Paul o

Hart ung
Paul o Hart ung
Sumário

Apresentação – Paulo Hartung

05

Prefácio – Claudio Porto 

09

Introdução 

17

Capítulo 1 – Entre Gerações 
Organiz ação e edição:
Revisão:
Foto:

Capítulo 3 – Planejamento – Rumo e Estratégia

69

Capítulo 4 – Gestão – Investimento Decisivo

Alair Caliari

Impre ssão:

79

Link Editoração

GSA Gráfica e Editora

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Bibliotecária responsável: Amanda Luiza de Souza Mattioli

G633r		
		
		

GOMES, Paulo César Hartung, 1957Recortes / Paulo César Hartung Gomes ; organização, José
Antonio Martinuzzo. - Vitória, ES : Econos, 2012. -

		

152 p. ; 24 cm.

		

1.	 dministração pública – Economia – Planejamento
A
Estratégico – Gestão – Educação – Política.
I.	 Martinuzzo, José Antonio. II. Título

		

55

Márcia Rocha

Projeto gr áfico e di agr am ação:

	
	

Capítulo 2 – Economia – Desafios e Oportunidades

José Antonio Martinuzzo

21



ISBN 978-85-8173-024-0
E c o n o s – J a n e i r o d e 2012

Capítulo 5 – Educação e Juventude – Determinantes do Futuro101
Capítulo 6 – Política – Conquista Histórica Desafiada 

121
129

Referências bibliográficas

CDD - 350

Posfácio – Ana Paula Vescovi

152
Apresentação

O

ano de 2011 marca no calendário da minha jornada um
tempo de inovação. Findo o período de dois mandatos à frente do governo do Estado do Espírito Santo
(2003-2010), coloquei minha vida em novo curso, embora seguindo os mesmos valores que estão a orientá-la desde a juventude, pautados pela construção da

igualdade de oportunidade para todos.
Como consequência da decisão de não me candidatar a cargo ele-

tivo em 2010, dei início ao terceiro período da minha vida profissional
sem mandato – antes da minha primeira eleição, em 1982, atuei como
microempresário; em 1997, após deixar a Prefeitura de Vitória, assumi
a Diretoria Social do BNDES, até a disputa para o Senado. Neste atual
período distante dos cargos eletivos, entraram em pauta os estudos, as
atividades como economista e palestrante.
Ao voltar do período de três meses de estudos no exterior, associei-me, na Econos, a um dos grandes economistas deste País, José Teófilo Oliveira. Deste posto de trabalho e observação, tenho atuado segundo minha formação acadêmica. Em razão do momento que estamos vivendo, a dedicação às atividades de economista tem me proporcionado
um tempo de muito dinamismo e entusiasmo.
Experimentamos uma era de superação do paradigma pós-Segunda Guerra e, dentre as muitas mudanças registradas, a China ganha um
papel destacado na economia mundial e novas janelas de oportunidades de investimentos e dinamização produtiva se abrem aos emergentes, com resultados positivos para os brasileiros.
Apresentação

7
De outra sorte, trata-se de um período desafiador à atividade de

palestras, depoimentos, estudos, entrevistas, registram-se valores, ide-

economista, tendo em vista o desenrolar da crise financeira mundial,

ais, informações, percepções e avaliações acerca da desafiante vida atu-

cujos epicentros espalham-se no mundo desenvolvido (EUA, União Eu-

al, em âmbito estadual, nacional e internacional.

ropeia e Japão), exigindo dos especialistas um acompanhamento siste-

Trata-se de pontos de vista consolidados a partir de minha vida fa-

mático e profundo de um quadro fluido e complexo numa realidade de

miliar, formação acadêmica, na busca do conhecimento, militância so-

globalização econômica.

cial, trabalho nas esferas pública e privada. Enfim, são visões referen-

Enfim, ações como planejar, analisar, estudar cenários, verificar
possibilidades, desenhar projetos, entre tantas outras atribuições de economista que são, costumeiramente, inspiradoras e desafiantes, em um
tempo como o atual tornam-se atividades ainda mais vibrantes.

ciadas à minha ação política, esta entendida como o próprio e inexorável ato de viver em coletividade como cidadão.
Para mim, a política é condição da existência humana e se pratica não apenas nos partidos, na militância ou na esfera governativa. Ela

Como uma ação de responsabilidade social, e por considerar a edu-

perpassa todos os âmbitos da vida, constituindo-se como meio e exi-

cação a grande prioridade nacional, dedico-me também a fazer palestras à

gência do existir civilizado. Nesse sentido, coloco-me como um eterno

juventude, buscando o despertar para o olhar atento aos fenômenos socio-

militante de política emancipatória, de base republicana e democrática.

econômicos e político-culturais que modelam a nossa vida cotidianamente

Quanto à política relativa aos partidos e instituições governamen-

e, fundamentalmente, a relevância da instrução na vida contemporânea.

tais, reafirmo minha crença neste processo, visto como uma conquis-

Nesta caminhada de atividade na vida privada, com estudos, leitu-

ta da humanidade, um avanço da civilização. Saliento, no entanto, que

ras, reciclagens e interfaces profissionais com os mais variados públicos,

o atual sistema político brasileiro está ultrapassado e precário, incapaz

tenho me dedicado, ainda, a compartilhar o conhecimento que acumulei

de dar conta das tarefas do presente. É urgente a sua atualização, ten-

ao longo de quase 30 anos de mandatos conquistados em sete eleições, es-

do em vista o paradigma socioeconômico e tecnológico da atualidade.

pecialmente os dois períodos em que estive à frente do Executivo estadual.

Nessa conjuntura, decidi não disputar as eleições em 2010. Primei-

Como ex-governador, assumi uma postura que considero adequa-

ramente, pelo meu compromisso com a política de qualidade, de base re-

da a essa posição, evitando avaliações e palpites sobre os rumos da ad-

publicana, tendo em vista que considerava simbólico e necessário con-

ministração pública no Estado. De outra sorte, coloco-me sempre pron-

cluir os dois mandatos de governador a mim outorgados pelos capixabas.

to, quando solicitado, a continuar contribuindo para o desenvolvimento

Tinha uma missão a cumprir em sua totalidade, qual seja, liderar

do Espírito Santo, que, mesmo enfrentando os desafios comuns ao dia a

a reconstrução do Espírito Santo e entregar o Estado financeira, insti-

dia, vive um tempo de oportunidades ímpares em seus quase cinco sé-

tucional e administrativamente organizado ao meu sucessor, garantin-

culos de história. O treinamento que acumulei ao longo de minha cami-

do os fundamentos e as condições de continuidade deste novo tempo

nhada também tem sido disponibilizado a outros Estados da Federação.

de nossa história que começamos a construir coletivamente em 2003.

A publicação desta coletânea de algumas das produções do ano de
2011 ocorre exatamente nessa direção do compartilhamento. Por meio de
8

E também decidi não me candidatar por enxergar um enorme descompasso entre a política partidária e institucional e as marcas da vida

Recortes

Paulo Hartung

Apresentação

9
Prefácio

contemporânea. Esse distanciamento tem levado a um evidente desprestígio das instituições políticas junto à população e, tão grave quanto isso, ao abandono de uma agenda de reformas modernizantes do País.
Não custa lembrar que foi a execução de parte dessa agenda nos
anos 1990 e 2000 que criou as condições para que o Brasil pudesse viver os avanços sociais e econômicos dos últimos anos e até mesmo sentir com menos intensidade os efeitos da atual crise mundial. Tal fato
mostra a urgência da retomada da agenda das reformas para a modernização do Brasil, e também para a atualização do seu sistema político.
Enfim, acredito na política como princípio e meio de vida em
coletividade, mas o quadro geral da atividade política no País me parece hoje pouco inspirador, particularmente no que se refere à representação parlamentar.

H

á um consenso entre especialistas, estudiosos, formadores de opinião e lideranças políticas e empresariais que, entre 2003 e 2010, o Espírito Santo passou por grandes transformações econômicas, sociais, políticas e institucionais que mudaram positiva e decisivamente a face do Estado.

Muitos fatos sustentam essa evidência. Nesse período, o PIB capixaba
cresceu 49% enquanto o brasileiro expandiu 36%. O emprego formal no

No entanto, essa fragilidade do sistema político não pode turvar

Estado cresceu quase 60%, doze pontos a mais do que a taxa verificada

nosso olhar para a importância da política no processo de transforma-

para o Brasil. Quase 440 mil capixabas saíram da pobreza, cerca de 173

ção da realidade, como bem mostra a história recente do Espírito San-

mil deixaram de ser indigentes e, o mais valioso, mais de meio milhão

to, a partir de 2003, e do Brasil, pós-estabilidade da moeda.

ascenderam à classe média. Do ponto de vista fiscal, o Espírito Santo foi

Nesse sentido, é que, mesmo optando pela atividade privada, con-

um dos estados do País com maior crescimento na capacidade de inves-

tinuo militando pela atualização do sistema político brasileiro e pela re-

timento com recursos próprios: de menos de 1% da arrecadação desti-

tomada das ações que ampliem a competitividade do Brasil no mundo.

nado a investimentos em 2003 para 16% em 2010.

Para fazer política não é preciso ocupar cargos eletivos. É possí-

No bojo dessas transformações, o Espírito Santo iniciou um novo

vel contribuir para a evolução da vida em sociedade em quaisquer ativi-

ciclo de desenvolvimento, que marca a passagem de um modelo de in-

dades que desempenhamos. Basta que se tenha a consciência do lugar

dustrialização baseado apenas em grandes empreendimentos estatais ou

da política, qual seja, o caminhar nosso de todo dia, a história que es-

privados com foco em commodities para uma economia diversificada e

crevemos cotidianamente, nas casas, nas praças, nas ruas, nas redes so-

próspera, com crescente integração competitiva e maior valor agrega-

ciais, nos partidos, nas organizações sociais, nas empresas, nas institui-

do, que é sustentada por um acervo de capital humano, social e institu-

ções públicas. Afinal, a ação política é decisiva ao caminhar civilizatório.

cional com qualidade cada vez melhor. Este novo ciclo está associado a
um ambiente de negócios dinâmico e saudável, construído nos últimos

Paulo Hartung
Economista, ex-governador do Estado do Espírito Santo (2003-2010)

10

Recortes

anos e que faz desse Estado um locus competitivo de atração de investimentos produtivos privados. Estou convencido – já o disse em várias en-

Paulo Hartung

Prefácio

11
trevistas com jornalistas e em diversos eventos públicos – que o Espírito

tentativa de intimidar os poderes e a sociedade da imensa tarefa de en-

Santo tem grandes chances de ser o primeiro estado brasileiro a alcançar

frentamento do crime organizado e de descontaminação da administra-

indicadores de primeiro mundo em qualidade de vida, educação, acesso

ção pública que então se impunha.

a bons serviços de saúde, habitação, renda per capita e meio ambiente.

O que mais me chamou a atenção, naquele cenário, foi a percep-

Tive a sorte e o privilégio de ser ao mesmo tempo um observador

ção que tive da atitude do então governador ao nos receber e conversar

próximo e um partícipe coadjuvante dessas grandes transformações.

conosco: uma pessoa simples mas muito firme, que demonstrava sere-

Essa foi uma das experiências mais ricas e estimulantes que vivenciei ao

nidade, objetividade e confiança na capacidade de sua equipe e dos ca-

longo de mais de 40 anos de vida profissional, seja como consultor seja

pixabas superarem a crise. E muita clareza do que tinha de ser feito.

como estudioso dos processos de desenvolvimento de nosso País e de

Palavras ditas por Paulo Hartung na entrevista daquele dia 19 de

seus estados e regiões. E foi justamente por conta dela que conheci Pau-

março: “nosso Estado possui um perfil econômico contemporâneo e com

lo Hartung e sua equipe de governo, com os quais convivi ao longo des-

excelentes condições competitivas. E, de fato, só há um gargalo que está

ses oito anos, que vão de 2003 a 2010.

comprometendo a nossa capacidade de desenvolvimento: a falência ou

Conheci Paulo Hartung pessoalmente no dia 19 de março de 2003,

destruição do Poder Público Estadual nas esferas do Executivo, do Legis-

no Palácio Anchieta, quando fui entrevistá-lo1 para colher suas diretrizes

lativo e do Judiciário. Nos últimos anos o setor público estadual foi ‘toma-

e orientações estratégicas para o primeiro ciclo de planejamento de seu

do de assalto’ pelas forças da corrupção e do crime organizado. Por essa

governo. O ambiente f ísico e emocional no palácio refletia bem o grave

razão, e já falei no meu discurso de posse, precisamos fazer do Governo

momento que atravessava o Espírito Santo: instalações precárias e mui-

do Estado um modelo de administração pública honrada, competente,

to deterioradas; forte tensão no ar e muita correria e senso de urgência

moderna e capaz de promover a igualdade de oportunidades para todos

das equipes, que me lembrava o funcionamento dos hospitais de emer-

os cidadãos. Este é o elo que falta para completar as condições sistêmicas

gência. Isto por conta da grave crise sistêmica que reinava no Estado, e

de competitividade e de desenvolvimento sustentado do Espírito Santo”.

não era para menos: o novo governo havia recebido uma dívida venci-

Nessa mesma ocasião, o governador nos falou longa e cuidadosa-

da de R$ 1,2 bilhão que incluía salários atrasados de servidores, faturas

mente da necessidade de administrar as expectativas da sociedade e, so-

não quitadas junto a fornecedores e prestadores de serviços; e o Estado

bretudo, dos valores que orientariam todo o seu governo. Falar e cuidar

estava inadimplente com a União, que por isso fazia a retenção dos seus

de valores, infelizmente, é um cuidado cada vez mais raro nos âmbitos

recursos no Fundo de Participação. Uma evidência da gravidade da si-

público e privado nesses ‘tempos pós-modernos’ que estamos vivendo.

tuação e da intensidade da crise: exatamente cinco dias depois dessa en-

O que se seguiu, ao longo deste percurso, é uma história de sucesso

trevista, foi assassinado o juiz Alexandre Martins de Castro Filho, uma

que foi construída todos os dias com muito trabalho, entusiasmo, energia, foco e método. E, o mais importante, foi uma construção coletiva

1  essa entrevista juntamente com José Paulo Silveira e na companhia de Ricardo de Oliveira,
Fiz
Guilherme Dias, Dayse Lemos e Cezar Vasquez.

12

Recortes

Paulo Hartung

que engajou ‘pessoas f ísicas e jurídicas’ dentro e fora do governo e para
além das fronteiras capixabas. Esse foi um dos mais importantes traços
Prefácio

13
característicos da transformação recente do Espírito Santo: ela resultou

gia de longo prazo, tanto por conta da densidade técnica das suas pro-

de um processo social de concertação e convergência, em grande parte

posições, como também porque integra uma visão ampla de cenários e

fruto de uma mobilização e engajamento espontâneos, porém estimu-

uma macroestratégia antecipatória, com metas quantificadas e desdo-

lados e conduzidos pela liderança agregadora e habilidade política de

bradas em uma carteira de 93 projetos para 20 anos, todos eles com re-

Paulo Hartung. E que ganharam impulso e visão de futuro de longo pra-

sultados e recursos dimensionados.

zo com a elaboração do Plano de Desenvolvimento Espírito Santo 2025.

A participação de Hartung e sua equipe foi muito intensa na for-

O trabalho de formulação do ES 2025 começou nos primeiros me-

mulação do Plano. Mas a diferença mais valiosa veio a seguir com dois

ses de 2005, logo após superados os principais sintomas e causas mais

movimentos paralelos. De um lado, Paulo Hartung tornou-se o maior e

agudas das crises ética, fiscal, financeira e institucional do Estado. E nessa

o melhor comunicador e disseminador do Plano ES 2025. Assumiu este

iniciativa está uma outra valiosa lição: embora desfrutando de crescen-

papel com desenvoltura e gosto tanto dentro do governo como fora dele.

te popularidade no Espírito Santo e de amplo reconhecimento nacional

Tanto porque havia estudado e conhecia todo o conteúdo gerado, mas,

por conta do grande feito de ter superado a crise estrutural e sistêmica,

sobretudo, porque acreditava nele. E os efeitos desta ‘catequese estraté-

e ainda com uma densa agenda de prioridades imediatas, Paulo Hartung

gica’ foram muito significativos: a estratégia de longo prazo foi-se enrai-

e sua equipe não se aprisionaram ao imediatismo nem se acomodaram

zando tanto entre os executivos e gestores públicos (entre os quais mui-

com as conquistas já alcançadas e que não eram pequenas. Pelo contrá-

tos prefeitos) como nas lideranças empresariais, nos formadores de opi-

rio, assim que se abriu um ‘espaço mental e emocional’, lançaram-se na

nião e na sociedade civil, que dela se apropriaram como referência rele-

construção de uma agenda muito mais ambiciosa e para além dos pró-

vante para suas decisões de médio e longo prazos.

prios horizontes do mandato do governante. Prevaleceu a visão dos in-

Em paralelo, e ainda mais impactante, o governador Hartung deu

teresses do Estado, que são mais permanentes, em vez da agenda cir-

o melhor exemplo de valorização da estratégia de longo prazo, ao fazê-

cunstancial do governo, que tem horizonte temporal finito.

-la marco de referência obrigatório para o desdobramento das priori-

O Plano de Desenvolvimento Espírito Santo 2025 foi uma iniciati-

dades de governo em 20 projetos estratégicos, que passaram a ser obje-

va do Governo do Estado em parceria com o Movimento Espírito Santo

to de gerenciamento e monitoramento intensivos segundo as melhores

em Ação, com o patrocínio da Petrobras. Foi construído de forma com-

práticas e com os melhores instrumentos técnicos disponíveis, num es-

partilhada entre diversos atores da sociedade capixaba. Ao todo, envol-

forço coordenado diretamente pelo próprio governador e pelo seu vice

veu uma equipe técnica de consultoria de 25 pessoas, uma dezena de es-

Ricardo Ferraço num arranjo organizacional denominado Pró-Gestão.

pecialistas e quase 300 pessoas. Todas as etapas e produtos desse tra-

O foco principal era fazer a estratégia acontecer, no que ela dependia do

balho cooperativo estão amplamente documentados e são facilmente

governo, e dar velocidade e eficácia à execução dos projetos.

acessíveis no Portal www.espiritosanto2025.com.br. Até hoje o ES 2025
é fonte de muitas consultas e é considerado, em muitos outros gover-

Secretarias e demais órgãos da administração estadual com a elabora-

nos estaduais e municipais, como um modelo de qualidade em estraté14

A partir de então a cada ano era feito o alinhamento de todas as
ção participativa de planos anuais que definiram as entregas prioritárias

Recortes

Paulo Hartung

Prefácio

15
do governo para a sociedade capixaba em 2008, 2009 e 2010, tendo mais

mente, a grande cooperação e a convergência de vontades e interesses

uma vez a estratégia de longo prazo como referência principal. Este ali-

de atores políticos, econômicos e sociais na reconstrução institucional,

nhamento ocorria em oficinas de trabalho estruturadas, com forte pre-

ética e financeira do Estado também tiveram peso relevante.

paração prévia de todos, envolvendo toda a equipe do governo – cerca

Mas, entre os fatores críticos dessa história capixaba de suces-

de 150 executivos e gestores. Ao final de cada oficina, o próprio Hartung,

so, não tenho dúvida quanto a importância decisiva de Paulo Hartung

que sempre participou ativamente dos momentos decisivos em todas as

como líder e protagonista dessa travessia. Esta é a minha convicção,

oficinas, anunciava os principais compromissos de entrega em entrevis-

construída numa convivência de trabalho prolongada e mais inten-

tas coletivas à imprensa. E, mais importante ainda, seguia uma rotina de

sa no seu segundo mandato; e também quando comparo suas quali-

monitoramento e a gestão das entregas, na qual se envolvia pessoalmen-

dades e limitações com as de outros bons políticos e gestores públi-

te em reuniões com secretários e seus principais gestores.

cos e de empresas privadas com os quais convivi ao longo da minha

Os resultados alcançados com esse modelo de gestão – motiva-

vida profissional.

dor e mobilizador de toda a equipe, porém disciplinador e ancorado em

No Hartung político, admiro e aprecio a sua capacidade agrega-

bons métodos e ferramentas – foram muito expressivos. Dois exemplos:

dora e como exerce bem o soft power, que é a habilidade de influenciar

a execução de investimentos saltou de R$ 758 milhões em 2007 para R$

o comportamento de outras pessoas ou instituições por meio do con-

1,59 bilhão em 2010; e a velocidade de execução dos projetos estratégi-

vencimento, do uso do conhecimento ou de bons argumentos ideológi-

cos aumentou em 40% no mesmo período.

cos. É um estilo de liderança mais sutil, mas que não abdica do senso de

Michel Godet, um dos mais respeitados especialistas em análise

autoridade, que, aliás, ele não hesita em utilizar quando indispensável.

prospectiva no mundo, nos oferece na tríade antecipação-apropriação-

No gestor público, ressalto sua habilidade em identificar e manter

-ação, construída como uma elegante aplicação da ideia do “Triângulo

o foco no que faz a diferença; de agir com método e disciplina; além de

Grego” (logos = razão; epithumia = desejo; e erga = realização), um es-

ser um excelente formador, motivador e condutor de equipes. Raras ve-

quema conceitual que explica o sucesso estratégico. Podemos identifi-

zes, como profissional, trabalhei com uma equipe tão alinhada, coesa e

car os três vértices desse triângulo na história da transformação bem-

motivada como a do seu governo.

-sucedida do Espírito Santo de 2003 a 2010: (1) a antecipação de novos

Na ‘pessoa f ísica’, destaco como traços característicos sua integri-

horizontes de possibilidades para o desenvolvimento do Estado; (2) sua

dade e sua simplicidade no trato com as outras pessoas, além de ser um

apropriação por protagonistas de relevante peso político e econômico;

estudioso e economista com uma saudável obsessão com o rigor intelec-

e (3) a transformação das possibilidades em ações e resultados de im-

tual. Essas, aliás, são também as percepções de grande parte dos analis-

pacto por meio da gestão intensiva da execução dos projetos e entregas

tas e jornalistas especializados em política no Brasil, às quais tive aces-

prioritárias do governo.

so por meio de pesquisas periódicas.

Nessa trajetória de mudança, os contextos global e nacional, predominantemente favoráveis no período, contribuíram muito. E, segura16

Paulo Hartung com quem convivi também tem defeitos e falhas,
e quem não os tem? De várias pessoas já ouvi comentários e críticas

Recortes

Paulo Hartung

Prefácio

17
Introdução

quanto ao seu estilo e algumas escolhas políticas ou ao perfil gerencial.
Mas aqui não é o caso de se fazer um balanço das suas virtudes e defeitos. Nem isso é o que importa. Em seu livro mais recente, “A soma e o
resto”, o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso destaca que para um intelectual ou um político o único julgamento que interessa é o da história.
No caso de Paulo Hartung, acredito que a história lhe será grata
e generosa, por conta do legado que já deixou: uma transformação positiva, sustentável e oxalá irreversível no seu Estado; e um bom exemplo como político e gestor público para todo o Brasil, algo muito valioso neste momento de forte escassez de exemplos inspiradores e de uma
grande desilusão da sociedade com a política.

E

sta publicação reúne reflexões do economista e ex-governador Paulo Hartung sobre fatos, ideias e eventos que movimentaram o dia a dia do cenário estadual, nacional e internacional no ano de 2011. Traz abordagens sobre temas
candentes na vida contemporânea, como economia, planejamento, gestão, educação, política, entre outros.

Esses pontos de vista são oriundos de análises, estudos de con-

Mas a história ainda não acabou nem tampouco o trabalho do Paulo Hartung. E este livro, que nos traz uma amostra de sua produção em

juntura, formulação de projetos, entre outras ações de um economista, sendo expressos em situações as mais diversas: palestras, publica-

2011, é uma evidência da sua vitalidade política e da fecundidade das suas

ções, encontros organizacionais, entre outros. Os públicos também fo-

reflexões intelectuais. Esta é uma leitura que recomendo com entusiasmo.

ram bastante diversificados: de empreendedores a estudantes, passando por lideranças sociais e políticas.

Claudio Porto

O livro reúne parte dessa produção intelectual, numa edição
orientada a fornecer um painel das ideias e atividades do ex-governador
do Espírito Santo. Nem tudo foi contemplado, como estudos acerca das
oportunidades de desenvolvimento apresentados a governos estaduais,
tendo como base a experiência capixaba entre os anos de 2003 e 2010.
O atento leitor poderá notar que alguns pronunciamentos apresentam raciocínios e citações semelhantes, o que se explica pelo fato de
que resumem o pensamento consolidado acerca de determinado tema,
portando análises que merecem ser enfatizadas quanto mais se puder.
As variações decorrem de ajustes com relação a públicos e também em
função de novas leituras e reflexões sobre os assuntos.
A publicação vem prefaciada pelo especialista em planejamento estratégico Claudio Porto. Economista, Porto coordenou mais de

18

Recortes

Paulo Hartung

Introdução

19
110 projetos de construção de cenários, estratégias e gestão para re-

Afinal, mais que esperar por um futuro melhor, um dos caminhos

sultados para instituições públicas e privadas em várias regiões do

mais indicados pelas lições da história é tentar interpretar os dias vivi-

País, incluindo o Plano de Desenvolvimento Espírito Santo 2025. É

dos – os antigos e os recentes – para construir as jornadas que virão de

coorganizador do livro 2022 Propostas para um Brasil melhor no ano

maneira cada vez mais sábia e eficaz. Boa leitura!

do Bicentenário.

O organizador

O posfácio é de Ana Paula Vescovi, mestre em Administração Pública (FGV/Ebap-RJ) e mestre em Economia do Setor Público (UnB), com atuações na Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda, e no Governo do Estado do Espírito Santo (Secretaria de Governo, Secretaria Extraordinária para o Combate à Pobreza, diretora-presidente do Instituto Jones dos Santos Neves), uma
das mais lúcidas e competentes estudiosas da condição socioeconômica do Espírito Santo.
Em meio à contribuição desses destacados profissionais, o conteúdo relativo às atividades do ex-governador em 2011 é apresentado segundo temáticas específicas. O livro é aberto com uma longa entrevista
de Paulo Hartung a Rodrigo Taveira Rocha, então estudante de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo, na qual lança um olhar
em panorâmica ao longo de sua vida militante de quase quatro décadas,
do movimento estudantil ao Palácio Anchieta.
Em seguida, há dois textos referenciados à economia, sua atual
área de trabalho. Na terceira seção, estão reflexões sobre planejamento
estratégico. Gestão é o tema do quarto capítulo. Na quinta parte, os assuntos são educação e juventude. Finalizando a publicação, uma análise acerca da condição da política na atualidade.
A proposta é, nestes tempos de correnteza velocíssima e percepções fugazes da “modernidade líquida”, expressão paradigmática de Bauman, fixar nas páginas da impressão um lugar de encontro com memórias recentes de um presente peculiar por sua dinamicidade e determinante por seus desafios.
20

Recortes

Paulo Hartung

Introdução

21
Cap. 1

Entre Gerações

D

a retrospectiva às perspectivas, numa conversa entre personagens de gerações distintas, mas conectadas pela mesma formação (Economia), na mesma
universidade (Ufes). Neste capítulo, reproduz-se a
entrevista concedida por Paulo Hartung a Rodrigo
Taveira Rocha, com vistas à elaboração de seu tra-

balho de conclusão de curso em 2011.
Trajetória política, agenda econômica, história recente, desafios

capixabas, questões nacionais, futuro, projetos... Com suas perguntas de pesquisador, perscrutador e jovem atento às questões da atualidade, Rodrigo Taveira Rocha constituiu um denso painel, com dados históricos, reflexões sobre passagens contemporâneas e análises
prospectivas, incluindo informações e revelações feitas pela primeira vez por Paulo Hartung após o término dos dois mandatos à frente
do Executivo capixaba.
A entrevista foi feita em 14 de novembro de 2011, para constituição da monografia “Política e Desenvolvimento Econômico: Uma análise do Estado do Espírito Santo no Governo Paulo Hartung (2003-2010)”,
defendida em 01/12/2011, no Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com observações e esclarecimentos
entre parênteses feitas pelo próprio pesquisador. A íntegra da entrevista
faz parte dos anexos da monografia de Rodrigo Taveira Rocha.

Cap.1

Entre Gerações

23
Fale um p o uco s obre sua hist ór i a

no passado (risos). Fui escolhido para representar o campus no ENE (En-

e tr a jetór ia p olític a .

contro Nacional dos Estudantes), encontro de reorganização da UNE, em
Belo Horizonte (MG). Fomos eu, pelo campus (de Goiabeiras), e o Adauto

A minha história política tem a ver com a minha relação familiar, mui-

Emerich, hoje dentista, pelo CBM (Centro Biomédico, atualmente Cen-

to embora não haja em meu núcleo familiar alguém que tenha exercido

tro de Ciências da Saúde, correspondendo ao campus de Maruípe). Era

mandatos. O meu pai, Paulo, formado em Contabilidade, filho de um pe-

mais ou menos isso, o movimento era muito lá e cá. O CBM tinha um de-

queno proprietário rural no Sul do Estado, em Iúna, sempre se interessou

senvolvimento maior de lideranças, e nós estávamos organizando o pes-

pelo debate político. Encantou-se pelo Socialismo, mantendo uma rela-

soal do campus de Goiabeiras. Sobre a ida a Belo Horizonte, nós fomos

ção de proximidade com o Partido Comunista Brasileiro, o PCB, para o

presos, não participamos do encontro. Acho que o encontro nem acon-

qual contribuiu durante sua vida. Esse é um laço importante.

teceu. Foram algumas passeatas, algumas manifestações. Fomos presos,

Minha primeira atividade de militância foi ainda na vida estudantil,

passamos uma noite detidos na capital mineira e fomos soltos no dia se-

no ensino médio, mas algo bem incipiente. Fui dirigente do grêmio do Co-

guinte. Coincidiu com a vinda da primeira-dama dos Estados Unidos ao

légio Salesiano, mas o foco era o es-

Brasil, a esposa do Carter – se não me engano, o nome dela era Rosalynn

Minha primeira atividade de militân-

porte. Também havia algo no campo

Carter. E aí o governo brasileiro correu para soltar os estudantes, porque

cia foi ainda no ensino médio. Uma

da literatura, com os nossos colegas

era um escândalo aquele monte de estudantes presos em Belo Horizon-

militância política real veio com a en-

poetas. Tínhamos uma pequena pu-

te em função da proibição da realização de uma reunião.

trada na Universidade. 

blicação que circulava no Salesiano.

Isso foi criando um envolvimento muito grande. Nós conseguimos

Uma militância política real

reorganizar o Diretório Central dos Estudantes na Ufes. Eu fui eleito o

veio com a minha entrada na Universidade. Quando eu cheguei à facul-

primeiro presidente do DCE, numa disputa bem acirrada, com cinco cha-

dade, existia um movimento para reorganizar as entidades estudantis.

pas se não me engano. A nossa chapa acabou conseguindo mais de 70%

Na verdade, também havia algumas entidades, como era o nosso caso

dos votos. Foi um resultado muito importante. O nome da nossa cha-

lá no CCJE, que estavam funcionando, mas com grupos de direita, liga-

pa era “Construção”. A primeira chapa que nós fizemos lá no CCJE era

dos de alguma forma ao que se passava no Espírito Santo e no País na-

“Gota D’água”. Chico Buarque estava na nossa cabeça. O nome da cha-

quele momento (ditadura militar).

pa do DCE foi inspirado em “Construção”, uma música muito bonita e

Dessa forma, o primeiro movimento de que participei foi de uma
campanha para poder organizar o Diretório Acadêmico (na época não

litância política, para a luta pela melhoria da qualidade do ensino e ao

era Centro Acadêmico, era Diretório Acadêmico – DA) do Centro de Ci-

mesmo tempo pela redemocratização do nosso País. Nós também aca-

ências Jurídicas e Econômicas (CCJE). A partir daí, ingressamos no mo-

bamos participando da decisiva luta pela anistia. Fomos ao Rio de Janei-

vimento pela reconstrução da UNE. Acabei mesmo sendo representan-

ro receber alguns dos exilados, cujas chegadas se tornaram verdadeiras

te de esportes na chapa do DA do CCJE, o que era até motivo de gozação
24

expressiva do Chico. Enfim, esse movimento foi nos levando para a mi-

manifestações no aeroporto do Galeão.

Recortes

Paulo Hartung

Cap.1

Entre Gerações

25
Então, o fundamento vem daí: o laço familiar, a questão do mo-

ra eleição. No início do processo de debate, meu nome foi colocado para

vimento estudantil, a conjuntura do nosso tempo, uma época de luta

ser candidato a vereador em Vitória. Depois, por uma pressão de lideran-

pela liberdade, pela democracia, pela reconstrução das instituições de-

ças do interior, de onde eu nasci, em Guaçuí, a minha campanha de vere-

mocráticas no nosso País.

ador virou campanha de deputado estadual. A gente, de certa forma, fez

Eu me formei em Economia. Fiz duas provas para entrar no serviço

essa migração de candidatura porque não entendia absolutamente nada de

público. Uma no Instituto Jones dos Santos Neves e outra no Bandes, que

eleição. Se entendesse, não faria – você veja como as coisas são. Mas deu

eram os objetos de desejo de quem fazia Economia à época. Dentro do ser-

certo. Eu me elegi deputado estadual com uma votação estrondosa, e por

viço público, essas duas instituições

vários motivos. Eu tive votos onde nunca tinha ido na vida. Eu tive votos

O fundamento vem daí: o laço fami-

eram as que chamavam a atenção. Eu

em todos os municípios do Estado, muitos dos quais nem conhecia. Isso

liar, a questão do movimento estudan-

passei nas duas seleções, mas elas fo-

porque os estudantes da Universidade, que tinham votado em mim para

til, a conjuntura do nosso tempo, uma

ram anuladas pelo governador de en-

presidente do DCE e que participavam junto comigo dos movimentos,

época de luta pela liberdade, pela de-

tão. Segundo informações que recebi

das assembleias, das passeatas, não só votaram em mim como também

mocracia, pela reconstrução das ins-

muito posteriormente, o motivo se-

foram lá no interior pedir ao pai, à mãe, ao tio, que não sabiam nem quem

tituições democráticas no nosso País.

ria a aprovação de muitos, entre as-

eu era, para fazer a mesma coisa. Então, eu tive voto espalhado por todo o

pas, “subversivos” “comunistas” Com
,
.

território capixaba. Foram mais de 20 mil votos para deputado estadual.

a anulação dessas provas, não fui para o serviço público e acabei montan-

Quando estava terminando o meu primeiro mandato, o governa-

do uma microempresa, uma gráfica. Até nesse movimento, a inspiração

dor Gerson Camata se licenciou do governo para poder ser candidato a

política estava presente, pois gráfica dialoga com movimento político da

senador. Assumiu o vice, que tinha diferenças políticas comigo; e eu com

época. Assim, acabamos imprimindo material clandestino, jornais. Nós

ele. O plano era que eu fosse disputar uma vaga na Câmara Federal, mas

tínhamos um jornal do PCB, do Partidão, que, salvo engano, se chama-

acabei numa posição mais conservadora em função da realidade políti-

va “Voz do Trabalhador” Era escrito por alguns intelectuais e alguns pro.

ca. Eu repeti a disputa para deputado estadual, e novamente fui muito

fessores da Universidade. Então, eu acabei indo para um setor que dialo-

bem votado. Na primeira eleição, fui o quarto mais votado do Estado.

ga com a militância política, a partir da necessidade de ter papel, panfle-

Na segunda, fui o segundo mais votado, repetindo a votação, com vinte

to, jornal, essas coisas que têm muito a ver com a militância daquele pe-

mil votos e alguma coisa. Mas algumas bases eleitorais da primeira elei-

ríodo. Se fosse hoje, não precisava disso, bastava entrar numa rede social.

ção não se repetiram na segunda. Mudou muito em função da atuação

Atuando no setor gráfico e mantendo as conexões políticas, chega-

do governador de então, que operou tentando fazer com que eu não me

ram as primeiras eleições de 1982. Não havia pleitos para presidente da

elegesse mais. A votação dos estudantes também não se repetiu, porque

República nem para prefeitos de capitais, mas era uma eleição quase geral.

já eram quatro anos à frente, outra realidade, assim por diante.

Havia disputas para vereador, prefeito (com exceção das capitais), deputado estadual, deputado federal, senador e governador. Foi a minha primei26

Disputei a primeira eleição pelo PMDB. Eu já havia saído do PCB,
mas o partido me apoiou, o que foi importante. Com a segunda eleição,

Recortes

Paulo Hartung

Cap.1

Entre Gerações

27
criou-se uma base bem mais sólida. Dessa forma, na eleição seguinte,

De certa forma, agora eu estou repetindo a experiência que eu tive

fui candidato a deputado federal. Foram cinquenta e tantos mil votos.

quando saí da prefeitura. Estou estudando muito, trabalhando numa coi-

Muito voto em Vitória. Aliás, em todas as eleições, desde a primeira, a

sa absolutamente diferenciada do que eu vinha fazendo no governo. E

minha votação em Vitória e na Grande Vitória é muito forte. Não con-

está sendo bacana, muito rico, muito interessante.

cluí esse mandato de quatro anos para a Câmara Federal, pois, no meio
do período, me elegi prefeito de Vitória. Terminada a gestão à frente da
capital, fiquei sem mandato. Um período igual a este que estou vivendo

Ao se eleger g overnad or e m 2 0 02, o senhor

agora. Foram dois anos sem mandato, pois não havia reeleição naque-

conseguiu for m ar um a a mpl a ba se aliada que se

la época. Elegemos o sucessor, e fui trabalhar como diretor da área so-

sustentou dur ante o s oito ano s de g overno . Por

cial do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES). Fiquei um ano

que e como foi p o ssí vel construir e ssa coaliz ão?

lá, numa experiência profissional muito rica. Pude voltar a estudar economia. Estudei Economia na facul-

Na verdade a coalizão começou a ser montada na sociedade, muito antes

De certa forma, agora eu estou repe-

dade e, depois, voltei a estudar mui-

da minha chegada ao governo. Eu vou dar dois exemplos da sociedade

tindo a experiência que eu tive quan-

to nesse período, assim como havia

civil: primeiro o movimento “Reage Espírito Santo”, que nasceu conec-

do saí da prefeitura. Estou estudando

ocorrido no mandato de deputado

tando a OAB, que era o centro, do Dr. Agesandro da Costa Pereira, uma

muito, trabalhando numa coisa abso-

federal. Na Câmara, integrei a Co-

figura emblemática, e a Igreja Católica, do arcebispo de então, Dom Sil-

lutamente diferenciada do que eu vi-

missão de Finanças, que era muito

vestre Scandian. Também tínhamos o apoio de um conjunto de igrejas

nha fazendo no governo. 

bem composta à época. Vou dar al-

evangélicas, com lideranças como o pastor Oliveira e o pastor Joaquim

guns nomes que estavam lá: Rober-

Beato. Havia ainda movimentos sociais, movimentos políticos, lideran-

to Campos, Delfim Netto, José Serra, Francisco Dornelles, César Maia,

ças políticas. Eu era senador nesse período. O nome do movimento in-

Aloizio Mercadante. Então, tive de correr muito atrás. Nesses anos, tra-

dicava bem a situação do Estado. Uma situação dramática: corrupção,

balhei com gente muito qualificada, com um corpo técnico muito bem

crime organizado, desorganização completa, uma falta de perspectiva

montado do BNDES. Foi muito rica essa experiência.

absoluta, empresas saindo do Espírito Santo em função de chantagens.

Depois disso, eu me desincompatibilizei do BNDES para vir disputar o Governo do Estado. Vim muito bem avaliado em pesquisas,

Enfim, o quadro era insustentável, e a sociedade organizada já articulava um movimento muito forte.

mas perdi a convenção do PSDB. Depois, o partido me chamou para
ser candidato a senador. Fui para o Senado, mas também não concluí

pírito Santo em Ação”, que depois virou uma ONG. Vou dar um exemplo

o mandato. Dos oito anos previstos, fiquei quatro, pois saí para a dis-

do que acontecia com relação ao meio produtivo. Fez-se uma lei que dizia

puta do Governo do Estado, à frente do qual fiquei oito anos como go-

que não se podia plantar eucalipto. Eu não lembro exatamente o termo

vernador (2003-2010).
28

Outro movimento que eu acho importante é o nascimento do “Es-

da lei, mas é engraçado: podia-se plantar eucalipto, podia vender euca-

Recortes

Paulo Hartung

Cap.1

Entre Gerações

29
lipto para qualquer um, mas não podia ter eucalipto para Aracruz. Quer

à ditadura militar para tentar trazer de volta a democracia ao País. Ou

dizer, o que se queria com aquela lei não era nenhuma discussão sobre o

seja, a minha formação pessoal, familiar, política é devota à articulação

eucalipto, sobre a questão ambiental, sobre a monocultura. O que se que-

de forças. Além disso, o clima na sociedade também facilitava a cone-

ria ali era uma chantagem com relação à empresa, que, à época, se cha-

xão de um conjunto de forças que reagiam aos desmandos.

mava Aracruz Celulose, e agora se chama Fibria. Era uma ilegalidade fla-

Houve problema durante a minha primeira campanha ao governo.

grante, tanto que o Supremo Tribu-

Forças políticas que estavam juntas inicialmente se movimentaram e se se-

O quadro era insustentável, e a so-

nal Federal (STF) derrubou essa lei.

pararam no correr do processo. Quando acabou a campanha, fiz um movi-

ciedade organizada já articulava um

Os empresários também se levanta-

mento para trazer muitas dessas forças para nos ajudar no processo de re-

movimento muito forte. O intuito era

ram. Montaram um movimento di-

construção política, administrativa e institucional do Estado. E talvez o mais

buscar a superação daquele quadro

ferente das federações, sindicatos.

importante tenha sido trazer o PT. O PT não esteve comigo na minha pri-

dramático que o Estado vivia. 

Fizeram um movimento transver-

meira eleição; esteve na segunda. O PT foi contra a minha primeira campa-

sal, colocando em diálogo agricul-

nha. A minha relação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vinha lá de

tura, indústria, serviço, todas as áreas da atividade econômica. O intui-

trás, uma relação muito sólida. Ao término da campanha, fui a São Paulo,

to era buscar a superação daquele quadro dramático que o Estado vivia.

eu eleito e o presidente Lula eleito. Ele me recebeu no escritório, que era um

A minha chegada ao governo é produto disso. O Estado já vinha

escritório de campanha. Pedi apoio, porque sabia que iria enfrentar um qua-

numa situação dramática, de dois governos que haviam dado errado. Aí

dro dramático no Espírito Santo. De certa forma, exemplifiquei com aquilo

eu perdi a convenção, e depois entra um terceiro governo que também

que o Fernando Henrique tinha feito lá no Acre, com o Jorge Viana, quatro

deu errado. Então, ao final de três governos problemáticos, o clima era

anos antes. Eu precisava da mesma presença que o governo federal teve no

de unir o Estado, independentemente do líder que fosse colocado no go-

Acre, no desmonte de uma teia cor-

verno para poder superar aquele quadro. É claro que o meu jeito de fazer

rupta, violenta, de desarticulação do

Desde cedo eu aprendi, com meu saudo-

política é buscar associar forças políticas em função dos objetivos que

crime organizado. Fiz esse pedido ao

so pai, que, se você tem uma tarefa com-

nós temos. Desde cedo eu aprendi, com meu saudoso pai, que, se você

presidente Lula e ele se comprometeu

plicada, não vá sozinho. O que quer di-

tem uma tarefa complicada, não vá sozinho. O que quer dizer isso? Não

a ajudar o Espírito Santo. E, no dia em

zer isso? Não adianta o voluntarismo.

adianta o voluntarismo. Isso não muda a realidade social de uma comu-

que eu o visitei, falei: “olha, eu vou ten-

nidade, de um Estado, de um país. Não adianta apenas ter uma boa cau-

tar trazer o PT lá do Estado para a minha base de trabalho” Na volta, con.

sa. É preciso ter gente agregada em torno dessas boas causas. Boas cau-

versei com o PT, conversei com as forças políticas que tinham me apoia-

sas sem mobilização ficam aí mofando em gavetas a vida inteira. É claro

do. Mostrei que o PT tinha como contribuir para aquele momento, até pela

que eu sou forjado nisso. A escola do velho Partidão é isso. Eu sou um

história do partido. E o PT reivindicou a presidência da Assembleia, como

quadro formado na escola do Partido Comunista Brasileiro, um parti-

mecanismo para participar daquele movimento. A eleição do Claudio Ve-

do que não foi para a luta armada, que buscou unir as forças contrárias

reza veio daí. Nós aceitamos como um caminho – foi um caminho difícil.

30

Recortes

Paulo Hartung

Cap.1

Entre Gerações

31
Além disso, também fiz movimentos em direção ao PDT. Tive uma longa

trutura governativa estadual durante mais de década. Com esse bloco de

conversa com o líder do PDT no Estado, o prefeito da Serra, Sérgio Vidigal.

forças, aí sim nós conseguimos quebrar a coluna vertebral daquele esque-

Conversei com o PL (atualmente PR), que na época era o partido do atual

ma, enfraquecendo-o. Não acabamos com ele, ele está aí, vira e mexe está

senador Magno Malta. Eles não quiseram vir integrar o movimento. Mui-

tentando se articular. É visível isso, inclusive no presente. Mas nós con-

to embora tenham se comprometido a não ser obstáculo ao trabalho. Isso

seguimos enfraquecer esse sistema, que tinha laços dentro das institui-

ajuda. Na vida, quem não apoia, mas também não é pedra no caminho, na

ções, para além do Executivo, dentro das outras instituições públicas do

minha visão, na minha maneira de pensar, está ajudando.

Estado. A Assembleia era o mais visí-

De certa forma, buscamos o maior leque de aliança possível para

vel, mas não era, infelizmente, o úni-

Foi uma longa jornada. Foi possível

poder enfrentar a desorganização. Quando eu falo desorganização, não

co ponto de articulação e força des-

porque nós conseguimos uma enge-

é uma coisa burocrática. Desorganização tem dono, a gente tem que ter

se esquema. Tivemos que enfraque-

nharia política bem montada, que

clareza disso. Quando o Estado estava quebrado, desorganizado, tinha

cer esse esquema para poder ir para

dialogou com o estado de espírito do

gente ganhando muito dinheiro com isso, se aproveitando daquela si-

um processo de reconstrução e pro-

capixaba, das lideranças capixabas.

tuação. Articulamos para enfrentar

fissionalização da máquina pública,

Conseguimos montar uma base sóli-

Buscamos o maior leque de aliança

todo um conjunto de leis, de regula-

de planejamento, de colocar a estru-

da que nos permitiu avançar. 

possível para poder enfrentar a de-

mentos que tinham sido feitos para

tura de Estado, de governo, e de ins-

sorganização, que não era uma coisa

beneficiar grupos, dando privilégios

tituições públicas a serviço do cidadão capixaba. Foi uma longa jorna-

burocrática. Desorganização tinha

a segmentos da sociedade. Nós tive-

da. Foi possível porque nós conseguimos uma engenharia política bem

dono. Tinha gente ganhando muito

mos que desmontar isso tudo. Em

montada, que dialogou com o estado de espírito do capixaba, das lide-

dinheiro com isso, se aproveitando

um decreto nós cancelamos 450 re-

ranças capixabas, com a angústia, o mal-estar com aquele descalabro que

daquela situação. 

gimes especiais de ICMS. Isso é uma

vivíamos. Conseguimos montar uma base sólida que nos permitiu avan-

coisa que parece técnica, mas era um

çar. Enfim, acho que a composição política, a origem dela, está posta aí.

privilégio que foi dado sem nenhum critério. Na época, era a Assembleia
Legislativa que dava esses privilégios. Eu tive de fazer uma lei para trazer
de volta a administração tributária do Estado para a Secretaria da Fazen-

A in da s o b re a c oa l iz ã o , c omo e r a a re l a ç ã o d o

da, porque ela estava nas mãos da Assembleia Legislativa, mais precisa-

se n h o r c om o g ov e rn o fe de r a l , e m e spe c ia l o

mente na Comissão de Finanças da Assembleia Legislativa. Em função

pre side n te L ul a ? E a re l a ç ã o c om a s l ide r a n ç a s

da gravidade da situação, precisávamos de respaldo, e a gente buscou a

l o c a is d o E sta d o ?

maior coalizão política, partidária e social.
O enfrentamento era complexo, contra pessoas que se assenhorearam da máquina pública do Estado, faziam o que bem entendiam da es32

A relação foi boa, porque o presidente Lula cumpriu mais ou menos o
que acertou com a gente. No quarto mês de governo, eu recebi o pre-

Recortes

Paulo Hartung

Cap.1

Entre Gerações

33
sidente Lula no Estado. Ele veio, ficou, pernoitou na residência oficial

nômico e social. Isso não é um problema do governo A, B, C ou D, isso é

da Praia da Costa, em Vila Velha. Era uma coisa simbólica, mas impor-

um problema histórico. E também não foi nesse momento que essa re-

tante. Não era trazer dinheiro; o governo federal não nos deu dinhei-

lação foi mudada, tendo em vista as nossas potencialidades, as nossas

ro. “Toma um dinheiro aí para pagar os servidores!” – não, ele não nos

vocações. Por exemplo, temos a questão da estrutura portuária, que é

deu. O governo federal comprou um ativo do Estado, recebíveis futuros

uma vocação que o Estado tem, funcionando como uma porta impor-

da produção do petróleo. Pagou bem? Pagou nada. É matemática finan-

tante de entrada e saída da região central do Brasil.

ceira: trouxe para valor presente, pagou com títulos do governo federal,

Eu só quero pontuar que a relação foi importante e que eu a valori-

vencendo em parcela durante dois anos. O único dinheiro que entrou

zo, mas registro que ela não promoveu a superação desse certo abandono

foi porque nós usamos, logo no início, uma parte desses títulos para pa-

do poder central em relação ao destino dos capixabas. Isso é histórico, vem

gar uma dívida que o Estado tinha no Clube de Paris, um endividamen-

lá da chegada dos portugueses ao Brasil e perpassou todos esses anos. Se

to que tinha uma caução. Essa caução da dívida foi liberada e entrou no

você olhar, os nossos vizinhos todos já foram apoiados pelo governo cen-

caixa. Mas nada foi dado ao Espíri-

tral: Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, só para colocar os três vizinhos

O movimento presencial do presiden-

to Santo para que se resolvesse o im-

que fazem divisa com a gente. Eles já tiveram presença sólida. Quando foi

te Lula no Estado deu um sinal de que

bróglio administrativo, financeiro, e

feito o polo petroquímico de Camaçari, que está no II PND, se não me en-

nós não estávamos sozinhos na bri-

assim por diante. Eu fiz uma tenta-

gano, isso foi uma coisa importante, estruturante para a economia baiana.

ga para reorganizar o Espírito Santo.

tiva de passar o Banestes para o go-

Agora, recentemente, levou-se a fábrica da Ford para a Bahia com incen-

verno federal, que não foi aceita pelo

tivos criados especificamente para que isso acontecesse naquele estado.

ministro Antonio Palocci – nós é que tivemos de reestruturar o Banestes.

Então, a relação foi boa, importante na sustentação do enfrenta-

Agora, nos foi dada uma coisa muito relevante, que eu sempre va-

mento que estávamos fazendo aqui. E eu sou agradecido por isso, mas

lorizei: esse movimento presencial do presidente Lula no Estado deu

até hoje não conseguimos quebrar essa relação de pouco apoio do go-

um sinal de que nós não estávamos sozinhos na briga para reorganizar

verno central ao nosso Estado.

o Espírito Santo. Deu um sinal para esse segmento que destruiu a má-

Do ponto de vista da infraestrutura, nós estamos com problema

quina pública capixaba de que o governador não era um menino bem-

no aeroporto, que se arrasta há não sei quantos anos; problema na dra-

-intencionado e isolado no jogo da política nacional. Isso eu devo, e nós

gagem do canal de evolução do Porto de Vitória. Estamos aí, agora, com

devemos, ao presidente Lula, porque ele foi correto, nesse sentido, com

chance de ser licitada a BR 101, que é uma BR estrangulada já há mais de

o movimento que nós estávamos fazendo aqui. Ele deixou claro, ao vir

década; a BR 262 que está caminhando na mesma direção. Então é dis-

aqui, que ele e o governo dele estariam ao lado da gente nesse embate.

so que eu estou tratando.

Eu estou falando isso porque o Espírito Santo tem uma história
longa de ser colocado à margem do desenvolvimento nacional. O Espí-

nós nos reorganizamos, do ponto de vista fiscal, com os nossos recur-

rito Santo poucas vezes foi visto e apoiado no seu desenvolvimento eco34

Enfim, acho que foi importante o apoio do presidente Lula. Mas
sos. Como é que se reorganizou o Espírito Santo? Como é que nós saí-

Recortes

Paulo Hartung

Cap.1

Entre Gerações

35
mos do penúltimo lugar no ranking do Tesouro Nacional para virar se-

verno do Estado com a administração da Presidência da República. Na

gundo, terceiro lugar? Foi com o nosso esforço. “Ah, com royalties de

verdade, é muito complexo administrar um governo estadual, bastando

petróleo?” – não, não é com royalties de petróleo. É com ICMS, com

que se note que, depois da Constituição de 1988, o que se tem são trans-

combate à sonegação, com reor-

ferências de obrigações para Estados e municípios sem o devido acom-

Com reestruturação da máquina ar-

ganização da máquina fazendária,

panhamento de transferências de recursos que financiem essas novas

recadadora, com planejamento e con-

com profissionalização do setor pú-

competências. No caso dos Estados federados, há uma incumbência na

trole dos gastos, com sentido de prio-

blico, com controle de gastos, com

área de financiamento de saúde pública, segurança pública e educação

ridade, o Espírito Santo se reorgani-

senso de planejamento, de priorida-

que é um desafio que não é pequeno. Mas eu não quero comparar, não

zou, se qualificou, se tornou o Esta-

des. Foi isso que colocou esse Esta-

acho que vá contribuir para o debate.

do com maior capacidade de investi-

do de pé. Somente neste 2011, é que

Primeiramente, eu vou separar: nós não fizemos esse movimen-

mento com recursos próprios, basica-

temos um volume maior de royal-

to que foi feito em nível nacional. Nós não fizemos, nós tínhamos uma

mente com ICMS. 

ties. O Espírito Santo se reorgani-

base sólida, e essa base não nos levou a produzir feudos dentro do go-

zou, se qualificou, se tornou o Es-

verno. Feudos: entrega a secretaria ao partido tal e o partido é dono

tado com maior capacidade de investimento com recursos próprios,

da secretaria. Não teve isso no nosso governo. É importante dizer isso.

basicamente com ICMS. Com reestruturação da máquina arrecadado-

Nós usamos uma base sólida, inclusive para profissionalizar a máqui-

ra, com planejamento e controle dos gastos públicos, com sentido de

na pública, para trazer quadros dos mais diversos partidos. Quadros

prioridade, e assim por diante.

que nunca tiveram filiação partidária, mas que tinham competência
para poder compor uma equipe extraordinária de governo. E conseguimos fazer isso. Não é a primeira

Recentemente, o senhor deu uma entrevista na

vez que eu faço, eu fiz durante oito

Governar não é administrar uma em-

qual criticava o modelo de gestão do governo

anos como governador e fiz como

presa privada. Na minha visão, repetin-

federal, que acaba por lotear ministérios e cargos

prefeito da capital. Esse modelo me

do o que disse o ex-presidente Fox: “go-

em função de privilegiar os partidos que fazem

acompanha por onde eu passei até

vernar é muito mais complexo do que

parte da base aliada. Como o senhor administrou

agora. Inclusive nos meus mandatos

administrar uma empresa privada” 
.

isso durante os seus oito anos à frente do

parlamentares, sempre me esmerei

Executivo estadual, visto que também contava com

em ter uma assessoria qualificada. Mas eu não estou fazendo compara-

uma vasta gama de partidos que o apoiavam?

ção de uma coisa com a outra. Aqui, o nosso modelo foi esse: foco na
profissionalização, foco em buscar pessoas e quadros dos mais diver-

Eu não quero ser simplista, porque essa não é uma questão simples. É absolutamente complexa. Eu não quero comparar a administração do Go36

Recortes

Paulo Hartung

sos pensamentos políticos, mas com competência para tocar.
Eu queria fazer uma observação antes de ir para o nacional: goverCap.1

Entre Gerações

37
nar não é administrar uma empresa privada. Na minha visão, repetin-

cialismo. E eu via na rua que nós íamos perder feio, porque as pesso-

do o que disse o ex-presidente do México Vicente Fox: “governar é mui-

as diziam assim: “prefeito, o senhor está pedindo a gente para entre-

to mais complexo do que administrar uma empresa privada”. Você pode

gar o governo aos deputados?” (risos). Quer dizer, era como o pesso-

ter um bom projeto, mas você precisa legitimá-lo e construir um leque

al que estava fazendo campanha para o presidencialismo passou essa

de apoio para que ele deixe de ser um projeto e passe a ser uma ação de

imagem para a população. E aí a população votou no presidencialis-

governo, em benef ício da sociedade. Eu não acredito num governo de

mo. Então, nós ficamos com uma Constituição com formato de par-

tecnocratas, não é isso que eu estou dizendo. E eu nunca fiz governo de

lamentarismo e com o Executivo de presidencialismo. Aí você preci-

tecnocrata. Eu acho que para montar uma equipe você precisa levar gen-

sa de medida provisória, os presidentes governando a partir de medi-

te que tenha conhecimento da área, e de preferência muito mais conhe-

da provisória, o orçamento é um orçamento autorizativo.

cimento do que o líder, porque o líder não é obrigado a ter um conheci-

Dessa forma, eu acho que é essa questão que precisa ser debatida

mento vertical de todas as questões que vão ser tratadas, ele precisa ter

no País novamente. Veio um esgotamento profundo já no segundo go-

um conhecimento horizontal. Mas esse quadro que vai ocupar uma fun-

verno do presidente Lula. Não foi percebido porque o País estava cres-

ção precisa ter conhecimento técnico, mas também precisa ter capaci-

cendo, aumentando emprego, aumentando a renda, aumentando a classe

dade política, sensibilidade política, para ocupar uma função em gover-

média, e por aí vai. Mas é a mesma classe média que traz novos valores,

no. Então, eu não estou propondo governo de tecnocrata, eu não acre-

e traz ética para o debate da política, na minha visão. É a contradição da

dito nisso. O que eu estou colocando é que precisa ter formação técni-

vida. Foi isso que eu debati numa entrevista recente que eu concedi. Eu

ca, precisa ter sensibilidade política, e não pode ter feudo. Não pode ter

acho que precisamos aprofundar essa visão. Para resolver isso, é preci-

feudo para nenhum tipo de ação de governo. Foi assim que nós fizemos

so equacionar o problema da estrutura político-eleitoral do País. O nos-

aqui; esse é o modelo em que eu acredito.

so sistema político é dos mais atrasa-

O que vem sendo feito em Brasília, que eu chamo “presidencia-

É preciso equacionar o problema da

lismo de coalizão”, é uma coisa que no limite já está dando errado, e

solver o problema de financiamen-

estrutura político-eleitoral do País.

vai dar cada vez mais errado nos próximos anos no nosso País, na mi-

to de campanha. Não tem não me

O nosso sistema político é dos mais

nha visão. Usando a linguagem dos engenheiros, esse modelo já deu

toque, não adianta fazer demagogia

atrasados do planeta. 

fadiga de material. E eu acho que quanto mais rápido o País debater

com a população e dizer que “ah, vai

isso em profundidade, melhor. Não acho que isso seja responsabilida-

tirar o dinheiro de tal setor para pagar campanha eleitoral”. Campanha

de do PT, ou do PSDB, ou de quem quer que seja. Isso vem do nosso

eleitoral tem custo. Nós optamos pela democracia, nós precisamos saber

debate da Constituição de 1988, quando nós começamos a preparar

como se financia um processo eleitoral. Isso precisa ser um debate cla-

uma constituição parlamentarista, e veio o plebiscito. Eu era prefeito

ro e transparente se a gente quiser evoluir com a democracia brasileira.

de Vitória quando veio o plebiscito. Eu defendi o parlamentarismo, e

Foi essa discussão que eu coloquei, o que, na minha visão, preci-

o parlamentarismo tomou uma surra no Brasil. Ganhou o presiden38

dos do planeta. Nós precisamos re-

sa ser resolvido em nível nacional. Nós temos aí sei lá quantos minis-

Recortes

Paulo Hartung

Cap.1

Entre Gerações

39
tros que já caíram neste governo. É quase um roteiro único, um rotei-

País continuar avançando. O País está avançando nesses últimos anos.

ro se repetindo. Não tem nem roteiro diferente, a novela repete o ro-

Eu reputo que desde o governo do presidente Itamar Franco, desde o

teiro em cada caso, e eu não sei em quantos ministérios vai acontecer

Plano Real, o Brasil vem avançando do ponto de vista econômico, do

a mesma coisa. Para mim está claro. Por isso, eu falei que esse cami-

ponto de vista social, da diminuição da miséria, da pobreza. Colocamos

nho se esgotou. Precisamos rediscutir e colocar uma coisa melhor. E

as crianças no ensino fundamental. Há um problema de qualidade, um

para colocar uma coisa melhor, evidentemente tem de melhorar o sis-

problema sério de qualidade no ensino de Português, de Matemática,

tema político, eleitoral, partidário do País. Tem de aperfeiçoar, tem de

mas as crianças estão na escola. Há avanços dignos de registro no País.

resolver essa questão do financiamento de campanha, e tem de pro-

Mortalidade infantil em queda, expectativa de vida em alta, tem mui-

fissionalizar o setor público. Grosso modo, nos países desenvolvidos,

ta coisa digna de registro nesse período. Mas é evidente que aquilo que

você muda um primeiro-ministro, mas não muda a burocracia. Essa

nos fez chegar a esses registros positivos é insuficiente para continuar a

coisa de loteamento partidário de

caminhada. Nós precisamos refazer esse modelo para seguir em frente.

A questão da gestão precisa entrar no

estruturas públicas, isso é o atraso

debate nacional. Como é que você vai

do atraso do atraso. Você precisa

fazer as coisas, quanto vai custar, quais

caminhar no sentido da profissiona-

O se n h o r in gre s s o u f o r m a l me n te n a v ida

são as outras maneiras de fazer? Qual

lização da máquina pública. Tem de

p o l ític a n a dé c a da de 8 0 , a o se fil ia r a o

o retorno que vai dar para a socieda-

ter eficiência. O setor público tem

PMD B . D e p o is pa s s o u vá rio s a n o s n o P S D B ,

de? Tem que ter meta, objetivo. 

de fazer as coisas e ter avaliação do

te v e fil ia ç õ e s me n o s dur a d o ur a s n o PP S e P S B ,

que ele está fazendo, tem de olhar

te n d o vo lta d o p o ste rio r me n te a o PMD B , o n de

quanto está custando aquilo. Porque é público não tem que olhar isso?

se e n c o n tr a a g o r a . Q ua l é a o pin iã o d o se n h o r

Claro que tem, acho que tem de olhar mais, na minha modesta visão.

s o b re o s pa rtid o s p o l ític o s h oje n o B r a sil ,

A questão da gestão precisa entrar no debate nacional. Nos oito
anos à frente do governo do Espírito Santo, ela recebeu prioridade. Como

de m a n e ir a ge r a l ? Q ua is p o n t o s me re c e m se r
de sta c a d o s , p o siti va o u n e g ati va me n te ?

é que você vai fazer as coisas, quanto vai custar, quais são as outras maneiras de fazer? Qual o retorno que vai dar para a sociedade? Tem que

Eu comecei no PCB. Quando eu era estudante, na militância estudantil,

ter meta, objetivo. É preciso utilizar as mesmas ferramentas de traba-

eu me filiei ao PCB. Me filiei, assim, não tinha ficha não, era clandesti-

lho da iniciativa privada.

no. Me filiei ali, de passar à militância, e tudo. E depois, em algum mo-

Então, eu acho que esse modelo que está lá em cima já está completamente ultrapassado, fazendo água. E isso é visível para a sociedade,

va. A militância no MDB, no PMDB, foi uma militância que muitas for-

independentemente de ficar botando a culpa em A ou em B, em parti-

ças de esquerda tiveram porque estavam na clandestinidade e o espaço

do. Não quero saber de quem é a culpa, precisamos resolver isso para o
40

mento, eu refleti que aquele caminho não era o caminho que eu pensa-

legal de atuação era o MDB, depois o PMDB. Na verdade eu vim da mi-

Recortes

Paulo Hartung

Cap.1

Entre Gerações

41
litância socialista para a militância social-democrata, é onde eu estou

to na Câmara dos Deputados. (Na verdade, com os recém-criados PSD

agora. Essa é a minha história, eu virei um social-democrata.

e PPL, o Brasil conta com 29 partidos oficiais, sendo que 23 têm repre-

A questão partidária no País, o retrato dela, é o PSD, criado ago-

sentação na Câmara dos Deputados). Talvez possamos ter um núme-

ra pelo Gilberto Kassab. Proibiram a mudança partidária de quem tinha

ro menor, mas ter partidos com uma relação programática mais bem

mandato, mas abriu uma janela para, criando um partido novo, você poder

estabelecida. E eu acho que aí é de certa forma dar uma olhada no que

mudar. Acho que eles colocaram quarenta deputados federais no partido,

está acontecendo no mundo.

quarenta e tantos. Isso é quase 10% da Câmara, você imagina. Então isso
aí é um sinal do que virou a vida partidária. Depois do mensalão, o PT, que

bém está mudando velozmente com as novas tecnologias. Quando você

tinha uma vida partidária mais organizada, perdeu muito do carisma que

pensa, por exemplo, que a função do Legislativo está em discussão na

tinha com a sociedade. A vida partidária brasileira está muito desorgani-

sociedade... Deixe-me fazer aqui uma simplificação histórica: mudou

zada. O que eu vejo de bom nela hoje?! Eu não vejo nada, sinceramente. O

muito da assembleia da Grécia An-

que eu vejo é que se precisa reestruturar a vida partidária brasileira, den-

tiga, quando todos os poucos cida-

Os partidos hoje são pouco progra-

tro daquilo que eu falei, da necessidade de uma reestruturação da políti-

dãos decidiam tudo pessoalmente

máticos. Eles se tornaram uma espé-

ca no País, dos partidos, da legislação eleitoral, do financiamento de cam-

a todo tempo, à democracia repre-

cie de cartório. Compete ao País ter

panha, de como organizar uma campanha eleitoral. Eu acho que esse é o

sentativa nos parlamentos, em que

capacidade de reformular as leis que

desafio. Os partidos hoje são pouco programáticos. Eles se tornaram qua-

você escolhe uma pessoa para re-

regem a estrutura política. 

se uma visão de uma coisa burocrática que nós temos no País, e em certos

presentá-lo, você dá uma procura-

pontos muito atrasada. Eles se tornaram uma espécie de cartório da polí-

ção para o cara ir lá votar em seu nome, decidir em seu nome. Ocorre

tica. Tem o cartório de registro de imóveis, tem o cartório de outras coi-

que, hoje, você tem, no meio disso tudo, a possibilidade de as pessoas

sas, então o partido se tornou quase um cartório. O cara tem necessida-

serem mais consultadas sobre os mais diversos temas. Pelo volume de

de de ter uma filiação partidária para poder ser candidato, independente-

gente que tem esses celulares modernos, a possibilidade de você con-

mente se ele sabe o que está escrito no programa do partido, e assim por

sultar a população está aumentando, está se aproximando de um nú-

diante. Essa é uma coisa que esses anos de democracia trouxeram para a

mero grande de pessoas para poder falar sobre o que pensam disso ou

luz do dia. Compete ao País ter capacidade de reformular as leis que re-

daquilo. Essas novas possibilidades precisam entrar no debate da refor-

gem a estrutura política. É isso que precisa ser feito, não tenho dúvida. A

ma política. E a própria discussão desse novo parlamento. Você vê, os

visão que tenho da questão partidária é essa. Você olha as coligações par-

meninos vão para a rua, acampam lá na Espanha, mas vão para a porta

tidárias hoje, e elas são feitas em cima de um episódio eleitoral. O PMDB

do parlamento espanhol fazer protesto. E o protesto diz assim: “nós não

esteve com o Fernando Henrique, esteve com o Lula, e está com a Dilma.

nos sentimos representados por essa instituição”. Então isso tem de le-

Essa estrutura precisa ser reorganizada. E aí você ter talvez um

var a uma discussão, quando a gente repensa essa questão da democra-

número menor de partidos. Hoje o País tem 28, 29 partidos com assen42

Não tem vida muito fácil nesse assunto porque o mundo tam-

cia representativa, nós precisamos levar em conta todos esses aspectos.

Recortes

Paulo Hartung

Cap.1

Entre Gerações

43
E e spec i fi c a mente s obre o parti d o d o
se nh o r , o PM DB? C omo o avalia , tan to

O se n h o r de i xo u o G ov e rn o d o E sta d o c om um
a ltís simo n í v e l de a prova ç ã o , e f o i q ue stio n a d o

na c i ona l m ente quant o regional m e n te ?

muita s v e z e s pe l a q ue stã o da un a n imida de , de

O PMDB teve um papel muito importante no processo de democrati-

se n h o r ava l ia e s sa s dua s c o isa s ?

g ov e rn a r pr atic a me n te se m o p o siç ã o . Como o

zação do País. Não como partido, mas como movimento, como frente. Isso foi um papel muito relevante e histórico do PMDB. A partir daí

Quem tiver em uma luta política com desafios gigantescos, como nós ti-

ele virou um partido que se acopla aos projetos, como eu disse. Aco-

vemos de enfrentar, e não buscar apoio, não tiver humildade para buscar

plou ao projeto do ex-presidente Fernando Henrique, deu número no

apoio em outras forças políticas, em grupos sociais, em instituições da

Parlamento para aprovar medidas que foram muito importantes para

sociedade, está fadado ao insucesso. Essa é a minha visão, como de certa

o País. Reformas que ajudaram o Brasil a se reestruturar. Muitas delas

forma já está construído no meu raciocínio lá atrás, na minha outra res-

que permitiram ao País passar melhor pela crise de 2008, como, por

posta. Quem tem desafios gigantes-

exemplo, a reforma do sistema bancário brasileiro.

cos pela frente, que não vá sozinho

Quem tiver em uma luta política com

Então o PMDB esteve lá nesse momento reformista que o País

pra ele. Isso é máxima-chave que eu

desafios gigantescos, como nós tive-

viveu. Mas é um partido, por exemplo, que há muitos anos não aspi-

aprendi na minha casa, com meu sau-

mos de enfrentar, e não tiver humil-

ra ao poder nacional, não disputa a Presidência da República à vera

doso pai. E foi isso que nós buscamos.

dade para buscar apoio em outras

mesmo, colocando-se sempre como caudatário do movimento de ou-

São críticas vazias, absoluta-

forças políticas, em grupos sociais,

mente inconsistentes. Se você busca

em instituições da sociedade, está fa-

Eu acho que é isso, está dentro dessa geleia geral partidária a

o apoio, e o tem, é porque você tem

dado ao insucesso. 

que eu me referi, desse sistema partidário gelatinoso que precisa ser

uma proposta que aquele interlocu-

reestruturado. Então acho que não faz diferença. O PMDB teve um

tor que você buscou entende como uma coisa importante, que tem re-

papel histórico. O PSDB teve um papel histórico, desmembrando-se

percussão para a sociedade. Porque, se você vai buscar apoio para uma

do PMDB para ser uma coisa diferente, fez esse governo do Fernan-

proposta equivocada, por um caminho que se revela um descaminho,

do Henrique. O PT teve o seu papel também importante, mas todos

você não junta gente. Você junta gente quando o objetivo é uma von-

perderam o brilho ao longo dessa caminhada. Por isso, talvez o me-

tade social, que tem reflexo na vida do cidadão. O que eu fiz foi mobi-

lhor fosse reestruturar a vida partidária e eleitoral, o sistema político

lizar o Estado, e ter humildade para procurar, conversar, explicar o ca-

do País como um todo. Eu acho que esse sistema em que estamos vi-

minho que eu queria seguir a políticos, partidos, entidades da socie-

vendo deixa muito a desejar.

dade civil, jornalistas, igrejas, universidade, faculdades. O que eu fiz

tros segmentos.

foi isso, e recebi o apoio. Um sinal de que a proposta fazia sentido. E a
história está aí: onde estava o Espírito Santo, e onde o Espírito Santo
44

Recortes

Paulo Hartung

Cap.1

Entre Gerações

45
está hoje? De onde nós saímos e aonde nós chegamos? Então acho que

versavam, eu conversava pessoalmente, e me dava ao trabalho do con-

a crítica não tem consistência, ela não se fundamenta em nada. Mui-

vencimento. Porque essa é a questão do governar, é você convencer as

tas vezes, são críticas feitas por pessoas que em outros momentos da

pessoas do caminho que você acha que deve seguir. Então trabalhamos

política tentaram a mesma coisa. Uns não conseguiram, porque não

com muito apoio, mas muito longe do comentário feito.

tiveram capacidade de mobilizar a sociedade; não conseguiram con-

Sempre trabalhamos com a oposição forte. Forte no sentido de que

vencer a sociedade do caminho, não trabalharam com bons argumen-

a oposição ao nosso trabalho foi e é justamente esse conjunto de forças

tos. Outros chegaram a conseguir apoios importantes para conseguir

políticas que mandou no Espírito Santo durante mais de uma década.

coisas que precisavam ser feitas.

Mandaram e desmandaram, mais desmandaram, durante mais de uma

Eu acho que a crítica muitas vezes é útil para consertar algumas

década. Não é gente frágil. É gente acerca da qual nós buscamos real-

coisas, mas é preciso que haja fundamento. O Lula governou com mui-

mente uma forma para que se enfraquecessem no jogo de poder do Es-

to apoio, no estilo dele. Então, se a crítica fosse assim: “Para ter apoio, o

tado. Óbvio, caso contrário não conseguiríamos botar de pé essa estru-

Paulo Hartung fez coisas absurdas. Deu a Secretaria da Saúde para o cara

tura nova que nós propusemos.

fazer coisa errada lá dentro”. Mas isso não existiu, nem esse tipo de crítica existe. Não foi feita, inclusive por quem se diz oposição ao trabalho

se conseguiu aprovação? Com trabalho. A pessoa não recebia o salário,

que nós realizamos. Se eu tivesse trabalhado com uma equipe que tives-

passou a receber em dia. Tinha uns atrasados de salário, recebeu. Ti-

se sido uma politicagem só, aí haveria motivo. Podem até dizer que tive

nha uns atrasados de plano de cargos e de salários, recebeu. Toda vez

apoio amplo, mas reconhecem o valor da equipe. Também se argumen-

que o Estado podia avançar, ia lá e reestruturava o plano de cargos e de

tou: “Ah, porque ele teve muito apoio na Assembleia Legislativa”. Mas eu

salários, dentro das nossas possibilidades. E o Estado conseguiu se re-

trabalhei para ter apoio na Assembleia Legislativa. Eu ficava até dez ho-

organizar, fazer os concursos públicos, repor a força de trabalho que a

ras da noite atendendo parlamentar. Muitas vezes, não para fazer o que

máquina pública precisava, e ao mesmo tempo voltou a ser provedor

ele me pedia, mas para explicar o que era possível e o que não era possí-

de serviços para a sociedade. Então, o cidadão, na outra ponta, via que

vel atender, inclusive mostrando que aquilo fortaleceria o mandato de-

o Estado ia lá e construía uma unidade de saúde, reconstruía uma es-

les. E isso se revelou na prática, tanto que muitos deles disputaram a ree-

cola, construía uma escola nova, comprava equipamento para o hospi-

leição e foram bem-sucedidos. Quer dizer, mostrou também que eu não

tal, fazia estrada, levava energia para onde não tinha. O Estado voltou

aconselhei errado, que eu não vendi ilusões para líderes políticos. Falei:

a funcionar. Os órgãos da área da agricultura começaram a fazer polí-

“Olha, vamos trabalhar nessa direção aqui. Nessa direção você também

ticas inovadoras para melhorar a qualidade dos nossos produtos, seja

vai refazer o seu mandato político. Não é isso que você quer?”. E muitas

o café, o milho, a banana, e os diversos polos de fruticultura. O Estado

vezes o que vinha sendo proposto era uma coisa que ia destruir o rumo

voltou a funcionar. Então isso é que deu prestígio. O que dá prestígio

do que estava sendo feito, de profissionalização, de planejamento, de me-

é isso, não é gogó, não é discurso bonito. Com isso a população já está

tas, e assim por diante. Mas eu gastava tempo, os meus secretários con46

Acho que a aprovação também é uma coisa positiva. Como é que

impaciente. Não aguenta conversa fiada.

Recortes

Paulo Hartung

Cap.1

Entre Gerações

47
Por que o governo do Lula ganhou prestígio? Porque aumentou a

En tr a n d o n o c a mp o e c o n ômic o , o B r a sil

renda, aumentou o emprego. Por isso ganhou prestígio. Esse eu acho que

e o E spírit o S a n t o se de sta c a m h oje c omo

é o desafio, chegar à vida das pessoas, positivamente. Isso que dá prestígio

gr a n de s e xp o rta d o re s de c ommo ditie s . A l g un s

a governo, a governante. E eu não vejo mal nenhum, pois se há prestígio é

e spe c ia l ista s a p o n ta m pa r a um a te n dê n c ia de

porque se está trabalhando direito. Porque o povo é também um consumi-

re prim a riz a ç ã o da pau ta de e xp o rta ç õ e s , e q ue

dor de produtos e serviços de responsabilidade do governo. E a população

is s o p o de ria te r c o n se q uê n c ia s n e g ati va s pa r a

não é intransigente, fato importante de se ressaltar. Sabe-se que ninguém

o Pa ís e pa r a o E sta d o , n o l o n g o pr a z o . Como o

vai resolver tudo. Nós ficamos oito

se n h o r ava l ia e s sa q ue stã o ?

Eu não vejo mal nenhum em ter muito

anos no governo e não resolvemos

apoio, desde que isso não esteja ligado

todos os problemas; não tem como.

Eu concordo com os analistas. Tenho uma grande preocupação com isso.

ao fisiologismo, ao clientelismo, às prá-

Você acaba de resolver um problema

Com esse fato de se ter hoje como principal produto de exportação do

ticas equivocadas tão comuns da vida

e aparece um novo; a sociabilidade é

País o minério de ferro. Nos últimos doze meses, só para dar um núme-

pública brasileira. Não tenho proble-

dinâmica. Mas a população também

ro, nós fizemos 40 bilhões de dólares de exportação de minério de ferro.

ma nenhum em ter apoio de partidos,

percebe que as coisas estão andando

Essa é uma pauta que preocupa o Brasil e o Espírito Santo. Como se su-

de lideranças políticas, da sociedade.

para frente. Quem usa o SUS sabe o

pera isso? Modernizando o País. Precisa-se de uma agenda nova para o

quanto o hospital público melhorou.

País. Isso dialoga com o que eu falei em respostas anteriores. Nós passa-

Quem não usa fala que isso é um caos, e ponto. Ele vê que tem problema;

mos bem pela crise de 2008, pelo que nós fizemos lá atrás, desde a esta-

então isso é um caos. É fácil falar que é um caos, mas quem usa no dia a

bilização da moeda. Nós podemos passar melhor agora por essa conti-

dia sabe a hora que não tinha uma tomografia e passou a ter, que os exa-

nuidade da crise, que está expressa nos episódios da Europa, principal-

mes estão sendo feitos, que ninguém está ficando num leito hospitalar

mente, e dos Estados Unidos, ainda por conta do que fizemos no passa-

para esperar durante 60 dias um exame. Na hora que melhora, a peque-

do. Mas precisamos de uma nova geração de reformas. No caso, inclusi-

na melhora é percebida por quem usa, e entra na avaliação do governo.

ve, acho que mais microeconômicas do que macroeconômicas. Nós pre-

Dessa forma, eu não vejo mal nenhum em ter muito apoio, desde que isso aí não esteja ligado ao fisiologismo, ao clientelismo, às práti-

cisamos melhorar o Estado brasileiro, o funcionamento dele, para poder
aumentar a competitividade do País. A nossa competitividade é baixa.

cas equivocadas tão comuns da vida pública brasileira. Não tenho problema nenhum em ter apoio de partidos, de lideranças políticas, da so-

vale para o Brasil e para o Espírito Santo. O maior desafio que temos é

ciedade. E só vejo bem num governo bem avaliado. Aliás, nós trabalha-

a educação. Nós precisamos melhorar a educação pública do País, co-

mos, era um objetivo estratégico da gente ter uma boa avaliação com a

meçando lá com o ensino da Matemática e do Português. É o progra-

população. E acho que todo governo deve ter isso. Agora, tivemos opo-

ma que nós estruturamos aqui no Estado, “Ler, Escrever e Contar”, que

sição, e temos oposição ao que fizemos, e não é pequena.
48

Vou dizer, grosso modo, o que eu acho que precisa ser feito, e

dialoga com isso. Nós precisamos melhorar a educação. Nós precisa-

Recortes

Paulo Hartung

Cap.1

Entre Gerações

49
mos investir mais em ciência e tecnologia, setor em que o País inves-

não aconteça. Eu espero que esse período de bonança empurre o País

te pouco. Se nós estamos hoje “bombando” nas commodities agríco-

para novas reformas modernizantes, que nos deem mais competitivida-

las e metálicas, e vamos ter pré-sal daqui a pouco tempo, nós precisa-

de. Que o País pare de flertar com o caminho fácil, porque não existe ca-

mos usar o dinheiro dessas commodities para aumentar o investimento

minho fácil. A vida é dura mesmo. Tanto é dura que o Fernando Henri-

em educação, ciência e tecnologia

que, que liderou o País em tantas reformas importantes, não tem popu-

Nossa competitividade é baixa. O

no País. Aliás, temos experiências

laridade. Talvez a obra dele vá ser reconhecida daqui a 30 anos. Mas não

maior desafio que temos é a educação.

boas. Quando você olha a Empre-

tem jeito, esse é o desafio. E a presidenta Dilma está terminando o pri-

Nós precisamos melhorar a educação

sa Brasileira de Agropecuária (Em-

meiro ano de governo com um estoque de mudanças muito pequeno, e

pública do País, começando lá com o

brapa), é uma experiência boa, que

uma sensação ruim, com esse monte de ministro envolvido em coisa er-

ensino da Matemática e do Português.

aproximou inclusive a Academia da

rada. Isso já é um quarto do governo. Veja você, como o tempo em gover-

área produtiva. A Empresa Brasilei-

no é um negócio rápido. Quando você abre o olho, já acabou o governo.

ra de Aeronáutica (Embraer) é uma boa experiência. A exploração de

Nós precisamos levantar a cabeça, olhar esse quadro de competi-

petróleo em águas profundas é outra boa experiência. São três experi-

tividade global. Eu não tenho inveja nenhuma da China. China não é ca-

ências, eu poderia citar outras, que nós precisamos replicar em outros

minho para a gente. Não é a isso que

setores em busca de competitividade mundo afora. Esse é um desafio.

eu estou me referindo. Eu não tenho

Nós precisamos desburocratizar o

Nós precisamos desburocratizar o País. Você não pode gastar dois

inveja de um país que não tem leis

País, melhorar o acesso ao crédito e

anos para conceder uma licença ambiental, não ter prazo para as coisas.

trabalhistas – está lá o sujeito traba-

investir na infraestrutura econômica

O Governo Federal agora começou a tentar encarar esse problema. Foram

lhando 14, 15 horas por dia. Não te-

do País, que é precaríssima. 

feitas portarias da ministra de Meio Ambiente nesse sentido. Precisamos

nho inveja de um país que não tem

melhorar o sistema tributário brasileiro. Precisamos melhorar o acesso

legislação ambiental, não tem legislação previdenciária, não é isso. Mas,

ao crédito no Brasil. Tem um conjunto de tarefas sobre as quais precisa-

tendo legislação trabalhista, ambiental, previdenciária, nós precisamos

mos nos debruçar, estou citando algumas delas rapidamente. E, por últi-

saber como é que damos competitividade aos nossos serviços, aos bens

mo, não estou dizendo nem por ordem de importância, mas a gente pre-

que produzimos aqui. Falo de competitividade planetária ao nosso País,

cisa melhorar a infraestrutura econômica do País, que é precaríssima. E

para que a gente não vá para um reducionismo de voltar a ter uma agenda

esse crescimento recente que nós tivemos só fez aflorar o problema. Por-

exportadora de produtos primários, como nós falávamos no nosso tempo

tos, aeroportos, rodovias, ferrovias, energia cara. Nós temos problemas

de estudante de Economia. São as commodities agrícolas, metálicas, sendo

de infraestrutura econômica que são gravíssimos. Se a gente não se de-

que, talvez, a gente vire exportador de petróleo um pouco mais à frente.

dicar a essa agenda, reformista, modernizante, é possível que esse perío-

Isso vale para o Brasil e vale para o Espírito Santo. Eu acho que o

do de bonança de 18, 19 anos que estamos vivendo vire mais uma vez um

maior obstáculo que o País tem, o obstáculo número um, é a instrução

período sobre o qual ficaremos falando no futuro. E eu espero que isso

do nosso povo, da nossa gente.

50

Recortes

Paulo Hartung

Cap.1

Entre Gerações

51
Como o senhor enxerga o futuro do Espírito Santo?

Argentina, está entrando nos Estados Unidos, ou já está lá, e agora tem
um parque fabril em Linhares. A Itatiaia anunciou um investimento

Eu enxergo positivamente. Vou dizer a você por quê. Nós temos esse

em Sooretama, para fabricar geladeiras e fogões, de olho no mercado

novo momento de turbulência internacional, e isso afeta o Espírito San-

interno brasileiro, dinamizado pelo crescimento da classe C. Em Ara-

to, temos que ter claro isso. Quando o mundo vai pra frente, o Espíri-

cruz, teremos a inauguração do terminal de GLP e C5+, agora nos pró-

to Santo costuma andar na frente do Brasil, e quando o mundo arrefe-

ximos dois ou três meses, uma base importante para o Estado. A Ca-

ce o desenvolvimento a gente costuma sofrer um pouco mais do que

rioca Engenharia apresentou um

o País. Em face da crise em curso, nós precisamos observar, ter caute-

projeto para fabricar módulos de

Quando o mundo vai pra frente, o Es-

la, e saber que ela afeta o Brasil e o Espírito Santo. Tem a questão dos

plataformas de petróleo, em Barra

pírito Santo costuma andar na frente

royalties. Só para a gente balizar direito, essa proposta do senador Vi-

do Riacho, também em Aracruz. A

do Brasil, e quando o mundo arrefece

tal do Rêgo – que eu acho que não vai prevalecer; acho que vamos ga-

Jurong está na iminência de come-

o desenvolvimento a gente costuma so-

nhar essa briga –, mas considerando que ela prevaleça, perdem mais

çar a sua obra. Na ponta de Tubarão

frer um pouco mais do que o País. 

os municípios do que o Governo do Estado. Quando se fala que o Espí-

estão construindo a oitava usina de

rito Santo está perdendo R$ 500 milhões, R$ 300 milhões são dos mu-

pelotização e na ponta de Ubu estão construindo a quarta. Há a pos-

nicípios, uns 14, 15 municípios que recebem royalties no nosso Estado.

sibilidade de instalação da Ferrous no extremo sul do Espírito Santo.

E mesmo no caso do Fundo de Desenvolvimento de Atividades Portu-

O setor público está organizado, e essa ambiência que nós criamos

árias (Fundap), que seria uma terceira frente de problema que nós terí-

no Espírito Santo para atração de investimento privado está possibili-

amos de enfrentar aí, esse é um problema quase só municipal. Tirando

tando uma grande diversificação da economia. Até o final de 2012, co-

o Bandes, que sofre numa hipótese de perder o Fundap, em termos de

meça a construção do polo gás-químico em Linhares – já estamos com

receita pública o Governo do Estado aufere muito pouco. Justamente a

capacidade de processar 18 milhões de m³ de gás. Temos capacidade de

parte do Governo do Estado é a parte do incentivo. A máquina do Go-

processar 3 milhões aqui na UTG Sul, e mais 18 milhões lá. E lá vamos

verno do Estado se estruturou nesses últimos anos. Do ponto de vis-

ter um polo gás-químico, para processar matéria-prima para fazer fer-

ta fiscal, somos um dos dois ou três estados mais organizados do País,

tilizante, tinta, cola, entre outros. Quer dizer, um importante exemplo

hoje. Somos o Estado com maior capacidade de investimentos com re-

de diversificação da nossa economia.

cursos próprios do Brasil. São elementos que apontam na direção de
um futuro positivo para o Espírito Santo.

Com o setor público organizado, o setor privado entrou em amplo processo de diversificação da nossa economia, permitindo ao Es-

Mas há coisas mais importantes que essas. O Estado está conseguindo diversificar a sua economia. Há poucos dias inaugurou-se o

do em que, depois da chegada dos portugueses, durante 300 anos não

parque fabril da WEG Motores, em Linhares. A WEG é uma empre-

ocorreu nada, praticamente nada, tirando os jesuítas que construí-

sa brasileira presente no mundo inteiro. Está na Europa, na China, na
52

tado enfrentar um grave problema na nossa história. Somos um Esta-

ram o Palácio Anchieta com o excedente das suas fazendas organiza-

Recortes

Paulo Hartung

Cap.1

Entre Gerações

53
das. Depois disso, passamos a plantar café, e o fizemos isso por mais

caso dos indicadores sociais, em uma boa parte deles nesses anos nós li-

de 100 anos. Com a planta de Tubarão nós começamos a diversifica-

deramos o País, inclusive na diminuição da pobreza.

ção da nossa economia, muito lentamente. Hoje nós estamos vivendo

Tudo isso me leva a acreditar no Estado. Eu tenho usado a ex-

outro tipo de dinamismo. Na nova sede da Petrobras, em Vitória, vão

pressão de que “o futuro do Espírito Santo está praticamente contra-

trabalhar mais de 1.800 técnicos. Isso quer dizer que nós vamos pro-

tado”. Por que praticamente? Porque isso é uma luta do dia a dia. Você

duzir petróleo mais uns 30 anos para frente. Então, nós temos opor-

tem de todo dia trabalhar para, de certa forma, conservar as conquis-

tunidades significativas nos próximos anos.

tas, garantir as vitórias que você já teve e ao mesmo tempo continuar

Setor público organizado, setor privado em diversificação, um

essa caminhada. Mas eu vejo, por tudo que está acontecendo na eco-

plano estratégico extraordinário, o ES 2025. Quer dizer, hoje o Espírito

nomia capixaba, independentemente do desfecho de crise internacio-

Santo conta, não é o governo, é o Estado que tem um plano estratégico

nal, royalties, Fundap – é claro que essas questões mexem –, mas inde-

organizado, com metas na educação, na questão da erradicação da po-

pendentemente disso, teremos um futuro importante de ampliação e

breza, na diversificação da nossa economia, na interiorização do desen-

democratização das oportunidades.

volvimento do Estado, que é outro desafio, porque ele está concentrado
na Grande Vitória e no litoral sul e norte, agora. Então cada ponto desses dá fé no futuro do Espírito SanO futuro do Espírito Santo está prati-

to. Fechando esses pontos, um quar-

camente contratado. Por que pratica-

to ponto são os indicadores, econô-

mente? Você tem de todo dia trabalhar

micos e sociais. Econômicos, eu vou

para, de certa forma, conservar as con-

apresentar dois: de 2003 a 2010, pe-

quistas, garantir as vitórias e ao mes-

ríodo do nosso governo, nós lidera-

mo tempo continuar essa caminhada.

mos o País no crescimento econômico. Nesse período, o crescimento

do PIB capixaba foi de 48,9% contra 36,5% do Brasil. Nosso PIB, quando
nós tomamos posse, era de 40,2 bilhões de reais, e foi para R$ 85,6 bilhões, mais que dobrou nesse período. Outro dado econômico importante, econômico e social, é a geração de empregos. Entre 2002 e 2010 o
Espírito Santo apresentou crescimento acumulado de 59,5% do nível de
empregados com carteira assinada, sendo superior à taxa verificada no
Brasil, de 47,7%. Então, quando você vai pegando os indicadores econômicos e sociais, vê que em todos eles nós operamos positivamente. No
54

Recortes

Paulo Hartung

Cap.1

Entre Gerações

55
Cap. 2

Economia

Desafios e oportunidades

E

sta seção reúne palestras dedicadas à análise das atuais
condições econômicas, afetadas em maior ou menor escala pela crise mundial eclodida em 2008. O ex-governador Paulo Hartung fala da origem e da natureza da crise e
seus rebatimentos nas conjunturas local, nacional e internacional, considerando de maneira especial os interesses

dos capixabas, em particular, e dos brasileiros em geral.
O primeiro texto foi apresentado no Encontro de Lideranças Em-

presariais, promovido pela Rede Gazeta de Comunicações. Em seguida, está reproduzido o pronunciamento feito em encontro no Conselho
Regional dos Corretores de Imóveis no Espírito Santo.

Co nj un t ur a e c o n ômic a :
in te rfa c e s e n tre o B r a sil e o mun d o
Gostaria de parabenizar os organizadores por mais esta edição do Encontro de Lideranças Empresariais, repetindo o sucesso dos encontros
anteriores. Este momento de reflexão, neste início de novembro, coincide com o período em que gestores públicos e privados fazem uma avaliação do ano que está acabando e estudam os cenários socioeconômicos e políticos tendo em vista o planejamento.
Cap.2

Economia – Desafios e oportunidades

57
É uma ação que busca o desenvolvimento capixaba, com dinami-

Cortes em políticas públicas e redução de investimentos, entre ou-

zação e desconcentração do crescimento econômico, melhoria da qua-

tros, são algumas das medidas tomadas ou previstas que vêm modifican-

lidade de vida, ampliação e democratização das oportunidades.

do o ambiente econômico e gerando reações mundo afora.

Estive em todas as edições anteriores como governador do Espí-

Como se vê, o enfrentamento dessa situação não guarda relação

rito Santo. Participo desta como economista, muito bem acompanhado

com as estratégias que se utilizaram para enfrentar a turbulência de três

do professor Luiz Carlos Mendonça de Barros. Durante sua gestão na

anos atrás. Nesse contexto, o mundo está vivendo um processo de desa-

presidência do BNDES, tive a oportunidade de estar à frente da direto-

celeração da atividade econômica.

ria Social do banco, num tempo de rico e sólido aprendizado.

No caso dos Estados Unidos, a aguerrida e precoce disputa políti-

A nossa tarefa aqui é propor uma agenda para reflexão acerca da

co-eleitoral, que ficou evidente no impasse gerado durante a negociação

atual contingência econômica e seus reflexos entre nós. Registro que

do limite da dívida, tem dificultado a adoção de medidas e uma ação co-

a atual crise guarda diferenças significativas com relação àquela vivida

ordenada para que o país saia mais rapidamente da crise. Dessa forma,

em 2008, muito embora seja um desdobramento daquele momento de

acredito que uma efetiva agenda de enfrentamento da crise seja imple-

graves turbulências.

mentada somente após o pleito presidencial, previsto para o final de 2012.

Há três anos, o que tivemos foi um travamento mundial do crédi-

Na Europa, responsável pelo quadro mais grave, as lideranças po-

to, desencadeado pelo colapso do sistema de financiamento imobiliário

líticas produziram um plano que prescreve, entre outros, um deságio

norte-americano, com a quebra do Lehman Brothers.

de 50% da dívida grega, a capitalização de bancos e a ampliação do fun-

Como resposta à crise, os governos alocaram recursos para cobrir
os rombos dos bancos e tomaram medidas anticíclicas. Com essas e ou-

do de estabilização europeu, que passaria de 400 bilhões de euros para
um trilhão de euros.

tras ações, os governos se endivida-

É um passo importante, mas ainda faltam respostas acerca desse

Um dos fatores centrais para o co-

ram e, como está evidente, muitos

plano e alguns já sinalizam que ele não seria o bastante. O último imbró-

lapso das operações do mercado imo-

deles já não têm condições de hon-

glio em torno do pacote foi a tentativa do primeiro-ministro grego de fa-

biliário norte-americano, que mar-

rar seus compromissos.

zer um referendo sobre os termos da proposta de ajuda e ajustes à Gré-

cou o começo de toda essa história,

Vale ressaltar, ainda, que um

cia, o que, de certa forma, poderia travar o desenvolvimento do plano.

foi a desregulamentação do sistema

dos fatores centrais para o colapso

Um indicador mostra a gravidade da situação na zona do euro: há 16 mi-

financeiro, ocorrida principalmente

das operações do mercado imobili-

lhões de desempregados, ou 10,2% da população economicamente ativa.

a partir dos anos 1970. 

ário norte-americano, que marcou

O Japão, que acumula um longo período de baixo crescimento,

o começo de toda essa história, foi a

experimentou no início do ano um dramático desastre natural, também

desregulamentação do sistema financeiro, ocorrida principalmente a par-

com reflexos na economia. A China, que passou a ser vista como deci-

tir dos anos 1970. De certa forma, essa é a origem e a natureza dos pro-

siva na questão da ampliação do fundo para resgate de países europeus

blemas vividos atualmente.

em dificuldades, também dá sinais de que registra problemas. O descon-

58

Recortes

Paulo Hartung

Cap.2

Economia – Desafios e oportunidades

59
trole inflacionário levou a um aperto monetário que está diminuindo o

gada a um complexo conjunto de determinantes domésticas e externas,

nível de crescimento de um país que vinha apresentando índices espe-

a inflação é outro assunto importante. Até a explicitação do agravamen-

taculares de evolução econômica.

to da situação internacional, ela vinha numa espiral crescente.

Quanto aos rebatimentos desta crise em nosso País, é preciso con-

A questão fiscal para 2012 também apresenta alguns desafios pre-

siderar que, em um mundo globalizado, ninguém é ilha. Os mercados es-

ocupantes. Será necessário ampliar os investimentos no Brasil com as

tão integrados. O mundo cresce me-

obras da Copa do Mundo de 2014. São altas as contas dos subsídios com

Quanto aos rebatimentos desta crise

nos e o Brasil, que tem na exporta-

os programas do BNDES e do Minha Casa, Minha Vida. A regra de cor-

em nosso País, é preciso considerar que,

ção de commodities um fator deci-

reção do salário mínimo vai produzir um grande impacto nas contas pú-

em um mundo globalizado, ninguém

sivo para a sua economia, já está as-

blicas. E não custa lembrar que 2012 é um ano de eleições municipais,

é ilha. Os mercados estão integrados.

sistindo a quedas de preços, além de

com comportamento fiscal já conhecido.

No entanto, nossa situação é bem mais

retração nas vendas.

confortável que a da maioria. 

Por exemplo, o minério de ferro, a mais importante commodity

de nossas exportações, teve o preço para pagamento à vista reduzido

Um outro tema decisivo para o enfrentamento dessa conjuntura é
ação política. O País carece de uma agenda para a modernização de leis
que, historicamente, vêm travando seu desenvolvimento.
Para se ter uma ideia, uma pesquisa recente do Banco Mundial com

em 30% nas últimas seis semanas. Nos últimos 12 meses, com limite em

183 países revela que o Brasil ocupa

agosto, a venda de minério rendeu US$ 40 bilhões de divisas ao País. Em

a posição de número 126 no ranking

Um tema decisivo para o enfrentamen-

nível menos acentuado, os preços da soja e do açúcar também caíram.

de nações amigáveis para a realiza-

to dessa conjuntura é ação política. O

Ou seja, nós estamos e vamos continuar sendo afetados. No entan-

ção de negócios privados. Cinga-

País carece de uma agenda para a mo-

to, nossa situação é bem mais confortável que a da maioria. Temos um

pura está na frente e Chade, na lan-

dernização de leis que, historicamente,

mercado interno pujante. Possuímos reservas internacionais de aproxi-

terna. As dificuldades são de várias

vêm travando seu desenvolvimento. 

madamente US$ 300 bilhões. Não há sinais de problemas no sistema fi-

ordens, das barreiras para se insta-

nanceiro, que me parece sólido.

lar negócios, passando pelo sistema tributário, até questões de crédito.

Além disso, o governo elevou o superávit primário, mesmo que

Estamos quase no fim do primeiro ano do mandato da presidente Dil-

por um método incorreto, no qual predominam a postergação de inves-

ma, eleita com uma ampla base de apoio no Congresso, e não avançamos em

timentos e o aumento de receita do governo central.

reformas mais que urgentes, como bem mostra a pesquisa do Banco Mundial.

Mas, em meio a esse cenário, a diminuição da atividade econô-

Outra questão séria são os gravíssimos problemas de infraestrutura

mica em nosso País já é visível e deve ser observada com atenção. Por

econômica (portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, etc.). Os únicos pas-

exemplo, a atividade industrial, que vinha crescendo, mesmo que a ín-

sos, ainda assim insuficientes, dizem respeito à concessão de três aero-

dices pouco expressivos, teve uma queda de 2% em setembro último.

portos e à recente modificação acerca de licenciamento de grandes obras.

A projeção do PIB está sendo revista para algo em torno de 3%. Li60

Recortes

Paulo Hartung

O País também avança a passos lentos na superação de seu maior
Cap.2

Economia – Desafios e oportunidades

61
desafio, que é a instrução de sua população. Nos últimos anos, melho-

tica: definir uma agenda modernizante e mobilizar o País para trans-

ramos ao levar as crianças para o ensino fundamental e também obten-

formá-la em realidade.

do vitórias pontuais no ensino profissionalizante e de terceiro grau. Mas

Quanto à condição do Espírito Santo, que será tratada em deta-

temos gravíssimos problemas a serem superados quanto à qualidade da

lhes amanhã pelo governador Renato Casagrande, registro rapidamen-

educação e ao número de anos estudados, por exemplo.

te o que tenho falado há muito: pelas características da economia capi-

Somados à falta de investimento em ciência, tecnologia e inova-

xaba, quando o mundo cresce, o nosso Estado cresce mais que o País.

ção, os problemas da educação dificultam o presente e comprometem o

Quando o mundo entra em crise, o Espírito Santo sofre mais intensa-

futuro. De outra sorte, se combinarmos investimentos nessas áreas es-

mente que o Brasil. Na crise de 2008, por exemplo, o Espírito Santo foi

tratégicas, teremos base para um avanço decisivo em competitividade

o segundo Estado que mais perdeu receita. Por isso, precisamos dar uma

econômica e inclusão social produtiva.

atenção especial à atual conjuntura econômica.

Resultados de excelência para nos inspirar é o que não falta. Onde
o Brasil investiu com prioridade, inclusive aproximando a Academia do
setor produtivo, conseguiu avançar muito, como bem mostram os exemplos da aeronáutica, com a Embraer, do negócio do petróleo em águas
profundas, com a Petrobras, e do agronegócio, com a Embrapa. O desafio agora é expandir essa receita de
Sem dúvida alguma, se olharmos para

sucesso para outras áreas.

Temos também o desafio dos royalties. Mas há bons argumentos
para enfrentá-lo:
l Primeiro: a Constituição, no seu Artigo 20, Parágrafo 1º, é cla
ra sobre os direitos das regiões produtoras.
l Segundo argumento: não incide cobrança de ICMS na ori
gem, onde o petróleo é produzido.
l Terceiro argumento: no caso do minério de ferro, os royal
ties são pagos às regiões produtoras.

os últimos 18 anos, podemos considerar

Nesse sentido, é óbvio que o

que vivemos um período positivo. Mas,

País precisa destinar recursos oriun-

l Quarto argumento: o parecer do senador Vital do Rêgo apre

além de ainda termos uma agenda de-

dos das commodities metálicas e

senta projeções equivocadas de produção de petróleo, ou seja,

safiante, parece, infelizmente, que a

agrícolas e do pré-sal para remover

números inconsistentes.

caminhada que nos fez chegar aqui

esses e outros obstáculos ao desen-

com algum conforto em meio a uma

volvimento socioeconômico.

crise tão grave não tem sido inspiradora para os passos seguintes. 

Se olharmos para os últimos
18 anos, podemos considerar que

Além disso tudo, temos o compromisso do ex-presidente Lula
e da atual presidenta Dilma Rousseff de respeitar os direitos das regiões produtoras.

vivemos um período positivo. Mas,

No entanto, apesar dessa sólida argumentação, precisamos manter

além de ainda termos uma agenda desafiante, parece, infelizmente, que

o Estado mobilizado e articulado junto a seus parceiros nacionais para

a caminhada que nos fez chegar aqui com algum conforto em meio a

garantir os nossos direitos. De preferência, pela via política, mas, se pre-

uma crise tão grave não tem sido inspiradora para os passos seguin-

ciso for, no âmbito judicial.

tes. Ou seja, o grande desafio que temos pela frente é de ordem polí62

Recortes

Paulo Hartung

Prezados e prezadas, mesmo diante de vários desafios, da crise inCap.2

Economia – Desafios e oportunidades

63
ternacional e dos problemas ligados à distribuição dos royalties, a mi-

Pe r spe c ti va s pa r a o me rc a d o

nha visão é positiva quanto ao futuro do Estado.

imo b il iá rio c a pi x a b a e n a c io n a l

Do ponto de vista fiscal, nos tornamos um dos Estados mais organizados e com maior capacidade de investimento com recursos pró-

Proponho, aqui no Conselho Regional dos Corretores de Imóveis, neste fi-

prios. Pelo ambiente que os capixabas criaram nos últimos anos, tam-

nalzinho de agosto, uma conversa com três tópicos: minhas impressões so-

bém nos tornamos um grande polo de atração de investimentos priva-

bre o mercado imobiliário; a natureza da atual crise e sua relação com o seg-

dos, diversificando nossa economia.

mento de imóveis; e as perspectivas de desenvolvimento do nosso Estado.

Temos rumo, estabelecido pelo plano estratégico do Estado, o Es-

Inicialmente, gostaria de ressaltar que o setor imobiliário vive um

pírito Santo 2025. E conquistamos, nos últimos anos, melhorias em to-

momento de dinamismo superior ao registrado nos anos 1970. As re-

dos os indicadores sociais, sendo que, em muitos casos, lideramos os

formas constitucionais e infraconstitucionais, a estabilidade econômi-

avanços registrados no País.

ca alcançada a partir do Plano Real, entre outras, vêm permitindo uma

Por tudo isso, ouso dizer: nós temos praticamente contratado um

melhoria significativa da qualidade

futuro de prosperidade compartilhada. Por que praticamente? Porque

de vida no Brasil. Um dos resultados

As reformas constitucionais e infra-

temos a luta diária para consolidar as conquistas e fazer o Estado avan-

é a ascensão à classe média de um

constitucionais, a estabilidade econô-

çar, sempre! Muito obrigado!

grande número de brasileiros, com o

mica alcançada a partir do Plano Real,

fortalecimento do mercado interno.

entre outras, vêm permitindo uma me-

A Caixa Econômica Federal,

lhoria significativa da qualidade de

responsável por 70% do financiamen-

vida no Brasil. Um dos resultados é a

to imobiliário, aplicou em 2010 R$

ascensão à classe média de um grande

78,6 bilhões. E a previsão para 2011 é

número de brasileiros, com o fortaleci-

de R$ 81 bilhões. No Espírito Santo,

mento do mercado interno. 

o volume total de financiamento passou de R$ 93 milhões em 2003, para uma previsão de R$ 2 bilhões, em 2011.
O Estado deve fechar o ano com 24 mil financiamentos habitacionais, mas acumula déficit habitacional de 115 mil moradias, ou cerca de
2% do total da demanda do País, que chega a 5,6 milhões de unidades. A
grande demanda está localizada na população com até três salários mínimos, representando 89,6% do total.
Hoje, podemos afirmar que o mercado imobiliário está bem regulado. E ainda há espaço para expansão. Em 2010, o crédito imobiliário cor64

Recortes

Paulo Hartung

Cap.2

Economia – Desafios e oportunidades

65
respondia a 3,3% do PIB. No Chile essa relação é de 16% do PIB; nos Es-

que têm causado reações, gerando instabilidade. Esse clima foi agravado

tados Unidos 70% e na Holanda, 100%.

pelo impasse acerca da ampliação do teto da dívida pública americana.

O Brasil tem crédito imobiliário vinculado à poupança e ao FGTS

Como se vê, o enfrentamento desta situação não guarda nenhuma

(Fundo de Garantia do Tempo de Serviço). Como esses dois fundos são

relação com as estratégias que se utilizaram para superar a turbulência

ligados diretamente à economia e ao emprego, em curto prazo, eles não

de três anos atrás. Nesse contexto, há uma convergência entre os ana-

serão influenciados pelo atual quadro econômico externo.

listas de que o mundo vai crescer menos.

No entanto, algumas questões merecem atenção. A situação

Quanto aos rebatimentos desta crise em nosso País, é preciso con-

do Brasil é melhor do que a da maioria dos países, mas ainda temos

siderar que, em um mundo globalizado, ninguém é ilha. Os mercados

a maior taxa de juros real e a moeda mais sobrevalorizada do mun-

estão integrados. Se o mundo passará a crescer em ritmo menor, o Bra-

do! Além disso, há manifestações acerca de escassez de mão de obra,

sil, que tem na exportação de commodities um fator decisivo para a sua

e preocupações de analistas sobre fontes de financiamento imobiliá-

economia, poderá ver quedas de preços, além de retração nas vendas.
De toda sorte, temos um mercado interno pujante, além do fator

rio em médio e longo prazos.
Caminhando em direção ao tema crise, registramos que a atual
guarda diferenças significativas com relação àquela vivida em 2008, muito embora seja um desdobramento
Mesmo tendo enfrentado os desafios

daquele momento de turbulência.

China. Mas é preciso cautela, além de políticas específicas para garantir e gerar níveis de consumo sustentáveis.
Com relação ao mercado imobiliário, considero que ainda é cedo
para prever o quanto esse cenário pode afetar o setor no Brasil. Com a

da crise político-institucional que se

Há três anos, o que tivemos

turbulência, o que os especialistas anotam é a possibilidade de uma di-

registrou com anos e anos de desgo-

foi um travamento mundial do cré-

minuição da atividade econômica, prevendo um PIB menor, como foi

verno, e também tendo confrontado

dito, desencadeado pelo colapso do

anunciado pelo ministro da Fazenda, ontem.

as questões da crise financeira mun-

sistema de financiamento imobiliá-

No entanto, é necessário que acompanhemos o quadro norte-ame-

dial, em 2008, o Espírito Santo cons-

rio norte-americano, com a quebra

ricano, europeu e japonês. É preciso ver se a crise dos governos, espe-

truiu, coletivamente, uma trajetória

do Lehman Brothers.

cialmente os da Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália, não acaba vi-

Como resposta à crise, os go-

rando uma crise bancária. Muito da instabilidade das bolsas de valores,

vernos alocaram recursos para co-

de êxito nos últimos anos. 

nas últimas semanas, tem a ver com essa possibilidade. Esse seria o pior

brir os rombos dos bancos e tiveram de tomar medidas anticíclicas. Com

cenário – que, eu espero, não se torne realidade.

essas e outras ações, os governos se endividaram e muitos deles correm

Como disse, não somos ilha. Nessa situação, todos os mercados po-

risco de não ter condições de honrar seus compromissos. Essa é a ori-

dem ser afetados. O tempo é de cautela e muita observação. Ressalto que a

gem e a natureza dos problemas vividos atualmente.

compra sempre está ligada à confiança no sistema econômico, basicamente

Cortes em políticas públicas, extinção de conquistas sociais e redução de investimentos são algumas das medidas tomadas ou previstas
66

na manutenção dos empregos e da renda. Nesse sentido, é necessário que
o Brasil tome medidas para mantermos a confiança. E há espaço para isso.

Recortes

Paulo Hartung

Cap.2

Economia – Desafios e oportunidades

67
São iniciativas como, por exemplo, estabelecer uma política fiscal

do Espírito Santo no período 2010 a 2015 somam mais de 1.129 projetos.

de longo prazo, cuidadosa e crível: de crescimento de custeio abaixo do

O total de investimentos previstos chega a R$ 98,8 bilhões. Só a Petro-

crescimento do PIB; instituir políticas de estímulo à poupança; aumen-

bras planeja investir 12,2 bilhões de dólares em exploração e produção.

tar o superávit primário; retomar a agenda de reformas estruturais; e fa-

Os investimentos se encontram em três grandes áreas. Na Infraestru-

zer uma desindexação geral da economia.

tura, destaque para os setores de energia, construção e melhorias em ter-

Prezados, falei do mercado imobiliário, do cenário econômico in-

minais portuários, aeroporto e armazenagem, além de obras de transporte.

ternacional, e apresentei algumas propostas para proteger a economia

A Indústria é destaque, como mostram esses três exemplos. Na se-

do Brasil neste momento. Sigo agora para a análise do processo de de-

mana passada, a WEG Motores inaugurou a sua unidade em Linhares. Nos

senvolvimento capixaba que, do meu ponto de vista, é muito positivo

próximos dias, iniciam-se as obras do Estaleiro Jurong em Aracruz. A Ita-

no presente e no futuro.

tiaia anunciou que vai instalar uma nova planta industrial em Sooretama.

Mesmo tendo enfrentado os desafios da crise político-institucional

Os setores de Comércio e Serviços contemplam centenas de pro-

que se registrou com anos e anos de desgoverno, e também tendo con-

jetos. São obras de engenharia, compreendendo construção de centros

frontado as questões da crise financeira mundial, em 2008, o Espírito

comerciais e de lazer (shopping centers, parques temáticos, centros cul-

Santo construiu, coletivamente, uma trajetória de êxito nos últimos anos.

turais e teatros) e empreendimentos imobiliários residenciais e comer-

Nós capixabas não resolvemos todos os nossos problemas. Nem

ciais (edif ícios, lojas de departamen-

poderíamos, mas conquistamos avanços dignos de nota, evoluindo con-

tos, hotéis, supermercados, arma-

Com os avanços político-institucionais

cretamente em direção ao alcance das metas do Espírito Santo 2025.

zéns, etc.). Também há investimen-

e econômicos dos últimos anos, o Espí-

A partir das potencialidades e do trabalho dos capixabas, da recupera-

tos em saneamento/urbanismo, mo-

rito Santo tem praticamente contra-

ção da credibilidade e estabilidade político-institucional, da qualificação ge-

bilidade urbana, educação, meio am-

tado um longo período de desenvolvi-

rencial pública, da retomada da capacidade de investimento do Estado, e da

biente, saúde e segurança pública.

mento inclusivo e sustentável. 

implantação de um modelo de desenvolvimento assentado na inclusão social

Prezados, com os avanços po-

produtiva, na desconcentração geográfica, na sustentabilidade ambiental e

lítico-institucionais e econômicos dos últimos anos, o Espírito Santo tem

na modernização tecnológica, o Espírito Santo avançou nessa caminhada.

praticamente contratado um longo período de desenvolvimento inclusivo e

Crescemos além da média nacional e alcançamos indicadores socio-

sustentável. Digo praticamente porque a história não tem fim, depende da

econômicos de referência no País. Numa caminhada de travessia e num

constante ação humana, da capacidade de manter as conquistas e avançar

percurso de muitas conquistas, o Espírito Santo encontrou rumo. Enfim,

na caminhada em direção ao reino da igualdade de oportunidades entre nós.

coletivamente, transformamos o presente e ainda fundamos as bases de

Como disse, nos últimos anos, o Espírito Santo enfrentou duas gra-

um novo futuro. Dessa forma, as perspectivas se mantêm muito boas.
Segundo informações do Instituto Jones dos Santos Neves, os anúncios de investimentos com valores superiores a R$ 1 milhão para o Estado
68

Recortes

Paulo Hartung

ves crises. Saímos maiores de cada processo de superação. Estamos agora diante de um outro quadro desafiante – o que também pode e deve
ser visto como uma oportunidade.
Cap.2

Economia – Desafios e oportunidades

69
Cap. 3

Nesse sentido, para finalizar, compartilho com vocês, pelo valor
das observações, uma reflexão que recebi via internet:

Planejamento

“l  ão pretendemos que as coisas mudem se sempre fazemos
N
o mesmo.
l A crise é a melhor bênção que pode ocorrer com as pessoas e

países, porque a crise traz progressos.

R u m o e e s t r at é g i a

l  criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura.
A
l É na crise que nascem as invenções, os descobrimentos e as gran
des estratégias.
l Quem supera a crise supera a si mesmo sem ficar ‘superado’.

l Quem atribui à crise seus fracassos e penúrias violenta seu pró
prio talento e respeita mais os problemas do que as soluções.
l A verdadeira crise é a crise da incompetência.

l O inconveniente das pessoas e dos países é a esperança de en
contrar as saídas e soluções fáceis.
l Sem crise não há desafios; sem desafios, a vida é uma rotina, uma

lenta agonia. Sem crise não há mérito.
l É na crise que se aflora o melhor de cada um.

l Falar de crise é promovê-la, e calar-se sobre ela é exaltar o con
formismo.

S

e a dinamização e as conexões socioeconômicas do século
XX pautaram a instituição do planejamento estratégico junto às organizações mais inovadoras, o que dizer destes tempos convulsivos, comunicacional, planetária e instantaneamente articulados?
Numa era de incerta refundação dos paradigmas que fazem

movimentar a nossa sociabilidade, parece decisivo ancorar visões e atividades organizacionais no processo de planejamento estratégico, um
mapa talhado para guiar navegações, ainda mais em realidades complexas e “líquidas”.
Adepto dessa ferramenta de trabalho desde a administração da Pre-

l Em vez disso, trabalhemos duro. Acabemos de uma vez com


feitura de Vitória (1992-1996), Paulo Hartung fez uma série de palestras so-

a única crise ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar

bre o tema. A seguir, estão duas delas, uma conceitual e outra sobre a apli-

para superá-la.”

cação do método na gestão estadual (2003-2010), notadamente o ES 2025.

Muito obrigado!
Aç ã o e pl a n eja me n t o e str até gic o
Uma das principais ferramentas destinadas à potencialização e integração
das ações empreendidas pelas organizações é o planejamento estratégico.
Em termos gerais, a origem dessa ferramenta administrativa, que também
70

Recortes

Paulo Hartung

Cap.3

P l a n e j a m e n t o – R um o e e st r at é gi a

71
pode ser utilizada na vida pessoal, está em meados do século passado, a par-

tibilidade dos planos estratégicos, desenvolveram-se propostas como a

tir da complexificação dos desafios socioeconômicos em nível planetário.

definição de valores organizacionais, missão e visão, entre outras.

Nas últimas décadas, o ritmo das mudanças no macroambiente so-

O monitoramento ambiental constante, além de outras alterna-

cial só fez crescer a relevância do planejamento estratégico junto às organi-

tivas de análise de conjuntura, tais como as vantagens competitivas, as

zações, assim como promoveu uma dinâmica evolução de seus processos.

competências essenciais para o futuro, a cultura organizacional e a in-

Em geral, os estudiosos (KUNSCH, 2003; OLIVEIRA, 2005) esta-

corporação de novas tecnologias também passaram a ser considerados.

belecem quatro fases históricas do desenvolvimento do planejamento –

O planejamento estratégico oferece às empresas e instituições ins-

que não nasceu estratégico, mas tornou-se estratégico. A primeira fase

trumental para que se tenha claro qual é a missão institucional (razão de

localiza-se por volta dos anos 1950, quando a atenção se voltava para o

ser), a visão (posicionamento que se quer da organização em determina-

cumprimento de orçamentos, limitando-se ao planejamento financeiro.

do período de tempo), os valores que

Na década de 1960, o foco era planejar o futuro e verificar tendências, a

norteiam a ação produtiva e geren-

O planejamento estratégico ofere-

partir de indicadores do presente e do passado. No entanto, tendências

cial, os macro-objetivos principais e

ce às empresas e instituições instru-

e rupturas não eram consideradas relevantes.

o elenco de ações e metas que guia-

mental para que se tenha claro qual

rá a organização ao alcance do pata-

é a missão institucional, a visão, os

mar vislumbrado na visão.

valores, os macro-objetivos princi-

O processo convulsivo de mudanças que começa a transformar o
mundo a partir dos anos 1970, notadamente a radicalização da globalização econômica, a interconexão planetária de sistemas de comunica-

Todo esse processo é realizado

pais e o elenco de ações e metas que

ção em tempo real, entre outros, acabou por descartar um planejamen-

com a participação de especialistas

guiará a organização ao alcance do

to engessado por visões reducionistas e perspectivas estáticas.

e corpo técnico-institucional, con-

patamar desejado. 

Assim, na década de 1970, entra em cena um processo que consi-

siderando-se os pontos fracos e for-

derava decisivamente o macroambiente externo e contemplava o am-

tes da organização, as ameaças e oportunidades do ambiente externo e

biente interno com maior atenção. O planejamento começa a se tornar

vantagens competitivas da empresa ou instituição. Vale dizer que esses

efetivamente estratégico.

são itens dinâmicos e conjunturais, o que leva à necessidade de atuali-

Passa-se a utilizar a técnica do SWOT, ou análise FOFA, por meio

zação ao ritmo das mudanças de contexto.

da qual se identificam os pontos fortes e fracos (internos) e as ameaças

De forma resumida, um plano estratégico contém a visão da empresa, a

e oportunidades (externos). Esse modelo busca uma adequação entre as

sua missão e os seus valores. Um diagnóstico dos ambientes interno e externo

capacidades internas e as possibilidades externas, tendo em vista os ob-

localiza a empresa/organização no seu contexto e aponta os pontos fracos e

jetivos organizacionais.

fortes, as ameaças e as oportunidades, assim como as vantagens competitivas.

Mas tais mudanças formalizaram em excesso o planejamento estratégico, aprofundando um problema já crítico: a distância entre os pla-

vos estratégicos e os eixos estratégicos de ação, compostos de objetivos

nejamentos e os executores. Para uma maior interface, integração e fac72

A partir de todas essas informações, definem-se os macro-objetique viabilizem os propósitos institucionais.

Recortes

Paulo Hartung

Cap.3

P l a n e j a m e n t o – R um o e e st r at é gi a

73
Os planos também trazem metas mobilizadoras, ou seja, quantificam ou mensuram os resultados que se quer obter em determina-

Pl a n eja me n t o e str até gic o e
ge stã o p úb l ic a c a pi x a b a

do tempo. O plano estratégico define o que uma organização é (pensa e
faz), onde ela caminha, aonde quer chegar, quem trabalha, os veículos

Ao longo da minha vida, no âmbito privado e na esfera pública, sempre

de transporte e as ferramentas de ação.

evitei o improviso. Não acredito em improvisação. Acredito em planeja-

Afinal, como escreveu Sêneca, não há vento a favor para quem

mento e organização. O ato de planejar é decisivo. Tenho sido um adep-

ignora onde está e aonde quer chegar. É preciso ter um mapa de nave-

to do planejamento desde os movimentos sociais, quando fui liderança

gação, ainda mais em tempos turbulentos e dinâmicos como os atuais.

estudantil, ainda nos tempos da ditadura.

Tempos de globalização socioeconômica e cultural, de comunicação in-

Investi em planejamento para orientar meus mandatos parlamen-

termitente e democratizada, e de concorrência e instabilidade endêmica.

tares. À frente da prefeitura da capital, elaboramos o Vitória do Futuro,

Atualmente, e ao longo de tantos anos, o que fica claro é o valor da

um pioneiro planejamento estratégico de médio e longo prazo para mu-

ação planejada e organizada, da disciplina nos processos de ação organiza-

nicípios em nosso País.

cional. Atenção às mudanças de cenário e às evoluções contingenciais não

No Governo do Estado, rece-

Investi em planejamento para orien-

significa desprezo à conduta organizada e planejada. Muito pelo contrário.

bendo uma situação desafiadora, após

tar meus mandatos parlamentares. À

As organizações contemporâneas, imersas num ambiente de com-

três governos que tiveram muitos pro-

frente da prefeitura da capital, ela-

petitividade global, mudanças intermitentes, concorrência numerosa,

blemas, o planejamento foi ferramen-

boramos o Vitória do Futuro, um pio-

visibilidade radical e públicos cada vez mais exigentes, não podem se

ta essencial de trabalho. Acreditei que,

neiro planejamento estratégico para

dar ao luxo de viver ao sabor das ondas. Nesse caso, o naufrágio é cer-

tendo um diagnóstico claro da reali-

municípios em nosso País. No Gover-

to. Muito obrigado!

dade, da máquina pública, das insti-

no do Estado, o planejamento foi fer-

tuições e do quadro socioeconômico

ramenta essencial de trabalho. 

capixaba, poderia estabelecer e perseguir objetivos e metas com vistas a melhorar a vida entre nós. Fizemos um
planejamento antes mesmo de tomar posse. Logo no início de 2003, com
informações mais concretas, elaboramos o planejamento da administração,
que foi atualizado anualmente.
Quando a situação melhorou, e passamos a conduzir a pauta do
presente de forma pró-ativa, os capixabas puderam lançar um olhar cuidadoso em direção ao seu futuro. Assim, ousamos escrever um plano estratégico de médio e longo prazo, o Espírito Santo 2025.
O ES 2025 foi efetivado em parceria do governo com o Espíri74

Recortes

Paulo Hartung

Cap.3

P l a n e j a m e n t o – R um o e e st r at é gi a

75
to Santo em Ação, uma organização transversal que congrega repre-

A ideia-força, vale frisar, é que, por mais que se tenha um bom bar-

sentações de empresários e movimentos da sociedade civil organizada.

co e uma boa vela, não existe vento favorável para quem não sabe onde

O ES 2025 mobilizou o que temos de melhor no Estado e no Bra-

está e aonde quer chegar. Tendo definido com clareza o Espírito Santo

sil em termos de inteligência e experiência em planejamento estratégi-

que queremos, avançamos na implementação de ações que nos condu-

co. Estiveram envolvidas dezenas de profissionais, sob coordenação da

zissem aos cenários desejados.

conceituada Macroplan, representada pelos diretores Claudio Porto e
José Paulo Silveira e pelo coordenador Alexandre Mattos de Andrade.

Nesse sentido, o ES 2025 dialoga com ações de sustentabilidade,
como as políticas de recomposição da cobertura florestal e recuperação
e preservação dos recursos hídricos. Um exemplo de vanguarda é o Fun-

Estruturamos o plano a partir dos seguintes eixos estratégicos:

dágua, que repassa recursos aos produtores rurais com vistas à proteção

16  esenvolvimento humano capixaba segundo padrões internaD

de nascentes em suas propriedades.

cionais de excelência;
26  rradicação da pobreza e a redução das desigualdades para amE
pla inclusão social;
36  edução drástica e definitiva da violência e da criminalidade
R
no Espírito Santo;
46  romoção de um desenvolvimento equilibrado entre a Região
P
Metropolitana, o interior e o litoral;

Os parâmetros do ES 2025 dialogam com ações de desconcentração do desenvolvimento. Nesse sentido, criamos e implantamos o Fundo de Desenvolvimento Regional, que está distribuindo cerca de R$ 100
milhões, a partir de uma estratégia de repartição de recursos oposta à
do ICMS, historicamente injusta com a maioria dos municípios.
Também como forma de democratizar as oportunidades de crescimento individual e coletivo em nosso Estado, o ES 2025 dialoga com o

56  esenvolvimento de uma rede de cidades;
D

NossoCrédito, um sistema de microcrédito que se tornou presente em

66  ecuperação e conservação dos recursos naturais;
R

todos os municípios capixabas.

76  iversificação econômica, com agregação de valor à produção
D
e adensamento das cadeias produtivas;
86  lcance de níveis crescentes de eficiência, integração e acessiA
bilidade do sistema logístico;

O ES 2025 dialoga com as ações relativas ao maior desafio de
nosso País, que é levar educação – educação de qualidade – a todos.
Por isso, criamos ações como o programa “Ler, Escrever e Contar”,
para fortalecimento dos primeiros passos da instrução, com destaque

96  esenvolvimento da mobilização e da participação política da soD

para Português, Matemática e Ciências. Criamos as bolsas para en-

ciedade civil e dos cidadãos (capital social), assim como a devoção

sino técnico (Bolsa Sedu), superior (Nossa Bolsa) e de língua estran-

absoluta à ética republicana por parte das instituições públicas;

geira (Bolsa Sedu Idiomas). Além de termos reestruturado a rede f í-

106  ortalecimento da identidade capixaba e da imagem do Estado; e
F

sica e os sistemas de educação fundamental, médio e profissionali-

116  stabelecimento de alianças estratégicas regionais para aproE

zante, entre tantas outras ações.

veitamento de oportunidades de desenvolvimento integrado
de interesse do Estado.
76

Recortes

Paulo Hartung

O ES 2025 dialoga com o provimento de vida saudável e bem-estar
à população, com o desenvolvimento de ações de mudanças de hábitos
Cap.3

P l a n e j a m e n t o – R um o e e st r at é gi a

77
cotidianos (alimentação, exercícios f ísicos, etc.); com o fortalecimento

Nos últimos anos, numa caminhada de travessia, tendo alcança-

do Programa Saúde da Família, a estruturação de uma rede de atenção

do uma nova fronteira histórica, o Espírito Santo encontrou rumo e,

básica à saúde, e a construção de três novos hospitais (Central, São Lu-

com o ES 2025, deixou muito claro aonde deseja chegar, consolidando-

cas e Dório Silva), além da implementação de uma política de suporte

-se como uma terra de oportunidades para todos e prosperidade com-

ao essencial trabalho dos hospitais filantrópicos.

partilhada. Muito obrigado!

O ES 2025 dialoga com a inclusão social por meio de programas
como o Pronaf Capixaba, o Luz para Todos, o Caminhos do Campo, e a
construção de casas populares, inclusive no interior, entre outros.
Não vou me prolongar nessa
Nos marcos da igualdade de opor-

listagem de ações implementadas a

tunidades e do desenvolvimento so-

partir dos diagnósticos e cenários

cialmente inclusivo, ambientalmen-

definidos pelo ES 2025. Até por-

te sustentável e geograficamente des-

que as conquistas que permitiram a

concentrado, o Espírito Santo deu

inauguração do Novo Espírito San-

início à caminhada em novo tempo

to estão aí para todos verem. São

de sua história. 

vitórias que alcançaram a vida de
todos os 3,5 milhões de capixabas.

Nos marcos da igualdade de oportunidades e do desenvolvimento socialmente inclusivo, ambientalmente sustentável e geograficamente desconcentrado, o Espírito Santo deu início à caminhada em novo
tempo de sua história.
Com os choques ético e de gestão, nos tornamos um dos Estados
mais organizados do ponto de vista fiscal. Como resultado, a partir de
2003, conquistamos melhorias em todos os indicadores sociais, sendo
que, em muitos casos, lideramos os avanços registrados no País.
Também nos tornamos um grande polo de atração de investimentos privados, sendo que o ES 2025 é um dos balizadores do futuro de prosperidade compartilhada entre os capixabas. Como bem observou o filósofo, não há vento favorável para quem desconhece onde
está e ignora aonde quer chegar.
78

Recortes

Paulo Hartung

Cap.3

P l a n e j a m e n t o – R um o e e st r at é gi a

79
Cap. 4

Gestão

Investimento Decisivo

A

conjuntura de dinâmicas e severas transformações
pela qual o mundo vem sendo convulsionado afeta diretamente as organizações públicas em sua interface
com os cidadãos e a sociedade civil como um todo.
Nas palestras selecionadas a seguir, o ex-governador Paulo Hartung dedica-se a falar um pouco dos

rebatimentos desses novos tempos na esfera governativa, especialmente no âmbito da gestão e da atualização tecnológica, tendo como
base a experiência capixaba (2003-2010).
São questões decisivas, tendo-se em vista que os governos se estruturam para dar respostas aos cidadãos, que os sustentam com pesados impostos e lhes elegem líderes com missão de construir uma realidade melhor para todos.
E, nos atuais tempos, os governos estão desafiados a se atualizar segundo uma extensa agenda. Dos trâmites de suas burocracias,
passando por políticas públicas, legislações, demandas sociopolíticas, econômicas e culturais, até os processos de interação com os cidadãos, entre outros.

Cap. 4

G e stã o – I n v e sti m en t o D e c i si v o

81
A e x per i ênc ia d o g ov erno c api x aba 2 0 0 3 - 2 010

A máquina pública estava destroçada, sucateada. As finanças estavam em completa desorganização. Havia uma densa e ampla teia de cor-

Estou honrado em participar deste encontro com vocês aqui no estado

rupção, desmandos e crime organizado sombreando os poderes públicos.

de Alagoas. Vou compartilhar um pouco de nossa experiência à frente

Estávamos inadimplentes com nossos compromissos com a União,

do Executivo capixaba, entre os anos de 2003 e 2010.

o BNDES, o Banco Mundial e o Banco Interamericano. Em dívidas de

Não venho com propostas de paradigmas. Com o compartilha-

curto prazo vencidas, havia um passivo de R$ 1,2 bilhão. Essa dívida, que

mento de alguns tópicos acerca dessa caminhada, quero apenas des-

equivalia a cinco arrecadações à época, incluía duas folhas de pagamento

pertar inspiração e reafirmar a potência da política para fazer a dife-

de servidores, direitos e vantagens de planos de carreira em atraso, além

rença em nossas vidas.

de débitos com prestadores de serviços e fornecedores.

Inicialmente, gostaria de registrar meus cumprimentos pelo trabalho que vocês estão desenvolvendo em Alagoas.
Guardadas as peculiaridades de cada Estado, há pouco mais de
oito anos o Espírito Santo também enfrentava um tempo que demanda-

Havia ainda atrasos nos repasses de duodécimos aos poderes e instituições públicos. A infraestrutura estadual estava em colapso (escolas,
hospitais, estradas). O sistema de segurança estava desmontado. Além
disso tudo, a PM estava aquartelada.

va um inédito esforço de superação.

Se a situação era absolutamente crítica, configurando-se como o

Ao tomar posse no Executivo capixa-

Vivíamos um dos mais turbulentos e

meu maior desafio, posso dizer que não o enfrentei sozinho. Nessa em-

ba, em 2003, estava assumindo a ta-

desafiantes momentos de nossa tra-

preitada, estive em boa companhia desde a campanha eleitoral.

refa mais dif ícil de minha trajetória

jetória. É sobre a caminhada de tra-

Em função de toda a situação de caos por que passava o Estado, a

profissional. A máquina pública esta-

vessia e o alcance de uma nova fron-

sociedade capixaba já havia feito a transição da indignação para a ação

va destroçada, sucateada. As finanças

teira histórica que gostaria de con-

organizada. Dois exemplos: sob a coordenação da OAB, foi criado o Mo-

estavam em completa desorganização.

versar com vocês.

vimento Reage Espírito Santo; movimentos sociais e empresariais fundaram a ONG Espírito Santo em Ação.

Havia uma densa e ampla teia de cor-

Comecei minha jornada nos

rupção, desmandos e crime organiza-

movimentos sociais, em particular

Revoltada, a sociedade se articulou para acabar com aquele tem-

do sombreando os poderes públicos. 

no movimento estudantil, na luta

po de vergonha, acinte e desgoverno. Esse ânimo social acabou contri-

pela volta da democracia ao nosso

buindo para uma eleição em apenas um turno, o que nos permitiu co-

País. Minha trajetória inclui mandatos no Legislativo estadual e federal
(Câmara e Senado), na Prefeitura de Vitória, na Diretoria Social do BNDES, e no Governo do Estado, por dois mandatos consecutivos.
Ao tomar posse no Executivo capixaba, em 2003, estava assumindo a tarefa mais dif ícil de minha trajetória profissional. Recebi o Espírito
Santo depois de um ciclo de três governos que fracassaram.
82

Recortes

Paulo Hartung

meçar a trabalhar mais cedo, antes mesmo da posse.
Empossado, com apoio dos homens e mulheres de bem do Estado,
suporte da sociedade civil organizada, maioria na Assembleia Legislativa, uma relação harmônica com o Judiciário e o Ministério Público Estadual, começamos a trabalhar em amplo mutirão.
Já de início, implementamos simultaneamente o choque ético e
Cap. 4

G e stã o – I n v e sti m en t o D e c i si v o

83
partimos para um enfrentamento contra a corrupção e o crime organi-

Modernizamos a Auditoria, a Procuradoria, a Gestão, a Secretaria

zado. Dois exemplos de desafios e superação ilustram bem esse momen-

da Fazenda e a Secretaria de Planejamento. Ou seja, dedicamos atenção

to. Num processo de usurpação de poder e em condição completamente

especial à questão da arrecadação, do gasto, do controle e da legalidade,

inconstitucional, a administração tributária do Estado estava nas mãos

tudo isso no escopo de um planejamento bem feito.

do Legislativo. Essa situação permitiu a ocorrência de atos graves e sérios que levaram ao enfraquecimento da arrecadação estadual.

Essa caminhada não foi fácil. Estivemos permanentemente em estado de mobilização junto às forças políticas e sociais, e também do fun-

Com o apoio da nova legislatura, revogamos aqueles dispositivos

cionalismo público. Seja informando sobre os nossos desafios, seja pres-

ilegais e recolocamos a administração tributária no âmbito devido, ou

tando contas das conquistas, sempre deixando claro que há limites na

seja, na Secretaria de Estado da Fazenda. Nesse processo, conseguimos

capacidade de ação dos governos. Também não nos cansamos de aler-

revogar mais de 400 regimes especiais de tributação de ICMS.

tar que governo sozinho não é capaz de resolver todas as questões da

Mas os benefícios ilegais e imorais não estavam garantidos apenas

vida individual e coletiva.

com injunções da Assembleia. Um conjunto de decisões judiciais garan-

Em todo o período de governo, mantínhamos permanente comu-

tia, por exemplo, que o setor

nicação com a sociedade, seja por meio da imprensa, seja por meio de

A caminhada foi longa, mas nos fez

de distribuição de combustí-

uma publicidade extremamente sintonizada com os objetivos, progra-

campeões nacionais de crescimento da

veis e lubrificantes quase não

mas e realizações do governo.

receita por anos seguidos. Com a am-

pagasse tributos no Estado. Em

Mas, além da comunicação midiatizada, eu e minha equipe man-

pliação da arrecadação, também esti-

parceria com o Judiciário, tam-

tínhamos uma rotina de presença em eventos governamentais e de in-

vemos na dianteira do ranking dos in-

bém superamos esse assunto.

teresse público de norte a sul do Estado. Prezados, a interlocução com a

vestimentos com recursos próprios: saí-

Essas e muitas outras

sociedade é decisiva para o êxito de uma empreitada como a de gover-

mos de menos de 1% para mais de 16%.

ações moralizadoras permi-

nar, ainda mais em tempo de gigantescos desafios.

tiram que iniciássemos a re-

Acerca da relação com o funcionalismo, desde o início estabele-

composição das receitas públicas. A caminhada foi longa, mas nos

cemos uma interlocução clara e objetiva. No primeiro momento, quan-

fez campeões nacionais de crescimento da receita por anos seguidos.

do ainda buscávamos uma solução para os atrasados relativos às gestões

Com a ampliação da arrecadação, também estivemos na dianteira do

anteriores, o vice-governador tomou conta desse diálogo. Em seguida,

ranking dos investimentos com recursos próprios: saímos de menos

a Secretaria de Gestão e Recursos Humanos assumiu a condução dessa

de 1% para mais de 16%.

interface, que é decisiva e complexa.

Ainda no início da gestão, com a intenção de viabilizar a governabilidade necessária à superação da crise e com o objetivo de colocar

-los em dia, sendo que os atrasados foram quitados em seguida. Com a

o governo novamente a serviço da sociedade capixaba, promovemos a

recuperação das finanças, passamos a fazer reajustes anuais, realizamos

reestruturação de áreas meio da administração.
84

Com relação aos salários, já em janeiro de 2003 passamos a pagá-

concursos, reestruturamos mais de 40 carreiras e criamos outras duas

Recortes

Paulo Hartung

Cap. 4

G e stã o – I n v e sti m en t o D e c i si v o

85
(analista administrativo e financeiro e especialista em políticas públicas

A consciência das limitações de um governo esteve presente em

e gestão governamental), entre outras ações modernizantes, como a in-

todas as fases de nossa administração: na aplicação dos choques ético e

formatização. Mesmo nesse contexto de melhorias, sempre deixamos

de gestão; na recuperação do equilíbrio orçamentário; na quitação total

claros os limites financeiro-orçamentários, e que o nosso governo tinha

das dívidas de curto prazo, ocorrida em dois anos (2005); na retomada

compromisso de dar retornos ao conjunto da população que sustenta a

da capacidade de investimentos; e na aplicação dos maiores volumes de

máquina pública com seus pesados impostos.

recursos públicos já registrados na história do Estado.

Além de não dar conta de tudo, é preciso que todos tenham consci-

Sempre deixamos claro que faríamos o melhor que pudéssemos

ência de que governar é, entre outros, a arte de eleger prioridades, de ad-

– e o fizemos, em parceria com instituições públicas, partidos, lideran-

ministrar contingências e limitações.

ças políticas e organizações da sociedade civil. Mas nunca nos com-

Ao longo da minha trajetória, sempre

Isso sempre foi evidenciado ao

prometemos com o que tínhamos dúvidas se poderíamos realizar, seja

me comprometi com menos do que po-

longo do governo. Até porque, inicial-

durante o complexo processo de enfrentamento e superação da crise,

deria ser feito, considerando os meios

mente, tínhamos uma situação crítica,

seja no período de normalidade administrativa e orçamentária, com

disponíveis. A minha visão é que é me-

com uma agenda que registrava de-

investimentos inéditos.

lhor ir além do que ficar aquém. Além

mandas do presente e, principalmen-

Aliás, a ação em mutirão e o trabalho pautado em amplo apoio so-

de não dar conta de tudo, é preciso

te, questões resultantes de um longo

cial são pontos a serem destacados. Instituímos uma parceria estratégi-

que todos tenham consciência de que

período de desencontro, sem falar nos

ca com o setor privado, que passou a ter um ambiente de confiabilidade

governar é, entre outros, a arte de ele-

problemas estruturais e históricos que

e estabilidade político-institucional.

ger prioridades, de administrar con-

afligem o País como um todo.

Além disso, criamos regras confiáveis e transparentes para dina-

Aqui destaco que, ao longo da

mizar o desenvolvimento, que passou a seguir o modelo da inclusão so-

minha trajetória, sempre me com-

cial produtiva, da sustentabilidade ambiental, da descentralização geo-

prometi com menos do que poderia ser feito, considerando os meios

gráfica e da modernização tecnológica, tendo em vista a democratiza-

disponíveis. A minha visão é que é melhor ir além do que ficar aquém.

ção das oportunidades nas terras capixabas.

tingências e limitações. 

Um cotidiano político de decepções torna aguda a grave crise de

Instituímos dois grandes programas para fomentar o desenvolvi-

representatividade por que passa o modelo de democracia que temos

mento. O Programa de Incentivo ao Investimento no Estado do Espíri-

consolidado no País. É muito melhor surpreender do que decepcionar.

to Santo (Invest-ES) e o Programa de Competitividade Sistêmica para o

Felizmente, tivemos uma sucessão de conquistas surpreendentes, pro-

Estado, o Compete-ES.

vando a força da Política como ferramenta civilizatória.

Estabelecemos uma parceria com a já citada ONG Espírito Santo

Isso quer dizer, meus caros: é preciso administrar dinheiro, recursos humanos, muitas coisas, mas não se pode jamais esquecer de traba-

sindicatos. Também mantivemos interfaces importantes com os movi-

lhar permanentemente as expectativas da sociedade.
86

em Ação, uma organização empresarial que dialoga com federações e
mentos sociais. Por exemplo: a OAB, as igrejas e os movimentos popu-

Recortes

Paulo Hartung

Cap. 4

G e stã o – I n v e sti m en t o D e c i si v o

87
lares e sindicais foram parceiros na luta para enfrentarmos os desmandos que marcavam a realidade capixaba até 2002.

A tarefa foi árdua e desafiante, mas, repito, sempre estive em boas
companhias. E isso fez toda a diferença. Acredito que dentre as princi-

Reformulamos, dinamizamos e modernizamos os diversos conselhos

pais condicionantes da ação de um líder esteja a possibilidade de mon-

estaduais, tendo em vista a discussão e o acompanhamento de políticas pú-

tar boas equipes e de mobilizar forças em razão de um objetivo comum.

blicas. Fomos um governo aberto às diversas representações da sociedade.

Conforme já tivemos a oportunidade de citar, desde o início do go-

A equipe tinha orientação para manter diálogo permanente com os diferen-

verno adotamos as mais modernas ferramentas de trabalho, para supe-

tes movimentos sociais organizados na condução das ações governativas.

rar os desafios encontrados, alcançar metas e conquistar avanços. Des-

Outra parceria importante foi firmada com os municípios. Fui pre-

taque especial para o planejamento estratégico.

feito da capital capixaba, e tenho experiência e sensibilidade para per-

Em verdade, esse tipo de planejamento nos ajudou antes mesmo da

ceber a importância do poder local. Nesse sentido, posso dizer que fiz

posse. Com a equipe de transição e os dados que tínhamos à disposição,

um governo municipalista.

traçamos o mapa dos passos iniciais da caminhada. Dois meses após a pos-

Por intermédio do diálogo constante com a associação que representa os 78 municípios capixabas, a Amunes, pudemos formular políti-

se, já estávamos realizando o primeiro seminário de planejamento, que foi
atualizado em encontros anuais até o fim do nosso período de governo.

cas públicas ajustadas às necessida-

Logo em seguida, em parceria com a sociedade civil organizada

Nos dois mandatos, montamos um

des de cada região, assim como con-

e o Movimento Espírito Santo em Ação, escrevemos o Espírito Santo

time que reuniu boa parte das melho-

seguimos implementar ações deci-

2025, um planejamento de longo curso. Em todos esses processos, con-

res cabeças do Estado e ainda agrega-

sivas em áreas como saúde, educa-

tamos com a excelência da Macro-

mos profissionais de excelência Bra-

ção, combate à pobreza e fomento

plan a nos assessorar.

sil afora que somaram forças para a

às vocações locais.

O cumprimento das prescrições de or-

O Plano de Desenvolvimen-

dem político-institucional e socioeco-

Vale ressaltar a criação do

to Espírito Santo 2025 é, essencial-

nômica do Espírito Santo 2025 pode

Fundo para a Redução das Desi-

mente, uma agenda para a constru-

levar o Estado a alcançar, em menos

gualdades Regionais e do Nosso-

ção de uma duradoura realidade de

de 20 anos, padrões de desenvolvi-

Crédito, o maior programa de microcrédito do País, com agências nos

prosperidade nas terras capixabas.

mento socioeconômico próximos aos

78 municípios capixabas.

Duradoura porque fundada na de-

dos países com as melhores condições

Em toda essa trajetória, gostaria de destacar o valor da ação em equi-

mocratização das oportunidades de

de vida na atualidade. 

pe e, em especial, a adoção do planejamento estratégico como principal

crescimento individual e coletivo

ferramenta de trabalho. Nos dois mandatos, montamos um time que reu-

e, também, porque constituída a partir do prioritário investimento em

niu boa parte das melhores cabeças do Estado e ainda agregamos profis-

educação e do respeito ao meio ambiente, entre outros.

inauguração de um novo tempo da
história capixaba. 

sionais de excelência Brasil afora que somaram forças para a inauguração
de um novo tempo da história capixaba.
88

Recortes

Paulo Hartung

O cumprimento das prescrições de ordem político-institucional e
socioeconômica do Espírito Santo 2025 pode levar o Estado a alcançar,
Cap. 4

G e stã o – I n v e sti m en t o D e c i si v o

89
em menos de 20 anos, padrões de desenvolvimento socioeconômico pró-

caráter decisivo do trabalho em equipe e da qualificação do time; o va-

ximos aos dos países com as melhores condições de vida na atualidade.

lor do planejamento estratégico e da gestão intensiva de projetos; a to-

Com um planejamento de aplicação imediata e um plano de médio

lerância zero com a corrupção e o desmando; o valor da liderança; a im-

e longo prazo, atuamos para transformar intenções estratégicas em ações e

prescindível comunicação ininterrupta com a sociedade, seja pelos meios

resultados, sem nos desviar dos horizontes desejados, mas também de olho

de comunicação, seja presencialmente. E por fim, mas não menos im-

nas contingências. O caminho escolhido foi o gerenciamento intensivo.

portante, a centralidade da política de base republicana e democrática

Nesse sentido, montamos um escritório de projetos, unidade que
foi o embrião da Secretaria de Estado de Gerenciamento de Projetos (Se-

para operar as mudanças que a vida em coletividade demanda, para fazer avançar o processo civilizatório entre nós.

gep). Seguindo as metas do Plano Estratégico, o governo definiu uma car-

Afinal, como sentenciou o saudoso geógrafo Milton Santos: “Daí

teira de cerca de 30 projetos estruturantes, com metas, cronograma, esco-

a importância da política, a arte de pensar as mudanças e torná-las efe-

po, público-alvo, dentre outras variáveis. Para o controle efetivo de todas

tivas”. Muito obrigado!

as ações a eles vinculadas, foi desenvolvido um software, denominado Sistema de Gerenciamento EstraAo longo desse processo de superações

tégico de Projetos do Governo

e conquistas, houve muito aprendiza-

do Espírito Santo (SigES).

do. Percepções e práticas se consolida-

Para cada um dos pro-

ram. Algumas crenças se dissiparam. O

jetos, foram escolhidos ge-

teste de realidade é sempre muito en-

rentes, que são responsáveis

riquecedor, além de esclarecedor. 

diretos pelo acompanhamento f ísico e financeiro dos pro-

gramas. Eles também informam, em tempo real, o andamento das atividades, restrições/riscos e acionam o Escritório de Projetos para o apoio
que se fizer necessário, objetivando assim um monitoramento intensivo e eficaz, num ambiente de comunicação integrada.
Prezados, ao longo desse processo de superações e conquistas,
houve muito aprendizado. Percepções e práticas se consolidaram. Algumas crenças se dissiparam. O teste de realidade é sempre muito enriquecedor, além de esclarecedor.
Dentre os muitos aspectos que eu poderia ressaltar, destaco a importância da articulação entre governo e sociedade civil organizada; o
90

Recortes

Paulo Hartung

Cap. 4

G e stã o – I n v e sti m en t o D e c i si v o

91
Tec nol o gi a s da infor m aç ão e
comuni c a ç ão e novo s par adigm a s

Esse novo paradigma substitui os dois anteriores: o do vapor, que inaugurou o modo de produção capitalista, e o da energia elétrica e do petróleo,
que deu um novo upgrade no capitalismo na virada do século XIX para o XX.

Gostaria de falar sobre as tecnologias da informação e da comunicação,

Só para se ter uma ideia do que estamos vivendo, enquanto as tec-

também conhecidas como TICs, a partir de duas perspectivas. A primei-

nologias da revolução industrial demandaram dois séculos para alcançar

ra, como fator de fundação de um novo paradigma capitalista, incluindo

o planeta, as tecnologias digitais da informação e da comunicação difun-

aí um novo modo de viver e produzir em coletividade. A segunda ver-

diram-se em menos de duas décadas.

tente é sobre como as TICs podem impactar a gestão pública, partindo

O conjunto de tecnologias de informação e comunicação passou a

do princípio de que ela deva primar pela excelência e privilegiar e incen-

dar respostas altamente positivas ao espírito capitalista de expansão inces-

tivar os preceitos republicanos e democráticos.

sante, ainda mais para um capitalismo que já investia numa nova configu-

O sociólogo espanhol Manuel Castells, um atento estudioso da
contemporaneidade, afirma que as tecnologias da informação e da co-

ração global de produção, comércio e ganhos.
Por terem o condão de centralizar o planejamento e articular a pro-

municação promoveram uma revolução no modo de produção capita-

dução e o comércio, além de viabili-

lista e, com isso, uma profunda mudança nas bases de nossa sociedade.

zar o sistema de especulação finan-

No rastro das mudanças econômicas,

Segundo Castells, a partir dos anos de 1970, a disseminação pro-

ceira ao redor do mundo, as TICs

as tecnologias da informação e da co-

gressiva e agressiva das tecnologias digitais de processamento e trans-

possibilitaram aos capitalistas con-

municação radicalizaram uma carac-

missão de informações, assim como a interconexão planetária dos sis-

temporâneos enxergar e tratar o pla-

terística central das sociedades, que é

temas de telecomunicações e comunicação, fundamentaram um novo

neta como um lugar plenamente in-

a convivência e a produção, enfim, a

tempo capitalista.

tegrado e articulado para sua ação.

vida baseada em redes. 

Castells define a nova economia como informacional e global, cujos

No rastro das mudanças eco-

pressupostos são a produtividade, a concorrência e as interações. “Infor-

nômicas, as tecnologias da informação e da comunicação radicalizaram

macional porque a produtividade e a competitividade das unidades ou

uma característica central das sociedades, que é a convivência e a pro-

agentes nessa economia (sejam empresas, regiões ou nações) dependem

dução, enfim, a vida baseada em redes. Por isso é que Castells chama a

basicamente de sua capacidade de gerar, processar e aplicar de forma efi-

atual sociabilidade de Sociedade em Rede, tal a capacidade de conexão,

ciente informações baseadas em conhecimentos” “Global porque as prin.

inclusive planetária, que as TICs promovem e suportam.

cipais atividades produtivas, o consumo e a circulação, assim como seus
componentes (capital, trabalho, matéria-prima, administração, informa-

tram as revoluções da juventude ao redor do mundo, as trocas culturais

ção, tecnologia e mercado) estão organizados em escala global”. “Infor-

entre diversos povos, a nossa verdadeira dependência de mídias pesso-

macional e global porque, sob novas condições históricas, a produtivida-

ais (telefone celular, computadores e assemelhados) e mídias coletivas

de é gerada e a concorrência é feita em uma rede global de informação”.
92

E isso vale para as questões sociais, políticas e culturais, como mos-

(TV, jornais, internet, etc.), sem falar na profunda e inédita interdepen-

Recortes

Paulo Hartung

Cap. 4

G e stã o – I n v e sti m en t o D e c i si v o

93
dência econômico-financeira que a sociedade em rede produziu, con-

enfim, de conectar o planeta. Se tudo isso for utilizado para o avanço ci-

forme já citei. Com diria um outro pesquisador, o canadense Marshall

vilizatório, perfeito. Mas, como disse, isso depende de escolhas.

McLuhan, o que vivemos é uma aldeia global.

O emprego das TICs no âmbito dos governos não é diferente: de-

Descrito esse cenário de transformação, que se dinamiza a cada dia

pende de escolhas. Aproveito, a partir de agora, para, à medida que falar

em função das novidades tecnológicas, que são sucessivas e, por vezes,

conceitualmente acerca das possibilidades de usos das tecnologias, citar

assustadoras, perguntamos: como ficam os governos? Como as TICs po-

algumas realizações que promovemos à frente do Governo do Estado.

dem ser utilizadas na administração pública? Elas podem ser ferramen-

O uso intensivo e massivo de TICs pela administração pública ge-

tas úteis à reinvenção dos governos, processo de que tanto precisamos?

ralmente vem denominado pelo que se chama de governo eletrônico ou

Começo essa parte da explanação com duas observações. Primei-

e-gov. É a partir de uma política global de governança eletrônica que se

ramente, conforme escreveu poeticamente o saudoso geógrafo Milton
Santos, o homem jamais inventou uma tecnologia como as tecnologias

definem usos e aplicações das TICs no âmbito governamental.
A Organização das Nações Unidas (ONU) faz periodicamente um
estudo planetário sobre a situação do e-gov e constata que a maioria ab-

digitais de informação e comunicação.
Para Santos, as TICs são tecnologias doces, dóceis, uma vez que se

soluta dos países investe em governo eletrônico. Mas a maioria o faz de

adaptam aos mais diversos usos e necessidades, nas mais diversas cul-

forma precária, incipiente, basicamente usando sites e portais como es-

turas. Apesar de ter denunciado seu uso perverso, não emancipatório,

paço para publicidade de governo e oferecendo alguns poucos serviços.

Milton Santos afirmava, com inteli-

Para a ONU, governo eletrônico é “o uso da tecnologia da infor-

Tecnologia sozinha não faz revolu-

gência, lucidez e honestidade, que as

mação e da comunicação e sua aplicação pelo governo para a provisão

ção. As transformações históricas

TICs são, potencialmente, tecnolo-

da informação e de serviços públicos básicos ao povo”.

são obras humanas. São conquistas

gias da liberdade.

Nessa perspectiva, o governo eletrônico significa “implementar
estratégias para a integração e a promoção da transparência nas administrações públicas e nos processos democráticos, melhorando a efici-

faço o segundo adendo: tecnologia

de tecnologias. 

Pegando carona na poética,
mas lúcida, observação de Santos,

de homens que, inclusive, se utilizam

ência e fortalecendo as relações com os cidadãos”.

sozinha não faz revolução. O fato de ela ser potencialmente revolucio-

Nesse processo, é preciso que “iniciativas e serviços nacionais

nária por suas características técnicas não a torna necessariamente re-

de e-gov se adaptem às necessidades dos cidadãos e empreendedo-

volucionária. As transformações históricas são obras humanas. São con-

res, com o fim de alcançar uma distribuição mais eficaz dos recursos

quistas de homens que, inclusive, se utilizam de tecnologias.

e dos bens públicos”.

Feitas as observações, vamos às potências das TICs. Dentre as no-

Segundo as Nações Unidas, o “e-gov compreende interações ele-

vidades mais espantosas, conforme salientou Santos, está a sua capaci-

trônicas de três tipos: governo-governo (G2G); governo-negócio (G2B),

dade de adaptação às necessidades mais distintas. Há ainda a potência

e seu reverso; e governo-consumidor/cidadão (G2C), e seu reverso”.

para ampliar os processos de trocas entre pessoas, comunidades, nações,
94

Recortes

Paulo Hartung

Integração, eficácia, prestação de serviços e responsabilidade goverCap. 4

G e stã o – I n v e sti m en t o D e c i si v o

95
nativa são termos recorrentes na definição de governo eletrônico propos-

Com uso intensivo dessas tecnologias, os governos passam a ter
uma capacidade extremamente potencializada de fiscalização relativa a

to pela Cúpula da ONU sobre o tema.
Nesse âmbito, podemos citar realizações como o canal de acompanhamento on-line da vida escolar dos estudantes por parte dos familiares,

questões fazendárias. Aqui, citamos a implantação da Nota fiscal Eletrônica e do Sistema de Arrecadação On-Line.

o investimento em informatização nos hospitais estaduais e filantrópicos

Mas não é só isso. O uso das TICs na administração pública pode

e nas farmácias cidadãs, e a criação do Ciodes, um serviço de excelência

favorecer a ampliação e a consolidação dos valores democráticos e repu-

com suporte tecnológico decisivo, assim como diversos serviços digitais.

blicanos entre nós. As TICs oferecem potencial para se ampliar a trans-

Para além das melhorias na relação da administração pública com os

parência dos atos e gastos governamentais, assim como dão suporte a

cidadãos e contribuintes, com outras instâncias públicas e com a iniciativa

canais de interlocução entre poderes públicos e cidadãos, constituindo

privada, melhorando e agilizando as entregas, as TICs podem ser utiliza-

um ambiente de acompanhamento, fiscalização, trocas, interações e di-

das na qualificação do planejamento,

álogos que enriquecem o republicanismo e a democracia. Podemos citar

Para além das melhorias na relação

da gestão e da administração pública.

a implantação do Portal da Transparência e de diversos canais digitais de

da administração pública com os ci-

Os processos de planejamento

dadãos e contribuintes, as TICs po-

e gestão de projetos e ações gover-

Enfim, as TICs têm potencial para não apenas ajudar a reinventar os

dem ser utilizadas na qualificação

namentais, que demandam alta ca-

governos – que precisam emergencialmente ser reformados –, como tam-

do planejamento, da gestão e da ad-

pacidade de articulação entre seto-

bém oferecem meios para oxigenar e fazer avançar o processo civilizató-

ministração pública. 

res e acompanhamento intermiten-

rio republicano e democrático. Mas, como salientamos, tudo depende de

te e em tempo real, se beneficiam

escolhas, de decisões, uma vez que tecnologia sozinha não faz revolução.

muito dos investimentos em tecnologia de informação e comunicação.

Também é preciso considerar alguns desafios impostos à gover-

Algumas iniciativas que implementamos foram 0 Sistema de Ge-

nança eletrônica. Primeiramente, os investimentos em TICs são altos e

renciamento Estratégico de Projetos do Governo do Espírito Santo (Si-

conversa da população com as autoridades, incluindo uma Ouvidoria.

a própria noção de e-gov é, de certo modo, novidade entre nós.

gES) e o Sistema Integrado de Gestão Administrativa do Estado (Siga).

Há ainda o modelo arcaico de gestão pública, baseado em leis ul-

Integração de atividades, redução de gastos e custeios, convergências

trapassadas e pouco racionais. As atuais regras de licitação/compra, ges-

e sinergias nas aplicações de recursos públicos, entre outros, são ações pos-

tão de pessoal, contratação e de controle precisam ser repensadas ur-

sibilitadas pelas TICs, que podem gerar economia e racionalidade na apli-

gentemente, tendo em vista a diminuição de gastos, o aumento da efi-

cação de recursos oriundos de impostos. O pregão eletrônico e a instala-

ciência e o foco em resultados.

ção de um Datacenter são exemplos de ações nessa área a partir de 2003.
Se a capacidade de gastar com mais qualidade e racionalidade

trônica vem mostrando serviço e se consolidando com uma alternati-

pode ser melhorada com as TICs, o mesmo pode se dizer quanto à me-

va viável à inadiável reengenharia da administração pública e ao avanço

lhoria possível nos processos de arrecadação.
96

No entanto, mesmo com essas condicionantes, a governança ele-

democrático-republicano entre nós.

Recortes

Paulo Hartung

Cap. 4

G e stã o – I n v e sti m en t o D e c i si v o

97
Conforme ressaltamos no começo, o mundo vive sob o paradigma
da informação e da comunicação. Mas a história que estamos construin-

Co n se l h o R e gio n a l de E c o n omia –
Pe r s o n a l ida de d o a n o 2 010 S e t o r P úb l ic o

do a partir do uso dessas tecnologias “doces e dóceis” não vem determinada pela tecnologia, e sim pela decisão política que tomamos frente aos

Gostaria de registrar meu especial agradecimento por esta significati-

potenciais dessas ferramentas.

va homenagem. É para mim muito especial ser reconhecido pelos meus

Como gestor e agente político, venho discutindo e privilegian-

pares de profissão com a entrega do Prêmio Personalidade do ano 2010

do o uso das TICs como meio para a promoção da excelência do servi-

Setor Público. Queridos economistas capixabas, meu muito obriga-

ço público – que, exatamente por ser público, tem de ser de excelência

do de coração. Registro também o significado que tem para mim o ano

– e para o avanço dos valores democráticos e republicanos entre nós.

de 2010, período a que se refere a homenagem que hoje me é prestada.

Nessa direção, além dos exem-

2010 foi o último dos oito anos de meus dois mandatos à frente do

Como gestor e agente político, venho

plos citados, é importante mencionar

Executivo Estadual. Marcou o término de uma caminhada que deu iní-

discutindo e privilegiando o uso das

ainda que o Espírito Santo passou a

cio a um novo tempo no Estado do Espírito Santo. Consolidou os primei-

TICs como meio para a promoção da

contar com um Sistema Estadual de

ros passos de uma longa trajetória rumo a um futuro cada vez mais jus-

excelência do serviço público – que,

CTI, tendo sido criada a Fundação

to e igualitário nas terras capixabas.

exatamente por ser público, tem de

de Amparo à Pesquisa do Espírito

Minha formação de econo-

Com austeridade financeiro-orçamen-

ser de excelência – e para o avanço

Santo (Fapes). Trata-se de um movi-

mista, somada à companhia de gran-

tária, choques ético e de gestão, fim dos

dos valores democráticos e republi-

mento para incrementar a produção e

des economistas na equipe de gover-

privilégios e uma firme política fiscal,

canos entre nós. 

o uso de conhecimento, tecnologia e

no, foi um dos fatores decisivos nes-

não só pagamos as dívidas como tam-

inovação entre nós, incluindo o e-gov.

se processo, atravessado por desafios

bém nos tornamos um dos Estados da

Mas como nessa área o dinamismo dá o tom, é preciso manter o

gigantescos e pontuado por pelo me-

Federação com maior capacidade de

nos duas crises econômicas.

investimento com recursos próprios. 

tema das TICs e seus usos em nossa agenda cotidiana, até porque as tecnologias se superam dia a dia no quesito inovação.

A primeira foi uma crise esta-

Dessa forma, ficam algumas perguntas para basear nossas refle-

dual, devido à enorme dívida de curto prazo vencida que encontramos

xões: o que estamos fazendo diante de uma possibilidade tecnológica

junto ao Tesouro Estadual e que naquele momento parecia impagável. Era

revolucionária, capaz de promover transformações em todos os âmbi-

mais de R$ 1,2 bilhão em janeiro de 2003. Além disso, tínhamos o enor-

tos de nossa existência? Estamos utilizando essas doces tecnologias para

me desafio de enfrentar uma densa teia de corrupção e crime organizado.

promover a emancipação humana? Que mundo estamos construindo

Com austeridade financeiro-orçamentária, choques ético e de ges-

ao utilizar as TICs, em nossa casa, em nosso trabalho, como indivíduo,

tão, fim dos privilégios e uma firme política fiscal, não só pagamos as dí-

como cidadão, como gestor público? Muito obrigado!

vidas como também nos tornamos um dos Estados com maior capacidade de investimento com recursos próprios, algo em torno de 16% em 2010.

98

Recortes

Paulo Hartung

Cap. 4

G e stã o – I n v e sti m en t o D e c i si v o

99
A segunda crise eclodiu em setembro de 2008, gerada pelos pro-

Diferentemente da situação que encontramos em 2003, em primei-

blemas de financiamento imobiliário dos Estados Unidos. Foi grande o

ro de janeiro de 2011 entregamos um governo com contas em dia. Implan-

impacto no Brasil e enorme a repercussão no Espírito Santo em função

tamos uma outra cultura fiscal e deixamos em caixa mais de R$ 1,6 bilhão.

das peculiaridades da nossa economia. Um dado retrata bem a situação

Entregamos o Espírito Santo organizado politicamente. Assumi pessoal-

vivida: em 2009, a nossa receita real caiu mais de 4%.

mente a responsabilidade de manter o Estado unido em torno do proje-

Se na primeira crise tivemos de trabalhar para arrumar as finan-

to que trouxe entusiasmo com o presente e o futuro das terras capixabas.

ças e reorganizar o Espírito Santo, na crise financeira de 2008 tivemos

Entregamos uma casa arrumada. Um Estado organizado com a re-

de agir para preservar as conquistas, tivemos de atuar para garantir a re-

forma administrativa que efetivamos, inclusive com a criação de duas no-

organização alcançada com muito trabalho e dedicação.

vas carreiras no serviço público – analista administrativo e financeiro e

Aqui também fomos além, porque não apenas garantimos o nosso

especialista em políticas públicas e gestão governamental. Carreiras que

patrimônio administrativo-financeiro e o equilíbrio orçamentário, como

dialogam com a nossa profissão e que são necessárias à melhoria da efi-

também conseguimos lançar

cácia da máquina governativa.

Não fizemos tudo, nem poderíamos,

um programa de investimen-

Não fiz nada sozinho. Acredito que dentre as principais condicio-

mas avançamos muito. Diferente-

tos de R$ 1 bilhão, o maior da

nantes da ação de um líder esteja a possibilidade de montar boas equi-

mente da situação que encontramos

história capixaba até então. A

pes e de mobilizar forças em razão de um objetivo comum. Nesse sen-

em 2003, entregamos um governo com

precaução e a cautela na con-

tido, tive condições extraordinárias de trabalho.

contas em dia. Implantamos uma ou-

dução do Estado permitiram

Nos dois mandatos, montamos um time que reuniu parte das me-

tra cultura fiscal e deixamos em cai-

que fizéssemos a nossa políti-

lhores cabeças deste Estado e ainda agregamos profissionais de excelên-

xa mais de R$ 1,6 bilhão. 

ca anticíclica, que gerou mais

cia Brasil afora que vieram somar forças para a inauguração de um novo

de 20 mil empregos.

tempo da história capixaba.

Como disse o ex-presidente do México Vicente Fox, governar não é

Nessa caminhada também registro o apoio, a companhia, o supor-

simples. Trata-se de uma atividade extremamente complexa. Mas gover-

te, a torcida, as orações de homens e mulheres de bem do nosso Estado.

nar representa uma possibilidade ímpar de se fazer a diferença na con-

Acho que por aqui não existiu governante que tenha recebido tal apoio,

dução das nossas vidas. E, nos últimos oito anos, podemos dizer que a

seja dos cidadãos, das instituições públicas e privadas, seja das organiza-

diferença foi notada por todos os capixabas.

ções da sociedade civil.

Não fizemos tudo, nem poderíamos, mas avançamos muito.
Nos indicadores de inclusão socioeconômica (redução de miséria e

nhias. E isso fez toda a diferença. É a esse mutirão de homens e mulhe-

pobreza, ascensão à classe média, alfabetização, expectativa de vida,

res honrados destas terras do Espírito Santo que dedico a homenagem

mortalidade infantil, trabalho com carteira assinada, entre outros),

que recebo esta noite. Uma homenagem que estará sempre em minha

muitas vezes, estivemos na vanguarda nacional.
100

A tarefa foi árdua e desafiante, mas sempre estive em boas compa-

memória, como cidadão, como economista. Muito obrigado!

Recortes

Paulo Hartung

Cap. 4

G e stã o – I n v e sti m en t o D e c i si v o

101
Cap. 5

Educação e Juventude

Determinantes do Futuro

N

este capítulo estão reunidas três palestras feitas
pelo ex-governador Paulo Hartung para jovens e
estudantes universitários. A primeira foi dedicada
a alunos da Faculdade Salesiana de Vitória. Em seguida, vêm as palestras apresentadas a integrantes
do Movimento Líderes do Amanhã e a estudantes

de Engenharias da Ufes, em São Mateus.
Nos primeiro e terceiro textos desta seção, Hartung destaca a prio-

ridade absoluta que deve ser dada à educação, salientando o seu papel
para emancipação pessoal e coletiva, constituindo-se como base da democratização do acesso às oportunidades.
O ex-governador ressalta, ainda, a centralidade da instrução em
uma sociedade globalizada e altamente competitiva, além de assinalar
o papel da família no processo de formação educacional.
No segundo texto deste capítulo, está reproduzida a palestra
sobre liderança, proferida em encontro do Movimento Líderes do
Amanhã, em que o ex-governador destaca um tema decisivo em tempos de amplas e inúmeras janelas de oportunidades que se abrem em
nossa realidade.

Cap.5

Educação e Juventude – Determinantes do Futuro

103
D e sen volviment o e Op ort unidad e s

A partir das potencialidades e do trabalho dos capixabas, da recuperação da credibilidade e estabilidade político-institucional, da quali-

Estudei no Colégio Salesiano Nossa Senhora da Vitória do terceiro

ficação gerencial pública, da retomada da capacidade de investimento

ano primário até o pré-vestibular. É uma alegria poder voltar aqui,

do Estado, e da implantação de um novo modelo de desenvolvimento,

nesta escola que esteve na base da minha formação, para comparti-

assentado na inclusão social produtiva, na desconcentração geográfica,

lhar um pouco das visões e percepções que desenvolvi ao longo da

na sustentabilidade ambiental e na modernização tecnológica, o Espíri-

minha trajetória.

to Santo avançou nessa caminhada.

Nasci no interior do Estado, em Guaçuí, me formei em Economia

Crescemos além da média nacional e alcançamos indicadores so-

na Ufes. Durante o curso na Universidade, iniciei minha jornada nos mo-

cioeconômicos de referência no País. Coletivamente, transformamos o

vimentos sociais, em particular no movimento estudantil, na luta pela

presente e ainda fundamos as bases de um novo futuro. Dessa forma, as

volta da democracia no nosso País.

perspectivas se mantêm muito boas.

Minha trajetória inclui mandatos no Legislativo estadual e federal

Segundo informações do Instituto Jones dos Santos Neves, os

(Câmara e Senado), na Prefeitura de Vitória, na Diretoria Social do BN-

anúncios de investimentos com valores superiores a R$ 1 milhão para o

DES, e no Governo do Estado, por dois mandatos consecutivos.

Estado do Espírito Santo no período 2010 a 2015 somam mais de 1.100

Gostaria de propor uma conversa em dois tempos. Começaria falando das minhas impressões sobre desenvolvimento e sua conexão com
as oportunidades. Em seguida, a ideia é discutir um tema estrategicamente ligado à questão das oportunidades: educação.

projetos. Só a Petrobras planeja investir 12,2 bilhões de dólares em exploração e produção.
Os investimentos se encontram em três grandes áreas. Na Infraestrutura, destaque para os setores de energia, construção e melhorias em

Com esse percurso, busco conectar assuntos relevantes para este

terminais portuários, aeroporto e ar-

momento ímpar da vida de cada um de vocês. Um tempo de investi-

mazenagem, além de obras de trans-

Por seus fundamentos, o modelo que

mento em formação para transformar sonhos e projetos em realidade.

porte. A Indústria também é prota-

implementamos a partir de 2003 co-

gonista, assim como os setores de

necta de forma definitiva o desenvol-

Comércio/serviços/lazer.

vimento a uma questão-chave no pro-

Nos últimos anos, o Espírito Santo, numa caminhada de travessia e num percurso de muitas conquistas, encontrou rumo. Não fizemos

Nesse último tópico, entram

cesso civilizatório: a democratização

obras de engenharia, compreenden-

das oportunidades de crescimento in-

Mas os desafios fazem parte da existência. Vencemos muitos, al-

do construção de centros comerciais

dividual e coletivo. 

guns permaneceram ou se modificaram, outros se colocaram, novos sur-

e de lazer (shopping centers, par-

girão. A dinâmica da vida é assim, seja a vida pessoal, seja a vida coleti-

ques temáticos, centros culturais e teatros) e empreendimentos imobi-

va. Por isso, estudo, trabalho, muita energia e disposição para transfor-

liários residenciais e comerciais (edif ícios, lojas de departamentos, ho-

mar a nossa história são fundamentais.

téis, supermercados, armazéns, etc.). Também há centenas de projetos

tudo, nem poderíamos, mas conquistamos avanços dignos de nota, alguns de vanguarda em rankings nacionais.

104

Recortes

Paulo Hartung

Cap.5

Educação e Juventude – Determinantes do Futuro

105
em mobilidade urbana, saneamento/urbanismo, educação, meio am-

Como vocês bem sabem, a educação é o maior legado que qualquer
família pode deixar para seus filhos. Aliás, é preciso salientar o papel deci-

biente, saúde, segurança pública.
Por seus fundamentos, o modelo que implementamos a partir de

sivo da família, não importando o arranjo familiar em questão, no processo

2003 conecta de forma definitiva o desenvolvimento a uma questão-

educacional de nossas crianças e jovens. A ausência de sua função cria uma

-chave no processo civilizatório: a democratização das oportunidades

sobrecarga no sistema de ensino, sobretudo na figura do professor. Ademais,

de crescimento individual e coletivo.

é preciso ficar claro que a escola não tem capacidade para resolver tudo.

“Qualidade do que é oportuno”; “momento propício”; “ocasião fa-

Feito esse alerta mais que urgente, volto a registrar que a educação é

vorável”. Assim descrevem os dicionários o que significa a palavra opor-

a janela de oportunidade que se abre para um horizonte de emancipação

tunidade. O campo da política soma a essas interpretações o sentido da

humana. Do ponto de vista coletivo, é um dos principais requisitos para a

chance histórica de conquista da autonomia e da realização cidadã de in-

construção de um Brasil mais justo e igualitário. Deve ser, portanto, além

divíduos, comunidades e povos. Assim entendemos o que é oportunidade.

de uma conquista pessoal, uma bandeira de luta de todos nós brasileiros.

As palavras do ex-presidente

Deve-se investir na formação cidadã e na capacitação profis-

É preciso salientar o papel decisivo da

norte-americano Abraham Lincoln

sional da juventude, para que as novas e as futuras gerações tenham

família, não importando o arranjo fa-

acerca do que deve ser um gover-

como horizonte o reino da igualdade entre nós. Ou seja, a educação é

miliar em questão, no processo educa-

no são exatas para classificar o sen-

um dos principais investimentos para continuarmos na caminhada de

cional de crianças e jovens. A ausên-

tido político do termo oportunida-

superação do abismo da desigualdade que ainda existe no nosso País.

cia de sua função cria uma sobrecar-

de. Disse Lincoln que o objetivo es-

Um outro fator ligado à educação que merece ser ressaltado é o

ga no sistema de ensino, sobretudo na

sencial do governo é “elevar a con-

valor que ela tem num modo de produção baseado no saber. No capita-

figura do professor. A escola não tem

dição dos homens [...] para permi-

lismo atual, todas as atividades dependem de informação, tecnologias e

capacidade para resolver tudo. 

tir um começo a todos e uma chan-

conhecimento para se tornarem competitivas e qualificadas.

ce justa na corrida da vida”.

Nos tempos da sociedade da informação, articulada planetaria-

Mario Quintana, que vinculou o conceito de democracia à garan-

mente em rede, não se pode pensar em desenvolvimento a longo prazo

tia de acesso igualitário às oportunidades, poetizou: “Democracia? É dar

sem investimento em educação e capacitação para geração de inovação.

a todos o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, isso

Da produção de commodities à constituição do universo digital,

depende de cada um”.
O que seria, nos tempos de hoje, “um começo a todos e uma chance

passando pela produção de bens e serviços, tudo depende de pesquisa,
formação e atualização profissional.

justa”, como disse Lincoln? Em função das peculiaridades da atualidade,
não consigo imaginar outra resposta que não seja: Educação. A educação

tar as oportunidades e superar os desafios da Era do Conhecimento. Na

é uma das vias centrais para o acesso às oportunidades do mundo con-

contemporaneidade, uma sociedade desenvolvida tem seu fundamento

temporâneo – ela representa o “ponto de partida” requerido pelo poeta.
106

É preciso investir prioritariamente em educação para se aprovei-

essencial na educação de qualidade, focada na formação de cidadãos e na

Recortes

Paulo Hartung

Cap.5

Educação e Juventude – Determinantes do Futuro

107
produção qualificada, inovadora e sustentável. Ou seja, no nosso tempo,
o desenvolvimento passa necessariamente pela educação.
Nesse sentido, é ilustrativo ver que onde o Brasil investiu com prio-

A vocês que estão investindo em formação, só tenho a reafirmar:
a educação é tão fundamental ao êxito de cada um de vocês quanto ao
sucesso de nosso Estado, de nosso País.

ridade em educação, pesquisa e inovação, conseguiu avançar para a van-

Prezadas e prezados, com os avanços político-institucionais e eco-

guarda. Temos os exemplos do agronegócio, com a Embrapa, da explo-

nômicos dos últimos anos, o Espírito Santo tem praticamente contrata-

ração de petróleo em águas profundas, com a Petrobras, e da aeronáu-

do um longo período de desenvolvimento inclusivo e sustentável.

tica, com a Embraer. O desafio agora é expandir essa receita de sucesso
para outras áreas onde temos competitividade planetária.

O presente registra muitas oportunidades e o horizonte mostra
a ampliação do quadro de chances de acesso ao crescimento individual

Só para se ter uma noção mais

e coletivo. A vocês que serão os líderes do amanhã, faço um alerta que

É preciso investir prioritariamente em

clara acerca da demanda do desen-

também é um convite: se a construção desse futuro já está em andamen-

educação para se aproveitar as oportu-

volvimento por formação, vou citar

to, a consolidação e o avanço desse novo tempo histórico dependem da

nidades e superar os desafios da Era do

o exemplo das engenharias. Segun-

ação de cada um de nós.

Conhecimento. Uma sociedade desen-

do o Instituto de Pesquisa Econô-

Nesse caminho, o investimento em educação deve continuar sen-

volvida tem seu fundamento essencial

mica Aplicada (Ipea), o crescimen-

do uma das nossas prioridades, em função de um amanhã sempre me-

na educação de qualidade, focada na

to anual do emprego para engenhei-

lhor para todos, com democratização de oportunidades e desenvolvi-

formação de cidadãos e na produção

ros é o dobro dos índices de cresci-

mento social e ambientalmente sustentável. Afinal, como cantou Gon-

qualificada, inovadora e sustentável.

mento da economia, em vários cená-

zaguinha: “Hoje é semente – semente do amanhã”. Amanhã que está em

rios para o período de 2011 a 2020.

nossas mãos. Muito obrigado!

Esses exemplos que citei há pouco servem também para falarmos
do necessário diálogo entre as instituições de educação e formação profissional com as demandas do mercado de trabalho.
Esse foi o caminho que seguimos à frente do Governo do Estado,
ao formularmos e implementarmos os programas Nossa Bolsa, Bolsa
Sedu, Bolsa Sedu Idiomas e a Rede de Educação Técnica e Profissionalizante, entre outras ações.
Meus caros, se, no passado, a instrução era importante para vencer a ignorância, hoje, a formação atualizada e acessível a todos é desafio para a garantia da igualdade de oportunidades. Além disso, combinada com investimentos em ciência e tecnologia, é fator decisivo para a
competitividade econômica.
108

Recortes

Paulo Hartung

Cap.5

Educação e Juventude – Determinantes do Futuro

109
Lí d er e s d o Am anhã

Ou seja, a arte de liderar é também a estratégia de cercar-se de colaboradores que saibam mais da sua área de especialização do que o lí-

Registro minha satisfação pelo convite para estar junto a um colegiado

der, que deve possuir outros atributos, como ter a noção de conjunto,

tão representativo para o desenvolvimento capixaba.

capacidade de motivar e de identificar e potencializar talentos. O pro-

Ao refletir sobre uma possível contribuição ao debate pertinente à

fissionalismo é um requisito básico.

agenda desta organização, e considerando a minha trajetória de homem

Tenho agido assim ao longo de minha vida pessoal e profissional. Te-

público, economista e cidadão, percebi que uma pauta mais que justifica-

nho me cercado de pessoas que complementam e fortalecem minha atua-

da estava dada pelo próprio nome da associação que os agrega. Nesse sen-

ção. Por melhor que seja a formação profissional e intelectual, por maior que

tido, proponho aos “líderes do amanhã” uma conversa sobre os temas Li-

seja a experiência administrativa, é um mau caminho se achar supercapaz.

derança e Futuro – ou Amanhã, para ser mais fiel ao nome da instituição.

A minha trajetória me ensinou que é preciso construir times. Conhecer

Comecemos por conversar um pouco sobre liderança. O que é ser

os colaboradores e, a partir da compreensão de que todos nós temos habili-

um líder? O treinamento da vida me ensinou que liderança é, entre ou-

dades e limitações, fazer um mapeamento de vocações. Cada um deve ocu-

tros, a arte de mobilizar e motivar boas companhias para enfrentar ta-

par o lugar em que mais pode contribuir. É estar no lugar certo para fazer a

refas desafiantes.

coisa certa, num jogo de soma e articulação em que ganha todo o conjunto.

Aprendi desde cedo a não acreditar em voluntarismo. Não se en-

A liderança também deve ser capaz de viabilizar um clima de har-

frenta sozinho um desafio. Ou seja, a liderança é também a arte de mon-

monia e produção de soluções em momentos de crise, desgastes ou equí-

tar equipes. E nesse processo é fun-

vocos. Distante da prática de eleger bodes expiatórios ou culpados, os

O que é ser um líder? O treinamen-

damental saber avaliar vocações, en-

líderes precisam oferecer ambiente de segurança e confiabilidade para

to da vida me ensinou que liderança

tender forças e fraquezas de cada um,

que seus liderados tenham chance de acertar e também errar, entenden-

é, entre outros, a arte de mobilizar e

definir projetos e ações, descentrali-

do que esse é o mecanismo da vida. Parece lugar-comum, mas só não

motivar boas companhias para en-

zar e delegar tarefas, e avaliar os pas-

erra quem não faz, quem vive se omitindo.

frentar tarefas desafiantes. 

sos para qualificar a caminhada. A li-

Equipes sólidas são equipes que convivem com altos e baixos sem

derança é ainda a arte de dar exem-

se desintegrarem diante do primeiro problema ou se destruírem numa

plos e difundir valores caros ao avanço civilizatório, agregando um con-

competitividade irracional entre colegas de projeto. Esse ambiente de co-

junto de pessoas em torno de objetivos comuns.

laboração é imprescindível em função de uma outra determinante da ação

É tradição em nosso País, infelizmente tão afeito a patrimonialismos de toda sorte, a equivocada ideia de montar equipes com amigos

Nenhum líder deve temer a sombra alheia ou se achar o único ca-

e pessoas de convivência próxima. Certamente essas pessoas vão aju-

paz de resolver tudo. A ideia de liderança se fundamenta exatamente na

dar pouco e até podem atrapalhar. No desejo de agradar para se segura-

conjugação de forças e competências sob a condução de quem tem vi-

rem no posto, podem até mesmo informar que faz sol em dia de chuva.
110

de liderança: a capacidade de delegar funções e descentralizar atividades.

são de conjunto e clareza de objetivos a serem alcançados.

Recortes

Paulo Hartung

Cap.5

Educação e Juventude – Determinantes do Futuro

111
Da mesma forma que não acredito em voluntarismo, também não

De acordo com sua filosofia, a ação política está na dependência

creio em improviso. O planejamento é ferramenta essencial para a vida. Em

dos cidadãos e das instituições, civis, públicas ou privadas que se forjam

todo movimento, é preciso ter um diagnóstico claro de onde estamos e uma

para a garantia da dignidade e emancipação do homem.

visão de onde queremos chegar. É imprescindível traçar o mapa da cami-

Nesse sentido, em nossa atualidade, nos partidos, nos fóruns da so-

nhada, definindo-se passos e metas. É preciso ter projeto. Conforme ob-

ciedade civil, nas estruturas dos poderes e instituições públicas, no dia a

servou o pensador, nenhum vento sopra a favor de quem não sabe aonde ir.

dia das escolhas que cada um de nós faz, está a política a constituir uma

Também é fundamental um eficaz e dinâmico processo de gestão, com

cultura peculiar, com interfaces com os campos simbólico e econômico.

capacidade permanente de avaliar os passos dados para fazer os ajustes ne-

O senso comum vincula política somente à atividade partidária e

cessários em direção ao horizonte de-

institucional, percepção reforçada na atualidade por um individualismo

O planejamento é ferramenta essen-

sejado, considerando erros, acertos e

epidêmico que tenta mascarar os vínculos de coletividade da humanida-

cial para a vida. Em tudo, é preciso ter

contingências diversas. Ou seja, é pre-

de – o que também não deixa de ser um comportamento político, mas

um diagnóstico claro de onde estamos

ciso saber montar equipes e, conjunta-

no âmbito egoísta “da política da vida”, em substituição à Política com

e uma visão de onde queremos chegar.

mente, planejar, executar, gerenciar e

“p” maiúsculo, na lúcida definição de Zigmunt Bauman. De toda sorte,

É imprescindível traçar o mapa da ca-

avaliar a caminhada. Cada um ofere-

a política é inseparável da existência coletiva. No entanto, é da Política

minhada, definindo-se passos e metas.

cendo o melhor de si, no lugar certo,

de inicial maiúscula que estou falando e é nela que milito toda uma vida.

É preciso ter projeto. Conforme obser-

em benefício dos objetivos comuns.

Para finalizar, aproveito para fazer uma análise bastante atualiza-

favor de quem não sabe aonde ir. 

Para finalizar esse tópico, con-

da acerca dessa interface que venho aqui ressaltando entre política e li-

sidero que a visão ampliada de lide-

derança. Isso porque essa relação está sendo muito desafiada nos qua-

rança de que falei seja algo relevan-

vou o pensador, nenhum vento sopra a

tro cantos do planeta neste momento.

te em todos os âmbitos da nossa existência, seja no setor público, seja na

Em função dos desafios novos que estão colocados à sociabilidade

iniciativa privada, seja na vida pessoal. Uma prova disso é exatamente a

atual, globalizada e comunicacionalmente articulada e conectada, preci-

organização da qual vocês fazem parte e este próprio evento.

samos ser criativos e ampliar o conceito de liderança, e não só na política,

Passo, agora, ao segundo tempo da nossa conversa: a abordagem

mas também na economia, na cultura, etc.

sobre o Amanhã. Em função da minha formação e da minha atuação

Essa liderança precisa aliar visão estratégica com valores relaciona-

como cidadão e homem público, vou falar do Amanhã como uma cons-

dos a um determinado projeto, constituindo-se um mapa de navegação em

trução da política, um campo decisivo para definir os rumos da História.

tempos turbulentos. É preciso ter uma percepção clara dos mecanismos que

Aristóteles, em sua Política, fundamental texto da Grécia Clássica,

fazem o mundo girar na contemporaneidade, identificando desafios e opor-

vincula política à comunidade de homens que buscam o bem comum. A

tunidades desta complexa atualidade.

política seria a virtude coletiva que trabalha pela prosperidade de todos
os que se agregam na polis, sob os fundamentos da justiça e da liberdade.
112

Nessa caminhada, é preciso ficar claros quais valores nos guiam na
longa jornada de superação do atual paradigma. Essa clareza ética revela a

Recortes

Paulo Hartung

Cap.5

Educação e Juventude – Determinantes do Futuro

113
“alma” de nosso projeto. Individualismo, consumismo, ganhos a qualquer

E xpa n sã o e Pro gre s s o Ca pi x a b a –

custo, irresponsabilidade social e ambiental, entre outros fundamentos de

O p o rt un ida de s e Pe r spe c ti va s

ação, parecem ter-se esgotado e estão plenamente rejeitados mundo afora.
Na minha visão, às lideranças cabem, antes de tudo, o papel de vei-

Gostaria de propor uma conversa em dois tempos. Começaria falando

culadoras do processo histórico, ou seja, devem ser propagandistas de que

das minhas impressões sobre a engenharia e suas conexões com o de-

a vida não é destino ou fatalidade, mas uma narrativa que se pode e se

senvolvimento econômico e social. Em seguida, a ideia é discutir o va-

deve reinventar, principalmente pela Política. Aliada a essa visão, é pre-

lor da educação. Com esse percurso, busco conectar assuntos pertinen-

ciso que sejam fiadoras de um projeto de civilização que dialogue com

tes à profissão escolhida por vocês de modo atualizado, esperando que

os desejos e anseios contemporâneos.

tenha sucesso na engenharia deste bate-papo.

Como bem demonstrou Winston Churchill, é preciso que o líder

Sou economista por formação, mas ao longo da minha trajetória

personifique o entusiasmo, em palavras, gestos e ações, que devem ser

em cargos executivos, na Prefeitura de Vitória e no Governo do Estado,

inspiradoras. Segundo o autor Paul Johnson, a vida de Churchill passa

várias vezes disseram que eu tinha alma de engenheiro. É algo que sem-

ao menos cinco lições importantes: pense sempre grande; nada substi-

pre me deixa muito feliz.

tui o trabalho árduo; nunca deixe que erros e desastres o abatam; não

Penso que fazem essa conexão por causa do que chamam de en-

desperdice energia com coisas pequenas e mesquinhas; e, por fim, não

genho político, processo utilizado para mobilização de energias e forças

deixe que o ódio o domine, anulando o espaço para a alegria na vida.

em prol da construção do interesse comum. E também pelas milhares de

Visão, valores, entusiasmo, projeto, disposição, determinação e traba-

obras que tocamos, promovendo transformações na vida dos capixabas.

lho. Eis um bom caminho para uma liderança, inclusive no mundo da política.

Uma das profissões mais reconhecidas entre nós, a engenharia é

Digo inclusive, pois não se deve esperar que essas e outras ações

uma atividade peculiar. Exige profundo conhecimento na área de exa-

essenciais ocorram apenas no âmbito de partidos e das instituições go-

tas, mas requer visão criativa. Funda-se em saberes consolidados, mas

vernamentais. Conforme salientamos, Política também se faz no dia a

demanda olhar dinâmico em busca de soluções inovadoras.

dia, nos lares, nas empresas, nas organizações de sociedade civil. Polí-

É a partir desse paradigma exigente, fundado numa coerência apa-

tica se faz nas redes sociais da internet, nas praças ao redor do mundo,

rentemente paradoxal, que se formam profissionais dedicados à nobre

para ficarmos com um exemplo bem atual.

missão de transformar os mais diversos recursos naturais e não naturais

E como “são os passos que fazem o caminho” na poética observação
,

em bens e serviços para a melhoria das condições de vida.

de Mario Quintana, cuidemos de projetar, trabalhar e liderar ações por um
amanhã sempre melhor para todos, com democratização de oportunidades

sidades humanas e às necessidades dos variados processos de desenvol-

e desenvolvimento social e ambientalmente sustentável. Afinal, como cantou

vimento que se implementam historicamente. Utiliza-se de saberes em-

Gonzaguinha: “Hoje é semente – semente do amanhã” Amanhã que está em
.

píricos, técnicos e científicos para criação e a modificação de mecanis-

nossas mãos, tecido pela arte da política nossa de cada dia. Muito obrigado!
114

O engenheiro é um profissional que busca dar respostas às neces-

mos, estruturas, produtos e processos.

Recortes

Paulo Hartung

Cap.5

Educação e Juventude – Determinantes do Futuro

115
Engenharia deriva de engenho, cuja origem latina (ingen) sig-

Diante desse quadro, é preciso salientar que o País tem muitos gar-

nifica, entre outros, “faculdade de saber”, “criatividade”. Essa capaci-

galos a serem superados. Há a questão urgente da infraestrutura eco-

dade de engenharia vem se desenvolvendo juntamente com a histó-

nômica (portos, rodovias, ferrovias, aeroportos, habitação, saneamen-

ria do Homem.

to, mobilidade urbana, entre outros). Mas talvez o maior problema es-

No Brasil, o século XX é que vai marcar o efetivo desenvolvimento das engenharias. O conselho federal para regular a profissão foi criado nos anos 1930. O grande impulso se deu a partir dos anos 1950.

teja relacionado com a disponibilidade de novos profissionais e também
com a desatualização de um enorme contingente de graduados.
Segundo dados da Associação Brasileira de Educação em Enge-

Siderurgia, agronomia, indústrias de base, obras rodoviárias, ne-

nharia, para cada 100 formados no ensino superior no País, apenas oito

gócio do petróleo e gás, construção civil, telecomunicações, hidrelétri-

fizeram engenharia. De acordo com a mesma instituição, esse número

cas, indústria aeronáutica e automobilística, entre outros, movimenta-

está muito aquém do que se observa em outros países.

ram o segmento.

Na Coreia do Sul, por exemplo, a relação é de quase 30 formandos

No entanto, em nosso País a profissão viveu um grande boom com

em engenharia para 100 graduados. Na Europa, onde a grande maio-

o chamado milagre econômico, com as obras do “Brasil gigante” dos anos

ria dos problemas de infraestrutura já está resolvida, é da ordem de 15.

1970. O longo intervalo de crise que

Sempre de acordo com a associação, estamos formando histori-

O País tem muitos gargalos a serem su-

vivemos, entre os anos 1980 e 1990,

camente menos de 30 mil engenheiros, embora haja 1.400 cursos e 300

perados. Há a questão urgente da in-

comprometeu o desenvolvimento das

mil vagas. Nessa disparidade, é preciso levar em conta o fato de quase

fraestrutura econômica (portos, rodo-

engenharias. Criaram-se graves em-

metade desses cursos são novos e há uma acentuada evasão.

vias, ferrovias, aeroportos, habitação,

pecilhos ao desempenho da atividade.

O Brasil está formando, em média, um engenheiro para cada 6 mil

saneamento, mobilidade urbana, entre

Com as reformas constitucio-

habitantes. Os EUA formam um engenheiro para cada 3 mil habitantes.

outros). Mas talvez o maior problema

nais e as mudanças infraconstitu-

esteja relacionado com a disponibili-

cionais, a conquista da estabilida-

Conforme dissemos, além do problema do número de profissio-

dade de novos profissionais e também

de econômica e o novo período de

nais, há a questão da qualidade da formação e da atualização dos diplo-

com a desatualização de um enorme

evolução produtiva no País, as en-

mados. Graduação e especialização são temas que precisam ser discuti-

contingente de graduados. 

genharias passaram a viver um qua-

dos à luz de questões curriculares, de mercado e também da atualização

dro bem diferente.

tecnológica pertinente às áreas de atuação das engenharias.

Na Coreia do Sul, é um engenheiro para cada 625 habitantes.

Mais recentemente, num mercado aquecido pelas demandas inter-

O fato é que precisamos correr contra o tempo. O cenário é de

nacionais, especialmente as da China, pelo agronegócio, pela atividade mi-

demanda ascendente. Segundo o Ipea, o crescimento anual do empre-

neradora, pelo negócio do petróleo e gás e pelo incremento da capacidade

go para engenheiros é o dobro dos índices de crescimento da economia,

de consumo no Brasil, as empresas iniciaram uma nova etapa de busca por

em vários cenários para o período de 2011 a 2020.

profissionais das diversas engenharias.
116

Recortes

Paulo Hartung

Com a economia crescendo 4%, aumenta a demanda por engeCap.5

Educação e Juventude – Determinantes do Futuro

117
nheiros em 8,4%. Com aumento econômico de 2,5%, cresce a deman-

nou estratégica para o nosso Estado, que, a partir de 2003, conquistou

da por engenheiros em 5,1%. Esses dados referem-se sempre a números

confiança político-institucional, além de qualificação gerencial pública,

médios, alcançando as diversas áreas da engenharia.

tendo inaugurado um novo ciclo econômico, o terceiro de sua história.

Se verificado o nível de crescimento em torno de 4% , haverá de-

Conforme já disse, a estabilidade econômica, o aumento do con-

manda por 765 mil profissionais. Com crescimento econômico de 2,5%,

sumo, as demandas internacionais por commodities, a ampliação do ne-

563 mil engenheiros serão requisitados. Em 2009, foi registrada uma de-

gócio do petróleo e gás, entre outros, dinamizaram o nosso desenvolvi-

manda por 323 mil engenheiros.

mento e o debate sobre ele.

Como afirmamos, devido ao seu objetivo de transformar, o enge-

Além disso, o século XXI vem questionando as bases de seu pro-

nheiro encarna a própria noção de Homem. Esse ser que busca perma-

gresso, produtor de uma era de desigualdades, exclusões e graves pre-

nentemente construir um espaço condizente com seus anseios, neces-

juízos ambientais. Nessa contingên-

sidades e desejos, transformando o ambiente natural, produzindo cul-

cia, pergunta-se: que modelo de de-

O desenvolvimento é um processo di-

turas diversas, transformando-se sempre.

senvolvimento nos levará a um fu-

nâmico, que deve resultar em mu-

turo de prosperidade e bem-estar

danças e avanços em diversas áreas.

compartilhados?

A distinção básica entre os conceitos

Nessa direção, é imprescindível que o engenheiro tenha uma visão sistêmica e integral do mundo. É preciso ter consciência de sua ação
transformadora da realidade, incluindo desde os processos da vida co-

Em linhas gerais, desenvolvi-

de desenvolvimento, e que faz toda a

tidiana individual e coletiva até os espaços naturais e espaços constru-

mento é um processo dinâmico, que

diferença histórica, está relacionada

ídos de nosso macroambiente. Por isso, é requerido um forte senso de

deve resultar em mudanças e avan-

a como se caminha e a quais alvos se

responsabilidade socioambiental e de ética, de compromisso com a qua-

ços em diversas áreas. A distinção

objetivam no processo de transforma-

lidade de vida e a sustentabilidade.

básica entre os conceitos de desen-

ção de nossas sociedades. 

Em função dos avanços tecnológicos, o curso de engenharia soma

volvimento, e que faz toda a diferen-

atualmente cerca de 30 especialidades, dentre as quais Civil, Elétrica,

ça histórica, está relacionada a como se caminha e a quais alvos se obje-

Mecânica, Metalúrgica, Agronômica, Ambiental, Química, Mecatrô-

tivam no processo de transformação de nossas sociedades.

nica, Naval, de Produção, de Petróleo, da Computação, de Alimentos.

Nessa perspectiva, tenho trabalhado por um modelo de desenvol-

Mas, se podemos resumir, todas têm algo em comum: buscam gerar al-

vimento socialmente inclusivo, ambientalmente sustentável, tecnologi-

ternativas de desenvolvimento.

camente atualizado e geograficamente desconcentrado.

E aqui gostaria de explicitar o modelo de desenvolvimento que venho
defendendo como cidadão, como gestor público que teve a oportunidade

tação desse modelo, cuja consolidação e ampliação venho defendendo em

de liderar experiências administrativas no Executivo estadual e municipal.

todas as oportunidades que se apresentam, como ocorre neste momento.

Nos últimos anos, o debate acerca de modelos de desenvolvimen-

Passo agora ao próximo tópico da nossa conversa. Vou falar da edu-

to passou a movimentar o País. De modo particular, essa questão se tor118

À frente do Governo do Estado do Espírito Santo, lideramos a implan-

cação numa perspectiva mais ampla, para além do que já abordei no caso

Recortes

Paulo Hartung

Cap.5

Educação e Juventude – Determinantes do Futuro

119
específico da Engenharia. Como vocês bem sabem, a educação é o maior

Petrobras; e do agronegócio, com a Embrapa. O desafio agora é expan-

legado que qualquer família pode deixar para seus filhos. É a janela de

dir essa receita de sucesso.

oportunidade que se abre para um horizonte de emancipação humana.

Prezadas e prezados futuros engenheiros, a vocês que terão em

Do ponto de vista coletivo, é uma das principais contribuições da

suas mãos a ação de contribuir para a transformação material da vida,

política para a construção de um Brasil mais justo e igualitário. Deve

guiados por valores caros à caminhada civilizatória, desejo todo o bri-

ser, portanto, além de uma conquista pessoal, uma bandeira de luta de

lhantismo e sucesso.

todos nós brasileiros.

Temos imensas oportunidades e desafios – que na verdade são sem-

Um outro fator ligado à educação que merece ser ressaltado é

pre oportunidades –, especialmente no Espírito Santo, que deu início, a

o valor que ela tem num modo de produção baseado no saber. No

partir de 2003, a uma nova etapa histórica. Um Estado que tem se desen-

capitalismo atual, todas as atividades dependem de informação, tec-

volvido muito e que tem quase contratado um longo período de crescimen-

nologias e conhecimento para gerar produtos e serviços competiti-

to e oportunidades, boa parte delas conectada à futura profissão de vocês.

vos e qualificados.

Cuidemos, então, de projetar e trabalhar por um amanhã sempre

Há uma revolução tanto na produção de bens e serviços quanto na
produção de commodities. Ou seja, é preciso investir prioritariamente

melhor para todos. Que pratiquemos, portanto, a engenharia da construção do reino da igualdade de oportunidade entre nós. Obrigado!

em educação para se aproveitar as
A educação é o principal investimento

oportunidades e superar os desafios

para continuarmos na caminhada de

da Era do Conhecimento.

superação do abismo da desigualdade

Ou seja, meus caros, a educa-

que ainda existe no País. Além disso,

ção é o principal investimento para

combinada com investimentos em ciên-

continuarmos na caminhada de su-

cia e tecnologia, é fator decisivo para a

peração do abismo da desigualdade

competitividade econômica. 

que ainda existe no País. Antigamente, a instrução era importante para a

superação da ignorância. Atualmente, a formação atualizada e acessível
a todos é desafio civilizatório para a garantia da igualdade de oportunidades. Além disso, combinada com investimentos em ciência e tecnologia, é fator decisivo para a competitividade econômica.
Nesse sentido, onde o Brasil investiu com prioridade conseguiu
avançar para a vanguarda, como bem mostram os exemplos da aeronáutica, com a Embraer; do negócio do petróleo em águas profundas, com a
120

Recortes

Paulo Hartung

Cap.5

Educação e Juventude – Determinantes do Futuro

121
Cap. 6

Política

Conquista Histórica Desafiada

P

resença marcante em uma trajetória de mais de três décadas de vida profissional, a política é questão-chave na trajetória de Paulo Hartung. No artigo a seguir, utilizado como
base para palestras junto aos mais diversos públicos, o ex-governador fala de conceitos que considera permanentes
acerca da política a da relação disso que permanece com

aquilo que é fluido, ou seja, a caminhada histórica do dia a dia, atravessada por questões tecnológicas, culturais e econômicas. Enfim, o ex-governador expressa suas convicções e valores sobre a política e ressalta
alguns dos desafios desta na contemporaneidade.

A p o l ític a c omo fe rr a me n ta c i v il iz at ó ria
“Arte de pensar as mudanças e torná-las efetivas”. O saudoso geógrafo
Milton Santos nos deixou como um de seus mais importantes legados
a definitiva conceituação do que seja a política, considerando-se que a
civilização é um projeto em constante movimento e permanentemente
desafiado pela conjuntura socioeconômica e cultural. Acredito na política de verdade, milito e trabalho por ela, e nela vejo um dos melhores caminhos para o avanço da humanidade, para a construção da civilização.
Cap.6

P o lí ti c a – C o n q ui sta H i st ó r i c a D e sa fi a d a

123
O professor Marco Aurélio Nogueira escreveu que a “política diz

Primeiramente, o sombreamento da política pela economia, que,

respeito às atividades que fazem com que as comunidades humanas se

transnacionalizada e globalmente articulada por redes de informação e ne-

organizem, se reconheçam e se governem. Tem a ver com tudo o que

gócios, fragiliza as instâncias políticas, marcadamente nacionais e regionais.

torna os homens mais humanos, mais bem preparados para conviver,

É importante ressaltar que um dos fatores decisivos para o colapso das

dialogar e construir seu destino com

operações do mercado imobiliário norte-americano, que marcou o começo

autonomia e inteligência”.

da crise econômica mundial em 2008, foi exatamente a desregulamenta-

Acredito na política de verdade, milito e trabalho por ela, e nela vejo um

“A política”, escreveu o profes-

ção do sistema financeiro, ocorrida principalmente a partir dos anos 1970.

dos melhores caminhos para o avan-

sor, “propicia a conversão da dispu-

Mas é essa mesma crise surgida, em grande medida, da redução de

ço da humanidade, para a constru-

ta destrutiva em disputa construtiva,

espaço para a política frente às forças econômicas transnacionais, que

ção da civilização. 

permite a passagem do conflito para-

agora demanda ações políticas para a superação dos desafios que asso-

lisante para o conflito transformador”
.

lam especialmente o mundo desenvolvido.

Enxergamos a política como um espaço privilegiado de negocia-

É a política que poderá construir o caminho que tirará a Europa e

ção e diálogo. Ela é um processo de conciliação de pontos de vista e cons-

os Estados Unidos dos alarmantes índices de desemprego. Ela também

trução de decisões fundadas na convergência. Com racionalidade, é uma

terá de encontrar o caminho para o reequilíbrio fiscal de dezenas de na-

instância mediadora de desejos em função das limitações do real. É, em

ções. Mas, se a relevância da polí-

muitos aspectos, a arte de definir prioridades.

tica é bem expressada nas hercúle-

A política vive neste começo de milê-

A política de verdade, distante das promessas e discursos de oni-

as missões contidas nos dois exem-

nio desafios importantes ao seu prota-

potência, afastada do patrimonialismo e do paternalismo, é uma criação

plos citados, os impasses em torno

gonismo. Dentre eles, o sombreamen-

extraordinária para pôr em movimento o curso da história, consideran-

do debate pertinente a essas mesmas

to pela economia internacionalizada,

do a multiplicidade de projetos e visões de mundo, conciliando desejos

questões tornam ainda mais eviden-

incluindo a falta de líderes genuínos

e possibilidades concretas, promovendo a necessária e contínua trans-

te a centralidade da política para o

para enfrentar crises globais; a cultu-

formação da vida em coletividade.

caminhar civilizatório.

ra de individualismo; a corrupção e a

Mas a política, que experimentou um tempo de vigoroso exercí-

Ocorre, no entanto, que, até

impunidade; e a crise de representati-

cio a partir das revoluções liberais do século XVIII, vive neste começo

talvez pela “opressão” a que a política

vidade e diálogo com a sociabilidade

de milênio desafios importantes ao seu protagonismo na pólis.

foi submetida nas últimas décadas,

atual, principalmente os jovens. 

Dentre eles, destacamos quatro pontos: o sombreamento pela eco-

não se tem registrado ultimamente

nomia internacionalizada, incluindo a falta de líderes genuínos para enfrentar crises globais; a cultura do individualismo; a corrupção e a im-

de para projetar uma travessia que leve a um lugar melhor do que aque-

punidade; e a crise de representatividade e diálogo com a sociabilidade

le onde estávamos e, essencialmente, superior ao patamar em que nos

atual, principalmente os jovens.
124

a ocorrência de lideranças políticas de porte, carisma, razão e autorida-

encontramos, planetariamente falando.

Recortes

Paulo Hartung

Cap.6

P o lí ti c a – C o n q ui sta H i st ó r i c a D e sa fi a d a

125
Resumindo, a crise que emergiu também pelo “enfraquecimento”

sociabilidade atual, principalmente com relação à juventude. Isso porque

da política, agora, reclama personagens, atitudes e ações políticas para

as novas tecnologias de informação e comunicação (TICs) estão crian-

sua superação. Mas as respostas não estão sendo efetivas, ou tão efetivas

do condições para que as instituições públicas e políticas estejam per-

quanto o cenário demanda. Essa crise mostra mais uma vez a relevân-

manentemente na berlinda.

cia da política, como de resto o faz a nossa trajetória civilizatória, mes-

Essas tecnologias compuseram a infraestrutura que permitiu o avanço

mo que se insista, em alguns períodos, em estar-se cego a essa realidade.

da globalização, levando-nos à “irrelevância” da política, conforme salienta-

Uma outra marca do nosso tempo, também decisiva para o cam-

mos há pouco. Na atualidade, as TICs estão na base de novos desafios im-

po da política, é a instituição de uma cultura do individualismo, da fal-

postos à política, mas, de outra sorte, potencialmente positivos à atividade.
A democracia é um valor universal a guiar ações históricas, mas

ta de compaixão, do egoísmo.
Tendo em vista que a política diz respeito à construção do bem

as atividades que por ela se iluminam precisam ser contemporâneas do

comum a partir da convergência de ideias e projetos, este tempo de en-

tempo vivido. Nesse sentido é que as TICs abrem espaço, principalmen-

colhimento do debate de questões

te nas redes sociais, para o debate acerca da necessidade de a represen-

A crise que emergiu também pelo “en-

estruturantes e coletivas no espaço

tação, a agenda e interfaces políticas se atualizarem.

fraquecimento” da política, agora, re-

público tem sido árido para o âm-

clama personagens, atitudes e ações po-

bito político.

Não dá para manter estruturas e práticas arcaicas em um tempo
completamente convulsionado por

líticas para sua superação. Mas as res-

O terceiro ponto de nossa aná-

tecnologias de vanguarda e agitado

A democracia é um valor universal a

postas não estão sendo efetivas, ou tão

lise diz respeito à corrupção e outros

por demandas sociais, econômicas e

guiar ações históricas, mas as ativida-

efetivas quanto o cenário demanda.

crimes que se cometem à sombra da

culturais pautadas por um paradig-

des que por ela se iluminam precisam

Essa crise mostra mais uma vez a rele-

atividade política. Sérgio Paulo Rou-

ma em crise. É preciso um novo pa-

ser contemporâneas do tempo vivido.

vância da política, como de resto o faz

anet afirma que, no Brasil, há uma

drão de interlocução e também no-

Nesse sentido é que as TICs abrem es-

a nossa trajetória civilizatória, mesmo

sensação de irrelevância na políti-

vos projetos de caminhada histórica.

paço, principalmente nas redes sociais,

que se insista, em alguns períodos, em

ca, que é “reforçada por déficits in-

A Primavera Árabe, o Movi-

para o debate acerca da necessidade de

estar-se cego a essa realidade. 

ternos de moralidade pública”.

mento Occupy, entre tantas mani-

a representação, a agenda e interfaces

Para ele, a dobradinha corrup-

festações que vem sendo registradas

políticas se atualizarem. 

ção e impunidade, a falta de compromisso com a transparência e a presta-

mundo afora, dinamizadas pelas fra-

ção de contas e o avanço dos interesses corporativistas sobre os partidos

turas expostas pela crise econômica e articuladas via redes sociais e outros

levam a um radical descrédito das instituições republicanas e preparam a

instrumentos das TICs, são eventos que devem chamar a atenção para a

população para uma solução extrapolítica.

urgente necessidade de se renovar a pauta e o modus operandi da política.

O quarto desafio enfrentado pela política refere-se à necessidade
de atualização de seus processos de representatividade e diálogo com a
126

Esses quatro e muitos outros são desafios decisivos a serem enfrentados pela política na busca pela retomada de uma posição de rele-

Recortes

Paulo Hartung

Cap.6

P o lí ti c a – C o n q ui sta H i st ó r i c a D e sa fi a d a

127
vância na construção da civilização. Mas seria o caso de se perguntar:

escape rumo a uma “solução extrapolítica” não é solução, como bem

como ficaria a vida se fosse liquidado o último político?

temos visto ao redor do mundo.

Dentre as várias possibilidades arroladas por Marco Aurélio No-

É a política, por exemplo, que poderá fazer com que a “primavera”

gueira, cito algumas: “o renascimento da autoridade em estado bruto”;

floresça e não dê espaço a que se volte à estação de um “inverno” longo

“a entrada em cena da força no lugar do diálogo, da arrogância e da pre-

e tenebroso nos países dos jovens árabes conectados e revoltados. Sem

potência no lugar da tolerância”.

falar nos já citados desafios políticos de retomada do crescimento nos

“Seria o reforço categórico dos homens providenciais e não dos

EUA e na zona do euro.

homens comuns, da autocracia e não da democracia. Quando muito, fi-

É ainda a ação política que poderá projetar e viabilizar a instituição

caríamos com algum ditador bonzinho, objeto de desejo de muitos da-

dos fundamentos de um outro modelo de desenvolvimento. Um paradig-

queles que têm nojo de políticos”.

ma que respeite os limites do planeta e seja responsável com as futuras

No entanto, e felizmente, ainda não se pode falar de fim da política.

gerações, à medida que se constitua social e ambientalmente sustentável.

O que estamos vivendo – e talvez superando, com os atuais movimentos da

Enfim, é preciso retomar o projeto que viabiliza a vida em coletivi-

juventude – é o que Adauto Novaes chama de “esquecimento da política”.

dade em termos civilizados. Até porque não há alternativa: somos seres

Experimentamos um momen-

dependentes uns dos outros. Nesse sentido, vale uma referência a Han-

Experimentamos um momento de mu-

to de mutação, de passagem de um

nah Arendt. A filósofa destaca a “condição humana da pluralidade, ao fato

tação, de passagem de um regime que

regime que conhecemos a um outro

de que homens, e não o Homem, vivem na Terra e habitam o mundo”.

conhecemos a um outro paradigma,

paradigma, que ainda não sabemos

que ainda não sabemos nomear. E, nes-

nomear. E, neste momento de mu-

vência, ou do viver com o outro –,

te momento de mutação, a política en-

tação, a política enfrenta desafios sé-

o que pode fazer a diferença é a es-

O valor da política de verdade se afir-

frenta desafios sérios quanto à sua cre-

rios quanto à sua credibilidade junto

colha de como vamos nos relacio-

ma e se propaga com o debate de ideias,

dibilidade junto aos cidadãos. 

aos cidadãos, conforme já anotamos.

nar com o próximo, já que o outro é

o diálogo entre diferentes e a união em

Para enfrentar essa crise – seja

algo impositivo e inapelável à nossa

torno do interesse comum que resultem

singularidade de homens.

em ações de emancipação humana. 

de amnésia acerca do valor e do interesse pela política, seja de respostas
de lideranças políticas, seja de interlocução com a sociedade civil –, é pre-

À luz dessa inescapável condição humana – a condição da convi-

É preciso considerar efetiva-

ciso reavivar a memória da verdadeira política, de sua potência e de seus

mente o fato de que não somos ilha; de que existindo, convivemos. Já

feitos. A política de qualidade, a verdadeira política, precisa mostrar ser-

passou da hora de tirarmos a política do esquecimento e avançarmos na

viço, evidenciar sua relevância, atualizar sua agenda e operacionalidade.

produção de um novo tempo.

Entregue à barbárie do “cada um por si e Deus por todos”, nossa
sociedade assiste a uma espantosa escalada de desigualdade e violên-

crática e republicana – a verdadeira política, com sua capacidade de cons-

cia, à destruição dos recursos naturais, enfim, a muitas tragédias. O
128

Nesse caminho, é necessário que optemos pela política de base demotruir espaços de debate em busca de convergências que beneficiem a maioria.

Recortes

Paulo Hartung

Cap.6

P o lí ti c a – C o n q ui sta H i st ó r i c a D e sa fi a d a

129
Posfácio

O valor da política de verdade se afirma e se propaga com o debate de ideias, o diálogo entre diferentes e a união em torno do interesse

Ana Paula Vescovi

comum que resultem em ações de emancipação humana.
Em tempos de prevalência do egoísmo exacerbado, esse é um projeto que precisa ser recuperado. Com razão e carisma, a política tem de
enfrentar urgentemente o desafio de estabelecer um pacto em que desejos e vontades individuais, por legítimos que sejam, possam dar espa-

O sig nif ic a do do p e r ío do de gov e r no
Paul o H ar tung p ara o E s t a do do E spír ito S anto

ço à formação de laços civilizatórios entre os homens.
É questão decisiva para a humanidade investirmos na valorização
da ética republicana, no interesse coletivo, na constituição de um outro
mundo, melhor para todos.
A tarefa de contribuir para a reconstrução da ação política, e assim ajudar a construir uma sociedade melhor, encontra respaldo em minhas mais sólidas convicções.
Para mim, como mostra a HisVoluntária ou involuntariamente, so-

tória, e como temos experimentado

mos uma comunidade. Todas as ati-

aqui no Espírito Santo nestes últimos

vidades humanas são condicionadas

anos, a política de verdade é uma es-

pelo fato de que os homens vivem jun-

pecial ferramenta para a construção

tos. E por essa condição humana es-

de avanços civilizatórios entre nós.

U

I n tro du ç ã o
m Estado com poucas oportunidades e o anseio por
possuir uma carreira sólida e desafiadora me afastaram do Espírito Santo durante 12 anos. Primeiro,
a busca por complementar a formação acadêmica,
posteriormente, o ingresso por meio de concurso no

Serviço Público Federal. Por dever de of ício fomos morar em Brasília e,
inserida nos desafios do desenvolvimento brasileiro, percebi uma Agenda sem limites para gestores com vocação para o serviço público, inte-

sencial, o caminho da civilização pas-

Voluntária ou involuntaria-

ressados no conhecimento das grandes questões do País. As notícias que

sa pela política, não havendo solução

mente, somos uma comunidade. To-

chegavam do Espírito Santo falavam de corrupção, desmandos, crime or-

extrapolítica, apenas a barbárie. 

das as atividades humanas são con-

ganizado, desordem pública, ameaça de intervenção federal. Assim, um

dicionadas pelo fato de que os ho-

ciclo se cumpriu na minha vida profissional, longe do meu Estado natal.

mens vivem juntos. E por essa condição humana essencial, o caminho

Somente a partir de 2003 tornou-se frequente escutar que os ven-

da civilização passa pela política, não havendo solução extrapolítica,

tos voltaram a soprar a favor. O primeiro fato marcante foi a posse do

apenas a barbárie. Daí a minha crença e o meu investimento na política

novo governo, a atuação da Força Nacional de Segurança e o ajuste fis-

– “a arte de pensar as mudanças e torná-las efetivas”. Muito obrigado.

cal desafiador. Anos depois, por meio da imprensa, soube do lançamento
do Plano de Desenvolvimento Espírito Santo 2025 e, logo em seguida, da
reeleição com a maior votação proporcional entre os estados brasileiros.

130

Recortes

Paulo Hartung

Posfácio

131
Para mim, a grande surpresa veio no início de 2007, quando estava
em trânsito do Ministério da Fazenda para o Senado Federal: um con-

O s de sa fio s de g ov e rn a r o
e sta d o d o E spírit o S a n t o

vite para voltar para Vitória e participar do Governo do Estado, então
no seu segundo ciclo. Passados cinco anos da decisão de voltar ao Es-

O desenvolvimento do Espírito Santo foi historicamente tardio no con-

pírito Santo para fazer parte do governo Paulo Hartung me vejo diante

texto brasileiro2, marcado por 100 anos de predominância da mono-

da missão de escrever, em algumas linhas, sobre como o Espírito San-

cultura cafeeira e, depois, pela industrialização tardia e concentrado-

to se transformou nesse período de governo, quase coincidente com a

ra baseada em grandes plantas industriais produtoras de commodi-

primeira década do novo milênio.

ties para exportação.

Os mais importantes pilares dessa transformação foram assuntos tra-

O Estado possui indiscutível vocação para o comércio exterior:

tados nesta obra: liderança, gestão, empreendedorismo, e ambiência. Para

responde por 6,1% das exportações brasileiras e por 4,2% das impor-

produzir uma síntese dos resultados percebidos entre 2003 e 2010 optei
por dividir minha argumentação em cinco seções. Em primeiro lugar, após
essa breve introdução, destaco as características estruturais do Estado do
Espírito Santo e assim apresento os desafios centrais para o seu desenvolvimento. Em segundo lugar, faço um relato do ambiente externo, caracterizado pelas reformas empreendidas no Brasil nos últimos 20 anos, pela conjuntura internacional bipolar – de grande prosperidade e crise surpreendente –, e seus respectivos reflexos sobre a economia brasileira. Em terceiro lugar, aponto os principais indicadores e evidências das transformações
percebidas no Estado do Espírito Santo. Posteriormente, defendo quais seriam as principais características do modelo de liderança e gestão, e, para

tações3; ocupa a 3ª posição nacional entre os que mais concentram
trading companies e firmas comerciais exportadoras4. Parte disso decorre da sua posição geográfica privilegiada, mas também de mecanismo financeiro na importação instituído por lei no início dos anos
1970. Esse mecanismo tem permitido ganhos de escala no uso das instalações portuárias locais e, assim, vem contribuindo para mitigar deficiências competitivas dessas instalações que padecem do baixo investimento federal.
Essa configuração conduz a economia estadual a apresentar o
maior grau de abertura ao exterior entre todos os Estados da Federação. Seu grau de abertura, segundo estimativas superior a 50% do PIB,

apoiar, falo sobre o meu experimento à frente da reestruturação do Instituto Jones dos Santos Neves. Concluo com a tradução dos desafios desse processo de desenvolvimento que, como nos ensina a História, sempre
se estabelece de modo caótico, incompleto e em permanente construção.

2  História revela que os 300 anos iniciais após o descobrimento do Brasil e a instalação da capitania
A
hereditária do Espírito Santo foram privados de investimentos em infraestrutura, a fim de preservar as
riquezas encontradas nas Minas Gerais de invasores estrangeiros.
3 
Dados da Balança Comercial do Brasil e do Espírito Santo para o ano de 2010. Consultado em http://
www.mdic.gov.br/ em fevereiro de 2012.
4 
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e da Agência
Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX). As trading companies são empresas
maiores e as comerciais exportadoras tendem a ter porte de pequena e média empresa. In: PEREIRA,
L.V. e MACIEL, D. O comércio exterior do estado do Espírito Santo. In: Espírito Santo: instituições,
desenvolvimento e inclusão social. Vitória: IJSN, 2010.

132

Recortes

Paulo Hartung

Posfácio

133
é similar ao da China e Rússia, ou o dobro da média brasileira, e ainda
cresceu persistentemente na última década5.

Adicionalmente, a sociedade capixaba passou por uma rápida transição demográfica a partir da sua industrialização, baseada num mode-

Tais características – produção concentrada e abertura ao exte-

lo migratório rural-urbano. Durante quatro décadas, a taxa de urbani-

rior – imprimem muita volatilidade aos ciclos de negócios capixabas6,

zação saiu de 45,2% (1970) e alcançou 83,4% (2010)8. A partir dos anos

com impactos sobre a economia e sobre a sociedade, e faz grande dife-

1990, foi acompanhada pelo sucateamento do governo do Estado, das

rença para a gestão pública.

infraestruturas e das políticas sociais, as quais deixaram de cumprir o

A volatilidade no ciclo de negócios se reproduz no mercado de

seu papel. Além de impactos sobre a qualidade do processo de urba-

trabalho, em que tende a aumentar em função da própria aceleração do

nização e sobre a oferta dessas infraestruturas, o contexto favoreceu o

crescimento. Ou seja, as mudanças que ocorrem no perfil dos novos pos-

acúmulo de uma indesejável dívida social.

tos de trabalho são mais velozes do que a mudança no perfil dos traba-

Não bastassem os fatores estruturais do processo de desenvolvi-

lhadores locais. A instabilidade no mercado de trabalho ocorre essen-

mento estadual, existem fatores de ordem político-institucional de extre-

cialmente pelo descasamento entre oferta e demanda por mão de obra

ma complexidade. O processo de industrialização, além de tardio, ocor-

e implica custo extraordinário de formação profissional, especialmente

reu de forma exógena, trazido por decisões do governo federal na época

para as menores empresas que não conseguem competir com as gran-

do regime militar, no âmbito dos Planos Nacionais de Desenvolvimen-

des empresas na atração desses trabalhadores.

to. Tais projetos, de grande porte, se contrapuseram com a cultura lo-

Há implicações ainda para as receitas públicas7. Diante das osci-

cal, assentada no modelo agrário-exportador que predominou por mais

lações da receita, a política fiscal precisa ser manejada de forma a as-

de um século. Assim, após a redemocratização brasileira, a desarticula-

sociar disciplina a uma gestão contracíclica. Ou seja, os governos do

ção política foi tal que fragmentou as forças predominantes no Estado e

Estado e dos municípios precisam trabalhar com uma poupança pú-

oportunizou o domínio do crime organizado9.

blica permanente para suavizar essas oscilações de receitas: despou-

Por longo período, o crime organizado se instalou e capturou as insti-

par nas crises, para complementar o orçamento, e poupar nas épocas

tuições públicas e de governo, agravando o quadro de limitações estruturais

de prosperidade, e assim sustentar um determinado nível de gastos

impostas ao processo de desenvolvimento. Mas também era possível obser-

correntes e investimentos.

var fatores estruturais positivos, os quais representavam, no limiar do novo
milênio, grandes oportunidades para o almejado desenvolvimento estadual.

5 
PEREIRA, L.V. e MACIEL, D. O comércio exterior do estado do Espírito Santo. In: Espírito Santo:
instituições, desenvolvimento e inclusão social. Vitória: IJSN, 2010. E MAGALHÃES, M.A.;
TOSCANO, V.N. Estimativas de grau de abertura para a economia do Espírito Santo. Nota Técnica
n.08, IJSN, dez.2009, 19p. Para comparação com outros países, ver BAUMMAN, R. ARAUJO, R e
FERREIRA, J. As relações comerciais do Brasil com os demais BRICs, in: O Brasil e os demais BRICs
no Comércio e Política. Brasília: Escritório da CEPAL no Brasil, 2010.

A mudança do regime cambial brasileiro, em 1999, trouxe incentivos para ampliação das plantas industriais exportadoras e respectivos

6 
MAGALHÃES, M. A. e RIBEIRO, A.P.L. Ciclos de negócios no Espírito Santo. TD 09. Vitória, 2009.
7 
BUGARIN, M. e SANTOS, A. Análise das variáveis fiscais do Espírito Santo: gestão estratégica
mediante a criação de uma Reserva Técnica Contingencial. TD 30. Vitória: IJSN, 2011.

134

8 
CASTRO, M. W.  outros. Demografia. Indicadores Socioeconômicos do Espírito Santo - PNAD 2009.
NT 21. Vitória: IJSN, 2011.
9 
ZORZAL e SILVA, M. Trajetória político-institucional recente do Espírito Santo. In: Espírito Santo:
instituições, desenvolvimento e inclusão social. Vitória: IJSN, 2010, pp 29-66.

Recortes

Paulo Hartung

Posfácio

135
terminais logísticos, centrais na configuração produtiva do Estado. Um

O c o n te xt o in te rn a c io n a l e b r a sil e iro

novo ciclo de investimentos em ampliação de capacidades instaladas nesses setores se iniciou no Brasil, e favoreceu o Espírito Santo. Mas talvez

A partir de meados dos anos 1980 a economia global vivenciou o perí-

o evento mais visível tenha sido o surgimento da nova fronteira produ-

odo de mais rápida expansão da renda média, conjuntamente com a re-

tiva, associada às descobertas de petróleo e gás.

dução da instabilidade no crescimento das nações, e com a redução do

Simultaneamente, e de forma silenciosa, ocorre uma nova configura-

desemprego e da inflação nas economias avançadas. Também nesse pe-

ção na transição demográfica, com base numa taxa de urbanização já eleva-

ríodo, denominado “A Grande Moderação10” assistiu-se, gradualmente, à

da e mais estável, mas também nos ganhos advindos da maior escolariza-

emergência da China como potência global. A estratégia de crescimento

ção dos brasileiros e dos progressos tecnológicos na área da saúde. Assim,

chinesa exportou produtividade e desinflação para o mundo, num pri-

ocorre um maior controle de natalidade e menores índices de mortalidade,

meiro momento. Posteriormente, ao passo que elevou sobremaneira a

o que implica o envelhecimento populacional acelerado. Num período ini-

demanda por commodities, elevaram-se seus preços, os quais observa-

cial de tempo, essa transição etária representa uma janela de oportunida-

ram patamares especialmente altos a partir dos anos 2000.

des: menor taxa de natalidade implica menor pressão sobre a expansão da

O Brasil, grande exportador de commodities, percebeu benef ícios

oferta de serviços públicos, especialmente educacionais; representa ainda

nesse processo. Isso foi possível – e potencializado – pelos fundamentos

uma menor razão de dependência econômica entre as pessoas em idade ati-

macroeconômicos organizados. Após a redemocratização o Brasil rea-

va (adultos) e aquelas em idade não ativa (crianças, adolescentes e idosos).

lizou a abertura comercial, reformas no sistema bancário e financeiro, a

Como contraponto, uma sociedade envelhecida requer um siste-

estabilização monetária, a mudança do regime cambial, e a realização de

ma de saúde mais oneroso, voltado às doenças crônicas que predomi-

um ajuste fiscal próximo a quatro pontos percentuais do PIB11. Para to-

nam na população, além de sobrecarregar os regimes previdenciários.

dos esses fundamentos estabelecidos, um conjunto de instituições pre-

Cresce também a pressão por sistemas educacionais mais resolutivos que

cisou ser preparado para assegurar sua manutenção e desenvolvimen-

consigam produzir trabalhadores com alta produtividade e que compen-

to ao longo do tempo. Bons exemplos são o sistema de Metas de Infla-

sem a volta de uma elevada razão de dependência no momento seguin-

ção, as metas de Superávit Primário e a Lei de Responsabilidade Fiscal.

te da transição etária. Portanto, uma sociedade se beneficia do Bônus

Com a recuperação da confiança internacional e o boom das com-

Demográfico a partir do momento em que as políticas públicas são ca-

modities, o Brasil pôde equacionar sua dívida externa, constituir reservas

pazes de promover a produtividade do trabalho e assim estimular o de-

internacionais, alterar o perfil de financiamento da dívida interna e, assim,

senvolvimento com níveis elevados de qualidade de vida.
Em síntese, este era o quadro local estabelecido no início do novo
milênio. Vários fatores da economia internacional e brasileira influenciaram esse ambiente, o me leva a apontar aqueles os quais julgo mais relevantes para a compreensão das transformações percebidas no Espírito Santo.
136

Recortes

Paulo Hartung

10  termo “A Grande Moderação” foi inicialmente cunhado por James Stock and Mark Watson em um
O
estudo publicado em 2002: “Has the Business Cycle Changed and Why?”. Posteriormente, foi adotado
por um público mais amplo, a partir de um discurso em 2004 proferido pelo então membro e agora
Chairman do Conselho de Governadores do Federal Reserve dos EUA, Ben Bernanke.
11 
GOBETTI, S. W. e AMADO, A. M. Ajuste fiscal no Brasil: algumas considerações de caráter póskeynesiano. REP, Mar 2011, vol.31, no.1, p.139-159.

Posfácio

137
criar condições para a redução gradual e sustentada das taxas de juros. O

redução acelerada nas desigualdades do País. Foram instituídos progra-

drive externo do crescimento mais do que dobrou os volumes exportados

mas focados no combate à pobreza, além de medidas institucionais13 de

em uma década e alavancou o sistema produtivo e a geração de empregos.

grande potência distributiva: estímulo às microfinanças, focalização do

Mas, mesmo com avanços macroeconômicos significativos, o Bra-

Microcrédito Produtivo, estímulo ao empreendedorismo de baixa renda,

sil não acompanhou as altas taxas de crescimento do PIB que aconte-

promoção do acesso da população de baixa renda ao financiamento habi-

ciam nas economias emergentes (China, Índia e Rússia, em especial). A

tacional, redução da regressividade da estrutura tributária, regulamenta-

persistência de problemas estruturais inibiu o potencial de colheita dos

ção do crédito consignado e do microcrédito. Outras medidas concorre-

benef ícios, entre os quais é possível mencionar a reduzida taxa de pou-

ram para ampliar a eficiência da economia: melhorias e aperfeiçoamento

pança e de investimento e a falta de coordenação – observada em vários

dos instrumentos e redução de assimetrias de informação no sistema de

momentos – entre as políticas monetária e fiscal.

crédito; aperfeiçoamento do marco regulatório no setor de seguros; auto-

No campo microeconômico, diversas reformas foram implemen-

nomia operacional do Banco Central; reforma do Judiciário; Lei de Falên-

tadas, especialmente entre meados dos anos 1990 e a primeira metade

cias e de Recuperação de Empresas; desburocratização das exportações.

dos anos 2000. A Reforma do Estado buscou reconfigurar a atuação es-

A economia brasileira ganhou nova dinâmica deste então. Ain-

tatal, e privatizou empresas – industriais e de serviços – fora do núcleo

da assim persiste o diagnóstico da baixa eficiência – medida pela pro-

típico da atuação pública. Esses monopólios naturais, com os adventos

dutividade14 – a qual revela, em alguma medida, diversos desafios ain-

de novas tecnologias, se abriram para a possibilidade de maior compe-

da existentes nas políticas públicas: há gargalos e deficiências na infra-

tição e, assim, poderiam ser regulados pelo poder público e geridos com

estrutura e nos seus marcos regulatórios; é muito baixo o retorno dos

mais eficiência pelo setor privado. Foram estabelecidos marcos regula-

gastos públicos no ensino e extensão universitários segundo padrões in-

tórios e criadas Agências de Regulação para setores de petróleo, teleco-

ternacionais; há déficits de financiamento e gestão da saúde e na pre-

municações, transportes e meio ambiente, entre outros. Também o Sis-

vidência social; o modelo pedagógico rígido e burocrático parece ina-

tema Brasileiro de Defesa da Concorrência foi modernizado.

dequado ao ensino médio; há falta de integração nas políticas de segu-

12

No núcleo de Estado foram criadas e reestruturadas as carreiras

rança pública; os marcos jurídicos do setor público são excessivamente

típicas – gestão e políticas públicas, Orçamento, Tesouro, Receita, Ban-

burocráticos e inibem a agilidade e o controle por resultados. No Bra-

co Central, diplomacia, defesa e outras que pudessem conceder agilida-

sil, ainda persiste uma grande lacuna institucional na avaliação de po-

de e modernidade à máquina de governo.
Posteriormente, com a estabilidade monetária assegurada, as políticas públicas deram conta de associar maior crescimento potencial a uma

12 BRESSER-PEREIRA, L.C e SPINK, Peter. Reforma do Estado e Administração Pública Gerencial
(coletânea). Editora Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro, 1998.

138

Recortes

Paulo Hartung

13 
SECRETARIA DE POLÍTICA ECONÔMICA. Reformas microeconômicas e crescimento de longo
prazo no Brasil. Brasília: Ministério da Fazenda, 2004.
14 GOMES, V., PESSOA, S., VELOSO, F. Evolução da Produtividade Total dos Fatores no Brasil: Uma
Análise Comparativa. PPE, IPEA: 2003. E IPEA, Produtividade no Brasil nos anos 2000-2009: análise
das Contas Nacionais. Brasília: Comunicados IPEA, fevereiro de 2012.

Posfácio

139
líticas públicas e na garantia do seu retorno social15, o que implica bai-

econômico acelerado com redução das desigualdades sociais e de ren-

xa efetividade do gasto público.

da, e melhoria do bem-estar do capixaba17. O resultado obtido significa

Por fim, colocando a pá de cal sobre a “Grande Moderação”, veio a
crise internacional a partir de 2007 nos EUA, e em 2008 em diante na es-

a comprovação de que é viável obtê-lo a partir de um modelo econômico centrado na indústria exportadora de commodities.

cala global. A crise teve um momento inicial de fortes impactos no Brasil,

Ao longo desse período, o Estado passou por uma nítida melho-

entre o quarto trimestre de 2008 e o primeiro semestre de 2009. Posterior-

ra em suas instituições e no seu ambiente de negócios, a qual tornou a

mente, as medidas adotadas dissiparam o risco de uma grande Depressão

economia capixaba mais atrativa para investidores, mais produtiva e efi-

nas economias avançadas e restabeleceram a confiança dos agentes, o que

ciente, e permitiu o crescimento econômico acelerado.

permitiu a recuperação em 2010 para, a partir do segundo semestre de

O montante de investimentos anunciados para o Estado alcançou

2011, prosseguir com eventos de extrema seriedade e alto risco na Europa.

R$ 98 bilhões para o período 2011 a 2015, logo após a crise internacional

Em particular, a nova dinâmica da economia doméstica – assentada

de 2008/200918. A distribuição territorial dos projetos evidencia tendência

no reposicionamento dos fundamentos macroeconômicos e nas reformas

de desconcentração da economia para além da Região Metropolitana –

microeconômicas – ainda provoca desdobramentos. Mesmo num contex-

na direção dos Polos Linhares e Cachoeiro do Itapemirim e da Metrópole

to de crise nas economias avançadas e de volta da instabilidade, a sociedade

Expandida Sul – e de adensamento da estrutura produtiva. São exemplos

brasileira se encontra em transição para um novo patamar de desenvolvi-

a instalação de um polo gás-químico, de indústria de papel, de motores,

mento. A próxima seção se dedica a discutir e evidenciar o progresso ocorri-

estaleiro naval e terminais portuários especializados em petróleo e gás.

do em terras capixabas na última década, com foco no período 2003 a 2010.

O tamanho dos investimentos anunciados é consequência tanto
do ambiente prof ícuo para negócios no Estado quanto dos investimentos concluídos em períodos anteriores, especialmente aqueles voltados

Com o e voluiu a s o c iedade
c a pi x a b a e m oito ano s ?

para a ampliação da oferta energética e de infraestrutura.
A cadeia produtiva do petróleo e gás, em particular, representa
uma das áreas mais promissoras no médio e longo prazos. A produção

Os oito anos da gestão Paulo Hartung (2003 a 2010) tiveram êxito com-

estadual de petróleo cresceu de 45 mil barris/dia (b/d) em 2003 para 180

provado pelos 90% de aprovação popular no seu final16. O mais emble-

mil b/d em 201019, com os investimentos em curso permitindo chegar a

mático nesse período de prosperidade foi a associação de crescimento

500 mil b/d em 2013. A oferta de gás passou de 3 milhões de m³/dia para

15 
Sobre esse tema, consultar: IBRE e NPP/USP. Uma Agenda para a Inovação no Setor Público no Brasil.
Obtido em http://mansueto.files.wordpress.com/2011/11/agenda-silenciosa-outubro_1.pdf. Consulta
realizada em fevereiro de 2012.
16 
Percentual informado em pesquisa qualitativa realizada pela Enquet e divulgada em A Tribuna em 19
de dezembro de 2010.

140

Recortes

Paulo Hartung

17 
Segundo a pesquisa qualitativa realizada pela Enquet no final do mandato, 74,3% dos capixabas
declararam que a vida estava melhor nos últimos cinco anos.
18 
IJSN. Investimentos previstos para o Espírito Santo: 2011-2015. Vitória: IJSN, 2011.
19 
PIRES, A. A indústria do petróleo e o caso do Espírito Santo. In: Espírito Santo: instituições,
desenvolvimento e inclusão social. Vitória: IJSN, 2010, 219-242.

Posfácio

141
14 milhões de m³/dia, mas com capacidade instalada para 20 milhões de

arranjos produtivos locais exportadores fundamentais nessa diversifi-

m³/dia. Em 2010, a participação estadual da produção brasileira de petró-

cação alcançada, por meio dos ganhos de escala e especialização ob-

leo chegou a 9,3%, sendo igualmente relevante a participação relativa nas

tidos na logística ao comércio exterior23. Estima-se que somente esses

reservas provadas de petróleo e gás, de 9,2% e 10,5%, respectivamente20.

serviços logísticos respondam por 7% do Produto Interno Bruto e em-

Na esteira dessa prosperidade, entre 2003 e 2010 o crescimento

preguem 3% da mão de obra ocupada local.

do Produto Interno Bruto (PIB) estadual foi de +48%, ou média anual de

O avanço dos pequenos negócios tem movimentado o mercado

5%, substancialmente superior à média brasileira de 4%. O PIB per ca-

de trabalho, o qual significou o mais importante veículo de ligação entre

pita mais do que dobrou no período e alcançou R$ 23 mil em 2010, 20%

o crescimento econômico e a redução das desigualdades de renda. Ali

acima da média nacional .

também foram observadas mudanças na composição setorial, em espe-

21

entre o terceiro trimestre de 2008 e o primeiro trimestre de 2009, a

cial por conta da diversificação produtiva, do aumento da escolarização

trajetória de crescimento foi interrompida pelos efeitos da crise econômi-

dos trabalhadores, e da melhoria da qualidade dos postos de trabalho.

ca internacional, que resultaram na brusca contração da demanda mun-

Em 2009, o número de ocupados acima de 15 anos no Espírito Santo era

dial por commodities, especialmente minério de ferro e aço, e exerceram

de 1 milhão e 747 mil pessoas, o que representa contingente de 200 mil

impactos contundentes sobre os segmentos da indústria capixaba. Naque-

trabalhadores a mais (+13%) do que o observado em 2003. A população

le momento a recessão representou recuo de -15% na atividade econômica

economicamente ativa – ocupada ou em busca de emprego – cresceu

local, a qual iniciou recuperação já a partir do segundo trimestre de 2009.

menos (+11%), o que proporcionou queda na taxa de desocupação, de

Outro efeito observado no contexto da crise 2008/2009 foi a

9,2% para 7,9%. No ano 2008, antes da crise, registrou-se uma das me-

queda na diversificação das exportações realizadas pelo Estado: antes

nores taxas de desemprego no Espírito Santo, de 5,7%. A melhoria da

do início do ciclo recessivo na economia norte-americana, a pauta de

qualidade dos postos de trabalho pode ser atestada pela formalização:

exportações capixaba havia apresentado aumento de 1/3 no número

a proporção de ocupados formais – por conta própria ou com carteira

de mercadorias exportadas entre 2003 e 2007. Mas os esforços de di-

assinada – cresceu de 44% em 2003 para 57% em 2009.

versificação da produção para exportação esbarram nas limitações da

O crescimento da renda das famílias nesse período, por sua vez,

sua infraestrutura portuária para gerar novas atividades associadas ao

foi maior para os menos favorecidos, o que permitiu a redução sistemá-

comércio exterior22. Assim, o modelo de incentivos à importação aqui

tica das desigualdades. O crescimento médio anual da renda domiciliar

adotado nos anos 1970 tem crescentemente beneficiado os pequenos

per capita, entre 2003 e 2009, foi de 5,5%. Contudo, os 10% mais pobres
no Estado perceberam aumento médio anual de 8,0%, duas vezes maior

20 
ANP(SDP). Boletim Anual de Reservas. Extraído de http://www.anp.gov.br/?pg=42906 em jan/2012.

ao percebido pelos 10% mais ricos e de uma vez e meia a taxa de cres-

21 
Estimativas do autor, realizadas a partir dos dados populacionais e das Contas Nacionais Trimestrais
do IBGE e do PIB Trimestral do Espírito Santo, divulgado pelo IJSN.
22 
PEREIRA, L.V. e MACIEL, D. O comércio exterior do estado do Espírito Santo. In: Espírito Santo:
instituições, desenvolvimento e inclusão social. Vitória: IJSN, 2010.

142

Recortes

Paulo Hartung

23 
GARTENKRAUT, M. Importações e Incentivos Fiscais: Desconstruindo Mitos. Estudo preparado para
Associação Brasileira das Empresas de Comércio Exterior - ABRACE. São Paulo: abril de 2011.

Posfácio

143
cimento médio anual da renda das famílias. O Índice de Gini percebeu

sa faixa etária no Estado, e ganhos de renda permanente para os jo-

queda de 0,554 em 2003 para 0,528 em 2009. A proporção de pessoas

vens e suas famílias.

pobres declinou de 29,4% para 15,0%; e a proporção de indigentes pas-

Estimativas para o caso do Espírito Santo sugerem que cada ano

sou de 9,1% para 3,6%. Nesse período, 433 mil capixabas saíram da po-

adicional de escolaridade proporciona aumento de renda de 7% para o

breza e 172 mil da indigência; 554 mil ascenderam à classe média. Se, em

indivíduo, em média. Essa taxa de retorno se eleva em função da maior

2003, 36,6% dos capixabas eram pertencentes à classe média, em 2009,

escolaridade e supera 20% na educação superior, para aqueles que fi-

esse percentual saltou para 50% .

zerem escolha por maior escolarização. Mas há grandes oportunida-

24

A área rural contribuiu sobremaneira para a redução das desigual-

des nas áreas técnicas e profissionalizantes no mercado de trabalho lo-

dades. No campo, a renda domiciliar per capita acompanhou a evolu-

cal, que asseguram um retorno financeiro semelhante àqueles obtidos

ção positiva da renda urbana, especialmente entre 2003 e 2007, mas re-

no ensino superior27.

gistrou redução marcante nos índices de pobreza (de 44% em 2003 para

Além dos avanços no acesso à escola, os resultados educacionais

17,7% em 2009) e de indigência (de 15,5% em 2003 para 1,9% em 2009).

também devem ser destacados. As notas no Sistema de Avaliação da

O Índice de Gini no setor rural recuou de 0,480 para 0,400 (-20%) .

Educação Básica (Saeb), desenvolvido pelo Ministério da Educação, per-

25

Outros indicadores – além dos relacionados à renda – também são

ceberam discreta melhora no período, decrescente em função do nível

importantes para evidenciar a melhoria do bem-estar, em especial aque-

escolar. Ou seja, foi maior para as notas do ensino fundamental e me-

les relacionados aos resultados educacionais, à saúde e condições de ha-

nor para as notas do ensino médio. Os resultados ainda são modestos:

bitação. No período em questão os indicadores educacionais do Espíri-

em 2009 a nota média estadual no ensino médio em matemática e lei-

to Santo apresentaram progressos. A taxa de analfabetismo ainda apre-

tura foram 287 e 278, respectivamente, ainda distantes da meta estabe-

senta valores superiores ao aceitável pela Unesco (5%), mas diminuiu de

lecida no ES 2025, de 400 e 300. Contudo, sustentar uma pequena me-

10,3% em 2003 para 8,5% em 2009. O nível médio de escolaridade da po-

lhora nos resultados torna-se uma grande conquista, quando alcança-

pulação adulta do Estado (25 anos ou mais) apresentou evolução de 6,2

do simultaneamente a um processo fortemente inclusivo. A política pú-

anos de estudo em 2003, para 7,2 anos de estudo em 200926.

blica central estruturada para se alcançar esse progresso foi o programa

Foi marcante o aumento da frequência escolar dos jovens en-

“Ler, Escrever e Contar”, o qual promoveu a melhoria da aprendizagem

tre 15 e 17 anos, a qual passou de 72,1% para 84,7% ao longo da dé-

dos alunos das turmas de alfabetização do ensino fundamental, elevan-

cada. Mais um outro período de tempo com igual progresso poderá

do a capacidade dos estudantes em Língua Portuguesa e Matemática.

assegurar situação muito próxima à universalização do ensino nes-

Na habitação, uma medida de bem-estar é o acesso à infraestrutura
e a situação do déficit habitacional. Em 2003, a cobertura de serviços de

24  IJSN. Síntese de Indicadores Sociais. Vitória: IJSN, 2011.
25  Ibidem.

27 
BARROS, R. e outros. Educação técnica e distribuição de renda no Espírito Santo. TD 33. Vitória:
IJSN, 2011.

26  Ibidem.

144

Recortes

Paulo Hartung

Posfácio

145
abastecimento de água era de 79,9%; o acesso ao esgotamento sanitário

ou +9% ao ano. Esse incremento levou o Estado, e principalmente sua

adequado, 72,1%; e a proporção de domicílios com densidade inadequa-

Região Metropolitana, a ocupar um dos três primeiros lugares no mapa

da – superior a duas pessoas por dormitório – era de 12,9%. Em 2009,

da violência do País. Mas o período 2003-2010 se configura como uma

os índices observados revelam o progresso que ocorreu nessas taxas, as

nova fase, quando as taxas do Estado mantiveram-se praticamente está-

quais passaram para, respectivamente, 82,4%, 78,9% e 8,3% .

veis. De fato, caíram -0,8%, sob liderança da Região Metropolitana, cuja

28

Na saúde, as estatísticas referentes à mortalidade infantil são consideradas, universalmente, como um dos melhores indicadores tanto da

diminuição foi de -28,5%, isto é, -2,8 ao ano. Os índices do interior elevaram-se +23,5 ou +1,8% ao ano no período31.

saúde infantil, quanto do nível socioeconômico da população e da quali-

Diante desse quadro histórico, as estratégias adotadas no período

dade da infraestrutura ambiental. No período 2003-2009, a taxa de mor-

2003 a 2010 foram efetivas para conter o crescimento da criminalidade. Na

talidade infantil manteve-se em patamar baixo e ainda apresentou redu-

década passada, dos 26 Estados da Federação e o Distrito Federal, 18 apre-

ção de -27% (de 16,4 por mil nascidos vivos em 2003 para 12 por mil nas-

sentaram crescimento nas taxas de homicídio, e seis deles – RN, PB, AL,

cidos vivos). Redução foi também verificada na mortalidade até 5 anos de

BA, PA, MA – registraram verdadeira explosão, com alta acima de 100%.

idade (de 13% para 3%), a qual está condicionada pela desnutrição e pelas

O mais emblemático é o caso da Bahia, onde a taxa quadruplicou no pe-

doenças infecto-contagiosas. O acesso e a qualidade dos recursos dispo-

ríodo. Mas também cidades reconhecidas por sua segurança e estrutura

níveis para atenção à saúde materno-infantil são também determinantes

urbana, como Florianópolis (SC) e Curitiba (PR) – perceberam o mesmo

da mortalidade nesse grupo etário. Como grande síntese da situação na

fenômeno: a violência homicida mais do que duplicou na última década.

saúde, vale citar que a expectativa de vida média da população ao nascer,

No Espírito Santo, a gestão estadual implantou medidas para ofer-

para o capixaba, aumentou de 71,6 anos em 2000 para 74,3 anos em 201029.

tar informação e promover a integração das áreas de segurança – como

Mas a evolução do quadro social do Estado também sustenta fra-

a implantação do Centro Integrado Operacional de Defesa Social (Cio-

gilidades, e a criminalidade violenta se revelou resistente aos progressos

des), mas também para qualificar o aparato policial e o uso da inteligên-

sociais. O Espírito Santo, historicamente, figura como um dos três Esta-

cia. Já em 2010 houve registro de 10% de declínio da taxa de homicídios

dos mais violentos do País30. O período 1986/1998 foi marcado por forte

por cem mil habitantes, sustentada por uma queda consecutiva de 8,3%

crescimento, quando as taxas do estado saltaram de 20,8 para 58,4 ho-

em 2011. O quadro geral de homicídios no Estado, portanto, retorna ao

micídios por 100 mil habitantes, o que representou aumento de +180,7%,

seu patamar mais baixo nos últimos 14 anos32.
Se a criminalidade violenta no Espírito Santo se manteve como um

28 
IJSN. Famílias e domicílios. Resenha de Conjuntura, ano II, n. 66, out. 2009.

desafio, como de resto em todo o País, um grande investimento foi feito

29 IBGE. http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/indicadoresminimos/
sinteseindicsociais2010/SIS_2010.pdf. Tabela 1.4. Página visitada em fev de 2012.
30 
ZANOTELLI, C; e Outros. Atlas da Criminalidade no Espírito Santo. 1. ed. São Paulo: Annablume,
2011. E BUGARIN, M. e LIRA, P. PROCESSO DE URBANIZAÇÃO, ESTRUTURA DEMOGRÁFICA
E VIOLÊNCIA: análise no Espírito Santo e Vitória. TD37. Vitória: IJSN, 2011.

146

31 
WAISELFISZ. Mapa da violência 2012: Os novos padrões da violência homicida no Brasil.
32 
Dados obtidos em http://eshoje.jor.br/cai-indice-de-homicidios-no-espirito-santo-em-2011.html.
Consulta realizada em fevereiro de 2012. Fonte: Secretaria de Estado da Segurança Pública, Governo
do Estado do Espírito Santo.

Recortes

Paulo Hartung

Posfácio

147
no Estado para recuperar, modernizar e regionalizar o sistema prisio-

Observando-se os resultados colhidos nesse período, percebe-se

nal. O processo permitiu instalar estratégias bem-sucedidas de escola-

a intensidade das transformações aqui empreendidas, as quais tiveram

rização, profissionalização e reinserção social dos aprisionados, e con-

que transpor os desafios da arena política e social local e do ambiente

tribuiu, junto com a modernização do aparato policial, para o início da

econômico. Diversas passagens da História contemporânea nos compro-

tendência de queda dos crimes violentos, já observada em 2010.

vam que tais transformações, necessárias diante do quadro de oportuni-

Os investimentos realizados no sistema carcerário do Espírito San-

dades, são impossíveis de se alcançar sem uma forte liderança.

to, a maioria absoluta com recursos estaduais, não têm paralelo com outros estados da federação: além do espaço para atendimento médico, oficinas de trabalho, biblioteca e salas de aula, as instalações são adequa-

A l ide r a n ç a d o g ov e rn a d o r Paul o H a rt un g

das ao desejado processo de reinserção. De acordo com informações da
Secretaria de Estado da Justiça em 2010, aproximadamente um quarto

A primeira década do novo milênio representou um período de intensas

dos apenados frequentavam ensino fundamental e médio na modalida-

transformações no Estado, favorecida por uma ampla mobilização em

de de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Um caso emblemático é a Pe-

favor do resgate das instituições estaduais. A liderança do então gover-

nitenciária de Segurança Média de Colatina (PSMC), onde 97% dos ape-

nador Paulo Hartung veio de forma hegemônica, com o reconhecimen-

nados frequentavam salas de aula ou já haviam concluído o ensino mé-

to de uma carreira política centrada no caráter republicano, democráti-

dio; todos trabalham divididos em oficinas de confecções, artesanato e

co, ético e transparente34. O então governador eleito utilizou seu capital

blocos de cimento para pavimentação.

político para imprimir velocidade e qualidade a essas transformações,

Existem outros elementos que poderão contribuir para melhoria desse quadro no longo prazo. Houve uma mudança acelerada nos

para engajar pessoas e unir diversas outras lideranças no rumo de uma
transformação estrategicamente vislumbrada.

padrões de arranjos familiares no Espírito Santo ao longo da década33.

Além da liderança, capaz de preparar a construção do futuro e o

Concomitantemente ao quadro de aumento da sobrevida e de avanço

desenvolvimento das capacidades necessárias às novas realidades, a li-

do bem-estar da população, ocorreu a adoção de um tamanho menor de

derança política e estratégica estabeleceu uma gestão diferenciada, as-

família. No universo envolvendo todos os arranjos familiares no Espí-

sentada na meritocracia, busca por melhores práticas, na inovação so-

rito Santo (2009), a maior proporção está representada por casais com

cial, na profissionalização e na estruturação organizacional do setor pú-

um 1 (22,7%), seguidos pelos casais sem filhos (17,9%) e, finalmente ca-

blico, e no respeito às instituições.

sais com 2 filhos (17,2%). Famílias com maior autonomia tendem a con-

A primeira manifestação desse novo período teve emblemas no

tribuir mais para o desenvolvimento social e a demandar menos estru-

campo político e institucional. O combate ao crime organizado contou

turas públicas e proteção social.
33 
IJSN. Famílias e domicílios. Resenha de Conjuntura, ano II, n. 66, out. 2009.

148

Recortes

Paulo Hartung

34 
Zorzal e Silva, M. Trajetória político-institucional recente do Espírito Santo. In: Espírito Santo:
instituições, desenvolvimento e inclusão social. Vitória: IJSN, 2010, pp 29-66.

Posfácio

149
com forças nacionais e deflagrou uma sequência de derrotas àqueles que

obtido e para instalar a certeza de que o movimento que ora se iniciava

dominaram o Estado por década e meia. O limiar da nova gestão, por

tornava-se mais forte que o crime organizado que por tantos anos ha-

sua vez, teve como emblema o ajuste fiscal e a reestruturação dos órgãos

via capturado o Estado.

de controle interno – Auditoria Geral e Procuradoria Geral do Estado.

O apoio recebido pelos movimentos organizados mais modernos

No processo de ajuste fiscal, o Espírito Santo reverteu um passivo

do Estado, nos segmentos empresariais, sociais e políticos, redundou na

a descoberto de 44,6% da Receita Corrente Disponível (RCD), em 2002,

construção coletiva do Plano de Desenvolvimento Espírito Santo 2025.

para um superávit financeiro de 4,6% da RCD, em 2003, o que retirou o

Mesmo não tendo participado dessa construção, pude observar, duran-

Estado da segunda pior situação fiscal – perdia apenas para o Rio Gran-

te minha participação no segundo período de governo, que o Plano foi

de do Sul – para a terceira melhor posição do País. O Espírito Santo re-

um instrumento de grande importância para alinhamento geral do go-

alizou, assim, o mais forte ajuste da situação de endividamento de curto

verno e, além dessas fronteiras, dos governos municipais e das demais

prazo promovido pelos estados brasileiros entre 2002 e 2003, de exatos

instituições públicas e privadas recém-constituídas ou reconstruídas. O

49,2 pontos de percentagem da RCD. O ajuste inicial foi realizado me-

Plano ES 2025 foi fundamental, posteriormente, para a construção dos

diante o reequilíbrio financeiro e patrimonial. O saneamento financeiro

planos setoriais – Peltes (transportes e logística), Pdeag (agricultura) e

foi obtido graças à adoção de políticas visando ao incremento da recei-

também para a Agenda Regional Sul do Espírito Santo.

ta, associada à forte redução e contenção de despesas correntes e de ca-

Passada a fase inicial de ajustes, reestruturações e instalações, o

pital. A venda de ativos (antecipação de royalties), por sua vez, foi com-

segundo período de governo foi dotado de momentum próprio, e reve-

plementar e proporcionou a redução do endividamento. As duas ações

lou a capacidade de conversão das crescentes receitas em maior oferta

executadas concomitantemente foram fundamentais para o sucesso do

de serviços e investimentos públicos; em maiores transferências volun-

ajuste, uma vez que não bastaria vender ativos se não houvesse uma ade-

tárias aos municípios – o que aumentou a capacidade de alinhamento e

quação do fluxo de receitas e despesas correntes35.

coordenação com esses entes; na requalificação da máquina de gover-

O efeito de ambos os processos – político e institucional – trouxe

no; e na sustentação de um fluxo de caixa positivo. Posteriormente, esse

resultados bastante efetivos sobre as receitas estaduais e sobre os resul-

fluxo de caixa positivo acumulado como poupança pública prudencial

tados fiscais obtidos, especialmente a partir do segundo ano de gover-

mostrou-se estratégico para o período de crise que viria a partir do últi-

no36. O primeiro teste foi fundamental para sustentação do amplo apoio

mo trimestre de 200837. O modelo de gestão fiscal nesse período de governo constituiu-se paradigma para a gestão pública brasileira e contri-

35 
IJSN. Finanças do estado do Espírito Santo: do Plano Real à crise de 2009. Vitória: AEQUUS
Consultoria e IJSN, 2010.
36 
Sobre o ajuste fiscal, suas características e resultados obtidos ver: (i) OLIVEIRA, J.T. O ajuste fiscal
do governo do estado do Espírito Santo no triênio 2003-2005. Secretaria de Fazenda do Estado do
Espírito Santo (Sefaz), manuscrito, 2006; (ii) GARSON, S. Gestão fiscal do estado do Espírito Santo
2002-2008: pavimentando o caminho para o crescimento da economia estadual. In: Espírito Santo:
instituições, desenvolvimento e inclusão social. Vitória: IJSN, 2010, pp 333-354.

150

Recortes

Paulo Hartung

37 
IJSN. Finanças do estado do Espírito Santo: do Plano Real à crise de 2009. Vitória: IJSN e AEQUUS
Consultoria, 2010. E SANTOS, A. Evolução do fluxo de caixa do estado do Espírito Santo. NT 25.
Vitória: IJSN, 2011.

Posfácio

151
buiu para a obtenção de importantes resultados sociais38. Tornou-se, as-

No período do governo de Paulo Hartung vários desafios foram

sim, um grande desafio sustentar os mesmos padrões de gestão e asse-

vencidos, e outros tantos permanecem. A construção de uma socieda-

gurar uma disciplina fiscal permanente.

de com alto estágio de desenvolvimento depende de persistência a de

À frente do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) durante os úl-

amplo alcance social. No setor público, depende de escolhas, haja vis-

timos três anos de governo, fui incumbida de sua reestruturação. O go-

ta as restrições orçamentárias, políticas, institucionais, o largo espectro

verno precisava de um órgão dotado de capacidades para avaliar o pro-

de demandas e funções, e os diferenciais de impactos entre as ações em-

gresso socioeconômico do Estado e suas políticas públicas. Um mode-

preendidas ao longo do tempo.

lo diferente do até então instalado. A discussão sobre o modelo e seus

Assim, governar passa pela arte de fazer escolhas e de ter humil-

custos e benef ícios foi intensa e, durante esse processo, foi permanente

dade para reconhecer aquelas que não puderam ser feitas. Além dis-

a preocupação com a sua sustentabilidade e legitimidade. Uma vez le-

so, outros desafios estão postos, especialmente aqueles que trazem ris-

gitimado no governo, mas, especialmente, na discussão com a socieda-

cos concretos às receitas estaduais, como a redistribuição dos royalties

de, tive instrumentos e liberdade para atrair os talentos necessários para

e a reforma tributária. Mas a gestão realizada no período 2003 a 2010

implementar um programa ousado de estudos e pesquisas aplicados às

abriu uma avenida de possibilidades para o desenvolvimento do Espíri-

políticas públicas estaduais. Era monitorada e avaliada pelos resultados.

to Santo. Tornaram-se destacáveis, por exemplo, as oportunidades para

Sempre senti a figura do governador e do vice-governador presentes para

o desenvolvimento da Indústria do Petróleo e Gás no Espírito Santo40, a

demandas, sugestões e críticas. A reestruturação obtida foi então um tra-

qual tem por característica grande capacidade de encadeamento de ou-

balho de todo o governo, entregue para a sociedade .

tros setores da atividade. Somente a exploração das reservas do pré-sal

39

Vejo assim a gestão Paulo Hartung. Todos os colaboradores envolvidos num mesmo Projeto de Desenvolvimento, com coesão, compro-

e seus respectivos encadeamentos poderão impactar a economia local
com crescimento de 7 pontos de percentagem do PIB41.

misso, e foco nos benef ícios sociais. A Política teve o seu lugar de arti-

O alcance de um alto estágio de desenvolvimento a partir dessas

cular, conceber estratégias, meios, e cobrar resultados, mas nunca dispu-

oportunidades, contudo, ocorrerá à medida que for possível instalar con-

tou posições com a boa técnica. Ao contrário, foi cooperativa. E o pro-

tinuadamente e ao longo do tempo melhorias institucionais, gestão e po-

jeto estadual de desenvolvimento teve um líder legítimo, admirado e re-

líticas públicas efetivas, e incentivos adequados ao empreendedorismo.

conhecido por suas habilidades políticas e gerenciais.

38 
GARSON, S. Gestão fiscal do estado do Espírito Santo 2002-2008: pavimentando o caminho para o
crescimento da economia estadual. In: Espírito Santo: instituições, desenvolvimento e inclusão social.
Vitória: IJSN, 2010, pp 333-354.
39 
IJSN: Redirecionamento estratégico 2008-2010. Vitória: março de 2008. E para resultados ver “Mapa
estratégico IJSN 2011-2014” em http://www.ijsn.es.gov.br/attachments/1037_Mapa_estrategico_ijsn.
pdf. Consulta realizada em fevereiro de 2012.

152

40 
OLIVEIRA, A. Petróleo e desenvolvimento: oportunidades e desafios para o Espírito Santo. In:
Espírito Santo: instituições, desenvolvimento e inclusão social. Vitória: IJSN, 2010, pp 243-268.
41 
HADDAD, E  GIUBERTI, A. Impactos Econômicos do Pré-Sal na Economia Regional: o Caso do
Espírito Santo, Brasil. Apresentação realizada em abril de 2011. Vitória, IJSN: 2011. Disponível em
http://www.ijsn.es.gov.br/index.php?option=com_docmantask=cat_viewgid=414Itemid=370.

Recortes

Paulo Hartung

Posfácio

153
Referências bibliográficas
ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Forense Universitária: Rio de Janeiro, 2008.
ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Martin Claret, 2001.
BAUMAN, Zigmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
BOBBIO, Norberto. O Futuro da Democracia. São Paulo: Paz e Terra, 2006.
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
ESPÍRITO SANTO 2025: Plano de Desenvolvimento. Secretaria de Estado de
Economia e Planejamento: Vitória, 2006.
JOHNSON, Paul. Churchill. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.
KUNSCH, Margarida. Planejamento de Relações Públicas na Comunicação Integrada.
São Paulo: Summus, 2003.
NOGUEIRA, Marco Aurélio. Em Defesa da Política. São Paulo: Senac, 2001.
NOVAES, Adauto. O Esquecimento da Política. Rio de Janeiro, 2007.
OLIVEIRA, Djalma. Planejamento Estratégico. São Paulo: Atlas, 2005.
PLATÃO. A República. São Paulo: Martin Claret, 2001.
PHILLIPS, Donald T. Liderança segundo Abraham Lincoln. São Paulo: Landscape, 2007.
QUINTANA, Mario. Para viver com poesia. São Paulo: Globo, 2007.
ROUANET, Sérgio Paulo. Religião: esquecimento da política? In: NOVAES, Adauto. O
Esquecimento da Política. Rio de Janeiro, 2007.
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. Rio de Janeiro: Record, 2000.
WEBER, Max. Economia e Sociedade. Brasília: UNB, 2001.

154

Recortes

Paulo Hartung

Recortes

  • 1.
  • 2.
  • 3.
    Sumário Apresentação – PauloHartung 05 Prefácio – Claudio Porto 09 Introdução 17 Capítulo 1 – Entre Gerações Organiz ação e edição: Revisão: Foto: Capítulo 3 – Planejamento – Rumo e Estratégia 69 Capítulo 4 – Gestão – Investimento Decisivo Alair Caliari Impre ssão: 79 Link Editoração GSA Gráfica e Editora Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Bibliotecária responsável: Amanda Luiza de Souza Mattioli G633r GOMES, Paulo César Hartung, 1957Recortes / Paulo César Hartung Gomes ; organização, José Antonio Martinuzzo. - Vitória, ES : Econos, 2012. - 152 p. ; 24 cm. 1. dministração pública – Economia – Planejamento A Estratégico – Gestão – Educação – Política. I. Martinuzzo, José Antonio. II. Título 55 Márcia Rocha Projeto gr áfico e di agr am ação: Capítulo 2 – Economia – Desafios e Oportunidades José Antonio Martinuzzo 21 ISBN 978-85-8173-024-0 E c o n o s – J a n e i r o d e 2012 Capítulo 5 – Educação e Juventude – Determinantes do Futuro101 Capítulo 6 – Política – Conquista Histórica Desafiada 121 129 Referências bibliográficas CDD - 350 Posfácio – Ana Paula Vescovi 152
  • 4.
    Apresentação O ano de 2011marca no calendário da minha jornada um tempo de inovação. Findo o período de dois mandatos à frente do governo do Estado do Espírito Santo (2003-2010), coloquei minha vida em novo curso, embora seguindo os mesmos valores que estão a orientá-la desde a juventude, pautados pela construção da igualdade de oportunidade para todos. Como consequência da decisão de não me candidatar a cargo ele- tivo em 2010, dei início ao terceiro período da minha vida profissional sem mandato – antes da minha primeira eleição, em 1982, atuei como microempresário; em 1997, após deixar a Prefeitura de Vitória, assumi a Diretoria Social do BNDES, até a disputa para o Senado. Neste atual período distante dos cargos eletivos, entraram em pauta os estudos, as atividades como economista e palestrante. Ao voltar do período de três meses de estudos no exterior, associei-me, na Econos, a um dos grandes economistas deste País, José Teófilo Oliveira. Deste posto de trabalho e observação, tenho atuado segundo minha formação acadêmica. Em razão do momento que estamos vivendo, a dedicação às atividades de economista tem me proporcionado um tempo de muito dinamismo e entusiasmo. Experimentamos uma era de superação do paradigma pós-Segunda Guerra e, dentre as muitas mudanças registradas, a China ganha um papel destacado na economia mundial e novas janelas de oportunidades de investimentos e dinamização produtiva se abrem aos emergentes, com resultados positivos para os brasileiros. Apresentação 7
  • 5.
    De outra sorte,trata-se de um período desafiador à atividade de palestras, depoimentos, estudos, entrevistas, registram-se valores, ide- economista, tendo em vista o desenrolar da crise financeira mundial, ais, informações, percepções e avaliações acerca da desafiante vida atu- cujos epicentros espalham-se no mundo desenvolvido (EUA, União Eu- al, em âmbito estadual, nacional e internacional. ropeia e Japão), exigindo dos especialistas um acompanhamento siste- Trata-se de pontos de vista consolidados a partir de minha vida fa- mático e profundo de um quadro fluido e complexo numa realidade de miliar, formação acadêmica, na busca do conhecimento, militância so- globalização econômica. cial, trabalho nas esferas pública e privada. Enfim, são visões referen- Enfim, ações como planejar, analisar, estudar cenários, verificar possibilidades, desenhar projetos, entre tantas outras atribuições de economista que são, costumeiramente, inspiradoras e desafiantes, em um tempo como o atual tornam-se atividades ainda mais vibrantes. ciadas à minha ação política, esta entendida como o próprio e inexorável ato de viver em coletividade como cidadão. Para mim, a política é condição da existência humana e se pratica não apenas nos partidos, na militância ou na esfera governativa. Ela Como uma ação de responsabilidade social, e por considerar a edu- perpassa todos os âmbitos da vida, constituindo-se como meio e exi- cação a grande prioridade nacional, dedico-me também a fazer palestras à gência do existir civilizado. Nesse sentido, coloco-me como um eterno juventude, buscando o despertar para o olhar atento aos fenômenos socio- militante de política emancipatória, de base republicana e democrática. econômicos e político-culturais que modelam a nossa vida cotidianamente Quanto à política relativa aos partidos e instituições governamen- e, fundamentalmente, a relevância da instrução na vida contemporânea. tais, reafirmo minha crença neste processo, visto como uma conquis- Nesta caminhada de atividade na vida privada, com estudos, leitu- ta da humanidade, um avanço da civilização. Saliento, no entanto, que ras, reciclagens e interfaces profissionais com os mais variados públicos, o atual sistema político brasileiro está ultrapassado e precário, incapaz tenho me dedicado, ainda, a compartilhar o conhecimento que acumulei de dar conta das tarefas do presente. É urgente a sua atualização, ten- ao longo de quase 30 anos de mandatos conquistados em sete eleições, es- do em vista o paradigma socioeconômico e tecnológico da atualidade. pecialmente os dois períodos em que estive à frente do Executivo estadual. Nessa conjuntura, decidi não disputar as eleições em 2010. Primei- Como ex-governador, assumi uma postura que considero adequa- ramente, pelo meu compromisso com a política de qualidade, de base re- da a essa posição, evitando avaliações e palpites sobre os rumos da ad- publicana, tendo em vista que considerava simbólico e necessário con- ministração pública no Estado. De outra sorte, coloco-me sempre pron- cluir os dois mandatos de governador a mim outorgados pelos capixabas. to, quando solicitado, a continuar contribuindo para o desenvolvimento Tinha uma missão a cumprir em sua totalidade, qual seja, liderar do Espírito Santo, que, mesmo enfrentando os desafios comuns ao dia a a reconstrução do Espírito Santo e entregar o Estado financeira, insti- dia, vive um tempo de oportunidades ímpares em seus quase cinco sé- tucional e administrativamente organizado ao meu sucessor, garantin- culos de história. O treinamento que acumulei ao longo de minha cami- do os fundamentos e as condições de continuidade deste novo tempo nhada também tem sido disponibilizado a outros Estados da Federação. de nossa história que começamos a construir coletivamente em 2003. A publicação desta coletânea de algumas das produções do ano de 2011 ocorre exatamente nessa direção do compartilhamento. Por meio de 8 E também decidi não me candidatar por enxergar um enorme descompasso entre a política partidária e institucional e as marcas da vida Recortes Paulo Hartung Apresentação 9
  • 6.
    Prefácio contemporânea. Esse distanciamentotem levado a um evidente desprestígio das instituições políticas junto à população e, tão grave quanto isso, ao abandono de uma agenda de reformas modernizantes do País. Não custa lembrar que foi a execução de parte dessa agenda nos anos 1990 e 2000 que criou as condições para que o Brasil pudesse viver os avanços sociais e econômicos dos últimos anos e até mesmo sentir com menos intensidade os efeitos da atual crise mundial. Tal fato mostra a urgência da retomada da agenda das reformas para a modernização do Brasil, e também para a atualização do seu sistema político. Enfim, acredito na política como princípio e meio de vida em coletividade, mas o quadro geral da atividade política no País me parece hoje pouco inspirador, particularmente no que se refere à representação parlamentar. H á um consenso entre especialistas, estudiosos, formadores de opinião e lideranças políticas e empresariais que, entre 2003 e 2010, o Espírito Santo passou por grandes transformações econômicas, sociais, políticas e institucionais que mudaram positiva e decisivamente a face do Estado. Muitos fatos sustentam essa evidência. Nesse período, o PIB capixaba cresceu 49% enquanto o brasileiro expandiu 36%. O emprego formal no No entanto, essa fragilidade do sistema político não pode turvar Estado cresceu quase 60%, doze pontos a mais do que a taxa verificada nosso olhar para a importância da política no processo de transforma- para o Brasil. Quase 440 mil capixabas saíram da pobreza, cerca de 173 ção da realidade, como bem mostra a história recente do Espírito San- mil deixaram de ser indigentes e, o mais valioso, mais de meio milhão to, a partir de 2003, e do Brasil, pós-estabilidade da moeda. ascenderam à classe média. Do ponto de vista fiscal, o Espírito Santo foi Nesse sentido, é que, mesmo optando pela atividade privada, con- um dos estados do País com maior crescimento na capacidade de inves- tinuo militando pela atualização do sistema político brasileiro e pela re- timento com recursos próprios: de menos de 1% da arrecadação desti- tomada das ações que ampliem a competitividade do Brasil no mundo. nado a investimentos em 2003 para 16% em 2010. Para fazer política não é preciso ocupar cargos eletivos. É possí- No bojo dessas transformações, o Espírito Santo iniciou um novo vel contribuir para a evolução da vida em sociedade em quaisquer ativi- ciclo de desenvolvimento, que marca a passagem de um modelo de in- dades que desempenhamos. Basta que se tenha a consciência do lugar dustrialização baseado apenas em grandes empreendimentos estatais ou da política, qual seja, o caminhar nosso de todo dia, a história que es- privados com foco em commodities para uma economia diversificada e crevemos cotidianamente, nas casas, nas praças, nas ruas, nas redes so- próspera, com crescente integração competitiva e maior valor agrega- ciais, nos partidos, nas organizações sociais, nas empresas, nas institui- do, que é sustentada por um acervo de capital humano, social e institu- ções públicas. Afinal, a ação política é decisiva ao caminhar civilizatório. cional com qualidade cada vez melhor. Este novo ciclo está associado a um ambiente de negócios dinâmico e saudável, construído nos últimos Paulo Hartung Economista, ex-governador do Estado do Espírito Santo (2003-2010) 10 Recortes anos e que faz desse Estado um locus competitivo de atração de investimentos produtivos privados. Estou convencido – já o disse em várias en- Paulo Hartung Prefácio 11
  • 7.
    trevistas com jornalistase em diversos eventos públicos – que o Espírito tentativa de intimidar os poderes e a sociedade da imensa tarefa de en- Santo tem grandes chances de ser o primeiro estado brasileiro a alcançar frentamento do crime organizado e de descontaminação da administra- indicadores de primeiro mundo em qualidade de vida, educação, acesso ção pública que então se impunha. a bons serviços de saúde, habitação, renda per capita e meio ambiente. O que mais me chamou a atenção, naquele cenário, foi a percep- Tive a sorte e o privilégio de ser ao mesmo tempo um observador ção que tive da atitude do então governador ao nos receber e conversar próximo e um partícipe coadjuvante dessas grandes transformações. conosco: uma pessoa simples mas muito firme, que demonstrava sere- Essa foi uma das experiências mais ricas e estimulantes que vivenciei ao nidade, objetividade e confiança na capacidade de sua equipe e dos ca- longo de mais de 40 anos de vida profissional, seja como consultor seja pixabas superarem a crise. E muita clareza do que tinha de ser feito. como estudioso dos processos de desenvolvimento de nosso País e de Palavras ditas por Paulo Hartung na entrevista daquele dia 19 de seus estados e regiões. E foi justamente por conta dela que conheci Pau- março: “nosso Estado possui um perfil econômico contemporâneo e com lo Hartung e sua equipe de governo, com os quais convivi ao longo des- excelentes condições competitivas. E, de fato, só há um gargalo que está ses oito anos, que vão de 2003 a 2010. comprometendo a nossa capacidade de desenvolvimento: a falência ou Conheci Paulo Hartung pessoalmente no dia 19 de março de 2003, destruição do Poder Público Estadual nas esferas do Executivo, do Legis- no Palácio Anchieta, quando fui entrevistá-lo1 para colher suas diretrizes lativo e do Judiciário. Nos últimos anos o setor público estadual foi ‘toma- e orientações estratégicas para o primeiro ciclo de planejamento de seu do de assalto’ pelas forças da corrupção e do crime organizado. Por essa governo. O ambiente f ísico e emocional no palácio refletia bem o grave razão, e já falei no meu discurso de posse, precisamos fazer do Governo momento que atravessava o Espírito Santo: instalações precárias e mui- do Estado um modelo de administração pública honrada, competente, to deterioradas; forte tensão no ar e muita correria e senso de urgência moderna e capaz de promover a igualdade de oportunidades para todos das equipes, que me lembrava o funcionamento dos hospitais de emer- os cidadãos. Este é o elo que falta para completar as condições sistêmicas gência. Isto por conta da grave crise sistêmica que reinava no Estado, e de competitividade e de desenvolvimento sustentado do Espírito Santo”. não era para menos: o novo governo havia recebido uma dívida venci- Nessa mesma ocasião, o governador nos falou longa e cuidadosa- da de R$ 1,2 bilhão que incluía salários atrasados de servidores, faturas mente da necessidade de administrar as expectativas da sociedade e, so- não quitadas junto a fornecedores e prestadores de serviços; e o Estado bretudo, dos valores que orientariam todo o seu governo. Falar e cuidar estava inadimplente com a União, que por isso fazia a retenção dos seus de valores, infelizmente, é um cuidado cada vez mais raro nos âmbitos recursos no Fundo de Participação. Uma evidência da gravidade da si- público e privado nesses ‘tempos pós-modernos’ que estamos vivendo. tuação e da intensidade da crise: exatamente cinco dias depois dessa en- O que se seguiu, ao longo deste percurso, é uma história de sucesso trevista, foi assassinado o juiz Alexandre Martins de Castro Filho, uma que foi construída todos os dias com muito trabalho, entusiasmo, energia, foco e método. E, o mais importante, foi uma construção coletiva 1  essa entrevista juntamente com José Paulo Silveira e na companhia de Ricardo de Oliveira, Fiz Guilherme Dias, Dayse Lemos e Cezar Vasquez. 12 Recortes Paulo Hartung que engajou ‘pessoas f ísicas e jurídicas’ dentro e fora do governo e para além das fronteiras capixabas. Esse foi um dos mais importantes traços Prefácio 13
  • 8.
    característicos da transformaçãorecente do Espírito Santo: ela resultou gia de longo prazo, tanto por conta da densidade técnica das suas pro- de um processo social de concertação e convergência, em grande parte posições, como também porque integra uma visão ampla de cenários e fruto de uma mobilização e engajamento espontâneos, porém estimu- uma macroestratégia antecipatória, com metas quantificadas e desdo- lados e conduzidos pela liderança agregadora e habilidade política de bradas em uma carteira de 93 projetos para 20 anos, todos eles com re- Paulo Hartung. E que ganharam impulso e visão de futuro de longo pra- sultados e recursos dimensionados. zo com a elaboração do Plano de Desenvolvimento Espírito Santo 2025. A participação de Hartung e sua equipe foi muito intensa na for- O trabalho de formulação do ES 2025 começou nos primeiros me- mulação do Plano. Mas a diferença mais valiosa veio a seguir com dois ses de 2005, logo após superados os principais sintomas e causas mais movimentos paralelos. De um lado, Paulo Hartung tornou-se o maior e agudas das crises ética, fiscal, financeira e institucional do Estado. E nessa o melhor comunicador e disseminador do Plano ES 2025. Assumiu este iniciativa está uma outra valiosa lição: embora desfrutando de crescen- papel com desenvoltura e gosto tanto dentro do governo como fora dele. te popularidade no Espírito Santo e de amplo reconhecimento nacional Tanto porque havia estudado e conhecia todo o conteúdo gerado, mas, por conta do grande feito de ter superado a crise estrutural e sistêmica, sobretudo, porque acreditava nele. E os efeitos desta ‘catequese estraté- e ainda com uma densa agenda de prioridades imediatas, Paulo Hartung gica’ foram muito significativos: a estratégia de longo prazo foi-se enrai- e sua equipe não se aprisionaram ao imediatismo nem se acomodaram zando tanto entre os executivos e gestores públicos (entre os quais mui- com as conquistas já alcançadas e que não eram pequenas. Pelo contrá- tos prefeitos) como nas lideranças empresariais, nos formadores de opi- rio, assim que se abriu um ‘espaço mental e emocional’, lançaram-se na nião e na sociedade civil, que dela se apropriaram como referência rele- construção de uma agenda muito mais ambiciosa e para além dos pró- vante para suas decisões de médio e longo prazos. prios horizontes do mandato do governante. Prevaleceu a visão dos in- Em paralelo, e ainda mais impactante, o governador Hartung deu teresses do Estado, que são mais permanentes, em vez da agenda cir- o melhor exemplo de valorização da estratégia de longo prazo, ao fazê- cunstancial do governo, que tem horizonte temporal finito. -la marco de referência obrigatório para o desdobramento das priori- O Plano de Desenvolvimento Espírito Santo 2025 foi uma iniciati- dades de governo em 20 projetos estratégicos, que passaram a ser obje- va do Governo do Estado em parceria com o Movimento Espírito Santo to de gerenciamento e monitoramento intensivos segundo as melhores em Ação, com o patrocínio da Petrobras. Foi construído de forma com- práticas e com os melhores instrumentos técnicos disponíveis, num es- partilhada entre diversos atores da sociedade capixaba. Ao todo, envol- forço coordenado diretamente pelo próprio governador e pelo seu vice veu uma equipe técnica de consultoria de 25 pessoas, uma dezena de es- Ricardo Ferraço num arranjo organizacional denominado Pró-Gestão. pecialistas e quase 300 pessoas. Todas as etapas e produtos desse tra- O foco principal era fazer a estratégia acontecer, no que ela dependia do balho cooperativo estão amplamente documentados e são facilmente governo, e dar velocidade e eficácia à execução dos projetos. acessíveis no Portal www.espiritosanto2025.com.br. Até hoje o ES 2025 é fonte de muitas consultas e é considerado, em muitos outros gover- Secretarias e demais órgãos da administração estadual com a elabora- nos estaduais e municipais, como um modelo de qualidade em estraté14 A partir de então a cada ano era feito o alinhamento de todas as ção participativa de planos anuais que definiram as entregas prioritárias Recortes Paulo Hartung Prefácio 15
  • 9.
    do governo paraa sociedade capixaba em 2008, 2009 e 2010, tendo mais mente, a grande cooperação e a convergência de vontades e interesses uma vez a estratégia de longo prazo como referência principal. Este ali- de atores políticos, econômicos e sociais na reconstrução institucional, nhamento ocorria em oficinas de trabalho estruturadas, com forte pre- ética e financeira do Estado também tiveram peso relevante. paração prévia de todos, envolvendo toda a equipe do governo – cerca Mas, entre os fatores críticos dessa história capixaba de suces- de 150 executivos e gestores. Ao final de cada oficina, o próprio Hartung, so, não tenho dúvida quanto a importância decisiva de Paulo Hartung que sempre participou ativamente dos momentos decisivos em todas as como líder e protagonista dessa travessia. Esta é a minha convicção, oficinas, anunciava os principais compromissos de entrega em entrevis- construída numa convivência de trabalho prolongada e mais inten- tas coletivas à imprensa. E, mais importante ainda, seguia uma rotina de sa no seu segundo mandato; e também quando comparo suas quali- monitoramento e a gestão das entregas, na qual se envolvia pessoalmen- dades e limitações com as de outros bons políticos e gestores públi- te em reuniões com secretários e seus principais gestores. cos e de empresas privadas com os quais convivi ao longo da minha Os resultados alcançados com esse modelo de gestão – motiva- vida profissional. dor e mobilizador de toda a equipe, porém disciplinador e ancorado em No Hartung político, admiro e aprecio a sua capacidade agrega- bons métodos e ferramentas – foram muito expressivos. Dois exemplos: dora e como exerce bem o soft power, que é a habilidade de influenciar a execução de investimentos saltou de R$ 758 milhões em 2007 para R$ o comportamento de outras pessoas ou instituições por meio do con- 1,59 bilhão em 2010; e a velocidade de execução dos projetos estratégi- vencimento, do uso do conhecimento ou de bons argumentos ideológi- cos aumentou em 40% no mesmo período. cos. É um estilo de liderança mais sutil, mas que não abdica do senso de Michel Godet, um dos mais respeitados especialistas em análise autoridade, que, aliás, ele não hesita em utilizar quando indispensável. prospectiva no mundo, nos oferece na tríade antecipação-apropriação- No gestor público, ressalto sua habilidade em identificar e manter -ação, construída como uma elegante aplicação da ideia do “Triângulo o foco no que faz a diferença; de agir com método e disciplina; além de Grego” (logos = razão; epithumia = desejo; e erga = realização), um es- ser um excelente formador, motivador e condutor de equipes. Raras ve- quema conceitual que explica o sucesso estratégico. Podemos identifi- zes, como profissional, trabalhei com uma equipe tão alinhada, coesa e car os três vértices desse triângulo na história da transformação bem- motivada como a do seu governo. -sucedida do Espírito Santo de 2003 a 2010: (1) a antecipação de novos Na ‘pessoa f ísica’, destaco como traços característicos sua integri- horizontes de possibilidades para o desenvolvimento do Estado; (2) sua dade e sua simplicidade no trato com as outras pessoas, além de ser um apropriação por protagonistas de relevante peso político e econômico; estudioso e economista com uma saudável obsessão com o rigor intelec- e (3) a transformação das possibilidades em ações e resultados de im- tual. Essas, aliás, são também as percepções de grande parte dos analis- pacto por meio da gestão intensiva da execução dos projetos e entregas tas e jornalistas especializados em política no Brasil, às quais tive aces- prioritárias do governo. so por meio de pesquisas periódicas. Nessa trajetória de mudança, os contextos global e nacional, predominantemente favoráveis no período, contribuíram muito. E, segura16 Paulo Hartung com quem convivi também tem defeitos e falhas, e quem não os tem? De várias pessoas já ouvi comentários e críticas Recortes Paulo Hartung Prefácio 17
  • 10.
    Introdução quanto ao seuestilo e algumas escolhas políticas ou ao perfil gerencial. Mas aqui não é o caso de se fazer um balanço das suas virtudes e defeitos. Nem isso é o que importa. Em seu livro mais recente, “A soma e o resto”, o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso destaca que para um intelectual ou um político o único julgamento que interessa é o da história. No caso de Paulo Hartung, acredito que a história lhe será grata e generosa, por conta do legado que já deixou: uma transformação positiva, sustentável e oxalá irreversível no seu Estado; e um bom exemplo como político e gestor público para todo o Brasil, algo muito valioso neste momento de forte escassez de exemplos inspiradores e de uma grande desilusão da sociedade com a política. E sta publicação reúne reflexões do economista e ex-governador Paulo Hartung sobre fatos, ideias e eventos que movimentaram o dia a dia do cenário estadual, nacional e internacional no ano de 2011. Traz abordagens sobre temas candentes na vida contemporânea, como economia, planejamento, gestão, educação, política, entre outros. Esses pontos de vista são oriundos de análises, estudos de con- Mas a história ainda não acabou nem tampouco o trabalho do Paulo Hartung. E este livro, que nos traz uma amostra de sua produção em juntura, formulação de projetos, entre outras ações de um economista, sendo expressos em situações as mais diversas: palestras, publica- 2011, é uma evidência da sua vitalidade política e da fecundidade das suas ções, encontros organizacionais, entre outros. Os públicos também fo- reflexões intelectuais. Esta é uma leitura que recomendo com entusiasmo. ram bastante diversificados: de empreendedores a estudantes, passando por lideranças sociais e políticas. Claudio Porto O livro reúne parte dessa produção intelectual, numa edição orientada a fornecer um painel das ideias e atividades do ex-governador do Espírito Santo. Nem tudo foi contemplado, como estudos acerca das oportunidades de desenvolvimento apresentados a governos estaduais, tendo como base a experiência capixaba entre os anos de 2003 e 2010. O atento leitor poderá notar que alguns pronunciamentos apresentam raciocínios e citações semelhantes, o que se explica pelo fato de que resumem o pensamento consolidado acerca de determinado tema, portando análises que merecem ser enfatizadas quanto mais se puder. As variações decorrem de ajustes com relação a públicos e também em função de novas leituras e reflexões sobre os assuntos. A publicação vem prefaciada pelo especialista em planejamento estratégico Claudio Porto. Economista, Porto coordenou mais de 18 Recortes Paulo Hartung Introdução 19
  • 11.
    110 projetos deconstrução de cenários, estratégias e gestão para re- Afinal, mais que esperar por um futuro melhor, um dos caminhos sultados para instituições públicas e privadas em várias regiões do mais indicados pelas lições da história é tentar interpretar os dias vivi- País, incluindo o Plano de Desenvolvimento Espírito Santo 2025. É dos – os antigos e os recentes – para construir as jornadas que virão de coorganizador do livro 2022 Propostas para um Brasil melhor no ano maneira cada vez mais sábia e eficaz. Boa leitura! do Bicentenário. O organizador O posfácio é de Ana Paula Vescovi, mestre em Administração Pública (FGV/Ebap-RJ) e mestre em Economia do Setor Público (UnB), com atuações na Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda, e no Governo do Estado do Espírito Santo (Secretaria de Governo, Secretaria Extraordinária para o Combate à Pobreza, diretora-presidente do Instituto Jones dos Santos Neves), uma das mais lúcidas e competentes estudiosas da condição socioeconômica do Espírito Santo. Em meio à contribuição desses destacados profissionais, o conteúdo relativo às atividades do ex-governador em 2011 é apresentado segundo temáticas específicas. O livro é aberto com uma longa entrevista de Paulo Hartung a Rodrigo Taveira Rocha, então estudante de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo, na qual lança um olhar em panorâmica ao longo de sua vida militante de quase quatro décadas, do movimento estudantil ao Palácio Anchieta. Em seguida, há dois textos referenciados à economia, sua atual área de trabalho. Na terceira seção, estão reflexões sobre planejamento estratégico. Gestão é o tema do quarto capítulo. Na quinta parte, os assuntos são educação e juventude. Finalizando a publicação, uma análise acerca da condição da política na atualidade. A proposta é, nestes tempos de correnteza velocíssima e percepções fugazes da “modernidade líquida”, expressão paradigmática de Bauman, fixar nas páginas da impressão um lugar de encontro com memórias recentes de um presente peculiar por sua dinamicidade e determinante por seus desafios. 20 Recortes Paulo Hartung Introdução 21
  • 12.
    Cap. 1 Entre Gerações D aretrospectiva às perspectivas, numa conversa entre personagens de gerações distintas, mas conectadas pela mesma formação (Economia), na mesma universidade (Ufes). Neste capítulo, reproduz-se a entrevista concedida por Paulo Hartung a Rodrigo Taveira Rocha, com vistas à elaboração de seu tra- balho de conclusão de curso em 2011. Trajetória política, agenda econômica, história recente, desafios capixabas, questões nacionais, futuro, projetos... Com suas perguntas de pesquisador, perscrutador e jovem atento às questões da atualidade, Rodrigo Taveira Rocha constituiu um denso painel, com dados históricos, reflexões sobre passagens contemporâneas e análises prospectivas, incluindo informações e revelações feitas pela primeira vez por Paulo Hartung após o término dos dois mandatos à frente do Executivo capixaba. A entrevista foi feita em 14 de novembro de 2011, para constituição da monografia “Política e Desenvolvimento Econômico: Uma análise do Estado do Espírito Santo no Governo Paulo Hartung (2003-2010)”, defendida em 01/12/2011, no Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com observações e esclarecimentos entre parênteses feitas pelo próprio pesquisador. A íntegra da entrevista faz parte dos anexos da monografia de Rodrigo Taveira Rocha. Cap.1 Entre Gerações 23
  • 13.
    Fale um po uco s obre sua hist ór i a no passado (risos). Fui escolhido para representar o campus no ENE (En- e tr a jetór ia p olític a . contro Nacional dos Estudantes), encontro de reorganização da UNE, em Belo Horizonte (MG). Fomos eu, pelo campus (de Goiabeiras), e o Adauto A minha história política tem a ver com a minha relação familiar, mui- Emerich, hoje dentista, pelo CBM (Centro Biomédico, atualmente Cen- to embora não haja em meu núcleo familiar alguém que tenha exercido tro de Ciências da Saúde, correspondendo ao campus de Maruípe). Era mandatos. O meu pai, Paulo, formado em Contabilidade, filho de um pe- mais ou menos isso, o movimento era muito lá e cá. O CBM tinha um de- queno proprietário rural no Sul do Estado, em Iúna, sempre se interessou senvolvimento maior de lideranças, e nós estávamos organizando o pes- pelo debate político. Encantou-se pelo Socialismo, mantendo uma rela- soal do campus de Goiabeiras. Sobre a ida a Belo Horizonte, nós fomos ção de proximidade com o Partido Comunista Brasileiro, o PCB, para o presos, não participamos do encontro. Acho que o encontro nem acon- qual contribuiu durante sua vida. Esse é um laço importante. teceu. Foram algumas passeatas, algumas manifestações. Fomos presos, Minha primeira atividade de militância foi ainda na vida estudantil, passamos uma noite detidos na capital mineira e fomos soltos no dia se- no ensino médio, mas algo bem incipiente. Fui dirigente do grêmio do Co- guinte. Coincidiu com a vinda da primeira-dama dos Estados Unidos ao légio Salesiano, mas o foco era o es- Brasil, a esposa do Carter – se não me engano, o nome dela era Rosalynn Minha primeira atividade de militân- porte. Também havia algo no campo Carter. E aí o governo brasileiro correu para soltar os estudantes, porque cia foi ainda no ensino médio. Uma da literatura, com os nossos colegas era um escândalo aquele monte de estudantes presos em Belo Horizon- militância política real veio com a en- poetas. Tínhamos uma pequena pu- te em função da proibição da realização de uma reunião. trada na Universidade. blicação que circulava no Salesiano. Isso foi criando um envolvimento muito grande. Nós conseguimos Uma militância política real reorganizar o Diretório Central dos Estudantes na Ufes. Eu fui eleito o veio com a minha entrada na Universidade. Quando eu cheguei à facul- primeiro presidente do DCE, numa disputa bem acirrada, com cinco cha- dade, existia um movimento para reorganizar as entidades estudantis. pas se não me engano. A nossa chapa acabou conseguindo mais de 70% Na verdade, também havia algumas entidades, como era o nosso caso dos votos. Foi um resultado muito importante. O nome da nossa cha- lá no CCJE, que estavam funcionando, mas com grupos de direita, liga- pa era “Construção”. A primeira chapa que nós fizemos lá no CCJE era dos de alguma forma ao que se passava no Espírito Santo e no País na- “Gota D’água”. Chico Buarque estava na nossa cabeça. O nome da cha- quele momento (ditadura militar). pa do DCE foi inspirado em “Construção”, uma música muito bonita e Dessa forma, o primeiro movimento de que participei foi de uma campanha para poder organizar o Diretório Acadêmico (na época não litância política, para a luta pela melhoria da qualidade do ensino e ao era Centro Acadêmico, era Diretório Acadêmico – DA) do Centro de Ci- mesmo tempo pela redemocratização do nosso País. Nós também aca- ências Jurídicas e Econômicas (CCJE). A partir daí, ingressamos no mo- bamos participando da decisiva luta pela anistia. Fomos ao Rio de Janei- vimento pela reconstrução da UNE. Acabei mesmo sendo representan- ro receber alguns dos exilados, cujas chegadas se tornaram verdadeiras te de esportes na chapa do DA do CCJE, o que era até motivo de gozação 24 expressiva do Chico. Enfim, esse movimento foi nos levando para a mi- manifestações no aeroporto do Galeão. Recortes Paulo Hartung Cap.1 Entre Gerações 25
  • 14.
    Então, o fundamentovem daí: o laço familiar, a questão do mo- ra eleição. No início do processo de debate, meu nome foi colocado para vimento estudantil, a conjuntura do nosso tempo, uma época de luta ser candidato a vereador em Vitória. Depois, por uma pressão de lideran- pela liberdade, pela democracia, pela reconstrução das instituições de- ças do interior, de onde eu nasci, em Guaçuí, a minha campanha de vere- mocráticas no nosso País. ador virou campanha de deputado estadual. A gente, de certa forma, fez Eu me formei em Economia. Fiz duas provas para entrar no serviço essa migração de candidatura porque não entendia absolutamente nada de público. Uma no Instituto Jones dos Santos Neves e outra no Bandes, que eleição. Se entendesse, não faria – você veja como as coisas são. Mas deu eram os objetos de desejo de quem fazia Economia à época. Dentro do ser- certo. Eu me elegi deputado estadual com uma votação estrondosa, e por viço público, essas duas instituições vários motivos. Eu tive votos onde nunca tinha ido na vida. Eu tive votos O fundamento vem daí: o laço fami- eram as que chamavam a atenção. Eu em todos os municípios do Estado, muitos dos quais nem conhecia. Isso liar, a questão do movimento estudan- passei nas duas seleções, mas elas fo- porque os estudantes da Universidade, que tinham votado em mim para til, a conjuntura do nosso tempo, uma ram anuladas pelo governador de en- presidente do DCE e que participavam junto comigo dos movimentos, época de luta pela liberdade, pela de- tão. Segundo informações que recebi das assembleias, das passeatas, não só votaram em mim como também mocracia, pela reconstrução das ins- muito posteriormente, o motivo se- foram lá no interior pedir ao pai, à mãe, ao tio, que não sabiam nem quem tituições democráticas no nosso País. ria a aprovação de muitos, entre as- eu era, para fazer a mesma coisa. Então, eu tive voto espalhado por todo o pas, “subversivos” “comunistas” Com , . território capixaba. Foram mais de 20 mil votos para deputado estadual. a anulação dessas provas, não fui para o serviço público e acabei montan- Quando estava terminando o meu primeiro mandato, o governa- do uma microempresa, uma gráfica. Até nesse movimento, a inspiração dor Gerson Camata se licenciou do governo para poder ser candidato a política estava presente, pois gráfica dialoga com movimento político da senador. Assumiu o vice, que tinha diferenças políticas comigo; e eu com época. Assim, acabamos imprimindo material clandestino, jornais. Nós ele. O plano era que eu fosse disputar uma vaga na Câmara Federal, mas tínhamos um jornal do PCB, do Partidão, que, salvo engano, se chama- acabei numa posição mais conservadora em função da realidade políti- va “Voz do Trabalhador” Era escrito por alguns intelectuais e alguns pro. ca. Eu repeti a disputa para deputado estadual, e novamente fui muito fessores da Universidade. Então, eu acabei indo para um setor que dialo- bem votado. Na primeira eleição, fui o quarto mais votado do Estado. ga com a militância política, a partir da necessidade de ter papel, panfle- Na segunda, fui o segundo mais votado, repetindo a votação, com vinte to, jornal, essas coisas que têm muito a ver com a militância daquele pe- mil votos e alguma coisa. Mas algumas bases eleitorais da primeira elei- ríodo. Se fosse hoje, não precisava disso, bastava entrar numa rede social. ção não se repetiram na segunda. Mudou muito em função da atuação Atuando no setor gráfico e mantendo as conexões políticas, chega- do governador de então, que operou tentando fazer com que eu não me ram as primeiras eleições de 1982. Não havia pleitos para presidente da elegesse mais. A votação dos estudantes também não se repetiu, porque República nem para prefeitos de capitais, mas era uma eleição quase geral. já eram quatro anos à frente, outra realidade, assim por diante. Havia disputas para vereador, prefeito (com exceção das capitais), deputado estadual, deputado federal, senador e governador. Foi a minha primei26 Disputei a primeira eleição pelo PMDB. Eu já havia saído do PCB, mas o partido me apoiou, o que foi importante. Com a segunda eleição, Recortes Paulo Hartung Cap.1 Entre Gerações 27
  • 15.
    criou-se uma basebem mais sólida. Dessa forma, na eleição seguinte, De certa forma, agora eu estou repetindo a experiência que eu tive fui candidato a deputado federal. Foram cinquenta e tantos mil votos. quando saí da prefeitura. Estou estudando muito, trabalhando numa coi- Muito voto em Vitória. Aliás, em todas as eleições, desde a primeira, a sa absolutamente diferenciada do que eu vinha fazendo no governo. E minha votação em Vitória e na Grande Vitória é muito forte. Não con- está sendo bacana, muito rico, muito interessante. cluí esse mandato de quatro anos para a Câmara Federal, pois, no meio do período, me elegi prefeito de Vitória. Terminada a gestão à frente da capital, fiquei sem mandato. Um período igual a este que estou vivendo Ao se eleger g overnad or e m 2 0 02, o senhor agora. Foram dois anos sem mandato, pois não havia reeleição naque- conseguiu for m ar um a a mpl a ba se aliada que se la época. Elegemos o sucessor, e fui trabalhar como diretor da área so- sustentou dur ante o s oito ano s de g overno . Por cial do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES). Fiquei um ano que e como foi p o ssí vel construir e ssa coaliz ão? lá, numa experiência profissional muito rica. Pude voltar a estudar economia. Estudei Economia na facul- Na verdade a coalizão começou a ser montada na sociedade, muito antes De certa forma, agora eu estou repe- dade e, depois, voltei a estudar mui- da minha chegada ao governo. Eu vou dar dois exemplos da sociedade tindo a experiência que eu tive quan- to nesse período, assim como havia civil: primeiro o movimento “Reage Espírito Santo”, que nasceu conec- do saí da prefeitura. Estou estudando ocorrido no mandato de deputado tando a OAB, que era o centro, do Dr. Agesandro da Costa Pereira, uma muito, trabalhando numa coisa abso- federal. Na Câmara, integrei a Co- figura emblemática, e a Igreja Católica, do arcebispo de então, Dom Sil- lutamente diferenciada do que eu vi- missão de Finanças, que era muito vestre Scandian. Também tínhamos o apoio de um conjunto de igrejas nha fazendo no governo. bem composta à época. Vou dar al- evangélicas, com lideranças como o pastor Oliveira e o pastor Joaquim guns nomes que estavam lá: Rober- Beato. Havia ainda movimentos sociais, movimentos políticos, lideran- to Campos, Delfim Netto, José Serra, Francisco Dornelles, César Maia, ças políticas. Eu era senador nesse período. O nome do movimento in- Aloizio Mercadante. Então, tive de correr muito atrás. Nesses anos, tra- dicava bem a situação do Estado. Uma situação dramática: corrupção, balhei com gente muito qualificada, com um corpo técnico muito bem crime organizado, desorganização completa, uma falta de perspectiva montado do BNDES. Foi muito rica essa experiência. absoluta, empresas saindo do Espírito Santo em função de chantagens. Depois disso, eu me desincompatibilizei do BNDES para vir disputar o Governo do Estado. Vim muito bem avaliado em pesquisas, Enfim, o quadro era insustentável, e a sociedade organizada já articulava um movimento muito forte. mas perdi a convenção do PSDB. Depois, o partido me chamou para ser candidato a senador. Fui para o Senado, mas também não concluí pírito Santo em Ação”, que depois virou uma ONG. Vou dar um exemplo o mandato. Dos oito anos previstos, fiquei quatro, pois saí para a dis- do que acontecia com relação ao meio produtivo. Fez-se uma lei que dizia puta do Governo do Estado, à frente do qual fiquei oito anos como go- que não se podia plantar eucalipto. Eu não lembro exatamente o termo vernador (2003-2010). 28 Outro movimento que eu acho importante é o nascimento do “Es- da lei, mas é engraçado: podia-se plantar eucalipto, podia vender euca- Recortes Paulo Hartung Cap.1 Entre Gerações 29
  • 16.
    lipto para qualquerum, mas não podia ter eucalipto para Aracruz. Quer à ditadura militar para tentar trazer de volta a democracia ao País. Ou dizer, o que se queria com aquela lei não era nenhuma discussão sobre o seja, a minha formação pessoal, familiar, política é devota à articulação eucalipto, sobre a questão ambiental, sobre a monocultura. O que se que- de forças. Além disso, o clima na sociedade também facilitava a cone- ria ali era uma chantagem com relação à empresa, que, à época, se cha- xão de um conjunto de forças que reagiam aos desmandos. mava Aracruz Celulose, e agora se chama Fibria. Era uma ilegalidade fla- Houve problema durante a minha primeira campanha ao governo. grante, tanto que o Supremo Tribu- Forças políticas que estavam juntas inicialmente se movimentaram e se se- O quadro era insustentável, e a so- nal Federal (STF) derrubou essa lei. pararam no correr do processo. Quando acabou a campanha, fiz um movi- ciedade organizada já articulava um Os empresários também se levanta- mento para trazer muitas dessas forças para nos ajudar no processo de re- movimento muito forte. O intuito era ram. Montaram um movimento di- construção política, administrativa e institucional do Estado. E talvez o mais buscar a superação daquele quadro ferente das federações, sindicatos. importante tenha sido trazer o PT. O PT não esteve comigo na minha pri- dramático que o Estado vivia. Fizeram um movimento transver- meira eleição; esteve na segunda. O PT foi contra a minha primeira campa- sal, colocando em diálogo agricul- nha. A minha relação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vinha lá de tura, indústria, serviço, todas as áreas da atividade econômica. O intui- trás, uma relação muito sólida. Ao término da campanha, fui a São Paulo, to era buscar a superação daquele quadro dramático que o Estado vivia. eu eleito e o presidente Lula eleito. Ele me recebeu no escritório, que era um A minha chegada ao governo é produto disso. O Estado já vinha escritório de campanha. Pedi apoio, porque sabia que iria enfrentar um qua- numa situação dramática, de dois governos que haviam dado errado. Aí dro dramático no Espírito Santo. De certa forma, exemplifiquei com aquilo eu perdi a convenção, e depois entra um terceiro governo que também que o Fernando Henrique tinha feito lá no Acre, com o Jorge Viana, quatro deu errado. Então, ao final de três governos problemáticos, o clima era anos antes. Eu precisava da mesma presença que o governo federal teve no de unir o Estado, independentemente do líder que fosse colocado no go- Acre, no desmonte de uma teia cor- verno para poder superar aquele quadro. É claro que o meu jeito de fazer rupta, violenta, de desarticulação do Desde cedo eu aprendi, com meu saudo- política é buscar associar forças políticas em função dos objetivos que crime organizado. Fiz esse pedido ao so pai, que, se você tem uma tarefa com- nós temos. Desde cedo eu aprendi, com meu saudoso pai, que, se você presidente Lula e ele se comprometeu plicada, não vá sozinho. O que quer di- tem uma tarefa complicada, não vá sozinho. O que quer dizer isso? Não a ajudar o Espírito Santo. E, no dia em zer isso? Não adianta o voluntarismo. adianta o voluntarismo. Isso não muda a realidade social de uma comu- que eu o visitei, falei: “olha, eu vou ten- nidade, de um Estado, de um país. Não adianta apenas ter uma boa cau- tar trazer o PT lá do Estado para a minha base de trabalho” Na volta, con. sa. É preciso ter gente agregada em torno dessas boas causas. Boas cau- versei com o PT, conversei com as forças políticas que tinham me apoia- sas sem mobilização ficam aí mofando em gavetas a vida inteira. É claro do. Mostrei que o PT tinha como contribuir para aquele momento, até pela que eu sou forjado nisso. A escola do velho Partidão é isso. Eu sou um história do partido. E o PT reivindicou a presidência da Assembleia, como quadro formado na escola do Partido Comunista Brasileiro, um parti- mecanismo para participar daquele movimento. A eleição do Claudio Ve- do que não foi para a luta armada, que buscou unir as forças contrárias reza veio daí. Nós aceitamos como um caminho – foi um caminho difícil. 30 Recortes Paulo Hartung Cap.1 Entre Gerações 31
  • 17.
    Além disso, tambémfiz movimentos em direção ao PDT. Tive uma longa trutura governativa estadual durante mais de década. Com esse bloco de conversa com o líder do PDT no Estado, o prefeito da Serra, Sérgio Vidigal. forças, aí sim nós conseguimos quebrar a coluna vertebral daquele esque- Conversei com o PL (atualmente PR), que na época era o partido do atual ma, enfraquecendo-o. Não acabamos com ele, ele está aí, vira e mexe está senador Magno Malta. Eles não quiseram vir integrar o movimento. Mui- tentando se articular. É visível isso, inclusive no presente. Mas nós con- to embora tenham se comprometido a não ser obstáculo ao trabalho. Isso seguimos enfraquecer esse sistema, que tinha laços dentro das institui- ajuda. Na vida, quem não apoia, mas também não é pedra no caminho, na ções, para além do Executivo, dentro das outras instituições públicas do minha visão, na minha maneira de pensar, está ajudando. Estado. A Assembleia era o mais visí- De certa forma, buscamos o maior leque de aliança possível para vel, mas não era, infelizmente, o úni- Foi uma longa jornada. Foi possível poder enfrentar a desorganização. Quando eu falo desorganização, não co ponto de articulação e força des- porque nós conseguimos uma enge- é uma coisa burocrática. Desorganização tem dono, a gente tem que ter se esquema. Tivemos que enfraque- nharia política bem montada, que clareza disso. Quando o Estado estava quebrado, desorganizado, tinha cer esse esquema para poder ir para dialogou com o estado de espírito do gente ganhando muito dinheiro com isso, se aproveitando daquela si- um processo de reconstrução e pro- capixaba, das lideranças capixabas. tuação. Articulamos para enfrentar fissionalização da máquina pública, Conseguimos montar uma base sóli- Buscamos o maior leque de aliança todo um conjunto de leis, de regula- de planejamento, de colocar a estru- da que nos permitiu avançar. possível para poder enfrentar a de- mentos que tinham sido feitos para tura de Estado, de governo, e de ins- sorganização, que não era uma coisa beneficiar grupos, dando privilégios tituições públicas a serviço do cidadão capixaba. Foi uma longa jorna- burocrática. Desorganização tinha a segmentos da sociedade. Nós tive- da. Foi possível porque nós conseguimos uma engenharia política bem dono. Tinha gente ganhando muito mos que desmontar isso tudo. Em montada, que dialogou com o estado de espírito do capixaba, das lide- dinheiro com isso, se aproveitando um decreto nós cancelamos 450 re- ranças capixabas, com a angústia, o mal-estar com aquele descalabro que daquela situação. gimes especiais de ICMS. Isso é uma vivíamos. Conseguimos montar uma base sólida que nos permitiu avan- coisa que parece técnica, mas era um çar. Enfim, acho que a composição política, a origem dela, está posta aí. privilégio que foi dado sem nenhum critério. Na época, era a Assembleia Legislativa que dava esses privilégios. Eu tive de fazer uma lei para trazer de volta a administração tributária do Estado para a Secretaria da Fazen- A in da s o b re a c oa l iz ã o , c omo e r a a re l a ç ã o d o da, porque ela estava nas mãos da Assembleia Legislativa, mais precisa- se n h o r c om o g ov e rn o fe de r a l , e m e spe c ia l o mente na Comissão de Finanças da Assembleia Legislativa. Em função pre side n te L ul a ? E a re l a ç ã o c om a s l ide r a n ç a s da gravidade da situação, precisávamos de respaldo, e a gente buscou a l o c a is d o E sta d o ? maior coalizão política, partidária e social. O enfrentamento era complexo, contra pessoas que se assenhorearam da máquina pública do Estado, faziam o que bem entendiam da es32 A relação foi boa, porque o presidente Lula cumpriu mais ou menos o que acertou com a gente. No quarto mês de governo, eu recebi o pre- Recortes Paulo Hartung Cap.1 Entre Gerações 33
  • 18.
    sidente Lula noEstado. Ele veio, ficou, pernoitou na residência oficial nômico e social. Isso não é um problema do governo A, B, C ou D, isso é da Praia da Costa, em Vila Velha. Era uma coisa simbólica, mas impor- um problema histórico. E também não foi nesse momento que essa re- tante. Não era trazer dinheiro; o governo federal não nos deu dinhei- lação foi mudada, tendo em vista as nossas potencialidades, as nossas ro. “Toma um dinheiro aí para pagar os servidores!” – não, ele não nos vocações. Por exemplo, temos a questão da estrutura portuária, que é deu. O governo federal comprou um ativo do Estado, recebíveis futuros uma vocação que o Estado tem, funcionando como uma porta impor- da produção do petróleo. Pagou bem? Pagou nada. É matemática finan- tante de entrada e saída da região central do Brasil. ceira: trouxe para valor presente, pagou com títulos do governo federal, Eu só quero pontuar que a relação foi importante e que eu a valori- vencendo em parcela durante dois anos. O único dinheiro que entrou zo, mas registro que ela não promoveu a superação desse certo abandono foi porque nós usamos, logo no início, uma parte desses títulos para pa- do poder central em relação ao destino dos capixabas. Isso é histórico, vem gar uma dívida que o Estado tinha no Clube de Paris, um endividamen- lá da chegada dos portugueses ao Brasil e perpassou todos esses anos. Se to que tinha uma caução. Essa caução da dívida foi liberada e entrou no você olhar, os nossos vizinhos todos já foram apoiados pelo governo cen- caixa. Mas nada foi dado ao Espíri- tral: Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, só para colocar os três vizinhos O movimento presencial do presiden- to Santo para que se resolvesse o im- que fazem divisa com a gente. Eles já tiveram presença sólida. Quando foi te Lula no Estado deu um sinal de que bróglio administrativo, financeiro, e feito o polo petroquímico de Camaçari, que está no II PND, se não me en- nós não estávamos sozinhos na bri- assim por diante. Eu fiz uma tenta- gano, isso foi uma coisa importante, estruturante para a economia baiana. ga para reorganizar o Espírito Santo. tiva de passar o Banestes para o go- Agora, recentemente, levou-se a fábrica da Ford para a Bahia com incen- verno federal, que não foi aceita pelo tivos criados especificamente para que isso acontecesse naquele estado. ministro Antonio Palocci – nós é que tivemos de reestruturar o Banestes. Então, a relação foi boa, importante na sustentação do enfrenta- Agora, nos foi dada uma coisa muito relevante, que eu sempre va- mento que estávamos fazendo aqui. E eu sou agradecido por isso, mas lorizei: esse movimento presencial do presidente Lula no Estado deu até hoje não conseguimos quebrar essa relação de pouco apoio do go- um sinal de que nós não estávamos sozinhos na briga para reorganizar verno central ao nosso Estado. o Espírito Santo. Deu um sinal para esse segmento que destruiu a má- Do ponto de vista da infraestrutura, nós estamos com problema quina pública capixaba de que o governador não era um menino bem- no aeroporto, que se arrasta há não sei quantos anos; problema na dra- -intencionado e isolado no jogo da política nacional. Isso eu devo, e nós gagem do canal de evolução do Porto de Vitória. Estamos aí, agora, com devemos, ao presidente Lula, porque ele foi correto, nesse sentido, com chance de ser licitada a BR 101, que é uma BR estrangulada já há mais de o movimento que nós estávamos fazendo aqui. Ele deixou claro, ao vir década; a BR 262 que está caminhando na mesma direção. Então é dis- aqui, que ele e o governo dele estariam ao lado da gente nesse embate. so que eu estou tratando. Eu estou falando isso porque o Espírito Santo tem uma história longa de ser colocado à margem do desenvolvimento nacional. O Espí- nós nos reorganizamos, do ponto de vista fiscal, com os nossos recur- rito Santo poucas vezes foi visto e apoiado no seu desenvolvimento eco34 Enfim, acho que foi importante o apoio do presidente Lula. Mas sos. Como é que se reorganizou o Espírito Santo? Como é que nós saí- Recortes Paulo Hartung Cap.1 Entre Gerações 35
  • 19.
    mos do penúltimolugar no ranking do Tesouro Nacional para virar se- verno do Estado com a administração da Presidência da República. Na gundo, terceiro lugar? Foi com o nosso esforço. “Ah, com royalties de verdade, é muito complexo administrar um governo estadual, bastando petróleo?” – não, não é com royalties de petróleo. É com ICMS, com que se note que, depois da Constituição de 1988, o que se tem são trans- combate à sonegação, com reor- ferências de obrigações para Estados e municípios sem o devido acom- Com reestruturação da máquina ar- ganização da máquina fazendária, panhamento de transferências de recursos que financiem essas novas recadadora, com planejamento e con- com profissionalização do setor pú- competências. No caso dos Estados federados, há uma incumbência na trole dos gastos, com sentido de prio- blico, com controle de gastos, com área de financiamento de saúde pública, segurança pública e educação ridade, o Espírito Santo se reorgani- senso de planejamento, de priorida- que é um desafio que não é pequeno. Mas eu não quero comparar, não zou, se qualificou, se tornou o Esta- des. Foi isso que colocou esse Esta- acho que vá contribuir para o debate. do com maior capacidade de investi- do de pé. Somente neste 2011, é que Primeiramente, eu vou separar: nós não fizemos esse movimen- mento com recursos próprios, basica- temos um volume maior de royal- to que foi feito em nível nacional. Nós não fizemos, nós tínhamos uma mente com ICMS. ties. O Espírito Santo se reorgani- base sólida, e essa base não nos levou a produzir feudos dentro do go- zou, se qualificou, se tornou o Es- verno. Feudos: entrega a secretaria ao partido tal e o partido é dono tado com maior capacidade de investimento com recursos próprios, da secretaria. Não teve isso no nosso governo. É importante dizer isso. basicamente com ICMS. Com reestruturação da máquina arrecadado- Nós usamos uma base sólida, inclusive para profissionalizar a máqui- ra, com planejamento e controle dos gastos públicos, com sentido de na pública, para trazer quadros dos mais diversos partidos. Quadros prioridade, e assim por diante. que nunca tiveram filiação partidária, mas que tinham competência para poder compor uma equipe extraordinária de governo. E conseguimos fazer isso. Não é a primeira Recentemente, o senhor deu uma entrevista na vez que eu faço, eu fiz durante oito Governar não é administrar uma em- qual criticava o modelo de gestão do governo anos como governador e fiz como presa privada. Na minha visão, repetin- federal, que acaba por lotear ministérios e cargos prefeito da capital. Esse modelo me do o que disse o ex-presidente Fox: “go- em função de privilegiar os partidos que fazem acompanha por onde eu passei até vernar é muito mais complexo do que parte da base aliada. Como o senhor administrou agora. Inclusive nos meus mandatos administrar uma empresa privada” . isso durante os seus oito anos à frente do parlamentares, sempre me esmerei Executivo estadual, visto que também contava com em ter uma assessoria qualificada. Mas eu não estou fazendo compara- uma vasta gama de partidos que o apoiavam? ção de uma coisa com a outra. Aqui, o nosso modelo foi esse: foco na profissionalização, foco em buscar pessoas e quadros dos mais diver- Eu não quero ser simplista, porque essa não é uma questão simples. É absolutamente complexa. Eu não quero comparar a administração do Go36 Recortes Paulo Hartung sos pensamentos políticos, mas com competência para tocar. Eu queria fazer uma observação antes de ir para o nacional: goverCap.1 Entre Gerações 37
  • 20.
    nar não éadministrar uma empresa privada. Na minha visão, repetin- cialismo. E eu via na rua que nós íamos perder feio, porque as pesso- do o que disse o ex-presidente do México Vicente Fox: “governar é mui- as diziam assim: “prefeito, o senhor está pedindo a gente para entre- to mais complexo do que administrar uma empresa privada”. Você pode gar o governo aos deputados?” (risos). Quer dizer, era como o pesso- ter um bom projeto, mas você precisa legitimá-lo e construir um leque al que estava fazendo campanha para o presidencialismo passou essa de apoio para que ele deixe de ser um projeto e passe a ser uma ação de imagem para a população. E aí a população votou no presidencialis- governo, em benef ício da sociedade. Eu não acredito num governo de mo. Então, nós ficamos com uma Constituição com formato de par- tecnocratas, não é isso que eu estou dizendo. E eu nunca fiz governo de lamentarismo e com o Executivo de presidencialismo. Aí você preci- tecnocrata. Eu acho que para montar uma equipe você precisa levar gen- sa de medida provisória, os presidentes governando a partir de medi- te que tenha conhecimento da área, e de preferência muito mais conhe- da provisória, o orçamento é um orçamento autorizativo. cimento do que o líder, porque o líder não é obrigado a ter um conheci- Dessa forma, eu acho que é essa questão que precisa ser debatida mento vertical de todas as questões que vão ser tratadas, ele precisa ter no País novamente. Veio um esgotamento profundo já no segundo go- um conhecimento horizontal. Mas esse quadro que vai ocupar uma fun- verno do presidente Lula. Não foi percebido porque o País estava cres- ção precisa ter conhecimento técnico, mas também precisa ter capaci- cendo, aumentando emprego, aumentando a renda, aumentando a classe dade política, sensibilidade política, para ocupar uma função em gover- média, e por aí vai. Mas é a mesma classe média que traz novos valores, no. Então, eu não estou propondo governo de tecnocrata, eu não acre- e traz ética para o debate da política, na minha visão. É a contradição da dito nisso. O que eu estou colocando é que precisa ter formação técni- vida. Foi isso que eu debati numa entrevista recente que eu concedi. Eu ca, precisa ter sensibilidade política, e não pode ter feudo. Não pode ter acho que precisamos aprofundar essa visão. Para resolver isso, é preci- feudo para nenhum tipo de ação de governo. Foi assim que nós fizemos so equacionar o problema da estrutura político-eleitoral do País. O nos- aqui; esse é o modelo em que eu acredito. so sistema político é dos mais atrasa- O que vem sendo feito em Brasília, que eu chamo “presidencia- É preciso equacionar o problema da lismo de coalizão”, é uma coisa que no limite já está dando errado, e solver o problema de financiamen- estrutura político-eleitoral do País. vai dar cada vez mais errado nos próximos anos no nosso País, na mi- to de campanha. Não tem não me O nosso sistema político é dos mais nha visão. Usando a linguagem dos engenheiros, esse modelo já deu toque, não adianta fazer demagogia atrasados do planeta. fadiga de material. E eu acho que quanto mais rápido o País debater com a população e dizer que “ah, vai isso em profundidade, melhor. Não acho que isso seja responsabilida- tirar o dinheiro de tal setor para pagar campanha eleitoral”. Campanha de do PT, ou do PSDB, ou de quem quer que seja. Isso vem do nosso eleitoral tem custo. Nós optamos pela democracia, nós precisamos saber debate da Constituição de 1988, quando nós começamos a preparar como se financia um processo eleitoral. Isso precisa ser um debate cla- uma constituição parlamentarista, e veio o plebiscito. Eu era prefeito ro e transparente se a gente quiser evoluir com a democracia brasileira. de Vitória quando veio o plebiscito. Eu defendi o parlamentarismo, e Foi essa discussão que eu coloquei, o que, na minha visão, preci- o parlamentarismo tomou uma surra no Brasil. Ganhou o presiden38 dos do planeta. Nós precisamos re- sa ser resolvido em nível nacional. Nós temos aí sei lá quantos minis- Recortes Paulo Hartung Cap.1 Entre Gerações 39
  • 21.
    tros que jácaíram neste governo. É quase um roteiro único, um rotei- País continuar avançando. O País está avançando nesses últimos anos. ro se repetindo. Não tem nem roteiro diferente, a novela repete o ro- Eu reputo que desde o governo do presidente Itamar Franco, desde o teiro em cada caso, e eu não sei em quantos ministérios vai acontecer Plano Real, o Brasil vem avançando do ponto de vista econômico, do a mesma coisa. Para mim está claro. Por isso, eu falei que esse cami- ponto de vista social, da diminuição da miséria, da pobreza. Colocamos nho se esgotou. Precisamos rediscutir e colocar uma coisa melhor. E as crianças no ensino fundamental. Há um problema de qualidade, um para colocar uma coisa melhor, evidentemente tem de melhorar o sis- problema sério de qualidade no ensino de Português, de Matemática, tema político, eleitoral, partidário do País. Tem de aperfeiçoar, tem de mas as crianças estão na escola. Há avanços dignos de registro no País. resolver essa questão do financiamento de campanha, e tem de pro- Mortalidade infantil em queda, expectativa de vida em alta, tem mui- fissionalizar o setor público. Grosso modo, nos países desenvolvidos, ta coisa digna de registro nesse período. Mas é evidente que aquilo que você muda um primeiro-ministro, mas não muda a burocracia. Essa nos fez chegar a esses registros positivos é insuficiente para continuar a coisa de loteamento partidário de caminhada. Nós precisamos refazer esse modelo para seguir em frente. A questão da gestão precisa entrar no estruturas públicas, isso é o atraso debate nacional. Como é que você vai do atraso do atraso. Você precisa fazer as coisas, quanto vai custar, quais caminhar no sentido da profissiona- O se n h o r in gre s s o u f o r m a l me n te n a v ida são as outras maneiras de fazer? Qual lização da máquina pública. Tem de p o l ític a n a dé c a da de 8 0 , a o se fil ia r a o o retorno que vai dar para a socieda- ter eficiência. O setor público tem PMD B . D e p o is pa s s o u vá rio s a n o s n o P S D B , de? Tem que ter meta, objetivo. de fazer as coisas e ter avaliação do te v e fil ia ç õ e s me n o s dur a d o ur a s n o PP S e P S B , que ele está fazendo, tem de olhar te n d o vo lta d o p o ste rio r me n te a o PMD B , o n de quanto está custando aquilo. Porque é público não tem que olhar isso? se e n c o n tr a a g o r a . Q ua l é a o pin iã o d o se n h o r Claro que tem, acho que tem de olhar mais, na minha modesta visão. s o b re o s pa rtid o s p o l ític o s h oje n o B r a sil , A questão da gestão precisa entrar no debate nacional. Nos oito anos à frente do governo do Espírito Santo, ela recebeu prioridade. Como de m a n e ir a ge r a l ? Q ua is p o n t o s me re c e m se r de sta c a d o s , p o siti va o u n e g ati va me n te ? é que você vai fazer as coisas, quanto vai custar, quais são as outras maneiras de fazer? Qual o retorno que vai dar para a sociedade? Tem que Eu comecei no PCB. Quando eu era estudante, na militância estudantil, ter meta, objetivo. É preciso utilizar as mesmas ferramentas de traba- eu me filiei ao PCB. Me filiei, assim, não tinha ficha não, era clandesti- lho da iniciativa privada. no. Me filiei ali, de passar à militância, e tudo. E depois, em algum mo- Então, eu acho que esse modelo que está lá em cima já está completamente ultrapassado, fazendo água. E isso é visível para a sociedade, va. A militância no MDB, no PMDB, foi uma militância que muitas for- independentemente de ficar botando a culpa em A ou em B, em parti- ças de esquerda tiveram porque estavam na clandestinidade e o espaço do. Não quero saber de quem é a culpa, precisamos resolver isso para o 40 mento, eu refleti que aquele caminho não era o caminho que eu pensa- legal de atuação era o MDB, depois o PMDB. Na verdade eu vim da mi- Recortes Paulo Hartung Cap.1 Entre Gerações 41
  • 22.
    litância socialista paraa militância social-democrata, é onde eu estou to na Câmara dos Deputados. (Na verdade, com os recém-criados PSD agora. Essa é a minha história, eu virei um social-democrata. e PPL, o Brasil conta com 29 partidos oficiais, sendo que 23 têm repre- A questão partidária no País, o retrato dela, é o PSD, criado ago- sentação na Câmara dos Deputados). Talvez possamos ter um núme- ra pelo Gilberto Kassab. Proibiram a mudança partidária de quem tinha ro menor, mas ter partidos com uma relação programática mais bem mandato, mas abriu uma janela para, criando um partido novo, você poder estabelecida. E eu acho que aí é de certa forma dar uma olhada no que mudar. Acho que eles colocaram quarenta deputados federais no partido, está acontecendo no mundo. quarenta e tantos. Isso é quase 10% da Câmara, você imagina. Então isso aí é um sinal do que virou a vida partidária. Depois do mensalão, o PT, que bém está mudando velozmente com as novas tecnologias. Quando você tinha uma vida partidária mais organizada, perdeu muito do carisma que pensa, por exemplo, que a função do Legislativo está em discussão na tinha com a sociedade. A vida partidária brasileira está muito desorgani- sociedade... Deixe-me fazer aqui uma simplificação histórica: mudou zada. O que eu vejo de bom nela hoje?! Eu não vejo nada, sinceramente. O muito da assembleia da Grécia An- que eu vejo é que se precisa reestruturar a vida partidária brasileira, den- tiga, quando todos os poucos cida- Os partidos hoje são pouco progra- tro daquilo que eu falei, da necessidade de uma reestruturação da políti- dãos decidiam tudo pessoalmente máticos. Eles se tornaram uma espé- ca no País, dos partidos, da legislação eleitoral, do financiamento de cam- a todo tempo, à democracia repre- cie de cartório. Compete ao País ter panha, de como organizar uma campanha eleitoral. Eu acho que esse é o sentativa nos parlamentos, em que capacidade de reformular as leis que desafio. Os partidos hoje são pouco programáticos. Eles se tornaram qua- você escolhe uma pessoa para re- regem a estrutura política. se uma visão de uma coisa burocrática que nós temos no País, e em certos presentá-lo, você dá uma procura- pontos muito atrasada. Eles se tornaram uma espécie de cartório da polí- ção para o cara ir lá votar em seu nome, decidir em seu nome. Ocorre tica. Tem o cartório de registro de imóveis, tem o cartório de outras coi- que, hoje, você tem, no meio disso tudo, a possibilidade de as pessoas sas, então o partido se tornou quase um cartório. O cara tem necessida- serem mais consultadas sobre os mais diversos temas. Pelo volume de de de ter uma filiação partidária para poder ser candidato, independente- gente que tem esses celulares modernos, a possibilidade de você con- mente se ele sabe o que está escrito no programa do partido, e assim por sultar a população está aumentando, está se aproximando de um nú- diante. Essa é uma coisa que esses anos de democracia trouxeram para a mero grande de pessoas para poder falar sobre o que pensam disso ou luz do dia. Compete ao País ter capacidade de reformular as leis que re- daquilo. Essas novas possibilidades precisam entrar no debate da refor- gem a estrutura política. É isso que precisa ser feito, não tenho dúvida. A ma política. E a própria discussão desse novo parlamento. Você vê, os visão que tenho da questão partidária é essa. Você olha as coligações par- meninos vão para a rua, acampam lá na Espanha, mas vão para a porta tidárias hoje, e elas são feitas em cima de um episódio eleitoral. O PMDB do parlamento espanhol fazer protesto. E o protesto diz assim: “nós não esteve com o Fernando Henrique, esteve com o Lula, e está com a Dilma. nos sentimos representados por essa instituição”. Então isso tem de le- Essa estrutura precisa ser reorganizada. E aí você ter talvez um var a uma discussão, quando a gente repensa essa questão da democra- número menor de partidos. Hoje o País tem 28, 29 partidos com assen42 Não tem vida muito fácil nesse assunto porque o mundo tam- cia representativa, nós precisamos levar em conta todos esses aspectos. Recortes Paulo Hartung Cap.1 Entre Gerações 43
  • 23.
    E e speci fi c a mente s obre o parti d o d o se nh o r , o PM DB? C omo o avalia , tan to O se n h o r de i xo u o G ov e rn o d o E sta d o c om um a ltís simo n í v e l de a prova ç ã o , e f o i q ue stio n a d o na c i ona l m ente quant o regional m e n te ? muita s v e z e s pe l a q ue stã o da un a n imida de , de O PMDB teve um papel muito importante no processo de democrati- se n h o r ava l ia e s sa s dua s c o isa s ? g ov e rn a r pr atic a me n te se m o p o siç ã o . Como o zação do País. Não como partido, mas como movimento, como frente. Isso foi um papel muito relevante e histórico do PMDB. A partir daí Quem tiver em uma luta política com desafios gigantescos, como nós ti- ele virou um partido que se acopla aos projetos, como eu disse. Aco- vemos de enfrentar, e não buscar apoio, não tiver humildade para buscar plou ao projeto do ex-presidente Fernando Henrique, deu número no apoio em outras forças políticas, em grupos sociais, em instituições da Parlamento para aprovar medidas que foram muito importantes para sociedade, está fadado ao insucesso. Essa é a minha visão, como de certa o País. Reformas que ajudaram o Brasil a se reestruturar. Muitas delas forma já está construído no meu raciocínio lá atrás, na minha outra res- que permitiram ao País passar melhor pela crise de 2008, como, por posta. Quem tem desafios gigantes- exemplo, a reforma do sistema bancário brasileiro. cos pela frente, que não vá sozinho Quem tiver em uma luta política com Então o PMDB esteve lá nesse momento reformista que o País pra ele. Isso é máxima-chave que eu desafios gigantescos, como nós tive- viveu. Mas é um partido, por exemplo, que há muitos anos não aspi- aprendi na minha casa, com meu sau- mos de enfrentar, e não tiver humil- ra ao poder nacional, não disputa a Presidência da República à vera doso pai. E foi isso que nós buscamos. dade para buscar apoio em outras mesmo, colocando-se sempre como caudatário do movimento de ou- São críticas vazias, absoluta- forças políticas, em grupos sociais, mente inconsistentes. Se você busca em instituições da sociedade, está fa- Eu acho que é isso, está dentro dessa geleia geral partidária a o apoio, e o tem, é porque você tem dado ao insucesso. que eu me referi, desse sistema partidário gelatinoso que precisa ser uma proposta que aquele interlocu- reestruturado. Então acho que não faz diferença. O PMDB teve um tor que você buscou entende como uma coisa importante, que tem re- papel histórico. O PSDB teve um papel histórico, desmembrando-se percussão para a sociedade. Porque, se você vai buscar apoio para uma do PMDB para ser uma coisa diferente, fez esse governo do Fernan- proposta equivocada, por um caminho que se revela um descaminho, do Henrique. O PT teve o seu papel também importante, mas todos você não junta gente. Você junta gente quando o objetivo é uma von- perderam o brilho ao longo dessa caminhada. Por isso, talvez o me- tade social, que tem reflexo na vida do cidadão. O que eu fiz foi mobi- lhor fosse reestruturar a vida partidária e eleitoral, o sistema político lizar o Estado, e ter humildade para procurar, conversar, explicar o ca- do País como um todo. Eu acho que esse sistema em que estamos vi- minho que eu queria seguir a políticos, partidos, entidades da socie- vendo deixa muito a desejar. dade civil, jornalistas, igrejas, universidade, faculdades. O que eu fiz tros segmentos. foi isso, e recebi o apoio. Um sinal de que a proposta fazia sentido. E a história está aí: onde estava o Espírito Santo, e onde o Espírito Santo 44 Recortes Paulo Hartung Cap.1 Entre Gerações 45
  • 24.
    está hoje? Deonde nós saímos e aonde nós chegamos? Então acho que versavam, eu conversava pessoalmente, e me dava ao trabalho do con- a crítica não tem consistência, ela não se fundamenta em nada. Mui- vencimento. Porque essa é a questão do governar, é você convencer as tas vezes, são críticas feitas por pessoas que em outros momentos da pessoas do caminho que você acha que deve seguir. Então trabalhamos política tentaram a mesma coisa. Uns não conseguiram, porque não com muito apoio, mas muito longe do comentário feito. tiveram capacidade de mobilizar a sociedade; não conseguiram con- Sempre trabalhamos com a oposição forte. Forte no sentido de que vencer a sociedade do caminho, não trabalharam com bons argumen- a oposição ao nosso trabalho foi e é justamente esse conjunto de forças tos. Outros chegaram a conseguir apoios importantes para conseguir políticas que mandou no Espírito Santo durante mais de uma década. coisas que precisavam ser feitas. Mandaram e desmandaram, mais desmandaram, durante mais de uma Eu acho que a crítica muitas vezes é útil para consertar algumas década. Não é gente frágil. É gente acerca da qual nós buscamos real- coisas, mas é preciso que haja fundamento. O Lula governou com mui- mente uma forma para que se enfraquecessem no jogo de poder do Es- to apoio, no estilo dele. Então, se a crítica fosse assim: “Para ter apoio, o tado. Óbvio, caso contrário não conseguiríamos botar de pé essa estru- Paulo Hartung fez coisas absurdas. Deu a Secretaria da Saúde para o cara tura nova que nós propusemos. fazer coisa errada lá dentro”. Mas isso não existiu, nem esse tipo de crítica existe. Não foi feita, inclusive por quem se diz oposição ao trabalho se conseguiu aprovação? Com trabalho. A pessoa não recebia o salário, que nós realizamos. Se eu tivesse trabalhado com uma equipe que tives- passou a receber em dia. Tinha uns atrasados de salário, recebeu. Ti- se sido uma politicagem só, aí haveria motivo. Podem até dizer que tive nha uns atrasados de plano de cargos e de salários, recebeu. Toda vez apoio amplo, mas reconhecem o valor da equipe. Também se argumen- que o Estado podia avançar, ia lá e reestruturava o plano de cargos e de tou: “Ah, porque ele teve muito apoio na Assembleia Legislativa”. Mas eu salários, dentro das nossas possibilidades. E o Estado conseguiu se re- trabalhei para ter apoio na Assembleia Legislativa. Eu ficava até dez ho- organizar, fazer os concursos públicos, repor a força de trabalho que a ras da noite atendendo parlamentar. Muitas vezes, não para fazer o que máquina pública precisava, e ao mesmo tempo voltou a ser provedor ele me pedia, mas para explicar o que era possível e o que não era possí- de serviços para a sociedade. Então, o cidadão, na outra ponta, via que vel atender, inclusive mostrando que aquilo fortaleceria o mandato de- o Estado ia lá e construía uma unidade de saúde, reconstruía uma es- les. E isso se revelou na prática, tanto que muitos deles disputaram a ree- cola, construía uma escola nova, comprava equipamento para o hospi- leição e foram bem-sucedidos. Quer dizer, mostrou também que eu não tal, fazia estrada, levava energia para onde não tinha. O Estado voltou aconselhei errado, que eu não vendi ilusões para líderes políticos. Falei: a funcionar. Os órgãos da área da agricultura começaram a fazer polí- “Olha, vamos trabalhar nessa direção aqui. Nessa direção você também ticas inovadoras para melhorar a qualidade dos nossos produtos, seja vai refazer o seu mandato político. Não é isso que você quer?”. E muitas o café, o milho, a banana, e os diversos polos de fruticultura. O Estado vezes o que vinha sendo proposto era uma coisa que ia destruir o rumo voltou a funcionar. Então isso é que deu prestígio. O que dá prestígio do que estava sendo feito, de profissionalização, de planejamento, de me- é isso, não é gogó, não é discurso bonito. Com isso a população já está tas, e assim por diante. Mas eu gastava tempo, os meus secretários con46 Acho que a aprovação também é uma coisa positiva. Como é que impaciente. Não aguenta conversa fiada. Recortes Paulo Hartung Cap.1 Entre Gerações 47
  • 25.
    Por que ogoverno do Lula ganhou prestígio? Porque aumentou a En tr a n d o n o c a mp o e c o n ômic o , o B r a sil renda, aumentou o emprego. Por isso ganhou prestígio. Esse eu acho que e o E spírit o S a n t o se de sta c a m h oje c omo é o desafio, chegar à vida das pessoas, positivamente. Isso que dá prestígio gr a n de s e xp o rta d o re s de c ommo ditie s . A l g un s a governo, a governante. E eu não vejo mal nenhum, pois se há prestígio é e spe c ia l ista s a p o n ta m pa r a um a te n dê n c ia de porque se está trabalhando direito. Porque o povo é também um consumi- re prim a riz a ç ã o da pau ta de e xp o rta ç õ e s , e q ue dor de produtos e serviços de responsabilidade do governo. E a população is s o p o de ria te r c o n se q uê n c ia s n e g ati va s pa r a não é intransigente, fato importante de se ressaltar. Sabe-se que ninguém o Pa ís e pa r a o E sta d o , n o l o n g o pr a z o . Como o vai resolver tudo. Nós ficamos oito se n h o r ava l ia e s sa q ue stã o ? Eu não vejo mal nenhum em ter muito anos no governo e não resolvemos apoio, desde que isso não esteja ligado todos os problemas; não tem como. Eu concordo com os analistas. Tenho uma grande preocupação com isso. ao fisiologismo, ao clientelismo, às prá- Você acaba de resolver um problema Com esse fato de se ter hoje como principal produto de exportação do ticas equivocadas tão comuns da vida e aparece um novo; a sociabilidade é País o minério de ferro. Nos últimos doze meses, só para dar um núme- pública brasileira. Não tenho proble- dinâmica. Mas a população também ro, nós fizemos 40 bilhões de dólares de exportação de minério de ferro. ma nenhum em ter apoio de partidos, percebe que as coisas estão andando Essa é uma pauta que preocupa o Brasil e o Espírito Santo. Como se su- de lideranças políticas, da sociedade. para frente. Quem usa o SUS sabe o pera isso? Modernizando o País. Precisa-se de uma agenda nova para o quanto o hospital público melhorou. País. Isso dialoga com o que eu falei em respostas anteriores. Nós passa- Quem não usa fala que isso é um caos, e ponto. Ele vê que tem problema; mos bem pela crise de 2008, pelo que nós fizemos lá atrás, desde a esta- então isso é um caos. É fácil falar que é um caos, mas quem usa no dia a bilização da moeda. Nós podemos passar melhor agora por essa conti- dia sabe a hora que não tinha uma tomografia e passou a ter, que os exa- nuidade da crise, que está expressa nos episódios da Europa, principal- mes estão sendo feitos, que ninguém está ficando num leito hospitalar mente, e dos Estados Unidos, ainda por conta do que fizemos no passa- para esperar durante 60 dias um exame. Na hora que melhora, a peque- do. Mas precisamos de uma nova geração de reformas. No caso, inclusi- na melhora é percebida por quem usa, e entra na avaliação do governo. ve, acho que mais microeconômicas do que macroeconômicas. Nós pre- Dessa forma, eu não vejo mal nenhum em ter muito apoio, desde que isso aí não esteja ligado ao fisiologismo, ao clientelismo, às práti- cisamos melhorar o Estado brasileiro, o funcionamento dele, para poder aumentar a competitividade do País. A nossa competitividade é baixa. cas equivocadas tão comuns da vida pública brasileira. Não tenho problema nenhum em ter apoio de partidos, de lideranças políticas, da so- vale para o Brasil e para o Espírito Santo. O maior desafio que temos é ciedade. E só vejo bem num governo bem avaliado. Aliás, nós trabalha- a educação. Nós precisamos melhorar a educação pública do País, co- mos, era um objetivo estratégico da gente ter uma boa avaliação com a meçando lá com o ensino da Matemática e do Português. É o progra- população. E acho que todo governo deve ter isso. Agora, tivemos opo- ma que nós estruturamos aqui no Estado, “Ler, Escrever e Contar”, que sição, e temos oposição ao que fizemos, e não é pequena. 48 Vou dizer, grosso modo, o que eu acho que precisa ser feito, e dialoga com isso. Nós precisamos melhorar a educação. Nós precisa- Recortes Paulo Hartung Cap.1 Entre Gerações 49
  • 26.
    mos investir maisem ciência e tecnologia, setor em que o País inves- não aconteça. Eu espero que esse período de bonança empurre o País te pouco. Se nós estamos hoje “bombando” nas commodities agríco- para novas reformas modernizantes, que nos deem mais competitivida- las e metálicas, e vamos ter pré-sal daqui a pouco tempo, nós precisa- de. Que o País pare de flertar com o caminho fácil, porque não existe ca- mos usar o dinheiro dessas commodities para aumentar o investimento minho fácil. A vida é dura mesmo. Tanto é dura que o Fernando Henri- em educação, ciência e tecnologia que, que liderou o País em tantas reformas importantes, não tem popu- Nossa competitividade é baixa. O no País. Aliás, temos experiências laridade. Talvez a obra dele vá ser reconhecida daqui a 30 anos. Mas não maior desafio que temos é a educação. boas. Quando você olha a Empre- tem jeito, esse é o desafio. E a presidenta Dilma está terminando o pri- Nós precisamos melhorar a educação sa Brasileira de Agropecuária (Em- meiro ano de governo com um estoque de mudanças muito pequeno, e pública do País, começando lá com o brapa), é uma experiência boa, que uma sensação ruim, com esse monte de ministro envolvido em coisa er- ensino da Matemática e do Português. aproximou inclusive a Academia da rada. Isso já é um quarto do governo. Veja você, como o tempo em gover- área produtiva. A Empresa Brasilei- no é um negócio rápido. Quando você abre o olho, já acabou o governo. ra de Aeronáutica (Embraer) é uma boa experiência. A exploração de Nós precisamos levantar a cabeça, olhar esse quadro de competi- petróleo em águas profundas é outra boa experiência. São três experi- tividade global. Eu não tenho inveja nenhuma da China. China não é ca- ências, eu poderia citar outras, que nós precisamos replicar em outros minho para a gente. Não é a isso que setores em busca de competitividade mundo afora. Esse é um desafio. eu estou me referindo. Eu não tenho Nós precisamos desburocratizar o Nós precisamos desburocratizar o País. Você não pode gastar dois inveja de um país que não tem leis País, melhorar o acesso ao crédito e anos para conceder uma licença ambiental, não ter prazo para as coisas. trabalhistas – está lá o sujeito traba- investir na infraestrutura econômica O Governo Federal agora começou a tentar encarar esse problema. Foram lhando 14, 15 horas por dia. Não te- do País, que é precaríssima. feitas portarias da ministra de Meio Ambiente nesse sentido. Precisamos nho inveja de um país que não tem melhorar o sistema tributário brasileiro. Precisamos melhorar o acesso legislação ambiental, não tem legislação previdenciária, não é isso. Mas, ao crédito no Brasil. Tem um conjunto de tarefas sobre as quais precisa- tendo legislação trabalhista, ambiental, previdenciária, nós precisamos mos nos debruçar, estou citando algumas delas rapidamente. E, por últi- saber como é que damos competitividade aos nossos serviços, aos bens mo, não estou dizendo nem por ordem de importância, mas a gente pre- que produzimos aqui. Falo de competitividade planetária ao nosso País, cisa melhorar a infraestrutura econômica do País, que é precaríssima. E para que a gente não vá para um reducionismo de voltar a ter uma agenda esse crescimento recente que nós tivemos só fez aflorar o problema. Por- exportadora de produtos primários, como nós falávamos no nosso tempo tos, aeroportos, rodovias, ferrovias, energia cara. Nós temos problemas de estudante de Economia. São as commodities agrícolas, metálicas, sendo de infraestrutura econômica que são gravíssimos. Se a gente não se de- que, talvez, a gente vire exportador de petróleo um pouco mais à frente. dicar a essa agenda, reformista, modernizante, é possível que esse perío- Isso vale para o Brasil e vale para o Espírito Santo. Eu acho que o do de bonança de 18, 19 anos que estamos vivendo vire mais uma vez um maior obstáculo que o País tem, o obstáculo número um, é a instrução período sobre o qual ficaremos falando no futuro. E eu espero que isso do nosso povo, da nossa gente. 50 Recortes Paulo Hartung Cap.1 Entre Gerações 51
  • 27.
    Como o senhorenxerga o futuro do Espírito Santo? Argentina, está entrando nos Estados Unidos, ou já está lá, e agora tem um parque fabril em Linhares. A Itatiaia anunciou um investimento Eu enxergo positivamente. Vou dizer a você por quê. Nós temos esse em Sooretama, para fabricar geladeiras e fogões, de olho no mercado novo momento de turbulência internacional, e isso afeta o Espírito San- interno brasileiro, dinamizado pelo crescimento da classe C. Em Ara- to, temos que ter claro isso. Quando o mundo vai pra frente, o Espíri- cruz, teremos a inauguração do terminal de GLP e C5+, agora nos pró- to Santo costuma andar na frente do Brasil, e quando o mundo arrefe- ximos dois ou três meses, uma base importante para o Estado. A Ca- ce o desenvolvimento a gente costuma sofrer um pouco mais do que rioca Engenharia apresentou um o País. Em face da crise em curso, nós precisamos observar, ter caute- projeto para fabricar módulos de Quando o mundo vai pra frente, o Es- la, e saber que ela afeta o Brasil e o Espírito Santo. Tem a questão dos plataformas de petróleo, em Barra pírito Santo costuma andar na frente royalties. Só para a gente balizar direito, essa proposta do senador Vi- do Riacho, também em Aracruz. A do Brasil, e quando o mundo arrefece tal do Rêgo – que eu acho que não vai prevalecer; acho que vamos ga- Jurong está na iminência de come- o desenvolvimento a gente costuma so- nhar essa briga –, mas considerando que ela prevaleça, perdem mais çar a sua obra. Na ponta de Tubarão frer um pouco mais do que o País. os municípios do que o Governo do Estado. Quando se fala que o Espí- estão construindo a oitava usina de rito Santo está perdendo R$ 500 milhões, R$ 300 milhões são dos mu- pelotização e na ponta de Ubu estão construindo a quarta. Há a pos- nicípios, uns 14, 15 municípios que recebem royalties no nosso Estado. sibilidade de instalação da Ferrous no extremo sul do Espírito Santo. E mesmo no caso do Fundo de Desenvolvimento de Atividades Portu- O setor público está organizado, e essa ambiência que nós criamos árias (Fundap), que seria uma terceira frente de problema que nós terí- no Espírito Santo para atração de investimento privado está possibili- amos de enfrentar aí, esse é um problema quase só municipal. Tirando tando uma grande diversificação da economia. Até o final de 2012, co- o Bandes, que sofre numa hipótese de perder o Fundap, em termos de meça a construção do polo gás-químico em Linhares – já estamos com receita pública o Governo do Estado aufere muito pouco. Justamente a capacidade de processar 18 milhões de m³ de gás. Temos capacidade de parte do Governo do Estado é a parte do incentivo. A máquina do Go- processar 3 milhões aqui na UTG Sul, e mais 18 milhões lá. E lá vamos verno do Estado se estruturou nesses últimos anos. Do ponto de vis- ter um polo gás-químico, para processar matéria-prima para fazer fer- ta fiscal, somos um dos dois ou três estados mais organizados do País, tilizante, tinta, cola, entre outros. Quer dizer, um importante exemplo hoje. Somos o Estado com maior capacidade de investimentos com re- de diversificação da nossa economia. cursos próprios do Brasil. São elementos que apontam na direção de um futuro positivo para o Espírito Santo. Com o setor público organizado, o setor privado entrou em amplo processo de diversificação da nossa economia, permitindo ao Es- Mas há coisas mais importantes que essas. O Estado está conseguindo diversificar a sua economia. Há poucos dias inaugurou-se o do em que, depois da chegada dos portugueses, durante 300 anos não parque fabril da WEG Motores, em Linhares. A WEG é uma empre- ocorreu nada, praticamente nada, tirando os jesuítas que construí- sa brasileira presente no mundo inteiro. Está na Europa, na China, na 52 tado enfrentar um grave problema na nossa história. Somos um Esta- ram o Palácio Anchieta com o excedente das suas fazendas organiza- Recortes Paulo Hartung Cap.1 Entre Gerações 53
  • 28.
    das. Depois disso,passamos a plantar café, e o fizemos isso por mais caso dos indicadores sociais, em uma boa parte deles nesses anos nós li- de 100 anos. Com a planta de Tubarão nós começamos a diversifica- deramos o País, inclusive na diminuição da pobreza. ção da nossa economia, muito lentamente. Hoje nós estamos vivendo Tudo isso me leva a acreditar no Estado. Eu tenho usado a ex- outro tipo de dinamismo. Na nova sede da Petrobras, em Vitória, vão pressão de que “o futuro do Espírito Santo está praticamente contra- trabalhar mais de 1.800 técnicos. Isso quer dizer que nós vamos pro- tado”. Por que praticamente? Porque isso é uma luta do dia a dia. Você duzir petróleo mais uns 30 anos para frente. Então, nós temos opor- tem de todo dia trabalhar para, de certa forma, conservar as conquis- tunidades significativas nos próximos anos. tas, garantir as vitórias que você já teve e ao mesmo tempo continuar Setor público organizado, setor privado em diversificação, um essa caminhada. Mas eu vejo, por tudo que está acontecendo na eco- plano estratégico extraordinário, o ES 2025. Quer dizer, hoje o Espírito nomia capixaba, independentemente do desfecho de crise internacio- Santo conta, não é o governo, é o Estado que tem um plano estratégico nal, royalties, Fundap – é claro que essas questões mexem –, mas inde- organizado, com metas na educação, na questão da erradicação da po- pendentemente disso, teremos um futuro importante de ampliação e breza, na diversificação da nossa economia, na interiorização do desen- democratização das oportunidades. volvimento do Estado, que é outro desafio, porque ele está concentrado na Grande Vitória e no litoral sul e norte, agora. Então cada ponto desses dá fé no futuro do Espírito SanO futuro do Espírito Santo está prati- to. Fechando esses pontos, um quar- camente contratado. Por que pratica- to ponto são os indicadores, econô- mente? Você tem de todo dia trabalhar micos e sociais. Econômicos, eu vou para, de certa forma, conservar as con- apresentar dois: de 2003 a 2010, pe- quistas, garantir as vitórias e ao mes- ríodo do nosso governo, nós lidera- mo tempo continuar essa caminhada. mos o País no crescimento econômico. Nesse período, o crescimento do PIB capixaba foi de 48,9% contra 36,5% do Brasil. Nosso PIB, quando nós tomamos posse, era de 40,2 bilhões de reais, e foi para R$ 85,6 bilhões, mais que dobrou nesse período. Outro dado econômico importante, econômico e social, é a geração de empregos. Entre 2002 e 2010 o Espírito Santo apresentou crescimento acumulado de 59,5% do nível de empregados com carteira assinada, sendo superior à taxa verificada no Brasil, de 47,7%. Então, quando você vai pegando os indicadores econômicos e sociais, vê que em todos eles nós operamos positivamente. No 54 Recortes Paulo Hartung Cap.1 Entre Gerações 55
  • 29.
    Cap. 2 Economia Desafios eoportunidades E sta seção reúne palestras dedicadas à análise das atuais condições econômicas, afetadas em maior ou menor escala pela crise mundial eclodida em 2008. O ex-governador Paulo Hartung fala da origem e da natureza da crise e seus rebatimentos nas conjunturas local, nacional e internacional, considerando de maneira especial os interesses dos capixabas, em particular, e dos brasileiros em geral. O primeiro texto foi apresentado no Encontro de Lideranças Em- presariais, promovido pela Rede Gazeta de Comunicações. Em seguida, está reproduzido o pronunciamento feito em encontro no Conselho Regional dos Corretores de Imóveis no Espírito Santo. Co nj un t ur a e c o n ômic a : in te rfa c e s e n tre o B r a sil e o mun d o Gostaria de parabenizar os organizadores por mais esta edição do Encontro de Lideranças Empresariais, repetindo o sucesso dos encontros anteriores. Este momento de reflexão, neste início de novembro, coincide com o período em que gestores públicos e privados fazem uma avaliação do ano que está acabando e estudam os cenários socioeconômicos e políticos tendo em vista o planejamento. Cap.2 Economia – Desafios e oportunidades 57
  • 30.
    É uma açãoque busca o desenvolvimento capixaba, com dinami- Cortes em políticas públicas e redução de investimentos, entre ou- zação e desconcentração do crescimento econômico, melhoria da qua- tros, são algumas das medidas tomadas ou previstas que vêm modifican- lidade de vida, ampliação e democratização das oportunidades. do o ambiente econômico e gerando reações mundo afora. Estive em todas as edições anteriores como governador do Espí- Como se vê, o enfrentamento dessa situação não guarda relação rito Santo. Participo desta como economista, muito bem acompanhado com as estratégias que se utilizaram para enfrentar a turbulência de três do professor Luiz Carlos Mendonça de Barros. Durante sua gestão na anos atrás. Nesse contexto, o mundo está vivendo um processo de desa- presidência do BNDES, tive a oportunidade de estar à frente da direto- celeração da atividade econômica. ria Social do banco, num tempo de rico e sólido aprendizado. No caso dos Estados Unidos, a aguerrida e precoce disputa políti- A nossa tarefa aqui é propor uma agenda para reflexão acerca da co-eleitoral, que ficou evidente no impasse gerado durante a negociação atual contingência econômica e seus reflexos entre nós. Registro que do limite da dívida, tem dificultado a adoção de medidas e uma ação co- a atual crise guarda diferenças significativas com relação àquela vivida ordenada para que o país saia mais rapidamente da crise. Dessa forma, em 2008, muito embora seja um desdobramento daquele momento de acredito que uma efetiva agenda de enfrentamento da crise seja imple- graves turbulências. mentada somente após o pleito presidencial, previsto para o final de 2012. Há três anos, o que tivemos foi um travamento mundial do crédi- Na Europa, responsável pelo quadro mais grave, as lideranças po- to, desencadeado pelo colapso do sistema de financiamento imobiliário líticas produziram um plano que prescreve, entre outros, um deságio norte-americano, com a quebra do Lehman Brothers. de 50% da dívida grega, a capitalização de bancos e a ampliação do fun- Como resposta à crise, os governos alocaram recursos para cobrir os rombos dos bancos e tomaram medidas anticíclicas. Com essas e ou- do de estabilização europeu, que passaria de 400 bilhões de euros para um trilhão de euros. tras ações, os governos se endivida- É um passo importante, mas ainda faltam respostas acerca desse Um dos fatores centrais para o co- ram e, como está evidente, muitos plano e alguns já sinalizam que ele não seria o bastante. O último imbró- lapso das operações do mercado imo- deles já não têm condições de hon- glio em torno do pacote foi a tentativa do primeiro-ministro grego de fa- biliário norte-americano, que mar- rar seus compromissos. zer um referendo sobre os termos da proposta de ajuda e ajustes à Gré- cou o começo de toda essa história, Vale ressaltar, ainda, que um cia, o que, de certa forma, poderia travar o desenvolvimento do plano. foi a desregulamentação do sistema dos fatores centrais para o colapso Um indicador mostra a gravidade da situação na zona do euro: há 16 mi- financeiro, ocorrida principalmente das operações do mercado imobili- lhões de desempregados, ou 10,2% da população economicamente ativa. a partir dos anos 1970. ário norte-americano, que marcou O Japão, que acumula um longo período de baixo crescimento, o começo de toda essa história, foi a experimentou no início do ano um dramático desastre natural, também desregulamentação do sistema financeiro, ocorrida principalmente a par- com reflexos na economia. A China, que passou a ser vista como deci- tir dos anos 1970. De certa forma, essa é a origem e a natureza dos pro- siva na questão da ampliação do fundo para resgate de países europeus blemas vividos atualmente. em dificuldades, também dá sinais de que registra problemas. O descon- 58 Recortes Paulo Hartung Cap.2 Economia – Desafios e oportunidades 59
  • 31.
    trole inflacionário levoua um aperto monetário que está diminuindo o gada a um complexo conjunto de determinantes domésticas e externas, nível de crescimento de um país que vinha apresentando índices espe- a inflação é outro assunto importante. Até a explicitação do agravamen- taculares de evolução econômica. to da situação internacional, ela vinha numa espiral crescente. Quanto aos rebatimentos desta crise em nosso País, é preciso con- A questão fiscal para 2012 também apresenta alguns desafios pre- siderar que, em um mundo globalizado, ninguém é ilha. Os mercados es- ocupantes. Será necessário ampliar os investimentos no Brasil com as tão integrados. O mundo cresce me- obras da Copa do Mundo de 2014. São altas as contas dos subsídios com Quanto aos rebatimentos desta crise nos e o Brasil, que tem na exporta- os programas do BNDES e do Minha Casa, Minha Vida. A regra de cor- em nosso País, é preciso considerar que, ção de commodities um fator deci- reção do salário mínimo vai produzir um grande impacto nas contas pú- em um mundo globalizado, ninguém sivo para a sua economia, já está as- blicas. E não custa lembrar que 2012 é um ano de eleições municipais, é ilha. Os mercados estão integrados. sistindo a quedas de preços, além de com comportamento fiscal já conhecido. No entanto, nossa situação é bem mais retração nas vendas. confortável que a da maioria. Por exemplo, o minério de ferro, a mais importante commodity de nossas exportações, teve o preço para pagamento à vista reduzido Um outro tema decisivo para o enfrentamento dessa conjuntura é ação política. O País carece de uma agenda para a modernização de leis que, historicamente, vêm travando seu desenvolvimento. Para se ter uma ideia, uma pesquisa recente do Banco Mundial com em 30% nas últimas seis semanas. Nos últimos 12 meses, com limite em 183 países revela que o Brasil ocupa agosto, a venda de minério rendeu US$ 40 bilhões de divisas ao País. Em a posição de número 126 no ranking Um tema decisivo para o enfrentamen- nível menos acentuado, os preços da soja e do açúcar também caíram. de nações amigáveis para a realiza- to dessa conjuntura é ação política. O Ou seja, nós estamos e vamos continuar sendo afetados. No entan- ção de negócios privados. Cinga- País carece de uma agenda para a mo- to, nossa situação é bem mais confortável que a da maioria. Temos um pura está na frente e Chade, na lan- dernização de leis que, historicamente, mercado interno pujante. Possuímos reservas internacionais de aproxi- terna. As dificuldades são de várias vêm travando seu desenvolvimento. madamente US$ 300 bilhões. Não há sinais de problemas no sistema fi- ordens, das barreiras para se insta- nanceiro, que me parece sólido. lar negócios, passando pelo sistema tributário, até questões de crédito. Além disso, o governo elevou o superávit primário, mesmo que Estamos quase no fim do primeiro ano do mandato da presidente Dil- por um método incorreto, no qual predominam a postergação de inves- ma, eleita com uma ampla base de apoio no Congresso, e não avançamos em timentos e o aumento de receita do governo central. reformas mais que urgentes, como bem mostra a pesquisa do Banco Mundial. Mas, em meio a esse cenário, a diminuição da atividade econô- Outra questão séria são os gravíssimos problemas de infraestrutura mica em nosso País já é visível e deve ser observada com atenção. Por econômica (portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, etc.). Os únicos pas- exemplo, a atividade industrial, que vinha crescendo, mesmo que a ín- sos, ainda assim insuficientes, dizem respeito à concessão de três aero- dices pouco expressivos, teve uma queda de 2% em setembro último. portos e à recente modificação acerca de licenciamento de grandes obras. A projeção do PIB está sendo revista para algo em torno de 3%. Li60 Recortes Paulo Hartung O País também avança a passos lentos na superação de seu maior Cap.2 Economia – Desafios e oportunidades 61
  • 32.
    desafio, que éa instrução de sua população. Nos últimos anos, melho- tica: definir uma agenda modernizante e mobilizar o País para trans- ramos ao levar as crianças para o ensino fundamental e também obten- formá-la em realidade. do vitórias pontuais no ensino profissionalizante e de terceiro grau. Mas Quanto à condição do Espírito Santo, que será tratada em deta- temos gravíssimos problemas a serem superados quanto à qualidade da lhes amanhã pelo governador Renato Casagrande, registro rapidamen- educação e ao número de anos estudados, por exemplo. te o que tenho falado há muito: pelas características da economia capi- Somados à falta de investimento em ciência, tecnologia e inova- xaba, quando o mundo cresce, o nosso Estado cresce mais que o País. ção, os problemas da educação dificultam o presente e comprometem o Quando o mundo entra em crise, o Espírito Santo sofre mais intensa- futuro. De outra sorte, se combinarmos investimentos nessas áreas es- mente que o Brasil. Na crise de 2008, por exemplo, o Espírito Santo foi tratégicas, teremos base para um avanço decisivo em competitividade o segundo Estado que mais perdeu receita. Por isso, precisamos dar uma econômica e inclusão social produtiva. atenção especial à atual conjuntura econômica. Resultados de excelência para nos inspirar é o que não falta. Onde o Brasil investiu com prioridade, inclusive aproximando a Academia do setor produtivo, conseguiu avançar muito, como bem mostram os exemplos da aeronáutica, com a Embraer, do negócio do petróleo em águas profundas, com a Petrobras, e do agronegócio, com a Embrapa. O desafio agora é expandir essa receita de Sem dúvida alguma, se olharmos para sucesso para outras áreas. Temos também o desafio dos royalties. Mas há bons argumentos para enfrentá-lo: l Primeiro: a Constituição, no seu Artigo 20, Parágrafo 1º, é cla ra sobre os direitos das regiões produtoras. l Segundo argumento: não incide cobrança de ICMS na ori gem, onde o petróleo é produzido. l Terceiro argumento: no caso do minério de ferro, os royal ties são pagos às regiões produtoras. os últimos 18 anos, podemos considerar Nesse sentido, é óbvio que o que vivemos um período positivo. Mas, País precisa destinar recursos oriun- l Quarto argumento: o parecer do senador Vital do Rêgo apre além de ainda termos uma agenda de- dos das commodities metálicas e senta projeções equivocadas de produção de petróleo, ou seja, safiante, parece, infelizmente, que a agrícolas e do pré-sal para remover números inconsistentes. caminhada que nos fez chegar aqui esses e outros obstáculos ao desen- com algum conforto em meio a uma volvimento socioeconômico. crise tão grave não tem sido inspiradora para os passos seguintes. Se olharmos para os últimos 18 anos, podemos considerar que Além disso tudo, temos o compromisso do ex-presidente Lula e da atual presidenta Dilma Rousseff de respeitar os direitos das regiões produtoras. vivemos um período positivo. Mas, No entanto, apesar dessa sólida argumentação, precisamos manter além de ainda termos uma agenda desafiante, parece, infelizmente, que o Estado mobilizado e articulado junto a seus parceiros nacionais para a caminhada que nos fez chegar aqui com algum conforto em meio a garantir os nossos direitos. De preferência, pela via política, mas, se pre- uma crise tão grave não tem sido inspiradora para os passos seguin- ciso for, no âmbito judicial. tes. Ou seja, o grande desafio que temos pela frente é de ordem polí62 Recortes Paulo Hartung Prezados e prezadas, mesmo diante de vários desafios, da crise inCap.2 Economia – Desafios e oportunidades 63
  • 33.
    ternacional e dosproblemas ligados à distribuição dos royalties, a mi- Pe r spe c ti va s pa r a o me rc a d o nha visão é positiva quanto ao futuro do Estado. imo b il iá rio c a pi x a b a e n a c io n a l Do ponto de vista fiscal, nos tornamos um dos Estados mais organizados e com maior capacidade de investimento com recursos pró- Proponho, aqui no Conselho Regional dos Corretores de Imóveis, neste fi- prios. Pelo ambiente que os capixabas criaram nos últimos anos, tam- nalzinho de agosto, uma conversa com três tópicos: minhas impressões so- bém nos tornamos um grande polo de atração de investimentos priva- bre o mercado imobiliário; a natureza da atual crise e sua relação com o seg- dos, diversificando nossa economia. mento de imóveis; e as perspectivas de desenvolvimento do nosso Estado. Temos rumo, estabelecido pelo plano estratégico do Estado, o Es- Inicialmente, gostaria de ressaltar que o setor imobiliário vive um pírito Santo 2025. E conquistamos, nos últimos anos, melhorias em to- momento de dinamismo superior ao registrado nos anos 1970. As re- dos os indicadores sociais, sendo que, em muitos casos, lideramos os formas constitucionais e infraconstitucionais, a estabilidade econômi- avanços registrados no País. ca alcançada a partir do Plano Real, entre outras, vêm permitindo uma Por tudo isso, ouso dizer: nós temos praticamente contratado um melhoria significativa da qualidade futuro de prosperidade compartilhada. Por que praticamente? Porque de vida no Brasil. Um dos resultados As reformas constitucionais e infra- temos a luta diária para consolidar as conquistas e fazer o Estado avan- é a ascensão à classe média de um constitucionais, a estabilidade econô- çar, sempre! Muito obrigado! grande número de brasileiros, com o mica alcançada a partir do Plano Real, fortalecimento do mercado interno. entre outras, vêm permitindo uma me- A Caixa Econômica Federal, lhoria significativa da qualidade de responsável por 70% do financiamen- vida no Brasil. Um dos resultados é a to imobiliário, aplicou em 2010 R$ ascensão à classe média de um grande 78,6 bilhões. E a previsão para 2011 é número de brasileiros, com o fortaleci- de R$ 81 bilhões. No Espírito Santo, mento do mercado interno. o volume total de financiamento passou de R$ 93 milhões em 2003, para uma previsão de R$ 2 bilhões, em 2011. O Estado deve fechar o ano com 24 mil financiamentos habitacionais, mas acumula déficit habitacional de 115 mil moradias, ou cerca de 2% do total da demanda do País, que chega a 5,6 milhões de unidades. A grande demanda está localizada na população com até três salários mínimos, representando 89,6% do total. Hoje, podemos afirmar que o mercado imobiliário está bem regulado. E ainda há espaço para expansão. Em 2010, o crédito imobiliário cor64 Recortes Paulo Hartung Cap.2 Economia – Desafios e oportunidades 65
  • 34.
    respondia a 3,3%do PIB. No Chile essa relação é de 16% do PIB; nos Es- que têm causado reações, gerando instabilidade. Esse clima foi agravado tados Unidos 70% e na Holanda, 100%. pelo impasse acerca da ampliação do teto da dívida pública americana. O Brasil tem crédito imobiliário vinculado à poupança e ao FGTS Como se vê, o enfrentamento desta situação não guarda nenhuma (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço). Como esses dois fundos são relação com as estratégias que se utilizaram para superar a turbulência ligados diretamente à economia e ao emprego, em curto prazo, eles não de três anos atrás. Nesse contexto, há uma convergência entre os ana- serão influenciados pelo atual quadro econômico externo. listas de que o mundo vai crescer menos. No entanto, algumas questões merecem atenção. A situação Quanto aos rebatimentos desta crise em nosso País, é preciso con- do Brasil é melhor do que a da maioria dos países, mas ainda temos siderar que, em um mundo globalizado, ninguém é ilha. Os mercados a maior taxa de juros real e a moeda mais sobrevalorizada do mun- estão integrados. Se o mundo passará a crescer em ritmo menor, o Bra- do! Além disso, há manifestações acerca de escassez de mão de obra, sil, que tem na exportação de commodities um fator decisivo para a sua e preocupações de analistas sobre fontes de financiamento imobiliá- economia, poderá ver quedas de preços, além de retração nas vendas. De toda sorte, temos um mercado interno pujante, além do fator rio em médio e longo prazos. Caminhando em direção ao tema crise, registramos que a atual guarda diferenças significativas com relação àquela vivida em 2008, muito embora seja um desdobramento Mesmo tendo enfrentado os desafios daquele momento de turbulência. China. Mas é preciso cautela, além de políticas específicas para garantir e gerar níveis de consumo sustentáveis. Com relação ao mercado imobiliário, considero que ainda é cedo para prever o quanto esse cenário pode afetar o setor no Brasil. Com a da crise político-institucional que se Há três anos, o que tivemos turbulência, o que os especialistas anotam é a possibilidade de uma di- registrou com anos e anos de desgo- foi um travamento mundial do cré- minuição da atividade econômica, prevendo um PIB menor, como foi verno, e também tendo confrontado dito, desencadeado pelo colapso do anunciado pelo ministro da Fazenda, ontem. as questões da crise financeira mun- sistema de financiamento imobiliá- No entanto, é necessário que acompanhemos o quadro norte-ame- dial, em 2008, o Espírito Santo cons- rio norte-americano, com a quebra ricano, europeu e japonês. É preciso ver se a crise dos governos, espe- truiu, coletivamente, uma trajetória do Lehman Brothers. cialmente os da Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália, não acaba vi- Como resposta à crise, os go- rando uma crise bancária. Muito da instabilidade das bolsas de valores, vernos alocaram recursos para co- de êxito nos últimos anos. nas últimas semanas, tem a ver com essa possibilidade. Esse seria o pior brir os rombos dos bancos e tiveram de tomar medidas anticíclicas. Com cenário – que, eu espero, não se torne realidade. essas e outras ações, os governos se endividaram e muitos deles correm Como disse, não somos ilha. Nessa situação, todos os mercados po- risco de não ter condições de honrar seus compromissos. Essa é a ori- dem ser afetados. O tempo é de cautela e muita observação. Ressalto que a gem e a natureza dos problemas vividos atualmente. compra sempre está ligada à confiança no sistema econômico, basicamente Cortes em políticas públicas, extinção de conquistas sociais e redução de investimentos são algumas das medidas tomadas ou previstas 66 na manutenção dos empregos e da renda. Nesse sentido, é necessário que o Brasil tome medidas para mantermos a confiança. E há espaço para isso. Recortes Paulo Hartung Cap.2 Economia – Desafios e oportunidades 67
  • 35.
    São iniciativas como,por exemplo, estabelecer uma política fiscal do Espírito Santo no período 2010 a 2015 somam mais de 1.129 projetos. de longo prazo, cuidadosa e crível: de crescimento de custeio abaixo do O total de investimentos previstos chega a R$ 98,8 bilhões. Só a Petro- crescimento do PIB; instituir políticas de estímulo à poupança; aumen- bras planeja investir 12,2 bilhões de dólares em exploração e produção. tar o superávit primário; retomar a agenda de reformas estruturais; e fa- Os investimentos se encontram em três grandes áreas. Na Infraestru- zer uma desindexação geral da economia. tura, destaque para os setores de energia, construção e melhorias em ter- Prezados, falei do mercado imobiliário, do cenário econômico in- minais portuários, aeroporto e armazenagem, além de obras de transporte. ternacional, e apresentei algumas propostas para proteger a economia A Indústria é destaque, como mostram esses três exemplos. Na se- do Brasil neste momento. Sigo agora para a análise do processo de de- mana passada, a WEG Motores inaugurou a sua unidade em Linhares. Nos senvolvimento capixaba que, do meu ponto de vista, é muito positivo próximos dias, iniciam-se as obras do Estaleiro Jurong em Aracruz. A Ita- no presente e no futuro. tiaia anunciou que vai instalar uma nova planta industrial em Sooretama. Mesmo tendo enfrentado os desafios da crise político-institucional Os setores de Comércio e Serviços contemplam centenas de pro- que se registrou com anos e anos de desgoverno, e também tendo con- jetos. São obras de engenharia, compreendendo construção de centros frontado as questões da crise financeira mundial, em 2008, o Espírito comerciais e de lazer (shopping centers, parques temáticos, centros cul- Santo construiu, coletivamente, uma trajetória de êxito nos últimos anos. turais e teatros) e empreendimentos imobiliários residenciais e comer- Nós capixabas não resolvemos todos os nossos problemas. Nem ciais (edif ícios, lojas de departamen- poderíamos, mas conquistamos avanços dignos de nota, evoluindo con- tos, hotéis, supermercados, arma- Com os avanços político-institucionais cretamente em direção ao alcance das metas do Espírito Santo 2025. zéns, etc.). Também há investimen- e econômicos dos últimos anos, o Espí- A partir das potencialidades e do trabalho dos capixabas, da recupera- tos em saneamento/urbanismo, mo- rito Santo tem praticamente contra- ção da credibilidade e estabilidade político-institucional, da qualificação ge- bilidade urbana, educação, meio am- tado um longo período de desenvolvi- rencial pública, da retomada da capacidade de investimento do Estado, e da biente, saúde e segurança pública. mento inclusivo e sustentável. implantação de um modelo de desenvolvimento assentado na inclusão social Prezados, com os avanços po- produtiva, na desconcentração geográfica, na sustentabilidade ambiental e lítico-institucionais e econômicos dos últimos anos, o Espírito Santo tem na modernização tecnológica, o Espírito Santo avançou nessa caminhada. praticamente contratado um longo período de desenvolvimento inclusivo e Crescemos além da média nacional e alcançamos indicadores socio- sustentável. Digo praticamente porque a história não tem fim, depende da econômicos de referência no País. Numa caminhada de travessia e num constante ação humana, da capacidade de manter as conquistas e avançar percurso de muitas conquistas, o Espírito Santo encontrou rumo. Enfim, na caminhada em direção ao reino da igualdade de oportunidades entre nós. coletivamente, transformamos o presente e ainda fundamos as bases de Como disse, nos últimos anos, o Espírito Santo enfrentou duas gra- um novo futuro. Dessa forma, as perspectivas se mantêm muito boas. Segundo informações do Instituto Jones dos Santos Neves, os anúncios de investimentos com valores superiores a R$ 1 milhão para o Estado 68 Recortes Paulo Hartung ves crises. Saímos maiores de cada processo de superação. Estamos agora diante de um outro quadro desafiante – o que também pode e deve ser visto como uma oportunidade. Cap.2 Economia – Desafios e oportunidades 69
  • 36.
    Cap. 3 Nesse sentido,para finalizar, compartilho com vocês, pelo valor das observações, uma reflexão que recebi via internet: Planejamento “l ão pretendemos que as coisas mudem se sempre fazemos N o mesmo. l A crise é a melhor bênção que pode ocorrer com as pessoas e países, porque a crise traz progressos. R u m o e e s t r at é g i a l criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura. A l É na crise que nascem as invenções, os descobrimentos e as gran des estratégias. l Quem supera a crise supera a si mesmo sem ficar ‘superado’. l Quem atribui à crise seus fracassos e penúrias violenta seu pró prio talento e respeita mais os problemas do que as soluções. l A verdadeira crise é a crise da incompetência. l O inconveniente das pessoas e dos países é a esperança de en contrar as saídas e soluções fáceis. l Sem crise não há desafios; sem desafios, a vida é uma rotina, uma lenta agonia. Sem crise não há mérito. l É na crise que se aflora o melhor de cada um. l Falar de crise é promovê-la, e calar-se sobre ela é exaltar o con formismo. S e a dinamização e as conexões socioeconômicas do século XX pautaram a instituição do planejamento estratégico junto às organizações mais inovadoras, o que dizer destes tempos convulsivos, comunicacional, planetária e instantaneamente articulados? Numa era de incerta refundação dos paradigmas que fazem movimentar a nossa sociabilidade, parece decisivo ancorar visões e atividades organizacionais no processo de planejamento estratégico, um mapa talhado para guiar navegações, ainda mais em realidades complexas e “líquidas”. Adepto dessa ferramenta de trabalho desde a administração da Pre- l Em vez disso, trabalhemos duro. Acabemos de uma vez com feitura de Vitória (1992-1996), Paulo Hartung fez uma série de palestras so- a única crise ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar bre o tema. A seguir, estão duas delas, uma conceitual e outra sobre a apli- para superá-la.” cação do método na gestão estadual (2003-2010), notadamente o ES 2025. Muito obrigado! Aç ã o e pl a n eja me n t o e str até gic o Uma das principais ferramentas destinadas à potencialização e integração das ações empreendidas pelas organizações é o planejamento estratégico. Em termos gerais, a origem dessa ferramenta administrativa, que também 70 Recortes Paulo Hartung Cap.3 P l a n e j a m e n t o – R um o e e st r at é gi a 71
  • 37.
    pode ser utilizadana vida pessoal, está em meados do século passado, a par- tibilidade dos planos estratégicos, desenvolveram-se propostas como a tir da complexificação dos desafios socioeconômicos em nível planetário. definição de valores organizacionais, missão e visão, entre outras. Nas últimas décadas, o ritmo das mudanças no macroambiente so- O monitoramento ambiental constante, além de outras alterna- cial só fez crescer a relevância do planejamento estratégico junto às organi- tivas de análise de conjuntura, tais como as vantagens competitivas, as zações, assim como promoveu uma dinâmica evolução de seus processos. competências essenciais para o futuro, a cultura organizacional e a in- Em geral, os estudiosos (KUNSCH, 2003; OLIVEIRA, 2005) esta- corporação de novas tecnologias também passaram a ser considerados. belecem quatro fases históricas do desenvolvimento do planejamento – O planejamento estratégico oferece às empresas e instituições ins- que não nasceu estratégico, mas tornou-se estratégico. A primeira fase trumental para que se tenha claro qual é a missão institucional (razão de localiza-se por volta dos anos 1950, quando a atenção se voltava para o ser), a visão (posicionamento que se quer da organização em determina- cumprimento de orçamentos, limitando-se ao planejamento financeiro. do período de tempo), os valores que Na década de 1960, o foco era planejar o futuro e verificar tendências, a norteiam a ação produtiva e geren- O planejamento estratégico ofere- partir de indicadores do presente e do passado. No entanto, tendências cial, os macro-objetivos principais e ce às empresas e instituições instru- e rupturas não eram consideradas relevantes. o elenco de ações e metas que guia- mental para que se tenha claro qual rá a organização ao alcance do pata- é a missão institucional, a visão, os mar vislumbrado na visão. valores, os macro-objetivos princi- O processo convulsivo de mudanças que começa a transformar o mundo a partir dos anos 1970, notadamente a radicalização da globalização econômica, a interconexão planetária de sistemas de comunica- Todo esse processo é realizado pais e o elenco de ações e metas que ção em tempo real, entre outros, acabou por descartar um planejamen- com a participação de especialistas guiará a organização ao alcance do to engessado por visões reducionistas e perspectivas estáticas. e corpo técnico-institucional, con- patamar desejado. Assim, na década de 1970, entra em cena um processo que consi- siderando-se os pontos fracos e for- derava decisivamente o macroambiente externo e contemplava o am- tes da organização, as ameaças e oportunidades do ambiente externo e biente interno com maior atenção. O planejamento começa a se tornar vantagens competitivas da empresa ou instituição. Vale dizer que esses efetivamente estratégico. são itens dinâmicos e conjunturais, o que leva à necessidade de atuali- Passa-se a utilizar a técnica do SWOT, ou análise FOFA, por meio zação ao ritmo das mudanças de contexto. da qual se identificam os pontos fortes e fracos (internos) e as ameaças De forma resumida, um plano estratégico contém a visão da empresa, a e oportunidades (externos). Esse modelo busca uma adequação entre as sua missão e os seus valores. Um diagnóstico dos ambientes interno e externo capacidades internas e as possibilidades externas, tendo em vista os ob- localiza a empresa/organização no seu contexto e aponta os pontos fracos e jetivos organizacionais. fortes, as ameaças e as oportunidades, assim como as vantagens competitivas. Mas tais mudanças formalizaram em excesso o planejamento estratégico, aprofundando um problema já crítico: a distância entre os pla- vos estratégicos e os eixos estratégicos de ação, compostos de objetivos nejamentos e os executores. Para uma maior interface, integração e fac72 A partir de todas essas informações, definem-se os macro-objetique viabilizem os propósitos institucionais. Recortes Paulo Hartung Cap.3 P l a n e j a m e n t o – R um o e e st r at é gi a 73
  • 38.
    Os planos tambémtrazem metas mobilizadoras, ou seja, quantificam ou mensuram os resultados que se quer obter em determina- Pl a n eja me n t o e str até gic o e ge stã o p úb l ic a c a pi x a b a do tempo. O plano estratégico define o que uma organização é (pensa e faz), onde ela caminha, aonde quer chegar, quem trabalha, os veículos Ao longo da minha vida, no âmbito privado e na esfera pública, sempre de transporte e as ferramentas de ação. evitei o improviso. Não acredito em improvisação. Acredito em planeja- Afinal, como escreveu Sêneca, não há vento a favor para quem mento e organização. O ato de planejar é decisivo. Tenho sido um adep- ignora onde está e aonde quer chegar. É preciso ter um mapa de nave- to do planejamento desde os movimentos sociais, quando fui liderança gação, ainda mais em tempos turbulentos e dinâmicos como os atuais. estudantil, ainda nos tempos da ditadura. Tempos de globalização socioeconômica e cultural, de comunicação in- Investi em planejamento para orientar meus mandatos parlamen- termitente e democratizada, e de concorrência e instabilidade endêmica. tares. À frente da prefeitura da capital, elaboramos o Vitória do Futuro, Atualmente, e ao longo de tantos anos, o que fica claro é o valor da um pioneiro planejamento estratégico de médio e longo prazo para mu- ação planejada e organizada, da disciplina nos processos de ação organiza- nicípios em nosso País. cional. Atenção às mudanças de cenário e às evoluções contingenciais não No Governo do Estado, rece- Investi em planejamento para orien- significa desprezo à conduta organizada e planejada. Muito pelo contrário. bendo uma situação desafiadora, após tar meus mandatos parlamentares. À As organizações contemporâneas, imersas num ambiente de com- três governos que tiveram muitos pro- frente da prefeitura da capital, ela- petitividade global, mudanças intermitentes, concorrência numerosa, blemas, o planejamento foi ferramen- boramos o Vitória do Futuro, um pio- visibilidade radical e públicos cada vez mais exigentes, não podem se ta essencial de trabalho. Acreditei que, neiro planejamento estratégico para dar ao luxo de viver ao sabor das ondas. Nesse caso, o naufrágio é cer- tendo um diagnóstico claro da reali- municípios em nosso País. No Gover- to. Muito obrigado! dade, da máquina pública, das insti- no do Estado, o planejamento foi fer- tuições e do quadro socioeconômico ramenta essencial de trabalho. capixaba, poderia estabelecer e perseguir objetivos e metas com vistas a melhorar a vida entre nós. Fizemos um planejamento antes mesmo de tomar posse. Logo no início de 2003, com informações mais concretas, elaboramos o planejamento da administração, que foi atualizado anualmente. Quando a situação melhorou, e passamos a conduzir a pauta do presente de forma pró-ativa, os capixabas puderam lançar um olhar cuidadoso em direção ao seu futuro. Assim, ousamos escrever um plano estratégico de médio e longo prazo, o Espírito Santo 2025. O ES 2025 foi efetivado em parceria do governo com o Espíri74 Recortes Paulo Hartung Cap.3 P l a n e j a m e n t o – R um o e e st r at é gi a 75
  • 39.
    to Santo emAção, uma organização transversal que congrega repre- A ideia-força, vale frisar, é que, por mais que se tenha um bom bar- sentações de empresários e movimentos da sociedade civil organizada. co e uma boa vela, não existe vento favorável para quem não sabe onde O ES 2025 mobilizou o que temos de melhor no Estado e no Bra- está e aonde quer chegar. Tendo definido com clareza o Espírito Santo sil em termos de inteligência e experiência em planejamento estratégi- que queremos, avançamos na implementação de ações que nos condu- co. Estiveram envolvidas dezenas de profissionais, sob coordenação da zissem aos cenários desejados. conceituada Macroplan, representada pelos diretores Claudio Porto e José Paulo Silveira e pelo coordenador Alexandre Mattos de Andrade. Nesse sentido, o ES 2025 dialoga com ações de sustentabilidade, como as políticas de recomposição da cobertura florestal e recuperação e preservação dos recursos hídricos. Um exemplo de vanguarda é o Fun- Estruturamos o plano a partir dos seguintes eixos estratégicos: dágua, que repassa recursos aos produtores rurais com vistas à proteção 16 esenvolvimento humano capixaba segundo padrões internaD de nascentes em suas propriedades. cionais de excelência; 26 rradicação da pobreza e a redução das desigualdades para amE pla inclusão social; 36 edução drástica e definitiva da violência e da criminalidade R no Espírito Santo; 46 romoção de um desenvolvimento equilibrado entre a Região P Metropolitana, o interior e o litoral; Os parâmetros do ES 2025 dialogam com ações de desconcentração do desenvolvimento. Nesse sentido, criamos e implantamos o Fundo de Desenvolvimento Regional, que está distribuindo cerca de R$ 100 milhões, a partir de uma estratégia de repartição de recursos oposta à do ICMS, historicamente injusta com a maioria dos municípios. Também como forma de democratizar as oportunidades de crescimento individual e coletivo em nosso Estado, o ES 2025 dialoga com o 56 esenvolvimento de uma rede de cidades; D NossoCrédito, um sistema de microcrédito que se tornou presente em 66 ecuperação e conservação dos recursos naturais; R todos os municípios capixabas. 76 iversificação econômica, com agregação de valor à produção D e adensamento das cadeias produtivas; 86 lcance de níveis crescentes de eficiência, integração e acessiA bilidade do sistema logístico; O ES 2025 dialoga com as ações relativas ao maior desafio de nosso País, que é levar educação – educação de qualidade – a todos. Por isso, criamos ações como o programa “Ler, Escrever e Contar”, para fortalecimento dos primeiros passos da instrução, com destaque 96 esenvolvimento da mobilização e da participação política da soD para Português, Matemática e Ciências. Criamos as bolsas para en- ciedade civil e dos cidadãos (capital social), assim como a devoção sino técnico (Bolsa Sedu), superior (Nossa Bolsa) e de língua estran- absoluta à ética republicana por parte das instituições públicas; geira (Bolsa Sedu Idiomas). Além de termos reestruturado a rede f í- 106 ortalecimento da identidade capixaba e da imagem do Estado; e F sica e os sistemas de educação fundamental, médio e profissionali- 116 stabelecimento de alianças estratégicas regionais para aproE zante, entre tantas outras ações. veitamento de oportunidades de desenvolvimento integrado de interesse do Estado. 76 Recortes Paulo Hartung O ES 2025 dialoga com o provimento de vida saudável e bem-estar à população, com o desenvolvimento de ações de mudanças de hábitos Cap.3 P l a n e j a m e n t o – R um o e e st r at é gi a 77
  • 40.
    cotidianos (alimentação, exercíciosf ísicos, etc.); com o fortalecimento Nos últimos anos, numa caminhada de travessia, tendo alcança- do Programa Saúde da Família, a estruturação de uma rede de atenção do uma nova fronteira histórica, o Espírito Santo encontrou rumo e, básica à saúde, e a construção de três novos hospitais (Central, São Lu- com o ES 2025, deixou muito claro aonde deseja chegar, consolidando- cas e Dório Silva), além da implementação de uma política de suporte -se como uma terra de oportunidades para todos e prosperidade com- ao essencial trabalho dos hospitais filantrópicos. partilhada. Muito obrigado! O ES 2025 dialoga com a inclusão social por meio de programas como o Pronaf Capixaba, o Luz para Todos, o Caminhos do Campo, e a construção de casas populares, inclusive no interior, entre outros. Não vou me prolongar nessa Nos marcos da igualdade de opor- listagem de ações implementadas a tunidades e do desenvolvimento so- partir dos diagnósticos e cenários cialmente inclusivo, ambientalmen- definidos pelo ES 2025. Até por- te sustentável e geograficamente des- que as conquistas que permitiram a concentrado, o Espírito Santo deu inauguração do Novo Espírito San- início à caminhada em novo tempo to estão aí para todos verem. São de sua história. vitórias que alcançaram a vida de todos os 3,5 milhões de capixabas. Nos marcos da igualdade de oportunidades e do desenvolvimento socialmente inclusivo, ambientalmente sustentável e geograficamente desconcentrado, o Espírito Santo deu início à caminhada em novo tempo de sua história. Com os choques ético e de gestão, nos tornamos um dos Estados mais organizados do ponto de vista fiscal. Como resultado, a partir de 2003, conquistamos melhorias em todos os indicadores sociais, sendo que, em muitos casos, lideramos os avanços registrados no País. Também nos tornamos um grande polo de atração de investimentos privados, sendo que o ES 2025 é um dos balizadores do futuro de prosperidade compartilhada entre os capixabas. Como bem observou o filósofo, não há vento favorável para quem desconhece onde está e ignora aonde quer chegar. 78 Recortes Paulo Hartung Cap.3 P l a n e j a m e n t o – R um o e e st r at é gi a 79
  • 41.
    Cap. 4 Gestão Investimento Decisivo A conjunturade dinâmicas e severas transformações pela qual o mundo vem sendo convulsionado afeta diretamente as organizações públicas em sua interface com os cidadãos e a sociedade civil como um todo. Nas palestras selecionadas a seguir, o ex-governador Paulo Hartung dedica-se a falar um pouco dos rebatimentos desses novos tempos na esfera governativa, especialmente no âmbito da gestão e da atualização tecnológica, tendo como base a experiência capixaba (2003-2010). São questões decisivas, tendo-se em vista que os governos se estruturam para dar respostas aos cidadãos, que os sustentam com pesados impostos e lhes elegem líderes com missão de construir uma realidade melhor para todos. E, nos atuais tempos, os governos estão desafiados a se atualizar segundo uma extensa agenda. Dos trâmites de suas burocracias, passando por políticas públicas, legislações, demandas sociopolíticas, econômicas e culturais, até os processos de interação com os cidadãos, entre outros. Cap. 4 G e stã o – I n v e sti m en t o D e c i si v o 81
  • 42.
    A e xper i ênc ia d o g ov erno c api x aba 2 0 0 3 - 2 010 A máquina pública estava destroçada, sucateada. As finanças estavam em completa desorganização. Havia uma densa e ampla teia de cor- Estou honrado em participar deste encontro com vocês aqui no estado rupção, desmandos e crime organizado sombreando os poderes públicos. de Alagoas. Vou compartilhar um pouco de nossa experiência à frente Estávamos inadimplentes com nossos compromissos com a União, do Executivo capixaba, entre os anos de 2003 e 2010. o BNDES, o Banco Mundial e o Banco Interamericano. Em dívidas de Não venho com propostas de paradigmas. Com o compartilha- curto prazo vencidas, havia um passivo de R$ 1,2 bilhão. Essa dívida, que mento de alguns tópicos acerca dessa caminhada, quero apenas des- equivalia a cinco arrecadações à época, incluía duas folhas de pagamento pertar inspiração e reafirmar a potência da política para fazer a dife- de servidores, direitos e vantagens de planos de carreira em atraso, além rença em nossas vidas. de débitos com prestadores de serviços e fornecedores. Inicialmente, gostaria de registrar meus cumprimentos pelo trabalho que vocês estão desenvolvendo em Alagoas. Guardadas as peculiaridades de cada Estado, há pouco mais de oito anos o Espírito Santo também enfrentava um tempo que demanda- Havia ainda atrasos nos repasses de duodécimos aos poderes e instituições públicos. A infraestrutura estadual estava em colapso (escolas, hospitais, estradas). O sistema de segurança estava desmontado. Além disso tudo, a PM estava aquartelada. va um inédito esforço de superação. Se a situação era absolutamente crítica, configurando-se como o Ao tomar posse no Executivo capixa- Vivíamos um dos mais turbulentos e meu maior desafio, posso dizer que não o enfrentei sozinho. Nessa em- ba, em 2003, estava assumindo a ta- desafiantes momentos de nossa tra- preitada, estive em boa companhia desde a campanha eleitoral. refa mais dif ícil de minha trajetória jetória. É sobre a caminhada de tra- Em função de toda a situação de caos por que passava o Estado, a profissional. A máquina pública esta- vessia e o alcance de uma nova fron- sociedade capixaba já havia feito a transição da indignação para a ação va destroçada, sucateada. As finanças teira histórica que gostaria de con- organizada. Dois exemplos: sob a coordenação da OAB, foi criado o Mo- estavam em completa desorganização. versar com vocês. vimento Reage Espírito Santo; movimentos sociais e empresariais fundaram a ONG Espírito Santo em Ação. Havia uma densa e ampla teia de cor- Comecei minha jornada nos rupção, desmandos e crime organiza- movimentos sociais, em particular Revoltada, a sociedade se articulou para acabar com aquele tem- do sombreando os poderes públicos. no movimento estudantil, na luta po de vergonha, acinte e desgoverno. Esse ânimo social acabou contri- pela volta da democracia ao nosso buindo para uma eleição em apenas um turno, o que nos permitiu co- País. Minha trajetória inclui mandatos no Legislativo estadual e federal (Câmara e Senado), na Prefeitura de Vitória, na Diretoria Social do BNDES, e no Governo do Estado, por dois mandatos consecutivos. Ao tomar posse no Executivo capixaba, em 2003, estava assumindo a tarefa mais dif ícil de minha trajetória profissional. Recebi o Espírito Santo depois de um ciclo de três governos que fracassaram. 82 Recortes Paulo Hartung meçar a trabalhar mais cedo, antes mesmo da posse. Empossado, com apoio dos homens e mulheres de bem do Estado, suporte da sociedade civil organizada, maioria na Assembleia Legislativa, uma relação harmônica com o Judiciário e o Ministério Público Estadual, começamos a trabalhar em amplo mutirão. Já de início, implementamos simultaneamente o choque ético e Cap. 4 G e stã o – I n v e sti m en t o D e c i si v o 83
  • 43.
    partimos para umenfrentamento contra a corrupção e o crime organi- Modernizamos a Auditoria, a Procuradoria, a Gestão, a Secretaria zado. Dois exemplos de desafios e superação ilustram bem esse momen- da Fazenda e a Secretaria de Planejamento. Ou seja, dedicamos atenção to. Num processo de usurpação de poder e em condição completamente especial à questão da arrecadação, do gasto, do controle e da legalidade, inconstitucional, a administração tributária do Estado estava nas mãos tudo isso no escopo de um planejamento bem feito. do Legislativo. Essa situação permitiu a ocorrência de atos graves e sérios que levaram ao enfraquecimento da arrecadação estadual. Essa caminhada não foi fácil. Estivemos permanentemente em estado de mobilização junto às forças políticas e sociais, e também do fun- Com o apoio da nova legislatura, revogamos aqueles dispositivos cionalismo público. Seja informando sobre os nossos desafios, seja pres- ilegais e recolocamos a administração tributária no âmbito devido, ou tando contas das conquistas, sempre deixando claro que há limites na seja, na Secretaria de Estado da Fazenda. Nesse processo, conseguimos capacidade de ação dos governos. Também não nos cansamos de aler- revogar mais de 400 regimes especiais de tributação de ICMS. tar que governo sozinho não é capaz de resolver todas as questões da Mas os benefícios ilegais e imorais não estavam garantidos apenas vida individual e coletiva. com injunções da Assembleia. Um conjunto de decisões judiciais garan- Em todo o período de governo, mantínhamos permanente comu- tia, por exemplo, que o setor nicação com a sociedade, seja por meio da imprensa, seja por meio de A caminhada foi longa, mas nos fez de distribuição de combustí- uma publicidade extremamente sintonizada com os objetivos, progra- campeões nacionais de crescimento da veis e lubrificantes quase não mas e realizações do governo. receita por anos seguidos. Com a am- pagasse tributos no Estado. Em Mas, além da comunicação midiatizada, eu e minha equipe man- pliação da arrecadação, também esti- parceria com o Judiciário, tam- tínhamos uma rotina de presença em eventos governamentais e de in- vemos na dianteira do ranking dos in- bém superamos esse assunto. teresse público de norte a sul do Estado. Prezados, a interlocução com a vestimentos com recursos próprios: saí- Essas e muitas outras sociedade é decisiva para o êxito de uma empreitada como a de gover- mos de menos de 1% para mais de 16%. ações moralizadoras permi- nar, ainda mais em tempo de gigantescos desafios. tiram que iniciássemos a re- Acerca da relação com o funcionalismo, desde o início estabele- composição das receitas públicas. A caminhada foi longa, mas nos cemos uma interlocução clara e objetiva. No primeiro momento, quan- fez campeões nacionais de crescimento da receita por anos seguidos. do ainda buscávamos uma solução para os atrasados relativos às gestões Com a ampliação da arrecadação, também estivemos na dianteira do anteriores, o vice-governador tomou conta desse diálogo. Em seguida, ranking dos investimentos com recursos próprios: saímos de menos a Secretaria de Gestão e Recursos Humanos assumiu a condução dessa de 1% para mais de 16%. interface, que é decisiva e complexa. Ainda no início da gestão, com a intenção de viabilizar a governabilidade necessária à superação da crise e com o objetivo de colocar -los em dia, sendo que os atrasados foram quitados em seguida. Com a o governo novamente a serviço da sociedade capixaba, promovemos a recuperação das finanças, passamos a fazer reajustes anuais, realizamos reestruturação de áreas meio da administração. 84 Com relação aos salários, já em janeiro de 2003 passamos a pagá- concursos, reestruturamos mais de 40 carreiras e criamos outras duas Recortes Paulo Hartung Cap. 4 G e stã o – I n v e sti m en t o D e c i si v o 85
  • 44.
    (analista administrativo efinanceiro e especialista em políticas públicas A consciência das limitações de um governo esteve presente em e gestão governamental), entre outras ações modernizantes, como a in- todas as fases de nossa administração: na aplicação dos choques ético e formatização. Mesmo nesse contexto de melhorias, sempre deixamos de gestão; na recuperação do equilíbrio orçamentário; na quitação total claros os limites financeiro-orçamentários, e que o nosso governo tinha das dívidas de curto prazo, ocorrida em dois anos (2005); na retomada compromisso de dar retornos ao conjunto da população que sustenta a da capacidade de investimentos; e na aplicação dos maiores volumes de máquina pública com seus pesados impostos. recursos públicos já registrados na história do Estado. Além de não dar conta de tudo, é preciso que todos tenham consci- Sempre deixamos claro que faríamos o melhor que pudéssemos ência de que governar é, entre outros, a arte de eleger prioridades, de ad- – e o fizemos, em parceria com instituições públicas, partidos, lideran- ministrar contingências e limitações. ças políticas e organizações da sociedade civil. Mas nunca nos com- Ao longo da minha trajetória, sempre Isso sempre foi evidenciado ao prometemos com o que tínhamos dúvidas se poderíamos realizar, seja me comprometi com menos do que po- longo do governo. Até porque, inicial- durante o complexo processo de enfrentamento e superação da crise, deria ser feito, considerando os meios mente, tínhamos uma situação crítica, seja no período de normalidade administrativa e orçamentária, com disponíveis. A minha visão é que é me- com uma agenda que registrava de- investimentos inéditos. lhor ir além do que ficar aquém. Além mandas do presente e, principalmen- Aliás, a ação em mutirão e o trabalho pautado em amplo apoio so- de não dar conta de tudo, é preciso te, questões resultantes de um longo cial são pontos a serem destacados. Instituímos uma parceria estratégi- que todos tenham consciência de que período de desencontro, sem falar nos ca com o setor privado, que passou a ter um ambiente de confiabilidade governar é, entre outros, a arte de ele- problemas estruturais e históricos que e estabilidade político-institucional. ger prioridades, de administrar con- afligem o País como um todo. Além disso, criamos regras confiáveis e transparentes para dina- Aqui destaco que, ao longo da mizar o desenvolvimento, que passou a seguir o modelo da inclusão so- minha trajetória, sempre me com- cial produtiva, da sustentabilidade ambiental, da descentralização geo- prometi com menos do que poderia ser feito, considerando os meios gráfica e da modernização tecnológica, tendo em vista a democratiza- disponíveis. A minha visão é que é melhor ir além do que ficar aquém. ção das oportunidades nas terras capixabas. tingências e limitações. Um cotidiano político de decepções torna aguda a grave crise de Instituímos dois grandes programas para fomentar o desenvolvi- representatividade por que passa o modelo de democracia que temos mento. O Programa de Incentivo ao Investimento no Estado do Espíri- consolidado no País. É muito melhor surpreender do que decepcionar. to Santo (Invest-ES) e o Programa de Competitividade Sistêmica para o Felizmente, tivemos uma sucessão de conquistas surpreendentes, pro- Estado, o Compete-ES. vando a força da Política como ferramenta civilizatória. Estabelecemos uma parceria com a já citada ONG Espírito Santo Isso quer dizer, meus caros: é preciso administrar dinheiro, recursos humanos, muitas coisas, mas não se pode jamais esquecer de traba- sindicatos. Também mantivemos interfaces importantes com os movi- lhar permanentemente as expectativas da sociedade. 86 em Ação, uma organização empresarial que dialoga com federações e mentos sociais. Por exemplo: a OAB, as igrejas e os movimentos popu- Recortes Paulo Hartung Cap. 4 G e stã o – I n v e sti m en t o D e c i si v o 87
  • 45.
    lares e sindicaisforam parceiros na luta para enfrentarmos os desmandos que marcavam a realidade capixaba até 2002. A tarefa foi árdua e desafiante, mas, repito, sempre estive em boas companhias. E isso fez toda a diferença. Acredito que dentre as princi- Reformulamos, dinamizamos e modernizamos os diversos conselhos pais condicionantes da ação de um líder esteja a possibilidade de mon- estaduais, tendo em vista a discussão e o acompanhamento de políticas pú- tar boas equipes e de mobilizar forças em razão de um objetivo comum. blicas. Fomos um governo aberto às diversas representações da sociedade. Conforme já tivemos a oportunidade de citar, desde o início do go- A equipe tinha orientação para manter diálogo permanente com os diferen- verno adotamos as mais modernas ferramentas de trabalho, para supe- tes movimentos sociais organizados na condução das ações governativas. rar os desafios encontrados, alcançar metas e conquistar avanços. Des- Outra parceria importante foi firmada com os municípios. Fui pre- taque especial para o planejamento estratégico. feito da capital capixaba, e tenho experiência e sensibilidade para per- Em verdade, esse tipo de planejamento nos ajudou antes mesmo da ceber a importância do poder local. Nesse sentido, posso dizer que fiz posse. Com a equipe de transição e os dados que tínhamos à disposição, um governo municipalista. traçamos o mapa dos passos iniciais da caminhada. Dois meses após a pos- Por intermédio do diálogo constante com a associação que representa os 78 municípios capixabas, a Amunes, pudemos formular políti- se, já estávamos realizando o primeiro seminário de planejamento, que foi atualizado em encontros anuais até o fim do nosso período de governo. cas públicas ajustadas às necessida- Logo em seguida, em parceria com a sociedade civil organizada Nos dois mandatos, montamos um des de cada região, assim como con- e o Movimento Espírito Santo em Ação, escrevemos o Espírito Santo time que reuniu boa parte das melho- seguimos implementar ações deci- 2025, um planejamento de longo curso. Em todos esses processos, con- res cabeças do Estado e ainda agrega- sivas em áreas como saúde, educa- tamos com a excelência da Macro- mos profissionais de excelência Bra- ção, combate à pobreza e fomento plan a nos assessorar. sil afora que somaram forças para a às vocações locais. O cumprimento das prescrições de or- O Plano de Desenvolvimen- dem político-institucional e socioeco- Vale ressaltar a criação do to Espírito Santo 2025 é, essencial- nômica do Espírito Santo 2025 pode Fundo para a Redução das Desi- mente, uma agenda para a constru- levar o Estado a alcançar, em menos gualdades Regionais e do Nosso- ção de uma duradoura realidade de de 20 anos, padrões de desenvolvi- Crédito, o maior programa de microcrédito do País, com agências nos prosperidade nas terras capixabas. mento socioeconômico próximos aos 78 municípios capixabas. Duradoura porque fundada na de- dos países com as melhores condições Em toda essa trajetória, gostaria de destacar o valor da ação em equi- mocratização das oportunidades de de vida na atualidade. pe e, em especial, a adoção do planejamento estratégico como principal crescimento individual e coletivo ferramenta de trabalho. Nos dois mandatos, montamos um time que reu- e, também, porque constituída a partir do prioritário investimento em niu boa parte das melhores cabeças do Estado e ainda agregamos profis- educação e do respeito ao meio ambiente, entre outros. inauguração de um novo tempo da história capixaba. sionais de excelência Brasil afora que somaram forças para a inauguração de um novo tempo da história capixaba. 88 Recortes Paulo Hartung O cumprimento das prescrições de ordem político-institucional e socioeconômica do Espírito Santo 2025 pode levar o Estado a alcançar, Cap. 4 G e stã o – I n v e sti m en t o D e c i si v o 89
  • 46.
    em menos de20 anos, padrões de desenvolvimento socioeconômico pró- caráter decisivo do trabalho em equipe e da qualificação do time; o va- ximos aos dos países com as melhores condições de vida na atualidade. lor do planejamento estratégico e da gestão intensiva de projetos; a to- Com um planejamento de aplicação imediata e um plano de médio lerância zero com a corrupção e o desmando; o valor da liderança; a im- e longo prazo, atuamos para transformar intenções estratégicas em ações e prescindível comunicação ininterrupta com a sociedade, seja pelos meios resultados, sem nos desviar dos horizontes desejados, mas também de olho de comunicação, seja presencialmente. E por fim, mas não menos im- nas contingências. O caminho escolhido foi o gerenciamento intensivo. portante, a centralidade da política de base republicana e democrática Nesse sentido, montamos um escritório de projetos, unidade que foi o embrião da Secretaria de Estado de Gerenciamento de Projetos (Se- para operar as mudanças que a vida em coletividade demanda, para fazer avançar o processo civilizatório entre nós. gep). Seguindo as metas do Plano Estratégico, o governo definiu uma car- Afinal, como sentenciou o saudoso geógrafo Milton Santos: “Daí teira de cerca de 30 projetos estruturantes, com metas, cronograma, esco- a importância da política, a arte de pensar as mudanças e torná-las efe- po, público-alvo, dentre outras variáveis. Para o controle efetivo de todas tivas”. Muito obrigado! as ações a eles vinculadas, foi desenvolvido um software, denominado Sistema de Gerenciamento EstraAo longo desse processo de superações tégico de Projetos do Governo e conquistas, houve muito aprendiza- do Espírito Santo (SigES). do. Percepções e práticas se consolida- Para cada um dos pro- ram. Algumas crenças se dissiparam. O jetos, foram escolhidos ge- teste de realidade é sempre muito en- rentes, que são responsáveis riquecedor, além de esclarecedor. diretos pelo acompanhamento f ísico e financeiro dos pro- gramas. Eles também informam, em tempo real, o andamento das atividades, restrições/riscos e acionam o Escritório de Projetos para o apoio que se fizer necessário, objetivando assim um monitoramento intensivo e eficaz, num ambiente de comunicação integrada. Prezados, ao longo desse processo de superações e conquistas, houve muito aprendizado. Percepções e práticas se consolidaram. Algumas crenças se dissiparam. O teste de realidade é sempre muito enriquecedor, além de esclarecedor. Dentre os muitos aspectos que eu poderia ressaltar, destaco a importância da articulação entre governo e sociedade civil organizada; o 90 Recortes Paulo Hartung Cap. 4 G e stã o – I n v e sti m en t o D e c i si v o 91
  • 47.
    Tec nol ogi a s da infor m aç ão e comuni c a ç ão e novo s par adigm a s Esse novo paradigma substitui os dois anteriores: o do vapor, que inaugurou o modo de produção capitalista, e o da energia elétrica e do petróleo, que deu um novo upgrade no capitalismo na virada do século XIX para o XX. Gostaria de falar sobre as tecnologias da informação e da comunicação, Só para se ter uma ideia do que estamos vivendo, enquanto as tec- também conhecidas como TICs, a partir de duas perspectivas. A primei- nologias da revolução industrial demandaram dois séculos para alcançar ra, como fator de fundação de um novo paradigma capitalista, incluindo o planeta, as tecnologias digitais da informação e da comunicação difun- aí um novo modo de viver e produzir em coletividade. A segunda ver- diram-se em menos de duas décadas. tente é sobre como as TICs podem impactar a gestão pública, partindo O conjunto de tecnologias de informação e comunicação passou a do princípio de que ela deva primar pela excelência e privilegiar e incen- dar respostas altamente positivas ao espírito capitalista de expansão inces- tivar os preceitos republicanos e democráticos. sante, ainda mais para um capitalismo que já investia numa nova configu- O sociólogo espanhol Manuel Castells, um atento estudioso da contemporaneidade, afirma que as tecnologias da informação e da co- ração global de produção, comércio e ganhos. Por terem o condão de centralizar o planejamento e articular a pro- municação promoveram uma revolução no modo de produção capita- dução e o comércio, além de viabili- lista e, com isso, uma profunda mudança nas bases de nossa sociedade. zar o sistema de especulação finan- No rastro das mudanças econômicas, Segundo Castells, a partir dos anos de 1970, a disseminação pro- ceira ao redor do mundo, as TICs as tecnologias da informação e da co- gressiva e agressiva das tecnologias digitais de processamento e trans- possibilitaram aos capitalistas con- municação radicalizaram uma carac- missão de informações, assim como a interconexão planetária dos sis- temporâneos enxergar e tratar o pla- terística central das sociedades, que é temas de telecomunicações e comunicação, fundamentaram um novo neta como um lugar plenamente in- a convivência e a produção, enfim, a tempo capitalista. tegrado e articulado para sua ação. vida baseada em redes. Castells define a nova economia como informacional e global, cujos No rastro das mudanças eco- pressupostos são a produtividade, a concorrência e as interações. “Infor- nômicas, as tecnologias da informação e da comunicação radicalizaram macional porque a produtividade e a competitividade das unidades ou uma característica central das sociedades, que é a convivência e a pro- agentes nessa economia (sejam empresas, regiões ou nações) dependem dução, enfim, a vida baseada em redes. Por isso é que Castells chama a basicamente de sua capacidade de gerar, processar e aplicar de forma efi- atual sociabilidade de Sociedade em Rede, tal a capacidade de conexão, ciente informações baseadas em conhecimentos” “Global porque as prin. inclusive planetária, que as TICs promovem e suportam. cipais atividades produtivas, o consumo e a circulação, assim como seus componentes (capital, trabalho, matéria-prima, administração, informa- tram as revoluções da juventude ao redor do mundo, as trocas culturais ção, tecnologia e mercado) estão organizados em escala global”. “Infor- entre diversos povos, a nossa verdadeira dependência de mídias pesso- macional e global porque, sob novas condições históricas, a produtivida- ais (telefone celular, computadores e assemelhados) e mídias coletivas de é gerada e a concorrência é feita em uma rede global de informação”. 92 E isso vale para as questões sociais, políticas e culturais, como mos- (TV, jornais, internet, etc.), sem falar na profunda e inédita interdepen- Recortes Paulo Hartung Cap. 4 G e stã o – I n v e sti m en t o D e c i si v o 93
  • 48.
    dência econômico-financeira quea sociedade em rede produziu, con- enfim, de conectar o planeta. Se tudo isso for utilizado para o avanço ci- forme já citei. Com diria um outro pesquisador, o canadense Marshall vilizatório, perfeito. Mas, como disse, isso depende de escolhas. McLuhan, o que vivemos é uma aldeia global. O emprego das TICs no âmbito dos governos não é diferente: de- Descrito esse cenário de transformação, que se dinamiza a cada dia pende de escolhas. Aproveito, a partir de agora, para, à medida que falar em função das novidades tecnológicas, que são sucessivas e, por vezes, conceitualmente acerca das possibilidades de usos das tecnologias, citar assustadoras, perguntamos: como ficam os governos? Como as TICs po- algumas realizações que promovemos à frente do Governo do Estado. dem ser utilizadas na administração pública? Elas podem ser ferramen- O uso intensivo e massivo de TICs pela administração pública ge- tas úteis à reinvenção dos governos, processo de que tanto precisamos? ralmente vem denominado pelo que se chama de governo eletrônico ou Começo essa parte da explanação com duas observações. Primei- e-gov. É a partir de uma política global de governança eletrônica que se ramente, conforme escreveu poeticamente o saudoso geógrafo Milton Santos, o homem jamais inventou uma tecnologia como as tecnologias definem usos e aplicações das TICs no âmbito governamental. A Organização das Nações Unidas (ONU) faz periodicamente um estudo planetário sobre a situação do e-gov e constata que a maioria ab- digitais de informação e comunicação. Para Santos, as TICs são tecnologias doces, dóceis, uma vez que se soluta dos países investe em governo eletrônico. Mas a maioria o faz de adaptam aos mais diversos usos e necessidades, nas mais diversas cul- forma precária, incipiente, basicamente usando sites e portais como es- turas. Apesar de ter denunciado seu uso perverso, não emancipatório, paço para publicidade de governo e oferecendo alguns poucos serviços. Milton Santos afirmava, com inteli- Para a ONU, governo eletrônico é “o uso da tecnologia da infor- Tecnologia sozinha não faz revolu- gência, lucidez e honestidade, que as mação e da comunicação e sua aplicação pelo governo para a provisão ção. As transformações históricas TICs são, potencialmente, tecnolo- da informação e de serviços públicos básicos ao povo”. são obras humanas. São conquistas gias da liberdade. Nessa perspectiva, o governo eletrônico significa “implementar estratégias para a integração e a promoção da transparência nas administrações públicas e nos processos democráticos, melhorando a efici- faço o segundo adendo: tecnologia de tecnologias. Pegando carona na poética, mas lúcida, observação de Santos, de homens que, inclusive, se utilizam ência e fortalecendo as relações com os cidadãos”. sozinha não faz revolução. O fato de ela ser potencialmente revolucio- Nesse processo, é preciso que “iniciativas e serviços nacionais nária por suas características técnicas não a torna necessariamente re- de e-gov se adaptem às necessidades dos cidadãos e empreendedo- volucionária. As transformações históricas são obras humanas. São con- res, com o fim de alcançar uma distribuição mais eficaz dos recursos quistas de homens que, inclusive, se utilizam de tecnologias. e dos bens públicos”. Feitas as observações, vamos às potências das TICs. Dentre as no- Segundo as Nações Unidas, o “e-gov compreende interações ele- vidades mais espantosas, conforme salientou Santos, está a sua capaci- trônicas de três tipos: governo-governo (G2G); governo-negócio (G2B), dade de adaptação às necessidades mais distintas. Há ainda a potência e seu reverso; e governo-consumidor/cidadão (G2C), e seu reverso”. para ampliar os processos de trocas entre pessoas, comunidades, nações, 94 Recortes Paulo Hartung Integração, eficácia, prestação de serviços e responsabilidade goverCap. 4 G e stã o – I n v e sti m en t o D e c i si v o 95
  • 49.
    nativa são termosrecorrentes na definição de governo eletrônico propos- Com uso intensivo dessas tecnologias, os governos passam a ter uma capacidade extremamente potencializada de fiscalização relativa a to pela Cúpula da ONU sobre o tema. Nesse âmbito, podemos citar realizações como o canal de acompanhamento on-line da vida escolar dos estudantes por parte dos familiares, questões fazendárias. Aqui, citamos a implantação da Nota fiscal Eletrônica e do Sistema de Arrecadação On-Line. o investimento em informatização nos hospitais estaduais e filantrópicos Mas não é só isso. O uso das TICs na administração pública pode e nas farmácias cidadãs, e a criação do Ciodes, um serviço de excelência favorecer a ampliação e a consolidação dos valores democráticos e repu- com suporte tecnológico decisivo, assim como diversos serviços digitais. blicanos entre nós. As TICs oferecem potencial para se ampliar a trans- Para além das melhorias na relação da administração pública com os parência dos atos e gastos governamentais, assim como dão suporte a cidadãos e contribuintes, com outras instâncias públicas e com a iniciativa canais de interlocução entre poderes públicos e cidadãos, constituindo privada, melhorando e agilizando as entregas, as TICs podem ser utiliza- um ambiente de acompanhamento, fiscalização, trocas, interações e di- das na qualificação do planejamento, álogos que enriquecem o republicanismo e a democracia. Podemos citar Para além das melhorias na relação da gestão e da administração pública. a implantação do Portal da Transparência e de diversos canais digitais de da administração pública com os ci- Os processos de planejamento dadãos e contribuintes, as TICs po- e gestão de projetos e ações gover- Enfim, as TICs têm potencial para não apenas ajudar a reinventar os dem ser utilizadas na qualificação namentais, que demandam alta ca- governos – que precisam emergencialmente ser reformados –, como tam- do planejamento, da gestão e da ad- pacidade de articulação entre seto- bém oferecem meios para oxigenar e fazer avançar o processo civilizató- ministração pública. res e acompanhamento intermiten- rio republicano e democrático. Mas, como salientamos, tudo depende de te e em tempo real, se beneficiam escolhas, de decisões, uma vez que tecnologia sozinha não faz revolução. muito dos investimentos em tecnologia de informação e comunicação. Também é preciso considerar alguns desafios impostos à gover- Algumas iniciativas que implementamos foram 0 Sistema de Ge- nança eletrônica. Primeiramente, os investimentos em TICs são altos e renciamento Estratégico de Projetos do Governo do Espírito Santo (Si- conversa da população com as autoridades, incluindo uma Ouvidoria. a própria noção de e-gov é, de certo modo, novidade entre nós. gES) e o Sistema Integrado de Gestão Administrativa do Estado (Siga). Há ainda o modelo arcaico de gestão pública, baseado em leis ul- Integração de atividades, redução de gastos e custeios, convergências trapassadas e pouco racionais. As atuais regras de licitação/compra, ges- e sinergias nas aplicações de recursos públicos, entre outros, são ações pos- tão de pessoal, contratação e de controle precisam ser repensadas ur- sibilitadas pelas TICs, que podem gerar economia e racionalidade na apli- gentemente, tendo em vista a diminuição de gastos, o aumento da efi- cação de recursos oriundos de impostos. O pregão eletrônico e a instala- ciência e o foco em resultados. ção de um Datacenter são exemplos de ações nessa área a partir de 2003. Se a capacidade de gastar com mais qualidade e racionalidade trônica vem mostrando serviço e se consolidando com uma alternati- pode ser melhorada com as TICs, o mesmo pode se dizer quanto à me- va viável à inadiável reengenharia da administração pública e ao avanço lhoria possível nos processos de arrecadação. 96 No entanto, mesmo com essas condicionantes, a governança ele- democrático-republicano entre nós. Recortes Paulo Hartung Cap. 4 G e stã o – I n v e sti m en t o D e c i si v o 97
  • 50.
    Conforme ressaltamos nocomeço, o mundo vive sob o paradigma da informação e da comunicação. Mas a história que estamos construin- Co n se l h o R e gio n a l de E c o n omia – Pe r s o n a l ida de d o a n o 2 010 S e t o r P úb l ic o do a partir do uso dessas tecnologias “doces e dóceis” não vem determinada pela tecnologia, e sim pela decisão política que tomamos frente aos Gostaria de registrar meu especial agradecimento por esta significati- potenciais dessas ferramentas. va homenagem. É para mim muito especial ser reconhecido pelos meus Como gestor e agente político, venho discutindo e privilegian- pares de profissão com a entrega do Prêmio Personalidade do ano 2010 do o uso das TICs como meio para a promoção da excelência do servi- Setor Público. Queridos economistas capixabas, meu muito obriga- ço público – que, exatamente por ser público, tem de ser de excelência do de coração. Registro também o significado que tem para mim o ano – e para o avanço dos valores democráticos e republicanos entre nós. de 2010, período a que se refere a homenagem que hoje me é prestada. Nessa direção, além dos exem- 2010 foi o último dos oito anos de meus dois mandatos à frente do Como gestor e agente político, venho plos citados, é importante mencionar Executivo Estadual. Marcou o término de uma caminhada que deu iní- discutindo e privilegiando o uso das ainda que o Espírito Santo passou a cio a um novo tempo no Estado do Espírito Santo. Consolidou os primei- TICs como meio para a promoção da contar com um Sistema Estadual de ros passos de uma longa trajetória rumo a um futuro cada vez mais jus- excelência do serviço público – que, CTI, tendo sido criada a Fundação to e igualitário nas terras capixabas. exatamente por ser público, tem de de Amparo à Pesquisa do Espírito Minha formação de econo- Com austeridade financeiro-orçamen- ser de excelência – e para o avanço Santo (Fapes). Trata-se de um movi- mista, somada à companhia de gran- tária, choques ético e de gestão, fim dos dos valores democráticos e republi- mento para incrementar a produção e des economistas na equipe de gover- privilégios e uma firme política fiscal, canos entre nós. o uso de conhecimento, tecnologia e no, foi um dos fatores decisivos nes- não só pagamos as dívidas como tam- inovação entre nós, incluindo o e-gov. se processo, atravessado por desafios bém nos tornamos um dos Estados da Mas como nessa área o dinamismo dá o tom, é preciso manter o gigantescos e pontuado por pelo me- Federação com maior capacidade de nos duas crises econômicas. investimento com recursos próprios. tema das TICs e seus usos em nossa agenda cotidiana, até porque as tecnologias se superam dia a dia no quesito inovação. A primeira foi uma crise esta- Dessa forma, ficam algumas perguntas para basear nossas refle- dual, devido à enorme dívida de curto prazo vencida que encontramos xões: o que estamos fazendo diante de uma possibilidade tecnológica junto ao Tesouro Estadual e que naquele momento parecia impagável. Era revolucionária, capaz de promover transformações em todos os âmbi- mais de R$ 1,2 bilhão em janeiro de 2003. Além disso, tínhamos o enor- tos de nossa existência? Estamos utilizando essas doces tecnologias para me desafio de enfrentar uma densa teia de corrupção e crime organizado. promover a emancipação humana? Que mundo estamos construindo Com austeridade financeiro-orçamentária, choques ético e de ges- ao utilizar as TICs, em nossa casa, em nosso trabalho, como indivíduo, tão, fim dos privilégios e uma firme política fiscal, não só pagamos as dí- como cidadão, como gestor público? Muito obrigado! vidas como também nos tornamos um dos Estados com maior capacidade de investimento com recursos próprios, algo em torno de 16% em 2010. 98 Recortes Paulo Hartung Cap. 4 G e stã o – I n v e sti m en t o D e c i si v o 99
  • 51.
    A segunda criseeclodiu em setembro de 2008, gerada pelos pro- Diferentemente da situação que encontramos em 2003, em primei- blemas de financiamento imobiliário dos Estados Unidos. Foi grande o ro de janeiro de 2011 entregamos um governo com contas em dia. Implan- impacto no Brasil e enorme a repercussão no Espírito Santo em função tamos uma outra cultura fiscal e deixamos em caixa mais de R$ 1,6 bilhão. das peculiaridades da nossa economia. Um dado retrata bem a situação Entregamos o Espírito Santo organizado politicamente. Assumi pessoal- vivida: em 2009, a nossa receita real caiu mais de 4%. mente a responsabilidade de manter o Estado unido em torno do proje- Se na primeira crise tivemos de trabalhar para arrumar as finan- to que trouxe entusiasmo com o presente e o futuro das terras capixabas. ças e reorganizar o Espírito Santo, na crise financeira de 2008 tivemos Entregamos uma casa arrumada. Um Estado organizado com a re- de agir para preservar as conquistas, tivemos de atuar para garantir a re- forma administrativa que efetivamos, inclusive com a criação de duas no- organização alcançada com muito trabalho e dedicação. vas carreiras no serviço público – analista administrativo e financeiro e Aqui também fomos além, porque não apenas garantimos o nosso especialista em políticas públicas e gestão governamental. Carreiras que patrimônio administrativo-financeiro e o equilíbrio orçamentário, como dialogam com a nossa profissão e que são necessárias à melhoria da efi- também conseguimos lançar cácia da máquina governativa. Não fizemos tudo, nem poderíamos, um programa de investimen- Não fiz nada sozinho. Acredito que dentre as principais condicio- mas avançamos muito. Diferente- tos de R$ 1 bilhão, o maior da nantes da ação de um líder esteja a possibilidade de montar boas equi- mente da situação que encontramos história capixaba até então. A pes e de mobilizar forças em razão de um objetivo comum. Nesse sen- em 2003, entregamos um governo com precaução e a cautela na con- tido, tive condições extraordinárias de trabalho. contas em dia. Implantamos uma ou- dução do Estado permitiram Nos dois mandatos, montamos um time que reuniu parte das me- tra cultura fiscal e deixamos em cai- que fizéssemos a nossa políti- lhores cabeças deste Estado e ainda agregamos profissionais de excelên- xa mais de R$ 1,6 bilhão. ca anticíclica, que gerou mais cia Brasil afora que vieram somar forças para a inauguração de um novo de 20 mil empregos. tempo da história capixaba. Como disse o ex-presidente do México Vicente Fox, governar não é Nessa caminhada também registro o apoio, a companhia, o supor- simples. Trata-se de uma atividade extremamente complexa. Mas gover- te, a torcida, as orações de homens e mulheres de bem do nosso Estado. nar representa uma possibilidade ímpar de se fazer a diferença na con- Acho que por aqui não existiu governante que tenha recebido tal apoio, dução das nossas vidas. E, nos últimos oito anos, podemos dizer que a seja dos cidadãos, das instituições públicas e privadas, seja das organiza- diferença foi notada por todos os capixabas. ções da sociedade civil. Não fizemos tudo, nem poderíamos, mas avançamos muito. Nos indicadores de inclusão socioeconômica (redução de miséria e nhias. E isso fez toda a diferença. É a esse mutirão de homens e mulhe- pobreza, ascensão à classe média, alfabetização, expectativa de vida, res honrados destas terras do Espírito Santo que dedico a homenagem mortalidade infantil, trabalho com carteira assinada, entre outros), que recebo esta noite. Uma homenagem que estará sempre em minha muitas vezes, estivemos na vanguarda nacional. 100 A tarefa foi árdua e desafiante, mas sempre estive em boas compa- memória, como cidadão, como economista. Muito obrigado! Recortes Paulo Hartung Cap. 4 G e stã o – I n v e sti m en t o D e c i si v o 101
  • 52.
    Cap. 5 Educação eJuventude Determinantes do Futuro N este capítulo estão reunidas três palestras feitas pelo ex-governador Paulo Hartung para jovens e estudantes universitários. A primeira foi dedicada a alunos da Faculdade Salesiana de Vitória. Em seguida, vêm as palestras apresentadas a integrantes do Movimento Líderes do Amanhã e a estudantes de Engenharias da Ufes, em São Mateus. Nos primeiro e terceiro textos desta seção, Hartung destaca a prio- ridade absoluta que deve ser dada à educação, salientando o seu papel para emancipação pessoal e coletiva, constituindo-se como base da democratização do acesso às oportunidades. O ex-governador ressalta, ainda, a centralidade da instrução em uma sociedade globalizada e altamente competitiva, além de assinalar o papel da família no processo de formação educacional. No segundo texto deste capítulo, está reproduzida a palestra sobre liderança, proferida em encontro do Movimento Líderes do Amanhã, em que o ex-governador destaca um tema decisivo em tempos de amplas e inúmeras janelas de oportunidades que se abrem em nossa realidade. Cap.5 Educação e Juventude – Determinantes do Futuro 103
  • 53.
    D e senvolviment o e Op ort unidad e s A partir das potencialidades e do trabalho dos capixabas, da recuperação da credibilidade e estabilidade político-institucional, da quali- Estudei no Colégio Salesiano Nossa Senhora da Vitória do terceiro ficação gerencial pública, da retomada da capacidade de investimento ano primário até o pré-vestibular. É uma alegria poder voltar aqui, do Estado, e da implantação de um novo modelo de desenvolvimento, nesta escola que esteve na base da minha formação, para comparti- assentado na inclusão social produtiva, na desconcentração geográfica, lhar um pouco das visões e percepções que desenvolvi ao longo da na sustentabilidade ambiental e na modernização tecnológica, o Espíri- minha trajetória. to Santo avançou nessa caminhada. Nasci no interior do Estado, em Guaçuí, me formei em Economia Crescemos além da média nacional e alcançamos indicadores so- na Ufes. Durante o curso na Universidade, iniciei minha jornada nos mo- cioeconômicos de referência no País. Coletivamente, transformamos o vimentos sociais, em particular no movimento estudantil, na luta pela presente e ainda fundamos as bases de um novo futuro. Dessa forma, as volta da democracia no nosso País. perspectivas se mantêm muito boas. Minha trajetória inclui mandatos no Legislativo estadual e federal Segundo informações do Instituto Jones dos Santos Neves, os (Câmara e Senado), na Prefeitura de Vitória, na Diretoria Social do BN- anúncios de investimentos com valores superiores a R$ 1 milhão para o DES, e no Governo do Estado, por dois mandatos consecutivos. Estado do Espírito Santo no período 2010 a 2015 somam mais de 1.100 Gostaria de propor uma conversa em dois tempos. Começaria falando das minhas impressões sobre desenvolvimento e sua conexão com as oportunidades. Em seguida, a ideia é discutir um tema estrategicamente ligado à questão das oportunidades: educação. projetos. Só a Petrobras planeja investir 12,2 bilhões de dólares em exploração e produção. Os investimentos se encontram em três grandes áreas. Na Infraestrutura, destaque para os setores de energia, construção e melhorias em Com esse percurso, busco conectar assuntos relevantes para este terminais portuários, aeroporto e ar- momento ímpar da vida de cada um de vocês. Um tempo de investi- mazenagem, além de obras de trans- Por seus fundamentos, o modelo que mento em formação para transformar sonhos e projetos em realidade. porte. A Indústria também é prota- implementamos a partir de 2003 co- gonista, assim como os setores de necta de forma definitiva o desenvol- Comércio/serviços/lazer. vimento a uma questão-chave no pro- Nos últimos anos, o Espírito Santo, numa caminhada de travessia e num percurso de muitas conquistas, encontrou rumo. Não fizemos Nesse último tópico, entram cesso civilizatório: a democratização obras de engenharia, compreenden- das oportunidades de crescimento in- Mas os desafios fazem parte da existência. Vencemos muitos, al- do construção de centros comerciais dividual e coletivo. guns permaneceram ou se modificaram, outros se colocaram, novos sur- e de lazer (shopping centers, par- girão. A dinâmica da vida é assim, seja a vida pessoal, seja a vida coleti- ques temáticos, centros culturais e teatros) e empreendimentos imobi- va. Por isso, estudo, trabalho, muita energia e disposição para transfor- liários residenciais e comerciais (edif ícios, lojas de departamentos, ho- mar a nossa história são fundamentais. téis, supermercados, armazéns, etc.). Também há centenas de projetos tudo, nem poderíamos, mas conquistamos avanços dignos de nota, alguns de vanguarda em rankings nacionais. 104 Recortes Paulo Hartung Cap.5 Educação e Juventude – Determinantes do Futuro 105
  • 54.
    em mobilidade urbana,saneamento/urbanismo, educação, meio am- Como vocês bem sabem, a educação é o maior legado que qualquer família pode deixar para seus filhos. Aliás, é preciso salientar o papel deci- biente, saúde, segurança pública. Por seus fundamentos, o modelo que implementamos a partir de sivo da família, não importando o arranjo familiar em questão, no processo 2003 conecta de forma definitiva o desenvolvimento a uma questão- educacional de nossas crianças e jovens. A ausência de sua função cria uma -chave no processo civilizatório: a democratização das oportunidades sobrecarga no sistema de ensino, sobretudo na figura do professor. Ademais, de crescimento individual e coletivo. é preciso ficar claro que a escola não tem capacidade para resolver tudo. “Qualidade do que é oportuno”; “momento propício”; “ocasião fa- Feito esse alerta mais que urgente, volto a registrar que a educação é vorável”. Assim descrevem os dicionários o que significa a palavra opor- a janela de oportunidade que se abre para um horizonte de emancipação tunidade. O campo da política soma a essas interpretações o sentido da humana. Do ponto de vista coletivo, é um dos principais requisitos para a chance histórica de conquista da autonomia e da realização cidadã de in- construção de um Brasil mais justo e igualitário. Deve ser, portanto, além divíduos, comunidades e povos. Assim entendemos o que é oportunidade. de uma conquista pessoal, uma bandeira de luta de todos nós brasileiros. As palavras do ex-presidente Deve-se investir na formação cidadã e na capacitação profis- É preciso salientar o papel decisivo da norte-americano Abraham Lincoln sional da juventude, para que as novas e as futuras gerações tenham família, não importando o arranjo fa- acerca do que deve ser um gover- como horizonte o reino da igualdade entre nós. Ou seja, a educação é miliar em questão, no processo educa- no são exatas para classificar o sen- um dos principais investimentos para continuarmos na caminhada de cional de crianças e jovens. A ausên- tido político do termo oportunida- superação do abismo da desigualdade que ainda existe no nosso País. cia de sua função cria uma sobrecar- de. Disse Lincoln que o objetivo es- Um outro fator ligado à educação que merece ser ressaltado é o ga no sistema de ensino, sobretudo na sencial do governo é “elevar a con- valor que ela tem num modo de produção baseado no saber. No capita- figura do professor. A escola não tem dição dos homens [...] para permi- lismo atual, todas as atividades dependem de informação, tecnologias e capacidade para resolver tudo. tir um começo a todos e uma chan- conhecimento para se tornarem competitivas e qualificadas. ce justa na corrida da vida”. Nos tempos da sociedade da informação, articulada planetaria- Mario Quintana, que vinculou o conceito de democracia à garan- mente em rede, não se pode pensar em desenvolvimento a longo prazo tia de acesso igualitário às oportunidades, poetizou: “Democracia? É dar sem investimento em educação e capacitação para geração de inovação. a todos o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, isso Da produção de commodities à constituição do universo digital, depende de cada um”. O que seria, nos tempos de hoje, “um começo a todos e uma chance passando pela produção de bens e serviços, tudo depende de pesquisa, formação e atualização profissional. justa”, como disse Lincoln? Em função das peculiaridades da atualidade, não consigo imaginar outra resposta que não seja: Educação. A educação tar as oportunidades e superar os desafios da Era do Conhecimento. Na é uma das vias centrais para o acesso às oportunidades do mundo con- contemporaneidade, uma sociedade desenvolvida tem seu fundamento temporâneo – ela representa o “ponto de partida” requerido pelo poeta. 106 É preciso investir prioritariamente em educação para se aprovei- essencial na educação de qualidade, focada na formação de cidadãos e na Recortes Paulo Hartung Cap.5 Educação e Juventude – Determinantes do Futuro 107
  • 55.
    produção qualificada, inovadorae sustentável. Ou seja, no nosso tempo, o desenvolvimento passa necessariamente pela educação. Nesse sentido, é ilustrativo ver que onde o Brasil investiu com prio- A vocês que estão investindo em formação, só tenho a reafirmar: a educação é tão fundamental ao êxito de cada um de vocês quanto ao sucesso de nosso Estado, de nosso País. ridade em educação, pesquisa e inovação, conseguiu avançar para a van- Prezadas e prezados, com os avanços político-institucionais e eco- guarda. Temos os exemplos do agronegócio, com a Embrapa, da explo- nômicos dos últimos anos, o Espírito Santo tem praticamente contrata- ração de petróleo em águas profundas, com a Petrobras, e da aeronáu- do um longo período de desenvolvimento inclusivo e sustentável. tica, com a Embraer. O desafio agora é expandir essa receita de sucesso para outras áreas onde temos competitividade planetária. O presente registra muitas oportunidades e o horizonte mostra a ampliação do quadro de chances de acesso ao crescimento individual Só para se ter uma noção mais e coletivo. A vocês que serão os líderes do amanhã, faço um alerta que É preciso investir prioritariamente em clara acerca da demanda do desen- também é um convite: se a construção desse futuro já está em andamen- educação para se aproveitar as oportu- volvimento por formação, vou citar to, a consolidação e o avanço desse novo tempo histórico dependem da nidades e superar os desafios da Era do o exemplo das engenharias. Segun- ação de cada um de nós. Conhecimento. Uma sociedade desen- do o Instituto de Pesquisa Econô- Nesse caminho, o investimento em educação deve continuar sen- volvida tem seu fundamento essencial mica Aplicada (Ipea), o crescimen- do uma das nossas prioridades, em função de um amanhã sempre me- na educação de qualidade, focada na to anual do emprego para engenhei- lhor para todos, com democratização de oportunidades e desenvolvi- formação de cidadãos e na produção ros é o dobro dos índices de cresci- mento social e ambientalmente sustentável. Afinal, como cantou Gon- qualificada, inovadora e sustentável. mento da economia, em vários cená- zaguinha: “Hoje é semente – semente do amanhã”. Amanhã que está em rios para o período de 2011 a 2020. nossas mãos. Muito obrigado! Esses exemplos que citei há pouco servem também para falarmos do necessário diálogo entre as instituições de educação e formação profissional com as demandas do mercado de trabalho. Esse foi o caminho que seguimos à frente do Governo do Estado, ao formularmos e implementarmos os programas Nossa Bolsa, Bolsa Sedu, Bolsa Sedu Idiomas e a Rede de Educação Técnica e Profissionalizante, entre outras ações. Meus caros, se, no passado, a instrução era importante para vencer a ignorância, hoje, a formação atualizada e acessível a todos é desafio para a garantia da igualdade de oportunidades. Além disso, combinada com investimentos em ciência e tecnologia, é fator decisivo para a competitividade econômica. 108 Recortes Paulo Hartung Cap.5 Educação e Juventude – Determinantes do Futuro 109
  • 56.
    Lí d ere s d o Am anhã Ou seja, a arte de liderar é também a estratégia de cercar-se de colaboradores que saibam mais da sua área de especialização do que o lí- Registro minha satisfação pelo convite para estar junto a um colegiado der, que deve possuir outros atributos, como ter a noção de conjunto, tão representativo para o desenvolvimento capixaba. capacidade de motivar e de identificar e potencializar talentos. O pro- Ao refletir sobre uma possível contribuição ao debate pertinente à fissionalismo é um requisito básico. agenda desta organização, e considerando a minha trajetória de homem Tenho agido assim ao longo de minha vida pessoal e profissional. Te- público, economista e cidadão, percebi que uma pauta mais que justifica- nho me cercado de pessoas que complementam e fortalecem minha atua- da estava dada pelo próprio nome da associação que os agrega. Nesse sen- ção. Por melhor que seja a formação profissional e intelectual, por maior que tido, proponho aos “líderes do amanhã” uma conversa sobre os temas Li- seja a experiência administrativa, é um mau caminho se achar supercapaz. derança e Futuro – ou Amanhã, para ser mais fiel ao nome da instituição. A minha trajetória me ensinou que é preciso construir times. Conhecer Comecemos por conversar um pouco sobre liderança. O que é ser os colaboradores e, a partir da compreensão de que todos nós temos habili- um líder? O treinamento da vida me ensinou que liderança é, entre ou- dades e limitações, fazer um mapeamento de vocações. Cada um deve ocu- tros, a arte de mobilizar e motivar boas companhias para enfrentar ta- par o lugar em que mais pode contribuir. É estar no lugar certo para fazer a refas desafiantes. coisa certa, num jogo de soma e articulação em que ganha todo o conjunto. Aprendi desde cedo a não acreditar em voluntarismo. Não se en- A liderança também deve ser capaz de viabilizar um clima de har- frenta sozinho um desafio. Ou seja, a liderança é também a arte de mon- monia e produção de soluções em momentos de crise, desgastes ou equí- tar equipes. E nesse processo é fun- vocos. Distante da prática de eleger bodes expiatórios ou culpados, os O que é ser um líder? O treinamen- damental saber avaliar vocações, en- líderes precisam oferecer ambiente de segurança e confiabilidade para to da vida me ensinou que liderança tender forças e fraquezas de cada um, que seus liderados tenham chance de acertar e também errar, entenden- é, entre outros, a arte de mobilizar e definir projetos e ações, descentrali- do que esse é o mecanismo da vida. Parece lugar-comum, mas só não motivar boas companhias para en- zar e delegar tarefas, e avaliar os pas- erra quem não faz, quem vive se omitindo. frentar tarefas desafiantes. sos para qualificar a caminhada. A li- Equipes sólidas são equipes que convivem com altos e baixos sem derança é ainda a arte de dar exem- se desintegrarem diante do primeiro problema ou se destruírem numa plos e difundir valores caros ao avanço civilizatório, agregando um con- competitividade irracional entre colegas de projeto. Esse ambiente de co- junto de pessoas em torno de objetivos comuns. laboração é imprescindível em função de uma outra determinante da ação É tradição em nosso País, infelizmente tão afeito a patrimonialismos de toda sorte, a equivocada ideia de montar equipes com amigos Nenhum líder deve temer a sombra alheia ou se achar o único ca- e pessoas de convivência próxima. Certamente essas pessoas vão aju- paz de resolver tudo. A ideia de liderança se fundamenta exatamente na dar pouco e até podem atrapalhar. No desejo de agradar para se segura- conjugação de forças e competências sob a condução de quem tem vi- rem no posto, podem até mesmo informar que faz sol em dia de chuva. 110 de liderança: a capacidade de delegar funções e descentralizar atividades. são de conjunto e clareza de objetivos a serem alcançados. Recortes Paulo Hartung Cap.5 Educação e Juventude – Determinantes do Futuro 111
  • 57.
    Da mesma formaque não acredito em voluntarismo, também não De acordo com sua filosofia, a ação política está na dependência creio em improviso. O planejamento é ferramenta essencial para a vida. Em dos cidadãos e das instituições, civis, públicas ou privadas que se forjam todo movimento, é preciso ter um diagnóstico claro de onde estamos e uma para a garantia da dignidade e emancipação do homem. visão de onde queremos chegar. É imprescindível traçar o mapa da cami- Nesse sentido, em nossa atualidade, nos partidos, nos fóruns da so- nhada, definindo-se passos e metas. É preciso ter projeto. Conforme ob- ciedade civil, nas estruturas dos poderes e instituições públicas, no dia a servou o pensador, nenhum vento sopra a favor de quem não sabe aonde ir. dia das escolhas que cada um de nós faz, está a política a constituir uma Também é fundamental um eficaz e dinâmico processo de gestão, com cultura peculiar, com interfaces com os campos simbólico e econômico. capacidade permanente de avaliar os passos dados para fazer os ajustes ne- O senso comum vincula política somente à atividade partidária e cessários em direção ao horizonte de- institucional, percepção reforçada na atualidade por um individualismo O planejamento é ferramenta essen- sejado, considerando erros, acertos e epidêmico que tenta mascarar os vínculos de coletividade da humanida- cial para a vida. Em tudo, é preciso ter contingências diversas. Ou seja, é pre- de – o que também não deixa de ser um comportamento político, mas um diagnóstico claro de onde estamos ciso saber montar equipes e, conjunta- no âmbito egoísta “da política da vida”, em substituição à Política com e uma visão de onde queremos chegar. mente, planejar, executar, gerenciar e “p” maiúsculo, na lúcida definição de Zigmunt Bauman. De toda sorte, É imprescindível traçar o mapa da ca- avaliar a caminhada. Cada um ofere- a política é inseparável da existência coletiva. No entanto, é da Política minhada, definindo-se passos e metas. cendo o melhor de si, no lugar certo, de inicial maiúscula que estou falando e é nela que milito toda uma vida. É preciso ter projeto. Conforme obser- em benefício dos objetivos comuns. Para finalizar, aproveito para fazer uma análise bastante atualiza- favor de quem não sabe aonde ir. Para finalizar esse tópico, con- da acerca dessa interface que venho aqui ressaltando entre política e li- sidero que a visão ampliada de lide- derança. Isso porque essa relação está sendo muito desafiada nos qua- rança de que falei seja algo relevan- vou o pensador, nenhum vento sopra a tro cantos do planeta neste momento. te em todos os âmbitos da nossa existência, seja no setor público, seja na Em função dos desafios novos que estão colocados à sociabilidade iniciativa privada, seja na vida pessoal. Uma prova disso é exatamente a atual, globalizada e comunicacionalmente articulada e conectada, preci- organização da qual vocês fazem parte e este próprio evento. samos ser criativos e ampliar o conceito de liderança, e não só na política, Passo, agora, ao segundo tempo da nossa conversa: a abordagem mas também na economia, na cultura, etc. sobre o Amanhã. Em função da minha formação e da minha atuação Essa liderança precisa aliar visão estratégica com valores relaciona- como cidadão e homem público, vou falar do Amanhã como uma cons- dos a um determinado projeto, constituindo-se um mapa de navegação em trução da política, um campo decisivo para definir os rumos da História. tempos turbulentos. É preciso ter uma percepção clara dos mecanismos que Aristóteles, em sua Política, fundamental texto da Grécia Clássica, fazem o mundo girar na contemporaneidade, identificando desafios e opor- vincula política à comunidade de homens que buscam o bem comum. A tunidades desta complexa atualidade. política seria a virtude coletiva que trabalha pela prosperidade de todos os que se agregam na polis, sob os fundamentos da justiça e da liberdade. 112 Nessa caminhada, é preciso ficar claros quais valores nos guiam na longa jornada de superação do atual paradigma. Essa clareza ética revela a Recortes Paulo Hartung Cap.5 Educação e Juventude – Determinantes do Futuro 113
  • 58.
    “alma” de nossoprojeto. Individualismo, consumismo, ganhos a qualquer E xpa n sã o e Pro gre s s o Ca pi x a b a – custo, irresponsabilidade social e ambiental, entre outros fundamentos de O p o rt un ida de s e Pe r spe c ti va s ação, parecem ter-se esgotado e estão plenamente rejeitados mundo afora. Na minha visão, às lideranças cabem, antes de tudo, o papel de vei- Gostaria de propor uma conversa em dois tempos. Começaria falando culadoras do processo histórico, ou seja, devem ser propagandistas de que das minhas impressões sobre a engenharia e suas conexões com o de- a vida não é destino ou fatalidade, mas uma narrativa que se pode e se senvolvimento econômico e social. Em seguida, a ideia é discutir o va- deve reinventar, principalmente pela Política. Aliada a essa visão, é pre- lor da educação. Com esse percurso, busco conectar assuntos pertinen- ciso que sejam fiadoras de um projeto de civilização que dialogue com tes à profissão escolhida por vocês de modo atualizado, esperando que os desejos e anseios contemporâneos. tenha sucesso na engenharia deste bate-papo. Como bem demonstrou Winston Churchill, é preciso que o líder Sou economista por formação, mas ao longo da minha trajetória personifique o entusiasmo, em palavras, gestos e ações, que devem ser em cargos executivos, na Prefeitura de Vitória e no Governo do Estado, inspiradoras. Segundo o autor Paul Johnson, a vida de Churchill passa várias vezes disseram que eu tinha alma de engenheiro. É algo que sem- ao menos cinco lições importantes: pense sempre grande; nada substi- pre me deixa muito feliz. tui o trabalho árduo; nunca deixe que erros e desastres o abatam; não Penso que fazem essa conexão por causa do que chamam de en- desperdice energia com coisas pequenas e mesquinhas; e, por fim, não genho político, processo utilizado para mobilização de energias e forças deixe que o ódio o domine, anulando o espaço para a alegria na vida. em prol da construção do interesse comum. E também pelas milhares de Visão, valores, entusiasmo, projeto, disposição, determinação e traba- obras que tocamos, promovendo transformações na vida dos capixabas. lho. Eis um bom caminho para uma liderança, inclusive no mundo da política. Uma das profissões mais reconhecidas entre nós, a engenharia é Digo inclusive, pois não se deve esperar que essas e outras ações uma atividade peculiar. Exige profundo conhecimento na área de exa- essenciais ocorram apenas no âmbito de partidos e das instituições go- tas, mas requer visão criativa. Funda-se em saberes consolidados, mas vernamentais. Conforme salientamos, Política também se faz no dia a demanda olhar dinâmico em busca de soluções inovadoras. dia, nos lares, nas empresas, nas organizações de sociedade civil. Polí- É a partir desse paradigma exigente, fundado numa coerência apa- tica se faz nas redes sociais da internet, nas praças ao redor do mundo, rentemente paradoxal, que se formam profissionais dedicados à nobre para ficarmos com um exemplo bem atual. missão de transformar os mais diversos recursos naturais e não naturais E como “são os passos que fazem o caminho” na poética observação , em bens e serviços para a melhoria das condições de vida. de Mario Quintana, cuidemos de projetar, trabalhar e liderar ações por um amanhã sempre melhor para todos, com democratização de oportunidades sidades humanas e às necessidades dos variados processos de desenvol- e desenvolvimento social e ambientalmente sustentável. Afinal, como cantou vimento que se implementam historicamente. Utiliza-se de saberes em- Gonzaguinha: “Hoje é semente – semente do amanhã” Amanhã que está em . píricos, técnicos e científicos para criação e a modificação de mecanis- nossas mãos, tecido pela arte da política nossa de cada dia. Muito obrigado! 114 O engenheiro é um profissional que busca dar respostas às neces- mos, estruturas, produtos e processos. Recortes Paulo Hartung Cap.5 Educação e Juventude – Determinantes do Futuro 115
  • 59.
    Engenharia deriva deengenho, cuja origem latina (ingen) sig- Diante desse quadro, é preciso salientar que o País tem muitos gar- nifica, entre outros, “faculdade de saber”, “criatividade”. Essa capaci- galos a serem superados. Há a questão urgente da infraestrutura eco- dade de engenharia vem se desenvolvendo juntamente com a histó- nômica (portos, rodovias, ferrovias, aeroportos, habitação, saneamen- ria do Homem. to, mobilidade urbana, entre outros). Mas talvez o maior problema es- No Brasil, o século XX é que vai marcar o efetivo desenvolvimento das engenharias. O conselho federal para regular a profissão foi criado nos anos 1930. O grande impulso se deu a partir dos anos 1950. teja relacionado com a disponibilidade de novos profissionais e também com a desatualização de um enorme contingente de graduados. Segundo dados da Associação Brasileira de Educação em Enge- Siderurgia, agronomia, indústrias de base, obras rodoviárias, ne- nharia, para cada 100 formados no ensino superior no País, apenas oito gócio do petróleo e gás, construção civil, telecomunicações, hidrelétri- fizeram engenharia. De acordo com a mesma instituição, esse número cas, indústria aeronáutica e automobilística, entre outros, movimenta- está muito aquém do que se observa em outros países. ram o segmento. Na Coreia do Sul, por exemplo, a relação é de quase 30 formandos No entanto, em nosso País a profissão viveu um grande boom com em engenharia para 100 graduados. Na Europa, onde a grande maio- o chamado milagre econômico, com as obras do “Brasil gigante” dos anos ria dos problemas de infraestrutura já está resolvida, é da ordem de 15. 1970. O longo intervalo de crise que Sempre de acordo com a associação, estamos formando histori- O País tem muitos gargalos a serem su- vivemos, entre os anos 1980 e 1990, camente menos de 30 mil engenheiros, embora haja 1.400 cursos e 300 perados. Há a questão urgente da in- comprometeu o desenvolvimento das mil vagas. Nessa disparidade, é preciso levar em conta o fato de quase fraestrutura econômica (portos, rodo- engenharias. Criaram-se graves em- metade desses cursos são novos e há uma acentuada evasão. vias, ferrovias, aeroportos, habitação, pecilhos ao desempenho da atividade. O Brasil está formando, em média, um engenheiro para cada 6 mil saneamento, mobilidade urbana, entre Com as reformas constitucio- habitantes. Os EUA formam um engenheiro para cada 3 mil habitantes. outros). Mas talvez o maior problema nais e as mudanças infraconstitu- esteja relacionado com a disponibili- cionais, a conquista da estabilida- Conforme dissemos, além do problema do número de profissio- dade de novos profissionais e também de econômica e o novo período de nais, há a questão da qualidade da formação e da atualização dos diplo- com a desatualização de um enorme evolução produtiva no País, as en- mados. Graduação e especialização são temas que precisam ser discuti- contingente de graduados. genharias passaram a viver um qua- dos à luz de questões curriculares, de mercado e também da atualização dro bem diferente. tecnológica pertinente às áreas de atuação das engenharias. Na Coreia do Sul, é um engenheiro para cada 625 habitantes. Mais recentemente, num mercado aquecido pelas demandas inter- O fato é que precisamos correr contra o tempo. O cenário é de nacionais, especialmente as da China, pelo agronegócio, pela atividade mi- demanda ascendente. Segundo o Ipea, o crescimento anual do empre- neradora, pelo negócio do petróleo e gás e pelo incremento da capacidade go para engenheiros é o dobro dos índices de crescimento da economia, de consumo no Brasil, as empresas iniciaram uma nova etapa de busca por em vários cenários para o período de 2011 a 2020. profissionais das diversas engenharias. 116 Recortes Paulo Hartung Com a economia crescendo 4%, aumenta a demanda por engeCap.5 Educação e Juventude – Determinantes do Futuro 117
  • 60.
    nheiros em 8,4%.Com aumento econômico de 2,5%, cresce a deman- nou estratégica para o nosso Estado, que, a partir de 2003, conquistou da por engenheiros em 5,1%. Esses dados referem-se sempre a números confiança político-institucional, além de qualificação gerencial pública, médios, alcançando as diversas áreas da engenharia. tendo inaugurado um novo ciclo econômico, o terceiro de sua história. Se verificado o nível de crescimento em torno de 4% , haverá de- Conforme já disse, a estabilidade econômica, o aumento do con- manda por 765 mil profissionais. Com crescimento econômico de 2,5%, sumo, as demandas internacionais por commodities, a ampliação do ne- 563 mil engenheiros serão requisitados. Em 2009, foi registrada uma de- gócio do petróleo e gás, entre outros, dinamizaram o nosso desenvolvi- manda por 323 mil engenheiros. mento e o debate sobre ele. Como afirmamos, devido ao seu objetivo de transformar, o enge- Além disso, o século XXI vem questionando as bases de seu pro- nheiro encarna a própria noção de Homem. Esse ser que busca perma- gresso, produtor de uma era de desigualdades, exclusões e graves pre- nentemente construir um espaço condizente com seus anseios, neces- juízos ambientais. Nessa contingên- sidades e desejos, transformando o ambiente natural, produzindo cul- cia, pergunta-se: que modelo de de- O desenvolvimento é um processo di- turas diversas, transformando-se sempre. senvolvimento nos levará a um fu- nâmico, que deve resultar em mu- turo de prosperidade e bem-estar danças e avanços em diversas áreas. compartilhados? A distinção básica entre os conceitos Nessa direção, é imprescindível que o engenheiro tenha uma visão sistêmica e integral do mundo. É preciso ter consciência de sua ação transformadora da realidade, incluindo desde os processos da vida co- Em linhas gerais, desenvolvi- de desenvolvimento, e que faz toda a tidiana individual e coletiva até os espaços naturais e espaços constru- mento é um processo dinâmico, que diferença histórica, está relacionada ídos de nosso macroambiente. Por isso, é requerido um forte senso de deve resultar em mudanças e avan- a como se caminha e a quais alvos se responsabilidade socioambiental e de ética, de compromisso com a qua- ços em diversas áreas. A distinção objetivam no processo de transforma- lidade de vida e a sustentabilidade. básica entre os conceitos de desen- ção de nossas sociedades. Em função dos avanços tecnológicos, o curso de engenharia soma volvimento, e que faz toda a diferen- atualmente cerca de 30 especialidades, dentre as quais Civil, Elétrica, ça histórica, está relacionada a como se caminha e a quais alvos se obje- Mecânica, Metalúrgica, Agronômica, Ambiental, Química, Mecatrô- tivam no processo de transformação de nossas sociedades. nica, Naval, de Produção, de Petróleo, da Computação, de Alimentos. Nessa perspectiva, tenho trabalhado por um modelo de desenvol- Mas, se podemos resumir, todas têm algo em comum: buscam gerar al- vimento socialmente inclusivo, ambientalmente sustentável, tecnologi- ternativas de desenvolvimento. camente atualizado e geograficamente desconcentrado. E aqui gostaria de explicitar o modelo de desenvolvimento que venho defendendo como cidadão, como gestor público que teve a oportunidade tação desse modelo, cuja consolidação e ampliação venho defendendo em de liderar experiências administrativas no Executivo estadual e municipal. todas as oportunidades que se apresentam, como ocorre neste momento. Nos últimos anos, o debate acerca de modelos de desenvolvimen- Passo agora ao próximo tópico da nossa conversa. Vou falar da edu- to passou a movimentar o País. De modo particular, essa questão se tor118 À frente do Governo do Estado do Espírito Santo, lideramos a implan- cação numa perspectiva mais ampla, para além do que já abordei no caso Recortes Paulo Hartung Cap.5 Educação e Juventude – Determinantes do Futuro 119
  • 61.
    específico da Engenharia.Como vocês bem sabem, a educação é o maior Petrobras; e do agronegócio, com a Embrapa. O desafio agora é expan- legado que qualquer família pode deixar para seus filhos. É a janela de dir essa receita de sucesso. oportunidade que se abre para um horizonte de emancipação humana. Prezadas e prezados futuros engenheiros, a vocês que terão em Do ponto de vista coletivo, é uma das principais contribuições da suas mãos a ação de contribuir para a transformação material da vida, política para a construção de um Brasil mais justo e igualitário. Deve guiados por valores caros à caminhada civilizatória, desejo todo o bri- ser, portanto, além de uma conquista pessoal, uma bandeira de luta de lhantismo e sucesso. todos nós brasileiros. Temos imensas oportunidades e desafios – que na verdade são sem- Um outro fator ligado à educação que merece ser ressaltado é pre oportunidades –, especialmente no Espírito Santo, que deu início, a o valor que ela tem num modo de produção baseado no saber. No partir de 2003, a uma nova etapa histórica. Um Estado que tem se desen- capitalismo atual, todas as atividades dependem de informação, tec- volvido muito e que tem quase contratado um longo período de crescimen- nologias e conhecimento para gerar produtos e serviços competiti- to e oportunidades, boa parte delas conectada à futura profissão de vocês. vos e qualificados. Cuidemos, então, de projetar e trabalhar por um amanhã sempre Há uma revolução tanto na produção de bens e serviços quanto na produção de commodities. Ou seja, é preciso investir prioritariamente melhor para todos. Que pratiquemos, portanto, a engenharia da construção do reino da igualdade de oportunidade entre nós. Obrigado! em educação para se aproveitar as A educação é o principal investimento oportunidades e superar os desafios para continuarmos na caminhada de da Era do Conhecimento. superação do abismo da desigualdade Ou seja, meus caros, a educa- que ainda existe no País. Além disso, ção é o principal investimento para combinada com investimentos em ciên- continuarmos na caminhada de su- cia e tecnologia, é fator decisivo para a peração do abismo da desigualdade competitividade econômica. que ainda existe no País. Antigamente, a instrução era importante para a superação da ignorância. Atualmente, a formação atualizada e acessível a todos é desafio civilizatório para a garantia da igualdade de oportunidades. Além disso, combinada com investimentos em ciência e tecnologia, é fator decisivo para a competitividade econômica. Nesse sentido, onde o Brasil investiu com prioridade conseguiu avançar para a vanguarda, como bem mostram os exemplos da aeronáutica, com a Embraer; do negócio do petróleo em águas profundas, com a 120 Recortes Paulo Hartung Cap.5 Educação e Juventude – Determinantes do Futuro 121
  • 62.
    Cap. 6 Política Conquista HistóricaDesafiada P resença marcante em uma trajetória de mais de três décadas de vida profissional, a política é questão-chave na trajetória de Paulo Hartung. No artigo a seguir, utilizado como base para palestras junto aos mais diversos públicos, o ex-governador fala de conceitos que considera permanentes acerca da política a da relação disso que permanece com aquilo que é fluido, ou seja, a caminhada histórica do dia a dia, atravessada por questões tecnológicas, culturais e econômicas. Enfim, o ex-governador expressa suas convicções e valores sobre a política e ressalta alguns dos desafios desta na contemporaneidade. A p o l ític a c omo fe rr a me n ta c i v il iz at ó ria “Arte de pensar as mudanças e torná-las efetivas”. O saudoso geógrafo Milton Santos nos deixou como um de seus mais importantes legados a definitiva conceituação do que seja a política, considerando-se que a civilização é um projeto em constante movimento e permanentemente desafiado pela conjuntura socioeconômica e cultural. Acredito na política de verdade, milito e trabalho por ela, e nela vejo um dos melhores caminhos para o avanço da humanidade, para a construção da civilização. Cap.6 P o lí ti c a – C o n q ui sta H i st ó r i c a D e sa fi a d a 123
  • 63.
    O professor MarcoAurélio Nogueira escreveu que a “política diz Primeiramente, o sombreamento da política pela economia, que, respeito às atividades que fazem com que as comunidades humanas se transnacionalizada e globalmente articulada por redes de informação e ne- organizem, se reconheçam e se governem. Tem a ver com tudo o que gócios, fragiliza as instâncias políticas, marcadamente nacionais e regionais. torna os homens mais humanos, mais bem preparados para conviver, É importante ressaltar que um dos fatores decisivos para o colapso das dialogar e construir seu destino com operações do mercado imobiliário norte-americano, que marcou o começo autonomia e inteligência”. da crise econômica mundial em 2008, foi exatamente a desregulamenta- Acredito na política de verdade, milito e trabalho por ela, e nela vejo um “A política”, escreveu o profes- ção do sistema financeiro, ocorrida principalmente a partir dos anos 1970. dos melhores caminhos para o avan- sor, “propicia a conversão da dispu- Mas é essa mesma crise surgida, em grande medida, da redução de ço da humanidade, para a constru- ta destrutiva em disputa construtiva, espaço para a política frente às forças econômicas transnacionais, que ção da civilização. permite a passagem do conflito para- agora demanda ações políticas para a superação dos desafios que asso- lisante para o conflito transformador” . lam especialmente o mundo desenvolvido. Enxergamos a política como um espaço privilegiado de negocia- É a política que poderá construir o caminho que tirará a Europa e ção e diálogo. Ela é um processo de conciliação de pontos de vista e cons- os Estados Unidos dos alarmantes índices de desemprego. Ela também trução de decisões fundadas na convergência. Com racionalidade, é uma terá de encontrar o caminho para o reequilíbrio fiscal de dezenas de na- instância mediadora de desejos em função das limitações do real. É, em ções. Mas, se a relevância da polí- muitos aspectos, a arte de definir prioridades. tica é bem expressada nas hercúle- A política vive neste começo de milê- A política de verdade, distante das promessas e discursos de oni- as missões contidas nos dois exem- nio desafios importantes ao seu prota- potência, afastada do patrimonialismo e do paternalismo, é uma criação plos citados, os impasses em torno gonismo. Dentre eles, o sombreamen- extraordinária para pôr em movimento o curso da história, consideran- do debate pertinente a essas mesmas to pela economia internacionalizada, do a multiplicidade de projetos e visões de mundo, conciliando desejos questões tornam ainda mais eviden- incluindo a falta de líderes genuínos e possibilidades concretas, promovendo a necessária e contínua trans- te a centralidade da política para o para enfrentar crises globais; a cultu- formação da vida em coletividade. caminhar civilizatório. ra de individualismo; a corrupção e a Mas a política, que experimentou um tempo de vigoroso exercí- Ocorre, no entanto, que, até impunidade; e a crise de representati- cio a partir das revoluções liberais do século XVIII, vive neste começo talvez pela “opressão” a que a política vidade e diálogo com a sociabilidade de milênio desafios importantes ao seu protagonismo na pólis. foi submetida nas últimas décadas, atual, principalmente os jovens. Dentre eles, destacamos quatro pontos: o sombreamento pela eco- não se tem registrado ultimamente nomia internacionalizada, incluindo a falta de líderes genuínos para enfrentar crises globais; a cultura do individualismo; a corrupção e a im- de para projetar uma travessia que leve a um lugar melhor do que aque- punidade; e a crise de representatividade e diálogo com a sociabilidade le onde estávamos e, essencialmente, superior ao patamar em que nos atual, principalmente os jovens. 124 a ocorrência de lideranças políticas de porte, carisma, razão e autorida- encontramos, planetariamente falando. Recortes Paulo Hartung Cap.6 P o lí ti c a – C o n q ui sta H i st ó r i c a D e sa fi a d a 125
  • 64.
    Resumindo, a criseque emergiu também pelo “enfraquecimento” sociabilidade atual, principalmente com relação à juventude. Isso porque da política, agora, reclama personagens, atitudes e ações políticas para as novas tecnologias de informação e comunicação (TICs) estão crian- sua superação. Mas as respostas não estão sendo efetivas, ou tão efetivas do condições para que as instituições públicas e políticas estejam per- quanto o cenário demanda. Essa crise mostra mais uma vez a relevân- manentemente na berlinda. cia da política, como de resto o faz a nossa trajetória civilizatória, mes- Essas tecnologias compuseram a infraestrutura que permitiu o avanço mo que se insista, em alguns períodos, em estar-se cego a essa realidade. da globalização, levando-nos à “irrelevância” da política, conforme salienta- Uma outra marca do nosso tempo, também decisiva para o cam- mos há pouco. Na atualidade, as TICs estão na base de novos desafios im- po da política, é a instituição de uma cultura do individualismo, da fal- postos à política, mas, de outra sorte, potencialmente positivos à atividade. A democracia é um valor universal a guiar ações históricas, mas ta de compaixão, do egoísmo. Tendo em vista que a política diz respeito à construção do bem as atividades que por ela se iluminam precisam ser contemporâneas do comum a partir da convergência de ideias e projetos, este tempo de en- tempo vivido. Nesse sentido é que as TICs abrem espaço, principalmen- colhimento do debate de questões te nas redes sociais, para o debate acerca da necessidade de a represen- A crise que emergiu também pelo “en- estruturantes e coletivas no espaço tação, a agenda e interfaces políticas se atualizarem. fraquecimento” da política, agora, re- público tem sido árido para o âm- clama personagens, atitudes e ações po- bito político. Não dá para manter estruturas e práticas arcaicas em um tempo completamente convulsionado por líticas para sua superação. Mas as res- O terceiro ponto de nossa aná- tecnologias de vanguarda e agitado A democracia é um valor universal a postas não estão sendo efetivas, ou tão lise diz respeito à corrupção e outros por demandas sociais, econômicas e guiar ações históricas, mas as ativida- efetivas quanto o cenário demanda. crimes que se cometem à sombra da culturais pautadas por um paradig- des que por ela se iluminam precisam Essa crise mostra mais uma vez a rele- atividade política. Sérgio Paulo Rou- ma em crise. É preciso um novo pa- ser contemporâneas do tempo vivido. vância da política, como de resto o faz anet afirma que, no Brasil, há uma drão de interlocução e também no- Nesse sentido é que as TICs abrem es- a nossa trajetória civilizatória, mesmo sensação de irrelevância na políti- vos projetos de caminhada histórica. paço, principalmente nas redes sociais, que se insista, em alguns períodos, em ca, que é “reforçada por déficits in- A Primavera Árabe, o Movi- para o debate acerca da necessidade de estar-se cego a essa realidade. ternos de moralidade pública”. mento Occupy, entre tantas mani- a representação, a agenda e interfaces Para ele, a dobradinha corrup- festações que vem sendo registradas políticas se atualizarem. ção e impunidade, a falta de compromisso com a transparência e a presta- mundo afora, dinamizadas pelas fra- ção de contas e o avanço dos interesses corporativistas sobre os partidos turas expostas pela crise econômica e articuladas via redes sociais e outros levam a um radical descrédito das instituições republicanas e preparam a instrumentos das TICs, são eventos que devem chamar a atenção para a população para uma solução extrapolítica. urgente necessidade de se renovar a pauta e o modus operandi da política. O quarto desafio enfrentado pela política refere-se à necessidade de atualização de seus processos de representatividade e diálogo com a 126 Esses quatro e muitos outros são desafios decisivos a serem enfrentados pela política na busca pela retomada de uma posição de rele- Recortes Paulo Hartung Cap.6 P o lí ti c a – C o n q ui sta H i st ó r i c a D e sa fi a d a 127
  • 65.
    vância na construçãoda civilização. Mas seria o caso de se perguntar: escape rumo a uma “solução extrapolítica” não é solução, como bem como ficaria a vida se fosse liquidado o último político? temos visto ao redor do mundo. Dentre as várias possibilidades arroladas por Marco Aurélio No- É a política, por exemplo, que poderá fazer com que a “primavera” gueira, cito algumas: “o renascimento da autoridade em estado bruto”; floresça e não dê espaço a que se volte à estação de um “inverno” longo “a entrada em cena da força no lugar do diálogo, da arrogância e da pre- e tenebroso nos países dos jovens árabes conectados e revoltados. Sem potência no lugar da tolerância”. falar nos já citados desafios políticos de retomada do crescimento nos “Seria o reforço categórico dos homens providenciais e não dos EUA e na zona do euro. homens comuns, da autocracia e não da democracia. Quando muito, fi- É ainda a ação política que poderá projetar e viabilizar a instituição caríamos com algum ditador bonzinho, objeto de desejo de muitos da- dos fundamentos de um outro modelo de desenvolvimento. Um paradig- queles que têm nojo de políticos”. ma que respeite os limites do planeta e seja responsável com as futuras No entanto, e felizmente, ainda não se pode falar de fim da política. gerações, à medida que se constitua social e ambientalmente sustentável. O que estamos vivendo – e talvez superando, com os atuais movimentos da Enfim, é preciso retomar o projeto que viabiliza a vida em coletivi- juventude – é o que Adauto Novaes chama de “esquecimento da política”. dade em termos civilizados. Até porque não há alternativa: somos seres Experimentamos um momen- dependentes uns dos outros. Nesse sentido, vale uma referência a Han- Experimentamos um momento de mu- to de mutação, de passagem de um nah Arendt. A filósofa destaca a “condição humana da pluralidade, ao fato tação, de passagem de um regime que regime que conhecemos a um outro de que homens, e não o Homem, vivem na Terra e habitam o mundo”. conhecemos a um outro paradigma, paradigma, que ainda não sabemos que ainda não sabemos nomear. E, nes- nomear. E, neste momento de mu- vência, ou do viver com o outro –, te momento de mutação, a política en- tação, a política enfrenta desafios sé- o que pode fazer a diferença é a es- O valor da política de verdade se afir- frenta desafios sérios quanto à sua cre- rios quanto à sua credibilidade junto colha de como vamos nos relacio- ma e se propaga com o debate de ideias, dibilidade junto aos cidadãos. aos cidadãos, conforme já anotamos. nar com o próximo, já que o outro é o diálogo entre diferentes e a união em Para enfrentar essa crise – seja algo impositivo e inapelável à nossa torno do interesse comum que resultem singularidade de homens. em ações de emancipação humana. de amnésia acerca do valor e do interesse pela política, seja de respostas de lideranças políticas, seja de interlocução com a sociedade civil –, é pre- À luz dessa inescapável condição humana – a condição da convi- É preciso considerar efetiva- ciso reavivar a memória da verdadeira política, de sua potência e de seus mente o fato de que não somos ilha; de que existindo, convivemos. Já feitos. A política de qualidade, a verdadeira política, precisa mostrar ser- passou da hora de tirarmos a política do esquecimento e avançarmos na viço, evidenciar sua relevância, atualizar sua agenda e operacionalidade. produção de um novo tempo. Entregue à barbárie do “cada um por si e Deus por todos”, nossa sociedade assiste a uma espantosa escalada de desigualdade e violên- crática e republicana – a verdadeira política, com sua capacidade de cons- cia, à destruição dos recursos naturais, enfim, a muitas tragédias. O 128 Nesse caminho, é necessário que optemos pela política de base demotruir espaços de debate em busca de convergências que beneficiem a maioria. Recortes Paulo Hartung Cap.6 P o lí ti c a – C o n q ui sta H i st ó r i c a D e sa fi a d a 129
  • 66.
    Posfácio O valor dapolítica de verdade se afirma e se propaga com o debate de ideias, o diálogo entre diferentes e a união em torno do interesse Ana Paula Vescovi comum que resultem em ações de emancipação humana. Em tempos de prevalência do egoísmo exacerbado, esse é um projeto que precisa ser recuperado. Com razão e carisma, a política tem de enfrentar urgentemente o desafio de estabelecer um pacto em que desejos e vontades individuais, por legítimos que sejam, possam dar espa- O sig nif ic a do do p e r ío do de gov e r no Paul o H ar tung p ara o E s t a do do E spír ito S anto ço à formação de laços civilizatórios entre os homens. É questão decisiva para a humanidade investirmos na valorização da ética republicana, no interesse coletivo, na constituição de um outro mundo, melhor para todos. A tarefa de contribuir para a reconstrução da ação política, e assim ajudar a construir uma sociedade melhor, encontra respaldo em minhas mais sólidas convicções. Para mim, como mostra a HisVoluntária ou involuntariamente, so- tória, e como temos experimentado mos uma comunidade. Todas as ati- aqui no Espírito Santo nestes últimos vidades humanas são condicionadas anos, a política de verdade é uma es- pelo fato de que os homens vivem jun- pecial ferramenta para a construção tos. E por essa condição humana es- de avanços civilizatórios entre nós. U I n tro du ç ã o m Estado com poucas oportunidades e o anseio por possuir uma carreira sólida e desafiadora me afastaram do Espírito Santo durante 12 anos. Primeiro, a busca por complementar a formação acadêmica, posteriormente, o ingresso por meio de concurso no Serviço Público Federal. Por dever de of ício fomos morar em Brasília e, inserida nos desafios do desenvolvimento brasileiro, percebi uma Agenda sem limites para gestores com vocação para o serviço público, inte- sencial, o caminho da civilização pas- Voluntária ou involuntaria- ressados no conhecimento das grandes questões do País. As notícias que sa pela política, não havendo solução mente, somos uma comunidade. To- chegavam do Espírito Santo falavam de corrupção, desmandos, crime or- extrapolítica, apenas a barbárie. das as atividades humanas são con- ganizado, desordem pública, ameaça de intervenção federal. Assim, um dicionadas pelo fato de que os ho- ciclo se cumpriu na minha vida profissional, longe do meu Estado natal. mens vivem juntos. E por essa condição humana essencial, o caminho Somente a partir de 2003 tornou-se frequente escutar que os ven- da civilização passa pela política, não havendo solução extrapolítica, tos voltaram a soprar a favor. O primeiro fato marcante foi a posse do apenas a barbárie. Daí a minha crença e o meu investimento na política novo governo, a atuação da Força Nacional de Segurança e o ajuste fis- – “a arte de pensar as mudanças e torná-las efetivas”. Muito obrigado. cal desafiador. Anos depois, por meio da imprensa, soube do lançamento do Plano de Desenvolvimento Espírito Santo 2025 e, logo em seguida, da reeleição com a maior votação proporcional entre os estados brasileiros. 130 Recortes Paulo Hartung Posfácio 131
  • 67.
    Para mim, agrande surpresa veio no início de 2007, quando estava em trânsito do Ministério da Fazenda para o Senado Federal: um con- O s de sa fio s de g ov e rn a r o e sta d o d o E spírit o S a n t o vite para voltar para Vitória e participar do Governo do Estado, então no seu segundo ciclo. Passados cinco anos da decisão de voltar ao Es- O desenvolvimento do Espírito Santo foi historicamente tardio no con- pírito Santo para fazer parte do governo Paulo Hartung me vejo diante texto brasileiro2, marcado por 100 anos de predominância da mono- da missão de escrever, em algumas linhas, sobre como o Espírito San- cultura cafeeira e, depois, pela industrialização tardia e concentrado- to se transformou nesse período de governo, quase coincidente com a ra baseada em grandes plantas industriais produtoras de commodi- primeira década do novo milênio. ties para exportação. Os mais importantes pilares dessa transformação foram assuntos tra- O Estado possui indiscutível vocação para o comércio exterior: tados nesta obra: liderança, gestão, empreendedorismo, e ambiência. Para responde por 6,1% das exportações brasileiras e por 4,2% das impor- produzir uma síntese dos resultados percebidos entre 2003 e 2010 optei por dividir minha argumentação em cinco seções. Em primeiro lugar, após essa breve introdução, destaco as características estruturais do Estado do Espírito Santo e assim apresento os desafios centrais para o seu desenvolvimento. Em segundo lugar, faço um relato do ambiente externo, caracterizado pelas reformas empreendidas no Brasil nos últimos 20 anos, pela conjuntura internacional bipolar – de grande prosperidade e crise surpreendente –, e seus respectivos reflexos sobre a economia brasileira. Em terceiro lugar, aponto os principais indicadores e evidências das transformações percebidas no Estado do Espírito Santo. Posteriormente, defendo quais seriam as principais características do modelo de liderança e gestão, e, para tações3; ocupa a 3ª posição nacional entre os que mais concentram trading companies e firmas comerciais exportadoras4. Parte disso decorre da sua posição geográfica privilegiada, mas também de mecanismo financeiro na importação instituído por lei no início dos anos 1970. Esse mecanismo tem permitido ganhos de escala no uso das instalações portuárias locais e, assim, vem contribuindo para mitigar deficiências competitivas dessas instalações que padecem do baixo investimento federal. Essa configuração conduz a economia estadual a apresentar o maior grau de abertura ao exterior entre todos os Estados da Federação. Seu grau de abertura, segundo estimativas superior a 50% do PIB, apoiar, falo sobre o meu experimento à frente da reestruturação do Instituto Jones dos Santos Neves. Concluo com a tradução dos desafios desse processo de desenvolvimento que, como nos ensina a História, sempre se estabelece de modo caótico, incompleto e em permanente construção. 2  História revela que os 300 anos iniciais após o descobrimento do Brasil e a instalação da capitania A hereditária do Espírito Santo foram privados de investimentos em infraestrutura, a fim de preservar as riquezas encontradas nas Minas Gerais de invasores estrangeiros. 3  Dados da Balança Comercial do Brasil e do Espírito Santo para o ano de 2010. Consultado em http:// www.mdic.gov.br/ em fevereiro de 2012. 4  Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX). As trading companies são empresas maiores e as comerciais exportadoras tendem a ter porte de pequena e média empresa. In: PEREIRA, L.V. e MACIEL, D. O comércio exterior do estado do Espírito Santo. In: Espírito Santo: instituições, desenvolvimento e inclusão social. Vitória: IJSN, 2010. 132 Recortes Paulo Hartung Posfácio 133
  • 68.
    é similar aoda China e Rússia, ou o dobro da média brasileira, e ainda cresceu persistentemente na última década5. Adicionalmente, a sociedade capixaba passou por uma rápida transição demográfica a partir da sua industrialização, baseada num mode- Tais características – produção concentrada e abertura ao exte- lo migratório rural-urbano. Durante quatro décadas, a taxa de urbani- rior – imprimem muita volatilidade aos ciclos de negócios capixabas6, zação saiu de 45,2% (1970) e alcançou 83,4% (2010)8. A partir dos anos com impactos sobre a economia e sobre a sociedade, e faz grande dife- 1990, foi acompanhada pelo sucateamento do governo do Estado, das rença para a gestão pública. infraestruturas e das políticas sociais, as quais deixaram de cumprir o A volatilidade no ciclo de negócios se reproduz no mercado de seu papel. Além de impactos sobre a qualidade do processo de urba- trabalho, em que tende a aumentar em função da própria aceleração do nização e sobre a oferta dessas infraestruturas, o contexto favoreceu o crescimento. Ou seja, as mudanças que ocorrem no perfil dos novos pos- acúmulo de uma indesejável dívida social. tos de trabalho são mais velozes do que a mudança no perfil dos traba- Não bastassem os fatores estruturais do processo de desenvolvi- lhadores locais. A instabilidade no mercado de trabalho ocorre essen- mento estadual, existem fatores de ordem político-institucional de extre- cialmente pelo descasamento entre oferta e demanda por mão de obra ma complexidade. O processo de industrialização, além de tardio, ocor- e implica custo extraordinário de formação profissional, especialmente reu de forma exógena, trazido por decisões do governo federal na época para as menores empresas que não conseguem competir com as gran- do regime militar, no âmbito dos Planos Nacionais de Desenvolvimen- des empresas na atração desses trabalhadores. to. Tais projetos, de grande porte, se contrapuseram com a cultura lo- Há implicações ainda para as receitas públicas7. Diante das osci- cal, assentada no modelo agrário-exportador que predominou por mais lações da receita, a política fiscal precisa ser manejada de forma a as- de um século. Assim, após a redemocratização brasileira, a desarticula- sociar disciplina a uma gestão contracíclica. Ou seja, os governos do ção política foi tal que fragmentou as forças predominantes no Estado e Estado e dos municípios precisam trabalhar com uma poupança pú- oportunizou o domínio do crime organizado9. blica permanente para suavizar essas oscilações de receitas: despou- Por longo período, o crime organizado se instalou e capturou as insti- par nas crises, para complementar o orçamento, e poupar nas épocas tuições públicas e de governo, agravando o quadro de limitações estruturais de prosperidade, e assim sustentar um determinado nível de gastos impostas ao processo de desenvolvimento. Mas também era possível obser- correntes e investimentos. var fatores estruturais positivos, os quais representavam, no limiar do novo milênio, grandes oportunidades para o almejado desenvolvimento estadual. 5  PEREIRA, L.V. e MACIEL, D. O comércio exterior do estado do Espírito Santo. In: Espírito Santo: instituições, desenvolvimento e inclusão social. Vitória: IJSN, 2010. E MAGALHÃES, M.A.; TOSCANO, V.N. Estimativas de grau de abertura para a economia do Espírito Santo. Nota Técnica n.08, IJSN, dez.2009, 19p. Para comparação com outros países, ver BAUMMAN, R. ARAUJO, R e FERREIRA, J. As relações comerciais do Brasil com os demais BRICs, in: O Brasil e os demais BRICs no Comércio e Política. Brasília: Escritório da CEPAL no Brasil, 2010. A mudança do regime cambial brasileiro, em 1999, trouxe incentivos para ampliação das plantas industriais exportadoras e respectivos 6  MAGALHÃES, M. A. e RIBEIRO, A.P.L. Ciclos de negócios no Espírito Santo. TD 09. Vitória, 2009. 7  BUGARIN, M. e SANTOS, A. Análise das variáveis fiscais do Espírito Santo: gestão estratégica mediante a criação de uma Reserva Técnica Contingencial. TD 30. Vitória: IJSN, 2011. 134 8  CASTRO, M. W. outros. Demografia. Indicadores Socioeconômicos do Espírito Santo - PNAD 2009. NT 21. Vitória: IJSN, 2011. 9  ZORZAL e SILVA, M. Trajetória político-institucional recente do Espírito Santo. In: Espírito Santo: instituições, desenvolvimento e inclusão social. Vitória: IJSN, 2010, pp 29-66. Recortes Paulo Hartung Posfácio 135
  • 69.
    terminais logísticos, centraisna configuração produtiva do Estado. Um O c o n te xt o in te rn a c io n a l e b r a sil e iro novo ciclo de investimentos em ampliação de capacidades instaladas nesses setores se iniciou no Brasil, e favoreceu o Espírito Santo. Mas talvez A partir de meados dos anos 1980 a economia global vivenciou o perí- o evento mais visível tenha sido o surgimento da nova fronteira produ- odo de mais rápida expansão da renda média, conjuntamente com a re- tiva, associada às descobertas de petróleo e gás. dução da instabilidade no crescimento das nações, e com a redução do Simultaneamente, e de forma silenciosa, ocorre uma nova configura- desemprego e da inflação nas economias avançadas. Também nesse pe- ção na transição demográfica, com base numa taxa de urbanização já eleva- ríodo, denominado “A Grande Moderação10” assistiu-se, gradualmente, à da e mais estável, mas também nos ganhos advindos da maior escolariza- emergência da China como potência global. A estratégia de crescimento ção dos brasileiros e dos progressos tecnológicos na área da saúde. Assim, chinesa exportou produtividade e desinflação para o mundo, num pri- ocorre um maior controle de natalidade e menores índices de mortalidade, meiro momento. Posteriormente, ao passo que elevou sobremaneira a o que implica o envelhecimento populacional acelerado. Num período ini- demanda por commodities, elevaram-se seus preços, os quais observa- cial de tempo, essa transição etária representa uma janela de oportunida- ram patamares especialmente altos a partir dos anos 2000. des: menor taxa de natalidade implica menor pressão sobre a expansão da O Brasil, grande exportador de commodities, percebeu benef ícios oferta de serviços públicos, especialmente educacionais; representa ainda nesse processo. Isso foi possível – e potencializado – pelos fundamentos uma menor razão de dependência econômica entre as pessoas em idade ati- macroeconômicos organizados. Após a redemocratização o Brasil rea- va (adultos) e aquelas em idade não ativa (crianças, adolescentes e idosos). lizou a abertura comercial, reformas no sistema bancário e financeiro, a Como contraponto, uma sociedade envelhecida requer um siste- estabilização monetária, a mudança do regime cambial, e a realização de ma de saúde mais oneroso, voltado às doenças crônicas que predomi- um ajuste fiscal próximo a quatro pontos percentuais do PIB11. Para to- nam na população, além de sobrecarregar os regimes previdenciários. dos esses fundamentos estabelecidos, um conjunto de instituições pre- Cresce também a pressão por sistemas educacionais mais resolutivos que cisou ser preparado para assegurar sua manutenção e desenvolvimen- consigam produzir trabalhadores com alta produtividade e que compen- to ao longo do tempo. Bons exemplos são o sistema de Metas de Infla- sem a volta de uma elevada razão de dependência no momento seguin- ção, as metas de Superávit Primário e a Lei de Responsabilidade Fiscal. te da transição etária. Portanto, uma sociedade se beneficia do Bônus Com a recuperação da confiança internacional e o boom das com- Demográfico a partir do momento em que as políticas públicas são ca- modities, o Brasil pôde equacionar sua dívida externa, constituir reservas pazes de promover a produtividade do trabalho e assim estimular o de- internacionais, alterar o perfil de financiamento da dívida interna e, assim, senvolvimento com níveis elevados de qualidade de vida. Em síntese, este era o quadro local estabelecido no início do novo milênio. Vários fatores da economia internacional e brasileira influenciaram esse ambiente, o me leva a apontar aqueles os quais julgo mais relevantes para a compreensão das transformações percebidas no Espírito Santo. 136 Recortes Paulo Hartung 10  termo “A Grande Moderação” foi inicialmente cunhado por James Stock and Mark Watson em um O estudo publicado em 2002: “Has the Business Cycle Changed and Why?”. Posteriormente, foi adotado por um público mais amplo, a partir de um discurso em 2004 proferido pelo então membro e agora Chairman do Conselho de Governadores do Federal Reserve dos EUA, Ben Bernanke. 11  GOBETTI, S. W. e AMADO, A. M. Ajuste fiscal no Brasil: algumas considerações de caráter póskeynesiano. REP, Mar 2011, vol.31, no.1, p.139-159. Posfácio 137
  • 70.
    criar condições paraa redução gradual e sustentada das taxas de juros. O redução acelerada nas desigualdades do País. Foram instituídos progra- drive externo do crescimento mais do que dobrou os volumes exportados mas focados no combate à pobreza, além de medidas institucionais13 de em uma década e alavancou o sistema produtivo e a geração de empregos. grande potência distributiva: estímulo às microfinanças, focalização do Mas, mesmo com avanços macroeconômicos significativos, o Bra- Microcrédito Produtivo, estímulo ao empreendedorismo de baixa renda, sil não acompanhou as altas taxas de crescimento do PIB que aconte- promoção do acesso da população de baixa renda ao financiamento habi- ciam nas economias emergentes (China, Índia e Rússia, em especial). A tacional, redução da regressividade da estrutura tributária, regulamenta- persistência de problemas estruturais inibiu o potencial de colheita dos ção do crédito consignado e do microcrédito. Outras medidas concorre- benef ícios, entre os quais é possível mencionar a reduzida taxa de pou- ram para ampliar a eficiência da economia: melhorias e aperfeiçoamento pança e de investimento e a falta de coordenação – observada em vários dos instrumentos e redução de assimetrias de informação no sistema de momentos – entre as políticas monetária e fiscal. crédito; aperfeiçoamento do marco regulatório no setor de seguros; auto- No campo microeconômico, diversas reformas foram implemen- nomia operacional do Banco Central; reforma do Judiciário; Lei de Falên- tadas, especialmente entre meados dos anos 1990 e a primeira metade cias e de Recuperação de Empresas; desburocratização das exportações. dos anos 2000. A Reforma do Estado buscou reconfigurar a atuação es- A economia brasileira ganhou nova dinâmica deste então. Ain- tatal, e privatizou empresas – industriais e de serviços – fora do núcleo da assim persiste o diagnóstico da baixa eficiência – medida pela pro- típico da atuação pública. Esses monopólios naturais, com os adventos dutividade14 – a qual revela, em alguma medida, diversos desafios ain- de novas tecnologias, se abriram para a possibilidade de maior compe- da existentes nas políticas públicas: há gargalos e deficiências na infra- tição e, assim, poderiam ser regulados pelo poder público e geridos com estrutura e nos seus marcos regulatórios; é muito baixo o retorno dos mais eficiência pelo setor privado. Foram estabelecidos marcos regula- gastos públicos no ensino e extensão universitários segundo padrões in- tórios e criadas Agências de Regulação para setores de petróleo, teleco- ternacionais; há déficits de financiamento e gestão da saúde e na pre- municações, transportes e meio ambiente, entre outros. Também o Sis- vidência social; o modelo pedagógico rígido e burocrático parece ina- tema Brasileiro de Defesa da Concorrência foi modernizado. dequado ao ensino médio; há falta de integração nas políticas de segu- 12 No núcleo de Estado foram criadas e reestruturadas as carreiras rança pública; os marcos jurídicos do setor público são excessivamente típicas – gestão e políticas públicas, Orçamento, Tesouro, Receita, Ban- burocráticos e inibem a agilidade e o controle por resultados. No Bra- co Central, diplomacia, defesa e outras que pudessem conceder agilida- sil, ainda persiste uma grande lacuna institucional na avaliação de po- de e modernidade à máquina de governo. Posteriormente, com a estabilidade monetária assegurada, as políticas públicas deram conta de associar maior crescimento potencial a uma 12 BRESSER-PEREIRA, L.C e SPINK, Peter. Reforma do Estado e Administração Pública Gerencial (coletânea). Editora Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro, 1998. 138 Recortes Paulo Hartung 13  SECRETARIA DE POLÍTICA ECONÔMICA. Reformas microeconômicas e crescimento de longo prazo no Brasil. Brasília: Ministério da Fazenda, 2004. 14 GOMES, V., PESSOA, S., VELOSO, F. Evolução da Produtividade Total dos Fatores no Brasil: Uma Análise Comparativa. PPE, IPEA: 2003. E IPEA, Produtividade no Brasil nos anos 2000-2009: análise das Contas Nacionais. Brasília: Comunicados IPEA, fevereiro de 2012. Posfácio 139
  • 71.
    líticas públicas ena garantia do seu retorno social15, o que implica bai- econômico acelerado com redução das desigualdades sociais e de ren- xa efetividade do gasto público. da, e melhoria do bem-estar do capixaba17. O resultado obtido significa Por fim, colocando a pá de cal sobre a “Grande Moderação”, veio a crise internacional a partir de 2007 nos EUA, e em 2008 em diante na es- a comprovação de que é viável obtê-lo a partir de um modelo econômico centrado na indústria exportadora de commodities. cala global. A crise teve um momento inicial de fortes impactos no Brasil, Ao longo desse período, o Estado passou por uma nítida melho- entre o quarto trimestre de 2008 e o primeiro semestre de 2009. Posterior- ra em suas instituições e no seu ambiente de negócios, a qual tornou a mente, as medidas adotadas dissiparam o risco de uma grande Depressão economia capixaba mais atrativa para investidores, mais produtiva e efi- nas economias avançadas e restabeleceram a confiança dos agentes, o que ciente, e permitiu o crescimento econômico acelerado. permitiu a recuperação em 2010 para, a partir do segundo semestre de O montante de investimentos anunciados para o Estado alcançou 2011, prosseguir com eventos de extrema seriedade e alto risco na Europa. R$ 98 bilhões para o período 2011 a 2015, logo após a crise internacional Em particular, a nova dinâmica da economia doméstica – assentada de 2008/200918. A distribuição territorial dos projetos evidencia tendência no reposicionamento dos fundamentos macroeconômicos e nas reformas de desconcentração da economia para além da Região Metropolitana – microeconômicas – ainda provoca desdobramentos. Mesmo num contex- na direção dos Polos Linhares e Cachoeiro do Itapemirim e da Metrópole to de crise nas economias avançadas e de volta da instabilidade, a sociedade Expandida Sul – e de adensamento da estrutura produtiva. São exemplos brasileira se encontra em transição para um novo patamar de desenvolvi- a instalação de um polo gás-químico, de indústria de papel, de motores, mento. A próxima seção se dedica a discutir e evidenciar o progresso ocorri- estaleiro naval e terminais portuários especializados em petróleo e gás. do em terras capixabas na última década, com foco no período 2003 a 2010. O tamanho dos investimentos anunciados é consequência tanto do ambiente prof ícuo para negócios no Estado quanto dos investimentos concluídos em períodos anteriores, especialmente aqueles voltados Com o e voluiu a s o c iedade c a pi x a b a e m oito ano s ? para a ampliação da oferta energética e de infraestrutura. A cadeia produtiva do petróleo e gás, em particular, representa uma das áreas mais promissoras no médio e longo prazos. A produção Os oito anos da gestão Paulo Hartung (2003 a 2010) tiveram êxito com- estadual de petróleo cresceu de 45 mil barris/dia (b/d) em 2003 para 180 provado pelos 90% de aprovação popular no seu final16. O mais emble- mil b/d em 201019, com os investimentos em curso permitindo chegar a mático nesse período de prosperidade foi a associação de crescimento 500 mil b/d em 2013. A oferta de gás passou de 3 milhões de m³/dia para 15  Sobre esse tema, consultar: IBRE e NPP/USP. Uma Agenda para a Inovação no Setor Público no Brasil. Obtido em http://mansueto.files.wordpress.com/2011/11/agenda-silenciosa-outubro_1.pdf. Consulta realizada em fevereiro de 2012. 16  Percentual informado em pesquisa qualitativa realizada pela Enquet e divulgada em A Tribuna em 19 de dezembro de 2010. 140 Recortes Paulo Hartung 17  Segundo a pesquisa qualitativa realizada pela Enquet no final do mandato, 74,3% dos capixabas declararam que a vida estava melhor nos últimos cinco anos. 18  IJSN. Investimentos previstos para o Espírito Santo: 2011-2015. Vitória: IJSN, 2011. 19  PIRES, A. A indústria do petróleo e o caso do Espírito Santo. In: Espírito Santo: instituições, desenvolvimento e inclusão social. Vitória: IJSN, 2010, 219-242. Posfácio 141
  • 72.
    14 milhões dem³/dia, mas com capacidade instalada para 20 milhões de arranjos produtivos locais exportadores fundamentais nessa diversifi- m³/dia. Em 2010, a participação estadual da produção brasileira de petró- cação alcançada, por meio dos ganhos de escala e especialização ob- leo chegou a 9,3%, sendo igualmente relevante a participação relativa nas tidos na logística ao comércio exterior23. Estima-se que somente esses reservas provadas de petróleo e gás, de 9,2% e 10,5%, respectivamente20. serviços logísticos respondam por 7% do Produto Interno Bruto e em- Na esteira dessa prosperidade, entre 2003 e 2010 o crescimento preguem 3% da mão de obra ocupada local. do Produto Interno Bruto (PIB) estadual foi de +48%, ou média anual de O avanço dos pequenos negócios tem movimentado o mercado 5%, substancialmente superior à média brasileira de 4%. O PIB per ca- de trabalho, o qual significou o mais importante veículo de ligação entre pita mais do que dobrou no período e alcançou R$ 23 mil em 2010, 20% o crescimento econômico e a redução das desigualdades de renda. Ali acima da média nacional . também foram observadas mudanças na composição setorial, em espe- 21 entre o terceiro trimestre de 2008 e o primeiro trimestre de 2009, a cial por conta da diversificação produtiva, do aumento da escolarização trajetória de crescimento foi interrompida pelos efeitos da crise econômi- dos trabalhadores, e da melhoria da qualidade dos postos de trabalho. ca internacional, que resultaram na brusca contração da demanda mun- Em 2009, o número de ocupados acima de 15 anos no Espírito Santo era dial por commodities, especialmente minério de ferro e aço, e exerceram de 1 milhão e 747 mil pessoas, o que representa contingente de 200 mil impactos contundentes sobre os segmentos da indústria capixaba. Naque- trabalhadores a mais (+13%) do que o observado em 2003. A população le momento a recessão representou recuo de -15% na atividade econômica economicamente ativa – ocupada ou em busca de emprego – cresceu local, a qual iniciou recuperação já a partir do segundo trimestre de 2009. menos (+11%), o que proporcionou queda na taxa de desocupação, de Outro efeito observado no contexto da crise 2008/2009 foi a 9,2% para 7,9%. No ano 2008, antes da crise, registrou-se uma das me- queda na diversificação das exportações realizadas pelo Estado: antes nores taxas de desemprego no Espírito Santo, de 5,7%. A melhoria da do início do ciclo recessivo na economia norte-americana, a pauta de qualidade dos postos de trabalho pode ser atestada pela formalização: exportações capixaba havia apresentado aumento de 1/3 no número a proporção de ocupados formais – por conta própria ou com carteira de mercadorias exportadas entre 2003 e 2007. Mas os esforços de di- assinada – cresceu de 44% em 2003 para 57% em 2009. versificação da produção para exportação esbarram nas limitações da O crescimento da renda das famílias nesse período, por sua vez, sua infraestrutura portuária para gerar novas atividades associadas ao foi maior para os menos favorecidos, o que permitiu a redução sistemá- comércio exterior22. Assim, o modelo de incentivos à importação aqui tica das desigualdades. O crescimento médio anual da renda domiciliar adotado nos anos 1970 tem crescentemente beneficiado os pequenos per capita, entre 2003 e 2009, foi de 5,5%. Contudo, os 10% mais pobres no Estado perceberam aumento médio anual de 8,0%, duas vezes maior 20  ANP(SDP). Boletim Anual de Reservas. Extraído de http://www.anp.gov.br/?pg=42906 em jan/2012. ao percebido pelos 10% mais ricos e de uma vez e meia a taxa de cres- 21  Estimativas do autor, realizadas a partir dos dados populacionais e das Contas Nacionais Trimestrais do IBGE e do PIB Trimestral do Espírito Santo, divulgado pelo IJSN. 22  PEREIRA, L.V. e MACIEL, D. O comércio exterior do estado do Espírito Santo. In: Espírito Santo: instituições, desenvolvimento e inclusão social. Vitória: IJSN, 2010. 142 Recortes Paulo Hartung 23  GARTENKRAUT, M. Importações e Incentivos Fiscais: Desconstruindo Mitos. Estudo preparado para Associação Brasileira das Empresas de Comércio Exterior - ABRACE. São Paulo: abril de 2011. Posfácio 143
  • 73.
    cimento médio anualda renda das famílias. O Índice de Gini percebeu sa faixa etária no Estado, e ganhos de renda permanente para os jo- queda de 0,554 em 2003 para 0,528 em 2009. A proporção de pessoas vens e suas famílias. pobres declinou de 29,4% para 15,0%; e a proporção de indigentes pas- Estimativas para o caso do Espírito Santo sugerem que cada ano sou de 9,1% para 3,6%. Nesse período, 433 mil capixabas saíram da po- adicional de escolaridade proporciona aumento de renda de 7% para o breza e 172 mil da indigência; 554 mil ascenderam à classe média. Se, em indivíduo, em média. Essa taxa de retorno se eleva em função da maior 2003, 36,6% dos capixabas eram pertencentes à classe média, em 2009, escolaridade e supera 20% na educação superior, para aqueles que fi- esse percentual saltou para 50% . zerem escolha por maior escolarização. Mas há grandes oportunida- 24 A área rural contribuiu sobremaneira para a redução das desigual- des nas áreas técnicas e profissionalizantes no mercado de trabalho lo- dades. No campo, a renda domiciliar per capita acompanhou a evolu- cal, que asseguram um retorno financeiro semelhante àqueles obtidos ção positiva da renda urbana, especialmente entre 2003 e 2007, mas re- no ensino superior27. gistrou redução marcante nos índices de pobreza (de 44% em 2003 para Além dos avanços no acesso à escola, os resultados educacionais 17,7% em 2009) e de indigência (de 15,5% em 2003 para 1,9% em 2009). também devem ser destacados. As notas no Sistema de Avaliação da O Índice de Gini no setor rural recuou de 0,480 para 0,400 (-20%) . Educação Básica (Saeb), desenvolvido pelo Ministério da Educação, per- 25 Outros indicadores – além dos relacionados à renda – também são ceberam discreta melhora no período, decrescente em função do nível importantes para evidenciar a melhoria do bem-estar, em especial aque- escolar. Ou seja, foi maior para as notas do ensino fundamental e me- les relacionados aos resultados educacionais, à saúde e condições de ha- nor para as notas do ensino médio. Os resultados ainda são modestos: bitação. No período em questão os indicadores educacionais do Espíri- em 2009 a nota média estadual no ensino médio em matemática e lei- to Santo apresentaram progressos. A taxa de analfabetismo ainda apre- tura foram 287 e 278, respectivamente, ainda distantes da meta estabe- senta valores superiores ao aceitável pela Unesco (5%), mas diminuiu de lecida no ES 2025, de 400 e 300. Contudo, sustentar uma pequena me- 10,3% em 2003 para 8,5% em 2009. O nível médio de escolaridade da po- lhora nos resultados torna-se uma grande conquista, quando alcança- pulação adulta do Estado (25 anos ou mais) apresentou evolução de 6,2 do simultaneamente a um processo fortemente inclusivo. A política pú- anos de estudo em 2003, para 7,2 anos de estudo em 200926. blica central estruturada para se alcançar esse progresso foi o programa Foi marcante o aumento da frequência escolar dos jovens en- “Ler, Escrever e Contar”, o qual promoveu a melhoria da aprendizagem tre 15 e 17 anos, a qual passou de 72,1% para 84,7% ao longo da dé- dos alunos das turmas de alfabetização do ensino fundamental, elevan- cada. Mais um outro período de tempo com igual progresso poderá do a capacidade dos estudantes em Língua Portuguesa e Matemática. assegurar situação muito próxima à universalização do ensino nes- Na habitação, uma medida de bem-estar é o acesso à infraestrutura e a situação do déficit habitacional. Em 2003, a cobertura de serviços de 24  IJSN. Síntese de Indicadores Sociais. Vitória: IJSN, 2011. 25  Ibidem. 27  BARROS, R. e outros. Educação técnica e distribuição de renda no Espírito Santo. TD 33. Vitória: IJSN, 2011. 26  Ibidem. 144 Recortes Paulo Hartung Posfácio 145
  • 74.
    abastecimento de águaera de 79,9%; o acesso ao esgotamento sanitário ou +9% ao ano. Esse incremento levou o Estado, e principalmente sua adequado, 72,1%; e a proporção de domicílios com densidade inadequa- Região Metropolitana, a ocupar um dos três primeiros lugares no mapa da – superior a duas pessoas por dormitório – era de 12,9%. Em 2009, da violência do País. Mas o período 2003-2010 se configura como uma os índices observados revelam o progresso que ocorreu nessas taxas, as nova fase, quando as taxas do Estado mantiveram-se praticamente está- quais passaram para, respectivamente, 82,4%, 78,9% e 8,3% . veis. De fato, caíram -0,8%, sob liderança da Região Metropolitana, cuja 28 Na saúde, as estatísticas referentes à mortalidade infantil são consideradas, universalmente, como um dos melhores indicadores tanto da diminuição foi de -28,5%, isto é, -2,8 ao ano. Os índices do interior elevaram-se +23,5 ou +1,8% ao ano no período31. saúde infantil, quanto do nível socioeconômico da população e da quali- Diante desse quadro histórico, as estratégias adotadas no período dade da infraestrutura ambiental. No período 2003-2009, a taxa de mor- 2003 a 2010 foram efetivas para conter o crescimento da criminalidade. Na talidade infantil manteve-se em patamar baixo e ainda apresentou redu- década passada, dos 26 Estados da Federação e o Distrito Federal, 18 apre- ção de -27% (de 16,4 por mil nascidos vivos em 2003 para 12 por mil nas- sentaram crescimento nas taxas de homicídio, e seis deles – RN, PB, AL, cidos vivos). Redução foi também verificada na mortalidade até 5 anos de BA, PA, MA – registraram verdadeira explosão, com alta acima de 100%. idade (de 13% para 3%), a qual está condicionada pela desnutrição e pelas O mais emblemático é o caso da Bahia, onde a taxa quadruplicou no pe- doenças infecto-contagiosas. O acesso e a qualidade dos recursos dispo- ríodo. Mas também cidades reconhecidas por sua segurança e estrutura níveis para atenção à saúde materno-infantil são também determinantes urbana, como Florianópolis (SC) e Curitiba (PR) – perceberam o mesmo da mortalidade nesse grupo etário. Como grande síntese da situação na fenômeno: a violência homicida mais do que duplicou na última década. saúde, vale citar que a expectativa de vida média da população ao nascer, No Espírito Santo, a gestão estadual implantou medidas para ofer- para o capixaba, aumentou de 71,6 anos em 2000 para 74,3 anos em 201029. tar informação e promover a integração das áreas de segurança – como Mas a evolução do quadro social do Estado também sustenta fra- a implantação do Centro Integrado Operacional de Defesa Social (Cio- gilidades, e a criminalidade violenta se revelou resistente aos progressos des), mas também para qualificar o aparato policial e o uso da inteligên- sociais. O Espírito Santo, historicamente, figura como um dos três Esta- cia. Já em 2010 houve registro de 10% de declínio da taxa de homicídios dos mais violentos do País30. O período 1986/1998 foi marcado por forte por cem mil habitantes, sustentada por uma queda consecutiva de 8,3% crescimento, quando as taxas do estado saltaram de 20,8 para 58,4 ho- em 2011. O quadro geral de homicídios no Estado, portanto, retorna ao micídios por 100 mil habitantes, o que representou aumento de +180,7%, seu patamar mais baixo nos últimos 14 anos32. Se a criminalidade violenta no Espírito Santo se manteve como um 28  IJSN. Famílias e domicílios. Resenha de Conjuntura, ano II, n. 66, out. 2009. desafio, como de resto em todo o País, um grande investimento foi feito 29 IBGE. http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/indicadoresminimos/ sinteseindicsociais2010/SIS_2010.pdf. Tabela 1.4. Página visitada em fev de 2012. 30  ZANOTELLI, C; e Outros. Atlas da Criminalidade no Espírito Santo. 1. ed. São Paulo: Annablume, 2011. E BUGARIN, M. e LIRA, P. PROCESSO DE URBANIZAÇÃO, ESTRUTURA DEMOGRÁFICA E VIOLÊNCIA: análise no Espírito Santo e Vitória. TD37. Vitória: IJSN, 2011. 146 31  WAISELFISZ. Mapa da violência 2012: Os novos padrões da violência homicida no Brasil. 32  Dados obtidos em http://eshoje.jor.br/cai-indice-de-homicidios-no-espirito-santo-em-2011.html. Consulta realizada em fevereiro de 2012. Fonte: Secretaria de Estado da Segurança Pública, Governo do Estado do Espírito Santo. Recortes Paulo Hartung Posfácio 147
  • 75.
    no Estado pararecuperar, modernizar e regionalizar o sistema prisio- Observando-se os resultados colhidos nesse período, percebe-se nal. O processo permitiu instalar estratégias bem-sucedidas de escola- a intensidade das transformações aqui empreendidas, as quais tiveram rização, profissionalização e reinserção social dos aprisionados, e con- que transpor os desafios da arena política e social local e do ambiente tribuiu, junto com a modernização do aparato policial, para o início da econômico. Diversas passagens da História contemporânea nos compro- tendência de queda dos crimes violentos, já observada em 2010. vam que tais transformações, necessárias diante do quadro de oportuni- Os investimentos realizados no sistema carcerário do Espírito San- dades, são impossíveis de se alcançar sem uma forte liderança. to, a maioria absoluta com recursos estaduais, não têm paralelo com outros estados da federação: além do espaço para atendimento médico, oficinas de trabalho, biblioteca e salas de aula, as instalações são adequa- A l ide r a n ç a d o g ov e rn a d o r Paul o H a rt un g das ao desejado processo de reinserção. De acordo com informações da Secretaria de Estado da Justiça em 2010, aproximadamente um quarto A primeira década do novo milênio representou um período de intensas dos apenados frequentavam ensino fundamental e médio na modalida- transformações no Estado, favorecida por uma ampla mobilização em de de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Um caso emblemático é a Pe- favor do resgate das instituições estaduais. A liderança do então gover- nitenciária de Segurança Média de Colatina (PSMC), onde 97% dos ape- nador Paulo Hartung veio de forma hegemônica, com o reconhecimen- nados frequentavam salas de aula ou já haviam concluído o ensino mé- to de uma carreira política centrada no caráter republicano, democráti- dio; todos trabalham divididos em oficinas de confecções, artesanato e co, ético e transparente34. O então governador eleito utilizou seu capital blocos de cimento para pavimentação. político para imprimir velocidade e qualidade a essas transformações, Existem outros elementos que poderão contribuir para melhoria desse quadro no longo prazo. Houve uma mudança acelerada nos para engajar pessoas e unir diversas outras lideranças no rumo de uma transformação estrategicamente vislumbrada. padrões de arranjos familiares no Espírito Santo ao longo da década33. Além da liderança, capaz de preparar a construção do futuro e o Concomitantemente ao quadro de aumento da sobrevida e de avanço desenvolvimento das capacidades necessárias às novas realidades, a li- do bem-estar da população, ocorreu a adoção de um tamanho menor de derança política e estratégica estabeleceu uma gestão diferenciada, as- família. No universo envolvendo todos os arranjos familiares no Espí- sentada na meritocracia, busca por melhores práticas, na inovação so- rito Santo (2009), a maior proporção está representada por casais com cial, na profissionalização e na estruturação organizacional do setor pú- um 1 (22,7%), seguidos pelos casais sem filhos (17,9%) e, finalmente ca- blico, e no respeito às instituições. sais com 2 filhos (17,2%). Famílias com maior autonomia tendem a con- A primeira manifestação desse novo período teve emblemas no tribuir mais para o desenvolvimento social e a demandar menos estru- campo político e institucional. O combate ao crime organizado contou turas públicas e proteção social. 33  IJSN. Famílias e domicílios. Resenha de Conjuntura, ano II, n. 66, out. 2009. 148 Recortes Paulo Hartung 34  Zorzal e Silva, M. Trajetória político-institucional recente do Espírito Santo. In: Espírito Santo: instituições, desenvolvimento e inclusão social. Vitória: IJSN, 2010, pp 29-66. Posfácio 149
  • 76.
    com forças nacionaise deflagrou uma sequência de derrotas àqueles que obtido e para instalar a certeza de que o movimento que ora se iniciava dominaram o Estado por década e meia. O limiar da nova gestão, por tornava-se mais forte que o crime organizado que por tantos anos ha- sua vez, teve como emblema o ajuste fiscal e a reestruturação dos órgãos via capturado o Estado. de controle interno – Auditoria Geral e Procuradoria Geral do Estado. O apoio recebido pelos movimentos organizados mais modernos No processo de ajuste fiscal, o Espírito Santo reverteu um passivo do Estado, nos segmentos empresariais, sociais e políticos, redundou na a descoberto de 44,6% da Receita Corrente Disponível (RCD), em 2002, construção coletiva do Plano de Desenvolvimento Espírito Santo 2025. para um superávit financeiro de 4,6% da RCD, em 2003, o que retirou o Mesmo não tendo participado dessa construção, pude observar, duran- Estado da segunda pior situação fiscal – perdia apenas para o Rio Gran- te minha participação no segundo período de governo, que o Plano foi de do Sul – para a terceira melhor posição do País. O Espírito Santo re- um instrumento de grande importância para alinhamento geral do go- alizou, assim, o mais forte ajuste da situação de endividamento de curto verno e, além dessas fronteiras, dos governos municipais e das demais prazo promovido pelos estados brasileiros entre 2002 e 2003, de exatos instituições públicas e privadas recém-constituídas ou reconstruídas. O 49,2 pontos de percentagem da RCD. O ajuste inicial foi realizado me- Plano ES 2025 foi fundamental, posteriormente, para a construção dos diante o reequilíbrio financeiro e patrimonial. O saneamento financeiro planos setoriais – Peltes (transportes e logística), Pdeag (agricultura) e foi obtido graças à adoção de políticas visando ao incremento da recei- também para a Agenda Regional Sul do Espírito Santo. ta, associada à forte redução e contenção de despesas correntes e de ca- Passada a fase inicial de ajustes, reestruturações e instalações, o pital. A venda de ativos (antecipação de royalties), por sua vez, foi com- segundo período de governo foi dotado de momentum próprio, e reve- plementar e proporcionou a redução do endividamento. As duas ações lou a capacidade de conversão das crescentes receitas em maior oferta executadas concomitantemente foram fundamentais para o sucesso do de serviços e investimentos públicos; em maiores transferências volun- ajuste, uma vez que não bastaria vender ativos se não houvesse uma ade- tárias aos municípios – o que aumentou a capacidade de alinhamento e quação do fluxo de receitas e despesas correntes35. coordenação com esses entes; na requalificação da máquina de gover- O efeito de ambos os processos – político e institucional – trouxe no; e na sustentação de um fluxo de caixa positivo. Posteriormente, esse resultados bastante efetivos sobre as receitas estaduais e sobre os resul- fluxo de caixa positivo acumulado como poupança pública prudencial tados fiscais obtidos, especialmente a partir do segundo ano de gover- mostrou-se estratégico para o período de crise que viria a partir do últi- no36. O primeiro teste foi fundamental para sustentação do amplo apoio mo trimestre de 200837. O modelo de gestão fiscal nesse período de governo constituiu-se paradigma para a gestão pública brasileira e contri- 35  IJSN. Finanças do estado do Espírito Santo: do Plano Real à crise de 2009. Vitória: AEQUUS Consultoria e IJSN, 2010. 36  Sobre o ajuste fiscal, suas características e resultados obtidos ver: (i) OLIVEIRA, J.T. O ajuste fiscal do governo do estado do Espírito Santo no triênio 2003-2005. Secretaria de Fazenda do Estado do Espírito Santo (Sefaz), manuscrito, 2006; (ii) GARSON, S. Gestão fiscal do estado do Espírito Santo 2002-2008: pavimentando o caminho para o crescimento da economia estadual. In: Espírito Santo: instituições, desenvolvimento e inclusão social. Vitória: IJSN, 2010, pp 333-354. 150 Recortes Paulo Hartung 37  IJSN. Finanças do estado do Espírito Santo: do Plano Real à crise de 2009. Vitória: IJSN e AEQUUS Consultoria, 2010. E SANTOS, A. Evolução do fluxo de caixa do estado do Espírito Santo. NT 25. Vitória: IJSN, 2011. Posfácio 151
  • 77.
    buiu para aobtenção de importantes resultados sociais38. Tornou-se, as- No período do governo de Paulo Hartung vários desafios foram sim, um grande desafio sustentar os mesmos padrões de gestão e asse- vencidos, e outros tantos permanecem. A construção de uma socieda- gurar uma disciplina fiscal permanente. de com alto estágio de desenvolvimento depende de persistência a de À frente do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) durante os úl- amplo alcance social. No setor público, depende de escolhas, haja vis- timos três anos de governo, fui incumbida de sua reestruturação. O go- ta as restrições orçamentárias, políticas, institucionais, o largo espectro verno precisava de um órgão dotado de capacidades para avaliar o pro- de demandas e funções, e os diferenciais de impactos entre as ações em- gresso socioeconômico do Estado e suas políticas públicas. Um mode- preendidas ao longo do tempo. lo diferente do até então instalado. A discussão sobre o modelo e seus Assim, governar passa pela arte de fazer escolhas e de ter humil- custos e benef ícios foi intensa e, durante esse processo, foi permanente dade para reconhecer aquelas que não puderam ser feitas. Além dis- a preocupação com a sua sustentabilidade e legitimidade. Uma vez le- so, outros desafios estão postos, especialmente aqueles que trazem ris- gitimado no governo, mas, especialmente, na discussão com a socieda- cos concretos às receitas estaduais, como a redistribuição dos royalties de, tive instrumentos e liberdade para atrair os talentos necessários para e a reforma tributária. Mas a gestão realizada no período 2003 a 2010 implementar um programa ousado de estudos e pesquisas aplicados às abriu uma avenida de possibilidades para o desenvolvimento do Espíri- políticas públicas estaduais. Era monitorada e avaliada pelos resultados. to Santo. Tornaram-se destacáveis, por exemplo, as oportunidades para Sempre senti a figura do governador e do vice-governador presentes para o desenvolvimento da Indústria do Petróleo e Gás no Espírito Santo40, a demandas, sugestões e críticas. A reestruturação obtida foi então um tra- qual tem por característica grande capacidade de encadeamento de ou- balho de todo o governo, entregue para a sociedade . tros setores da atividade. Somente a exploração das reservas do pré-sal 39 Vejo assim a gestão Paulo Hartung. Todos os colaboradores envolvidos num mesmo Projeto de Desenvolvimento, com coesão, compro- e seus respectivos encadeamentos poderão impactar a economia local com crescimento de 7 pontos de percentagem do PIB41. misso, e foco nos benef ícios sociais. A Política teve o seu lugar de arti- O alcance de um alto estágio de desenvolvimento a partir dessas cular, conceber estratégias, meios, e cobrar resultados, mas nunca dispu- oportunidades, contudo, ocorrerá à medida que for possível instalar con- tou posições com a boa técnica. Ao contrário, foi cooperativa. E o pro- tinuadamente e ao longo do tempo melhorias institucionais, gestão e po- jeto estadual de desenvolvimento teve um líder legítimo, admirado e re- líticas públicas efetivas, e incentivos adequados ao empreendedorismo. conhecido por suas habilidades políticas e gerenciais. 38  GARSON, S. Gestão fiscal do estado do Espírito Santo 2002-2008: pavimentando o caminho para o crescimento da economia estadual. In: Espírito Santo: instituições, desenvolvimento e inclusão social. Vitória: IJSN, 2010, pp 333-354. 39  IJSN: Redirecionamento estratégico 2008-2010. Vitória: março de 2008. E para resultados ver “Mapa estratégico IJSN 2011-2014” em http://www.ijsn.es.gov.br/attachments/1037_Mapa_estrategico_ijsn. pdf. Consulta realizada em fevereiro de 2012. 152 40  OLIVEIRA, A. Petróleo e desenvolvimento: oportunidades e desafios para o Espírito Santo. In: Espírito Santo: instituições, desenvolvimento e inclusão social. Vitória: IJSN, 2010, pp 243-268. 41  HADDAD, E GIUBERTI, A. Impactos Econômicos do Pré-Sal na Economia Regional: o Caso do Espírito Santo, Brasil. Apresentação realizada em abril de 2011. Vitória, IJSN: 2011. Disponível em http://www.ijsn.es.gov.br/index.php?option=com_docmantask=cat_viewgid=414Itemid=370. Recortes Paulo Hartung Posfácio 153
  • 78.
    Referências bibliográficas ARENDT, Hannah.A Condição Humana. Forense Universitária: Rio de Janeiro, 2008. ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Martin Claret, 2001. BAUMAN, Zigmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. BOBBIO, Norberto. O Futuro da Democracia. São Paulo: Paz e Terra, 2006. CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra, 2000. ESPÍRITO SANTO 2025: Plano de Desenvolvimento. Secretaria de Estado de Economia e Planejamento: Vitória, 2006. JOHNSON, Paul. Churchill. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010. KUNSCH, Margarida. Planejamento de Relações Públicas na Comunicação Integrada. São Paulo: Summus, 2003. NOGUEIRA, Marco Aurélio. Em Defesa da Política. São Paulo: Senac, 2001. NOVAES, Adauto. O Esquecimento da Política. Rio de Janeiro, 2007. OLIVEIRA, Djalma. Planejamento Estratégico. São Paulo: Atlas, 2005. PLATÃO. A República. São Paulo: Martin Claret, 2001. PHILLIPS, Donald T. Liderança segundo Abraham Lincoln. São Paulo: Landscape, 2007. QUINTANA, Mario. Para viver com poesia. São Paulo: Globo, 2007. ROUANET, Sérgio Paulo. Religião: esquecimento da política? In: NOVAES, Adauto. O Esquecimento da Política. Rio de Janeiro, 2007. SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. Rio de Janeiro: Record, 2000. WEBER, Max. Economia e Sociedade. Brasília: UNB, 2001. 154 Recortes Paulo Hartung