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REFORMADOR
                                 Revista de Espiritismo Cristão
                                  Fundada em 21-1-1883 por
                                     Augusto Elias da Silva
                                 Ano 119 / Maio, 2001 / Nº 2.066
                                            ISSN 1413-1749
Propriedade e orientação da

                                                                                www.febrasil.org.br
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 FEDERAÇÃO ESPÍRITA
     BRASILEIRA
  Deus, Cristo e Caridade

    Direção e Redação
   Rua Souza Valente, 17
  20941-040 Rio RJ Brasil


Editorial – União e Trabalho
Verdade e Liberdade — Juvanir Borges de Souza
A Virgem — Judas Isgorogota
A Reencarnação no Velho Testamento — Javert Lacerda Santos
Mãezinha, Deixa-me Voltar!... — Mário Frigéri
Vingança — Roosevelt Pinto Sampaio
Mães no Além-Túmulo — Ismael Ramos das Neves
Sórdidos Porões — Joanna de Ângelis
O Blefe da Morte — Mauro Paiva Fonseca
O Primeiro Janeiro — Richard Simonetti
No Dia do Trabalho — Passos Lírio
Esflorando o Evangelho — Contristação — Emmanuel
Da Satisfação das Necessidades à Felicidade – Nadja do Couto Valle
A FEB e o Esperanto – Democracia Lingüística — Affonso Soares
Encontro de Espíritas-Esperantistas
Será que o Aborto Diminui a Criminalidade? — José Yosan dos S. Fonseca
Administração — Iaponan Albuquerque da Silva
Reclassificação da Literatura Espírita no Sistema Dewey de Classificação
Fé — Washington Borges de Souza
A FEB tem Novo Presidente
FEB/CFN – Conselho Federativo Nacional — Súmula da Reunião Ordinária de 2000
Retificando...
Federação Espírita Brasileira – Administração
Seara Espírita
Assinatura de Reformador - Edição Impressa
Seja Sócio da FEB
Nota: No mês de maio comemora-se o Dia das Mães. Por isso, Maternidade é o tema de nossa capa,
como homenagem a Maria de Nazaré – Mãe de Jesus – e a todas as Mães, através das seguintes matérias:
A Virgem, poesia em que o autor ressalta o amor de Jesus por Maria, sua Mãe; o poema intitulado Mãezi-
nha, deixa-me voltar!..., sobre a mãe que chora e clama pelo filhinho desencarnado, e repele o seu retorno
ao ventre materno por meio do aborto; e o artigo Mães no Além-Túmulo, acerca do amor que as mães
desencarnadas continuam a dedicar aos seus filhos da retaguarda material.
Editorial
                    União e Trabalho
     Os Espíritos Superiores que trouxeram a Doutrina Espírita com que Allan
Kardec ilumina a Nova Era através de suas obras básicas, destacaram sempre
que essa mensagem veio para a Humanidade inteira, e trabalham no sentido de
que os seus ensinos alcancem todos os homens, pois através do seu conheci-
mento e da sua vivência, teremos todos melhores condições para sair do círculo
de dor, ignorância, violência e sofrimento que ainda caracterizam a nossa socie-
dade. É, sem dúvida, um trabalho de vulto, que reclama dedicação, coragem e
perseverança, já que é natural que haja obstáculos e dificuldades na sua execu-
ção.
      Somos, os espíritas encarnados, convidados a participar dessa grande
obra de regeneração humana. Nessa tarefa, podemos e devemos estabelecer
estratégias, elaborar programas, fazer planejamentos, montar planos de ação e
realizar treinamentos. Todavia, se não construirmos entre nós os laços da união
sincera e fraternal, que expressam o esforço honesto de colocar em prática os
princípios cristãos que nos norteiam, marcados pela humildade e pela dedica-
ção, por certo todo esse trabalho será em vão, pois não alcançaremos o nosso
desiderato.
      A tarefa que nos cabe realizar, em conjunto, é a de tornar a Doutrina Espí-
rita cada vez mais conhecida e melhor praticada. É obra para muitas reencarna-
ções, que reclama perseverança e continuidade ininterrupta. É tarefa aparente-
mente complexa, mas que se torna simples quando a executamos de conformi-
dade com os princípios de amor que Jesus exemplificou para todos nós. Estar
nessa tarefa é, sem dúvida, uma manifestação de fé dos Amigos Espirituais na
nossa capacidade de vencer nossos próprios desafios.
      A difusão da Doutrina Espírita não é tarefa restrita a uma única pessoa ou
instituição. É trabalho para todos aqueles que, beneficiados pelo seu conheci-
mento, sentem-se no dever de estudá-la, praticá-la e divulgá-la para que seus
benefícios alcancem os que dela sentem necessidade. É trabalho para os dis-
postos a enfrentar os desafios da indiferença, do desinteresse e da rejeição e
para os interessados em romper as próprias limitações, em enfrentar as próprias
falhas e fazer valer o propósito do autoburilamento. Para isto, todavia, é indis-
pensável a união de todos, voluntária e consciente, em condições de igualdade,
orientando sua ação dentro dos princípios doutrinários que norteiam a Codifica-
ção.
      União e trabalho é o que o Mundo espera dos voluntários espíritas na sua
tarefa de colocar a mensagem consoladora ao alcance de todos. União e traba-
lho é o que Jesus espera de todos nós, no atendimento aos carentes de luz e
aos sedentos de paz.              l
Verdade e Liberdade
                              JUVANIR BORGES DE SOUZA

       Há uma correlação perfeita entre a Verdade e a Liberdade, quando se procura o conceito
mais profundo que cada um dos termos encerra.
       Por isso tem significação especial o ensino do Cristo, subordinando a liberdade ao conhe-
cimento da verdade: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.”
       Mas, o que é a verdade?
       Essa mesma pergunta fez Pilatos a Jesus, quando de seu julgamento, e o Mestre perma-
neceu silencioso.
       De que adiantaria a resposta se os homens da época, inclusive o governador romano da
Judéia, não estavam em condições de compreendê-la?
       Era necessário que decorressem muitos séculos, que a Humanidade progredisse intelec-
tual e moralmente, que viesse a complementação dos ensinos do Mestre através do Consolador
para que o homem tivesse condições de reformular a pergunta e obter resposta satisfatória.
       A verdade absoluta é una, compreendendo todos os princípios estabelecidos pelo Criador
na ordem física e na ordem moral-espiritual.
       Sua amplitude é, pois, infinita.

      Mas a verdade, na sua forma relativa, vai sendo conhecida pelo homem
na medida da sua evolução.
       Verdades denominadas científicas, no campo físico, são descobertas rela-
tivas à matéria. Ocorre que o homem, o cientista, no afã de tudo saber, domina-
do pelo orgulho, julga ter descoberto verdades eternas. Entretanto, novas pes-
quisas demonstram que a verdade anterior é substituída por outra. Na Física, na
Biologia, na Medicina, é comum os conhecimentos serem substituídos por ou-
tros, numa sucessão de verdades provisórias.
       No campo moral-espiritual, a grande fonte da Verdade é Jesus, o Cristo de
Deus, que se tem feito ouvir em todas as épocas, desde tempos imemoriais,
através de missionários e mensageiros enviados a este Orbe sob sua orientação
de Governador Espiritual da Terra.
       Seus ensinos diretos, por ocasião de sua presença pessoal na Terra, retifi-
caram conceitos anteriores e ratificaram outros, trazidos por seus emissários.
       O Filho de Deus fez-se ouvir depois de sua passagem pela Terra, através
de seus apóstolos e de seu Evangelho, chegado aos nossos dias.
       Com o Consolador – a Doutrina dos Espíritos –, o “Espírito de Verdade” re-
tifica as incorreções interpretativas dos homens, através de muitos séculos, e
deixa à Humanidade novos aspectos da Verdade, a serem compreendidos pro-
gressivamente, na medida em que os homens, despertos, possam entendê-los.
       Assim, quanto mais se eleva intelectual e moralmente, mais nítida se apre-
senta a verdade à percepção do Espírito imortal.
       Na Doutrina dos Espíritos, uma avalancha de revelações, de explicações,
de demonstrações e de deduções lógicas, trazidas pelas Vozes do Céu, recolo-
cam muitas coisas no seu verdadeiro sentido, como adverte o Espírito de Verda-
de no Prefácio de O Evangelho segundo o Espiritismo.
       De outro lado, as ciências do Mundo, cultivadas por Espíritos a elas dedi-
cados, tornam possível o avanço do conhecimento no que se refere à materiali-
dade.
       São aspectos diferenciados da Verdade, pondo à mostra princípios da or-
dem moral e da ordem física que conduzem a Humanidade ao próprio aperfei-
çoamento. É a lei do progresso em funcionamento, lento mas inexorável.
                                        ...
      Tudo o que é verdadeiro é bom.
      A Verdade não se pode contrapor ao Amor e à Justiça, já que procedem da
mesma fonte Superior – o Criador de todas as coisas, o Legislador Divino.
      Aquele que persistir na busca da Verdade será libertado do erro, do peca-
do, da mentira, da ilusão, da ignorância, do mal.
      O caminho para a busca da verdade que liberta não é fácil. Entretanto, to-
dos nós, Espíritos imperfeitos que habitamos mundos inferiores, como a Terra,
temos a perspectiva do aperfeiçoamento, vale dizer, do progresso individual e
coletivo.
      Os meios para essa busca são o trabalho útil constante, a perseverança no
bem, a prática cada vez mais ampla do amor e da justiça, nas suas acepções
mais elevadas e abrangentes.
      O Criador dotou-nos de todos os requisitos para a evolução individual: inte-
ligência, razão, vontade, livre-arbítrio, discernimento entre o bem e o mal através
da consciência.
      A cada um cabe o dever de utilizar esses dons no sentido do bem e do
progresso.
      Acontece que, no uso do livre-arbítrio, inúmeros Espíritos agem em sentido
contrário ao do seu próprio progresso.
      Daí a necessidade das retificações dos erros, o que demanda tempo e su-
cessivas reencarnações em mundos materiais como a Terra.
      A sujeição ao erro equipara-se à escravidão ao mal.
      A Verdade é libertadora.
                                        ...
       Liberdade tem significações diversas no mundo que habitamos.
       Pode significar transferência de poder, cessação de uma sujeição a ou-
trem, como no caso da libertação da escravatura negra. Noutro sentido, é a rea-
lização dos próprios desejos, ou a desobediência às leis humanas e às leis mo-
rais, confundindo-se com a licenciosidade para se fazer o que bem se entenda.
Muitas vezes confunde-se o abuso com a liberdade.
       Mas libertar-se significa também conhecer, beneficiar-se com a verdade,
como na célebre sentença do Cristo.
       Tanto mais livre será o Espírito quanto mais progredir no conhecimento das
verdades eternas na conquista das virtudes.
       Na divisão das leis morais, os Espíritos Reveladores, em O Livro dos Espí-
ritos, dedicam todo um capítulo à Lei de Liberdade.
       Que espécie de liberdade pode aspirar o Espírito sujeito à vida material em
um mundo de expiações e provas?
       De forma geral todos aspiram à liberdade, mas não se dão conta de que
aceitam e se acomodam às próprias inferioridades e à ignorância, numa contra-
dição que raia ao paradoxal.
       “Para achar a verdade, é preciso procurá-la com um coração simples.”
       Este pensamento, que é de Bernardin de Saint-Pierre, reflete o espírito do
Cristianismo e do Espiritismo.
A busca da verdade, com o desenvolvimento do espírito crítico, não exclui a
humildade, que é o reconhecimento das próprias limitações, nem os sentimen-
tos do amor e da justiça, nas suas mais altas expressões.
      Somente o conhecimento da verdade, com a segurança da sabedoria e dos
bons sentimentos, pode oferecer à liberdade campo propício à sua atuação se-
gura nas relações humanas.
      Sem a base da verdade, a liberdade, mal compreendida, pode ser utilizada
por indivíduos ignorantes, corruptos, inescrupulosos e egoístas, levando às po-
pulações terríveis pesadelos sob a forma de perseguições, injustiças, conflitos,
etc., como é comum no mundo que habitamos, nos regimes ditatoriais da atuali-
dade e nas autocracias do passado.
      O escravagismo, o absolutismo e o fanatismo, formas de dominação do
homem pelo homem, encontram nos ideais de liberdade, igualdade e fraternida-
de oposições firmes e lúcidas em prol das reformulações nas organizações polí-
ticas e sociais.
      Não são livres os que ignoram, os que erram, os que se comprazem no
mal. Pelo contrário, esses são escravos do pecado, como asseverou Paulo.
      O materialismo é, pela própria natureza de suas concepções, a contraposi-
ção da verdade e da liberdade.
      Aquele que nega a existência de Deus, o Criador, e a si próprio como alma
imortal, que usa seus atributos sem reconhecer-lhes a verdadeira natureza, e
que só admite a existência da matéria, perceptível por seus sentidos físicos, não
tem condições de libertar-se dos elos da ignorância, sem antes deparar-se com
a realidade do Espírito.
      Enquanto procurar explicar os fenômenos da Vida que o cerca pelo simples
acaso da agregação e desagregação da matéria orgânica permanecerá na con-
dição de morto espiritual, vítima da ignorância e do erro, escravo do nada.
      Essa terrível limitação materialista divorcia-se da Verdade evidente, escra-
viza o ser ao niilismo, mata a esperança na vida futura, tornando-o um confor-
mista ou um indiferente diante da morte, que é, para ele, o fim sem opção, o
nada absoluto.
      Essa pobre criatura, por mais livre que se julgue perante as leis humanas,
não se pode libertar de uma concepção errônea que a escraviza. Só se vai li-
bertar pela realidade da vida – a verdade da existência do Espírito – com que se
deparará fatalmente.
      Muito acima dos conceitos acanhados do materialismo, que conduz ao
nada, paira uma realidade radiosa, a verdade límpida e fulgurante do Espírito.
Sua natureza é independente da matéria. Sobrepõe-se a ela, domina-a, agita-a e
dela se serve para seu progresso e libertação.
      Para toda ação no Bem a liberdade é essencial, devendo ser utilizada com
a responsabilidade decorrente do conhecimento das realidades imanentes – a
Verdade, o Amor, a Justiça.
      O Cristo é o libertador de todos os que seguem sua Mensagem. l
A Virgem
                          JUDAS ISGOROGOTA

                                          (Palavras de Oscar Wilde, recolhidas por
                                   Léonard Sarluis e publicadas por Guillot de Saix.)


Nesse dia, Jesus, que perfumado
acabara de ser por uma outra Maria,
sua Mãe encontrou.
Maria olhou-o com um olhar magoado.
Nos olhos seus só a tristeza havia.
Jesus lhe perguntou:

– Ó minha Mãe, por que estão teus olhos
tão tristonhos assim?
E a Virgem respondeu: “– Filho, os meus olhos
andam tristes assim por tua causa...
Não me amas a mim...

Já quando me deixaste para ires
ter com os doutores e com os sacerdotes,
lembras-te, filho meu?
disseste-me palavras que feriram
como punhais meu coração dorido:
– “Mulher que de comum há entre ti e Eu?”

E agora, não contente tu de andares
pelas estradas juntamente aqueles
que no pecado estão,
falas pelo caminho às pecadoras,
filho do coração...”

Jesus beijou-a ternamente e disse:
– “Mulher, que de comum há entre ti e Eu?
A um médico interessa apenas o doente...
E eu vim remir, ó Mãe, pecadores e infiéis...
A este mundo seria inútil minha vinda,
se todas as mulheres
fossem puras assim como tu és...”



Fonte: ISGOROGOTA, Judas. Interlúdio, São Paulo: Edição Saraiva, 1950, p. 41-43.
A Reencarnação no Velho Testamento
                            JAVERT LACERDA SANTOS


     A reencarnação é um assunto bastante abordado pelos expositores espí-
ritas, muito embora cada um a analise de acordo com a sua compreensão, mas
sempre respeitando o ensino da Doutrina Espírita.
      Allan Kardec sempre recomendou a necessidade da leitura constante das
obras básicas para não comprometer a Doutrina.
      Se a reencarnação não fosse um fato verdadeiro, Jesus não teria falado tão
claramente sobre a necessidade de nascer de novo.
      Os expositores do Evangelho de Jesus pregam, das tribunas, que a Doutri-
na Espírita é a chave capaz de melhor explicar os ensinamentos do Mestre e
Senhor, e é verdade.
      Haja vista o diálogo de Jesus com Nicodemos, que, apesar das explica-
ções, ele não compreendeu como podia um homem velho nascer de novo. En-
tretanto, quando os apóstolos indagaram de Jesus “porque era necessário que
Elias viesse primeiro”, após as explicações do Mestre, entenderam que Jesus
falava de João Batista (Elias reencarnado) e que os homens daquela época
pouco sabiam do Mundo Espiritual e muito menos como se dá a reencarnação
(de onde vem o Espírito e para onde ele vai após a desencarnação).
      Esta foi a incompreensão de Nicodemos. “Em verdade vos digo, ninguém
pode entrar no reino dos céus se não nascer de novo”, disse Jesus.
      Por esta e outras incompreensões é que Jesus prometeu enviar outro Con-
solador, em nome de Deus, que ficaria conosco eternamente e nos faria relem-
brar Seus ensinamentos e nos revelaria outros ensinamentos que o mundo ain-
da não podia compreender. Esse Consolador é a Doutrina Espírita, que foi reve-
lada pelos Espíritos do Senhor.
      O primeiro mandamento da lei de Deus, recebido por Moisés, no Monte Si-
nai, diz textualmente: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito,
da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti
imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus,
nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás nem
lhes darás culto; porque eu sou o Senhor teu Deus, Deus zeloso que puno a ini-
qüidade dos pais nos filhos, na terceira e quarta geração, daqueles que me abor-
recem” (Êxodo, 20:1-5).
      O espírito desse mandamento ensina claramente a necessidade e a justiça
da reencarnação.
      Quando a lei diz “porque eu sou o Deus zeloso que puno as faltas dos pais
nos filhos, na 3a e 4a gerações, é porque, na 1a e na 2a, ele (o pai) ainda é
contemporâneo do filho e do neto; mas, na 3a e (ou) na 4a, geralmente ele já
desencarnou e poderá estar reencarnando na sua própria descendência e vindo
colher o que plantou.
      Assim, a punição cai no próprio Espírito culpado e não em qualquer outro
descendente; porque nenhum Espírito é castigado pelas faltas de seu ancestral.
      Os Espíritos podem reencarnar nas mesmas famílias, para que se cumpra
o ensinamento de Jesus: “A sementeira é livre mas a colheita é obrigatória.”
      Como os Espíritos reencarnam sucessivamente, tantas vezes quantas fo-
rem necessárias ao seu adiantamento, pode acontecer, se for necessário, que o
Espírito de um homem (ou mulher) venha a reencarnar na sua própria descen-
dência; e aí é que, na 3ª ou na 4ª geração, é o próprio Espírito que vem colher os
“frutos” de sua sementeira. É a justiça de Deus e não uma punição. É a sabedo-
ria Divina dando oportunidade ao Espírito de reparar suas próprias faltas.
      “O vento sopra e ninguém sabe de onde ele vem, e nem para onde ele vai.”
l
Mãezinha, Deixa-me Voltar!...*
                        MÁRIO FRIGÉRI

                  “(...) Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.”
                                                            Jesus. (João, 10:10.)


Mamãezinha, vi teu desencanto,
Registrando-o no meu coração;
Procurei enxugar o teu pranto,
Envolvendo-te em minha afeição.

Por mil vezes vestida em ternura
A minh’alma com a tua orou,
Quando ias, junto à sepultura,
Procurar-me onde já não estou.

Quantas vezes com doces palavras
Quis dizer-te que nunca houve adeus;
Sem consolo, porém, tu choravas,
Imprecando, infeliz, contra Deus.

Me chamavas... Tão forte me veio
Teu apelo, que eu quis, outra vez,
Aninhar-me, mãezinha, em teu seio,
Mas negavas-te a tal gravidez.

Eras bela e de talhe formoso...
Não querias, por isso, gestar
Outro filho... e eu, cá, pressuroso,
Desejando ao teu ventre voltar...

Muitos anos segui os teus passos,
Preso a ti pelo mútuo sofrer;
Eu sonhando o calor de teus braços,
Tu, porém, repelindo-me o ser.

Mas um dia, mamãe, descuidosa,
Me albergaste em teu seio envolvente,
E uma prece de luz, silenciosa,
Murmurou meu corpinho nascente.
Que alegria, meu Deus! Nesse instante,
Explodiu a minh’alma em canção:
Eu veria outra vez teu semblante,
Pulsaria com o teu coração!

Encolhi-me inteirinho no ovo,
Prelibando o momento tão santo
De beijar tuas faces de novo
E teus olhos mareados de pranto!

Era a vida a estuar: ossatura,
Carne em flor... ah, mistérios infindos!
E eu sonhando ostentar a estatura
Do papai e os teus olhos tão lindos!
Mas, mamãe, tu que tanto chamavas
Por meu nome... ao sentires-me em ti,
Rebentaste o teu peito em mil lavas
De revolta, igual quando parti.

Protestavas amar-me e querer-me
Nas lembranças de teu coração,
Recusando, porém, receber-me
Outra vez pela reencarnação...

Só queria outra vez ser criança,
Pentear tua mecha ondulada,
Espargir flores, sim, de esperança
Sob os teus pés cansados da estrada...

Tudo em vão! Piedade e assistência
Por nós dois supliquei... e dormi.
E arriscaste a preciosa existência
Para, ao fim, expulsar-me de ti!

Atiraste-me às mãos assassinas
De impiedoso e venal charlatão:
Teu filhinho animoso e traquinas
Retalhado, mãe, sem compaixão...

Quis, com frio, aquecer-me na pira
De tua alma, a envolver-me em saudade:
Teu amor, porém, era mentira;
Teu desejo era só enfermidade.
Não quiseste, em teu gesto aloucado,
            Perceber que era teu filho, ali:
            Mãe, aquele embrião extirpado
            Era eu que voltava pra ti!

            Tenho pena de ti, pobrezinha!
            Pois reclamas de Deus, que, com amor,
            Me chamou, certo dia, e sozinha
            Tu ficaste a carpir tua dor.

            Tu ficaste a carpir... Entretanto,
            Ao clamares com imensa saudade,
            Quando Deus respondeu ao teu pranto,
            Me imolaste com toda a impiedade.

            Oh, mãezinha, me deixa voltar!...
            Deus é Amor... é o Amor que nos fez!
            Eu só peço em teus braços ficar
            E beijar teu rostinho outra vez!



     * Versificação da página “Carta à Mãezinha”, do livro Depoimentos Vivos – Divaldo P.
Franco – Diversos autores espirituais – Salvador: Livraria Espírita Alvorada Editora, 2000, pág.
105.
Vingança
                          ROOSEVELT PINTO SAMPAIO

     A vingança é um sentimento inferior que se liga ao ódio, ao rancor, à
desforra, enfim à busca de justiça pelas próprias mãos. Notem que todas essas
ações, a ela ligadas, são de baixo nível moral.
      A vingança povoa muitos romances espíritas, que narram encarnações su-
cessivas presididas todas por esse sentimento e isso demonstra a incompreen-
são do Espírito ao processo de evolução ao mostrar que em novas encarnações
volta a falir nos compromissos assumidos, quando da programação de seu re-
torno à Terra. Esses Espíritos provam não ter aprendido que a justiça só a Deus
pertence.
      As obsessões são muitas vezes o resultado dessas incompreensões. Sur-
ge um vingador, que se supõe dono da verdade e juiz, por si só ou incitado por
outros Espíritos inferiores de vibrações semelhantes, e que se lança à busca de
seu desafeto que será massacrado por ataques irresponsáveis. Esses Espíritos
estão acumulando, assim, novos débitos que poderiam ser evitados se enten-
dessem o verdadeiro valor do perdão, apontado por Jesus como o instrumento
usado pelo amor para solucionar problemas de tal ordem.
      O Mestre nos mostrou a importância do perdão; que ninguém chegará ao
Pai sem antes exercer o perdão plenamente. Como desejarmos ir ao Pai para
pedir qualquer coisa sem que por nossa parte já tenhamos dado mostra de ser
capazes de nos reconciliar com os nossos inimigos?
      Inimigos? Como pensar dessa maneira quando sabemos que somos todos
filhos do mesmo pai: Deus?
      Este sentimento só poderia estar vinculado a quê? Ao egoísmo e ao orgu-
lho, os dois grandes males que afetam a Humanidade.
      O que vemos é ainda o predomínio do materialismo que acirra o egoísmo
fazendo com que os indivíduos se dirijam à busca de bens, de poder, de posição
que quando alcançados fazem brotar o orgulho, a prepotência, chegando a criar
distância entre os indivíduos que passam a ter um tratamento indevido e, às ve-
zes, em muitos casos, até mesmo indigno.
      Por outro lado, quando os objetivos dos poderosos, dos que detêm o poder
não são alcançados, sentimentos inferiores como a inveja, o despeito, conjunto
que demonstra nossa inferioridade moral, passam a dominar suas ações, vindo
a funcionar como as causas para o aparecimento da vingança.
      Quantos de nossos irmãos que se apresentam em dificuldades são mal-
tratados, vilipendiados e nada conseguem obter, quando se vê o desperdício a
grassar próximo a eles.
      A distância imposta, a inação por parte dos governantes, deixando muitos
em condições precárias, sem ver uma saída, criam sentimentos de ódio, frustra-
ção, desesperança, enfim o distanciamento entre os dois segmentos. É uma
grande e primeva causa para o aparecimento da violência, principalmente no
caso das sociedades urbanas. É, na verdade, outra forma pela qual este senti-
mento inferior, a vingança, se vai manifestar.
      O problema maior é que quando o egoísmo toma conta do indivíduo, ele se
torna enceguecido, só a ele vê, só se importa com seus interesses, em satisfa-
zer caprichos e prazeres quase sempre sem a menor importância.
O egoísmo ressalta o orgulho que, por conseqüência, faz com que tudo o
que dissemos se agrave. Encontramos narrativas ditadas por psicografia em que
o orgulho se destaca na caracterização da vingança por fatos como posições
não alcançadas, ciúmes, vaidades, poder obstruído, ruínas financeiras, amor
não correspondido, etc.
      Da mesma forma, na vida terrena, em que o indivíduo se sente prejudicado
por outro, qualquer que seja o setor de vida ou motivo – econômico, familiar,
amoroso, de posicionamento, ou qualquer outro – é fácil o estabelecimento do
sentimento de vingança.
      A vingança nasce, pois, do desconhecimento da máxima de Jesus: o Amor.
Ele nos ensinou que não devemos querer para os outros aquilo que não quere-
mos para nós.
      Quando nos conscientizarmos de que estamos na Terra para nos melhorar
e que episódios que nos marcaram ou marcam sentimentos negativos quanto a
outros irmãos devem ser, então, tratados de outra maneira, estaremos no cami-
nho da evolução, contribuindo para a necessária modificação nossa e do Pla-
neta.
      A vingança é um sentimento menor, mostra a forma de incompreensão que
ainda vige entre os homens.
      Muitas vezes o sentimento surge pela falta de uma avaliação real da situa-
ção ou de outro mal, nosso conhecido, o orgulho ferido.
      O homem tem que se conscientizar de que jamais poderá ser juiz. Ele, no
máximo, estará apto a avaliar as suas próprias ações, o que nem sempre deseja
por saber o quanto é falível e errado. Assim, não podendo julgar as ações do
próximo, este conjunto de realizações e sentimentos inferiores que embasam a
vingança – a inveja, o despeito, o ódio, o rancor, o sentimento de desforra, etc. –,
se esborroam sem o menor sentido, pois não podem ser parâmetros para uma
ação impossível e impraticável de se fazer: julgar. A vingança, pois, perde todo o
seu suporte e expressão, colocando-se como deveria ser sempre entendida: um
sentimento sem valor, sem expressão e que deve ser banido de nossas ações,
fazendo melhorar o nosso grau de inferioridade por estarmos a ela associados.
      Ao ser crucificado disse Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que
fazem. (Lucas, 23:34.)
      A respeito disso diz Bittencourt Sampaio: “Estas palavras não acham pari-
dade nas de homem algum do nosso obscuro planeta: exprimem a condenação
dos sentimentos de vingança – a comiseração pela ignorância – o sublime amor
da fraternidade universal .”*
      Não é possível usarmos de forma errada e continuada nosso livre-arbítrio,
esse que, para nós, é o fiel da balança. Quando o usamos de forma correta es-
tamos marcando um ponto em nosso processo de evolução e isso só é possível
a partir da assimilação por nossa parte das condições necessárias à mudança.
Quando pudermos exercitar valores como a humildade, o serviço aos necessita-
dos, o trabalho, o amor estaremos aptos a postular melhor condição. Podere-
mos, então, iniciar nossa caminhada como trabalhadores do bem. É possível,
então, dizer que não há mais lugar para sentimentos inferiores como a vingança.
O que irá predominar? A compreensão fundada no amor, gerando, em conse-
qüência, a condição de sermos postulantes de trilhar o caminho que nos trans-
formará no Homem Novo.            l
       * BITTENCOURT Sampaio, F. L. A Divina Epopéia. 4. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1988, p.
482.
Mães no Além-Túmulo
                            ISMAEL RAMOS DAS NEVES


      Escrevemos esta crônica para enaltecer o “Dia das Mães”. Em louvor à
rainha do lar, cânticos e flores emolduram de alegria e de esperança o cenário
do mundo. Realmente, nossas mães são os anjos tutelares de nossas vidas.
Justo, pois, que lhes consagremos o tributo do nosso mais profundo reconheci-
mento. Nesta oportunidade queremos realçar, também, a memória das mães
que partiram de regresso à Espiritualidade. Elas não morreram, porque a vida
prossegue além da lápide fria dos cemitérios.
       Na incomensurabilidade do espaço cósmico, as almas dos entes queridos
que se ausentaram da Terra continuam construindo e amando.
       Construindo valores inalienáveis do espírito e plantando, ao longe de seus
passos, as sementes inesquecíveis da solidariedade e da paz. Nossas mães
registram as mensagens inarticuladas de nossos corações, quando lhes ofere-
cemos, no ádito de nossos sentimentos mais profundos, a prece de louvor, de
reverência e de confiança no Altíssimo. Por isso, nossas genitoras que partiram
não estão mortas! Elas estão vivas, velando por nós, os filhos que ficaram! Te-
mos, ao longo de muitos anos, tomado conhecimento de fatos e episódios que
os livros mediúnicos referenciam. No mundo dos Espíritos, mães altruísticas e
missionárias realizam tarefas de abnegação, velando por filhos rebeldes que, na
Terra, continuam envoltos no labirinto da embriaguez ou da toxicomania. Tudo
fazem para transmitir aos seus rebentos pensamentos de regeneração, para que
eles possam se libertar da viciação em que se aprisionaram. Por mais que a
indiferença e a rebeldia dos seus tutelados lhes agridam o sentimento de mães
abnegadas, elas prosseguem amando e servindo, implorando ao Criador energi-
as novas, para que possam se constituir gênios inspiradores de seus filhos. É a
demonstração eloqüentíssima do verdadeiro amor!
       Reverenciemos, pois, as almas acrisoladas de nossas mães que partiram
para a vida do espírito. E guardemos a certeza de que, quando soar a hora de
nosso regresso à Espiritualidade, pelo processo natural da desencarnação, po-
derão ser os braços misericordiosos de nossas mães que se nos estenderão,
para receber-nos no pórtico da vida espiritual, porque o túmulo não separa
aqueles que se amam.        l
Sórdidos Porões
      A civilização dita cristã do Ocidente ainda não compreendeu que Jesus
é o exemplo da centralidade mais admirável que se conhece. Em todo o Seu
ministério jamais houve lugar para a exclusão, para a exceção. Ele sempre se
caracterizou pela proposta de solidariedade humana e pela igualdade dos direi-
tos humanos.
       A Sua mensagem renovadora tem uma direção certa: a transformação
moral da criatura para melhor, sempre e incessantemente. Nesse sentido, nin-
guém se pode considerar indene ao crescimento interior ou excluído da oportu-
nidade.
       Jamais o Mestre preferiu aquele que tem mais ou que pensa ser mais,
preterindo aqueloutros detestados, marginalizados, esquecidos.
       À semelhança dos profetas antigos, Ele veio resgatar os mais sofridos, os
mais perseguidos, os mais desesperados. Não há lugar em Sua palavra para
qualquer tipo de preconceito. Ele próprio pertenceu a um lugar de excluídos,
conforme anotou João no comentário feito por Natanael, quando convidado por
Filipe para conhecê-lO: – Pode vir alguma coisa boa de Nazaré? (João, 1:46.)
       Não poucas vezes Ele sofreu o opróbrio, a humilhação, o acinte, a perse-
guição sistemática.
       Conhecendo, portanto, a hediondez da perversidade e injustiça humana,
Ele colocou no centro aqueles que são empurrados para a periferia, para a mar-
ginalidade, fazendo com eles um pacto de amor. É esse amor que viceja em
toda a mensagem neotestamentária, renovando as esperanças do mundo e
apontando um rumo de segurança onde predomine a vera fraternidade.
       Os indivíduos que se apresentam como sendo mais poderosos, mais
possuidores, também não foram rejeitados, porquanto Ele sabia que esses,
igualmente, são infelizes, refugiando-se no terror, na opressão, na vingança, na
exploração do seu próximo, através de cujos artifícios se sentem seguros nos
tronos de mentira em que se sentam.
       Os opressores, os perseguidores são pessoas que perderam a direção de
si mesmas, tornando os corações empedrados, por não se permitirem a doçura
que tanto desejam e de que sentem irresistível falta. Invejam-na em quem a tem,
e por isso, através da projeção do seu conflito, perseguem-no implacavelmente,
com violência, como se a houvessem roubado do seu sacrário íntimo.
       Jesus respeitou todas as vidas, concedendo o direito de cidadania iguali-
tária a todos quantos adotassem o reino de Deus e se empenhassem pelo con-
seguir.
       Os modernos cristãos, conforme ocorreu com muitos outros no passado,
não compreenderam esse ensinamento, que registraram no cérebro, mas não
insculpiram nos sentimentos. São capazes de abordar o tema da solidariedade
com lágrimas, no entanto, não saem do pedestal em que se encastelam para
proporcionar centralidade ao seu próximo, arrancando-o da periferia marginaliza-
dora.
                                       ...
       Não obstante as gloriosas conquistas culturais, científicas e tecnológicas,
o ser humano ainda mantém o seu próximo em muitos porões de exclusão, que
são habitados pelos que se fizeram ou foram tornados marginais: crianças que
se prostituem por imposição da crueldade moral, geradora da miséria socioeco-
nômica, pela escravidão do indivíduo que não tem escolha e perdeu a liberdade
de decisão e de movimento, e os que vivem nas ruas do mundo, desconsidera-
dos e sem quaisquer direitos, perfeitamente descartáveis pela sociedade hedo-
nista.
       Suas dores, suas necessidades são propositalmente ignoradas, e não
raro, tidos como lixo social, são assassinados, exilados, expulsos dos seus
guetos, porque enxovalham a sociedade que os excluiu.
       Trata-se de hediondez da modernidade, que somente pensa no cresci-
mento horizontal do seu poder e da sua libertinagem, esquecendo-se do ser
humano em si mesmo, que é o grande investimento da vida.
       Nesse lixo social, encontram-se também muitas jóias perdidas: homens e
mulheres de bem e de valor, que derraparam nas ruelas da existência e não tive-
ram resistência para enfrentar e vencer as vicissitudes, enveredando pelo alcoo-
lismo, pela toxicomania, pela perversão de conduta nos vícios sexuais, vivendo
nos escuros porões que lhes servem de refúgio.
       Perdida a dignidade humana, eles relutam para permanecer nesses sítios
de vergonha e sombras, sendo denominados criminosos, mesmo que crime al-
gum hajam cometido.
       Rotulados de lixo, criminosos, excluídos, gentalha, perdem a identidade e
não se encorajam a recuperar a sua humanidade, que lhes foi tirada e nunca
devolvida.
       Afirma-se que esses irmãos da agonia se recusam a sair dos porões onde
se encontram, e que, ao serem retirados, fogem de retorno aos mesmos lugares
onde se entregam aos disparates da vergonha moral. Talvez haja razão com a
exceção, jamais com a totalidade.
       Ocorre, muitas vezes, que se encontram enfermos, sem autoconfiança,
sem nenhuma auto-estima, e autopunem-se, após haverem sido torturados, es-
tuprados, pervertidos. A sua terapia de recuperação é lenta, quanto o foi a impo-
sição da degradação, da perda de sentido existencial.
       É impressionante observar como poucos cristãos dão-se conta do que
está ocorrendo à sua volta e poderá atingir o seu castelo de refúgio e de ilusão.
Mesmo quando vêm à superfície as denúncias contra a dignidade violada do seu
próximo e ele aparece como fantasma apavorante, esses cristãos cerram os
olhos para não o ver e tapam os ouvidos, a fim de não escutar o clamor da sua
voz, porque isso os perturba e inquieta, tirando-lhes alguns momentos de sono.
       ...E confessam a crença em Deus, a Quem dizem amar, em Jesus, que
tomam por modelo teórico, mas não lhe seguem os ensinamentos libertadores.
       Perfumados e bem-vestidos, evitam o contato com eles, nunca se permi-
tem ir aos porões, temem-nos e abandonam-nos, quando os deveriam visitar e
amar, procurando conviver com eles, trazendo-os à luz do dia da compreensão.
       Eles ficam nos seus porões e os cristãos nos seus esconderijos de luxo e
de proteção com medo deles, aqueles a quem Jesus procurou trazer para o
centro, retirando-os do abismo escuro em que se refugiavam.
                                       ...
      Felizmente, nem todos os cristãos se escondem do seu próximo retido
nos porões. Eles denunciam a sua existência, tentam arrancá-los dos sórdidos
lugares onde jazem, esquecidos e perseguidos, recordando-se de Jesus, e imi-
tando-O.
Raia uma luz na treva em favor dos excluídos, ainda muito débil, é certo,
mas que se expandirá como o rosto brilhante da manhã após a noite renitente,
que vai devorada pela claridade.
        O novo Cristianismo propõe que se acabem com os porões, que se reci-
cle o lixo social mediante os mecanismos do amor, que se tragam para o centro
da comunidade todos aqueles que têm sido excluídos, de forma que a socieda-
de se torne verdadeiramente digna do Mestre e Senhor, que é Modelo e Guia
para todos através dos evos...

                                                     Joanna de Ângelis

        (Página psicografada pelo médium Divaldo P. Franco, no dia 13 de julho de 2000, em Pa-
ramirim, Bahia.)
O Blefe da Morte
                             MAURO PAIVA FONSECA

     Evilásio era um homem comum. Temente a Deus, como respeitosamente
afirmava, tudo fazia por não despertar a “ira do Senhor”, que poderia remetê-lo,
sem volta, às profundezas do inferno, ou aos pungentes suplícios do purgatório.
Por isso, cumpria com rigor todos os rituais ditados pela crença popular; desco-
bria-se tirando o chapéu à passagem de um féretro, fazia o sinal da cruz sempre
que passava em frente da porta de uma igreja, ungindo-se com água benta
quando nela penetrava, jamais esquecendo de levar consigo alguns trocados,
com que atendia à solicitação da sacolinha receptora de doações, tentando, tal-
vez, comprar com eles as graças do bom Deus. O que desejava, entretanto, era
ir para o Céu, do qual ouvira as melhores referências, embora não soubesse
onde ficava, nem como chegar lá.
       Em sua maneira de pensar, a morte encerrava o capítulo da vida, e o seu
“depois” representava o tabu sobre que não se atrevia a perquirir, e que conside-
rava assunto reservado aos teólogos, mantido por eles no mais absoluto segre-
do. Os mortos, para ele, eram definitivamente extintos, só podendo ser conside-
rados através de seus despojos. Fugiam-lhe à percepção quaisquer considera-
ções sobre a existência da alma e de vida além-túmulo.
       Vivia uma vida completamente material, voltada para os objetivos das con-
quistas dos bens e das posições sociais entre os homens, sem se dar conta dos
reais objetivos da existência física.
       Sua pequena família seguia-lhe os passos, orientada que era a aceitar tais
considerações referentes ao futuro póstumo, como algo terrível do qual seus
membros deveriam distanciar-se o máximo possível, sob pena de se verem às
voltas com Satanás.
       Cemitérios causavam-lhe pavor incontrolável. Evitava-os; e quando apare-
ciam em seu caminho, contornava-os para fugir-lhes da proximidade. Se alguém
do seu círculo de convivência morria, apresentava sempre mil desculpas para
não comparecer ao velório, e mais ainda ao sepultamento.
       Sem ser uma pessoa má, era, contudo, acomodada às crendices do mun-
do, aceitando, sem pesquisar, o que ouvia provindo de outras mentes, situadas
no mesmo nível da sua.
       Considerava Jesus como um mártir que veio à Terra e tentou ajudar os ho-
mens, sendo por isso crucificado. Jamais se preocupara em conhecer-lhe o le-
gado à Humanidade, a jóia preciosa do seu Evangelho, fonte segura de liberta-
ção para todas as criaturas.
       A idéia de terminar encerrado numa urna funerária, sete palmos abaixo do
solo, enchia-o de angústia. Pensava na asfixia, no suplício causado pela voraci-
dade dos vibriões, e finalmente no abandono, sem qualquer possibilidade de
ajuda, absolutamente só no silêncio da necrópole.
       Sabia que o túmulo reclamaria um dia os seus despojos, mas qual aves-
truz, mergulhava a cabeça, escondendo-se da verdade, na vã esperança de sub-
trair-se a ele.
       Não podendo eximir-se da peregrinação inevitável, Evilásio em um fim de
semana, quando desfrutava o doce convívio familiar, foi vítima de violento mal
súbito; o sistema cardíaco entrara em colapso, arrebatando-o do plano físico
com toda lucidez de que dispunha no momento.
De repente, viu-se desdobrado, e percebendo-se nitidamente “vivo”, obser-
vava, presa de profunda aflição, a esposa e os dois filhos, tomados de extrema
angústia, junto ao corpo inerte caído no chão, tentando, em vão, reanimá-lo.
      Espantado com aquela situação inusitada, aos berros, repetia sem ser ou-
vido:
      – Estou aqui, estou vivo, não morri! Fui enganado; a vida continua!
      Tentou retomar o corpo, que o rejeitou, imprimindo-lhe agudo sofrimento. O
pranto e o desespero dos familiares mais agravavam seu sofrimento, impotente
que se sentia para transmitir-lhes a realidade, completamente diversa de tudo
quanto lhes haviam ensinado. Assim, desolado, acompanhou as providências da
esposa para a remoção do seu corpo, repetindo sempre, na esperança de se
fazer percebido:
      – Estou aqui, estou vivo, não morri! A morte não existe; a vida não se extin-
gue!
      Nem uma única prece se elevou suplicando o amparo divino para sua situ-
ação aflitiva. Em desespero, procurou contato com os familiares, que absoluta-
mente não eram capazes de sintonizar-se com ele, já que consideravam Evilásio
definitivamente extinto!
      Muitos são os Evilásios que existem pelo mundo afora; pobres almas en-
ceguecidas pela indiferença e negligência, que nunca buscaram os conheci-
mentos sobre a sobrevivência da alma e a existência do Mundo Espiritual. A elas
estará reservada a surpresa da entrada em uma nova vida, para a qual não se
prepararam, e onde se sentirão como estranhos, totalmente desajustados, en-
grossando, assim, o contingente já tão grande de sofredores que convivem com
os encarnados da Terra, sem ter conseguido alcançar as esferas espirituais de
luz.          l
O Primeiro Janeiro
                               RICHARD SIMONETTI


     Significativo o janeiro que passou...
      Não iniciamos simples Ano Novo.
      Trata-se de um novo milênio!
      Dez séculos decisivos na história humana!
      Nos mil anos que se desdobram à nossa frente, grandes transformações
acontecerão.
      Destaque-se o progresso tecnológico, que inaugurará a era das viagens
interplanetárias e interestelares e o sonhado contato com seres extraterrestres.
      Outro destaque:
      Nossa promoção na sociedade universal.
      De “provas e expiações”, onde predomina o egoísmo, nosso planeta passa-
rá à categoria de regeneração, orientado pelo altruísmo.
      Será uma metamorfose longa e penosa, marcada por sofrimentos e dores
que se estenderão ao longo de vários séculos.
      Teremos as derradeiras oportunidades de renovação para multidões de Es-
píritos que insistem em nortear sua existência por interesses pessoais, sem se
integrar nos ritmos do Universo, atendendo às harmonias do Amor.
      Então, em tempo que só Deus conhece, ocorrerá o grande expurgo.
      Os recalcitrantes serão confinados em mundos inferiores, compatíveis com
suas tendências.
      Os que se habilitarem a permanecer na Terra edificarão o Reino Divino.
                                       ...
     Os critérios de seleção atendem à justiça perfeita de Deus, sem privilégios.
     Ficarão os que houverem vencido o egoísmo.
     O Espiritismo situa-se numa vanguarda de idéias nesse particular, a partir
da máxima de Kardec:
     Fora da Caridade não há salvação.
     Se o mal do mundo é o egoísmo, forçoso combatê-lo com seu antídoto: a
caridade.
     Para sermos caridosos, para fazermos alguma coisa em benefício do se-
melhante é preciso esquecer um pouco de nós mesmos. É a partir daí que co-
meçamos a vencer o nefasto sentimento.
                                       ...
      Este primeiro ano do novo milênio foi consagrado pela ONU ao trabalhador
voluntário.
      Certamente os poderes espirituais que nos governam inspiraram essa ma-
ravilhosa iniciativa.
      Não poderia haver melhor maneira de começar este milênio redentor, se-
não exaltando o empenho da solidariedade.
      Quando as multidões da Terra se dispuserem a servir, erradicaremos para
sempre o mal de nosso planeta.
É preciso não perder tempo!
      Imperioso fazer render o tempo.
      Ele será o fiador, nosso passaporte para o Novo Mundo, se bem aproveita-
do, com a dinâmica do Bem.
      Mas, se não tomarmos cuidado, apassivados na indolência, no vício, na in-
diferença, ele será libelo terrível, acenando com inexorável expurgo.
      Depende de nós!                l
No Dia do Trabalho
                                     PASSOS LÍRIO


     Dia do Trabalho também quer dizer Dia da Esperança, em que nossos anseios e
aspirações, nossos sonhos e desejos se nos extravasam do íntimo, buscando alvo e algo
exterior para sua convergência e transformação em formosa e reconfortante realidade.
       Que esperamos quando da passagem do 1o de Maio?
       Como operários, técnicos, profissionais, artistas, intelectuais volvemos as vistas
para os domínios de nossos interesses, para o campo de nossas necessidades, para a
solução dos nossos problemas pessoais, de caráter urgente e aflitivo. É natural: somos
humanos e terrenamente vivemos em função da natureza de nossas preocupações mate-
riais, que são maiores ou menores, mais ou menos graves, tal seja a nossa situação di-
ante delas ou tais sejam elas em face de nossas possibilidades.
       A solução deste aspecto de nossa vida está mais na dependência dos outros do que
de nós mesmos, isto é, depende da boa vontade daqueles com quem trabalhamos e de
sua compreensão para com a qualidade do trabalho que executamos.
       Todavia, há outros aspectos de nossa vida, sem dúvida os mais importantes e de
maior premência, cuja solução depende única e exclusivamente de nós mesmos. São
aqueles que dizem respeito às nossas necessidades espirituais. Para eles é que, nesta
oportunidade, devemos voltar, de preferência, a nossa atenção.
       Segundo grandes e renomados pensadores, trabalho é também maneira de orar, é
conseqüentemente uma das modalidades da oração. Assim, neste dia, nossos fundos
anelos, nossas mais alcandoradas aspirações e esperanças devem convergir, muito em
especial, para o Criador de todos os seres e de todas as coisas, apelando para Ele no
sentido de que nos envolva em Suas bênçãos de Amor, fortalecendo-nos nos embates da
vida, nos entrechoques do mundo, nas pelejas da existência terrena.
       É o de que mais necessitamos nos dias atuais, para que possamos trabalhar em
paz, produzir muito, progredir bem e viver melhor, pois, consoante N. S. Jesus-Cristo, nem
só de pão vive o homem. De que nos servirá ganharmos o mundo todo, perdendo a nossa
alma?
       Tal a indagação que o Mestre nos induz a fazer, propondo-nos o problema da valori-
zação dos atributos de nossa alma, que são os únicos que subsistem por todo o sempre e
resolvem, de fato e em definitivo, a nossa situação de homens conscientes e responsá-
veis.
       É para esta tomada de posição, diante de nossas consciências, que devemos mobi-
lizar todas as forças e energias espirituais de que dispusermos, por estar na dependência
de nossa vontade e sob a responsabilidade de nosso livre-arbítrio a solução de todos os
problemas que se acham equacionados em nossa existência.
       Ao lado das situações de caráter material, quase sempre sérias e delicadas, impor-
tantes e momentosas, há aquelas outras, de sentido espiritual e de conseqüências mo-
rais, não menos necessárias e grandiosas, oportunas e adequadas, válidas e valiosas,
que definem e condicionam toda a nossa destinação no presente e no futuro, com vistas
aos dias de estágio na Terra e suas implicações na Vida Eterna.           l
Esflorando o Evangelho – Emmanuel
                                Contristação

            “Agora folgo, não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados
                                   para o arrependimento.”
                                                       Paulo. (II Coríntios, 7:9)



     Quanta vez se agitam famílias, agrupamentos ou coletividades para que a
tormenta lhes não alcance o ambiente comum? quantas vezes a criatura con-
templa o céu, em súplica, para que a dor lhe não visite a senda ou para que a
adversidade fuja, ao encalço de outros rumos? Entretanto, a realidade chega
sempre, inevitável e inflexível.
     No turbilhão de sombras da contristação, o homem, não raro, se sente ven-
cido e abandonado.
     Todavia, o que parece infortúnio ou derrota pode representar providências
salvadoras do Todo-Compassivo.
     Em muitas ocasiões, quando as criaturas terrestres choram, seus amigos
da Esfera Superior se alegram, à maneira dos pomicultores que descansam,
tranqüilos, depois do campo bem podado.
     Lágrimas, nos lares da carne, freqüentemente expressam júbilos de lares
celestiais. Os orientadores divinos, porém, não folgam porque os seus tutelados
sejam detentores de padecimentos, mas justamente porque semelhante situa-
ção indica possibilidades renovadoras no trabalho de aperfeiçoamento.
     Todo campo deve conhecer o tempo de ceifa ou de limpeza necessárias.
     Quando estiverdes contristados, à face de faltas que cometestes impensa-
damente, é razoável sofrais a passagem das nuvens pesadas e negras que
amontoastes sobre o coração; contudo, quando a prova e a luta vos surpreende-
rem a casa ou o espírito, em circunstâncias que independem de vossa vontade,
então é chegada a hora da contristação segundo Deus, a qual vos eleva espiri-
tualmente e que, por isso mesmo, provoca a alegria dos anjos que velam por
vós.



      Fonte: XAVIER, Francisco Cândido. Vinha de Luz. 15. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1998, cap.
153, p. 321-322.
Da Satisfação das Necessidades
                 à Felicidade
                             NADJA DO COUTO VALLE

     Um dos grandes desafios do Evangelho e do Espiritismo convida-nos a
estar no mundo sem ser do mundo, com base na verdade evangélica de que
onde está nosso coração, aí está o nosso tesouro, vale dizer, a nossa felicidade.
      E como a felicidade é o desiderato de todos nós, se perguntarmos a uma
criatura o que lhe falta para atingir a felicidade, ela responderá de acordo, di-
ríamos, com seus gostos, necessidades, preferências; um operário dirá que é
uma casa, um político que é o poder, um comerciante ou empresário que é o
dinheiro, etc. O Homem sublime de Nazaré disse-nos que Sua alegria, Sua feli-
cidade é fazer a vontade do Pai...
      O Espírito Emmanuel nos ensina que nós nos revelamos em tudo que pen-
samos, fazemos ou dizemos, e a Psicologia nos informa que todo comporta-
mento é motivado, é provocado por disposição íntima, por uma espécie de ener-
gia interior que nos orienta para tal ou qual direção na vida – e revela os valores
de cada um.
      Segundo a Filosofia dos Valores o homem reconhece-se como um ser em
carência, e preenche suas carências ou seus valores escolhendo seres, ou ele-
mentos, que ele julga possam atender suas lacunas materiais, físicas, morais,
afetivo-emocionais, espirituais. Nem sempre acerta na escolha, como nos é fácil
constatar ao nosso redor, ou em nossa própria experiência pessoal. Para satis-
fazer a fome, por exemplo, valemo-nos do alimento, que se concretiza no pão,
na fruta, etc.; no entanto, uma criança muitas vezes come terra quando sente
fome, escolhendo o ser ou elemento errado, como faz um adolescente, ou
mesmo um adulto, quando atravessa, por exemplo, uma fase de insegurança
emocional, dificuldades financeiras ou desemprego, e volta-se para o uso dos
tóxicos, do fumo, do álcool, como “compensação”, ainda que não consciente,
para o preenchimento de suas lacunas existenciais.
      A pergunta fundamental é então a de como ser feliz, ou, em outros termos,
que valores preencher, e como fazê-lo. Ressalta a óbvia constatação de que são
profundamente diferentes as escalas de valores dos Espíritos inferiores e as dos
Espíritos superiores – porque todos temos, em ambos os planos da vida, ainda
que nem desejemos, nossa própria escala de valores, inerente à condição de
criatura humana. A Mentora Espiritual Joanna de Ângelis classifica esses dois
patamares evolutivos como subpersonalidade e superpersonalidade, respecti-
vamente.
      Assoma-nos à mente, de imediato, o perfil da subpersonalidade, que Paulo
chamou de homem velho, e é de se indagar de que se alimenta esse homem
velho, senão de propriedades e bens materiais, de roupas caras assinadas por
griffes famosas, de alimentos em quantidade excessiva ou de natureza danosa
ao equilíbrio físico, do frenesi sexual, da projeção na comunidade, etc. Tudo isso
e muito mais esse homem considera como fundamental para alcançar o bem-
estar e a felicidade.
      Abraham Maslow, o grande representante da Psicologia humanista – junto
com Stanislav Grof, também da Psicologia transpessoal – estudando as neces-
                                                                          1
sidades humanas apresentou suas conclusões sob a forma de pirâmide , hierar-
quizando-as em patamares. O primeiro deles é o das necessidades fisiológicas,
aquelas indispensáveis como combustível da vida, e nelas inscrevem-se beber,
comer e procriar. Uma vez satisfeitas, a criatura passa então automaticamente
ao patamar seguinte, o da manutenção da vida, na esfera da proteção da inte-
gridade física, contra intempéries e outros perigos, buscando então o abrigo de
uma habitação – que pode ser até mesmo uma caverna de roupas e agasalhos,
ou reservas de alimento – tudo isso para manter vivo, e em segurança, o corpo
físico. Dizem respeito também a esse nível de necessidades o trabalho, os be-
nefícios sociais e financeiros, no caso dos adultos; ocasionalmente também a
adesão a certas regras religiosas, para evitar imprevistos, pode constituir-se em
sensação de segurança.
      Só depois de atendidas essas necessidades básicas, fisiológicas e de se-
gurança, passa o homem a buscar a sociabilidade e o afeto – que caracterizam
a sua natureza gregária, já detectada e enunciada por Aristóteles, procurando a
aceitação social, do grupo – o que se torna manifesto quando o indivíduo afilia-
se a grupos, gangs, ou até mesmo quando pratica algum ato de generosidade
visando apenas a ser aceito socialmente. Quando esse anseio de camaradagem
é satisfeito, a saúde mental do organismo volta a condições mais satisfatórias,
enquanto que a não satisfação de tais necessidades gera a probabilidade de
eclosão de desajustamentos graves.
      O nível seguinte é o da estima e reconhecimento, que orienta o indivíduo
para o esforço no campo do exercício profissional ou do convívio social de forma
a sentir-se respeitado, estimado. Esse nível representa a conscientização da
própria importância para os outros, e o reconhecimento desse fato pelos outros.
Elimina-se assim o sentimento de inferioridade, ou fraqueza do ego, elemento
de síndrome de muitas neuroses, porque em seu lugar instalaram-se a auto-
confiança sadia, o prestígio, o merecido respeito. Madre Teresa de Calcutá re-
colhia os doentes terminais das ruas e levava-os para a Casa dos Moribundos,
sob sua administração, para que se sentissem estimados e reconhecidos em
sua condição de humanidade, ainda que apenas nos momentos derradeiros da
vida na carne.
      No ponto mais alto da pirâmide, Maslow situou a auto-realização, que de-
pende do que a psicologia chama de nível de realidade, o que requer boa dose
de análise da vida e de seus momentos e quadros instalados, de auto-avaliação


                              Auto-
                              Rea-
                              liza-
                              ção
                            Estima

                         Sociabilidade
                         e Afeto


                           Segurança


                           Fisiológicas
            Necessidades Humanas segundo A. Maslow
e, acima de tudo, de autoconhecimento. Trata-se do desejo de se tornar cada
vez mais o que se é, de tornar-se tudo o que se é capaz de ser, que nos leva a
tentar a aplicação máxima de nossos talentos e potencialidades para servir à
sociedade, qualquer que seja a posição em que nela estejamos inseridos.
       É por todos sabido que quando as necessidades não são satisfeitas,
constatam-se variações de comportamento que podem ser infinitas, principal-
mente se considerado o conjunto de experiências de encarnações anteriores –
embora seja possível traçar padrões gerais, partindo do ponto essencial da
questão que é a frustração. A partir dela o indivíduo elabora o retraimento inter-
no, ou apatia, ou o retraimento externo, ou fuga.
       A frustração pode também ensejar a agressão, que por sua vez pode ser
internalizada, quando o indivíduo constrói úlceras, depressões e vários outros
desequilíbrios ou enfermidades; ou é possível ainda que se externalize, dirigin-
do-se à fonte causadora da frustração, ou que se desloque na direção do outro –
que pode ser tanto uma pessoa quanto um objeto inanimado: é quando o indiví-
duo bate portas, chuta coisas, come ou bebe em demasia, reprova-se na escola,
namora a pessoa errada, descarrega essa energia batendo em algum boneco
parecido com o chefe, por exemplo.
       Há ainda as reações psicossomáticas, como angina do peito, colite, asma,
enxaqueca, alergias e neurites, dermatites e ciática, resfriado comum e também
a aceleração de pulsações cardíacas, respiração irregular, digestão comprome-
tida, tensão muscular, febres ou fadiga. O mais significativo produto da frustra-
ção, no entanto, segundo alguns, é a ansiedade, um estado desagradável, sen-
sação de mal-estar, vaga e difusa. Mas o indivíduo dispõe de mecanismos de
defesa, como os de substituição (de um objetivo original por outro, como a troca
de parceiros afetivos, por exemplo); de compensação (como esforçar-se ao má-
ximo em uma atividade para atenuar a deficiência em outro setor); de sublima-
ção (como substituir uma atividade socialmente indesejável ou irrealizável em
determinada época por outra que não tenha essas características): é o caso de
mulheres que substituem a maternidade pelas atividades de serviço social, etc.;
de repressão de uma situação ou problema (quando o indivíduo “desconhece”,
“esquece” a morte de alguém e age como se o fato não tivesse ocorrido). Acres-
centam-se ainda, naturalmente, as neuroses e psicoses.
       Além das necessidades básicas, Maslow postula necessidades cognitivas
e estéticas, complementares àquelas, ainda que menos freqüentemente descri-
tas; correspondem, respectivamente, à necessidade de conhecer ou compreen-
der, de manipular o ambiente em função da curiosidade, e de afastar-se do que
é desagradável e desprovido de beleza.
       Na trilha da evolução, a criatura, dando curso ao instinto gregário, realiza-
se no grupo social, que ajuda a construir, mas se deixa asfixiar em conflitos e
tormentos, em razão dos atavismos e atitudes agressivas, hábitos seculares
profundamente arraigados no inconsciente, a repetirem-se como automatismo,
que no entanto estão fadados à superação, pelos convites ao crescimento que
trazem o selo da eternidade, e impelem o ser à ascensão – que demanda sacri-
fício, disciplina, vontade fortalecida, renúncia e dedicação. Em função disso, im-
põem-se ao indivíduo necessidades de nível mais avançado – chamadas pelo
Espírito Joanna de Ângelis de ético-moral-estéticas, que por sua vez se cons-
tituem, no espaço psíquico individual, no vestíbulo para as necessidades de na-
tureza metafísica, fulcro da realização do Espírito imortal, criado para a Felicida-
de e o Amor: as metanecessidades.
Nessa direção caminham todas as criaturas, por uma espécie de deotro-
pismo, ou, na terminologia de Joanna de Ângelis, psicotropismo superior, ine-
rência ao ser que o impele natural e inapelavelmente para Deus, assim como o
heliotropismo mobiliza automaticamente o reino vegetal para a luz.
       Encarnada, a criatura transita sempre entre o desejado e o possível, no
atual estágio evolutivo, e conflita-se, em especial quando vive sob a ótica do in-
divíduo que descortina apenas o presente, na carne. Mas o ser desperto, e parti-
cularmente o ser banhado pelas dilatadas compreensões da Doutrina Espírita,
não mais se contenta nos limites acanhados da satisfação das necessidades de
sobrevivência, de segurança ou afetivo-sociais. Ele deseja lutar o bom combate
na intimidade profunda de si mesmo, para superar os conflitos entre o possível,
que tem, e aquilo a que aspira e pode conseguir, nesta ou em outra(s) encarna-
ção(ões).
       São já os apelos das metanecessidades, de que nos fala o Espírito Joanna
de Ângelis, fortes apelos para o autodescobrimento, pela interiorização, para
atingir a auto-realização como Espírito, como ser real, integral e imortal.
       As metanecessidades, tornando-se então imperiosas, mobilizam o ser para
longe dos condicionamentos inferiores ancestrais, e desperto, arregimenta todos
os recursos de que dispõe, para a mudança de comportamento. Decide-se então
a substituir o perfil do homem velho evidenciado na amargura e revolta, mágoa e
desencanto, orgulho e vaidade, impaciência, inveja e ciúme, ambição e maledi-
cência, rigidez mental, etc. – pelo perfil do homem regenerado em construção,
que se desenha com sorriso e abnegação, boa vontade e fé, paciência e perdão,
esperança e equilíbrio, e outras tantas qualidades e virtudes delineadas por
                                                       3
Allan Kardec em O Evangelho segundo o Espiritismo . Este novo homem, ainda
que não tenha atingido essas características morais-espirituais, já é novo na
proposição íntima de redirecionamento existencial, concentra-se nas metane-
cessidades, ampara-se na oração, na meditação, na interiorização, no trabalho
do bem e no estudo, como estratégias que libertam de ansiedades e conflitos,
que fomentam sua ação edificante na existência e para o bem da sociedade e
do mundo: sua conversação é sadia, a consciência reta guarda harmonia mental
em clima de amor profundo, e empreende a conquista do Si.
       Com licença de Maslow, que chegou a falar em metarrealizações, porque
desejava talvez ir além de sua própria formulação, e lembrando a Mentora Espi-
ritual Joanna de Ângelis, podemos propor, sob a ótica da realidade transpessoal:




                                Metanecessidades


                               Necessidades ético-
                                   -estéticas


                         Necessidades fisiológicas, de segu-
                          rança e movimentação no grupo
                                       social
              Hierarquia e Natureza das Necessidades do Ser em Evolução
O processo não é imediato, e naturalmente depende da força da vontade
empenhada na tarefa de autoconstrução do ser, que, desperto, transita dos dife-
rentes estágios das necessidades básicas ou primárias até os níveis das neces-
sidades ético-estéticas, para subseqüentemente alçar-se às metanecessidades,
que ele satisfaz com o concurso do sentimento e da razão, habituando-se às
vibrações sutis de climas espirituais superiores, que já repercutem em seu psi-
quismo.
      O ser integral espiritual, na perspectiva da transpessoalidade, pode ser
visto assim, do ponto de vista da satisfação de suas necessidades rumo à felici-
dade:

                         Metaneces                  sidades
                                          Auto-
                                          reali-                  Ser regenerado
                                          zação


                                         Estima
                 E
                 V
                 O                    Sociabilidade e
                 L                        Afeto
                 U
                 Ç
                 Ã                      Segurança
                 O


                              Fisio                     lógicas
                                                              Homem velho
                     Necessidades Humanas e Espirituais do Ser


      Quanto mais primitiva e materializada a criatura, maior a faixa de necessi-
dades primárias e menor a das metanecessidades ou mesmo a das afetivo-
sociais, na condição de encarnado ou desencarnado, quando experimenta ainda
a pressão daquelas necessidades, as primárias, como atestam as obras da Co-
dificação Espírita, por Kardec, e outras que lhe são subsidiárias. E, inversa-
mente, quanto mais evoluído o ser, maior a faixa de metanecessidades e menor
a de necessidades de faixas inferiores, quando encarnado; na condição de de-
sencarnado, esse ser experimentará as metanecessidades e, se tanto, as ne-
cessidades de auto-realização. E assim subseqüentemente.
      Recentemente cientistas concluíram que a felicidade depende de quatro
fatores que se apresentam como necessidades: otimismo, alegria, coragem e
sabedoria. A Doutrina Espírita reafirma esses fatores, que são recomendações
do Cristo para a Humanidade, destinada à felicidade pela Paternidade Divina. l

Referências Bibliográficas:
1. MASLOW, Abraham. Motivation and personality. New York: Harper and Row, 1954, p. 92.
2. ÂNGELIS, Joanna de. Espírito e Franco, Divaldo P. Vida: desafios e soluções. Salvador: Liv.
Espírita Alvorada, 1997, cap. 10.
3. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 102. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1990,
cap. XVII, 3.
A FEB e o Esperanto

                Democracia Lingüística
                               AFFONSO SOARES

     Assim se intitula o Plano Decenal de Trabalho (2001-2010) a ser cumpri-
do pelo Movimento Esperantista Mundial, sob a orientação da Universala Espe-
ranto-Asocio (Rotterdam, Holanda), visando ao fortalecimento do Esperanto e
seus ideais como solução justa e democrática do problema lingüístico que, por
se constituir num entrave à aproximação das culturas, ao intercâmbio científico,
à queda de múltiplos preconceitos, muito contribui para as discriminações, divi-
sões e guerras que assolam a vida planetária.
      Esse plano estratégico leva em conta três campos de ação para se fazer
com que o Esperanto seja:
      – conhecido;
      – falado;
      – aplicado praticamente.
      No primeiro campo se visa, pela informação externa, a que se tenha sobre
o Esperanto idéias sempre fundadas na verdade, e, no âmbito do próprio movi-
mento, a que o adepto se conscientize profundamente a respeito do indubitável
valor do idioma como única solução do problema lingüístico mundial.
      No segundo campo está destacado o valor dos cursos, encontros e con-
gressos.
      O terceiro campo estimula a criação das condições em que se encontre
motivação para o pleno uso do Esperanto.
      O plano da Associação Universal de Esperanto será discutido pela família
esperantista até a realização do Congresso Universal em Zagreb (2001), quando
se decidirá a aprovação de sua forma definitiva.
      Vale aqui ressaltar que o Movimento Espírita brasileiro, ao longo desses
quase cem anos de dedicação à causa da Língua Internacional Neutra, tem tra-
balhado dentro dessas diretrizes:
      – informar espíritas e não espíritas sobre o Esperanto e seus ideais;
      – proporcionar-lhes recursos de aprendê-lo;
      – dar-lhes condições de aplicá-lo dentro e fora de seus círculos.
      Ultimamente se intensificam os esforços no sentido de torná-lo a língua
comum para as relações internacionais da família espírita mundial, já se tendo
obtido o favorável posicionamento do Conselho Espírita Internacional.
      Prossigamos, caros co-idealistas, com fé e esperança no futuro, certos de
que servimos, acima de tudo, à Causa do Divino Mestre Jesus!              l
Encontro de Espíritas-Esperantistas

     Realizou-se em 3-12-2000, na sede da União das Sociedades Espíritas
do Estado do Rio de Janeiro-USEERJ (Rua dos Inválidos, 182 – Centro – Rio de
               o
Janeiro), o 7 Encontro Espírita-Esperantista do Estado do Rio de Janeiro, com o
tema Brasil, Pátria do Evangelho – Esperanto, Elo de Amor e Fraternidade.
      O rico e substancioso programa incluiu, além das atividades tradicionais, o
lançamento do Almanako Lorenz 2001 pelo próprio Diretor-Presidente da Socie-
dade Editora Espírita F. V. Lorenz, nosso co-idealista Délio Pereira de Souza;
uma palestra em português, sobre o Esperanto nos círculos espíritas do Brasil e
do Exterior, proferida por César Soares dos Reis, Presidente do Lar Fabiano de
Cristo; depoimentos de espíritas-esperantistas sobre suas experiências nos ser-
viços em que o Esperanto se associa ao Espiritismo para a divulgação da Dou-
trina; e atividades artísticas.
      Os participantes, divididos em dois grupos, debateram os seguintes temas:
Esperanto, língua da integração do Movimento Espírita Mundial e Qual a impor-
tância da Casa Espírita no Conselho Espírita Internacional.      l
Será que o Aborto Diminui
                     a Criminalidade
                              JOSÉ YOSAN DOS S. FONSECA

      Na edição de 4-2-2001 de O Globo, Elio Gaspari faz referência a uma
tese de dois professores norte-americanos sobre criminalidade nos EUA, que
pretende relacionar, com base em cruzamento de informações e estatísticas, um
decréscimo nos índices de criminalidade com a liberação e o conseqüente au-
mento do número de abortos realizado no país (com efeitos na taxa de cresci-
mento populacional).
      A tese destaca o aborto como fator causal, embora mencione também a
possibilidade de o aumento da população carcerária em 50% entre 1991 e 1997
ter contribuído para a redução da criminalidade.
      É transparente, entretanto, que a tese busca, em última análise, defender o
aborto como “solução” para um grande problema social, por seu efeito redutor de
crescimento nos estratos da população que oferecem condições mais propícias
ao crime – roubo, furtos, assassinatos, estupros, prostituição, tráfico de drogas.
Obviamente, não leva em conta os chamados crimes de colarinho branco e tam-
bém ignora os do enorme contingente de viciados em drogas e álcool, crimes
esses na maioria não registrados policialmente e judicialmente.
      O grande problema nessa tese é que relaciona dois fatores isolados em
contexto tão complexo, enfocados sob uma ótica visando a demonstrar que au-
mentando o número de abortos a sociedade verá reduzida a criminalidade que
incomoda aos 98% não encarcerados.
      É fácil perceber a falácia em que incorreram os professores americanos.
Basta somar às estatísticas utilizadas o número de abortos praticados, o número
de assassinatos em que eles implicaram, crime de infanticídio, mesmo que
pretensamente “justificado” por argumentos, sofismas e tergiversações, e, após,
reconsiderar a conclusão.
      Destacado do aspecto legal, de ser um crime permitido, o aborto é a elimi-
nação pura e simples de um ser humano, com agravantes de crueldade. Um
crime praticado por interesse pessoal, “legitimado” por “prevenir” a possível ocor-
rência de outros crimes, quando aquela criança crescer.
      Em outras palavras: mate hoje, no ventre, aquele que poderá vir a te matar,
ou causar problemas quando crescer. Ignore a possibilidade de estar matando
um gênio que te salvaria a vida, ou contribuiria para que ela fosse melhor ama-
nhã.
      Quando me deparo com essas manipulações de estatísticas e informações
em apoio do aborto, lembro-me do depoimento do Dr. E. Nathanson, médico
abortista americano, que, arrependido e em surpreendente movimento reverso
contra o aborto, confessa ter fraudado dados estatísticos sobre o número de
abortos realizados nos EUA, visando a estimular a adesão do público ao seu
propósito: o aumento da clientela e dos lucros.*    l


     * O livro O que dizem os Espíritos sobre o Aborto, em preparo pelo Departamento Editorial
da FEB, traz detalhes desse depoimento no capítulo XIV.
Reformador no Centro Espírita

        A FEB faz, mensalmente, remessa gratuita de Reformador aos Centros
Espíritas de todo o Brasil, quer estejam ou não ligados às respectivas Entidades
Federativas estaduais, com base no cadastro que possui.
        Para que essa oferta atinja seus objetivos de divulgação da Doutrina e do
Movimento Espírita, solicitamos aos dirigentes dos Centros Espíritas que façam
campanha de assinatura de Reformador junto aos seus freqüentadores.
        Pedimos às Federativas que nos informem se as Casas Espíritas do Es-
tado estão recebendo a Revista, assim como os nomes e endereços das novas
instituições.       l
Administração
                         IAPONAN ALBUQUERQUE DA SILVA

     É muito comum, hodiernamente, vermos anunciados, nos principais peri-
ódicos do País, cursos especializados de Administração.
       Embora se trate de coisa natural, o fato em si se presta a mais ampla aná-
lise, ensejando-nos algumas considerações de ordem doutrinária.
       Comecemos pela etimologia da palavra, atentos à sua acepção própria.
       A palavra Administração tem sua origem no latim, onde encontramos a
forma Administrator, tendo como significação auxílio, serviço, governo, direção,
manejo.
       Estas significações já dizem por si da alta valia de um curso desta nature-
za.
       É muito compreensível que, havendo a Humanidade atingido apreciável
grau evolutivo no campo intelectual, necessitem seus representantes mais es-
clarecidos melhorar-se tecnicamente para atuarem com precisão nas várias áre-
as de ação da vida social.
       Administrar, portanto, em nosso entender, é a arte de orientar coisas e
pessoas num caminho de ordem e crescente evolução; e, num mundo em que
as almas ainda são tão heterogêneas, do ponto de vista dos valores morais e
intelectuais, temos que lutar e aprender para lograrmos vencer.
       Vencer com justeza, com mérito, escalando paulatinamente os degraus do
conhecimento, a fim de que, chegados ao cume, tenhamos valorizado a nossa
própria vida.
       Sem dúvida, é justo, necessário e meritório o desejo que alimentamos de
habilitar-nos profissional e intelectualmente, artística e tecnicamente para con-
quistas e vitórias nos campos de atividades da experiência terrestre.
       Jamais movimentaríamos quaisquer opiniões contra propósitos tão hones-
tos de atuação e liderança. No entanto, se não nos achamos com o direito de
oferecer oposição ou resistência àqueles que se propõem a especializar-se nos
domínios do mando, da chefia, sentimo-nos no dever de tecer alguns comentári-
os de caráter humano, com implicações extraterrenas.
       Sendo a criatura humana um ser de natureza gregária, segundo nos ensi-
nam os mais modernos conhecimentos de ética social, gostaríamos de saber se
os homens que se interessam pelos propósitos acima também se interessam
por bem administrar seu lar, seu corpo, sua vida, posto que o seu instinto gregá-
rio, com todas as suas implicações, há que estender-se – inevitavelmente –
além do ambiente profissional e técnico, cultural e artístico, humanista ou espe-
cializado.
       Vitoriar-se na vida prática, alcançar postos de chefia, ser reconhecido como
bom colega de trabalho e ótimo funcionário, e ser, por exemplo, mau esposo,
rixento no lar com a esposa e com os filhos, esbanjador de seus salários e bens,
é chamar para si mesmo aquele provérbio: “Casa de ferreiro, espeto de pau.”
       Ora, analisemos a questão que se nos apresenta sob o ponto de vista espi-
ritual. Sim, do ponto de vista espiritual, dizemos, porque muitos problemas que
parecem pertencer única e exclusivamente à esfera material podem ser aprecia-
dos psicologicamente, psiquicamente, desde que estejamos atentos aos seus
ascendentes imponderáveis.
Senão, vejamos. Que é a Terra, o Homem, os outros Planetas, o Universo,
enfim, senão elementos dos domínios da imponderabilidade, pertencentes ao
infinito do tempo e do espaço, indissoluvelmente ligados aos Arcanos da Cria-
ção?
       E como Senhor Supremo de tudo e de todos, Deus rege a sinfonia das coi-
sas e dos seres com maravilhosa perfeição. Por outras palavras, em a Natureza
existe auxílio, serviço, governo, direção, manejo; há, portanto, Administração.
Logo, o Criador administra, dirigindo, orientando, influindo, inspirando, assistin-
do, protegendo, dando e distribuindo.
       Passemos agora à ordem das coisas criadas, mais próximas a nós. Veja-
mos o mais sucintamente possível, apenas para exemplificar, o mecanismo do
corpo humano.
       Na cabeça, o cérebro encerra a mente, sede da inteligência, que nos dife-
rencia das outras espécies animais.
       No tronco temos, como órgão principal, o coração, que executa notável tra-
balho de vitalidade na esfera de ação da circulação sanguínea.
       Os membros, por sua vez, no seu aspecto prático, colocam-nos em contato
permanente com tudo que nos cerca, possibilitando-nos a apreensão e a loco-
moção.
       Eis a ação da Natureza, a ação de Deus.
       Como vemos, não precisaria o homem ir muito longe para poder e saber
bem zelar pelos variados patrimônios que lhe enriquecem a vida. As bênçãos
inestimáveis da paz e do equilíbrio, que promanam do Alto, roçam-nos, tocam-
nos, clamando, por assim dizer, pela nossa atenção, pela nossa compreensão,
para valorização dos bens eternos, dos valores do Espírito. Falta-nos, porém,
aquela condição de lucidez e discernimento: “olhos de ver e ouvidos de ouvir”.
       É necessário que a criatura humana, que tanto anseia pelo diploma de
Administrador, saiba igualmente e – por que não dizê-lo? – primeiramente, ad-
ministrar a sua própria vida.
       No lar, carinho e dedicação; na rua, prudência nas atitudes e vigilância so-
bre nós mesmos.
       Lembramos acima as magnificências do corpo humano, vaso sublime que
o céu nos concede para reajustamento e resgate de nossas almas; agora que-
remos lembrar o cuidado que devemos ter com este inestimável instrumento de
redenção, não o entregando aos vícios degradantes, nem a esforços desneces-
sários.
       Sejamos um administrator belli gerendi, ou seja, general-chefe da nossa
própria existência, não nos descuidando jamais dos valores eternos da alma,
lembrados da assertiva do Mestre em Mateus, 6:20: “Mas, entesourai para vós
tesouros no céu, onde não os consome a ferrugem nem a traça, e onde os la-
drões não os desenterram nem roubam.”
       Enfim, considerando que somos depositários de tudo que possuímos e ja-
mais donos, peçamos ao Senhor inspiração para bem administrar nossa exis-
tência dentro dos sagrados princípios da Lei do Amor Universal. l
Reclassificação da Literatura Espírita
   no Sistema Dewey de Classificação

     Em dezembro de 2000 a Federação Espírita Brasileira encaminhou ao
Dewey Decimal Classification (DDC) uma proposta para reclassificação dos li-
vros espíritas, assinada pelo Presidente Juvanir Borges de Souza, com indica-
ções objetivas no sentido de identificar cada livro de cada edição.
      O ISBN – Internacional Standart Book Number – é um sistema internacional
padronizado de numeração e identificação de títulos de livros.
      Como no sistema ISBN os livros espíritas estavam mal classificados, sob
divisão e disciplinas incompatíveis com a sua natureza, a FEB solicitou um es-
tudo e uma proposta concreta de reclassificação ao Dr. Washington Luiz No-
gueira Fernandes que, após demoradas pesquisas na literatura espírita em ge-
ral, apresentou o resultado de seus estudos, plenamente aprovados pelo Presi-
dente da FEB.
      Encaminhada a proposta em dezembro de 2000, o Presidente recebeu, em
20 de fevereiro de 2001, do órgão competente do DDC, a informação de que a
reclassificação foi aceita e que as mudanças sugeridas serão incluídas na edi-
ção 23 da Classificação, prevista para o ano de 2004.
      Vale assinalar que a proposta aprovada, assinada pelo Presidente da FEB,
pelo Secretário-Geral do Conselho Espírita Internacional (CEI) e pelo Dr.
Washington Luiz Nogueira Fernandes, como Presidente da Associação de Edito-
ras, Distribuidoras e Divulgadores do Livro Espírita (ADELER), resolve uma séria
questão da literatura espírita em âmbito nacional e internacional, deixando de
ser confundida com Astrologia, Ocultismo, Quirologia, Magia, etc. para se situar
na disciplina Spiritism.         l
Fé
                         W ASHINGTON BORGES DE SOUZA

     As religiões acolhem a fé como norma fundamental comum, porquanto
todas elas devem dirigir-se para o Pai Supremo que rege o Universo.
      Pressupõe-se que todo religioso guarda consigo a crença na existência de
Deus. Para se saber se a pessoa é ou não materialista basta verificar se ela crê
ou não na Divindade.
      É impossível provar a inexistência de Deus como também a ninguém é
atribuído o encargo de mostrar que o Criador Universal existe, porque toda a cri-
ação é obra divina e Sua presença é manifesta em tudo que existe em toda par-
te.
      A Doutrina Espírita tem seus fundamentos na Natureza e em suas leis e,
por isso mesmo, é impraticável relacionar todas as suas bases posto que nem
todos os preceitos naturais são conhecidos. Dentre os já revelados, há alguns
mais divulgados, abstração feita das realidades evidentes da existência de Deus,
do Espírito e da matéria. Podem, sem muito esforço, ser mencionados os que
se referem à reencarnação e à comunicabilidade dos Espíritos, os que regem os
fluidos, os princípios morais e outros como sendo aqueles mais presentes nas
reflexões e exames das pessoas. Mas é oportuno lembrar que as regras funda-
mentais da Natureza, por sua vez, desdobram-se em outros dispositivos a orde-
narem, pormenorizadamente, a forma de execução das normas naturais. É
inadmissível, portanto, nos atuais estágios evolutivos da Humanidade terrena, o
conhecimento completo dos preceitos divinos que regem a vida e a existência
das coisas.
      O Espiritismo, como Consolador divino dado à Humanidade na Terra, é a
via e a maneira naturais para a libertação dos grilhões da ignorância, do atraso,
dos sofrimentos evitáveis. Os ataques que fazem a ele, as tentativas para impe-
dir a propagação da luz que liberta, as investidas para barrar a penetração da
verdade na consciência humana são inúteis. É como querer atingir Deus com
imprecações.
      Dentre os postulados espíritas, é freqüentemente combatido o da comuni-
cabilidade dos Espíritos, ou seja, é contestada a capacidade que têm de se co-
municar com as pessoas e com outros Espíritos e de produzirem variados fenô-
menos. Embora essa capacidade seja notória e patente, porque provém de atri-
butos naturais inconcussos e, por isso mesmo, sem o caráter sobrenatural e
insólito como querem fazer crer os que ignoram a verdade, há quem persista em
negá-la.
      Por outro lado, os fenômenos espirituais, perante a Doutrina Espírita, não
têm a relevância que lhes atribuem. O importante, o essencial é o caráter religio-
so, moral, educativo, esclarecedor do Espiritismo. Ele visa ao aprimoramento do
ser humano, a torná-lo caridoso, indulgente, educado, de senso moral aperfei-
çoado para aproximá-lo de Deus.
      Há pessoas que crêem em Deus e acreditam que existem Espíritos, mas
entendem, de boa-fé, que eles não podem se comunicar com os encarnados.
Concebem os Espíritos como seres abstratos. Embora o Espírito seja um ele-
mento sutil, é um ser real e não imaginário. É a alma que comanda a pessoa. É
a sede da inteligência e de outros atributos. As pessoas vão entender mais além
que os Espíritos podem ser vistos, ouvidos e, em certos casos e determinadas
condições e circunstâncias, até tocados. Não devíamos aguardar a morte para
constatar isso, não há necessidade de esperar que se cerrem os olhos do corpo
físico para poder ver a verdade.
      O Espírito quando encarnado comanda as ações da pessoa e pode até se
afastar do seu corpo físico, permanecendo ligado a ele por intermédio do peris-
pírito que os une. É o que se verifica, por exemplo, durante o sono, nos sonhos,
no sonambulismo e em vários processos mediúnicos. Assim como o Espírito
pode se afastar de seu próprio corpo, outro pode, também, aproximar-se e se
manifestar usando os órgãos do corpo físico. São fenômenos naturais de fácil
compreensão. Há, pois, carência de entendimento e ausência de razão nos que
negam ou repelem tais possibilidades.
      Os Espíritos são os agentes dos fenômenos espirituais e mediúnicos que
se realizam com o concurso dos médiuns e a utilização dos fluidos oriundos do
fluido universal de onde provêm todas as coisas. Os Espíritos, dependendo da
sua evolução, têm a possibilidade de utilizar esses fluidos e dirigi-los por meio
de sua vontade. Os fenômenos assim produzidos somente são considerados
milagrosos por quem desconhece as normas naturais a que estão sujeitos.
Muitos desses fenômenos são imitados por mistificadores e prestidigitadores
inescrupulosos, dando ensejo a críticas injustas ao Espiritismo como se fosse
responsável por tais falsidades. Há, portanto, necessidade de observação atenta
e criteriosa para resguardar sempre a verdade. Todos aqueles que procuram
combater os abusos e embustes ajudam a espalhar a luz como procedem os
espíritas conscienciosos.
      Vale lembrar que os fenômenos espirituais, quando autênticos, constituem
fatos normais, por isso que ocorrem obedientes a princípios naturais.
      A fé do adepto sincero e consciente da Doutrina Espírita é robusta porque
se sustenta na razão. Nasce pura no coração, age em nome da caridade e do
amor a Deus, ao próximo e a si mesmo e tem fundamento na certeza e na ver-
dade. É capaz de transportar montanhas como ensinou Jesus.
      A comunicação espiritual realiza-se por intermédio de estrutura ou disposi-
ção natural denominada, na Codificação Kardequiana – mediunidade –, que é a
aptidão da pessoa para entrar em contato e se comunicar com o Espírito, encar-
nado ou desencarnado. Embora a mediunidade seja inerente ao ser humano,
acompanhando-o, portanto, em todas as eras da Humanidade e não sendo ex-
clusividade de nenhuma criatura ou crença religiosa, foi a Doutrina Espírita que a
ordenou e disciplinou, esclarecendo as condições em que os fenômenos mediú-
nicos se realizam, bem como suas diversas espécies e feições, tudo com obser-
vação atenta e exame meticuloso de cada caso, procedidos criteriosamente por
Allan Kardec e com os esclarecimentos trazidos pelos Espíritos.
      A mediunidade é fonte inesgotável de progresso, de ensinamentos, de au-
xílio não apenas para o próprio médium mas, sobretudo, para a Humanidade,
independentemente de quaisquer condições ou crenças, eis que seus benefícios
são gerais.
      Os fenômenos espirituais são evidentes e freqüentes em todos os lugares,
não se justificando o alardeamento e o alarido com referência a eles a não ser
em razão do desconhecimento das leis que os comandam.
      É de se salientar que é nos Centros Espíritas bem orientados que a mediu-
nidade é conduzida com segurança e utilidade indiscutíveis, tendo em vista que
ela representa instrumento preciosíssimo na prática da caridade, além de pres-
tar informações valiosas e propiciar sábias orientações para a correta conduta
humana. É a misericórdia de Deus a espargir bênçãos e luz tal qual procedia
Jesus outrora no Seu ministério divino nos sítios da Palestina.   l
A FEB tem Novo Presidente
      Após mais de dez anos de eficiente administração da Casa de Ismael,
exercida com extremada dedicação, o Presidente Juvanir Borges de Souza,
consciente de que já cumprira sua missão, não aceitou ser re-eleito para mais
um mandato e indicou o Vice-Presidente Nestor João Masotti para sucedê-lo, o
qual foi eleito Presidente da Federação Espírita Brasileira, por unanimidade, na
Reunião Ordinária do seu Conselho Superior, em 24 de março deste ano.
      Durante a Presidência de Juvanir Borges de Souza a FEB consolidou a sua
posição de coordenadora do Movimento Espírita brasileiro através do Conselho
Federativo Nacional, por ele presidido; intensificou as atividades de Evangeliza-
ção Espírita Infanto-Juvenil e do Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita; lan-
çou as campanhas de amplitude nacional – Viver em Família, Em defesa da
                                                        o
Vida e de Divulgação do Espiritismo – e promoveu o 1 Congresso Espírita Bra-
sileiro em outubro de 1999. No âmbito internacional, participou da fundação do
                                                                           o
Conselho Espírita Internacional, dando-lhe integral apoio, e realizou seu 1 Con-
gresso Espírita Mundial, em outubro de 1995.
      O novo Presidente Nestor João Masotti, com grande experiência no traba-
lho de Unificação do Movimento Espírita e de união dos espíritas, na condição
de Secretário do Conselho Federativo Nacional e Coordenador das suas Comis-
sões Regionais, está preparado para desempenhar a difícil mas nobre missão
que lhe é confiada.
      Para esses dois valorosos servidores de Ismael, rogamos as bênçãos de
Jesus.         l
FEB/CFN – Conselho Federativo Nacional
             Súmula da Ata da Reunião Ordinária
   Reunião em Brasília no período de 10 a 12 de novembro de 2000

1 – Abertura
       1.1 – Prece inicial
       Às nove horas do dia 10 de novembro de 2000, na Sede Central da Federa-
ção Espírita Brasileira, em Brasília (DF), o Presidente da FEB, Juvanir Borges de
Souza, saudou os Representantes das Entidades que compõem o Conselho Fe-
derativo Nacional: as Federativas Estaduais e do Distrito Federal, a Cruzada dos
Militares Espíritas, o Instituto de Cultura Espírita do Brasil (ICEB) e a Associação
Brasileira de Divulgadores do Espiritismo (ABRADE).
       A seguir, convidou a todos para a prece inicial.
       1.2 – Palavra do Presidente do CFN
       (Texto publicado em Reformador de janeiro de 2001, sob o título “Visão de
um Mundo Regenerado”.)
       2 – Expediente
       2.1 – Análise e aprovação da ata da Reunião realizada no período de 13
a 15 de novembro de 1999
       Deliberação: Colocada em votação, a ata em referência, cuja Súmula está
publicada na revista Reformador dos meses de maio, junho e julho de 2000, foi
aprovada sem ressalvas, por unanimidade.
       Em seguida, o Presidente Juvanir mandou consignar em ata a correspon-
dência recebida do confrade Luiz Pereira Melo, Presidente da Federação Espí-
rita do Estado de Alagoas, em que se justifica pelo seu não comparecimento e
apresenta os confrades Sebastião Geraldo da Silva e Luiz Jorge Lira, respecti-
vamente primeiro Vice-Presidente e Diretor de Patrimônio da referida Federativa,
para representá-la durante a reunião.
       3 – Ordem do Dia
       3.1 – Apresentação do relatório da Comissão temporária criada pelo
CFN, em sua reunião anterior, com o objetivo de analisar e apresentar pro-
postas visando ao aperfeiçoamento do trabalho de unificação com base no
Pacto Áureo
       • Deverá ser realizada uma dinâmica de estudo em grupo para análise do
    relatório e das sugestões apresentadas pela Comissão, com vistas à elabora-
    ção de um Plano de Ação Geral do CFN. Além dos membros do CFN (repre-
    sentantes e assessores), serão convidados a participar desse estudo em gru-
    po os diretores e assessores da FEB.
       Inicialmente, o Vice-Presidente Nestor João Masotti referiu-se à proposta
apresentada, na reunião do CFN de 1999, pelo representante da USE, Antonio
Cesar Perri de Carvalho, no sentido de que fosse constituída uma Comissão de
caráter temporário, com prazo de um ano, para proceder a uma análise do Mo-
vimento Espírita e apresentar propostas ao CFN visando ao aperfeiçoamento do
trabalho de Unificação com base no Pacto Áureo. Colocada em votação, a pro-
posta foi aprovada por unanimidade, tendo sido constituída Comissão formada
pelos representantes da Federação Espírita do Distrito Federal, da Federação
Espírita do Estado de Goiás, da União Espírita Paraense, da Federação Espírita
Paraibana, da União das Sociedades Espíritas do Estado do Rio de Janeiro, da
União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, da Cruzada dos Milita-
res Espíritas e pelo Coordenador das Comissões Regionais. Disse que, no de-
correr do ano de 2000, várias reuniões dessa Comissão foram realizadas e, logo
de início, designou-se o companheiro Antonio Cesar Perri de Carvalho para re-
lator dos trabalhos da Comissão em referência.
      Em seguida, o relator da Comissão, acima citado, apresentou ao plenário
do CFN o relatório que retrata o trabalho e as conclusões da Comissão.
      Conhecido o relatório, passou-se a palavra ao companheiro César Soares
dos Reis, integrante da Comissão, que deu as explicações necessárias ao nor-
teamento da dinâmica de estudo em grupo, conforme consta da pauta da Reu-
nião.
      Os trabalhos dos grupos se desenvolveram durante grande parte do dia,
proporcionando ampla oportunidade de participação e de troca de idéias e expe-
riências. Após a sua realização, foi elaborada pelos coordenadores dos grupos –
com base nas idéias e sugestões de cada grupo – uma proposta de Plano de
Ação Integrado do CFN. Antonio Cesar Perri de Carvalho e César Soares dos
Reis fizeram, em plenário, uma síntese das atividades realizadas pelos grupos,
apresentando, para apreciação dos Conselheiros, a referida proposta de Plano
de Ação Integrado do CFN, nos seguintes termos:

     “Proposta de Plano de Ação Integrado do Conselho Federativo Nacio-
nal da FEB

     Considerações Iniciais
     No desenvolvimento da metodologia da dinâmica de grupo encontramos
franca receptividade e ampla participação de todos os componentes dos grupos.
     O interesse foi claramente demonstrado no sentido de oferecer contribui-
ções construtivas, de amplo espectro, reforçando a ação do CFN na orientação
do Movimento Espírita nacional.
     Foram constituídos seis grupos, coordenados pelos membros da Comissão
Temporária e secretariados por integrantes dos grupos.
     Num primeiro momento foram lidos textos de apoio previamente distribuí-
dos, tendo havido livre manifestação geral, a título de homogeneização dos
componentes dos grupos.
     Ao final da dinâmica de grupos os secretários registraram as idéias e su-
gestões dos grupos e os coordenadores elaboraram a presente minuta de Plano
de Ação que consolida os vários relatórios, contemplando prioritariamente as
unanimidades, além de levar em conta todas as sugestões. O Plano prioriza as
ações segundo critérios de oportunidades e de operacionalização.

      Plano de Ação
      O presente Plano de Ação tem necessariamente foco estratégico nacional
e, portanto, não contempla ações locais. Posteriormente, quando operacionali-
zado pelo CFN, deverá ser estruturado segundo os pormenores necessários. Em
realidade, este Plano é uma declaração de intenções, as quais serão transfor-
madas nas ações componentes dos respectivos projetos.
Revista Reformador Maio 2001
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Revista Reformador Maio 2001

  • 1. REFORMADOR Revista de Espiritismo Cristão Fundada em 21-1-1883 por Augusto Elias da Silva Ano 119 / Maio, 2001 / Nº 2.066 ISSN 1413-1749 Propriedade e orientação da www.febrasil.org.br feb@febrasil.org.br FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA Deus, Cristo e Caridade Direção e Redação Rua Souza Valente, 17 20941-040 Rio RJ Brasil Editorial – União e Trabalho Verdade e Liberdade — Juvanir Borges de Souza A Virgem — Judas Isgorogota A Reencarnação no Velho Testamento — Javert Lacerda Santos Mãezinha, Deixa-me Voltar!... — Mário Frigéri Vingança — Roosevelt Pinto Sampaio Mães no Além-Túmulo — Ismael Ramos das Neves Sórdidos Porões — Joanna de Ângelis O Blefe da Morte — Mauro Paiva Fonseca O Primeiro Janeiro — Richard Simonetti No Dia do Trabalho — Passos Lírio Esflorando o Evangelho — Contristação — Emmanuel Da Satisfação das Necessidades à Felicidade – Nadja do Couto Valle A FEB e o Esperanto – Democracia Lingüística — Affonso Soares Encontro de Espíritas-Esperantistas Será que o Aborto Diminui a Criminalidade? — José Yosan dos S. Fonseca Administração — Iaponan Albuquerque da Silva Reclassificação da Literatura Espírita no Sistema Dewey de Classificação Fé — Washington Borges de Souza A FEB tem Novo Presidente FEB/CFN – Conselho Federativo Nacional — Súmula da Reunião Ordinária de 2000 Retificando... Federação Espírita Brasileira – Administração Seara Espírita Assinatura de Reformador - Edição Impressa Seja Sócio da FEB Nota: No mês de maio comemora-se o Dia das Mães. Por isso, Maternidade é o tema de nossa capa, como homenagem a Maria de Nazaré – Mãe de Jesus – e a todas as Mães, através das seguintes matérias: A Virgem, poesia em que o autor ressalta o amor de Jesus por Maria, sua Mãe; o poema intitulado Mãezi- nha, deixa-me voltar!..., sobre a mãe que chora e clama pelo filhinho desencarnado, e repele o seu retorno ao ventre materno por meio do aborto; e o artigo Mães no Além-Túmulo, acerca do amor que as mães desencarnadas continuam a dedicar aos seus filhos da retaguarda material.
  • 2. Editorial União e Trabalho Os Espíritos Superiores que trouxeram a Doutrina Espírita com que Allan Kardec ilumina a Nova Era através de suas obras básicas, destacaram sempre que essa mensagem veio para a Humanidade inteira, e trabalham no sentido de que os seus ensinos alcancem todos os homens, pois através do seu conheci- mento e da sua vivência, teremos todos melhores condições para sair do círculo de dor, ignorância, violência e sofrimento que ainda caracterizam a nossa socie- dade. É, sem dúvida, um trabalho de vulto, que reclama dedicação, coragem e perseverança, já que é natural que haja obstáculos e dificuldades na sua execu- ção. Somos, os espíritas encarnados, convidados a participar dessa grande obra de regeneração humana. Nessa tarefa, podemos e devemos estabelecer estratégias, elaborar programas, fazer planejamentos, montar planos de ação e realizar treinamentos. Todavia, se não construirmos entre nós os laços da união sincera e fraternal, que expressam o esforço honesto de colocar em prática os princípios cristãos que nos norteiam, marcados pela humildade e pela dedica- ção, por certo todo esse trabalho será em vão, pois não alcançaremos o nosso desiderato. A tarefa que nos cabe realizar, em conjunto, é a de tornar a Doutrina Espí- rita cada vez mais conhecida e melhor praticada. É obra para muitas reencarna- ções, que reclama perseverança e continuidade ininterrupta. É tarefa aparente- mente complexa, mas que se torna simples quando a executamos de conformi- dade com os princípios de amor que Jesus exemplificou para todos nós. Estar nessa tarefa é, sem dúvida, uma manifestação de fé dos Amigos Espirituais na nossa capacidade de vencer nossos próprios desafios. A difusão da Doutrina Espírita não é tarefa restrita a uma única pessoa ou instituição. É trabalho para todos aqueles que, beneficiados pelo seu conheci- mento, sentem-se no dever de estudá-la, praticá-la e divulgá-la para que seus benefícios alcancem os que dela sentem necessidade. É trabalho para os dis- postos a enfrentar os desafios da indiferença, do desinteresse e da rejeição e para os interessados em romper as próprias limitações, em enfrentar as próprias falhas e fazer valer o propósito do autoburilamento. Para isto, todavia, é indis- pensável a união de todos, voluntária e consciente, em condições de igualdade, orientando sua ação dentro dos princípios doutrinários que norteiam a Codifica- ção. União e trabalho é o que o Mundo espera dos voluntários espíritas na sua tarefa de colocar a mensagem consoladora ao alcance de todos. União e traba- lho é o que Jesus espera de todos nós, no atendimento aos carentes de luz e aos sedentos de paz. l
  • 3. Verdade e Liberdade JUVANIR BORGES DE SOUZA Há uma correlação perfeita entre a Verdade e a Liberdade, quando se procura o conceito mais profundo que cada um dos termos encerra. Por isso tem significação especial o ensino do Cristo, subordinando a liberdade ao conhe- cimento da verdade: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” Mas, o que é a verdade? Essa mesma pergunta fez Pilatos a Jesus, quando de seu julgamento, e o Mestre perma- neceu silencioso. De que adiantaria a resposta se os homens da época, inclusive o governador romano da Judéia, não estavam em condições de compreendê-la? Era necessário que decorressem muitos séculos, que a Humanidade progredisse intelec- tual e moralmente, que viesse a complementação dos ensinos do Mestre através do Consolador para que o homem tivesse condições de reformular a pergunta e obter resposta satisfatória. A verdade absoluta é una, compreendendo todos os princípios estabelecidos pelo Criador na ordem física e na ordem moral-espiritual. Sua amplitude é, pois, infinita. Mas a verdade, na sua forma relativa, vai sendo conhecida pelo homem na medida da sua evolução. Verdades denominadas científicas, no campo físico, são descobertas rela- tivas à matéria. Ocorre que o homem, o cientista, no afã de tudo saber, domina- do pelo orgulho, julga ter descoberto verdades eternas. Entretanto, novas pes- quisas demonstram que a verdade anterior é substituída por outra. Na Física, na Biologia, na Medicina, é comum os conhecimentos serem substituídos por ou- tros, numa sucessão de verdades provisórias. No campo moral-espiritual, a grande fonte da Verdade é Jesus, o Cristo de Deus, que se tem feito ouvir em todas as épocas, desde tempos imemoriais, através de missionários e mensageiros enviados a este Orbe sob sua orientação de Governador Espiritual da Terra. Seus ensinos diretos, por ocasião de sua presença pessoal na Terra, retifi- caram conceitos anteriores e ratificaram outros, trazidos por seus emissários. O Filho de Deus fez-se ouvir depois de sua passagem pela Terra, através de seus apóstolos e de seu Evangelho, chegado aos nossos dias. Com o Consolador – a Doutrina dos Espíritos –, o “Espírito de Verdade” re- tifica as incorreções interpretativas dos homens, através de muitos séculos, e deixa à Humanidade novos aspectos da Verdade, a serem compreendidos pro- gressivamente, na medida em que os homens, despertos, possam entendê-los. Assim, quanto mais se eleva intelectual e moralmente, mais nítida se apre- senta a verdade à percepção do Espírito imortal. Na Doutrina dos Espíritos, uma avalancha de revelações, de explicações, de demonstrações e de deduções lógicas, trazidas pelas Vozes do Céu, recolo- cam muitas coisas no seu verdadeiro sentido, como adverte o Espírito de Verda- de no Prefácio de O Evangelho segundo o Espiritismo. De outro lado, as ciências do Mundo, cultivadas por Espíritos a elas dedi- cados, tornam possível o avanço do conhecimento no que se refere à materiali- dade. São aspectos diferenciados da Verdade, pondo à mostra princípios da or-
  • 4. dem moral e da ordem física que conduzem a Humanidade ao próprio aperfei- çoamento. É a lei do progresso em funcionamento, lento mas inexorável. ... Tudo o que é verdadeiro é bom. A Verdade não se pode contrapor ao Amor e à Justiça, já que procedem da mesma fonte Superior – o Criador de todas as coisas, o Legislador Divino. Aquele que persistir na busca da Verdade será libertado do erro, do peca- do, da mentira, da ilusão, da ignorância, do mal. O caminho para a busca da verdade que liberta não é fácil. Entretanto, to- dos nós, Espíritos imperfeitos que habitamos mundos inferiores, como a Terra, temos a perspectiva do aperfeiçoamento, vale dizer, do progresso individual e coletivo. Os meios para essa busca são o trabalho útil constante, a perseverança no bem, a prática cada vez mais ampla do amor e da justiça, nas suas acepções mais elevadas e abrangentes. O Criador dotou-nos de todos os requisitos para a evolução individual: inte- ligência, razão, vontade, livre-arbítrio, discernimento entre o bem e o mal através da consciência. A cada um cabe o dever de utilizar esses dons no sentido do bem e do progresso. Acontece que, no uso do livre-arbítrio, inúmeros Espíritos agem em sentido contrário ao do seu próprio progresso. Daí a necessidade das retificações dos erros, o que demanda tempo e su- cessivas reencarnações em mundos materiais como a Terra. A sujeição ao erro equipara-se à escravidão ao mal. A Verdade é libertadora. ... Liberdade tem significações diversas no mundo que habitamos. Pode significar transferência de poder, cessação de uma sujeição a ou- trem, como no caso da libertação da escravatura negra. Noutro sentido, é a rea- lização dos próprios desejos, ou a desobediência às leis humanas e às leis mo- rais, confundindo-se com a licenciosidade para se fazer o que bem se entenda. Muitas vezes confunde-se o abuso com a liberdade. Mas libertar-se significa também conhecer, beneficiar-se com a verdade, como na célebre sentença do Cristo. Tanto mais livre será o Espírito quanto mais progredir no conhecimento das verdades eternas na conquista das virtudes. Na divisão das leis morais, os Espíritos Reveladores, em O Livro dos Espí- ritos, dedicam todo um capítulo à Lei de Liberdade. Que espécie de liberdade pode aspirar o Espírito sujeito à vida material em um mundo de expiações e provas? De forma geral todos aspiram à liberdade, mas não se dão conta de que aceitam e se acomodam às próprias inferioridades e à ignorância, numa contra- dição que raia ao paradoxal. “Para achar a verdade, é preciso procurá-la com um coração simples.” Este pensamento, que é de Bernardin de Saint-Pierre, reflete o espírito do Cristianismo e do Espiritismo.
  • 5. A busca da verdade, com o desenvolvimento do espírito crítico, não exclui a humildade, que é o reconhecimento das próprias limitações, nem os sentimen- tos do amor e da justiça, nas suas mais altas expressões. Somente o conhecimento da verdade, com a segurança da sabedoria e dos bons sentimentos, pode oferecer à liberdade campo propício à sua atuação se- gura nas relações humanas. Sem a base da verdade, a liberdade, mal compreendida, pode ser utilizada por indivíduos ignorantes, corruptos, inescrupulosos e egoístas, levando às po- pulações terríveis pesadelos sob a forma de perseguições, injustiças, conflitos, etc., como é comum no mundo que habitamos, nos regimes ditatoriais da atuali- dade e nas autocracias do passado. O escravagismo, o absolutismo e o fanatismo, formas de dominação do homem pelo homem, encontram nos ideais de liberdade, igualdade e fraternida- de oposições firmes e lúcidas em prol das reformulações nas organizações polí- ticas e sociais. Não são livres os que ignoram, os que erram, os que se comprazem no mal. Pelo contrário, esses são escravos do pecado, como asseverou Paulo. O materialismo é, pela própria natureza de suas concepções, a contraposi- ção da verdade e da liberdade. Aquele que nega a existência de Deus, o Criador, e a si próprio como alma imortal, que usa seus atributos sem reconhecer-lhes a verdadeira natureza, e que só admite a existência da matéria, perceptível por seus sentidos físicos, não tem condições de libertar-se dos elos da ignorância, sem antes deparar-se com a realidade do Espírito. Enquanto procurar explicar os fenômenos da Vida que o cerca pelo simples acaso da agregação e desagregação da matéria orgânica permanecerá na con- dição de morto espiritual, vítima da ignorância e do erro, escravo do nada. Essa terrível limitação materialista divorcia-se da Verdade evidente, escra- viza o ser ao niilismo, mata a esperança na vida futura, tornando-o um confor- mista ou um indiferente diante da morte, que é, para ele, o fim sem opção, o nada absoluto. Essa pobre criatura, por mais livre que se julgue perante as leis humanas, não se pode libertar de uma concepção errônea que a escraviza. Só se vai li- bertar pela realidade da vida – a verdade da existência do Espírito – com que se deparará fatalmente. Muito acima dos conceitos acanhados do materialismo, que conduz ao nada, paira uma realidade radiosa, a verdade límpida e fulgurante do Espírito. Sua natureza é independente da matéria. Sobrepõe-se a ela, domina-a, agita-a e dela se serve para seu progresso e libertação. Para toda ação no Bem a liberdade é essencial, devendo ser utilizada com a responsabilidade decorrente do conhecimento das realidades imanentes – a Verdade, o Amor, a Justiça. O Cristo é o libertador de todos os que seguem sua Mensagem. l
  • 6. A Virgem JUDAS ISGOROGOTA (Palavras de Oscar Wilde, recolhidas por Léonard Sarluis e publicadas por Guillot de Saix.) Nesse dia, Jesus, que perfumado acabara de ser por uma outra Maria, sua Mãe encontrou. Maria olhou-o com um olhar magoado. Nos olhos seus só a tristeza havia. Jesus lhe perguntou: – Ó minha Mãe, por que estão teus olhos tão tristonhos assim? E a Virgem respondeu: “– Filho, os meus olhos andam tristes assim por tua causa... Não me amas a mim... Já quando me deixaste para ires ter com os doutores e com os sacerdotes, lembras-te, filho meu? disseste-me palavras que feriram como punhais meu coração dorido: – “Mulher que de comum há entre ti e Eu?” E agora, não contente tu de andares pelas estradas juntamente aqueles que no pecado estão, falas pelo caminho às pecadoras, filho do coração...” Jesus beijou-a ternamente e disse: – “Mulher, que de comum há entre ti e Eu? A um médico interessa apenas o doente... E eu vim remir, ó Mãe, pecadores e infiéis... A este mundo seria inútil minha vinda, se todas as mulheres fossem puras assim como tu és...” Fonte: ISGOROGOTA, Judas. Interlúdio, São Paulo: Edição Saraiva, 1950, p. 41-43.
  • 7. A Reencarnação no Velho Testamento JAVERT LACERDA SANTOS A reencarnação é um assunto bastante abordado pelos expositores espí- ritas, muito embora cada um a analise de acordo com a sua compreensão, mas sempre respeitando o ensino da Doutrina Espírita. Allan Kardec sempre recomendou a necessidade da leitura constante das obras básicas para não comprometer a Doutrina. Se a reencarnação não fosse um fato verdadeiro, Jesus não teria falado tão claramente sobre a necessidade de nascer de novo. Os expositores do Evangelho de Jesus pregam, das tribunas, que a Doutri- na Espírita é a chave capaz de melhor explicar os ensinamentos do Mestre e Senhor, e é verdade. Haja vista o diálogo de Jesus com Nicodemos, que, apesar das explica- ções, ele não compreendeu como podia um homem velho nascer de novo. En- tretanto, quando os apóstolos indagaram de Jesus “porque era necessário que Elias viesse primeiro”, após as explicações do Mestre, entenderam que Jesus falava de João Batista (Elias reencarnado) e que os homens daquela época pouco sabiam do Mundo Espiritual e muito menos como se dá a reencarnação (de onde vem o Espírito e para onde ele vai após a desencarnação). Esta foi a incompreensão de Nicodemos. “Em verdade vos digo, ninguém pode entrar no reino dos céus se não nascer de novo”, disse Jesus. Por esta e outras incompreensões é que Jesus prometeu enviar outro Con- solador, em nome de Deus, que ficaria conosco eternamente e nos faria relem- brar Seus ensinamentos e nos revelaria outros ensinamentos que o mundo ain- da não podia compreender. Esse Consolador é a Doutrina Espírita, que foi reve- lada pelos Espíritos do Senhor. O primeiro mandamento da lei de Deus, recebido por Moisés, no Monte Si- nai, diz textualmente: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás nem lhes darás culto; porque eu sou o Senhor teu Deus, Deus zeloso que puno a ini- qüidade dos pais nos filhos, na terceira e quarta geração, daqueles que me abor- recem” (Êxodo, 20:1-5). O espírito desse mandamento ensina claramente a necessidade e a justiça da reencarnação. Quando a lei diz “porque eu sou o Deus zeloso que puno as faltas dos pais nos filhos, na 3a e 4a gerações, é porque, na 1a e na 2a, ele (o pai) ainda é contemporâneo do filho e do neto; mas, na 3a e (ou) na 4a, geralmente ele já desencarnou e poderá estar reencarnando na sua própria descendência e vindo colher o que plantou. Assim, a punição cai no próprio Espírito culpado e não em qualquer outro descendente; porque nenhum Espírito é castigado pelas faltas de seu ancestral. Os Espíritos podem reencarnar nas mesmas famílias, para que se cumpra o ensinamento de Jesus: “A sementeira é livre mas a colheita é obrigatória.” Como os Espíritos reencarnam sucessivamente, tantas vezes quantas fo- rem necessárias ao seu adiantamento, pode acontecer, se for necessário, que o
  • 8. Espírito de um homem (ou mulher) venha a reencarnar na sua própria descen- dência; e aí é que, na 3ª ou na 4ª geração, é o próprio Espírito que vem colher os “frutos” de sua sementeira. É a justiça de Deus e não uma punição. É a sabedo- ria Divina dando oportunidade ao Espírito de reparar suas próprias faltas. “O vento sopra e ninguém sabe de onde ele vem, e nem para onde ele vai.” l
  • 9. Mãezinha, Deixa-me Voltar!...* MÁRIO FRIGÉRI “(...) Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” Jesus. (João, 10:10.) Mamãezinha, vi teu desencanto, Registrando-o no meu coração; Procurei enxugar o teu pranto, Envolvendo-te em minha afeição. Por mil vezes vestida em ternura A minh’alma com a tua orou, Quando ias, junto à sepultura, Procurar-me onde já não estou. Quantas vezes com doces palavras Quis dizer-te que nunca houve adeus; Sem consolo, porém, tu choravas, Imprecando, infeliz, contra Deus. Me chamavas... Tão forte me veio Teu apelo, que eu quis, outra vez, Aninhar-me, mãezinha, em teu seio, Mas negavas-te a tal gravidez. Eras bela e de talhe formoso... Não querias, por isso, gestar Outro filho... e eu, cá, pressuroso, Desejando ao teu ventre voltar... Muitos anos segui os teus passos, Preso a ti pelo mútuo sofrer; Eu sonhando o calor de teus braços, Tu, porém, repelindo-me o ser. Mas um dia, mamãe, descuidosa, Me albergaste em teu seio envolvente, E uma prece de luz, silenciosa, Murmurou meu corpinho nascente.
  • 10. Que alegria, meu Deus! Nesse instante, Explodiu a minh’alma em canção: Eu veria outra vez teu semblante, Pulsaria com o teu coração! Encolhi-me inteirinho no ovo, Prelibando o momento tão santo De beijar tuas faces de novo E teus olhos mareados de pranto! Era a vida a estuar: ossatura, Carne em flor... ah, mistérios infindos! E eu sonhando ostentar a estatura Do papai e os teus olhos tão lindos! Mas, mamãe, tu que tanto chamavas Por meu nome... ao sentires-me em ti, Rebentaste o teu peito em mil lavas De revolta, igual quando parti. Protestavas amar-me e querer-me Nas lembranças de teu coração, Recusando, porém, receber-me Outra vez pela reencarnação... Só queria outra vez ser criança, Pentear tua mecha ondulada, Espargir flores, sim, de esperança Sob os teus pés cansados da estrada... Tudo em vão! Piedade e assistência Por nós dois supliquei... e dormi. E arriscaste a preciosa existência Para, ao fim, expulsar-me de ti! Atiraste-me às mãos assassinas De impiedoso e venal charlatão: Teu filhinho animoso e traquinas Retalhado, mãe, sem compaixão... Quis, com frio, aquecer-me na pira De tua alma, a envolver-me em saudade: Teu amor, porém, era mentira; Teu desejo era só enfermidade.
  • 11. Não quiseste, em teu gesto aloucado, Perceber que era teu filho, ali: Mãe, aquele embrião extirpado Era eu que voltava pra ti! Tenho pena de ti, pobrezinha! Pois reclamas de Deus, que, com amor, Me chamou, certo dia, e sozinha Tu ficaste a carpir tua dor. Tu ficaste a carpir... Entretanto, Ao clamares com imensa saudade, Quando Deus respondeu ao teu pranto, Me imolaste com toda a impiedade. Oh, mãezinha, me deixa voltar!... Deus é Amor... é o Amor que nos fez! Eu só peço em teus braços ficar E beijar teu rostinho outra vez! * Versificação da página “Carta à Mãezinha”, do livro Depoimentos Vivos – Divaldo P. Franco – Diversos autores espirituais – Salvador: Livraria Espírita Alvorada Editora, 2000, pág. 105.
  • 12. Vingança ROOSEVELT PINTO SAMPAIO A vingança é um sentimento inferior que se liga ao ódio, ao rancor, à desforra, enfim à busca de justiça pelas próprias mãos. Notem que todas essas ações, a ela ligadas, são de baixo nível moral. A vingança povoa muitos romances espíritas, que narram encarnações su- cessivas presididas todas por esse sentimento e isso demonstra a incompreen- são do Espírito ao processo de evolução ao mostrar que em novas encarnações volta a falir nos compromissos assumidos, quando da programação de seu re- torno à Terra. Esses Espíritos provam não ter aprendido que a justiça só a Deus pertence. As obsessões são muitas vezes o resultado dessas incompreensões. Sur- ge um vingador, que se supõe dono da verdade e juiz, por si só ou incitado por outros Espíritos inferiores de vibrações semelhantes, e que se lança à busca de seu desafeto que será massacrado por ataques irresponsáveis. Esses Espíritos estão acumulando, assim, novos débitos que poderiam ser evitados se enten- dessem o verdadeiro valor do perdão, apontado por Jesus como o instrumento usado pelo amor para solucionar problemas de tal ordem. O Mestre nos mostrou a importância do perdão; que ninguém chegará ao Pai sem antes exercer o perdão plenamente. Como desejarmos ir ao Pai para pedir qualquer coisa sem que por nossa parte já tenhamos dado mostra de ser capazes de nos reconciliar com os nossos inimigos? Inimigos? Como pensar dessa maneira quando sabemos que somos todos filhos do mesmo pai: Deus? Este sentimento só poderia estar vinculado a quê? Ao egoísmo e ao orgu- lho, os dois grandes males que afetam a Humanidade. O que vemos é ainda o predomínio do materialismo que acirra o egoísmo fazendo com que os indivíduos se dirijam à busca de bens, de poder, de posição que quando alcançados fazem brotar o orgulho, a prepotência, chegando a criar distância entre os indivíduos que passam a ter um tratamento indevido e, às ve- zes, em muitos casos, até mesmo indigno. Por outro lado, quando os objetivos dos poderosos, dos que detêm o poder não são alcançados, sentimentos inferiores como a inveja, o despeito, conjunto que demonstra nossa inferioridade moral, passam a dominar suas ações, vindo a funcionar como as causas para o aparecimento da vingança. Quantos de nossos irmãos que se apresentam em dificuldades são mal- tratados, vilipendiados e nada conseguem obter, quando se vê o desperdício a grassar próximo a eles. A distância imposta, a inação por parte dos governantes, deixando muitos em condições precárias, sem ver uma saída, criam sentimentos de ódio, frustra- ção, desesperança, enfim o distanciamento entre os dois segmentos. É uma grande e primeva causa para o aparecimento da violência, principalmente no caso das sociedades urbanas. É, na verdade, outra forma pela qual este senti- mento inferior, a vingança, se vai manifestar. O problema maior é que quando o egoísmo toma conta do indivíduo, ele se torna enceguecido, só a ele vê, só se importa com seus interesses, em satisfa- zer caprichos e prazeres quase sempre sem a menor importância.
  • 13. O egoísmo ressalta o orgulho que, por conseqüência, faz com que tudo o que dissemos se agrave. Encontramos narrativas ditadas por psicografia em que o orgulho se destaca na caracterização da vingança por fatos como posições não alcançadas, ciúmes, vaidades, poder obstruído, ruínas financeiras, amor não correspondido, etc. Da mesma forma, na vida terrena, em que o indivíduo se sente prejudicado por outro, qualquer que seja o setor de vida ou motivo – econômico, familiar, amoroso, de posicionamento, ou qualquer outro – é fácil o estabelecimento do sentimento de vingança. A vingança nasce, pois, do desconhecimento da máxima de Jesus: o Amor. Ele nos ensinou que não devemos querer para os outros aquilo que não quere- mos para nós. Quando nos conscientizarmos de que estamos na Terra para nos melhorar e que episódios que nos marcaram ou marcam sentimentos negativos quanto a outros irmãos devem ser, então, tratados de outra maneira, estaremos no cami- nho da evolução, contribuindo para a necessária modificação nossa e do Pla- neta. A vingança é um sentimento menor, mostra a forma de incompreensão que ainda vige entre os homens. Muitas vezes o sentimento surge pela falta de uma avaliação real da situa- ção ou de outro mal, nosso conhecido, o orgulho ferido. O homem tem que se conscientizar de que jamais poderá ser juiz. Ele, no máximo, estará apto a avaliar as suas próprias ações, o que nem sempre deseja por saber o quanto é falível e errado. Assim, não podendo julgar as ações do próximo, este conjunto de realizações e sentimentos inferiores que embasam a vingança – a inveja, o despeito, o ódio, o rancor, o sentimento de desforra, etc. –, se esborroam sem o menor sentido, pois não podem ser parâmetros para uma ação impossível e impraticável de se fazer: julgar. A vingança, pois, perde todo o seu suporte e expressão, colocando-se como deveria ser sempre entendida: um sentimento sem valor, sem expressão e que deve ser banido de nossas ações, fazendo melhorar o nosso grau de inferioridade por estarmos a ela associados. Ao ser crucificado disse Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. (Lucas, 23:34.) A respeito disso diz Bittencourt Sampaio: “Estas palavras não acham pari- dade nas de homem algum do nosso obscuro planeta: exprimem a condenação dos sentimentos de vingança – a comiseração pela ignorância – o sublime amor da fraternidade universal .”* Não é possível usarmos de forma errada e continuada nosso livre-arbítrio, esse que, para nós, é o fiel da balança. Quando o usamos de forma correta es- tamos marcando um ponto em nosso processo de evolução e isso só é possível a partir da assimilação por nossa parte das condições necessárias à mudança. Quando pudermos exercitar valores como a humildade, o serviço aos necessita- dos, o trabalho, o amor estaremos aptos a postular melhor condição. Podere- mos, então, iniciar nossa caminhada como trabalhadores do bem. É possível, então, dizer que não há mais lugar para sentimentos inferiores como a vingança. O que irá predominar? A compreensão fundada no amor, gerando, em conse- qüência, a condição de sermos postulantes de trilhar o caminho que nos trans- formará no Homem Novo. l * BITTENCOURT Sampaio, F. L. A Divina Epopéia. 4. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1988, p. 482.
  • 14. Mães no Além-Túmulo ISMAEL RAMOS DAS NEVES Escrevemos esta crônica para enaltecer o “Dia das Mães”. Em louvor à rainha do lar, cânticos e flores emolduram de alegria e de esperança o cenário do mundo. Realmente, nossas mães são os anjos tutelares de nossas vidas. Justo, pois, que lhes consagremos o tributo do nosso mais profundo reconheci- mento. Nesta oportunidade queremos realçar, também, a memória das mães que partiram de regresso à Espiritualidade. Elas não morreram, porque a vida prossegue além da lápide fria dos cemitérios. Na incomensurabilidade do espaço cósmico, as almas dos entes queridos que se ausentaram da Terra continuam construindo e amando. Construindo valores inalienáveis do espírito e plantando, ao longe de seus passos, as sementes inesquecíveis da solidariedade e da paz. Nossas mães registram as mensagens inarticuladas de nossos corações, quando lhes ofere- cemos, no ádito de nossos sentimentos mais profundos, a prece de louvor, de reverência e de confiança no Altíssimo. Por isso, nossas genitoras que partiram não estão mortas! Elas estão vivas, velando por nós, os filhos que ficaram! Te- mos, ao longo de muitos anos, tomado conhecimento de fatos e episódios que os livros mediúnicos referenciam. No mundo dos Espíritos, mães altruísticas e missionárias realizam tarefas de abnegação, velando por filhos rebeldes que, na Terra, continuam envoltos no labirinto da embriaguez ou da toxicomania. Tudo fazem para transmitir aos seus rebentos pensamentos de regeneração, para que eles possam se libertar da viciação em que se aprisionaram. Por mais que a indiferença e a rebeldia dos seus tutelados lhes agridam o sentimento de mães abnegadas, elas prosseguem amando e servindo, implorando ao Criador energi- as novas, para que possam se constituir gênios inspiradores de seus filhos. É a demonstração eloqüentíssima do verdadeiro amor! Reverenciemos, pois, as almas acrisoladas de nossas mães que partiram para a vida do espírito. E guardemos a certeza de que, quando soar a hora de nosso regresso à Espiritualidade, pelo processo natural da desencarnação, po- derão ser os braços misericordiosos de nossas mães que se nos estenderão, para receber-nos no pórtico da vida espiritual, porque o túmulo não separa aqueles que se amam. l
  • 15. Sórdidos Porões A civilização dita cristã do Ocidente ainda não compreendeu que Jesus é o exemplo da centralidade mais admirável que se conhece. Em todo o Seu ministério jamais houve lugar para a exclusão, para a exceção. Ele sempre se caracterizou pela proposta de solidariedade humana e pela igualdade dos direi- tos humanos. A Sua mensagem renovadora tem uma direção certa: a transformação moral da criatura para melhor, sempre e incessantemente. Nesse sentido, nin- guém se pode considerar indene ao crescimento interior ou excluído da oportu- nidade. Jamais o Mestre preferiu aquele que tem mais ou que pensa ser mais, preterindo aqueloutros detestados, marginalizados, esquecidos. À semelhança dos profetas antigos, Ele veio resgatar os mais sofridos, os mais perseguidos, os mais desesperados. Não há lugar em Sua palavra para qualquer tipo de preconceito. Ele próprio pertenceu a um lugar de excluídos, conforme anotou João no comentário feito por Natanael, quando convidado por Filipe para conhecê-lO: – Pode vir alguma coisa boa de Nazaré? (João, 1:46.) Não poucas vezes Ele sofreu o opróbrio, a humilhação, o acinte, a perse- guição sistemática. Conhecendo, portanto, a hediondez da perversidade e injustiça humana, Ele colocou no centro aqueles que são empurrados para a periferia, para a mar- ginalidade, fazendo com eles um pacto de amor. É esse amor que viceja em toda a mensagem neotestamentária, renovando as esperanças do mundo e apontando um rumo de segurança onde predomine a vera fraternidade. Os indivíduos que se apresentam como sendo mais poderosos, mais possuidores, também não foram rejeitados, porquanto Ele sabia que esses, igualmente, são infelizes, refugiando-se no terror, na opressão, na vingança, na exploração do seu próximo, através de cujos artifícios se sentem seguros nos tronos de mentira em que se sentam. Os opressores, os perseguidores são pessoas que perderam a direção de si mesmas, tornando os corações empedrados, por não se permitirem a doçura que tanto desejam e de que sentem irresistível falta. Invejam-na em quem a tem, e por isso, através da projeção do seu conflito, perseguem-no implacavelmente, com violência, como se a houvessem roubado do seu sacrário íntimo. Jesus respeitou todas as vidas, concedendo o direito de cidadania iguali- tária a todos quantos adotassem o reino de Deus e se empenhassem pelo con- seguir. Os modernos cristãos, conforme ocorreu com muitos outros no passado, não compreenderam esse ensinamento, que registraram no cérebro, mas não insculpiram nos sentimentos. São capazes de abordar o tema da solidariedade com lágrimas, no entanto, não saem do pedestal em que se encastelam para proporcionar centralidade ao seu próximo, arrancando-o da periferia marginaliza- dora. ... Não obstante as gloriosas conquistas culturais, científicas e tecnológicas, o ser humano ainda mantém o seu próximo em muitos porões de exclusão, que são habitados pelos que se fizeram ou foram tornados marginais: crianças que
  • 16. se prostituem por imposição da crueldade moral, geradora da miséria socioeco- nômica, pela escravidão do indivíduo que não tem escolha e perdeu a liberdade de decisão e de movimento, e os que vivem nas ruas do mundo, desconsidera- dos e sem quaisquer direitos, perfeitamente descartáveis pela sociedade hedo- nista. Suas dores, suas necessidades são propositalmente ignoradas, e não raro, tidos como lixo social, são assassinados, exilados, expulsos dos seus guetos, porque enxovalham a sociedade que os excluiu. Trata-se de hediondez da modernidade, que somente pensa no cresci- mento horizontal do seu poder e da sua libertinagem, esquecendo-se do ser humano em si mesmo, que é o grande investimento da vida. Nesse lixo social, encontram-se também muitas jóias perdidas: homens e mulheres de bem e de valor, que derraparam nas ruelas da existência e não tive- ram resistência para enfrentar e vencer as vicissitudes, enveredando pelo alcoo- lismo, pela toxicomania, pela perversão de conduta nos vícios sexuais, vivendo nos escuros porões que lhes servem de refúgio. Perdida a dignidade humana, eles relutam para permanecer nesses sítios de vergonha e sombras, sendo denominados criminosos, mesmo que crime al- gum hajam cometido. Rotulados de lixo, criminosos, excluídos, gentalha, perdem a identidade e não se encorajam a recuperar a sua humanidade, que lhes foi tirada e nunca devolvida. Afirma-se que esses irmãos da agonia se recusam a sair dos porões onde se encontram, e que, ao serem retirados, fogem de retorno aos mesmos lugares onde se entregam aos disparates da vergonha moral. Talvez haja razão com a exceção, jamais com a totalidade. Ocorre, muitas vezes, que se encontram enfermos, sem autoconfiança, sem nenhuma auto-estima, e autopunem-se, após haverem sido torturados, es- tuprados, pervertidos. A sua terapia de recuperação é lenta, quanto o foi a impo- sição da degradação, da perda de sentido existencial. É impressionante observar como poucos cristãos dão-se conta do que está ocorrendo à sua volta e poderá atingir o seu castelo de refúgio e de ilusão. Mesmo quando vêm à superfície as denúncias contra a dignidade violada do seu próximo e ele aparece como fantasma apavorante, esses cristãos cerram os olhos para não o ver e tapam os ouvidos, a fim de não escutar o clamor da sua voz, porque isso os perturba e inquieta, tirando-lhes alguns momentos de sono. ...E confessam a crença em Deus, a Quem dizem amar, em Jesus, que tomam por modelo teórico, mas não lhe seguem os ensinamentos libertadores. Perfumados e bem-vestidos, evitam o contato com eles, nunca se permi- tem ir aos porões, temem-nos e abandonam-nos, quando os deveriam visitar e amar, procurando conviver com eles, trazendo-os à luz do dia da compreensão. Eles ficam nos seus porões e os cristãos nos seus esconderijos de luxo e de proteção com medo deles, aqueles a quem Jesus procurou trazer para o centro, retirando-os do abismo escuro em que se refugiavam. ... Felizmente, nem todos os cristãos se escondem do seu próximo retido nos porões. Eles denunciam a sua existência, tentam arrancá-los dos sórdidos lugares onde jazem, esquecidos e perseguidos, recordando-se de Jesus, e imi- tando-O.
  • 17. Raia uma luz na treva em favor dos excluídos, ainda muito débil, é certo, mas que se expandirá como o rosto brilhante da manhã após a noite renitente, que vai devorada pela claridade. O novo Cristianismo propõe que se acabem com os porões, que se reci- cle o lixo social mediante os mecanismos do amor, que se tragam para o centro da comunidade todos aqueles que têm sido excluídos, de forma que a socieda- de se torne verdadeiramente digna do Mestre e Senhor, que é Modelo e Guia para todos através dos evos... Joanna de Ângelis (Página psicografada pelo médium Divaldo P. Franco, no dia 13 de julho de 2000, em Pa- ramirim, Bahia.)
  • 18. O Blefe da Morte MAURO PAIVA FONSECA Evilásio era um homem comum. Temente a Deus, como respeitosamente afirmava, tudo fazia por não despertar a “ira do Senhor”, que poderia remetê-lo, sem volta, às profundezas do inferno, ou aos pungentes suplícios do purgatório. Por isso, cumpria com rigor todos os rituais ditados pela crença popular; desco- bria-se tirando o chapéu à passagem de um féretro, fazia o sinal da cruz sempre que passava em frente da porta de uma igreja, ungindo-se com água benta quando nela penetrava, jamais esquecendo de levar consigo alguns trocados, com que atendia à solicitação da sacolinha receptora de doações, tentando, tal- vez, comprar com eles as graças do bom Deus. O que desejava, entretanto, era ir para o Céu, do qual ouvira as melhores referências, embora não soubesse onde ficava, nem como chegar lá. Em sua maneira de pensar, a morte encerrava o capítulo da vida, e o seu “depois” representava o tabu sobre que não se atrevia a perquirir, e que conside- rava assunto reservado aos teólogos, mantido por eles no mais absoluto segre- do. Os mortos, para ele, eram definitivamente extintos, só podendo ser conside- rados através de seus despojos. Fugiam-lhe à percepção quaisquer considera- ções sobre a existência da alma e de vida além-túmulo. Vivia uma vida completamente material, voltada para os objetivos das con- quistas dos bens e das posições sociais entre os homens, sem se dar conta dos reais objetivos da existência física. Sua pequena família seguia-lhe os passos, orientada que era a aceitar tais considerações referentes ao futuro póstumo, como algo terrível do qual seus membros deveriam distanciar-se o máximo possível, sob pena de se verem às voltas com Satanás. Cemitérios causavam-lhe pavor incontrolável. Evitava-os; e quando apare- ciam em seu caminho, contornava-os para fugir-lhes da proximidade. Se alguém do seu círculo de convivência morria, apresentava sempre mil desculpas para não comparecer ao velório, e mais ainda ao sepultamento. Sem ser uma pessoa má, era, contudo, acomodada às crendices do mun- do, aceitando, sem pesquisar, o que ouvia provindo de outras mentes, situadas no mesmo nível da sua. Considerava Jesus como um mártir que veio à Terra e tentou ajudar os ho- mens, sendo por isso crucificado. Jamais se preocupara em conhecer-lhe o le- gado à Humanidade, a jóia preciosa do seu Evangelho, fonte segura de liberta- ção para todas as criaturas. A idéia de terminar encerrado numa urna funerária, sete palmos abaixo do solo, enchia-o de angústia. Pensava na asfixia, no suplício causado pela voraci- dade dos vibriões, e finalmente no abandono, sem qualquer possibilidade de ajuda, absolutamente só no silêncio da necrópole. Sabia que o túmulo reclamaria um dia os seus despojos, mas qual aves- truz, mergulhava a cabeça, escondendo-se da verdade, na vã esperança de sub- trair-se a ele. Não podendo eximir-se da peregrinação inevitável, Evilásio em um fim de semana, quando desfrutava o doce convívio familiar, foi vítima de violento mal súbito; o sistema cardíaco entrara em colapso, arrebatando-o do plano físico com toda lucidez de que dispunha no momento.
  • 19. De repente, viu-se desdobrado, e percebendo-se nitidamente “vivo”, obser- vava, presa de profunda aflição, a esposa e os dois filhos, tomados de extrema angústia, junto ao corpo inerte caído no chão, tentando, em vão, reanimá-lo. Espantado com aquela situação inusitada, aos berros, repetia sem ser ou- vido: – Estou aqui, estou vivo, não morri! Fui enganado; a vida continua! Tentou retomar o corpo, que o rejeitou, imprimindo-lhe agudo sofrimento. O pranto e o desespero dos familiares mais agravavam seu sofrimento, impotente que se sentia para transmitir-lhes a realidade, completamente diversa de tudo quanto lhes haviam ensinado. Assim, desolado, acompanhou as providências da esposa para a remoção do seu corpo, repetindo sempre, na esperança de se fazer percebido: – Estou aqui, estou vivo, não morri! A morte não existe; a vida não se extin- gue! Nem uma única prece se elevou suplicando o amparo divino para sua situ- ação aflitiva. Em desespero, procurou contato com os familiares, que absoluta- mente não eram capazes de sintonizar-se com ele, já que consideravam Evilásio definitivamente extinto! Muitos são os Evilásios que existem pelo mundo afora; pobres almas en- ceguecidas pela indiferença e negligência, que nunca buscaram os conheci- mentos sobre a sobrevivência da alma e a existência do Mundo Espiritual. A elas estará reservada a surpresa da entrada em uma nova vida, para a qual não se prepararam, e onde se sentirão como estranhos, totalmente desajustados, en- grossando, assim, o contingente já tão grande de sofredores que convivem com os encarnados da Terra, sem ter conseguido alcançar as esferas espirituais de luz. l
  • 20. O Primeiro Janeiro RICHARD SIMONETTI Significativo o janeiro que passou... Não iniciamos simples Ano Novo. Trata-se de um novo milênio! Dez séculos decisivos na história humana! Nos mil anos que se desdobram à nossa frente, grandes transformações acontecerão. Destaque-se o progresso tecnológico, que inaugurará a era das viagens interplanetárias e interestelares e o sonhado contato com seres extraterrestres. Outro destaque: Nossa promoção na sociedade universal. De “provas e expiações”, onde predomina o egoísmo, nosso planeta passa- rá à categoria de regeneração, orientado pelo altruísmo. Será uma metamorfose longa e penosa, marcada por sofrimentos e dores que se estenderão ao longo de vários séculos. Teremos as derradeiras oportunidades de renovação para multidões de Es- píritos que insistem em nortear sua existência por interesses pessoais, sem se integrar nos ritmos do Universo, atendendo às harmonias do Amor. Então, em tempo que só Deus conhece, ocorrerá o grande expurgo. Os recalcitrantes serão confinados em mundos inferiores, compatíveis com suas tendências. Os que se habilitarem a permanecer na Terra edificarão o Reino Divino. ... Os critérios de seleção atendem à justiça perfeita de Deus, sem privilégios. Ficarão os que houverem vencido o egoísmo. O Espiritismo situa-se numa vanguarda de idéias nesse particular, a partir da máxima de Kardec: Fora da Caridade não há salvação. Se o mal do mundo é o egoísmo, forçoso combatê-lo com seu antídoto: a caridade. Para sermos caridosos, para fazermos alguma coisa em benefício do se- melhante é preciso esquecer um pouco de nós mesmos. É a partir daí que co- meçamos a vencer o nefasto sentimento. ... Este primeiro ano do novo milênio foi consagrado pela ONU ao trabalhador voluntário. Certamente os poderes espirituais que nos governam inspiraram essa ma- ravilhosa iniciativa. Não poderia haver melhor maneira de começar este milênio redentor, se- não exaltando o empenho da solidariedade. Quando as multidões da Terra se dispuserem a servir, erradicaremos para sempre o mal de nosso planeta.
  • 21. É preciso não perder tempo! Imperioso fazer render o tempo. Ele será o fiador, nosso passaporte para o Novo Mundo, se bem aproveita- do, com a dinâmica do Bem. Mas, se não tomarmos cuidado, apassivados na indolência, no vício, na in- diferença, ele será libelo terrível, acenando com inexorável expurgo. Depende de nós! l
  • 22. No Dia do Trabalho PASSOS LÍRIO Dia do Trabalho também quer dizer Dia da Esperança, em que nossos anseios e aspirações, nossos sonhos e desejos se nos extravasam do íntimo, buscando alvo e algo exterior para sua convergência e transformação em formosa e reconfortante realidade. Que esperamos quando da passagem do 1o de Maio? Como operários, técnicos, profissionais, artistas, intelectuais volvemos as vistas para os domínios de nossos interesses, para o campo de nossas necessidades, para a solução dos nossos problemas pessoais, de caráter urgente e aflitivo. É natural: somos humanos e terrenamente vivemos em função da natureza de nossas preocupações mate- riais, que são maiores ou menores, mais ou menos graves, tal seja a nossa situação di- ante delas ou tais sejam elas em face de nossas possibilidades. A solução deste aspecto de nossa vida está mais na dependência dos outros do que de nós mesmos, isto é, depende da boa vontade daqueles com quem trabalhamos e de sua compreensão para com a qualidade do trabalho que executamos. Todavia, há outros aspectos de nossa vida, sem dúvida os mais importantes e de maior premência, cuja solução depende única e exclusivamente de nós mesmos. São aqueles que dizem respeito às nossas necessidades espirituais. Para eles é que, nesta oportunidade, devemos voltar, de preferência, a nossa atenção. Segundo grandes e renomados pensadores, trabalho é também maneira de orar, é conseqüentemente uma das modalidades da oração. Assim, neste dia, nossos fundos anelos, nossas mais alcandoradas aspirações e esperanças devem convergir, muito em especial, para o Criador de todos os seres e de todas as coisas, apelando para Ele no sentido de que nos envolva em Suas bênçãos de Amor, fortalecendo-nos nos embates da vida, nos entrechoques do mundo, nas pelejas da existência terrena. É o de que mais necessitamos nos dias atuais, para que possamos trabalhar em paz, produzir muito, progredir bem e viver melhor, pois, consoante N. S. Jesus-Cristo, nem só de pão vive o homem. De que nos servirá ganharmos o mundo todo, perdendo a nossa alma? Tal a indagação que o Mestre nos induz a fazer, propondo-nos o problema da valori- zação dos atributos de nossa alma, que são os únicos que subsistem por todo o sempre e resolvem, de fato e em definitivo, a nossa situação de homens conscientes e responsá- veis. É para esta tomada de posição, diante de nossas consciências, que devemos mobi- lizar todas as forças e energias espirituais de que dispusermos, por estar na dependência de nossa vontade e sob a responsabilidade de nosso livre-arbítrio a solução de todos os problemas que se acham equacionados em nossa existência. Ao lado das situações de caráter material, quase sempre sérias e delicadas, impor- tantes e momentosas, há aquelas outras, de sentido espiritual e de conseqüências mo- rais, não menos necessárias e grandiosas, oportunas e adequadas, válidas e valiosas, que definem e condicionam toda a nossa destinação no presente e no futuro, com vistas aos dias de estágio na Terra e suas implicações na Vida Eterna. l
  • 23. Esflorando o Evangelho – Emmanuel Contristação “Agora folgo, não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para o arrependimento.” Paulo. (II Coríntios, 7:9) Quanta vez se agitam famílias, agrupamentos ou coletividades para que a tormenta lhes não alcance o ambiente comum? quantas vezes a criatura con- templa o céu, em súplica, para que a dor lhe não visite a senda ou para que a adversidade fuja, ao encalço de outros rumos? Entretanto, a realidade chega sempre, inevitável e inflexível. No turbilhão de sombras da contristação, o homem, não raro, se sente ven- cido e abandonado. Todavia, o que parece infortúnio ou derrota pode representar providências salvadoras do Todo-Compassivo. Em muitas ocasiões, quando as criaturas terrestres choram, seus amigos da Esfera Superior se alegram, à maneira dos pomicultores que descansam, tranqüilos, depois do campo bem podado. Lágrimas, nos lares da carne, freqüentemente expressam júbilos de lares celestiais. Os orientadores divinos, porém, não folgam porque os seus tutelados sejam detentores de padecimentos, mas justamente porque semelhante situa- ção indica possibilidades renovadoras no trabalho de aperfeiçoamento. Todo campo deve conhecer o tempo de ceifa ou de limpeza necessárias. Quando estiverdes contristados, à face de faltas que cometestes impensa- damente, é razoável sofrais a passagem das nuvens pesadas e negras que amontoastes sobre o coração; contudo, quando a prova e a luta vos surpreende- rem a casa ou o espírito, em circunstâncias que independem de vossa vontade, então é chegada a hora da contristação segundo Deus, a qual vos eleva espiri- tualmente e que, por isso mesmo, provoca a alegria dos anjos que velam por vós. Fonte: XAVIER, Francisco Cândido. Vinha de Luz. 15. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1998, cap. 153, p. 321-322.
  • 24. Da Satisfação das Necessidades à Felicidade NADJA DO COUTO VALLE Um dos grandes desafios do Evangelho e do Espiritismo convida-nos a estar no mundo sem ser do mundo, com base na verdade evangélica de que onde está nosso coração, aí está o nosso tesouro, vale dizer, a nossa felicidade. E como a felicidade é o desiderato de todos nós, se perguntarmos a uma criatura o que lhe falta para atingir a felicidade, ela responderá de acordo, di- ríamos, com seus gostos, necessidades, preferências; um operário dirá que é uma casa, um político que é o poder, um comerciante ou empresário que é o dinheiro, etc. O Homem sublime de Nazaré disse-nos que Sua alegria, Sua feli- cidade é fazer a vontade do Pai... O Espírito Emmanuel nos ensina que nós nos revelamos em tudo que pen- samos, fazemos ou dizemos, e a Psicologia nos informa que todo comporta- mento é motivado, é provocado por disposição íntima, por uma espécie de ener- gia interior que nos orienta para tal ou qual direção na vida – e revela os valores de cada um. Segundo a Filosofia dos Valores o homem reconhece-se como um ser em carência, e preenche suas carências ou seus valores escolhendo seres, ou ele- mentos, que ele julga possam atender suas lacunas materiais, físicas, morais, afetivo-emocionais, espirituais. Nem sempre acerta na escolha, como nos é fácil constatar ao nosso redor, ou em nossa própria experiência pessoal. Para satis- fazer a fome, por exemplo, valemo-nos do alimento, que se concretiza no pão, na fruta, etc.; no entanto, uma criança muitas vezes come terra quando sente fome, escolhendo o ser ou elemento errado, como faz um adolescente, ou mesmo um adulto, quando atravessa, por exemplo, uma fase de insegurança emocional, dificuldades financeiras ou desemprego, e volta-se para o uso dos tóxicos, do fumo, do álcool, como “compensação”, ainda que não consciente, para o preenchimento de suas lacunas existenciais. A pergunta fundamental é então a de como ser feliz, ou, em outros termos, que valores preencher, e como fazê-lo. Ressalta a óbvia constatação de que são profundamente diferentes as escalas de valores dos Espíritos inferiores e as dos Espíritos superiores – porque todos temos, em ambos os planos da vida, ainda que nem desejemos, nossa própria escala de valores, inerente à condição de criatura humana. A Mentora Espiritual Joanna de Ângelis classifica esses dois patamares evolutivos como subpersonalidade e superpersonalidade, respecti- vamente. Assoma-nos à mente, de imediato, o perfil da subpersonalidade, que Paulo chamou de homem velho, e é de se indagar de que se alimenta esse homem velho, senão de propriedades e bens materiais, de roupas caras assinadas por griffes famosas, de alimentos em quantidade excessiva ou de natureza danosa ao equilíbrio físico, do frenesi sexual, da projeção na comunidade, etc. Tudo isso e muito mais esse homem considera como fundamental para alcançar o bem- estar e a felicidade. Abraham Maslow, o grande representante da Psicologia humanista – junto com Stanislav Grof, também da Psicologia transpessoal – estudando as neces- 1 sidades humanas apresentou suas conclusões sob a forma de pirâmide , hierar-
  • 25. quizando-as em patamares. O primeiro deles é o das necessidades fisiológicas, aquelas indispensáveis como combustível da vida, e nelas inscrevem-se beber, comer e procriar. Uma vez satisfeitas, a criatura passa então automaticamente ao patamar seguinte, o da manutenção da vida, na esfera da proteção da inte- gridade física, contra intempéries e outros perigos, buscando então o abrigo de uma habitação – que pode ser até mesmo uma caverna de roupas e agasalhos, ou reservas de alimento – tudo isso para manter vivo, e em segurança, o corpo físico. Dizem respeito também a esse nível de necessidades o trabalho, os be- nefícios sociais e financeiros, no caso dos adultos; ocasionalmente também a adesão a certas regras religiosas, para evitar imprevistos, pode constituir-se em sensação de segurança. Só depois de atendidas essas necessidades básicas, fisiológicas e de se- gurança, passa o homem a buscar a sociabilidade e o afeto – que caracterizam a sua natureza gregária, já detectada e enunciada por Aristóteles, procurando a aceitação social, do grupo – o que se torna manifesto quando o indivíduo afilia- se a grupos, gangs, ou até mesmo quando pratica algum ato de generosidade visando apenas a ser aceito socialmente. Quando esse anseio de camaradagem é satisfeito, a saúde mental do organismo volta a condições mais satisfatórias, enquanto que a não satisfação de tais necessidades gera a probabilidade de eclosão de desajustamentos graves. O nível seguinte é o da estima e reconhecimento, que orienta o indivíduo para o esforço no campo do exercício profissional ou do convívio social de forma a sentir-se respeitado, estimado. Esse nível representa a conscientização da própria importância para os outros, e o reconhecimento desse fato pelos outros. Elimina-se assim o sentimento de inferioridade, ou fraqueza do ego, elemento de síndrome de muitas neuroses, porque em seu lugar instalaram-se a auto- confiança sadia, o prestígio, o merecido respeito. Madre Teresa de Calcutá re- colhia os doentes terminais das ruas e levava-os para a Casa dos Moribundos, sob sua administração, para que se sentissem estimados e reconhecidos em sua condição de humanidade, ainda que apenas nos momentos derradeiros da vida na carne. No ponto mais alto da pirâmide, Maslow situou a auto-realização, que de- pende do que a psicologia chama de nível de realidade, o que requer boa dose de análise da vida e de seus momentos e quadros instalados, de auto-avaliação Auto- Rea- liza- ção Estima Sociabilidade e Afeto Segurança Fisiológicas Necessidades Humanas segundo A. Maslow
  • 26. e, acima de tudo, de autoconhecimento. Trata-se do desejo de se tornar cada vez mais o que se é, de tornar-se tudo o que se é capaz de ser, que nos leva a tentar a aplicação máxima de nossos talentos e potencialidades para servir à sociedade, qualquer que seja a posição em que nela estejamos inseridos. É por todos sabido que quando as necessidades não são satisfeitas, constatam-se variações de comportamento que podem ser infinitas, principal- mente se considerado o conjunto de experiências de encarnações anteriores – embora seja possível traçar padrões gerais, partindo do ponto essencial da questão que é a frustração. A partir dela o indivíduo elabora o retraimento inter- no, ou apatia, ou o retraimento externo, ou fuga. A frustração pode também ensejar a agressão, que por sua vez pode ser internalizada, quando o indivíduo constrói úlceras, depressões e vários outros desequilíbrios ou enfermidades; ou é possível ainda que se externalize, dirigin- do-se à fonte causadora da frustração, ou que se desloque na direção do outro – que pode ser tanto uma pessoa quanto um objeto inanimado: é quando o indiví- duo bate portas, chuta coisas, come ou bebe em demasia, reprova-se na escola, namora a pessoa errada, descarrega essa energia batendo em algum boneco parecido com o chefe, por exemplo. Há ainda as reações psicossomáticas, como angina do peito, colite, asma, enxaqueca, alergias e neurites, dermatites e ciática, resfriado comum e também a aceleração de pulsações cardíacas, respiração irregular, digestão comprome- tida, tensão muscular, febres ou fadiga. O mais significativo produto da frustra- ção, no entanto, segundo alguns, é a ansiedade, um estado desagradável, sen- sação de mal-estar, vaga e difusa. Mas o indivíduo dispõe de mecanismos de defesa, como os de substituição (de um objetivo original por outro, como a troca de parceiros afetivos, por exemplo); de compensação (como esforçar-se ao má- ximo em uma atividade para atenuar a deficiência em outro setor); de sublima- ção (como substituir uma atividade socialmente indesejável ou irrealizável em determinada época por outra que não tenha essas características): é o caso de mulheres que substituem a maternidade pelas atividades de serviço social, etc.; de repressão de uma situação ou problema (quando o indivíduo “desconhece”, “esquece” a morte de alguém e age como se o fato não tivesse ocorrido). Acres- centam-se ainda, naturalmente, as neuroses e psicoses. Além das necessidades básicas, Maslow postula necessidades cognitivas e estéticas, complementares àquelas, ainda que menos freqüentemente descri- tas; correspondem, respectivamente, à necessidade de conhecer ou compreen- der, de manipular o ambiente em função da curiosidade, e de afastar-se do que é desagradável e desprovido de beleza. Na trilha da evolução, a criatura, dando curso ao instinto gregário, realiza- se no grupo social, que ajuda a construir, mas se deixa asfixiar em conflitos e tormentos, em razão dos atavismos e atitudes agressivas, hábitos seculares profundamente arraigados no inconsciente, a repetirem-se como automatismo, que no entanto estão fadados à superação, pelos convites ao crescimento que trazem o selo da eternidade, e impelem o ser à ascensão – que demanda sacri- fício, disciplina, vontade fortalecida, renúncia e dedicação. Em função disso, im- põem-se ao indivíduo necessidades de nível mais avançado – chamadas pelo Espírito Joanna de Ângelis de ético-moral-estéticas, que por sua vez se cons- tituem, no espaço psíquico individual, no vestíbulo para as necessidades de na- tureza metafísica, fulcro da realização do Espírito imortal, criado para a Felicida- de e o Amor: as metanecessidades.
  • 27. Nessa direção caminham todas as criaturas, por uma espécie de deotro- pismo, ou, na terminologia de Joanna de Ângelis, psicotropismo superior, ine- rência ao ser que o impele natural e inapelavelmente para Deus, assim como o heliotropismo mobiliza automaticamente o reino vegetal para a luz. Encarnada, a criatura transita sempre entre o desejado e o possível, no atual estágio evolutivo, e conflita-se, em especial quando vive sob a ótica do in- divíduo que descortina apenas o presente, na carne. Mas o ser desperto, e parti- cularmente o ser banhado pelas dilatadas compreensões da Doutrina Espírita, não mais se contenta nos limites acanhados da satisfação das necessidades de sobrevivência, de segurança ou afetivo-sociais. Ele deseja lutar o bom combate na intimidade profunda de si mesmo, para superar os conflitos entre o possível, que tem, e aquilo a que aspira e pode conseguir, nesta ou em outra(s) encarna- ção(ões). São já os apelos das metanecessidades, de que nos fala o Espírito Joanna de Ângelis, fortes apelos para o autodescobrimento, pela interiorização, para atingir a auto-realização como Espírito, como ser real, integral e imortal. As metanecessidades, tornando-se então imperiosas, mobilizam o ser para longe dos condicionamentos inferiores ancestrais, e desperto, arregimenta todos os recursos de que dispõe, para a mudança de comportamento. Decide-se então a substituir o perfil do homem velho evidenciado na amargura e revolta, mágoa e desencanto, orgulho e vaidade, impaciência, inveja e ciúme, ambição e maledi- cência, rigidez mental, etc. – pelo perfil do homem regenerado em construção, que se desenha com sorriso e abnegação, boa vontade e fé, paciência e perdão, esperança e equilíbrio, e outras tantas qualidades e virtudes delineadas por 3 Allan Kardec em O Evangelho segundo o Espiritismo . Este novo homem, ainda que não tenha atingido essas características morais-espirituais, já é novo na proposição íntima de redirecionamento existencial, concentra-se nas metane- cessidades, ampara-se na oração, na meditação, na interiorização, no trabalho do bem e no estudo, como estratégias que libertam de ansiedades e conflitos, que fomentam sua ação edificante na existência e para o bem da sociedade e do mundo: sua conversação é sadia, a consciência reta guarda harmonia mental em clima de amor profundo, e empreende a conquista do Si. Com licença de Maslow, que chegou a falar em metarrealizações, porque desejava talvez ir além de sua própria formulação, e lembrando a Mentora Espi- ritual Joanna de Ângelis, podemos propor, sob a ótica da realidade transpessoal: Metanecessidades Necessidades ético- -estéticas Necessidades fisiológicas, de segu- rança e movimentação no grupo social Hierarquia e Natureza das Necessidades do Ser em Evolução
  • 28. O processo não é imediato, e naturalmente depende da força da vontade empenhada na tarefa de autoconstrução do ser, que, desperto, transita dos dife- rentes estágios das necessidades básicas ou primárias até os níveis das neces- sidades ético-estéticas, para subseqüentemente alçar-se às metanecessidades, que ele satisfaz com o concurso do sentimento e da razão, habituando-se às vibrações sutis de climas espirituais superiores, que já repercutem em seu psi- quismo. O ser integral espiritual, na perspectiva da transpessoalidade, pode ser visto assim, do ponto de vista da satisfação de suas necessidades rumo à felici- dade: Metaneces sidades Auto- reali- Ser regenerado zação Estima E V O Sociabilidade e L Afeto U Ç Ã Segurança O Fisio lógicas Homem velho Necessidades Humanas e Espirituais do Ser Quanto mais primitiva e materializada a criatura, maior a faixa de necessi- dades primárias e menor a das metanecessidades ou mesmo a das afetivo- sociais, na condição de encarnado ou desencarnado, quando experimenta ainda a pressão daquelas necessidades, as primárias, como atestam as obras da Co- dificação Espírita, por Kardec, e outras que lhe são subsidiárias. E, inversa- mente, quanto mais evoluído o ser, maior a faixa de metanecessidades e menor a de necessidades de faixas inferiores, quando encarnado; na condição de de- sencarnado, esse ser experimentará as metanecessidades e, se tanto, as ne- cessidades de auto-realização. E assim subseqüentemente. Recentemente cientistas concluíram que a felicidade depende de quatro fatores que se apresentam como necessidades: otimismo, alegria, coragem e sabedoria. A Doutrina Espírita reafirma esses fatores, que são recomendações do Cristo para a Humanidade, destinada à felicidade pela Paternidade Divina. l Referências Bibliográficas:
  • 29. 1. MASLOW, Abraham. Motivation and personality. New York: Harper and Row, 1954, p. 92. 2. ÂNGELIS, Joanna de. Espírito e Franco, Divaldo P. Vida: desafios e soluções. Salvador: Liv. Espírita Alvorada, 1997, cap. 10. 3. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 102. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1990, cap. XVII, 3.
  • 30. A FEB e o Esperanto Democracia Lingüística AFFONSO SOARES Assim se intitula o Plano Decenal de Trabalho (2001-2010) a ser cumpri- do pelo Movimento Esperantista Mundial, sob a orientação da Universala Espe- ranto-Asocio (Rotterdam, Holanda), visando ao fortalecimento do Esperanto e seus ideais como solução justa e democrática do problema lingüístico que, por se constituir num entrave à aproximação das culturas, ao intercâmbio científico, à queda de múltiplos preconceitos, muito contribui para as discriminações, divi- sões e guerras que assolam a vida planetária. Esse plano estratégico leva em conta três campos de ação para se fazer com que o Esperanto seja: – conhecido; – falado; – aplicado praticamente. No primeiro campo se visa, pela informação externa, a que se tenha sobre o Esperanto idéias sempre fundadas na verdade, e, no âmbito do próprio movi- mento, a que o adepto se conscientize profundamente a respeito do indubitável valor do idioma como única solução do problema lingüístico mundial. No segundo campo está destacado o valor dos cursos, encontros e con- gressos. O terceiro campo estimula a criação das condições em que se encontre motivação para o pleno uso do Esperanto. O plano da Associação Universal de Esperanto será discutido pela família esperantista até a realização do Congresso Universal em Zagreb (2001), quando se decidirá a aprovação de sua forma definitiva. Vale aqui ressaltar que o Movimento Espírita brasileiro, ao longo desses quase cem anos de dedicação à causa da Língua Internacional Neutra, tem tra- balhado dentro dessas diretrizes: – informar espíritas e não espíritas sobre o Esperanto e seus ideais; – proporcionar-lhes recursos de aprendê-lo; – dar-lhes condições de aplicá-lo dentro e fora de seus círculos. Ultimamente se intensificam os esforços no sentido de torná-lo a língua comum para as relações internacionais da família espírita mundial, já se tendo obtido o favorável posicionamento do Conselho Espírita Internacional. Prossigamos, caros co-idealistas, com fé e esperança no futuro, certos de que servimos, acima de tudo, à Causa do Divino Mestre Jesus! l
  • 31. Encontro de Espíritas-Esperantistas Realizou-se em 3-12-2000, na sede da União das Sociedades Espíritas do Estado do Rio de Janeiro-USEERJ (Rua dos Inválidos, 182 – Centro – Rio de o Janeiro), o 7 Encontro Espírita-Esperantista do Estado do Rio de Janeiro, com o tema Brasil, Pátria do Evangelho – Esperanto, Elo de Amor e Fraternidade. O rico e substancioso programa incluiu, além das atividades tradicionais, o lançamento do Almanako Lorenz 2001 pelo próprio Diretor-Presidente da Socie- dade Editora Espírita F. V. Lorenz, nosso co-idealista Délio Pereira de Souza; uma palestra em português, sobre o Esperanto nos círculos espíritas do Brasil e do Exterior, proferida por César Soares dos Reis, Presidente do Lar Fabiano de Cristo; depoimentos de espíritas-esperantistas sobre suas experiências nos ser- viços em que o Esperanto se associa ao Espiritismo para a divulgação da Dou- trina; e atividades artísticas. Os participantes, divididos em dois grupos, debateram os seguintes temas: Esperanto, língua da integração do Movimento Espírita Mundial e Qual a impor- tância da Casa Espírita no Conselho Espírita Internacional. l
  • 32. Será que o Aborto Diminui a Criminalidade JOSÉ YOSAN DOS S. FONSECA Na edição de 4-2-2001 de O Globo, Elio Gaspari faz referência a uma tese de dois professores norte-americanos sobre criminalidade nos EUA, que pretende relacionar, com base em cruzamento de informações e estatísticas, um decréscimo nos índices de criminalidade com a liberação e o conseqüente au- mento do número de abortos realizado no país (com efeitos na taxa de cresci- mento populacional). A tese destaca o aborto como fator causal, embora mencione também a possibilidade de o aumento da população carcerária em 50% entre 1991 e 1997 ter contribuído para a redução da criminalidade. É transparente, entretanto, que a tese busca, em última análise, defender o aborto como “solução” para um grande problema social, por seu efeito redutor de crescimento nos estratos da população que oferecem condições mais propícias ao crime – roubo, furtos, assassinatos, estupros, prostituição, tráfico de drogas. Obviamente, não leva em conta os chamados crimes de colarinho branco e tam- bém ignora os do enorme contingente de viciados em drogas e álcool, crimes esses na maioria não registrados policialmente e judicialmente. O grande problema nessa tese é que relaciona dois fatores isolados em contexto tão complexo, enfocados sob uma ótica visando a demonstrar que au- mentando o número de abortos a sociedade verá reduzida a criminalidade que incomoda aos 98% não encarcerados. É fácil perceber a falácia em que incorreram os professores americanos. Basta somar às estatísticas utilizadas o número de abortos praticados, o número de assassinatos em que eles implicaram, crime de infanticídio, mesmo que pretensamente “justificado” por argumentos, sofismas e tergiversações, e, após, reconsiderar a conclusão. Destacado do aspecto legal, de ser um crime permitido, o aborto é a elimi- nação pura e simples de um ser humano, com agravantes de crueldade. Um crime praticado por interesse pessoal, “legitimado” por “prevenir” a possível ocor- rência de outros crimes, quando aquela criança crescer. Em outras palavras: mate hoje, no ventre, aquele que poderá vir a te matar, ou causar problemas quando crescer. Ignore a possibilidade de estar matando um gênio que te salvaria a vida, ou contribuiria para que ela fosse melhor ama- nhã. Quando me deparo com essas manipulações de estatísticas e informações em apoio do aborto, lembro-me do depoimento do Dr. E. Nathanson, médico abortista americano, que, arrependido e em surpreendente movimento reverso contra o aborto, confessa ter fraudado dados estatísticos sobre o número de abortos realizados nos EUA, visando a estimular a adesão do público ao seu propósito: o aumento da clientela e dos lucros.* l * O livro O que dizem os Espíritos sobre o Aborto, em preparo pelo Departamento Editorial da FEB, traz detalhes desse depoimento no capítulo XIV.
  • 33. Reformador no Centro Espírita A FEB faz, mensalmente, remessa gratuita de Reformador aos Centros Espíritas de todo o Brasil, quer estejam ou não ligados às respectivas Entidades Federativas estaduais, com base no cadastro que possui. Para que essa oferta atinja seus objetivos de divulgação da Doutrina e do Movimento Espírita, solicitamos aos dirigentes dos Centros Espíritas que façam campanha de assinatura de Reformador junto aos seus freqüentadores. Pedimos às Federativas que nos informem se as Casas Espíritas do Es- tado estão recebendo a Revista, assim como os nomes e endereços das novas instituições. l
  • 34. Administração IAPONAN ALBUQUERQUE DA SILVA É muito comum, hodiernamente, vermos anunciados, nos principais peri- ódicos do País, cursos especializados de Administração. Embora se trate de coisa natural, o fato em si se presta a mais ampla aná- lise, ensejando-nos algumas considerações de ordem doutrinária. Comecemos pela etimologia da palavra, atentos à sua acepção própria. A palavra Administração tem sua origem no latim, onde encontramos a forma Administrator, tendo como significação auxílio, serviço, governo, direção, manejo. Estas significações já dizem por si da alta valia de um curso desta nature- za. É muito compreensível que, havendo a Humanidade atingido apreciável grau evolutivo no campo intelectual, necessitem seus representantes mais es- clarecidos melhorar-se tecnicamente para atuarem com precisão nas várias áre- as de ação da vida social. Administrar, portanto, em nosso entender, é a arte de orientar coisas e pessoas num caminho de ordem e crescente evolução; e, num mundo em que as almas ainda são tão heterogêneas, do ponto de vista dos valores morais e intelectuais, temos que lutar e aprender para lograrmos vencer. Vencer com justeza, com mérito, escalando paulatinamente os degraus do conhecimento, a fim de que, chegados ao cume, tenhamos valorizado a nossa própria vida. Sem dúvida, é justo, necessário e meritório o desejo que alimentamos de habilitar-nos profissional e intelectualmente, artística e tecnicamente para con- quistas e vitórias nos campos de atividades da experiência terrestre. Jamais movimentaríamos quaisquer opiniões contra propósitos tão hones- tos de atuação e liderança. No entanto, se não nos achamos com o direito de oferecer oposição ou resistência àqueles que se propõem a especializar-se nos domínios do mando, da chefia, sentimo-nos no dever de tecer alguns comentári- os de caráter humano, com implicações extraterrenas. Sendo a criatura humana um ser de natureza gregária, segundo nos ensi- nam os mais modernos conhecimentos de ética social, gostaríamos de saber se os homens que se interessam pelos propósitos acima também se interessam por bem administrar seu lar, seu corpo, sua vida, posto que o seu instinto gregá- rio, com todas as suas implicações, há que estender-se – inevitavelmente – além do ambiente profissional e técnico, cultural e artístico, humanista ou espe- cializado. Vitoriar-se na vida prática, alcançar postos de chefia, ser reconhecido como bom colega de trabalho e ótimo funcionário, e ser, por exemplo, mau esposo, rixento no lar com a esposa e com os filhos, esbanjador de seus salários e bens, é chamar para si mesmo aquele provérbio: “Casa de ferreiro, espeto de pau.” Ora, analisemos a questão que se nos apresenta sob o ponto de vista espi- ritual. Sim, do ponto de vista espiritual, dizemos, porque muitos problemas que parecem pertencer única e exclusivamente à esfera material podem ser aprecia- dos psicologicamente, psiquicamente, desde que estejamos atentos aos seus ascendentes imponderáveis.
  • 35. Senão, vejamos. Que é a Terra, o Homem, os outros Planetas, o Universo, enfim, senão elementos dos domínios da imponderabilidade, pertencentes ao infinito do tempo e do espaço, indissoluvelmente ligados aos Arcanos da Cria- ção? E como Senhor Supremo de tudo e de todos, Deus rege a sinfonia das coi- sas e dos seres com maravilhosa perfeição. Por outras palavras, em a Natureza existe auxílio, serviço, governo, direção, manejo; há, portanto, Administração. Logo, o Criador administra, dirigindo, orientando, influindo, inspirando, assistin- do, protegendo, dando e distribuindo. Passemos agora à ordem das coisas criadas, mais próximas a nós. Veja- mos o mais sucintamente possível, apenas para exemplificar, o mecanismo do corpo humano. Na cabeça, o cérebro encerra a mente, sede da inteligência, que nos dife- rencia das outras espécies animais. No tronco temos, como órgão principal, o coração, que executa notável tra- balho de vitalidade na esfera de ação da circulação sanguínea. Os membros, por sua vez, no seu aspecto prático, colocam-nos em contato permanente com tudo que nos cerca, possibilitando-nos a apreensão e a loco- moção. Eis a ação da Natureza, a ação de Deus. Como vemos, não precisaria o homem ir muito longe para poder e saber bem zelar pelos variados patrimônios que lhe enriquecem a vida. As bênçãos inestimáveis da paz e do equilíbrio, que promanam do Alto, roçam-nos, tocam- nos, clamando, por assim dizer, pela nossa atenção, pela nossa compreensão, para valorização dos bens eternos, dos valores do Espírito. Falta-nos, porém, aquela condição de lucidez e discernimento: “olhos de ver e ouvidos de ouvir”. É necessário que a criatura humana, que tanto anseia pelo diploma de Administrador, saiba igualmente e – por que não dizê-lo? – primeiramente, ad- ministrar a sua própria vida. No lar, carinho e dedicação; na rua, prudência nas atitudes e vigilância so- bre nós mesmos. Lembramos acima as magnificências do corpo humano, vaso sublime que o céu nos concede para reajustamento e resgate de nossas almas; agora que- remos lembrar o cuidado que devemos ter com este inestimável instrumento de redenção, não o entregando aos vícios degradantes, nem a esforços desneces- sários. Sejamos um administrator belli gerendi, ou seja, general-chefe da nossa própria existência, não nos descuidando jamais dos valores eternos da alma, lembrados da assertiva do Mestre em Mateus, 6:20: “Mas, entesourai para vós tesouros no céu, onde não os consome a ferrugem nem a traça, e onde os la- drões não os desenterram nem roubam.” Enfim, considerando que somos depositários de tudo que possuímos e ja- mais donos, peçamos ao Senhor inspiração para bem administrar nossa exis- tência dentro dos sagrados princípios da Lei do Amor Universal. l
  • 36. Reclassificação da Literatura Espírita no Sistema Dewey de Classificação Em dezembro de 2000 a Federação Espírita Brasileira encaminhou ao Dewey Decimal Classification (DDC) uma proposta para reclassificação dos li- vros espíritas, assinada pelo Presidente Juvanir Borges de Souza, com indica- ções objetivas no sentido de identificar cada livro de cada edição. O ISBN – Internacional Standart Book Number – é um sistema internacional padronizado de numeração e identificação de títulos de livros. Como no sistema ISBN os livros espíritas estavam mal classificados, sob divisão e disciplinas incompatíveis com a sua natureza, a FEB solicitou um es- tudo e uma proposta concreta de reclassificação ao Dr. Washington Luiz No- gueira Fernandes que, após demoradas pesquisas na literatura espírita em ge- ral, apresentou o resultado de seus estudos, plenamente aprovados pelo Presi- dente da FEB. Encaminhada a proposta em dezembro de 2000, o Presidente recebeu, em 20 de fevereiro de 2001, do órgão competente do DDC, a informação de que a reclassificação foi aceita e que as mudanças sugeridas serão incluídas na edi- ção 23 da Classificação, prevista para o ano de 2004. Vale assinalar que a proposta aprovada, assinada pelo Presidente da FEB, pelo Secretário-Geral do Conselho Espírita Internacional (CEI) e pelo Dr. Washington Luiz Nogueira Fernandes, como Presidente da Associação de Edito- ras, Distribuidoras e Divulgadores do Livro Espírita (ADELER), resolve uma séria questão da literatura espírita em âmbito nacional e internacional, deixando de ser confundida com Astrologia, Ocultismo, Quirologia, Magia, etc. para se situar na disciplina Spiritism. l
  • 37. W ASHINGTON BORGES DE SOUZA As religiões acolhem a fé como norma fundamental comum, porquanto todas elas devem dirigir-se para o Pai Supremo que rege o Universo. Pressupõe-se que todo religioso guarda consigo a crença na existência de Deus. Para se saber se a pessoa é ou não materialista basta verificar se ela crê ou não na Divindade. É impossível provar a inexistência de Deus como também a ninguém é atribuído o encargo de mostrar que o Criador Universal existe, porque toda a cri- ação é obra divina e Sua presença é manifesta em tudo que existe em toda par- te. A Doutrina Espírita tem seus fundamentos na Natureza e em suas leis e, por isso mesmo, é impraticável relacionar todas as suas bases posto que nem todos os preceitos naturais são conhecidos. Dentre os já revelados, há alguns mais divulgados, abstração feita das realidades evidentes da existência de Deus, do Espírito e da matéria. Podem, sem muito esforço, ser mencionados os que se referem à reencarnação e à comunicabilidade dos Espíritos, os que regem os fluidos, os princípios morais e outros como sendo aqueles mais presentes nas reflexões e exames das pessoas. Mas é oportuno lembrar que as regras funda- mentais da Natureza, por sua vez, desdobram-se em outros dispositivos a orde- narem, pormenorizadamente, a forma de execução das normas naturais. É inadmissível, portanto, nos atuais estágios evolutivos da Humanidade terrena, o conhecimento completo dos preceitos divinos que regem a vida e a existência das coisas. O Espiritismo, como Consolador divino dado à Humanidade na Terra, é a via e a maneira naturais para a libertação dos grilhões da ignorância, do atraso, dos sofrimentos evitáveis. Os ataques que fazem a ele, as tentativas para impe- dir a propagação da luz que liberta, as investidas para barrar a penetração da verdade na consciência humana são inúteis. É como querer atingir Deus com imprecações. Dentre os postulados espíritas, é freqüentemente combatido o da comuni- cabilidade dos Espíritos, ou seja, é contestada a capacidade que têm de se co- municar com as pessoas e com outros Espíritos e de produzirem variados fenô- menos. Embora essa capacidade seja notória e patente, porque provém de atri- butos naturais inconcussos e, por isso mesmo, sem o caráter sobrenatural e insólito como querem fazer crer os que ignoram a verdade, há quem persista em negá-la. Por outro lado, os fenômenos espirituais, perante a Doutrina Espírita, não têm a relevância que lhes atribuem. O importante, o essencial é o caráter religio- so, moral, educativo, esclarecedor do Espiritismo. Ele visa ao aprimoramento do ser humano, a torná-lo caridoso, indulgente, educado, de senso moral aperfei- çoado para aproximá-lo de Deus. Há pessoas que crêem em Deus e acreditam que existem Espíritos, mas entendem, de boa-fé, que eles não podem se comunicar com os encarnados. Concebem os Espíritos como seres abstratos. Embora o Espírito seja um ele- mento sutil, é um ser real e não imaginário. É a alma que comanda a pessoa. É a sede da inteligência e de outros atributos. As pessoas vão entender mais além que os Espíritos podem ser vistos, ouvidos e, em certos casos e determinadas
  • 38. condições e circunstâncias, até tocados. Não devíamos aguardar a morte para constatar isso, não há necessidade de esperar que se cerrem os olhos do corpo físico para poder ver a verdade. O Espírito quando encarnado comanda as ações da pessoa e pode até se afastar do seu corpo físico, permanecendo ligado a ele por intermédio do peris- pírito que os une. É o que se verifica, por exemplo, durante o sono, nos sonhos, no sonambulismo e em vários processos mediúnicos. Assim como o Espírito pode se afastar de seu próprio corpo, outro pode, também, aproximar-se e se manifestar usando os órgãos do corpo físico. São fenômenos naturais de fácil compreensão. Há, pois, carência de entendimento e ausência de razão nos que negam ou repelem tais possibilidades. Os Espíritos são os agentes dos fenômenos espirituais e mediúnicos que se realizam com o concurso dos médiuns e a utilização dos fluidos oriundos do fluido universal de onde provêm todas as coisas. Os Espíritos, dependendo da sua evolução, têm a possibilidade de utilizar esses fluidos e dirigi-los por meio de sua vontade. Os fenômenos assim produzidos somente são considerados milagrosos por quem desconhece as normas naturais a que estão sujeitos. Muitos desses fenômenos são imitados por mistificadores e prestidigitadores inescrupulosos, dando ensejo a críticas injustas ao Espiritismo como se fosse responsável por tais falsidades. Há, portanto, necessidade de observação atenta e criteriosa para resguardar sempre a verdade. Todos aqueles que procuram combater os abusos e embustes ajudam a espalhar a luz como procedem os espíritas conscienciosos. Vale lembrar que os fenômenos espirituais, quando autênticos, constituem fatos normais, por isso que ocorrem obedientes a princípios naturais. A fé do adepto sincero e consciente da Doutrina Espírita é robusta porque se sustenta na razão. Nasce pura no coração, age em nome da caridade e do amor a Deus, ao próximo e a si mesmo e tem fundamento na certeza e na ver- dade. É capaz de transportar montanhas como ensinou Jesus. A comunicação espiritual realiza-se por intermédio de estrutura ou disposi- ção natural denominada, na Codificação Kardequiana – mediunidade –, que é a aptidão da pessoa para entrar em contato e se comunicar com o Espírito, encar- nado ou desencarnado. Embora a mediunidade seja inerente ao ser humano, acompanhando-o, portanto, em todas as eras da Humanidade e não sendo ex- clusividade de nenhuma criatura ou crença religiosa, foi a Doutrina Espírita que a ordenou e disciplinou, esclarecendo as condições em que os fenômenos mediú- nicos se realizam, bem como suas diversas espécies e feições, tudo com obser- vação atenta e exame meticuloso de cada caso, procedidos criteriosamente por Allan Kardec e com os esclarecimentos trazidos pelos Espíritos. A mediunidade é fonte inesgotável de progresso, de ensinamentos, de au- xílio não apenas para o próprio médium mas, sobretudo, para a Humanidade, independentemente de quaisquer condições ou crenças, eis que seus benefícios são gerais. Os fenômenos espirituais são evidentes e freqüentes em todos os lugares, não se justificando o alardeamento e o alarido com referência a eles a não ser em razão do desconhecimento das leis que os comandam. É de se salientar que é nos Centros Espíritas bem orientados que a mediu- nidade é conduzida com segurança e utilidade indiscutíveis, tendo em vista que ela representa instrumento preciosíssimo na prática da caridade, além de pres- tar informações valiosas e propiciar sábias orientações para a correta conduta humana. É a misericórdia de Deus a espargir bênçãos e luz tal qual procedia
  • 39. Jesus outrora no Seu ministério divino nos sítios da Palestina. l
  • 40. A FEB tem Novo Presidente Após mais de dez anos de eficiente administração da Casa de Ismael, exercida com extremada dedicação, o Presidente Juvanir Borges de Souza, consciente de que já cumprira sua missão, não aceitou ser re-eleito para mais um mandato e indicou o Vice-Presidente Nestor João Masotti para sucedê-lo, o qual foi eleito Presidente da Federação Espírita Brasileira, por unanimidade, na Reunião Ordinária do seu Conselho Superior, em 24 de março deste ano. Durante a Presidência de Juvanir Borges de Souza a FEB consolidou a sua posição de coordenadora do Movimento Espírita brasileiro através do Conselho Federativo Nacional, por ele presidido; intensificou as atividades de Evangeliza- ção Espírita Infanto-Juvenil e do Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita; lan- çou as campanhas de amplitude nacional – Viver em Família, Em defesa da o Vida e de Divulgação do Espiritismo – e promoveu o 1 Congresso Espírita Bra- sileiro em outubro de 1999. No âmbito internacional, participou da fundação do o Conselho Espírita Internacional, dando-lhe integral apoio, e realizou seu 1 Con- gresso Espírita Mundial, em outubro de 1995. O novo Presidente Nestor João Masotti, com grande experiência no traba- lho de Unificação do Movimento Espírita e de união dos espíritas, na condição de Secretário do Conselho Federativo Nacional e Coordenador das suas Comis- sões Regionais, está preparado para desempenhar a difícil mas nobre missão que lhe é confiada. Para esses dois valorosos servidores de Ismael, rogamos as bênçãos de Jesus. l
  • 41. FEB/CFN – Conselho Federativo Nacional Súmula da Ata da Reunião Ordinária Reunião em Brasília no período de 10 a 12 de novembro de 2000 1 – Abertura 1.1 – Prece inicial Às nove horas do dia 10 de novembro de 2000, na Sede Central da Federa- ção Espírita Brasileira, em Brasília (DF), o Presidente da FEB, Juvanir Borges de Souza, saudou os Representantes das Entidades que compõem o Conselho Fe- derativo Nacional: as Federativas Estaduais e do Distrito Federal, a Cruzada dos Militares Espíritas, o Instituto de Cultura Espírita do Brasil (ICEB) e a Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo (ABRADE). A seguir, convidou a todos para a prece inicial. 1.2 – Palavra do Presidente do CFN (Texto publicado em Reformador de janeiro de 2001, sob o título “Visão de um Mundo Regenerado”.) 2 – Expediente 2.1 – Análise e aprovação da ata da Reunião realizada no período de 13 a 15 de novembro de 1999 Deliberação: Colocada em votação, a ata em referência, cuja Súmula está publicada na revista Reformador dos meses de maio, junho e julho de 2000, foi aprovada sem ressalvas, por unanimidade. Em seguida, o Presidente Juvanir mandou consignar em ata a correspon- dência recebida do confrade Luiz Pereira Melo, Presidente da Federação Espí- rita do Estado de Alagoas, em que se justifica pelo seu não comparecimento e apresenta os confrades Sebastião Geraldo da Silva e Luiz Jorge Lira, respecti- vamente primeiro Vice-Presidente e Diretor de Patrimônio da referida Federativa, para representá-la durante a reunião. 3 – Ordem do Dia 3.1 – Apresentação do relatório da Comissão temporária criada pelo CFN, em sua reunião anterior, com o objetivo de analisar e apresentar pro- postas visando ao aperfeiçoamento do trabalho de unificação com base no Pacto Áureo • Deverá ser realizada uma dinâmica de estudo em grupo para análise do relatório e das sugestões apresentadas pela Comissão, com vistas à elabora- ção de um Plano de Ação Geral do CFN. Além dos membros do CFN (repre- sentantes e assessores), serão convidados a participar desse estudo em gru- po os diretores e assessores da FEB. Inicialmente, o Vice-Presidente Nestor João Masotti referiu-se à proposta apresentada, na reunião do CFN de 1999, pelo representante da USE, Antonio Cesar Perri de Carvalho, no sentido de que fosse constituída uma Comissão de caráter temporário, com prazo de um ano, para proceder a uma análise do Mo- vimento Espírita e apresentar propostas ao CFN visando ao aperfeiçoamento do trabalho de Unificação com base no Pacto Áureo. Colocada em votação, a pro- posta foi aprovada por unanimidade, tendo sido constituída Comissão formada pelos representantes da Federação Espírita do Distrito Federal, da Federação
  • 42. Espírita do Estado de Goiás, da União Espírita Paraense, da Federação Espírita Paraibana, da União das Sociedades Espíritas do Estado do Rio de Janeiro, da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, da Cruzada dos Milita- res Espíritas e pelo Coordenador das Comissões Regionais. Disse que, no de- correr do ano de 2000, várias reuniões dessa Comissão foram realizadas e, logo de início, designou-se o companheiro Antonio Cesar Perri de Carvalho para re- lator dos trabalhos da Comissão em referência. Em seguida, o relator da Comissão, acima citado, apresentou ao plenário do CFN o relatório que retrata o trabalho e as conclusões da Comissão. Conhecido o relatório, passou-se a palavra ao companheiro César Soares dos Reis, integrante da Comissão, que deu as explicações necessárias ao nor- teamento da dinâmica de estudo em grupo, conforme consta da pauta da Reu- nião. Os trabalhos dos grupos se desenvolveram durante grande parte do dia, proporcionando ampla oportunidade de participação e de troca de idéias e expe- riências. Após a sua realização, foi elaborada pelos coordenadores dos grupos – com base nas idéias e sugestões de cada grupo – uma proposta de Plano de Ação Integrado do CFN. Antonio Cesar Perri de Carvalho e César Soares dos Reis fizeram, em plenário, uma síntese das atividades realizadas pelos grupos, apresentando, para apreciação dos Conselheiros, a referida proposta de Plano de Ação Integrado do CFN, nos seguintes termos: “Proposta de Plano de Ação Integrado do Conselho Federativo Nacio- nal da FEB Considerações Iniciais No desenvolvimento da metodologia da dinâmica de grupo encontramos franca receptividade e ampla participação de todos os componentes dos grupos. O interesse foi claramente demonstrado no sentido de oferecer contribui- ções construtivas, de amplo espectro, reforçando a ação do CFN na orientação do Movimento Espírita nacional. Foram constituídos seis grupos, coordenados pelos membros da Comissão Temporária e secretariados por integrantes dos grupos. Num primeiro momento foram lidos textos de apoio previamente distribuí- dos, tendo havido livre manifestação geral, a título de homogeneização dos componentes dos grupos. Ao final da dinâmica de grupos os secretários registraram as idéias e su- gestões dos grupos e os coordenadores elaboraram a presente minuta de Plano de Ação que consolida os vários relatórios, contemplando prioritariamente as unanimidades, além de levar em conta todas as sugestões. O Plano prioriza as ações segundo critérios de oportunidades e de operacionalização. Plano de Ação O presente Plano de Ação tem necessariamente foco estratégico nacional e, portanto, não contempla ações locais. Posteriormente, quando operacionali- zado pelo CFN, deverá ser estruturado segundo os pormenores necessários. Em realidade, este Plano é uma declaração de intenções, as quais serão transfor- madas nas ações componentes dos respectivos projetos.