% das crianças e adolescentes com
(ou serotonina). A hipótese da cateco-       transtorno bipolar se recuperam em um
lamina propôs que alguns quadros de          período de um a dois anos, mas 60 a 70%
depressão são associados à deficiência       apresentarão recorrência do quadro (em
de catecolaminas em importantes sítios       média 10 a 12 meses após).
do cérebro, e que a mania é causada por           Por definição, os transtornos de
um excesso de catecolaminas. Acredita-       humor são um complexo clínico mul-
-se que o déficit de serotonina poderia      tifatorial. Assim sua terapêutica deve
explicar melhor tais quadros, mas um         ser orientada. No caso do transtorno
simples déficit da serotonina não poderia,   bipolar, esse tratamento tem sido             SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012

por si só, ocorrer por conta de todos os     menos abordado, com a maioria das
resultados encontrados. Por outro lado,      indicações terapêuticas extrapoladas
poucos estudos biológicos das medidas        das obtidas junto a população adulta.
de serotonina podem ser interpretados        Desta maneira, as abordagens psi-
como consistentes, como o aumento ou         cofarmacológicas são privilegiadas
diminuição da atividade desse sistema.       (apesar de frequentemente instituídas
     Até 1994, não eram muitos os            a partir dos resultados de estudos
médicos que consideravam a entidade          abertos e relatos de caso). Exceção
bipolar em crianças. De uma incidência       seja feita à eficácia e segurança do
de 25 diagnósticos precoces para cada        uso de lítio em adolescentes, assim
100.000 crianças, os dados saltaram          como do uso de divalproato extended
para 1.003 diagnósticos para cada            release (a formulação de liberação                  7
prolongada). Ainda há poucos dados            (ainda que não haja informação suficiente
                                                    quanto à eficácia e segurança de ou-          neste sentido).
                                                    tros agentes antiepiléticos utilizados              “(...) Deus não é compatível com as
                                                    como estabilizador do humor para              máquinas, a medicina científica e a feli-
                                                    o tratamento da mania bipolar em              cidade universal. Deve-se optar. Nossa
                                                    jovens.                                       civilização escolheu a máquina, a medi-
                                                          Estudos em populações infantis não      cina e a felicidade. Eis porque é preciso
                                                    obedecem aos mesmos modelos da-               guardar esses livros trancados no cofre.
                                                    queles do adulto, justificando a cautela      Eles são indecentes (Huxley, 1972).”
                                                    em seu uso, monitoração laboratorial e              Diante do exposto, é evidente que
                                                    o ajuste da dose baseado na resposta          ainda há um longo caminho a ser trilha-
                                                    clínica, com a remissão dos sintomas          do na pesquisa e desenvolvimento de
                                                    maníacos e psicóticos. Ainda se fazem         esquemas terapêuticos apropriados para
                                                    necessários estudos prospectivos e            os transtornos do humor cujos sintomas
                                                    controlados avaliando a segurança (de         se iniciam na infância, visto que a mera
                                                    longo prazo) e a eficácia das medicações      utilização de esquemas consagrados
                                                    psicotrópicas, assim como o tratamento        como eficazes entre pacientes adultos
                                                    das condições comórbidas na infância e        não surtem o efeito esperado em crianças
                                                    na adolescência.                              e adolescentes. Acredita-se que isto ocor-
                                                          De acordo com as diretrizes de con-     ra por particularidades de uma condição
                                                    senso da Child and Adolescent Bipolar         clínica deflagrada tão precocemente no
                                                    Foundation (CABF), a monoterapia com          curso da vida, ou por particularidades dos
                                                    estabilizadores do humor tradicionais ou      mecanismos de metabolização e ação
                                                    antipsicóticos atípicos deve ser a primeira   terapêutica em organismos ainda em
                                                    escolha no tratamento de transtorno bipo-     desenvolvimento, hipóteses que devem
                                                    lar tipo I (maníaco ou misto) na ausência     ser mais esmiuçadas. Questões éticas,
                                                    de psicose associada. A associação de         metodológicas e epidemiológicas tornam
                                                    um segundo estabilizador do humor ou          esta busca ainda mais complexa, com
                                                    antipsicótico atípico deve suceder uma        repercussões sobre as possibilidades de
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012




                                                    resposta parcial à monoterapia, assim         oferecer aos nossos jovens uma melhor
                                                    como para casos com presença de sinto-        resolução e evolução. Cabe, portanto,
                                                    mas psicóticos. O CABF não estabeleceu        dedicar a maior atenção e empenho ao
                                                    nenhum algoritmo de tratamento para a         estudo deste tema para não lhes negar
                                                    depressão bipolar, uma vez que não há         um desenvolvimento satisfatório, face às
                                                    dados suficientes para embasar tal con-       consequências que a depressão ou trans-
                                                    senso na faixa etária pediátrica. As dire-    torno bipolar mal conduzidos na infância
                                                    trizes da CABF e da American Academy of       podem acarretar.
                                                    Child and Adolescent Psychiatry (AACAP)             Em suma, os transtornos do humor
                                                    preconizam a terapêutica de manutenção        na infância e adolescência não são raros,
                                                    com a persistência das drogas e doses         mas extremamente importantes, não so-
                                                    utilizadas quando da estabilização do         mente pela orientação terapêutica, como
      8                                             quadro por um período de 12 a 24 meses        também pelo diagnóstico diferencial e
consequente prognóstico. A abordagem                      pertinente). Para a prevenção de riscos
psicofarmacológica é de fundamental                       de suicídio, é preciso avaliar a real se-
importância, ainda que coadjuvada por                     gurança de sua permanência em casa
outras formas de abordagem (psicoterá-                    nestas situações.
picas, familiares e sociais), visando-se a
melhor solução para o problema.                           Referências bibliográficas:
     O manejo da criança deve ser o mais
precoce possível, com avaliação e defini-                 1. HUXLEY, A. Admirável mundo novo. São
ção do tipo de tratamento. Deve-se fazer                     Paulo: Edibolso, 1972.
a avaliação da sintomatologia depressiva                  2. KUCZYNSKI, E.; ASSUMPÇÃO JR, F.B.
e as possíveis associações: diagnóstico,                     Depressão Infantil. Síndromes, p.9-11,
                                                             jan/fev 2012.
falhas na educação, prejuízo no funciona-
mento/psicossocial, transtornos psiqui-
átricos, histórico de maus tratos. Se a                   bibliografia recomendada:
depressão for leve, realizam-se encontros
                                                          3. FU-I, BOARATI, MAIA e colaboradores
regulares, com discussões envolvendo a
                                                             (2012). Transtornos afetivos na infância e
criança/adolescente e seus pais, dando
                                                             adolescência: diagnóstico e tratamento.
suporte para aliviar o estresse e melhorar                   Porto Alegre: Artmed (376p.)
o humor. Se a depressão for de maior
gravidade, deve-se indicar um tratamen-
to mais direcionado (sob internação, se




                                                                                                               SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012

                          Francisco b. Assumpção Jr.,                         Evelyn Kuczynski, Pediatra.
                          Psiquiatra da Infância e da                         Psiquiatra da Infância e da
                          Adolescência. Livre Docente                         Adolescência. Doutora pela
                          em Psiquiatria pela Faculdade                       FMUSP Pesquisadora volun-
                                                                                     .
                          de Medicina da Universidade                         tária do Projeto Distúrbios do
                          de São Paulo. Mestre e Doutor                       Desenvolvimento do Depar-
                          em Psicologia pela Pontifícia                       tamento de Psicologia Clínica
Universidade Católica de São Paulo. Professor Associa-    do IP-USP
do do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto
de Psicologia da Universidade de São Paulo. Membro da
Academia Paulista de Psicologia (cadeira 16).

                                                                                                                     9
E n T R E v I S TA




                                                                          Transtorno Bipolar
                                                                             e Depressão
                                                                              Dr. miguEl angElo Boarati*
                                                                  Jornalista rEsponsávEl: lEanDra migotto cErtEza**


                                                    1- Os transtornos de humor ou afetivos,          sem outras especificações. A mania é uma
                                                    como a o bipolar e a depressão são alte-         das fases ou pólos do transtorno bipolar e
                                                    rações de energia, ânimo, jeito de pensar,       só ocorre nesta doença, não surgindo em
                                                    sentir e se comportar. Quando alguém             pessoas com depressão. Ela se caracteriza
                                                    começa a perceber alguns dos principais          por uma felicidade extrema e exagerada
                                                    sintomas que devem ser observados para           (chamada de euforia); grandiosidade, sen-
                                                    procurar especialistas em busca de um            sação de poder e bem estar, aumento de
                                                    diagnóstico seguro?                              energia e de pensamentos, menor necessi-
                                                                                                     dade de sono (alguns pacientes ficam dias
                                                        A principal dica é o indivíduo perce-        sem dormir e não se sentem cansados),
                                                    ber que está diferente do seu habitual. É        hiper-sexualidade, gastos excessivos,
                                                    normal um dia acordarmos mais triste ou          busca intensa por atividades prazerosas e
                                                    mais feliz, sem motivo especial e sem que        de risco e diminuição da crítica. Em casos
                                                    isso seja uma doença. Já o portador de           extremos ocorrem delírios de poder, riqueza
                                                    algum transtorno do humor (depressão ou          ou grandeza (onde o indivíduo pode acredi-
                                                    transtorno bipolar) apresenta uma mudança        tar ser alguém dotado de poderes especiais
                                                    substancial em suas emoções, pensamen-           ou enviado direto de Deus). Um episódio de
                                                    tos e ações, sem que consiga modificar           mania precisa durar pelo menos uma sema-
                                                    esse estado e com importantes prejuízos          na ou menos se o paciente ficar psicótico.
                                                    em sua vida prática. Em casos mais graves
                                                    há risco a integridade emocional e física,       3- O que significa a expressão bipolar? Ex-
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012




                                                    como na tentativa de suicídio.                   plique porque substitui a expressão usada
                                                                                                     antigamente ‘maníaco-depressivo’? Quais
                                                    2- Qual a classificação dos transtornos de       são os principais preconceitos e estigmas
                                                    humor? O que significa mania? Ela pode           que as pessoas com esta doença passam?
                                                    surgir em pessoas com depressão ou so-
                                                    mente com transtorno bipolar?                        Transtorno bipolar significa que a
                                                                                                     doença tem dois pólos distintos, um de
                                                         Os transtornos de humor classificam-        mania (ou hipomania) e outro depressivo.
                                                    -se em transtorno unipolar ou simplesmente       Há momentos em que o paciente pode
                                                    depressão (que pode ser classificado em          estar nas duas fases simultaneamente
                                                    leve, moderado ou grave), transtorno bipo-       que chamamos de fase mista. O termo
                                                    lar (tipo I, tipo II e tipo não especificado),   “Psicose maníaco-depressiva” caiu em
10                                                  distimia, ciclotimia e transtorno de humor       desuso porque nem sempre o paciente
está psicótico e em algumas situações o       5- Quais as principais causas e sintomas
paciente não apresenta mania, apenas hi-      da depressão? Existe cura? Ela pode surgir
pomania ou fases mistas. Existem muitos       em qualquer idade? Explique os ciclos de
preconceitos e estigmas que pacientes e       aparecimento da doença.
familiares enfrentam ainda hoje apesar de
se dispor de maior facilidade de acesso a           Assim como o transtorno bipolar, a de-
informações. Algumas pessoas acreditam        pressão (ou depressão unipolar) apresenta
que doenças afetivas sejam simples pro-       muitos fatores relacionados com sua ocor-
blemas emocionais ou religiosos e outras      rência, tanto fatores intrínsecos (genética,
pessoas menos escrupulosas falam em           traços de personalidade, vivências traumáti-
problemas de caráter.                         cas na infância, modelos educacionais, per-
                                              fil cognitivo) como extrínsecos (problemas
4- Quais são as principais causas do trans-   conjugais, insatisfação no trabalho, falta de
torno bipolar? Existe cura ou é necessário    perspectiva de vida). Também pode ocorrer
realizar tratamentos durante a vida toda?     em qualquer idade (da infância a velhice),
Ele pode surgir em qualquer idade? Expli-     sendo mais comum também no final da
que os ciclos de aparecimento da doença.      adolescência e vida adulta. Quanto maior
                                              vulnerabilidade do individuo e os fatores de
     É uma doença em que fatores genéti-      risco maior é a chance da ocorrência dessa
cos estão bem estabelecidos, mas não há       doença ser mais precoce.
uma causa única. Fatores ambientais, perfil
cognitivo e traços de personalidade também    6- Quais as principais diferenças entre de-
contribuem para sua gênese. É considera-      pressão e transtorno bipolar? As mesmas
da uma doença crônica, assim como do          características podem surgir em pessoas
diabetes, hipertensão e o reumatismo,         diagnosticas com as duas doenças?
mas existe tratamento que em muitos ca-
sos promovem estabilização total onde o           A doença depressão não possui a
paciente pode levar uma vida normal, com      fase de mania, hipomania ou fase mista,
algumas restrições (como uso de álcool        portanto é também chamada de trans-
ou privação de sono). Ela pode surgir em      torno unipolar. Normalmente os quadros          SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012
qualquer idade (desde a fase pré-escolar      depressivos no transtorno bipolar são
até a terceira idade), sendo mais comum       mais graves e pioram com o uso de anti-
em adultos jovens, apesar de que muitos       depressivos.
bipolares que iniciaram com a doença na
fase adulta relatam o início dos sintomas     7- O que é mania? Como identificar quando
inespecíficos de mudanças do humor no         uma pessoa está em estado de mania?
final da infância e início da adolescência.
Normalmente os casos de início precoce            É a fase ou polo do transtorno bipolar
(na infância e adolescência) o histórico      em que o indivíduo apresenta uma mudança
familiar de doenças do humor são mais         importante em seu humor basal com euforia
significativas.                               e uma extrema sensação de bem estar.
                                              Além da euforia é preciso observar outros       11
sintomas como irritabilidade, pressão de        10- Como surge o estado misto de sinto-
                                                    fala (taquilalia), diminuição da necessidade    mas de depressão e mania?
                                                    de sono, aumento de energia, aumento dos
                                                    pensamentos (quantidade e velocidade),              O estado misto é uma das fases do
                                                    grandiosidade, arrogância, hiperatividade,      transtorno bipolar, em que ao mesmo
                                                    distraibilidade, prejuízo da crítica, gastos    tempo o indivíduo apresenta sintomas de
                                                    excessivos, hipersexualidade e busca por        depressão e mania.
                                                    atividades prazerosas ou de risco. É ne-
                                                    cessária uma semana de sintomas para se         11- O que acontece se as pessoas com
                                                    fechar o diagnóstico de mania.                  depressão e/ou transtorno bipolar não
                                                                                                    se tratam?
                                                    8- O que é hipomania? Como ela surge em
                                                    pessoas com depressão e/ou transtorno               Várias são as complicações dentre
                                                    bipolar?                                        elas piora progressiva dos sintomas e es-
                                                                                                    tado crônico dos mesmos. É comum que
                                                        A hipomania lembra o estado de mania,       pessoas que não aceitam o tratamento
                                                    mas bem mais brando, sem euforia ou sin-        comecem a apresentar perdas importantes
                                                    tomas psicóticos (de grandeza ou poder). A      no padrão de vida e de relacionamento,
                                                    hipomania só ocorre em transtorno bipolar.      além de perdas cognitivas que podem ser
                                                                                                    temporárias ou permanentes a depender
                                                    9- Qual a diferença de ter depressão e es-      do tempo de evolução da doença e da
                                                    tar deprimido ou triste? Como identificar       gravidade da mesma.
                                                    sinais que indicam o momento de procurar
                                                    um médico psiquiatra?                           12- Quais os principais tratamentos medi-
                                                                                                    camentosos para depressão e transtorno
                                                         A tristeza é um sentimento normal e        bipolar?
                                                    importante. Ficamos tristes quando per-
                                                    demos algo ou alguém ou quando alguma                 Para a depressão unipolar utilizam-se
                                                    coisa não dá certo ou quando estamos            os antidepressivos. Hoje em dia existem
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012




                                                    entediados. Mas isso logo se dissipa e          diferentes classes dessas medicações
                                                    logo conseguimos retomar nossa vida. Na         com perfil de resposta clínica e tolerâncias
                                                    depressão existe uma tristeza mais acen-        distintas. Já o transtorno bipolar exige o
                                                    tuada e permanente, que não melhora com         uso de medicações chamadas estabiliza-
                                                    o apoio da família. Além disso, o individuo     doras do humor. A mais importante é o
                                                    apresenta alterações físicas com piora no       lítio, mas também alguns antiepilépticos
                                                    padrão de sono e de alimentação, cansaço        e antipsicóticos de segunda geração. Os
                                                    e falta de energia, dificuldade de concentra-   antidepressivos poderão ser usados na
                                                    ção, pensamentos negativos e um intenso         fase depressiva da doença, mas com o
                                                    sentimento de culpa e de inutilidade. É         cuidado, pois há risco de virada maníaca
                                                    muito comum o pensamento de morte e             (o paciente sair da depressão e ir para a
                                                    tentativas de suicídio.                         mania).
12
13- Qual a importância de realizar um tra-      fortes componentes biológicos na gênese
tamento psicológico junto com o uso de          de todos os transtornos mentais, inclusive
medicamentos?                                   nos transtornos do humor. Além disso, es-
                                                tressores psicossociais contribuem para o
     O tratamento psicoterápico nas dife-       desencadeamento, manutenção e piora dos
rentes linhas psicológicas (psicanalítica,      episódios da doença de humor.
junguiana, cognitivo-comportamental, com-
portamental) e nas diferentes modalidades       16- Qual a probabilidade de mulheres, ho-
(individual, grupo e familiar) é essencial      mens ou crianças terem depressão e/ou
no sentido de trabalhar conflitos, ajudar       transtorno bipolar?
o paciente elaborar perdas e desenvolver
recursos emocionais e cognitivos para lidar         A depressão é mais prevalente em
com as demandas da vida e da sua doen-          mulheres, mas com aumento significativo
ça. Também é essencial a psicoeducação,         em homens, girando em torno de 20-30%.
onde o paciente e a familiar aprendem so-       A prevalência aumenta com a idade. Já o
bre a doença e como lidar com as diferentes     transtorno bipolar é mais raro, girando em
facetas dela.                                   torno de 1 a 2% o tipo I (mania-depressão)
                                                e em torno de 4% o tipo II (hipomania e
14- Quais os perigos de tomar bebidas           depressão). Mas quando consideramos o
alcoólicas ou fazer uso drogas ilícitas         espectro bipolar (que incluem pessoas que
quando se tem diagnóstico de depressão          apresentam alguns sintomas de bipolari-
e/ou transtorno bipolar?                        dade sem preencherem todos os critérios
                                                diagnósticos) a prevalência sobe para 8 a
      Substâncias psicoativas como drogas       10% da população.
ilícitas e o álcool pioram a evolução clínica
da depressão e transtorno bipolar, além de      17- Qual a importância do apoio da família
prejudicarem significativamente a resposta      durante o tratamento dessas doenças? E
dos medicamentos.                               qual a importância das associações de por-
                                                tadores e familiares para a troca de experi-
15- Quando surgiram os principais casos         ências entre as pessoas com as doenças?        SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012
de depressão e transtorno bipolar na
história da medicina? Quais os principais            É fundamental o apoio e o engajamen-
avanços nos tratamentos de hoje?                to da família, porque muitas vezes outros
                                                membros podem estar doentes sem saber.
     Os primeiros relatos bem descritos         A família é ponto de apoio, junto com os
estão na antiguidade clássica, na Grécia.       amigos, para contribuir para a melhor ade-
Na época acreditava-se que as pessoas           são ao tratamento e ajuda nos momentos
fossem regidas por humores que eram             em que os sintomas ficam agudos. Grupos
líquidos corporais que modulavam as emo-        de autoajuda também contribuem bastante
ções das pessoas. O desequilíbrio dessas        no conhecimento e na quebra dos tabus
substâncias produziam as alterações             e preconceitos que cercam as doenças
emocionais. Hoje sabemos que existem            afetivas.                                      13
18- Qual a mensagem que o senhor deixa                       tratadas com melhora significativa dos
                                                    para os leitores da Revista Síndromes so-                    sintomas e controle das crises. Porém,
                                                    bre transtorno bipolar e depressão?                          infelizmente ainda hoje existem poucos
                                                                                                                 serviços públicos destinados ao tratamento
                                                         Os transtornos do humor são altamen-                    dessas pessoas, além de desinformações
                                                    te prevalentes em nossa população e sua                      e preconceitos que atrapalham a busca de
                                                    prevalência vem aumentando assim como                        ajuda precocemente.
                                                    muitas outras doenças que no passado
                                                    eram mais raras como a obesidade, hiper-
                                                    tensão, diabetes e cânceres. É importante
                                                    entender que depressão e transtorno bipo-
                                                    lar são doenças que geram um importante
                                                    sofrimento e prejuízo ao portador, com
                                                    perda da qualidade de vida e de seu fun-
                                                    cionamento global. São doenças com alta
                                                    carga genética, onde fatores ambientais
                                                    promovem o início mais precoce e mais
                                                    grave. Também são doenças que são




                                                                                                                                             **Leandra migotto certeza
                                                                                                                                             é bacharel em Comunicação
                                                                                                                                             Social pela Universidade
                                                                                                                                             Anhembi Morumbi, jornalista
                                                                                                                                             desde 1998, e repórter espe-
                                                                                                                                             cial da Revista Síndromes. Foi
                                                                                                                                             editora da Revista Sentidos e
                                                                                                                                             Ciranda da Inclusão, além de
                                                                                                                 escrever para diversos portais como Setor 3 do SEnAC/
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012




                                                                               *miguel Angelo boarat, 41         SP Rede SACI/USP e Inclusive. Ela tem deficiência física
                                                                                                                   ,
                                                                               anos é Psiquiatra da Infância e   (Osteogenesis Inperfecta), é assessora de imprensa da
                                                                               Adolescência, Coordenador do      ABSW – Associação Brasileira de Síndrome de Williams,
                                                                               ambulatório do Programa de        consultora em inclusão (premiada em Lima e na Co-
                                                                               Transtornos Afetivos (PRATA)      lômbia), e mantém o blog “Caleidoscópio – Uma janela
                                                                               do Hospital Dia Infantil (HDI),   para refletir sobre a diversidade da vida”: http://leandra-
                                                                               do Serviço de Psiquiatria         migottocerteza.blogspot.com/. Conheçam os modelos
                                                    da Infância e Adolescência (SEPIA), e do Instituto de        de palestras, encontros, oficinas, cursos, treinamentos
                                                    Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas de São Paulo.     e materiais informativos sobre Diversidade e Inclusão,
                                                    Contatos: maboarati@yahoo.com.br e www.psiquiatria-          realizados em empresas, escolas, Ongs, centros
                                                    boarati.com.br                                               culturais e grupos de pessoas no site da Caleidoscópio
                                                    Livros publicados: www.viversaude.com.br                     Comunicações – Consultoria em Inclusão: https://sites.
                                                                                                                 google.com/site/leandramigotto/
14
D E S E n v O Lv I M E n T O




            Sobre a noção de tempo
                                 mElaniE mEnDoza




     Psicóloga e Pesquisadora do Projeto    complexas, como aprendizagem e pla-
Distúrbios do Desenvolvimento da USP,       nejamento. No nível mais elementar, o
Mestranda em Psicologia Clínica pelo        tempo é essencial no processamento de
Instituto de Psicologia da Universidade     estímulos que alcançam a visão, o tato
de São Paulo (IP-USP), Especialista em      e a audição, e cada um desses sistemas
Terapia Comportamental e Cognitiva pelo     sensoriais possui substratos neuronais
Hospital Universitário da Universidade de   especializados na organização sequencial
São Paulo (HU-USP) e Psicóloga do Setor     dos eventos percebidos, da frequência de
de Psicologia Infantil da Associação de     sua ocorrência e de sua duração.
Assistência à Criança Deficiente (AACD).        A temporalidade faz parte das habili-
     Em 1992, no Rio de Janeiro, a          dades complexas em primatas, especial-
canadense Severn Suzuki de 12 anos,         mente nos humanos. A capacidade de
na introdução de seu discurso para os       colocar os eventos em uma linha do tem-
líderes mundiais, disse: “Ao vir aqui       po possibilita organizar psicologicamente
hoje, não preciso disfarçar meu objetivo,   o mundo exterior e interior, e nos auxilia
estou lutando pelo meu futuro.” Embora      no planejamento das ações futuras; por
tenha tido poucos resultados práticos,      isso a noção de tempo e sequência dos
como pudemos acompanhar durante a           acontecimentos são intrínsecas a outras
Rio+20, suas palavras emocionaram           funções altamente elaboradas, como me-
líderes e ambientalistas na ocasião e       mória e estabelecimento de metas. Como
foram relembradas por vários meios          outras habilidades, elas sofrem um incre-
de comunicação durante a conferência        mento durante o desenvolvimento normal       SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012

neste ano. Deixemos de lado a política      da criança, até atingirem um alto grau
e a economia e pensemos um pouco na         de complexidade na idade adulta, e são
espantosa habilidade dos seres humanos      passíveis de prejuízos nos transtornos de
de viajar no tempo ao se lembrar do que     desenvolvimento e perdas nas lesões e
foi dito naquela ocasião e da capacidade    doenças que acometem o cérebro.
de se lançar no futuro, como Severn foi
capaz de fazer.                             Tempo e percepção
     Frequentemente ignorada nos ex-
perimentos científicos, a noção de               Diferentemente de outras proprie-
tempo é um componente central tanto         dades da percepção, como localização,
de processos psicológicos da percep-        orientação e reconhecimento, por exem-
ção, quanto de funções cognitivas mais      plo, o componente temporal começou a         15
ser estudado apenas mais recentemente        a noção de tempo organiza sequências
                                                    por meio do estudo da visão, muito em-       de eventos e as interações entre a ação
                                                    bora se admita que suas propriedades         da criança e uma consequência no meio.
                                                    ocorram em todas as vias sensoriais.         Conforme vai sendo ampliada a capaci-
                                                    Através de modelos animais, da avaliação     dade de manter a atenção por períodos
                                                    de pacientes com lesões e de estudos         maiores, a criança observa sequências
                                                    com voluntários normais foram encon-         mais duradouras e mais complexas de
                                                    tradas regiões denominadas caminho           eventos, construindo teorias, algumas
                                                    “quando”. Localizado no lobo parietal        implícitas e não formais, acerca do mun-
                                                    direito do cérebro, o caminho “quan-         do físico e das pessoas. Achados mais
                                                    do” é formado por uma série de áreas         recentes, não contemplados pela teoria
                                                    funcionais e anatômicas encarregadas de      piagetiana, demonstram que, nos primei-
                                                    processar e analisar intervalos de tempo     ros meses, bebês distinguem diferenças
                                                    mais longos do que aqueles processados       melódicas e rítmicas de segmentos
                                                    por áreas do córtex cerebral responsáveis    musicais simples, o que exige, como
                                                    por uma análise no nível mais elementar      sabemos, capacidades relacionadas
                                                    das informações provenientes do meio         à duração e sequência de eventos e,
                                                    (denominadas áreas corticais primárias) e    portanto, intervalos de tempo diferentes
                                                    mais curtas do que aqueles intervalos de     entre dois sons.
                                                    tempo que exigem julgamento cognitivo             A perda dessas habilidades é chama-
                                                    de nível superior, dos quais falaremos       da de agnosia de tempo, e se caracteriza
                                                    mais adiante.                                por uma incapacidade adquirida de perce-
                                                         Esse intervalo de tempo intermediá-     ber e reconhecer a ordem cronológica ou,
                                                    rio abrange a coreografia de eventos em      de outra forma, o que aconteceu “antes”
                                                    andamento, tais como transformações e        e o que aconteceu “depois”. Esse quadro
                                                    deslocamentos de um objeto no campo          foi descrito por Critchley em 1953, já re-
                                                    perceptivo e aparecimento e desapareci-      lacionando com lesões de lobo parietal
                                                    mento de objetos. É fundamental para que     direito: “Mais interessante e complicada
                                                    o indivíduo seja capaz de estabelecer a      dessas doenças do processamento espa-
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012




                                                    natureza e fluxo dos eventos e, portanto,    cial são aquelas que também envolvem
                                                    organizar as informações que chegam atra-    a concepção de tempo (...) é preciso dis-
                                                    vés das vias sensoriais e servirão de base   tinguir entre um sentido de tempo primi-
                                                    para as próximas ações e para a constru-     tivo da gnosia da concepção de tempo.”
                                                    ção de um conhecimento do mundo.             Embora esses casos raramente ocorram
                                                         Durante toda a vida, mas em especial    de maneira isolada de outras agnosias, a
                                                    no período que vai de zero a 24 meses        sua ocorrência serve de evidência da exis-
                                                    aproximadamente, denominado por Pia-         tência de áreas cerebrais especializadas.
                                                    get de estágio sensório-motor, o caminho
                                                    “quando” desempenha importante função        Tempo e memória
                                                    na aprendizagem baseada na percepção
                                                    e na interação motora com os objetos e           A linha do tempo de nossa vida or-
16                                                  agentes do mundo. Durante este estágio,      ganiza a memória e é ela que permite a
“viagem mental ao passado”. Embora a              A noção de tempo nesse tipo de me-
memória e aprendizagem já tivessem sido      mória está relacionada aos processos de
estudadas anteriormente, o conhecimen-       aprendizagem de novos procedimentos
to de sua organização e de tipos diferen-    e fortalecimento ou enfraquecimento de
tes de aprendizagem deu um grande salto      uma resposta ou respondente. No caso
através do estudo do famoso caso H.M.        dos procedimentos motores, a noção de
pela neuropsicóloga Brenda Mulner. Esse      tempo nos informa a sequência de ações
paciente, em virtude de uma epilepsia de     corretas. Por exemplo, precisamos colo-
difícil controle, foi submetido a uma am-    car a bicicleta em movimento antes de
pla cirurgia, que consistiu da ressecção     tirarmos os pés do chão ou precisamos
de porções bilaterais do lobo temporal.      apertar o botão de canal da TV depois do
Como resultado, o paciente adquiriu um       botão de ligar. No caso do fortalecimento
quadro muito grave de amnésia anterógra-     ou enfraquecimento de uma resposta, a
da, um déficit altamente incapacitante,      noção de tempo é fundamental na dife-
pois consiste em uma perda da habilidade     renciação entre causa e consequência.
de adquirir novas aprendizagens, fazendo     Por exemplo, depois que a criança diz
com que o individuo fique “vivendo no        “mamãe”, a mãe fala com ela. Vale men-
momento presente” e, por isso, ele fica      cionar que esses dois tipos de processos
privado de uma linha do tempo em que os      ocorrem ao mesmo tempo, uma vez que
eventos vão sendo registrados à medida       um ato motor executado adequadamen-
que se sucedem. Este caso trágico serviu     te tem maior probabilidade de trazer a
para, entre outros achados, esclarecer os    consequência desejada para aquele que
tipos distintos de memória, uma vez que      o executou, aumentando a probabilidade
alguns tipos de aprendizagem permane-        de que ele ocorra novamente no futuro
ceram preservados, especialmente as          (condicionamento operante).
perceptomotoras.
     O caso H.M. contribui para a desco-     •	 Memória	declarativa: este tipo de me-
berta de que, de acordo com a natureza          mória contém informações adquiridas
da informação, as memórias, de maneira          de maneira explícita e que somos
simplificada, podem ser:                        conscientes de possuir. Pode ser:        SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012
                                             a) semântica: está relacionada ao arma-
•	 Memória	procedimental: contém infor-         zenamento e evocação de informações
   mações que não temos consciência             de fatos e eventos e é independente
   de possuir, que foi adquirida de im-         do contexto em que foi adquirida, por
   plícita e está relacionada ao caminho        exemplo: “O Brasil foi descoberto
   “quando”, mencionado anteriormente.          em 1500 e ficou independente de
   Fazem parte deste tipo de aprendi-           Portugal em 1822.” A memória se-
   zagem os esquemas motores, como              mântica é normalmente associada à
   dirigir e andar de bicicleta, e os dois      aprendizagem acadêmica e à cultura
   tipos de condicionamento, operante e         geral. Costuma ter menos componen-
   respondente.                                 tes emocionais e, de maneira geral,
                                                é fortalecida através de estratégias     17
de memorização, como repetição e               A noção de tempo na memória auto-
                                                      associação a outros conteúdos.            biográfica está de maneira usual forte-
                                                                                                mente relacionada a conteúdos que pos-
                                                         A linha do tempo, neste caso, está     suem coloração afetiva própria; por isso
                                                    associada à sequência de eventos, de        a noção de tempo, embora organizado
                                                    maneira similar à reta numérica. É co-      cronologicamente, nem sempre obedece
                                                    dificada e decodificada com símbolos        a uma divisão objetiva. Ou seja, o “quan-
                                                    numéricos.                                  do” segue a ordem cronológica, mas nem
                                                                                                sempre recuperamos adequadamente o
                                                    b) episódica: contém informações de         “por quanto tempo” sem ajuda de um
                                                       fatos e eventos particulares de um       sistema externo de medição.
                                                       contexto determinado e permite a              Em crianças mais novas ou em qua-
                                                       codificação de informação relativa a     dros que cursam com deficiência inte-
                                                       associações e eventos de caráter pes-    lectual, por exemplo, essas habilidades
                                                       soal. O sistema de memória declarativa   estão prejudicadas e, embora a noção
                                                       episódica é formado pelo registro dos    de causalidade ou sequência de even-
                                                       eventos contextualizados no tempo e      tos possa estar preservada, dificilmente
                                                       no espaço; podem ser tanto eventos       é construída de maneira espontânea
                                                       de domínio público, como a “queda do     uma narrativa de vida. Já, na Doença de
                                                       muro de Berlim”, ou memórias autobio-    Alzheimer, não apenas vai havendo um
                                                       gráficas, como o “dia de nascimento do   agravamento da capacidade de consolidar
                                                       meu filho”. A noção de tempo nestes      novas memórias, mas as lembranças vão
                                                       tipos de registros é crucial, uma vez    sendo apagadas de acordo com a ordem
                                                       que organizam a história de nosso        cronológica, sendo as mais remotas as
                                                       meio sociocultural e dão a noção de      últimas a serem perdidas.
                                                       identidade para o indivíduo.                  O estudo do lobo temporal, em espe-
                                                                                                cial o hipocampo, também revelou alguns
                                                         Quando acessamos os dados de           aspectos intrigantes do papel adaptativo
                                                    nossa memória, somos capazes de via-        da retenção e recuperação de informa-
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012




                                                    jar no tempo e construir uma noção de       ções: se, em animais como roedores,
                                                    self. Por causa dessas características, a   os processos de memória estão rela-
                                                    organização cronológica exige habilidades   cionados a tarefas de navegação, como
                                                    cognitivas complexas, como o desenvolvi-    orientação geográfica em diversas formas
                                                    mento da linguagem de forma que ele dê      de labirinto, nos primatas e, sobretudo
                                                    subsídios à “narrativa”; por essa razão,    em humanos, destacam-se memórias re-
                                                    ela só começa a ocorrer de maneira mais     lacionadas a conteúdos autobiográficos.
                                                    consistente após os três anos de idade,     Essa discrepância pode ser resolvida se
                                                    quando as crianças começam a ser capa-      considerarmos que a especialização do
                                                    zes de construir uma “narrativa pessoal”,   hipocampo para navegação espacial no
                                                    situando e sendo capaz de comunicar os      ambiente animal pode ter sido adaptada
                                                    eventos não apenas em um “onde”, mas        em primatas em um espaço interno,
18                                                  também em um “quando”.                      virtual, mental, nos dando uma pista da
importância evolutiva relacionada não        anos, estava justamente nessa etapa do
apenas aos conteúdos armazenados,            desenvolvimento.
mas também à organização cronológica              Essas habilidades só são possíveis
para nossa espécie.                          porque já estão desenvolvidas noções
                                             claras de tempo cronológico de maior
Tempo e planejamento                         duração e o intervalo necessário para
                                             execução de tarefas complexas, além
     Quanto mais complexa a tarefa, mais     da capacidade de manter-se concentra-
interligados estão os processos cogniti-     do em atividades cujas consequências
vos. Como vimos anteriormente, a noção       desejadas não são mais imediatas. Na
de tempo está relacionada a todos os         idade adulta somos capazes de tomar
processos de aprendizagem, da infância à     decisões e executar ações cujo benefício
vida adulta. No entanto, essa “viagem no     só poderá ser percebido até mesmo déca-
tempo” não se restringe a uma “viagem ao     das adiante, como deixar de fumar, fazer
passado”, mas nossa espécie é capaz de       exames de rotina, contratar um plano de
realizar também uma “viagem ao futuro”.      previdência, para citar alguns exemplos
Concomitantemente ao desenvolvimento         apenas no nível individual.
das habilidades de planejamento e opera-          Pais de crianças pequenas frequen-
ções concretas e abstratas, ocorre um in-    temente queixam-se de que os filhos são
cremento da capacidade de compreender        “muito ansiosos” em relação a coisas
e utilizar o tempo, que neuroanatomica-      que estão para acontecer, mesmo aque-
mente está relacionada principalmente ao     les que possuem fortes características
desenvolvimento do córtex pré-frontal, que   positivas. Isso se deve, em parte, a uma
tem a fase final de seu desenvolvimento      percepção de que a “ida ao parque”, por
na adolescência, correlato ao período pia-   exemplo, pode ocorrer a “qualquer mo-
getiano denominado operacional formal,       mento”, pois nessa etapa do desenvolvi-
caracterizado pela emergência do racio-      mento o tempo que deve decorrer “até sá-
cínio lógico abstrato, que é a capacidade    bado” não é plenamente compreendido,
de estabelecer relações sobre fenômenos      assim como “daqui a uma hora”. Assim
imaginados.                                  como ocorre em relação à memória             SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012

       Ao longo da adolescência vamos        autobiográfica, nos transtornos que in-
sendo capazes de nos lançar ao futuro,       terferem no desenvolvimento cognitivo
de maneira cada vez mais sistemática,        das crianças, a noção de tempo futuro
percorrendo mentalmente as possibilida-      também é prejudicada. No Transtorno de
des de caminhos em direção a metas e         Déficit de Atenção e Hiperatividade, por
consequências de longo prazo, até que,       exemplo, em que está preservado o nível
ao final desse período, somos capazes        intelectual, é descrita uma inabilidade de
de iniciar ações cujos resultados podem      planejar não apenas todos os passos de
estar anos adiante. É nessa faixa etária     execução de uma tarefa, mas também
que pensamos em carreiras ou na socie-       o tempo necessário para executá-la; por
dade em que desejamos viver: Severn,         causa disso, alguns autores descrevem
citada no início deste artigo, aos 12        uma “cegueira para tempo” no TDAH.           19
considerações Finais                        são indicadores da alta complexidade dos
                                                                                                processos mentais dos quais uma noção
                                                         O avanço do conhecimento acerca        de tempo faz parte.
                                                    do cérebro e dos processos mentais,
                                                    subsidiado pelas ciências cognitivas,       Referências bibliográficas:
                                                    tem permitido maiores esclarecimentos
                                                    sobre a noção de tempo, muito embora,       1. Battelli, L., Walsh, V., Pascual-Leone,
                                                    em relação a outras habilidades percep-        A., & Cavanagh, P. (2008). The “when”
                                                                                                   parietal pathway explored by lesion
                                                    tivas, seus dados sejam escassos. Intrin-
                                                                                                   studies. Current opinion in neurobiology,
                                                    secamente relacionada aos processos
                                                                                                   18(2), 120-6. doi:10.1016/j.
                                                    de aprendizagem e memória, a noção
                                                                                                   conb.2008.08.004
                                                    de tempo nos fornece o fio condutor de      2. Cammarota, M., Bevilaqua, L. R., &
                                                    nossa história e, portanto, é fundamental      Izquierdo, I. (2008). Aprendizado e
                                                    na construção de um “eu” com passado           Memória. In: R. Lent, Nerociência da
                                                    e futuro. A percepção cognitiva de tempo       Mente e do Comportamento (pp. 241-
                                                    decorrido nos permite estabelecer rela-        252). Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.
                                                    ções de causalidade entre o que somos       3. Kandel, E. R. (2009) Em busca da
                                                    hoje, o que nos aconteceu no passado e         memória: em busca de uma nova ciência
                                                    o que seremos no futuro, tanto no nível        da mente. São Paulo: Companhia da
                                                    individual, quanto em termos de grupo          Letras
                                                    familiar, social ou como espécie.           4. Martí,E. (2004). Processos Cognitivos
                                                                                                   Básicos e Desenvolvimento Intelectual
                                                         As diferenças no processamento da
                                                                                                   entre seis anos e adolescência. In:
                                                    memória entre a nossa e as outras es-
                                                                                                   C. Coll, A. Marchesi, & J. Palácios,
                                                    pécies nos dá pistas sobre a importância
                                                                                                   Psicologia Evolutiva (Vol. I Psicologia
                                                    evolutiva da “viagem no tempo” para            Evolutiva, pp. 142-159). Porto Alegre:
                                                    os humanos. A recuperação de dados             Artmed.
                                                    que podem ser utilizados como fonte         5. Rodrigo, M. J. (2004). Desenvolvimento
                                                    de conhecimento no tempo atual para            Intelectual e Processos Cognitivos entre
                                                    alcançar metas futuras, inclusive para o       dois e seis anos. In: C. Coll, A. Marchesi,
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012




                                                    tempo além de nossa própria existência,        & J. Palácios, Psicologia Evolutiva (Vol. I
                                                    tal como preocupações com o mundo que          Psicologia Evolutiva, pp. 142-159). Porto
                                                    deixaremos para nossos descendentes,           Alegre: Artmed.




20
R E A B I L I TA ç ã O




       Escola especial: conceitos e
                reflexões
                           Dra. alEssanDra FrEitas russo
                                christinE luisE DEgEn


     No século passado, o médico inglês        Média, o que também era uma forma de
Jonh Longdon Down descreveu alguns             exclusão, ou na Idade Moderna, em que o
sinais físicos semelhantes num grupo           Humanismo, ao exaltar o valor do homem,
distinto de pessoas. Quanto ao comporta-       tinha uma visão patológica da pessoa
mento dessas pessoas, o médico inglês          que apresentava deficiência, observamos
as qualificou como amistosas, amáveis,         que o deficiente independente das diver-
mas improdutivas e incapazes para viver        sas formações sociais, sempre esteve
socialmente. Essa foi a primeira descri-       à margem da sociedade. A forma como
ção da síndrome de Down, a forma mais          se lida com a pessoa que apresentava
comum de deficiência intelectual causada       deficiência reflete a estrutura econômica,
por uma alteração genética.                    social e política do momento.
     De lá para cá, muito se evoluiu na            O deficiente por muitos séculos foi
forma de pensar e entender os indivíduos       tido como “problema” e segregado ao
com deficiência. Muito se aprendeu so-         convívio social escasso e a ausência de
bre a capacidade de adaptação dessas           oportunidades tanto acadêmicas quanto
crianças que hoje são produtivas e podem       sociais.
não só viver na sociedade como serem               A história da educação especial co-
produtivas e capazes de uma vida plena         meça a ser traçada no século XVI, com
e feliz.                                       médicos e pedagogos que, desafiando os
     Longe de propor soluções ou ditar         conceitos vigentes na época, acreditaram
qualquer regra ou verdade absoluta, este       nas possibilidades de indivíduos até en-
texto tem como objetivo fazer uma breve        tão considerados ineducáveis. Centrados      SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012

revisão histórica da educação especial e       no aspecto pedagógico, numa sociedade
posteriormente da inclusão escolar, para       em que a educação formal era direito de
ao final levar o leitor a uma reflexão sobre   poucos, esses precursores desenvolve-
os caminhos para a educação no país de         ram seus trabalhos em bases empíricas,
forma geral e mais especificamente, das        muitas das vezes, sendo eles próprios os
pessoas com necessidades especiais.            professores de seus pacientes.
                                                   Entretanto, apesar de algumas es-
Histórico                                      cassas experiências inovadoras desde
                                               o século XVI, o cuidado foi meramente
    Desde a Antiguidade, com a elimi-          assistencial, sem qualquer preocupação
nação física ou o abandono, passando           em preparar o deficiente para ser inde-
pela prática assistencialista da Idade         pendente ou adaptado.                        21
A institucionalização em asilos e        auditivas e, em menor quantidade, às
                                                    manicômios foi a principal resposta so-       deficiências físicas. Podemos dizer que
                                                    cial para tratamento dos considerados         em relação à deficiência mental houve um
                                                    diferentes. Foi uma fase de segregação,       silêncio quase absoluto por muito tempo.
                                                    justificada pela crença de que a pessoa            Em 1967, a Sociedade Pestalozzi do
                                                    diferente seria mais bem cuidada e prote-     Brasil, criada em 1945, já contava com
                                                    gida se confinada em ambiente separado.       16 instituições por todo o país. Criada em
                                                    Essa proposta tinha ainda, outro objetivo,    1954, a Associação de Pais e Amigos dos
                                                    que era também proteger a sociedade dos       Excepcionais já contava também com 16
                                                    “anormais”.                                   instituições em 1962. Nessa época, foi
                                                         Durante a maior parte da História        criada a Federação Nacional das APAES
                                                    da Humanidade, o deficiente foi vítima        (FENAPAES) que, em 1963, realizou seu
                                                    de segregação, pois a ênfase era na           primeiro congresso.
                                                    sua incapacidade, na anormalidade. Na
                                                    década de 70 surgiu o movimento da Inte-      Educação Especial
                                                    gração, com o conceito de normalização,
                                                    expressando que ao deficiente devem ser            O Brasil é considerado um dos piores
                                                    dadas condições as mais semelhantes às        países do mundo em investimentos na
                                                    oferecidas na sociedade em que ele vive.      área da educação. Em relação à educação
                                                    Inserir o deficiente nos vários aspectos de   especial essa realidade não é diferente.
                                                    seu grupo e não só na escola, passou a        Entretanto, apesar do pouco investimento
                                                    ser um novo modelo de olhar a educação        e do descaso político, a educação espe-
                                                    destes indivíduos.                            cial foi ganhando seu espaço de forma
                                                         Vários pesquisadores já evidencia-       lenta, por meio da criação de inúmeras
                                                    ram que descrever a história da Educação      instituições, geralmente filantrópicas e
                                                    Especial para deficientes mentais no Bra-     nascidas a partir de movimentos da pró-
                                                    sil não é uma tarefa simples (FERREIRA,       pria sociedade.
                                                    1989; MENDES, 1995), uma vez que                   Essas instituições eram de caráter
                                                    não encontramos na literatura disponível      assistencialista e cumpriam apenas sua
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012




                                                    estudos sistematizados sobre o assunto.       função de cuidado aos deficientes.
                                                         A história da Educação Especial no            Por educação especial entende-se o
                                                    Brasil tem como marcos fundamental a          atendimento educacional de pessoas com
                                                    criação do “Instituto dos Meninos Cegos”      necessidades especiais, isto é, daqueles
                                                    (hoje “Instituto Benjamin Constant”) em       que apresentam deficiências mentais,
                                                    1854, e do “Instituto dos Surdos-Mudos”       físicas, sensoriais, múltiplas deficiências
                                                    (hoje, “Instituto Nacional de Educação        e os superdotados. Embora a pessoa
                                                    de Surdos – INES”) em 1857, ambos na          com necessidades especiais deva ser
                                                    cidade do Rio de Janeiro, por iniciativa do   vista primeiramente como PESSOA, ele
                                                    governo Imperial.                             é também uma pessoa diferente.
                                                         Assim, a Educação Especial se carac-          Sendo assim, o desenvolvimento
                                                    terizou por ações isoladas e o atendimen-     harmonioso do educando sob o aspecto
22                                                  to se referiu mais às deficiências visuais,   individual, individual-social e predominan-
temente social é o que se pretende atingir         A partir da década de 90 as dis-
no processo educativo. A auto-realização,     cussões referentes à educação das
a qualificação para o trabalho, o exercício   pessoas com necessidades especiais
consciente da cidadania são decorrências      começaram a adquirir alguma consis-
de uma ação educativa eficaz e eficiente,     tência, face às políticas anteriores. A
seja ela dirigida a indivíduos portadores     nova LDB 9.394/96 em seu capítulo V
de necessidades especiais ou não.             coloca que a educação das pessoas com
     As diferenças entre a Educação           necessidades especiais devem se dar de
Especial e a Educação comum não se            preferência na rede regular de ensino, o
encontram nos aspectos filosóficos, mas       que traz uma nova concepção na forma
sim nas estratégias de ação que lhe são       de entender a educação e integração
próprias e múltiplas.                         dessas pessoas.
     A Educação Especial é definida como           Pesquisas têm confirmado que a
a modalidade de ensino que se caracteri-      inclusão escolar vem se efetivando de for-
za por um conjunto de recursos e serviços     ma inadequada, longe do ideal, revelando
educacionais especiais organizados para       o pouco interesse e investimento neste
apoiar, suplementar e, em alguns casos,       processo. Com isto pode se dizer que
substituir os serviços comuns, de modo        não se deve simplificar o processo, ou
a garantir a educação formal dos edu-         seja, achar que incluir signifique apenas
candos que apresentam necessidades            mudar o aluno de endereço, ou seja, sair
educacionais muito diferentes das da          da escola especial ou classe especial e ir
maioria das crianças e jovens. A defesa       para a classe comum do ensino regular.
da cidadania e do direito à educação das      São muitos os fatores envolvidos, os
pessoas com necessidades especiais é          quais sem dúvida estão sendo desconsi-
atitude muito recente em nossa socie-         derados ao se efetivar a inclusão escolar.
dade.                                              As crianças são consideradas educa-
     Assim, a educação especial foi cons-     cionalmente “especiais” somente quando
tituindo-se como um sistema paralelo ao       suas necessidades exigem a alteração do
sistema educacional geral, até que, por       programa, ou seja, quando os desvios de
motivos morais, lógicos, científicos, polí-   seu desenvolvimento atingem um tipo em       SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012

ticos, econômicos e legais, surgiram as       um grau que requerem providências pe-
bases para uma proposta de unificação.        dagógicas desnecessárias para a maioria
     Em meados da década de 90, no            das crianças.
Brasil, observando movimentos em outras            O discurso acerca da inclusão de
partes do mundo, já mais avançados,           pessoas com deficiência na escola, no
começaram as discussões em torno do           trabalho e nos espaços sociais em geral,
novo modelo de atendimento escolar            tem-se propagado rapidamente entre edu-
denominado Inclusão Escolar. Esse             cadores, familiares, líderes e dirigentes
novo paradigma surge como uma reação          políticos, nas entidades, nos meios de
contrária ao processo de segregação, e        comunicação. Isto não quer dizer que a
sua efetivação prática tem gerado muitas      inserção de todos nos diversos setores
controvérsias e discussões.                   da sociedade seja prática corrente ou        23
uma realidade já dada. Ou que possa              dens sérias na comunicação) pode ser
                                                    ser olhado como um processo simples              mais restritiva e segregadora a sala de
                                                    e natural. Esse olhar equivocado sobre           aula comum do que um tipo de colocação
                                                    a inclusão do deficiente pode gerar              mais protegida e estruturada;
                                                    consequencias para o deficiente e suas                c) nem todos os professores e educa-
                                                    familias, expondo-os a uma realidade de          dores do ensino regular estão dispostos
                                                    exposição e discriminação sem o ade-             a, ou mesmo são capazes de lidar com
                                                    quado suporte.                                   todos os tipos de alunos com dificuldades
                                                         As políticas públicas de atenção a          especiais, principalmente com os casos
                                                    este segmento, geralmente, estão cir-            de menor incidência – mas de maior gra-
                                                    cunscritas ao tripé educação, saúde e            vidade – que exigem recursos técnicos e
                                                    assistência social, sendo que os demais          serviços diferenciados de apoio;
                                                    aspectos costumam ser negligenciados.                 d) a afirmação de que as pessoas
                                                         Para a educação, o sujeito com defici-      deficientes compõem um grupo minori-
                                                    ência é um “aluno especial”, cujas neces-        tário em luta pelos seus direitos civis,
                                                    sidades específicas demandam recursos,           como qualquer outra minoria oprimida
                                                    equipamentos e níveis de especialização          e segregada, é um argumento falacioso
                                                    definidos de acordo com a condição física,       para sustentar a defesa da “inclusão
                                                    sensorial ou mental. O que se observa são        total”, porque, além de grupo minori-
                                                    ações isoladas e simbólicas ao lado de um        tário, eles têm dificuldades centradas
                                                    conjunto de leis, projetos e iniciativas insi-   nos seus mecanismos de aprendizagem
                                                    pientes e desarticuladas entre as diversas       e precisam de respostas educacionais
                                                    instâncias do poder público. Em todos os         diferenciadas, nem sempre disponíveis
                                                    casos, percebemos uma concepção de um            na classe comum;
                                                    processo, incompleto sem a necessária                 e) um dos principais direitos de qual-
                                                    incorporação das múltiplas dimensões da          quer minoria é o seu direito de escolha,
                                                    vida humana. Observamos famílias ame-            sendo que os pais ou tutores desses
                                                    drontadas frente à exposição de seus filhos      alunos devem ter liberdade para escolher
                                                    a uma realidade inóspita sem a preparação        o que acham melhor para os seus filhos;
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012




                                                    física e profissional para recebê-los.                f) desconsiderar a evidência empírica
                                                         Hallahan e Kauffman (1994) apontam          de que há eficácia em alguns tipos de res-
                                                    que a proposta de “inclusão total” ainda         posta mais protegida, para alguns tipos
                                                    hoje sofre considerável resistência, com         de alunos com dificuldades especiais na
                                                    base nos seguintes argumentos:                   escola, seria uma atitude profissional-
                                                         a) há muitos pais, professores (tanto       mente irresponsável e antiética;
                                                    do ensino regular quanto do especial),                g) na ausência de dados que supor-
                                                    especialistas e os próprios educandos,           tem a vantagem do modelo, os educado-
                                                    que estão satisfeitos com os serviços            res e políticos deveriam preservar o con-
                                                    baseados no continuum;                           tínuo de serviços, para que, em qualquer
                                                         b) para alguns tipos de dificuldade         momento, seja salvaguardada a escolha
                                                    (como as deficiências graves, os graves          daquele que se mostrar menos restritivo
24                                                  problemas comportamentais ou as desor-           para as circunstâncias.
Enfim, sob a bandeira da inclusão       de acesso à escola comum, não define
são encontradas, na atualidade, práti-       obrigatoriedade e até admite a possibili-
cas bastante distintas, o que garante        dade de escolarização que não seja na
um consenso apenas aparente e aco-           escola regular.
moda diferentes posições que podem                Em resumo, ao longo dos últimos
ser extremamente divergentes. Uma            trinta anos, tem-se assistido a um grande
tomada de posição consciente dentro          debate acerca das vantagens e desvan-
desse conjunto de possibilidades deve        tagens da inclusão escolar. A questão
começar pelo entendimento que se tem         sobre qual é a melhor forma de educar
acerca do princípio da inclusão escolar,     crianças e jovens com necessidades edu-
lembrando que o termo assume atual-          cacionais especiais não tem resposta ou
mente o significado que quem o utiliza       receita pronta.
deseja.                                           Na atualidade, as propostas variam
     Estima-se que existam no país cerca     desde a ideia da inclusão total – posição
de seis milhões de crianças e jovens com     que defende que todos os alunos devem
necessidades educacionais especiais          ser educados apenas e só na classe
para um contingente oficial de matrícu-      da escola regular – até a ideia de que a
las em torno de 500 mil alunos (Brasil,      diversidade de características implica a
2003), considerando o conjunto de ma-        existência e manutenção de um contínuo
trículas em todos os tipos de recursos       de serviços e de uma diversidade de
disponíveis (desde escolas especiais         opções.
até escolas e classes comuns). Portan-            É importante que as pessoas ligadas
to, a grande maioria dos alunos com          ao deficiente, sejam familiares, equipe de
necessidades educacionais especiais          saúde ou educação estejam atentos às
encontra-se hoje fora de qualquer tipo       necessidades do deficiente e independen-
de escola, o que configura muito mais        te das discussões teóricas e filosóficas,
uma exclusão generalizada da escola, o       pensar a deficiência como diferentes pos-
que é uma situação muito mais grave do       sibilidades de adaptação e funcionalidade
que a discussão de qual escola é a mais      deve, obrigatoriamente, nortear todas as
adequada.                                    escolhas e decisões tomadas em relação        SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012

     A Constituição Federal de 1988 (Bra-    a essa população.
sil, 1988) e as Diretrizes e Bases da Edu-
cação Nacional – Lei n. 9.394/96 (Brasil,    Referências bibliográficas:
1996) – estabelecem que a educação é
direito de todos e que as pessoas com        1. DOTA, F.P.; Alves, D.M. Educação
necessidades educacionais especiais             Esp ecial n o Br asil: U m a An álise
devem ter atendimento educacional               Histórica. Revista Científica Eletrônica
“preferencialmente na rede regular de           de Psicologia – ISSN: 1806-0625, ano
                                                V – n.8, mai/2007.
ensino”, garantindo atendimento edu-
                                             2. FERREIRA, J. R. A construção escolar da
cacional especializado aos portadores
                                                deficiência mental. Tese de Doutorado.
de deficiência. A legislação, ao mesmo
                                                Universidade Estadual de Campinas,
tempo em que ampara a possibilidade             Campinas, 1989.                            25
3. HALLAHAN, D.; KAUFFMAN, J. Exceptional                 de Alunos com Deficiência Mental.
                                                       children. Introdution to special education.            Unimep, 2003. Disponível em:
                                                       6. ed. Boston: Allyn Bacon, 1994.                      http://livrosdamara.pbworks.com/f/
                                                    4. MENDES, E. G. Deficiência mental: a                    historiadeficiencia.pdf
                                                       construção científica de um conceito                7. PADILHA, A.M.L. Práticas educativas:
                                                       e a realidade educacional. Tese de                     Perspectivas que se abrem para a
                                                       Doutorado. Universidade de São Paulo.                  Educação Especial. Educação &
                                                       São Paulo, 1995.                                       Sociedade, ano 21, nº 71, julho/2000.
                                                    5. MENDES, E.G. A radicalização do debate              8. TESSARO, N.S. Inclusão Escolar:
                                                       sobre inclusão escolar no Brasil. Revista              Concepções de Professores e Alunos
                                                       Brasileira de Educação v. 11, n. 33,                   da Educação Regular e Especial
                                                       set./dez. 2006.                                        (Universidade Estadual de Maringá).
                                                    6. MIRANDA, A.A.A. História, Deficiência                  ABRAPEE – Associação Brasileira de
                                                       e Educação Especial. Reflexões                         Psicologia Escolar e Educacional, 2007.
                                                       desenvolvidas na tese de doutorado:                    Disponível em: http://www.abrapee.psc.
                                                       A Prática Pedagógica do Professor                      br/artigo20.htm
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012




                                                                                                                                  christine Luise Degen,
                                                                                                                                  Bacharel e Licenciada
                                                                         Dra. Alessandra Freitas                                  em Psicologia pela UnIP,
                                                                         Russo, neurologia Infantil e do                          Psicóloga da APAE -Cotia.
                                                                         Adolescente, Mestre em Me-                               Coordenadora do Programa de
                                                                         dicina pela USP neurologista
                                                                                        ,                                         Apoio à Educação Inclusiva e
                                                                         da AACD, Pesquisadora do                                 do Programa de Atendimento
                                                                         Laboratório de Distúrbios do                             aos Transtornos Invasivos do
                                                                         Desenvolvimento - IP- USP         Desenvolvimento da APAE-Cotia.
26
InCLUSãO




                      Inclusão escolar
                                simonE cucolicchio




     A questão da inclusão de alunos com     brasileiro tem vivenciado um momento
deficiência no sistema regular de ensino     de transição no atendimento dos alunos
vem ganhando espaço cada vez maior em        com necessidades educativas especiais.
debates e discussões que explicitam a        A partir dos anos 80 o termo integração
necessidade da escola atender a estes        começou a perder forças, sendo
alunos.                                      substituído pela idéia de inclusão, uma
     Historicamente, a proposta de inte-     vez que o objetivo é incluir, sem distinção,
gração escolar foi elaborada em 1972, na     todas as crianças, independente de suas
Educação Especial, na forma do chamado       habilidades. Desta forma, a palavra in-
princípio da normatização, o que significa   clusão remete-nos a uma definição mais
dar à pessoa oportunidades garantindo        ampla, indicando uma inserção total e
seu direito de ser diferente e ter suas      incondicional.
necessidades reconhecidas e atendidas             A Declaração Mundial sobre Educa-
pela sociedade.                              ção para Todos (UNESCO, 1990), aprova-
     Essas noções de normatização e in-      da pela conferência mundial, realizada na
tegração se difundiram rapidamente nos       Tailândia no ano de 1990 e a Declaração
Estados Unidos da América, Canadá e por      de Salamanca (UNESCO, 1994), firmada
diversos países da Europa, fortalecendo-     na Espanha no mesmo ano marcaram, no
-se no final dos anos 60 e inicio dos anos   plano internacional, momentos históricos
70 do século XX. No Brasil a filosofia da    em prol da Educação Inclusiva. No Brasil
integração parece dominar não apenas         a Constituição Federal de 1988, art.208
atitude teórica dos profissionais da área    inciso III, Plano Decenal de Educação          SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012

(Aranha, 1994; Cardoso 1992; Figueire-       para todos, 1993 – 2003 (Mec,1993)
do, 1990; Glat, 1989, Januzzi, 1992;Nu-      e os Parâmetros Curriculares Nacionais
nes & Santos, 1998 ; Omote, 1994, mas        (MEC,1999) são exemplos de documen-
também as propostas de atendimento           tos que defendem e asseguram o direito
de diferentes tipos de instituições (Arns,   de todos à educação.
1992;Carvalho, 1989;Mantoan, 1988;                O principio básico da inclusão esco-
Mendes, 1994; Pereira, 1990).                lar, segundo esta Declaração, consiste
     Tendo como ponto de partida             em que todas as escolas reconheçam as
os resultados positivos alcançados           diversas necessidades de seus alunos
com a prática da inclusão escolar            e a elas respondam assegurando-lhes
nos países desenvolvidos nas últimas         uma educação de qualidade, que lhes
duas décadas, o sistema educacional          proporcione aprendizagem por meio de           27
currículo apropriado e promova modifi-        da que se tem e de uma escola inclusiva
                                                    cações organizacionais, estratégias de        de qualidade.
                                                    ensino e uso de recursos, dentre outros            Os resultados sugerem também
                                                    quesitos (UNESCO apud Mendes, 2002).          que, para a maioria dos participantes
                                                         Segundo Abenhaim (2005), incluir de      desta pesquisa (professores de escolas
                                                    fato significa mais do que apenas possibi-    públicas e particulares) o despreparo
                                                    litar o acesso e permanência no mesmo         dos profissionais e a infraestrutura das
                                                    espaço físico. Para Gotti (1998), a inclu-    escolas dificultam o processo de inclusão
                                                    são escolar significa um novo paradigma       dos alunos com deficiência no ensino
                                                    no marco conceitual e ideológico, o qual      regular. Tais dados evidenciam que os
                                                    precisa envolver políticas, programas, ser-   professores participantes da pesquisa
                                                    viços, comunidade em geral e etc. Assim,      não estão aptos a trabalhar e lidar com
                                                    conforme a autora, incluir implica ações      a diversidade em sala de aula, o que os
                                                    que envolvam a luta pela conscientização      leva, certamente, a se sentir inseguros,
                                                    do direito à cidadania, como pré-requisito,   preocupados e desamparados. Este
                                                    fundamental para uma reflexão crítica em      sentimento de frustração pode levar o
                                                    torno dos conhecimentos, informações e        professor a acreditar que só a afetividade
                                                    sentimentos em relação às pessoas com         que dispensa à criança já é o bastante.
                                                    deficiência.                                       Foi constatado também que a maior
                                                         Diante do histórico da Inclusão e da     parte dos professores não possui conhe-
                                                    Escola que temos hoje no Brasil, alguns       cimentos sobre deficiência e inclusão, a
                                                    questionamentos devem ser considera-          não ser àqueles que por iniciativa própria
                                                    dos e discutidos: a Escola está preparada     fizeram algum curso especializado. Outra
                                                    para receber alunos com deficiências? Os      pesquisa realizada no Distrito Federal
                                                    professores estão preparados? Os alunos       (2006) concorda em relação à falta de
                                                    estão tendo bom desempenho escolar?           estrutura da escola de ensino regular e
                                                         Uma pesquisa, desenvolvida em algu-      a falta de preparo de profissionais o que
                                                    mas escolas públicas e privadas em uma        cristaliza e imobiliza as ações inclusivas
                                                    cidade do interior do Paraná, revela que      (Carvalho 2001).
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012




                                                    as escolas estão desenvolvendo projetos            Neste sentido, Glat etal. (1998) afir-
                                                    inclusivos sem a infraestrutura adequada,     mam que a escola inclusiva apenas po-
                                                    no que diz respeito tanto aos recursos        derá se concretizar a partir de condições
                                                    físicos quanto aos humanos. O que se          muito especiais de recursos humanos,
                                                    percebe é que na maioria das vezes, não       pedagógicos e materiais. Acreditam es-
                                                    há um planejamento, um projeto para           sas autoras que o professor no contexto
                                                    receber e trabalhar com os alunos com         inclusivo precisa de preparo para lidar
                                                    deficiência, mas à medida que tais alu-       com as diferenças, com a diversidade de
                                                    nos são “incluídos” vão sendo realizadas      todos os alunos, no entanto, os profes-
                                                    ações conforme os recursos disponíveis e      sores, de modo geral, não têm recebido
                                                    não necessariamente conforme as suas          formação e capacitação suficientes para
                                                    necessidades. Desta forma, deparamo-          atender as diversas formas de aprendiza-
28                                                  -nos com práticas destoantes da deman-        do dos alunos.
Evidente que estas não são as          Referências bibliográficas:
únicas questões a serem discutidas e
debatidas quando o assunto é inclusão        1. KASPER, A.A.; LOCH ,M.V.P.; PEREIRA,
escolar, mas são imprescindíveis. Neste         V.L.D.V. Alunos com deficiência
momento, concorda-se com Veiga Neto             matriculados em escolas públicas de nível
(2005), que acredita não bastarem ape-          fundamental: algumas considerações.
nas às competências técnicas para lidar         Educar, Curitiba, Editora UFPR, p.231-
com as questões impostas na inclusão,           243, 2008.
mas é importante pensar em mudanças          2. SILVEIRA, F.F.; NEVES, M.M.B.J.;
                                                Inclusão escolar de crianças com
no plano de ordem cultural, política e das
                                                deficiência múltipla: concepções de
relações sociais estabelecidas.
                                                pais e professores. Psicologia: Teoria
     Portanto, verifica-se que as pessoas       e Pesquisa, Brasília, v.22, n.1, p.79-88
com deficiência até o momento, consegui-        jan/abr 2006.
ram apenas o direito de acesso à escola      3. LEONARDO, N.S.T.; BRAY, C.T; ROSSATO,
regular, pois, a sua permanência está           S.P.M. Inclusão escolar: um estudo
distante de se concretizar numa escola          acerca da implantação da proposta
com ensino adequado e de qualidade.             em escolas de ensino básico. Revista
     Atualmente, verifica-se um discurso        Brasileira, Edição Especial, Marília, v.15,
favorável a inclusão de pessoas com             n.2, p.289-306, mai/ago, 2009.
deficiência, não apenas no contexto esco-    4. MANTOAN, M.T.E. Educação escolar de
lar, mas em vários segmentos da nossa           Deficientes Mentais: Problemas para a
sociedade, mesmo assim, tais pessoas            pesquisa e o desenvolvimento. Caderno
                                                CEDES, v.19, n.46, 1998.
continuam vítimas de preconceito e estig-
                                             5. LAPLANE, A.L.F.; PRIETO, R.G. Inclusão,
ma, por serem consideradas diferentes.
                                                diversidade e igualdade na CONAE 2010:
Neste aspecto uma política de educação          Perspectiva para o novo Plano Nacional
inclusiva não se faz sozinha, paralela e        de Educação. Educação e Sociedade,
concomitantemente ela requer uma polí-          Campinas, v.31, n.112, p. 919-938, jul/
tica nacional de inclusão social.               set. 2010.
     O processo de inclusão dos alunos
com deficiência no sistema regular de                                                            SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012

ensino precisa ser consolidado, e ainda
possui um caminho a ser trilhado. Ofe-
recer ensino básico de qualidade para
                                                                  Simone Cucolicchio, Fono-
todos, com ou sem deficiências, significa
                                                                  audióloga Clínica da APAE de
melhorar a qualificação e dar condições                           São Caetano do Sul
de tais crianças, quando adultas, com-
petirem no mercado de trabalho (LOCH,
2006).




                                                                                                 29
InCLUSãO




                                                         O programa de inclusão
                                                       de pessoas com deficiência
                                                     nas empresas – o fortalecimento
                                                       no processo de fidelização
                                                             do colaborador
                                                                                  Janaina FolEis FErnanDEs *



                                                         Por estar à frente de um programa de        1988, Art. 5º: Todos são iguais perante
                                                    inclusão de pessoas com deficiência no           a lei, sem distinção de qualquer nature-
                                                    mercado de trabalho e por perceber que           za, garantindo-se aos brasileiros e aos
                                                    muitas dúvidas ainda existem sobre o             estrangeiros residentes no País a invio-
                                                    tema, considero importante a discussão           labilidade do direito à vida, à liberdade, à
                                                    sobre esse assunto.                              igualdade, à segurança e à propriedade,
                                                         Ultimamente ouve-se com frequência          reconheço na prática profissional como
                                                    a expressão “adequação a lei de cotas”           responsável pelo programa de inclusão e
                                                    como uma obrigação das empresas em               integração de pessoas com deficiência no
                                                    contratar pessoas com deficiência para           mercado de trabalho da empresa Nepacc
                                                    constituírem seu quadro de funcioná-             e no contato direto com esses profissio-
                                                    rios. Mas antes de pensar em adequar             nais que isso não acontece.
                                                    a empresa de acordo com a lei de cotas                Pessoas com deficiências tiveram,
                                                    8213/91 é importante pensar na razão             ao longo da história, seus direitos des-
                                                    dessa lei. O que se espera efetivamente          respeitados, uma vez que a inclusão na
                                                    ao seu cumprimento?                              sociedade ainda é precária. Por muito
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012




                                                                                                     tempo, essas pessoas ficaram à margem
                                                        A LEI Nº 8.213, DE 24 DE JULHO DE 1991       da sociedade, sem acesso a educação,
                                                    “lei de contratação de Deficientes nas Empre-    profissionalização, sem garantias do direi-
                                                     sas. Lei 8213/91, lei de cotas para Deficien-   to de ir e vir. E vivendo assim, fatalmente
                                                      tes e Pessoas com Deficiência dispõe sobre     foram banidos da atuação profissional,
                                                      os Planos de Benefícios da Previdência e dá    fonte de renda que poderia permitir uma
                                                    outras providências a contratação de portado-    melhora em suas condições de vida e
                                                                  res de necessidades especiais”.    autonomia da mesma, sem que fosse
                                                                                                     necessário um olhar assistencialista e
                                                        Entendo que a criação dessa lei trata-       uma vida em situação de vulnerabilidade.
                                                    -se de um estímulo para uma mudança                   Toda legislação que vem fazer cum-
                                                    cultural e comportamental. Apesar de ser         prir um direito já previsto pela constitui-
                                                    assegurado pela constituição federal de          ção federal, me parece tentar corrigir um
30
engano que provocou uma situação de de-      seja favorável ao negócio e as relações
sigualdade social, sendo assim, a lei de     de trabalho. É nesse ponto que entendo
cotas também cumpre esse papel, garan-       que a lei de cotas serve para favorecer
tir que pessoas com deficiência tenham       uma mudança cultural, pois a empresa,
a oportunidade de serem inseridas no         que até então não se deparava com essa
mercado de trabalho, profissionalizando-     diversidade deverá agora se adequar,
-se, recebendo uma renda que será capaz      modificar, para incluir. O primeiro passo
de inseri-los na sociedade como um todo.     é de compreender quem são as pessoas
     Pelo fato dessas contratações acon-     com deficiência, o que são deficiências,
tecerem por força da lei, parece que des-    pois a maior barreira nesse processo é o
qualifica o profissional contratado e pode   preconceito advindo da falta de informa-
dar margens a um pensamento equivoca-        ção sobre o assunto.
do de favor ou de caridade e isso certa-          Toda a empresa que deseja cumprir
mente pode comprometer o desempenho          a lei de cotas deve, antes de tudo bus-
profissional deste, bem como dificultar as   car informações a respeito desse tema.
relações interpessoais no ambiente de        Entender por exemplo, que a dificuldade
trabalho e consequentemente prejudicar       de encontrar pessoas com deficiência
o processo de fidelização do colaborador     devidamente qualificadas para exercício
com deficiência a essa empresa, aumen-       profissional se deve a uma cultura social
tando neste caso o turnover.                 que não permitiu o acesso delas a essa
     Muitas fantasias relacionadas às        formação e que, portanto, não é garantia
dificuldades e comportamentos diferen-       de incompetência, mas simplesmente
ciados no trato com esses colaboradores,     falta de oportunidade e a empresa então,
são criadas nas relações profissionais       que se prepara para receber esses pro-
tanto entre os colegas de trabalho como      fissionais deve entender que seu papel
com a equipe de gestores responsáveis        de inclusão vai além da contratação, mas
pelo desenvolvimento profissional de         também em oferecer oportunidades de
todos os funcionários de sua equipe, in-     desenvolvimento profissional.
cluindo os colaboradores com deficiência.         O segundo passo é sensibilizar toda a
     Pessoas com deficiências podem          equipe para receber esses profissionais,     SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012

exercer qualquer atividade profissional,     configurando-se como um estágio funda-
considerando apenas as limitações da         mental para a inclusão. Essa sensibiliza-
deficiência que não são maiores que a        ção pode acontecer através de palestras
força das limitações de acessibilidade.      ou grupos de apoio coordenados por
Sendo oferecido um espaço e recursos         profissionais ou empresas qualificadas e
adequados, além de estimulação e valo-       com conhecimento do tema para auxiliar
rização, podem contribuir e contribuem de    e esclarecer todas as dúvidas e incerte-
forma positiva e construtiva na atuação      zas sobre essa questão. Uma empresa
profissional.                                que consegue estruturar não apenas a
     É importante, contudo, compreender      adequação do espaço físico e ofertas de
as dificuldades encontradas pela em-         recursos de acessibilidade, mas também
presa para garantir que essa inclusão        preparar seus colaboradores certamente       31
apresentará menor dificuldade nesse pro-    Referências bibliográficas:
                                                    cesso, garantindo assim a inclusão e in-
                                                    tegração de pessoas com deficiência nas     1. A inclusão de pessoas com deficiência
                                                    relações profissionais de forma ampla e        no mercado de trabalho. - 2 ed. –
                                                    diminuindo o turnover, e consequente-          Brasília: MTE, SIT, 2007.
                                                    mente gastos com processos de contra-       2. B R A S I L . C o n s t i t u i ç ã o ( 1 9 8 8 ) .
                                                    tação e desligamento, característicos de       Constituição [da] Republica Federativa
                                                    quando ocorre apenas a contratação sem         do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal.
                                                    nenhum cuidado ou manejo adequado.          3. BRASIL. LEI Nº 8.213, DE 24 DE JULHO DE
                                                                                                   1991, lei de contratação de Deficientes
                                                         Devido à “adequação a lei de cotas”,
                                                                                                   nas Empresas [on line]. Brasília, DF:
                                                    não faltam oportunidades de emprego
                                                                                                   Senado Federal. Disponível em: http://
                                                    a esses profissionais, o que de certa          www.deficienteonline.com.br/lei-8213-
                                                    forma contribui para a alta rotatividade       91-lei-decotas- para-deficientes-e-
                                                    considerando a falta de fidelização desse      pessoas-com-deficiencia___77.html.
                                                    colaborador com a companhia como um            Acesso em: 13 maio 2012.
                                                    todo. A empresa inclusiva deve oferecer
                                                    aos seus colaboradores com deficiência,
                                                    não apenas vagas, mas oportunidades de
                                                    crescimento, plano de carreira e desen-
                                                    volvimento profissional.
                                                         O programa de inclusão tem como
                                                    objetivo o desenvolvimento desse novo
                                                    conceito na cultura organizacional, apri-
                                                    morando habilidades sociais e interpes-
                                                    soais por parte de todos os envolvidos no
                                                    processo de inclusão, sejam eles com ou
                                                    sem deficiência. A empresa Nepacc Servi-
                                                    ços de Psicologia e Psicopedagogia Ltda.
                                                    vem desenvolvendo esse serviço desde
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012




                                                    2010, a favor do desenvolvimento de                                  Janaina Foleis Fernandes,
                                                    uma cultura inclusiva tanto organizacio-                             Psicóloga, CRP 06/83693 é
                                                    nal como social. Entendemos que estar                                sócia proprietária da nEPACC
                                                    próximo das empresas nesse momento                                   Serviços de Psicologia e
                                                    é fundamental para garantir a integração                             Psicopedagogia Ltda., que
                                                                                                                         está no mercado desde 2008
                                                    desses profissionais e aprimorar a atua-
                                                                                                                         e tem como missão a inclusão
                                                    ção de todos os colaboradores e gestores
                                                                                                                         social. Atua no mercado
                                                    a favor de uma cultura inclusiva.
                                                                                                oferecendo consultoria organizacional com foco no
                                                                                                desenvolvimento humano.
                                                                                                Contatos: janaina@nepacc.com.br
                                                                                                nepacc@nepacc.com.br
                                                                                                Site: www.nepacc.com.br/organizacional
32                                                                                              Telefones: (11) 3807-6656 ou (11) 3467-1649
DE MãE, PRA MãE




     A importância da família para
      que tem transtorno bipolar
                            por sonia maria BanDEira*




     Sou Sonia Maria Bandeira e tenho        não deixava nada ela ia atrás dele. Ele
uma irmã com transtorno bipolar. Perce-      ficou furioso e saiu correndo, nesta oca-
bemos o início das crises da Maria Braul     sião descobrimos que ele era surdo, mas
Bandeira através de um olhar discreto.       ela conseguiu ser amiga dele.
Ela acorda cedo, fala constantemente,            Maria também tem facilidade de             SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012
escondi (em seu quarto) objetos, cor-        convencer as pessoas de fora falando
respondências, documentos, e principal-      com desenvoltura e ninguém percebe seu
mente, chaves da casa e tudo que achar       transtorno, somente a família. Mas é co-
interessante. Na tentativa de pegar as       mum ela se fazer de vitima dizendo para as
chaves e outros objetos surgem os con-       pessoas de fora que a família não presta,
flitos. Este comportamento é difícil, pois   que lhe nega comida entre outras coisas.
ela só devolve os objetos para alguém        O jeito dela falar convence as pessoas
que não mexe em seus pertences, mas          de fora que pensam que é verdade que a
nem sempre esta atitude ocorre de ma-        família a mal trata. Recordo-me do sofri-
neira tranqüila. Houve um período que ela    mento da minha mãe quando o resgate ou
ficava de prontidão no portão para pegar     a policia levava minha irmã para o hospital,
as correspondências, e quando o carteiro     nesta ocasião as pessoas diziam que ela        33
emocionou: “Esqueça de tudo que acon-
                                                                                                  teceu, amanhã será um novo dia”. Deste
                                                                                                  dia passei a observar mais a minha irmã.
                                                                                                        No ano de 2002 a minha mãe faleceu,
                                                                                                  e nesta ocasião a Maria ficou em crise; a
                                                                                                  família toda ficou abalada e sem paciên-
                                                                                                  cia. Nesta época decidi ser voluntaria no
                                                                                                  hospital Nossa Senhora do Caminho após
                                                                                                  a alta hospitalar da Maria. A administração
                                                                                                  do hospital aceitou o meu pedido de ser
                                                                                                  voluntária e foi ótima esta vivência com a
                                                                                                  minha irmã, pois compreendi o sofrimento
                                                                                                  e a história dos pacientes, e percebi que
                                                    era possuída por um espírito. Mas chegou      o pior conflito da pessoa com o transtorno
                                                    uma ocasião que minha mãe não aceitou         bipolar é serem criticados. Entendi que es-
                                                    este comentário, ela dizia que Deus iria      cutar abre as portas da amizade. O maior
                                                    dar forças e paciência para ela carregar      alvo da pessoa com transtorno bipolar
                                                    esta cruz; e passou aceitar que a Maria       é a família, pois a comunicação entre
                                                    era doente e que ela não iria desistir de     os mesmo é prejudicada. A pessoa com
                                                    buscar o tratamento. Maria passou por         transtorno bipolar quando fala pode ser
                                                    várias internações e era uma dificuldade      feito uma matraca atirando por todo lado
                                                    visitá-la, pois os hospitais eram distantes   suas lembranças e muitas vezes ofensas,
                                                    Também era grande o nosso sofrimento de       por isso, é necessário manter a calma
                                                    vê-la desfigurada e dopada, e muitas vezes    porque a revolta é passageira. Na busca
                                                    pedindo para sair, pois dizia que recebia     para aprender a lidar com este transtorno,
                                                    choque e tinha muita fome. Mas minha          meus irmãos ficaram contra mim dizendo
                                                    mãe achava que era fantasiava dela, pois      que eu devia me responsabilizar se algo
                                                    acreditava que o hospital é um local para     de grave acontecesse com ela. Eu dizia
                                                    cuidar dos doentes.                           que a internação dela deveria ocorrer só
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012




                                                         Minha irmã não aceitava as medica-       em último caso, afinal não da para separar
                                                    ções em casa e nem ir às consultas mé-        a mãe de um filho, e precisamos aceitar
                                                    dicas, por isso, quando a situação dentro     esta situação
                                                    de casa chegava ao extremo era caso de              Quando eu tive meningite, Maria cui-
                                                    internação, pois ela ficava agressiva e       dou de mim, e no período que sua filha
                                                    sem roupa dentro de casa. Passou por          faleceu, ela passou a me proteger mesmo
                                                    várias internações, mas o diagnóstico         estando em crise. Quando eu era criança
                                                    transtorno bipolar só foi comunicado à        não gostava que ela me protegia, mas fui
                                                    família no hospital Nossa Senhora do          percebendo que este sentimento, a fazia
                                                    Caminho. Quando ela era liberava para         feliz. E hoje aproveito isso para amenizar os
                                                    passar um final de semana em casa             conflitos e administrar as medicações. Sou
                                                    era sempre uma alegria. Eu me recordo         como sua ‘filha’, irmã e conselheira, e este
34                                                  de uma musica que ela cantava que me          vínculo faz a grande diferença e possibilita
uma ponte de paz. Hoje Maria tem um filho     com a pessoa com transtorno bipolar
de 17 anos de idade que tem Síndrome          pode ser bem estressante.
de Williams (deficiência intelectual) que a        A convivência com o transtorno bipolar
ajuda muito, e ela ajuda ele. É muito forte   da minha irmã me ajuda no exercício da
este lado família dela, eu entendo que lá     minha profissão como auxiliar de enferma-
no seu íntimo ela quer ser protetora mesmo    gem, para saber a lidar com os pacientes
quando está na fase do transtorno bipolar.    que apresentam distúrbios e rejeitam me-
     O tratamento medicamentoso passou        dicações. Hoje acredito que toda a pessoa
a dar certo, pois a médica que passou         que tem um determinado distúrbio de com-
acompanhá-la no atendimento psicológico       portamento são pessoas maravilhosas,
já a conhecia no atendimento do hospital.     sensíveis, tem a sua família como referên-
Assim, as crises foram controladas em         cias mesmo sofrendo preconceito. Minha
casa, e o vínculo da médica com a família     irmã Maria, tem 53 anos, é aposentada,
permitiu excelentes resultados. Desde o       divorciada, e vive em São Paulo junto com
ano 2003 ela não foi interada, seguindo       a família. Gosta muito de passear com seu
acompanhamento e fazendo uso das              filho e visitar os parentes. O significado da
medicações. Porém é sempre uma luta           família é tão forte para ela que está sempre
para convencê-la a tomar os remédios e        transmitindo alegria para todos, pois ela
injeção a cada mês, muitas vezes chan-        acredita em sua capacidade de ser a mãe
tageamos com a internação, mas não            de todos nós da família.
funciona melhor assim. Acredito que a
melhor forma de lidar com as crises é a
família aceitar a doença e manter equili-                                 *Leandra Migotto Certeza é
brada para superar esta fase, afinal não                                  bacharel em Comunicação
                                                                          Social pela Universidade
há mal que dure para sempre, e nem e a
                                                                          Anhembi Morumbi, jornalista
paz impossível de ser alcançada, basta
                                                                          desde 1998, e repórter espe-
a paciência e perseverança.
                                                                          cial da Revista Síndromes. Foi
     Costumo a dizer que a minha irmã é                                   editora da Revista Sentidos e
feliz com o transtorno bipolar, pois nesta                                Ciranda da Inclusão, além de
fase apresenta iniciativa, adora passear      escrever para diversos portais como Setor 3 do SEnAC/         SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012

e consegue do jeito dela se defender,         SP Rede SACI/USP e Inclusive. Ela tem deficiência física
                                                ,
manifesta suas emoções cantando, cho-         (Osteogenesis Inperfecta), é assessora de imprensa da
rando, mas fala feito uma matraca. Estas      ABSW – Associação Brasileira de Síndrome de Williams,
alterações de humor podem provocar            consultora em inclusão (premiada em Lima e na Co-
agressão verbal e física, mas o equilíbrio    lômbia), e mantém o blog “Caleidoscópio – Uma janela
da família associado com as medicações        para refletir sobre a diversidade da vida”: http://leandra-
ajuda a amenizar as crises, e a internação    migottocerteza.blogspot.com/. Conheçam os modelos
                                              de palestras, encontros, oficinas, cursos, treinamentos
passa ser só em último caso. O convívio
                                              e materiais informativos sobre Diversidade e Inclusão,
com a família e na sociedade é de grande
                                              realizados em empresas, escolas, Ongs, centros
importância para toda pessoa. Mas toda
                                              culturais e grupos de pessoas no site da Caleidoscópio
a família precisa de acompanhamento           Comunicações – Consultoria em Inclusão: https://sites.
psicológico para se refazer afinal conviver   google.com/site/leandramigotto/                               35
A RT I g O D O L E I T O R




                                                         O programa de inclusão de
                                                        pessoas com deficiência nas
                                                       empresas – o fortalecimento no
                                                         processo de fidelização do
                                                                colaborador
                                                                                  Janaina FolEis FErnanDEs *



                                                         Por estar à frente de um programa de        1988, Art. 5º: Todos são iguais perante
                                                    inclusão de pessoas com deficiência no           a lei, sem distinção de qualquer nature-
                                                    mercado de trabalho e por perceber que           za, garantindo-se aos brasileiros e aos
                                                    muitas dúvidas ainda existem sobre o             estrangeiros residentes no País a invio-
                                                    tema, considero importante a discussão           labilidade do direito à vida, à liberdade, à
                                                    sobre esse assunto.                              igualdade, à segurança e à propriedade,
                                                         Ultimamente ouve-se com frequência          reconheço na prática profissional como
                                                    a expressão “adequação a lei de cotas”           responsável pelo programa de inclusão e
                                                    como uma obrigação das empresas em               integração de pessoas com deficiência no
                                                    contratar pessoas com deficiência para           mercado de trabalho da empresa Nepacc
                                                    constituírem seu quadro de funcioná-             e no contato direto com esses profissio-
                                                    rios. Mas antes de pensar em adequar             nais que isso não acontece.
                                                    a empresa de acordo com a lei de cotas                Pessoas com deficiências tiveram, ao
                                                    8213/91 é importante pensar na razão             longo da história, seus direitos desrespei-
                                                    dessa lei. O que se espera efetivamente          tados, uma vez que a inclusão na socie-
                                                    ao seu cumprimento?                              dade ainda é precária. Por muito tempo,
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012




                                                                                                     essas pessoas ficaram à margem da
                                                        A LEI Nº 8.213, DE 24 DE JULHO DE 1991       sociedade, sem acesso a educação, pro-
                                                    “lei de contratação de Deficientes nas Empre-    fissionalização, sem garantias do direito
                                                     sas. Lei 8213/91, lei de cotas para Deficien-   de ir e vir. E vivendo 2 assim, fatalmente
                                                      tes e Pessoas com Deficiência dispõe sobre     foram banidos da atuação profissional,
                                                      os Planos de Benefícios da Previdência e dá    fonte de renda que poderia permitir uma
                                                    outras providências a contratação de portado-    melhora em suas condições de vida e
                                                                  res de necessidades especiais”.    autonomia da mesma, sem que fosse
                                                                                                     necessário um olhar assistencialista e
                                                        Entendo que a criação dessa lei trata-       uma vida em situação de vulnerabilidade.
                                                    -se de um estímulo para uma mudança                   Toda legislação que vem fazer cum-
                                                    cultural e comportamental. Apesar de ser         prir um direito já previsto pela constitui-
                                                    assegurado pela constituição federal de          ção federal, me parece tentar corrigir um
36
engano que provocou uma situação de de-      favorável ao negócio e as relações de
sigualdade social, sendo assim, a lei de     trabalho. É nesse ponto que entendo que
cotas também cumpre esse papel, garan-       a lei de cotas serve para favorecer uma
tir que pessoas com deficiência tenham       mudança cultural, pois a empresa, que
a oportunidade de serem inseridas no         até então não se 3 deparava com essa
mercado de trabalho, profissionalizando-     diversidade deverá agora se adequar,
-se, recebendo uma renda que será capaz      modificar, para incluir.
de inseri-los na sociedade como um todo.          O primeiro passo é de compreender
     Pelo fato dessas contratações acon-     quem são as pessoas com deficiência,
tecerem por força da lei, parece que des-    o que são deficiências, pois a maior
qualifica o profissional contratado e pode   barreira nesse processo é o preconceito
dar margens a um pensamento equivoca-        advindo da falta de informação sobre o
do de favor ou de caridade e isso certa-     assunto.
mente pode comprometer o desempenho               Toda a empresa que deseja cumprir
profissional deste, bem como dificultar as   a lei de cotas deve, antes de tudo bus-
relações interpessoais no ambiente de        car informações a respeito desse tema.
trabalho e consequentemente prejudicar       Entender por exemplo, que a dificuldade
o processo de fidelização do colaborador     de encontrar pessoas com deficiência
com deficiência a essa empresa, aumen-       devidamente qualificadas para exercício
tando neste caso o turnover.                 profissional se deve a uma cultura social
     Muitas fantasias relacionadas às        que não permitiu o acesso delas a essa
dificuldades e comportamentos diferen-       formação e que, portanto, não é garantia
ciados no trato com esses colaboradores,     de incompetência, mas simplesmente
são criadas nas relações profissionais       falta de oportunidade e a empresa então,
tanto entre os colegas de trabalho como      que se prepara para receber esses pro-
com a equipe de gestores responsáveis        fissionais deve entender que seu papel
pelo desenvolvimento profissional de         de inclusão vai além da contratação, mas
todos os funcionários de sua equipe, in-     também em oferecer oportunidades de
cluindo os colaboradores com deficiência.    desenvolvimento profissional. O segundo
     Pessoas com deficiências podem          passo é sensibilizar toda a equipe para     SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012

exercer qualquer atividade profissional,     receber esses profissionais, configuran-
considerando apenas as limitações da         do-se como um estágio fundamental para
deficiência que não são maiores que a        a inclusão. Essa sensibilização pode
força das limitações de acessibilidade.      acontecer através de palestras ou grupos
Sendo oferecido um espaço e recursos         de apoio coordenados por profissionais
adequados, além de estimulação e valo-       ou empresas qualificadas e com conheci-
rização, podem contribuir e contribuem de    mento do tema para auxiliar e esclarecer
forma positiva e construtiva na atuação      todas as dúvidas e incertezas sobre essa
profissional.                                questão. Uma empresa que consegue
     É importante, contudo, compreender      estruturar não apenas a adequação do
as dificuldades encontradas pela empre-      espaço físico e ofertas de recursos de
sa para garantir que essa inclusão seja      acessibilidade, mas também preparar         37
seus colaboradores certamente apresen-      Referências bibliográficas
                                                    tará menor dificuldade nesse processo,
                                                    garantindo assim a inclusão e integração    1. A inclusão de pessoas com deficiência
                                                    de pessoas com deficiência nas relações        no mercado de trabalho. - 2 ed. –
                                                    profissionais de forma ampla e dimi-           Brasília: MTE, SIT, 2007.
                                                    nuindo o turnover, e consequentemente       2. B R A S I L . C o n s t i t u i ç ã o ( 1 9 8 8 ) .
                                                    gastos com processos de contratação e          Constituição [da] Republica Federativa
                                                    desligamento, característicos de quando        do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal.
                                                    ocorre apenas a contratação sem nenhum      3. BRASIL. LEI Nº 8.213, DE 24 DE JULHO DE
                                                                                                   1991, lei de contratação de Deficientes
                                                    cuidado ou manejo adequado.
                                                                                                   nas Empresas [on line]. Brasília, DF:
                                                         Devido à “adequação a lei de cotas”,
                                                                                                   Senado Federal. Disponível em: http://
                                                    não faltam oportunidades de emprego            www.deficienteonline.com.br/lei-8213-
                                                    a esses profissionais, o que de certa          91-lei-decotas- para-deficientes-e-
                                                    forma contribui para a alta rotatividade       pessoas-com-deficiencia___77.html.
                                                    considerando a falta de fidelização desse      Acesso em: 13 maio 2012.
                                                    colaborador com a companhia como um
                                                    todo. A empresa inclusiva deve oferecer
                                                    aos seus colaboradores com deficiência,
                                                    não apenas vagas, mas oportunidades de
                                                    crescimento, plano de carreira e desen-
                                                    volvimento profissional.
                                                         O programa de inclusão tem como
                                                    objetivo o desenvolvimento desse novo
                                                    conceito na cultura organizacional, apri-
                                                    morando habilidades sociais e interpes-
                                                    soais por parte de todos os envolvidos no
                                                    processo de inclusão, sejam eles com ou
                                                    sem deficiência. A empresa Nepacc Servi-
                                                    ços de Psicologia e Psicopedagogia Ltda.
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012




                                                    vem desenvolvendo esse serviço desde
                                                    2010, a favor do desenvolvimento de
                                                    uma cultura inclusiva tanto organizacio-
                                                    nal como social. Entendemos que estar       *Janaina Foleis Fernandes, Psicóloga, CRP 06/83693
                                                    próximo das empresas nesse momento          é sócia proprietária da nEPACC Serviços de Psicologia e
                                                    é fundamental para garantir a integração    Psicopedagogia Ltda., que está no mercado desde 2008
                                                    desses profissionais e aprimorar a atua-    e tem como missão a inclusão social. Atua no mercado
                                                    ção de todos os colaboradores e gestores    oferecendo consultoria organizacional com foco no
                                                    a favor de uma cultura inclusiva.           desenvolvimento humano.
                                                                                                Contatos: janaina@nepacc.com.br / nepacc@nepacc.
                                                                                                com.br
                                                                                                Site: www.nepacc.com.br/organizacional
                                                                                                Telefones: (11) 3807-6656 ou (11) 3467-1649
38
A RT I g O D O L E I T O R




                           Até Quando?
                                 alExanDrE soarEs




    Até quando veremos nossos cegos,              Mas vamos focar nosso olhar na
nossos portadores de necessidades            coragem dos nossos portadores de ne-
especiais sem acesso ao transporte           cessidades especiais, da sua garra e
público com dignidade, sem acesso aos        a sua vontade de viver que não só nos
locais públicos e particulares dessa vida    serve de exemplo de motivação para não
por conta da falta de investimentos em       desistirmos quando as coisas não vão tão
adaptações mais que urgentes para es-        bem em nossas vidas mas principalmente
sas pessoas, que assim como eu e você        do quanto são capazes, capazes de nos
são tão cidadãos quanto, que pagam           surpreender a cada dia!
seus impostos em dia mas que quando               Hoje em dia já existem por exemplos
mais precisam do poder público ficam a       casais com síndrome de Down que levam
ver navios literalmente!                     uma vida normal, tem filhos que traba-
    Até quando “os homens de terno”          lham e até já cursam uma faculdade. De
farão discursos bonitos com palavras         fato são pessoas realmente felizes!
emocionantes dignas de se aplaudir de pé          E o que dizer dos cegos? Que par-
mas que não passam de meras promes-          ticipam de atividades desportivas das
sas, desiludindo ainda mais aqueles que      quais nem mesmo nós que possuímos a
tanto necessitam das políticas públicas      visão conseguimos fazer tão bem como,
urgentes no que se refere à inclusão?        por exemplo, nadar, correr e até mesmo
    Todavia ainda que alguns deles           jogar futebol. E o que dizer daqueles
façam é preciso que nós, enquanto ci-        seres iluminados que mesmo não tendo
dadãos, possamos agir como tais, com         os membros superiores e inferiores con-             SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012

consciência, com respeito e não por          seguem pintar com a boca?
mera obrigação da lei. É preciso que nós          E até quando iremos ignorar esses
brasileiros resgatemos de vez a nossa        seres fantásticos cujo a vida é incrivel-
boa e velha educação (aquela trazida de      mente fascinante ?
casa) tão rara hoje em dia pelas ruas e           Até quando?
avenidas do país, país que se acostumou
a ter as bolsas famílias da vida, ou seja,   Alexandre soares, Professor da Uniesp São Roque,
desacostumando o brasileiro a lutar pelo     Orientador Educacional na cidade de Mairinque-SP,
pão, agora ele já vem prontinho.             alexanddresoares@yahoo.com.br



                                                                                                 39
R E P O RTA g E M
                                                                Centro Espírita nosso Lar - Casas André Luiz




                                                                                         O sonho
                                                                                 por maria DE Fátima DE olivEira




                                                              Os sonhos quando acontecem            meu pai problemas de saúde. Como eu
                                                              Trazem a felicidade                   não andava e não ficava sentada sozi-
                                                              É muito bom sonhar                    nha, minha mãe comprou uma cadeira
                                                              Pensar nas coisas e na vida é muito   de rodas, e mesmo com dificuldades
                                                         bom                                        financeiras, lembro que viajávamos
                                                              A gente leva o pensamento até         muito para outras cidades, atrás de
                                                         Deus e enxerga outro mundo                 um hospital para que eu pudesse ter
                                                              A gente vê um mundo tão bonito e      tratamento adequado. Meu pai adoeceu
                                                         não sabe de onde veio, dá onde conhe-      e acabou falecendo, depois que viemos
                                                         cemos esse lugar                           para São Paulo.
                                                              Sonhar é viver outro lado da vida         Com a ajuda de uma tia, conhece-
                                                              É um modo de encontrar a felici-      mos as Casas André Luiz, quando era
                                                         dade                                       um local pequeno. Eu tinha 5 anos,
                                                              Os nossos sonhos podem se rea-        quando passei em uma triagem e con-
                                                         lizar                                      segui uma vaga. No começo, chorava
                                                              Celebrar como a vida é maravilhosa    muito, pois queria ficar com a minha
                                                              Desejamos que todos os seus           mãe. Mas hoje aqui nas Casas André
                                                         sonhos se transformem em realidade         Luiz, aprendi muita coisa, uma delas é
                                                              Acreditando em nós mesmos             entender as minhas amigas que não
                                                              E se ligando aos nossos pensa-        sabem falar. Eu consigo passar para
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 1 • Janeiro • Fevereiro de 2012




                                                         mentos                                     outras pessoas o que elas desejam.
                                                                                                    Também aprendi a dançar, escrever,
                                                             Eu nasci no dia 17/11/1968, na         a falar melhor. Hoje realizo muitas
                                                         cidade de Berilo, interior de Minas        atividades aqui e agradeço a todos
                                                         Gerais. O nome da minha mãe era Ana        que passaram pela minha vida e me
                                                         Martins e de meu pai João Martins.         ajudaram muito.
                                                         Não tenho muita lembrança da minha             Maria de Fátima trabalha na farmá-
                                                         infância, só sei que nasci sem pro-        cia de manipulação das Casas André
                                                         blemas, mas por não tomar vacina de        Luiz de segunda a sexta-feira das 9hs
                                                         paralisia infantil, fiquei doente. Minha   às 11hs, e participa de um grupo de
                                                         família sofreu muito, pois além da falta   dança. O que mais gosta de fazer é
                                                         de recursos financeiros, minha mãe         escrever poesias. E nas horas vagas,
                                                         tinha a doença do ‘bicho barbeiro’ e       trabalha na oficina de Terapia Ocupa-
40
cional produzindo artesanatos. É alfa-
betizada, se comunica através da fala,
mas sempre estudou somente dentro
da instituição. Além da poliomielite tem
Quadriplegia Espástica (deficiência físi-
ca) e variação normal de inteligência.


Trabalho: uma grande
oportunidade
    Por Maria de Fátima de Oliveira         que podemos confiar contando as nos-
    Feliz daquele que tem a oportuni-       sas angústias e alegrias.
dade de ter um trabalho.                         Para mim o trabalho é uma grande
    Feliz daquele que respeita o tra-       experiência, pois só testemunha que
balho.                                      aprendi muito, porque mostro que sou
    Feliz daquele que assume a respon-      capaz de fazer algo especial.
sabilidade de cumprir o trabalho com             O trabalho mediúnico no qual sou
qualidade.                                  dirigente tem grande importância na
    A oportunidade de trabalhar é muito     minha vida, pois me dá a oportunidade
importante para ocupar a mente porque       para eu exercer aquilo que aprendi nos
a mente ocupada com o trabalho produz       cursos e ajuda a mostrar a mim e aos
muitas coisas boas, principalmente o        outros que sou capaz de fazer algo
grande aprendizado que é progredir          muito importante.
amando o próximo.                                Sempre procuro fazer este trabalho
    No trabalho encontramos amigos          da melhor forma possível, dando tudo




                                                                                      SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 1 • Janeiro • Fevereiro de 2012




                                                                                      41
de mim, para a minha evolução que         profissionais espíritas, evangélicos,
                                                         tenho certeza que será grande.            católicos e ateus trabalhando; sendo
                                                             Agradeço a todos que me deram         11 estagiários e 419 voluntários (1287
                                                         esta oportunidade e principalmente ao     na unidade de longa permanência e 48
                                                         Criador de todos nós.                     no ambulatório), a instituição atende
                                                             Outros poemas estão no BLOG           hoje cerca de 1600 pessoas, das quais
                                                         escrito pelas pessoas que vivem nas       600 vivem na instituição, e 2 mil em
                                                         Casas André Luiz: http://www.casa-        regime ambulatorial.
                                                         sandreluiz.org.br/blog/ e as novidades,       Todos os atendimentos médicos
                                                         entrevistas, dicas, receitas e diversão   realizados nas unidades são por meio
                                                         estão no Jornalzinho mensal: “Mundo       de convênios com o Sistema Único
                                                         André Luiz”, também escrito por eles:     de Saúde, em especialidades como:
                                                         http://www.casasandreluiz.org.br/pdf/     Odontologia, Enfermagem, Farmácia e
                                                         jornalzinhodospacientes2012/jornalzi-     Radiologia que, associado às terapias
                                                         nhodospacientes_junho.pdf                 de Fonoaudiologia, Psicologia, Fisiote-
                                                                                                   rapia neuromotora e cardiorrespiratória,
                                                         Um pouco de história                      e às atividades interdisciplinares de
                                                                                                   Educação Física, Terapia Ocupacional e
                                                              O Centro Espírita Nosso Lar Casas    Serviço Social, geram qualidade de vida
                                                         André Luiz, fundado em 1949, é uma        as pessoas e seus familiares.
                                                         das mais antigas instituições brasilei-       Os programas de atendimento no
                                                         ras, sem fins lucrativos, que desde o     ambulatório contemplam os diferentes
                                                         início optou pelo atendimento 100%        graus de deficiências mesmo as mais
                                                         gratuito a pessoas com deficiência        complexas; e o tempo de permanên-
                                                         intelectual, de todas as idades, sem      cia na unidade varia de acordo com a
                                                         condições financeiras, em todos os        necessidade específica de cada caso,
                                                         graus de comprometimento: leve, mo-       porém não há programas diários, como,
                                                         derado, grave e profundo com ou sem       por exemplo, em uma escola regular. As
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 1 • Janeiro • Fevereiro de 2012




                                                         deficiência física associada. Localiza-   pessoas chegam no horário agendado,
                                                         da na cidade de São Paulo com 2141        1, 2 ou 3 vezes por semana (de acordo




42
com o que é necessário para o caso)        as Casas André Luiz, ele não teria a
realizam as terapias ou consultas e        qualidade de vida que possui hoje”,
retornam para suas casas.                  conta Mônica Felipe da Silva, mãe de
     A instituição estimula a manuten-     Jefferson.
ção dos vínculos familiares, sempre             E para as pessoas que residem
mencionando a sua importância na           na unidade de longa permanência da
condição biopsicossocial e qualidade       instituição, existe uma rotina de saídas
de vida das pessoas que freqüentam         freqüentes, não somente para eventos,
as unidades. Para isso, famílias de ex-    mas para atividades do dia-a-dia como,
trema vulnerabilidade social recebem o     por exemplo, compras em shopping,
auxílio-transporte para que estejam pre-   feiras, passeios à praia, idas ao cine-
sentes nas visitas, assim como orien-      ma entre outras. Para os profissionais
tações pontuais sobre os tratamentos       das Casas André Luiz, este convívio
na instituição. E para as pessoas em       é extremamente importante, não só
situações de real abandono por suas        para estimular as pessoas que vivem
famílias, as Casas André Luiz possuem      na instituição à inclusão social, mas
o Programa de Apadrinhamento, que          também para a comunidade a conviver
tem por objetivo a doação de amor e        com as diferenças.
atenção.                                        Existem pessoas que são atendi-
     Com 7 meses de vida, Jefferson        das na instituição, com deficiência leve
da Silva Bernardo teve meningite que       e moderada, inseridas no mercado de
o deixou com deficiência intelectual e     trabalho; porém em pequeno número.
física. Há 10 anos recebe tratamentos      Destes, somente 15 desenvolvem al-
na instituição, realizados por psicólo-    gum trabalho dentro da própria institui-
gos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas,      ção com excelente retorno, e apenas 1
terapeutas ocupacionais e de outras        pessoa trabalha em um supermercado
especialidades que juntas já contribuí-    fora da Instituição. Mas para ampliar
ram muito para melhoraria da fala e da     a inclusão social, os coordenadores

                                                                                      SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 1 • Janeiro • Fevereiro de 2012
locomoção dele. “Só tenho a agradecer      da instituição também participam
pelos tratamentos dos profissionais        da criação de políticas públicas, em
com o meu filho; pois, se não fosse        Conselhos de Saúde e Secretarias de




                                                                                      43
governo, tanto estaduais quanto muni-          Um dos destaques das Casas An-
                                                         cipais, como São Paulo e Guarulhos,        dré Luiz é o Programa REDUC (Reabili-
                                                         por exemplo.                               tação e Educação pela Inclusão). A psi-
                                                              O dinheiro que sustenta a institui-   cóloga e coordenadora Maria Rozineti
                                                         ção vem 30% do SUS – Sistema Único         Gonçalves* do programa nos concedeu
                                                         de Saúde, e 70% por meio de captação       uma entrevista exclusiva e conta em
                                                         de recursos: através: da Central de Ar-    detalhes como funciona, desde 2005,
                                                         recadação, que divulga os trabalhos e      esta importante troca de experiências
                                                         busca fidelização de contribuintes para    entre educadores e profissionais da
                                                         a manutenção das despesas fixas da         instituição.
                                                         Instituição; pelo Mercatudo, que recebe    1 - Explique como funciona o projeto.
                                                         doações externas de materiais em de-          Qual o principal objetivo dos en-
                                                         suso (como móveis, utensílios domés-          contros? Como surgiu a ideia do
                                                         ticos, roupas, objetos para reciclagem        REDUC? A demanda apareceu mais
                                                         e outros) para revenda, convertendo a         devido às necessidades dos profis-
                                                         arrecadação para as outras despesas;          sionais, familiares ou pessoas com
                                                         e por meio do Programa de Empresa             deficiência atendidas no Ambulatório
                                                         Iluminada, que firma parcerias com            das Casas André Luiz? Quais são as
                                                         empresas que desejem investir na ins-         principais necessidades dos partici-
                                                         tituição, fortalecendo seu programa de        pantes?
                                                         Responsabilidade Social Empresarial.
                                                              As Casas André Luiz receberam o            Desde 1991 o ambulatório das
                                                         certificado NBR ISSO 9001 em 2008          Casas André Luiz oferece gratuitamente
                                                         e o Prêmio Bem Eficiente em 2005           serviços especializados de atendimento
                                                         e 2006. Mais informações no site:          médico e terapêutico às pessoas com
                                                         http://www.casasandreluiz.org.br           deficiência intelectual e física e suas fa-
                                                                                                    mílias. Ao longo do tempo de existência
                                                         A importância da parceria                  a equipe multiprofissional se desenvol-
                                                         entre as escolas inclusivas e
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 1 • Janeiro • Fevereiro de 2012




                                                                                                    veu e hoje investe na transformação da
                                                         a instituição                              sociedade, a fim de combater o estigma
                                                                                                    e o preconceito. Pois, sabe-se hoje
                                                                                                    que a deficiência deve ser pensada e
                                                                                                    trabalhada em sua complexidade, não
                                                                                                    mais segregada só a uma área do sa-
                                                                                                    ber. Nesse sentido desenvolvemos uma
                                                                                                    alternativa para somar aos trabalhos da
                                                                                                    área educacional, aproximar e interligar
                                                                                                    os saberes acumulados e realizar um
                                                                                                    programa, através da interface saúde
                                                                                                    e educação. O programa REDUC (Re-
                                                                                                    abilitação e Educação pela Inclusão),
44                                                                                                  iniciado em 2005, realiza encontros
semestrais com professores, coorde-         2 - Os professores das escolas são con-
nadores, diretores e demais atores do       vidados a participar de reuniões junto
sistema escolar.                            com os profissionais das Casas André
     Convidamos os profissionais das        Luiz, com as pessoas com deficiência
escolas públicas e privadas, que pos-       e seus familiares?
suem crianças que utilizam nossos
serviços, a participarem de encontros           São convidados a participar dos
na instituição. Por meio dessa parceria     encontros do REDUC os professores,
criamos uma rede social que dê suporte      coordenadores e/ou diretores de es-
às demandas referentes ao processo          colas particulares e públicas, além de
de inclusão educacional, com o objetivo     instituições. Até o presente momento
de: compartilhar dúvidas, informações       não realizamos um encontro conjunto
e experiências (produzindo caminhos e       com os familiares, por preservarmos
alternativas; aprender com a realidade      o espaço de acolhimento das dúvidas
cotidiana); levantar aspectos comuns        e angústias dos participantes, assim
sobre as dificuldades da educação in-       como por entendermos que é um mo-
clusiva no Brasil; além da possibilidade    mento de troca de conhecimento sobre
de intervir nas questões relativas aos      os processos educacionais, com toda
preconceitos do universo das deficiên-      sua complexidade.
cias. Para isso, buscamos como méto-
do de trabalho, realizar encontros estru-   3 - Por que são realizados encontros
turados com diálogos, oficinas, debates     somente uma vez por semestre? Fal-
e palestras informativas. E sempre que      tava interesse de ambas as partes das
possível, também são realizadas visitas     195 pessoas envolvidas no REDUC?
às escolas para acompanhamento de
casos específicos.                              Inicialmente o projeto era desen-
     A ideia do Programa REDUC nasceu       volvido bimestralmente, porém fomos
de uma necessidade dos profissionais        percebendo dificuldades dos participan-

                                                                                      SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 1 • Janeiro • Fevereiro de 2012
da saúde ligados ao ambulatório da          tes em dar conta de uma periodicidade
instituição encontrar resposta às de-       maior. Alguns professores apresenta-
mandas das escolas nas quais as pes-        vam dificuldades em ter essa dispensa,
soas atendidas na instituição estavam       faltando incentivo para sua continui-
inseridas. Do lugar dos representantes      dade de participação. Isso nos levou
escolares vinham demandas ligadas ao        a construir o programa mais dentro da
diagnóstico, dúvidas sobre as deficiên-     realidade das pessoas, inclusive da
cias, formas de atuação, intervenções       própria equipe técnica do ambulatório
e adaptações possíveis na escola, an-       da instituição, que era cobrada por pa-
gústias do não saber como lidar com         rar aos atendimentos para receber um
o desconhecido, entre outras. Assim         grupo restrito de professores. Assim,
fomos trabalhando com o paradigma           para darmos seguimento sem ônus
da diversidade e criando um contexto        para nenhum lado passamos a fazê-lo
reflexivo para além do diagnóstico.         semestralmente.                           45
4 – Hoje são realizados relatórios sobre      7 - Qual o papel dos 7 interlocutores
                                                         os principais temas conversados? E            em campo? São profissionais da ins-
                                                         feitas propostas de ações coletivas ou        tituição que visitavam algumas esco-
                                                         analisados casos específicos?                 las? Quantas? Em que período? O que
                                                                                                       realizavam?
                                                              Em alguns encontros propomos te-
                                                         mas específicos, e em outros uma dinâ-            No geral uma equipe de dois a três
                                                         mica mais aberta ao diálogo a partir da       profissionais visitavam as escolas que
                                                         demanda do grupo que comparece ao en-         necessitavam de uma intervenção foca-
                                                         contro. Todos são finalizados com uma         da na demanda daquele contexto, como
                                                         avaliação dos participantes e sugestões       por exemplo, conversar com um grupo
                                                         para os posteriores, e a equipe do ambu-      maior de professores que não podiam
                                                         latório realiza o relatório do encontro. Já   se deslocar até o ambulatório da insti-
                                                         tivemos e continuamos tendo das mais          tuição; ou em escolas que abarcavam
                                                         diversas demandas, desde uma mobi-            um número maior de pessoas atendidas
                                                         lização mais política com convites aos        nas Casas André Luiz para termos aces-
                                                         participantes para serem representantes       so a todos os professores envolvidos,
                                                         na Secretaria de Educação de Guarulhos;       ou até mesmo por solicitações mais per-
                                                         até discussões mais pontuais sobre            sistentes de representantes de escolas.
                                                         diagnósticos e atendimento realizados         Realizávamos o agendamento com o
                                                         pela equipe de saúde.                         coordenador da escola e solicitávamos
                                                                                                       a presença de professores, especial-
                                                         6 - Dentre as 70 escolas participantes        mente os ligados as pessoas com defi-
                                                         dos encontros, quantas implantaram            ciência atendidas na instituição. Nesse
                                                         ações efetivas em sala de aula? Quais         período realizamos 15 visitas escolares,
                                                         foram elas?                                   tendo cada uma um foco diversificado,
                                                                                                       desde participar de hora pedagógica na
                                                             É muito difícil precisar, pois não te-    instituição e falar com um grupo de 30
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 1 • Janeiro • Fevereiro de 2012




                                                         mos condições de analisar o programa          professores dialogando e esclarecendo
                                                         nesse nível de abrangência. O que exis-       dúvidas sobre alunos com deficiência;
                                                         tem são relatos de participantes mais         até para verificarmos as adaptações
                                                         assíduos que nos deram feedbacks de           necessárias e específicas para deter-
                                                         suas ações nas escolas. Destacamos            minada criança na escola. Atualmente
                                                         modificações nos processos de ava-            esse tipo de assessoria acontece com
                                                         liação do aluno, melhor condução no           menor frenquência, devido a outras
                                                         processo de alfabetização da criança,         demandas institucionais.
                                                         diversificação nas estratégias de ensi-
                                                         no, cobrança de instâncias superiores         9 - Aponte os principais problemas de
                                                         quanto ao suporte necessário à criança        inclusão de estudantes com deficiên-
                                                         com deficiência, revisão do ciclo esco-       cia intelectual nas escolas regulares,
                                                         lar em que a criança se encontrava,           os principais resultados conseguidos
46                                                       dentre outras.                                após as ações do REDUC?
Muitos são os problemas trazidos      instituição ou educadores das escolas
pelos familiares das pessoas com defi-     inclusivas.
ciência e pelos professores que partici-
pam dos encontros, como por exemplo,            Como exemplo, podemos citar os
em relação à infra-estrutura das esco-     pontos positivos, retirados de avalia-
las (muitas ainda não são totalmente       ções finais de alguns encontros de
adaptadas as pessoas que usa cadeira       2011: “foi uma importante troca de
de rodas); falta de suporte em sala de     experiências sobre inclusão”; “é impor-
aula para as questões práticas (como       tante compreender como a criança está
troca de fraldas, alimentação, e ida       se desenvolvendo nas terapias traçan-
aos espaços externos à sala de aula);      do paralelos com a sala de aula”; “foi
grande número de alunos por sala que       um aprendizado de novas técnicas a
dificulta a atenção individualizada;       serem trabalhadas com os alunos”; “a
falta de suporte que instrumentalize       importância dada a inter-disciplinaride;
o professor a encontrar caminhos de        o domínio do conhecimento; e disponi-
escolarização do aluno com deficiência;    bilidade da equipe terapêutica em nos
carências na formação do educador;         orientar”; “a importância de ter retorno
falta de parâmetros para a avaliação e     sobre o trabalho que a escola realiza;
promoção de alunos; e preconceitos na      e levar o conhecimento para a sala de
relação família e escola, entre outros     aula, dar novas visões e possibilida-
problemas.                                 des”; entre outros.
     Nossa intervenção tem ocorrido             Alguns comentários dos participan-
dentro das necessidades que são tra-       tes foram: “Uma oportunidade de tirar
zidas a cada encontro ou a cada visita     dúvidas e aprender bastante”; “Trouxe
escolar; desde orientações específi-       soluções para as minhas necessida-
cas ligadas a tecnologias assistivas,      des”; ”Estou saindo muito melhor do
sugestões de adequações estruturais        que entrei. Foi ótimo!”; “Agradeço o
em sala de aula, passando por escla-       acolhimento e a receptividade. Para-

                                                                                      SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 1 • Janeiro • Fevereiro de 2012
recimentos de quadros clínicos, dis-       béns pelo lindo trabalho”; “A reunião
cussões e reflexões sobre formas de        foi de grande valia para minha formação
aprendizagem, até alívio de angustia       pessoal e profissional”; “Adorei muito,
de professores através do acolhimen-       pois mudou muito o meu ponto de vista
to de seus sentimentos. Os relatos         em relação ao meu comportamento”.
de satisfações dos professores e das       E algumas sugestões foram: maior
mães em alguns casos são nossos            frequencia nos encontros; ser mais di-
parâmetros de avaliação do programa.       vulgado; e a necessidade de um curso
                                           de formação para educadores.
10 - Cite um exemplo positivo e um que          Em relação às dificuldades verifi-
ainda precisa ser melhorado. Aponte        camos que a criança com deficiência
os principais comentários, depoimen-       intelectual passa por uma situação
tos e críticas feitas pelas pessoas        bastante delicada ao fazer a passa-
envolvidas, sejam profissionais da         gem do ciclo do ensino fundamental         47
1 para o 2, uma vez que deixa de ter        temas como limites e possibilidades
                                                         um professor generalista e passa a          de um diagnóstico, preconceito e ex-
                                                         ter vários professores especialistas        clusão, família, reconhecimento dos
                                                         muito distanciados do processo de           direitos da pessoa com deficiência,
                                                         alfabetização, fase em que a maioria        tecnologia assistiva, possibilidades em
                                                         das crianças com deficiência intelec-       metodologias e estratégias de ensino,
                                                         tual ainda se encontra. Muito desses        entre outros. Porém, não conseguimos
                                                         alunos não apresentam condições de          colocar o curso em prática devido à fal-
                                                         acompanhar o conteúdo planejado para        ta de uma parceria. O programa REDUC
                                                         as series desse segmento e passam a         no formato que hoje está tende a conti-
                                                         ficar a margem na sala de aula, poden-      nuar, tendo em vista o reconhecimento
                                                         do refletir em comportamentos vistos        da necessidade de darmos suporte
                                                         como indisciplinados, mas na realidade      às escolas e por acreditarmos que a
                                                         refletem sua desmotivação decorrente        aproximação entre saúde e educação
                                                         desse despreparo do sistema escolar.        se faz necessária para o benefício da
                                                                                                     pessoa com deficiência.
                                                         11 - Quais são as principais parcerias
                                                         firmadas entre os setores de saúde e        12 - O que representa para você, tanto
                                                         educação inclusivas após a implanta-        profissionalmente, como pessoalmen-
                                                         ção do projeto? O REDUC vai continu-        te, a realização de um projeto em prol
                                                         ar? A direção das Casas André Luiz          da educação inclusiva e do resgate da
                                                         aprovou os resultados e incentivou o        cidadania de pessoas com deficiência
                                                         trabalho?                                   intelectual que ainda passam por situ-
                                                                                                     ações de discriminação e preconceito?
                                                              A busca da parceria é contínua e       O que mudou em sua vida após a rea-
                                                         refletida em cada encontro e sempre         lização deste projeto?
                                                         temos a certeza de trocarmos conhe-
                                                         cimentos e dialogarmos dentro de                Pessoalmente é um projeto no qual
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 1 • Janeiro • Fevereiro de 2012




                                                         nossos saberes construindo caminhos         acredito muito, até por atuar também
                                                         mais assertivos para a pessoa com           como psicóloga escolar em uma escola
                                                         deficiência nos dois contextos. E para      particular que recebe alguns alunos com
                                                         tentar expandir nossa atuação, criar-       deficiência, levando-me a ver de perto
                                                         mos um curso de atualização e capa-         as necessidades de formação e supor-
                                                         citação de educadores no ambulatório        te ao professor que atua diretamente
                                                         da instituição; com uma programação         com a pessoa com deficiência. Nos
                                                         envolvendo áreas de psicologia, terapia     atendimentos às mães de pacientes,
                                                         ocupacional, fonoaudiologia, educação       como por exemplo, no Grupo Reflexivo
                                                         física e serviço social, visando fomentar   realizado pela Psicologia, a demanda
                                                         a reflexão do professor e instrumenta-      mais freqüente são as insatisfações
                                                         lizá-lo para as questões do cotidiano       e dificuldades com a inclusão escolar
                                                         escolar da pessoa com deficiência           de seus filhos, sendo quase que um
48                                                       intelectual. Nossa proposta abordava        pedido explícito de darmos conta de
resolvermos as incongruências no sis-                     serem as portas vozes de seus filhos
tema educacional. Mas é claro que não                     e defensoras de seus direitos a uma
temos essa condição e nos limitamos                       educação de qualidade. Mas temos a
a fomentar o diálogo e a tentativa de                     certeza que com esse programa, conse-
se buscar alternativas e caminhos para                    guimos dar uma pequena contribuição
essa construção contínua do processo                      para uma sociedade mais justa para
inclusivo. É preciso também fortalecer                    essas pessoas com deficiência.
as mães atendidas na instituição para




*maria Rozineti gonçalves, Coordenadora de Equipe                                     *Leandra migotto certeza
Técnica das Casas André Luiz há 17 anos, é Psicóloga                                  é bacharel em Comunicação
com especialização em Terapia Familiar e de Casal                                     Social pela Universidade
e Psicologia Institucional e Social e idealizadora do                                 Anhembi Morumbi, jornalista
programa REDUC, juntamente com sua equipe técnica                                     desde 1998, e repórter espe-
formado por Willian Chagas, Professor de Educação                                     cial da Revista Síndromes. Foi
Física Adaptada; Renata Masson, Terapeuta Ocupacio-                                   editora da Revista Sentidos e
nal; Cleide Santos, Assistente Social; Priscila Engman,                               Ciranda da Inclusão, além de

                                                                                                                        SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 1 • Janeiro • Fevereiro de 2012
Fonoaudióloga e Maria Rozineti gonçalves, Psicóloga e     escrever para diversos portais como Setor 3 do SEnAC/
Coordenadora da instituição.                              SP Rede SACI/USP e Inclusive. Ela tem deficiência física
                                                            ,
                                                          (Osteogenesis Inperfecta), é assessora de imprensa da
                                                          ABSW – Associação Brasileira de Síndrome de Williams,
                                                          consultora em inclusão (premiada em Lima e na Co-
                                                          lômbia), e mantém o blog “Caleidoscópio – Uma janela
                                                          para refletir sobre a diversidade da vida”: http://leandra-
                                                          migottocerteza.blogspot.com/. Conheçam os modelos
                                                          de palestras, encontros, oficinas, cursos, treinamentos
                                                          e materiais informativos sobre Diversidade e Inclusão,
                                                          realizados em empresas, escolas, Ongs, centros
                                                          culturais e grupos de pessoas no site da Caleidoscópio
                                                          Comunicações – Consultoria em Inclusão: https://sites.
                                                          google.com/site/leandramigotto/
                                                                                                                        49
índromes
síndromes                               revista multidisciplinar de desenvolvimento humano
 Março • Abril de 2012 • Ano 2 • Nº 2




                                                                                             curso Autismo
                                                                                                     Módulo IV
                                                                                                      Alessandra Freitas
                                                                                                   Carolina Rabello Padovani
                                                                                                      Cristina Maria Pozzi
                                                                                                  Francisco B. Assumpção Jr.
                                                                                                         Marina Lemos
                                                                                                       Melanie Mendoza
                                                                                                        Milena Rossetti




                                                                                                                               13 anos




                                                                                               www.atlanticaeditora.com.br
…
                                                                        C U R S O A U T I S M O - M ó D U LO I v




                                                              Diagnóstico e diagnóstico
                                                              diferencial psiquiátrico no
                                                                    autismo infantil

                                                    1. Introdução                                 víduos com fala adequada, observa-se
                                                                                                  acentuado prejuízo na capacidade de
                                                         Ao DSM-IV-TR (American Psychiatric       iniciar ou manter uma conversação; uso
                                                    Association, 2002), o autismo infantil é      estereotipado e repetitivo da linguagem,
                                                    retratado como um quadro iniciado antes       ou linguagem idiossincrática; falta de
                                                    dos três anos de idade, decorrente de         jogos ou brincadeiras de imitação social,
                                                    uma vasta gama de condições pré, peri         variados e espontâneos, apropriados ao
                                                    e pós-natais, sendo necessários um total      nível de desenvolvimento. Finalmente,
                                                    de seis (ou mais) itens das seções (1),       os padrões restritos e repetitivos são
                                                    (2) e (3), com pelo menos dois itens da       manifestos através de preocupação
                                                    seção (1), um da (2) e um da (3). Esses       insistente com um ou mais padrões,
                                                    itens são representados por prejuízo          estereotipados e restritos de interesse,
                                                    qualitativo na interação social, manifes-     anormais em intensidade ou em foco;
                                                    tado por pelo menos dois dos seguintes        adesão aparentemente inflexível a rotinas
                                                    aspectos: prejuízo acentuado no uso de        ou rituais, específicos e não funcionais;
                                                    múltiplos comportamentos não verbais,         maneirismos motores estereotipados e
                                                    tais como contato visual direto, expres-      repetitivos (p. e., agitar ou torcer mãos
                                                    são facial, postura corporal e gestos para    ou dedos, ou movimentos complexos de
                                                    regular a interação social; fracasso em       todo o corpo); e preocupação persistente
                                                    desenvolver relacionamentos com seus          com partes de objetos.
                                                    pares, apropriados ao nível de desenvol-           Considerando-se a CID-10 (1993),
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012




                                                    vimento; falta de tentativa espontânea        encontramos o conceito de Transtornos
                                                    de compartilhar prazer, interesses ou         Globais do Desenvolvimento descrito
                                                    realizações com outras pessoas (p. e.,        como um “...grupo de transtornos ca-
                                                    não mostrar, trazer ou apontar objetos de     racterizados por alterações qualitativas
                                                    interesse), e falta de reciprocidade social   das interações sociais recíprocas e
                                                    ou emocional. Os aspectos relativos aos       modalidades de comunicação e por um
                                                    prejuízos qualitativos na comunicação         repertório de interesses e atividades
                                                    são manifestados através de atraso ou         restrito, estereotipado e repetitivo. Estas
                                                    ausência total de desenvolvimento da          anomalias qualitativas constituem uma
                                                    linguagem falada (não acompanhado             característica global do funcionamento do
                                                    por uma tentativa de compensar através        sujeito, em todas as ocasiões.”
                                                    de modos alternativos de comunicação,              Assim, estabelecem-se subgrupos
52                                                  tais como gestos ou mímica); em indi-         específicos para seu diagnóstico, todos
…




    eles caracterizando diferentes quadros        2. Principais quadros clínicos
    clínicos, evoluções e prognósticos sendo,     de importância no diagnóstico
    portanto, de fundamental importância seu      diferencial
    estabelecimento. Assim, esse diagnós-
    tico diferencial dos quadros autísticos       • 2.a. Diagnósticos Diferenciais intra-
    passa a existir dentro do próprio grupo de      -grupo “Transtornos de Desenvolvi-
    Transtorno Invasivos do Desenvolvimen-          mento”
    to, que engloba a Síndrome de Asperger,       • 2.a.1. Diagnósticos Diferenciais intra-
    a Síndrome de Rett, os Transtornos De-          -grupo Retardo Mental
    sintegrativos e os quadros não especifica-
    dos, bem como passa a ter que ser consi-          O Retardo Mental (RM) é um quadro
    derado fora dessa categoria. Isso porque      de extrema importância, não somente
    com o reforço da idéia do déficit cognitivo   pela sua gravidade, mas também por-
    associado, bem como a partir de seu           que as melhores estimativas mostram
    enfoque sob uma ótica desenvolvimentis-       sua prevalência, considerando-se um
    ta, passa a relacioná-lo cada vez mais à      quociente intelectual (QI) abaixo de 50,
    deficiência mental, uma vez que cerca de      ao redor de 3 a 4 para 1.000 pessoas,
    70 a 86% deles são também deficientes         e estimando-se que a deficiência mental
    mentais. Wing (1988), reforçando essa         leve (QI de 50 a 70) ocorra em 2 a 3%
    idéia, traz a noção de autismo como um        das pessoas, embora esses dados só
    aspecto sintomatológico, dependente           devam ser levados em consideração ao
    do comprometimento cognitivo, dentro          serem observadas as características
    de uma visão dimensional, reforçando a        da região estudada, bem como o meio
    tendência de o tratarmos não como uma         sócio-econômico envolvido (World Health
    entidade única, mas como um grupo de          Organization, 1985).
    doenças relacionadas, primariamente, a            A proposta de 1959, da Associação
    déficits cognitivos.                          Americana para o RM define que “...o
         Sua idade usual de diagnóstico, ao       retardamento mental refere-se ao fun-
    redor de três anos, caracteriza de forma      cionamento intelectual geral abaixo da
    clara uma primeira dificuldade na sua         média, que se origina durante o período     SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012

    identificação, embora esse mesmo au-          de desenvolvimento e está associado
    tor sugira que um diagnóstico já possa        a prejuízo no comportamento adapta-
    ser bem estabelecido ao redor dos 18          tivo”. Engloba um quadro caracteri-
    meses de idade, estudos realizados com        zado a partir das conseqüências que
    grandes amostras de portadores das            apresenta, no âmbito da pessoa, da
    chamadas “psicoses infantis” descre-          família e da sociedade, decorrente de
    vem uma distribuição bimodal, com um          uma deficiência em nível biológico, que
    grupo de crianças com graves problemas        acarreta uma incapacidade em nível
    já nos primeiros anos de vida, e outro        funcional, que faz com que o indivíduo
    grupo com dificuldades somente após           não apresente o desempenho espera-
    um período de desenvolvimento aparen-         do de acordo com sua idade, sexo e
    temente normal.                               grupamento social.                          53
…
                                                          Não corresponde, portanto, a uma              Entretanto, considerando-se que
                                                    doença única, mas engloba um complexo          o Retardo Mental corresponde a um
                                                    de síndromes que têm como única carac-         continuum que se estende do próximo
                                                    terística comum a insuficiência intelectu-     ao normal ao francamente anormal, de
                                                    al. Considerando-se o DSM-IV-TR (2002),        acordo com o potencial adaptativo do
                                                    suas características fundamentais são          indivíduo em questão, a discriminação
                                                    representadas por um funcionamento in-         cognitiva passa a ter fundamental im-
                                                    telectual global significativamente inferior   portância para o diagnóstico diferencial,
                                                    à média, acompanhado de déficits ou pre-       uma vez que no RM, a maior frequência
                                                    juízos concomitantes no funcionamento          de transtornos de conduta observada
                                                    adaptativo atual, com um início anterior       também é na área da sociabilidade, o que
                                                    aos 18 anos de idade.                          reflete as dificuldades adaptativas dessa
                                                         Essas características, a princípio,       população. Observamos, então, condutas
                                                    podem ser encontradas também nos               caracterizadas por dificuldades no relacio-
                                                    quadros de autismo, embora nesses,             namento social, caracterizando timidez e
                                                    alterações mais específicas e de cunho         isolamento, frutos da baixa autoestima e
                                                    qualitativo estejam associadas. Também         de percepção das reais dificuldades no re-
                                                    não fazem parte dos quadros de RM as           lacionamento, e condutas de tipo irritável
                                                    alterações de motilidade representadas         e agressivo, decorrentes da dificuldade
                                                    pelos rituais e pelas estereotipias de         de instrumentalização e controle dos im-
                                                    movimento, as alterações lingüísticas e,       pulsos, com a conseqüente inadequação
                                                    principalmente, as alterações na sociabi-      ao ambiente social. Cabe ainda conside-
                                                    lidade, uma vez que o isolamento intenso       rar a presença freqüente de estereotipias
                                                    com dificuldade no reconhecimento dos          gestuais na população deficiente mental,
                                                    padrões mentais do outro não é encon-          o que dificulta mais ainda seu diagnóstico
                                                    trado, obrigatoriamente, no RM.                diferencial com os TIDs.
                                                         A etiologia do Retardo Mental é
                                                    variável, superpondo-se à encontrada           • 2.a.2. Alterações de Linguagem
                                                    no autismo, e pode, de modo geral, ser              A ausência de linguagem e, con-
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012




                                                    subdividida em fatores que atuam antes         seqüentemente, de reações aparentes
                                                    da concepção e que envolvem causas             à voz do outro na criança de pequena
                                                    genéticas e ambientais, consistindo            idade, traz à baila a questão da surdez,
                                                    nos aspectos mais importantes na sua           que deve sempre ser investigada quando
                                                    gênese.                                        não se percebe a reação a voz, gestos
                                                         Provavelmente essa superposição de        e presença do outro. Da mesma forma,
                                                    fatores, faz com que se encontre associa-      alterações de linguagem, como disfasias
                                                    da ao autismo, numa proporção de 70 a          graves, podem apresentar, concomitante-
                                                    80% dos casos, com fatores genéticos.          mente, alterações relacionais (dificulda-
                                                    Também fatores ambientais de cunho pré         des de imitação e interesses específicos)
                                                    e peri-natal aproximam os dois transtor-       e dificuldades de expressão afetiva que,
                                                    nos, embora alguns deles pareçam ter           embora distintas, devem ser investigadas
54                                                  um peso mais específico no RM.                 de maneira cuidadosa.
…




    • 2.a.3. Carência Afetiva                      e comportamento repetitivo e/ou perse-
         O conceito de retração prolongada é       verativo, com número limitado de focos
    interessante em função de seu apareci-         de interesse. Assim, apenas por sua
    mento, tanto em patologias pediátricas         descrição, já representa um diagnóstico
    como em patologias relacionais enquan-         diferencial de importância, em que pese
    to uma forma de regulação normal da            a idéia de continuum autístico descrito
    interação, constituindo-se numa reação         por Wing (1988).
    de alarme, que aparece em quadros de                Apresentam, habitualmente, nível
    depressão precoce, síndromes autísticas        de inteligência normal ou acima da nor-
    ou transtornos invasivos de desenvol-          malidade, associado a um padrão de
    vimento, transtornos ansiosos (como o          aquisição de linguagem em geral também
    transtorno de estresse pós-traumático),        normal, embora essa mostre déficits se-
    deficiências sensoriais, problemas nas         mânticos. Paralelamente, observam-se
    relações emocionais, alguns transtornos        comprometimentos diversos, detectados
    de alimentação e problemas relacionais.        através de provas específicas.
    Consiste em um “apagamento” da crian-               Sua epidemiologia é descrita como
    ça, com uma resistência aos estímulos          de prevalência ao redor de 20 a 25 por
    relacionais, ausência de estímulos auto-       10.000, com maior proporção também
    -eróticos, rigidez facial, movimentos atípi-   entre o sexo masculino.
    cos de dedos, choro e perda de apetite.             O diagnóstico é realizado a partir do
    É descrita por Marcelli (2006) a partir da     prejuízo qualitativo na interação social,
    passividade e inércia associada a este-        envolvendo o prejuízo no comportamen-
    reotipias de extremidades e ausência de        to não-verbal. Observa-se isolamento
    mímica. Embora a capacidade comuni-            social, com extremo egocentrismo, falta
    cacional possa estar preservada, pode          de habilidade em interagir com os pares,
    ser mascarada pela profunda retração e         associada à falta de desejo de interagir
    inércia da criança afetada.                    e à pobre apreciação da trama social,
                                                   com respostas socialmente impróprias.
    • 2.a.4. Diagnósticos Diferenciais intra-      Sua socialização é menos comprometida
      -grupo “Transtornos Invasivos de De-         que aquela dos portadores de autismo,        SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012
      senvolvimento”                               embora seus padrões relacionais sejam
                                                   deficitários e com marcantes dificuldades
    • 2.a.4.a. Síndrome de Asperger                adaptativas. Interesses e preocupações
        Descrita por Asperger em 1944 e            são limitados, com exclusividade de inte-
    reconhecida ao DSM IV-TR em sua quarta         resses e aderência repetitiva a rotinas e
    edição (2002), corresponde a um quadro         rituais, que podem ser auto-impostos ou
    de alta funcionalidade, embora seja tam-       impostos por outros.
    bém um transtorno de desenvolvimento,               Fala e linguagem são peculiares,
    no qual observamos alterações nas              superficialmente perfeitas em sua expres-
    mesmas três áreas de desenvolvimento           são, embora com alterações de prosódia,
    observadas nos quadros autísticos, a           timbre, tom e altura, além de compreen-
    saber, relacionamento social, linguagem        são diferente do que lhe é dito, incluindo   55
…
                                                    interpretações literais. Problemas na         microcefalia adquirida e, após um período
                                                    comunicação não-verbal apresentam-se          de estabilidade aparente, constata-se o
                                                    a partir do uso limitado de gestos, lin-      aparecimento de outras anormalidades
                                                    guagem corporal desajeitada, expressões       neurológicas, como síndromes pirami-
                                                    faciais limitadas ou impróprias, olhar fixo   dais, epilepsia, alterações vasomotoras,
                                                    peculiar e dificuldades à proximidade         etc. Ainda sob o ponto de vista diferen-
                                                    física de outros.                             cial, não encontramos, à semelhança do
                                                         Entretanto, sua maior peculiaridade      que vemos nos autistas, os interesses
                                                    é o interesse obsessivo em uma área           específicos e os jogos estereotipados, a
                                                    específica, apresentando, algumas vezes,      rotação dos objetos, a recusa sistemática
                                                    habilidades como hiperlexia ou memória        do contato corporal e o apego excessivo
                                                    para calendários.                             a determinados objetos.

                                                    • 2.a.4.b. Síndrome de Rett                   • 2.a.4.c. Transtornos Desintegrativos
                                                        Encefalopatia evolutiva, ligada ao            Observados antes dos 24 meses,
                                                    cromossomo X, com ocorrência no sexo          com predomínio no sexo masculino,
                                                    feminino, sendo reconhecidos entre 5 e        padrões de sociabilidade e comunicação
                                                    30 meses de vida, apresentando marcado        pobres, freqüente associação a síndrome
                                                    déficit no desenvolvimento, com desace-       convulsiva, além de prognóstico pobre.
                                                    leração do crescimento craniano, retardo      Sua principal característica é sobrevir
                                                    intelectual marcado, além de grande           após um período de desenvolvimento nor-
                                                    associação com quadros convulsivos.           mal e ser acompanhado de um período de
                                                    Diferentemente dos quadros autísticos,        regressão das aquisições, concomitante
                                                    temos aqui uma criança com desenvolvi-        ao aparecimento da sintomatologia que
                                                    mento neurológico e psíquico normal até       o caracteriza e que o faz similar aos qua-
                                                    ao redor dos 18 meses de idade, quando        dros autísticos. É marcante a perda das
                                                    se dá uma parada no desenvolvimento,          aquisições, principalmente lingüísticas,
                                                    parada essa seguida de uma deteriora-         o que o aproxima do antigo conceito de
                                                    ção, com perda de funções anteriormente       demência infantil. Fundamental se torna,
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012




                                                    adquiridas, processada de maneira rápi-       nestes casos, a avaliação neurológica,
                                                    da e conduzindo a um estado autístico         visando o diagnóstico de doenças neuro-
                                                    e demencial, em menos de 18 meses.            degenerativas. Sua evolução é reservada,
                                                    Observa-se a perda da manipulação vo-         levando a uma deterioração cognitiva
                                                    luntária dos objetos, que é substituída por   marcada e importante.
                                                    movimentos estereotipados de membros
                                                    superiores, alguns dos quais podemos          • 2.a.4.d. Transtornos Invasivos não
                                                    considerar característicos, como o bati-         especificados
                                                    mento de mãos cruzadas diante do peito,            Quadros cuja idade de início é variá-
                                                    assim como o ranger de dentes.                vel, com predomínio no sexo masculino,
                                                        Concomitantemente, e diferente-           comprometimento discrepante na área
                                                    mente dos quadros autísticos, podemos         da sociabilidade, bom padrão comuni-
                                                    observar ataxia de marcha e de tronco,        cacional e discreto comprometimento
56
…




    cognitivo. Seu principal diferencial dos    Transtornos da Comunicação
    quadros autísticos clássicos é a ausência
    de algum dos sintomas fundamentais          a. Transtorno da linguagem expressiva
    para o diagnóstico do autismo. Pode-se,     b. Transtorno misto da linguagem
    assim, encontrar quadros nos quais se       receptivo-expressiva
    salienta o déficit social e comunicacio-    c. Transtorno fonológico
    nal, mas não a presença de alterações       d. Tartamudez (gagueira)
    motoras. Encontram-se neste grupo os
    quadros diagnosticados anteriormente             É freqüente que a demanda de
    como portadores de “comportamentos          atendimento desta população seja por
    autísticos”.                                problemas de comportamento, e o pro-
                                                fissional envolvido nesta avaliação deve,
    • 2.b. Diagnósticos Diferenciais com        ao abordar essa criança ou adolescente,
      o grupo “Transtornos Específicos de       portadora de inúmeras dificuldades emo-
      Desenvolvimento”                          cionais, sociais e familiares, associadas
                                                às dificuldades acadêmicas, ser capaz
    • 2.b.1. Transtornos do Desenvolvimen-      de diferenciar entre causa e sintoma, o
       to do Aprendizado                        que pode ser feito inquirindo-se sobre
         Pesquisadores na área estimam que 5    o histórico acadêmico e o desempenho
    a 10 % seria uma estimativa razoável com    em cada área de habilidade, retardo de
    a propalada maior freqüência desta condi-   desenvolvimento psicomotor, retardo de
    ção em meninos sendo hoje considerada       aquisição de linguagem, problemas da
    fruto de uma maior morbidade referida       fala e prejuízo das habilidades cogniti-
    do sexo, ou seja, os meninos são mais       vas. Os resultados dessa abordagem
    freqüentemente encaminhados para os         psicoeducacional devem estabelecer a
    estudos por sua maior probabilidade de      presença ou ausência de um transtorno
    apresentarem comportamentos disrupti-       de aprendizagem.
    vos, que geram demanda de atendimento.           Seu diagnóstico diferencial se dá com
         Sua classificação clínica, conforme    os quadros de autismo de alto funciona-
    o proposto pelo DSM-IV-TR (APA, 2002),      mento e de Síndrome de Asperger, que         SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012
    pode ser observada no quadro que se         apresentam déficits menores no que se
    segue (Quadro 1):                           refere à sociabilidade e à linguagem, sen-
                                                do passíveis de participar de programa-
    Quadro 1: Transtornos do Desenvolvi-        ção acadêmica normal. Assim, buscam-se
    mento do Aprendizado                        os comprometimentos relativos à Teoria
    Transtornos do Aprendizado                  da Mente (presente nos portadores de
    a. Transtorno da leitura                    Transtornos de Aprendizado), aos pre-
    b. Transtorno da Matemática                 juízos nas funções executivas e na coe-
    c. Transtorno da expressão escrita          rência central, observando-se um melhor
    Transtornos das Habilidades Motoras         desempenho em detalhes, atividades de
    a. Transtorno do desenvolvimento da         tipo ritualístico, bem como um prejuízo
    coordenação                                 semântico na compreensão de textos,          57
…
                                                    em que pese a observação freqüente de          no desenho e uma incapacidade de dife-
                                                    hiperlexia.                                    renciar símbolos gráficos semelhantes,
                                                                                                   que se diferenciem apenas por sua dis-
                                                    • 2.b.2. Transtornos do Déficit de Aten-       posição espacial (como as letras b e d).
                                                        ção e Hiperatividade (TDAH)                A comorbidade com outros transtornos
                                                          Enquanto diagnóstico, apesar de no-      (transtorno de conduta, depressão, abuso
                                                    meada a partir da disfunção atencional,        e dependência de psicotrópicos, etc.) é
                                                    faz-se necessário que estejam presen-          freqüente, o que dificulta mais ainda seu
                                                    tes, em mais de um ambiente, também            diagnóstico diferencial. Assim, não é rara
                                                    a impulsividade e a hiperatividade. Sua        a confusão com quadros de autismo de
                                                    prevalência, a partir de estudo abrangente     alto nível pela existência, em ambos, de
                                                    no qual se resumem 11 outros estudos,          uma dificuldade atencional associada
                                                    apresenta um pico de aparecimento de           a uma disfunção executiva. Entretanto,
                                                    8% entre os 6 e 9 anos, com cifras me-         nestas crianças não observamos um pre-
                                                    nores para pré-escolares e adolescentes,       juízo marcado na Teoria da Mente, nem
                                                    sendo a prevalência diferencial entre os       as dificuldades relacionais que podemos
                                                    sexos (9% para meninos e 3.3% para             verificar nos Transtornos Invasivos.
                                                    meninas) menor que a habitualmente
                                                    descrita em outros estudos.                    • 2.b. Diagnósticos Diferenciais extra-
                                                          O quadro clínico caracteriza crianças,     -grupo Transtornos Invasivos de De-
                                                    que desde idades precoces, mostram               senvolvimento
                                                    irritabilidade, choro fácil, sono agitado
                                                    e despertar noturno. A partir do primeiro      • 2.b.1. Transtornos Psicóticos: Esqui-
                                                    ano de idade, observa-se agitação psico-          zofrenia
                                                    motora, ocasionando quebra de objetos,              A partir de todas essas dificuldades
                                                    e demandando vigilância constante.             que permeiam o diagnóstico dos quadros
                                                    Desinteressam-se rapidamente por brin-         esquizofrênicos na criança, a caracteriza-
                                                    quedos ou situações lúdicas. Observa-se,       ção de sua prevalência é difícil, apesar
                                                    ainda, principalmente no sexo masculino,       de, consensualmente, ser reportada
SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012




                                                    prejuízo no desenvolvimento da fala, com       como mais rara que o autismo, conside-
                                                    aquisição mais lenta e presença de tro-        rado 1,4 vezes mais freqüente. Também
                                                    cas, omissões e distorções fonêmicas,          não há consenso quanto à relação entre
                                                    além de um ritmo acelerado (taquilalia).       os sexos, sendo que, tanto uma prepon-
                                                    Essas condições se refletem em maiores         derância do sexo masculino (1,5 a 2 ho-
                                                    dificuldades e alterações no processo de       mens para 1 mulher), quanto distribuição
                                                    alfabetização da criança. Apresentam,          igual entre os sexos, são descritas.
                                                    ainda, prejuízo na coordenação motora               Seu início é insidioso, principalmente
                                                    e retardo na aquisição de automatismos         na chamada esquizofrenia de início muito
                                                    tardios (como amarrar um sapato ou             precoce (VEOS, ou very early onset schi-
                                                    utilizar um lápis). O desenvolvimento          zophrenia, de início anterior aos 13 anos
                                                    da noção têmporo-espacial também é             de idade), com controvérsias relativas ao
                                                    mais lento, resultando em dificuldades         tipo de início precoce (EOS, ou early onset
58
…




    schizophrenia , de início anterior aos 18   2) Estudo neuropsiquiátrico, envolvendo
    anos), se agudo ou insidioso (Mercadan-        aspectos de desenvolvimento, avalia-
    te, 1994). Observa-se maior freqüência         ção física (na procura de estigmas dis-
    de alucinações auditivas (80%), parte          genéticos), neurológica e psiquiátrica;
    das quais concomitantes a alucinações       3) Aplicação de escalas e questionários
    cenestésicas ou visuais. Alterações de         específicos;
    pensamento são freqüentes, com prejuí-      4) Testes auditivos e de linguagem;
    zo na associação de idéias, bloqueio de     5) Avaliação oftalmológica;
    pensamento e delírios (principalmente de    6) Estudo genético com análise cromos-
    tipo paranóide), associando-se a embota-       sômica (mapeamento) ou estudo de
    mento afetivo com ambitendência, perple-       DNA, visando o estudo de fenótipos
    xidade e menor rendimento intelectual.         comportamentais, a partir de caracte-
         Sua cronificação, principalmente nos      rísticas comportamentais típicas de
    quadros de início muito precoce, é fre-        determinadas síndromes e estudo das
    qüente e sua diferenciação dos quadros         patologias ligadas ao X;
    de Transtornos Invasivos é dada a partir    7) Estudos de neuroimagem
    do início do quadro e idade de apareci-     8) Eletroencefalograma
    mento, bem como pelos sintomas de tipo      9) Potenciais evocados auditivos de tron-
    produtivo, como delírios e alucinações.        co cerebral; auditivos corticais.
    Entretanto, pode ser confundida a partir    10) Testes específicos de triagem e
    do embotamento afetivo e das dificul-          diagnóstico para erros inatos do me-
    dades na sociabilidade, decorrentes da         tabolismos
    alteração de realidade e do déficit de      11) Outros exames laboratoriais
    pensamento e comunicacional.                12) Psicometria
                                                12.a. Avaliações de Desenvolvimento
    3. Conclusões                               12.b. Avaliações de Personalidade
                                                12.c. Instrumentos específicos
        Dentro dessa perspectiva multidisci-
    plinar, visando o estabelecimento de um          Com a maior acurácia das pesquisas
    diagnóstico, específico e diferenciado,     clínicas, um grande número de sub-sín-       SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012
    protocolos diagnósticos devem ser esta-     dromes ligadas ao complexo “Autismo”
    belecidos de maneira similar, à seguinte:   devem ser melhor identificadas nos pró-
    1) Anamnese meticulosa, com ante-           ximos anos, de forma a que os conheci-
       cedentes gestacionais, pré-, peri- e     mentos sobre a área aumentem de modo
       pós- natais;                             significativo em um futuro próximo.




                                                                                             59
AVALIAÇÃO PSICOPEDAGÓGICA CLÍNICA
V
                                                        CURSO PRÁTICO
A
          Passos para realizar avaliação psicopedagógica clínica em crianças encaminhadas por problemas de aprendizagem.
G                                             Diagnóstico/Prognóstico/Encaminhamento.


A
      Técnicas/instrumentos e procedimentos: Modelos de entrevista, Provas Operatórias de Piaget (Níveis operatório concreto e
    formal), Técnicas Projetivas, Instrumentos para avaliação da dislexia, Avaliação da Consciência Fonológica, Aplicação do TDE,
       Comportamentos TDAH frente à aprendizagem e o que observar para encaminhar ao neurologista, Orientação de relatório
S                   Psicopedagógico, Orientação de encaminhamentos a outros profissionais, Discussão de casos.


    LOCAL: Avenida ACM, nº 811, Auditório do Edifício Emp. Joventino Silva –

L
    Itaigara. Salvador/BA.

    DATA/HORÁRIO: 05/10 – 08:00 às 17:30h
I                 06/10 – 08:00 às 17:30h

                            200,00 (Profissionais e estudantes de
M
    INVESTIMENTO:
    Psicopedagogia)

I
    INSTRUTORA:
T   SIMAIA SAMPAIO

A
D
    Psicopedagoga Clínica                                                                       FAÇA SUA INSCRIÇÃO:
    Especialista em Neuropsicologia da Aprendizagem                                Tel.: 71-9210-4845 (tim) ou 71-9971-2497 (vivo) das

A
                                                                                                       18h às 21h.
    Professora da disciplina Diagnóstico Psicopedagógico Clínico em cursos de
    pós-graduação em Psicopedagogia                                                  ou e-mail simaia@psicopedagogiabrasil.com.br

S   Autora do livro: Manual Prático do Diagnóstico Psicopedagógico Clínico e
    outros.
                                                                                         Site: www.psicopedagogiabrasil.com.br


        A ficha de inscrição deverá ser encaminhada por e-mail. A inscrição só será efetivada após confirmação do pagamento.

                   O valor da inscrição poderá ser pago por depósito à vista* ou por cartão de crédito através do site
                                                  www.psicopedagogiabrasil.com.br.

              *Dados bancários para depósito: Banco Bradesco, Agência 1822, Conta Poupança: 837-0 – Simaia Sampaio.

                                        Confirmação de depósito deverá ser repassada por e-mail.
VYGOTSKY HOJE:
                                           EDUCAÇÃO E CRIMINALIDADE


    EXISTE SOLUÇÃO PARA A CRIMINALIDADE?
  O IPAF - Lev Vygotsky traz, pela primeira vez ao Brasil, a família
  do renomado autor Lev Vygotsky para discutir o tema e analisar
    o papel da educação vygotskyana na solução desse problema.


                              Quando?    20 de outubro de 2012
                                         Onde? Centro Cultural Hiroshima do Brasil
                                                         Público Alvo: Psicólogos, Neuropsicólogos,
                                            Educadores, Professores, estudantes de Pedagogia e Psicologia.

                                                        Inscrições: www.ipaf.com.br
Conferencistas
                                                                        Inscrições Abertas
:: Guennady Kravtsov
"Key school: Uma experiência de sucesso educacional"

:: Oleg Kravtsov
"O adolescente criminoso e a educação"

:: Elena Kravtsov
"O papel do brincar para o educador"

:: Quintino Aires
"A habilitção neuropsicológica na escola"
Haverá tradução simultânea.


                                           Taxa de Inscrição
 Estudantes de Graduação
 (Enviar comprovante ou carteirinha)           Profissionais

 R$ 75,00 até 31/08                            R$ 150,00 até 31/08

 R$ 85,00 até 28/09                            R$ 170,00 até 28/09

 R$ 100,00 até 10/10                           R$ 200,00 até 10/10

 R$ 150,00 no evento                           R$ 300,00 no evento




                                                            o
                                           funde a discussã
                          Participe e apro
                                               do diálogo
                             da importância
                                             sicologia e o
                             entre a neurop
                                                 ional.
                                  sucesso educac

              Informações: (11) 2046.0314 | www.blcongressoseventos.com.br
                  bleventos@uol.com.br | bl@blcongressoseventos.com.br

Realização:                               Apoio:                                              Organização:
N
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         Cu est
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           rso a e




                                                                                                         síndromes
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Mó Au diç




                                                                                                                                                                                                                  revistA multidisciplinAr dO desenvOlvimentO humAnO
                                                                                                                                                               Julho • Agosto de 2012 • Ano 2 • Nº 4 • R$ 25,00
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             du ti ã
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               lo sm o
                                                                    1 a 3 de novembro de 2012                                                                                                                                                                                                                                    IV o
                                                                    Centro de Eventos Plaza São Rafael
                                                                             Porto Alegre/RS
                                                                         Informações e inscrições:
                                                                      www.concriad.com.br
                                                                                                                                                                                                                                                                             Transtorno bipolar
                                                                                                                                                                                                                                                                                 do humor Francisco B. Assumpção Jr.
                                      Eixos temáticos:                                                                                                                                                                                                                                         Evelyn Kuczynski
        ● Álcool e drogas na adolescência       ● Transtorno de conduta
        ● Bullying                              ● Transtornos alimentares na adolescência
        ● Enurese                               ● Transtornos de ansiedade




                                                                                                         síndromes - Ano 2 - Número 4 - Julho/Agosto de 2012
        ● Problemas de aprendizagem             ● Transtornos de humor
        ● Resiliência                           ● Treinamento de pais
        ● TDAH                                  ● Violência doméstica


                                Palestrantes confirmados:
 ALMIR DEL PRETTE/SP ● ADRIANA BINSFELD/RS ● ADRIANA MELCHIADES/DF ● ADRIANA SELENE ZANONATO/RS
 ALINE HENRIQUES REIS/PR ● ANGELA ALFANO CAMPOS/RJ ● ANERON CANALS/RS ● BENOMY SILBERFARB/RS
CHRISTIAN HAAG KRISTENSEN/RS ● CARMEM BEATRIZ NEUFELD/RS ● CAROLINA SARAIVA DE MACEDO LISBOA/RS




                                                                                                                                                                            ISSN 2237-8677
    DANIELA SCHNEIDER BAKOS/RS ● DANIELA BRAGA/RS ● EDUARDO BUNGE/ARG ● FABIANA GAUY/GO
    FERNANDO GARCIA/ARG ● ILEANA CAPUTTO/URU ● INÊS CAPUTTO/URU ● ISABELA DIAS FONTENELLE/RJ
  LISEANE CARRARO LYSZKOWSKI/RS ● LUCIANA NAGALLI GROPO/PE ● LUCIANA TISSER/RS ● LUIZ PRADO/RS
 MARIA AUGUSTA MANSUR/RS ● MARINA GUSMÃO CAMINHA/RS ● MAYCON TEODORO/MG ● NEIVA TEIN/RS
 NEWRA ROTTA/RS ● RENATA BRASIL/RS ● RENATO CAMINHA/RS ● TÂNIA RUDNICK/RS ● VALQUIRIA TRICOLI/SP
              VINICIUS GUIMARÃES DORNELLES/RS ● ZILDA APARECIDA PEREIRA DEL PRETTE/RS

                                                                                                                                                                                                                                                                       transtorno Bipolar                A importância da
                                            Cursos:                                                                                                                                                                                                                       e depressão                    família para que
         T.R.I – TERAPIA DE RECICLAGEM INFANTIL                                                                                                                                                                                                                          Dr. Miguel Angelo Boarati        tem transtorno
         Marina Caminha e Renato Caminha - RS                                                                                                                                                                                                                            Leandra Migotto Certeza              bipolar
         AVALIAÇÃO E PROMOÇÃO DE HABILIDADES SOCIAIS NO PROCESSO TERAPÊUTICO                                                                                                                                                                                                                              Por Sonia Maria Bandeira
         Zilda Del Prette e Almir Del Prette - SP                                                                                                                                                                                                                         sobre a noção
         UMA INTERVENÇÃO PREVENTIVA EM TCC COM ADOLESCENTES
         Carmem Beatriz Neufeld - SP
                                                                                                                                                                                                                                                                            de tempo                            O sonho
                                                                                                                                                                                                                                                                             Melanie Mendoza            Por Maria de Fátima de Oliveira
         TRATAMENTO DA DESMOTIVAÇÃO DO ADOLESCENTE USUÁRIO DE DROGAS
         Renata Brasil - RS
         TERAPIA DE LOS TRASTORNOS DE ANSIEDAD EN LA NIÑEZ Y ADOLESCÊNCIA                                                                                                                                                                                               escola especial:
         Fernando Garcia - ARG                                                                                                                                                                                                                                            conceitos e
         PADRES DISFUNCIONALES: EL MANEJO Y LA INCLUSION EM LA TERAPIA DE LOS PADRES                                                                                                                                                                                       reflexões
         COM TRANSTORNOS GRAVES DE PERSONALIDAD
                                                                                                                                                                                                                                                                       dra. Alessandra Freitas Russo
         Ileana Caputto - URU
                                                                                                                                                                                                                                                                           Christine Luise Degen
         HIPNOTERAPIA COGNITIVA COM CRIANÇAS
         Benomy Silberfarb - RS
                                                                                                                                                                                                                                                                        inclusão escolar                          13 anos
                                                                                                                                                                                                                                                                            Simone Cucolicchio
               Organização:         Promoção:              Apoio:


                                                                                                                                                                                                                                                                                    www.atlanticaeditora.com.br
Sindromes bipolar nº 08

Sindromes bipolar nº 08

  • 1.
    N Cu est rso a e índromes síndromes Mó Au diç revistA multidisciplinAr dO desenvOlvimentO humAnO Julho • Agosto de 2012 • Ano 2 • Nº 4 • R$ 25,00 du ti ã lo sm o 1 a 3 de novembro de 2012 IV o Centro de Eventos Plaza São Rafael Porto Alegre/RS Informações e inscrições: www.concriad.com.br Transtorno bipolar do humor Francisco B. Assumpção Jr. Eixos temáticos: Evelyn Kuczynski ● Álcool e drogas na adolescência ● Transtorno de conduta ● Bullying ● Transtornos alimentares na adolescência ● Enurese ● Transtornos de ansiedade síndromes - Ano 2 - Número 4 - Julho/Agosto de 2012 ● Problemas de aprendizagem ● Transtornos de humor ● Resiliência ● Treinamento de pais ● TDAH ● Violência doméstica Palestrantes confirmados: ALMIR DEL PRETTE/SP ● ADRIANA BINSFELD/RS ● ADRIANA MELCHIADES/DF ● ADRIANA SELENE ZANONATO/RS ALINE HENRIQUES REIS/PR ● ANGELA ALFANO CAMPOS/RJ ● ANERON CANALS/RS ● BENOMY SILBERFARB/RS CHRISTIAN HAAG KRISTENSEN/RS ● CARMEM BEATRIZ NEUFELD/RS ● CAROLINA SARAIVA DE MACEDO LISBOA/RS ISSN 2237-8677 DANIELA SCHNEIDER BAKOS/RS ● DANIELA BRAGA/RS ● EDUARDO BUNGE/ARG ● FABIANA GAUY/GO FERNANDO GARCIA/ARG ● ILEANA CAPUTTO/URU ● INÊS CAPUTTO/URU ● ISABELA DIAS FONTENELLE/RJ LISEANE CARRARO LYSZKOWSKI/RS ● LUCIANA NAGALLI GROPO/PE ● LUCIANA TISSER/RS ● LUIZ PRADO/RS MARIA AUGUSTA MANSUR/RS ● MARINA GUSMÃO CAMINHA/RS ● MAYCON TEODORO/MG ● NEIVA TEIN/RS NEWRA ROTTA/RS ● RENATA BRASIL/RS ● RENATO CAMINHA/RS ● TÂNIA RUDNICK/RS ● VALQUIRIA TRICOLI/SP VINICIUS GUIMARÃES DORNELLES/RS ● ZILDA APARECIDA PEREIRA DEL PRETTE/RS transtorno Bipolar A importância da Cursos: e depressão família para que T.R.I – TERAPIA DE RECICLAGEM INFANTIL Dr. Miguel Angelo Boarati tem transtorno Marina Caminha e Renato Caminha - RS Leandra Migotto Certeza bipolar AVALIAÇÃO E PROMOÇÃO DE HABILIDADES SOCIAIS NO PROCESSO TERAPÊUTICO Por Sonia Maria Bandeira Zilda Del Prette e Almir Del Prette - SP sobre a noção UMA INTERVENÇÃO PREVENTIVA EM TCC COM ADOLESCENTES Carmem Beatriz Neufeld - SP de tempo O sonho Melanie Mendoza Por Maria de Fátima de Oliveira TRATAMENTO DA DESMOTIVAÇÃO DO ADOLESCENTE USUÁRIO DE DROGAS Renata Brasil - RS TERAPIA DE LOS TRASTORNOS DE ANSIEDAD EN LA NIÑEZ Y ADOLESCÊNCIA escola especial: Fernando Garcia - ARG conceitos e PADRES DISFUNCIONALES: EL MANEJO Y LA INCLUSION EM LA TERAPIA DE LOS PADRES reflexões COM TRANSTORNOS GRAVES DE PERSONALIDAD dra. Alessandra Freitas Russo Ileana Caputto - URU Christine Luise Degen HIPNOTERAPIA COGNITIVA COM CRIANÇAS Benomy Silberfarb - RS inclusão escolar 13 anos Simone Cucolicchio Organização: Promoção: Apoio: www.atlanticaeditora.com.br
  • 3.
    síndromes Julho • Agosto de 2012 • Ano 2 • Nº 4 revista multidisciplinar do desenvolvimento humano 2 diretoria Ismael Robles Junior EDITORIAL ismael@revistasindromes.com Dr. Francisco Assumpção Junior revistasindromes@yahoo.com.br (11) 4111 9460 3 Antonio Carlos Mello ARTIgO DO mês mello@atlanticaeditora.com.br Transtorno bipolar do humor coordenador editorial Francisco B. Assumpção Jr. Dr. Francisco B. Assumpção Jr. Evelyn Kuczynski 10 colaboraram EnTREvIsTA com essa edição Alessandra Freitas Russo Transtorno Bipolar e Depressão Carolina Rabello Padovani Dr. Miguel Angelo Boarati Cristina de Freitas Cirenza Leandra Migotto Certeza Evelyn Kuczynski 15 Julianna Di Matteo DEsEnvOLvImEnTO Dr. Francisco Assumpção Junior Leandra Migotto Certeza Sobre a noção de tempo Maria Sigride Thomé de Souza Melanie Mendoza 21 Simaia Sampaio Simone Nascimento Fagundes REAbILITAçãO Zein Mohamed Sammour Escola especial: conceitos e reflexões Dra. Alessandra Freitas Russo Administração e vendas Antonio Carlos Mello Christine Luise Degen 27 mello@atlanticaeditora.com.br IncLusãO Vendas Corporativas Antônio Octaviano Inclusão escolar biblioteca@atlaticaeditora.com.br Simone Cucolicchio Marketing e Publicidade 30 Rainner Penteado O programa de inclusão de pessoas com rainner@atlanticaeditora.com.br deficiência nas empresas – o fortalecimento no Editor executivo processo de fidelização do colaborador Dr. Jean-Louis Peytavin jeanlouis@atlanticaeditora.com.br Janaina Foleis Fernandes * 33 Editor assistente DE mãE, pRA mãE Guillermina Arias guillermina@atlanticaeditora.com.br A importância da família para que tem transtor- Direção de arte no bipolar Cristiana Ribas Por Sonia Maria Bandeira cristiana@atlanticaeditora.com.br Leandra Migotto Certeza 36 Atlântica Editora Praça Ramos de Azevedo, ARTIgO DO LEITOR 206/1910 O programa de inclusão de pessoas com Centro 01037-010 São Paulo SP deficiência nas empresas – o fortalecimento no Atendimento (11) 3361 5595 processo de fidelização do colaborador assinaturas@atlanticaeditora.com.br Janaina Foleis Fernandes 39 Até Quando? Alexandre Soares REpORTAgEm 40 Envio de artigos para: O sonho artigos@revistasindromes.com Por Maria de Fátima de Oliveira revistasindromes@yahoo.com.br Leandra Migotto Certeza www.atlanticaeditora.com.br A revista Síndromes é uma publicação bimestral da Atlântica Editora ltda. em parceria com Editora Robles - Ismael Robles Jr. ME, com circulação em todo território nacional. Não é permitida a reprodução total ou parcial dos artigos, reportagens e anúncios publi- cados sem prévia autorização, sujeitando os infratores às penalidades legais. As opiniões emitidas em artigos assinados são de total responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, a opinião da revista Síndromes. Mandem artigos com no máximo 400-500 palavras, consistindo somente em uma opinião embasada em pequena bibliografia (3 ou 4 citações no máximo), podem estar na mesma página ou em páginas diferentes. Praça Ramos de Azevedo, 206 sl. 1910 - Centro - 01037-010 São Paulo - SP Atendimento (11) 3361-5595 - artigos@revistasindromes.com - Assinaturas - E-mail: assinaturas@atlanticaeditora.com.br
  • 4.
    EDITORIAL Dr. Francisco assumpção Junior Com este, chegamos ao oitavo núme- mente pela atualidade, sensacionalismo ro desta publicação, editada de maneira e eventual utilidade do tema fornecendo ininterrupta durante todo esse período o assim informações, muitas vezes pouco que, convenhamos, não é tarefa fácil em sérias ou sem embasamento teórico um país que prima pelas dificuldades edi- suficiente. toriais, principalmente no que se refere Esse talvez tenha que ser um cuidado a um mercado tão técnico e específico. quando se lê ou cita determinadas fontes Trazemos aqui a mesma estrutura posto que, essas nem sempre têm o das edições anteriores, com o artigo de cuidado necessário para determinadas base referindo-se ao Transtorno Bipolar, afirmações que, quando feitas de ma- quadro que, neste momento, encontra-se neira impensada, tornam-se de domínio no auge do interesse através de divulga- público causando danos à população ção na mídia leiga. Aliás, a questão da interessada. divulgação na mídia não especializada Nosso princípio tem sido esse. talvez seja um tema que deva ser consi- Nossas informações não são, na derado uma vez que cabe diferenciarmos grande maioria das vezes, novas ou artigos de divulgação, apresentados inovadoras porém tem embasamento em revistas específicas como esta, por suficiente para terem credibilidade. exemplo, e artigos divulgados através da Exatamente por isso é que os artigos imprensa leiga. têm sido, cada vez mais, selecionados Isso porque os primeiros, embora e controlados para que as informações destinados a um público leigo e sem um apresentadas tenham um caráter de caráter científico que prevê uma meto- aceitação institucional. dologia e apresentação características, Esse é o objetivo que perseguimos e têm, como preocupação, a seriedade que, acreditamos, estejamos alcançando. nas informações, representadas através Esperamos que a leitura deste nú- de técnicos responsáveis pelos textos e mero seja agradável para todos e que as pela seleção dos assuntos. informações aqui apresentadas sejam As publicações gerais, ao contrário, úteis aos interessados na área. SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 habitualmente interessam-se principal- Boa leitura Francisco b. Assumpção Jr. 2
  • 5.
    A RT Ig O D O M ê S Transtorno bipolar do humor Francisco B. assumpção Jr. EvElyn KuczynsKi Os transtornos do humor (depressão Tais pacientes apresentam irritabilidade e transtorno bipolar, entre outras entida- prevalente e instabilidade do humor (o des menos veiculadas) são condições que pode se manifestar por episódios psiquiátricas que se apresentam (via de de choro imotivado). A agressividade regra) na forma de recorrentes períodos auto- (contra si mesmo) ou heterodiri- (as chamadas “fases”) de polarização gida (voltada para outrem) também se do humor, acompanhados de outros sin- mostra muito presente. Inquietas, falam tomas (secundários a esta polarização). muito mais rápido do que o normal, com Refutado até muito recentemente entre grande aumento da distratibilidade, e crianças e adolescentes (em função de muitas vezes há o relato de uma reduzida teorias então vigentes), ainda hoje seu necessidade de dormir. Pensamentos diagnóstico é um desafio, dado que mui- fantasiosos e de grandeza podem se tas atitudes e comportamentos criam manifestar na forma de acidentes (muitos dificuldades no diagnóstico diferencial, se veem como super-heróis, ou creem ter gerando muita discussão sobre o tema. poderes especiais). Um indivíduo pode apresentar apenas Os egípcios e sumerianos, por volta episódios depressivos ao longo do curso de 2.600 A. C., já buscavam estabelecer de sua doença (o denominado “transtorno um diferencial entre a melancolia (hoje depressivo recorrente”), mas a presença denominada “depressão”) e a histeria. em seu histórico de um único episódio de Já Hipócrates (460-377 A. C.) apresen- “mania” (mesmo na ausência de episó- tou uma classificação para transtornos dios depressivos) caracteriza o diagnós- mentais que incluía a melancolia e a SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 tico de “transtorno bipolar” (ou “episódio mania. A mania seria um transtorno maníaco”, se o quadro não se apresentou mental agudo (na ausência de febre). A ainda com recorrências). Uma vez que as melancolia correspondia a vários tipos de manifestações de uma fase depressiva transtornos mentais que se assemelha- foram extensamente detalhadas em ar- vam pela cronicidade. De acordo com as tigo prévio (Kuczynski E & Assumpção Jr teorias vigentes na época, relacionou tais FB., 2012), buscaremos nos concentrar quadros ao temperamento, associando nos aspectos relacionados a “mania” (em os coléricos à hostilidade, os sanguíneos todas as suas particularidades). à alegria, os melancólicos à depressão, A chamada “fase maníaca” é um e os fleumáticos à apatia e indiferença. quadro grave e que resulta numa que- Mas entre crianças estes quadros não da acentuada do desempenho escolar. foram descritos até 1621, quando Robert 3
  • 6.
    Burton descreve criançasmelancólicas bios de conduta, transtorno do déficit de (portadoras de tristeza, desesperança, atenção-hiperatividade (TDAH), distúrbios ausência de prazer...), associando tal de conduta, transtorno do déficit de quadro a pais de má índole, madrastas, atenção-hiperatividade ou esquizofrenia tutores, professores muito rigorosos e apresentavam os critérios de diagnóstico severos, ou omissos e indulgentes, numa do DSM-III para mania. No início dos anos tentativa de explicação psicogenética. 90, passa a se utilizar escalas de avalia- Em 1845, Esquirol descreve algumas ção para transtorno bipolar em crianças crianças com quadro maniforme, mas e adolescentes, visando maior acurácia Kraepelin (famoso por haver identificado diagnóstica. e descrito as diferenças entre a psico- O transtorno maníaco na criança é se maníaco-depressiva e a demência um quadro grave, que afeta seu rela- precoce, posteriormente batizada de cionamento familiar e sua performance “esquizofrenia”, com base em sua evo- escolar. Seu diagnóstico obrigatoriamen- lução natural) considerava muita rara a te exclui o de esquizofrenia, transtorno mania em idades precoces, observando esquizofreniforme, transtorno delirante ou ainda que cerca de 0,5% dos pacientes transtorno psicótico sem outra especifi- adultos haviam tido um primeiro episódio cação, assim como não pode ser firmado na infância. Bleuler também descreve durante o uso associado de drogas psico- observações infantis. ativas. Esses episódios maníacos podem Com a progressiva mudança concei- ser classificados em leves, moderados ou tual e de critérios de diagnóstico, surge graves, devendo-se especificar presença uma visão menos restritiva, com a ob- ou ausência de sintomas psicóticos. servação de que muitos adolescentes e Já a hipomania se caracteriza pela adultos jovens (até então diagnosticados presença de uma elevação discreta como esquizofrênicos) eram portadores (mas persistente) do humor, da energia de transtornos afetivos. Entretanto, a e da atividade, associada (em geral) a dificuldade diagnóstica constituía-se em um sentimento intenso de bem-estar e fator de importância, em função das di- de eficácia física e psíquica. Aumenta o SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 ficuldades observadas (principalmente) nível de sociabilidade, a produção verbal, na avaliação das crianças mais jovens. a desinibição social e a libido, muitas Desta forma, Weinberg (baseado vezes associada a mesma redução da nos critérios de Feighner) elabora uma necessidade de sono. Não são sintomas, adaptação do diagnóstico para crianças contudo, graves a ponto de deteriorar o e adolescentes, dada a necessidade de desempenho profissional ou desencadear se criar critérios e escalas adequadas, rejeição por parte do grupo social (fato voltadas ao diagnóstico dos transtornos que dificulta o engajamento do paciente bipolares nesta faixa etária, adaptadas em tratamento, já que ele se considera aos diferentes níveis de amadurecimen- “muito bem, não há nada de errado co- to. A partir deste modelo, vários autores migo”). A euforia e a sociabilidade são observaram que 50% das crianças diag- por vezes substituídas por irritabilidade 4 nosticadas como portadoras de distúr- constante, atitude altiva e pretensiosa
  • 7.
    ou comportamento rude.As perturbações as manias unipolares (nunca episódios de humor e de comportamento não se en- depressivos, só fases de mania). Tal clas- contram acompanhadas de alucinações, sificação tem sua importância em função ou de ideias delirantes. da caracterização do risco associado de Desta forma, podemos ainda encon- um episódio depressivo ou hipomaníaco trar: ser apenas o prenúncio de uma fase • transtorno bipolar, episódio misto, maníaca franca, por vezes psicótica, com numa mistura de sintomas de mania todos os danos e riscos associados a e depressão, constatando-se presença este tipo de quadro. de depressão ao menos por um dia, Alguns fatores importantes encon- alternado rapidamente com mania; tram-se associados ao transtorno bipolar. • transtorno bipolar, tipo depressivo, São eles: predomínio no sexo masculino; onde o episódio atual é de natureza em meninos de 10 anos ou mais; história depressiva (havendo relato de um ou familiar de transtorno bipolar; alto grau mais episódios anteriores de mania); de insatisfação conjugal entre os pais; • ciclotimia, onde observamos inúmeros episódios estressantes (que podem ser episódios de hipomania que ocorrem os fatores desencadeantes do episódio em períodos de, ao menos, um ano, maníaco, embora muitas vezes não se podendo se encontrar associados vá- consiga estabelecer uma relação direta rios episódios de humor deprimido ou entre os eventos). perda de interesse ou prazer, que não Em crianças e adolescentes, seu reúnem todos os critérios de diagnósti- diagnóstico é difícil, com inúmeras razões co para um episódio depressivo franco para que esses pacientes sejam mal diag- ao longo do mesmo período de tempo; nosticados, como por exemplo: • transtorno bipolar sem outra especi- • episódios de depressão e/ou hipo- ficação (ou SOE), com características mania leves sendo confundidos com maníacas ou hipomaníacas, que não transtornos de ajustamento (quadro satisfazem os critérios para qualquer comportamental associado a adapta- outro transtorno bipolar específico. ção a situações psicossociais críticas, como doenças, internações, separa- SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 Outra classificação (não oficial) uti- ção conjugal, mudança de local de liza os conceitos de bipolar I e II (sendo moradia ou estilo de vida, etc.); a última caracterizada por apenas hipo- • episódios precoces de transtornos mania e depressão), e o termo bipolar de humor sendo confundidos com an- III, que é utilizado para descrever aquilo siedade de separação, fobia escolar, que o DSM-III chamava de ciclotimia, ou anorexia ou transtornos de conduta, bipolar IV (quando mania ou hipomania incluindo o TDAH; são precipitadas por medicações antide- • episódios graves confundidos com pressivas). Bipolar V descreveria aqueles esquizofrenia (em função de sin- indivíduos que tem somente um único epi- tomatologia), na forma de fuga de sódio depressivo (com história familiar de ideias, pensamento incoerente, bem transtorno bipolar), e bipolar VI identifica como ideias de conteúdo paranóide, 5
  • 8.
    irritabilidade, alucinações edelírios radouro, e o seguimento dessas crianças (secundários ao humor). não revela uma evolução na direção do transtorno bipolar, pelo menos não na Apesar dos achados variarem para forma clássica ou bipolar não complicada, os diversos estudiosos do tema, algu- o que muitas vezes leva a mais confusão mas características tem sido sistema- no processo diagnóstico. ticamente apresentadas como distintas Nunca é demais lembrar que (da na fenomenologia e curso do transtorno mesma maneira que com relação à sinto- bipolar pediátrico: matologia depressiva) algumas condições (1) humor expansivo ou elevado; clínicas (como o hipertireoidismo, por (2) irritabilidade proeminente; exemplo) e o uso de algumas medicações (3) episódios prolongados caracterizados (entre elas os antidepressivos, os estimu- por períodos de sintomatologia sutil; lantes e os esteroides) pode desencadear (4) sintomas depressivos entremeados sintomas assemelhados ao quadro ma- por sintomas maníacos (ou hipoma- níaco em indivíduos suscetíveis, quadros níacos); estes muitas vezes indistinguíveis de (5) alta prevalência das chamadas “co- uma fase maníaca (ou hipomaníaca) de morbidades”, especialmente TDAH, origem endógena. Apenas uma anamnese outros transtornos de conduta e trans- apurada (associada ao exame clínico e tornos ansiosos; psíquico detalhado) pode prevenir tais (6) elevadas taxas de transtornos por uso incorreções diagnósticas. de substâncias psicoativas (entre os Em crianças (pré-púberes), a clássica adolescentes mais velhos); mania-depressão é rara, apesar de ainda (7) grande prevalência de sintomas psi- não ser claro quão rara é. Por outro lado, cóticos e tentativas de suicídio (com sintomas maníacos e graves instabilida- prejuízo funcional significativo). des das emoções são bem mais comuns e tem causado grande preocupação. Este Devido à semelhança entre os sinto- grupo específico é heterogêneo, com mas da hipomania e do TDAH (como as sintomatologia maníaca surgindo após SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 queixas parentais de um falar excessivo o início de outras condições clínicas, e de ansiedade), esses pacientes podem neurológicas e psiquiátricas, ou que apresentar também um embotamento reagem com sintomas maníacos ao uso cognitivo, um prejuízo da concentração, de drogas (ilícitas ou prescritas), além agitação, logorréia, impulsividade e das que apresentam atraso ou prejuízo anedonia (perda do prazer associado no desenvolvimento da regulação das a atividades previamente prazerosas), emoções. além da dificuldade das crianças com Em crianças, poucos são os estudos TDAH de obter satisfação contínua em prospectivos de transtorno bipolar, embo- atividades que mantêm o interesse das ra se acredite que possam se apresentar crianças normais. Há que se destacar que como transtornos comportamentais crô- a criança com TDAH tem humor irritável. nicos (com hostilidade, agressividade e 6 No entanto, este último é um quadro du- distratibilidade). Os estudos já realizados
  • 9.
    sugerem que ostranstornos afetivos 100.000 em 2003. Levantamento realiza- tendem a ser familiares. A biologia mo- do pelo National Institute for Mental Heal- lecular tem sido usada para determinar th identificou uma duplicação do número se as formas mais graves de transtornos de crianças e adolescentes atendidos por afetivos bipolares estão ligadas (ou não) transtorno bipolar em diversos países, a marcadores genéticos, tais como a sendo que este aumento chega a 40 ve- ligação dos transtornos afetivos com o zes (em algumas localidades dos EUA)! cromossomo 11. Sabe-se, no entanto, É possível se tratar de um exagero este que o aparecimento precoce da depres- boom diagnóstico da última década, o que são está associado com o aumento da sugere um despreparo dos psiquiatras em carga genética familiar. campo, que não se mostram capacitados De modo geral, os transtornos afe- a identificar corretamente sintomas e tivos são caracterizados por um déficit sinais do transtorno bipolar nesta faixa (no caso da depressão) ou excesso (no etária, o que pode estar levando a que caso da mania) de um ou mais neuro- se atribua este rótulo a todo e qualquer transmissores ou por seu desequilíbrio. caso de difícil caracterização diagnóstica Duas hipóteses foram formuladas em ou que se mostre refratário às opções relação à fisiopatologia dos transtornos terapêuticas. afetivos. A primeira é centrada nas cate- Estudos retrospectivos e longitudi- colaminas (como a noradrenalina), e a nais de evolução natural relatam que 40 outra, na indolamina 5-hidroxitriptamina a 100% das crianças e adolescentes com (ou serotonina). A hipótese da cateco- transtorno bipolar se recuperam em um lamina propôs que alguns quadros de período de um a dois anos, mas 60 a 70% depressão são associados à deficiência apresentarão recorrência do quadro (em de catecolaminas em importantes sítios média 10 a 12 meses após). do cérebro, e que a mania é causada por Por definição, os transtornos de um excesso de catecolaminas. Acredita- humor são um complexo clínico mul- -se que o déficit de serotonina poderia tifatorial. Assim sua terapêutica deve explicar melhor tais quadros, mas um ser orientada. No caso do transtorno simples déficit da serotonina não poderia, bipolar, esse tratamento tem sido SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 por si só, ocorrer por conta de todos os menos abordado, com a maioria das resultados encontrados. Por outro lado, indicações terapêuticas extrapoladas poucos estudos biológicos das medidas das obtidas junto a população adulta. de serotonina podem ser interpretados Desta maneira, as abordagens psi- como consistentes, como o aumento ou cofarmacológicas são privilegiadas diminuição da atividade desse sistema. (apesar de frequentemente instituídas Até 1994, não eram muitos os a partir dos resultados de estudos médicos que consideravam a entidade abertos e relatos de caso). Exceção bipolar em crianças. De uma incidência seja feita à eficácia e segurança do de 25 diagnósticos precoces para cada uso de lítio em adolescentes, assim 100.000 crianças, os dados saltaram como do uso de divalproato extended para 1.003 diagnósticos para cada release (a formulação de liberação 7
  • 10.
    prolongada). Ainda hápoucos dados (ainda que não haja informação suficiente quanto à eficácia e segurança de ou- neste sentido). tros agentes antiepiléticos utilizados “(...) Deus não é compatível com as como estabilizador do humor para máquinas, a medicina científica e a feli- o tratamento da mania bipolar em cidade universal. Deve-se optar. Nossa jovens. civilização escolheu a máquina, a medi- Estudos em populações infantis não cina e a felicidade. Eis porque é preciso obedecem aos mesmos modelos da- guardar esses livros trancados no cofre. queles do adulto, justificando a cautela Eles são indecentes (Huxley, 1972).” em seu uso, monitoração laboratorial e Diante do exposto, é evidente que o ajuste da dose baseado na resposta ainda há um longo caminho a ser trilha- clínica, com a remissão dos sintomas do na pesquisa e desenvolvimento de maníacos e psicóticos. Ainda se fazem esquemas terapêuticos apropriados para necessários estudos prospectivos e os transtornos do humor cujos sintomas controlados avaliando a segurança (de se iniciam na infância, visto que a mera longo prazo) e a eficácia das medicações utilização de esquemas consagrados psicotrópicas, assim como o tratamento como eficazes entre pacientes adultos das condições comórbidas na infância e não surtem o efeito esperado em crianças na adolescência. e adolescentes. Acredita-se que isto ocor- De acordo com as diretrizes de con- ra por particularidades de uma condição senso da Child and Adolescent Bipolar clínica deflagrada tão precocemente no Foundation (CABF), a monoterapia com curso da vida, ou por particularidades dos estabilizadores do humor tradicionais ou mecanismos de metabolização e ação antipsicóticos atípicos deve ser a primeira terapêutica em organismos ainda em escolha no tratamento de transtorno bipo- desenvolvimento, hipóteses que devem lar tipo I (maníaco ou misto) na ausência ser mais esmiuçadas. Questões éticas, de psicose associada. A associação de metodológicas e epidemiológicas tornam um segundo estabilizador do humor ou esta busca ainda mais complexa, com antipsicótico atípico deve suceder uma repercussões sobre as possibilidades de SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 resposta parcial à monoterapia, assim oferecer aos nossos jovens uma melhor como para casos com presença de sinto- resolução e evolução. Cabe, portanto, mas psicóticos. O CABF não estabeleceu dedicar a maior atenção e empenho ao nenhum algoritmo de tratamento para a estudo deste tema para não lhes negar depressão bipolar, uma vez que não há um desenvolvimento satisfatório, face às dados suficientes para embasar tal con- consequências que a depressão ou trans- senso na faixa etária pediátrica. As dire- torno bipolar mal conduzidos na infância trizes da CABF e da American Academy of podem acarretar. Child and Adolescent Psychiatry (AACAP) Em suma, os transtornos do humor preconizam a terapêutica de manutenção na infância e adolescência não são raros, com a persistência das drogas e doses mas extremamente importantes, não so- utilizadas quando da estabilização do mente pela orientação terapêutica, como 8 quadro por um período de 12 a 24 meses também pelo diagnóstico diferencial e
  • 11.
    consequente prognóstico. Aabordagem pertinente). Para a prevenção de riscos psicofarmacológica é de fundamental de suicídio, é preciso avaliar a real se- importância, ainda que coadjuvada por gurança de sua permanência em casa outras formas de abordagem (psicoterá- nestas situações. picas, familiares e sociais), visando-se a melhor solução para o problema. Referências bibliográficas: O manejo da criança deve ser o mais precoce possível, com avaliação e defini- 1. HUXLEY, A. Admirável mundo novo. São ção do tipo de tratamento. Deve-se fazer Paulo: Edibolso, 1972. a avaliação da sintomatologia depressiva 2. KUCZYNSKI, E.; ASSUMPÇÃO JR, F.B. e as possíveis associações: diagnóstico, Depressão Infantil. Síndromes, p.9-11, jan/fev 2012. falhas na educação, prejuízo no funciona- mento/psicossocial, transtornos psiqui- átricos, histórico de maus tratos. Se a bibliografia recomendada: depressão for leve, realizam-se encontros 3. FU-I, BOARATI, MAIA e colaboradores regulares, com discussões envolvendo a (2012). Transtornos afetivos na infância e criança/adolescente e seus pais, dando adolescência: diagnóstico e tratamento. suporte para aliviar o estresse e melhorar Porto Alegre: Artmed (376p.) o humor. Se a depressão for de maior gravidade, deve-se indicar um tratamen- to mais direcionado (sob internação, se SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 Francisco b. Assumpção Jr., Evelyn Kuczynski, Pediatra. Psiquiatra da Infância e da Psiquiatra da Infância e da Adolescência. Livre Docente Adolescência. Doutora pela em Psiquiatria pela Faculdade FMUSP Pesquisadora volun- . de Medicina da Universidade tária do Projeto Distúrbios do de São Paulo. Mestre e Doutor Desenvolvimento do Depar- em Psicologia pela Pontifícia tamento de Psicologia Clínica Universidade Católica de São Paulo. Professor Associa- do IP-USP do do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Membro da Academia Paulista de Psicologia (cadeira 16). 9
  • 12.
    E n TR E v I S TA Transtorno Bipolar e Depressão Dr. miguEl angElo Boarati* Jornalista rEsponsávEl: lEanDra migotto cErtEza** 1- Os transtornos de humor ou afetivos, sem outras especificações. A mania é uma como a o bipolar e a depressão são alte- das fases ou pólos do transtorno bipolar e rações de energia, ânimo, jeito de pensar, só ocorre nesta doença, não surgindo em sentir e se comportar. Quando alguém pessoas com depressão. Ela se caracteriza começa a perceber alguns dos principais por uma felicidade extrema e exagerada sintomas que devem ser observados para (chamada de euforia); grandiosidade, sen- procurar especialistas em busca de um sação de poder e bem estar, aumento de diagnóstico seguro? energia e de pensamentos, menor necessi- dade de sono (alguns pacientes ficam dias A principal dica é o indivíduo perce- sem dormir e não se sentem cansados), ber que está diferente do seu habitual. É hiper-sexualidade, gastos excessivos, normal um dia acordarmos mais triste ou busca intensa por atividades prazerosas e mais feliz, sem motivo especial e sem que de risco e diminuição da crítica. Em casos isso seja uma doença. Já o portador de extremos ocorrem delírios de poder, riqueza algum transtorno do humor (depressão ou ou grandeza (onde o indivíduo pode acredi- transtorno bipolar) apresenta uma mudança tar ser alguém dotado de poderes especiais substancial em suas emoções, pensamen- ou enviado direto de Deus). Um episódio de tos e ações, sem que consiga modificar mania precisa durar pelo menos uma sema- esse estado e com importantes prejuízos na ou menos se o paciente ficar psicótico. em sua vida prática. Em casos mais graves há risco a integridade emocional e física, 3- O que significa a expressão bipolar? Ex- SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 como na tentativa de suicídio. plique porque substitui a expressão usada antigamente ‘maníaco-depressivo’? Quais 2- Qual a classificação dos transtornos de são os principais preconceitos e estigmas humor? O que significa mania? Ela pode que as pessoas com esta doença passam? surgir em pessoas com depressão ou so- mente com transtorno bipolar? Transtorno bipolar significa que a doença tem dois pólos distintos, um de Os transtornos de humor classificam- mania (ou hipomania) e outro depressivo. -se em transtorno unipolar ou simplesmente Há momentos em que o paciente pode depressão (que pode ser classificado em estar nas duas fases simultaneamente leve, moderado ou grave), transtorno bipo- que chamamos de fase mista. O termo lar (tipo I, tipo II e tipo não especificado), “Psicose maníaco-depressiva” caiu em 10 distimia, ciclotimia e transtorno de humor desuso porque nem sempre o paciente
  • 13.
    está psicótico eem algumas situações o 5- Quais as principais causas e sintomas paciente não apresenta mania, apenas hi- da depressão? Existe cura? Ela pode surgir pomania ou fases mistas. Existem muitos em qualquer idade? Explique os ciclos de preconceitos e estigmas que pacientes e aparecimento da doença. familiares enfrentam ainda hoje apesar de se dispor de maior facilidade de acesso a Assim como o transtorno bipolar, a de- informações. Algumas pessoas acreditam pressão (ou depressão unipolar) apresenta que doenças afetivas sejam simples pro- muitos fatores relacionados com sua ocor- blemas emocionais ou religiosos e outras rência, tanto fatores intrínsecos (genética, pessoas menos escrupulosas falam em traços de personalidade, vivências traumáti- problemas de caráter. cas na infância, modelos educacionais, per- fil cognitivo) como extrínsecos (problemas 4- Quais são as principais causas do trans- conjugais, insatisfação no trabalho, falta de torno bipolar? Existe cura ou é necessário perspectiva de vida). Também pode ocorrer realizar tratamentos durante a vida toda? em qualquer idade (da infância a velhice), Ele pode surgir em qualquer idade? Expli- sendo mais comum também no final da que os ciclos de aparecimento da doença. adolescência e vida adulta. Quanto maior vulnerabilidade do individuo e os fatores de É uma doença em que fatores genéti- risco maior é a chance da ocorrência dessa cos estão bem estabelecidos, mas não há doença ser mais precoce. uma causa única. Fatores ambientais, perfil cognitivo e traços de personalidade também 6- Quais as principais diferenças entre de- contribuem para sua gênese. É considera- pressão e transtorno bipolar? As mesmas da uma doença crônica, assim como do características podem surgir em pessoas diabetes, hipertensão e o reumatismo, diagnosticas com as duas doenças? mas existe tratamento que em muitos ca- sos promovem estabilização total onde o A doença depressão não possui a paciente pode levar uma vida normal, com fase de mania, hipomania ou fase mista, algumas restrições (como uso de álcool portanto é também chamada de trans- ou privação de sono). Ela pode surgir em torno unipolar. Normalmente os quadros SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 qualquer idade (desde a fase pré-escolar depressivos no transtorno bipolar são até a terceira idade), sendo mais comum mais graves e pioram com o uso de anti- em adultos jovens, apesar de que muitos depressivos. bipolares que iniciaram com a doença na fase adulta relatam o início dos sintomas 7- O que é mania? Como identificar quando inespecíficos de mudanças do humor no uma pessoa está em estado de mania? final da infância e início da adolescência. Normalmente os casos de início precoce É a fase ou polo do transtorno bipolar (na infância e adolescência) o histórico em que o indivíduo apresenta uma mudança familiar de doenças do humor são mais importante em seu humor basal com euforia significativas. e uma extrema sensação de bem estar. Além da euforia é preciso observar outros 11
  • 14.
    sintomas como irritabilidade,pressão de 10- Como surge o estado misto de sinto- fala (taquilalia), diminuição da necessidade mas de depressão e mania? de sono, aumento de energia, aumento dos pensamentos (quantidade e velocidade), O estado misto é uma das fases do grandiosidade, arrogância, hiperatividade, transtorno bipolar, em que ao mesmo distraibilidade, prejuízo da crítica, gastos tempo o indivíduo apresenta sintomas de excessivos, hipersexualidade e busca por depressão e mania. atividades prazerosas ou de risco. É ne- cessária uma semana de sintomas para se 11- O que acontece se as pessoas com fechar o diagnóstico de mania. depressão e/ou transtorno bipolar não se tratam? 8- O que é hipomania? Como ela surge em pessoas com depressão e/ou transtorno Várias são as complicações dentre bipolar? elas piora progressiva dos sintomas e es- tado crônico dos mesmos. É comum que A hipomania lembra o estado de mania, pessoas que não aceitam o tratamento mas bem mais brando, sem euforia ou sin- comecem a apresentar perdas importantes tomas psicóticos (de grandeza ou poder). A no padrão de vida e de relacionamento, hipomania só ocorre em transtorno bipolar. além de perdas cognitivas que podem ser temporárias ou permanentes a depender 9- Qual a diferença de ter depressão e es- do tempo de evolução da doença e da tar deprimido ou triste? Como identificar gravidade da mesma. sinais que indicam o momento de procurar um médico psiquiatra? 12- Quais os principais tratamentos medi- camentosos para depressão e transtorno A tristeza é um sentimento normal e bipolar? importante. Ficamos tristes quando per- demos algo ou alguém ou quando alguma Para a depressão unipolar utilizam-se coisa não dá certo ou quando estamos os antidepressivos. Hoje em dia existem SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 entediados. Mas isso logo se dissipa e diferentes classes dessas medicações logo conseguimos retomar nossa vida. Na com perfil de resposta clínica e tolerâncias depressão existe uma tristeza mais acen- distintas. Já o transtorno bipolar exige o tuada e permanente, que não melhora com uso de medicações chamadas estabiliza- o apoio da família. Além disso, o individuo doras do humor. A mais importante é o apresenta alterações físicas com piora no lítio, mas também alguns antiepilépticos padrão de sono e de alimentação, cansaço e antipsicóticos de segunda geração. Os e falta de energia, dificuldade de concentra- antidepressivos poderão ser usados na ção, pensamentos negativos e um intenso fase depressiva da doença, mas com o sentimento de culpa e de inutilidade. É cuidado, pois há risco de virada maníaca muito comum o pensamento de morte e (o paciente sair da depressão e ir para a tentativas de suicídio. mania). 12
  • 15.
    13- Qual aimportância de realizar um tra- fortes componentes biológicos na gênese tamento psicológico junto com o uso de de todos os transtornos mentais, inclusive medicamentos? nos transtornos do humor. Além disso, es- tressores psicossociais contribuem para o O tratamento psicoterápico nas dife- desencadeamento, manutenção e piora dos rentes linhas psicológicas (psicanalítica, episódios da doença de humor. junguiana, cognitivo-comportamental, com- portamental) e nas diferentes modalidades 16- Qual a probabilidade de mulheres, ho- (individual, grupo e familiar) é essencial mens ou crianças terem depressão e/ou no sentido de trabalhar conflitos, ajudar transtorno bipolar? o paciente elaborar perdas e desenvolver recursos emocionais e cognitivos para lidar A depressão é mais prevalente em com as demandas da vida e da sua doen- mulheres, mas com aumento significativo ça. Também é essencial a psicoeducação, em homens, girando em torno de 20-30%. onde o paciente e a familiar aprendem so- A prevalência aumenta com a idade. Já o bre a doença e como lidar com as diferentes transtorno bipolar é mais raro, girando em facetas dela. torno de 1 a 2% o tipo I (mania-depressão) e em torno de 4% o tipo II (hipomania e 14- Quais os perigos de tomar bebidas depressão). Mas quando consideramos o alcoólicas ou fazer uso drogas ilícitas espectro bipolar (que incluem pessoas que quando se tem diagnóstico de depressão apresentam alguns sintomas de bipolari- e/ou transtorno bipolar? dade sem preencherem todos os critérios diagnósticos) a prevalência sobe para 8 a Substâncias psicoativas como drogas 10% da população. ilícitas e o álcool pioram a evolução clínica da depressão e transtorno bipolar, além de 17- Qual a importância do apoio da família prejudicarem significativamente a resposta durante o tratamento dessas doenças? E dos medicamentos. qual a importância das associações de por- tadores e familiares para a troca de experi- 15- Quando surgiram os principais casos ências entre as pessoas com as doenças? SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 de depressão e transtorno bipolar na história da medicina? Quais os principais É fundamental o apoio e o engajamen- avanços nos tratamentos de hoje? to da família, porque muitas vezes outros membros podem estar doentes sem saber. Os primeiros relatos bem descritos A família é ponto de apoio, junto com os estão na antiguidade clássica, na Grécia. amigos, para contribuir para a melhor ade- Na época acreditava-se que as pessoas são ao tratamento e ajuda nos momentos fossem regidas por humores que eram em que os sintomas ficam agudos. Grupos líquidos corporais que modulavam as emo- de autoajuda também contribuem bastante ções das pessoas. O desequilíbrio dessas no conhecimento e na quebra dos tabus substâncias produziam as alterações e preconceitos que cercam as doenças emocionais. Hoje sabemos que existem afetivas. 13
  • 16.
    18- Qual amensagem que o senhor deixa tratadas com melhora significativa dos para os leitores da Revista Síndromes so- sintomas e controle das crises. Porém, bre transtorno bipolar e depressão? infelizmente ainda hoje existem poucos serviços públicos destinados ao tratamento Os transtornos do humor são altamen- dessas pessoas, além de desinformações te prevalentes em nossa população e sua e preconceitos que atrapalham a busca de prevalência vem aumentando assim como ajuda precocemente. muitas outras doenças que no passado eram mais raras como a obesidade, hiper- tensão, diabetes e cânceres. É importante entender que depressão e transtorno bipo- lar são doenças que geram um importante sofrimento e prejuízo ao portador, com perda da qualidade de vida e de seu fun- cionamento global. São doenças com alta carga genética, onde fatores ambientais promovem o início mais precoce e mais grave. Também são doenças que são **Leandra migotto certeza é bacharel em Comunicação Social pela Universidade Anhembi Morumbi, jornalista desde 1998, e repórter espe- cial da Revista Síndromes. Foi editora da Revista Sentidos e Ciranda da Inclusão, além de escrever para diversos portais como Setor 3 do SEnAC/ SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 *miguel Angelo boarat, 41 SP Rede SACI/USP e Inclusive. Ela tem deficiência física , anos é Psiquiatra da Infância e (Osteogenesis Inperfecta), é assessora de imprensa da Adolescência, Coordenador do ABSW – Associação Brasileira de Síndrome de Williams, ambulatório do Programa de consultora em inclusão (premiada em Lima e na Co- Transtornos Afetivos (PRATA) lômbia), e mantém o blog “Caleidoscópio – Uma janela do Hospital Dia Infantil (HDI), para refletir sobre a diversidade da vida”: http://leandra- do Serviço de Psiquiatria migottocerteza.blogspot.com/. Conheçam os modelos da Infância e Adolescência (SEPIA), e do Instituto de de palestras, encontros, oficinas, cursos, treinamentos Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas de São Paulo. e materiais informativos sobre Diversidade e Inclusão, Contatos: maboarati@yahoo.com.br e www.psiquiatria- realizados em empresas, escolas, Ongs, centros boarati.com.br culturais e grupos de pessoas no site da Caleidoscópio Livros publicados: www.viversaude.com.br Comunicações – Consultoria em Inclusão: https://sites. google.com/site/leandramigotto/ 14
  • 17.
    D E SE n v O Lv I M E n T O Sobre a noção de tempo mElaniE mEnDoza Psicóloga e Pesquisadora do Projeto complexas, como aprendizagem e pla- Distúrbios do Desenvolvimento da USP, nejamento. No nível mais elementar, o Mestranda em Psicologia Clínica pelo tempo é essencial no processamento de Instituto de Psicologia da Universidade estímulos que alcançam a visão, o tato de São Paulo (IP-USP), Especialista em e a audição, e cada um desses sistemas Terapia Comportamental e Cognitiva pelo sensoriais possui substratos neuronais Hospital Universitário da Universidade de especializados na organização sequencial São Paulo (HU-USP) e Psicóloga do Setor dos eventos percebidos, da frequência de de Psicologia Infantil da Associação de sua ocorrência e de sua duração. Assistência à Criança Deficiente (AACD). A temporalidade faz parte das habili- Em 1992, no Rio de Janeiro, a dades complexas em primatas, especial- canadense Severn Suzuki de 12 anos, mente nos humanos. A capacidade de na introdução de seu discurso para os colocar os eventos em uma linha do tem- líderes mundiais, disse: “Ao vir aqui po possibilita organizar psicologicamente hoje, não preciso disfarçar meu objetivo, o mundo exterior e interior, e nos auxilia estou lutando pelo meu futuro.” Embora no planejamento das ações futuras; por tenha tido poucos resultados práticos, isso a noção de tempo e sequência dos como pudemos acompanhar durante a acontecimentos são intrínsecas a outras Rio+20, suas palavras emocionaram funções altamente elaboradas, como me- líderes e ambientalistas na ocasião e mória e estabelecimento de metas. Como foram relembradas por vários meios outras habilidades, elas sofrem um incre- de comunicação durante a conferência mento durante o desenvolvimento normal SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 neste ano. Deixemos de lado a política da criança, até atingirem um alto grau e a economia e pensemos um pouco na de complexidade na idade adulta, e são espantosa habilidade dos seres humanos passíveis de prejuízos nos transtornos de de viajar no tempo ao se lembrar do que desenvolvimento e perdas nas lesões e foi dito naquela ocasião e da capacidade doenças que acometem o cérebro. de se lançar no futuro, como Severn foi capaz de fazer. Tempo e percepção Frequentemente ignorada nos ex- perimentos científicos, a noção de Diferentemente de outras proprie- tempo é um componente central tanto dades da percepção, como localização, de processos psicológicos da percep- orientação e reconhecimento, por exem- ção, quanto de funções cognitivas mais plo, o componente temporal começou a 15
  • 18.
    ser estudado apenasmais recentemente a noção de tempo organiza sequências por meio do estudo da visão, muito em- de eventos e as interações entre a ação bora se admita que suas propriedades da criança e uma consequência no meio. ocorram em todas as vias sensoriais. Conforme vai sendo ampliada a capaci- Através de modelos animais, da avaliação dade de manter a atenção por períodos de pacientes com lesões e de estudos maiores, a criança observa sequências com voluntários normais foram encon- mais duradouras e mais complexas de tradas regiões denominadas caminho eventos, construindo teorias, algumas “quando”. Localizado no lobo parietal implícitas e não formais, acerca do mun- direito do cérebro, o caminho “quan- do físico e das pessoas. Achados mais do” é formado por uma série de áreas recentes, não contemplados pela teoria funcionais e anatômicas encarregadas de piagetiana, demonstram que, nos primei- processar e analisar intervalos de tempo ros meses, bebês distinguem diferenças mais longos do que aqueles processados melódicas e rítmicas de segmentos por áreas do córtex cerebral responsáveis musicais simples, o que exige, como por uma análise no nível mais elementar sabemos, capacidades relacionadas das informações provenientes do meio à duração e sequência de eventos e, (denominadas áreas corticais primárias) e portanto, intervalos de tempo diferentes mais curtas do que aqueles intervalos de entre dois sons. tempo que exigem julgamento cognitivo A perda dessas habilidades é chama- de nível superior, dos quais falaremos da de agnosia de tempo, e se caracteriza mais adiante. por uma incapacidade adquirida de perce- Esse intervalo de tempo intermediá- ber e reconhecer a ordem cronológica ou, rio abrange a coreografia de eventos em de outra forma, o que aconteceu “antes” andamento, tais como transformações e e o que aconteceu “depois”. Esse quadro deslocamentos de um objeto no campo foi descrito por Critchley em 1953, já re- perceptivo e aparecimento e desapareci- lacionando com lesões de lobo parietal mento de objetos. É fundamental para que direito: “Mais interessante e complicada o indivíduo seja capaz de estabelecer a dessas doenças do processamento espa- SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 natureza e fluxo dos eventos e, portanto, cial são aquelas que também envolvem organizar as informações que chegam atra- a concepção de tempo (...) é preciso dis- vés das vias sensoriais e servirão de base tinguir entre um sentido de tempo primi- para as próximas ações e para a constru- tivo da gnosia da concepção de tempo.” ção de um conhecimento do mundo. Embora esses casos raramente ocorram Durante toda a vida, mas em especial de maneira isolada de outras agnosias, a no período que vai de zero a 24 meses sua ocorrência serve de evidência da exis- aproximadamente, denominado por Pia- tência de áreas cerebrais especializadas. get de estágio sensório-motor, o caminho “quando” desempenha importante função Tempo e memória na aprendizagem baseada na percepção e na interação motora com os objetos e A linha do tempo de nossa vida or- 16 agentes do mundo. Durante este estágio, ganiza a memória e é ela que permite a
  • 19.
    “viagem mental aopassado”. Embora a A noção de tempo nesse tipo de me- memória e aprendizagem já tivessem sido mória está relacionada aos processos de estudadas anteriormente, o conhecimen- aprendizagem de novos procedimentos to de sua organização e de tipos diferen- e fortalecimento ou enfraquecimento de tes de aprendizagem deu um grande salto uma resposta ou respondente. No caso através do estudo do famoso caso H.M. dos procedimentos motores, a noção de pela neuropsicóloga Brenda Mulner. Esse tempo nos informa a sequência de ações paciente, em virtude de uma epilepsia de corretas. Por exemplo, precisamos colo- difícil controle, foi submetido a uma am- car a bicicleta em movimento antes de pla cirurgia, que consistiu da ressecção tirarmos os pés do chão ou precisamos de porções bilaterais do lobo temporal. apertar o botão de canal da TV depois do Como resultado, o paciente adquiriu um botão de ligar. No caso do fortalecimento quadro muito grave de amnésia anterógra- ou enfraquecimento de uma resposta, a da, um déficit altamente incapacitante, noção de tempo é fundamental na dife- pois consiste em uma perda da habilidade renciação entre causa e consequência. de adquirir novas aprendizagens, fazendo Por exemplo, depois que a criança diz com que o individuo fique “vivendo no “mamãe”, a mãe fala com ela. Vale men- momento presente” e, por isso, ele fica cionar que esses dois tipos de processos privado de uma linha do tempo em que os ocorrem ao mesmo tempo, uma vez que eventos vão sendo registrados à medida um ato motor executado adequadamen- que se sucedem. Este caso trágico serviu te tem maior probabilidade de trazer a para, entre outros achados, esclarecer os consequência desejada para aquele que tipos distintos de memória, uma vez que o executou, aumentando a probabilidade alguns tipos de aprendizagem permane- de que ele ocorra novamente no futuro ceram preservados, especialmente as (condicionamento operante). perceptomotoras. O caso H.M. contribui para a desco- • Memória declarativa: este tipo de me- berta de que, de acordo com a natureza mória contém informações adquiridas da informação, as memórias, de maneira de maneira explícita e que somos simplificada, podem ser: conscientes de possuir. Pode ser: SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 a) semântica: está relacionada ao arma- • Memória procedimental: contém infor- zenamento e evocação de informações mações que não temos consciência de fatos e eventos e é independente de possuir, que foi adquirida de im- do contexto em que foi adquirida, por plícita e está relacionada ao caminho exemplo: “O Brasil foi descoberto “quando”, mencionado anteriormente. em 1500 e ficou independente de Fazem parte deste tipo de aprendi- Portugal em 1822.” A memória se- zagem os esquemas motores, como mântica é normalmente associada à dirigir e andar de bicicleta, e os dois aprendizagem acadêmica e à cultura tipos de condicionamento, operante e geral. Costuma ter menos componen- respondente. tes emocionais e, de maneira geral, é fortalecida através de estratégias 17
  • 20.
    de memorização, comorepetição e A noção de tempo na memória auto- associação a outros conteúdos. biográfica está de maneira usual forte- mente relacionada a conteúdos que pos- A linha do tempo, neste caso, está suem coloração afetiva própria; por isso associada à sequência de eventos, de a noção de tempo, embora organizado maneira similar à reta numérica. É co- cronologicamente, nem sempre obedece dificada e decodificada com símbolos a uma divisão objetiva. Ou seja, o “quan- numéricos. do” segue a ordem cronológica, mas nem sempre recuperamos adequadamente o b) episódica: contém informações de “por quanto tempo” sem ajuda de um fatos e eventos particulares de um sistema externo de medição. contexto determinado e permite a Em crianças mais novas ou em qua- codificação de informação relativa a dros que cursam com deficiência inte- associações e eventos de caráter pes- lectual, por exemplo, essas habilidades soal. O sistema de memória declarativa estão prejudicadas e, embora a noção episódica é formado pelo registro dos de causalidade ou sequência de even- eventos contextualizados no tempo e tos possa estar preservada, dificilmente no espaço; podem ser tanto eventos é construída de maneira espontânea de domínio público, como a “queda do uma narrativa de vida. Já, na Doença de muro de Berlim”, ou memórias autobio- Alzheimer, não apenas vai havendo um gráficas, como o “dia de nascimento do agravamento da capacidade de consolidar meu filho”. A noção de tempo nestes novas memórias, mas as lembranças vão tipos de registros é crucial, uma vez sendo apagadas de acordo com a ordem que organizam a história de nosso cronológica, sendo as mais remotas as meio sociocultural e dão a noção de últimas a serem perdidas. identidade para o indivíduo. O estudo do lobo temporal, em espe- cial o hipocampo, também revelou alguns Quando acessamos os dados de aspectos intrigantes do papel adaptativo nossa memória, somos capazes de via- da retenção e recuperação de informa- SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 jar no tempo e construir uma noção de ções: se, em animais como roedores, self. Por causa dessas características, a os processos de memória estão rela- organização cronológica exige habilidades cionados a tarefas de navegação, como cognitivas complexas, como o desenvolvi- orientação geográfica em diversas formas mento da linguagem de forma que ele dê de labirinto, nos primatas e, sobretudo subsídios à “narrativa”; por essa razão, em humanos, destacam-se memórias re- ela só começa a ocorrer de maneira mais lacionadas a conteúdos autobiográficos. consistente após os três anos de idade, Essa discrepância pode ser resolvida se quando as crianças começam a ser capa- considerarmos que a especialização do zes de construir uma “narrativa pessoal”, hipocampo para navegação espacial no situando e sendo capaz de comunicar os ambiente animal pode ter sido adaptada eventos não apenas em um “onde”, mas em primatas em um espaço interno, 18 também em um “quando”. virtual, mental, nos dando uma pista da
  • 21.
    importância evolutiva relacionadanão anos, estava justamente nessa etapa do apenas aos conteúdos armazenados, desenvolvimento. mas também à organização cronológica Essas habilidades só são possíveis para nossa espécie. porque já estão desenvolvidas noções claras de tempo cronológico de maior Tempo e planejamento duração e o intervalo necessário para execução de tarefas complexas, além Quanto mais complexa a tarefa, mais da capacidade de manter-se concentra- interligados estão os processos cogniti- do em atividades cujas consequências vos. Como vimos anteriormente, a noção desejadas não são mais imediatas. Na de tempo está relacionada a todos os idade adulta somos capazes de tomar processos de aprendizagem, da infância à decisões e executar ações cujo benefício vida adulta. No entanto, essa “viagem no só poderá ser percebido até mesmo déca- tempo” não se restringe a uma “viagem ao das adiante, como deixar de fumar, fazer passado”, mas nossa espécie é capaz de exames de rotina, contratar um plano de realizar também uma “viagem ao futuro”. previdência, para citar alguns exemplos Concomitantemente ao desenvolvimento apenas no nível individual. das habilidades de planejamento e opera- Pais de crianças pequenas frequen- ções concretas e abstratas, ocorre um in- temente queixam-se de que os filhos são cremento da capacidade de compreender “muito ansiosos” em relação a coisas e utilizar o tempo, que neuroanatomica- que estão para acontecer, mesmo aque- mente está relacionada principalmente ao les que possuem fortes características desenvolvimento do córtex pré-frontal, que positivas. Isso se deve, em parte, a uma tem a fase final de seu desenvolvimento percepção de que a “ida ao parque”, por na adolescência, correlato ao período pia- exemplo, pode ocorrer a “qualquer mo- getiano denominado operacional formal, mento”, pois nessa etapa do desenvolvi- caracterizado pela emergência do racio- mento o tempo que deve decorrer “até sá- cínio lógico abstrato, que é a capacidade bado” não é plenamente compreendido, de estabelecer relações sobre fenômenos assim como “daqui a uma hora”. Assim imaginados. como ocorre em relação à memória SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 Ao longo da adolescência vamos autobiográfica, nos transtornos que in- sendo capazes de nos lançar ao futuro, terferem no desenvolvimento cognitivo de maneira cada vez mais sistemática, das crianças, a noção de tempo futuro percorrendo mentalmente as possibilida- também é prejudicada. No Transtorno de des de caminhos em direção a metas e Déficit de Atenção e Hiperatividade, por consequências de longo prazo, até que, exemplo, em que está preservado o nível ao final desse período, somos capazes intelectual, é descrita uma inabilidade de de iniciar ações cujos resultados podem planejar não apenas todos os passos de estar anos adiante. É nessa faixa etária execução de uma tarefa, mas também que pensamos em carreiras ou na socie- o tempo necessário para executá-la; por dade em que desejamos viver: Severn, causa disso, alguns autores descrevem citada no início deste artigo, aos 12 uma “cegueira para tempo” no TDAH. 19
  • 22.
    considerações Finais são indicadores da alta complexidade dos processos mentais dos quais uma noção O avanço do conhecimento acerca de tempo faz parte. do cérebro e dos processos mentais, subsidiado pelas ciências cognitivas, Referências bibliográficas: tem permitido maiores esclarecimentos sobre a noção de tempo, muito embora, 1. Battelli, L., Walsh, V., Pascual-Leone, em relação a outras habilidades percep- A., & Cavanagh, P. (2008). The “when” parietal pathway explored by lesion tivas, seus dados sejam escassos. Intrin- studies. Current opinion in neurobiology, secamente relacionada aos processos 18(2), 120-6. doi:10.1016/j. de aprendizagem e memória, a noção conb.2008.08.004 de tempo nos fornece o fio condutor de 2. Cammarota, M., Bevilaqua, L. R., & nossa história e, portanto, é fundamental Izquierdo, I. (2008). Aprendizado e na construção de um “eu” com passado Memória. In: R. Lent, Nerociência da e futuro. A percepção cognitiva de tempo Mente e do Comportamento (pp. 241- decorrido nos permite estabelecer rela- 252). Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. ções de causalidade entre o que somos 3. Kandel, E. R. (2009) Em busca da hoje, o que nos aconteceu no passado e memória: em busca de uma nova ciência o que seremos no futuro, tanto no nível da mente. São Paulo: Companhia da individual, quanto em termos de grupo Letras familiar, social ou como espécie. 4. Martí,E. (2004). Processos Cognitivos Básicos e Desenvolvimento Intelectual As diferenças no processamento da entre seis anos e adolescência. In: memória entre a nossa e as outras es- C. Coll, A. Marchesi, & J. Palácios, pécies nos dá pistas sobre a importância Psicologia Evolutiva (Vol. I Psicologia evolutiva da “viagem no tempo” para Evolutiva, pp. 142-159). Porto Alegre: os humanos. A recuperação de dados Artmed. que podem ser utilizados como fonte 5. Rodrigo, M. J. (2004). Desenvolvimento de conhecimento no tempo atual para Intelectual e Processos Cognitivos entre alcançar metas futuras, inclusive para o dois e seis anos. In: C. Coll, A. Marchesi, SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 tempo além de nossa própria existência, & J. Palácios, Psicologia Evolutiva (Vol. I tal como preocupações com o mundo que Psicologia Evolutiva, pp. 142-159). Porto deixaremos para nossos descendentes, Alegre: Artmed. 20
  • 23.
    R E AB I L I TA ç ã O Escola especial: conceitos e reflexões Dra. alEssanDra FrEitas russo christinE luisE DEgEn No século passado, o médico inglês Média, o que também era uma forma de Jonh Longdon Down descreveu alguns exclusão, ou na Idade Moderna, em que o sinais físicos semelhantes num grupo Humanismo, ao exaltar o valor do homem, distinto de pessoas. Quanto ao comporta- tinha uma visão patológica da pessoa mento dessas pessoas, o médico inglês que apresentava deficiência, observamos as qualificou como amistosas, amáveis, que o deficiente independente das diver- mas improdutivas e incapazes para viver sas formações sociais, sempre esteve socialmente. Essa foi a primeira descri- à margem da sociedade. A forma como ção da síndrome de Down, a forma mais se lida com a pessoa que apresentava comum de deficiência intelectual causada deficiência reflete a estrutura econômica, por uma alteração genética. social e política do momento. De lá para cá, muito se evoluiu na O deficiente por muitos séculos foi forma de pensar e entender os indivíduos tido como “problema” e segregado ao com deficiência. Muito se aprendeu so- convívio social escasso e a ausência de bre a capacidade de adaptação dessas oportunidades tanto acadêmicas quanto crianças que hoje são produtivas e podem sociais. não só viver na sociedade como serem A história da educação especial co- produtivas e capazes de uma vida plena meça a ser traçada no século XVI, com e feliz. médicos e pedagogos que, desafiando os Longe de propor soluções ou ditar conceitos vigentes na época, acreditaram qualquer regra ou verdade absoluta, este nas possibilidades de indivíduos até en- texto tem como objetivo fazer uma breve tão considerados ineducáveis. Centrados SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 revisão histórica da educação especial e no aspecto pedagógico, numa sociedade posteriormente da inclusão escolar, para em que a educação formal era direito de ao final levar o leitor a uma reflexão sobre poucos, esses precursores desenvolve- os caminhos para a educação no país de ram seus trabalhos em bases empíricas, forma geral e mais especificamente, das muitas das vezes, sendo eles próprios os pessoas com necessidades especiais. professores de seus pacientes. Entretanto, apesar de algumas es- Histórico cassas experiências inovadoras desde o século XVI, o cuidado foi meramente Desde a Antiguidade, com a elimi- assistencial, sem qualquer preocupação nação física ou o abandono, passando em preparar o deficiente para ser inde- pela prática assistencialista da Idade pendente ou adaptado. 21
  • 24.
    A institucionalização emasilos e auditivas e, em menor quantidade, às manicômios foi a principal resposta so- deficiências físicas. Podemos dizer que cial para tratamento dos considerados em relação à deficiência mental houve um diferentes. Foi uma fase de segregação, silêncio quase absoluto por muito tempo. justificada pela crença de que a pessoa Em 1967, a Sociedade Pestalozzi do diferente seria mais bem cuidada e prote- Brasil, criada em 1945, já contava com gida se confinada em ambiente separado. 16 instituições por todo o país. Criada em Essa proposta tinha ainda, outro objetivo, 1954, a Associação de Pais e Amigos dos que era também proteger a sociedade dos Excepcionais já contava também com 16 “anormais”. instituições em 1962. Nessa época, foi Durante a maior parte da História criada a Federação Nacional das APAES da Humanidade, o deficiente foi vítima (FENAPAES) que, em 1963, realizou seu de segregação, pois a ênfase era na primeiro congresso. sua incapacidade, na anormalidade. Na década de 70 surgiu o movimento da Inte- Educação Especial gração, com o conceito de normalização, expressando que ao deficiente devem ser O Brasil é considerado um dos piores dadas condições as mais semelhantes às países do mundo em investimentos na oferecidas na sociedade em que ele vive. área da educação. Em relação à educação Inserir o deficiente nos vários aspectos de especial essa realidade não é diferente. seu grupo e não só na escola, passou a Entretanto, apesar do pouco investimento ser um novo modelo de olhar a educação e do descaso político, a educação espe- destes indivíduos. cial foi ganhando seu espaço de forma Vários pesquisadores já evidencia- lenta, por meio da criação de inúmeras ram que descrever a história da Educação instituições, geralmente filantrópicas e Especial para deficientes mentais no Bra- nascidas a partir de movimentos da pró- sil não é uma tarefa simples (FERREIRA, pria sociedade. 1989; MENDES, 1995), uma vez que Essas instituições eram de caráter não encontramos na literatura disponível assistencialista e cumpriam apenas sua SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 estudos sistematizados sobre o assunto. função de cuidado aos deficientes. A história da Educação Especial no Por educação especial entende-se o Brasil tem como marcos fundamental a atendimento educacional de pessoas com criação do “Instituto dos Meninos Cegos” necessidades especiais, isto é, daqueles (hoje “Instituto Benjamin Constant”) em que apresentam deficiências mentais, 1854, e do “Instituto dos Surdos-Mudos” físicas, sensoriais, múltiplas deficiências (hoje, “Instituto Nacional de Educação e os superdotados. Embora a pessoa de Surdos – INES”) em 1857, ambos na com necessidades especiais deva ser cidade do Rio de Janeiro, por iniciativa do vista primeiramente como PESSOA, ele governo Imperial. é também uma pessoa diferente. Assim, a Educação Especial se carac- Sendo assim, o desenvolvimento terizou por ações isoladas e o atendimen- harmonioso do educando sob o aspecto 22 to se referiu mais às deficiências visuais, individual, individual-social e predominan-
  • 25.
    temente social éo que se pretende atingir A partir da década de 90 as dis- no processo educativo. A auto-realização, cussões referentes à educação das a qualificação para o trabalho, o exercício pessoas com necessidades especiais consciente da cidadania são decorrências começaram a adquirir alguma consis- de uma ação educativa eficaz e eficiente, tência, face às políticas anteriores. A seja ela dirigida a indivíduos portadores nova LDB 9.394/96 em seu capítulo V de necessidades especiais ou não. coloca que a educação das pessoas com As diferenças entre a Educação necessidades especiais devem se dar de Especial e a Educação comum não se preferência na rede regular de ensino, o encontram nos aspectos filosóficos, mas que traz uma nova concepção na forma sim nas estratégias de ação que lhe são de entender a educação e integração próprias e múltiplas. dessas pessoas. A Educação Especial é definida como Pesquisas têm confirmado que a a modalidade de ensino que se caracteri- inclusão escolar vem se efetivando de for- za por um conjunto de recursos e serviços ma inadequada, longe do ideal, revelando educacionais especiais organizados para o pouco interesse e investimento neste apoiar, suplementar e, em alguns casos, processo. Com isto pode se dizer que substituir os serviços comuns, de modo não se deve simplificar o processo, ou a garantir a educação formal dos edu- seja, achar que incluir signifique apenas candos que apresentam necessidades mudar o aluno de endereço, ou seja, sair educacionais muito diferentes das da da escola especial ou classe especial e ir maioria das crianças e jovens. A defesa para a classe comum do ensino regular. da cidadania e do direito à educação das São muitos os fatores envolvidos, os pessoas com necessidades especiais é quais sem dúvida estão sendo desconsi- atitude muito recente em nossa socie- derados ao se efetivar a inclusão escolar. dade. As crianças são consideradas educa- Assim, a educação especial foi cons- cionalmente “especiais” somente quando tituindo-se como um sistema paralelo ao suas necessidades exigem a alteração do sistema educacional geral, até que, por programa, ou seja, quando os desvios de motivos morais, lógicos, científicos, polí- seu desenvolvimento atingem um tipo em SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 ticos, econômicos e legais, surgiram as um grau que requerem providências pe- bases para uma proposta de unificação. dagógicas desnecessárias para a maioria Em meados da década de 90, no das crianças. Brasil, observando movimentos em outras O discurso acerca da inclusão de partes do mundo, já mais avançados, pessoas com deficiência na escola, no começaram as discussões em torno do trabalho e nos espaços sociais em geral, novo modelo de atendimento escolar tem-se propagado rapidamente entre edu- denominado Inclusão Escolar. Esse cadores, familiares, líderes e dirigentes novo paradigma surge como uma reação políticos, nas entidades, nos meios de contrária ao processo de segregação, e comunicação. Isto não quer dizer que a sua efetivação prática tem gerado muitas inserção de todos nos diversos setores controvérsias e discussões. da sociedade seja prática corrente ou 23
  • 26.
    uma realidade jádada. Ou que possa dens sérias na comunicação) pode ser ser olhado como um processo simples mais restritiva e segregadora a sala de e natural. Esse olhar equivocado sobre aula comum do que um tipo de colocação a inclusão do deficiente pode gerar mais protegida e estruturada; consequencias para o deficiente e suas c) nem todos os professores e educa- familias, expondo-os a uma realidade de dores do ensino regular estão dispostos exposição e discriminação sem o ade- a, ou mesmo são capazes de lidar com quado suporte. todos os tipos de alunos com dificuldades As políticas públicas de atenção a especiais, principalmente com os casos este segmento, geralmente, estão cir- de menor incidência – mas de maior gra- cunscritas ao tripé educação, saúde e vidade – que exigem recursos técnicos e assistência social, sendo que os demais serviços diferenciados de apoio; aspectos costumam ser negligenciados. d) a afirmação de que as pessoas Para a educação, o sujeito com defici- deficientes compõem um grupo minori- ência é um “aluno especial”, cujas neces- tário em luta pelos seus direitos civis, sidades específicas demandam recursos, como qualquer outra minoria oprimida equipamentos e níveis de especialização e segregada, é um argumento falacioso definidos de acordo com a condição física, para sustentar a defesa da “inclusão sensorial ou mental. O que se observa são total”, porque, além de grupo minori- ações isoladas e simbólicas ao lado de um tário, eles têm dificuldades centradas conjunto de leis, projetos e iniciativas insi- nos seus mecanismos de aprendizagem pientes e desarticuladas entre as diversas e precisam de respostas educacionais instâncias do poder público. Em todos os diferenciadas, nem sempre disponíveis casos, percebemos uma concepção de um na classe comum; processo, incompleto sem a necessária e) um dos principais direitos de qual- incorporação das múltiplas dimensões da quer minoria é o seu direito de escolha, vida humana. Observamos famílias ame- sendo que os pais ou tutores desses drontadas frente à exposição de seus filhos alunos devem ter liberdade para escolher a uma realidade inóspita sem a preparação o que acham melhor para os seus filhos; SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 física e profissional para recebê-los. f) desconsiderar a evidência empírica Hallahan e Kauffman (1994) apontam de que há eficácia em alguns tipos de res- que a proposta de “inclusão total” ainda posta mais protegida, para alguns tipos hoje sofre considerável resistência, com de alunos com dificuldades especiais na base nos seguintes argumentos: escola, seria uma atitude profissional- a) há muitos pais, professores (tanto mente irresponsável e antiética; do ensino regular quanto do especial), g) na ausência de dados que supor- especialistas e os próprios educandos, tem a vantagem do modelo, os educado- que estão satisfeitos com os serviços res e políticos deveriam preservar o con- baseados no continuum; tínuo de serviços, para que, em qualquer b) para alguns tipos de dificuldade momento, seja salvaguardada a escolha (como as deficiências graves, os graves daquele que se mostrar menos restritivo 24 problemas comportamentais ou as desor- para as circunstâncias.
  • 27.
    Enfim, sob abandeira da inclusão de acesso à escola comum, não define são encontradas, na atualidade, práti- obrigatoriedade e até admite a possibili- cas bastante distintas, o que garante dade de escolarização que não seja na um consenso apenas aparente e aco- escola regular. moda diferentes posições que podem Em resumo, ao longo dos últimos ser extremamente divergentes. Uma trinta anos, tem-se assistido a um grande tomada de posição consciente dentro debate acerca das vantagens e desvan- desse conjunto de possibilidades deve tagens da inclusão escolar. A questão começar pelo entendimento que se tem sobre qual é a melhor forma de educar acerca do princípio da inclusão escolar, crianças e jovens com necessidades edu- lembrando que o termo assume atual- cacionais especiais não tem resposta ou mente o significado que quem o utiliza receita pronta. deseja. Na atualidade, as propostas variam Estima-se que existam no país cerca desde a ideia da inclusão total – posição de seis milhões de crianças e jovens com que defende que todos os alunos devem necessidades educacionais especiais ser educados apenas e só na classe para um contingente oficial de matrícu- da escola regular – até a ideia de que a las em torno de 500 mil alunos (Brasil, diversidade de características implica a 2003), considerando o conjunto de ma- existência e manutenção de um contínuo trículas em todos os tipos de recursos de serviços e de uma diversidade de disponíveis (desde escolas especiais opções. até escolas e classes comuns). Portan- É importante que as pessoas ligadas to, a grande maioria dos alunos com ao deficiente, sejam familiares, equipe de necessidades educacionais especiais saúde ou educação estejam atentos às encontra-se hoje fora de qualquer tipo necessidades do deficiente e independen- de escola, o que configura muito mais te das discussões teóricas e filosóficas, uma exclusão generalizada da escola, o pensar a deficiência como diferentes pos- que é uma situação muito mais grave do sibilidades de adaptação e funcionalidade que a discussão de qual escola é a mais deve, obrigatoriamente, nortear todas as adequada. escolhas e decisões tomadas em relação SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 A Constituição Federal de 1988 (Bra- a essa população. sil, 1988) e as Diretrizes e Bases da Edu- cação Nacional – Lei n. 9.394/96 (Brasil, Referências bibliográficas: 1996) – estabelecem que a educação é direito de todos e que as pessoas com 1. DOTA, F.P.; Alves, D.M. Educação necessidades educacionais especiais Esp ecial n o Br asil: U m a An álise devem ter atendimento educacional Histórica. Revista Científica Eletrônica “preferencialmente na rede regular de de Psicologia – ISSN: 1806-0625, ano V – n.8, mai/2007. ensino”, garantindo atendimento edu- 2. FERREIRA, J. R. A construção escolar da cacional especializado aos portadores deficiência mental. Tese de Doutorado. de deficiência. A legislação, ao mesmo Universidade Estadual de Campinas, tempo em que ampara a possibilidade Campinas, 1989. 25
  • 28.
    3. HALLAHAN, D.;KAUFFMAN, J. Exceptional de Alunos com Deficiência Mental. children. Introdution to special education. Unimep, 2003. Disponível em: 6. ed. Boston: Allyn Bacon, 1994. http://livrosdamara.pbworks.com/f/ 4. MENDES, E. G. Deficiência mental: a historiadeficiencia.pdf construção científica de um conceito 7. PADILHA, A.M.L. Práticas educativas: e a realidade educacional. Tese de Perspectivas que se abrem para a Doutorado. Universidade de São Paulo. Educação Especial. Educação & São Paulo, 1995. Sociedade, ano 21, nº 71, julho/2000. 5. MENDES, E.G. A radicalização do debate 8. TESSARO, N.S. Inclusão Escolar: sobre inclusão escolar no Brasil. Revista Concepções de Professores e Alunos Brasileira de Educação v. 11, n. 33, da Educação Regular e Especial set./dez. 2006. (Universidade Estadual de Maringá). 6. MIRANDA, A.A.A. História, Deficiência ABRAPEE – Associação Brasileira de e Educação Especial. Reflexões Psicologia Escolar e Educacional, 2007. desenvolvidas na tese de doutorado: Disponível em: http://www.abrapee.psc. A Prática Pedagógica do Professor br/artigo20.htm SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 christine Luise Degen, Bacharel e Licenciada Dra. Alessandra Freitas em Psicologia pela UnIP, Russo, neurologia Infantil e do Psicóloga da APAE -Cotia. Adolescente, Mestre em Me- Coordenadora do Programa de dicina pela USP neurologista , Apoio à Educação Inclusiva e da AACD, Pesquisadora do do Programa de Atendimento Laboratório de Distúrbios do aos Transtornos Invasivos do Desenvolvimento - IP- USP Desenvolvimento da APAE-Cotia. 26
  • 29.
    InCLUSãO Inclusão escolar simonE cucolicchio A questão da inclusão de alunos com brasileiro tem vivenciado um momento deficiência no sistema regular de ensino de transição no atendimento dos alunos vem ganhando espaço cada vez maior em com necessidades educativas especiais. debates e discussões que explicitam a A partir dos anos 80 o termo integração necessidade da escola atender a estes começou a perder forças, sendo alunos. substituído pela idéia de inclusão, uma Historicamente, a proposta de inte- vez que o objetivo é incluir, sem distinção, gração escolar foi elaborada em 1972, na todas as crianças, independente de suas Educação Especial, na forma do chamado habilidades. Desta forma, a palavra in- princípio da normatização, o que significa clusão remete-nos a uma definição mais dar à pessoa oportunidades garantindo ampla, indicando uma inserção total e seu direito de ser diferente e ter suas incondicional. necessidades reconhecidas e atendidas A Declaração Mundial sobre Educa- pela sociedade. ção para Todos (UNESCO, 1990), aprova- Essas noções de normatização e in- da pela conferência mundial, realizada na tegração se difundiram rapidamente nos Tailândia no ano de 1990 e a Declaração Estados Unidos da América, Canadá e por de Salamanca (UNESCO, 1994), firmada diversos países da Europa, fortalecendo- na Espanha no mesmo ano marcaram, no -se no final dos anos 60 e inicio dos anos plano internacional, momentos históricos 70 do século XX. No Brasil a filosofia da em prol da Educação Inclusiva. No Brasil integração parece dominar não apenas a Constituição Federal de 1988, art.208 atitude teórica dos profissionais da área inciso III, Plano Decenal de Educação SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 (Aranha, 1994; Cardoso 1992; Figueire- para todos, 1993 – 2003 (Mec,1993) do, 1990; Glat, 1989, Januzzi, 1992;Nu- e os Parâmetros Curriculares Nacionais nes & Santos, 1998 ; Omote, 1994, mas (MEC,1999) são exemplos de documen- também as propostas de atendimento tos que defendem e asseguram o direito de diferentes tipos de instituições (Arns, de todos à educação. 1992;Carvalho, 1989;Mantoan, 1988; O principio básico da inclusão esco- Mendes, 1994; Pereira, 1990). lar, segundo esta Declaração, consiste Tendo como ponto de partida em que todas as escolas reconheçam as os resultados positivos alcançados diversas necessidades de seus alunos com a prática da inclusão escolar e a elas respondam assegurando-lhes nos países desenvolvidos nas últimas uma educação de qualidade, que lhes duas décadas, o sistema educacional proporcione aprendizagem por meio de 27
  • 30.
    currículo apropriado epromova modifi- da que se tem e de uma escola inclusiva cações organizacionais, estratégias de de qualidade. ensino e uso de recursos, dentre outros Os resultados sugerem também quesitos (UNESCO apud Mendes, 2002). que, para a maioria dos participantes Segundo Abenhaim (2005), incluir de desta pesquisa (professores de escolas fato significa mais do que apenas possibi- públicas e particulares) o despreparo litar o acesso e permanência no mesmo dos profissionais e a infraestrutura das espaço físico. Para Gotti (1998), a inclu- escolas dificultam o processo de inclusão são escolar significa um novo paradigma dos alunos com deficiência no ensino no marco conceitual e ideológico, o qual regular. Tais dados evidenciam que os precisa envolver políticas, programas, ser- professores participantes da pesquisa viços, comunidade em geral e etc. Assim, não estão aptos a trabalhar e lidar com conforme a autora, incluir implica ações a diversidade em sala de aula, o que os que envolvam a luta pela conscientização leva, certamente, a se sentir inseguros, do direito à cidadania, como pré-requisito, preocupados e desamparados. Este fundamental para uma reflexão crítica em sentimento de frustração pode levar o torno dos conhecimentos, informações e professor a acreditar que só a afetividade sentimentos em relação às pessoas com que dispensa à criança já é o bastante. deficiência. Foi constatado também que a maior Diante do histórico da Inclusão e da parte dos professores não possui conhe- Escola que temos hoje no Brasil, alguns cimentos sobre deficiência e inclusão, a questionamentos devem ser considera- não ser àqueles que por iniciativa própria dos e discutidos: a Escola está preparada fizeram algum curso especializado. Outra para receber alunos com deficiências? Os pesquisa realizada no Distrito Federal professores estão preparados? Os alunos (2006) concorda em relação à falta de estão tendo bom desempenho escolar? estrutura da escola de ensino regular e Uma pesquisa, desenvolvida em algu- a falta de preparo de profissionais o que mas escolas públicas e privadas em uma cristaliza e imobiliza as ações inclusivas cidade do interior do Paraná, revela que (Carvalho 2001). SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 as escolas estão desenvolvendo projetos Neste sentido, Glat etal. (1998) afir- inclusivos sem a infraestrutura adequada, mam que a escola inclusiva apenas po- no que diz respeito tanto aos recursos derá se concretizar a partir de condições físicos quanto aos humanos. O que se muito especiais de recursos humanos, percebe é que na maioria das vezes, não pedagógicos e materiais. Acreditam es- há um planejamento, um projeto para sas autoras que o professor no contexto receber e trabalhar com os alunos com inclusivo precisa de preparo para lidar deficiência, mas à medida que tais alu- com as diferenças, com a diversidade de nos são “incluídos” vão sendo realizadas todos os alunos, no entanto, os profes- ações conforme os recursos disponíveis e sores, de modo geral, não têm recebido não necessariamente conforme as suas formação e capacitação suficientes para necessidades. Desta forma, deparamo- atender as diversas formas de aprendiza- 28 -nos com práticas destoantes da deman- do dos alunos.
  • 31.
    Evidente que estasnão são as Referências bibliográficas: únicas questões a serem discutidas e debatidas quando o assunto é inclusão 1. KASPER, A.A.; LOCH ,M.V.P.; PEREIRA, escolar, mas são imprescindíveis. Neste V.L.D.V. Alunos com deficiência momento, concorda-se com Veiga Neto matriculados em escolas públicas de nível (2005), que acredita não bastarem ape- fundamental: algumas considerações. nas às competências técnicas para lidar Educar, Curitiba, Editora UFPR, p.231- com as questões impostas na inclusão, 243, 2008. mas é importante pensar em mudanças 2. SILVEIRA, F.F.; NEVES, M.M.B.J.; Inclusão escolar de crianças com no plano de ordem cultural, política e das deficiência múltipla: concepções de relações sociais estabelecidas. pais e professores. Psicologia: Teoria Portanto, verifica-se que as pessoas e Pesquisa, Brasília, v.22, n.1, p.79-88 com deficiência até o momento, consegui- jan/abr 2006. ram apenas o direito de acesso à escola 3. LEONARDO, N.S.T.; BRAY, C.T; ROSSATO, regular, pois, a sua permanência está S.P.M. Inclusão escolar: um estudo distante de se concretizar numa escola acerca da implantação da proposta com ensino adequado e de qualidade. em escolas de ensino básico. Revista Atualmente, verifica-se um discurso Brasileira, Edição Especial, Marília, v.15, favorável a inclusão de pessoas com n.2, p.289-306, mai/ago, 2009. deficiência, não apenas no contexto esco- 4. MANTOAN, M.T.E. Educação escolar de lar, mas em vários segmentos da nossa Deficientes Mentais: Problemas para a sociedade, mesmo assim, tais pessoas pesquisa e o desenvolvimento. Caderno CEDES, v.19, n.46, 1998. continuam vítimas de preconceito e estig- 5. LAPLANE, A.L.F.; PRIETO, R.G. Inclusão, ma, por serem consideradas diferentes. diversidade e igualdade na CONAE 2010: Neste aspecto uma política de educação Perspectiva para o novo Plano Nacional inclusiva não se faz sozinha, paralela e de Educação. Educação e Sociedade, concomitantemente ela requer uma polí- Campinas, v.31, n.112, p. 919-938, jul/ tica nacional de inclusão social. set. 2010. O processo de inclusão dos alunos com deficiência no sistema regular de SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 ensino precisa ser consolidado, e ainda possui um caminho a ser trilhado. Ofe- recer ensino básico de qualidade para Simone Cucolicchio, Fono- todos, com ou sem deficiências, significa audióloga Clínica da APAE de melhorar a qualificação e dar condições São Caetano do Sul de tais crianças, quando adultas, com- petirem no mercado de trabalho (LOCH, 2006). 29
  • 32.
    InCLUSãO O programa de inclusão de pessoas com deficiência nas empresas – o fortalecimento no processo de fidelização do colaborador Janaina FolEis FErnanDEs * Por estar à frente de um programa de 1988, Art. 5º: Todos são iguais perante inclusão de pessoas com deficiência no a lei, sem distinção de qualquer nature- mercado de trabalho e por perceber que za, garantindo-se aos brasileiros e aos muitas dúvidas ainda existem sobre o estrangeiros residentes no País a invio- tema, considero importante a discussão labilidade do direito à vida, à liberdade, à sobre esse assunto. igualdade, à segurança e à propriedade, Ultimamente ouve-se com frequência reconheço na prática profissional como a expressão “adequação a lei de cotas” responsável pelo programa de inclusão e como uma obrigação das empresas em integração de pessoas com deficiência no contratar pessoas com deficiência para mercado de trabalho da empresa Nepacc constituírem seu quadro de funcioná- e no contato direto com esses profissio- rios. Mas antes de pensar em adequar nais que isso não acontece. a empresa de acordo com a lei de cotas Pessoas com deficiências tiveram, 8213/91 é importante pensar na razão ao longo da história, seus direitos des- dessa lei. O que se espera efetivamente respeitados, uma vez que a inclusão na ao seu cumprimento? sociedade ainda é precária. Por muito SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 tempo, essas pessoas ficaram à margem A LEI Nº 8.213, DE 24 DE JULHO DE 1991 da sociedade, sem acesso a educação, “lei de contratação de Deficientes nas Empre- profissionalização, sem garantias do direi- sas. Lei 8213/91, lei de cotas para Deficien- to de ir e vir. E vivendo assim, fatalmente tes e Pessoas com Deficiência dispõe sobre foram banidos da atuação profissional, os Planos de Benefícios da Previdência e dá fonte de renda que poderia permitir uma outras providências a contratação de portado- melhora em suas condições de vida e res de necessidades especiais”. autonomia da mesma, sem que fosse necessário um olhar assistencialista e Entendo que a criação dessa lei trata- uma vida em situação de vulnerabilidade. -se de um estímulo para uma mudança Toda legislação que vem fazer cum- cultural e comportamental. Apesar de ser prir um direito já previsto pela constitui- assegurado pela constituição federal de ção federal, me parece tentar corrigir um 30
  • 33.
    engano que provocouuma situação de de- seja favorável ao negócio e as relações sigualdade social, sendo assim, a lei de de trabalho. É nesse ponto que entendo cotas também cumpre esse papel, garan- que a lei de cotas serve para favorecer tir que pessoas com deficiência tenham uma mudança cultural, pois a empresa, a oportunidade de serem inseridas no que até então não se deparava com essa mercado de trabalho, profissionalizando- diversidade deverá agora se adequar, -se, recebendo uma renda que será capaz modificar, para incluir. O primeiro passo de inseri-los na sociedade como um todo. é de compreender quem são as pessoas Pelo fato dessas contratações acon- com deficiência, o que são deficiências, tecerem por força da lei, parece que des- pois a maior barreira nesse processo é o qualifica o profissional contratado e pode preconceito advindo da falta de informa- dar margens a um pensamento equivoca- ção sobre o assunto. do de favor ou de caridade e isso certa- Toda a empresa que deseja cumprir mente pode comprometer o desempenho a lei de cotas deve, antes de tudo bus- profissional deste, bem como dificultar as car informações a respeito desse tema. relações interpessoais no ambiente de Entender por exemplo, que a dificuldade trabalho e consequentemente prejudicar de encontrar pessoas com deficiência o processo de fidelização do colaborador devidamente qualificadas para exercício com deficiência a essa empresa, aumen- profissional se deve a uma cultura social tando neste caso o turnover. que não permitiu o acesso delas a essa Muitas fantasias relacionadas às formação e que, portanto, não é garantia dificuldades e comportamentos diferen- de incompetência, mas simplesmente ciados no trato com esses colaboradores, falta de oportunidade e a empresa então, são criadas nas relações profissionais que se prepara para receber esses pro- tanto entre os colegas de trabalho como fissionais deve entender que seu papel com a equipe de gestores responsáveis de inclusão vai além da contratação, mas pelo desenvolvimento profissional de também em oferecer oportunidades de todos os funcionários de sua equipe, in- desenvolvimento profissional. cluindo os colaboradores com deficiência. O segundo passo é sensibilizar toda a Pessoas com deficiências podem equipe para receber esses profissionais, SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 exercer qualquer atividade profissional, configurando-se como um estágio funda- considerando apenas as limitações da mental para a inclusão. Essa sensibiliza- deficiência que não são maiores que a ção pode acontecer através de palestras força das limitações de acessibilidade. ou grupos de apoio coordenados por Sendo oferecido um espaço e recursos profissionais ou empresas qualificadas e adequados, além de estimulação e valo- com conhecimento do tema para auxiliar rização, podem contribuir e contribuem de e esclarecer todas as dúvidas e incerte- forma positiva e construtiva na atuação zas sobre essa questão. Uma empresa profissional. que consegue estruturar não apenas a É importante, contudo, compreender adequação do espaço físico e ofertas de as dificuldades encontradas pela em- recursos de acessibilidade, mas também presa para garantir que essa inclusão preparar seus colaboradores certamente 31
  • 34.
    apresentará menor dificuldadenesse pro- Referências bibliográficas: cesso, garantindo assim a inclusão e in- tegração de pessoas com deficiência nas 1. A inclusão de pessoas com deficiência relações profissionais de forma ampla e no mercado de trabalho. - 2 ed. – diminuindo o turnover, e consequente- Brasília: MTE, SIT, 2007. mente gastos com processos de contra- 2. B R A S I L . C o n s t i t u i ç ã o ( 1 9 8 8 ) . tação e desligamento, característicos de Constituição [da] Republica Federativa quando ocorre apenas a contratação sem do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal. nenhum cuidado ou manejo adequado. 3. BRASIL. LEI Nº 8.213, DE 24 DE JULHO DE 1991, lei de contratação de Deficientes Devido à “adequação a lei de cotas”, nas Empresas [on line]. Brasília, DF: não faltam oportunidades de emprego Senado Federal. Disponível em: http:// a esses profissionais, o que de certa www.deficienteonline.com.br/lei-8213- forma contribui para a alta rotatividade 91-lei-decotas- para-deficientes-e- considerando a falta de fidelização desse pessoas-com-deficiencia___77.html. colaborador com a companhia como um Acesso em: 13 maio 2012. todo. A empresa inclusiva deve oferecer aos seus colaboradores com deficiência, não apenas vagas, mas oportunidades de crescimento, plano de carreira e desen- volvimento profissional. O programa de inclusão tem como objetivo o desenvolvimento desse novo conceito na cultura organizacional, apri- morando habilidades sociais e interpes- soais por parte de todos os envolvidos no processo de inclusão, sejam eles com ou sem deficiência. A empresa Nepacc Servi- ços de Psicologia e Psicopedagogia Ltda. vem desenvolvendo esse serviço desde SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 2010, a favor do desenvolvimento de Janaina Foleis Fernandes, uma cultura inclusiva tanto organizacio- Psicóloga, CRP 06/83693 é nal como social. Entendemos que estar sócia proprietária da nEPACC próximo das empresas nesse momento Serviços de Psicologia e é fundamental para garantir a integração Psicopedagogia Ltda., que está no mercado desde 2008 desses profissionais e aprimorar a atua- e tem como missão a inclusão ção de todos os colaboradores e gestores social. Atua no mercado a favor de uma cultura inclusiva. oferecendo consultoria organizacional com foco no desenvolvimento humano. Contatos: janaina@nepacc.com.br nepacc@nepacc.com.br Site: www.nepacc.com.br/organizacional 32 Telefones: (11) 3807-6656 ou (11) 3467-1649
  • 35.
    DE MãE, PRAMãE A importância da família para que tem transtorno bipolar por sonia maria BanDEira* Sou Sonia Maria Bandeira e tenho não deixava nada ela ia atrás dele. Ele uma irmã com transtorno bipolar. Perce- ficou furioso e saiu correndo, nesta oca- bemos o início das crises da Maria Braul sião descobrimos que ele era surdo, mas Bandeira através de um olhar discreto. ela conseguiu ser amiga dele. Ela acorda cedo, fala constantemente, Maria também tem facilidade de SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 escondi (em seu quarto) objetos, cor- convencer as pessoas de fora falando respondências, documentos, e principal- com desenvoltura e ninguém percebe seu mente, chaves da casa e tudo que achar transtorno, somente a família. Mas é co- interessante. Na tentativa de pegar as mum ela se fazer de vitima dizendo para as chaves e outros objetos surgem os con- pessoas de fora que a família não presta, flitos. Este comportamento é difícil, pois que lhe nega comida entre outras coisas. ela só devolve os objetos para alguém O jeito dela falar convence as pessoas que não mexe em seus pertences, mas de fora que pensam que é verdade que a nem sempre esta atitude ocorre de ma- família a mal trata. Recordo-me do sofri- neira tranqüila. Houve um período que ela mento da minha mãe quando o resgate ou ficava de prontidão no portão para pegar a policia levava minha irmã para o hospital, as correspondências, e quando o carteiro nesta ocasião as pessoas diziam que ela 33
  • 36.
    emocionou: “Esqueça detudo que acon- teceu, amanhã será um novo dia”. Deste dia passei a observar mais a minha irmã. No ano de 2002 a minha mãe faleceu, e nesta ocasião a Maria ficou em crise; a família toda ficou abalada e sem paciên- cia. Nesta época decidi ser voluntaria no hospital Nossa Senhora do Caminho após a alta hospitalar da Maria. A administração do hospital aceitou o meu pedido de ser voluntária e foi ótima esta vivência com a minha irmã, pois compreendi o sofrimento e a história dos pacientes, e percebi que era possuída por um espírito. Mas chegou o pior conflito da pessoa com o transtorno uma ocasião que minha mãe não aceitou bipolar é serem criticados. Entendi que es- este comentário, ela dizia que Deus iria cutar abre as portas da amizade. O maior dar forças e paciência para ela carregar alvo da pessoa com transtorno bipolar esta cruz; e passou aceitar que a Maria é a família, pois a comunicação entre era doente e que ela não iria desistir de os mesmo é prejudicada. A pessoa com buscar o tratamento. Maria passou por transtorno bipolar quando fala pode ser várias internações e era uma dificuldade feito uma matraca atirando por todo lado visitá-la, pois os hospitais eram distantes suas lembranças e muitas vezes ofensas, Também era grande o nosso sofrimento de por isso, é necessário manter a calma vê-la desfigurada e dopada, e muitas vezes porque a revolta é passageira. Na busca pedindo para sair, pois dizia que recebia para aprender a lidar com este transtorno, choque e tinha muita fome. Mas minha meus irmãos ficaram contra mim dizendo mãe achava que era fantasiava dela, pois que eu devia me responsabilizar se algo acreditava que o hospital é um local para de grave acontecesse com ela. Eu dizia cuidar dos doentes. que a internação dela deveria ocorrer só SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 Minha irmã não aceitava as medica- em último caso, afinal não da para separar ções em casa e nem ir às consultas mé- a mãe de um filho, e precisamos aceitar dicas, por isso, quando a situação dentro esta situação de casa chegava ao extremo era caso de Quando eu tive meningite, Maria cui- internação, pois ela ficava agressiva e dou de mim, e no período que sua filha sem roupa dentro de casa. Passou por faleceu, ela passou a me proteger mesmo várias internações, mas o diagnóstico estando em crise. Quando eu era criança transtorno bipolar só foi comunicado à não gostava que ela me protegia, mas fui família no hospital Nossa Senhora do percebendo que este sentimento, a fazia Caminho. Quando ela era liberava para feliz. E hoje aproveito isso para amenizar os passar um final de semana em casa conflitos e administrar as medicações. Sou era sempre uma alegria. Eu me recordo como sua ‘filha’, irmã e conselheira, e este 34 de uma musica que ela cantava que me vínculo faz a grande diferença e possibilita
  • 37.
    uma ponte depaz. Hoje Maria tem um filho com a pessoa com transtorno bipolar de 17 anos de idade que tem Síndrome pode ser bem estressante. de Williams (deficiência intelectual) que a A convivência com o transtorno bipolar ajuda muito, e ela ajuda ele. É muito forte da minha irmã me ajuda no exercício da este lado família dela, eu entendo que lá minha profissão como auxiliar de enferma- no seu íntimo ela quer ser protetora mesmo gem, para saber a lidar com os pacientes quando está na fase do transtorno bipolar. que apresentam distúrbios e rejeitam me- O tratamento medicamentoso passou dicações. Hoje acredito que toda a pessoa a dar certo, pois a médica que passou que tem um determinado distúrbio de com- acompanhá-la no atendimento psicológico portamento são pessoas maravilhosas, já a conhecia no atendimento do hospital. sensíveis, tem a sua família como referên- Assim, as crises foram controladas em cias mesmo sofrendo preconceito. Minha casa, e o vínculo da médica com a família irmã Maria, tem 53 anos, é aposentada, permitiu excelentes resultados. Desde o divorciada, e vive em São Paulo junto com ano 2003 ela não foi interada, seguindo a família. Gosta muito de passear com seu acompanhamento e fazendo uso das filho e visitar os parentes. O significado da medicações. Porém é sempre uma luta família é tão forte para ela que está sempre para convencê-la a tomar os remédios e transmitindo alegria para todos, pois ela injeção a cada mês, muitas vezes chan- acredita em sua capacidade de ser a mãe tageamos com a internação, mas não de todos nós da família. funciona melhor assim. Acredito que a melhor forma de lidar com as crises é a família aceitar a doença e manter equili- *Leandra Migotto Certeza é brada para superar esta fase, afinal não bacharel em Comunicação Social pela Universidade há mal que dure para sempre, e nem e a Anhembi Morumbi, jornalista paz impossível de ser alcançada, basta desde 1998, e repórter espe- a paciência e perseverança. cial da Revista Síndromes. Foi Costumo a dizer que a minha irmã é editora da Revista Sentidos e feliz com o transtorno bipolar, pois nesta Ciranda da Inclusão, além de fase apresenta iniciativa, adora passear escrever para diversos portais como Setor 3 do SEnAC/ SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 e consegue do jeito dela se defender, SP Rede SACI/USP e Inclusive. Ela tem deficiência física , manifesta suas emoções cantando, cho- (Osteogenesis Inperfecta), é assessora de imprensa da rando, mas fala feito uma matraca. Estas ABSW – Associação Brasileira de Síndrome de Williams, alterações de humor podem provocar consultora em inclusão (premiada em Lima e na Co- agressão verbal e física, mas o equilíbrio lômbia), e mantém o blog “Caleidoscópio – Uma janela da família associado com as medicações para refletir sobre a diversidade da vida”: http://leandra- ajuda a amenizar as crises, e a internação migottocerteza.blogspot.com/. Conheçam os modelos de palestras, encontros, oficinas, cursos, treinamentos passa ser só em último caso. O convívio e materiais informativos sobre Diversidade e Inclusão, com a família e na sociedade é de grande realizados em empresas, escolas, Ongs, centros importância para toda pessoa. Mas toda culturais e grupos de pessoas no site da Caleidoscópio a família precisa de acompanhamento Comunicações – Consultoria em Inclusão: https://sites. psicológico para se refazer afinal conviver google.com/site/leandramigotto/ 35
  • 38.
    A RT Ig O D O L E I T O R O programa de inclusão de pessoas com deficiência nas empresas – o fortalecimento no processo de fidelização do colaborador Janaina FolEis FErnanDEs * Por estar à frente de um programa de 1988, Art. 5º: Todos são iguais perante inclusão de pessoas com deficiência no a lei, sem distinção de qualquer nature- mercado de trabalho e por perceber que za, garantindo-se aos brasileiros e aos muitas dúvidas ainda existem sobre o estrangeiros residentes no País a invio- tema, considero importante a discussão labilidade do direito à vida, à liberdade, à sobre esse assunto. igualdade, à segurança e à propriedade, Ultimamente ouve-se com frequência reconheço na prática profissional como a expressão “adequação a lei de cotas” responsável pelo programa de inclusão e como uma obrigação das empresas em integração de pessoas com deficiência no contratar pessoas com deficiência para mercado de trabalho da empresa Nepacc constituírem seu quadro de funcioná- e no contato direto com esses profissio- rios. Mas antes de pensar em adequar nais que isso não acontece. a empresa de acordo com a lei de cotas Pessoas com deficiências tiveram, ao 8213/91 é importante pensar na razão longo da história, seus direitos desrespei- dessa lei. O que se espera efetivamente tados, uma vez que a inclusão na socie- ao seu cumprimento? dade ainda é precária. Por muito tempo, SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 essas pessoas ficaram à margem da A LEI Nº 8.213, DE 24 DE JULHO DE 1991 sociedade, sem acesso a educação, pro- “lei de contratação de Deficientes nas Empre- fissionalização, sem garantias do direito sas. Lei 8213/91, lei de cotas para Deficien- de ir e vir. E vivendo 2 assim, fatalmente tes e Pessoas com Deficiência dispõe sobre foram banidos da atuação profissional, os Planos de Benefícios da Previdência e dá fonte de renda que poderia permitir uma outras providências a contratação de portado- melhora em suas condições de vida e res de necessidades especiais”. autonomia da mesma, sem que fosse necessário um olhar assistencialista e Entendo que a criação dessa lei trata- uma vida em situação de vulnerabilidade. -se de um estímulo para uma mudança Toda legislação que vem fazer cum- cultural e comportamental. Apesar de ser prir um direito já previsto pela constitui- assegurado pela constituição federal de ção federal, me parece tentar corrigir um 36
  • 39.
    engano que provocouuma situação de de- favorável ao negócio e as relações de sigualdade social, sendo assim, a lei de trabalho. É nesse ponto que entendo que cotas também cumpre esse papel, garan- a lei de cotas serve para favorecer uma tir que pessoas com deficiência tenham mudança cultural, pois a empresa, que a oportunidade de serem inseridas no até então não se 3 deparava com essa mercado de trabalho, profissionalizando- diversidade deverá agora se adequar, -se, recebendo uma renda que será capaz modificar, para incluir. de inseri-los na sociedade como um todo. O primeiro passo é de compreender Pelo fato dessas contratações acon- quem são as pessoas com deficiência, tecerem por força da lei, parece que des- o que são deficiências, pois a maior qualifica o profissional contratado e pode barreira nesse processo é o preconceito dar margens a um pensamento equivoca- advindo da falta de informação sobre o do de favor ou de caridade e isso certa- assunto. mente pode comprometer o desempenho Toda a empresa que deseja cumprir profissional deste, bem como dificultar as a lei de cotas deve, antes de tudo bus- relações interpessoais no ambiente de car informações a respeito desse tema. trabalho e consequentemente prejudicar Entender por exemplo, que a dificuldade o processo de fidelização do colaborador de encontrar pessoas com deficiência com deficiência a essa empresa, aumen- devidamente qualificadas para exercício tando neste caso o turnover. profissional se deve a uma cultura social Muitas fantasias relacionadas às que não permitiu o acesso delas a essa dificuldades e comportamentos diferen- formação e que, portanto, não é garantia ciados no trato com esses colaboradores, de incompetência, mas simplesmente são criadas nas relações profissionais falta de oportunidade e a empresa então, tanto entre os colegas de trabalho como que se prepara para receber esses pro- com a equipe de gestores responsáveis fissionais deve entender que seu papel pelo desenvolvimento profissional de de inclusão vai além da contratação, mas todos os funcionários de sua equipe, in- também em oferecer oportunidades de cluindo os colaboradores com deficiência. desenvolvimento profissional. O segundo Pessoas com deficiências podem passo é sensibilizar toda a equipe para SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 exercer qualquer atividade profissional, receber esses profissionais, configuran- considerando apenas as limitações da do-se como um estágio fundamental para deficiência que não são maiores que a a inclusão. Essa sensibilização pode força das limitações de acessibilidade. acontecer através de palestras ou grupos Sendo oferecido um espaço e recursos de apoio coordenados por profissionais adequados, além de estimulação e valo- ou empresas qualificadas e com conheci- rização, podem contribuir e contribuem de mento do tema para auxiliar e esclarecer forma positiva e construtiva na atuação todas as dúvidas e incertezas sobre essa profissional. questão. Uma empresa que consegue É importante, contudo, compreender estruturar não apenas a adequação do as dificuldades encontradas pela empre- espaço físico e ofertas de recursos de sa para garantir que essa inclusão seja acessibilidade, mas também preparar 37
  • 40.
    seus colaboradores certamenteapresen- Referências bibliográficas tará menor dificuldade nesse processo, garantindo assim a inclusão e integração 1. A inclusão de pessoas com deficiência de pessoas com deficiência nas relações no mercado de trabalho. - 2 ed. – profissionais de forma ampla e dimi- Brasília: MTE, SIT, 2007. nuindo o turnover, e consequentemente 2. B R A S I L . C o n s t i t u i ç ã o ( 1 9 8 8 ) . gastos com processos de contratação e Constituição [da] Republica Federativa desligamento, característicos de quando do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal. ocorre apenas a contratação sem nenhum 3. BRASIL. LEI Nº 8.213, DE 24 DE JULHO DE 1991, lei de contratação de Deficientes cuidado ou manejo adequado. nas Empresas [on line]. Brasília, DF: Devido à “adequação a lei de cotas”, Senado Federal. Disponível em: http:// não faltam oportunidades de emprego www.deficienteonline.com.br/lei-8213- a esses profissionais, o que de certa 91-lei-decotas- para-deficientes-e- forma contribui para a alta rotatividade pessoas-com-deficiencia___77.html. considerando a falta de fidelização desse Acesso em: 13 maio 2012. colaborador com a companhia como um todo. A empresa inclusiva deve oferecer aos seus colaboradores com deficiência, não apenas vagas, mas oportunidades de crescimento, plano de carreira e desen- volvimento profissional. O programa de inclusão tem como objetivo o desenvolvimento desse novo conceito na cultura organizacional, apri- morando habilidades sociais e interpes- soais por parte de todos os envolvidos no processo de inclusão, sejam eles com ou sem deficiência. A empresa Nepacc Servi- ços de Psicologia e Psicopedagogia Ltda. SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 vem desenvolvendo esse serviço desde 2010, a favor do desenvolvimento de uma cultura inclusiva tanto organizacio- nal como social. Entendemos que estar *Janaina Foleis Fernandes, Psicóloga, CRP 06/83693 próximo das empresas nesse momento é sócia proprietária da nEPACC Serviços de Psicologia e é fundamental para garantir a integração Psicopedagogia Ltda., que está no mercado desde 2008 desses profissionais e aprimorar a atua- e tem como missão a inclusão social. Atua no mercado ção de todos os colaboradores e gestores oferecendo consultoria organizacional com foco no a favor de uma cultura inclusiva. desenvolvimento humano. Contatos: janaina@nepacc.com.br / nepacc@nepacc. com.br Site: www.nepacc.com.br/organizacional Telefones: (11) 3807-6656 ou (11) 3467-1649 38
  • 41.
    A RT Ig O D O L E I T O R Até Quando? alExanDrE soarEs Até quando veremos nossos cegos, Mas vamos focar nosso olhar na nossos portadores de necessidades coragem dos nossos portadores de ne- especiais sem acesso ao transporte cessidades especiais, da sua garra e público com dignidade, sem acesso aos a sua vontade de viver que não só nos locais públicos e particulares dessa vida serve de exemplo de motivação para não por conta da falta de investimentos em desistirmos quando as coisas não vão tão adaptações mais que urgentes para es- bem em nossas vidas mas principalmente sas pessoas, que assim como eu e você do quanto são capazes, capazes de nos são tão cidadãos quanto, que pagam surpreender a cada dia! seus impostos em dia mas que quando Hoje em dia já existem por exemplos mais precisam do poder público ficam a casais com síndrome de Down que levam ver navios literalmente! uma vida normal, tem filhos que traba- Até quando “os homens de terno” lham e até já cursam uma faculdade. De farão discursos bonitos com palavras fato são pessoas realmente felizes! emocionantes dignas de se aplaudir de pé E o que dizer dos cegos? Que par- mas que não passam de meras promes- ticipam de atividades desportivas das sas, desiludindo ainda mais aqueles que quais nem mesmo nós que possuímos a tanto necessitam das políticas públicas visão conseguimos fazer tão bem como, urgentes no que se refere à inclusão? por exemplo, nadar, correr e até mesmo Todavia ainda que alguns deles jogar futebol. E o que dizer daqueles façam é preciso que nós, enquanto ci- seres iluminados que mesmo não tendo dadãos, possamos agir como tais, com os membros superiores e inferiores con- SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 consciência, com respeito e não por seguem pintar com a boca? mera obrigação da lei. É preciso que nós E até quando iremos ignorar esses brasileiros resgatemos de vez a nossa seres fantásticos cujo a vida é incrivel- boa e velha educação (aquela trazida de mente fascinante ? casa) tão rara hoje em dia pelas ruas e Até quando? avenidas do país, país que se acostumou a ter as bolsas famílias da vida, ou seja, Alexandre soares, Professor da Uniesp São Roque, desacostumando o brasileiro a lutar pelo Orientador Educacional na cidade de Mairinque-SP, pão, agora ele já vem prontinho. alexanddresoares@yahoo.com.br 39
  • 42.
    R E PO RTA g E M Centro Espírita nosso Lar - Casas André Luiz O sonho por maria DE Fátima DE olivEira Os sonhos quando acontecem meu pai problemas de saúde. Como eu Trazem a felicidade não andava e não ficava sentada sozi- É muito bom sonhar nha, minha mãe comprou uma cadeira Pensar nas coisas e na vida é muito de rodas, e mesmo com dificuldades bom financeiras, lembro que viajávamos A gente leva o pensamento até muito para outras cidades, atrás de Deus e enxerga outro mundo um hospital para que eu pudesse ter A gente vê um mundo tão bonito e tratamento adequado. Meu pai adoeceu não sabe de onde veio, dá onde conhe- e acabou falecendo, depois que viemos cemos esse lugar para São Paulo. Sonhar é viver outro lado da vida Com a ajuda de uma tia, conhece- É um modo de encontrar a felici- mos as Casas André Luiz, quando era dade um local pequeno. Eu tinha 5 anos, Os nossos sonhos podem se rea- quando passei em uma triagem e con- lizar segui uma vaga. No começo, chorava Celebrar como a vida é maravilhosa muito, pois queria ficar com a minha Desejamos que todos os seus mãe. Mas hoje aqui nas Casas André sonhos se transformem em realidade Luiz, aprendi muita coisa, uma delas é Acreditando em nós mesmos entender as minhas amigas que não E se ligando aos nossos pensa- sabem falar. Eu consigo passar para SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 1 • Janeiro • Fevereiro de 2012 mentos outras pessoas o que elas desejam. Também aprendi a dançar, escrever, Eu nasci no dia 17/11/1968, na a falar melhor. Hoje realizo muitas cidade de Berilo, interior de Minas atividades aqui e agradeço a todos Gerais. O nome da minha mãe era Ana que passaram pela minha vida e me Martins e de meu pai João Martins. ajudaram muito. Não tenho muita lembrança da minha Maria de Fátima trabalha na farmá- infância, só sei que nasci sem pro- cia de manipulação das Casas André blemas, mas por não tomar vacina de Luiz de segunda a sexta-feira das 9hs paralisia infantil, fiquei doente. Minha às 11hs, e participa de um grupo de família sofreu muito, pois além da falta dança. O que mais gosta de fazer é de recursos financeiros, minha mãe escrever poesias. E nas horas vagas, tinha a doença do ‘bicho barbeiro’ e trabalha na oficina de Terapia Ocupa- 40
  • 43.
    cional produzindo artesanatos.É alfa- betizada, se comunica através da fala, mas sempre estudou somente dentro da instituição. Além da poliomielite tem Quadriplegia Espástica (deficiência físi- ca) e variação normal de inteligência. Trabalho: uma grande oportunidade Por Maria de Fátima de Oliveira que podemos confiar contando as nos- Feliz daquele que tem a oportuni- sas angústias e alegrias. dade de ter um trabalho. Para mim o trabalho é uma grande Feliz daquele que respeita o tra- experiência, pois só testemunha que balho. aprendi muito, porque mostro que sou Feliz daquele que assume a respon- capaz de fazer algo especial. sabilidade de cumprir o trabalho com O trabalho mediúnico no qual sou qualidade. dirigente tem grande importância na A oportunidade de trabalhar é muito minha vida, pois me dá a oportunidade importante para ocupar a mente porque para eu exercer aquilo que aprendi nos a mente ocupada com o trabalho produz cursos e ajuda a mostrar a mim e aos muitas coisas boas, principalmente o outros que sou capaz de fazer algo grande aprendizado que é progredir muito importante. amando o próximo. Sempre procuro fazer este trabalho No trabalho encontramos amigos da melhor forma possível, dando tudo SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 1 • Janeiro • Fevereiro de 2012 41
  • 44.
    de mim, paraa minha evolução que profissionais espíritas, evangélicos, tenho certeza que será grande. católicos e ateus trabalhando; sendo Agradeço a todos que me deram 11 estagiários e 419 voluntários (1287 esta oportunidade e principalmente ao na unidade de longa permanência e 48 Criador de todos nós. no ambulatório), a instituição atende Outros poemas estão no BLOG hoje cerca de 1600 pessoas, das quais escrito pelas pessoas que vivem nas 600 vivem na instituição, e 2 mil em Casas André Luiz: http://www.casa- regime ambulatorial. sandreluiz.org.br/blog/ e as novidades, Todos os atendimentos médicos entrevistas, dicas, receitas e diversão realizados nas unidades são por meio estão no Jornalzinho mensal: “Mundo de convênios com o Sistema Único André Luiz”, também escrito por eles: de Saúde, em especialidades como: http://www.casasandreluiz.org.br/pdf/ Odontologia, Enfermagem, Farmácia e jornalzinhodospacientes2012/jornalzi- Radiologia que, associado às terapias nhodospacientes_junho.pdf de Fonoaudiologia, Psicologia, Fisiote- rapia neuromotora e cardiorrespiratória, Um pouco de história e às atividades interdisciplinares de Educação Física, Terapia Ocupacional e O Centro Espírita Nosso Lar Casas Serviço Social, geram qualidade de vida André Luiz, fundado em 1949, é uma as pessoas e seus familiares. das mais antigas instituições brasilei- Os programas de atendimento no ras, sem fins lucrativos, que desde o ambulatório contemplam os diferentes início optou pelo atendimento 100% graus de deficiências mesmo as mais gratuito a pessoas com deficiência complexas; e o tempo de permanên- intelectual, de todas as idades, sem cia na unidade varia de acordo com a condições financeiras, em todos os necessidade específica de cada caso, graus de comprometimento: leve, mo- porém não há programas diários, como, derado, grave e profundo com ou sem por exemplo, em uma escola regular. As SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 1 • Janeiro • Fevereiro de 2012 deficiência física associada. Localiza- pessoas chegam no horário agendado, da na cidade de São Paulo com 2141 1, 2 ou 3 vezes por semana (de acordo 42
  • 45.
    com o queé necessário para o caso) as Casas André Luiz, ele não teria a realizam as terapias ou consultas e qualidade de vida que possui hoje”, retornam para suas casas. conta Mônica Felipe da Silva, mãe de A instituição estimula a manuten- Jefferson. ção dos vínculos familiares, sempre E para as pessoas que residem mencionando a sua importância na na unidade de longa permanência da condição biopsicossocial e qualidade instituição, existe uma rotina de saídas de vida das pessoas que freqüentam freqüentes, não somente para eventos, as unidades. Para isso, famílias de ex- mas para atividades do dia-a-dia como, trema vulnerabilidade social recebem o por exemplo, compras em shopping, auxílio-transporte para que estejam pre- feiras, passeios à praia, idas ao cine- sentes nas visitas, assim como orien- ma entre outras. Para os profissionais tações pontuais sobre os tratamentos das Casas André Luiz, este convívio na instituição. E para as pessoas em é extremamente importante, não só situações de real abandono por suas para estimular as pessoas que vivem famílias, as Casas André Luiz possuem na instituição à inclusão social, mas o Programa de Apadrinhamento, que também para a comunidade a conviver tem por objetivo a doação de amor e com as diferenças. atenção. Existem pessoas que são atendi- Com 7 meses de vida, Jefferson das na instituição, com deficiência leve da Silva Bernardo teve meningite que e moderada, inseridas no mercado de o deixou com deficiência intelectual e trabalho; porém em pequeno número. física. Há 10 anos recebe tratamentos Destes, somente 15 desenvolvem al- na instituição, realizados por psicólo- gum trabalho dentro da própria institui- gos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, ção com excelente retorno, e apenas 1 terapeutas ocupacionais e de outras pessoa trabalha em um supermercado especialidades que juntas já contribuí- fora da Instituição. Mas para ampliar ram muito para melhoraria da fala e da a inclusão social, os coordenadores SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 1 • Janeiro • Fevereiro de 2012 locomoção dele. “Só tenho a agradecer da instituição também participam pelos tratamentos dos profissionais da criação de políticas públicas, em com o meu filho; pois, se não fosse Conselhos de Saúde e Secretarias de 43
  • 46.
    governo, tanto estaduaisquanto muni- Um dos destaques das Casas An- cipais, como São Paulo e Guarulhos, dré Luiz é o Programa REDUC (Reabili- por exemplo. tação e Educação pela Inclusão). A psi- O dinheiro que sustenta a institui- cóloga e coordenadora Maria Rozineti ção vem 30% do SUS – Sistema Único Gonçalves* do programa nos concedeu de Saúde, e 70% por meio de captação uma entrevista exclusiva e conta em de recursos: através: da Central de Ar- detalhes como funciona, desde 2005, recadação, que divulga os trabalhos e esta importante troca de experiências busca fidelização de contribuintes para entre educadores e profissionais da a manutenção das despesas fixas da instituição. Instituição; pelo Mercatudo, que recebe 1 - Explique como funciona o projeto. doações externas de materiais em de- Qual o principal objetivo dos en- suso (como móveis, utensílios domés- contros? Como surgiu a ideia do ticos, roupas, objetos para reciclagem REDUC? A demanda apareceu mais e outros) para revenda, convertendo a devido às necessidades dos profis- arrecadação para as outras despesas; sionais, familiares ou pessoas com e por meio do Programa de Empresa deficiência atendidas no Ambulatório Iluminada, que firma parcerias com das Casas André Luiz? Quais são as empresas que desejem investir na ins- principais necessidades dos partici- tituição, fortalecendo seu programa de pantes? Responsabilidade Social Empresarial. As Casas André Luiz receberam o Desde 1991 o ambulatório das certificado NBR ISSO 9001 em 2008 Casas André Luiz oferece gratuitamente e o Prêmio Bem Eficiente em 2005 serviços especializados de atendimento e 2006. Mais informações no site: médico e terapêutico às pessoas com http://www.casasandreluiz.org.br deficiência intelectual e física e suas fa- mílias. Ao longo do tempo de existência A importância da parceria a equipe multiprofissional se desenvol- entre as escolas inclusivas e SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 1 • Janeiro • Fevereiro de 2012 veu e hoje investe na transformação da a instituição sociedade, a fim de combater o estigma e o preconceito. Pois, sabe-se hoje que a deficiência deve ser pensada e trabalhada em sua complexidade, não mais segregada só a uma área do sa- ber. Nesse sentido desenvolvemos uma alternativa para somar aos trabalhos da área educacional, aproximar e interligar os saberes acumulados e realizar um programa, através da interface saúde e educação. O programa REDUC (Re- abilitação e Educação pela Inclusão), 44 iniciado em 2005, realiza encontros
  • 47.
    semestrais com professores,coorde- 2 - Os professores das escolas são con- nadores, diretores e demais atores do vidados a participar de reuniões junto sistema escolar. com os profissionais das Casas André Convidamos os profissionais das Luiz, com as pessoas com deficiência escolas públicas e privadas, que pos- e seus familiares? suem crianças que utilizam nossos serviços, a participarem de encontros São convidados a participar dos na instituição. Por meio dessa parceria encontros do REDUC os professores, criamos uma rede social que dê suporte coordenadores e/ou diretores de es- às demandas referentes ao processo colas particulares e públicas, além de de inclusão educacional, com o objetivo instituições. Até o presente momento de: compartilhar dúvidas, informações não realizamos um encontro conjunto e experiências (produzindo caminhos e com os familiares, por preservarmos alternativas; aprender com a realidade o espaço de acolhimento das dúvidas cotidiana); levantar aspectos comuns e angústias dos participantes, assim sobre as dificuldades da educação in- como por entendermos que é um mo- clusiva no Brasil; além da possibilidade mento de troca de conhecimento sobre de intervir nas questões relativas aos os processos educacionais, com toda preconceitos do universo das deficiên- sua complexidade. cias. Para isso, buscamos como méto- do de trabalho, realizar encontros estru- 3 - Por que são realizados encontros turados com diálogos, oficinas, debates somente uma vez por semestre? Fal- e palestras informativas. E sempre que tava interesse de ambas as partes das possível, também são realizadas visitas 195 pessoas envolvidas no REDUC? às escolas para acompanhamento de casos específicos. Inicialmente o projeto era desen- A ideia do Programa REDUC nasceu volvido bimestralmente, porém fomos de uma necessidade dos profissionais percebendo dificuldades dos participan- SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 1 • Janeiro • Fevereiro de 2012 da saúde ligados ao ambulatório da tes em dar conta de uma periodicidade instituição encontrar resposta às de- maior. Alguns professores apresenta- mandas das escolas nas quais as pes- vam dificuldades em ter essa dispensa, soas atendidas na instituição estavam faltando incentivo para sua continui- inseridas. Do lugar dos representantes dade de participação. Isso nos levou escolares vinham demandas ligadas ao a construir o programa mais dentro da diagnóstico, dúvidas sobre as deficiên- realidade das pessoas, inclusive da cias, formas de atuação, intervenções própria equipe técnica do ambulatório e adaptações possíveis na escola, an- da instituição, que era cobrada por pa- gústias do não saber como lidar com rar aos atendimentos para receber um o desconhecido, entre outras. Assim grupo restrito de professores. Assim, fomos trabalhando com o paradigma para darmos seguimento sem ônus da diversidade e criando um contexto para nenhum lado passamos a fazê-lo reflexivo para além do diagnóstico. semestralmente. 45
  • 48.
    4 – Hojesão realizados relatórios sobre 7 - Qual o papel dos 7 interlocutores os principais temas conversados? E em campo? São profissionais da ins- feitas propostas de ações coletivas ou tituição que visitavam algumas esco- analisados casos específicos? las? Quantas? Em que período? O que realizavam? Em alguns encontros propomos te- mas específicos, e em outros uma dinâ- No geral uma equipe de dois a três mica mais aberta ao diálogo a partir da profissionais visitavam as escolas que demanda do grupo que comparece ao en- necessitavam de uma intervenção foca- contro. Todos são finalizados com uma da na demanda daquele contexto, como avaliação dos participantes e sugestões por exemplo, conversar com um grupo para os posteriores, e a equipe do ambu- maior de professores que não podiam latório realiza o relatório do encontro. Já se deslocar até o ambulatório da insti- tivemos e continuamos tendo das mais tuição; ou em escolas que abarcavam diversas demandas, desde uma mobi- um número maior de pessoas atendidas lização mais política com convites aos nas Casas André Luiz para termos aces- participantes para serem representantes so a todos os professores envolvidos, na Secretaria de Educação de Guarulhos; ou até mesmo por solicitações mais per- até discussões mais pontuais sobre sistentes de representantes de escolas. diagnósticos e atendimento realizados Realizávamos o agendamento com o pela equipe de saúde. coordenador da escola e solicitávamos a presença de professores, especial- 6 - Dentre as 70 escolas participantes mente os ligados as pessoas com defi- dos encontros, quantas implantaram ciência atendidas na instituição. Nesse ações efetivas em sala de aula? Quais período realizamos 15 visitas escolares, foram elas? tendo cada uma um foco diversificado, desde participar de hora pedagógica na É muito difícil precisar, pois não te- instituição e falar com um grupo de 30 SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 1 • Janeiro • Fevereiro de 2012 mos condições de analisar o programa professores dialogando e esclarecendo nesse nível de abrangência. O que exis- dúvidas sobre alunos com deficiência; tem são relatos de participantes mais até para verificarmos as adaptações assíduos que nos deram feedbacks de necessárias e específicas para deter- suas ações nas escolas. Destacamos minada criança na escola. Atualmente modificações nos processos de ava- esse tipo de assessoria acontece com liação do aluno, melhor condução no menor frenquência, devido a outras processo de alfabetização da criança, demandas institucionais. diversificação nas estratégias de ensi- no, cobrança de instâncias superiores 9 - Aponte os principais problemas de quanto ao suporte necessário à criança inclusão de estudantes com deficiên- com deficiência, revisão do ciclo esco- cia intelectual nas escolas regulares, lar em que a criança se encontrava, os principais resultados conseguidos 46 dentre outras. após as ações do REDUC?
  • 49.
    Muitos são osproblemas trazidos instituição ou educadores das escolas pelos familiares das pessoas com defi- inclusivas. ciência e pelos professores que partici- pam dos encontros, como por exemplo, Como exemplo, podemos citar os em relação à infra-estrutura das esco- pontos positivos, retirados de avalia- las (muitas ainda não são totalmente ções finais de alguns encontros de adaptadas as pessoas que usa cadeira 2011: “foi uma importante troca de de rodas); falta de suporte em sala de experiências sobre inclusão”; “é impor- aula para as questões práticas (como tante compreender como a criança está troca de fraldas, alimentação, e ida se desenvolvendo nas terapias traçan- aos espaços externos à sala de aula); do paralelos com a sala de aula”; “foi grande número de alunos por sala que um aprendizado de novas técnicas a dificulta a atenção individualizada; serem trabalhadas com os alunos”; “a falta de suporte que instrumentalize importância dada a inter-disciplinaride; o professor a encontrar caminhos de o domínio do conhecimento; e disponi- escolarização do aluno com deficiência; bilidade da equipe terapêutica em nos carências na formação do educador; orientar”; “a importância de ter retorno falta de parâmetros para a avaliação e sobre o trabalho que a escola realiza; promoção de alunos; e preconceitos na e levar o conhecimento para a sala de relação família e escola, entre outros aula, dar novas visões e possibilida- problemas. des”; entre outros. Nossa intervenção tem ocorrido Alguns comentários dos participan- dentro das necessidades que são tra- tes foram: “Uma oportunidade de tirar zidas a cada encontro ou a cada visita dúvidas e aprender bastante”; “Trouxe escolar; desde orientações específi- soluções para as minhas necessida- cas ligadas a tecnologias assistivas, des”; ”Estou saindo muito melhor do sugestões de adequações estruturais que entrei. Foi ótimo!”; “Agradeço o em sala de aula, passando por escla- acolhimento e a receptividade. Para- SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 1 • Janeiro • Fevereiro de 2012 recimentos de quadros clínicos, dis- béns pelo lindo trabalho”; “A reunião cussões e reflexões sobre formas de foi de grande valia para minha formação aprendizagem, até alívio de angustia pessoal e profissional”; “Adorei muito, de professores através do acolhimen- pois mudou muito o meu ponto de vista to de seus sentimentos. Os relatos em relação ao meu comportamento”. de satisfações dos professores e das E algumas sugestões foram: maior mães em alguns casos são nossos frequencia nos encontros; ser mais di- parâmetros de avaliação do programa. vulgado; e a necessidade de um curso de formação para educadores. 10 - Cite um exemplo positivo e um que Em relação às dificuldades verifi- ainda precisa ser melhorado. Aponte camos que a criança com deficiência os principais comentários, depoimen- intelectual passa por uma situação tos e críticas feitas pelas pessoas bastante delicada ao fazer a passa- envolvidas, sejam profissionais da gem do ciclo do ensino fundamental 47
  • 50.
    1 para o2, uma vez que deixa de ter temas como limites e possibilidades um professor generalista e passa a de um diagnóstico, preconceito e ex- ter vários professores especialistas clusão, família, reconhecimento dos muito distanciados do processo de direitos da pessoa com deficiência, alfabetização, fase em que a maioria tecnologia assistiva, possibilidades em das crianças com deficiência intelec- metodologias e estratégias de ensino, tual ainda se encontra. Muito desses entre outros. Porém, não conseguimos alunos não apresentam condições de colocar o curso em prática devido à fal- acompanhar o conteúdo planejado para ta de uma parceria. O programa REDUC as series desse segmento e passam a no formato que hoje está tende a conti- ficar a margem na sala de aula, poden- nuar, tendo em vista o reconhecimento do refletir em comportamentos vistos da necessidade de darmos suporte como indisciplinados, mas na realidade às escolas e por acreditarmos que a refletem sua desmotivação decorrente aproximação entre saúde e educação desse despreparo do sistema escolar. se faz necessária para o benefício da pessoa com deficiência. 11 - Quais são as principais parcerias firmadas entre os setores de saúde e 12 - O que representa para você, tanto educação inclusivas após a implanta- profissionalmente, como pessoalmen- ção do projeto? O REDUC vai continu- te, a realização de um projeto em prol ar? A direção das Casas André Luiz da educação inclusiva e do resgate da aprovou os resultados e incentivou o cidadania de pessoas com deficiência trabalho? intelectual que ainda passam por situ- ações de discriminação e preconceito? A busca da parceria é contínua e O que mudou em sua vida após a rea- refletida em cada encontro e sempre lização deste projeto? temos a certeza de trocarmos conhe- cimentos e dialogarmos dentro de Pessoalmente é um projeto no qual SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 1 • Janeiro • Fevereiro de 2012 nossos saberes construindo caminhos acredito muito, até por atuar também mais assertivos para a pessoa com como psicóloga escolar em uma escola deficiência nos dois contextos. E para particular que recebe alguns alunos com tentar expandir nossa atuação, criar- deficiência, levando-me a ver de perto mos um curso de atualização e capa- as necessidades de formação e supor- citação de educadores no ambulatório te ao professor que atua diretamente da instituição; com uma programação com a pessoa com deficiência. Nos envolvendo áreas de psicologia, terapia atendimentos às mães de pacientes, ocupacional, fonoaudiologia, educação como por exemplo, no Grupo Reflexivo física e serviço social, visando fomentar realizado pela Psicologia, a demanda a reflexão do professor e instrumenta- mais freqüente são as insatisfações lizá-lo para as questões do cotidiano e dificuldades com a inclusão escolar escolar da pessoa com deficiência de seus filhos, sendo quase que um 48 intelectual. Nossa proposta abordava pedido explícito de darmos conta de
  • 51.
    resolvermos as incongruênciasno sis- serem as portas vozes de seus filhos tema educacional. Mas é claro que não e defensoras de seus direitos a uma temos essa condição e nos limitamos educação de qualidade. Mas temos a a fomentar o diálogo e a tentativa de certeza que com esse programa, conse- se buscar alternativas e caminhos para guimos dar uma pequena contribuição essa construção contínua do processo para uma sociedade mais justa para inclusivo. É preciso também fortalecer essas pessoas com deficiência. as mães atendidas na instituição para *maria Rozineti gonçalves, Coordenadora de Equipe *Leandra migotto certeza Técnica das Casas André Luiz há 17 anos, é Psicóloga é bacharel em Comunicação com especialização em Terapia Familiar e de Casal Social pela Universidade e Psicologia Institucional e Social e idealizadora do Anhembi Morumbi, jornalista programa REDUC, juntamente com sua equipe técnica desde 1998, e repórter espe- formado por Willian Chagas, Professor de Educação cial da Revista Síndromes. Foi Física Adaptada; Renata Masson, Terapeuta Ocupacio- editora da Revista Sentidos e nal; Cleide Santos, Assistente Social; Priscila Engman, Ciranda da Inclusão, além de SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 1 • Janeiro • Fevereiro de 2012 Fonoaudióloga e Maria Rozineti gonçalves, Psicóloga e escrever para diversos portais como Setor 3 do SEnAC/ Coordenadora da instituição. SP Rede SACI/USP e Inclusive. Ela tem deficiência física , (Osteogenesis Inperfecta), é assessora de imprensa da ABSW – Associação Brasileira de Síndrome de Williams, consultora em inclusão (premiada em Lima e na Co- lômbia), e mantém o blog “Caleidoscópio – Uma janela para refletir sobre a diversidade da vida”: http://leandra- migottocerteza.blogspot.com/. Conheçam os modelos de palestras, encontros, oficinas, cursos, treinamentos e materiais informativos sobre Diversidade e Inclusão, realizados em empresas, escolas, Ongs, centros culturais e grupos de pessoas no site da Caleidoscópio Comunicações – Consultoria em Inclusão: https://sites. google.com/site/leandramigotto/ 49
  • 53.
    índromes síndromes revista multidisciplinar de desenvolvimento humano Março • Abril de 2012 • Ano 2 • Nº 2 curso Autismo Módulo IV Alessandra Freitas Carolina Rabello Padovani Cristina Maria Pozzi Francisco B. Assumpção Jr. Marina Lemos Melanie Mendoza Milena Rossetti 13 anos www.atlanticaeditora.com.br
  • 54.
    C U R S O A U T I S M O - M ó D U LO I v Diagnóstico e diagnóstico diferencial psiquiátrico no autismo infantil 1. Introdução víduos com fala adequada, observa-se acentuado prejuízo na capacidade de Ao DSM-IV-TR (American Psychiatric iniciar ou manter uma conversação; uso Association, 2002), o autismo infantil é estereotipado e repetitivo da linguagem, retratado como um quadro iniciado antes ou linguagem idiossincrática; falta de dos três anos de idade, decorrente de jogos ou brincadeiras de imitação social, uma vasta gama de condições pré, peri variados e espontâneos, apropriados ao e pós-natais, sendo necessários um total nível de desenvolvimento. Finalmente, de seis (ou mais) itens das seções (1), os padrões restritos e repetitivos são (2) e (3), com pelo menos dois itens da manifestos através de preocupação seção (1), um da (2) e um da (3). Esses insistente com um ou mais padrões, itens são representados por prejuízo estereotipados e restritos de interesse, qualitativo na interação social, manifes- anormais em intensidade ou em foco; tado por pelo menos dois dos seguintes adesão aparentemente inflexível a rotinas aspectos: prejuízo acentuado no uso de ou rituais, específicos e não funcionais; múltiplos comportamentos não verbais, maneirismos motores estereotipados e tais como contato visual direto, expres- repetitivos (p. e., agitar ou torcer mãos são facial, postura corporal e gestos para ou dedos, ou movimentos complexos de regular a interação social; fracasso em todo o corpo); e preocupação persistente desenvolver relacionamentos com seus com partes de objetos. pares, apropriados ao nível de desenvol- Considerando-se a CID-10 (1993), SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 vimento; falta de tentativa espontânea encontramos o conceito de Transtornos de compartilhar prazer, interesses ou Globais do Desenvolvimento descrito realizações com outras pessoas (p. e., como um “...grupo de transtornos ca- não mostrar, trazer ou apontar objetos de racterizados por alterações qualitativas interesse), e falta de reciprocidade social das interações sociais recíprocas e ou emocional. Os aspectos relativos aos modalidades de comunicação e por um prejuízos qualitativos na comunicação repertório de interesses e atividades são manifestados através de atraso ou restrito, estereotipado e repetitivo. Estas ausência total de desenvolvimento da anomalias qualitativas constituem uma linguagem falada (não acompanhado característica global do funcionamento do por uma tentativa de compensar através sujeito, em todas as ocasiões.” de modos alternativos de comunicação, Assim, estabelecem-se subgrupos 52 tais como gestos ou mímica); em indi- específicos para seu diagnóstico, todos
  • 55.
    eles caracterizando diferentes quadros 2. Principais quadros clínicos clínicos, evoluções e prognósticos sendo, de importância no diagnóstico portanto, de fundamental importância seu diferencial estabelecimento. Assim, esse diagnós- tico diferencial dos quadros autísticos • 2.a. Diagnósticos Diferenciais intra- passa a existir dentro do próprio grupo de -grupo “Transtornos de Desenvolvi- Transtorno Invasivos do Desenvolvimen- mento” to, que engloba a Síndrome de Asperger, • 2.a.1. Diagnósticos Diferenciais intra- a Síndrome de Rett, os Transtornos De- -grupo Retardo Mental sintegrativos e os quadros não especifica- dos, bem como passa a ter que ser consi- O Retardo Mental (RM) é um quadro derado fora dessa categoria. Isso porque de extrema importância, não somente com o reforço da idéia do déficit cognitivo pela sua gravidade, mas também por- associado, bem como a partir de seu que as melhores estimativas mostram enfoque sob uma ótica desenvolvimentis- sua prevalência, considerando-se um ta, passa a relacioná-lo cada vez mais à quociente intelectual (QI) abaixo de 50, deficiência mental, uma vez que cerca de ao redor de 3 a 4 para 1.000 pessoas, 70 a 86% deles são também deficientes e estimando-se que a deficiência mental mentais. Wing (1988), reforçando essa leve (QI de 50 a 70) ocorra em 2 a 3% idéia, traz a noção de autismo como um das pessoas, embora esses dados só aspecto sintomatológico, dependente devam ser levados em consideração ao do comprometimento cognitivo, dentro serem observadas as características de uma visão dimensional, reforçando a da região estudada, bem como o meio tendência de o tratarmos não como uma sócio-econômico envolvido (World Health entidade única, mas como um grupo de Organization, 1985). doenças relacionadas, primariamente, a A proposta de 1959, da Associação déficits cognitivos. Americana para o RM define que “...o Sua idade usual de diagnóstico, ao retardamento mental refere-se ao fun- redor de três anos, caracteriza de forma cionamento intelectual geral abaixo da clara uma primeira dificuldade na sua média, que se origina durante o período SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 identificação, embora esse mesmo au- de desenvolvimento e está associado tor sugira que um diagnóstico já possa a prejuízo no comportamento adapta- ser bem estabelecido ao redor dos 18 tivo”. Engloba um quadro caracteri- meses de idade, estudos realizados com zado a partir das conseqüências que grandes amostras de portadores das apresenta, no âmbito da pessoa, da chamadas “psicoses infantis” descre- família e da sociedade, decorrente de vem uma distribuição bimodal, com um uma deficiência em nível biológico, que grupo de crianças com graves problemas acarreta uma incapacidade em nível já nos primeiros anos de vida, e outro funcional, que faz com que o indivíduo grupo com dificuldades somente após não apresente o desempenho espera- um período de desenvolvimento aparen- do de acordo com sua idade, sexo e temente normal. grupamento social. 53
  • 56.
    Não corresponde, portanto, a uma Entretanto, considerando-se que doença única, mas engloba um complexo o Retardo Mental corresponde a um de síndromes que têm como única carac- continuum que se estende do próximo terística comum a insuficiência intelectu- ao normal ao francamente anormal, de al. Considerando-se o DSM-IV-TR (2002), acordo com o potencial adaptativo do suas características fundamentais são indivíduo em questão, a discriminação representadas por um funcionamento in- cognitiva passa a ter fundamental im- telectual global significativamente inferior portância para o diagnóstico diferencial, à média, acompanhado de déficits ou pre- uma vez que no RM, a maior frequência juízos concomitantes no funcionamento de transtornos de conduta observada adaptativo atual, com um início anterior também é na área da sociabilidade, o que aos 18 anos de idade. reflete as dificuldades adaptativas dessa Essas características, a princípio, população. Observamos, então, condutas podem ser encontradas também nos caracterizadas por dificuldades no relacio- quadros de autismo, embora nesses, namento social, caracterizando timidez e alterações mais específicas e de cunho isolamento, frutos da baixa autoestima e qualitativo estejam associadas. Também de percepção das reais dificuldades no re- não fazem parte dos quadros de RM as lacionamento, e condutas de tipo irritável alterações de motilidade representadas e agressivo, decorrentes da dificuldade pelos rituais e pelas estereotipias de de instrumentalização e controle dos im- movimento, as alterações lingüísticas e, pulsos, com a conseqüente inadequação principalmente, as alterações na sociabi- ao ambiente social. Cabe ainda conside- lidade, uma vez que o isolamento intenso rar a presença freqüente de estereotipias com dificuldade no reconhecimento dos gestuais na população deficiente mental, padrões mentais do outro não é encon- o que dificulta mais ainda seu diagnóstico trado, obrigatoriamente, no RM. diferencial com os TIDs. A etiologia do Retardo Mental é variável, superpondo-se à encontrada • 2.a.2. Alterações de Linguagem no autismo, e pode, de modo geral, ser A ausência de linguagem e, con- SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 subdividida em fatores que atuam antes seqüentemente, de reações aparentes da concepção e que envolvem causas à voz do outro na criança de pequena genéticas e ambientais, consistindo idade, traz à baila a questão da surdez, nos aspectos mais importantes na sua que deve sempre ser investigada quando gênese. não se percebe a reação a voz, gestos Provavelmente essa superposição de e presença do outro. Da mesma forma, fatores, faz com que se encontre associa- alterações de linguagem, como disfasias da ao autismo, numa proporção de 70 a graves, podem apresentar, concomitante- 80% dos casos, com fatores genéticos. mente, alterações relacionais (dificulda- Também fatores ambientais de cunho pré des de imitação e interesses específicos) e peri-natal aproximam os dois transtor- e dificuldades de expressão afetiva que, nos, embora alguns deles pareçam ter embora distintas, devem ser investigadas 54 um peso mais específico no RM. de maneira cuidadosa.
  • 57.
    • 2.a.3. Carência Afetiva e comportamento repetitivo e/ou perse- O conceito de retração prolongada é verativo, com número limitado de focos interessante em função de seu apareci- de interesse. Assim, apenas por sua mento, tanto em patologias pediátricas descrição, já representa um diagnóstico como em patologias relacionais enquan- diferencial de importância, em que pese to uma forma de regulação normal da a idéia de continuum autístico descrito interação, constituindo-se numa reação por Wing (1988). de alarme, que aparece em quadros de Apresentam, habitualmente, nível depressão precoce, síndromes autísticas de inteligência normal ou acima da nor- ou transtornos invasivos de desenvol- malidade, associado a um padrão de vimento, transtornos ansiosos (como o aquisição de linguagem em geral também transtorno de estresse pós-traumático), normal, embora essa mostre déficits se- deficiências sensoriais, problemas nas mânticos. Paralelamente, observam-se relações emocionais, alguns transtornos comprometimentos diversos, detectados de alimentação e problemas relacionais. através de provas específicas. Consiste em um “apagamento” da crian- Sua epidemiologia é descrita como ça, com uma resistência aos estímulos de prevalência ao redor de 20 a 25 por relacionais, ausência de estímulos auto- 10.000, com maior proporção também -eróticos, rigidez facial, movimentos atípi- entre o sexo masculino. cos de dedos, choro e perda de apetite. O diagnóstico é realizado a partir do É descrita por Marcelli (2006) a partir da prejuízo qualitativo na interação social, passividade e inércia associada a este- envolvendo o prejuízo no comportamen- reotipias de extremidades e ausência de to não-verbal. Observa-se isolamento mímica. Embora a capacidade comuni- social, com extremo egocentrismo, falta cacional possa estar preservada, pode de habilidade em interagir com os pares, ser mascarada pela profunda retração e associada à falta de desejo de interagir inércia da criança afetada. e à pobre apreciação da trama social, com respostas socialmente impróprias. • 2.a.4. Diagnósticos Diferenciais intra- Sua socialização é menos comprometida -grupo “Transtornos Invasivos de De- que aquela dos portadores de autismo, SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 senvolvimento” embora seus padrões relacionais sejam deficitários e com marcantes dificuldades • 2.a.4.a. Síndrome de Asperger adaptativas. Interesses e preocupações Descrita por Asperger em 1944 e são limitados, com exclusividade de inte- reconhecida ao DSM IV-TR em sua quarta resses e aderência repetitiva a rotinas e edição (2002), corresponde a um quadro rituais, que podem ser auto-impostos ou de alta funcionalidade, embora seja tam- impostos por outros. bém um transtorno de desenvolvimento, Fala e linguagem são peculiares, no qual observamos alterações nas superficialmente perfeitas em sua expres- mesmas três áreas de desenvolvimento são, embora com alterações de prosódia, observadas nos quadros autísticos, a timbre, tom e altura, além de compreen- saber, relacionamento social, linguagem são diferente do que lhe é dito, incluindo 55
  • 58.
    interpretações literais. Problemas na microcefalia adquirida e, após um período comunicação não-verbal apresentam-se de estabilidade aparente, constata-se o a partir do uso limitado de gestos, lin- aparecimento de outras anormalidades guagem corporal desajeitada, expressões neurológicas, como síndromes pirami- faciais limitadas ou impróprias, olhar fixo dais, epilepsia, alterações vasomotoras, peculiar e dificuldades à proximidade etc. Ainda sob o ponto de vista diferen- física de outros. cial, não encontramos, à semelhança do Entretanto, sua maior peculiaridade que vemos nos autistas, os interesses é o interesse obsessivo em uma área específicos e os jogos estereotipados, a específica, apresentando, algumas vezes, rotação dos objetos, a recusa sistemática habilidades como hiperlexia ou memória do contato corporal e o apego excessivo para calendários. a determinados objetos. • 2.a.4.b. Síndrome de Rett • 2.a.4.c. Transtornos Desintegrativos Encefalopatia evolutiva, ligada ao Observados antes dos 24 meses, cromossomo X, com ocorrência no sexo com predomínio no sexo masculino, feminino, sendo reconhecidos entre 5 e padrões de sociabilidade e comunicação 30 meses de vida, apresentando marcado pobres, freqüente associação a síndrome déficit no desenvolvimento, com desace- convulsiva, além de prognóstico pobre. leração do crescimento craniano, retardo Sua principal característica é sobrevir intelectual marcado, além de grande após um período de desenvolvimento nor- associação com quadros convulsivos. mal e ser acompanhado de um período de Diferentemente dos quadros autísticos, regressão das aquisições, concomitante temos aqui uma criança com desenvolvi- ao aparecimento da sintomatologia que mento neurológico e psíquico normal até o caracteriza e que o faz similar aos qua- ao redor dos 18 meses de idade, quando dros autísticos. É marcante a perda das se dá uma parada no desenvolvimento, aquisições, principalmente lingüísticas, parada essa seguida de uma deteriora- o que o aproxima do antigo conceito de ção, com perda de funções anteriormente demência infantil. Fundamental se torna, SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 adquiridas, processada de maneira rápi- nestes casos, a avaliação neurológica, da e conduzindo a um estado autístico visando o diagnóstico de doenças neuro- e demencial, em menos de 18 meses. degenerativas. Sua evolução é reservada, Observa-se a perda da manipulação vo- levando a uma deterioração cognitiva luntária dos objetos, que é substituída por marcada e importante. movimentos estereotipados de membros superiores, alguns dos quais podemos • 2.a.4.d. Transtornos Invasivos não considerar característicos, como o bati- especificados mento de mãos cruzadas diante do peito, Quadros cuja idade de início é variá- assim como o ranger de dentes. vel, com predomínio no sexo masculino, Concomitantemente, e diferente- comprometimento discrepante na área mente dos quadros autísticos, podemos da sociabilidade, bom padrão comuni- observar ataxia de marcha e de tronco, cacional e discreto comprometimento 56
  • 59.
    cognitivo. Seu principal diferencial dos Transtornos da Comunicação quadros autísticos clássicos é a ausência de algum dos sintomas fundamentais a. Transtorno da linguagem expressiva para o diagnóstico do autismo. Pode-se, b. Transtorno misto da linguagem assim, encontrar quadros nos quais se receptivo-expressiva salienta o déficit social e comunicacio- c. Transtorno fonológico nal, mas não a presença de alterações d. Tartamudez (gagueira) motoras. Encontram-se neste grupo os quadros diagnosticados anteriormente É freqüente que a demanda de como portadores de “comportamentos atendimento desta população seja por autísticos”. problemas de comportamento, e o pro- fissional envolvido nesta avaliação deve, • 2.b. Diagnósticos Diferenciais com ao abordar essa criança ou adolescente, o grupo “Transtornos Específicos de portadora de inúmeras dificuldades emo- Desenvolvimento” cionais, sociais e familiares, associadas às dificuldades acadêmicas, ser capaz • 2.b.1. Transtornos do Desenvolvimen- de diferenciar entre causa e sintoma, o to do Aprendizado que pode ser feito inquirindo-se sobre Pesquisadores na área estimam que 5 o histórico acadêmico e o desempenho a 10 % seria uma estimativa razoável com em cada área de habilidade, retardo de a propalada maior freqüência desta condi- desenvolvimento psicomotor, retardo de ção em meninos sendo hoje considerada aquisição de linguagem, problemas da fruto de uma maior morbidade referida fala e prejuízo das habilidades cogniti- do sexo, ou seja, os meninos são mais vas. Os resultados dessa abordagem freqüentemente encaminhados para os psicoeducacional devem estabelecer a estudos por sua maior probabilidade de presença ou ausência de um transtorno apresentarem comportamentos disrupti- de aprendizagem. vos, que geram demanda de atendimento. Seu diagnóstico diferencial se dá com Sua classificação clínica, conforme os quadros de autismo de alto funciona- o proposto pelo DSM-IV-TR (APA, 2002), mento e de Síndrome de Asperger, que SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 pode ser observada no quadro que se apresentam déficits menores no que se segue (Quadro 1): refere à sociabilidade e à linguagem, sen- do passíveis de participar de programa- Quadro 1: Transtornos do Desenvolvi- ção acadêmica normal. Assim, buscam-se mento do Aprendizado os comprometimentos relativos à Teoria Transtornos do Aprendizado da Mente (presente nos portadores de a. Transtorno da leitura Transtornos de Aprendizado), aos pre- b. Transtorno da Matemática juízos nas funções executivas e na coe- c. Transtorno da expressão escrita rência central, observando-se um melhor Transtornos das Habilidades Motoras desempenho em detalhes, atividades de a. Transtorno do desenvolvimento da tipo ritualístico, bem como um prejuízo coordenação semântico na compreensão de textos, 57
  • 60.
    em que pese a observação freqüente de no desenho e uma incapacidade de dife- hiperlexia. renciar símbolos gráficos semelhantes, que se diferenciem apenas por sua dis- • 2.b.2. Transtornos do Déficit de Aten- posição espacial (como as letras b e d). ção e Hiperatividade (TDAH) A comorbidade com outros transtornos Enquanto diagnóstico, apesar de no- (transtorno de conduta, depressão, abuso meada a partir da disfunção atencional, e dependência de psicotrópicos, etc.) é faz-se necessário que estejam presen- freqüente, o que dificulta mais ainda seu tes, em mais de um ambiente, também diagnóstico diferencial. Assim, não é rara a impulsividade e a hiperatividade. Sua a confusão com quadros de autismo de prevalência, a partir de estudo abrangente alto nível pela existência, em ambos, de no qual se resumem 11 outros estudos, uma dificuldade atencional associada apresenta um pico de aparecimento de a uma disfunção executiva. Entretanto, 8% entre os 6 e 9 anos, com cifras me- nestas crianças não observamos um pre- nores para pré-escolares e adolescentes, juízo marcado na Teoria da Mente, nem sendo a prevalência diferencial entre os as dificuldades relacionais que podemos sexos (9% para meninos e 3.3% para verificar nos Transtornos Invasivos. meninas) menor que a habitualmente descrita em outros estudos. • 2.b. Diagnósticos Diferenciais extra- O quadro clínico caracteriza crianças, -grupo Transtornos Invasivos de De- que desde idades precoces, mostram senvolvimento irritabilidade, choro fácil, sono agitado e despertar noturno. A partir do primeiro • 2.b.1. Transtornos Psicóticos: Esqui- ano de idade, observa-se agitação psico- zofrenia motora, ocasionando quebra de objetos, A partir de todas essas dificuldades e demandando vigilância constante. que permeiam o diagnóstico dos quadros Desinteressam-se rapidamente por brin- esquizofrênicos na criança, a caracteriza- quedos ou situações lúdicas. Observa-se, ção de sua prevalência é difícil, apesar ainda, principalmente no sexo masculino, de, consensualmente, ser reportada SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 prejuízo no desenvolvimento da fala, com como mais rara que o autismo, conside- aquisição mais lenta e presença de tro- rado 1,4 vezes mais freqüente. Também cas, omissões e distorções fonêmicas, não há consenso quanto à relação entre além de um ritmo acelerado (taquilalia). os sexos, sendo que, tanto uma prepon- Essas condições se refletem em maiores derância do sexo masculino (1,5 a 2 ho- dificuldades e alterações no processo de mens para 1 mulher), quanto distribuição alfabetização da criança. Apresentam, igual entre os sexos, são descritas. ainda, prejuízo na coordenação motora Seu início é insidioso, principalmente e retardo na aquisição de automatismos na chamada esquizofrenia de início muito tardios (como amarrar um sapato ou precoce (VEOS, ou very early onset schi- utilizar um lápis). O desenvolvimento zophrenia, de início anterior aos 13 anos da noção têmporo-espacial também é de idade), com controvérsias relativas ao mais lento, resultando em dificuldades tipo de início precoce (EOS, ou early onset 58
  • 61.
    schizophrenia , de início anterior aos 18 2) Estudo neuropsiquiátrico, envolvendo anos), se agudo ou insidioso (Mercadan- aspectos de desenvolvimento, avalia- te, 1994). Observa-se maior freqüência ção física (na procura de estigmas dis- de alucinações auditivas (80%), parte genéticos), neurológica e psiquiátrica; das quais concomitantes a alucinações 3) Aplicação de escalas e questionários cenestésicas ou visuais. Alterações de específicos; pensamento são freqüentes, com prejuí- 4) Testes auditivos e de linguagem; zo na associação de idéias, bloqueio de 5) Avaliação oftalmológica; pensamento e delírios (principalmente de 6) Estudo genético com análise cromos- tipo paranóide), associando-se a embota- sômica (mapeamento) ou estudo de mento afetivo com ambitendência, perple- DNA, visando o estudo de fenótipos xidade e menor rendimento intelectual. comportamentais, a partir de caracte- Sua cronificação, principalmente nos rísticas comportamentais típicas de quadros de início muito precoce, é fre- determinadas síndromes e estudo das qüente e sua diferenciação dos quadros patologias ligadas ao X; de Transtornos Invasivos é dada a partir 7) Estudos de neuroimagem do início do quadro e idade de apareci- 8) Eletroencefalograma mento, bem como pelos sintomas de tipo 9) Potenciais evocados auditivos de tron- produtivo, como delírios e alucinações. co cerebral; auditivos corticais. Entretanto, pode ser confundida a partir 10) Testes específicos de triagem e do embotamento afetivo e das dificul- diagnóstico para erros inatos do me- dades na sociabilidade, decorrentes da tabolismos alteração de realidade e do déficit de 11) Outros exames laboratoriais pensamento e comunicacional. 12) Psicometria 12.a. Avaliações de Desenvolvimento 3. Conclusões 12.b. Avaliações de Personalidade 12.c. Instrumentos específicos Dentro dessa perspectiva multidisci- plinar, visando o estabelecimento de um Com a maior acurácia das pesquisas diagnóstico, específico e diferenciado, clínicas, um grande número de sub-sín- SÍNDROMES • Ano 2 • Nº 4 • Julho • Agosto de 2012 protocolos diagnósticos devem ser esta- dromes ligadas ao complexo “Autismo” belecidos de maneira similar, à seguinte: devem ser melhor identificadas nos pró- 1) Anamnese meticulosa, com ante- ximos anos, de forma a que os conheci- cedentes gestacionais, pré-, peri- e mentos sobre a área aumentem de modo pós- natais; significativo em um futuro próximo. 59
  • 62.
    AVALIAÇÃO PSICOPEDAGÓGICA CLÍNICA V CURSO PRÁTICO A Passos para realizar avaliação psicopedagógica clínica em crianças encaminhadas por problemas de aprendizagem. G Diagnóstico/Prognóstico/Encaminhamento. A Técnicas/instrumentos e procedimentos: Modelos de entrevista, Provas Operatórias de Piaget (Níveis operatório concreto e formal), Técnicas Projetivas, Instrumentos para avaliação da dislexia, Avaliação da Consciência Fonológica, Aplicação do TDE, Comportamentos TDAH frente à aprendizagem e o que observar para encaminhar ao neurologista, Orientação de relatório S Psicopedagógico, Orientação de encaminhamentos a outros profissionais, Discussão de casos. LOCAL: Avenida ACM, nº 811, Auditório do Edifício Emp. Joventino Silva – L Itaigara. Salvador/BA. DATA/HORÁRIO: 05/10 – 08:00 às 17:30h I 06/10 – 08:00 às 17:30h 200,00 (Profissionais e estudantes de M INVESTIMENTO: Psicopedagogia) I INSTRUTORA: T SIMAIA SAMPAIO A D Psicopedagoga Clínica FAÇA SUA INSCRIÇÃO: Especialista em Neuropsicologia da Aprendizagem Tel.: 71-9210-4845 (tim) ou 71-9971-2497 (vivo) das A 18h às 21h. Professora da disciplina Diagnóstico Psicopedagógico Clínico em cursos de pós-graduação em Psicopedagogia ou e-mail simaia@psicopedagogiabrasil.com.br S Autora do livro: Manual Prático do Diagnóstico Psicopedagógico Clínico e outros. Site: www.psicopedagogiabrasil.com.br A ficha de inscrição deverá ser encaminhada por e-mail. A inscrição só será efetivada após confirmação do pagamento. O valor da inscrição poderá ser pago por depósito à vista* ou por cartão de crédito através do site www.psicopedagogiabrasil.com.br. *Dados bancários para depósito: Banco Bradesco, Agência 1822, Conta Poupança: 837-0 – Simaia Sampaio. Confirmação de depósito deverá ser repassada por e-mail.
  • 63.
    VYGOTSKY HOJE: EDUCAÇÃO E CRIMINALIDADE EXISTE SOLUÇÃO PARA A CRIMINALIDADE? O IPAF - Lev Vygotsky traz, pela primeira vez ao Brasil, a família do renomado autor Lev Vygotsky para discutir o tema e analisar o papel da educação vygotskyana na solução desse problema. Quando? 20 de outubro de 2012 Onde? Centro Cultural Hiroshima do Brasil Público Alvo: Psicólogos, Neuropsicólogos, Educadores, Professores, estudantes de Pedagogia e Psicologia. Inscrições: www.ipaf.com.br Conferencistas Inscrições Abertas :: Guennady Kravtsov "Key school: Uma experiência de sucesso educacional" :: Oleg Kravtsov "O adolescente criminoso e a educação" :: Elena Kravtsov "O papel do brincar para o educador" :: Quintino Aires "A habilitção neuropsicológica na escola" Haverá tradução simultânea. Taxa de Inscrição Estudantes de Graduação (Enviar comprovante ou carteirinha) Profissionais R$ 75,00 até 31/08 R$ 150,00 até 31/08 R$ 85,00 até 28/09 R$ 170,00 até 28/09 R$ 100,00 até 10/10 R$ 200,00 até 10/10 R$ 150,00 no evento R$ 300,00 no evento o funde a discussã Participe e apro do diálogo da importância sicologia e o entre a neurop ional. sucesso educac Informações: (11) 2046.0314 | www.blcongressoseventos.com.br bleventos@uol.com.br | bl@blcongressoseventos.com.br Realização: Apoio: Organização:
  • 68.
    N Cu est rso a e síndromes Mó Au diç revistA multidisciplinAr dO desenvOlvimentO humAnO Julho • Agosto de 2012 • Ano 2 • Nº 4 • R$ 25,00 du ti ã lo sm o 1 a 3 de novembro de 2012 IV o Centro de Eventos Plaza São Rafael Porto Alegre/RS Informações e inscrições: www.concriad.com.br Transtorno bipolar do humor Francisco B. Assumpção Jr. Eixos temáticos: Evelyn Kuczynski ● Álcool e drogas na adolescência ● Transtorno de conduta ● Bullying ● Transtornos alimentares na adolescência ● Enurese ● Transtornos de ansiedade síndromes - Ano 2 - Número 4 - Julho/Agosto de 2012 ● Problemas de aprendizagem ● Transtornos de humor ● Resiliência ● Treinamento de pais ● TDAH ● Violência doméstica Palestrantes confirmados: ALMIR DEL PRETTE/SP ● ADRIANA BINSFELD/RS ● ADRIANA MELCHIADES/DF ● ADRIANA SELENE ZANONATO/RS ALINE HENRIQUES REIS/PR ● ANGELA ALFANO CAMPOS/RJ ● ANERON CANALS/RS ● BENOMY SILBERFARB/RS CHRISTIAN HAAG KRISTENSEN/RS ● CARMEM BEATRIZ NEUFELD/RS ● CAROLINA SARAIVA DE MACEDO LISBOA/RS ISSN 2237-8677 DANIELA SCHNEIDER BAKOS/RS ● DANIELA BRAGA/RS ● EDUARDO BUNGE/ARG ● FABIANA GAUY/GO FERNANDO GARCIA/ARG ● ILEANA CAPUTTO/URU ● INÊS CAPUTTO/URU ● ISABELA DIAS FONTENELLE/RJ LISEANE CARRARO LYSZKOWSKI/RS ● LUCIANA NAGALLI GROPO/PE ● LUCIANA TISSER/RS ● LUIZ PRADO/RS MARIA AUGUSTA MANSUR/RS ● MARINA GUSMÃO CAMINHA/RS ● MAYCON TEODORO/MG ● NEIVA TEIN/RS NEWRA ROTTA/RS ● RENATA BRASIL/RS ● RENATO CAMINHA/RS ● TÂNIA RUDNICK/RS ● VALQUIRIA TRICOLI/SP VINICIUS GUIMARÃES DORNELLES/RS ● ZILDA APARECIDA PEREIRA DEL PRETTE/RS transtorno Bipolar A importância da Cursos: e depressão família para que T.R.I – TERAPIA DE RECICLAGEM INFANTIL Dr. Miguel Angelo Boarati tem transtorno Marina Caminha e Renato Caminha - RS Leandra Migotto Certeza bipolar AVALIAÇÃO E PROMOÇÃO DE HABILIDADES SOCIAIS NO PROCESSO TERAPÊUTICO Por Sonia Maria Bandeira Zilda Del Prette e Almir Del Prette - SP sobre a noção UMA INTERVENÇÃO PREVENTIVA EM TCC COM ADOLESCENTES Carmem Beatriz Neufeld - SP de tempo O sonho Melanie Mendoza Por Maria de Fátima de Oliveira TRATAMENTO DA DESMOTIVAÇÃO DO ADOLESCENTE USUÁRIO DE DROGAS Renata Brasil - RS TERAPIA DE LOS TRASTORNOS DE ANSIEDAD EN LA NIÑEZ Y ADOLESCÊNCIA escola especial: Fernando Garcia - ARG conceitos e PADRES DISFUNCIONALES: EL MANEJO Y LA INCLUSION EM LA TERAPIA DE LOS PADRES reflexões COM TRANSTORNOS GRAVES DE PERSONALIDAD dra. Alessandra Freitas Russo Ileana Caputto - URU Christine Luise Degen HIPNOTERAPIA COGNITIVA COM CRIANÇAS Benomy Silberfarb - RS inclusão escolar 13 anos Simone Cucolicchio Organização: Promoção: Apoio: www.atlanticaeditora.com.br