O NÍVEL MAÇÔNICO: UMA MISSÃO DE
NIVELAÇÃO OU DE UNIÃO?
John Deyme de Villedieu
PortoVelho-Rondônia-Brasil-AnoI-N.º0-EdiçãodoVerãode2013
EdiçãoInauguraldaPrimeiraRevistadeEstudosMaçônicosdaGrandeLojaMaçônicadoEstadodeRondônia
A MAÇONARIA EM EVOLUÇÃO
Cláudio Santini
ASPECTOS SIMBÓLICOS DO
TRABALHO EM CANTARIA
Roger Avis
AS ORIGENS DO RITO YORK
Hugo Borges e Sérgio Cavalcante
ORIGEM E FONTES DO
RITUAL SCHRÖDER
Hans Heinrich Solf
À G.·. D.·. G.·. A.·. D.·. U.·.
PODER EXECUTIVO DA GLOMARON
Grão-Mestre:
Juscelino Moraes do Amaral
Grão-Mestre Adjunto:
Antônio Alves Pereira
DELEGADOSDOGRÃO-MESTRADOPORJURISDIÇÃO
Delegado da 1ª Região:
Mário Leme da Rocha Junior
Delegado da 2ª Região:
Nilton Edgard Mattos Morena
Delegado da 3ª Região:
Edson Vinicius Alves
Delegado da 4ª Região:
João Carlos Veris
Delegado da 5ª Região:
Edson Aleotti
Delegado da 6ª Região:
Jaime Clemente Oberdoerfer
Delegado da 7ª Região:
Lourival Da Lamarta
Delegado da 8ª Região:
Pedro José Bertelli
Delegado da 9ª Região:
João Carlos Volpato
Delegado da 10ª Região:
Afonso Soares de Albuquerque
GRANDES SECRETARIAS EXECUTIVAS
Relações Interiores:
Deivison Russi
Relações Exteriores:
Edson Ramos
Finanças:
Claudio Aparecido Pinto
Coordenação e Planejamento:
Wladmir José Carranza
Publicação e Divulgação:
Luiz Carlos Araújo dos Santos
Relações Publicas:
Noilson Neviton de Souza
Bibliotecário:
Carlos Alberto da R. Nogueira
Historiador:
Gilberto Carlos Cantarelli
Informática:
Jairo Tschurtschenthaler Costa
Relações Para-Maçônicas:
Antônio Porphirio P. dos Santos
Administração e Patrimônio:
Itamar José Ferreira
Ritualística:
Aldino Brasil de Souza
ÍNDICE
PALAVRA DO GRÃO-MESTRE 3
EDITORIAL4
O NÍVEL MAÇÔNICO: UMA MISSÃO DE
NIVELAÇÃO OU DE UNIÃO? 5
A vertical, garante da horizontalidade  5
O estabelecimento da horizontal 7
O aplainamento como matrimônio unificador 10
Maçonaria Operativa e Maçonaria Especulativa 13
ASPECTOS SIMBÓLICOS DO TRABALHO EM
CANTARIA13
As ferramentas do Canteiro 14
Relações analógicas entre a cantaria e o trabalho interno 15
Aspectos práticos de como trabalhar literalmente à pedra
bruta 17
Conclusão: Iniciações nos mistérios menores e maiores19
ORIGEM E FONTES DO RITUAL SCHRÖDER 21
AS ORIGENS DO RITO YORK41
A Grande Loja de Londres 41
Os primeiros maçons da américa do Norte 43
Saint John’s Lodge - a primeira Loja das Américas 44
Os maçons Ingleses e Americanos na Independência dos
Estados Unidos 46
O Rito York no Brasil 50
Os membros Fundadores 51
As Lojas Posteriores à Washington Lodge 53
A MAÇONARIA EM EVOLUÇÃO 55
Bibliografia 60
E-Mail para contato: lapideias@gmail.com
Salientamos que as matérias aqui publicadas foram
examinadas e não encontramos qualquer sinal de cópia
não referida ou plágio. Caso haja alguma reclamação
sobre este motivo, favor entrar em contato com o Editor
desta revista, através do e-mail acima mencionado,
inserindo material probatório, que nos comprometemos
a fazer a retificação possível. Cabe lembrar que esta
revista é de distribuição gratuita, e que não se aufere
nenhum lucro com sua distribuição, e que não temos
intuito de inserir propagandas comerciais objetivando
com isto conseguir numerário para sua edição. Todos
os que nela trabalharam o fizeram gratuitamente, sem
o intuito de constituir, com isso, alguma renda. Caso
se interesse em colaborar com a revista, através de
matérias -dentro da proposta acima apresentada, ou de
perguntas, entre em contato conosco para examinarmos
o material proposto.
O Editor
Grande Loja se manifesta sobre o 7 de
setembro: Independência do Brasil
13/09/2013
Mais de 200 maçons e jovens das ordens
“Demolay” e “Filhas de Jó” participaram na noite
do último sábado, do desfile de 7 de setembro,
em Porto Velho. Os maçons desfilaram com
seus paramentos utilizados nas sessões, e
levaram para o desfile um pouco da história
da participação da Maçonaria no processo que
culminou com a independência do Brasil.
O desfile dos maçons no dia 7 de setembro
faz parte da proposta da Grande Loja Maçônica
do Estado de Rondônia de aproximar a Maçonaria
das comunidades e também serve para mostrar
que a instituição tem uma participação importante
na construção de uma sociedade mais justa e
mais humana.
A Maçonaria esteve presente nos
grandes acontecimentos da história brasileira,
especialmente naqueles que buscavam garantir
ao povo brasileiro a liberdade inexistente no
período colonial. Desde então, inúmeros projetos
sociaisvêmsendodesenvolvidospelaMaçonaria,
sempre contribuindo com o desenvolvimento
humano e a melhoria da sociedade.
A independência do Brasil tem um
significado especial para nós, maçons, pois
a Maçonaria teve participação decisiva no
movimento, quando propôs, em uma sessão,
que se conferisse ao Príncipe D. Pedro I, o título
de “Protetor e Defensor Perpétuo do Brasil”.
D. Pedro aceitou o título, propondo apenas a
supressão do termo “Protetor”.
Os maçons, habilmente, arquitetaram o
desenrolar do 7 de setembro de 1822, lançando
a idéia da convocação de uma Constituinte, cujo
projeto foi redigido por Gonçalves Ledo e José
Bonifácio, o patriarca da Independência.
Na tarde de 7 de setembro de 1822,
às margens do Ipiranga, D. Pedro atendeu
às recomendações através do Manifesto de
Gonçalves Ledo, e o grito, “Independência ou
Morte”, foi a denominação de uma das “palavras”
da sociedade secreta.
No desfile de 7 de setembro, em Porto
Velho, os maçons, bem como os jovens
Demolays e Filhas de Jó, são saudados pelas
autoridades e aplaudidos pela população que
reconhece a história de nossa instituição e luta
pela construção de uma Sociedade mais justa
e perfeita com a trilogia Liberdade, Igualdade e
Fraternidade entre os povos e nações.
JUSCELINO AMARAL
GRÃO- MESTRE DA GLOMARON
PALAVRA DO GRÃO-MESTRE
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 4
EDITORIAL
Já se disse que João Batista vivia pregando no deserto... no deserto do coração dos homens.
Nós, tendo João Batista como nosso exemplo, mentor da Maçonaria Simbólica, devemos nos per-
guntar o quanto de deserto carregamos em nossos corações.
A partir deste momento é racional que se faça uma pergunta para que nós todos meditemos
sinceramente: quem afinal é isento de uma missão espiritual? Estabeleçamos, desde já que a reli-
gião não monopoliza a espiritualidade, que há aspectos espirituais não religiosos, não mistificado-
res, não ocultistas ou fantasiosos, que a maçonaria faz por bem estudar e praticar, ainda que os
indique através de outros nomes, como caridade, ou amor fraternal, não importa.
No entanto, na atualidade, quase infértil de oásis a fertilizarem as areias deste mundo, perce-
bemos muitas vezes que os sonhos e ideais dos homens são castigados pelos ventos do materialis-
mo, e o cotidiano vai martelando implacável, até levar grande parte da humanidade, inclusive muitos
filhos da viúva, à mais completa afasia.
No entanto, há o conhecimento... eis a chave! A chave que abre o cofre onde está guardado um
novo universo, cujo aroma rescende à primeira terra molhada pela chuva que lembramos da infân-
cia. E tal qual descascar uma cebola, ou se guiar por um fio através de um labirinto aparentemente
inextricável, pouco a pouco podemos retornar ao núcleo e despertarmos para o que somos e o que
devemos fazer. Eis o conhecimento.
O amor... eis a ferramenta! Qual Irmão se sente isento de uma missão espiritual? Qual maçom
estaria isento, após receber a Luz, de trabalhar para um mundo melhor? Será que não temos com-
promissos com o nosso próximo e podemos deixá-lo sem nosso zelo constante, pois sabemos que
outros se encarregarão dele e de seu bem?
Esta Revista não foi criada para aqueles que buscam se encher das coisas mundanas, achan-
do-as suficientes para sua existência. Esta pequena revista existe para aqueles que têm sede de
conhecimento. Foi construída sobre o alicerce do estudo; e se sua débil aparência material possa
impressionar desfavoravelmente aos olhos de alguns, ainda assim ela foi construída sobre o caráter
daqueles que também consideraram uma missão expressar uma mensagem de conhecimento para
estas paragens e –por que não dizer?- para humanidade.
Você, que nos lê, é também o artífice desta obra. E caso ainda não tenha colaborado direta-
mente, ou indiretamente -o que poderá acontecer num futuro próximo- ainda assim, só o fato dessa
mensagem chegar a um emissor, você, isso o torna o maior colaborador que temos!
Portanto, queremos que você, leitor, saiba que esta revista existe tal qual uma Loja, onde reno-
vamos nosso compromisso com um mundo melhor, a começar de nosso mundo interior, bastião de
qualquer outra mudança que queiramos proceder.
Esta revista foi criada para este raro tipo de homem, que está em extinção na atualidade, mas
que ainda encontramos em nossos trabalhos: O homem que tem um ideal! Que não se conforma
com a existência mesquinha, onde números, cifrões e preocupações são o mais importante, mas
que busca uma solução, através do estudo de si mesmo, para galgar os degraus da do autoconhe-
cimento, que costumamos chamar “escada de Jacó”.
Boa leitura, e muito grato!
O Editor
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 5
A vertical, garante da horizontalidade
O
Nível, na Franco-Maçonaria, parece-nos
sobretudo conhecido como o instaurador
da horizontal e, por isso, como o símbolo
complementar da Perpendicular, ou Prumo, que,
do mesmo modo, determina a vertical. Pode
[ser] que isto explique o que as significações
que com freqüência se evocam, até hoje em
dia, a propósito do Nível, sejam uma lembrança
daquilo que o século XVIII em seus últimos anos
via, com uma predileção sincera ou oportunista,
na horizontalidade.
Desta maneira, segundo um “catecismo”
dado por um ilustre Maçom antes da guerra,
o Nível “tende a nivelar as desigualdades
arbitrárias” (1). E o Simbolismo é em nossos dias
unanimemente desconhecido (2), até o ponto em
que outro autor, em seu Dicionário, consagra ao
Nível uma linha e meia para nos dizer que esta
ferramenta “simboliza a igualdade”. É curta, e,
sobretudo, em razão de certos hábitos mentais
de nossa época, um pouco equivocada.
O nivelamento tem tanto êxito depois de vá-
rios séculos, que fez perder de vista, em sua fú-
ria por achatar tudo, [inclusive] a própria origem
da palavra, quando esta origem, como se verá,
revela muito bem a significação e, além da le-
tra, o espírito. Mas não só a linguagem esclarece
coisas. O próprio instrumento, que serviu de mo-
delo ao símbolo (3), parece-nos igualmente mui-
to revelador caso se preste atenção à maneira
como está constituído. Efetivamente, ele se com-
põe de um esquadro cujos braços estão unidos
por uma barra transversal, e de um prumo que
desce do ápice de tal esquadro: é no momen-
to em que o prumo se situa defronte à “linha de
fé”, marcada na barra, que o Nível certifica a ho-
rizontalidade que tem como missão assegurar.
Desta maneira, se esta ferramenta permite obter
a horizontal, ela facilita, além disso -e acima de
tudo, a vertical, parecendo assim mais comple-
ta que o Prumo, como por outra parte numero-
sos autores o têm feito observar. Mas, então, o
que poderia surpreender é que, até admitindo
O NÍVEL
MAÇÔNICO: UMA
MISSÃO DE NIVELAÇÃO OU DE UNIÃO?
JOHN DEYME DE VILLEDIEU
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 6
esta superioridade, considera-se que a vanta-
gem dada ao Nível, com relação ao Prumo (4),
é devida tão somente ao fato de que estabelece
a horizontalidade, enquanto que o Prumo dá a
vertical. Perguntamo-nos qual pôde ser o motivo
que faz com que se atribua esta preeminência
a uma mais que a outra destas direções, o que
vai contra à ordem hierárquica habitualmente re-
conhecida? Deve-se a esta ânsia “democrática”
de nivelar indiferenciadamente tudo, segundo o
método confusionista, antes da subversão total?
Entretanto, os mesmos dicionários “profa-
nos”, que são pouco suspeitos de preocupações
esotéricas, deixam entrever a verdadeira signi-
ficação do Nível e, portanto, o mistério de sua
função.
Sem dúvida, num certo sentido, que parece
predominante para muitos hoje em dia, nivelar é
igualar; trata-se de por tudo no mesmo plano; é
fazer tábula rasa do excepcional; em suma, nive-
lar por baixo. Em qualquer caso, isto é o que se
faz com os trabalhos de nivelamento das terras
com toda a brutalidade ininteligente e antiestéti-
ca da técnica moderna, e não é surpreendente
que nossos contemporâneos, muito mais pene-
trados de materialismo do que geralmente se
imaginam, retenham do nivelamento, sobretudo,
o ato aplanador de algo.
Na realidade, nivelar não só é aplainar, mas
também, como diz o [dicionário] Robert, “medir
as alturas comparativas dos diferentes pontos de
um terreno com relação a um plano horizontal
dado”. Não se pode atuar sobre as coisas pas-
sando sobre elas ou as esmagando, mas sim
observando o mundo ao redor, assinalando as
linhas características e o relevo. Também, no
sentido de aplainar, é unificar, quer dizer unir,
embora o dicionário reconheça que este último
termo, no sentido de aplainar, tornou-se estra-
nho [N.T. - o autor se refere ao sentido encontra-
do na língua francesa]. Unir é realizar a unidade,
com o qual fica manifesto tudo aquilo que separa
esta significação de terreno aplanador do qual
partimos (5).
Quando se trata do Nível, as definições es-
tão de acordo em reconhecer que seu papel con-
siste em verificar a horizontalidade de um plano;
e é para isto que serve na prática da maçonaria.
Mas, caso se deseje aprofundar na significação
simbólica, é conveniente entrar em certos deta-
lhes cuja evidência é inegável sem dúvida, em-
bora os espíritos distraídos e enfastiados de nos-
sa época tenham perdido o costume de tomá-los
em consideração.
Na realidade o Nível tão somente permite
estabelecer se dois pontos de uma superfície
se encontram à mesma altura, ou se não se en-
contram; e o importante é que isto se faz graças
a seu prumo que, como dizíamos mais acima,
coincide ou não, sobre sua barra transversal,
com a marca chamada “linha de fé”. Quer dizer
que a verificação da horizontalidade se opera
obrigatoriamente [em relação] à vertical.
Há aqui um ponto que quereríamos estabe-
lecer e que não recordamos havê-lo visto assi-
nalado com a insistência necessária, apesar de
ampliar e elevar singularmente as significações
da “ferramenta” que estamos estudando. O Ní-
vel, efetivamente, em seu domínio próprio, é o
equivalente da Balança, como o indicam noto-
riamente seus nomes latinos respectivos libella
(6) e libra, onde o primeiro não é mais que o di-
minutivo do segundo. Por outra parte, a palavra
“nível” (7) provém da raiz libr-, que comporta a
ideia de pesagem, com o que a “ferramenta” ma-
çônica, em sua significação simbólica, tem proxi-
midade com a Balança.
O que é interessante, no que se refere ao
Nível maçônico e à Balança tradicional, é que no
caso de se tratar de estabelecer a horizontal, é
[somente] com a ajuda da vertical que poderá fa-
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 7
zê-lo, o que assinala com nitidez a preeminência
desta vertical. Deste modo, é no mínimo curio-
so constatar que é o inverso o que ocorre nas
balanças modernas, porque neste último caso
o rigor da pesagem depende -acima de tudo-
da exata horizontalidade do plano sobre o qual
estão colocados estes aparelhos, como se, até
“aleatoriamente”, a produção de nossa moder-
na civilização estivesse destinada à subversão.
Pelo contrário, a preeminência da vertical sobre
a horizontal ainda era respeitada nas antigas ba-
lanças, como a que se encontra pendurada na
parede da Melancolia de Dürer. Efetivamente, a
horizontalidade do braço se verificava pela ver-
ticalidade da agulha que se encontra fixada em
ângulo reto e que, para ser vertical, devia tomar
a mesma direção que o suporte onde repousava
o braço, ele próprio suspenso em um ponto fixo
e que, como o prumo do Nível, é o garante da
verticalidade e, consequentemente, de uma justa
horizontalidade.
Melancolia - Dürer
Estando bem estabelecida a preeminên-
cia da vertical quanto a sua necessidade para [a
existência] de uma justa “pesagem” da horizon-
tal, é interessante recordar que, tradicionalmen-
te, esta vertical é o símbolo da Vontade do Céu.
Esta, para o entendimento humano, pode to-
mar o aspecto de uma força descendente e que
“pesa” sobre o destino humano, mas também -e
ao mesmo tempo, o aspecto de uma força as-
cendente por sua atração; estas forças, que se
exercem simultaneamente, representariam bas-
tante bem a Justiça rigorosa e a Misericórdia da
Árvore Sefirótica, respectivamente. A Vontade
de que se trata é por outra parte conforme a “Ati-
vidade do Céu”, que parece descender, como a
Graça, mas que na realidade incita à elevação
(8).
Conviria agora estudar o que do ponto de
vista simbólico significa a verificação e, de fato,
a instituição efetiva (9) da horizontal pela graça
da vertical (10). Resulta, efetivamente, que o ver-
dadeiro papel do Nível, na arte maçônica, não se
limita a constatar uma diferença de altura entre
dois pontos, mas sim consiste em reduzi-la, até
fazê-la desaparecer.
O estabelecimento da horizontal
Partindo do fato já estabelecido de que a
finalidade do Nível não é nem uniformizar nem
achatar, mas sim aplainar, unificar, e, portanto,
de unir, existe um meio para tentar compreender
no que consiste verdadeiramente a instituição da
horizontalidade. Para isso é suficiente ater-se às
significações da pesagem levada a termo pela
Balança, vocábulo de que vimos em latim sua
equivalência etimológica com o Nível.
No comércio, para realizar uma pesagem,
antigamente ficava em um prato da balança cer-
to peso estabelecido pelo pedido do cliente, e no
outro prato fragmentos da mercadoria desejada
até que esta “fazia o peso”. O ideal que a mer-
cadoria escolhida devia alcançar era, em conse-
qüência, da ordem quantitativa. No entanto, isso
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 8
Os antigos arquitetos e artesãos egípcios usaram o nível triangular e prumo nível para
garantir que todas as superfícies de construção eram niveladas e perfeitamente aprumadas. Do
túmulo de Sennedjem veio um conjunto dessas ferramentas, incluindo uma haste com a me-
dida do côvado real, um nível de triângulo, dois prumos de chumbo, dois esquadros, e várias
outras peças. Sennedjem pode ter usado esses instrumentos para a construção e decoração
dos túmulos de Seti I e Ramsés II no Vale dos Reis, bem como do próprio lugar onde ocorreu
seu esplêndido enterro.
Este nível de triângulo é construído de dois pedaços diagonais de madeira unidas em
ângulo reto, com um pedaço horizontal entre os dois. O prumo na forma de um coração é
suspenso por um fio a partir do topo do ângulo recto, quando o nível está colocado sobre uma
superfície plana, a corda do prumo iria ficar exatamente no meio das marcas de incisão no
centro da peça horizontal. Se a superfície não fosse devidamente nivelada, o prumo, então,
indicaria as correções necessárias. A inscrição, que gira em torno do triângulo pede ao deus
Ptah e Re-Horakhty-Atum-Hemiunu para o enterro e benefícios em vida após a morte para o
ba de Sennedjem. (O Museu Egípcio, no Cairo)
go Egito, e a prova está na arte da Idade Média
cristã, onde algumas iluminuras [imagens ilu-
minadas] testemunham que a Europa, naquele
tempo, conhecia o simbolismo da psicostasia.
Observamos então que a Balança, consi-
derada em seu sentido material ou em seu sen-
tido espiritual, tem por função medir a adequa-
ção de uma coisa a seu modelo, caso se trate
da adequação de certa quantidade de farinha ao
peso exigido, ou da adequação de uma alma à
exigência da Justiça equilibrante.
Compreendendo agora o que é exatamen-
te, do ponto de vista simbólico, a pesagem da
Balança, não é difícil deduzir a significação que
tem, com o Nível, ou “pequena Balança” (libella),
a instituição da horizontalidade. Não se trata de
elevar os operários ao nível social dos patrões,
delírio utópico ou hipócrita demagogia. Não é
tampouco questão de rebaixar os patrões ao
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 9
nível dos operários, pura especulação de ódio
social. O fim do Nível é promover um aplaina-
mento suscetível de resolver as dificuldades, que
elas provenham de uma superfície desigual, de
uma incompreensão nas relações sociais abrup-
tas, ou, no plano espiritual, de uma opacidade
rugosa que oculta ao homem suas sumidades
luminosas. Aplainar, dissemo-lo anteriormente, é
unir, mas é esta uma significação que se tentou
suprimir das memórias humanas. Preferiram re-
ter as ideias de acordo com um ideal de simpli-
ficação e facilidade, ideias que seduzem muito
especialmente o mundo moderno, porque elas
são a negação de toda vida (12).
Dado que o Nível é uma das ferramentas-
símbolos utilizadas em uma das raras Organiza-
ções iniciáticas que ainda existem no Ocidente,
é sobretudo em sua acepção espiritual que aqui
nos interessa. Como proceder então ao “aplaina-
mento”, à unificação, à união da qual antes falá-
vamos? A única maneira de unir irreversivelmen-
te os homens entre si é pô-los em situação de
intuir e posteriormente descobrir neles mesmos
aquilo que os tornam verdadeiramente “iguais” e
cuja aparência social e de caráter é tão somente
o reflexo mais ou menos fiel, se não a caricatura
mais ou menos enganosa. Queremos falar deste
elemento que Mestre Eckhart chamava “incriado
e incriável”, e que, em cada homem, é o único
elemento que o torna não só “igual”, mas tam-
bém realmente idêntico a seu “próximo”. Uma
das utopias mais perigosas e daninhas do mun-
do moderno é querer “igualar” tudo, reunir tudo,
unir tudo do exterior, mas negando a única coisa
que, no centro de cada homem, faz possível esta
união (13). O único e verdadeiro “ecumenismo” é
tão velho como o mundo e não é outra coisa que
o resultado do conhecimento esotérico que per-
mite perceber, sob a variação dos diversos “cli-
mas” religiosos, a unidade essencial que trans-
cende as expressões particulares para fundi-las
na mesma Identidade.
Se a união entre os homens passa pelo re-
conhecimento prévio daquilo que é o único que
pode uni-los, é evidente que o primeiro passo
consiste em reconhecer no mais profundo de al-
guém aquilo que o converte em verdadeiramen-
te idêntico a todos os outros, sem distinção de
sexo, raça ou religião. Uma vez reconhecido este
elemento, e tendo em conta que se trata de algo
eminentemente senhorial, todas as inumeráveis
aspirações individuais produtoras de caos têm
que se subordinar a tudo que ele suscita de as-
piração central. Isto quer dizer que corresponde
a cada um realizar em primeiro lugar a unidade
em si mesmo.
Assinalemos aqui algo que poderia passar
por uma simples coincidência, mas que nós con-
sideramos como uma confirmação do que esta-
mos dizendo. Trata-se de uma semelhança con-
sonantal parcial que, por intermédio da raiz LB,
opera uma aproximação entre o latim libra, que
designa a balança, e o hebraico leb, que designa
o coração, o único “lugar” que, por sua posição
central, permite ao homem realizar o equilíbrio
harmonioso do qual falamos. A raiz hebraica de
que se trata evoca por outra parte a audácia e
qualquer atividade produtora interior. Quer dizer
que ela expressa com bastante exatidão a orien-
tação da consciência e das aspirações humanas
para seu centro espiritual (14).
Esta aproximação lingüística, curiosa pelo
menos, parece-nos digna de certa atenção, pois
deixando à parte qualquer questão de etimolo-
gia, sempre permanece o fato de que tanto a Ba-
lança quanto o Nível se mostram perfeitamente
capazes de velar pela transmutação espiritual de
que estamos falando, podendo aparecer por isso
como os instrumentos de uma conversão unifi-
cadora da qual só pode sugerir-se sua profundi-
dade.
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 10
O aplainamento como matrimônio uni-
ficador
Contribuiremos agora algumas conside-
rações complementares sobre o sentido desta
“síntese” equilibrante a se realizar pelo homem
e, em primeiro lugar, conviria não se deixar en-
ganar pelas significações que os hábitos men-
tais do Ocidente moderno acabaram por impor
a determinadas palavras. Por isso, é necessário
guardar na memória o princípio da pesagem es-
piritual que o antigo Egito, por exemplo, deixou-
nos como modelo. Entre o coração humano em
um lado da Balança e, no outro, a Verdade e a
Lei divina, não existe, entenda-se bem, nenhum
ponto de comparação salvo o que possa haver
entre a Luz e um de seus brilhos. Não se tra-
ta de fazer uma boa mescla de suas aspirações
individuais e de sua aspiração central. A união
de que estamos falando aqui não é um coque-
tel. Trata-se do matrimônio do indivíduo com o
Si universal, e, em tal matrimônio, o indivíduo se
funde no Si, até o ponto em que suas aspirações
não tenham mais nada de individual nem de múl-
tiplo, mas apenas se reduzam a sua aspiração
essencial, que não é outra que o reflexo do Que-
rer divino.
Assinalemos que no matrimônio do Si tudo
está, por fim, aplainado, tudo está perfeitamente
unido, liso e sem rugas. Entretanto, na relação
de adequação do símbolo àquilo que ele simbo-
liza, alguns poderiam opor uma objeção. Se o
Nível permite elevar as coisas à mesma altura,
o que está em concordância com o matrimônio
de que estamos falando, também serve para ni-
velar, e é aqui onde se pôde deslizar o sentido
forçado (15) que com tanta freqüência se utiliza
hoje em dia, seja de uma maneira simplesmen-
te pejorativa, ou de forma reivindicativa e mais
ou menos rancorosa. Agora, caso se rechacem
todas as utilizações desta palavra com fins po-
líticos ou sociais que, tal e como se entendem
atualmente não saberíamos no que poderia nos
interessar, é evidente que suas significações não
têm nada de pejorativo nem de rancoroso, como
Nível-Amuleto de
pedreiros egípcios
(Williams Colle-
ge Museum
of Art)
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 11
testemunhava o primeiro dicionário consultado.
Além do mais, caso se considere a utilização do
Nível para fazer descer um elemento à altura de
outro, encontramos uma aplicação imediata dis-
so no próprio processo do matrimônio simbóli-
co -mas real- considerado anteriormente. Se a
consciência individual nos aparecer em pleno
impulso para a sumidade, onde se fará possível
a união tão desejada, existe também outra ima-
gem que no âmbito espiritual se cita com bas-
tante freqüência: o homem não faz o caminho só
porque Deus vem a seu encontro (16) e, por isso,
deve necessariamente consentir em “descer” de
suas alturas. Entenda-se, estas não são senão
imagens que tentam traduzir o melhor possível,
em uma linguagem muito inadequada, a espera
divina e a esperança humana que acabarão por
reunir-se cedo ou tarde. Há aqui uma convergên-
cia onde seria difícil dizer qual é o primeiro insti-
gador se não se soubesse sempre que tudo se
submete, de bom grau ou não, à Vontade divina.
A pesagem que mais acima evocávamos é,
por outra parte, uma imagem expressiva dos mo-
vimentos de elevação e descida de que estamos
falando. Como em qualquer deliberação (17)
onde se pesam os elementos em questão, existe
uma oscilação característica da Balança. Entre-
tanto, não terei que acreditar que esta alternân-
cia de movimentos inversos sempre se resolva
finalmente por uma conclusão favorável ao que
é pesado. Quando Maat desce em seu prato, o
coração do defunto se eleva no seu, mas quando
Maat se faz muito leve, tênue, inacessível, então
o coração humano cai e sucumbe a seu peso.
Isto não nega tudo que dissemos do equilí-
brio essencial da Balança e do Nível. Certamen-
te, na economia universal, existem elementos a
depurar e outros a eliminar, mas isto jamais se
faz em um ambiente denegritório e de ódio. Só
importa a euritmia e, para nos limitar ao simbo-
lismo da pesagem, embora lhe dando uma di-
mensão universal, caso se desça em um ponto
do cosmo, eleva-se em outro ponto, de tal forma
que sempre se preserve a harmonia geral das
coisas. É o que a tradição chinesa denomina as
“ações e reações concordantes”, cujo equilíbrio
está situado no “Invariável Meio”, equilíbrio que
não é outro que o reflexo da “Atividade do Céu”
evocada anteriormente (18).
Vemos como o Nível, na ordem simbólica
e espiritual, é perfeitamente apto para cumprir a
missão que aqui lhe reconhecemos, esteja, por
outro lado, na mão do Maçom ou na do Grande
Arquiteto, o qual, do ponto de vista em que con-
sideramos as coisas, deve ser o mesmo, pois é
sempre o Grande Arquiteto o que guia a mão do
Maçom, ao menos na medida em que este reali-
za uma obra de Mestre.
É a este dever espiritual de elevação cor-
retora e de condescendência misericordiosa (19)
ao qual deveria estar consagrado o Nível maçô-
nico em sua acepção mais alta, e é assim com
toda certeza como o entendiam antigamente os
melhores de nossos construtores de catedrais.
Sempre há “templos” a “elevar”, como há “mas-
morras” a “cavar”, e aqueles que reclamam das
exigências interiores em nada cedem às prodi-
giosas construções medievais. Desta maneira,
quando se provê de seu Nível, o Maçom terá
“aplainado” em si mesmo os obstáculos que o
separam da única Realidade resplandecente,
quando se acha desembaraçado de todas suas
travas egocêntricas, quando, livre enfim, verda-
deiramente será uno com seus Irmãos e com to-
dos os homens que, como ele, caminham pelo
mundo (20).
A coisa não é fácil de realizar, pois, como
dissemos, facilidade e simplificação, embora
satisfaçam à preguiça moderna, entretanto con-
duzem para um beco sem saída. Pelo contrário,
“não é necessário esperar para empreender,
nem obter para perseverar”, e se a via espiritual
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 12
pode ser larga às vezes, não faltam flores para
balizá-la e compensar assim os rigores. Além
disso, como escrevia René Guénon, “quem esti-
vesse tentado a ceder ao desespero deve pensar
que nada do que é realizado nesta ordem pode
perder-se, que a desordem, o engano e a escu-
ridão só podem dominar na aparência e momen-
taneamente, que todos os desequilíbrios parciais
devem convergir necessariamente no grande
equilíbrio total e que nada poderá prevalecer fi-
nalmente contra o poder da verdade; sua divisa
deve ser a que adotaram antigamente certas or-
ganizações iniciáticas do Ocidente: Vincit Omnia
Veritas [a “Verdade Sempre Vencerá”]. (21)
Notas
(1) Sem dúvida, isto hoje em dia seria um pleonasmo, pois devido ao
progresso uma opinião “se” foi forjando pouco a pouco, para a qual
qualquer desigualdade é arbitrária.
(2) O desdém para com o Simbolismo é a conseqüência lógica da igno-
rância de nossa época com tudo o que tem relação com a Metafísica.
(3) E não o nível moderno, com borbulha de ar, o qual se chama “nivela”.
(4) efetivamente, na Franco-Maçonaria, é ao primeiro Vigilante a quem
se atribui o Nível, enquanto que o Prumo corresponde ao segundo Vi-
gilante.
(5) Unificar não é uniformizar, como pensa o estúpido modernista: é
justamente o contrário, pois para unificar é necessário sair do mundo
das formas.
(6) Libellus em latim popular.
(7) Derivado do francês antigo livel, e inclusive do inglês level.
(8) Tal é, por exemplo, a Graça que desce sobre aqueles que, no Islã,
seguem o “caminho reto”, bem conhecido por sua verticalidade e por
propor uma direção ascendente.
(9) Esta consideração é necessária, já que no curso de suas numero-
sas verificações o que o Nível constata é o fato de que a horizontali-
dade nunca está estabelecida, e consequentemente fica por realizar.
(10) Poderia ser que isto mesmo não esteja muito longe daquilo que
dizia João, o Batista, quando recomendava “aplainar os caminhos do
Senhor” (Mateus III, 3).
(11) Esta idéia de elevação, que é o contrário da de nivelamento, en-
contra-se no latim aequare: efetivamente, além das significações de
“aplainar”, ou de “unificar”, de “pôr ao nível de”, de “comparar”, também
comporta as de “igualar” e “obter”.
(12) Os promotores do mundo moderno não são acaso os inimigos de
toda via, de toda verdade e de toda vida? Esperam triunfar expandindo
sua desordem libertária, seu pensamento falacioso e os venenos de
suas sujas indústrias.
(13) Não se trata de uma simples utopia nascida dos cérebros mais
ingênuos, mas sim de um cálculo premeditado, retorcido e criminoso,
que parte daqueles que conduzem “este” mundo e que, nos fazendo
ver que procuram a paz, não perdem ocasião de promover todas as
fricções, ódios e mortes.
(14) A palavra árabe lubb, que designa o núcleo, o coração, a essência
de uma coisa, parece estar formado de uma raiz semítica comum com
o hebreu leb da qual estamos falando. Evoca a mesma centralidade
e a mesma espiritualidade interior: por isso se diz que o sufismo é o
“núcleo” ou o “coração” do Islã.
(15) Foi forçada “esquerdizando-a”. Mas esta simultaneidade na ação
de maneira nenhuma exclui uma sucessão lógica de dois fatos: é a
vontade do esquerdismo a que torna inevitável violar a significação.
(16) Desta maneira o Cristo se fez homem para salvar aos homens: ele
desce para que estes possam elevar-se.
(17) As duas palavras “deliberação” e “nível” derivam da mesma raiz
libr.
(18) R. Guénon aborda este assunto nos Principes du Calcul infinitési-
mal, P. 105, 108.
(19) Utilizamos o termo de condescendência no sentido, desgraçada-
mente em desuso, de uma espécie de benevolência para aqueles que
estão menos avançados no Caminho do Conhecimento. Curiosamente,
o [dicionário] Pequeno Robert, na mesma ordem de ideias, cita a “con-
descendência de um iniciado para com um profano”. E é também no
mesmo sentido de “compaixão” e de “compartilhar” como nós entende-
mos aqui a misericórdia.
(20) Se diz que o Maçom deve ser um homem “livre e de bons costu-
mes”, e vimos que sua autêntica liberação, que é uma elevação, não
poderia encontrar uma origem melhor que na utilização judiciosa do Ní-
vel. Seria então interessante operar uma aproximação lingüística entre
o termo “nível” e o de “liberdade”, que, pelo que parece, nunca se ten-
tou. O francês “niveau”, o inglês level e o francês antigo livel, que têm a
mesma significação, pertencem à mesma família lingüística que o latim
libra (= balança, peso de 12 onças) e o grego litra, com igual sentido.
Grandsaignes d’Hauterive não vai além das raízes libr- e litr- que de-
signam, segundo ele, um “objeto que serve para pesar”. Anteriormente
vimos como a pesagem exercida pela Balança e pelo Nível pode ser
tomada em relação com a liberdade da alma e também com sua Libe-
ração. Agora, as palavras francesas liberação e liberdade, o latim liber
e o grego eleutheros (= livre), Grandsaignes d’Hauterive os relaciona
com a raiz indo-europea leudh-, à qual dá por significação a “ideia de
elevar-se”. Não deixa de ser interessante observar que se a etimologia
renunciar aparentemente a relacionar entre si as ideias de nível, de
pesagem, de elevação e de liberdade, pelo contrário o simbolismo não
deixa de fazê-lo, como corresponde a sua missão unificadora.
(21) La crise du monde moderne, pág. 134 [final].
Tradução: Roger Avis
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 13
Maçonaria Operativa e Maçonaria Espe-
culativa
Na passagem da maçonaria operativa
para a maçonaria especulativa, muitos
dos detalhes da nobre arte da cantaria
foram deixados de lado em prol da adaptação
realizada. Os livres pensadores que adotaram
os ensinos maçónicos não estavam interessa-
dos na prática manual do canteiro, que era um
serviço pesado e, portanto, buscaram simplificar
no simbolismo.
Esta simplificação simbólica trouxe um re-
lativo “empobrecimento” no sentido do conheci-
mento da arte, onde diversos detalhes do traba-
lho nos canteiros, ao serem deixados de lado,
obscureceram facilitações teóricas no caminho
do auto-conhecimento.
Para se adentrar mais nestes aspectos,
e verificar sua real importância, devemos dizer
que a palavra “cantaria” vem, etimologicamen-
te, do latim “canthus”, que significa “aresta” (1).
Desta forma, o conceito de cantaria se refere ao
trabalho em pedras objetivando seu esquadreja-
mento, ou a sua formatação no sentido de servir
ao projeto construtivo. Na maçonaria especula-
tiva, simplificamos: “tornar a pedra bruta em pe-
dra cúbica”.
O que é do desconhecimento da maioria
dos maçons é o fato de que o conhecimento tra-
dicional sobre o trabalho operativo era transmi-
tido através de técnicas que sempre buscavam
um sentido efetivo de aperfeiçoamento não só
do trabalho, mas também do profissional, pois
se entendia que a perfeição daquele passava
pela perfeição deste, em todos os aspectos,
dentre eles o prático, o psíquico e o intelectual.
Quanto mais aperfeiçoado internamente, mais
Aspectos Simbólicos do Trabalho em
Cantaria
Ir. Roger Avis
Se o eterno não edificar a casa, em vão trabalham aqueles que a edificam.
Salmo 127:1
(Cântico das peregrinações de Salomão)
Aplicai-vos, pois, de todo o vosso coração e vossa alma a buscar o Senhor vosso
Deus. Construí o santuário do Senhor Deus, para trazer a arca da aliança do Senhor
e os utensílios sagrados de Deus ao templo que será edificado ao nome do Senhor.
1 Crônicas 22:19
O Eu é o mestre do eu. Cada um é o seu próprio mestre e refúgio, quem outro poderia
ser? O completo domínio de si mesmo é o único refúgio, difícil de alcançar.
Sidarta Gautama (Buda)
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 14
perfeita será a habilidade do obreiro e, conse-
quentemente, da obra.
Aqueles que estudam os textos antigos
percebem que a utilização metafórica do traba-
lho comum, analogicamente relacionado à es-
piritualidade, é algo constante nas civilizações
do passado - egípcia, caldaica ou medieval, ou
por aqueles que, nos sertões mais afastados
dos grandes centros urbanos, ainda empregam
aquelas técnicas artesanais tradicionais.
No Oriente, por exemplo, existia toda uma
explicação simbólica para a prática do ofício da
tecelagem, onde os fios paralelos, presos ao tear,
são os influxos espirituais manifestados através
das leis universais, enquanto que os fios hori-
zontais, adicionados ao serem tecidos, são as
atividades nos planos manifestados. Assim, sim-
bolicamente, nossas ações, quando levando em
conta os influxos espirituais do “Grande
Tecelão do Universo” (2), só poderão ser
realmente profícuas a partir do momento
em que com estas sejam harmônicas. A
falha de um ponto na tecelagem poderia
deitar fora todo o trabalho.
Da mesma forma, no ocidente, te-
mos exemplos de diversas profissões
-senão todas as que existiam na antigui-
dade ou idade média- que se utilizavam
desta espécie de simbolismo para ensi-
nar que, ao se trabalhar o material, tam-
bém se trabalhava em outros aspectos
do ser, e que era necessário ter atenção
para isto. A matéria-prima artesanalmen-
te trabalhada pelo obreiro era o espelho onde
ele poderia apreciar seu próprio caráter.
Outra coisa que é geralmente menospre-
zada pelos estudiosos é o fato da maçonaria
operativa ter em seu bojo aspectos filosóficos
profundos, e que a maçonaria especulativa so-
mente pôde frutificar em seus estudos porque
isto já era uma realidade à época de seu nasci-
mento. Alguns estudiosos, inclusive, desprezam
esta espécie de abordagem, entendendo que
apenas com a maçonaria especulativa é que se
obteve um aprofundamento no conhecimento,
tendo em vista o advento no seio daquela ordem
de pessoas letradas, pensamento com o qual,
respeitosamente, não nos alinhamos.
Essa espécie de perspectiva toma por base
um preconceito cultural, onde se estende o olhar
de nossa época para medir todas as épocas an-
teriores. E este preconceito, que não sabe en-
xergar seu próprio anacronismo, faz com que os
sábios de nosso tempo se limitem a uma forma
de pensar estreita, sem realmente aproveitar o
conhecimento oriundo da antiguidade. Mas, isto
já seria a matéria de um outro trabalho. Apenas
mencionamos para que o leitor possa levar em
conta, também, que se quisermos extrair a es-
sência de qualquer coisa, devemos conhecê-la
sem preconceitos, conforme é propalado pelos
mesmos ensinos maçônicos (3).
As ferramentas do Canteiro (4)
Como são desconhecidas pelos maçons
atuais muitas das ferramentas dos canteiros,
abaixo vão exemplos de algumas poucas ferra-
mentas modernas utilizadas atualmen-te no tra-
balho de cantaria artesanal, fabricadas pela em-
presa americana Trow  Holden Company (5):
Como se pode perceber, existe uma infini-
dade de ferramentas utilizadas no trabalho do
canteiro além daquelas mencionadas na maço-
naria especulativa. É óbvio que os processos de
formatação da pedra bruta atravessavam uma
série muito maior de detalhes, hoje desconhe-
cidos na maçonaria especulativa, que levavam
os mestres obreiros a situações reflexivas não
encontradas na especulação.
A figura do camartelo (ferramenta pareci-
da com um martelo pontiagudo, que é utilizada
para o primeiro trabalho, mais grosseiro, na pe-
dra bruta), por exemplo, utilizada no Rito Schrö-
der, provém da mais antiga tradição dos maçons
operativos, não absorvida pelos outros ritos em
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 15
geral. Numa miniatura do séc. XV, do artista fran-
cês Jean Fouquet, mostra-se a utilização desta
ferramenta para o desbaste da pedra bruta.
O “buril” (6), no caso do trabalho em pedra,
trata-se de uma espécie de cinzel pontiagudo
[conforme o Hou-aiss, “ferramenta de aço com
ponta oblíqua cortante (... ) para lavrar pedra”],
que vai dar um trato rústico na pedra, podendo
ser usada após o “camartelo”, ou já direta-mente
(dependendo do tipo da pedra). Também pode
ser utilizada para o início do acabamento no
caso de figuras escultóricas.
A abordagem que efetuamos neste título
serve apenas para demonstrar que os conheci-
mentos relativos ao trabalho maçónico operativo
tinham detalhes muito maiores do que os apre-
sentados atualmente, e que a riqueza destes de-
talhes poderia levar a aspectos desconhecidos
de um simbolismo mais claro e preciso, objeti-
vando, também, maior precisão no processo de
autoconhecimento e aperfeiçoamento.
Ativemo-nos em considerar apenas o tra-
balho em pedra porque era a perspectiva do tra-
balho dos canteiros, da qual a maçonaria surgiu.
Outras profissões tradicionais vão conter simila-
ridades com o que aqui foi descrito.
Relações analógicas entre a cantaria e o
trabalho interno
A Extração da pedra-bruta diretamente da
pedreira é muito similar à escolha efetuada do
profano apto a entrar na maçonaria. Afinal, a
sociedade profana muito se assemelha a uma
pedreira, onde a multidão sufoca o talento indivi-
dual, fazendo com que muitas vezes o indivíduo
não encontre seu caminho.
É necessário acrescentar que, seguindo
a tradição da maçonaria brasileira, os profanos
são escolhidos para integrarem a sublime or-
dem. Isto faz-nos considerar a maçonaria como
o artífice que visita a pedreira em busca do ma-
terial necessário para cumprir a sua obra, en-
tendendo, queremos deixar claro, a ordem como
um canal que veicula forças superiores a este
estado de manifestação.
Sobre este fato, podemos considerá-lo ain-
da de duas formas: de maneira macro-cósmica
ou microcósmica. No primeiro aspecto, o artífice
seria o GADU que escolheria os aptos a veicu-
larem seus desígnios na consubstanciação do
Templo Universal. Micro-cosmicamente, o pró-
prio iniciado, em seu trabalho meditativo, identi-
ficaria os aspectos de seu ser que deverão ser
pinçados de seu interior e trabalhados conforme
estes mesmos desígnios, para que a verdade
seja expressa.
O maçom deve aprender a reconhecer no
emaranhado informe de sua existência cotidiana
os aspectos sublimes de seu ser, e seu trabalho
é reconhecer quais deles deverá trabalhar du-
rante sua vida para melhor expressar sua des-
treza, ou sua sintonia com o Todo. A isto as pes-
soas costumam chamar, talvez impropriamente,
de “missão”. Na atualidade, o maçom pode ter
em sua frente uma quantidade enorme de pers-
pectivas onde expressar sua vida. Contudo,
somente aquelas que coadunam com seu cará-
ter é que lhe trarão a verdadeira realização. As
outras deverão ser desprezadas, porque quem
tudo quer, nada consegue.
Se o iniciado escolheu a matéria prima
correta onde trabalhar, ou seja, escolheu os as-
pectos de si mesmo que deverão receber sua
atenção de agora em diante, e que serão traba-
lhados com suas virtudes, seu trabalho não será
em vão. Contudo, se há falhas na matéria prima,
ou seja, se não escolheu corretamente o aspec-
to que deverá ser trabalhado, deverá retornar à
pedreira de si mesmo e, através de um estudo
mais aprofundado e orientado, encontrar o ma-
terial correto para seus objetivos (7).
Após um exame acurado, enxergam-se
as matérias primas interiores misturadas com
outros agregados psíquicos, frutos estes de di-
versas origens, principalmente dos preconceitos
e erros que nos habituamos a aceitar e conti-
nuamos a engendrar, seja da criação, seja da
influência da sociedade. A origem pode ser gros-
seira (agressões, vícios, luxúria, etc.) ou mais
imperceptível (costumes, sofismas, paradigmas,
etc.).
Logo após de escolhida a matéria prima,
o maçom deverá fazer um desbaste acentua-
do, onde as maiores imperfeições são retiradas.
Podemos, simplificando, encontrar três pontos
a serem trabalhados em primeiro lugar: físico,
psíquico e mental. É claro que não existem fron-
teiras estanques entre eles, e que os aspectos a
serem trabalhados podem conter características
de todos estes: um pouco mais de um, um pou-
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 16
co menos de outro.
Por exemplo, a glutonaria: existe a ne-
cessidade de se encontrar a raiz psicológica que
induziu o indivíduo a tal situação para extirpá-la
completamente; contudo, em determinados ca-
sos, se não houver uma modificação radical no
jeito de se alimentar talvez a base material onde
trabalhamos, que é o próprio corpo, pode deixar
de existir e o indivíduo simplesmente morrer, an-
tes de encontrar essa raiz psicológica e extirpá-la.
Logo a seguir, fazemos um pequeno esboço
destas considerações acima, trazendo, de ma-
neira superficial, algumas analogias necessárias
Cantaria Aspecto Físico Aspecto Psíquico Aspecto Mental (8)
Burilar (9)
Extirpação de hábitos ex-
tremamente danosos à
saúde: fumo e drogas.
Eliminação de sentimen-
tos extremamente gros-
seiros como ódio ou ira.
Considerar-se como um
receptor, estando pronto
ao aprendizado.
Dentear
Aperfeiçoamento dos há-
bitos tendo como meta
melhor saúde: alimenta-
ção.
Cultivo da paciência e da
conformação (10).
Estudar os ensinamen-
tos maçônicos, buscando
compreender e memori-
zar o relevante.
Cinzelar
Domínio de sua vida se-
xual.
Cultivo do amor fraternal.
Meditar sobre os ensina-
mentos e excluir o supér-
fluo.
Esmerilar
Domínio sobre a respira-
ção.
Cultivo do Amor incondi-
cional.
Compreender a verdadei-
ra natureza do Homem.
Polir
Domínio sobre todos as-
pectos fisiológicos.
Superação da individuali-
dade.
Libertação dos conceitos,
em busca da Suprema
Identidade.
dos trabalhos da cantaria com os trabalhos que
o maçom deve perpetrar em si mesmo para seu
crescimento e aperfeiçoamento:
Nos exemplos acima demonstrados na ta-
bela, devemos levar em conta que esta relação
não é finalista, apenas exemplificativa. Cada um
deve aprender a conhecer seu próprio caráter
e, através do estudo sincero e objetivo, levando
em conta os ensinos tradicionais, reconhecer a
graduação com que deve ser efetuado do tra-
balho interior. Cada um, dentro de suas carac-
terísticas próprias, deve saber encontrar quais
aspectos deverá trabalhar dentro de si mesmo.
O que devemos entender é que, dentro da
perspectiva maçônica, em todos os aspectos
está envolvido um caráter gradual de crescimen-
to (veja o simbolismo da escada), que deve ser
levado em conta a partir do momento em que se
decide trabalhar sobre si mesmo. Não se pas-
sa para o próximo degrau enquanto o anterior
não estiver trabalhado. Da mesma forma não se
cinzelará enquanto o denteamento não estiver
totalmente pronto.
Ao se transportar à perspectiva da maço-
naria especulativa o trabalho de cantaria, per-
cebe-se que houve uma grande simplificação,
tendo em vista que já não se tratavam mais de
operários da pedra, mas de livres pensadores,
que desconheciam a espécie de trabalho efetua-
do, ou não queriam se ater a este.
Contudo, dentro do conhecimento tradicio-
nal, os trabalhos operativos tinham o objetivo
meditativo, onde o artesão utilizava seu trabalho
com o sentido de se aperfeiçoar.
Como já foi descrito, havia no trabalho de
transformação da pedra bruta em cúbica uma
dedicação de dias, variando conforme a comple-
xidade do trabalho e da dureza do material, onde
uma falha poderia fazer perder todo o processo.
Por este motivo, havia a necessidade de se ter,
em primeiro lugar, paciência. Este trabalho de
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 17
Aspectos práticos de como trabalhar literalmente à pedra bruta
Em primeiro lugar, antes da existência da matéria prima para o trabalho do canteiro, há a necessidade da sua ex-
tração na pedreira. Neste momento, o artífice escolhe na fonte de qual lugar quererá extrair o material que deseja.
Deve levar em conta para que propósito se utilizará a pedra, pois a escolha do lugar da pedreira já influi na espécie
de matéria prima que se obterá.
Após a extração da fonte, ou seja, o nascimento da pedra-bruta em sua forma individual, traça-se todo um plano em
que são considerados os métodos de trabalho no sentido de buscar como resultado a adaptação da matéria-prima
ao lugar em que ela está destinada. Podemos chamar de aperfeiçoamento, neste caso, o caminho que se faz da
pedra bruta até chegar à pedra polida. Este trabalho, didaticamente, poderia ser classificado em cinco partes:
1)	 Punçoar ou burilar - neste momento, fazemos com que as grandes diferenças existentes sejam atingidas pelo
buril até que fiquem pequenas. Neste trabalho, conforme mostra a figura a seguir, deixam-se normalmente estrias
em diagonal;
2)	 Dentear - depois do burilamento, utilizamos o cinzel denteado para diminuir ainda mais as diferenças, buscando
eliminar as estrias do trabalho anterior, deixando as marcas dos dentes desta ferramenta. O cinzel denteado deve
ser utilizado de forma reta, no mesmo sentido das laterais da pedra utilizada. Utilizam-se para isto diversos cinzéis
denteados, dos de dentes maiores aos de dentes menores, até ser utilizado, finalmente, o cinzel sem dentes, mais
conhecido na maçonaria especulativa. Alguns chamam o cinzel denteado de buril, também;
3)	 Cinzelar - o cinzel, propriamente dito, conforme demonstrado na maçonaria, é utilizado neste momento. Neste
caso, começa um trabalho de alisamento da pedra, eliminando a maior parte das marcas anteriores;
4)	 Esmerilar - a pedra de esmeril é utilizada, suavizando o máximo possível as marcas do cinzel. Na maçonaria
operativa, observava-se um movimento manual contínuo e circular e, aos poucos, e adicionando constantemente
a água para eliminar obstruções (escorregar), a superfície ia ficando lisa;
5)	 Polir - para finalizar o serviço, e a superfície ficar totalmente lisa e espelhada, utilizam-se lixas de diversas gra-
naturas (de 150, 220, 300 e 600), gradualmente da mais grossa para a mais fina.
mos concluir que se tratam de processos em
que a força é fundamental, sendo caracterís-
tico da passagem de uma fase para a outra a
diminuição da força e o aumento da destreza.
Poderíamos identificar desta forma: a) Burilar -
mais força e menos destreza; b) Dentear - força
e destreza na mesma medida; c) Cinzelar - mais
destreza do que força.
Isso demonstra que os próprios proces-
sos de trabalho no caráter também apresentam
aspectos em que determinados pontos de vista
devem ser abordados. A princípio, a força é ex-
tremamente necessária para excluir os defeitos
mais evidentes. Dentro da maçonaria especula-
transformação está muito ligado, neste caso, à
paciência que temos ao abordar uma determi-
nada matéria-prima. Se vamos impetuosamente
sobre ela, podemos errar. Se utilizarmos força
minúscula, podemos demorar além do necessá-
rio.
Neste caso, as virtudes seguintes que se
ligavam ao processo de transformação eram o
equilíbrio e a firmeza. Podemos, assim, já neste
momento, encontrar similaridades entre o traba-
lho externo, na pedra, e o trabalho interno, no
caráter.
Sobre o burilar, dentear e cinzelar pode-
Figura adaptada do livro “The Complete Book of Self-Sufficiency”, de John Seymour.
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 18
tiva, os aprendizes sentam-se no lado norte, sob
a égide do Irmão 1.° Vigilante, que é o respon-
sável pela veiculação da força numa Loja. Este
fato é bastante característico, tendo em vista o
trabalho mais forte que se deve ter quanto aos
aprendizes, ainda eivados de profanidades.
No entanto, com a sequencia do trabalho,
já a experiência (que na maçonaria é o conheci-
mento teórico adquirido e praticado) aliada com
a destreza vem se tornando muito mais impor-
tante, chegando ao ponto de ser quase a única
determinante. A experiência, ou a perícia, são o
aprimoramento do conhecimento do artífice em
sua própria arte. O maçom, no hábito de traba-
lhar sobre si mesmo, encontra a própria arte que
o conduz ao aperfeiçoamento cada vez mais re-
finado.
Quando falamos nos trabalhos que efe-
tuamos sobre o nosso próprio caráter, sobre o
cinzel e o malho, temos que levar em considera-
ção, também, os ensinamentos que a maçonaria
especulativa transmite aos obreiros. Abordá-los,
neste momento, é necessário no sentido de nos
conduzirmos a um aprofundamento ainda maior
sobre este trabalho.
Lavagnini diz o seguinte:
(... ) o malho e o cinzel, como instrumentos
propriamente ati-vos, representam exatamente os
esforços que, por meio da Vontade e da Inteligência,
temos de fazer para nos aproximarmos da realização
efetiva desses Ideais, que representam e expressam
a perfeição latente de nosso Ser Espiritual. O
malho, que utiliza a força da gravidade de nossa
natureza subconsciente, de nossos instintos, hábitos
e tendências, é pois, representativo da Vontade, que
constitui a primeira condição de todo progresso e é
ao mesmo tempo o meio indispensável para realizá-
lo. (11)
Isto que Lavagnini diz é simplesmente
o básico a ser mencionado sobre os aspectos
da utilização do buril e dos cinzéis, juntamente
com o malho. Encontraremos em diversos auto-
res poucas variações, nada substanciais. Todos
eles funcionam simbolicamente da mesma for-
ma (seja o buril ou os cinzéis), tendo, contudo,
cada um, suas características próprias, já men-
cionadas.
O que geralmente não se fala é quem, ou
o que, é o responsável pela movimentação des-
sas ferramentas supra mencionadas. Guénon
nos fala da Divina Personalidade, que é quem
Pedreiros trabalhando (miniatura do séc. XIII)
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 19
fala atrás da máscara - a persona, que é a nossa
individualidade.
É esta Divina Personalidade a verdadei-
ra responsável pelo manejo dos instrumentos.
E no caso do trabalho operativo sobre o nosso
próprio caráter, a matéria prima, que somos nós
mesmos, é a desculpa (grosso modo) necessá-
ria para que esta essência real de nosso ser se
manifeste. E este é o verdadeiro trabalho do ini-
ciado: não é olhar os instrumentos vibrando na
frente de seus olhos, mas perceber quem olha.
Não é se prender à vontade e à inteligência, mas
suprimir esta atenção aos instrumentos, e voltá-
-la ao verdadeiro artífice interno (12).
Falar mais sobre o simbolismo dos cinzéis
e do malho seria supérfluo neste momento. Di-
versos manuais sobre o assunto já discorreram
o suficiente para que necessitemos continuar
aqui. Somente queremos alertar que o simbo-
lismo deve ser visto no coração, e presenciado
também no coração para que seja realmente
efetivo.
Quanto ao esmerilar e polir, que são traba-
lhos onde a força já não é tão importante, mas
principalmente a destreza, carregam consigo
um aspecto fundamental: o movimento circular.
Ao movimentar a mão com o esmeril, ou com
a lixa, o obreiro segue compassadamente uma
ordem, onde toda a superfície é atingida para se
chegar ao obje-tivo.
Sabemos que o círculo é o símbolo do infi-
nito e da perfeição. A circularidade do movimen-
to da lixa na face quadrada do cubo nos parece
carregado de reminiscência no tocante à qua-
dratura do círculo. O círculo vem aperfeiçoando
a face quadrada da pedra cúbica.
A utilização da água é revestida, também,
de seu caráter simbólico. A água, sendo utiliza-
da como é, torna-se o veículo para a perfeição.
E dentro do simbolismo esotérico encontramos
na alma a referência da água. A água, batizando
a pedra, torna-a capaz de receber a perfeição
do artífice, bem como de chegar à realização
do trabalho. Somente através da alma o espírito
pode realizar a obra.
O obreiro, neste ponto do trabalho, ao
passar a mão pela superfície completa da pe-
dra, deve demonstrar a sensibilidade necessária
para compreender que já extraiu da pedra bruta
a pedra cúbica.
Conclusão: Iniciações nos mistérios
menores e maiores
Especificamente quanto ao trabalho de cantaria,
da formatação da pedra, ele se relaciona ao que
os gregos antigos chamavam de “mistérios me-
nores”. A iniciação nos mistérios menores bus-
cava com que o homem expressasse o máximo
de sua perfeição enquanto homem. Na maço-
naria simbólica atual, estas considerações esta-
riam demonstradas principalmente nos graus de
companheiro e aprendiz.
As iniciações nos mistérios maiores busca-
vam com que o homem superasse sua condição
individual e se unisse à divindade. Enquanto as
iniciações dos mistérios menores apontavam o
caminho à perfeição humana, as dos mistérios
maiores apontavam para uma perfeição divina,
a do homem transcendente.
Seria, neste caso, a segunda morte, apre-
sentada na maçonaria no magistério maçônico.
A iniciação nos mistérios maiores estaria
simbolicamente relacionada mais diretamente
ao ofício da arquitetura e da efetiva construção,
o que pode ser tema de outro trabalho.
Este trabalho apenas pincelou algumas
considerações superficiais sobre o ofício de can-
teiro, que poderão ser aprofundadas na no estu-
do, pesquisa e meditação de cada obreiro. Cum-
pre destacar que o ensinamento maçônico tem
sido habitualmente utilizado em limites aquém
de seus objetivos, e cabe a nós, maçons, co-
maçons operativos
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 20
meçar a mudar esses limites e parâmetros esta-
belecidos, sob pena de contribuirmos cada vez
mais para o desaparecimento virtual e, após,
efetivo de nossa Augusta Ordem.
Assim, os estudos elaborados na atuali-
dade devem procurar resgatar, conforme bus-
camos fazer aqui, os fundamentos do ensino,
estabelecendo e renovando as conexões com a
origem prístina do legado maçónico.
E também, com este mesmo objetivo,
àqueles capazes de uma obra mais abrangente
e hercúlea, recriar as possibilidades iniciáticas
para as mulheres, tendo em vista que, no Oci-
dente tais sociedades desapareceram, ou delas
não se tem mais notícia. Mas para isso, tanto
para o reavivamento do conhecimento maçóni-
co, tanto para possibilitar uma iniciação femini-
na, de acordo com as características próprias
das mulheres (13), é necessário o mergulho na
matéria prima iniciática do ocidente, e buscar
trazer à tona aquilo que se ocultou em nossa
época.
Notas
(1) Desde a origem, podemos perceber que a tônica dos trabalhos efe-
tuados pelos maçons operativos sempre foi no sentido de “tirar as ares-
tas”, e encontrar a pedra lavrada que já habita o interior da pedra bruta.
(2) Usamos este nome para a divindade dos tecelões apenas para fa-
zer um paralelo entre este e o GADU. Este termo é fictício. Contudo, o
simbolismo da tecelagem existiu na antiguidade e, até, na idade média.
É bem significativo notar sobre isso a informação de Guénon: “(...) os
livros tradicionais são freqüentemente designados por termos que, em
seu sentido geral, referem-se à tecelagem. Assim, em sânscrito, sûtra
significa propriamente “fio”: um livro pode ser formado por um conjun-
to de sûtras, como um tecido é formado por um conjunto de fios; tan-
tra possui também o significado de “fio” e de “tecido”, e designa mais
particularmente o urdume de um tecido. Da mesma forma, em chinês,
king é o urdume de um pano, e wei sua trama; o primeiro destes dois
termos designa ao mesmo tempo um livro fundamental, e o segundo
seus comentários. Esta distinção entre urdume e trama no conjunto das
escrituras tradicionais corresponde, segundo a terminologia hindu, à que
existe entre a Shruti, que é o fruto da inspiração direta, e a Smriti, que é
o produto da reflexão que se exerce sobre os dados da Shruti .” (René
Guénon, O Simbolismo do Tecido – XIV capítulo do livro “O Simbolismo
da Cruz”).
(3) Algo que é deve ser levado em consideração para meditarmos sobre
este assunto posteriormente, é a apreciação de uma catedral gótica, que
é uma verdadeira enciclopédia de conhecimento, onde o coração huma-
no se expressou de formas sublimes. Cremos que ignorantes de mente
estreita seriam incapazes de dar cabo de tal tarefa. E somente um ideal
refinado poderia impulsionar pessoas a participarem da construção de
um edifício como este durante séculos a fio, sem preocupações imedia-
tistas, tão características de nossa época.
(4) Os maçons operativos reuniam toda uma série de procedimentos,
que não se atinham apenas ao trabalho de cantaria, tais como a arquite-
tura e a carpintaria. No entanto, todos os aspectos abordados mais abai-
xo também poderão ser aplicados analogicamente à carpintaria. Quanto
à arquitetura propriamente dita, faremos algumas considerações mais
ao final do trabalho.
(5) Citamos a empresa por termos utilizado de figura existente em sua
página eletrônica.
(6) Outras ferramentas são chamadas “buril”, utilizáveis em outros mate-
riais (madeira e metal, por exemplo) e com funções diversas. Contudo,
em se tratando da maçonaria, o buril que deve ser levado em conta é o
mencionado. É claro que, com a decadência dos trabalhos em pedra, o
buril para gravação em metal ficou mais conhecido.
(7) Podemos exemplificar esta situação da seguinte forma: alguns têm
uma inclinação para determinado tipo de comportamento mais carac-
terístico que seria, para ilustrar, o orgulho. Se ele não buscar trabalhar
sobre este aspecto psicológico negativo de imediato, e não procurar su-
blimá-lo e, em vez disso, escolher um outro, tal como a inveja, que não
seria tão importante em seu caráter, pode acontecer de não conseguir
se livrar nem de um, nem da outra. Por isso, a escolha sobre o que deve
se trabalhar deve ser tomada criteriosamente, levando sempre em conta
as virtudes e os defeitos que se têm. Virtus = força.
(8) Estes aspectos podem ser estudados dentro da mesma perspectiva
do Yoga: Hatha, Karma e Jnana.
(9) O burilamento é a extração das diferenças mais grosseiras, que tor-
nariam o maçom incapaz de aproveitar os ensinamentos a ele dirigidos.
O burilado não busca a eliminação imediata das imperfeições,
mas sim a formatação destas de uma forma que não impeçam o apren-
dizado.
(10) Os primeiros resultados ainda não são o objetivo buscado, que se
realiza com o tempo. Por isso a necessidade de paciência (a famosa
tolerância maçônica) consigo mesmo e com os outros.
(11) Manual do Aprendiz Maçom – Aldo Lavagnini
(12) Os Upanixades oferecem um texto interessante, mostrando a im-
portância deste aspecto simbólico, que muitas vezes é desconsiderado
na maçonaria:
“Tendo compreendido que os sentidos são distintos da alma, e que sua
ascensão e declive a eles pertence, o sábio deixa de sofrer. (...)Além
dos sentidos está a mente, além da mente está o Ser supremo, além do
Ser supremo está o Grande Ser, além do Grande, o Oculto. (...)Além do
Oculto está a Personalidade, o onipresente, completamente imperceptí-
vel. As criaturas que lhe conhecem são liberadas e obtêm a imortalidade.
(...) Sua forma não pode ser vista, pois ninguém pode lhe contemplar
com os olhos. Só pode ser conhecido com o coração, que se acha além
da sabedoria e a mente. Só aqueles que sabem isto são imortais. (...)
Quando todos os sentidos e a mente são submetidos, o sábio alcança o
estado supremo. (Kata Upanishad, Segundo Adhyaya, Sexto Valli)
(13) Segundo nosso entendimento, é necessário possibilidades de or-
dem iniciática para as mulheres, devidamente embasadas na tradição.
Tais possibilidades se estendem apenas no Oriente, enquanto que no
Ocidente estão adormecidas, até o momento de serem reavivadas. En-
tendemos que a maçonaria não seria o lugar deste processo pelas pró-
prias características da ordem. Em se conhecendo os fundamentos da
ordem, fica bem claro que seus ensinamentos não serviriam para uma
espécie de iniciação feminina. Tratar desiguais de forma igual é um dos
absurdos que grassa em nossa época.
Existem, dessa forma, ofícios femininos que poderiam servir de base a
toda uma simbólica de uma organização iniciática. O cuidado que uma
organização iniciática pré-existente, tal como a maçonaria, deveria ter é
o de proporcionar uma adaptação simbólica monumental, sem escorre-
gar para o campo da fantasia. Trabalho muito árduo.
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 21
N
a Grande Loja dos Maçons Antigos Livres
e Aceitos (que é uma das mais importan-
tes compo­nentes da Potência Maçônica
denominada Grandes Lojas Unidas da Alema-
nha) estão em uso dois rituais oficiais e o uso
de mais dois é permitido. A maioria das Lojas tra-
balha no Rito Schröder na versão realizada em
1960.
A Grande Loja também publicou um ritual
da Arte Real baseado na tradição Francesa, com
ambos os vigilantes colocados no Oeste e com
a Acácia figurando no grau de Mestre. As Lojas
que pertenciam a hoje extinta Grande Loja Royal
York foram autorizadas a trabalhar com seus an-
tigos rituais baseados no texto reformado por
Fessler. Algumas Lojas da igualmente extinta
Grande Loja “Zur Sonne” (“Ao Sol”) continuam
trabalhando pelos seus velhos rituais. Como na
Inglaterra, não há nenhuma diferença fundamen-
ORIGEM E FONTES DO RITUAL SCHRÖDER
Hans Heinrich Solf
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 22
tal entre estes trabalhos, porquanto todos eles
derivam de Prichard’s “Masonry Dissected” (Ma-
çonaria Dissecada, de Prichard) ou do “Three
Distinct Knocks” (Três Batidas Diferentes) tendo
sido introduzidos certos elementos de algu­mas
exposições e ainda adicionados embelezamen-
tos de origem Francesa.
Capa do “Masonry Dissected”, de
Samuel Pritchard (1831)
A cerimônia “Passing the Chair” (Passan-
do pela Cadeira) nunca foi introduzida e nem
o “Real Arco” tem-lhe dado apoio. A Grande
Loja Nacional dos Maçons da Alemanha (outra
componen­te das Grandes Lojas Unidas da Ale-
manha) ainda trabalha pelo sistema Sueco, que
consiste de 10 (dez) graus com um fundo pro-
nunciadamente Cristão.
O Rito York Americano, trabalhado prin-
cipalmente pelas Lojas Militares (Nas Grandes
Lojas Unidas da Alemanha existem ainda uma
Grande Loja Américo-Canadense e uma Grande
Loja dos Maçons Ingleses, cujos componentes
em quase sua totalidade são membros das tro-
pas militares estacionadas na Alemanha) intro-
duziu na Alemanha os graus Crypticos e Tem-
plários. O Supremo Conselho do 33º
para a Ale-
manha trabalha pelo Rito Antigo e Aceito, usual-
mente conhecido como Rito Escocês, parecido
com o Rito Escocês Retificado na França, que
está se tornando popular de novo.
O que inspirou o Irmão em dar um novo Ri-
tual a Maçonaria Germânica e como ele atacou
esta tarefa que impôs a si mesmo? Estas são
as questões que serão agora investigadas. Pri-
meiramente algumas palavras sobre o homem,
Schröder. Ele foi como seus pais, um ator pro-
dutor, que naquele tempo significava que ele
era proprietário de teatro em Hamburgo. Ele co-
nhecia muito bem na Europa as regiões onde
dominava a língua alemã e nunca esteve na In-
glaterra, França ou Itália. Suas habilidades lin-
güísticas eram limitadas em­bora ele fosse capaz
de adaptar peças de teatro dos originais Fran-
ceses e Ingleses. Sem conhecer Latim e Grego,
ele adquiriu, entretanto um grande cabedal de
conhecimento pelo auto-estudo. Acima de tudo
se destacava nele o seu caráter forte e sincero.
O estado da Fran­co-Maçonaria na Alemanha no
tempo em que ele foi iniciado com a idade de 29
anos, era caótico. Seu proponente foi Johann J.
Christoph Bode, seu amigo, e sem escrutínio foi
aceito na Loja “Emanuel”. O Rito Estrita Obser-
vância era dominante naquela época e o caráter
da Fran­co-Maçonaria Inglesa, como original-
mente introduzida em Hamburgo, se tinha perdi-
do. As Lo­jas foram dominadas pelo misticismo,
alquimia, Rosa-Cruzes e Iluminados, sendo que
os últi­mos introduziram formas de cavalheirismo
e “Altos Graus” importados da França. Mesmo
os sóbrios e democráticos Irmãos de Hamburgo
não se abstiveram de desfilar como “Muito exce-
lente Cavaleiro Templário”.
Não é de estranhar que um homem sério
e despretensioso como Schröder fosse radical-
mente contrário a estas excentricidades. Ele es-
perava da Maçonaria, educação e verdadeira mo-
ralidade. Com o declínio do Rito Estrita Obser-
vância, depois da Convenção de Wilhelmsbad
em 1782, a hora de Schröder tinha chegado.
Segundo seus desejos os Irmãos de Hamburgo
decidiram:
l.º) Restaurar a verdadeira e antiga Maçonaria,
como nos foi trazida pelos nos­sos antepassados
e espalhada daqui por quase toda Alemanha, e
que existiu em Hamburgo até a reforma de 1765.
Esforçar-se zelosamente para elevar seus propó-
sitos a um nível mais alto e fazer com que cada
um dos seus ramos sejam mais úteis; isto deverá
ser alcançado, com amor pela pesquisa da Ver­
dade, seguindo com a máxima sinceridade os
ensinamentos da sagrada reli­gião Cristã e pondo
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 23
fielmente em prática seus deveres.
2º) Melhorar a harmonia entre os Irmãos, pro-
curando concentrar as quatro Lojas unidas em
duas, sendo uma Loja Alemã e outra Francesa, e
permitir a seus membros elegerem seus Mestres
no Festival de São João.
3º) Trabalhar nos três graus da Arte Real de acor-
do com o Antigo Ritual Esco­cês dos nossos an-
tepassados, até que os Rituais organizados na
Convenção Geral nos sejam comunicados.
Para se ter uma idéia dos problemas que
envolviam uma tal decisão, aqui estão alguns
exem­plos das dificuldades com o Ritual que
existiu em Hamburgo e em outras partes. Estes
eram tirados na sua maior parte da primeira
edição do livro “Materialien zur Geschichte
der Freimaurerei” (Matéria para a História da
Franco-Maçonaria), um tratado composto do
1.400 páginas. Este trabalho é ainda uma mina
de informações para o historiador principalmen-
te por causa dos documentos mencionados e
cujos originais agora não são mais acessíveis.
Schröder relata, por exemplo, sobre uma
Loja da cidade de Dresden que se compunha
de membros da alta aristocracia, mas, entre os
oficiais da Loja havia um “Cozinheiro-Chefe” e
um “Porta Caneco” e em 1743 bebidas eram ser-
vidas enquanto a Loja estava aberta. Em 1744
dois Diáconos foram nomeados pela primeira
vez na Loja “Absalom” em Hamburgo, presumi-
velmente por causa das exposições que haviam
aparecido na Inglaterra e na França. Naquela
época era ainda costume pagar ao Secretário
um salário especial pelos seus discursos, que
apareciam depois impressos. O oficio de Orador
veio para a Alemanha da França. Naquele tem-
po, o pri­meiro e o segundo grau não eram mais
conferidos juntos em Hamburgo, por causa dos
regula­mentos que requeriam um período entre
eles de nove meses. O compromisso de Apren-
diz incluía a seguinte exigência: “Que ele devia
amar seus Irmãos e ainda promover seus melho-
res interesses por todos os modos”. Esta frase
podia muito bem ter sido idealizada pela própria
Loja e se acha no Ritual até hoje.
fac-símile de “L’Ordre
des Francs-Maçons Trahi”
(1745)
A publicação da exposição “L’ Ordre des
Franc Maçons Trahi” (1745) fez a Loja “Aos três
Glo­bos”, trabalhando num Ritual Francês, in-
troduzir uma mudança que não foi, entretanto,
mantida por muito tempo: a palavra “Tecton” e o
sinal de “Harpócrates” (dedo indicador sobre os
lábios) deveriam ser usados como uma palavra
e sinal adicional.
Havia uma completa incerteza acerca da
colocação da venda nos olhos. O candidato
geral­mente era trazido para o interior da Loja
com os seus olhos não vendados; o procedi-
mento correto aprenderam de Londres somente
em 1763. Além do mais, ninguém estava certo
se as espadas eram para ser usadas dentro da
Loja (na França elas eram consideradas como
um símbolo de igualdade) ou se “fogo” (ordem
para beber) deveria ser dado nos banquetes. O
processo de escrutínio também não era compre-
endido. Foi somente em l763 que a Grande Loja
Provincial de Hamburgo decidiu que cada Irmão
que colocasse uma bola preta na caixa do escru-
tínio, devia informar o Mestre dos motivos de as-
sim ter procedido no prazo de 3 (três) dias. Isto
é habitual na Alemanha até hoje, se até 3 (três)
bolas pretas aparecerem. Painéis da Loja dese-
nhados em oleados somente apareceram no fim
do século 18; em 1765 o Cobridor ou um Irmão
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 24
ou formato “quarto” por ser mais prático para o
Ritual e este está em uso ainda hoje. Ele achou
que era preferível ter um Ritual organizado pelos
principais Maçons do seu Tempo e aprovado pela
Grande Loja Provincial de Hamburgo e que deve-
riam estar disponíveis para as Lojas, em vez de
suas cerimônias serem baseadas em uma dúzia
de exposições.
Schröder fez uma observação ao pé da
página: “isto se refere ao Ritual usado antes de
1765”; isto é, antes da introdução da Estrita Ob-
servância. Entretanto como não havia então Ri-
tual escrito, tornava-se impossível relembrá-lo
depois de 17 anos. De qualquer maneira aque-
le Ritual não seria apropriado para o fim atual.
Os balaústres da Loja “Absalom” mostram que
o Ritual inglês não era acuradamente conheci-
do mesmo antes de 1763. Em 14 de março de
1764, uma iniciação e elevação na mesma noite
-como era então praticado na Inglaterra- tiveram
que ser adiadas por causa da ausência do Irmão
Bode, que era o único capaz de dar uma expla-
nação do Painel da Loja. Esta era a situação,
quando Schröder começou sua tarefa. É impor-
tante mencionar que o trabalho em certas Lojas,
era ainda em língua Francesa.
Mas havia mais um obstáculo no caminho
de um começo decidido e enérgico: o Grão-Mes-
tre von Exter. Embora ainda mantivesse uma
nomeação Inglesa como Grão-Mestre Provincial
para a Baixa Saxônia e Hamburgo, ele estava
profundamente envolvido com a Ordem Rosa-
Cruz e os graus cavalheirescos e também in-
fluenciado com idéias místicas, desde a intro-
dução do Rito da Estrita Observância em 1765.
A Grande Loja Provincial de Hamburgo há
muito havia negligenciado suas obrigações para
com a Grande Loja Mãe em Londres. Finalmente
o então Grande Secretário, Irmão Heseltine, em
uma carta de 30 de maio de 1773 (UGL MS.26/
B/B/1) pediu a devolução da Carta Constitutiva
ao Grão-Mestre Provincial. Não tendo recebido
resposta dentro de poucos meses, o Irmão He-
seltine enviou uma cópia de sua primeira carta
acrescentando que a Carta Constitutiva de­veria
se entregue ao Irmão Sudthausen que por aca-
so se achava em Hamburgo. A Grande Loja Pro-
vincial de Hamburgo reagiu com diversas cartas
iradas, mas, mesmo assim não enviou relatórios,
nem saldou as devidas contribuições.
servente ainda tinha
de fazer o desenho com giz
no chão. Um Diretor de Ce-
rimônias foi pela primeira
vez nomeado em 1774,
embora na Alemanha
e na França o seu ti-
tulo era de “Mestre
de Cerimônias”.
Mais ou menos
nesta época os
Diáconos foram
r e n o m e a d o s
de “Stewards”
(mordomos).
É bem co-
nhecido pelos ba-
laústres de uma pe-
quena Loja no Castelo
Kniphausen na Frísia
Oriental, que um soldado
da guarda do Conde foi
empregado como Co-
bridor e pago pelos
membros da
Loja. O traba-
lho desta Loja
era baseado
no de Prichard
embora o Ta-
pete (Painel)
tenha sido co-
piado de um de-
senho do livro “L’
Ordre des Fran-
c-Maçons Trahi”. É
também co­nhecido pe-
las muitas averiguações
emanando de todas as partes
da Alemanha, que as Lojas de
Hamburgo e a Loja Provincial
Inglesa, eram consideradas au-
toridades em todos os assun­tos
ritualísticos. Esta foi provavel-
mente a razão porque Schröder ti-
nha seu Ritual impresso clara-
mente sem abreviação ou
código. Ele sabia que isto
não estava de acordo com
a pratica Inglesa. Ele tam-
bém selecionou o tamanho
Busto de Johann Joachim
Christian Bode (Düsseldorf,
Goethe-Museum)
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 25
Uma vez que Schröder tomou as rédeas
em suas mãos esta situação mudou imediata-
mente. De agosto de 1786 em diante, a Grande
Loja Provincial de Hamburgo enviou regularmen-
te os balaústres de suas reuniões para Londres.
A intervenção do Irmão von Gräfe certamente ti-
nha sido de grande ajuda nesta mudança. (UGL
Ms.26/B/B/7-27). Ele tinha ditado o Ritual Inglês
para o Grande Secretário Provincial, Irmão Be-
ckmann. Em seu comentário, Schröder, faz a se-
guinte anotação:
....e assim temos agora um antigo Ritual comu-
nicado para nós, exceto por algumas alterações
introduzidas pelo tempo e o desejo de melhorar.
De acor­do com este texto, o 2ª Vigilante tem seu
lugar no Sul; não havia nenhuma Estrela Fla-
mígera e nem mais espadas dentro da Loja. O
Diretor Regional von Exter, pois ele ainda deti-
nha este cargo na Estrita Observância, não tra-
balharia sem as duas Colunas (Vigilantes) no
Ocidente, sem a Estrela Flamígera, sem o monte
de terra e o galho de Acácia, sem as alusões e
promessas de uma Luz Superior e sem os vinte
e mais itens muito preciosos para ele. Assim veio
a Luz um Ritual até mesmo mais místico e mais
pomposo do que esse da Estrita Observância.
Estas observações contêm uma importan-
te indicação. O texto Gräfe não era bem o mes-
mo que o bem conhecido texto do Prichard, que
havia sido publicado em uma edição Alemã em
1736, e que foi largamente utilizado pelas Lojas
Alemãs e na França com a versão Francesa. O
Irmão N. B. Spencer já apontou isto no volume
Ars Quatuor Coronatorum n.º
74: “O apareci-
mento regular de traduções de uma ou de ou-
tras exposições bem conhecidas em Alemão ou
Francês, encadernadas, com quase todas as có-
pias dos livros Alemães da Constituição do Sé-
culo 18, sugere de uma maneira taxativa, que os
Alemães estavam usando-os como guia para as
suas cerimônias, assim como nós usamos um
moderno Ritual ou Monitor”.
Schröder escreveu para seu amigo Meyer:
“Eu estou surpreso que você não achou nenhu-
ma Loja em Londres na qual o 2º Vigilante senta-
se no Sul ou a tal conhecida Loja dos Antigos.
Durante este ano já tivemos quatro Irmãos de
tais Lojas como visitantes.”
Na verdade os Vigilantes estavam coloca-
dos no Noroeste e Sudoeste respectivamente
nos trabalhos da maior parte dos Rituais Con-
tinentais derivados de Prichard ou das versões
Fran­cesas baseado no “Masonry Dissected”.
Quando Schröder tornou-se membro da comis-
são para elaborar uma nova Constituição, ele
devotou-se a esta tarefa de maneira metódica e
diligentemente e com uma considerável despe-
sa pessoal. Assim ele imprimiu as suas próprias
custas numa tipografia secreta em Rudolstadt,
todos os Rituais disponíveis para ele, bem como
uma História da Maçonaria em quatro volumes
e uma exata análise da Constituição Inglesa.
Este empreendimento é algo fora do comum na
História da Franco-Maçonaria e, lançar-se um
pouco de luz sobre isto somente poderá ser de
proveito.
Modelo de Tapete utilizado no Rito Schröder
Schröder via a necessidade de abraçar a
pesquisa maçônica dentro da obrigação de um
segre­do contido nos Rituais. Investigando entre
os seus “Irmãos de confiança” verificou que a
Loja Amália, em Weimar, (Goethe e Herder eram
ambos membros dela) podia ajudar. Um dos
seus membros era o Irmão Wesselhöft que mo-
rava em Jena e que tinha o seu negócio de Im-
pressão e Publicações em Rudolstadt, cidades
estas próximas a Weimar. O Irmão Wesselhöft
fez o juramento, como também todos os mem-
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 26
bros de suas empresa, para manter o sigilo; sen-
do que alguns deles foram simplesmente convi-
dados a se unirem a Loja de Rudolstadt. O Irmão
Conta, que era alto oficial da Policia Alemã, foi
nomeado para exercer a função de supervisor e
censor. As detalhadas instruções anotadas pelo
Mestre da Loja, provas que Schröder forneceu o
ne­cessário material e capital de trabalho, ainda
existem. Este estabelecimento começou a tra-
balhar na ultima década do século 18 e parece
ter encerrado suas atividades depois da morte
de Schröder. Uma de suas publicações foi a co-
leção de Rituais em 21 volumes, dos quais, a úni-
ca cópia conhecida nos dias atuais, encontra-se
na Biblioteca da Grande Loja Nacional da Dina­
marca. Este trabalho, cerca de trinta Rituais dos
então conhecidos e dos “Altos Graus”, incluin­do
um texto do “Three Distinct Knocks”, que é sem
dúvida considerado como o “mais velho e genu-
íno Ritual Inglês”, sem entretanto mencionar sua
origem. O texto de Prichard é identificado e a ra-
zão para o anonimato do “Three Distinct Knocks”
pode se achar na correspondência de Schröder
com Meyer, onde escreve:
Pelo amor de Deus, “Three Distinct Knocks” (Ja-
chim e Boaz é só uma reimpressão da anterior)
não deve se tornar conhecido porque o nosso
ritual está baseado nele. Portanto eu removi es-
tes dois livros do catálogo de nossa biblioteca.
É muito raro na Alemanha e provavelmente na
Inglaterra também.
Mas seu amigo sabia melhor; “Jachim e
Boaz” é sempre reimpresso sem alteração, ele
tinha uma edição de 1800. No prefacio da edição
de 1815 do seu livro “Materialien zur Geschich-
te der Freimaurerei” (Materiais para a História da
Franco-Maçonaria), Schröder aponta que “Three
Distinct Knocks” é o ritual que é trabalhado até
hoje em dia por todas as velhas Lojas Inglesas
na Grã Bretanha, Ásia, África e América. Acer-
ca de Prichard ele diz que este foi o primeiro
desvio do mais velho, isto é do “Three Distinct
Knocks”, mas que tinha sido usado pela maio-
Frontispícios dos Livros “Three Distinct Knocks” e “Jachin and Boaz” (1865). Os dois livros foram duas
exposições muito famosas da maçonaria à época.
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 27
ria das Lojas Alemãs. Os Rituais Franceses, a
maioria deles baseados em Prichard, foram as
fontes dos Rituais de Zinnendorf e Sueco, cujos
sistemas haviam aceitado os “Altos Graus” da
França, também eram conhecidos por Schröder.
Os “Altos Graus” reproduzidos nesta coleção,
não são de nenhum interesse aqui, mas deve-se
dizer que o trabalho total é até hoje uma rara fon-
te de pesquisa ritualística. Como este trabalho
foi destinado somente aos membros do “Cir­culo
Interno”, a edição não podia consistir de mais
de cem cópias e por isto é que se trata de uma
Obra rara e que não foi totalmente registrada
por Taute e Wolfstieg que produziram uma Bi-
bliografia Maçônica. Assim há muita razão em
ser grato a Grande Loja Nacional da Dinamar­
ca por ter liberado sua cópia para fazer-se uma
reprodução fotográfica em 1976, que foi limita­
da a uma edição de trezentas cópias e não está
disponível comercialmente. Com isto chega­mos
a uma certa conclusão: quando o trabalho come-
çou em Hamburgo em 1790 para um novo Ritual,
a Grande Loja Provincial subordinada a Primeira
Grande Loja da Inglaterra, não possuía em Ri-
tual escrito em Inglês com um texto autêntico.
Schröder estava absolutamente convenci­do de
que “Three Distinct Knocks” não era apenas ge-
nuíno, mas era efetivamente o mais velho Ritual
existente. Como podemos ver, ele baseou todo
o seu trabalho sobre este texto, tanto quanto diz
respeito a estrutura ritualística. Nas instruções do
Grau de Aprendiz datado de 1801 Schröder diz:
Não pretendemos absolutamente proteger todas
as partes do velho catecis­mo. Embora estejamos
inclinados a preferi-lo - no todo – a qualquer coi-
sa nova, entretanto reconhecemos que o que foi
dito em uma Fraternidade Inglesa, que consistia
principalmente de artesões, não pode ser inteira-
mente adequado para maçons educados de ou-
tro país. Portanto corrigimos ou omitimos o que
está fora do espírito ou circunstâncias do nosso
tempo.
Ele sentia profundamente que princípios
éticos e morais eram a essência da Maçonaria e
ele os formulava com grande cuidado e em cola-
boração com os mais educados Maçons do seu
tem­po. Isto dá ao seu Ritual um caráter particular
próprio, expressando as tendências espirituais
da Alemanha por volta do século 18. A tendência
para a Maçonaria Cavalheiresca ou Templária,
com um forte conteúdo Cristão e até mesmo Ca-
tólico Romano, tinha desaparecido. Fortaleceu­-
-se a tendência de que, moral elevada e princí-
pios éticos, deveriam ser as essenciais caracte­
rísticas da Arte Real.
Ignaz Aurelius Feßler (1756-1839)
Schröder, bem conhecido e respeitado
como era, tanto profissionalmente como Diretor
de um teatro de alta reputação e, também como
Maçom, estava em contato com Irmãos proemi-
nentes e os familiarizava com os seus planos.
Sua correspondência com seus “Muitos confian-
tes Ir­mãos” por todo o norte da Alemanha. era
parcialmente escrita em um código que foi tirado
da Estrita Observância e usado com sua própria
frase chave, a qual foi descoberta recentemen-
te. Os princípios básicos seguidos pelos dois re-
formadores da Arte Real na Alemanha, por uma
iniciativa paralela, foram lançados por Fessler
em Berlim e sua linha de ação será menciona-
da mais tarde - pode melhor ser compreendida
estudando-se a introdução do “COMPACT” da
Grande Associação Maçônica de 1801 entre a
Grande Loja Provincial de Hamburgo e a Grande
Loja Royal York de Berlim a qual Fessler perten-
cia. Embora este texto tenha sido traçado por
Fessler e não por Schröder, o conteúdo reflete
fielmente as idéias do último:
1º) Franco-Maçonaria e fraternidade maçônica,
são dois conceitos bem dife­rentes, como as pa-
lavras “ciência e escola”, “religião e igreja”. Isto
nos leva para:
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 28
2º) Franco-Maçonaria, independente de tempo
e condições locais, (ouvimos a voz de Lessing)
sempre una e a mesma, é sempre aquilo que en-
volve e coloca firmemente o homem interno entre
o esquadro e o compasso, seu modo de pensar
e agir e que fixa a posição moral do homem na
Sociedade, embora a Franco-Maçonaria possa
ocasionalmente ter-se desenvolvido em direções
di­ferentes.
3º) As Grandes Lojas Provinciais Unidas não
reconhecem na Fraternidade Maçônica o tal
chamado propósito ou desígnio secreto que se
diz possuir e além dos três graus de São João.
Para elas o objetivo da Fraternidade Maçônica
é o mesmo: prática, manutenção e crescimento
comum da Arte; tudo isto visto pela luz de sua
pura tendência moral. Isto os mais esclarecidos
Irmãos tem em todos os tempos reconhecido.
4º) Como não mais se pode deixar aos caprichos
de Maçons isolados ou Lojas em particular, a
decisão e definição da natureza e tendência da
Maçonaria, as Grandes Lojas Provinciais Unidas
estão convencidas de que o mais velho Ri­tual In-
glês dos três graus é o único em que podemos
confiar como fonte histó­rica e para compreensão
da natureza e evolução da franco-Maçonaria.
A razão da curta vivência da Grande Asso-
ciação Maçônica pode se achar na conturbada
situa­ção política existente naqueles dias na Ale-
manha, entretanto estes princípios ainda são vá-
lidos hoje em dia para a Maçonaria Antiga Livre
e Aceita na Alemanha.
Pode nesta conjuntura ser de interesse
mencionar uma opinião não favorável a Schrö-
der; é a de um Pastor Protestante ortodoxo e
ex-membro da Loja de Leipzig. De acordo com
Taute este ex-Irmão, Professor Lindner deixou a
Loja por causa de sua ambição não satisfeita e
publicou um trabalho no qual apresentava Maço-
naria e Religião num falso relacionamento ainda
que um pouco melhor do que fez o Reverendo
Walton Hannah em nosso dias. Assim o Profes-
sor e ex-Irmão Lindner escreve:
Eu tenho... impressão que o melhor do “Iluminati”
foi aceito em sua (de Schröder) forma de Maço-
naria, mas é ainda necessário mostrar-se que a
forma de Schröder não se enquadra na dominan-
te cultura do tempo atual, embora seja mais pro-
funda que outras. Ele nos mostra uma espécie
de ecletismo enfeitado com alguma filosofia de
Kant, mas não há realmente nada de original ou
genu­íno. Sua secretividade sobre assuntos pu-
blicamente conhecidos é bem desorientadora.
Tudo isto se pode chamar uma filosofia de rigo-
rismo moral, tendo nela disseminado algumas
demonstrações de caridade.
Mais tarde, Lindner arrependido retratou-se.
A insinuação sobre “Iluminati” se refere ao “Círculo
Interno” de Schröder que era para ser, não uma
outra “Ordem”, mas somente uma Loja de Instru-
ção Histórica.
Antes de iniciar a elaboração de novos Ritu-
ais a Franco-Maçonaria em Hamburgo tinha que
se organizar e isto não poderia se realizar sem
surgirem animosidades pessoais. Só em 1790 tor-
nou-se possível nomear uma pequena comissão
sobre a presidência de Schröder e com­posta de
representantes de todas as Lojas. Antes de tudo ele
viajou para consultar seus amigos nas Lojas sobre
jurisdição de Hamburgo, que haviam se espalhado
além de Hamburgo e até na Alta Saxônia.u inte-
resse particular era para consultar com o Irmão
Bode, que tinha se mudado de Hamburgo para
Weimar de forma a estabelecer contato mais fre-
qüente com o Ir­mão Herder, um alto Clérigo no Du-
cado de Weimar. Isto tornou-se somente possível
porque Schröder tinha abandonado a direção do
seu teatro em Hamburgo e agora estava vivendo
como fazendeiro em sua propriedade em Rellingen
perto de Hamburgo. Os próximos anos de sua vida
foram dedicados integralmente ao trabalho da refor-
ma que deixou uma forte marca na Arte Maçônica
da Alemanha até hoje.
Uma importante contribuição para o trabalho
de Schröder, veio de seu amigo de longos anos,
Professor Friedrich Ludwig Wilhelm Meyer (1759-
1840). Ele era um gentil-homem de vida inde­
pendente tendo muito viajado por toda Europa e In-
glaterra. Na Universidade de Göttingen ele foi tutor
dos Duques de Sussex, Cumberland e Cambridge.
Existem evidências de que seus talentos e habili-
dades lingüísticas foram usados muitas vezes pelo
Rei da Prússia e seus minis­tros, que o empregaram
como agente político secreto. Meyer era Franco-
Maçom e foi membro da Loja “Pilgrim” em Londres
de 1789 a 1791. Felizmente pode ser consulta-
da sua enorme correspondência, particularmente
com Schröder. Quando ele não estava viajando
vivia numa pequena cidade na então parte dina-
marquesa de Holsatia e só recentemente cerca
de 700 cartas foram descobertas nos arquivos do
Estado de Hamburgo. Destas, agora sabemos que
Meyer traduziu a maior parte dos textos Ingleses e
Franceses que seu amigo Schröder usou. Schrö-
der aceitava os argumentos e sugestões de Meyer
de bom grado.
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 29
Levaria muito tempo para examinar mais de
perto o relacionamento entre Schröder e o Irmão
Ignaz Aurelius Fessler (1756-1839). Fessler nasce-
ra na Hungria. Educado pelos Dominicanos ele tor-
nou-se professor de História e Línguas antigas, o
que lhe deu grande reputação. Em seguida a uma
crise pessoal e espiritual na meia idade, tornou-se
Franco-Maçom, converteu-­se ao protestantismo e
morreu velho como Chefe da Igreja Protestante
Russa. Durante sua estada em Berlim, empreen-
deu a Reforma dos Rituais da Grande Loja Royal
York de forma a restabelecer a pura Arte Maçônica
ou pelo menos separá-la dos “Altos Graus”. Neste
contexto deve ser lembrado que os sistemas então
existentes eram baseados nos sistemas hierárqui­
cos; as Lojas eram totalmente subservientes a um
corpo mais alto e não tinham autonomia, nem ao
menos para a eleição de seus oficiais. Fessler es-
tava muito bem informado sobre os diferentes sis-
temas, porquanto ele tinha, ao contrario de Schrö-
der, sido admitido à maioria dos “Altos Graus”.
Numa carta a um amigo ele declara que possuía
uma tradução do “Three Distinct Knocks” que ele
pensava que era o Ritual de velha Loja Ingle-
sa em York; esta confusão entre os Antigos e a
efêmera Grande Loja de York é freqüentemente
encontrada na Literatura Maçônica Alemã do pe-
ríodo de Fessler. Entretanto, ele não usou este
texto para os seus Rituais reforma­dos, mas ba-
seou seu trabalho parcialmente sobre o tal cha-
mado “Ritual de Praga”, verificando que sua ori-
gem vinha dos textos Franceses baseados em
Prichard. Como este Ritual desem­penhou um
importante papel na reforma da Arte Maçônica
Alemã, vale a pena considerá-lo rapidamente.
Seus integrantes eram membros de uma Loja de
Praga chamada “Zur Wahrheit und Einigkeit zu
den drei gekrönten Säulen” (A Verdade e União
das três Colunas coroadas) fundada ao redor
de 1784 da fusão de duas Lojas mais antigas
como o nome indica. Em 1794, a Loja publicou
um Livro contendo a Constituição e os Rituais da
Arte, um volume de mais de 400 páginas, que
não faz referência a Constituição Inglesa, mas
a concepção dela, da própria Loja. De início é
afirmado que a Loja é uma “República Democrá-
tica”. A conexão com eventos na França é óbvia
(1794), mas é surpreendente que este livro foi
impresso na Áustria Imperial e não na França. O
Ritual introduzido em 1788 está baseado no sis-
tema Zinnendorf (Sueco), mas “com mudanças
nas explanações morais dos símbolos numa
linguagem mais concisa”. Não era para haver
nenhuma influência, ou seja lá o que for, dos
tais chamados “Altos Graus” nas Lojas da Arte e
o “Iluminati” é apontado como sendo totalmente
uma organização não-maçônica. “De tempo ime-
morial” é dito que os “não Cristãos” não pode-
riam ser admitidos, mas uma inte­ressante exce-
ção foi feita no caso de membros da “Seita Soci-
niana” que foram exilados da Polônia. Esta seita
era definitivamente Cristã, mas seguia a doutrina
Unitária. Um interessante fato no Ritual é que a
velha obrigação não era mais mencionada. Ou-
tro texto que Fessler usou foi o chamado “Ritu-
al Essinger”. Não foi possível achar uma cópia
do mesmo, mas da corres­pondência Schröder/
Meyer e das publicações de Fessler sabemos
que um médico chamado Gasser, havia trazido
o texto da Inglaterra mais ou menos no ano de
1784. Na verdade este Ritual era uma cópia do
“Three Distinct Knocks” que passou nas mãos
de Fessler, havia sido publicado na Saxônia em
1804. Foi usado na Loja que o Barão Dalberg
fundou em sua residên­cia de verão em Essingen
perto de Mannheim onde ele era Diretor de um
então famoso Teatro. Seu irmão mais velho foi
o último Eleitor e Arcebispo de Mainz e Grande
Aventais do Rito Schröder utilizados pela GLOMARON
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 30
Chanceler do Santo Império Romano, enquanto
seu irmão mais novo era um conhecido músico e
compositor. Todos os três eram franco-maçons e
personalidades de destaque de sua época. Fes-
sler pretendeu que este Ritual era pelo menos o
mais velho, porquanto já havia sido usado antes
de 1717 na Loja de York. Isto aumentou a ira de
Schröder e numa carta a Meyer ele escreve:
Não deveria ele (Fessler) e seu tão meticuloso
amigo Mossdorf, saber que o lugar Essingen não
existe? Somente uma coisa em todo o livro me
chamou atenção – The Old Charges da Cons-
tituição de York. Seu estilo e conteúdo são ob-
viamente mais novos que o texto de Anderson,
que por si é mais novo que aquele publicado por
Preston na sua “Ilustrations”.
Isto é de grande interesse porque demons-
tra a extrema confusão causada pela publicação
do Irmão Dr. Krause (como hoje sabemos) do
texto complemente apócrifo da Constituição de
York de 926.
Havia ainda um outro eminente Franco-
Maçom com quem Schröder mantinha contato
e cujos conselhos freqüentemente seguia. Este
era Johann Gottfried Herder (l744-1803) cujas
corres­pondências com Schröder dos anos de
1799 a 1802 estão parcialmente acessíveis em
uma publicação do Irmão Wiebe de Hamburgo e
em um certo número de cartas não publicadas
existentes nos arquivos do Estado da Prússia
em Berlim. Quando o exército Francês ocupou
Hamburgo no ano de 1808, Schröder infelizmen-
te destruiu a maior parte de seus papéis. Sabe-
se, por intermédio de outras fontes, que a pri-
meira versão do Ritual de Schröder introduzida
em 1801, continha um certo número de canções
escritas ou pelo menos trabalhadas por Herder.
A maior parte delas não foram incluídas na ver-
são de 1816, pois que a prática de cantar em
Loja havia se tornado menos popular. Os textos
disponíveis de hoje são em prosa somente, mas
eles tem o espírito do gênio de Herder.
Johann Gottfried Herder (1744-1803)
Schröder e Fessler trocaram cópias de
seus Rituais, porém o último comentou, que os
Irmãos de Berlim acostumados ao Ritual Fran-
cês não apreciariam a simplicidade do texto de
Schröder. Ambas as versões foram enviadas por
Schröder aos seus outros amigos e conselhei-
ros e os mesmos preferiram o seu (de Schrö-
der). Depois de certas pequenas modificações,
Schröder submeteu seu texto aos Mestres de
Hamburgo em 29 de junho de 1801 que o ado-
taram por unanimidade. Depois de mais uma
revisão de certas passagens, que não tinham
concordância com a cerimônia, foi impressa
uma edição limitada para as Lojas de Hambur-
go e uma edição maior foi editada em 1816 para
todas as Lojas Alemãs. Desta edição existe so-
mente uma cópia pertencente a uma Loja na ci-
dade de Celle, cujo exemplar felizmente tem sido
possível estudar. Este texto não contém nada de
místico ou oculto, mas retém a simplicidade do
original Inglês. Incluído o pensamento alemão
da época, expressa um texto de alto fervor mo-
ral aliado a um generoso espírito de princípios
Humanitários.
Voltando as atividades de Schröder, es-
tas podemos descrever utilizando suas próprias
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 31
pala­vras. Em 1792 ele escreve:
Com permissão dos Veneráveis Mestres, Schuch
e Schütte e consultando o Irmão Beckmann, eu
purguei as escórias do Ritual e nós gradualmen-
te intro­duzimos estes melhoramentos. Somente
o Venerável Mestre Poppe, da Loja “Absalom”,
permaneceu com a velha versão, a mística alu-
são e promessas da grande Luz. Era irritante que
este cérebro acanhado continuasse falando de
preservar a Constituição Inglesa, que ele não co-
nhecia e a cuja introdução ele tanto resistiu. ...
Embora o nosso Ritual revisado, ainda não bem
representan­do plenamente o texto mais velho,
pois nossas mãos ainda estavam amarra­das, se
comparou favoravelmente com todos os outros
textos conforme nos afiançaram Irmãos visitan-
tes freqüentemente.
Do que está acima escrito, podemos con-
cluir de que o texto revisado do Rito da Estrita
Obser­vância - que era ainda o oficial - estava
agora em concordância com a usança Inglesa.
A linha de ação de Schröder estava en-
cerrada consigo mesmo. Mas, ele tinha de con-
seguir a aprovação, primeiro da Comissão de
Elaboração e depois das Lojas da Jurisdição de
Hambur­go. Isto não foi obtido sem dificuldade.
O Irmão Sieveking, um cidadão respeitável e
Venerável da Loja “São Jorge” declarou em seu
discurso inaugural em 1789, que as usanças,
símbolos e obrigações eram uma farsa e que
nenhuma pessoa sensata deveria dar qualquer
valor a elas. Ele somente seria Venerável da
Loja, se tudo isso fosse mudado e o Ritual como
conhecemos fosse abandonado. Schröder ficou
muito chocado com essa atitude e quatro sema-
nas após, num discurso enérgico aos Irmãos de
Hamburgo disse:
Acabar com os símbolos significa acabar com a
Maçonaria. ... É legal tirar conclusões adversas
dos abusos, contra o todo? Aquele que olha para
os hieróglifos como uma farsa, tem primeiro que
nos convencer, em termos não incertos. Meus
Irmãos, considerem antes de tudo, as primeiras
lições tiradas das vidas virtuosas de homens
sábios, de estabilidade, de prudência e de sigi­
lo e que nos foram ensinados no primeiro grau.
Pensem nestes grandes preceitos e nos subse-
qüentes modelos! Tudo isto é baseado na farsa?
Mesmos se os velhos costumes não tem mais
valor que as práticas das Guildas dos Maçons
trabalhadores da Pedra, mesmo se a interpreta-
ção delas é inteira­mente inútil .... é o bastante,
elas são a base material da qual a grande corren-
te da Fraternidade foi formada e enquanto não
permitirmos mudanças maiores, enquanto per-
manecermos com o sistema Inglês, por todo este
tempo, nossas reuniões estarão absolutamente
livres da intromissão do misticismo, Iluminati e de
outros sonhadores.
Não antes de 1791 foi possível se livrar
dos Corpos governantes dos “Altos Graus”,
introduzi­dos pelo Rito da Estrita Observância,
e do qual os Irmãos estavam ficando cada vez
mais cansados. Seu dirigente era o Irmão von
Exter, que ao mesmo tempo era Grão-Mestre
Provin­cial sob a Constituição Inglesa. Havia tam-
bém problemas financeiros para serem resolvi-
dos porquanto estes Corpos eram responsáveis
pela administração das Lojas da Arte. Ao final,
aos “Old Scots”, aos “velhos Escoceses”, como
eles se intitulavam, foi pago uma certa soma em
dinheiro tirado do Fundo Geral.
Desde o começo, Schröder não se tinha
restringido a organizar um novo Ritual somen-
te para Hamburgo; ele sempre teve em mente
que o mesmo servisse todas as Lojas de língua
Alemã. Algo como um vácuo havia surgido com
o colapso do Rito da Estrita Observância e nes-
ta oportunidade o sistema Sueco do Irmão Zin-
nendorf tentou se introduzir. Nesse tempo houve
somente uma outra Grande Loja Provincial sob a
Constituição Ing1 esa, era em Frankfurt, traba­
lhando do mesmo modo que Schröder; Os Graus
simbólicos tinham que concordar com a usança
inglesa, mas cada Loja estava livre para traba-
lhar qualquer dos “Altos Graus” e isto levou natu­
ralmente, exatamente para aquelas dificuldades
que Schröder conseguiu evitar em Hamburgo.
Tem que se salientar que ele de modo nenhum
desejou criar um novo sistema próprio. Assim
ele se manifestou em uma carta a Meyer:
Assim como a Franco-Maçonaria se espalhou
da Grande Loja de Londres e como nenhuma
Grande Loja pode existir na Alemanha, com a
presente situação política, a coisa certa é de se
permanecer sob os auspícios da Grande Loja
de Londres, se é para sermos legalmente reco­
nhecidos em toda parte. Até mesmo as Grandes
Lojas da França, Holanda e Suécia, concorda­
ram em não constituírem Lojas fora de suas fron-
teiras políticas, de forma a serem reconhecidas
por Londres.
A resposta de Meyer foi a seguinte:
É verdade que eu firmemente acredito que uma
Loja de acordo com a antiga usança maçônica
não precise de uma Constituição para sua legal
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 32
existência. Como as coisas estão, entretanto, eu
concordo com você de que é aconselhável ter
uma Carta Constitutiva de uma fonte de Fran-
co-Maçonaria mais nova, e eu estou convencido
que – se tal coisa for negligenciada – estaríamos
abertos para toda a sorte de tapeações e farsas.
Agora deixemos Schröder com suas via-
gens, durante as quais ele apresentou seu novo
Ritual com sucesso em muitas Lojas sob a Cons-
tituição de Hamburgo, ou na sua casa de campo
estudando o material que ele tinha colecionado.
Em seguida examinaremos as fontes de onde
ele tirou o material.
A primeira Grande Loja da Inglaterra nunca
tinha publicado um Ritual autorizado, pois era
um dos princípios básicos que os trabalhos das
cerimônias devem ser apresentados de cor. O
rápido crescimento da Maçonaria, no Continen-
te Europeu de 1730 em diante, propiciou inevita
velmente a publicação das tais chamadas “ex-
posições” que alegavam ser textos “autênticos”
das cerimônias. Como muitos trabalhos foram
publicados sobre este assunto, é desnecessá-
rio tratarmos desta matéria. Qual foi o proble-
ma que Schröder teve que superar, não tendo
a pos­sibilidade de trabalhar com um genuíno e
autêntico texto?
Uma pergunta imediatamente surge: Por-
que ele mesmo não foi a Londres? Como homem
de trinta ou mais anos de experiência teatral, não
deveria haver nenhum problema para ele memo­
rizar todos os textos de que necessitasse. Ele
se apresentaria aos “Modernos” de onde Ham­
burgo tinha uma Carta Constitutiva. Mas é bem
possível que ele poderia ter caído nas mãos de
Preston ou Dermott. Sabemos que ele havia pla-
nejado uma viagem a Londres levando consigo o
amigo Meyer, porque ele falava pouco o Inglês,
mas tudo acabou em nada. Uma outra per­gunta
é: porque ele não pediu para outro Irmão, que
iria a Londres a negócios, para obter as informa-
ções que ele necessitava? Porque ele também
não pediu a um dos Irmãos Ingleses que eram
visitantes? Não há resposta, mas é conhecido
que ele possuía todas as exposições exis­tentes,
tanto Inglesas como Francesas, que ele estava
intrigado pelas publicações de Preston e que ele
estava ciente da existência de duas Grandes
Lojas rivais. Entretanto, ele não sabia, como a
maior parte do povo do seu tempo, a real ori-
gem dos “Antigos” e ele parece ter acredi­tado
que eles usavam um sistema de trabalho mais
antigo que aquele dos “Modernos”.
Deve ter sido desconcertante para Schrö-
der, achando seu caminho através dos textos a
sua disposição, notar a posição dos Vigilantes,
a inversão das Colunas “J” e “B” e, entre muitas
outras diferenças entre “Prichard” e “Three Dis-
tinct Knocks”. É interessante notar que depois da
União na Inglaterra, nenhuma mudança foi fei-
ta no Ritual de Schröder. Quando seu sucessor
como Grão-Mestre Provincial comunicou a Lon-
dres a notícia da morte de Schröder, numa carta
datada de 08 de outubro 1816, ele fez um certo
destaque dizendo:
Ele considerou o livro Inglês da Constituição e
o velho Ritual Inglês, como as únicas fontes do
fim e da essência da Maçonaria. Ele informou as
Lojas sob a nossa jurisdição e muitas outras so-
bre isto e, em 1801, ele as induziu a adotarem o
velho Ritual. Este texto entretanto foi modifica-
do de forma a reduzir tanto quanto possível as
discrepâncias com aqueles de outras Lojas. Nós,
portanto, mantivemos as palavras da Maçonaria
mais moderna, por serem de usança comum no
Continente e mais alguns detalhes. Hoje, trinta
Lojas na Alemanha, e seis na Rússia, trabalham
com este Ritual, preferindo o velho Ritual a todos
os outros. Schröder muito se lastimou, que as pa-
lavras que haviam sido muda­das no seu Ritual
de forma a concordar com a usança Continental,
foram ago­ra restauradas para a velha forma na
Inglaterra, conduzindo à situação desa­fortunada,
que outras palavras, a maior parte desconheci-
das no Continente, estão agora sendo usadas na
Inglaterra.
Incidentalmente, o comentário de Schröder
sobre uma publicação do Irmão Bode, que era
um membro de destaque da Estrita Observân-
cia, bem ilustra a confusão reinante nas men-
tes dos franco-maçons Alemães. O Ir. Bode es-
tava convencido que os Rituais Ingleses foram
inventa­dos pelo Clero Católico Romano bem
como da oposição das Colunas “J” e “B”. Schrö-
der escre­ve:
Bem, se em todas as velhas Lojas Inglesas, mes-
mo naquelas trabalhando como na versão de Pri-
chard, o Aprendiz recebe o seu salário na coluna
“J” e o Com­panheiro na “B”, porque Bode não in-
terpreta “J” e “B” como “Ignatius Benedictus” que
estaria mais de acordo com sua teoria?
Neste contexto, um breve comentário sobre
este problema particular pode ser útil. No tempo
de Schröder, depois da dissolução da Socieda-
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 33
de de Jesus em 1773, uma reação muito forte
con­tra este Corpo Religioso tinha se espalhado
por todo o Continente Europeu e não somente
pelos Países Protestantes. Seus membros fo-
ram acusados de tentar se infiltrar na Franco­-
-Maçonaria, principalmente com os graus Ca-
valheirescos e Templários. Schröder e muitos
de seus amigos foram influenciados por esta
reação e muitos panfletos foram editados ata-
cando ex-membros da Sociedade com grande
violência. Muitos eminentes contemporâneos
como Lessing, Barão Knigge, Biester e Nicolai
na Alemanha, De Bonneville, Ragon e Rebold na
Fran­ça e Capitão Smith na Inglaterra, tomaram
parte nesta campanha anti-Jesuítica. Um dos
princi­pais argumentos foi, que a Franco-Maço-
naria havia sido organizada na Inglaterra pelos
Jesuí­tas, como um movimento anti-Protestante
da Igreja Católica Romana. De Bonnevilie, por
exem­plo, acreditou que a exposição de Prichard
era de origem Jesuítica, assim como também o
Irmão Bode, conforme explicou num longo me-
morando ao Duque de Brunswick, Soberano do
Rito da Estrita Observância. Ele tentou provar
Friedrich Ulrich Ludwig Schröder 1744-1816
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 34
que cada simples elemento ritualístico continha
uma alusão a Roma, a Becket ou aos Jacobitas.
Suas referências eram dos Rituais baseados em
Prichard. Quando Schröder chamou sua atenção
ao “Three Distinct Knocks”, Bode respon­deu:
Eu mesmo tenho “Three Distinct Knocks” mas
não o acho muita coisa. Acredite na minha pa-
lavra, na realidade os rufiões são nem mais nem
menos que os Reformadores do século 16 e que
H. A. não é mais que a hierarquia Romana.
Schröder, como um homem equilibrado,
não seguia seus amigos até este ponto; ele lem-
brou a Bode que nas antigas Lojas não havia
Altar, mas apenas uma simples mesa para colo-
car o Livro da Sagrada Lei. De qualquer maneira
Schröder decidiu usar o “Three Distinct Knocks”
como material básico do seu trabalho. Ele tinha
um grande número de Rituais e Catecismos im-
pressos de origem Inglesa, Francesa e Alemã a
sua disposição, pois todas as Lojas Conti­nentais
trabalhavam com o texto impresso e ainda hoje
assim o fazem. Teria sido interessante se tivesse
sido possível apresentar o texto do “Three Dis-
tinct Knocks” junto com o texto final de Schröder
de 1816 na forma de um resumo. De qualquer
modo, como este texto representa, com algumas
adaptações de linguagem, o Ritual usado hoje
pela maioria das Lojas de língua Alemã, incluin-
do a Loja “Pilgrim” de Londres, seria impróprio
assim fazer. O Irmão Milborne em seu importan-
te trabalho apresentado no Livro “Ars Quatuor
Coronatorum” n.º
78, publicou um resumo, mas,
ambos seus documentos básicos eram exposi-
ções, enquanto neste caso, uma exposição ha-
via sido transformada em um autêntico Ritual.
Contudo está bem claro nos co­mentários feitos
por Schröder, que ele tinha idéias próprias e
uma concepção clara do que ele deveria inserir
na estrutura do “Three Distinct Knocks” e, por-
tanto, estes comentários serão dentro do pos-
sível dados em extenso. Aqueles que gostariam
de fazer um estudo mais minucioso devem ter
como referência uma cópia do Ritual de Schrö-
der do ano de 1816. As idéias de Schröder se
tornam óbvias pela leitura atenta do seu próprio
texto. As citações são da edição de 1815 do seu
“Materialien zur Geschichte der Freimaurerei”
(Matéria para a História da Fran­co-Maçonaria)
que daremos abaixo:
Eu espero que o Ritual completo explanará me-
lhor minha própria opinião do que os fragmentos
dos primeiros parágrafos. Não deve ser esqueci-
do que eu de modo algum considero que este ri-
tual (“Three Distinct Knocks”) seja o origi­nal. Tal-
vez se tenha desenvolvido gradualmente a uma
certa perfeição, pois deve ter sofrido mudanças,
pelo menos quando a Igreja Protestante tornou-
se dominante. As Lojas Unidas (isto é, aquelas
de Hamburgo e Berlim) já conhecem este Ritual
de uma coleção de textos, mas as observações
nele servem somente para mostrar a diferença
entre a velha e a nova Franco-Maçonaria e eu
não podia levantar todo o véu. Portanto, eu agora
apresento para os meus leitores uma tradução
consciente, para que se faça um exame conve-
niente. O pequeno livro que abriu os meus olhos
e faz as minhas afirmações altamente prováveis
é chamado: “The Three Distinct Knocks on the
Door of the Most Ancient Freemasonry” (As Três
Batidas Diferentes na Porta da mais Antiga Fran-
co-Maçonaria).
Damos abaixo o prefácio do “Three Distinct
Knocks” que é importante porque conclui assim
em seu final:
Depois eu fui convidado para ir a uma Loja Ir-
landesa que se denominavam os mais antigos
maçons e que mantém sua Grande Loja na Ta-
verna dos Cinco Sinos no Strand e que é todo o
assunto deste livro, e não o outro, porque'á há
um livro publicado chamado “Masonry Dissected”
(Maçonaria Dissecada, que foi publicado no ano
de 1700 (sic) e eu acredito que era toda Maço-
naria que se fazia usar naquele tempo; mas não
é nem a metade do que é usado agora, embora
seja o melhor que já foi escrito sobre o assunto
antes disso.
O comentário de Schröder foi: “do prece-
dente, segue sem nenhuma sombra de dúvida
que esta Loja, constituída pela Grande Loja de
Londres, trabalhava com um Ritual que simples-
mente correspondia com a “Maçonaria Disseca-
da” de Prichard”. Ele também corrige a data da
publi­cação que não foi 1700 e sim 1730. Schrö-
der agora faz algumas observações prelimina-
res sobre o texto do “Three Distinct Knocks” que
está parcialmente em linha com o original, mas
também contém algumas adições que são reco-
nhecíveis como a que segue: ele dá a Coluna
“B” para o 1º Vigilante e a “J” para o 2º Vigilante.
Numa nota claramente reconhecida, como sua
própria, ele assegura que nenhum maço origi-
nalmente tinha sido usado, mas que o Venerável
e seus Vigilantes usavam um Bastão de sete pés
(2,10 m) para abrir e fechar a Loja. Ele acres­
centa que aparentemente nada era desenha-
do no retângulo no centro da Loja. Segue uma
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 35
tradução de palavra por palavra por Schröder,
comparando-o com “J e B” e com Prichard. Isto
e também válido para o Catecismo dos Apren-
dizes que se segue depois. Pode-se notar que
em alguns trechos a tradução que ele usou con-
tinha incorreções ou que o conhecimento da lín-
gua Inglesa de Schröder não era muito grande.
Por exemplo, ele parece acreditar que durante a
Iniciação, os Irmãos sentavam em volta de uma
mesa com uma Poncheira e copos no centro. É
difícil imaginar como com tal arranjo, o Mestre
ia do Oriente para o Ocidente onde se supunha
que era onde o Candidato se ajoelhava. A posi-
ção das mãos durante a obrigação do primeiro
Grau, como observado na Constituição Escoce-
sa e outras, nunca foi costume no Continente
Europeu e Schröder presta especial atenção a
esta parte da cerimônia. Lamentando que mais
nenhuma explicação é dada, ele sente que esta
posição força o candidato quando lhe é restau­
rada a Luz, antes de tudo ver as Três Grandes
Luzes ante seus olhos. Quanto a velha obriga­
ção, ele concorda com a sugestão de Herder,
que esta não deve ser lida para o candidato, mas
deve ser incluída no Catecismo ou comunicada
numa Loja de Instrução. Como o Diretor de Ce-
rimônias não é mencionado nas exposições, ele
não inclui este Oficial no seu Ritual; suas fun-
ções foram distribuídas aos Diáconos. Na ver-
dade, a maioria das Lojas Alemãs hoje em dia
tem um Diretor de Cerimônias, embora seja ele
conhecido como Mestre de Cerimônias. Os co-
mentários de Schröder sobre o método de dar o
Sinal, Toque e Palavra são interessantes:
Antes dele dizer alguma coisa, ele tinha de ser
instruído. Parece que ele tinha estado ajoelhado
até então. Diversas razões me levam a duvidar,
que nesse original arranjo, nenhuma palavra foi
dita sobre o Templo Salomônico. Como é que
neste Ritual e no Catecismo de Prichard, “B.”
vem antes de “J. ”? “B.” era sênior e “J.” júnior e
na Bíblia também a ordem é “J.” e “B.”. Dr. Krau-
se corretamente diz que deve ser “J.” porque “ele
será elevado”. Pode-se suspei­tar que a mudan-
ça na Ordem iniciou, senão no começo, então
depois de 1725, quando o primeiro e o segundo
graus eram dados juntos; a verdade pode encon-
trar-se nos documentos na Primeira Grande Loja
da Inglaterra antes de 1725.
Alguns anos antes, quando todos esses pro-
blemas já se achavam em sua mente, Schröder
havia escrito uma longa carta ao Grande Secre-
tário, Irmão White, em Londres, solicitando deta-
lhes ritualísticos. Esta carta prova que, embora ele
estivesse ciente da existência das duas Grandes
Lojas, ele não sabia as causas do surgimento dos
“Antigos”. O rascunho foi enviado a Meyer para
traduzir; Meyer devolveu com este comentário:
“White certamente fará o melhor possível para ser
explícito na sua resposta, mas se ele é forçado a
ficar calado, isto é, confes­sar sua ignorância, então
sabemos pelo menos que não podemos esperar
muito de lá”.
Era somente natural, que nenhuma respos-
ta se recebeu de Londres. A Grande Loja, natural­
mente, declinaria de discutir assuntos concernen-
tes ao Corpo rival e de qualquer modo, não estaria
de acordo com o hábito inglês discutir questões do
Ritual por escrito e, muito menos, com um Irmão
desconhecido.
Comentando sobre o discurso dirigido ao
novoAprendiz e a “Corda”, a opinião de Schröder é
bem definida:
Toda esta aparelhagem não é bem adequa-
da para um homem educado. Po­deria ter sido
inventada somente para as classes baixas e a
resposta do Apren­diz confirma isto sem dúvida.
Por outro lado, nenhum Construtor ou Mestre
de Obras poderia ter inventado isto; teriam eles
tratado ou punido seus vigorosos trabalhadores
desse modo?
Aqui vemos a influência de Herder bem clara.
Num memorando para o rascunho de Schröder, ele
escreveu:
Não pode ser negado, que o todo das cerimô-
nias dos Maçons Operativos, são para nós es-
tranhas e fora de moda e não contém nada de
inspirador. Já no fim do século (17) isto foi sen-
tido mesmo na Inglaterra onde as tradições das
vári­as Artes eram tidas em alta estima. Portanto
os símbolos mais finos da, por ex: Arquitetura,
foram adicionados aos símbolos da pura Arte
Operativa. Tomando isto em consideração, de-
vemos evitar qualquer coisa grosseira; mesmo
as perambulações não devem ser chamadas de
provas perigosas... Somente com muita cautela
podemos preservar essas velhas usanças que
ficaram para trás.
O nó corrediço e o cabo de reboque nos mos-
tram falta de compreensão nas práticas ritualísticas
Continentais. Ao candidato entrar na Loja com uma
corda no seu pescoço foi dado um significa­do es-
piritual e simbólico pelos Franceses, indicando que
ele ainda estava preso ao mundo profano fora da
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 36
Loja. Esta interpretação, embora se ajustasse bem
às suas idéias, não foi adotada por Schröder. O
cabo de reboque na forma tradicional da obrigação,
tem pouco signi­ficado para os Irmãos do Continente
que não viajam. A corda com nós místicos em in-
tervalos, que aparece com certa proeminência nos
painéis das Lojas do Continente ou que é vista cir­
cundando as paredes do Templo, tem sido assunto
para muita especulação. Ritualistas, como Boucher
e Plantagenet deram longos comentários sobre
ela e no dicionário de Ligou, é afirma­do que este
elemento decorativo poderia ter sido derivado
do Brasão dos Eclesiastes e que um significa-
do simbólico foi adicionado depois, ou seja, que
esta corda representa a Fraternidade.
No “Three Distinct Knocks” ao joelho nu
é dada uma explicação que até mesmo o autor
anônimo acha uma “tolice”. Schröder comenta
que a resposta “não é particularmente uma sen-
sível espiritualização”.
Durante o tempo em que analisava os tex-
tos que tinha em sua frente, Schröder nunca
deixou de pedir conselho a Meyer. Por exemplo,
quando ele procurou explanações do Compas-
so so­bre o volume da Sagrada Lei. Meyer sentiu
que a tradução das palavras “para nos conser-
var”, em alemão só podia significar “para todos
os homens e especialmente a um Irmão”. Em
outras palavras as Três Grandes Luzes são sím-
bolos de nosso dever para com Deus, para nós
mes­mos e para com nosso próximo. O símbo-
lo de união com os nossos Irmãos, e a forma
da própria Loja, um retângulo. De acordo com o
velho Ritual, o Compasso não é para desenhar,
nem para unir, mas, para medir e determinar li-
mites. Para nos conservar sujeitos, nada mais
significa que preservarmo-nos dentro de limites.
O Esquadro determina a precisão dos nossos
passos para com nós mesmos. Assim, o Volu-
me da Sagrada Lei deve simbolizar uma crença
num Ser Superior, numa ordem mais elevada do
mundo, porque seria supérfluo deixá-lo simbo­
lizar moral porquanto o Esquadro e Compasso
estão lá para esse fim. A isto Schröder respon­
deu:
Eu posso bem me lembrar que a expressão
“sujeitos” me desorientou. Eu es­tou convencido
que no decurso do tempo advérbios tem mu-
dado por tradição oral. O significado não pode
ser outro que o Compasso determinar os limites
dos Franco-maçons para com todos os homens
como também para com seus Irmãos, com círcu-
lo maior para com o anterior e mais estreito para
o posterior. O sentido de “não aproximarmo-nos
demasiadamente” certamente não estava na in-
terpretação antiga.
Aseguinte seção do “Three Distinct Knocks”
sobre a formação de uma loja (3, 5, 7, 11) Schrö-
der sentiu que foi uma adição posterior, ao ve-
lho Ritual e no que ele certamente estava com
a razão. Ele comenta:
As sete artes liberais foram adicionadas para tor-
nar o grau mais interessante na nova Maçonaria.
Elas não estão no primeiro ou segundo graus
de Prichard. Isto prova que deve ter havido de-
pois de 1717, uma tendência para banir qual­quer
coisa pertencente a Maçonaria Operativa. Se os
Aprendizes se preocu­passem com as sete artes
liberais, o que restaria para os Companheiros e
Mestres Maçons fazer?
De fato, estes elementos ritualísticos po-
dem ser encontrados ainda hoje em certos Ritu-
ais Fran­ceses como parte dos catecismos para
Aprendizes e Companheiros. De qualquer forma,
Schröder não adotou do “Three Distinct Knocks”
quaisquer alusões ao Velho e Novo Testamen­
to, exceto a Lenda Hirâmica. O Volume da Sa-
grada Lei permanece fechado, mas algumas
Lojas abrem-no no primeiro capitulo do Evange-
lho de São João ou no terceiro grau, no Livro de
Reis. Schröder tinha notado que nem Prichard
nem “Three Distinct Knocks”, mencionam uma
Bíblia aberta. Quanto ao segundo grau, que nas
primeiras décadas era sempre dado na mesma
ocasião do primeiro, Schröder estava de acor-
do com todos os ritualistas em achar dificuldade
para dar uma interpretação ritualística. O texto
do “Three Distinct Knocks” ele achou ser de uma
grande simplicidade e a detalhada descrição
dos Pilares certamente não forneceu elementos
para uma interpretação esotérica. Isto despertou
o talento de Schröder como ator dramático para
criar um Ritual inteiramente novo, com sua pró-
pria concepção deste grau. A uma tanto laborio-
sa explanação do Painel da Loja que é comple-
mente omitida, colocou em seu lugar os princí-
pios morais explanados numa bela linguagem e
toda a cerimônia tem o significado de inculcar no
candidato esperança e alegria. As viagens são
acompanhadas com comentários encorajadores
e flores e música são importantes fatores neste
grau. Sabemos dos comentários de Herder sobre
o rascunho de 1800 que suas sugestões foram
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 37
aceitas em grande maioria. Ele avisou Schröder
para não usar o número sete porque este havia
provocado muitas interpreta­ções errôneas, por
isto a Escada em caracol não aparece. Das mui-
tas sugestões que Herder apresentou, podemos
concluir que Schröder tinha a tendência de fazer
seu texto mais verboso do que era apropriado
para um Ritual. De outro modo, Herder como um
clérigo, gostava de rascunhar com certa suntuo-
sidade, embora ele concordasse com Schröder
que quaisquer alu­sões ao Novo Testamento de-
veriam ser evitadas.
De acordo com muitos pesquisadores ritu-
alísticos, Schröder era muito crítico no que con-
cerne ao segundo grau. Ele pensava que o grau
derivou da seguinte maneira:
Alguns membros do clero Católico (provavelmen-
te Jesuítas) devem ter tido influência na origem
deste grau como pode ser verificado na seguinte
explana­ção. Seu fim foi a lamentação por Char-
les I, a esperança pela restauração do seu trono
e da religião Católica na Britânia e Irlanda, atra-
vés da palavra restau­rada. Charles II já tinha sido
coroado na Escócia e Cromwell morreu em 3 de
Setembro 1658, 21 meses antes da coroação
de Charles II na Inglaterra. Eu estou convencido
que foi somente então que os dois graus foram
trazidos para Londres. Agora tornou-se possível
para os monarquistas se congregarem com mui-
to menos perigo e discutirem assuntos num lugar
privado debaixo da co­bertura da Maçonaria. So-
mente a Grande Loja estava de posse de dois
novos graus o que eu explicarei de acordo com o
livro “Three Distinct Knocks”.
Agora segue novamente. a tradução pala-
vra por palavra com o comentário de Schröder:
Companheiro aqui significa Artífice porque ele
está entre o Aprendiz e o Mes­tre. O velho Ritual
foi invertido para aquele do Aprendiz, mas o ve-
lho e agora arcaico nome de “enter’d Prentice”
ficou mantido.
A atitude do candidato quando presta o jura-
mento, como está descrito no “Three Distinct Kno-
cks”, leva para este comentário: “Eu suspeito de
erro de impressão nesta parte, mas a autentici-
dade desta incompreensível cerimônia está con-
firma por outro Ritual Irlandês e por aquele de
uma Loja do “Rit Ancien” de Amsterdã. A defesa
disto está explicada no Ritual anterior, bastante
divertido e tirado do Êxodos 17, 11-12'.
No fim da tradução está o comentário irado
de Schröder:
Agora, o que o Companheiro aprende neste
grau? Certamente seu conhecimento deveria ter
aumentado com algo mas ele tem aqui a melhor
oportunida­de de esquecer o que ele aprendeu
lá. Como Aprendiz, ele aprendeu algumas signi-
ficativas espiritualizações e sobre as sete Artes
Liberais, a essência da ciência dos tempos anti-
gos. Aqui o que é dito sobre as duas Colunas no
Pórti­co do Templo foi tirado palavra por palavra
da Bíblia. A recepção é a mesma do Aprendiz so-
mente com a diferença de que os olhos não são
vendados e o toque e a palavra são diferentes. O
velho inigualável Ritual dos Maçons Livre e Acei-
tos de outro modo é um todo completo.
Schröder mais adiante observa que este
grau, exceto pela letra “G”, não é de nenhuma
maior importância que o de Prichard ou os Ritu-
ais Franceses. Para Prichard o grau de Compa-
nheiro era nada mais que apenas uma introdu-
ção ao grau de Mestre Maçom, não pertencendo
a Maçonaria mas, era uma conseqüência dela.
Pode ser que não estivesse inteiramente errado
em sua opinião, como de fato as sete Artes Libe-
rais foram transferidas para o segundo grau na
maioria dos Rituais Franceses. É também ver-
dade que Schröder deixou fora todas as alusões
ao Velho Testamento, mas no seu esforço de ter
“o mais velho” Ritual, ele eliminou tudo o que ele
acreditava serem adições posteriores mesmo
quando elas correspondiam com sua con­cepção
geral, como por exemplo, a apresentação do
tronco de solidariedade. Antes de proce­der a
análise de Schröder sobre o terceiro grau, será
vantajoso descobrir suas idéias funda­mentais.
Ele conhecia todos os Rituais importantes de
seu tempo, mas o seu mais ardente desejo era
voltar as fontes. Já foi mencionado que Schrö-
der acreditava que tinha havido so­mente uma
cerimônia de iniciação aplicada à Maçonaria
Operativa mas, quando o estágio da Especula-
tiva havia sido plenamente desenvolvido, certas
velhas usanças tiveram de ser aban­donadas e
novos elementos ritualísticos foram portanto in-
troduzidos. Schröder compreendeu que ele não
podia voltar a roda de evolução, mas ele sen-
tiu que os Rituais existentes para a cerimônia
de elevação eram inerentemente supérfluos. Na
verdade nenhum sistema Maçônico tem sido
capaz de providenciar uma função satisfatória
para este grau e é afirmado que o melhor con-
teúdo alegórico é o que Schröder e seus ami-
gos deram para ele. Com um preciso instinto do
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 38
espírito do seu tempo, a aurora do Iluminismo
e o surgimento do romantismo, ele recolocou
as citações enfadonhas e explanações do
Velho Testamento como simples ensinamen-
tos de Ética e Moral Maçônica. Tão estritamente
quanto possível, porém de nenhum modo sem
criticismo, ele conservou seus textos dentro da
estrutura do Ritual que ele havia escolhido e ele
o adornou com comentários instrutivos e enco-
rajadores em vez de citações Bíblicas. O objeti-
vo de trabalho numa loja Maçônica era para ele
o cultivo de uma Fraternal e espiritual comuni-
dade pela prática de cerimônias ritualísticas. O
cargo de Orador era, portanto muito importante
e substituiu o de Capelão.
A intensa vida espiritual e intelectual
nas Lojas Francesas e Alemãs no século 18 -
mencionare­mos somente a “Loge des Neufs So-
eurs” em Paris e a Loja Amália em Weimar como
exemplos - foram principalmente devido a influ-
ência do Orador. É verdade que hoje em dia nem
todos os Oradores são gigantes intelectuais (e
temos muitos volumes de discursos terrivelmen-
te maçan­tes proferidos nas Lojas no século 19)
mas havia e ainda há, uma oportunidade para
os irmãos debaterem as preleções dentro da
estrutura de unidade fraternal e perfeita harmo-
nia e assim conhecer melhor uns aos outros, do
que somente o trabalho ritualístico permitiria. Na
Alemanha estes debates tem lugar na sala dos
Passos Perdidos mas na França são realizadas
em Loja aberta.
Para a parte do Mestre, Schröder também
seguiu o texto do “Three Distinct Knocks”, tan-
to quanto interessava o procedimento do ceri-
monial, mas com certas modificações que ele
havia aplicado nos primeiros graus: o candidato
não era preparado descalço, nem com os bra-
ços e o peito desnudos e o juramento foi mo-
dificado para uma solene promessa dada com
um aperto de mão. Novamente muitas alusões
ao Velho Testamento foram omitidas. A exorta-
ção e o com­promisso, bem assim como a elabo-
rada cerimônia de preparação antes da entrada
do candida­to, estavam muito solidamente con-
cebidas no conceito idealístico de Schröder e
Herder. A his­tória tradicional foi muito abreviada.
É interessante notar que Schröder, que natural-
mente conhecia os Rituais Franceses, não ado-
tou a versão Francesa dada no “Three Distinct
Knocks” e ainda em uso nas Lojas sob a jurisdi-
ção da Grande Loja da França e em outras que
Irmãos da ARLS A Luz do Graal n. 34, recebendo a visita de autoridades maçônicas. A loja usa o rito Schröder e foi
fundada em 2005. Está no Oriente de Porto Velho - RO - Brasil
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 39
trabalham nos graus simbólicos do Rito Escocês
na França e em outros países. De acordo com o
texto do Prichard, o nome dos três rufiões não
é dado e nem o ramo de acácia é mencionado.
Mais adiante, como no “Three Distinct Knocks”,
o Ritual de Schröder dá somente o Sinal de S.,
pois os demais foram previamente ensinados no
primeiro grau.
Em Abril de 1809, a Premier Grande Loja
da Inglaterra resolveu “que não é mais neces-
sário prolongar por mais tempo com as medidas
que foram tomadas no ano de 1739 no que diz
respeito aos Maçons Irregulares e assim ordena
às diversas Lojas a reverter aos Antigos Land-
marks da Sociedade”. Como resultado as pala-
vras do primeiro e segundo grau foram reverti-
das na Inglaterra de forma a reocuparem seus
lugares originais, mas no Continente a usança
derivada de Prichard e do “Three Distinct Kno-
cks” continuam até hoje, excetuando-se natural-
mente as Lojas que trabalham com o Ritual de
Emulação ou Rito York sob a Constituição Alemã
e a Grande Loja Nacional Francesa.
Embora o Ritual de Schröder do tercei-
ro grau seja, na sua maior parte, idêntico ao
“Three Distinct Knocks” e a cerimônia não fuja
em sua essência da prática Inglesa, suas idéias
sobre o pano de fundo deste Ritual foram muito
influenciadas por argumentos Maçônicos cor-
rentes na Alemanha daquele tempo. No seu
comentário do “Three Distinct Knocks”, as ten-
dências anti-­jesuíticas sobressaem muito claras.
Ele permite para estas tendências rédeas livres,
afirmando categoricamente que o terceiro grau
relata a execução de Charles I e a restauração
da monar­quia e hierarquia:
É claro destes fatos, que a Igreja Católica estava
interessada com a preserva­ção do Rei e ainda
mais do Trono, e em qualquer lugar onde hou-
vesse alguma reunião secreta de pesar por ele
– que ao mesmo tempo seria uma reunião sole-
ne – havia sempre uns poucos clérigos Católicos
tomando parte. Eu não posso provar se alguns
Jesuítas estavam exclusivamente interessados
nisto, mas só posso concluir isto depois da intro-
dução do grau dos Cavaleiros de Santo André.
Aqui a influência do seu amigo Bode pode
ser sentida, porque em diversas publicações
Bode culpa os Jesuítas pela degeneração da
Franco-Maçonaria no Continente. Schröder usa
alguns outros argumentos absurdos: A palavra
“T.” de acordo com ele, relata a decapitação de
Charles I com um machado. Os quinze Compa-
nheiros significam o descontentamento de uma
parte da população da Escócia (15 dos 32 Con-
dados). A semelhança dos nomes dos três rufi-
ões relaciona a forte união dos três reinos. Resu-
mindo, toda a Lenda Hirâmica torna-se uma ale-
goria da situação política do tempo de Charles I.
Da correspondência de Schröder com Her-
der, de 1800 a 1802, sabemos que o último tinha
alguma relutância em apresentar um trabalho re-
ferente a parte não cerimonial do terceiro grau.
Em virtude do agravamento de sua falta de vi-
são, este projeto não se materializou, mas temos
extensos comentários no trabalho de Schröder
antes da final adoção de seus Rituais em 1801.
Havia por exemplo, um problema peculiar com a
língua Alemã: a forma normal de se dirigir com a
palavra a alguém é na terceira pessoa do sin-
gular (i. é: “você”) ou, se for num nível mais in-
timo, na segunda pessoa do singular (i. é: “tu”).
Em linguagem clerical, a forma mais solene é a
segunda pessoa do plural (i. é: “vós”) e esta era
a que Herder teria preferido ver no Ritual. Mas,
Schröder preferiu o novo estilo de usar a tercei-
ra pessoa do singular, que tinha se tornado de
uso corrente na última parte do século 18. Este
problema, a propósito, ainda existe na Ale ma-
nha falando-se maçonicamente: normalmente a
forma polida (i. é: “você”) é usada quando falan-
do com aprendizes e se deixa à discrição dos
Irmãos mais velhos permitir que os aprendi­zes
usem a forma familiar “du” (i. é: “tu”). Assim um
certo mal-estar é criado pela existência de um
sentimento de inferioridade ou discriminação no
meio dos Irmãos mais novos; é comum que os
Irmãos mais velhos só permitam a forma fami-
liar depois de exaltado o aprendiz. Na França,
de outro modo, é costume oferecer a forma fami-
liar imediatamente depois da iniciação. Confor­
me sabemos por uma carta da viúva de Herder
a Schröder, havia sido feito um acordo que suas
cartas e documentos deveriam ser devolvidos de-
pois da morte de Herder. O amigo de Schröder,
Meyer, nos informa que a ocupação Francesa
de Hamburgo fez com que ele destruísse gran-
de parte de seus arquivos, É bem conhecido que
os exércitos franceses traziam com eles Lojas do
Grande Oriente e procuravam exercer pressão
sobre as Lojas existentes em Hamburgo. Como
Hamburgo era sede da Grande Loja Provincial
Inglesa a qual estavam subordinadas as Lojas
existentes naquela cidade, surgiram problemas
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 40
políticos e que resultaram na separação de Lon-
dres e na criação de uma Grande Loja de Ham-
burgo independente. Este Corpo não existe mais
mas a tradição é sustentada por uma união das
“Cinco Lojas Unidas” que são as originá­rias do
tempo de Schröder e ainda em atividade, ha-
vendo mais lojas em Hamburgo de funda­ção
posterior. Herder mandou um memorando de 43
páginas para Schröder que infelizmente perdeu-
se e somente um curto comentário de 4 páginas
em cópia feita pelo filho de Herder está disponí-
vel na correspondência não publicada existen-
te nos arquivos secretos da Prússia em Berlim.
É muito interessante notar que Schröder acei-
tou um certo número de argumentos de Herder
textualmente no seu comentário sobre o Ritual
do “Three Distinct Knocks”. Ele estava também
muito interessado com os sistemas Cristãos da
Franco-Maçonaria e que eram basea­dos na Len-
da de que Hiram não seria outro senão o Cristo
e que o terceiro grau representava a morte na
cruz. Dos comentários de Herder das preocupa-
ções de Schröder sobre este assunto podemos
reconstruir o que eram, Herder escreve: “Eu so-
licitaria ao meu Venerável Irmão estu­dar o velho
Ritual (i. é o Three Distinct Knocks) e verificar
de que não há similitude entre a Lenda Hirâmi-
ca e a morte de Cristo! Onde, falando do último,
poderia se encaixar os três Rufi­ões? Que podia
ser o significado das três portas onde Hiram foi
atacado? Que palavra poderia se ter exigido de
Cristo? Não deu Ele a palavra viva que o povo
rejeitou? O Cristo reapareceu aos seus seguido-
res em estado de decomposição como Hiram?
Este e outros argumentos devem ter convencido
Schröder porque não achamos menção desta
doutrina do sistema Sue-co em seus escritos. A
concepção de Herder sobre a Franco-Maçonaria
e sua completa fé no trabalho de Schröder está
claramente demonstrada nas observações finais
naquele memoran­do:
É bem verdade que impostores nefastos cau-
saram muitos males oferecendo “altos conheci-
mentos”. Mas isto é culpa dos franco-maçons
inocentes que trabalham nos graus simbólicos?
Eu posso dizer por mim mesmo que por causa
da Maçonaria e tendo sido Mestre da Loja por
quatorze anos, eu me livrei de muitas de minhas
faltas. É verdade que a Franco-Maçonaria muitas
vezes me decepcionou, mas nunca os seus va-
lores inerentes. Nossas Lojas enxuga­ram muitas
lágrimas; elas aplainaram o caminho através da
vida para muitos jovens Irmãos e os ensinaram a
seguir uma vida de moral.
C O N C L U S Ã O
Isto nos traz ao final de nossa tentativa para
apresentar a obra do Irmão Schröder no contex-
to do cenário da Maçonaria Alemã do seu tem-
po e mostrar como ele se esforçou para adaptar
um texto embora espúrio à sua concepção do
que a Maçonaria deveria ser. O fato de que
seu Ritual foi imediatamente adotado pela maio-
ria das Lojas que não pertenciam a uma das
Cons­tituições trabalhando na variedade Cristã
de origem Franco-Sueca, prova o forte desejo
da Maçonaria Simbólica Alemã em retornar ao
trabalho com as ferramentas que a Maçonaria
In­glesa tinha originalmente providenciado para o
benefício dos maçons em qualquer lugar que se
encontrem por toda a superfície do globo.
Na preparação deste trabalho estou espe-
cialmente agradecido pela assistência que eu
recebi da Biblioteca Maçônica de Bayreuth, do
Irmão Herbert Schneider, Grande Arquivista das
Lojas de Hamburgo e dos Irmãos da Loja “Qua-
tuor Coronati”: Haunch, Batham e Hamill, e o pro-
fessor Emil Adler da Academia de Ciências de
Gottingen. Também desejo agradecer ao Irmão
Ellic Howe, Venerável da Loja “Quatuor Corona-
ti” por ter preparado uma versão de apresenta-
ção deste trabalho e decifrando-o na reunião de
10 de maio de 1979 e por último ao não menos
merecedor Irmão Egon Babler pela sua ajuda
lingüística.
Londres, 10 de maio de 1979.
Este trabalho foi elaborado pelo Venerável Irmão Hans Heinrich Solf,
membro da Loja de Pesquisas “Quatuor Coronati”, profundo estudioso
da Maçonaria, que tem apresentado outros trabalhos bem como tem
feito tra­duções de importantes livros maçônicos publicados em outros
idiomas.
Tradução dos Veneráveis Irmãos:
- Kurt Max Hauser, P.G.M. da M.R.G.L.M.E.R.G.S.
- Samuel Herbert Jones, P.M. (Or. eterno).
Revisão dos Irmãos do Colégio de Estudos do Rito Schröder de Flo-
rianópolis - SC: - Antônio Gouveia Medeiros, P.G.M. do G.O.E.S.C. -
G.O.B.
- Rui Jung Neto, V.M. da Ben. Aug. e Resp. Loja Simb. “Concordia et
Humanitas” N.º 56.
Setembro de 2001.
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 41
A Grande Loja de Londres
O
início do século XVIII marca o surgimento
da Francomaçonaria especulativa ou
moderna tal como a hoje. Até 1717, as Lojas
Maçônicas eram livres (1).
Como nessa época não existiam templos
maçônicos, as lojas se reuniam em tabernas ou
cantinas, que funcionavam como meio de reunião
social de intelectuais, dentre outros. As lojas se
reuniam, também, nos adros das igrejas.
Com o declínio da arte gótica, a
Francomaçonaria Operativa começou a declinar
também.
Para salvar a Maçonaria Operativa, quatro
Lojas londrinas decidiram criar um organismo que
receberia o nome de Grande Loja e teria para sua
presidência um Grão-Mestre. Esse fato histórico
aconteceu em 24 de junho de 1717, com a união
das seguintes lojas:
●A Taça e as Uvas (The Rummer and Grapes)
● A Macieira (The Apple Tree)
● A Coroa (The Crown)
● O Ganso e a Grelha (The Goose and the
Gridiron).
As lojas “O Ganso e a Grelha”, “A Coroa”
e a “A Macieira”, eram constituídas só por
maçons operativos. A Loja “A Taça e as Uvas”
fôra constituída por maçons aceitos, homens de
elevada cultura profana e que faziam parte da
nobreza, dentre eles, o pastor escocês James
Anderson.
A reunião para a fundação da Primeira
Grande Loja do Mundo aconteceu na cidade de
Londres, Inglaterra, e foi realizada na taberna
do “Ganso e da Grelha”. Nessa mesma data,
As Origens do Rito de York
Ir. Sérgio Cavalcante e Ir. Hugo Borges
Acima: Brasão da Grande Loja
da Inglaterra (“os modernos”).
Ao lado: Desenho da taberna
“O Ganso e a Grelha” -
Londres.
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 42
os membros dessas quatro lojas elegeram Sir
Anthony Sayer (2), cavaleiro, como o primeiro
Grão-Mestre e decidiram se reunir anualmente
num grande banquete.
Dessa forma, estava iniciado o primeiro
sistema Francomaçônico no mundo, com a
fundação da Grande Loja de Londres. A contar
dessa data, deixaria a Francomaçonaria de ser
operativa e passaria a atrair os intelectuais, os
membros da realeza, dentre outras camadas
sociais de destaques, naquela época.
No ano de 1718 é eleito o segundo Grão-
Mestre, George Payne, o qual teve um papel
muito importante nos trabalhos de compilação
e de revisão das Antigas Constituições dos
Maçons, de onde saíram os dados para fazer
parte do famoso Livro dos Estatutos elaborados
pelo Reverendo James Anderson em 1723.
Em 1719 foi eleito o terceiro Grão-Mestre,
John Theóphile Désaguliers (3), nascido no
Condado de La Rochele, filho de um ministro
francês que emigrou para a Inglaterra após a
revogação do Édito de Nantes.
Em 1720 foi eleito o quarto Grão-Mestre.
Nessa eleição, a escolha recaiu novamente para
o Irmão George Payne (4).
O quinto Grão-Mestre foi John II – O Duque
de Montague (5). Esse Grão-Mestre realizou
várias reformas na estrutura da Grande Loja.
O sexto Grão-Mestre foi o Duque de
Wharton (6).
Em 1725, na cidade de York, é fundada a
Grande Loja da Inglaterra (7).
Em 1751, surge outra Grande Loja (8), em
oposição à Grande Loja de Londres, formada por
Maçons irlandeses que tinham sido impedidos e
ingressar nas Lojas inglesas.
Surgiram ainda, duas outras Grandes
Lojas. Em 1761 a Grande Loja da Inglaterra foi
reativada com o título de “The Grand Lodge of All
England” (9).
Essa mesma Grande Loja foi a responsável
pela autorização da fundação da quarta Grande
Brasão da Grande Loja dos “Antigos” Brasão da Grande Loja Unida da Inglaterra
Brasão da Grande Loja da Irlanda Brasão da Grande Loja da Escócia
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 43
Loja, a “The
Grand Lodge
South of the
River Trent”,
em 1778 (10).
Essa quarta Grande Loja
formou-se com a cisão verificada
em 1777 na Loja Antiquity, sendo
que uma parte da Loja seguiu o Past
Master Imediato, o irmão William
Preston (11), separando-se da
Primeira Grande Loja para formar
com outras duas Lojas a Quarta
Grande Loja.
Em 1813 (12) as duas Grandes
Lojas Rivais, após uma longa
preparação, celebraram o “Act of
Union” (Ato de União), dando origem
à “United Grand Lodge of England”
(Grande Loja Unida da Inglaterra).
Os primeiros maçons da
américa do Norte
Não há documentos confiáveis
quanto à data concreta da chegada
da Francomaçonaria ao Novo Mundo
e, em especial, na América do Norte.
Alguns afirmam que ela chegou
ao novo continente no ano de 1607,
estabelecendo-se na então Colônia
da Virginia.
O primeiro francomaçom a se
estabelecer nas Colônias da América
foi John Skene (13). Esse possível
maçom se estabeleceu em New
Jersey onde mais tarde se tornou
vice-governador.
O primeiro colono americano
a ser tornar um francomaçom foi
Jonathan Belcher que, numa viagem
à Inglaterra no ano de 1740, foi
iniciado numa Loja inglesa. Ao
retornar a América ele prosperou no
ramo do comércio e, mais tarde, foi
Governador de Massachusetts e New
Hampshire. Em 08 de dezembro de
1730, Benjamin Franklin publica
em seu jornal a primeira notícia
sobre a Maçonaria na América. O
Benjamin
Franklin.
Jonathan Belcher, e
sua assinatura.
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 39
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 44
assunto se referia de uma forma geral ao que
era a Francomaçonaria e afirmava, ainda, que
existiam várias Lojas na referida Província.
Benjamin Franklin se tornou maçom em
1731, e foi Grão-Mestre Provincial da Pensilvânia
no ano de 1734. Nesse mesmo ano, ele editou o
primeiro livro francomaçônico na América.
Saint John’s Lodge - a primeira Loja das
Américas
A primeira Loja oficialmente certificada
da qual se tem notícia na América do Norte é a
“Saint John’s Lodge” (14), localizada na cidade
de Boston, fundada em 1733 e certificada pela
Grande Loja da Inglaterra.
Essa loja goza do privilégio ímpar de
ser a mais antiga loja maçônica constituída e
autorizada nas Américas.
Registros contemporâneos revelam que
uma loja maçônica se reuniu em King’s Chapel
(15), Boston, por volta de 1720 (reunião de
acordo com os “antigos costumes”). Em 1733,
Henry Price, um notório alfaiate e guarda-
livros, que emigrara para Boston em 1723,
foi nomeado “Grão-Mestre Provincial da Nova
Inglaterra e Domínios e Territórios ali a ela
pertencentes” e foi autorizado a “Constituir os
irmãos ora residindo ou que viessem a residir
posteriormente naquelas paragens, em uma ou
mais Loja ou Lojas Regulares como ele achasse
melhor”, pelo Grão-Mestre da Grande Loja da
Inglaterra, Anthony Lord Viscount Montague. Em
30 de julho de 1733, numa reunião realizada na
Taverna “O Punhado de Uvas”, em Boston, Henry
Price exerceu a sua autoridade e concedeu a um
grupo de dezoito Maçons uma carta autorizando-
os a trabalhar como loja maçônica, em Boston.
Assim foi formada a Loja de São João, a primeira
loja devidamente constituída e autorizada das
Américas.
A loja tem estado em existência contínua
desde a sua constituição em 1733, e desde essa
época seus membros se reuniram em mais de
3.700 reuniões regulares, ou “Comunicações”.
Maçons famosos, como George Washington,
Benjamin Franklin e o Marquês de Lafayette
visitaram a Loja de São João, nas suas viagens
a Boston.
Foram de membros
proeminentes dessa Loja os nomes
dados ao Mercado Quincy e ao Cais
Rowe (Josiah Quincy e John Rowe).
Foi Rowe que fez a famosa pergunta,
imediatamente antes da Festa do
Chá de Boston: “Gostaria de saber
como o chá se mistura com água
salgada”. Outro famoso membro
foi John Otis, que protestou contra
os Atos de Assistência, em 1760,
cunhando o mote “Taxação sem
representação é tirania!” e que é,
hoje, comemorado como o Pai da
Quarta Emenda. Outro membro
ilustre da Loja foi Robert Newman,
que escalou a Velha Igreja Norte,
Selo da Saint John’s Lodge, da cidade de Boston
Henry Price
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 45
para sinalizar para o irmão e companheiro Paul
Revere (“um, se por terra; dois, se por mar”).
No século vinte, a Loja teve a ventura de contar,
entre seus membros, com Lowell Thomas, o mais
destacado jornalista do seu tempo e, talvez, o
repórter mais relembrado como o homem que
descobriu e tornou famoso Lawrence da Arábia.
Hoje, a Loja de São João relembra com
carinho o seu legado histórico único. Ela se
orgulha de ser uma loja de convívio e de boas-
vindas, que está comprometida ao cultivo
do amor fraterno entre homens de todos os
caminhos de vida, praticando a caridade de
muitas formas e mantendo os mais altos padrões
de ritual maçônico. Ela se rejubila e privilegia
de poder contar, como membros, com cerca de
trezentos Irmãos de uma larga escala de espectro
ocupacional, educacional, étnico, religioso e
político, homens que reconhecem a Fraternidade
dos homens sob a Paternidade de Deus e que,
desse modo, escolheram ser maçons.
Ao adentrar o século XXI, a loja de São
João permanece firmemente comprometida
com a salvaguarda e a transmissão, às futuras
gerações de irmãos, dos ideais maçônicos que
lhe foram confiados por Henry Price, em 1733.
As Lojas Militares
As lojas militares começaram a surgir a
partir de 1732 no Exército e na Marinha Britânica
sob a forma de “Lojas de Campo Regimentais”.
Esse tipo de loja, por ser itinerante, carregava
os seus paramentos e equipamentos em baús
junto com os demais apetrechos bélicos e outros
objetos tipicamente militares. Muitas vezes o
comandante do Regimento presidia os trabalhos
como Venerável Mestre e podia ser sucedido por
um outro oficial. As Lojas Regimentais deixariam
sua marca profundamente sobre o Exército e bem
como na Armada Britânica. Como as lojas civis,
essas lojas militares reuniam homens das mais
diversas origens e classes sociais. Eram oficiais
(16) e praças. Uma das conseqüências disso foi
a criação de um clima no qual jovens e soldados
dinâmicos, tais como James Wolfe, podiam se
adiantar, independentemente de sua classe social.
A primeira loja formada nas Forças Armadas
Britânicas foi criada no 1st
Foot, que seria mais
tarde o Royal Scots, em 1732. Em 1734, havia
cinco lojas como essa; e em 1755 já eram vinte
e nove. Entre os Regimentos que possuíam suas
próprias lojas (17) de Campo, estavam aquelas
que viriam, mais tarde, a ser conhecidas como
os Royal Northumberland Fusiliers, os Royal
Scots Fusiliers, os Royal Inniskilling Fusiliers, o
Gloucestershire Regiment, o Dorser Regiment,
o Border Regiment, e o Regimento do Duque de
Wellington (West Riding).
Com o tempo, a Francomaçonaria se
estabeleceu também nos altos escalões
administrativos e de Comando Militar, incluindo
em suas fileiras alguns dos mais importantes
personagens da época. O Duque de Cumberland,
filho caçula do Rei George II, era francomaçom.
Alguns outros historiadores afirmam que também
era francomaçom o General Sir John Ligonier (18).
Mercado Quincy, em Boston
Joppa Military Lodge No. 150 - com a nona cavalaria, na
época em Fort Riley, Kansas.
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 46
Os maçons Ingleses e Americanos na
Independência dos Estados Unidos
A influência da Francomaçonaria no curso
da guerra pela independência norte-americana foi
bastante ativa.
A St. Andrew’s Lodge, de Boston,
desempenhou um importante papel (19). A
Francomaçonaria emprestou as suas atitudes e
valores ao recém-formado Exército Continental,
e pode ter influenciado na nomeação de George
Washington para Comandante-em-Chefe.
Igualmente, a influência da Francomaçonaria
não estava limitada aos grupos nos Batalhões
militares envolvidos; também podia ser observada
entre os adversários. A Guerra pela Independência
é rica em muitas histórias. Dentre as quais, pode-
se destacar a aliança do Exército Real Britânico
com o famoso Chefe (20) dos Mohawks, Joseph
Brant (21). Antes do conflito, a irmã de Brant
se casara com o Sir William Johnson, Grã-Mestre
Provincial de New York.
Naquele mesmo ano, durante uma frustrada
invasão do Canadá pelos colonizadores, o capitão
McKinstry foi capturado por alguns membros da
tribo do Chefe Brant, amarrado a uma árvore
e cercado de lenha de fogueira, com os índios
prontos a lhe atearem fogo. Quando McKinstry
fez um “o sinal de socorro maçônico”. O chefe
Brant reconheceu e imediatamente ordenou a sua
soltura. Ele foi encaminhado a uma loja britânica
de Quebec, que tomou as providências para a sua
repatriação.
Ao longo de toda a Guerra pela Independência
Norteamericana, existem diversos relatos desse
tipo e de outros dentre os quais podemos citar
ainda, a troca de certificados e paramentos de
Lojas de Campo, que tendo sido capturados por um
dos lados, foram devidamente devolvidos. Num
dos casos, os paramentos do 46th
Foot (22) foram
capturados pelas tropas coloniais. Por instruções
dadas por Washington, eles foram devolvidos, sob
uma bandeira de trégua, com uma mensagem
que ele e seus homens “não guerreassem contra
Instituições de Benevolência”.
Numa outra ocasião, a Carta Constitutiva
do 17th
Foot (23) foi igualmente capturada
e também devolvida, acompanhada de uma
carta do general Samuel Parson. Esta carta é,
eloquentemente, típica do espírito alimentado
pela Francomaçonaria em ambos os Exércitos, e
em todos os seus níveis:
Meu Irmão,
Quando a ambição de monarcas, ou
os dissonantes interesses dos Estados
em conflito, provocam e estimulam
seus súditos à guerra, nós, como
Maçons, estamos desarmados daquele
ressentimento que estimula à indistinta
desolação e, embora os nossos
sentimentos políticos possam impelir à
disputa pública, nós ainda continuamos
Irmãos e (à parte de nossa obrigação
profissional) temos de estimular a alegria
e a felicidade e promover o bem-estar
uns dos outros. Assim, aceite das mãos
de um irmão a Constituição da Loja Unity
) 18th
, do 17th
British Regiment, a qual
os seus recentes infortúnios colocaram
em minhas mãos para que vos fosse
devolvida.
Seu Irmão e obediente servidor – Samuel
H. Parson.
Thomas Smith Webb, é considerado (25)
Joseph Brant
(pintura de George
Romney – 1776)
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 47
como se fosse o organizador e fundador do Rito
York, nasceu em 30 de outubro de 1771, em
Boston. Ele teve a rara característica de estar
ativamente ligado com a formação de duas
grandes entidades maçônicas norte-americanas,
o que lhe confere o respeito dado por seus irmãos
maçônicos.
Recebeu sua educação nas escolas públicas
em Boston e também lá iniciou o estudo de
música, o que se tornou uma prazerosa diversão
em toda a sua vida. Sua carreira profissional
foi ampla e diversificada. Após trabalhar como
aprendiz de livreiro com seu pai, ele montou seu
próprio negócio na cidade de Keene, Estado de
New Hampshire, e então se mudou para Albany,
Estado de Nova York, onde mudou de ramo
para a fabricação de papel de parede com êxito
considerável.
A cidade de Providence, em Rhode Island,
foi sua próxima parada e por 16 anos continuou
no ramo de papéis de parede, ao mesmo tempo
em que gerenciava uma livraria. Ali, ele se tornou
um representante da Hope Cotton Co. Mais
tarde, construiu uma algodoaria na cidade de
Walpole, Massachussets, e alguns anos depois,
transferiu o maquinário para Ohio, para se juntar
à Worthington Manufacturing Co.
Todas as mudanças foram motivadas pelas
condições econômicas e foram justificadas pelos
acontecimentos futuros.
Sua carreira maçônica foi igualmente
bastante extensa e diversificada. Embora tenha
recebido sua educação maçônica inicial na Loja
Sol Nascente, em Keene, New Hampshire, aos
19 anos, foi em Albany e em Providence que
aconteceram a maior parte de suas atividades e
contribuições.
Em Albany, aos 26 anos, ele publicou a
obra Freemason’s Monitor ou Illustrations of
Masonry, um trabalho literário que chegou a ter
sete edições. Ela lhe trouxe fama internacional
e se tornou no padrão da exemplificação
ritualística em muitas jurisdições. Tratava-se de
um compêndio de muitos dos escritos de William
Preston, da Inglaterra, um homem que dedicou
toda uma vida de serviço à Arte nos estudos e no
aperfeiçoamento dos ensinamentos maçônicos.
Thomas Smith Webb se filiou à Loja União,
em Albany, e se tornou seu Venerável Mestre.
Ajudou a formar o Capítulo do Templo do Arco
Real e se tornou seu Sumo Sacerdote.
Sua reputação já era bem conhecida quando
ele se mudou para Providence, em 1799, e logo
foi introduzido na vida daquela comunidade.
Durante sua estadia em Rhode Island, foi eleito
para o Comitê Escolar, tornou-se diretor da
THOMAS SMITH WEBB (24)
Thomas Smith Webb
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 48
Providence Library Company e trabalhou como
diretor, gestor e finalmente como tesoureiro
da Providence Mutual Fire Insurance Company.
Começando como soldado na Milícia Estadual,
atingiu o posto de Coronel de seu regimento.
Logo após sua chegada em Providence,
aceitou um convite para filiar-se à Loja São João
nº 1 e logo em seguida instalou uma escola de
instruções. Como membro da Loja Rhode Island,
tinha a permissão de participar da Grande Loja e
na sua primeira visita, foi indicado como membro
do comitê que revisaria as Constituições.
É interessante observar que dentro dos
próximos dois anos, duas emendas à Constituição
foram adotadas, o que permitiu o aproveitamento
dos serviços do irmão Webb.
Uma emenda aboliu o limite de dois anos
para a entrega dos cargos de Grandes Vigilantes,
o que permitiu a Webb servir por três anos como
o Grande Primeiro Vigilante.
A outra emenda tornou possível a eleição de
um Grão-Mestre que não fosse um Past Master
de qualquer Loja de Rhode Island.
Com isso, abriu-se caminho para que Webb
fosse eleito Grão-mestre em 1813 e 1814. Ele
declinou a eleição seguinte, de 1815.
Em 1814, um navio de guerra britânico
apareceu em Newport. A cidade de Providence,
como muitas outras cidades, temia as bombas
e uma possível invasão. Em uma reunião
comunitária diante da STATE HOUSE em
Providence, um Comitê de Defesa foi criado
para assegurar a proteção à cidade. Voluntários
foram chamados para erguer barricadas. Webb,
como Grão-Mestre, convocou uma reunião
especial da Grande Loja e instruiu os irmãos a
“trazerem pás, enxadas ou machado e provisões
para um dia”. Após a abertura da Grande Loja,
os irmãos marcharam até Fox Hill e até o pôr-
do-sol eles erigiram barricadas com 131 metros
de comprimento e 1,5 metro de altura, e o
chamaram de Fort Hiram, um ato confirmado
pelo Governador naquela noite. Este teria sido
um dos dois únicos fortes maçônicos no país.
Webb também aceitou um convite para se
filiar ao Capítulo do Arco Real de Providence e foi
eleito seu Sumo Sacerdote dois anos mais tarde.
Auxiliou na formação do Grande Capítulo
de Rhode Island e serviu como Grande Sumo
Sacerdote de 1804 a 1814.
Juntamente com outros irmãos, ele
organizou o Grande Capítulo Geral do Real
Arco dos Estados Unidos e conduziu seu
funcionamento, como Grande Deputado Sumo
Sacerdote, até sua morte. O Grande Capítulo
Geral é, atualmente, a organização nacional
mais antiga dos Estados Unidos.
Webb viu a necessidade, no âmbito
maçônico, de organizações nacionais e estaduais
fortes, que preservassem, revigorassem
e propagassem as cerimônias -até então
desorganizadas, descontroladas e algumas
vezes nebulosas- que são conhecidas como “Rito
Capitular” e “Ordem dos Templários”.
Em uma de suas viagens para o meio-oeste,
Webb constatou que nos Estados de Kentucky
e de Ohio, somente as Grandes Lojas tinham o
poder de autorizar os Capítulos do Real Arco,
mas ele conseguiu influenciá-las a permitirem
que a formação dos Grandes Capítulos ficasse
subordinada unicamente ao Grande Capítulo
Geral.
Durante esse mesmo período, o zelo
incansável de Webb culminou na formação, em
11 de agosto de 1802, no Acampamento dos
Cavaleiros Templários de São João, atualmente
a Comandância de São João nº 1 de Providence,
a entidade de destaque de todas as organizações
templárias nos EUA.
Webb forneceu o ritual e os procedimentos
cerimoniais das Ordens Templárias e foi eleito
seu primeiro Comandante Eminente. Foi eleito
anualmente até 1814, quando declinou a
reeleição. Em 1805, juntamente com outros
irmãos, organizou a Grande Comandância de
Massachusetts e Rhode Island e a presidiu até
1817.
O acontecimento que declarou a coroação
gloriosa da carreira maçônica de Webb foi
a formação do Grande Acampamento dos
Cavaleiros Templários dos Estados Unidos, que
ele realizou em 1816 na cidade de Nova York. O
governador De Witt Clinton foi eleito Grão-mestre
e Webb se tornou o Grão-mestre Deputado, uma
posição que ele manteve até sua morte.
Quando se aproximava dos 40 anos de
idade, Webb se preparou para se desfazer de
muitas de suas ligações comerciais, e por volta
de 1815, ele já se havia retirado de muitas
responsabilidades maçônicas em Providence.
Ele dedicou mais tempo à música e,
juntamente com outras pessoas, formou a
“Sociedade Filarmônica Handel e Haydn”, em
Boston, da qual foi seu primeiro presidente,
regendo o primeiro concerto público da Sociedade
na King’s Chapel, no dia de Natal de 1815, com
mais de 100 participantes. Também atuou como
um dos solistas e até mesmo obteve alguma
fama mais tarde como compositor.
Thomas Smith Webb morreu de hemorragia
cerebral em uma de suas muitas viagens ao oeste,
em 6 de julho de 1819. Um funeral maçônico foi
feito em Cleveland, Ohio, e cerimônias póstumas
aconteceram em várias cidades.
Mais tarde, achou-se mais apropriado que
Webb fosse enterrado em Providence. Com o
consentimento de sua viúva e com os fundos
fornecidos pela Grande Loja de Rhode Island e
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 49
outras entidades maçônicas, seu corpo foi levado
até Providence e sepultado no West Burying
Ground.
Quando esse cemitério foi convertido em
um parque, o corpo foi trasladado ao North Burial
Ground, a um pedaço de terra doado pela cidade
em uma colina, sobre o qual a Grande Loja ergueu
um monumento, ou obelisco, de mármore. Cada
lado foi usado para lembrar uma ou mais de suas
realizações. Tal como outro maçom famoso, seu
corpo foi enterrado três vezes.
Um dos trabalhadores mais dedicados
da Francomaçonaria passou por nós com um
registro de realizações sem precedentes, e sua
memória está perpetuada em Rhode Island por
uma loja, um conselho e uma comandância que
levam o seu nome.
OS RITUAIS DO RITO DE YORK
Os atuais rituais do Rito York, são descendentes direto dos trabalhos efetivados pela Grande
Loja dos Antigos, fundada em 1751 por irmãos irlandeses que haviam sido impedidos de entrar na
esnobe Primeira Grande Loja (26), a fundada em 1717.  Acontece que esta Grande Loja original,
quando Samuel Prichard publicou o “Maçonaria Dissecada” em 1730, mudou os sinais e alguns
detalhes dos rituais para que profanos conhecedores destes sinais não se fizessem passar por
maçons para se beneficiarem do fundo de socorro.  Os irlandeses e os maçons ingleses descontentes
que fundaram a Grande Loja (27) dos Antigos, e retornaram à prática anterior [com boa dose de
características irlandesas, que é Maçonaria tão antiga quanto a inglesa ou escocesa] e diziam praticar
a verdadeira antiga Maçonaria de York, aqui referindo-se naturalmente à lenda de Athelstan e da
cidade de York como berço mítico da Maçonaria.
Esta Loja foi preponderante na colonização americana, principalmente porque seus trabalhos
eram bem semelhantes ao irlandês e ao escocês, diferindo portanto dos trabalhos alterados pela
Primeira Grande Loja.  Mais ainda: nem a Grande Loja da Irlanda nem a Grande Loja da Escócia
tinham boas relações com a pretenciosa Primeira Grande Loja, a quem apelidavam pejorativamente
de os Modernos, que já era dominada pelos partidários dos reis da casa Hanover.
Quando os americanos se tornaram independentes, a influência dos Modernos simplesmente
desapareceu, por razões óbvias.  Quando as Grandes Lojas Provinciais se transformaram nas Grandes
Lojas Estaduais Americanas, o Ofício (28) trabalhado era o dos Antigos.  Aí, em 1797, Thomas
Smith Webb lançou o seu Monitor e deu a forma e denominação de Rito York, que permanece
basicamente a mesma até os dias de hoje.
Muitos Maçons confundem ou pensam que o Ritual de Emulação é um Rito. E que esse Rito
é o Rito York. Não é. Na verdade, não se trata de um rito, mas sim de um ritual pelo qual ele é
demonstrado e expressado. Na Grande Loja Unida da Inglaterra o vocábulo “rito” não existe. Ou
seja, é inominado. Os ingleses não consideram rito, eles consideram rituais.
Páginas do “Monitor” de Thomas Smith Webb
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 50
O Rito York no Brasil
Depois da Guerra Civil (29) dos Estados
Unidos da América do Norte, houve um êxodo de
cidadãos estadunidenses, que tinham servido no
Exército Confederado (30), vítimas dos longos
anos de guerra, da onda terrível de assaltos dos
negros libertados, procurando vingança, e que
encontraram as suas terras devastadas durante
as lutas. Foram várias dezenas de milhares deles
que emigraram do seu país, e cerca de 10.000
(dez mil), vieram para o Brasil, e no meio deles
muitos aventureiros e fugitivos da Justiça, e
até estrangeiros europeus, que aproveitavam
as facilidades de transporte dados por
“verdadeiros” consórcios migratórios, muitos de
origem duvidosa, formados por aproveitadores
do infortúnio humano.
Estas imigrações começaram com maior
intensidade para o Brasil depois de 1865,
radicando-se a primeira leva principalmente em
Iguape (em 1866), a maioria do Estado do Texas.
Um outro grupo, composto de famílias do
Estado do Alabama comprou e reformou um
veleiro velho “WREN”, que batizaram com o
nome de “TARTAR”, e nele embarcaram para o
Brasil em 17 de abril de 1868, levando a viagem
cerca de dois meses, e mandando vir depois
parentes e amigos que lá ficaram.
Ao chegar ao Rio de Janeiro, os imigrantes
orientados pelo irmão Coronel Norris, foram
recebidos pelos irmãos George e Charles Nathan
(dois ingleses casados com as irmãs Goodman,
do Estado do Alabama). Estes ingleses, ambos
maçons, iniciados no Rio de Janeiro, na St. John’s
Lodge nº 703, em 1846 e 1847, respectivamente,
aconselharam o coronel Norris e os de seu grupo
a se radicaram nas imediações de Campinas-SP,
conselho que foi aceito, e assim todos viajaram
para a região de Santa Bárbara, onde o Cel.
Norris comprou uma grande fazenda, chamada
WILLIAM H. NORRIS (pai) – Foi iniciado em 08 de
dezembro de 1838, passado em 12 de janeiro de 1839
e elevado em data de 09 de fevereiro de 1839 na “Dale
Lodge nº 66”, de Liberty Hill – jurisdição da Grande Loja
do Estado do Alabama, da qual chegou a ser Venerável
Mestre de 1845/47. Em 1849 filiou-se na “Fulton Lodge,
de Dallas em que ficou até 1857/58. De 1859 até 1865
foi Venerável Mestre da Mount Pleasant Lodge, da qual
pediu desligamento (31) em 13 de outubro de 1866 para
vir ao Brasil. Em 1860 ele já tinha sido Deputado do Grão-
Mestre e no exercício de 1861-62, foi Grão-Mestre da
Grande Loja do Estado do Alabama. Faleceu em 13 de
julho de 1893.
Abaixo: William H. Norris
ROBERT CÍCERO NORRIS (seu 4º filho) – Era
médico, mas concluiu o seu curso de medicina só em
1889/90, quando passou um ano em Móbile (Estado do
Alabama), na Universidade de Alabama. Foi iniciado na
Fulton Lodge, de Dallas, em 1858, à qual também pertencia
o seu pai. Era casado com Martha T. Steagall (Pattie),
capitão e mais tarde naturalizou-se brasileiro, chegando a
ser até delegado da polícia na Villa. Faleceu em 1913.
Abaixo: C. B. Norris e Robert C. Norris (sentado)
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 51
“Machadinho”, da qual foi depois cedendo partes
aos outros imigrantes.
Teve o Brasil a felicidade de abrigar, neste
caso, um gruo homogêneo, de boa índole e
cultura, e com a vontade férrea de aqui progredir
e formar um novo lar. Tinham vendido o que
possuíam nos Estados Unidos, e muitos trazendo
os implementos necessários ao cultivo da terra.
Não se tratava dos imigrantes normais, que
precisam e exigem o auxílio da nação que os
acolheu, rudes e sem cultura. Tratavam-se de
cidadãos que escolheram e compraram as suas
terras nas imediações de Santa Bárbara, onde o
acre era vendido, naquela época, numa base de
US( 2,00. Eram cidadãos habituados ao cultivo
do solo, que vinham acompanhados de suas
famílias, em media com 4(quatro) a 5 (cinco)
filhos, mas havendo muitos com até 12 (doze)
dependentes.
O líder destes imigrantes, ainda que não
oficialmente, era o coronel William Hutchinson
Norris, mais conhecido como o “Cel. Norris”,
homem maduro e experiente, nascido em 17
de setembro de 1800, então com 67 anos, um
hábil administrador, conselheiro e político, que
trazia ao Brasil também os seus 11 (onze) filhos,
entre os quais destacava-se o Dr. Robert Norris,
que lutara na Guerra Civil durante quatro anos,
fora ferido várias vezes e no fim tinha sido
aprisionado no Fort Delaware. Tinha ele então
28 anos de idade.
Tanto o cel. Norris (pai), como o seu filho
Dr. Robert C. Norris eram maçons.
Quando todos já estavam instalados, mais
ou menos arrumados e aclimatados no Brasil,
o coronel Norris resolveu reunir os maçons
que havia entre os americanos já radicados em
Santa Bárbara – e não eram poucos – fundando
uma Loja Maçônica, à qual deram o nome de
Washington Lodge e, como todos os fundadores
tinham lutado pelo ideal de liberdade, é fácil
compreender que esta fundação foi recebida de
braços abertos pelo Grande Oriente Unido do
Brasil, quando em data de 12 de novembro de
1874 concedeu a Carta Constitutiva Provisória
para que aquela Loja começasse a trabalhar,
e já em 19 de novembro do mesmo ano lhes
forneceu a Carta Constitutiva Definitiva para
trabalharem nos graus simbólicos do autêntico
Rito York. Em 07 de agosto de 1877, deu-lhes
autorização para que adotassem integralmente
os graus simbólicos do Rito York em língua
inglesa. Trabalhavam às quintas-feiras.
Pouco se sabe das atividades dessa
legendária oficina francomaçônica, pois os
seus componentes formavam um grupo muito
fechado, que pouco ou nenhum contato mantinha
com a Maçonaria Nacional, e se não fosse a
meticulosidade de um irmão inglês (historiador
inveterado), James Martin Harvey, praticamente
nada saberíamos.
Os membros Fundadores (32
)
Em pé, da direita para a esquerda:
William Terrel (33); Robert Daniel; Bony (Napoleon Bonaparte) Green; Henry Scurlock;
Henry Clay Norris (34); Marsene Smith e Robert Cicero Norris (35).
Sentados:
Junius N. Newman (36);
Coronel William C. H. Norris;
Robert P. Thomas (37); e
John Domm.
Não aparecendo na foto
havia ainda: Joseph Long
Minchin; Edward M. Minchin
(38); Henry Farrar Steagall
(39); Edwin G. Britt; P. P.
Fenley; Joseph H. Moore (40);
e George.
Parece que o irmão
Coronel William C. H. Norris
só foi Venerável Mestre na
fundação, pois tendo ele
viajado para os Estados Unidos
da América do Norte em 1876,
ficando lá durante um ano para
matar saudades, já em 1878 –
então Loja nº 169 do Grande
Oriente Unido do Brasil – a
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 52
oficina empossou a seguinte administração:
1876: - Venerável Mestre – Robert Cícero
Norris; 1º Vigilante George Dekalb Coulter (41);
2º Vigilante R. C. Crisp (42); Capelão William
Mc. Fadden (43); Secretário J. Smith; Tesoureiro
J. A. Coole (44).
Já no ano de 1879 a Washington Lodge
teve a seguinte administração: Venerável Mestre
– Robert Cícero Norris; 1º Vigilante George
Dekalb Coulter; 2º Vigilante John Domm (45);
Tesoureiro Alfred Iverson Smith (46); Secretário
Benjamin H. Norris (47); 1º Diácono Henry Clay
Norris (48); 2º Diácono Wilber Fisk Knight (49);
Capelão Junius N. Newman (50); Cobridor – A.
P. Finley (51).
Consta-se ainda que entre 1879/80
temporariamente os irmãos William Terrell e
Joseph Whitaker ocuparam “Ad Hoc” os cargos de
Venerável Mestre e Secretário, respectivamente
(52).
NO ano de 1780 foi empossada a seguinte
administração: Venerável Mestre – Robert Cícero
Norris; 1º Vigilante John Domm; 2º Vigilante E.
B. Smith (53); Tesoureiro Alfred Iverson Smith;
Secretário Benjamin H. Norris; 1º Diácono John
Edward Steagall; Capelão Junius N. Newman.
No 18 de janeiro de 1883, o Grande Oriente
Unido foi incorporado pelo Grande Oriente do
Brasil, ficando então a oficina sob a jurisdição
deste, que em 1884 lhe aprovou a eleição, mas
não publicou o quadro, pois de 1885 até 1888
deixou de publicar o seu Boletim Oficial.
Em 13 de julho de 1893, o Coronel Wiliam
C. H. Norris, vítima de pneumonia, falece.
O corpo do Coronel William C. H. Norris é
sepultado no “cemitério dos sulistas” de Santa
Bárbara do Oeste. Sua idolatrada esposa Mary
falece poucos meses depois. Os filhos do coronel
Norris já se tinham dispersados, de modo que
logo depois foi o resto da antiga fazenda vendido
a Abrahan Abe, que nunca tinha conseguido
terras próprias.
Teve o Coronel Norris vários negros
escravos, que viviam a uns 3km de sua casa,
soltos mas nunca tentaram fugir, e mesmo quando
libertados em 1888 ficaram com a família, que
se tinha tornado a sua. Não se sabe que destino
tomaram depois da venda da fazenda.
Não resta a menor dúvida que depois
da morte do patriarca, e da dispersão da
família – o DR. Robert Cícero Norris tinha sido
praticamente Venerável Mestre durante vinte
anos – a Washington Lodge estava condenada
ao adormecimento, ainda mais quando em 1893
o Maçom Martim Francisco Ribeiro de Andrade
Henry Farrar Steagall Joseph Long Minchim
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 53
estava começando a sua “Campanha Separatista
do Estado de São Paulo da União”.
Nestas condições, a subscrição feita em
nome da Loja, na importância de R$: 970$000,
numa coleta de numerário para a Construção
de uma nova igreja para a comunidade,
contratado em 28 de setembro de 1903 com
Luiz Capabianchi por dois contos de réis (isso
a mão de obra) pode até ser considerado como
liquidação do “saldo em caixa da Loja”, em mãos
do ultimo Tesoureiro, por certo ainda o irmão
John F. Whitehead, imigrante chegado a Santa
Bárbara depois de 1878.
As colunas da Loja, confeccionadas pelo
irmão John Edward Steagall, durante mais de
50 anos ficaram guardadas na casa de algum
descendente dos ex-obreiros do quadro, mas
quando se fundou finalmente uma Loja em
Santa Bárbara, em 11 de julho de 1948, a Loja
“Campos Sales II” – GOB, estes descendentes,
ao se tornarem maçons, as entregaram a esta
nova Loja, e afirmam que elas (colunas) estão lá
até hoje (55).
Mas, por qual motivo teria adormecido a
Loja? É fácil de se explicar.
Cerca de 5.000 americanos sulistas
vieram ao Brasil, radicando-se na região de
Santa Bárbara, mas no correr de vinte anos
(uma geração), muitos deles, já idosos, foram
morrendo, e outros – embora poucos – voltaram
para os Estados Unidos. Os filhos dos imigrantes
iam casando, e comprando suas próprias terras
e casas em outras regiões, foram se mudando
para cidades próximas como, por exemplo:
Limeira, Capivari, Constituição (hoje Piracicaba),
Tatuí, Campinas, São Paulo, e mesmo para
outros estados.
Nessas condições a Washington Lodge,
trabalhando por um ritual diferente, desconhecido
dos maçons brasileiros, e em língua inglesa, não
mais dispunha de material humano suficiente
para a renovação de seu quadro. A freqüência
dos antigos membros, muitos residentes longe,
ia diminuindo, e no fim a Loja abateu colunas.
As Lojas Posteriores à Washington
Lodge
A Loja Phoenix - N. 30 (56)
A Loja Phoenix (57) nº 30 foi fundada aos
21 dias do mês de maio de 2003, na cidade de
Cacoal, Estado de Rondônia. No ato de fundação
foi composta a administração provisória tendo
como Venerável o Mestre Edson Osival Furlaneto;
1º Vigilante Júlio César da Rocha; 2º Vigilante
José Salviano de Matos; orador Fortunato Luis
Godoy; Secretário Ednelson Bega; Tesoureiro
Donizete Borges de Campos e Chanceler José
Corrente.
A Loja Phoenix nº 30  obedece à
jurisdição da Grande Loja Maçônica do Estado
de Rondônia(CMSB) – GLOMARON e seu nome
oficial é Augusta e Respeitável Loja Simbólica
Phoenix nº 30.  A sessão de fundação da Loja
Phoenix nº 30 participaram os Mestres Maçons
Luiz Agnelo Sicheroli; Arnaldo Vieira Fernandes;
Denivaldo dos Santos Paes; Edomênio Durval
Francisco da Silva; Julimar Lopes de Oliveira.
Carlos Alberto Bernardes; Carlos Roberto da
Silva; Vidal Macedo da Costa; Clodoaldo Franchi
Numes; Luiz Cláudio Soares Azambuja; Paulo
Negreiros Athaide Filho; Alberto Alves Teixeira;
Nelson Rangel Soares Filho; Oscar Gomes da
Silva; Ademir Alves Rodrigues; Paulo Fernando
Brasil; Sérgio Coaracy Pontes; Cleth Muniz de
Brito e Pedro Vitor Gomes.
A Loja Phoenix nº 30 trabalha no Rito York,
sendo a primeira Loja de Rondônia e a segunda
do Brasil a adotar o Rito York, sendo isto possível
através de intercambio maçônico com a Brazilian
Lodge nº 1182 Free  Accepted Masons.
Filiada a Grand Lodge of State of New York a
qual no processo de fundação da Loja Phoenix nº
30 foram fornecidos todos os rituais devidamente
traduzidos para a língua portuguesa e suporte
ritualístico pela diretoria da Brazilian Lodge nº
1182 na época  tendo como Worshipful Master
Colunas “B” e “J” da Washington Lodge
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 54
Paulo Koo.
A Loja Cavaleiros do Sol
A ARLS Cavaleiros do Sol nº 42 – jurisdição
da Mui Respeitável Grande Loja Maçônica do
Estado da Paraíba, foi fundada em 1º de janeiro
de 2000, na cidade de João Pessoa, capital
do Estado da Paraíba, com o intuito de pautar
seus trabalhos no Rito York. No entanto, por
informações (58) erroneamente repassadas,
a Loja sem saber, enveredou nos trabalhos
maçônicos pautados nos rituais de emulação.
Com o passar dos anos, os obreiros da
ARLS Cavaleiros do Sol, através do irmão Sergio
Roberto Cavalcante tiveram conhecimento
de que estavam trabalhando com os rituais
inadequados para o objetivo pelo qual a Loja
tinha sido fundada.
De posse dos rituais norteamericanos,
e depois de devidamente traduzidos (59), foi
constituída uma comissão (60) a fim de ajustar
os referidos rituais a realidade da jurisdição da
Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba, visto
que, muitos dos procedimentos neles existentes,
são embasados na legislação de cada Grande Loja
norteamericana, sendo totalmente incompatível
com a realidade da Maçonaria Nacional.
Depois da ARLS Cavaleiros do Sol, surgiram
outras Lojas York no Brasil e hoje estima-se ter-
se um efetivo de pelo menos 70 (setenta) Lojas
York trabalhando com os rituais norteamericanos.
Notas
(1) Não eram subordinadas a um poder central. Ou seja, a uma
Potência Maçônica como o é hoje.
(2) Nascido em 1672 e falecido em 1742.
(3) Supostamente, Dásaguliers teria sido iniciado na Loja Antiquity
nº 02, uma das quatro Lojas fundadores da Grande Loja de
Londres em 1717.
(4) Foi o último Grão-Mestre plebeu.
(5) Foi o primeiro Grão-Mestre de linhagem nobre.
(6) Esse Grão-Mestre foi expulso da Maçonaria sob a acusação
de ser Jacobita.
(7) Essa Grande Loja, reclamou para si, o título de “Grande Loja de
Toda a Inglaterra”. Encerrou suas atividades em 1740.
(8) Essa Grande Loja ficou conhecida como a “Grande Loja
dos Antigos”, porque seus membros alegavam que a Primeira
Grande Loja havia transgredido as antigas leis praticadas pela
Francomaçonaria.
(9) Grande Loja de Toda a Inglaterra.
(10) Grande Loja Sul do Rio Trent.
(11) Em 1778, O Irmão William Preston retorna à jurisdição da
Grande Loja de Londres.
(12) Era o Grã-Mestre dos Modernos, o Duque de Sussex. E era o
Grão-Mestre dos Antigos, O Duque de Kent. Ambos, eram irmãos
carnais. E o Duque de Kent propôs que seu irmão, o Duque de
Sussex, fosse o primeiro Grão-Mestre da nova Grande Loja.
(13) Ele está registrado como um maçom de uma Loja deAberdeen,
em 1670 e que emigrou para a América do Norte em 1682.
(14) Texto capturado do link: www.stjohnsboston1733.org e
traduzido pelo Irmão José Prudêncio Pinto de Sá – Mestre
Maçom(MI)
(15) King’s Chapel = Capela do Rei (N. do T. - JPPS)
(16) Eram Oficiais Generais, superiores, intermediários e
subalternos.
(17) Essas Lojas não eram certificadas pela a Grande Loja da
Inglaterra. Ao contrário, elas eram certificadas pela Grande Loja da
Irlanda, a qual oferecia os “Graus Superiores”, característicos da
Francomaçonaria Jacobina.
(18) O mais destacado Comandante Militar britânico da década
de 1740.
(19) Festa do Chá de Boston.
(20) Joseph Brant. Ele foi iniciado como francomaçom em 1776,
em Londres.
(21) Joseph Brant ou Thayendanegea, (março de 1743 - 24 de
novembro de 1807),foiummilitar indígena elíderpolítico americano.
Ele foi iniciado como francomaçom em 1776, em Londres.
(22) Mais tarde o 2º Batalhão de Infantaria Ligeira do Duque de
Corwaills.
(23) Mais tarde seria denominado de Leicestershire Regiment.
(24) http://freemasonry.bcy.ca/biography/webb_t/thomas_webb_
bio.html.
(25) Segundo Herbert T. Leyland , seu biografo.
(26) Grande Loja de Londres.
(27) 1751.
(28) Pode-se tomar a denominação por Rito.
(29) Também denominada de Guerra da Sucessão.
(30) O Exército Confederado ou Sulista, era composto pelos
Estados do Alabama, Arkansas, Carolina do Norte, Carolina do
Sul, Flórida, Georgia, Louisiana, Mississippi, Texas e Virgínia.
(31) Quit Placet
(32) Extraído do “Boletim Noticioso e Novidadeiro – Coletânea A
Bigorna – 2º volume nº 34 até 70” – p 99.
(33) Era o 3º filho da viúva Terrell.
(34) Era o 6º filho do Cel. William C. H. Norris.
(35) Era o 4º filho do Cel. William C. H. Norris.
(36) Era Reverendo da Igreja Metodista.
(37) Era Reverendo da Igreja Batista. Faleceu 15 de março de
1877.
(38) Era filho de Joseph Minchin.
(39) Era pai de Martha, esposa de Robert C. Norris.
(40) Falecido em 15 de março de 1877.
(41) Era médico.
(42) Era agricultor.
(43) Foi capitão do Exército Confederado.
(44) Era agricultor.
(45) Era ferreiro.
(46) Era agricultor.
(47) Era o 9º filho do Cel William C. H. Norris.
(48) Era o 6º filho do Cel. William C. H. Norris.
(49) Era agricultor.
(50) Era Reverendo e residia em Constituição(Piracicaba).
(51) Era agricultor.
(52) Whitaker era casado com a filha do Cel. William C. H. Norris,
Isabella.
(53) Era agricultor.
(54) Extraído do “Boletim Noticioso e Novidadeiro – Coletânea A
Bigorna – 2º Volume nº 34 até 70” – p 100.
(55) Segundo afirmação do Irmão Kurt Prober.
(56) A primeira Loja Simbólica do Brasil a pautar seus trabalhos no
autêntico Rito de York.
(57) http://www.lojaphoenix30.com.br/pagina.aspx?id=5
(58) Os primeiros rituais que chegaram as mãos dos Obreiros
da ARLS Cavaleiros do Sol, foram rituais de emulação, os quais
erroneamente aqui no Brasil, são tidos como se fosse o suposto
Rito de York.
(59) A tradução dos primeiros rituais, foi efetivada pelo respeitável
Ir José Prudêncio Pinto de Sá – Mestre Maçom(MI)
(60) Sergio Roberto Cavalcante (Presidente); Teldson Douetts
Sarmento (Relator)
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 55
Muitos têm sido os estudiosos da Arte
Real e maçonólogos em atribuir eras ou épocas
sobre a origem da Ordem Maçônica que acabam
por gerar linhas de raciocínio diferentes que
concorrem para intensificar dúvidas sobre esta
sublime Instituição.
A Ordem não tem vida em tempos
imemoriais, apesar de sobejamente divulgado
que ela se perde nas brumas do tempo. Contudo
existem, isso sim, princípios que esta absorveu
quando da sua codificação. Mesmo porque ao se
examinar mais detidamente as datas e situações
a ela atribuídas na Antiguidade, por vezes se
encontram incongruências.
Observando-se mais atentamente, verifica-
se que o Grande Arquiteto do Universo ou
Supremo Arquiteto do Universo -nesta última
nominação tem-se que nada existe acima dele-
, que é o Criador Incriado, através de diversos
enviados especiais foi manifestando todo um
conjunto de atos e fatos que acabaram por
fornecer as bases da Ordem Maçônica.
Esses enviados seriam os Luminares da
Antiguidade e dos Livros Sagrados, ressaltando
aqui também o que se encontra nos antigos
registros africanos do Egito e da Etiópia. É de
salientar que tais livros e registros não foram
escritos por esses enviados, mas sim por
escribas, que compilaram o que era transmitido
oralmente de geração em geração.
No caso do Egito, procura-se ali a origem
da maçonaria devido às pirâmides tão bem
construídas e alinhadas, tendo subterrâneos que
alguns consideram bastante similares à Câmara
de Reflexões. Talvez por isso, a imaginação
de muitos tenha sugerido a prática de rituais
iniciáticos dentro dessas construções misteriosas.
Alguns manuscritos, resgatados nos últimos
séculos, tais como o de Halliwell (ou Poema
Regius), o de Matthew Cooke, o de Dowland –
dentre outros- contribuíram com uma série
de informações de cunho fundamental para a
Ordem, mostrando que a Maçonaria se estribou
em códigos Morais e Divinos.
É de nosso entendimento que, apesar de
alguns maçons considerarem desnecessário ou
fora de propósito essa espécie de conhecimento,
a simples leitura de livros e manuscritos, sem a
descoberta do espírito do que ali está contido,
não tirará o Irmão de seu estado inercial com
relação a ele.
Feitas estas considerações, vamos voltar
nossa visão ao início da civilização com o
aparecimento do Homo Sapiens, a cerca de
A MAÇONARIA EM EVOLUÇÃO
Ir:. Claudio Luiz do Amaral Santini
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 56
Pedra Lascada (Getty Collection Galleries)
45.000 anos, e iniciar um processo evolutivo dentro do texto, utilizando os
conhecimentos que temos das sociedades primitivas atuais, aliados a nossa
imaginação, extraindo a partir daí um conjunto de deduções.
Os primeiros informes dos quais se têm notícia, que julgamos
importantes para o conhecimento da Arte Real em sua ótica operativa,
datam da Idade da Pedra, onde a pedra lascada nos remete ao Aprendiz
em seu desbaste da pedra bruta e produzindo o primeiro Cinzel que
usará para o autodesbaste. Logo a seguir vem a pedra polida, que já
nos remete ao Companheiro, polido e apto para os novos trabalhos e
estudos.
Outros informes podem ser retirados da Arte Rupestre, na qual
pode se entender estar materializado o planejamento num tosco
traçado na Pedra de Delinear (a rocha) ocasião em que se definiam as
estratégias da aquisição de alimento pela caça inicialmente e, logo
a seguir, pelo confinamento de animais domésticos ou do plantio,
tudo definido, provavelmente em algo similar a uma assembleia,
análoga a uma “câmara do meio”.
Nessa mesma época, houve outros fatos que, por analogia
antropológica, faz-nos entender que os primeiros códigos morais
foram transmitidos, tais como o comando para obtenção de
alimento pelo chefe da comunidade e a gestão da casa num
sistema matriarcal (1). Em ambas as situações, ali estão
Aprendizes acompanhando mas sem participação ativa, pois
não podiam ainda engendrar ou definir ações (não sei ler
nem escrever...). Os Companheiros também ali estavam já
desempenhando algumas tarefas que seus organismos e
habilidades permitiam.
Seguindo a mesma linha de raciocínio, foram nessa
Era definidas as hierarquias onde aquele que mais se
destacava pela força, porte físico (beleza) ou pelo
conhecimento desenvolvido (sabedoria) era aclamado
chefe da comunidade (Mestre), a ele cabendo a missão
de conduzir seu povo de modo mais seguro possível,
e pelos méritos alcançados era elevado a chefe maior
da comunidade (Venerável), que naquele contexto
tornava-se vitalício.
Terminadas as atividades, a comunidade se
reunia tendo os homens num círculo central, as
mulheres, os jovens e as crianças mais afastados e
então se relatava a todos o que acontecera naquele
dia e depois pedia a opinião de um membro mais
evoluído o pajé (Orador) que fazia as observações
necessárias e concluía pelo bom aproveitamento
da atividade e que todos podiam se retirar.
Nesse momento, poderia entrar em ação
outro membro da comunidade que, juntamente
com outro, ficava vigilante a tudo e consultando
se todos estavam satisfeitos; e ao receber essa
confirmação, comunicava ao Chefe maior que tudo
estava certo e o mandatário maior dizia a todos
para se recolhessem até a próxima atividade.
Nesse cenário propício aos sonhadores, o
Homem de Neandertal (2) teria provavelmente,
se se pode dizer assim, organizado a primeira
“Ordem Maçônica”. O interessante disso tudo é
que de acordo com o arqueólogo português JOÃO
ZILHÃO: “Os neandertais inventaram as práticas
simbólicas independentemente do homem de
anatomia moderna.”
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 57
E porque não admitir que os Homo sapiens e
os Homo neanderthalensis mantivessem acordos
e acertos que podem tê-los levado a práticas
ritualísticas que representassem seu dia a dia e
que provavelmente teriam ficado registradas em
figuras gravadas na pedra?
Mas como dito anteriormente, essa Era ficou
perdida nas brumas do tempo e somente com
muito esforço podem-se fazer ilações da origem
da maçonaria a partir daí. Mas certamente que
as informações dali, com o passar dos séculos,
foram sendo transmitidas e desenvolvidas, até
serem absorvidas nos conceitos e princípios da
Ordem Real.
De 20.000 anos até cerca de 6.000 anos
atrás não se tem conhecimento de transformações
ou informações maiores daquelas contidas
nas eras anteriores, e talvez só exista algum
aperfeiçoamento ou ajuste com a evolução do
Homo sapiens.
Note-se que não se tocou na figura do
Hominídeo porque estaria se buscando a origem
da Ordem a cerca de 4.000.000 de anos, o que
não teria qualquer consistência ou sustentação
plausível.
Tais considerações e inferências têm por
objetivo chegar ao entendimento de que o
nascimento da forma de se pensar a maçonaria
deve acompanhar, também, o desenvolvimento
da forma de se enxergar o conhecimento e a
transmissão deste. Neste caso, podemos abordar
tão somente esse desenvolvimento a partir do
momento em que o Homo sapiens começa a
registrar suas impressões.
No caso da tradição ocidental, quando
se ingressa na época pré-mosaica, outros
informes são trazidos para contribuírem com
a organização, em nosso tempo, da Ordem,
tais como os conhecimentos astronômicos dos
Caldeus e daqueles povos da “crescente fértil”.
Alguns séculos depois, serviram como
exemplo à Ordem a doutrina de Moisés e do
Antigo Testamento, que é composto de cerca
de 40 (3) livros escritos por vários autores,
conforme verificam os estudiosos do assunto,
além do próprio Moisés, porque naquela fase a
maioria dos códigos e normas eram sujeitos à
tradição oral.
Houve ainda outros profetas que também
trouxeram valiosas participações para o Antigo
Testamento -como Isaias, Jeremias, Elias- que
com diversos outros deixaram sua colaboração.
Alguns escribas copiavam esses escritos
e certamente incluíam suas próprias opiniões,
que eram por sua vez copiadas por outros que
também deixavam suas marcas. E tudo isto
focadamente num povo, o Hebreu, e também
com o foco nos 5 livros atribuídos a Moisés, o
Pentateuco (para os Judeus a Torá).
O Templo do rei Salomão -rei considerado
como um dos prováveis criadores da maçonaria-
serviu como inspiração e base para as dimensões
do Templo Maçônico. E nas Grandes Lojas, em
especial, podemos perceber de forma evidente a
colaboração dos salmistas.
Reunião de Aborígenes da Patagônia
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 58
Podemos considerar, também, a
contribuição para o crescimento do maçom as
obras sacras tais como o Rigveda dos Hindus,
o Tripitaka –o principal livro dos diverso textos
budistas-, o Alcorão Sagrado do Islã dentre
outros; e há cerca de 2.000 anos, as Parábolas
de Jesus (que não foram escritas por ele, mas
sim transmitidas oralmente), os Evangelhos de
João, de Marcos, de Mateus e de Lucas.
Cada evento desses, a seu tempo,
forneceu códigos, atos, fatos e costumes que os
organizadores da Ordem Maçônica coletaram e
compilaram para que se tivesse a Ordem como
a temos hoje.
Não podemos nos esquecer de mencionar
ensinamentos iniciáticos como o hermetismo, o
zoroastrismo na Pérsia, a iniciação Egípcia, as
escolas filosóficas gregas de Sócrates e Platão
-dentre outros- que trouxeram contribuições
valiosas para os organizadores da Ordem.
E como dizem os Tuaregs: “A caravana
caminha e passa”.
Quanto a textos de origem estritamente
maçônica, já na era Cristã por volta do século
X, revelaram-se na Inglaterra escritos que
apresentavam uma organização com as
características operacionais maçônicas, no
reinado de Athelstan (895-940), neto de Alfredo,
o Grande. Logo a seguir, em 936, a convocação
da Segunda assembleia pelo meio-irmão de
Athelstan, príncipe Edwin. Mas além de serem
controversos estes documentos, nada traz a
certeza de ali estar o marco inicial da Ordem
Real.
Moeda do Rei Athelstan (895-939 d.C.)
Em seguida surgem as Guildas (4), Os
Carbonários (5), Os Templários (6) (aqui citados
aleatoriamente), dentre outras organizações
não formaram a maçonaria mas contribuíram
para alguns de seus trabalhos, com exceção dos
Carbonários que são posteriores a organização
da maçonaria como conhecemos hoje.
Acerca das origens da maçonaria muitos
rios de tinta se gastaram e as mais fantasiosas
histórias foram escritas. Contudo, o historiador
Paul Naudon traduz numa frase enxuta e perfeita
sobre o assunto: “a francomaçonaria apresenta-
se como a continuação e a transformação da
organização dos mestres da Idade Média e do
Renascimento, na qual o elemento especulativo
tomou o lugar do elemento operativo”.
As preocupações caritativa, cultural,
iniciática e religiosas já faziam parte das
corporações dos mestres artífices, que por sua
vez estavam ligados a nobre arte da arquitetura
de respeitadas e ricas tradições simbólicas
e secretas, e nela se fundiam os princípios,
as execuções e origens da construção que
nos remetem aos Bizantinos, aos Caldeus,
aos Egípcios, aos Fenícios, aos Hebreus e aos
Romanos. Todo esse cadinho de arquitetura que
fundiu todo o corpus da civilização europeia e
nesta, e somente nesta, se pode ligar a Maçonaria
à remota Antiguidade.
E uma ligação direta com o passado,
só a encontramos no que diz respeito ao
corporativismo dos artífices; e seus enclaves
estão fortemente carregados de passagens
bíblicas. Eles tinham seus próprios patronos
e suas reuniões rituais, mas só como disfarce
cristão para coexistirem sob a proteção da
igreja, pois estavam fortemente ligados aos seus
mistérios e sua intensa solidariedade.
Pode-se afirmar com certeza que a
maçonaria atual teve sua origem quando as
quatro lojas londrinas The Goose and Gridiron
(“O Ganso e a Grelha”), The Crown (“A Coroa”)
ou The Queen’s head (“A Cabeça da Rainha”),
The Apple Tree (“A Macieira”) e The Rummer
and Grapes (“A Taça e as Uvas” ou “O Copo e as
Uvas”) se reuniram, em 24 de junho de 1717,
para fundarem a Grande Loja da Inglaterra, e
teve início o que chamamos hoje de Sistema de
Obediência da Francomaçonaria, sendo que as
novas lojas deveriam se vincular a essa nova
instituição, que passou a se chamar de Grande
Loja de Londres e Westminster.
As influências havidas aqui relatadas
foram mais intensas no Rito Escocês Antigo e
Aceito e em alguns ritos que derivaram deste
ou antecederam a este, que mantêm o Livro
Sagrado como uma das três luzes emblemáticas
da Ordem Real.
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 59
Mesmo assim são fortes as influências do
passado remoto, dos Templários e do Judaísmo
Bíblico como citam o Grêmio Fénix (GOL, Lisboa):
É certo que não deixa de
impressionar, na cristalização maçónica
de hoje, a existência de todo um conjunto
de elementos que lembram a organização
das ordens da cavalaria e, sobretudo, o
ideário dos Templários. Grande parte do
vocabulário maçónico está ligado, por sua
vez, ao judaísmo bíblico. Parece, todavia,
que esta associação se deve mais à
influência que os Templários exerceram
na construção civil e religiosa e nas
próprias corporações dos pedreiros do
que a uma ligação direta entre Ordem do
Templo e Ordem Maçônica. Não convém
esquecer que boa parte dos rituais, ditos
escocês e francês, com sua complexa
emblemática, foi «inventada» no século
XVIII nas cortes e salões aristocráticos
da Alemanha, França e Inglaterra.
As corporações dos pedreiros,
como muitas outras, podiam aceitar no
seu seio determinadas pessoas que,
em rigor, lhes estariam à margem. Era
o caso de estrangeiros, de clérigos, de
agregados à profissão, de personalidades
desejosas de se integrarem ou de
utilidade à corporação. Já desde o século
XV, por exemplo, que as corporações
maçónicas escocesas tinham impetrado
do rei o privilégio de terem à sua frente,
como “grande mestre”, um nobre de boa
linhagem, hereditário. No século XVII,
muitas lojas de pedreiros britânicas
foram reorganizadas segundo o modelo
das academias italianas. Estes maçons
aceitos tornaram-se, com o andar dos
tempos, tão numerosos que imprimiram
à corporação de que faziam parte uma
face completamente diversa da anterior.
Nas corporações onde tal começou a
acontecer, o elemento operativo foi
cedendo o lugar ao elemento especulativo.
Uma transformação deste tipo
Maçons Operativos trabalhando em uma construção
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 60
levou centenas de anos a completar-se.
E só na Grã-Bretanha, onde a tradição
corporativa - como tantas outras tradições
- se manteve sem desfalecimento até ao
século XVIII, foi possível às antigas lojas
de pedreiros operativos converterem-
se, por completo, em lojas de pedreiros
especulativos, mantendo, não obstante,
o prestígio e o relevo social do passado.
Só na Grã-Bretanha também, se
conservaram o simbolismo e o ritual
de tempos remotos, enriquecidos - e,
não poucas vezes, deturpados - pela
continuidade secular da sua prática.
Não insistiremos em colocações dos trechos
e histórias que a maçonaria estruturou em sua
organização, como dito, de fortes influências
morais e dogmática hebraica e egípcia -esta
principalmente da época dos Hicsos no baixo
Nilo, que tem a caracterização do seu arquiteto
primeiro Hiram Abif e no Julgamento de Osiris.
Como confirmação de que a Ordem inseriu
em seu arcabouço simbólico filosófico de linhas
da antiguidade tem-se passagens com Kong-Fou-
Tse (Confúcio), Zaratrusta, Gautama (Buda),
Moisés, Hermes Trimegisto, Platão, Jesus de
Nazareth, Maomé (o Profeta) e o Eterno. Este
último em uma suas manifestações assim se
comunica: “Os Judeus esperam o Messias; os
Mulçumanos, o Hahdi; os Cristãos milenários, a
volta do Cristo; os Budistas, Matreya, o próximo
Buda; os Hindus, o avatar de Vixnu que se
encarna de tempos em tempos para o triunfo dos
bons e destruição dos maus. Tenho todos esses
nomes e outros ainda mais, porque a cadeia
hermética nunca foi quebrada.”
Concluindo, não se acredita haver esgotado
totalmente este assunto, mas com certeza para
os acompanhadores do Rito Escocês Antigo e
Aceito não restarão dúvidas de que a Ordem se
estruturou sobre as culturas mais antigas que
o homo sapiens sapiens (homem moderno) tem
conhecimento, havendo ainda participação da
espiritualidade em quase todas suas ações.
O espírito investigativo do obreiro é
incansável e estará sempre atento a qualquer
informação oriunda de fonte plenamente confiável
e como sua missão é a evolução e o bem estar
da Humanidade, quando o GADU desvendar-lhe
ainda mais ele estará apto a novas incursões
neste vasto cabedal de simbolismo e filosofia.
Maktub (já estava escrito).
BIBLIOGRAFIA
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ed. Revista e ampliada. Direitos cedidos com
exclusividade para a língua portuguesa em todo o
mundo a © PAULUS – 2002.
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Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 61
NOTAS
1 James Frazer, J. J. Bachofen, Walter Burkert, Robert Graves,
James Mellaart e Marija Gimbutas desenvolveram a teoria segundo
a qual todas as divindades da Europa e da bacia do Mar Egeu são
oriundas de uma deusa matriarca pré-indo-europeia ou proto-indo-
europeia(Neolítico).Segundoessesestudiosos,areligiãodaDeusa
mãe era a base de toda a Pré-história e das civilizações antigas, e
a Deusa seria o fundamento sócio-religioso do matriarcado, que se
mantém ainda hoje entre povos tão diferentes como os tuaregs e
os iroqueses das ilhas Trobriand 2 , os Minangkabau da Indonésia
ou os comorianos.(Library of Congress Country Studies. “Comoros
- Status of Women”.)
2 O homem-de-neandertal é uma espécie extinta, fóssil, do gênero
Homo que habitou a Europa e partes do oeste da Ásia, de cerca de
300 000 anos atrás até aproximadamente 29 000 anos atrás, tendo
coexistido com os Homo sapiens.
3 A quantidade de livros do Antigo Testamento varia conforme a
religião. A Católica adota 46 livros, enquanto que a Protestante
adota39,talcomoocânonejudaicoquecomeçouaserestabelecido
no concílio rabínico de Jamnia (aprox.. 96 d.C.). Outras religiões
adotam outros cânones (Ortodoxa Russa, Copta, Etíope).
4 Chris Knight e Robert Lomas iniciam seu Trabalho ressaltando
ser a Maçonaria uma Instituição tradicional, voltada ao
aperfeiçoamento do indivíduo e da sociedade, sob os auspícios de
Deus ou Grande Arquiteto do Universo. Ao contrário das religiões
formalmente estabelecidas, não há na Maçonaria qualquer
referência a entidades ou divindades “das trevas”: é a única
Instituição radicalmente Monoteísta do Ocidente.
Qual seria a sua origem?
Deprontodescartamahipótesesegundoaqual,antesdeformalizar-
se na Inglaterra no dia 24 de junho de 1717, a Maçonaria ter
origem exclusiva ou principal nas guildas de pedreiros medievais.
Apresentam 3 motivos para esta conclusão:
- Todas as Corporações de Ofício de Pedreiros Medievais recebiam
as bênçãos da Igreja Romana o que seria impensável para a
Maçonaria. Ficava-se por vezes uma vida inteira, por exemplo,
na construção de uma grande Catedral, tornando desnecessários
códigos de reconhecimento. Quanto à profissão, se alguém
alegasse ser pedreiro sem o ser, sua inabilidade o denunciaria
rapidamente.
-AsAntigas Obrigações (Old Charges) da Maçonaria estabelecem,
por exemplo que “nenhum irmão deve revelar qualquer segredo
legítimo de qualquer outro irmão se isso puder lhe custar a vida ou
as posses”. Somente por excomunhão alguém poderia correr este
risco naquele tempo. Hereges eram excomungados. Que atividade
de construção poderia conduzir pedreiros cristãos à condenação
por excomunhão? Mais lógico concluir serem Cavaleiros em
fuga – os Templários em cujas cores, símbolos e costumes há
tanta reminiscência na Maçonaria. Há ainda, nas Old Charges
a proibição peremptória de um irmão relacionar-se sexualmente
com qualquer mulher da família de outro irmão. Cavaleiros em fuga
que solicitassem proteção precisariam deste cuidado, sem dúvida!
Mas o que poderia impedir um pedreiro, por exemplo, de casar-se
com a irmã de outro? Há mais, nas Old Charges, mas atenho-me
à mais chocante: entre maçons sempre se contaram muitos reis
e nobres. O que conduziria reis e nobres a aprender normas de
comportamento moral com humildes pedreiros?
- O argumento apresentado como “definitivo” pelos Autores é o fato
de nunca ter havido guildas de pedreiros na Inglaterra, berço da
Maçonaria.
5 A Carbonária foi uma sociedade secreta e revolucionária
que atuou na Itália, França, Portugal e Espanha nos séculos
XIX e XX. Fundada na Itália por volta de 1810, a sua ideologia
assentava em valores libertacionais e fazia-se notar por um
marcado  anticlericalismo. Participou nas revoluções de 1820,
1830-1831 e 1848. Embora não tendo unidade política, já que
reunia monarquistas e republicanos, nem linha e ação definida, os
carbonários (da italiano carbonaro, “carvoeiro”) atuavam em toda
a Itália. Reuniam-se secretamente nas cabanas dos carvoeiros,
derivandodaíseunome.Foisugeridoqueoespargueteà carbonara
foi por eles inventado. Inventaram uma escrita codificada, para uso
em correspondência, utilizando um alfabeto carbonário.
Durante o domínio napoleónico, formou-se em Itália uma
resistência que contou com membros de uma organização
secreta – a Carbonária. A carbonária tinha uma organização
interna semelhante à da Maçonaria, com a qual, aliás, tinha
algumas afinidades ideológicas (combater a intolerância religiosa,
o absolutismo e defender os ideais liberais) e esteve aliada em
certos momentos, havendo mesmo elementos que pertenciam às
duas organizações. Surgiu em Nápoles, dominada pelo general
francês Joaquim Murat, cunhado de Napoleão Bonaparte. Lutava
contra os franceses, porque as tropas de Napoleão haviam iniciado
uma espoliação da Itália, embora defendessem os mesmos
princípios de Bonaparte.
Com a expulsão dos franceses, a Carbonária queria unificar a Itália
através de uma revolução espontânea da classe trabalhadora,
comandada por universitários e intelectuais, e implantar os ideais
liberais.
Os membros da Carbonária, principalmente da pequena e média
burguesia, tratavam-se por primos. As associações da Carbonária
tinham uma relação hierárquica. Chamavam-se choças (de menor
importância), barracas e vendas, sendo estas as mais importantes.
As vendas, cada uma contendo vinte membros, desconheciam
os grandes chefes. Todas as orientações eram transmitidas por
elas. Havia uma venda central, composta por sete membros, que
chefiava o trabalho das demais. A Carbonária não tinha nenhuma
ligação popular, pois como sociedade secreta, não anunciavam
suas atividades. Além disso, a Itália era uma região agrícola e
extremamente católica, com camponeses analfabetos e religiosos,
Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 62
que tradicionalmente se identificavam com ideias e chefes
conservadores.
6 Em meados do século XIV, os Templários foram perseguidos
por toda a Europa, e sua ordem de fato foi dissolvida. No entanto,
esses cavaleiros nunca foram excomungados pela Igreja de Roma.
Criada em 1119 pelo francês Hugo de Payens, a Ordem dos
Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, ou
simplesmente Ordem dos Templários, foi concebida com a função
de proteger os peregrinos que partiam para Jerusalém durante o
período das Cruzadas. Cerca de dois séculos depois, o grupo já
era considerado uma potência militar, ostentando um contingente
de aproximadamente 15 mil homens, e financeira. Os cavaleiros
estavam entre os principais proprietários de terras do período,
donos de numerosos feudos e de uma rede própria de mosteiros. 
A ordem mantinha negócios com todos os grandes senhores da
Europa medieval, além de constantemente emprestar dinheiro
para a Igreja e gerir alguns de seus bens. Entre seus “clientes”
estavam figuras ilustres como o rei João I da Inglaterra (1166-1216)
e Filipe IV, o Belo (1268-1314), soberano da França e principal
artífice da destruição dos Templários. Sua ofensiva contra a ordem
tinha dois objetivos: a ampliação dos domínios do reino francês e o
enriquecimento de seu Tesouro.
Na manhã do dia 13 de outubro de 1307, uma operação lançada
secretamente pelo conselheiro real Guilherme de Nogaret resultou
na prisão de todos os Templários da França. Os membros da
ordem foram interrogados sob tortura e entregues aos inquisidores
dominicanos, que os condenaram por heresia, apostasia
(afastamento da doutrina pregada pela Igreja), idolatria e sodomia.
Alguns foram condenados à morte na fogueira. Chocado com as
confissões obtidas pelos lacaios de Filipe IV, o papa Clemente
V (1264-1314) determinou a prisão de todos os Templários da
cristandade.
Criaram-se comissões eclesiásticas para investigar os membros
da ordem, e, em 1311, um concílio se reuniu na cidade francesa de
Vienne para avaliar as informações coletadas e julgar os cavaleiros.
A culpabilidade do grupo ficou longe de ser uma unanimidade, e
alguns dos presentes propuseram que ele fosse reformado, não
abolido. Temendo um conflito com o rei da França, Clemente V
demorou a tomar uma decisão.
Finalmente, em meados de 1312, o papa foi informado de que
Filipe, o Belo, estava marchando em Lyon com o seu exército.
Vencido pelo medo, o pontífice assinou no dia 3 de abril a bula Vox
in excelso, simplesmente suprimindo a Ordem do Templo, sem
condená-la. Outra bula, chamada deAd providam, decretou que
os bens do grupo fossem transferidos para os beneditinos da
Ordem de Malta. Por fim, uma terceira bula anunciou que o papa
se encarregaria de julgar os acusados, mas eles não seriam
excomungados.
Em países como Inglaterra, Espanha, Portugal e Alemanha, os
Templários foram inocentados. Na França, absolveram-se aqueles
que reconheceram seus erros. Assim, Filipe IV fracassou em seus
planos de espoliação total dos bens dos Templários em proveito
próprio. No entanto, o rei francês conseguiu prender o grão-mestre
Jacques de Molay, que foi queimado vivo em Paris no dia 19 de
março de 1314.

Revista Lapideias (Estudos Maçônicos)

  • 1.
    O NÍVEL MAÇÔNICO:UMA MISSÃO DE NIVELAÇÃO OU DE UNIÃO? John Deyme de Villedieu PortoVelho-Rondônia-Brasil-AnoI-N.º0-EdiçãodoVerãode2013 EdiçãoInauguraldaPrimeiraRevistadeEstudosMaçônicosdaGrandeLojaMaçônicadoEstadodeRondônia A MAÇONARIA EM EVOLUÇÃO Cláudio Santini ASPECTOS SIMBÓLICOS DO TRABALHO EM CANTARIA Roger Avis AS ORIGENS DO RITO YORK Hugo Borges e Sérgio Cavalcante ORIGEM E FONTES DO RITUAL SCHRÖDER Hans Heinrich Solf À G.·. D.·. G.·. A.·. D.·. U.·.
  • 2.
    PODER EXECUTIVO DAGLOMARON Grão-Mestre: Juscelino Moraes do Amaral Grão-Mestre Adjunto: Antônio Alves Pereira DELEGADOSDOGRÃO-MESTRADOPORJURISDIÇÃO Delegado da 1ª Região: Mário Leme da Rocha Junior Delegado da 2ª Região: Nilton Edgard Mattos Morena Delegado da 3ª Região: Edson Vinicius Alves Delegado da 4ª Região: João Carlos Veris Delegado da 5ª Região: Edson Aleotti Delegado da 6ª Região: Jaime Clemente Oberdoerfer Delegado da 7ª Região: Lourival Da Lamarta Delegado da 8ª Região: Pedro José Bertelli Delegado da 9ª Região: João Carlos Volpato Delegado da 10ª Região: Afonso Soares de Albuquerque GRANDES SECRETARIAS EXECUTIVAS Relações Interiores: Deivison Russi Relações Exteriores: Edson Ramos Finanças: Claudio Aparecido Pinto Coordenação e Planejamento: Wladmir José Carranza Publicação e Divulgação: Luiz Carlos Araújo dos Santos Relações Publicas: Noilson Neviton de Souza Bibliotecário: Carlos Alberto da R. Nogueira Historiador: Gilberto Carlos Cantarelli Informática: Jairo Tschurtschenthaler Costa Relações Para-Maçônicas: Antônio Porphirio P. dos Santos Administração e Patrimônio: Itamar José Ferreira Ritualística: Aldino Brasil de Souza ÍNDICE PALAVRA DO GRÃO-MESTRE 3 EDITORIAL4 O NÍVEL MAÇÔNICO: UMA MISSÃO DE NIVELAÇÃO OU DE UNIÃO? 5 A vertical, garante da horizontalidade 5 O estabelecimento da horizontal 7 O aplainamento como matrimônio unificador 10 Maçonaria Operativa e Maçonaria Especulativa 13 ASPECTOS SIMBÓLICOS DO TRABALHO EM CANTARIA13 As ferramentas do Canteiro 14 Relações analógicas entre a cantaria e o trabalho interno 15 Aspectos práticos de como trabalhar literalmente à pedra bruta 17 Conclusão: Iniciações nos mistérios menores e maiores19 ORIGEM E FONTES DO RITUAL SCHRÖDER 21 AS ORIGENS DO RITO YORK41 A Grande Loja de Londres 41 Os primeiros maçons da américa do Norte 43 Saint John’s Lodge - a primeira Loja das Américas 44 Os maçons Ingleses e Americanos na Independência dos Estados Unidos 46 O Rito York no Brasil 50 Os membros Fundadores 51 As Lojas Posteriores à Washington Lodge 53 A MAÇONARIA EM EVOLUÇÃO 55 Bibliografia 60 E-Mail para contato: lapideias@gmail.com Salientamos que as matérias aqui publicadas foram examinadas e não encontramos qualquer sinal de cópia não referida ou plágio. Caso haja alguma reclamação sobre este motivo, favor entrar em contato com o Editor desta revista, através do e-mail acima mencionado, inserindo material probatório, que nos comprometemos a fazer a retificação possível. Cabe lembrar que esta revista é de distribuição gratuita, e que não se aufere nenhum lucro com sua distribuição, e que não temos intuito de inserir propagandas comerciais objetivando com isto conseguir numerário para sua edição. Todos os que nela trabalharam o fizeram gratuitamente, sem o intuito de constituir, com isso, alguma renda. Caso se interesse em colaborar com a revista, através de matérias -dentro da proposta acima apresentada, ou de perguntas, entre em contato conosco para examinarmos o material proposto. O Editor
  • 3.
    Grande Loja semanifesta sobre o 7 de setembro: Independência do Brasil 13/09/2013 Mais de 200 maçons e jovens das ordens “Demolay” e “Filhas de Jó” participaram na noite do último sábado, do desfile de 7 de setembro, em Porto Velho. Os maçons desfilaram com seus paramentos utilizados nas sessões, e levaram para o desfile um pouco da história da participação da Maçonaria no processo que culminou com a independência do Brasil. O desfile dos maçons no dia 7 de setembro faz parte da proposta da Grande Loja Maçônica do Estado de Rondônia de aproximar a Maçonaria das comunidades e também serve para mostrar que a instituição tem uma participação importante na construção de uma sociedade mais justa e mais humana. A Maçonaria esteve presente nos grandes acontecimentos da história brasileira, especialmente naqueles que buscavam garantir ao povo brasileiro a liberdade inexistente no período colonial. Desde então, inúmeros projetos sociaisvêmsendodesenvolvidospelaMaçonaria, sempre contribuindo com o desenvolvimento humano e a melhoria da sociedade. A independência do Brasil tem um significado especial para nós, maçons, pois a Maçonaria teve participação decisiva no movimento, quando propôs, em uma sessão, que se conferisse ao Príncipe D. Pedro I, o título de “Protetor e Defensor Perpétuo do Brasil”. D. Pedro aceitou o título, propondo apenas a supressão do termo “Protetor”. Os maçons, habilmente, arquitetaram o desenrolar do 7 de setembro de 1822, lançando a idéia da convocação de uma Constituinte, cujo projeto foi redigido por Gonçalves Ledo e José Bonifácio, o patriarca da Independência. Na tarde de 7 de setembro de 1822, às margens do Ipiranga, D. Pedro atendeu às recomendações através do Manifesto de Gonçalves Ledo, e o grito, “Independência ou Morte”, foi a denominação de uma das “palavras” da sociedade secreta. No desfile de 7 de setembro, em Porto Velho, os maçons, bem como os jovens Demolays e Filhas de Jó, são saudados pelas autoridades e aplaudidos pela população que reconhece a história de nossa instituição e luta pela construção de uma Sociedade mais justa e perfeita com a trilogia Liberdade, Igualdade e Fraternidade entre os povos e nações. JUSCELINO AMARAL GRÃO- MESTRE DA GLOMARON PALAVRA DO GRÃO-MESTRE
  • 4.
    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 4 EDITORIAL Já se disse que João Batista vivia pregando no deserto... no deserto do coração dos homens. Nós, tendo João Batista como nosso exemplo, mentor da Maçonaria Simbólica, devemos nos per- guntar o quanto de deserto carregamos em nossos corações. A partir deste momento é racional que se faça uma pergunta para que nós todos meditemos sinceramente: quem afinal é isento de uma missão espiritual? Estabeleçamos, desde já que a reli- gião não monopoliza a espiritualidade, que há aspectos espirituais não religiosos, não mistificado- res, não ocultistas ou fantasiosos, que a maçonaria faz por bem estudar e praticar, ainda que os indique através de outros nomes, como caridade, ou amor fraternal, não importa. No entanto, na atualidade, quase infértil de oásis a fertilizarem as areias deste mundo, perce- bemos muitas vezes que os sonhos e ideais dos homens são castigados pelos ventos do materialis- mo, e o cotidiano vai martelando implacável, até levar grande parte da humanidade, inclusive muitos filhos da viúva, à mais completa afasia. No entanto, há o conhecimento... eis a chave! A chave que abre o cofre onde está guardado um novo universo, cujo aroma rescende à primeira terra molhada pela chuva que lembramos da infân- cia. E tal qual descascar uma cebola, ou se guiar por um fio através de um labirinto aparentemente inextricável, pouco a pouco podemos retornar ao núcleo e despertarmos para o que somos e o que devemos fazer. Eis o conhecimento. O amor... eis a ferramenta! Qual Irmão se sente isento de uma missão espiritual? Qual maçom estaria isento, após receber a Luz, de trabalhar para um mundo melhor? Será que não temos com- promissos com o nosso próximo e podemos deixá-lo sem nosso zelo constante, pois sabemos que outros se encarregarão dele e de seu bem? Esta Revista não foi criada para aqueles que buscam se encher das coisas mundanas, achan- do-as suficientes para sua existência. Esta pequena revista existe para aqueles que têm sede de conhecimento. Foi construída sobre o alicerce do estudo; e se sua débil aparência material possa impressionar desfavoravelmente aos olhos de alguns, ainda assim ela foi construída sobre o caráter daqueles que também consideraram uma missão expressar uma mensagem de conhecimento para estas paragens e –por que não dizer?- para humanidade. Você, que nos lê, é também o artífice desta obra. E caso ainda não tenha colaborado direta- mente, ou indiretamente -o que poderá acontecer num futuro próximo- ainda assim, só o fato dessa mensagem chegar a um emissor, você, isso o torna o maior colaborador que temos! Portanto, queremos que você, leitor, saiba que esta revista existe tal qual uma Loja, onde reno- vamos nosso compromisso com um mundo melhor, a começar de nosso mundo interior, bastião de qualquer outra mudança que queiramos proceder. Esta revista foi criada para este raro tipo de homem, que está em extinção na atualidade, mas que ainda encontramos em nossos trabalhos: O homem que tem um ideal! Que não se conforma com a existência mesquinha, onde números, cifrões e preocupações são o mais importante, mas que busca uma solução, através do estudo de si mesmo, para galgar os degraus da do autoconhe- cimento, que costumamos chamar “escada de Jacó”. Boa leitura, e muito grato! O Editor
  • 5.
    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 5 A vertical, garante da horizontalidade O Nível, na Franco-Maçonaria, parece-nos sobretudo conhecido como o instaurador da horizontal e, por isso, como o símbolo complementar da Perpendicular, ou Prumo, que, do mesmo modo, determina a vertical. Pode [ser] que isto explique o que as significações que com freqüência se evocam, até hoje em dia, a propósito do Nível, sejam uma lembrança daquilo que o século XVIII em seus últimos anos via, com uma predileção sincera ou oportunista, na horizontalidade. Desta maneira, segundo um “catecismo” dado por um ilustre Maçom antes da guerra, o Nível “tende a nivelar as desigualdades arbitrárias” (1). E o Simbolismo é em nossos dias unanimemente desconhecido (2), até o ponto em que outro autor, em seu Dicionário, consagra ao Nível uma linha e meia para nos dizer que esta ferramenta “simboliza a igualdade”. É curta, e, sobretudo, em razão de certos hábitos mentais de nossa época, um pouco equivocada. O nivelamento tem tanto êxito depois de vá- rios séculos, que fez perder de vista, em sua fú- ria por achatar tudo, [inclusive] a própria origem da palavra, quando esta origem, como se verá, revela muito bem a significação e, além da le- tra, o espírito. Mas não só a linguagem esclarece coisas. O próprio instrumento, que serviu de mo- delo ao símbolo (3), parece-nos igualmente mui- to revelador caso se preste atenção à maneira como está constituído. Efetivamente, ele se com- põe de um esquadro cujos braços estão unidos por uma barra transversal, e de um prumo que desce do ápice de tal esquadro: é no momen- to em que o prumo se situa defronte à “linha de fé”, marcada na barra, que o Nível certifica a ho- rizontalidade que tem como missão assegurar. Desta maneira, se esta ferramenta permite obter a horizontal, ela facilita, além disso -e acima de tudo, a vertical, parecendo assim mais comple- ta que o Prumo, como por outra parte numero- sos autores o têm feito observar. Mas, então, o que poderia surpreender é que, até admitindo O NÍVEL MAÇÔNICO: UMA MISSÃO DE NIVELAÇÃO OU DE UNIÃO? JOHN DEYME DE VILLEDIEU
  • 6.
    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 6 esta superioridade, considera-se que a vanta- gem dada ao Nível, com relação ao Prumo (4), é devida tão somente ao fato de que estabelece a horizontalidade, enquanto que o Prumo dá a vertical. Perguntamo-nos qual pôde ser o motivo que faz com que se atribua esta preeminência a uma mais que a outra destas direções, o que vai contra à ordem hierárquica habitualmente re- conhecida? Deve-se a esta ânsia “democrática” de nivelar indiferenciadamente tudo, segundo o método confusionista, antes da subversão total? Entretanto, os mesmos dicionários “profa- nos”, que são pouco suspeitos de preocupações esotéricas, deixam entrever a verdadeira signi- ficação do Nível e, portanto, o mistério de sua função. Sem dúvida, num certo sentido, que parece predominante para muitos hoje em dia, nivelar é igualar; trata-se de por tudo no mesmo plano; é fazer tábula rasa do excepcional; em suma, nive- lar por baixo. Em qualquer caso, isto é o que se faz com os trabalhos de nivelamento das terras com toda a brutalidade ininteligente e antiestéti- ca da técnica moderna, e não é surpreendente que nossos contemporâneos, muito mais pene- trados de materialismo do que geralmente se imaginam, retenham do nivelamento, sobretudo, o ato aplanador de algo. Na realidade, nivelar não só é aplainar, mas também, como diz o [dicionário] Robert, “medir as alturas comparativas dos diferentes pontos de um terreno com relação a um plano horizontal dado”. Não se pode atuar sobre as coisas pas- sando sobre elas ou as esmagando, mas sim observando o mundo ao redor, assinalando as linhas características e o relevo. Também, no sentido de aplainar, é unificar, quer dizer unir, embora o dicionário reconheça que este último termo, no sentido de aplainar, tornou-se estra- nho [N.T. - o autor se refere ao sentido encontra- do na língua francesa]. Unir é realizar a unidade, com o qual fica manifesto tudo aquilo que separa esta significação de terreno aplanador do qual partimos (5). Quando se trata do Nível, as definições es- tão de acordo em reconhecer que seu papel con- siste em verificar a horizontalidade de um plano; e é para isto que serve na prática da maçonaria. Mas, caso se deseje aprofundar na significação simbólica, é conveniente entrar em certos deta- lhes cuja evidência é inegável sem dúvida, em- bora os espíritos distraídos e enfastiados de nos- sa época tenham perdido o costume de tomá-los em consideração. Na realidade o Nível tão somente permite estabelecer se dois pontos de uma superfície se encontram à mesma altura, ou se não se en- contram; e o importante é que isto se faz graças a seu prumo que, como dizíamos mais acima, coincide ou não, sobre sua barra transversal, com a marca chamada “linha de fé”. Quer dizer que a verificação da horizontalidade se opera obrigatoriamente [em relação] à vertical. Há aqui um ponto que quereríamos estabe- lecer e que não recordamos havê-lo visto assi- nalado com a insistência necessária, apesar de ampliar e elevar singularmente as significações da “ferramenta” que estamos estudando. O Ní- vel, efetivamente, em seu domínio próprio, é o equivalente da Balança, como o indicam noto- riamente seus nomes latinos respectivos libella (6) e libra, onde o primeiro não é mais que o di- minutivo do segundo. Por outra parte, a palavra “nível” (7) provém da raiz libr-, que comporta a ideia de pesagem, com o que a “ferramenta” ma- çônica, em sua significação simbólica, tem proxi- midade com a Balança. O que é interessante, no que se refere ao Nível maçônico e à Balança tradicional, é que no caso de se tratar de estabelecer a horizontal, é [somente] com a ajuda da vertical que poderá fa-
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 7 zê-lo, o que assinala com nitidez a preeminência desta vertical. Deste modo, é no mínimo curio- so constatar que é o inverso o que ocorre nas balanças modernas, porque neste último caso o rigor da pesagem depende -acima de tudo- da exata horizontalidade do plano sobre o qual estão colocados estes aparelhos, como se, até “aleatoriamente”, a produção de nossa moder- na civilização estivesse destinada à subversão. Pelo contrário, a preeminência da vertical sobre a horizontal ainda era respeitada nas antigas ba- lanças, como a que se encontra pendurada na parede da Melancolia de Dürer. Efetivamente, a horizontalidade do braço se verificava pela ver- ticalidade da agulha que se encontra fixada em ângulo reto e que, para ser vertical, devia tomar a mesma direção que o suporte onde repousava o braço, ele próprio suspenso em um ponto fixo e que, como o prumo do Nível, é o garante da verticalidade e, consequentemente, de uma justa horizontalidade. Melancolia - Dürer Estando bem estabelecida a preeminên- cia da vertical quanto a sua necessidade para [a existência] de uma justa “pesagem” da horizon- tal, é interessante recordar que, tradicionalmen- te, esta vertical é o símbolo da Vontade do Céu. Esta, para o entendimento humano, pode to- mar o aspecto de uma força descendente e que “pesa” sobre o destino humano, mas também -e ao mesmo tempo, o aspecto de uma força as- cendente por sua atração; estas forças, que se exercem simultaneamente, representariam bas- tante bem a Justiça rigorosa e a Misericórdia da Árvore Sefirótica, respectivamente. A Vontade de que se trata é por outra parte conforme a “Ati- vidade do Céu”, que parece descender, como a Graça, mas que na realidade incita à elevação (8). Conviria agora estudar o que do ponto de vista simbólico significa a verificação e, de fato, a instituição efetiva (9) da horizontal pela graça da vertical (10). Resulta, efetivamente, que o ver- dadeiro papel do Nível, na arte maçônica, não se limita a constatar uma diferença de altura entre dois pontos, mas sim consiste em reduzi-la, até fazê-la desaparecer. O estabelecimento da horizontal Partindo do fato já estabelecido de que a finalidade do Nível não é nem uniformizar nem achatar, mas sim aplainar, unificar, e, portanto, de unir, existe um meio para tentar compreender no que consiste verdadeiramente a instituição da horizontalidade. Para isso é suficiente ater-se às significações da pesagem levada a termo pela Balança, vocábulo de que vimos em latim sua equivalência etimológica com o Nível. No comércio, para realizar uma pesagem, antigamente ficava em um prato da balança cer- to peso estabelecido pelo pedido do cliente, e no outro prato fragmentos da mercadoria desejada até que esta “fazia o peso”. O ideal que a mer- cadoria escolhida devia alcançar era, em conse- qüência, da ordem quantitativa. No entanto, isso
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 8 Os antigos arquitetos e artesãos egípcios usaram o nível triangular e prumo nível para garantir que todas as superfícies de construção eram niveladas e perfeitamente aprumadas. Do túmulo de Sennedjem veio um conjunto dessas ferramentas, incluindo uma haste com a me- dida do côvado real, um nível de triângulo, dois prumos de chumbo, dois esquadros, e várias outras peças. Sennedjem pode ter usado esses instrumentos para a construção e decoração dos túmulos de Seti I e Ramsés II no Vale dos Reis, bem como do próprio lugar onde ocorreu seu esplêndido enterro. Este nível de triângulo é construído de dois pedaços diagonais de madeira unidas em ângulo reto, com um pedaço horizontal entre os dois. O prumo na forma de um coração é suspenso por um fio a partir do topo do ângulo recto, quando o nível está colocado sobre uma superfície plana, a corda do prumo iria ficar exatamente no meio das marcas de incisão no centro da peça horizontal. Se a superfície não fosse devidamente nivelada, o prumo, então, indicaria as correções necessárias. A inscrição, que gira em torno do triângulo pede ao deus Ptah e Re-Horakhty-Atum-Hemiunu para o enterro e benefícios em vida após a morte para o ba de Sennedjem. (O Museu Egípcio, no Cairo) go Egito, e a prova está na arte da Idade Média cristã, onde algumas iluminuras [imagens ilu- minadas] testemunham que a Europa, naquele tempo, conhecia o simbolismo da psicostasia. Observamos então que a Balança, consi- derada em seu sentido material ou em seu sen- tido espiritual, tem por função medir a adequa- ção de uma coisa a seu modelo, caso se trate da adequação de certa quantidade de farinha ao peso exigido, ou da adequação de uma alma à exigência da Justiça equilibrante. Compreendendo agora o que é exatamen- te, do ponto de vista simbólico, a pesagem da Balança, não é difícil deduzir a significação que tem, com o Nível, ou “pequena Balança” (libella), a instituição da horizontalidade. Não se trata de elevar os operários ao nível social dos patrões, delírio utópico ou hipócrita demagogia. Não é tampouco questão de rebaixar os patrões ao
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 9 nível dos operários, pura especulação de ódio social. O fim do Nível é promover um aplaina- mento suscetível de resolver as dificuldades, que elas provenham de uma superfície desigual, de uma incompreensão nas relações sociais abrup- tas, ou, no plano espiritual, de uma opacidade rugosa que oculta ao homem suas sumidades luminosas. Aplainar, dissemo-lo anteriormente, é unir, mas é esta uma significação que se tentou suprimir das memórias humanas. Preferiram re- ter as ideias de acordo com um ideal de simpli- ficação e facilidade, ideias que seduzem muito especialmente o mundo moderno, porque elas são a negação de toda vida (12). Dado que o Nível é uma das ferramentas- símbolos utilizadas em uma das raras Organiza- ções iniciáticas que ainda existem no Ocidente, é sobretudo em sua acepção espiritual que aqui nos interessa. Como proceder então ao “aplaina- mento”, à unificação, à união da qual antes falá- vamos? A única maneira de unir irreversivelmen- te os homens entre si é pô-los em situação de intuir e posteriormente descobrir neles mesmos aquilo que os tornam verdadeiramente “iguais” e cuja aparência social e de caráter é tão somente o reflexo mais ou menos fiel, se não a caricatura mais ou menos enganosa. Queremos falar deste elemento que Mestre Eckhart chamava “incriado e incriável”, e que, em cada homem, é o único elemento que o torna não só “igual”, mas tam- bém realmente idêntico a seu “próximo”. Uma das utopias mais perigosas e daninhas do mun- do moderno é querer “igualar” tudo, reunir tudo, unir tudo do exterior, mas negando a única coisa que, no centro de cada homem, faz possível esta união (13). O único e verdadeiro “ecumenismo” é tão velho como o mundo e não é outra coisa que o resultado do conhecimento esotérico que per- mite perceber, sob a variação dos diversos “cli- mas” religiosos, a unidade essencial que trans- cende as expressões particulares para fundi-las na mesma Identidade. Se a união entre os homens passa pelo re- conhecimento prévio daquilo que é o único que pode uni-los, é evidente que o primeiro passo consiste em reconhecer no mais profundo de al- guém aquilo que o converte em verdadeiramen- te idêntico a todos os outros, sem distinção de sexo, raça ou religião. Uma vez reconhecido este elemento, e tendo em conta que se trata de algo eminentemente senhorial, todas as inumeráveis aspirações individuais produtoras de caos têm que se subordinar a tudo que ele suscita de as- piração central. Isto quer dizer que corresponde a cada um realizar em primeiro lugar a unidade em si mesmo. Assinalemos aqui algo que poderia passar por uma simples coincidência, mas que nós con- sideramos como uma confirmação do que esta- mos dizendo. Trata-se de uma semelhança con- sonantal parcial que, por intermédio da raiz LB, opera uma aproximação entre o latim libra, que designa a balança, e o hebraico leb, que designa o coração, o único “lugar” que, por sua posição central, permite ao homem realizar o equilíbrio harmonioso do qual falamos. A raiz hebraica de que se trata evoca por outra parte a audácia e qualquer atividade produtora interior. Quer dizer que ela expressa com bastante exatidão a orien- tação da consciência e das aspirações humanas para seu centro espiritual (14). Esta aproximação lingüística, curiosa pelo menos, parece-nos digna de certa atenção, pois deixando à parte qualquer questão de etimolo- gia, sempre permanece o fato de que tanto a Ba- lança quanto o Nível se mostram perfeitamente capazes de velar pela transmutação espiritual de que estamos falando, podendo aparecer por isso como os instrumentos de uma conversão unifi- cadora da qual só pode sugerir-se sua profundi- dade.
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 10 O aplainamento como matrimônio uni- ficador Contribuiremos agora algumas conside- rações complementares sobre o sentido desta “síntese” equilibrante a se realizar pelo homem e, em primeiro lugar, conviria não se deixar en- ganar pelas significações que os hábitos men- tais do Ocidente moderno acabaram por impor a determinadas palavras. Por isso, é necessário guardar na memória o princípio da pesagem es- piritual que o antigo Egito, por exemplo, deixou- nos como modelo. Entre o coração humano em um lado da Balança e, no outro, a Verdade e a Lei divina, não existe, entenda-se bem, nenhum ponto de comparação salvo o que possa haver entre a Luz e um de seus brilhos. Não se tra- ta de fazer uma boa mescla de suas aspirações individuais e de sua aspiração central. A união de que estamos falando aqui não é um coque- tel. Trata-se do matrimônio do indivíduo com o Si universal, e, em tal matrimônio, o indivíduo se funde no Si, até o ponto em que suas aspirações não tenham mais nada de individual nem de múl- tiplo, mas apenas se reduzam a sua aspiração essencial, que não é outra que o reflexo do Que- rer divino. Assinalemos que no matrimônio do Si tudo está, por fim, aplainado, tudo está perfeitamente unido, liso e sem rugas. Entretanto, na relação de adequação do símbolo àquilo que ele simbo- liza, alguns poderiam opor uma objeção. Se o Nível permite elevar as coisas à mesma altura, o que está em concordância com o matrimônio de que estamos falando, também serve para ni- velar, e é aqui onde se pôde deslizar o sentido forçado (15) que com tanta freqüência se utiliza hoje em dia, seja de uma maneira simplesmen- te pejorativa, ou de forma reivindicativa e mais ou menos rancorosa. Agora, caso se rechacem todas as utilizações desta palavra com fins po- líticos ou sociais que, tal e como se entendem atualmente não saberíamos no que poderia nos interessar, é evidente que suas significações não têm nada de pejorativo nem de rancoroso, como Nível-Amuleto de pedreiros egípcios (Williams Colle- ge Museum of Art)
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 11 testemunhava o primeiro dicionário consultado. Além do mais, caso se considere a utilização do Nível para fazer descer um elemento à altura de outro, encontramos uma aplicação imediata dis- so no próprio processo do matrimônio simbóli- co -mas real- considerado anteriormente. Se a consciência individual nos aparecer em pleno impulso para a sumidade, onde se fará possível a união tão desejada, existe também outra ima- gem que no âmbito espiritual se cita com bas- tante freqüência: o homem não faz o caminho só porque Deus vem a seu encontro (16) e, por isso, deve necessariamente consentir em “descer” de suas alturas. Entenda-se, estas não são senão imagens que tentam traduzir o melhor possível, em uma linguagem muito inadequada, a espera divina e a esperança humana que acabarão por reunir-se cedo ou tarde. Há aqui uma convergên- cia onde seria difícil dizer qual é o primeiro insti- gador se não se soubesse sempre que tudo se submete, de bom grau ou não, à Vontade divina. A pesagem que mais acima evocávamos é, por outra parte, uma imagem expressiva dos mo- vimentos de elevação e descida de que estamos falando. Como em qualquer deliberação (17) onde se pesam os elementos em questão, existe uma oscilação característica da Balança. Entre- tanto, não terei que acreditar que esta alternân- cia de movimentos inversos sempre se resolva finalmente por uma conclusão favorável ao que é pesado. Quando Maat desce em seu prato, o coração do defunto se eleva no seu, mas quando Maat se faz muito leve, tênue, inacessível, então o coração humano cai e sucumbe a seu peso. Isto não nega tudo que dissemos do equilí- brio essencial da Balança e do Nível. Certamen- te, na economia universal, existem elementos a depurar e outros a eliminar, mas isto jamais se faz em um ambiente denegritório e de ódio. Só importa a euritmia e, para nos limitar ao simbo- lismo da pesagem, embora lhe dando uma di- mensão universal, caso se desça em um ponto do cosmo, eleva-se em outro ponto, de tal forma que sempre se preserve a harmonia geral das coisas. É o que a tradição chinesa denomina as “ações e reações concordantes”, cujo equilíbrio está situado no “Invariável Meio”, equilíbrio que não é outro que o reflexo da “Atividade do Céu” evocada anteriormente (18). Vemos como o Nível, na ordem simbólica e espiritual, é perfeitamente apto para cumprir a missão que aqui lhe reconhecemos, esteja, por outro lado, na mão do Maçom ou na do Grande Arquiteto, o qual, do ponto de vista em que con- sideramos as coisas, deve ser o mesmo, pois é sempre o Grande Arquiteto o que guia a mão do Maçom, ao menos na medida em que este reali- za uma obra de Mestre. É a este dever espiritual de elevação cor- retora e de condescendência misericordiosa (19) ao qual deveria estar consagrado o Nível maçô- nico em sua acepção mais alta, e é assim com toda certeza como o entendiam antigamente os melhores de nossos construtores de catedrais. Sempre há “templos” a “elevar”, como há “mas- morras” a “cavar”, e aqueles que reclamam das exigências interiores em nada cedem às prodi- giosas construções medievais. Desta maneira, quando se provê de seu Nível, o Maçom terá “aplainado” em si mesmo os obstáculos que o separam da única Realidade resplandecente, quando se acha desembaraçado de todas suas travas egocêntricas, quando, livre enfim, verda- deiramente será uno com seus Irmãos e com to- dos os homens que, como ele, caminham pelo mundo (20). A coisa não é fácil de realizar, pois, como dissemos, facilidade e simplificação, embora satisfaçam à preguiça moderna, entretanto con- duzem para um beco sem saída. Pelo contrário, “não é necessário esperar para empreender, nem obter para perseverar”, e se a via espiritual
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 12 pode ser larga às vezes, não faltam flores para balizá-la e compensar assim os rigores. Além disso, como escrevia René Guénon, “quem esti- vesse tentado a ceder ao desespero deve pensar que nada do que é realizado nesta ordem pode perder-se, que a desordem, o engano e a escu- ridão só podem dominar na aparência e momen- taneamente, que todos os desequilíbrios parciais devem convergir necessariamente no grande equilíbrio total e que nada poderá prevalecer fi- nalmente contra o poder da verdade; sua divisa deve ser a que adotaram antigamente certas or- ganizações iniciáticas do Ocidente: Vincit Omnia Veritas [a “Verdade Sempre Vencerá”]. (21) Notas (1) Sem dúvida, isto hoje em dia seria um pleonasmo, pois devido ao progresso uma opinião “se” foi forjando pouco a pouco, para a qual qualquer desigualdade é arbitrária. (2) O desdém para com o Simbolismo é a conseqüência lógica da igno- rância de nossa época com tudo o que tem relação com a Metafísica. (3) E não o nível moderno, com borbulha de ar, o qual se chama “nivela”. (4) efetivamente, na Franco-Maçonaria, é ao primeiro Vigilante a quem se atribui o Nível, enquanto que o Prumo corresponde ao segundo Vi- gilante. (5) Unificar não é uniformizar, como pensa o estúpido modernista: é justamente o contrário, pois para unificar é necessário sair do mundo das formas. (6) Libellus em latim popular. (7) Derivado do francês antigo livel, e inclusive do inglês level. (8) Tal é, por exemplo, a Graça que desce sobre aqueles que, no Islã, seguem o “caminho reto”, bem conhecido por sua verticalidade e por propor uma direção ascendente. (9) Esta consideração é necessária, já que no curso de suas numero- sas verificações o que o Nível constata é o fato de que a horizontali- dade nunca está estabelecida, e consequentemente fica por realizar. (10) Poderia ser que isto mesmo não esteja muito longe daquilo que dizia João, o Batista, quando recomendava “aplainar os caminhos do Senhor” (Mateus III, 3). (11) Esta idéia de elevação, que é o contrário da de nivelamento, en- contra-se no latim aequare: efetivamente, além das significações de “aplainar”, ou de “unificar”, de “pôr ao nível de”, de “comparar”, também comporta as de “igualar” e “obter”. (12) Os promotores do mundo moderno não são acaso os inimigos de toda via, de toda verdade e de toda vida? Esperam triunfar expandindo sua desordem libertária, seu pensamento falacioso e os venenos de suas sujas indústrias. (13) Não se trata de uma simples utopia nascida dos cérebros mais ingênuos, mas sim de um cálculo premeditado, retorcido e criminoso, que parte daqueles que conduzem “este” mundo e que, nos fazendo ver que procuram a paz, não perdem ocasião de promover todas as fricções, ódios e mortes. (14) A palavra árabe lubb, que designa o núcleo, o coração, a essência de uma coisa, parece estar formado de uma raiz semítica comum com o hebreu leb da qual estamos falando. Evoca a mesma centralidade e a mesma espiritualidade interior: por isso se diz que o sufismo é o “núcleo” ou o “coração” do Islã. (15) Foi forçada “esquerdizando-a”. Mas esta simultaneidade na ação de maneira nenhuma exclui uma sucessão lógica de dois fatos: é a vontade do esquerdismo a que torna inevitável violar a significação. (16) Desta maneira o Cristo se fez homem para salvar aos homens: ele desce para que estes possam elevar-se. (17) As duas palavras “deliberação” e “nível” derivam da mesma raiz libr. (18) R. Guénon aborda este assunto nos Principes du Calcul infinitési- mal, P. 105, 108. (19) Utilizamos o termo de condescendência no sentido, desgraçada- mente em desuso, de uma espécie de benevolência para aqueles que estão menos avançados no Caminho do Conhecimento. Curiosamente, o [dicionário] Pequeno Robert, na mesma ordem de ideias, cita a “con- descendência de um iniciado para com um profano”. E é também no mesmo sentido de “compaixão” e de “compartilhar” como nós entende- mos aqui a misericórdia. (20) Se diz que o Maçom deve ser um homem “livre e de bons costu- mes”, e vimos que sua autêntica liberação, que é uma elevação, não poderia encontrar uma origem melhor que na utilização judiciosa do Ní- vel. Seria então interessante operar uma aproximação lingüística entre o termo “nível” e o de “liberdade”, que, pelo que parece, nunca se ten- tou. O francês “niveau”, o inglês level e o francês antigo livel, que têm a mesma significação, pertencem à mesma família lingüística que o latim libra (= balança, peso de 12 onças) e o grego litra, com igual sentido. Grandsaignes d’Hauterive não vai além das raízes libr- e litr- que de- signam, segundo ele, um “objeto que serve para pesar”. Anteriormente vimos como a pesagem exercida pela Balança e pelo Nível pode ser tomada em relação com a liberdade da alma e também com sua Libe- ração. Agora, as palavras francesas liberação e liberdade, o latim liber e o grego eleutheros (= livre), Grandsaignes d’Hauterive os relaciona com a raiz indo-europea leudh-, à qual dá por significação a “ideia de elevar-se”. Não deixa de ser interessante observar que se a etimologia renunciar aparentemente a relacionar entre si as ideias de nível, de pesagem, de elevação e de liberdade, pelo contrário o simbolismo não deixa de fazê-lo, como corresponde a sua missão unificadora. (21) La crise du monde moderne, pág. 134 [final]. Tradução: Roger Avis
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 13 Maçonaria Operativa e Maçonaria Espe- culativa Na passagem da maçonaria operativa para a maçonaria especulativa, muitos dos detalhes da nobre arte da cantaria foram deixados de lado em prol da adaptação realizada. Os livres pensadores que adotaram os ensinos maçónicos não estavam interessa- dos na prática manual do canteiro, que era um serviço pesado e, portanto, buscaram simplificar no simbolismo. Esta simplificação simbólica trouxe um re- lativo “empobrecimento” no sentido do conheci- mento da arte, onde diversos detalhes do traba- lho nos canteiros, ao serem deixados de lado, obscureceram facilitações teóricas no caminho do auto-conhecimento. Para se adentrar mais nestes aspectos, e verificar sua real importância, devemos dizer que a palavra “cantaria” vem, etimologicamen- te, do latim “canthus”, que significa “aresta” (1). Desta forma, o conceito de cantaria se refere ao trabalho em pedras objetivando seu esquadreja- mento, ou a sua formatação no sentido de servir ao projeto construtivo. Na maçonaria especula- tiva, simplificamos: “tornar a pedra bruta em pe- dra cúbica”. O que é do desconhecimento da maioria dos maçons é o fato de que o conhecimento tra- dicional sobre o trabalho operativo era transmi- tido através de técnicas que sempre buscavam um sentido efetivo de aperfeiçoamento não só do trabalho, mas também do profissional, pois se entendia que a perfeição daquele passava pela perfeição deste, em todos os aspectos, dentre eles o prático, o psíquico e o intelectual. Quanto mais aperfeiçoado internamente, mais Aspectos Simbólicos do Trabalho em Cantaria Ir. Roger Avis Se o eterno não edificar a casa, em vão trabalham aqueles que a edificam. Salmo 127:1 (Cântico das peregrinações de Salomão) Aplicai-vos, pois, de todo o vosso coração e vossa alma a buscar o Senhor vosso Deus. Construí o santuário do Senhor Deus, para trazer a arca da aliança do Senhor e os utensílios sagrados de Deus ao templo que será edificado ao nome do Senhor. 1 Crônicas 22:19 O Eu é o mestre do eu. Cada um é o seu próprio mestre e refúgio, quem outro poderia ser? O completo domínio de si mesmo é o único refúgio, difícil de alcançar. Sidarta Gautama (Buda)
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 14 perfeita será a habilidade do obreiro e, conse- quentemente, da obra. Aqueles que estudam os textos antigos percebem que a utilização metafórica do traba- lho comum, analogicamente relacionado à es- piritualidade, é algo constante nas civilizações do passado - egípcia, caldaica ou medieval, ou por aqueles que, nos sertões mais afastados dos grandes centros urbanos, ainda empregam aquelas técnicas artesanais tradicionais. No Oriente, por exemplo, existia toda uma explicação simbólica para a prática do ofício da tecelagem, onde os fios paralelos, presos ao tear, são os influxos espirituais manifestados através das leis universais, enquanto que os fios hori- zontais, adicionados ao serem tecidos, são as atividades nos planos manifestados. Assim, sim- bolicamente, nossas ações, quando levando em conta os influxos espirituais do “Grande Tecelão do Universo” (2), só poderão ser realmente profícuas a partir do momento em que com estas sejam harmônicas. A falha de um ponto na tecelagem poderia deitar fora todo o trabalho. Da mesma forma, no ocidente, te- mos exemplos de diversas profissões -senão todas as que existiam na antigui- dade ou idade média- que se utilizavam desta espécie de simbolismo para ensi- nar que, ao se trabalhar o material, tam- bém se trabalhava em outros aspectos do ser, e que era necessário ter atenção para isto. A matéria-prima artesanalmen- te trabalhada pelo obreiro era o espelho onde ele poderia apreciar seu próprio caráter. Outra coisa que é geralmente menospre- zada pelos estudiosos é o fato da maçonaria operativa ter em seu bojo aspectos filosóficos profundos, e que a maçonaria especulativa so- mente pôde frutificar em seus estudos porque isto já era uma realidade à época de seu nasci- mento. Alguns estudiosos, inclusive, desprezam esta espécie de abordagem, entendendo que apenas com a maçonaria especulativa é que se obteve um aprofundamento no conhecimento, tendo em vista o advento no seio daquela ordem de pessoas letradas, pensamento com o qual, respeitosamente, não nos alinhamos. Essa espécie de perspectiva toma por base um preconceito cultural, onde se estende o olhar de nossa época para medir todas as épocas an- teriores. E este preconceito, que não sabe en- xergar seu próprio anacronismo, faz com que os sábios de nosso tempo se limitem a uma forma de pensar estreita, sem realmente aproveitar o conhecimento oriundo da antiguidade. Mas, isto já seria a matéria de um outro trabalho. Apenas mencionamos para que o leitor possa levar em conta, também, que se quisermos extrair a es- sência de qualquer coisa, devemos conhecê-la sem preconceitos, conforme é propalado pelos mesmos ensinos maçônicos (3). As ferramentas do Canteiro (4) Como são desconhecidas pelos maçons atuais muitas das ferramentas dos canteiros, abaixo vão exemplos de algumas poucas ferra- mentas modernas utilizadas atualmen-te no tra- balho de cantaria artesanal, fabricadas pela em- presa americana Trow Holden Company (5): Como se pode perceber, existe uma infini- dade de ferramentas utilizadas no trabalho do canteiro além daquelas mencionadas na maço- naria especulativa. É óbvio que os processos de formatação da pedra bruta atravessavam uma série muito maior de detalhes, hoje desconhe- cidos na maçonaria especulativa, que levavam os mestres obreiros a situações reflexivas não encontradas na especulação. A figura do camartelo (ferramenta pareci- da com um martelo pontiagudo, que é utilizada para o primeiro trabalho, mais grosseiro, na pe- dra bruta), por exemplo, utilizada no Rito Schrö- der, provém da mais antiga tradição dos maçons operativos, não absorvida pelos outros ritos em
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 15 geral. Numa miniatura do séc. XV, do artista fran- cês Jean Fouquet, mostra-se a utilização desta ferramenta para o desbaste da pedra bruta. O “buril” (6), no caso do trabalho em pedra, trata-se de uma espécie de cinzel pontiagudo [conforme o Hou-aiss, “ferramenta de aço com ponta oblíqua cortante (... ) para lavrar pedra”], que vai dar um trato rústico na pedra, podendo ser usada após o “camartelo”, ou já direta-mente (dependendo do tipo da pedra). Também pode ser utilizada para o início do acabamento no caso de figuras escultóricas. A abordagem que efetuamos neste título serve apenas para demonstrar que os conheci- mentos relativos ao trabalho maçónico operativo tinham detalhes muito maiores do que os apre- sentados atualmente, e que a riqueza destes de- talhes poderia levar a aspectos desconhecidos de um simbolismo mais claro e preciso, objeti- vando, também, maior precisão no processo de autoconhecimento e aperfeiçoamento. Ativemo-nos em considerar apenas o tra- balho em pedra porque era a perspectiva do tra- balho dos canteiros, da qual a maçonaria surgiu. Outras profissões tradicionais vão conter simila- ridades com o que aqui foi descrito. Relações analógicas entre a cantaria e o trabalho interno A Extração da pedra-bruta diretamente da pedreira é muito similar à escolha efetuada do profano apto a entrar na maçonaria. Afinal, a sociedade profana muito se assemelha a uma pedreira, onde a multidão sufoca o talento indivi- dual, fazendo com que muitas vezes o indivíduo não encontre seu caminho. É necessário acrescentar que, seguindo a tradição da maçonaria brasileira, os profanos são escolhidos para integrarem a sublime or- dem. Isto faz-nos considerar a maçonaria como o artífice que visita a pedreira em busca do ma- terial necessário para cumprir a sua obra, en- tendendo, queremos deixar claro, a ordem como um canal que veicula forças superiores a este estado de manifestação. Sobre este fato, podemos considerá-lo ain- da de duas formas: de maneira macro-cósmica ou microcósmica. No primeiro aspecto, o artífice seria o GADU que escolheria os aptos a veicu- larem seus desígnios na consubstanciação do Templo Universal. Micro-cosmicamente, o pró- prio iniciado, em seu trabalho meditativo, identi- ficaria os aspectos de seu ser que deverão ser pinçados de seu interior e trabalhados conforme estes mesmos desígnios, para que a verdade seja expressa. O maçom deve aprender a reconhecer no emaranhado informe de sua existência cotidiana os aspectos sublimes de seu ser, e seu trabalho é reconhecer quais deles deverá trabalhar du- rante sua vida para melhor expressar sua des- treza, ou sua sintonia com o Todo. A isto as pes- soas costumam chamar, talvez impropriamente, de “missão”. Na atualidade, o maçom pode ter em sua frente uma quantidade enorme de pers- pectivas onde expressar sua vida. Contudo, somente aquelas que coadunam com seu cará- ter é que lhe trarão a verdadeira realização. As outras deverão ser desprezadas, porque quem tudo quer, nada consegue. Se o iniciado escolheu a matéria prima correta onde trabalhar, ou seja, escolheu os as- pectos de si mesmo que deverão receber sua atenção de agora em diante, e que serão traba- lhados com suas virtudes, seu trabalho não será em vão. Contudo, se há falhas na matéria prima, ou seja, se não escolheu corretamente o aspec- to que deverá ser trabalhado, deverá retornar à pedreira de si mesmo e, através de um estudo mais aprofundado e orientado, encontrar o ma- terial correto para seus objetivos (7). Após um exame acurado, enxergam-se as matérias primas interiores misturadas com outros agregados psíquicos, frutos estes de di- versas origens, principalmente dos preconceitos e erros que nos habituamos a aceitar e conti- nuamos a engendrar, seja da criação, seja da influência da sociedade. A origem pode ser gros- seira (agressões, vícios, luxúria, etc.) ou mais imperceptível (costumes, sofismas, paradigmas, etc.). Logo após de escolhida a matéria prima, o maçom deverá fazer um desbaste acentua- do, onde as maiores imperfeições são retiradas. Podemos, simplificando, encontrar três pontos a serem trabalhados em primeiro lugar: físico, psíquico e mental. É claro que não existem fron- teiras estanques entre eles, e que os aspectos a serem trabalhados podem conter características de todos estes: um pouco mais de um, um pou-
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 16 co menos de outro. Por exemplo, a glutonaria: existe a ne- cessidade de se encontrar a raiz psicológica que induziu o indivíduo a tal situação para extirpá-la completamente; contudo, em determinados ca- sos, se não houver uma modificação radical no jeito de se alimentar talvez a base material onde trabalhamos, que é o próprio corpo, pode deixar de existir e o indivíduo simplesmente morrer, an- tes de encontrar essa raiz psicológica e extirpá-la. Logo a seguir, fazemos um pequeno esboço destas considerações acima, trazendo, de ma- neira superficial, algumas analogias necessárias Cantaria Aspecto Físico Aspecto Psíquico Aspecto Mental (8) Burilar (9) Extirpação de hábitos ex- tremamente danosos à saúde: fumo e drogas. Eliminação de sentimen- tos extremamente gros- seiros como ódio ou ira. Considerar-se como um receptor, estando pronto ao aprendizado. Dentear Aperfeiçoamento dos há- bitos tendo como meta melhor saúde: alimenta- ção. Cultivo da paciência e da conformação (10). Estudar os ensinamen- tos maçônicos, buscando compreender e memori- zar o relevante. Cinzelar Domínio de sua vida se- xual. Cultivo do amor fraternal. Meditar sobre os ensina- mentos e excluir o supér- fluo. Esmerilar Domínio sobre a respira- ção. Cultivo do Amor incondi- cional. Compreender a verdadei- ra natureza do Homem. Polir Domínio sobre todos as- pectos fisiológicos. Superação da individuali- dade. Libertação dos conceitos, em busca da Suprema Identidade. dos trabalhos da cantaria com os trabalhos que o maçom deve perpetrar em si mesmo para seu crescimento e aperfeiçoamento: Nos exemplos acima demonstrados na ta- bela, devemos levar em conta que esta relação não é finalista, apenas exemplificativa. Cada um deve aprender a conhecer seu próprio caráter e, através do estudo sincero e objetivo, levando em conta os ensinos tradicionais, reconhecer a graduação com que deve ser efetuado do tra- balho interior. Cada um, dentro de suas carac- terísticas próprias, deve saber encontrar quais aspectos deverá trabalhar dentro de si mesmo. O que devemos entender é que, dentro da perspectiva maçônica, em todos os aspectos está envolvido um caráter gradual de crescimen- to (veja o simbolismo da escada), que deve ser levado em conta a partir do momento em que se decide trabalhar sobre si mesmo. Não se pas- sa para o próximo degrau enquanto o anterior não estiver trabalhado. Da mesma forma não se cinzelará enquanto o denteamento não estiver totalmente pronto. Ao se transportar à perspectiva da maço- naria especulativa o trabalho de cantaria, per- cebe-se que houve uma grande simplificação, tendo em vista que já não se tratavam mais de operários da pedra, mas de livres pensadores, que desconheciam a espécie de trabalho efetua- do, ou não queriam se ater a este. Contudo, dentro do conhecimento tradicio- nal, os trabalhos operativos tinham o objetivo meditativo, onde o artesão utilizava seu trabalho com o sentido de se aperfeiçoar. Como já foi descrito, havia no trabalho de transformação da pedra bruta em cúbica uma dedicação de dias, variando conforme a comple- xidade do trabalho e da dureza do material, onde uma falha poderia fazer perder todo o processo. Por este motivo, havia a necessidade de se ter, em primeiro lugar, paciência. Este trabalho de
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 17 Aspectos práticos de como trabalhar literalmente à pedra bruta Em primeiro lugar, antes da existência da matéria prima para o trabalho do canteiro, há a necessidade da sua ex- tração na pedreira. Neste momento, o artífice escolhe na fonte de qual lugar quererá extrair o material que deseja. Deve levar em conta para que propósito se utilizará a pedra, pois a escolha do lugar da pedreira já influi na espécie de matéria prima que se obterá. Após a extração da fonte, ou seja, o nascimento da pedra-bruta em sua forma individual, traça-se todo um plano em que são considerados os métodos de trabalho no sentido de buscar como resultado a adaptação da matéria-prima ao lugar em que ela está destinada. Podemos chamar de aperfeiçoamento, neste caso, o caminho que se faz da pedra bruta até chegar à pedra polida. Este trabalho, didaticamente, poderia ser classificado em cinco partes: 1) Punçoar ou burilar - neste momento, fazemos com que as grandes diferenças existentes sejam atingidas pelo buril até que fiquem pequenas. Neste trabalho, conforme mostra a figura a seguir, deixam-se normalmente estrias em diagonal; 2) Dentear - depois do burilamento, utilizamos o cinzel denteado para diminuir ainda mais as diferenças, buscando eliminar as estrias do trabalho anterior, deixando as marcas dos dentes desta ferramenta. O cinzel denteado deve ser utilizado de forma reta, no mesmo sentido das laterais da pedra utilizada. Utilizam-se para isto diversos cinzéis denteados, dos de dentes maiores aos de dentes menores, até ser utilizado, finalmente, o cinzel sem dentes, mais conhecido na maçonaria especulativa. Alguns chamam o cinzel denteado de buril, também; 3) Cinzelar - o cinzel, propriamente dito, conforme demonstrado na maçonaria, é utilizado neste momento. Neste caso, começa um trabalho de alisamento da pedra, eliminando a maior parte das marcas anteriores; 4) Esmerilar - a pedra de esmeril é utilizada, suavizando o máximo possível as marcas do cinzel. Na maçonaria operativa, observava-se um movimento manual contínuo e circular e, aos poucos, e adicionando constantemente a água para eliminar obstruções (escorregar), a superfície ia ficando lisa; 5) Polir - para finalizar o serviço, e a superfície ficar totalmente lisa e espelhada, utilizam-se lixas de diversas gra- naturas (de 150, 220, 300 e 600), gradualmente da mais grossa para a mais fina. mos concluir que se tratam de processos em que a força é fundamental, sendo caracterís- tico da passagem de uma fase para a outra a diminuição da força e o aumento da destreza. Poderíamos identificar desta forma: a) Burilar - mais força e menos destreza; b) Dentear - força e destreza na mesma medida; c) Cinzelar - mais destreza do que força. Isso demonstra que os próprios proces- sos de trabalho no caráter também apresentam aspectos em que determinados pontos de vista devem ser abordados. A princípio, a força é ex- tremamente necessária para excluir os defeitos mais evidentes. Dentro da maçonaria especula- transformação está muito ligado, neste caso, à paciência que temos ao abordar uma determi- nada matéria-prima. Se vamos impetuosamente sobre ela, podemos errar. Se utilizarmos força minúscula, podemos demorar além do necessá- rio. Neste caso, as virtudes seguintes que se ligavam ao processo de transformação eram o equilíbrio e a firmeza. Podemos, assim, já neste momento, encontrar similaridades entre o traba- lho externo, na pedra, e o trabalho interno, no caráter. Sobre o burilar, dentear e cinzelar pode- Figura adaptada do livro “The Complete Book of Self-Sufficiency”, de John Seymour.
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 18 tiva, os aprendizes sentam-se no lado norte, sob a égide do Irmão 1.° Vigilante, que é o respon- sável pela veiculação da força numa Loja. Este fato é bastante característico, tendo em vista o trabalho mais forte que se deve ter quanto aos aprendizes, ainda eivados de profanidades. No entanto, com a sequencia do trabalho, já a experiência (que na maçonaria é o conheci- mento teórico adquirido e praticado) aliada com a destreza vem se tornando muito mais impor- tante, chegando ao ponto de ser quase a única determinante. A experiência, ou a perícia, são o aprimoramento do conhecimento do artífice em sua própria arte. O maçom, no hábito de traba- lhar sobre si mesmo, encontra a própria arte que o conduz ao aperfeiçoamento cada vez mais re- finado. Quando falamos nos trabalhos que efe- tuamos sobre o nosso próprio caráter, sobre o cinzel e o malho, temos que levar em considera- ção, também, os ensinamentos que a maçonaria especulativa transmite aos obreiros. Abordá-los, neste momento, é necessário no sentido de nos conduzirmos a um aprofundamento ainda maior sobre este trabalho. Lavagnini diz o seguinte: (... ) o malho e o cinzel, como instrumentos propriamente ati-vos, representam exatamente os esforços que, por meio da Vontade e da Inteligência, temos de fazer para nos aproximarmos da realização efetiva desses Ideais, que representam e expressam a perfeição latente de nosso Ser Espiritual. O malho, que utiliza a força da gravidade de nossa natureza subconsciente, de nossos instintos, hábitos e tendências, é pois, representativo da Vontade, que constitui a primeira condição de todo progresso e é ao mesmo tempo o meio indispensável para realizá- lo. (11) Isto que Lavagnini diz é simplesmente o básico a ser mencionado sobre os aspectos da utilização do buril e dos cinzéis, juntamente com o malho. Encontraremos em diversos auto- res poucas variações, nada substanciais. Todos eles funcionam simbolicamente da mesma for- ma (seja o buril ou os cinzéis), tendo, contudo, cada um, suas características próprias, já men- cionadas. O que geralmente não se fala é quem, ou o que, é o responsável pela movimentação des- sas ferramentas supra mencionadas. Guénon nos fala da Divina Personalidade, que é quem Pedreiros trabalhando (miniatura do séc. XIII)
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 19 fala atrás da máscara - a persona, que é a nossa individualidade. É esta Divina Personalidade a verdadei- ra responsável pelo manejo dos instrumentos. E no caso do trabalho operativo sobre o nosso próprio caráter, a matéria prima, que somos nós mesmos, é a desculpa (grosso modo) necessá- ria para que esta essência real de nosso ser se manifeste. E este é o verdadeiro trabalho do ini- ciado: não é olhar os instrumentos vibrando na frente de seus olhos, mas perceber quem olha. Não é se prender à vontade e à inteligência, mas suprimir esta atenção aos instrumentos, e voltá- -la ao verdadeiro artífice interno (12). Falar mais sobre o simbolismo dos cinzéis e do malho seria supérfluo neste momento. Di- versos manuais sobre o assunto já discorreram o suficiente para que necessitemos continuar aqui. Somente queremos alertar que o simbo- lismo deve ser visto no coração, e presenciado também no coração para que seja realmente efetivo. Quanto ao esmerilar e polir, que são traba- lhos onde a força já não é tão importante, mas principalmente a destreza, carregam consigo um aspecto fundamental: o movimento circular. Ao movimentar a mão com o esmeril, ou com a lixa, o obreiro segue compassadamente uma ordem, onde toda a superfície é atingida para se chegar ao obje-tivo. Sabemos que o círculo é o símbolo do infi- nito e da perfeição. A circularidade do movimen- to da lixa na face quadrada do cubo nos parece carregado de reminiscência no tocante à qua- dratura do círculo. O círculo vem aperfeiçoando a face quadrada da pedra cúbica. A utilização da água é revestida, também, de seu caráter simbólico. A água, sendo utiliza- da como é, torna-se o veículo para a perfeição. E dentro do simbolismo esotérico encontramos na alma a referência da água. A água, batizando a pedra, torna-a capaz de receber a perfeição do artífice, bem como de chegar à realização do trabalho. Somente através da alma o espírito pode realizar a obra. O obreiro, neste ponto do trabalho, ao passar a mão pela superfície completa da pe- dra, deve demonstrar a sensibilidade necessária para compreender que já extraiu da pedra bruta a pedra cúbica. Conclusão: Iniciações nos mistérios menores e maiores Especificamente quanto ao trabalho de cantaria, da formatação da pedra, ele se relaciona ao que os gregos antigos chamavam de “mistérios me- nores”. A iniciação nos mistérios menores bus- cava com que o homem expressasse o máximo de sua perfeição enquanto homem. Na maço- naria simbólica atual, estas considerações esta- riam demonstradas principalmente nos graus de companheiro e aprendiz. As iniciações nos mistérios maiores busca- vam com que o homem superasse sua condição individual e se unisse à divindade. Enquanto as iniciações dos mistérios menores apontavam o caminho à perfeição humana, as dos mistérios maiores apontavam para uma perfeição divina, a do homem transcendente. Seria, neste caso, a segunda morte, apre- sentada na maçonaria no magistério maçônico. A iniciação nos mistérios maiores estaria simbolicamente relacionada mais diretamente ao ofício da arquitetura e da efetiva construção, o que pode ser tema de outro trabalho. Este trabalho apenas pincelou algumas considerações superficiais sobre o ofício de can- teiro, que poderão ser aprofundadas na no estu- do, pesquisa e meditação de cada obreiro. Cum- pre destacar que o ensinamento maçônico tem sido habitualmente utilizado em limites aquém de seus objetivos, e cabe a nós, maçons, co- maçons operativos
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 20 meçar a mudar esses limites e parâmetros esta- belecidos, sob pena de contribuirmos cada vez mais para o desaparecimento virtual e, após, efetivo de nossa Augusta Ordem. Assim, os estudos elaborados na atuali- dade devem procurar resgatar, conforme bus- camos fazer aqui, os fundamentos do ensino, estabelecendo e renovando as conexões com a origem prístina do legado maçónico. E também, com este mesmo objetivo, àqueles capazes de uma obra mais abrangente e hercúlea, recriar as possibilidades iniciáticas para as mulheres, tendo em vista que, no Oci- dente tais sociedades desapareceram, ou delas não se tem mais notícia. Mas para isso, tanto para o reavivamento do conhecimento maçóni- co, tanto para possibilitar uma iniciação femini- na, de acordo com as características próprias das mulheres (13), é necessário o mergulho na matéria prima iniciática do ocidente, e buscar trazer à tona aquilo que se ocultou em nossa época. Notas (1) Desde a origem, podemos perceber que a tônica dos trabalhos efe- tuados pelos maçons operativos sempre foi no sentido de “tirar as ares- tas”, e encontrar a pedra lavrada que já habita o interior da pedra bruta. (2) Usamos este nome para a divindade dos tecelões apenas para fa- zer um paralelo entre este e o GADU. Este termo é fictício. Contudo, o simbolismo da tecelagem existiu na antiguidade e, até, na idade média. É bem significativo notar sobre isso a informação de Guénon: “(...) os livros tradicionais são freqüentemente designados por termos que, em seu sentido geral, referem-se à tecelagem. Assim, em sânscrito, sûtra significa propriamente “fio”: um livro pode ser formado por um conjun- to de sûtras, como um tecido é formado por um conjunto de fios; tan- tra possui também o significado de “fio” e de “tecido”, e designa mais particularmente o urdume de um tecido. Da mesma forma, em chinês, king é o urdume de um pano, e wei sua trama; o primeiro destes dois termos designa ao mesmo tempo um livro fundamental, e o segundo seus comentários. Esta distinção entre urdume e trama no conjunto das escrituras tradicionais corresponde, segundo a terminologia hindu, à que existe entre a Shruti, que é o fruto da inspiração direta, e a Smriti, que é o produto da reflexão que se exerce sobre os dados da Shruti .” (René Guénon, O Simbolismo do Tecido – XIV capítulo do livro “O Simbolismo da Cruz”). (3) Algo que é deve ser levado em consideração para meditarmos sobre este assunto posteriormente, é a apreciação de uma catedral gótica, que é uma verdadeira enciclopédia de conhecimento, onde o coração huma- no se expressou de formas sublimes. Cremos que ignorantes de mente estreita seriam incapazes de dar cabo de tal tarefa. E somente um ideal refinado poderia impulsionar pessoas a participarem da construção de um edifício como este durante séculos a fio, sem preocupações imedia- tistas, tão características de nossa época. (4) Os maçons operativos reuniam toda uma série de procedimentos, que não se atinham apenas ao trabalho de cantaria, tais como a arquite- tura e a carpintaria. No entanto, todos os aspectos abordados mais abai- xo também poderão ser aplicados analogicamente à carpintaria. Quanto à arquitetura propriamente dita, faremos algumas considerações mais ao final do trabalho. (5) Citamos a empresa por termos utilizado de figura existente em sua página eletrônica. (6) Outras ferramentas são chamadas “buril”, utilizáveis em outros mate- riais (madeira e metal, por exemplo) e com funções diversas. Contudo, em se tratando da maçonaria, o buril que deve ser levado em conta é o mencionado. É claro que, com a decadência dos trabalhos em pedra, o buril para gravação em metal ficou mais conhecido. (7) Podemos exemplificar esta situação da seguinte forma: alguns têm uma inclinação para determinado tipo de comportamento mais carac- terístico que seria, para ilustrar, o orgulho. Se ele não buscar trabalhar sobre este aspecto psicológico negativo de imediato, e não procurar su- blimá-lo e, em vez disso, escolher um outro, tal como a inveja, que não seria tão importante em seu caráter, pode acontecer de não conseguir se livrar nem de um, nem da outra. Por isso, a escolha sobre o que deve se trabalhar deve ser tomada criteriosamente, levando sempre em conta as virtudes e os defeitos que se têm. Virtus = força. (8) Estes aspectos podem ser estudados dentro da mesma perspectiva do Yoga: Hatha, Karma e Jnana. (9) O burilamento é a extração das diferenças mais grosseiras, que tor- nariam o maçom incapaz de aproveitar os ensinamentos a ele dirigidos. O burilado não busca a eliminação imediata das imperfeições, mas sim a formatação destas de uma forma que não impeçam o apren- dizado. (10) Os primeiros resultados ainda não são o objetivo buscado, que se realiza com o tempo. Por isso a necessidade de paciência (a famosa tolerância maçônica) consigo mesmo e com os outros. (11) Manual do Aprendiz Maçom – Aldo Lavagnini (12) Os Upanixades oferecem um texto interessante, mostrando a im- portância deste aspecto simbólico, que muitas vezes é desconsiderado na maçonaria: “Tendo compreendido que os sentidos são distintos da alma, e que sua ascensão e declive a eles pertence, o sábio deixa de sofrer. (...)Além dos sentidos está a mente, além da mente está o Ser supremo, além do Ser supremo está o Grande Ser, além do Grande, o Oculto. (...)Além do Oculto está a Personalidade, o onipresente, completamente imperceptí- vel. As criaturas que lhe conhecem são liberadas e obtêm a imortalidade. (...) Sua forma não pode ser vista, pois ninguém pode lhe contemplar com os olhos. Só pode ser conhecido com o coração, que se acha além da sabedoria e a mente. Só aqueles que sabem isto são imortais. (...) Quando todos os sentidos e a mente são submetidos, o sábio alcança o estado supremo. (Kata Upanishad, Segundo Adhyaya, Sexto Valli) (13) Segundo nosso entendimento, é necessário possibilidades de or- dem iniciática para as mulheres, devidamente embasadas na tradição. Tais possibilidades se estendem apenas no Oriente, enquanto que no Ocidente estão adormecidas, até o momento de serem reavivadas. En- tendemos que a maçonaria não seria o lugar deste processo pelas pró- prias características da ordem. Em se conhecendo os fundamentos da ordem, fica bem claro que seus ensinamentos não serviriam para uma espécie de iniciação feminina. Tratar desiguais de forma igual é um dos absurdos que grassa em nossa época. Existem, dessa forma, ofícios femininos que poderiam servir de base a toda uma simbólica de uma organização iniciática. O cuidado que uma organização iniciática pré-existente, tal como a maçonaria, deveria ter é o de proporcionar uma adaptação simbólica monumental, sem escorre- gar para o campo da fantasia. Trabalho muito árduo.
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 21 N a Grande Loja dos Maçons Antigos Livres e Aceitos (que é uma das mais importan- tes compo­nentes da Potência Maçônica denominada Grandes Lojas Unidas da Alema- nha) estão em uso dois rituais oficiais e o uso de mais dois é permitido. A maioria das Lojas tra- balha no Rito Schröder na versão realizada em 1960. A Grande Loja também publicou um ritual da Arte Real baseado na tradição Francesa, com ambos os vigilantes colocados no Oeste e com a Acácia figurando no grau de Mestre. As Lojas que pertenciam a hoje extinta Grande Loja Royal York foram autorizadas a trabalhar com seus an- tigos rituais baseados no texto reformado por Fessler. Algumas Lojas da igualmente extinta Grande Loja “Zur Sonne” (“Ao Sol”) continuam trabalhando pelos seus velhos rituais. Como na Inglaterra, não há nenhuma diferença fundamen- ORIGEM E FONTES DO RITUAL SCHRÖDER Hans Heinrich Solf
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 22 tal entre estes trabalhos, porquanto todos eles derivam de Prichard’s “Masonry Dissected” (Ma- çonaria Dissecada, de Prichard) ou do “Three Distinct Knocks” (Três Batidas Diferentes) tendo sido introduzidos certos elementos de algu­mas exposições e ainda adicionados embelezamen- tos de origem Francesa. Capa do “Masonry Dissected”, de Samuel Pritchard (1831) A cerimônia “Passing the Chair” (Passan- do pela Cadeira) nunca foi introduzida e nem o “Real Arco” tem-lhe dado apoio. A Grande Loja Nacional dos Maçons da Alemanha (outra componen­te das Grandes Lojas Unidas da Ale- manha) ainda trabalha pelo sistema Sueco, que consiste de 10 (dez) graus com um fundo pro- nunciadamente Cristão. O Rito York Americano, trabalhado prin- cipalmente pelas Lojas Militares (Nas Grandes Lojas Unidas da Alemanha existem ainda uma Grande Loja Américo-Canadense e uma Grande Loja dos Maçons Ingleses, cujos componentes em quase sua totalidade são membros das tro- pas militares estacionadas na Alemanha) intro- duziu na Alemanha os graus Crypticos e Tem- plários. O Supremo Conselho do 33º para a Ale- manha trabalha pelo Rito Antigo e Aceito, usual- mente conhecido como Rito Escocês, parecido com o Rito Escocês Retificado na França, que está se tornando popular de novo. O que inspirou o Irmão em dar um novo Ri- tual a Maçonaria Germânica e como ele atacou esta tarefa que impôs a si mesmo? Estas são as questões que serão agora investigadas. Pri- meiramente algumas palavras sobre o homem, Schröder. Ele foi como seus pais, um ator pro- dutor, que naquele tempo significava que ele era proprietário de teatro em Hamburgo. Ele co- nhecia muito bem na Europa as regiões onde dominava a língua alemã e nunca esteve na In- glaterra, França ou Itália. Suas habilidades lin- güísticas eram limitadas em­bora ele fosse capaz de adaptar peças de teatro dos originais Fran- ceses e Ingleses. Sem conhecer Latim e Grego, ele adquiriu, entretanto um grande cabedal de conhecimento pelo auto-estudo. Acima de tudo se destacava nele o seu caráter forte e sincero. O estado da Fran­co-Maçonaria na Alemanha no tempo em que ele foi iniciado com a idade de 29 anos, era caótico. Seu proponente foi Johann J. Christoph Bode, seu amigo, e sem escrutínio foi aceito na Loja “Emanuel”. O Rito Estrita Obser- vância era dominante naquela época e o caráter da Fran­co-Maçonaria Inglesa, como original- mente introduzida em Hamburgo, se tinha perdi- do. As Lo­jas foram dominadas pelo misticismo, alquimia, Rosa-Cruzes e Iluminados, sendo que os últi­mos introduziram formas de cavalheirismo e “Altos Graus” importados da França. Mesmo os sóbrios e democráticos Irmãos de Hamburgo não se abstiveram de desfilar como “Muito exce- lente Cavaleiro Templário”. Não é de estranhar que um homem sério e despretensioso como Schröder fosse radical- mente contrário a estas excentricidades. Ele es- perava da Maçonaria, educação e verdadeira mo- ralidade. Com o declínio do Rito Estrita Obser- vância, depois da Convenção de Wilhelmsbad em 1782, a hora de Schröder tinha chegado. Segundo seus desejos os Irmãos de Hamburgo decidiram: l.º) Restaurar a verdadeira e antiga Maçonaria, como nos foi trazida pelos nos­sos antepassados e espalhada daqui por quase toda Alemanha, e que existiu em Hamburgo até a reforma de 1765. Esforçar-se zelosamente para elevar seus propó- sitos a um nível mais alto e fazer com que cada um dos seus ramos sejam mais úteis; isto deverá ser alcançado, com amor pela pesquisa da Ver­ dade, seguindo com a máxima sinceridade os ensinamentos da sagrada reli­gião Cristã e pondo
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 23 fielmente em prática seus deveres. 2º) Melhorar a harmonia entre os Irmãos, pro- curando concentrar as quatro Lojas unidas em duas, sendo uma Loja Alemã e outra Francesa, e permitir a seus membros elegerem seus Mestres no Festival de São João. 3º) Trabalhar nos três graus da Arte Real de acor- do com o Antigo Ritual Esco­cês dos nossos an- tepassados, até que os Rituais organizados na Convenção Geral nos sejam comunicados. Para se ter uma idéia dos problemas que envolviam uma tal decisão, aqui estão alguns exem­plos das dificuldades com o Ritual que existiu em Hamburgo e em outras partes. Estes eram tirados na sua maior parte da primeira edição do livro “Materialien zur Geschichte der Freimaurerei” (Matéria para a História da Franco-Maçonaria), um tratado composto do 1.400 páginas. Este trabalho é ainda uma mina de informações para o historiador principalmen- te por causa dos documentos mencionados e cujos originais agora não são mais acessíveis. Schröder relata, por exemplo, sobre uma Loja da cidade de Dresden que se compunha de membros da alta aristocracia, mas, entre os oficiais da Loja havia um “Cozinheiro-Chefe” e um “Porta Caneco” e em 1743 bebidas eram ser- vidas enquanto a Loja estava aberta. Em 1744 dois Diáconos foram nomeados pela primeira vez na Loja “Absalom” em Hamburgo, presumi- velmente por causa das exposições que haviam aparecido na Inglaterra e na França. Naquela época era ainda costume pagar ao Secretário um salário especial pelos seus discursos, que apareciam depois impressos. O oficio de Orador veio para a Alemanha da França. Naquele tem- po, o pri­meiro e o segundo grau não eram mais conferidos juntos em Hamburgo, por causa dos regula­mentos que requeriam um período entre eles de nove meses. O compromisso de Apren- diz incluía a seguinte exigência: “Que ele devia amar seus Irmãos e ainda promover seus melho- res interesses por todos os modos”. Esta frase podia muito bem ter sido idealizada pela própria Loja e se acha no Ritual até hoje. fac-símile de “L’Ordre des Francs-Maçons Trahi” (1745) A publicação da exposição “L’ Ordre des Franc Maçons Trahi” (1745) fez a Loja “Aos três Glo­bos”, trabalhando num Ritual Francês, in- troduzir uma mudança que não foi, entretanto, mantida por muito tempo: a palavra “Tecton” e o sinal de “Harpócrates” (dedo indicador sobre os lábios) deveriam ser usados como uma palavra e sinal adicional. Havia uma completa incerteza acerca da colocação da venda nos olhos. O candidato geral­mente era trazido para o interior da Loja com os seus olhos não vendados; o procedi- mento correto aprenderam de Londres somente em 1763. Além do mais, ninguém estava certo se as espadas eram para ser usadas dentro da Loja (na França elas eram consideradas como um símbolo de igualdade) ou se “fogo” (ordem para beber) deveria ser dado nos banquetes. O processo de escrutínio também não era compre- endido. Foi somente em l763 que a Grande Loja Provincial de Hamburgo decidiu que cada Irmão que colocasse uma bola preta na caixa do escru- tínio, devia informar o Mestre dos motivos de as- sim ter procedido no prazo de 3 (três) dias. Isto é habitual na Alemanha até hoje, se até 3 (três) bolas pretas aparecerem. Painéis da Loja dese- nhados em oleados somente apareceram no fim do século 18; em 1765 o Cobridor ou um Irmão
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 24 ou formato “quarto” por ser mais prático para o Ritual e este está em uso ainda hoje. Ele achou que era preferível ter um Ritual organizado pelos principais Maçons do seu Tempo e aprovado pela Grande Loja Provincial de Hamburgo e que deve- riam estar disponíveis para as Lojas, em vez de suas cerimônias serem baseadas em uma dúzia de exposições. Schröder fez uma observação ao pé da página: “isto se refere ao Ritual usado antes de 1765”; isto é, antes da introdução da Estrita Ob- servância. Entretanto como não havia então Ri- tual escrito, tornava-se impossível relembrá-lo depois de 17 anos. De qualquer maneira aque- le Ritual não seria apropriado para o fim atual. Os balaústres da Loja “Absalom” mostram que o Ritual inglês não era acuradamente conheci- do mesmo antes de 1763. Em 14 de março de 1764, uma iniciação e elevação na mesma noite -como era então praticado na Inglaterra- tiveram que ser adiadas por causa da ausência do Irmão Bode, que era o único capaz de dar uma expla- nação do Painel da Loja. Esta era a situação, quando Schröder começou sua tarefa. É impor- tante mencionar que o trabalho em certas Lojas, era ainda em língua Francesa. Mas havia mais um obstáculo no caminho de um começo decidido e enérgico: o Grão-Mes- tre von Exter. Embora ainda mantivesse uma nomeação Inglesa como Grão-Mestre Provincial para a Baixa Saxônia e Hamburgo, ele estava profundamente envolvido com a Ordem Rosa- Cruz e os graus cavalheirescos e também in- fluenciado com idéias místicas, desde a intro- dução do Rito da Estrita Observância em 1765. A Grande Loja Provincial de Hamburgo há muito havia negligenciado suas obrigações para com a Grande Loja Mãe em Londres. Finalmente o então Grande Secretário, Irmão Heseltine, em uma carta de 30 de maio de 1773 (UGL MS.26/ B/B/1) pediu a devolução da Carta Constitutiva ao Grão-Mestre Provincial. Não tendo recebido resposta dentro de poucos meses, o Irmão He- seltine enviou uma cópia de sua primeira carta acrescentando que a Carta Constitutiva de­veria se entregue ao Irmão Sudthausen que por aca- so se achava em Hamburgo. A Grande Loja Pro- vincial de Hamburgo reagiu com diversas cartas iradas, mas, mesmo assim não enviou relatórios, nem saldou as devidas contribuições. servente ainda tinha de fazer o desenho com giz no chão. Um Diretor de Ce- rimônias foi pela primeira vez nomeado em 1774, embora na Alemanha e na França o seu ti- tulo era de “Mestre de Cerimônias”. Mais ou menos nesta época os Diáconos foram r e n o m e a d o s de “Stewards” (mordomos). É bem co- nhecido pelos ba- laústres de uma pe- quena Loja no Castelo Kniphausen na Frísia Oriental, que um soldado da guarda do Conde foi empregado como Co- bridor e pago pelos membros da Loja. O traba- lho desta Loja era baseado no de Prichard embora o Ta- pete (Painel) tenha sido co- piado de um de- senho do livro “L’ Ordre des Fran- c-Maçons Trahi”. É também co­nhecido pe- las muitas averiguações emanando de todas as partes da Alemanha, que as Lojas de Hamburgo e a Loja Provincial Inglesa, eram consideradas au- toridades em todos os assun­tos ritualísticos. Esta foi provavel- mente a razão porque Schröder ti- nha seu Ritual impresso clara- mente sem abreviação ou código. Ele sabia que isto não estava de acordo com a pratica Inglesa. Ele tam- bém selecionou o tamanho Busto de Johann Joachim Christian Bode (Düsseldorf, Goethe-Museum)
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 25 Uma vez que Schröder tomou as rédeas em suas mãos esta situação mudou imediata- mente. De agosto de 1786 em diante, a Grande Loja Provincial de Hamburgo enviou regularmen- te os balaústres de suas reuniões para Londres. A intervenção do Irmão von Gräfe certamente ti- nha sido de grande ajuda nesta mudança. (UGL Ms.26/B/B/7-27). Ele tinha ditado o Ritual Inglês para o Grande Secretário Provincial, Irmão Be- ckmann. Em seu comentário, Schröder, faz a se- guinte anotação: ....e assim temos agora um antigo Ritual comu- nicado para nós, exceto por algumas alterações introduzidas pelo tempo e o desejo de melhorar. De acor­do com este texto, o 2ª Vigilante tem seu lugar no Sul; não havia nenhuma Estrela Fla- mígera e nem mais espadas dentro da Loja. O Diretor Regional von Exter, pois ele ainda deti- nha este cargo na Estrita Observância, não tra- balharia sem as duas Colunas (Vigilantes) no Ocidente, sem a Estrela Flamígera, sem o monte de terra e o galho de Acácia, sem as alusões e promessas de uma Luz Superior e sem os vinte e mais itens muito preciosos para ele. Assim veio a Luz um Ritual até mesmo mais místico e mais pomposo do que esse da Estrita Observância. Estas observações contêm uma importan- te indicação. O texto Gräfe não era bem o mes- mo que o bem conhecido texto do Prichard, que havia sido publicado em uma edição Alemã em 1736, e que foi largamente utilizado pelas Lojas Alemãs e na França com a versão Francesa. O Irmão N. B. Spencer já apontou isto no volume Ars Quatuor Coronatorum n.º 74: “O apareci- mento regular de traduções de uma ou de ou- tras exposições bem conhecidas em Alemão ou Francês, encadernadas, com quase todas as có- pias dos livros Alemães da Constituição do Sé- culo 18, sugere de uma maneira taxativa, que os Alemães estavam usando-os como guia para as suas cerimônias, assim como nós usamos um moderno Ritual ou Monitor”. Schröder escreveu para seu amigo Meyer: “Eu estou surpreso que você não achou nenhu- ma Loja em Londres na qual o 2º Vigilante senta- se no Sul ou a tal conhecida Loja dos Antigos. Durante este ano já tivemos quatro Irmãos de tais Lojas como visitantes.” Na verdade os Vigilantes estavam coloca- dos no Noroeste e Sudoeste respectivamente nos trabalhos da maior parte dos Rituais Con- tinentais derivados de Prichard ou das versões Fran­cesas baseado no “Masonry Dissected”. Quando Schröder tornou-se membro da comis- são para elaborar uma nova Constituição, ele devotou-se a esta tarefa de maneira metódica e diligentemente e com uma considerável despe- sa pessoal. Assim ele imprimiu as suas próprias custas numa tipografia secreta em Rudolstadt, todos os Rituais disponíveis para ele, bem como uma História da Maçonaria em quatro volumes e uma exata análise da Constituição Inglesa. Este empreendimento é algo fora do comum na História da Franco-Maçonaria e, lançar-se um pouco de luz sobre isto somente poderá ser de proveito. Modelo de Tapete utilizado no Rito Schröder Schröder via a necessidade de abraçar a pesquisa maçônica dentro da obrigação de um segre­do contido nos Rituais. Investigando entre os seus “Irmãos de confiança” verificou que a Loja Amália, em Weimar, (Goethe e Herder eram ambos membros dela) podia ajudar. Um dos seus membros era o Irmão Wesselhöft que mo- rava em Jena e que tinha o seu negócio de Im- pressão e Publicações em Rudolstadt, cidades estas próximas a Weimar. O Irmão Wesselhöft fez o juramento, como também todos os mem-
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 26 bros de suas empresa, para manter o sigilo; sen- do que alguns deles foram simplesmente convi- dados a se unirem a Loja de Rudolstadt. O Irmão Conta, que era alto oficial da Policia Alemã, foi nomeado para exercer a função de supervisor e censor. As detalhadas instruções anotadas pelo Mestre da Loja, provas que Schröder forneceu o ne­cessário material e capital de trabalho, ainda existem. Este estabelecimento começou a tra- balhar na ultima década do século 18 e parece ter encerrado suas atividades depois da morte de Schröder. Uma de suas publicações foi a co- leção de Rituais em 21 volumes, dos quais, a úni- ca cópia conhecida nos dias atuais, encontra-se na Biblioteca da Grande Loja Nacional da Dina­ marca. Este trabalho, cerca de trinta Rituais dos então conhecidos e dos “Altos Graus”, incluin­do um texto do “Three Distinct Knocks”, que é sem dúvida considerado como o “mais velho e genu- íno Ritual Inglês”, sem entretanto mencionar sua origem. O texto de Prichard é identificado e a ra- zão para o anonimato do “Three Distinct Knocks” pode se achar na correspondência de Schröder com Meyer, onde escreve: Pelo amor de Deus, “Three Distinct Knocks” (Ja- chim e Boaz é só uma reimpressão da anterior) não deve se tornar conhecido porque o nosso ritual está baseado nele. Portanto eu removi es- tes dois livros do catálogo de nossa biblioteca. É muito raro na Alemanha e provavelmente na Inglaterra também. Mas seu amigo sabia melhor; “Jachim e Boaz” é sempre reimpresso sem alteração, ele tinha uma edição de 1800. No prefacio da edição de 1815 do seu livro “Materialien zur Geschich- te der Freimaurerei” (Materiais para a História da Franco-Maçonaria), Schröder aponta que “Three Distinct Knocks” é o ritual que é trabalhado até hoje em dia por todas as velhas Lojas Inglesas na Grã Bretanha, Ásia, África e América. Acer- ca de Prichard ele diz que este foi o primeiro desvio do mais velho, isto é do “Three Distinct Knocks”, mas que tinha sido usado pela maio- Frontispícios dos Livros “Three Distinct Knocks” e “Jachin and Boaz” (1865). Os dois livros foram duas exposições muito famosas da maçonaria à época.
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 27 ria das Lojas Alemãs. Os Rituais Franceses, a maioria deles baseados em Prichard, foram as fontes dos Rituais de Zinnendorf e Sueco, cujos sistemas haviam aceitado os “Altos Graus” da França, também eram conhecidos por Schröder. Os “Altos Graus” reproduzidos nesta coleção, não são de nenhum interesse aqui, mas deve-se dizer que o trabalho total é até hoje uma rara fon- te de pesquisa ritualística. Como este trabalho foi destinado somente aos membros do “Cir­culo Interno”, a edição não podia consistir de mais de cem cópias e por isto é que se trata de uma Obra rara e que não foi totalmente registrada por Taute e Wolfstieg que produziram uma Bi- bliografia Maçônica. Assim há muita razão em ser grato a Grande Loja Nacional da Dinamar­ ca por ter liberado sua cópia para fazer-se uma reprodução fotográfica em 1976, que foi limita­ da a uma edição de trezentas cópias e não está disponível comercialmente. Com isto chega­mos a uma certa conclusão: quando o trabalho come- çou em Hamburgo em 1790 para um novo Ritual, a Grande Loja Provincial subordinada a Primeira Grande Loja da Inglaterra, não possuía em Ri- tual escrito em Inglês com um texto autêntico. Schröder estava absolutamente convenci­do de que “Three Distinct Knocks” não era apenas ge- nuíno, mas era efetivamente o mais velho Ritual existente. Como podemos ver, ele baseou todo o seu trabalho sobre este texto, tanto quanto diz respeito a estrutura ritualística. Nas instruções do Grau de Aprendiz datado de 1801 Schröder diz: Não pretendemos absolutamente proteger todas as partes do velho catecis­mo. Embora estejamos inclinados a preferi-lo - no todo – a qualquer coi- sa nova, entretanto reconhecemos que o que foi dito em uma Fraternidade Inglesa, que consistia principalmente de artesões, não pode ser inteira- mente adequado para maçons educados de ou- tro país. Portanto corrigimos ou omitimos o que está fora do espírito ou circunstâncias do nosso tempo. Ele sentia profundamente que princípios éticos e morais eram a essência da Maçonaria e ele os formulava com grande cuidado e em cola- boração com os mais educados Maçons do seu tem­po. Isto dá ao seu Ritual um caráter particular próprio, expressando as tendências espirituais da Alemanha por volta do século 18. A tendência para a Maçonaria Cavalheiresca ou Templária, com um forte conteúdo Cristão e até mesmo Ca- tólico Romano, tinha desaparecido. Fortaleceu­- -se a tendência de que, moral elevada e princí- pios éticos, deveriam ser as essenciais caracte­ rísticas da Arte Real. Ignaz Aurelius Feßler (1756-1839) Schröder, bem conhecido e respeitado como era, tanto profissionalmente como Diretor de um teatro de alta reputação e, também como Maçom, estava em contato com Irmãos proemi- nentes e os familiarizava com os seus planos. Sua correspondência com seus “Muitos confian- tes Ir­mãos” por todo o norte da Alemanha. era parcialmente escrita em um código que foi tirado da Estrita Observância e usado com sua própria frase chave, a qual foi descoberta recentemen- te. Os princípios básicos seguidos pelos dois re- formadores da Arte Real na Alemanha, por uma iniciativa paralela, foram lançados por Fessler em Berlim e sua linha de ação será menciona- da mais tarde - pode melhor ser compreendida estudando-se a introdução do “COMPACT” da Grande Associação Maçônica de 1801 entre a Grande Loja Provincial de Hamburgo e a Grande Loja Royal York de Berlim a qual Fessler perten- cia. Embora este texto tenha sido traçado por Fessler e não por Schröder, o conteúdo reflete fielmente as idéias do último: 1º) Franco-Maçonaria e fraternidade maçônica, são dois conceitos bem dife­rentes, como as pa- lavras “ciência e escola”, “religião e igreja”. Isto nos leva para:
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 28 2º) Franco-Maçonaria, independente de tempo e condições locais, (ouvimos a voz de Lessing) sempre una e a mesma, é sempre aquilo que en- volve e coloca firmemente o homem interno entre o esquadro e o compasso, seu modo de pensar e agir e que fixa a posição moral do homem na Sociedade, embora a Franco-Maçonaria possa ocasionalmente ter-se desenvolvido em direções di­ferentes. 3º) As Grandes Lojas Provinciais Unidas não reconhecem na Fraternidade Maçônica o tal chamado propósito ou desígnio secreto que se diz possuir e além dos três graus de São João. Para elas o objetivo da Fraternidade Maçônica é o mesmo: prática, manutenção e crescimento comum da Arte; tudo isto visto pela luz de sua pura tendência moral. Isto os mais esclarecidos Irmãos tem em todos os tempos reconhecido. 4º) Como não mais se pode deixar aos caprichos de Maçons isolados ou Lojas em particular, a decisão e definição da natureza e tendência da Maçonaria, as Grandes Lojas Provinciais Unidas estão convencidas de que o mais velho Ri­tual In- glês dos três graus é o único em que podemos confiar como fonte histó­rica e para compreensão da natureza e evolução da franco-Maçonaria. A razão da curta vivência da Grande Asso- ciação Maçônica pode se achar na conturbada situa­ção política existente naqueles dias na Ale- manha, entretanto estes princípios ainda são vá- lidos hoje em dia para a Maçonaria Antiga Livre e Aceita na Alemanha. Pode nesta conjuntura ser de interesse mencionar uma opinião não favorável a Schrö- der; é a de um Pastor Protestante ortodoxo e ex-membro da Loja de Leipzig. De acordo com Taute este ex-Irmão, Professor Lindner deixou a Loja por causa de sua ambição não satisfeita e publicou um trabalho no qual apresentava Maço- naria e Religião num falso relacionamento ainda que um pouco melhor do que fez o Reverendo Walton Hannah em nosso dias. Assim o Profes- sor e ex-Irmão Lindner escreve: Eu tenho... impressão que o melhor do “Iluminati” foi aceito em sua (de Schröder) forma de Maço- naria, mas é ainda necessário mostrar-se que a forma de Schröder não se enquadra na dominan- te cultura do tempo atual, embora seja mais pro- funda que outras. Ele nos mostra uma espécie de ecletismo enfeitado com alguma filosofia de Kant, mas não há realmente nada de original ou genu­íno. Sua secretividade sobre assuntos pu- blicamente conhecidos é bem desorientadora. Tudo isto se pode chamar uma filosofia de rigo- rismo moral, tendo nela disseminado algumas demonstrações de caridade. Mais tarde, Lindner arrependido retratou-se. A insinuação sobre “Iluminati” se refere ao “Círculo Interno” de Schröder que era para ser, não uma outra “Ordem”, mas somente uma Loja de Instru- ção Histórica. Antes de iniciar a elaboração de novos Ritu- ais a Franco-Maçonaria em Hamburgo tinha que se organizar e isto não poderia se realizar sem surgirem animosidades pessoais. Só em 1790 tor- nou-se possível nomear uma pequena comissão sobre a presidência de Schröder e com­posta de representantes de todas as Lojas. Antes de tudo ele viajou para consultar seus amigos nas Lojas sobre jurisdição de Hamburgo, que haviam se espalhado além de Hamburgo e até na Alta Saxônia.u inte- resse particular era para consultar com o Irmão Bode, que tinha se mudado de Hamburgo para Weimar de forma a estabelecer contato mais fre- qüente com o Ir­mão Herder, um alto Clérigo no Du- cado de Weimar. Isto tornou-se somente possível porque Schröder tinha abandonado a direção do seu teatro em Hamburgo e agora estava vivendo como fazendeiro em sua propriedade em Rellingen perto de Hamburgo. Os próximos anos de sua vida foram dedicados integralmente ao trabalho da refor- ma que deixou uma forte marca na Arte Maçônica da Alemanha até hoje. Uma importante contribuição para o trabalho de Schröder, veio de seu amigo de longos anos, Professor Friedrich Ludwig Wilhelm Meyer (1759- 1840). Ele era um gentil-homem de vida inde­ pendente tendo muito viajado por toda Europa e In- glaterra. Na Universidade de Göttingen ele foi tutor dos Duques de Sussex, Cumberland e Cambridge. Existem evidências de que seus talentos e habili- dades lingüísticas foram usados muitas vezes pelo Rei da Prússia e seus minis­tros, que o empregaram como agente político secreto. Meyer era Franco- Maçom e foi membro da Loja “Pilgrim” em Londres de 1789 a 1791. Felizmente pode ser consulta- da sua enorme correspondência, particularmente com Schröder. Quando ele não estava viajando vivia numa pequena cidade na então parte dina- marquesa de Holsatia e só recentemente cerca de 700 cartas foram descobertas nos arquivos do Estado de Hamburgo. Destas, agora sabemos que Meyer traduziu a maior parte dos textos Ingleses e Franceses que seu amigo Schröder usou. Schrö- der aceitava os argumentos e sugestões de Meyer de bom grado.
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 29 Levaria muito tempo para examinar mais de perto o relacionamento entre Schröder e o Irmão Ignaz Aurelius Fessler (1756-1839). Fessler nasce- ra na Hungria. Educado pelos Dominicanos ele tor- nou-se professor de História e Línguas antigas, o que lhe deu grande reputação. Em seguida a uma crise pessoal e espiritual na meia idade, tornou-se Franco-Maçom, converteu-­se ao protestantismo e morreu velho como Chefe da Igreja Protestante Russa. Durante sua estada em Berlim, empreen- deu a Reforma dos Rituais da Grande Loja Royal York de forma a restabelecer a pura Arte Maçônica ou pelo menos separá-la dos “Altos Graus”. Neste contexto deve ser lembrado que os sistemas então existentes eram baseados nos sistemas hierárqui­ cos; as Lojas eram totalmente subservientes a um corpo mais alto e não tinham autonomia, nem ao menos para a eleição de seus oficiais. Fessler es- tava muito bem informado sobre os diferentes sis- temas, porquanto ele tinha, ao contrario de Schrö- der, sido admitido à maioria dos “Altos Graus”. Numa carta a um amigo ele declara que possuía uma tradução do “Three Distinct Knocks” que ele pensava que era o Ritual de velha Loja Ingle- sa em York; esta confusão entre os Antigos e a efêmera Grande Loja de York é freqüentemente encontrada na Literatura Maçônica Alemã do pe- ríodo de Fessler. Entretanto, ele não usou este texto para os seus Rituais reforma­dos, mas ba- seou seu trabalho parcialmente sobre o tal cha- mado “Ritual de Praga”, verificando que sua ori- gem vinha dos textos Franceses baseados em Prichard. Como este Ritual desem­penhou um importante papel na reforma da Arte Maçônica Alemã, vale a pena considerá-lo rapidamente. Seus integrantes eram membros de uma Loja de Praga chamada “Zur Wahrheit und Einigkeit zu den drei gekrönten Säulen” (A Verdade e União das três Colunas coroadas) fundada ao redor de 1784 da fusão de duas Lojas mais antigas como o nome indica. Em 1794, a Loja publicou um Livro contendo a Constituição e os Rituais da Arte, um volume de mais de 400 páginas, que não faz referência a Constituição Inglesa, mas a concepção dela, da própria Loja. De início é afirmado que a Loja é uma “República Democrá- tica”. A conexão com eventos na França é óbvia (1794), mas é surpreendente que este livro foi impresso na Áustria Imperial e não na França. O Ritual introduzido em 1788 está baseado no sis- tema Zinnendorf (Sueco), mas “com mudanças nas explanações morais dos símbolos numa linguagem mais concisa”. Não era para haver nenhuma influência, ou seja lá o que for, dos tais chamados “Altos Graus” nas Lojas da Arte e o “Iluminati” é apontado como sendo totalmente uma organização não-maçônica. “De tempo ime- morial” é dito que os “não Cristãos” não pode- riam ser admitidos, mas uma inte­ressante exce- ção foi feita no caso de membros da “Seita Soci- niana” que foram exilados da Polônia. Esta seita era definitivamente Cristã, mas seguia a doutrina Unitária. Um interessante fato no Ritual é que a velha obrigação não era mais mencionada. Ou- tro texto que Fessler usou foi o chamado “Ritu- al Essinger”. Não foi possível achar uma cópia do mesmo, mas da corres­pondência Schröder/ Meyer e das publicações de Fessler sabemos que um médico chamado Gasser, havia trazido o texto da Inglaterra mais ou menos no ano de 1784. Na verdade este Ritual era uma cópia do “Three Distinct Knocks” que passou nas mãos de Fessler, havia sido publicado na Saxônia em 1804. Foi usado na Loja que o Barão Dalberg fundou em sua residên­cia de verão em Essingen perto de Mannheim onde ele era Diretor de um então famoso Teatro. Seu irmão mais velho foi o último Eleitor e Arcebispo de Mainz e Grande Aventais do Rito Schröder utilizados pela GLOMARON
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 30 Chanceler do Santo Império Romano, enquanto seu irmão mais novo era um conhecido músico e compositor. Todos os três eram franco-maçons e personalidades de destaque de sua época. Fes- sler pretendeu que este Ritual era pelo menos o mais velho, porquanto já havia sido usado antes de 1717 na Loja de York. Isto aumentou a ira de Schröder e numa carta a Meyer ele escreve: Não deveria ele (Fessler) e seu tão meticuloso amigo Mossdorf, saber que o lugar Essingen não existe? Somente uma coisa em todo o livro me chamou atenção – The Old Charges da Cons- tituição de York. Seu estilo e conteúdo são ob- viamente mais novos que o texto de Anderson, que por si é mais novo que aquele publicado por Preston na sua “Ilustrations”. Isto é de grande interesse porque demons- tra a extrema confusão causada pela publicação do Irmão Dr. Krause (como hoje sabemos) do texto complemente apócrifo da Constituição de York de 926. Havia ainda um outro eminente Franco- Maçom com quem Schröder mantinha contato e cujos conselhos freqüentemente seguia. Este era Johann Gottfried Herder (l744-1803) cujas corres­pondências com Schröder dos anos de 1799 a 1802 estão parcialmente acessíveis em uma publicação do Irmão Wiebe de Hamburgo e em um certo número de cartas não publicadas existentes nos arquivos do Estado da Prússia em Berlim. Quando o exército Francês ocupou Hamburgo no ano de 1808, Schröder infelizmen- te destruiu a maior parte de seus papéis. Sabe- se, por intermédio de outras fontes, que a pri- meira versão do Ritual de Schröder introduzida em 1801, continha um certo número de canções escritas ou pelo menos trabalhadas por Herder. A maior parte delas não foram incluídas na ver- são de 1816, pois que a prática de cantar em Loja havia se tornado menos popular. Os textos disponíveis de hoje são em prosa somente, mas eles tem o espírito do gênio de Herder. Johann Gottfried Herder (1744-1803) Schröder e Fessler trocaram cópias de seus Rituais, porém o último comentou, que os Irmãos de Berlim acostumados ao Ritual Fran- cês não apreciariam a simplicidade do texto de Schröder. Ambas as versões foram enviadas por Schröder aos seus outros amigos e conselhei- ros e os mesmos preferiram o seu (de Schrö- der). Depois de certas pequenas modificações, Schröder submeteu seu texto aos Mestres de Hamburgo em 29 de junho de 1801 que o ado- taram por unanimidade. Depois de mais uma revisão de certas passagens, que não tinham concordância com a cerimônia, foi impressa uma edição limitada para as Lojas de Hambur- go e uma edição maior foi editada em 1816 para todas as Lojas Alemãs. Desta edição existe so- mente uma cópia pertencente a uma Loja na ci- dade de Celle, cujo exemplar felizmente tem sido possível estudar. Este texto não contém nada de místico ou oculto, mas retém a simplicidade do original Inglês. Incluído o pensamento alemão da época, expressa um texto de alto fervor mo- ral aliado a um generoso espírito de princípios Humanitários. Voltando as atividades de Schröder, es- tas podemos descrever utilizando suas próprias
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 31 pala­vras. Em 1792 ele escreve: Com permissão dos Veneráveis Mestres, Schuch e Schütte e consultando o Irmão Beckmann, eu purguei as escórias do Ritual e nós gradualmen- te intro­duzimos estes melhoramentos. Somente o Venerável Mestre Poppe, da Loja “Absalom”, permaneceu com a velha versão, a mística alu- são e promessas da grande Luz. Era irritante que este cérebro acanhado continuasse falando de preservar a Constituição Inglesa, que ele não co- nhecia e a cuja introdução ele tanto resistiu. ... Embora o nosso Ritual revisado, ainda não bem representan­do plenamente o texto mais velho, pois nossas mãos ainda estavam amarra­das, se comparou favoravelmente com todos os outros textos conforme nos afiançaram Irmãos visitan- tes freqüentemente. Do que está acima escrito, podemos con- cluir de que o texto revisado do Rito da Estrita Obser­vância - que era ainda o oficial - estava agora em concordância com a usança Inglesa. A linha de ação de Schröder estava en- cerrada consigo mesmo. Mas, ele tinha de con- seguir a aprovação, primeiro da Comissão de Elaboração e depois das Lojas da Jurisdição de Hambur­go. Isto não foi obtido sem dificuldade. O Irmão Sieveking, um cidadão respeitável e Venerável da Loja “São Jorge” declarou em seu discurso inaugural em 1789, que as usanças, símbolos e obrigações eram uma farsa e que nenhuma pessoa sensata deveria dar qualquer valor a elas. Ele somente seria Venerável da Loja, se tudo isso fosse mudado e o Ritual como conhecemos fosse abandonado. Schröder ficou muito chocado com essa atitude e quatro sema- nas após, num discurso enérgico aos Irmãos de Hamburgo disse: Acabar com os símbolos significa acabar com a Maçonaria. ... É legal tirar conclusões adversas dos abusos, contra o todo? Aquele que olha para os hieróglifos como uma farsa, tem primeiro que nos convencer, em termos não incertos. Meus Irmãos, considerem antes de tudo, as primeiras lições tiradas das vidas virtuosas de homens sábios, de estabilidade, de prudência e de sigi­ lo e que nos foram ensinados no primeiro grau. Pensem nestes grandes preceitos e nos subse- qüentes modelos! Tudo isto é baseado na farsa? Mesmos se os velhos costumes não tem mais valor que as práticas das Guildas dos Maçons trabalhadores da Pedra, mesmo se a interpreta- ção delas é inteira­mente inútil .... é o bastante, elas são a base material da qual a grande corren- te da Fraternidade foi formada e enquanto não permitirmos mudanças maiores, enquanto per- manecermos com o sistema Inglês, por todo este tempo, nossas reuniões estarão absolutamente livres da intromissão do misticismo, Iluminati e de outros sonhadores. Não antes de 1791 foi possível se livrar dos Corpos governantes dos “Altos Graus”, introduzi­dos pelo Rito da Estrita Observância, e do qual os Irmãos estavam ficando cada vez mais cansados. Seu dirigente era o Irmão von Exter, que ao mesmo tempo era Grão-Mestre Provin­cial sob a Constituição Inglesa. Havia tam- bém problemas financeiros para serem resolvi- dos porquanto estes Corpos eram responsáveis pela administração das Lojas da Arte. Ao final, aos “Old Scots”, aos “velhos Escoceses”, como eles se intitulavam, foi pago uma certa soma em dinheiro tirado do Fundo Geral. Desde o começo, Schröder não se tinha restringido a organizar um novo Ritual somen- te para Hamburgo; ele sempre teve em mente que o mesmo servisse todas as Lojas de língua Alemã. Algo como um vácuo havia surgido com o colapso do Rito da Estrita Observância e nes- ta oportunidade o sistema Sueco do Irmão Zin- nendorf tentou se introduzir. Nesse tempo houve somente uma outra Grande Loja Provincial sob a Constituição Ing1 esa, era em Frankfurt, traba­ lhando do mesmo modo que Schröder; Os Graus simbólicos tinham que concordar com a usança inglesa, mas cada Loja estava livre para traba- lhar qualquer dos “Altos Graus” e isto levou natu­ ralmente, exatamente para aquelas dificuldades que Schröder conseguiu evitar em Hamburgo. Tem que se salientar que ele de modo nenhum desejou criar um novo sistema próprio. Assim ele se manifestou em uma carta a Meyer: Assim como a Franco-Maçonaria se espalhou da Grande Loja de Londres e como nenhuma Grande Loja pode existir na Alemanha, com a presente situação política, a coisa certa é de se permanecer sob os auspícios da Grande Loja de Londres, se é para sermos legalmente reco­ nhecidos em toda parte. Até mesmo as Grandes Lojas da França, Holanda e Suécia, concorda­ ram em não constituírem Lojas fora de suas fron- teiras políticas, de forma a serem reconhecidas por Londres. A resposta de Meyer foi a seguinte: É verdade que eu firmemente acredito que uma Loja de acordo com a antiga usança maçônica não precise de uma Constituição para sua legal
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 32 existência. Como as coisas estão, entretanto, eu concordo com você de que é aconselhável ter uma Carta Constitutiva de uma fonte de Fran- co-Maçonaria mais nova, e eu estou convencido que – se tal coisa for negligenciada – estaríamos abertos para toda a sorte de tapeações e farsas. Agora deixemos Schröder com suas via- gens, durante as quais ele apresentou seu novo Ritual com sucesso em muitas Lojas sob a Cons- tituição de Hamburgo, ou na sua casa de campo estudando o material que ele tinha colecionado. Em seguida examinaremos as fontes de onde ele tirou o material. A primeira Grande Loja da Inglaterra nunca tinha publicado um Ritual autorizado, pois era um dos princípios básicos que os trabalhos das cerimônias devem ser apresentados de cor. O rápido crescimento da Maçonaria, no Continen- te Europeu de 1730 em diante, propiciou inevita velmente a publicação das tais chamadas “ex- posições” que alegavam ser textos “autênticos” das cerimônias. Como muitos trabalhos foram publicados sobre este assunto, é desnecessá- rio tratarmos desta matéria. Qual foi o proble- ma que Schröder teve que superar, não tendo a pos­sibilidade de trabalhar com um genuíno e autêntico texto? Uma pergunta imediatamente surge: Por- que ele mesmo não foi a Londres? Como homem de trinta ou mais anos de experiência teatral, não deveria haver nenhum problema para ele memo­ rizar todos os textos de que necessitasse. Ele se apresentaria aos “Modernos” de onde Ham­ burgo tinha uma Carta Constitutiva. Mas é bem possível que ele poderia ter caído nas mãos de Preston ou Dermott. Sabemos que ele havia pla- nejado uma viagem a Londres levando consigo o amigo Meyer, porque ele falava pouco o Inglês, mas tudo acabou em nada. Uma outra per­gunta é: porque ele não pediu para outro Irmão, que iria a Londres a negócios, para obter as informa- ções que ele necessitava? Porque ele também não pediu a um dos Irmãos Ingleses que eram visitantes? Não há resposta, mas é conhecido que ele possuía todas as exposições exis­tentes, tanto Inglesas como Francesas, que ele estava intrigado pelas publicações de Preston e que ele estava ciente da existência de duas Grandes Lojas rivais. Entretanto, ele não sabia, como a maior parte do povo do seu tempo, a real ori- gem dos “Antigos” e ele parece ter acredi­tado que eles usavam um sistema de trabalho mais antigo que aquele dos “Modernos”. Deve ter sido desconcertante para Schrö- der, achando seu caminho através dos textos a sua disposição, notar a posição dos Vigilantes, a inversão das Colunas “J” e “B” e, entre muitas outras diferenças entre “Prichard” e “Three Dis- tinct Knocks”. É interessante notar que depois da União na Inglaterra, nenhuma mudança foi fei- ta no Ritual de Schröder. Quando seu sucessor como Grão-Mestre Provincial comunicou a Lon- dres a notícia da morte de Schröder, numa carta datada de 08 de outubro 1816, ele fez um certo destaque dizendo: Ele considerou o livro Inglês da Constituição e o velho Ritual Inglês, como as únicas fontes do fim e da essência da Maçonaria. Ele informou as Lojas sob a nossa jurisdição e muitas outras so- bre isto e, em 1801, ele as induziu a adotarem o velho Ritual. Este texto entretanto foi modifica- do de forma a reduzir tanto quanto possível as discrepâncias com aqueles de outras Lojas. Nós, portanto, mantivemos as palavras da Maçonaria mais moderna, por serem de usança comum no Continente e mais alguns detalhes. Hoje, trinta Lojas na Alemanha, e seis na Rússia, trabalham com este Ritual, preferindo o velho Ritual a todos os outros. Schröder muito se lastimou, que as pa- lavras que haviam sido muda­das no seu Ritual de forma a concordar com a usança Continental, foram ago­ra restauradas para a velha forma na Inglaterra, conduzindo à situação desa­fortunada, que outras palavras, a maior parte desconheci- das no Continente, estão agora sendo usadas na Inglaterra. Incidentalmente, o comentário de Schröder sobre uma publicação do Irmão Bode, que era um membro de destaque da Estrita Observân- cia, bem ilustra a confusão reinante nas men- tes dos franco-maçons Alemães. O Ir. Bode es- tava convencido que os Rituais Ingleses foram inventa­dos pelo Clero Católico Romano bem como da oposição das Colunas “J” e “B”. Schrö- der escre­ve: Bem, se em todas as velhas Lojas Inglesas, mes- mo naquelas trabalhando como na versão de Pri- chard, o Aprendiz recebe o seu salário na coluna “J” e o Com­panheiro na “B”, porque Bode não in- terpreta “J” e “B” como “Ignatius Benedictus” que estaria mais de acordo com sua teoria? Neste contexto, um breve comentário sobre este problema particular pode ser útil. No tempo de Schröder, depois da dissolução da Socieda-
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 33 de de Jesus em 1773, uma reação muito forte con­tra este Corpo Religioso tinha se espalhado por todo o Continente Europeu e não somente pelos Países Protestantes. Seus membros fo- ram acusados de tentar se infiltrar na Franco­- -Maçonaria, principalmente com os graus Ca- valheirescos e Templários. Schröder e muitos de seus amigos foram influenciados por esta reação e muitos panfletos foram editados ata- cando ex-membros da Sociedade com grande violência. Muitos eminentes contemporâneos como Lessing, Barão Knigge, Biester e Nicolai na Alemanha, De Bonneville, Ragon e Rebold na Fran­ça e Capitão Smith na Inglaterra, tomaram parte nesta campanha anti-Jesuítica. Um dos princi­pais argumentos foi, que a Franco-Maço- naria havia sido organizada na Inglaterra pelos Jesuí­tas, como um movimento anti-Protestante da Igreja Católica Romana. De Bonnevilie, por exem­plo, acreditou que a exposição de Prichard era de origem Jesuítica, assim como também o Irmão Bode, conforme explicou num longo me- morando ao Duque de Brunswick, Soberano do Rito da Estrita Observância. Ele tentou provar Friedrich Ulrich Ludwig Schröder 1744-1816
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 34 que cada simples elemento ritualístico continha uma alusão a Roma, a Becket ou aos Jacobitas. Suas referências eram dos Rituais baseados em Prichard. Quando Schröder chamou sua atenção ao “Three Distinct Knocks”, Bode respon­deu: Eu mesmo tenho “Three Distinct Knocks” mas não o acho muita coisa. Acredite na minha pa- lavra, na realidade os rufiões são nem mais nem menos que os Reformadores do século 16 e que H. A. não é mais que a hierarquia Romana. Schröder, como um homem equilibrado, não seguia seus amigos até este ponto; ele lem- brou a Bode que nas antigas Lojas não havia Altar, mas apenas uma simples mesa para colo- car o Livro da Sagrada Lei. De qualquer maneira Schröder decidiu usar o “Three Distinct Knocks” como material básico do seu trabalho. Ele tinha um grande número de Rituais e Catecismos im- pressos de origem Inglesa, Francesa e Alemã a sua disposição, pois todas as Lojas Conti­nentais trabalhavam com o texto impresso e ainda hoje assim o fazem. Teria sido interessante se tivesse sido possível apresentar o texto do “Three Dis- tinct Knocks” junto com o texto final de Schröder de 1816 na forma de um resumo. De qualquer modo, como este texto representa, com algumas adaptações de linguagem, o Ritual usado hoje pela maioria das Lojas de língua Alemã, incluin- do a Loja “Pilgrim” de Londres, seria impróprio assim fazer. O Irmão Milborne em seu importan- te trabalho apresentado no Livro “Ars Quatuor Coronatorum” n.º 78, publicou um resumo, mas, ambos seus documentos básicos eram exposi- ções, enquanto neste caso, uma exposição ha- via sido transformada em um autêntico Ritual. Contudo está bem claro nos co­mentários feitos por Schröder, que ele tinha idéias próprias e uma concepção clara do que ele deveria inserir na estrutura do “Three Distinct Knocks” e, por- tanto, estes comentários serão dentro do pos- sível dados em extenso. Aqueles que gostariam de fazer um estudo mais minucioso devem ter como referência uma cópia do Ritual de Schrö- der do ano de 1816. As idéias de Schröder se tornam óbvias pela leitura atenta do seu próprio texto. As citações são da edição de 1815 do seu “Materialien zur Geschichte der Freimaurerei” (Matéria para a História da Fran­co-Maçonaria) que daremos abaixo: Eu espero que o Ritual completo explanará me- lhor minha própria opinião do que os fragmentos dos primeiros parágrafos. Não deve ser esqueci- do que eu de modo algum considero que este ri- tual (“Three Distinct Knocks”) seja o origi­nal. Tal- vez se tenha desenvolvido gradualmente a uma certa perfeição, pois deve ter sofrido mudanças, pelo menos quando a Igreja Protestante tornou- se dominante. As Lojas Unidas (isto é, aquelas de Hamburgo e Berlim) já conhecem este Ritual de uma coleção de textos, mas as observações nele servem somente para mostrar a diferença entre a velha e a nova Franco-Maçonaria e eu não podia levantar todo o véu. Portanto, eu agora apresento para os meus leitores uma tradução consciente, para que se faça um exame conve- niente. O pequeno livro que abriu os meus olhos e faz as minhas afirmações altamente prováveis é chamado: “The Three Distinct Knocks on the Door of the Most Ancient Freemasonry” (As Três Batidas Diferentes na Porta da mais Antiga Fran- co-Maçonaria). Damos abaixo o prefácio do “Three Distinct Knocks” que é importante porque conclui assim em seu final: Depois eu fui convidado para ir a uma Loja Ir- landesa que se denominavam os mais antigos maçons e que mantém sua Grande Loja na Ta- verna dos Cinco Sinos no Strand e que é todo o assunto deste livro, e não o outro, porque'á há um livro publicado chamado “Masonry Dissected” (Maçonaria Dissecada, que foi publicado no ano de 1700 (sic) e eu acredito que era toda Maço- naria que se fazia usar naquele tempo; mas não é nem a metade do que é usado agora, embora seja o melhor que já foi escrito sobre o assunto antes disso. O comentário de Schröder foi: “do prece- dente, segue sem nenhuma sombra de dúvida que esta Loja, constituída pela Grande Loja de Londres, trabalhava com um Ritual que simples- mente correspondia com a “Maçonaria Disseca- da” de Prichard”. Ele também corrige a data da publi­cação que não foi 1700 e sim 1730. Schrö- der agora faz algumas observações prelimina- res sobre o texto do “Three Distinct Knocks” que está parcialmente em linha com o original, mas também contém algumas adições que são reco- nhecíveis como a que segue: ele dá a Coluna “B” para o 1º Vigilante e a “J” para o 2º Vigilante. Numa nota claramente reconhecida, como sua própria, ele assegura que nenhum maço origi- nalmente tinha sido usado, mas que o Venerável e seus Vigilantes usavam um Bastão de sete pés (2,10 m) para abrir e fechar a Loja. Ele acres­ centa que aparentemente nada era desenha- do no retângulo no centro da Loja. Segue uma
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 35 tradução de palavra por palavra por Schröder, comparando-o com “J e B” e com Prichard. Isto e também válido para o Catecismo dos Apren- dizes que se segue depois. Pode-se notar que em alguns trechos a tradução que ele usou con- tinha incorreções ou que o conhecimento da lín- gua Inglesa de Schröder não era muito grande. Por exemplo, ele parece acreditar que durante a Iniciação, os Irmãos sentavam em volta de uma mesa com uma Poncheira e copos no centro. É difícil imaginar como com tal arranjo, o Mestre ia do Oriente para o Ocidente onde se supunha que era onde o Candidato se ajoelhava. A posi- ção das mãos durante a obrigação do primeiro Grau, como observado na Constituição Escoce- sa e outras, nunca foi costume no Continente Europeu e Schröder presta especial atenção a esta parte da cerimônia. Lamentando que mais nenhuma explicação é dada, ele sente que esta posição força o candidato quando lhe é restau­ rada a Luz, antes de tudo ver as Três Grandes Luzes ante seus olhos. Quanto a velha obriga­ ção, ele concorda com a sugestão de Herder, que esta não deve ser lida para o candidato, mas deve ser incluída no Catecismo ou comunicada numa Loja de Instrução. Como o Diretor de Ce- rimônias não é mencionado nas exposições, ele não inclui este Oficial no seu Ritual; suas fun- ções foram distribuídas aos Diáconos. Na ver- dade, a maioria das Lojas Alemãs hoje em dia tem um Diretor de Cerimônias, embora seja ele conhecido como Mestre de Cerimônias. Os co- mentários de Schröder sobre o método de dar o Sinal, Toque e Palavra são interessantes: Antes dele dizer alguma coisa, ele tinha de ser instruído. Parece que ele tinha estado ajoelhado até então. Diversas razões me levam a duvidar, que nesse original arranjo, nenhuma palavra foi dita sobre o Templo Salomônico. Como é que neste Ritual e no Catecismo de Prichard, “B.” vem antes de “J. ”? “B.” era sênior e “J.” júnior e na Bíblia também a ordem é “J.” e “B.”. Dr. Krau- se corretamente diz que deve ser “J.” porque “ele será elevado”. Pode-se suspei­tar que a mudan- ça na Ordem iniciou, senão no começo, então depois de 1725, quando o primeiro e o segundo graus eram dados juntos; a verdade pode encon- trar-se nos documentos na Primeira Grande Loja da Inglaterra antes de 1725. Alguns anos antes, quando todos esses pro- blemas já se achavam em sua mente, Schröder havia escrito uma longa carta ao Grande Secre- tário, Irmão White, em Londres, solicitando deta- lhes ritualísticos. Esta carta prova que, embora ele estivesse ciente da existência das duas Grandes Lojas, ele não sabia as causas do surgimento dos “Antigos”. O rascunho foi enviado a Meyer para traduzir; Meyer devolveu com este comentário: “White certamente fará o melhor possível para ser explícito na sua resposta, mas se ele é forçado a ficar calado, isto é, confes­sar sua ignorância, então sabemos pelo menos que não podemos esperar muito de lá”. Era somente natural, que nenhuma respos- ta se recebeu de Londres. A Grande Loja, natural­ mente, declinaria de discutir assuntos concernen- tes ao Corpo rival e de qualquer modo, não estaria de acordo com o hábito inglês discutir questões do Ritual por escrito e, muito menos, com um Irmão desconhecido. Comentando sobre o discurso dirigido ao novoAprendiz e a “Corda”, a opinião de Schröder é bem definida: Toda esta aparelhagem não é bem adequa- da para um homem educado. Po­deria ter sido inventada somente para as classes baixas e a resposta do Apren­diz confirma isto sem dúvida. Por outro lado, nenhum Construtor ou Mestre de Obras poderia ter inventado isto; teriam eles tratado ou punido seus vigorosos trabalhadores desse modo? Aqui vemos a influência de Herder bem clara. Num memorando para o rascunho de Schröder, ele escreveu: Não pode ser negado, que o todo das cerimô- nias dos Maçons Operativos, são para nós es- tranhas e fora de moda e não contém nada de inspirador. Já no fim do século (17) isto foi sen- tido mesmo na Inglaterra onde as tradições das vári­as Artes eram tidas em alta estima. Portanto os símbolos mais finos da, por ex: Arquitetura, foram adicionados aos símbolos da pura Arte Operativa. Tomando isto em consideração, de- vemos evitar qualquer coisa grosseira; mesmo as perambulações não devem ser chamadas de provas perigosas... Somente com muita cautela podemos preservar essas velhas usanças que ficaram para trás. O nó corrediço e o cabo de reboque nos mos- tram falta de compreensão nas práticas ritualísticas Continentais. Ao candidato entrar na Loja com uma corda no seu pescoço foi dado um significa­do es- piritual e simbólico pelos Franceses, indicando que ele ainda estava preso ao mundo profano fora da
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 36 Loja. Esta interpretação, embora se ajustasse bem às suas idéias, não foi adotada por Schröder. O cabo de reboque na forma tradicional da obrigação, tem pouco signi­ficado para os Irmãos do Continente que não viajam. A corda com nós místicos em in- tervalos, que aparece com certa proeminência nos painéis das Lojas do Continente ou que é vista cir­ cundando as paredes do Templo, tem sido assunto para muita especulação. Ritualistas, como Boucher e Plantagenet deram longos comentários sobre ela e no dicionário de Ligou, é afirma­do que este elemento decorativo poderia ter sido derivado do Brasão dos Eclesiastes e que um significa- do simbólico foi adicionado depois, ou seja, que esta corda representa a Fraternidade. No “Three Distinct Knocks” ao joelho nu é dada uma explicação que até mesmo o autor anônimo acha uma “tolice”. Schröder comenta que a resposta “não é particularmente uma sen- sível espiritualização”. Durante o tempo em que analisava os tex- tos que tinha em sua frente, Schröder nunca deixou de pedir conselho a Meyer. Por exemplo, quando ele procurou explanações do Compas- so so­bre o volume da Sagrada Lei. Meyer sentiu que a tradução das palavras “para nos conser- var”, em alemão só podia significar “para todos os homens e especialmente a um Irmão”. Em outras palavras as Três Grandes Luzes são sím- bolos de nosso dever para com Deus, para nós mes­mos e para com nosso próximo. O símbo- lo de união com os nossos Irmãos, e a forma da própria Loja, um retângulo. De acordo com o velho Ritual, o Compasso não é para desenhar, nem para unir, mas, para medir e determinar li- mites. Para nos conservar sujeitos, nada mais significa que preservarmo-nos dentro de limites. O Esquadro determina a precisão dos nossos passos para com nós mesmos. Assim, o Volu- me da Sagrada Lei deve simbolizar uma crença num Ser Superior, numa ordem mais elevada do mundo, porque seria supérfluo deixá-lo simbo­ lizar moral porquanto o Esquadro e Compasso estão lá para esse fim. A isto Schröder respon­ deu: Eu posso bem me lembrar que a expressão “sujeitos” me desorientou. Eu es­tou convencido que no decurso do tempo advérbios tem mu- dado por tradição oral. O significado não pode ser outro que o Compasso determinar os limites dos Franco-maçons para com todos os homens como também para com seus Irmãos, com círcu- lo maior para com o anterior e mais estreito para o posterior. O sentido de “não aproximarmo-nos demasiadamente” certamente não estava na in- terpretação antiga. Aseguinte seção do “Three Distinct Knocks” sobre a formação de uma loja (3, 5, 7, 11) Schrö- der sentiu que foi uma adição posterior, ao ve- lho Ritual e no que ele certamente estava com a razão. Ele comenta: As sete artes liberais foram adicionadas para tor- nar o grau mais interessante na nova Maçonaria. Elas não estão no primeiro ou segundo graus de Prichard. Isto prova que deve ter havido de- pois de 1717, uma tendência para banir qual­quer coisa pertencente a Maçonaria Operativa. Se os Aprendizes se preocu­passem com as sete artes liberais, o que restaria para os Companheiros e Mestres Maçons fazer? De fato, estes elementos ritualísticos po- dem ser encontrados ainda hoje em certos Ritu- ais Fran­ceses como parte dos catecismos para Aprendizes e Companheiros. De qualquer forma, Schröder não adotou do “Three Distinct Knocks” quaisquer alusões ao Velho e Novo Testamen­ to, exceto a Lenda Hirâmica. O Volume da Sa- grada Lei permanece fechado, mas algumas Lojas abrem-no no primeiro capitulo do Evange- lho de São João ou no terceiro grau, no Livro de Reis. Schröder tinha notado que nem Prichard nem “Three Distinct Knocks”, mencionam uma Bíblia aberta. Quanto ao segundo grau, que nas primeiras décadas era sempre dado na mesma ocasião do primeiro, Schröder estava de acor- do com todos os ritualistas em achar dificuldade para dar uma interpretação ritualística. O texto do “Three Distinct Knocks” ele achou ser de uma grande simplicidade e a detalhada descrição dos Pilares certamente não forneceu elementos para uma interpretação esotérica. Isto despertou o talento de Schröder como ator dramático para criar um Ritual inteiramente novo, com sua pró- pria concepção deste grau. A uma tanto laborio- sa explanação do Painel da Loja que é comple- mente omitida, colocou em seu lugar os princí- pios morais explanados numa bela linguagem e toda a cerimônia tem o significado de inculcar no candidato esperança e alegria. As viagens são acompanhadas com comentários encorajadores e flores e música são importantes fatores neste grau. Sabemos dos comentários de Herder sobre o rascunho de 1800 que suas sugestões foram
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 37 aceitas em grande maioria. Ele avisou Schröder para não usar o número sete porque este havia provocado muitas interpreta­ções errôneas, por isto a Escada em caracol não aparece. Das mui- tas sugestões que Herder apresentou, podemos concluir que Schröder tinha a tendência de fazer seu texto mais verboso do que era apropriado para um Ritual. De outro modo, Herder como um clérigo, gostava de rascunhar com certa suntuo- sidade, embora ele concordasse com Schröder que quaisquer alu­sões ao Novo Testamento de- veriam ser evitadas. De acordo com muitos pesquisadores ritu- alísticos, Schröder era muito crítico no que con- cerne ao segundo grau. Ele pensava que o grau derivou da seguinte maneira: Alguns membros do clero Católico (provavelmen- te Jesuítas) devem ter tido influência na origem deste grau como pode ser verificado na seguinte explana­ção. Seu fim foi a lamentação por Char- les I, a esperança pela restauração do seu trono e da religião Católica na Britânia e Irlanda, atra- vés da palavra restau­rada. Charles II já tinha sido coroado na Escócia e Cromwell morreu em 3 de Setembro 1658, 21 meses antes da coroação de Charles II na Inglaterra. Eu estou convencido que foi somente então que os dois graus foram trazidos para Londres. Agora tornou-se possível para os monarquistas se congregarem com mui- to menos perigo e discutirem assuntos num lugar privado debaixo da co­bertura da Maçonaria. So- mente a Grande Loja estava de posse de dois novos graus o que eu explicarei de acordo com o livro “Three Distinct Knocks”. Agora segue novamente. a tradução pala- vra por palavra com o comentário de Schröder: Companheiro aqui significa Artífice porque ele está entre o Aprendiz e o Mes­tre. O velho Ritual foi invertido para aquele do Aprendiz, mas o ve- lho e agora arcaico nome de “enter’d Prentice” ficou mantido. A atitude do candidato quando presta o jura- mento, como está descrito no “Three Distinct Kno- cks”, leva para este comentário: “Eu suspeito de erro de impressão nesta parte, mas a autentici- dade desta incompreensível cerimônia está con- firma por outro Ritual Irlandês e por aquele de uma Loja do “Rit Ancien” de Amsterdã. A defesa disto está explicada no Ritual anterior, bastante divertido e tirado do Êxodos 17, 11-12'. No fim da tradução está o comentário irado de Schröder: Agora, o que o Companheiro aprende neste grau? Certamente seu conhecimento deveria ter aumentado com algo mas ele tem aqui a melhor oportunida­de de esquecer o que ele aprendeu lá. Como Aprendiz, ele aprendeu algumas signi- ficativas espiritualizações e sobre as sete Artes Liberais, a essência da ciência dos tempos anti- gos. Aqui o que é dito sobre as duas Colunas no Pórti­co do Templo foi tirado palavra por palavra da Bíblia. A recepção é a mesma do Aprendiz so- mente com a diferença de que os olhos não são vendados e o toque e a palavra são diferentes. O velho inigualável Ritual dos Maçons Livre e Acei- tos de outro modo é um todo completo. Schröder mais adiante observa que este grau, exceto pela letra “G”, não é de nenhuma maior importância que o de Prichard ou os Ritu- ais Franceses. Para Prichard o grau de Compa- nheiro era nada mais que apenas uma introdu- ção ao grau de Mestre Maçom, não pertencendo a Maçonaria mas, era uma conseqüência dela. Pode ser que não estivesse inteiramente errado em sua opinião, como de fato as sete Artes Libe- rais foram transferidas para o segundo grau na maioria dos Rituais Franceses. É também ver- dade que Schröder deixou fora todas as alusões ao Velho Testamento, mas no seu esforço de ter “o mais velho” Ritual, ele eliminou tudo o que ele acreditava serem adições posteriores mesmo quando elas correspondiam com sua con­cepção geral, como por exemplo, a apresentação do tronco de solidariedade. Antes de proce­der a análise de Schröder sobre o terceiro grau, será vantajoso descobrir suas idéias funda­mentais. Ele conhecia todos os Rituais importantes de seu tempo, mas o seu mais ardente desejo era voltar as fontes. Já foi mencionado que Schrö- der acreditava que tinha havido so­mente uma cerimônia de iniciação aplicada à Maçonaria Operativa mas, quando o estágio da Especula- tiva havia sido plenamente desenvolvido, certas velhas usanças tiveram de ser aban­donadas e novos elementos ritualísticos foram portanto in- troduzidos. Schröder compreendeu que ele não podia voltar a roda de evolução, mas ele sen- tiu que os Rituais existentes para a cerimônia de elevação eram inerentemente supérfluos. Na verdade nenhum sistema Maçônico tem sido capaz de providenciar uma função satisfatória para este grau e é afirmado que o melhor con- teúdo alegórico é o que Schröder e seus ami- gos deram para ele. Com um preciso instinto do
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 38 espírito do seu tempo, a aurora do Iluminismo e o surgimento do romantismo, ele recolocou as citações enfadonhas e explanações do Velho Testamento como simples ensinamen- tos de Ética e Moral Maçônica. Tão estritamente quanto possível, porém de nenhum modo sem criticismo, ele conservou seus textos dentro da estrutura do Ritual que ele havia escolhido e ele o adornou com comentários instrutivos e enco- rajadores em vez de citações Bíblicas. O objeti- vo de trabalho numa loja Maçônica era para ele o cultivo de uma Fraternal e espiritual comuni- dade pela prática de cerimônias ritualísticas. O cargo de Orador era, portanto muito importante e substituiu o de Capelão. A intensa vida espiritual e intelectual nas Lojas Francesas e Alemãs no século 18 - mencionare­mos somente a “Loge des Neufs So- eurs” em Paris e a Loja Amália em Weimar como exemplos - foram principalmente devido a influ- ência do Orador. É verdade que hoje em dia nem todos os Oradores são gigantes intelectuais (e temos muitos volumes de discursos terrivelmen- te maçan­tes proferidos nas Lojas no século 19) mas havia e ainda há, uma oportunidade para os irmãos debaterem as preleções dentro da estrutura de unidade fraternal e perfeita harmo- nia e assim conhecer melhor uns aos outros, do que somente o trabalho ritualístico permitiria. Na Alemanha estes debates tem lugar na sala dos Passos Perdidos mas na França são realizadas em Loja aberta. Para a parte do Mestre, Schröder também seguiu o texto do “Three Distinct Knocks”, tan- to quanto interessava o procedimento do ceri- monial, mas com certas modificações que ele havia aplicado nos primeiros graus: o candidato não era preparado descalço, nem com os bra- ços e o peito desnudos e o juramento foi mo- dificado para uma solene promessa dada com um aperto de mão. Novamente muitas alusões ao Velho Testamento foram omitidas. A exorta- ção e o com­promisso, bem assim como a elabo- rada cerimônia de preparação antes da entrada do candida­to, estavam muito solidamente con- cebidas no conceito idealístico de Schröder e Herder. A his­tória tradicional foi muito abreviada. É interessante notar que Schröder, que natural- mente conhecia os Rituais Franceses, não ado- tou a versão Francesa dada no “Three Distinct Knocks” e ainda em uso nas Lojas sob a jurisdi- ção da Grande Loja da França e em outras que Irmãos da ARLS A Luz do Graal n. 34, recebendo a visita de autoridades maçônicas. A loja usa o rito Schröder e foi fundada em 2005. Está no Oriente de Porto Velho - RO - Brasil
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 39 trabalham nos graus simbólicos do Rito Escocês na França e em outros países. De acordo com o texto do Prichard, o nome dos três rufiões não é dado e nem o ramo de acácia é mencionado. Mais adiante, como no “Three Distinct Knocks”, o Ritual de Schröder dá somente o Sinal de S., pois os demais foram previamente ensinados no primeiro grau. Em Abril de 1809, a Premier Grande Loja da Inglaterra resolveu “que não é mais neces- sário prolongar por mais tempo com as medidas que foram tomadas no ano de 1739 no que diz respeito aos Maçons Irregulares e assim ordena às diversas Lojas a reverter aos Antigos Land- marks da Sociedade”. Como resultado as pala- vras do primeiro e segundo grau foram reverti- das na Inglaterra de forma a reocuparem seus lugares originais, mas no Continente a usança derivada de Prichard e do “Three Distinct Kno- cks” continuam até hoje, excetuando-se natural- mente as Lojas que trabalham com o Ritual de Emulação ou Rito York sob a Constituição Alemã e a Grande Loja Nacional Francesa. Embora o Ritual de Schröder do tercei- ro grau seja, na sua maior parte, idêntico ao “Three Distinct Knocks” e a cerimônia não fuja em sua essência da prática Inglesa, suas idéias sobre o pano de fundo deste Ritual foram muito influenciadas por argumentos Maçônicos cor- rentes na Alemanha daquele tempo. No seu comentário do “Three Distinct Knocks”, as ten- dências anti-­jesuíticas sobressaem muito claras. Ele permite para estas tendências rédeas livres, afirmando categoricamente que o terceiro grau relata a execução de Charles I e a restauração da monar­quia e hierarquia: É claro destes fatos, que a Igreja Católica estava interessada com a preserva­ção do Rei e ainda mais do Trono, e em qualquer lugar onde hou- vesse alguma reunião secreta de pesar por ele – que ao mesmo tempo seria uma reunião sole- ne – havia sempre uns poucos clérigos Católicos tomando parte. Eu não posso provar se alguns Jesuítas estavam exclusivamente interessados nisto, mas só posso concluir isto depois da intro- dução do grau dos Cavaleiros de Santo André. Aqui a influência do seu amigo Bode pode ser sentida, porque em diversas publicações Bode culpa os Jesuítas pela degeneração da Franco-Maçonaria no Continente. Schröder usa alguns outros argumentos absurdos: A palavra “T.” de acordo com ele, relata a decapitação de Charles I com um machado. Os quinze Compa- nheiros significam o descontentamento de uma parte da população da Escócia (15 dos 32 Con- dados). A semelhança dos nomes dos três rufi- ões relaciona a forte união dos três reinos. Resu- mindo, toda a Lenda Hirâmica torna-se uma ale- goria da situação política do tempo de Charles I. Da correspondência de Schröder com Her- der, de 1800 a 1802, sabemos que o último tinha alguma relutância em apresentar um trabalho re- ferente a parte não cerimonial do terceiro grau. Em virtude do agravamento de sua falta de vi- são, este projeto não se materializou, mas temos extensos comentários no trabalho de Schröder antes da final adoção de seus Rituais em 1801. Havia por exemplo, um problema peculiar com a língua Alemã: a forma normal de se dirigir com a palavra a alguém é na terceira pessoa do sin- gular (i. é: “você”) ou, se for num nível mais in- timo, na segunda pessoa do singular (i. é: “tu”). Em linguagem clerical, a forma mais solene é a segunda pessoa do plural (i. é: “vós”) e esta era a que Herder teria preferido ver no Ritual. Mas, Schröder preferiu o novo estilo de usar a tercei- ra pessoa do singular, que tinha se tornado de uso corrente na última parte do século 18. Este problema, a propósito, ainda existe na Ale ma- nha falando-se maçonicamente: normalmente a forma polida (i. é: “você”) é usada quando falan- do com aprendizes e se deixa à discrição dos Irmãos mais velhos permitir que os aprendi­zes usem a forma familiar “du” (i. é: “tu”). Assim um certo mal-estar é criado pela existência de um sentimento de inferioridade ou discriminação no meio dos Irmãos mais novos; é comum que os Irmãos mais velhos só permitam a forma fami- liar depois de exaltado o aprendiz. Na França, de outro modo, é costume oferecer a forma fami- liar imediatamente depois da iniciação. Confor­ me sabemos por uma carta da viúva de Herder a Schröder, havia sido feito um acordo que suas cartas e documentos deveriam ser devolvidos de- pois da morte de Herder. O amigo de Schröder, Meyer, nos informa que a ocupação Francesa de Hamburgo fez com que ele destruísse gran- de parte de seus arquivos, É bem conhecido que os exércitos franceses traziam com eles Lojas do Grande Oriente e procuravam exercer pressão sobre as Lojas existentes em Hamburgo. Como Hamburgo era sede da Grande Loja Provincial Inglesa a qual estavam subordinadas as Lojas existentes naquela cidade, surgiram problemas
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 40 políticos e que resultaram na separação de Lon- dres e na criação de uma Grande Loja de Ham- burgo independente. Este Corpo não existe mais mas a tradição é sustentada por uma união das “Cinco Lojas Unidas” que são as originá­rias do tempo de Schröder e ainda em atividade, ha- vendo mais lojas em Hamburgo de funda­ção posterior. Herder mandou um memorando de 43 páginas para Schröder que infelizmente perdeu- se e somente um curto comentário de 4 páginas em cópia feita pelo filho de Herder está disponí- vel na correspondência não publicada existen- te nos arquivos secretos da Prússia em Berlim. É muito interessante notar que Schröder acei- tou um certo número de argumentos de Herder textualmente no seu comentário sobre o Ritual do “Three Distinct Knocks”. Ele estava também muito interessado com os sistemas Cristãos da Franco-Maçonaria e que eram basea­dos na Len- da de que Hiram não seria outro senão o Cristo e que o terceiro grau representava a morte na cruz. Dos comentários de Herder das preocupa- ções de Schröder sobre este assunto podemos reconstruir o que eram, Herder escreve: “Eu so- licitaria ao meu Venerável Irmão estu­dar o velho Ritual (i. é o Three Distinct Knocks) e verificar de que não há similitude entre a Lenda Hirâmi- ca e a morte de Cristo! Onde, falando do último, poderia se encaixar os três Rufi­ões? Que podia ser o significado das três portas onde Hiram foi atacado? Que palavra poderia se ter exigido de Cristo? Não deu Ele a palavra viva que o povo rejeitou? O Cristo reapareceu aos seus seguido- res em estado de decomposição como Hiram? Este e outros argumentos devem ter convencido Schröder porque não achamos menção desta doutrina do sistema Sue-co em seus escritos. A concepção de Herder sobre a Franco-Maçonaria e sua completa fé no trabalho de Schröder está claramente demonstrada nas observações finais naquele memoran­do: É bem verdade que impostores nefastos cau- saram muitos males oferecendo “altos conheci- mentos”. Mas isto é culpa dos franco-maçons inocentes que trabalham nos graus simbólicos? Eu posso dizer por mim mesmo que por causa da Maçonaria e tendo sido Mestre da Loja por quatorze anos, eu me livrei de muitas de minhas faltas. É verdade que a Franco-Maçonaria muitas vezes me decepcionou, mas nunca os seus va- lores inerentes. Nossas Lojas enxuga­ram muitas lágrimas; elas aplainaram o caminho através da vida para muitos jovens Irmãos e os ensinaram a seguir uma vida de moral. C O N C L U S Ã O Isto nos traz ao final de nossa tentativa para apresentar a obra do Irmão Schröder no contex- to do cenário da Maçonaria Alemã do seu tem- po e mostrar como ele se esforçou para adaptar um texto embora espúrio à sua concepção do que a Maçonaria deveria ser. O fato de que seu Ritual foi imediatamente adotado pela maio- ria das Lojas que não pertenciam a uma das Cons­tituições trabalhando na variedade Cristã de origem Franco-Sueca, prova o forte desejo da Maçonaria Simbólica Alemã em retornar ao trabalho com as ferramentas que a Maçonaria In­glesa tinha originalmente providenciado para o benefício dos maçons em qualquer lugar que se encontrem por toda a superfície do globo. Na preparação deste trabalho estou espe- cialmente agradecido pela assistência que eu recebi da Biblioteca Maçônica de Bayreuth, do Irmão Herbert Schneider, Grande Arquivista das Lojas de Hamburgo e dos Irmãos da Loja “Qua- tuor Coronati”: Haunch, Batham e Hamill, e o pro- fessor Emil Adler da Academia de Ciências de Gottingen. Também desejo agradecer ao Irmão Ellic Howe, Venerável da Loja “Quatuor Corona- ti” por ter preparado uma versão de apresenta- ção deste trabalho e decifrando-o na reunião de 10 de maio de 1979 e por último ao não menos merecedor Irmão Egon Babler pela sua ajuda lingüística. Londres, 10 de maio de 1979. Este trabalho foi elaborado pelo Venerável Irmão Hans Heinrich Solf, membro da Loja de Pesquisas “Quatuor Coronati”, profundo estudioso da Maçonaria, que tem apresentado outros trabalhos bem como tem feito tra­duções de importantes livros maçônicos publicados em outros idiomas. Tradução dos Veneráveis Irmãos: - Kurt Max Hauser, P.G.M. da M.R.G.L.M.E.R.G.S. - Samuel Herbert Jones, P.M. (Or. eterno). Revisão dos Irmãos do Colégio de Estudos do Rito Schröder de Flo- rianópolis - SC: - Antônio Gouveia Medeiros, P.G.M. do G.O.E.S.C. - G.O.B. - Rui Jung Neto, V.M. da Ben. Aug. e Resp. Loja Simb. “Concordia et Humanitas” N.º 56. Setembro de 2001.
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 41 A Grande Loja de Londres O início do século XVIII marca o surgimento da Francomaçonaria especulativa ou moderna tal como a hoje. Até 1717, as Lojas Maçônicas eram livres (1). Como nessa época não existiam templos maçônicos, as lojas se reuniam em tabernas ou cantinas, que funcionavam como meio de reunião social de intelectuais, dentre outros. As lojas se reuniam, também, nos adros das igrejas. Com o declínio da arte gótica, a Francomaçonaria Operativa começou a declinar também. Para salvar a Maçonaria Operativa, quatro Lojas londrinas decidiram criar um organismo que receberia o nome de Grande Loja e teria para sua presidência um Grão-Mestre. Esse fato histórico aconteceu em 24 de junho de 1717, com a união das seguintes lojas: ●A Taça e as Uvas (The Rummer and Grapes) ● A Macieira (The Apple Tree) ● A Coroa (The Crown) ● O Ganso e a Grelha (The Goose and the Gridiron). As lojas “O Ganso e a Grelha”, “A Coroa” e a “A Macieira”, eram constituídas só por maçons operativos. A Loja “A Taça e as Uvas” fôra constituída por maçons aceitos, homens de elevada cultura profana e que faziam parte da nobreza, dentre eles, o pastor escocês James Anderson. A reunião para a fundação da Primeira Grande Loja do Mundo aconteceu na cidade de Londres, Inglaterra, e foi realizada na taberna do “Ganso e da Grelha”. Nessa mesma data, As Origens do Rito de York Ir. Sérgio Cavalcante e Ir. Hugo Borges Acima: Brasão da Grande Loja da Inglaterra (“os modernos”). Ao lado: Desenho da taberna “O Ganso e a Grelha” - Londres.
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 42 os membros dessas quatro lojas elegeram Sir Anthony Sayer (2), cavaleiro, como o primeiro Grão-Mestre e decidiram se reunir anualmente num grande banquete. Dessa forma, estava iniciado o primeiro sistema Francomaçônico no mundo, com a fundação da Grande Loja de Londres. A contar dessa data, deixaria a Francomaçonaria de ser operativa e passaria a atrair os intelectuais, os membros da realeza, dentre outras camadas sociais de destaques, naquela época. No ano de 1718 é eleito o segundo Grão- Mestre, George Payne, o qual teve um papel muito importante nos trabalhos de compilação e de revisão das Antigas Constituições dos Maçons, de onde saíram os dados para fazer parte do famoso Livro dos Estatutos elaborados pelo Reverendo James Anderson em 1723. Em 1719 foi eleito o terceiro Grão-Mestre, John Theóphile Désaguliers (3), nascido no Condado de La Rochele, filho de um ministro francês que emigrou para a Inglaterra após a revogação do Édito de Nantes. Em 1720 foi eleito o quarto Grão-Mestre. Nessa eleição, a escolha recaiu novamente para o Irmão George Payne (4). O quinto Grão-Mestre foi John II – O Duque de Montague (5). Esse Grão-Mestre realizou várias reformas na estrutura da Grande Loja. O sexto Grão-Mestre foi o Duque de Wharton (6). Em 1725, na cidade de York, é fundada a Grande Loja da Inglaterra (7). Em 1751, surge outra Grande Loja (8), em oposição à Grande Loja de Londres, formada por Maçons irlandeses que tinham sido impedidos e ingressar nas Lojas inglesas. Surgiram ainda, duas outras Grandes Lojas. Em 1761 a Grande Loja da Inglaterra foi reativada com o título de “The Grand Lodge of All England” (9). Essa mesma Grande Loja foi a responsável pela autorização da fundação da quarta Grande Brasão da Grande Loja dos “Antigos” Brasão da Grande Loja Unida da Inglaterra Brasão da Grande Loja da Irlanda Brasão da Grande Loja da Escócia
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 43 Loja, a “The Grand Lodge South of the River Trent”, em 1778 (10). Essa quarta Grande Loja formou-se com a cisão verificada em 1777 na Loja Antiquity, sendo que uma parte da Loja seguiu o Past Master Imediato, o irmão William Preston (11), separando-se da Primeira Grande Loja para formar com outras duas Lojas a Quarta Grande Loja. Em 1813 (12) as duas Grandes Lojas Rivais, após uma longa preparação, celebraram o “Act of Union” (Ato de União), dando origem à “United Grand Lodge of England” (Grande Loja Unida da Inglaterra). Os primeiros maçons da américa do Norte Não há documentos confiáveis quanto à data concreta da chegada da Francomaçonaria ao Novo Mundo e, em especial, na América do Norte. Alguns afirmam que ela chegou ao novo continente no ano de 1607, estabelecendo-se na então Colônia da Virginia. O primeiro francomaçom a se estabelecer nas Colônias da América foi John Skene (13). Esse possível maçom se estabeleceu em New Jersey onde mais tarde se tornou vice-governador. O primeiro colono americano a ser tornar um francomaçom foi Jonathan Belcher que, numa viagem à Inglaterra no ano de 1740, foi iniciado numa Loja inglesa. Ao retornar a América ele prosperou no ramo do comércio e, mais tarde, foi Governador de Massachusetts e New Hampshire. Em 08 de dezembro de 1730, Benjamin Franklin publica em seu jornal a primeira notícia sobre a Maçonaria na América. O Benjamin Franklin. Jonathan Belcher, e sua assinatura. Revista de Estudos Maçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 39
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 44 assunto se referia de uma forma geral ao que era a Francomaçonaria e afirmava, ainda, que existiam várias Lojas na referida Província. Benjamin Franklin se tornou maçom em 1731, e foi Grão-Mestre Provincial da Pensilvânia no ano de 1734. Nesse mesmo ano, ele editou o primeiro livro francomaçônico na América. Saint John’s Lodge - a primeira Loja das Américas A primeira Loja oficialmente certificada da qual se tem notícia na América do Norte é a “Saint John’s Lodge” (14), localizada na cidade de Boston, fundada em 1733 e certificada pela Grande Loja da Inglaterra. Essa loja goza do privilégio ímpar de ser a mais antiga loja maçônica constituída e autorizada nas Américas. Registros contemporâneos revelam que uma loja maçônica se reuniu em King’s Chapel (15), Boston, por volta de 1720 (reunião de acordo com os “antigos costumes”). Em 1733, Henry Price, um notório alfaiate e guarda- livros, que emigrara para Boston em 1723, foi nomeado “Grão-Mestre Provincial da Nova Inglaterra e Domínios e Territórios ali a ela pertencentes” e foi autorizado a “Constituir os irmãos ora residindo ou que viessem a residir posteriormente naquelas paragens, em uma ou mais Loja ou Lojas Regulares como ele achasse melhor”, pelo Grão-Mestre da Grande Loja da Inglaterra, Anthony Lord Viscount Montague. Em 30 de julho de 1733, numa reunião realizada na Taverna “O Punhado de Uvas”, em Boston, Henry Price exerceu a sua autoridade e concedeu a um grupo de dezoito Maçons uma carta autorizando- os a trabalhar como loja maçônica, em Boston. Assim foi formada a Loja de São João, a primeira loja devidamente constituída e autorizada das Américas. A loja tem estado em existência contínua desde a sua constituição em 1733, e desde essa época seus membros se reuniram em mais de 3.700 reuniões regulares, ou “Comunicações”. Maçons famosos, como George Washington, Benjamin Franklin e o Marquês de Lafayette visitaram a Loja de São João, nas suas viagens a Boston. Foram de membros proeminentes dessa Loja os nomes dados ao Mercado Quincy e ao Cais Rowe (Josiah Quincy e John Rowe). Foi Rowe que fez a famosa pergunta, imediatamente antes da Festa do Chá de Boston: “Gostaria de saber como o chá se mistura com água salgada”. Outro famoso membro foi John Otis, que protestou contra os Atos de Assistência, em 1760, cunhando o mote “Taxação sem representação é tirania!” e que é, hoje, comemorado como o Pai da Quarta Emenda. Outro membro ilustre da Loja foi Robert Newman, que escalou a Velha Igreja Norte, Selo da Saint John’s Lodge, da cidade de Boston Henry Price
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 45 para sinalizar para o irmão e companheiro Paul Revere (“um, se por terra; dois, se por mar”). No século vinte, a Loja teve a ventura de contar, entre seus membros, com Lowell Thomas, o mais destacado jornalista do seu tempo e, talvez, o repórter mais relembrado como o homem que descobriu e tornou famoso Lawrence da Arábia. Hoje, a Loja de São João relembra com carinho o seu legado histórico único. Ela se orgulha de ser uma loja de convívio e de boas- vindas, que está comprometida ao cultivo do amor fraterno entre homens de todos os caminhos de vida, praticando a caridade de muitas formas e mantendo os mais altos padrões de ritual maçônico. Ela se rejubila e privilegia de poder contar, como membros, com cerca de trezentos Irmãos de uma larga escala de espectro ocupacional, educacional, étnico, religioso e político, homens que reconhecem a Fraternidade dos homens sob a Paternidade de Deus e que, desse modo, escolheram ser maçons. Ao adentrar o século XXI, a loja de São João permanece firmemente comprometida com a salvaguarda e a transmissão, às futuras gerações de irmãos, dos ideais maçônicos que lhe foram confiados por Henry Price, em 1733. As Lojas Militares As lojas militares começaram a surgir a partir de 1732 no Exército e na Marinha Britânica sob a forma de “Lojas de Campo Regimentais”. Esse tipo de loja, por ser itinerante, carregava os seus paramentos e equipamentos em baús junto com os demais apetrechos bélicos e outros objetos tipicamente militares. Muitas vezes o comandante do Regimento presidia os trabalhos como Venerável Mestre e podia ser sucedido por um outro oficial. As Lojas Regimentais deixariam sua marca profundamente sobre o Exército e bem como na Armada Britânica. Como as lojas civis, essas lojas militares reuniam homens das mais diversas origens e classes sociais. Eram oficiais (16) e praças. Uma das conseqüências disso foi a criação de um clima no qual jovens e soldados dinâmicos, tais como James Wolfe, podiam se adiantar, independentemente de sua classe social. A primeira loja formada nas Forças Armadas Britânicas foi criada no 1st Foot, que seria mais tarde o Royal Scots, em 1732. Em 1734, havia cinco lojas como essa; e em 1755 já eram vinte e nove. Entre os Regimentos que possuíam suas próprias lojas (17) de Campo, estavam aquelas que viriam, mais tarde, a ser conhecidas como os Royal Northumberland Fusiliers, os Royal Scots Fusiliers, os Royal Inniskilling Fusiliers, o Gloucestershire Regiment, o Dorser Regiment, o Border Regiment, e o Regimento do Duque de Wellington (West Riding). Com o tempo, a Francomaçonaria se estabeleceu também nos altos escalões administrativos e de Comando Militar, incluindo em suas fileiras alguns dos mais importantes personagens da época. O Duque de Cumberland, filho caçula do Rei George II, era francomaçom. Alguns outros historiadores afirmam que também era francomaçom o General Sir John Ligonier (18). Mercado Quincy, em Boston Joppa Military Lodge No. 150 - com a nona cavalaria, na época em Fort Riley, Kansas.
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 46 Os maçons Ingleses e Americanos na Independência dos Estados Unidos A influência da Francomaçonaria no curso da guerra pela independência norte-americana foi bastante ativa. A St. Andrew’s Lodge, de Boston, desempenhou um importante papel (19). A Francomaçonaria emprestou as suas atitudes e valores ao recém-formado Exército Continental, e pode ter influenciado na nomeação de George Washington para Comandante-em-Chefe. Igualmente, a influência da Francomaçonaria não estava limitada aos grupos nos Batalhões militares envolvidos; também podia ser observada entre os adversários. A Guerra pela Independência é rica em muitas histórias. Dentre as quais, pode- se destacar a aliança do Exército Real Britânico com o famoso Chefe (20) dos Mohawks, Joseph Brant (21). Antes do conflito, a irmã de Brant se casara com o Sir William Johnson, Grã-Mestre Provincial de New York. Naquele mesmo ano, durante uma frustrada invasão do Canadá pelos colonizadores, o capitão McKinstry foi capturado por alguns membros da tribo do Chefe Brant, amarrado a uma árvore e cercado de lenha de fogueira, com os índios prontos a lhe atearem fogo. Quando McKinstry fez um “o sinal de socorro maçônico”. O chefe Brant reconheceu e imediatamente ordenou a sua soltura. Ele foi encaminhado a uma loja britânica de Quebec, que tomou as providências para a sua repatriação. Ao longo de toda a Guerra pela Independência Norteamericana, existem diversos relatos desse tipo e de outros dentre os quais podemos citar ainda, a troca de certificados e paramentos de Lojas de Campo, que tendo sido capturados por um dos lados, foram devidamente devolvidos. Num dos casos, os paramentos do 46th Foot (22) foram capturados pelas tropas coloniais. Por instruções dadas por Washington, eles foram devolvidos, sob uma bandeira de trégua, com uma mensagem que ele e seus homens “não guerreassem contra Instituições de Benevolência”. Numa outra ocasião, a Carta Constitutiva do 17th Foot (23) foi igualmente capturada e também devolvida, acompanhada de uma carta do general Samuel Parson. Esta carta é, eloquentemente, típica do espírito alimentado pela Francomaçonaria em ambos os Exércitos, e em todos os seus níveis: Meu Irmão, Quando a ambição de monarcas, ou os dissonantes interesses dos Estados em conflito, provocam e estimulam seus súditos à guerra, nós, como Maçons, estamos desarmados daquele ressentimento que estimula à indistinta desolação e, embora os nossos sentimentos políticos possam impelir à disputa pública, nós ainda continuamos Irmãos e (à parte de nossa obrigação profissional) temos de estimular a alegria e a felicidade e promover o bem-estar uns dos outros. Assim, aceite das mãos de um irmão a Constituição da Loja Unity ) 18th , do 17th British Regiment, a qual os seus recentes infortúnios colocaram em minhas mãos para que vos fosse devolvida. Seu Irmão e obediente servidor – Samuel H. Parson. Thomas Smith Webb, é considerado (25) Joseph Brant (pintura de George Romney – 1776)
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 47 como se fosse o organizador e fundador do Rito York, nasceu em 30 de outubro de 1771, em Boston. Ele teve a rara característica de estar ativamente ligado com a formação de duas grandes entidades maçônicas norte-americanas, o que lhe confere o respeito dado por seus irmãos maçônicos. Recebeu sua educação nas escolas públicas em Boston e também lá iniciou o estudo de música, o que se tornou uma prazerosa diversão em toda a sua vida. Sua carreira profissional foi ampla e diversificada. Após trabalhar como aprendiz de livreiro com seu pai, ele montou seu próprio negócio na cidade de Keene, Estado de New Hampshire, e então se mudou para Albany, Estado de Nova York, onde mudou de ramo para a fabricação de papel de parede com êxito considerável. A cidade de Providence, em Rhode Island, foi sua próxima parada e por 16 anos continuou no ramo de papéis de parede, ao mesmo tempo em que gerenciava uma livraria. Ali, ele se tornou um representante da Hope Cotton Co. Mais tarde, construiu uma algodoaria na cidade de Walpole, Massachussets, e alguns anos depois, transferiu o maquinário para Ohio, para se juntar à Worthington Manufacturing Co. Todas as mudanças foram motivadas pelas condições econômicas e foram justificadas pelos acontecimentos futuros. Sua carreira maçônica foi igualmente bastante extensa e diversificada. Embora tenha recebido sua educação maçônica inicial na Loja Sol Nascente, em Keene, New Hampshire, aos 19 anos, foi em Albany e em Providence que aconteceram a maior parte de suas atividades e contribuições. Em Albany, aos 26 anos, ele publicou a obra Freemason’s Monitor ou Illustrations of Masonry, um trabalho literário que chegou a ter sete edições. Ela lhe trouxe fama internacional e se tornou no padrão da exemplificação ritualística em muitas jurisdições. Tratava-se de um compêndio de muitos dos escritos de William Preston, da Inglaterra, um homem que dedicou toda uma vida de serviço à Arte nos estudos e no aperfeiçoamento dos ensinamentos maçônicos. Thomas Smith Webb se filiou à Loja União, em Albany, e se tornou seu Venerável Mestre. Ajudou a formar o Capítulo do Templo do Arco Real e se tornou seu Sumo Sacerdote. Sua reputação já era bem conhecida quando ele se mudou para Providence, em 1799, e logo foi introduzido na vida daquela comunidade. Durante sua estadia em Rhode Island, foi eleito para o Comitê Escolar, tornou-se diretor da THOMAS SMITH WEBB (24) Thomas Smith Webb
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 48 Providence Library Company e trabalhou como diretor, gestor e finalmente como tesoureiro da Providence Mutual Fire Insurance Company. Começando como soldado na Milícia Estadual, atingiu o posto de Coronel de seu regimento. Logo após sua chegada em Providence, aceitou um convite para filiar-se à Loja São João nº 1 e logo em seguida instalou uma escola de instruções. Como membro da Loja Rhode Island, tinha a permissão de participar da Grande Loja e na sua primeira visita, foi indicado como membro do comitê que revisaria as Constituições. É interessante observar que dentro dos próximos dois anos, duas emendas à Constituição foram adotadas, o que permitiu o aproveitamento dos serviços do irmão Webb. Uma emenda aboliu o limite de dois anos para a entrega dos cargos de Grandes Vigilantes, o que permitiu a Webb servir por três anos como o Grande Primeiro Vigilante. A outra emenda tornou possível a eleição de um Grão-Mestre que não fosse um Past Master de qualquer Loja de Rhode Island. Com isso, abriu-se caminho para que Webb fosse eleito Grão-mestre em 1813 e 1814. Ele declinou a eleição seguinte, de 1815. Em 1814, um navio de guerra britânico apareceu em Newport. A cidade de Providence, como muitas outras cidades, temia as bombas e uma possível invasão. Em uma reunião comunitária diante da STATE HOUSE em Providence, um Comitê de Defesa foi criado para assegurar a proteção à cidade. Voluntários foram chamados para erguer barricadas. Webb, como Grão-Mestre, convocou uma reunião especial da Grande Loja e instruiu os irmãos a “trazerem pás, enxadas ou machado e provisões para um dia”. Após a abertura da Grande Loja, os irmãos marcharam até Fox Hill e até o pôr- do-sol eles erigiram barricadas com 131 metros de comprimento e 1,5 metro de altura, e o chamaram de Fort Hiram, um ato confirmado pelo Governador naquela noite. Este teria sido um dos dois únicos fortes maçônicos no país. Webb também aceitou um convite para se filiar ao Capítulo do Arco Real de Providence e foi eleito seu Sumo Sacerdote dois anos mais tarde. Auxiliou na formação do Grande Capítulo de Rhode Island e serviu como Grande Sumo Sacerdote de 1804 a 1814. Juntamente com outros irmãos, ele organizou o Grande Capítulo Geral do Real Arco dos Estados Unidos e conduziu seu funcionamento, como Grande Deputado Sumo Sacerdote, até sua morte. O Grande Capítulo Geral é, atualmente, a organização nacional mais antiga dos Estados Unidos. Webb viu a necessidade, no âmbito maçônico, de organizações nacionais e estaduais fortes, que preservassem, revigorassem e propagassem as cerimônias -até então desorganizadas, descontroladas e algumas vezes nebulosas- que são conhecidas como “Rito Capitular” e “Ordem dos Templários”. Em uma de suas viagens para o meio-oeste, Webb constatou que nos Estados de Kentucky e de Ohio, somente as Grandes Lojas tinham o poder de autorizar os Capítulos do Real Arco, mas ele conseguiu influenciá-las a permitirem que a formação dos Grandes Capítulos ficasse subordinada unicamente ao Grande Capítulo Geral. Durante esse mesmo período, o zelo incansável de Webb culminou na formação, em 11 de agosto de 1802, no Acampamento dos Cavaleiros Templários de São João, atualmente a Comandância de São João nº 1 de Providence, a entidade de destaque de todas as organizações templárias nos EUA. Webb forneceu o ritual e os procedimentos cerimoniais das Ordens Templárias e foi eleito seu primeiro Comandante Eminente. Foi eleito anualmente até 1814, quando declinou a reeleição. Em 1805, juntamente com outros irmãos, organizou a Grande Comandância de Massachusetts e Rhode Island e a presidiu até 1817. O acontecimento que declarou a coroação gloriosa da carreira maçônica de Webb foi a formação do Grande Acampamento dos Cavaleiros Templários dos Estados Unidos, que ele realizou em 1816 na cidade de Nova York. O governador De Witt Clinton foi eleito Grão-mestre e Webb se tornou o Grão-mestre Deputado, uma posição que ele manteve até sua morte. Quando se aproximava dos 40 anos de idade, Webb se preparou para se desfazer de muitas de suas ligações comerciais, e por volta de 1815, ele já se havia retirado de muitas responsabilidades maçônicas em Providence. Ele dedicou mais tempo à música e, juntamente com outras pessoas, formou a “Sociedade Filarmônica Handel e Haydn”, em Boston, da qual foi seu primeiro presidente, regendo o primeiro concerto público da Sociedade na King’s Chapel, no dia de Natal de 1815, com mais de 100 participantes. Também atuou como um dos solistas e até mesmo obteve alguma fama mais tarde como compositor. Thomas Smith Webb morreu de hemorragia cerebral em uma de suas muitas viagens ao oeste, em 6 de julho de 1819. Um funeral maçônico foi feito em Cleveland, Ohio, e cerimônias póstumas aconteceram em várias cidades. Mais tarde, achou-se mais apropriado que Webb fosse enterrado em Providence. Com o consentimento de sua viúva e com os fundos fornecidos pela Grande Loja de Rhode Island e
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 49 outras entidades maçônicas, seu corpo foi levado até Providence e sepultado no West Burying Ground. Quando esse cemitério foi convertido em um parque, o corpo foi trasladado ao North Burial Ground, a um pedaço de terra doado pela cidade em uma colina, sobre o qual a Grande Loja ergueu um monumento, ou obelisco, de mármore. Cada lado foi usado para lembrar uma ou mais de suas realizações. Tal como outro maçom famoso, seu corpo foi enterrado três vezes. Um dos trabalhadores mais dedicados da Francomaçonaria passou por nós com um registro de realizações sem precedentes, e sua memória está perpetuada em Rhode Island por uma loja, um conselho e uma comandância que levam o seu nome. OS RITUAIS DO RITO DE YORK Os atuais rituais do Rito York, são descendentes direto dos trabalhos efetivados pela Grande Loja dos Antigos, fundada em 1751 por irmãos irlandeses que haviam sido impedidos de entrar na esnobe Primeira Grande Loja (26), a fundada em 1717.  Acontece que esta Grande Loja original, quando Samuel Prichard publicou o “Maçonaria Dissecada” em 1730, mudou os sinais e alguns detalhes dos rituais para que profanos conhecedores destes sinais não se fizessem passar por maçons para se beneficiarem do fundo de socorro.  Os irlandeses e os maçons ingleses descontentes que fundaram a Grande Loja (27) dos Antigos, e retornaram à prática anterior [com boa dose de características irlandesas, que é Maçonaria tão antiga quanto a inglesa ou escocesa] e diziam praticar a verdadeira antiga Maçonaria de York, aqui referindo-se naturalmente à lenda de Athelstan e da cidade de York como berço mítico da Maçonaria. Esta Loja foi preponderante na colonização americana, principalmente porque seus trabalhos eram bem semelhantes ao irlandês e ao escocês, diferindo portanto dos trabalhos alterados pela Primeira Grande Loja.  Mais ainda: nem a Grande Loja da Irlanda nem a Grande Loja da Escócia tinham boas relações com a pretenciosa Primeira Grande Loja, a quem apelidavam pejorativamente de os Modernos, que já era dominada pelos partidários dos reis da casa Hanover. Quando os americanos se tornaram independentes, a influência dos Modernos simplesmente desapareceu, por razões óbvias.  Quando as Grandes Lojas Provinciais se transformaram nas Grandes Lojas Estaduais Americanas, o Ofício (28) trabalhado era o dos Antigos.  Aí, em 1797, Thomas Smith Webb lançou o seu Monitor e deu a forma e denominação de Rito York, que permanece basicamente a mesma até os dias de hoje. Muitos Maçons confundem ou pensam que o Ritual de Emulação é um Rito. E que esse Rito é o Rito York. Não é. Na verdade, não se trata de um rito, mas sim de um ritual pelo qual ele é demonstrado e expressado. Na Grande Loja Unida da Inglaterra o vocábulo “rito” não existe. Ou seja, é inominado. Os ingleses não consideram rito, eles consideram rituais. Páginas do “Monitor” de Thomas Smith Webb
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 50 O Rito York no Brasil Depois da Guerra Civil (29) dos Estados Unidos da América do Norte, houve um êxodo de cidadãos estadunidenses, que tinham servido no Exército Confederado (30), vítimas dos longos anos de guerra, da onda terrível de assaltos dos negros libertados, procurando vingança, e que encontraram as suas terras devastadas durante as lutas. Foram várias dezenas de milhares deles que emigraram do seu país, e cerca de 10.000 (dez mil), vieram para o Brasil, e no meio deles muitos aventureiros e fugitivos da Justiça, e até estrangeiros europeus, que aproveitavam as facilidades de transporte dados por “verdadeiros” consórcios migratórios, muitos de origem duvidosa, formados por aproveitadores do infortúnio humano. Estas imigrações começaram com maior intensidade para o Brasil depois de 1865, radicando-se a primeira leva principalmente em Iguape (em 1866), a maioria do Estado do Texas. Um outro grupo, composto de famílias do Estado do Alabama comprou e reformou um veleiro velho “WREN”, que batizaram com o nome de “TARTAR”, e nele embarcaram para o Brasil em 17 de abril de 1868, levando a viagem cerca de dois meses, e mandando vir depois parentes e amigos que lá ficaram. Ao chegar ao Rio de Janeiro, os imigrantes orientados pelo irmão Coronel Norris, foram recebidos pelos irmãos George e Charles Nathan (dois ingleses casados com as irmãs Goodman, do Estado do Alabama). Estes ingleses, ambos maçons, iniciados no Rio de Janeiro, na St. John’s Lodge nº 703, em 1846 e 1847, respectivamente, aconselharam o coronel Norris e os de seu grupo a se radicaram nas imediações de Campinas-SP, conselho que foi aceito, e assim todos viajaram para a região de Santa Bárbara, onde o Cel. Norris comprou uma grande fazenda, chamada WILLIAM H. NORRIS (pai) – Foi iniciado em 08 de dezembro de 1838, passado em 12 de janeiro de 1839 e elevado em data de 09 de fevereiro de 1839 na “Dale Lodge nº 66”, de Liberty Hill – jurisdição da Grande Loja do Estado do Alabama, da qual chegou a ser Venerável Mestre de 1845/47. Em 1849 filiou-se na “Fulton Lodge, de Dallas em que ficou até 1857/58. De 1859 até 1865 foi Venerável Mestre da Mount Pleasant Lodge, da qual pediu desligamento (31) em 13 de outubro de 1866 para vir ao Brasil. Em 1860 ele já tinha sido Deputado do Grão- Mestre e no exercício de 1861-62, foi Grão-Mestre da Grande Loja do Estado do Alabama. Faleceu em 13 de julho de 1893. Abaixo: William H. Norris ROBERT CÍCERO NORRIS (seu 4º filho) – Era médico, mas concluiu o seu curso de medicina só em 1889/90, quando passou um ano em Móbile (Estado do Alabama), na Universidade de Alabama. Foi iniciado na Fulton Lodge, de Dallas, em 1858, à qual também pertencia o seu pai. Era casado com Martha T. Steagall (Pattie), capitão e mais tarde naturalizou-se brasileiro, chegando a ser até delegado da polícia na Villa. Faleceu em 1913. Abaixo: C. B. Norris e Robert C. Norris (sentado)
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 51 “Machadinho”, da qual foi depois cedendo partes aos outros imigrantes. Teve o Brasil a felicidade de abrigar, neste caso, um gruo homogêneo, de boa índole e cultura, e com a vontade férrea de aqui progredir e formar um novo lar. Tinham vendido o que possuíam nos Estados Unidos, e muitos trazendo os implementos necessários ao cultivo da terra. Não se tratava dos imigrantes normais, que precisam e exigem o auxílio da nação que os acolheu, rudes e sem cultura. Tratavam-se de cidadãos que escolheram e compraram as suas terras nas imediações de Santa Bárbara, onde o acre era vendido, naquela época, numa base de US( 2,00. Eram cidadãos habituados ao cultivo do solo, que vinham acompanhados de suas famílias, em media com 4(quatro) a 5 (cinco) filhos, mas havendo muitos com até 12 (doze) dependentes. O líder destes imigrantes, ainda que não oficialmente, era o coronel William Hutchinson Norris, mais conhecido como o “Cel. Norris”, homem maduro e experiente, nascido em 17 de setembro de 1800, então com 67 anos, um hábil administrador, conselheiro e político, que trazia ao Brasil também os seus 11 (onze) filhos, entre os quais destacava-se o Dr. Robert Norris, que lutara na Guerra Civil durante quatro anos, fora ferido várias vezes e no fim tinha sido aprisionado no Fort Delaware. Tinha ele então 28 anos de idade. Tanto o cel. Norris (pai), como o seu filho Dr. Robert C. Norris eram maçons. Quando todos já estavam instalados, mais ou menos arrumados e aclimatados no Brasil, o coronel Norris resolveu reunir os maçons que havia entre os americanos já radicados em Santa Bárbara – e não eram poucos – fundando uma Loja Maçônica, à qual deram o nome de Washington Lodge e, como todos os fundadores tinham lutado pelo ideal de liberdade, é fácil compreender que esta fundação foi recebida de braços abertos pelo Grande Oriente Unido do Brasil, quando em data de 12 de novembro de 1874 concedeu a Carta Constitutiva Provisória para que aquela Loja começasse a trabalhar, e já em 19 de novembro do mesmo ano lhes forneceu a Carta Constitutiva Definitiva para trabalharem nos graus simbólicos do autêntico Rito York. Em 07 de agosto de 1877, deu-lhes autorização para que adotassem integralmente os graus simbólicos do Rito York em língua inglesa. Trabalhavam às quintas-feiras. Pouco se sabe das atividades dessa legendária oficina francomaçônica, pois os seus componentes formavam um grupo muito fechado, que pouco ou nenhum contato mantinha com a Maçonaria Nacional, e se não fosse a meticulosidade de um irmão inglês (historiador inveterado), James Martin Harvey, praticamente nada saberíamos. Os membros Fundadores (32 ) Em pé, da direita para a esquerda: William Terrel (33); Robert Daniel; Bony (Napoleon Bonaparte) Green; Henry Scurlock; Henry Clay Norris (34); Marsene Smith e Robert Cicero Norris (35). Sentados: Junius N. Newman (36); Coronel William C. H. Norris; Robert P. Thomas (37); e John Domm. Não aparecendo na foto havia ainda: Joseph Long Minchin; Edward M. Minchin (38); Henry Farrar Steagall (39); Edwin G. Britt; P. P. Fenley; Joseph H. Moore (40); e George. Parece que o irmão Coronel William C. H. Norris só foi Venerável Mestre na fundação, pois tendo ele viajado para os Estados Unidos da América do Norte em 1876, ficando lá durante um ano para matar saudades, já em 1878 – então Loja nº 169 do Grande Oriente Unido do Brasil – a
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 52 oficina empossou a seguinte administração: 1876: - Venerável Mestre – Robert Cícero Norris; 1º Vigilante George Dekalb Coulter (41); 2º Vigilante R. C. Crisp (42); Capelão William Mc. Fadden (43); Secretário J. Smith; Tesoureiro J. A. Coole (44). Já no ano de 1879 a Washington Lodge teve a seguinte administração: Venerável Mestre – Robert Cícero Norris; 1º Vigilante George Dekalb Coulter; 2º Vigilante John Domm (45); Tesoureiro Alfred Iverson Smith (46); Secretário Benjamin H. Norris (47); 1º Diácono Henry Clay Norris (48); 2º Diácono Wilber Fisk Knight (49); Capelão Junius N. Newman (50); Cobridor – A. P. Finley (51). Consta-se ainda que entre 1879/80 temporariamente os irmãos William Terrell e Joseph Whitaker ocuparam “Ad Hoc” os cargos de Venerável Mestre e Secretário, respectivamente (52). NO ano de 1780 foi empossada a seguinte administração: Venerável Mestre – Robert Cícero Norris; 1º Vigilante John Domm; 2º Vigilante E. B. Smith (53); Tesoureiro Alfred Iverson Smith; Secretário Benjamin H. Norris; 1º Diácono John Edward Steagall; Capelão Junius N. Newman. No 18 de janeiro de 1883, o Grande Oriente Unido foi incorporado pelo Grande Oriente do Brasil, ficando então a oficina sob a jurisdição deste, que em 1884 lhe aprovou a eleição, mas não publicou o quadro, pois de 1885 até 1888 deixou de publicar o seu Boletim Oficial. Em 13 de julho de 1893, o Coronel Wiliam C. H. Norris, vítima de pneumonia, falece. O corpo do Coronel William C. H. Norris é sepultado no “cemitério dos sulistas” de Santa Bárbara do Oeste. Sua idolatrada esposa Mary falece poucos meses depois. Os filhos do coronel Norris já se tinham dispersados, de modo que logo depois foi o resto da antiga fazenda vendido a Abrahan Abe, que nunca tinha conseguido terras próprias. Teve o Coronel Norris vários negros escravos, que viviam a uns 3km de sua casa, soltos mas nunca tentaram fugir, e mesmo quando libertados em 1888 ficaram com a família, que se tinha tornado a sua. Não se sabe que destino tomaram depois da venda da fazenda. Não resta a menor dúvida que depois da morte do patriarca, e da dispersão da família – o DR. Robert Cícero Norris tinha sido praticamente Venerável Mestre durante vinte anos – a Washington Lodge estava condenada ao adormecimento, ainda mais quando em 1893 o Maçom Martim Francisco Ribeiro de Andrade Henry Farrar Steagall Joseph Long Minchim
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 53 estava começando a sua “Campanha Separatista do Estado de São Paulo da União”. Nestas condições, a subscrição feita em nome da Loja, na importância de R$: 970$000, numa coleta de numerário para a Construção de uma nova igreja para a comunidade, contratado em 28 de setembro de 1903 com Luiz Capabianchi por dois contos de réis (isso a mão de obra) pode até ser considerado como liquidação do “saldo em caixa da Loja”, em mãos do ultimo Tesoureiro, por certo ainda o irmão John F. Whitehead, imigrante chegado a Santa Bárbara depois de 1878. As colunas da Loja, confeccionadas pelo irmão John Edward Steagall, durante mais de 50 anos ficaram guardadas na casa de algum descendente dos ex-obreiros do quadro, mas quando se fundou finalmente uma Loja em Santa Bárbara, em 11 de julho de 1948, a Loja “Campos Sales II” – GOB, estes descendentes, ao se tornarem maçons, as entregaram a esta nova Loja, e afirmam que elas (colunas) estão lá até hoje (55). Mas, por qual motivo teria adormecido a Loja? É fácil de se explicar. Cerca de 5.000 americanos sulistas vieram ao Brasil, radicando-se na região de Santa Bárbara, mas no correr de vinte anos (uma geração), muitos deles, já idosos, foram morrendo, e outros – embora poucos – voltaram para os Estados Unidos. Os filhos dos imigrantes iam casando, e comprando suas próprias terras e casas em outras regiões, foram se mudando para cidades próximas como, por exemplo: Limeira, Capivari, Constituição (hoje Piracicaba), Tatuí, Campinas, São Paulo, e mesmo para outros estados. Nessas condições a Washington Lodge, trabalhando por um ritual diferente, desconhecido dos maçons brasileiros, e em língua inglesa, não mais dispunha de material humano suficiente para a renovação de seu quadro. A freqüência dos antigos membros, muitos residentes longe, ia diminuindo, e no fim a Loja abateu colunas. As Lojas Posteriores à Washington Lodge A Loja Phoenix - N. 30 (56) A Loja Phoenix (57) nº 30 foi fundada aos 21 dias do mês de maio de 2003, na cidade de Cacoal, Estado de Rondônia. No ato de fundação foi composta a administração provisória tendo como Venerável o Mestre Edson Osival Furlaneto; 1º Vigilante Júlio César da Rocha; 2º Vigilante José Salviano de Matos; orador Fortunato Luis Godoy; Secretário Ednelson Bega; Tesoureiro Donizete Borges de Campos e Chanceler José Corrente. A Loja Phoenix nº 30  obedece à jurisdição da Grande Loja Maçônica do Estado de Rondônia(CMSB) – GLOMARON e seu nome oficial é Augusta e Respeitável Loja Simbólica Phoenix nº 30.  A sessão de fundação da Loja Phoenix nº 30 participaram os Mestres Maçons Luiz Agnelo Sicheroli; Arnaldo Vieira Fernandes; Denivaldo dos Santos Paes; Edomênio Durval Francisco da Silva; Julimar Lopes de Oliveira. Carlos Alberto Bernardes; Carlos Roberto da Silva; Vidal Macedo da Costa; Clodoaldo Franchi Numes; Luiz Cláudio Soares Azambuja; Paulo Negreiros Athaide Filho; Alberto Alves Teixeira; Nelson Rangel Soares Filho; Oscar Gomes da Silva; Ademir Alves Rodrigues; Paulo Fernando Brasil; Sérgio Coaracy Pontes; Cleth Muniz de Brito e Pedro Vitor Gomes. A Loja Phoenix nº 30 trabalha no Rito York, sendo a primeira Loja de Rondônia e a segunda do Brasil a adotar o Rito York, sendo isto possível através de intercambio maçônico com a Brazilian Lodge nº 1182 Free Accepted Masons. Filiada a Grand Lodge of State of New York a qual no processo de fundação da Loja Phoenix nº 30 foram fornecidos todos os rituais devidamente traduzidos para a língua portuguesa e suporte ritualístico pela diretoria da Brazilian Lodge nº 1182 na época  tendo como Worshipful Master Colunas “B” e “J” da Washington Lodge
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 54 Paulo Koo. A Loja Cavaleiros do Sol A ARLS Cavaleiros do Sol nº 42 – jurisdição da Mui Respeitável Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba, foi fundada em 1º de janeiro de 2000, na cidade de João Pessoa, capital do Estado da Paraíba, com o intuito de pautar seus trabalhos no Rito York. No entanto, por informações (58) erroneamente repassadas, a Loja sem saber, enveredou nos trabalhos maçônicos pautados nos rituais de emulação. Com o passar dos anos, os obreiros da ARLS Cavaleiros do Sol, através do irmão Sergio Roberto Cavalcante tiveram conhecimento de que estavam trabalhando com os rituais inadequados para o objetivo pelo qual a Loja tinha sido fundada. De posse dos rituais norteamericanos, e depois de devidamente traduzidos (59), foi constituída uma comissão (60) a fim de ajustar os referidos rituais a realidade da jurisdição da Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba, visto que, muitos dos procedimentos neles existentes, são embasados na legislação de cada Grande Loja norteamericana, sendo totalmente incompatível com a realidade da Maçonaria Nacional. Depois da ARLS Cavaleiros do Sol, surgiram outras Lojas York no Brasil e hoje estima-se ter- se um efetivo de pelo menos 70 (setenta) Lojas York trabalhando com os rituais norteamericanos. Notas (1) Não eram subordinadas a um poder central. Ou seja, a uma Potência Maçônica como o é hoje. (2) Nascido em 1672 e falecido em 1742. (3) Supostamente, Dásaguliers teria sido iniciado na Loja Antiquity nº 02, uma das quatro Lojas fundadores da Grande Loja de Londres em 1717. (4) Foi o último Grão-Mestre plebeu. (5) Foi o primeiro Grão-Mestre de linhagem nobre. (6) Esse Grão-Mestre foi expulso da Maçonaria sob a acusação de ser Jacobita. (7) Essa Grande Loja, reclamou para si, o título de “Grande Loja de Toda a Inglaterra”. Encerrou suas atividades em 1740. (8) Essa Grande Loja ficou conhecida como a “Grande Loja dos Antigos”, porque seus membros alegavam que a Primeira Grande Loja havia transgredido as antigas leis praticadas pela Francomaçonaria. (9) Grande Loja de Toda a Inglaterra. (10) Grande Loja Sul do Rio Trent. (11) Em 1778, O Irmão William Preston retorna à jurisdição da Grande Loja de Londres. (12) Era o Grã-Mestre dos Modernos, o Duque de Sussex. E era o Grão-Mestre dos Antigos, O Duque de Kent. Ambos, eram irmãos carnais. E o Duque de Kent propôs que seu irmão, o Duque de Sussex, fosse o primeiro Grão-Mestre da nova Grande Loja. (13) Ele está registrado como um maçom de uma Loja deAberdeen, em 1670 e que emigrou para a América do Norte em 1682. (14) Texto capturado do link: www.stjohnsboston1733.org e traduzido pelo Irmão José Prudêncio Pinto de Sá – Mestre Maçom(MI) (15) King’s Chapel = Capela do Rei (N. do T. - JPPS) (16) Eram Oficiais Generais, superiores, intermediários e subalternos. (17) Essas Lojas não eram certificadas pela a Grande Loja da Inglaterra. Ao contrário, elas eram certificadas pela Grande Loja da Irlanda, a qual oferecia os “Graus Superiores”, característicos da Francomaçonaria Jacobina. (18) O mais destacado Comandante Militar britânico da década de 1740. (19) Festa do Chá de Boston. (20) Joseph Brant. Ele foi iniciado como francomaçom em 1776, em Londres. (21) Joseph Brant ou Thayendanegea, (março de 1743 - 24 de novembro de 1807),foiummilitar indígena elíderpolítico americano. Ele foi iniciado como francomaçom em 1776, em Londres. (22) Mais tarde o 2º Batalhão de Infantaria Ligeira do Duque de Corwaills. (23) Mais tarde seria denominado de Leicestershire Regiment. (24) http://freemasonry.bcy.ca/biography/webb_t/thomas_webb_ bio.html. (25) Segundo Herbert T. Leyland , seu biografo. (26) Grande Loja de Londres. (27) 1751. (28) Pode-se tomar a denominação por Rito. (29) Também denominada de Guerra da Sucessão. (30) O Exército Confederado ou Sulista, era composto pelos Estados do Alabama, Arkansas, Carolina do Norte, Carolina do Sul, Flórida, Georgia, Louisiana, Mississippi, Texas e Virgínia. (31) Quit Placet (32) Extraído do “Boletim Noticioso e Novidadeiro – Coletânea A Bigorna – 2º volume nº 34 até 70” – p 99. (33) Era o 3º filho da viúva Terrell. (34) Era o 6º filho do Cel. William C. H. Norris. (35) Era o 4º filho do Cel. William C. H. Norris. (36) Era Reverendo da Igreja Metodista. (37) Era Reverendo da Igreja Batista. Faleceu 15 de março de 1877. (38) Era filho de Joseph Minchin. (39) Era pai de Martha, esposa de Robert C. Norris. (40) Falecido em 15 de março de 1877. (41) Era médico. (42) Era agricultor. (43) Foi capitão do Exército Confederado. (44) Era agricultor. (45) Era ferreiro. (46) Era agricultor. (47) Era o 9º filho do Cel William C. H. Norris. (48) Era o 6º filho do Cel. William C. H. Norris. (49) Era agricultor. (50) Era Reverendo e residia em Constituição(Piracicaba). (51) Era agricultor. (52) Whitaker era casado com a filha do Cel. William C. H. Norris, Isabella. (53) Era agricultor. (54) Extraído do “Boletim Noticioso e Novidadeiro – Coletânea A Bigorna – 2º Volume nº 34 até 70” – p 100. (55) Segundo afirmação do Irmão Kurt Prober. (56) A primeira Loja Simbólica do Brasil a pautar seus trabalhos no autêntico Rito de York. (57) http://www.lojaphoenix30.com.br/pagina.aspx?id=5 (58) Os primeiros rituais que chegaram as mãos dos Obreiros da ARLS Cavaleiros do Sol, foram rituais de emulação, os quais erroneamente aqui no Brasil, são tidos como se fosse o suposto Rito de York. (59) A tradução dos primeiros rituais, foi efetivada pelo respeitável Ir José Prudêncio Pinto de Sá – Mestre Maçom(MI) (60) Sergio Roberto Cavalcante (Presidente); Teldson Douetts Sarmento (Relator)
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 55 Muitos têm sido os estudiosos da Arte Real e maçonólogos em atribuir eras ou épocas sobre a origem da Ordem Maçônica que acabam por gerar linhas de raciocínio diferentes que concorrem para intensificar dúvidas sobre esta sublime Instituição. A Ordem não tem vida em tempos imemoriais, apesar de sobejamente divulgado que ela se perde nas brumas do tempo. Contudo existem, isso sim, princípios que esta absorveu quando da sua codificação. Mesmo porque ao se examinar mais detidamente as datas e situações a ela atribuídas na Antiguidade, por vezes se encontram incongruências. Observando-se mais atentamente, verifica- se que o Grande Arquiteto do Universo ou Supremo Arquiteto do Universo -nesta última nominação tem-se que nada existe acima dele- , que é o Criador Incriado, através de diversos enviados especiais foi manifestando todo um conjunto de atos e fatos que acabaram por fornecer as bases da Ordem Maçônica. Esses enviados seriam os Luminares da Antiguidade e dos Livros Sagrados, ressaltando aqui também o que se encontra nos antigos registros africanos do Egito e da Etiópia. É de salientar que tais livros e registros não foram escritos por esses enviados, mas sim por escribas, que compilaram o que era transmitido oralmente de geração em geração. No caso do Egito, procura-se ali a origem da maçonaria devido às pirâmides tão bem construídas e alinhadas, tendo subterrâneos que alguns consideram bastante similares à Câmara de Reflexões. Talvez por isso, a imaginação de muitos tenha sugerido a prática de rituais iniciáticos dentro dessas construções misteriosas. Alguns manuscritos, resgatados nos últimos séculos, tais como o de Halliwell (ou Poema Regius), o de Matthew Cooke, o de Dowland – dentre outros- contribuíram com uma série de informações de cunho fundamental para a Ordem, mostrando que a Maçonaria se estribou em códigos Morais e Divinos. É de nosso entendimento que, apesar de alguns maçons considerarem desnecessário ou fora de propósito essa espécie de conhecimento, a simples leitura de livros e manuscritos, sem a descoberta do espírito do que ali está contido, não tirará o Irmão de seu estado inercial com relação a ele. Feitas estas considerações, vamos voltar nossa visão ao início da civilização com o aparecimento do Homo Sapiens, a cerca de A MAÇONARIA EM EVOLUÇÃO Ir:. Claudio Luiz do Amaral Santini
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 56 Pedra Lascada (Getty Collection Galleries) 45.000 anos, e iniciar um processo evolutivo dentro do texto, utilizando os conhecimentos que temos das sociedades primitivas atuais, aliados a nossa imaginação, extraindo a partir daí um conjunto de deduções. Os primeiros informes dos quais se têm notícia, que julgamos importantes para o conhecimento da Arte Real em sua ótica operativa, datam da Idade da Pedra, onde a pedra lascada nos remete ao Aprendiz em seu desbaste da pedra bruta e produzindo o primeiro Cinzel que usará para o autodesbaste. Logo a seguir vem a pedra polida, que já nos remete ao Companheiro, polido e apto para os novos trabalhos e estudos. Outros informes podem ser retirados da Arte Rupestre, na qual pode se entender estar materializado o planejamento num tosco traçado na Pedra de Delinear (a rocha) ocasião em que se definiam as estratégias da aquisição de alimento pela caça inicialmente e, logo a seguir, pelo confinamento de animais domésticos ou do plantio, tudo definido, provavelmente em algo similar a uma assembleia, análoga a uma “câmara do meio”. Nessa mesma época, houve outros fatos que, por analogia antropológica, faz-nos entender que os primeiros códigos morais foram transmitidos, tais como o comando para obtenção de alimento pelo chefe da comunidade e a gestão da casa num sistema matriarcal (1). Em ambas as situações, ali estão Aprendizes acompanhando mas sem participação ativa, pois não podiam ainda engendrar ou definir ações (não sei ler nem escrever...). Os Companheiros também ali estavam já desempenhando algumas tarefas que seus organismos e habilidades permitiam. Seguindo a mesma linha de raciocínio, foram nessa Era definidas as hierarquias onde aquele que mais se destacava pela força, porte físico (beleza) ou pelo conhecimento desenvolvido (sabedoria) era aclamado chefe da comunidade (Mestre), a ele cabendo a missão de conduzir seu povo de modo mais seguro possível, e pelos méritos alcançados era elevado a chefe maior da comunidade (Venerável), que naquele contexto tornava-se vitalício. Terminadas as atividades, a comunidade se reunia tendo os homens num círculo central, as mulheres, os jovens e as crianças mais afastados e então se relatava a todos o que acontecera naquele dia e depois pedia a opinião de um membro mais evoluído o pajé (Orador) que fazia as observações necessárias e concluía pelo bom aproveitamento da atividade e que todos podiam se retirar. Nesse momento, poderia entrar em ação outro membro da comunidade que, juntamente com outro, ficava vigilante a tudo e consultando se todos estavam satisfeitos; e ao receber essa confirmação, comunicava ao Chefe maior que tudo estava certo e o mandatário maior dizia a todos para se recolhessem até a próxima atividade. Nesse cenário propício aos sonhadores, o Homem de Neandertal (2) teria provavelmente, se se pode dizer assim, organizado a primeira “Ordem Maçônica”. O interessante disso tudo é que de acordo com o arqueólogo português JOÃO ZILHÃO: “Os neandertais inventaram as práticas simbólicas independentemente do homem de anatomia moderna.”
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 57 E porque não admitir que os Homo sapiens e os Homo neanderthalensis mantivessem acordos e acertos que podem tê-los levado a práticas ritualísticas que representassem seu dia a dia e que provavelmente teriam ficado registradas em figuras gravadas na pedra? Mas como dito anteriormente, essa Era ficou perdida nas brumas do tempo e somente com muito esforço podem-se fazer ilações da origem da maçonaria a partir daí. Mas certamente que as informações dali, com o passar dos séculos, foram sendo transmitidas e desenvolvidas, até serem absorvidas nos conceitos e princípios da Ordem Real. De 20.000 anos até cerca de 6.000 anos atrás não se tem conhecimento de transformações ou informações maiores daquelas contidas nas eras anteriores, e talvez só exista algum aperfeiçoamento ou ajuste com a evolução do Homo sapiens. Note-se que não se tocou na figura do Hominídeo porque estaria se buscando a origem da Ordem a cerca de 4.000.000 de anos, o que não teria qualquer consistência ou sustentação plausível. Tais considerações e inferências têm por objetivo chegar ao entendimento de que o nascimento da forma de se pensar a maçonaria deve acompanhar, também, o desenvolvimento da forma de se enxergar o conhecimento e a transmissão deste. Neste caso, podemos abordar tão somente esse desenvolvimento a partir do momento em que o Homo sapiens começa a registrar suas impressões. No caso da tradição ocidental, quando se ingressa na época pré-mosaica, outros informes são trazidos para contribuírem com a organização, em nosso tempo, da Ordem, tais como os conhecimentos astronômicos dos Caldeus e daqueles povos da “crescente fértil”. Alguns séculos depois, serviram como exemplo à Ordem a doutrina de Moisés e do Antigo Testamento, que é composto de cerca de 40 (3) livros escritos por vários autores, conforme verificam os estudiosos do assunto, além do próprio Moisés, porque naquela fase a maioria dos códigos e normas eram sujeitos à tradição oral. Houve ainda outros profetas que também trouxeram valiosas participações para o Antigo Testamento -como Isaias, Jeremias, Elias- que com diversos outros deixaram sua colaboração. Alguns escribas copiavam esses escritos e certamente incluíam suas próprias opiniões, que eram por sua vez copiadas por outros que também deixavam suas marcas. E tudo isto focadamente num povo, o Hebreu, e também com o foco nos 5 livros atribuídos a Moisés, o Pentateuco (para os Judeus a Torá). O Templo do rei Salomão -rei considerado como um dos prováveis criadores da maçonaria- serviu como inspiração e base para as dimensões do Templo Maçônico. E nas Grandes Lojas, em especial, podemos perceber de forma evidente a colaboração dos salmistas. Reunião de Aborígenes da Patagônia
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 58 Podemos considerar, também, a contribuição para o crescimento do maçom as obras sacras tais como o Rigveda dos Hindus, o Tripitaka –o principal livro dos diverso textos budistas-, o Alcorão Sagrado do Islã dentre outros; e há cerca de 2.000 anos, as Parábolas de Jesus (que não foram escritas por ele, mas sim transmitidas oralmente), os Evangelhos de João, de Marcos, de Mateus e de Lucas. Cada evento desses, a seu tempo, forneceu códigos, atos, fatos e costumes que os organizadores da Ordem Maçônica coletaram e compilaram para que se tivesse a Ordem como a temos hoje. Não podemos nos esquecer de mencionar ensinamentos iniciáticos como o hermetismo, o zoroastrismo na Pérsia, a iniciação Egípcia, as escolas filosóficas gregas de Sócrates e Platão -dentre outros- que trouxeram contribuições valiosas para os organizadores da Ordem. E como dizem os Tuaregs: “A caravana caminha e passa”. Quanto a textos de origem estritamente maçônica, já na era Cristã por volta do século X, revelaram-se na Inglaterra escritos que apresentavam uma organização com as características operacionais maçônicas, no reinado de Athelstan (895-940), neto de Alfredo, o Grande. Logo a seguir, em 936, a convocação da Segunda assembleia pelo meio-irmão de Athelstan, príncipe Edwin. Mas além de serem controversos estes documentos, nada traz a certeza de ali estar o marco inicial da Ordem Real. Moeda do Rei Athelstan (895-939 d.C.) Em seguida surgem as Guildas (4), Os Carbonários (5), Os Templários (6) (aqui citados aleatoriamente), dentre outras organizações não formaram a maçonaria mas contribuíram para alguns de seus trabalhos, com exceção dos Carbonários que são posteriores a organização da maçonaria como conhecemos hoje. Acerca das origens da maçonaria muitos rios de tinta se gastaram e as mais fantasiosas histórias foram escritas. Contudo, o historiador Paul Naudon traduz numa frase enxuta e perfeita sobre o assunto: “a francomaçonaria apresenta- se como a continuação e a transformação da organização dos mestres da Idade Média e do Renascimento, na qual o elemento especulativo tomou o lugar do elemento operativo”. As preocupações caritativa, cultural, iniciática e religiosas já faziam parte das corporações dos mestres artífices, que por sua vez estavam ligados a nobre arte da arquitetura de respeitadas e ricas tradições simbólicas e secretas, e nela se fundiam os princípios, as execuções e origens da construção que nos remetem aos Bizantinos, aos Caldeus, aos Egípcios, aos Fenícios, aos Hebreus e aos Romanos. Todo esse cadinho de arquitetura que fundiu todo o corpus da civilização europeia e nesta, e somente nesta, se pode ligar a Maçonaria à remota Antiguidade. E uma ligação direta com o passado, só a encontramos no que diz respeito ao corporativismo dos artífices; e seus enclaves estão fortemente carregados de passagens bíblicas. Eles tinham seus próprios patronos e suas reuniões rituais, mas só como disfarce cristão para coexistirem sob a proteção da igreja, pois estavam fortemente ligados aos seus mistérios e sua intensa solidariedade. Pode-se afirmar com certeza que a maçonaria atual teve sua origem quando as quatro lojas londrinas The Goose and Gridiron (“O Ganso e a Grelha”), The Crown (“A Coroa”) ou The Queen’s head (“A Cabeça da Rainha”), The Apple Tree (“A Macieira”) e The Rummer and Grapes (“A Taça e as Uvas” ou “O Copo e as Uvas”) se reuniram, em 24 de junho de 1717, para fundarem a Grande Loja da Inglaterra, e teve início o que chamamos hoje de Sistema de Obediência da Francomaçonaria, sendo que as novas lojas deveriam se vincular a essa nova instituição, que passou a se chamar de Grande Loja de Londres e Westminster. As influências havidas aqui relatadas foram mais intensas no Rito Escocês Antigo e Aceito e em alguns ritos que derivaram deste ou antecederam a este, que mantêm o Livro Sagrado como uma das três luzes emblemáticas da Ordem Real.
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 59 Mesmo assim são fortes as influências do passado remoto, dos Templários e do Judaísmo Bíblico como citam o Grêmio Fénix (GOL, Lisboa): É certo que não deixa de impressionar, na cristalização maçónica de hoje, a existência de todo um conjunto de elementos que lembram a organização das ordens da cavalaria e, sobretudo, o ideário dos Templários. Grande parte do vocabulário maçónico está ligado, por sua vez, ao judaísmo bíblico. Parece, todavia, que esta associação se deve mais à influência que os Templários exerceram na construção civil e religiosa e nas próprias corporações dos pedreiros do que a uma ligação direta entre Ordem do Templo e Ordem Maçônica. Não convém esquecer que boa parte dos rituais, ditos escocês e francês, com sua complexa emblemática, foi «inventada» no século XVIII nas cortes e salões aristocráticos da Alemanha, França e Inglaterra. As corporações dos pedreiros, como muitas outras, podiam aceitar no seu seio determinadas pessoas que, em rigor, lhes estariam à margem. Era o caso de estrangeiros, de clérigos, de agregados à profissão, de personalidades desejosas de se integrarem ou de utilidade à corporação. Já desde o século XV, por exemplo, que as corporações maçónicas escocesas tinham impetrado do rei o privilégio de terem à sua frente, como “grande mestre”, um nobre de boa linhagem, hereditário. No século XVII, muitas lojas de pedreiros britânicas foram reorganizadas segundo o modelo das academias italianas. Estes maçons aceitos tornaram-se, com o andar dos tempos, tão numerosos que imprimiram à corporação de que faziam parte uma face completamente diversa da anterior. Nas corporações onde tal começou a acontecer, o elemento operativo foi cedendo o lugar ao elemento especulativo. Uma transformação deste tipo Maçons Operativos trabalhando em uma construção
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 60 levou centenas de anos a completar-se. E só na Grã-Bretanha, onde a tradição corporativa - como tantas outras tradições - se manteve sem desfalecimento até ao século XVIII, foi possível às antigas lojas de pedreiros operativos converterem- se, por completo, em lojas de pedreiros especulativos, mantendo, não obstante, o prestígio e o relevo social do passado. Só na Grã-Bretanha também, se conservaram o simbolismo e o ritual de tempos remotos, enriquecidos - e, não poucas vezes, deturpados - pela continuidade secular da sua prática. Não insistiremos em colocações dos trechos e histórias que a maçonaria estruturou em sua organização, como dito, de fortes influências morais e dogmática hebraica e egípcia -esta principalmente da época dos Hicsos no baixo Nilo, que tem a caracterização do seu arquiteto primeiro Hiram Abif e no Julgamento de Osiris. Como confirmação de que a Ordem inseriu em seu arcabouço simbólico filosófico de linhas da antiguidade tem-se passagens com Kong-Fou- Tse (Confúcio), Zaratrusta, Gautama (Buda), Moisés, Hermes Trimegisto, Platão, Jesus de Nazareth, Maomé (o Profeta) e o Eterno. Este último em uma suas manifestações assim se comunica: “Os Judeus esperam o Messias; os Mulçumanos, o Hahdi; os Cristãos milenários, a volta do Cristo; os Budistas, Matreya, o próximo Buda; os Hindus, o avatar de Vixnu que se encarna de tempos em tempos para o triunfo dos bons e destruição dos maus. Tenho todos esses nomes e outros ainda mais, porque a cadeia hermética nunca foi quebrada.” Concluindo, não se acredita haver esgotado totalmente este assunto, mas com certeza para os acompanhadores do Rito Escocês Antigo e Aceito não restarão dúvidas de que a Ordem se estruturou sobre as culturas mais antigas que o homo sapiens sapiens (homem moderno) tem conhecimento, havendo ainda participação da espiritualidade em quase todas suas ações. O espírito investigativo do obreiro é incansável e estará sempre atento a qualquer informação oriunda de fonte plenamente confiável e como sua missão é a evolução e o bem estar da Humanidade, quando o GADU desvendar-lhe ainda mais ele estará apto a novas incursões neste vasto cabedal de simbolismo e filosofia. Maktub (já estava escrito). BIBLIOGRAFIA Bíblia de Jerusalem. Editions Du Cerf, Paris, 1998, ed. Revista e ampliada. Direitos cedidos com exclusividade para a língua portuguesa em todo o mundo a © PAULUS – 2002. Rituais do REAA. Supremo Conselho do Grau 33 do REAA da Maçonaria para a República Federativa do Brasil. Rio de Janeiro-RJ. Edições de 2003 a 2008. CLAUSEN, H. C. 33. Comentários sobre Moral e Dogma. Jurisdição Sul – EUA – 1974. San Diego- California. Tradução sob a supervisão de Alberto Mansur. 1976. EVANS-WENTZ, W. Y. O livro Tibetano dos Mortos ou experiências pós-morte no plano do Bardo, segundo a versão do Lama Kazi Dawa-Samdup. Pensamento, São Paulo-SP. 10ª ed. 1998. NAUDON, P. Les Origines Religieuses et Corporatives de Ia Franc-Maçonnerie. 4ª ed. Revista e aumentada. 1979. Dervy, Paris-Fr. FINDEL, J. G. História da Maçonaria - de sua origem até os dias de hoje. 1869 ASLAN, Nicola. História da maçonaria. Rio de Janeiro: Editora Espiritualista, 1959. CAMINO, Rizzardo da; CAMINI, Odéci Schilling. Vade-mecum do simbolismo maçônico. 2ª ed. Rio de Janeiro: Aurora, [s.d.]. CARVALHO, Assis. Símbolos maçônicos e suas origens. Londrina: Editora e Gráfica Cotação, 1997. CASTRO, Boanerges B. O simbolismo dos números na Maçonaria. 2ª ed. Rio de Janeiro: Grafica Editora Aurora, 1983. CRUZ, Almir Sant’Anna. Simbologia maçônica dos painéis. Londrina: Editora Maçônica “A Trolha”, 1997. DEWAR, James. The unlocked secret. Freemasonry reexamined. London: William Kimber, 1966. GOULD, Robert Freke. The history of freemasonry. Philadelphia: John C. Yorkston, 1896. v. 1. GUÉNON, René. Os símbolos da ciência sagrada. 9ª ed. São Paulo: Pensamento, 1993. MELLOR, Alec. Dictionnaire de la franc-maçonnerie et des francs-maçons. Paris: Belfond, 1983.
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 61 NOTAS 1 James Frazer, J. J. Bachofen, Walter Burkert, Robert Graves, James Mellaart e Marija Gimbutas desenvolveram a teoria segundo a qual todas as divindades da Europa e da bacia do Mar Egeu são oriundas de uma deusa matriarca pré-indo-europeia ou proto-indo- europeia(Neolítico).Segundoessesestudiosos,areligiãodaDeusa mãe era a base de toda a Pré-história e das civilizações antigas, e a Deusa seria o fundamento sócio-religioso do matriarcado, que se mantém ainda hoje entre povos tão diferentes como os tuaregs e os iroqueses das ilhas Trobriand 2 , os Minangkabau da Indonésia ou os comorianos.(Library of Congress Country Studies. “Comoros - Status of Women”.) 2 O homem-de-neandertal é uma espécie extinta, fóssil, do gênero Homo que habitou a Europa e partes do oeste da Ásia, de cerca de 300 000 anos atrás até aproximadamente 29 000 anos atrás, tendo coexistido com os Homo sapiens. 3 A quantidade de livros do Antigo Testamento varia conforme a religião. A Católica adota 46 livros, enquanto que a Protestante adota39,talcomoocânonejudaicoquecomeçouaserestabelecido no concílio rabínico de Jamnia (aprox.. 96 d.C.). Outras religiões adotam outros cânones (Ortodoxa Russa, Copta, Etíope). 4 Chris Knight e Robert Lomas iniciam seu Trabalho ressaltando ser a Maçonaria uma Instituição tradicional, voltada ao aperfeiçoamento do indivíduo e da sociedade, sob os auspícios de Deus ou Grande Arquiteto do Universo. Ao contrário das religiões formalmente estabelecidas, não há na Maçonaria qualquer referência a entidades ou divindades “das trevas”: é a única Instituição radicalmente Monoteísta do Ocidente. Qual seria a sua origem? Deprontodescartamahipótesesegundoaqual,antesdeformalizar- se na Inglaterra no dia 24 de junho de 1717, a Maçonaria ter origem exclusiva ou principal nas guildas de pedreiros medievais. Apresentam 3 motivos para esta conclusão: - Todas as Corporações de Ofício de Pedreiros Medievais recebiam as bênçãos da Igreja Romana o que seria impensável para a Maçonaria. Ficava-se por vezes uma vida inteira, por exemplo, na construção de uma grande Catedral, tornando desnecessários códigos de reconhecimento. Quanto à profissão, se alguém alegasse ser pedreiro sem o ser, sua inabilidade o denunciaria rapidamente. -AsAntigas Obrigações (Old Charges) da Maçonaria estabelecem, por exemplo que “nenhum irmão deve revelar qualquer segredo legítimo de qualquer outro irmão se isso puder lhe custar a vida ou as posses”. Somente por excomunhão alguém poderia correr este risco naquele tempo. Hereges eram excomungados. Que atividade de construção poderia conduzir pedreiros cristãos à condenação por excomunhão? Mais lógico concluir serem Cavaleiros em fuga – os Templários em cujas cores, símbolos e costumes há tanta reminiscência na Maçonaria. Há ainda, nas Old Charges a proibição peremptória de um irmão relacionar-se sexualmente com qualquer mulher da família de outro irmão. Cavaleiros em fuga que solicitassem proteção precisariam deste cuidado, sem dúvida! Mas o que poderia impedir um pedreiro, por exemplo, de casar-se com a irmã de outro? Há mais, nas Old Charges, mas atenho-me à mais chocante: entre maçons sempre se contaram muitos reis e nobres. O que conduziria reis e nobres a aprender normas de comportamento moral com humildes pedreiros? - O argumento apresentado como “definitivo” pelos Autores é o fato de nunca ter havido guildas de pedreiros na Inglaterra, berço da Maçonaria. 5 A Carbonária foi uma sociedade secreta e revolucionária que atuou na Itália, França, Portugal e Espanha nos séculos XIX e XX. Fundada na Itália por volta de 1810, a sua ideologia assentava em valores libertacionais e fazia-se notar por um marcado  anticlericalismo. Participou nas revoluções de 1820, 1830-1831 e 1848. Embora não tendo unidade política, já que reunia monarquistas e republicanos, nem linha e ação definida, os carbonários (da italiano carbonaro, “carvoeiro”) atuavam em toda a Itália. Reuniam-se secretamente nas cabanas dos carvoeiros, derivandodaíseunome.Foisugeridoqueoespargueteà carbonara foi por eles inventado. Inventaram uma escrita codificada, para uso em correspondência, utilizando um alfabeto carbonário. Durante o domínio napoleónico, formou-se em Itália uma resistência que contou com membros de uma organização secreta – a Carbonária. A carbonária tinha uma organização interna semelhante à da Maçonaria, com a qual, aliás, tinha algumas afinidades ideológicas (combater a intolerância religiosa, o absolutismo e defender os ideais liberais) e esteve aliada em certos momentos, havendo mesmo elementos que pertenciam às duas organizações. Surgiu em Nápoles, dominada pelo general francês Joaquim Murat, cunhado de Napoleão Bonaparte. Lutava contra os franceses, porque as tropas de Napoleão haviam iniciado uma espoliação da Itália, embora defendessem os mesmos princípios de Bonaparte. Com a expulsão dos franceses, a Carbonária queria unificar a Itália através de uma revolução espontânea da classe trabalhadora, comandada por universitários e intelectuais, e implantar os ideais liberais. Os membros da Carbonária, principalmente da pequena e média burguesia, tratavam-se por primos. As associações da Carbonária tinham uma relação hierárquica. Chamavam-se choças (de menor importância), barracas e vendas, sendo estas as mais importantes. As vendas, cada uma contendo vinte membros, desconheciam os grandes chefes. Todas as orientações eram transmitidas por elas. Havia uma venda central, composta por sete membros, que chefiava o trabalho das demais. A Carbonária não tinha nenhuma ligação popular, pois como sociedade secreta, não anunciavam suas atividades. Além disso, a Itália era uma região agrícola e extremamente católica, com camponeses analfabetos e religiosos,
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    Revista de EstudosMaçônicos da Glomaron - Ano I - N.º 0 62 que tradicionalmente se identificavam com ideias e chefes conservadores. 6 Em meados do século XIV, os Templários foram perseguidos por toda a Europa, e sua ordem de fato foi dissolvida. No entanto, esses cavaleiros nunca foram excomungados pela Igreja de Roma. Criada em 1119 pelo francês Hugo de Payens, a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, ou simplesmente Ordem dos Templários, foi concebida com a função de proteger os peregrinos que partiam para Jerusalém durante o período das Cruzadas. Cerca de dois séculos depois, o grupo já era considerado uma potência militar, ostentando um contingente de aproximadamente 15 mil homens, e financeira. Os cavaleiros estavam entre os principais proprietários de terras do período, donos de numerosos feudos e de uma rede própria de mosteiros.  A ordem mantinha negócios com todos os grandes senhores da Europa medieval, além de constantemente emprestar dinheiro para a Igreja e gerir alguns de seus bens. Entre seus “clientes” estavam figuras ilustres como o rei João I da Inglaterra (1166-1216) e Filipe IV, o Belo (1268-1314), soberano da França e principal artífice da destruição dos Templários. Sua ofensiva contra a ordem tinha dois objetivos: a ampliação dos domínios do reino francês e o enriquecimento de seu Tesouro. Na manhã do dia 13 de outubro de 1307, uma operação lançada secretamente pelo conselheiro real Guilherme de Nogaret resultou na prisão de todos os Templários da França. Os membros da ordem foram interrogados sob tortura e entregues aos inquisidores dominicanos, que os condenaram por heresia, apostasia (afastamento da doutrina pregada pela Igreja), idolatria e sodomia. Alguns foram condenados à morte na fogueira. Chocado com as confissões obtidas pelos lacaios de Filipe IV, o papa Clemente V (1264-1314) determinou a prisão de todos os Templários da cristandade. Criaram-se comissões eclesiásticas para investigar os membros da ordem, e, em 1311, um concílio se reuniu na cidade francesa de Vienne para avaliar as informações coletadas e julgar os cavaleiros. A culpabilidade do grupo ficou longe de ser uma unanimidade, e alguns dos presentes propuseram que ele fosse reformado, não abolido. Temendo um conflito com o rei da França, Clemente V demorou a tomar uma decisão. Finalmente, em meados de 1312, o papa foi informado de que Filipe, o Belo, estava marchando em Lyon com o seu exército. Vencido pelo medo, o pontífice assinou no dia 3 de abril a bula Vox in excelso, simplesmente suprimindo a Ordem do Templo, sem condená-la. Outra bula, chamada deAd providam, decretou que os bens do grupo fossem transferidos para os beneditinos da Ordem de Malta. Por fim, uma terceira bula anunciou que o papa se encarregaria de julgar os acusados, mas eles não seriam excomungados. Em países como Inglaterra, Espanha, Portugal e Alemanha, os Templários foram inocentados. Na França, absolveram-se aqueles que reconheceram seus erros. Assim, Filipe IV fracassou em seus planos de espoliação total dos bens dos Templários em proveito próprio. No entanto, o rei francês conseguiu prender o grão-mestre Jacques de Molay, que foi queimado vivo em Paris no dia 19 de março de 1314.