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OS NOVOS ALQUIMISTAS
Uma nova era está sendo criada pela complexidade e pela convergência entre
novos materiais, novos modelos, biocomputação, neurociência, entre outros
componentes. Isso está mudando a sociedade e abrindo novas e múltiplas oportunidades
de negócios e também ameaças. É o que garante Christopher Meyer nesta entrevista
exclusiva.
A ciência e os negócios parecem atuar em espaços e tempos diferentes: orientada
em longo prazo, a ciência pertence ao âmbito do laboratório; atentas ao mercado,
as empresas se concentram em gerar ganhos o mais rápido possível. Mas no livro
It's Ative o sr. sugere que as empresas demoram cada vez menos para capitalizar as
inovações...
Geralmente costumamos pensar que, em grande medida, o mundo
permanecerá tal como está até o resto de nossas vidas. No entanto, como apontou Ray
Kurzweil, o índice de progresso tecnológico duplica a cada década. Isso significa que, se
alguém prevê que algo demorará 50 anos para ocorrer, na realidade se equivoca:
acontecerá em menos de 20. Acostumadas às estimativas dos anos 90, as pessoas não
percebem que a tecnologia avança cada vez mais rápido, e o que ocorreu há uma década
teria levado meio século para o que hoje leva 20 anos. Talvez não possamos definir com
precisão nem detalhes as mudanças, mas é possível antecipar o que ocorrerá de modo
geral. Assim como a Revolução Industrial, que surgiu de descobertas em química,
termodinâmica e eletricidade, modificou as técnicas de fabricação - estas, por sua vez,
provocaram mudanças na sociedade, nas táticas de guerra, na demografia e no estilo de
vida - os atuais avanços em ciência e tecnologia terão profundos efeitos em nossas
organizações econômicas e sociais. Alguns poderão pensar que se trata de tendências de
longo prazo; no entanto, toda empresa voltada para a fabricação deveria estar informada
dos desenvolvimentos na ciência dos materiais, para poder elaborar produtos de melhor
qualidade, mais baratos e que não danifiquem o meio ambiente. O mesmo ocorre com as
companhias que atuam no mercado de cuidados com a saúde ou na agricultura: sem
exceção, elas têm de prestar atenção ao que ocorre no campo da biotecnologia. Por sua
vez, as firmas de comunicação ou de publicidade precisam analisar como as novas
gerações utilizam as redes e encontrar uma maneira de manter contato com elas. Todas
teriam de pensar que a forma da organização corporativa, que surgiu no século 19,
provavelmente não seja apropriada para atuar no século 21.
Quais são os principais avanços científicos aos quais devemos dar mais atenção?
O primeiro grande grupo tem a ver com a “ciência molecular”. Uso esse tema
para indicar que a biotecnologia, a ciência dos materiais e a nanotecnologia aproveitam
os novos conhecimentos sobre o comportamento das moléculas e as ferramentas
necessárias para a sua manipulação. Os chamados “nanomanipuladores" são máquinas
capazes de movimentar átomos individualmente, desenvolvidas no âmbito da ciência dos
materiais e da microeletrônica com o objetivo de fabricar chips cada vez menores.
O segundo avanço importante está vinculado à ciência das redes, ou seja, a
área da matemática que explica a forma como crescem e se comportam os sistemas
interconectados, como o sistema nervoso ou a internei.
O terceiro avanço-chave é o dos modelos de simulação baseados em agentes;
está muito ligado à ciência das redes, porque, quanto mais as entendemos, maior é nossa
capacidade de criar simulações que sejam reflexo das decisões, as quais, de forma
metafórica, vão desde as de um gene para regular outro gene até aquelas que uma
pessoa normalmente toma. A capacidade de simular comportamentos individuais, assim
como as interações com os modelos de agentes, nos permitirá usar o que aprendemos
das ciências molecular e das redes para administrar as empresas.
Quais áreas serão mais afetadas por essas correntes?
Sem dúvida, a fabricação será transformada por tudo que temos aprendido no
âmbito molecular. As duas aplicações mais significativas em termos quantitativos são
relativas a revestimentos de superfícies e cosméticos. Como resultado da incorporação de
elementos em escala manométrica, obtêm-se as tintas mais brilhantes para automóveis,
que não descascam, e cosméticos de melhor qualidade.
Há também muitos avanços no campo da biologia que provocam impacto nas
indústrias farmacêutica e de alimentação e na agricultura. A empresa Cyrano Sciences,
por exemplo, criou um dispositivo que identifica odores: o Cyranose. Essa tecnologia
permitirá aos médicos diagnosticar infecções a partir do ar exalado por uma pessoa,
assim como servirá a aplicações militares, podendo detectar produtos tóxicos na
atmosfera. Por outro lado, os avanços no estudo das redes já são capitalizados por
empreendimentos na indústria dos meios de comunicação. Um exemplo é o ATTAP (sigla
em inglês de all things to all people, ou tudo para todos), que analisa como o
comportamento de um indivíduo na internet pode corresponder ao de outros, para então
disponibilizar essa informação em uma rede de pessoas com interesses similares.
Que forças impulsionam esse tipo de desenvolvimento?
A mais importante é o poder do processamento barato. O maior mercado de
supercomputadores da IBM está na biologia. As pesquisas sobre o genoma, por exemplo,
demandam tanta capacidade de processamento que seriam impossíveis sem os
benefícios do cálculo barato. O segundo fator está relacionado às redes. Há alguns anos,
Duncan Watts, diretor do projeto SmallWorld e conhecido internacionalmente por ter
atualizado a teoria dos "seis graus de separação", escreveu um ensaio extraordinário no
qual demonstrava a semelhança entre a estrutura matemática do sistema nervoso do
nematódeo (um helminto microscópico que se alimenta de raízes), a rede de energia
elétrica da região oeste dos Estados Unidos e a ligação disso com as estrelas de
Hollywood. São três tipos diferentes de rede: a primeira se desenvolve biologicamente; a
segunda é construída por engenheiros; e a terceira constitui um processo sociológico. De
certa forma, elas apresentam uma estrutura matemática idêntica.
Uma das palavras-chave na ciência atual é “bio-computação”. Em que consiste e
quais são suas aplicações nos negócios?
Biocomputação significa que, se podemos expressar o código biológico como
código computacional, tudo que sabemos fazer com o código digital pode ser aplicado à
análise e simulação dos sistemas biológicos. E é isso o que está acontecendo: cada vez
mais sistemas biológicos são projetados, e a pesquisa em medicina avança por meio da
simulação "em sílicio", isto é, feita pelo computador. Há alguns anos, por exemplo, um
grupo de pesquisadores conseguiu simular o músculo cardíaco, e a FDA (Federal Drug
Administration), dos Estados Unidos, aprovou a simulação como prova daquilo que se
imagina ser a batida cardíaca. A partir dessa descoberta, simulou-se o funcionamento
completo do coração, para que fosse possível estudar os efeitos das diferentes drogas.
Outro exemplo da convergência da simulação para as ciências moleculares é o Institute
for Systems Biology, que trabalha com simulações para o estudo do funcionamento dos
órgãos em nível celular.
O eixo de It's Alive é a eminente convergência entre a tecnologia da informação, a
biologia e os negócios. O sr. Acaba de dar exemplos das duas primeiras. Como os
negócios se integram com essa equação?
Os algorítmos genéticos são um bom exemplo de sistemas informáticos
inspirados em modelos biológicos para a resolução de problemas nas organizações.John
Deere os aplicou para melhorar a eficiência de suas fábricas de máquinas semeadoras.
Para a empresa, tornava-se muito difícil projetar os cronogramas das linhas de fabricação,
já que há mais de 1 milhão de configurações diferentes para máquinas que devem adap-
tar-se a diferentes condições de cultivo e de sementes. Algumas têm dosadores de
plástico que armazenam fertilizantes e inseticidas; outras operam mecanicamente,
enquanto há alguns modelos que funcionam por sistema hidráulico. O problema consistia
em criar o cronograma ideal ou a melhor sequência de fabricação de diferentes máquinas
semeadoras. Depois de experimentar diversas técnicas sem bons resultados, John Deere
recorreu aos algoritmos genéticos, que se baseiam nos princípios da evolução e cujo
ponto de partida é o conjunto de máquinas a fabricar. Com isso, muitos cronogramas
foram gerados, assim como simulação do rendimento de cada um. Depois de escolhidos
os melhores e após a etapa de "criação", eles são "recombinados" para criar um
cronograma "filho". Cada noite são criados e avaliados 40 mil cronogramas, e os
melhores são utilizados na fábrica no dia seguinte.
Que outras empresas utilizam algoritmos genéticos?
A General Electric (GE) os utilizou para melhorar o desenho do motor do
Boeing 777, e a Marks & Spencer, para avaliar as solicitações de cartões de crédito. Em
poucas palavras, os algoritmos genéticos traduzem noções de evolução, como a
recombinação genética, para a matemática. Mas a evolução também oferece lições para
a gestão de empresas.
Quais?
O que impulsiona a evolução é a diversidade: maior variedade no "pool
genético" - ou seja, o conjunto da informação genética de uma população em determinado
momento -, maior originalidade nas espécies. Nos Estados Unidos, por exemplo, são
cultivados quatro tipos de milho, com os quais, conforme o clima, é possível obter
rendimentos máximos. No entanto, o Departamento de Agricultura guarda centenas de
cepas que lhe permitirão desenvolver uma variedade de milho para se adaptar melhor ao
ambiente, em caso de ocorrência de mudanças climáticas ou de pestes que afetem as
quatro variedades cultivadas. Assim, a diversidade se torna um ingrediente fundamental.
O segundo algoritmo é a recombinação - o processo por meio do qual dois genomas são
combinados para criar um novo. E, por último, a pressão seletiva ou sobrevivência dos
melhores, a dos mais aptos para se adaptar ao ambiente.
Nesse caso, a forma de inovar das empresas pode ser vista como
evolucionista, ou seja, um processo regido pelas leis da diversidade, da recombinação e
da pressão seletivo. Antes as organizações costumavam formar grupos de pessoas com
antecedentes parecidos, que compartilhavam expectativas semelhantes.
Na época da industrialização, esse enfoque fazia sentido, porque as empresas, em
termos biológicos, eram de "monocultura” e, como tais, podiam ser muito eficientes para
alcançar altos rendimentos. As companhias denominadas "adaptativas", por sua vez,
caracterizam-se pela grande variedade: congregam pessoas provenientes de culturas
diferentes, com idioma, formação e experiências distintos. A segunda característica é a
recombinação de idéias: são empresas que sempre se reorganizam porque sabem que
criar novas aproximações entre pessoas e atualizar as redes de contato aumenta a
flexibilidade e a capacidade de adaptação. Elas promovem a rotatividade da equipe,
designando aos funcionários diferentes funções e criando oficinas abertas que incentivam
a comunicação. O terceiro ponto é a pressão seletiva. Às vezes, existem muitas novas
idéias, mas isso não significa que são boas, ou há tantas boas idéias que talvez seja
impossível desenvolver todas; em ambos os casos, é preciso encontrar a forma de
selecionar as melhores. Nos Estados Unidos, o treinador de uma das principais equipes
de beisebol aplicava a seguinte regra: cada ano, um dos oito jogadores estaria fora da
equipe e se ausentaria na temporada seguinte. Isso levava a uma grande pressão. O que
aconteceria se um alto executivo fosse substituído cada ano? O efeito seria interessante,
porque garantiria a sobrevivência dos melhores.
No entanto, as mudanças no mercado e a astúcia dos concorrentes, entre outros
fatores, também causam pressão. Por que seria necessário tomar medidas
internas?
O problema é que as empresas não assimilam a pressão externa antes que
seja tarde demais. Sempre percebem que o mundo ao redor muda, mas não conseguem
adptar-se a ele porque, enquanto o mercado é regido por suas próprias leis econômicas,
o sistema interno é determinado por jogos políticos e de poder, que são forças bem mais
conservadoras.
De que forma elas podem aumentar sua capacidade de adaptação?
Percebemos que as empresas adaptativas se caracterizam pelas capacidades de
perceber e reagir e de aprender a se adaptar. Assim como um ritmo cardíaco inalterável é
sinal de coração doente - porque o normal é que varie de acordo com as emoções e a
velocidade em que trabalha, entre outros fatores -, as organizações que procuram ser
muito estáveis não aproveitam o feedback que seu ambiente proporciona em dois
sentidos. Um deles é o que chamamos "perceber e reagir", e equivale a captar de
imediato as variações nos mercados e a elas reagir. O segundo é identificar os erros e
com eles aprender. A Amazon, por exemplo, cada vez que recebe uma reclamação de
cliente, analisa a ocorrência e determina o que deve ser mudado. Em síntese, as
empresas adaptativas percebem e reagem às variações no mercado e em seguida
avaliam a efetividade das respostas, procedendo aos ajustes necessários e aprendendo
com seus erros.
AS NOVAS CIÊNCIAS
Segundo uma das versões da lenda, o filósofo e geômetra Tales de Mileto
caminhava absorto na contemplação das estrelas quando tropeçou e caiu num poço. A
criada trácia que o acompanhava o fez perceber, risonha, que, enquanto ele estudava o
céu com paixão, não enxergava o que estava diante de seu nariz nem sob seus pés.
Dessa forma, a atitude pragmática zombava da aparente inutilidade da teoria pura. Uma
versão posterior inverteu os termos. Nela, Tales previu que haveria uma boa colheita de
azeitonas e alugou com antecedência (e sem gastar muito, pois ninguém concorreria com
sua oferta) os moinhos de azeite de Mileto e Quios. Quando a época da colheita chegou e
a demanda disparou, ele sublocou as instalações por um preço muito bom,
demonstrando, assim, que se pode obter sucesso nos negócios por meio do
conhecimento dos fenômenos celestes. Stuart Kauffman estuda sistemas que estão muito
mais próximos de nós, embora nem por isso sejam mais fáceis de compreender. Os
modelos que projetou simulam desde o comportamento da cadeia de distribuição até a
evolução tecnológica e biológica, permitindo que empresas como Unilever e Procter &
Gamble, entre outras, tornassem seus processos mais eficientes. Claro que, como boa
teoria que é, a complexidade exige um esforço de abstração. Mas a dedicação rende
muitos frutos nesse caso, e é por isso que há cada vez mais pesquisadores de
management; dedicados a ela. Um deles é Daniel Levinthal, professor da Wharton
School, que a utiliza para a elaboração de estratégias eficazes. Nesta entrevista exclusiva
a HSM Management, Kauffman se refere às possibilidades que o novo campo científico
abre e sua utilidade para as organizações.
Em que consistem as ciências da complexidade?
Não há uma resposta simples a essa pergunta. O que acontece é que estamos
atravessando um período de transição na ciência. Deixamos para trás 350 anos de
ciências reducionistas, que separavam as coisas, e passamos para uma era na qual
estamos tentando juntá-las. Sempre soubemos que elas teriam de ser reunidas, pos
Newton o fez com a lei da gravidade universal. A novidade é que agora temos
computadores e podemos observar os sistemas e suas partes enquanto interagem de
formas muito diferentes, assim como estudar o comportamento de um sistema em sua
totalidade, constituído por todas essas interações. Os físicos diriam que podemos
observar o comportamento coletivo de muitas partes diferentes. É isso que está
impulsionando as ciências da complexidade em todas as áreas. Chaman-se “da
complexidade” porque há muitas variáveis interagindo com outras. A disciplina nasceu há
20 anos, no Santa Fé Institute, do Estado do Novo México, Estados Unidos. Muitas idéias
que hoje são trabalhadas pelos departamentos de física, biologia, sociologia, economia e
pelas escolas de administração de empresas e de direito de muitos países surgiram ali.
Ao mesmo tempo, a biologia é uma fonte ,muito rica em idéias para as ciências da
complexidade, embora minha opinião possa ter sofrido influência, porque sou biólogo.
Outras fontes são a economia, a física e, em menor grau, as ciências da computação.
Quais os métodos ou ferramentas utilizados para estudar a complexidade?
Começou-se com modelos computacionais de sistemas complexos de
equações matemáticas. Eram equações que não podiam ser analisadas por meio de
técnicas matemáticas clássicas, mas sim com um computador. Depois chegou o
desenvolvimento de modelos baseados em agentes. Um exemplo desse tipo de modelos
é o que Andy Illachinsky desenvolveu para o Center for Naval Analyses (CNA), dos
Estados Unidos. É um modelo de campo de batalha no qual cada soldado tem diferentes
“propriedades”, tais como a distância a que sua arma sua arma poderia disparar, a
precisão com que dispararia, sua probabilidade de escapar do fogo inimigo ou de socorrer
um soldado ferido, entra outras. O soldado é um "agente" e, como tal, tem um cojunto de
propriedades ou “genótipo”. Illachinsly criou genótipos para os soldados de cada bando,
em um modelo de grade de duas dimensões que simula o campo de batalha. Ao fazer
mudanças nas propriedades dos agentes, modifica-se comportamento coletivo do
exército, que descrevem e resolvem equações, nos modelos baseados em agentes
oferecemos as propriedades dos agentes e depois permitimos que eles interajam, para
ver o que acontece.
Como se aplicam nos negócios esses modelos baseados em agentes?
Na BiosGroup estudamos, por exemplo, a cadeia de distribuição da Procter &
Gamble (P&G). Fizemos um modelo que levava em conta, entre outros fatores, os
depósitos, os caminhões, as caixas de mercadorias carregadas nos caminhões, a
capacidades destes de reabastecer as lojas onde certos artigos se esgotavam e a
fabricação de produtos. E observamos de que forma as mudanças produzidas em
diferentes aspectos da cadeia repercutiam na operação – por exemplo, o que acontecia
quando se acumulava mercadoria nos depósitos ou se ampliava ou reduzia o tempo que
os produtos demoravam em chegar ao mercado.
E o que descobriram?
Várias coisas interessantes. A P&G insistia em enviar os caminhões com sua
carga completa, mas descobrimos que esse procedimento é muito ineficiente e que o
rendimento melhora se os caminhões vão parcialmente carregados. Embora o custo por
pacote seja mais alto, a flexibilidade gerada compensa com juros esse aumento de
custos. A P&G modificou suas operações a partir dessa descoberta. Também
descobrimos que existem várias formas de reabastecer um grupo de lojas vizinhas. Todas
essas coisas aumentam consideravelmente a eficiência da cadeia de distribuição.
Como se obtém a informação sobre as propriedades dos agentes? Da observação
ou da dedução?
É uma combinação das duas.Tentamos ser inteligentes e deduzir o modelo,
mas também saímos para nos informar sobre o que as pessoas estão fazendo. No caso
da P&G, conversamos com o pessoal da companhia. ndy Illachinsky, no Center for Naval
Analyses, aproveitou seu conhecimento das táticas militares e das características dos
soldados. Depois, os margines tomaram seu modelo para entender como as mudanças
no genótipo dos soldados modificam o resultado da batalha.
Somente as propriedades dos agentes determinam o resultado final? Não há regras
externas?
Sempre há regras externas. Um dos problemas que resolvemos na Bios estava
relacionado com a recolocação de tanques que continham gases como oxigênio e
nitrogênio. Nosso cliente era uma empresa fornecedora dessas substâncias, que tinha
que levar os tanques de um comprador a outro. Nesse modelo, a rede viária era uma
propriedade ou variável externa que devíamos levar em conta para otimizar o tempo de
viagem.
Que outras lições as ciências da complexidade oferecem ao mundo dos negócios?
Há um modelo para resolver um problema de fluxos de trabalho em uma oficina
industrial. A idéia é que uma empresa tem determinada quantidade de máquinas e certo
número de objetos para fabricar, e para cada objeto devem ser utilizadas as máquinas
durante um tempo e ordem predeterminados, que poderiam ser diferentes para cada um
deles. O tempo total que demanda a fabricação de um grupo de objetos recebe o nome
técnico de "intervalo de produção". Se o intervalo é longo, podem ser encontradas várias
maneiras de fabricar os produtos, mas, à medida que ele diminui, as possibilidades se
reduzem e é mais difícil resolver o problema de encontrar a distribuição mais eficiente dos
objetos nas máquinas. Intuitivamente, tendemos a pensar que a melhor solução é um
programa com o menor intervalo possível. No entanto, em tais casos, acontece que,
quando uma máquina falha, tudo é derrubado e a conseqüência é catastrófica. Se, no
entanto, o intervalo de produção se estende um pouco, podem ser desenhados
programas alternativos que são igualmente bons e também permitem evitar a queda do
sistema. De modo que é preciso encontrar um equilíbrio entre a otimização do intervalo de
produção e a fragilidade que leva a falhas catastróficas.
Na Bios fizemos um trabalho para a Unilever com base nessas noções. A Unilever
tinha um problema de fluxo de trabalho: eles haviam otimizado o fluxo para minimizar o
tempo requerido para realizá-lo, mas tropeçavam em falhas catastróficas. Demonstramos
que. Se aumentassem até certo ponto, e não além desse ponto, a capacidade de
produção, aumentariam a flexibilidade e não teriam tais falhas. Foi assim que resolveram
o problema com um investimento de US$ 1 milhão, em vez de gastarem US$ 20 milhões.
Essa idéia também se aplica à estratégia ou à logística militar, em que há sempre um
debate entre ter a estratégia mais eficiente, que pode ser frágil, e a mais sólida, que pode
custar um pouco mais, mas evita problemas.
Várias escolas de administração de empresas utilizam seu modelo NK, para o
desenho de estratégias. O sr. poderia nos explicar em que consiste?
É um modelo bastante simples. Imaginemos uma cadeira composta por três
partes-encosto, assento e pés - e que cada parte pode ser de metal ou de plástico. Desse
modo, há oito cadeiras possíveis: uma totalmente metálica; uma com pés e assento de
plástico e encosto de metal; uma com pés e assento de metal e encosto de plástico etc. O
modelo NK começa com um objeto que tem N partes (nesse caso, três) e cada uma delas
pode estar em vários estados alternativos (metal ou plástico). A idéia é que cada parte faz
uma contribuição para a função do objeto completo (a cadeira), que depende do material
dela (metal ou plástico) e do material das outras partes, ou seja, depende da parte em si e
de K outras partes, daí o modelo chamar NK. Todo o resto é aleatório. Se você decide
que K é 2 e N é 3, terá um objeto em três partes, cada uma delas contribuindo para a
aptidão total. Depois se determinam ao acaso cada parte e as outras duas, e todas as
combinações possíveis dessa parte e das outras, e se designa uma contribuição de
aptidão seguindo alguma distribuição matemática, como o intervalo uniforme entre zero e
um, ou seja, designa-se um decimal ao acaso. Dado um objeto com um conjunto de
partes, soma-se a contribuição de todas elas e divide-se o resultado pelo número de
partes, para assim obter a aptidão do objeto. No caso da cadeira, a aptidão poderia ser
quanto ela é confortável ou quanto custa produzí-la. A conseqüência disso é um conjunto
de objetos (cadeira), cada um ao lado do seguinte, com uma distribuição de alturas como
em uma cordilheira, na qual o cume mais alto representa o melhor objeto (a melhor
cadeira). O pesquisador pode trabalhar com essa paisagem adaptativa e ver o que
acontece quando modifica uma parte de cada vez. Isso é o que chamamos “trabalho de
adaptação”. Podemos aprender muitas coisas com esses modelos. Por exemplo, as
curvas de aprendizado na economia.
A análise de paisagens adaptativas é um exemplo de olhar sobre o todo, típico
das ciências da complexidade e com todo tipo de implicações. Implica, por exemplo, que,
quando uma pessoa não é muito boa em algo, ela tem muitas formas de melhorar, mas, à
medida que se aperfeiçoa, fica-lhe mais difícil continuar avançando. No início, há muitas
ramificações ou direções possíveis, mas as possibilidades se reduzem à medida que ela
progride. É o que se vê na evolução biológica, o chamado "rebote pós-extinção". Depois
de um episódio de extinção, formam-se novas espécies, que têm enorme quantidade de
variáveis menores, até que a mudança se detém. Essa característica básica da evolução
biológica é também um rasgo essencial da evolução tecnológica. Os primeiros aeroplanos
inventados pelos irmãos Wright eram muito diferentes dos que foram fabricados uma ou
duas décadas depois. Os primeiros aparelhos tinham sete asas, seis asas ou uma asa e o
motor na frente ou na parte posterior, até que, em poucos anos, o desenho estabilizou-se.
A NOVA NATUREZA HUMANA
Em um futuro não muito distante, quando próteses sintéticas aguçarem nossos
sentidos e implantes cerebrais melhorarem nosso desempenha, talvez se torne possível
mover objetos e até alterar nossos sistemas endócrino e imunológico com o pensamento,
como escreve Susan Greenfield, especialista da Royal Institution of Great Britain.
Como espécie, provavelmente não aceitaríamos bem a idéia de uma reforma
de nossa mente. À medida que as tecnologias cada vez mais nos surpreendem e chocam,
normalmente buscamos refúgio em nossa natureza humana e em nossa obstinada
disposição de amar, odiar e fazer vingança, como faziam nossos ancestrais da Grécia
antiga.
Então por que, agora, na virada do século 21, deveria ser rompido o último dos
bastiões? Para entender como, pela primeira vez em quase 100 mil anos, nossas mentes
podem ser radicalmente transformadas, precisamos primeiramente explorar o que a
mente humana realmente pode ser como realidade física.
A mente humana é moldável
Quanto mais aprendemos da neurociência, mais parece que, em vez de ser
uma antítese alternativa ao cérebro, a mente tem um substrato físico na pegajosa massa
cinzenta entre nossas orelhas.
Vejamos primeiramente como o cérebro realmente é organizado. A unidade de
trabalho básica ali é uma célula cerebral (neurônio), porém ainda mais importantes são os
circuitos de células cerebrais, que depois viram conjuntos complexos que formam
macroestruturas cerebrais reconhecíveis. Cada uma dessas estruturas cerebrais é como
um instrumento em uma orquestra: elas podem desempenhar muitas funções, de acordo
com as combinações e o grau em que estão operando em determinado momento.
No ato de ver, por exemplo, existem pelo menos 30 regiões diferentes do
cérebro envolvidas. No entanto, em termos de anatomia grosseira, todos os cérebros
parecem ser praticamente iguais. Se estivéssemos procurando uma mente, ou
individualidade, ela não residiria em nenhuma estrutura altamente variável. De fato, a
noção de um cérebro dentro de um cérebro não só não faz sentido, como também é inútil.
A mente tem ainda menos probabilidade de residir nos componentes mais
básicos que permitirão às células cerebrais trabalhar dentro dos conjuntos: os genes.
Estes fazem proteínas, mas não têm uma missão própria.
Eles não são obstinadamente predispostos a escravizar o cérebro para seus
próprios propósitos; ao contrário, estão ali como pequenos, porém importantes,
participantes que são necessários - mas não suficientes - para características mentais
complexas.
Quer um exemplo de como é importante a interação entre natureza e
experiência de vida? Pense em um estudo de alguns anos atrás em que ratos que foram
criados deliberadamente para carregar o gene aberrante para a doença de Huntington.
Trata-se de uma doença neurodegenerativa caracterizada por um distúrbio grave de
movimento que, diferentemente do que ocorre na maioria dos distúrbios cerebrais, está
relacionada com um único gene trapaceiro. Pois bem. Quando os ratos que eram
geneticamente fadados a desenvolver o distúrbio recebiam estímulos ambientais – tubos
de papelão e rodas com os quais interagir - desenvolviama doença em uma idade bem
mais avançada e sua deficiência de movimento era muito menor.
Com esse estudo, fica óbvia, portanto, a relação - ainda que indireta - entre o
gene e a conduta mental, uma vez que o cérebro humano é ainda mais sensível ao
ambiente do que o cérebro do rato. E a relação tende a ser mais estreita ainda em
enfermidades em que agem múltiplos genes.
Os genes são importantes pelo fato de produzirem proteínas, mas essas
proteínas, assim como as regiões cerebrais, podem ter muitas funções. Nas regiões
cerebrais, os genes se conectam e desconectam ao longo da vida toda e as proteínas que
eles produzem, por sua vez, mudam as configurações das conexões das células
cerebrais. O que causa essas mudanças é simplesmente a interação contínua com o
ambiente.
Por essa razão, a velha dicotomia "natureza versus experiência de vida" - ou
seja, a herança genética versus os fatores ambientais - não se sustenta. Na verdade, a
interação interminável entre os estímulos do ambiente e a química do cérebro é o que
leva a mudanças na conectividade dos neurônios, o que, por sua vez, determina,
literalmente, como você vê o mundo.
É a essa personalização de conexões de células cerebrais por meio da
experiência, oriunda do diálogo constante com o mundo exterior, que eu dou o nome de
"mente". Você nasce em meio a uma confusão crescente e ruidosa, quando avalia o
mundo em termos de doçura, rapidez, frio, brilho e assim por diante. Mas gradualmente
essas sensações abstratas se juntam a rostos ou objetos que, no final, ganharão rótulos e
significados, desencadeando cada vez mais associações à medida que forem surgindo.
Essa plasticidade do cérebro tem sido documentada não apenas em ratos de
laboratório, nos quais a mera exposição a rodas e escadas pode aumentar a quantia de
conexões, mas também em seres humanos. Talvez o exemplo mais fascinante
recentemente seja o relatório mostrando que os motoristas de táxi de Londres, com a
memória de trabalho sobrecarregada com o desafio extra de lembrar todos os nomes de
ruas da cidade, têm uma parte de seu cérebro maior do que a da maioria das pessoas.
Então, a conclusão é elementar: se o cérebro é tão sensível à mudança,
qualquer coisa no ambiente, ou qualquer coisa que vise essas conexões cerebrais, pode
mudar a mente.
Neurochips
Então, o que acontecerá com nossa mente no século 21, quando finalmente
todas as promessas das descobertas científicas do século 20 estiverem subitamente
proporcionando rápida e furiosamente uma cornucópia de tecnologias?
O brilhante trabalho de Peter Fromhertz na Alemanha, entre outros, mostrou
que agora é possível fazer com que as células nervosas humanas cresçam em circuitos
integrados. Essa idéia imediatamente dá origem ao neurochip, no qual as excelentes
propriedades eletrônicas das células cerebrais podem ser exploradas para a produção de
neurochips híbridos de carbono e silício.
E, se esses sinais elétricos gerados por células cerebrais puderem se
comunicar diretamente com os sinais elétricos gerados no silício, então ocorre que não
apenas podemos ter um novo tipo de computador mas que se poderiam implantar
eletrodos dentro do cérebro.
Por exemplo, na Emory University, um paciente paralisado do pescoço para
baixo já pode "ordenar" por pensamento que um cursor se mova em uma tela de
computador: um implante faz com que um pensamento seja transformado em um
movimento para compensar seu sistema motor lesionado.
Então, em um futuro não muito distante, quando não apenas as próteses
sintéticas aguçarem nossos sentidos, mas os implantes cerebrais melhorarem nosso
desempenho, talvez se torne possível mover objetos com o pensamento e até alterar
nossos sistemas endócrino e imunológico com o pensamento. Além disso, todas essas
informações serão lidas por minúsculos dispositivos nanotecnológicos dentro do corpo.
Outra barreira que será, portanto, cruzada é a existente entre mental e físico,
entre objetivo e subjetivo. E, da mesma forma que o advento dessa tecnologia da
informação (TI) invasiva e incrivelmente sofisticada mudará a maneira como enxergamos
o mundo e como enxergamos a nós mesmos, também inevitavelmente mudará a maneira
como trabalhamos.
Em um mundo caracterizado pelo crescimento do comércio eletrônico, robôs e
bancos de dados estão gradualmente substituindo os especialistas. Portanto, a
terceirização e a subcontratação substituirão a hierarquia corporativa, dado que as
pessoas trabalham de maneira independente - como fre-lancers - a partir de onde quer
que estejam - até de suas casas. E será cada vez mais difícil definir que parte da vida
cotidiana será atividade mental recreacional distinta do trabalho.
Outra mudança importante que a TI pode trazer é uma força de trabalho cada
vez mais velha, livre da necessidade de exercitar habilidades físicas ou até mesmo de ser
extremamente móvel. Pode ser que estejamos enfrentando um mundo onde a
aposentadoria se torne coisa do passado.
Os avanços das tecnologias desafiarão a própria noção de vida. Por exemplo,
as biotecnologias estão prometendo genes adicionais aperfeiçoados, que podem até ser
sintéticos e talvez se apóiem em cromossomos artificiais sem interferir nos genes
naturais. Além disso, a engenharia de uma linha de células embrionárias que têm o
material genético de uma geração permitirá selecionar os genes de forma mais eficiente,
sem a enorme responsabilidade de inculcar essa característica por gerações.
E somemos a esse cenário a possibilidade de extrair material genético de
qualquer célula do corpo, de forma que qualquer pessoa de qualquer idade esteja em
condições de reproduzir-se. É razoável imaginar que isso pode sinalizar o fim da vida
como a conhecemos. Se qualquer pessoa de qualquer idade puder ter um filho com
qualquer pessoa, então as barreiras entre gerações com certeza serão quebradas.
A nova natureza humana
Então, o que tudo isso significará para nós, para nossa tão propalada e
celebrada natureza humana? Podemos dizer que a natureza humana é uma forma de
pensar, um estado da mente. Como já vimos, as conexões cerebrais que fazemos
refletem as experiências que temos, e a mente pode ser essa personalizarão do cérebro.
Nossa situação na sociedade, portanto, depende de como evolui a configuração das
conexões e do contexto do tempo e do espaço específicos em que vivemos.
Nosso ambiente pode estar prestes a mudar para sempre, para se tornar um
ambiente em que não precisaremos mais coexistir em sociedade. Podemos viver por meio
das telas de computador. Pela primeira vez em 100 mil anos, a natureza humana pode
ser radicalmente mudada ou até mesmo desaparecer. Portanto, a questão vital para nós
agora é canalizar essas novas tecnologias para obter maior percepção da natureza
humana. Assim, podemos nos preparar - como nunca antes – para celebrar nossa
individualidade, em vez de aniquilá-la.
AS NOVAS MÁQUINAS
Em 2029, os computadores serão milhares de vezes mais poderosos do que o cérebro
humano, pois combinarão as atuais vantagens da inteligência humana, sobretudo a capacidade de
reconhecimento de padrões, com os aspectos em que eles já nos superam. E, em 2045, nossa
porção tecnológica superará nossa porção biológica, como diz o inventor Ray Kurzweil nesta
entrevista a Tom Peters.
Não é todo dia que uma máquina de idéias se encontra com outra máquina de idéias. Quando
duas máquinas desse tipo interagem, é grande a probabilidade de ocorrer um curto-circuito de proporções
desconhecidas. Ou podem abrir-se novos horizontes de pensamento.
Na entrevista a seguir, que o inovador especialista em gestão Tom Peters fez com o inovador
inventor norte-americano Ray Kurzweil, abrem-se tais horizontes. E justamente sobre as máquinas - tanto
as computacionais, que mudam com o advento da biocomputação, como as humanas, ou seja, nós.
O que é a singularidade de que você tanto fala?
É uma metáfora emprestada do campo da física e designa um horizonte de acontecimentos no
qual é difícil ver mais além. Na física, trata-se de um horizonte de acontecimentes físicos que cercam um
buraco negro. Em nosso caso, estamos falando de fatos futuros na história da humanidade, que serão tão
profundamente transformadores que a análise se torna bastante difícil. Envolve a ampliação de nossa
inteligência por meio da fusão com as formas não-biológicas que estamos criando.
São muitos os passos para conseguir compreender esse processo. O primeiro é a recriação
em máquina da inteligência humana, com todas suas sutilezas, flexibilidade, capacidade de reconhecimento
de padrões e inteligência emocional, entre outros fatores. Para isso, será preciso envolver tanto o hardware
como o software.
Então vamos começar pelo lado "hardware" da inteligência humana. Quando você fala
em "hardware", está referindo-se ao cérebro humano?
Exatamente, refiro-me à memória e à capacidade de processamento do cérebro humano.
Tenho diversas análises de pessoas diferentes, inclusive de mim, que mostram que é preciso atingir uma
capacidade de cálculo entre 10
14
e 10
16
por segundo para recriar funcionalmente a capacidade do cérebro
humano. Assim, para estimular de modo realista todas as áreas do cérebro humano (várias centenas delas),
precisaremos contar com essa capacidade em um computador. Isso será atingido no final desta década
com o supercomputador; e em 2020 tal capacidade estará presente em um equipamento que custará por
volta de US$ 1 mil.
A questão seguinte envolve os softwares, pois sem eles não teríamos mais do que
calculadoras de alta velocidade. Temos de entender os princípios do funcionamento da inteligência humana
e, para isso, estamos envolvidos em outro projeto grandioso, que é a engenharia reversa do cérebro
humano. A situação é similar a do projeto genoma uma década atrás, o que quer dizer que se vem
ampliando em rítmo exponencial. Fizemos mais progressos do que as pessoas podem imaginar.
Estamos apenas obtendo as ferramentas para realizar a tarefa. Pela primeira vez, os scanners
de cérebro apresentam resolução alta o bastante para vermos os sinais individuais das conexões
interneuroniais em tempo real. Até pouco tempo, tecnologias como a da fMRI [abreviação de functional
magnetic resonance imaging, ou imagem por ressonância magnética funcional] só conseguiam mostrar
grandes grupos de células.
Agora, estamos conseguindo dados detalhados e mostrando que podemos transformá-los em
reproduções e simulações. Quinze regiões do córtex auditivo foram reproduzidas e simuladas em um
computador, por exemplo. Há também uma simulação do cerebelo, que é onde se formam nossas
habilidades e que abriga mais da metade dos neurônios existentes no cérebro.
Assim, o progresso já é maior do que as pessoas comseguem perceber.
Então, no longo prazo acontecerão mais coisas do que podemos supor......
Sim. As pessoas estão fazendo projeções de modo linear para o futuro. É um erro. Em meu
livro, eu abordo a diferença radical entre a tendência exponencial e a linear. Faz parte da intuição humana
achar que o progresso será linear, ou seja, seguirá no ritmo atual. Mas o ritmo do progresso está
acelerando-se e a ampliação das ferramentas em todas as áreas (informática, comunicações, compreensão
do cérebro e da biologia humanos) dobra todo ano. A tecnologia da informação já afeta profundamente
diversos aspectos de nossa vida e, se você imaginá-la multiplicada por 1 bilhão nos próximos 25 anos, verá
uma transformação imensa.
Em 2020 já deverá haver estruturas de software com os princípios de funcionamento de todas
as regiões do cérebro. Seremos capazes de aplicar esses padrões aos computadores, e, em 2029, estes
serão milhares de vezes mais poderosos do que o cérebro humano.
Que tem de tao importante colocar a inteligência humana em uma máquina?
Poderemos combinar as atuais vantagens da inteligência humana, sobretudo nossa
capacidade de reconhecimento de padrões, com os aspectos nos quais as máquinas nos superam. Os
computadores conseguem partilhar seu conhecimento a velocidades eletrônicas, por exemplo.
Hoje precisamos de anos para transferir o conhecimento para cada criança. Mas, com os
recursos da inteligência não-biológica, é possível apenas fazer o download dos padrões de um computador
que aprendeu as lições.
Além disso, os computadores sempre poderão ampliar-se tanto o hardware como o software
continuarão a evoluir de forma intensa, enquanto a inteligência humana, em si, permanecerá fixa.
Mas por que a inteligência humana é fixa? O tamanho do cérebro constitui uma
limitação?
O cérebro humano é limitado pelo tamanho e, mais importante, pelo paradigma do uso de
sinais, de gradientes químicos que se deslocam a poucas centenas de centímetros por segundo, o que é
milhões de vezes mais lento do que a velocidade eletrônica.
O cérebro não consegue reprojetar-se de modo a incorporar um método de informação 1
milhão de vezes mais veloz. É claro que no limite faremos exatamente isso - mas por meio da tecnologia, e
não da biologia. De acordo com minhas estimativas, temos uma capacidade de cálculo de 10
26
por segundo
nos mais de 6,5 bilhões de seres humanos. Daqui a meio século, a parte biológica de nossa inteligência
ainda será de 10
26
, mas a porção não-biológica será imensamente maior, porque está crescendo a uma
proporção de mais de mil por década.
Podemos dizer que a parte não-biológica de nossa inteligência excederá em grande medida a
porção biológica. Situei a singularidade em 2045, porque nesse momento a [capacidade da] parte
não-biológica [do homem] será 1 bilhão de vezes maior do que toda a porção biológica. Trata-se de uma
mudança profundamente transformadora. De acordo com meu modo de pensar, ainda assim será
inteligência humana. Não gosto do termo "transumano", porque pressupõe ultrapassar o aspecto humano e,
em minha opinião, ainda estamos falando da civilização humana. É "transbiológico": meu livro fala sobre a
superação da biologia, e não de nossa humanidade.
Importante: não se trata de uma invasão alienígena de máquinas inteligentes. Os
computadores já são parte muito importante de nossa civilização. Se todos os programas de inteligência
artificial do mundo fossem interrompidos amanhã, nossa civilização entraria em colapso: não seria possível
retirar dinheiro do banco e todos os sistemas de transporte e de comunicações seriam interrompidos.
Seu livro é assustador em certa medida, mas acredito que você fundamenta bem sua
teoria. A singularidade se parece com alguma coisa que já conhecemos? Trata-se apenas de um
grupo seleto de pessoas?
Não se trata de um grupo seleto. Se olharmos o que acontece com a tecnologia hoje, veremos
que apenas os mais ricos conseguem bancar as novidades assim que elas surgem, quando nem sempre
funcionam bem. Alguns anos depois, tudo funciona um pouco melhor e ainda custa caro, mas já é mais
acessível para maior número de pessoas. Com o passar do tempo, a tendência é custar menos e funcionar
melhor.
Então, os usuários de primeira hora, singulares, de certo modo são cobaias...
Isso mesmo, e em geral em um momento muito experimental. Veja só como os telefones
celulares custam menos hoje. No caso dos países asiáticos, o Banco Mundial estimou que a pobreza no
continente caiu pela metade e terá uma redução de 90% na próxima década. Em muitos desses países, que
hoje constituem prósperas economias baseadas na informação, há 15 anos a maioria da população puxava
arado.
Certo, porém essa não parece ser a percepção geral...
A percepção geral está errada.
Mas certamente essa é uma das barreiras que você vem encontrando em relação a suas
teorias, certo? A percepção das pessoas em relação ao que você diz...
Em geral, existe uma espécie de percepção anômala em relação às máquinas, mas ao mesmo
tempo há forte crença no progresso e na capacidade de solução de problemas atribuída à tecnologia. As
duas reações ocorrem simultaneamente. O processo de transformação de uma tecnologia nova e cara em
uma commodity de preço baixo e acesso fácil hoje leva dez anos, mas daqui a uma década bastarão cinco
anos e, em 20 anos, apenas dois ou três.
Isso está relacionado com outra tendência da duplicação do ritmo de mudança dos paradigmas
a cada década. Essas tecnologias se transformarão com muita velocidade. Vejamos o caso dos
medicamentos antiaids, uma tecnologia da informação. Há 15 anos, o gasto anual com medicamentos (que
não funcionavam muito bem) era de US$ 30 mil por paciente. O valor hoje é de US$ 100 nos paises pobres,
e o tratamento é eficaz.
Esta conversa me faz lembrar de uma cena do filme Matrix, na qual Trinity precisa pilotar
um helicóptero, mas não sabe fazer isso. Rapidamente, ela "baixa" as informações para pilotar o
aparelho. Isso faz parte da singularidade? Trata-se de uma semi-realidade possível para 2050?
Deixando de lado as anomalias, esse filme apresentou, sim, uma série de conceitos que fazem
sentido. A idéia básica de uma imersão total na realidade virtual é bastante realista. Você me perguntou
com o que a singularidade pode ser comparada. Para quem participar dela, será algo fantástico, porque
uma das aplicações dos nanorrobôs no cérebro será a imersão completa na realidade virtual dentro do
sistema nervoso. Se você quiser entrar em um ambiente virtual, os nanorrobôs "desligarão" os sinais vindos
dos sentidos naturais e os substituirão por sinais do ambiente virtual. Para seu cérebro, será como se você
estivesse no ambiente virtual, no qual você poderá ser um ator.
A criação dos ambientes de realidade virtual será uma nova forma de arte: alguns terão
inspiração no mundo que conhecemos, como uma praia do mar Mediterrâneo, mas outros serão pura
fantasia. As pessoas poderão ter um corpo diferente e não terão de ser quem de fato são.
E será possivel recorrer ao botão de "deletar" se as coisas começarem a dar errado,
certo?
Isso mesmo, o que é uma grande vantagem. Poderemos interromper uma chamada telefônica,
que é realidade virtual auditiva. Assim, o sexo virtual é mais seguro - por exemplo, não há riscos de
doenças sexualmente transmissíveis ou de gravidez e, no caso de violência ou de outras dificuldades,
pode-se abandonar a experiência. Sempre haverá esses "nichos de segurança".
Muito provavelmente passaremos grande parte do tempo nesses ambientes de realidade
virtual. Se contarmos com a nanotecnologia plena e conseguirmos criar as coisas físicas com grande
velocidade, também poderemos trazer parte dessas habilidades de adaptação veloz para a realidade.
Eu li que você toma 250 suplementos por dia para "renovar" a química de seu corpo e
que conseguiu eliminar o diabetes do tipo 2 de sua bioquímica. É verdade?
Bem, essa é outra questão importante, outro aspecto que gostaria de abordar, que é a
compreensão da longevidade humana. No ano passado, publiquei o livro Fantastic Voyage: Live Long
Enough to Live Forever, escrito em parceria com Terry Grossman. Nele discutimos o impacto dessas
tecnologias especificamente na saúde e na expectativa de vida das pessoas. Definimos três “pontes"
capazes de ampliar radicalmente a vida humana. Já estamos vivenciando a primeira delas, que consiste na
aplicação radical de todo o conhecimento atual para bem mais do que as desgastadas recomendações da
saúde pública.
Nós, da geração do baby-boom [crianças nascidas após a Segunda Guerra Mundial, quando houve uma
explosão demográfica], temos de nos esforçar muito para estar em boa forma daqui a uns 15 anos, quando
deverá ocorrer a segunda ponte, que é o pleno amadurecimento da revolução da biotecnologia. O grande
paradigma da biologia hoje é a tentativa de remoldar os processos biológicos, como a arteriosclerose, o
câncer ou a resistência à insulina, e reprogramá-los. Temos meios de “desligar" os genes com alterações de
RNA. Novos métodos permitem o acréscimo de genes responsáveis por “corrigir” a informação no
cromossomo certo. Podemos “ligar” e “desligar” as enzimas.
Para dar apenas um exemplo, o medicamento Torcetrapib, da Pfizer, consegue desativar uma
enzima necessária em determinado estágio da arteriosclerose. Os testes da segunda fase mostram que o
medicamento basicamente contém o processo de deterioração, mas não o reverte, e hoje o laboratório, está
investindo uma cifra recorde de US$ 1 bilhão nos testes da terceira fase. E esse é apenas um dos milhares
de avanços.
O pleno florescimento da revolução da biotecnologia deverá ocorrer em aproximadamente 15
anos. Também se trata de um processo exponencial. Quando isso acontecer, contaremos com ferramentas
muito poderosas para deter essas doenças e os processos de envelhecimento - e estaremos apenas na
segunda ponte. Em seguida virá a terceira, que envolve a nanotecnologia e nos permitirá ultrapassar as
limitações da biologia. O grande destaque dessa fase serão os nanorrobôs, aparelhos do tamanho de uma
célula sanguínea que poderão circular por nosso corpo e nosso cérebro e auxiliar na manutenção da saúde.
Assim, nosso livro fala sobre essas três fases, porém mais da metade da obra está dedicada à
primeira ponte, incluindo um guia prático para a reprogramação de nossa bioquímica nos dias de hoje. Não
dispomos atualmente dos recursos que teremos em 15 anos; no entanto, com a adoção de um programa
correto de suplementos nutricionais, é possível, por exemplo, reduzir drasticamente os níveis de colesterol.
Minha taxa de colesterol já chegou a 280, mas há muitos anos não passa de 130. Eu tive diabetes do tipo 2
e há 20 anos não tenho mais. Quase todos meus índices estão próximos do ideal hoje; há algumas décadas
não era assim. Como sou engenheiro, eu não me limito a tomar alguns medicamentos e esperar que as
coisas melhorem - só me movimento se puder contar com instrumentos de vôo. Regularmente faço 40 ou 50
exames, do tipo daqueles destinados a verificar os níveis do sangue.
Entendo, mas, para mim (e imagino que para muitas outras pessoas também), parece um
pouco de exagero. Há muito mais gente no planeta fazendo isso?
São poucos os que têm esse tipo de postura, mas tivemos diversos depoimentos animados de
pessoas que conseguiram superar complicações de saúde sérias utilizando as informações presentes no
livro.
Não se trata de um programa do tipo “receita única", pois nossa idéia é compreender cada
situação. Em minha opinião, exagero é alguém sofrer um ataque cardíaco, enfrentar um câncer ou qualquer
uma dessas doenças mais graves. Do ponto de vista filosófico, as pessoas podem advogar os aspectos
positivos da morte, mas na realidade é uma tragédia terrível.
Em toda essa discussão, parece que há uma idéia de viver para sempre. Neste momento,
conseguir imaginar uma vida sem morte parece radical demais para nossos cerebros humanos
pequenos e inferiores, não é?
No capítulo 7 do livro, chamado "Ich bin ein Singularitarian", eu apresento a idéia de seguir uma
filosofia capaz de incorporar essas mudanças significativas. Não estou tentando introduzir um novo conjunto
de dogmas, mas, em minha opinião, um Singularitarian é alguém que já pensou nessas coisas. Não se trata
de uma proposta que dura 20 minutos e acaba. Se eu coloco a questão para pessoas que jamais pensaram
em algo parecido, é comum que elas passem a enfrentar dilemas e dúvidas. Eu precisei de décadas para
desenvolver o assunto até aqui, pois não é um conceito de fácil digestão.
Para mim, trata-se de algo bastante libertador. Embora ainda não disponhamos dessas
tecnologias, acredito que podemos ter um grau de confiança bastante alto de que isso acontecerá. Essa
certeza talvez afete nosso comportamento atual. Podemos aplicar o conhecimento que temos hoje, que já é
bastante volumoso, com objetivo de nos mantermos em boa forma quando esses progressos forem
realidade.
Nós racionalizamos a morte e a doença como coisas positivas porque não tínhamos
alternativa. Diversas religiões, por exemplo, dedicam-se a apresentar a morte como algo positivo. Não
faltam filmes ou obras escritas sobre "a boa morte" - uma expressão que, em minha opinião, é uma
contradição.
Mas, na realidade, começamos a morrer já no momento do nascimento, não e isso?
Bem, podemos dizer que começamos a crescer no momento do nascimento. Eu acredito que
conseguiremos continuar fazendo isso. Não precisamos da morte para dar sentido à vida: o que realmente
dá sentido à vida é a expansão do conhecimento humano. Somos a única espécie que consegue transmitir
conhecimento de uma geração para outra, e nossa capacidade de compreender e de se beneficiar com o
conhecimento tende a continuar a se expandir em ritmo exponencial. Acredito que essas são notícias muito
boas. Não considero como conhecimento apenas as áridas bases de dados, mas também a música, a arte,
a ciência, a engenharia, a literatura e a valorização da história, entre outros.
Estou pensando no mundo dos negócios, onde sempre se falou muito sobre gestão do
conhecimento. As pessoas e as empresas estão preocupadas com a possibilidade de que os
profissionais da geração baby-boom se aposentem e Ievem consigo todas as informações que
possuem. Não vai ser assim então?
Estamos acumulando cada vez mais nosso conhecimento não-biológico e, ao mesmo tempo,
adquirimos ferramentas cada vez mais poderosas para ter acesso a esse conhecimento. As pessoas
perguntam como nos acostumaremos a todas essas mudanças, e respondo que basta ver a rapidez
com que as mudanças no mundo foram absorvidas. Com certeza, na Tom Peters Company!, vocês estão
atentos a isso. Há apenas três anos, ninguém achava viável ganhar dinheiro com propaganda na internet,
por exemplo. E, hoje, existem empresas com capital de bilhões de dólares que garantem a maior parte de
seu faturamento vendendo espaço de publicidade na internet.
A primeira referência à web, feita pelo hornal The New York Times, aconteceu em 1993. Como
se pode ver, as novidades são absorvidas com grande rapidez e não acredito que haverá hesitação para
aceitar a cura das doenças. Se alguém colocar no mercado um produto capaz de retardar o
envelhecimento, terá absorção muito rápida. O envelhecimento não é uma coisa boa, pois envolve perda de
nossas faculdades.
Sim, e certo que toda a geração do baby-boom está esforcando-se para desafiar o
envelhecimento, embora neste momento a questão pareça estar mais voltada para o aspecto
externo, como a cirurgia plástica. Talvez esse seja o começo...
Vamos encontrar maneiras melhores de resolver tudo isso.
Você chegou a dizer que a maioria das invenções fracassa porque o timing não está
correto. Mas você tem alguma idéia de timing em relação a seu corpo? Gostaria de ter nascido um
pouco depois? Quero dizer, você estabeleceu o ano 2045 como data com base em seu caso?
Considero o ano 2045 como um ponto de transformações muito profundas. Mas, com o
amadurecimento da revolução da biotecnologia, conseguiremos solucionar os problemas da biologia
dentro.de 15 anos. Neste exato momento hä muita coisa interessante sendo preparada e a cada ano vemos
mais e mais coisas acontecerem.
Pelo fato de me preocupar com o assunto e tê-lo estudado um pouco, e depois de ter escrito
dois livros sobre essas questões, estou confiante de que me encontro fora da curva. Tenho feito detalhados
exames de envelhecimento biológico.
Existe certa controvérsia quanto a essas avaliações, mas eu acho que elas nos fornecem
algumas informações razoáveis: determinam o nível bioquímico e identificam outros indicadores, como a
sensibilidade tátil, a memória e o tempo de reação, e depois os comparam com os padrões da população
em idades diferentes. Quando eu tinha 40 anos, de acordo com esses testes, contabva com uma idade de
38. Hoje estou com 57 e os testes atribuem a mim uma idade biológica de aproximadamente 40 anos.
Então quer dizer que você não envelheceu nos últimos 17 anos?
Bem, de acordo com esses testes, eu envelheci só dois anos. Minha intenção é voltar aos 38
antes de atingir a idade cronológica de 60 anos. Acredito realmente que estou envelhecendo bem devagar.
A prática de exercicios faz parte desse processo?
Sem dúvida, isso é muito importante. Nós combinamos uma série de idéias diferentes. O que
nosso programa tem de peculiar é a suplementação agressiva, com o objetivo de realmente reprogramar a
bioquímica das pessoas.
Por um lado, é muito bom priorizar o que é natural, e certamente existem diversos
componentes artificiais em nossa alimentação que não nos fazem bem. Mas, por outro, não basta apostar
apenas no que é natural. Nossos genes evoluíram quando não havia a preocupação para a espécie
humana em viver muito mais do que a idade que tenho hoje. No passado, as crianças contavam apenas
com os recursos da tribo, e as calorias eram escassas. Há 10 mil anos, a expectativa de vida era de 20 e
poucos anos e, em 1800, não passava de 37. Precisamos ir além da biologia para conseguir colocar nossa
bioquímica em um estado mais produtivo.
É isso que estou fazendo. Não posso dar 100% de garantia de sucesso, pois sempre podem
acontecer acidentes e por isso tomo muito cuidado quando dirijo.
E o que você me diz sobre a possibilidade de uma imensa descontinuidade?
Bem, eu me preocupo com os riscos existenciais dos aspectos negativos dessas tecnologias.
O capítulo 8 do livro trata da promessa e dos perigos da genética, nanotecnologia e robótica. Tem havido
muita discussão sobre os perigos da bioengenharia e da nanotecnologia de auto-replicação. Abordei esses
assuntos em 1999, no livro The Age of Spiritual Machines, e a revista Wired fez uma matéria de capa em
reação ao livro, intitulada "Por que o futuro não precisa de nós". Também escrevi recentemente um artigo
para o New York Times criticando a publicação do genoma da gripe 1918, porque seria mais fácil recriar a
enfermidade do que construir uma bomba atômica: a tarefa não exige materiais raros como o plutônio.
Seria uma interpretação utópica demais achar que tudo transcorrerá sem sobressaltos.
Até hoje nada foi assim, certo?
Exatamente. Mas também vale lembrar que essas grandes rupturas não impediram os
avanços tecnológicos. Cinquenta milhões de pessoas morreram na Segunda Guerra Mundial, porém o
crescimento exponencial da relação preço-lucro (PL) das empresas transcorreu tranqüilamente no decorrer
de todo o século, enfrentando altos e baixos, mais ou menos possibilidades, depressões e booms, períodos
de guerra e de paz.
Tendo a pensar que somos uma espécie bélica. Com a singularidade, isso poderá mudar
ou o que mudará serão os motivos dos conflitos?
Não afirmo que conseguiremos ficar livres de todos os conflitos. Acredito que teremos mais
conhecimento de nós mesmos e seremos capazes de identificar algumas fontes de disfunções humanas,
mas não creio que isso nos livre de todas as disputas.
Eu realmente acredito que os conflitos humanos estejam diminuindo. Podemos não ter essa
impressão porque hoje percebemos os conflitos com mais sensibilidade. Na Segunda Guerra Mundial, 20
mil pessoas podiam morrer em uma batalha e talvez duas semanas depois alguma imagem pouco definida
do episódio chegasse a algum cinema. Hoje temos imagens em tempo real de tudo que acontece. Existem
estudos que mostram que as guerras estão diminuindo, e acho que isso ocorre porque toda essa
comunicação eletrônica descentralizada contribui bastante para a democracia.
Quando abordei o assunto no livro The Age of Intelligent Machines, previ o colapso da União Soviética
porque as autoridades não seriam capazes de controlar a informação. Na realidade, o golpe contra
Gorbachev em 1991 fracassou graças a essa rede clandestina de aparelhos de fax e e-mails em
contraposição às máquinas de telex. Controlar as estações de rádio e a TV centralizada não bastava mais
para manter as pessoas alheias ao que ocorria. E essa rede de comunicação cresceu imensamente com a
internet e os blogs. Hoje existem milhões de blogs, até mesmo na China.
Participei recentemente de uma conferência na qual Rebecca McKinnon, estudiosa da
Harvard Uníversity, ressaltou que todos os mecanismos de busca de internet chineses operam com
censura prévia. Se alguem estiver na China e procurar por "Praça da Paz Celestial", não obterá
nenhum resultado...
É verdade, mas é uma censura marginal.
De certa maneira, a especialista vê o fenômeno se espalhar porque atualmente empresas
norte-americanas estão desenvolvendo programas para o mercado chinês e incluindo os
mecanismos de censura neles. Ou seja, de certa maneira, a prática está tornando-se parte do
código-base...
Mas isso não equivale a interromper o fluxo de comunicação.
Não sei se é bem assim...
Existe certa informação “delicada", que as pessoas compreendem que não podem divulgar,
mas o que isso representa? É 1% do que é dito? Isso não basta para alterar o fluxo da democratização,
esse enorme poder da comunicação descentralizada. Eles não estão detendo os avanços da internei, mas
apenas impondo censura a algumas questões.
E você não considera isso grave?
Com certeza eu não apóio isso, mas não vejo como um fator capaz de frear realmente a
natureza dessa tendência.
E isso basta...
Outro assunto que as pessoas debatem é o das células-tronco. A oposição do governo [dos
EUA] tem conseguido interromper o processo da biotecnologia? Não! Acho que é bastante parecido. Há
pedras no rio, mas elas não impedem a passagem da água. Até na restrita área da biotecnologia chamada
de "transdiferenciação", que é a essência da questão das células-tronco, tem havido um progresso imenso.
Sou favorável às pesquisas e contrário às proibições, mas, deixando de lado os aspectos éticos e políticos
não queremos usar as células-tronco embriônicas de qualquer maneira, porque existem poucas delas e o
DNA não combina com o receptor. Eu quero que se criem células pluripotentes a partir das células de minha
pele, processo que foi demonstrado recentemente. A questão é que a oposição às pesquisas sobre células
tronco não está obstruindo os progressos na biotecnologia.
Muito obrigado, Ray. Gostei da conversa que tivemos. Sempre quis conversar com você
sobre um de seus livros!
Eu também gostei da entrevista, foi divertida!

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Os novos alquimistas1

  • 1. OS NOVOS ALQUIMISTAS Uma nova era está sendo criada pela complexidade e pela convergência entre novos materiais, novos modelos, biocomputação, neurociência, entre outros componentes. Isso está mudando a sociedade e abrindo novas e múltiplas oportunidades de negócios e também ameaças. É o que garante Christopher Meyer nesta entrevista exclusiva. A ciência e os negócios parecem atuar em espaços e tempos diferentes: orientada em longo prazo, a ciência pertence ao âmbito do laboratório; atentas ao mercado, as empresas se concentram em gerar ganhos o mais rápido possível. Mas no livro It's Ative o sr. sugere que as empresas demoram cada vez menos para capitalizar as inovações... Geralmente costumamos pensar que, em grande medida, o mundo permanecerá tal como está até o resto de nossas vidas. No entanto, como apontou Ray Kurzweil, o índice de progresso tecnológico duplica a cada década. Isso significa que, se alguém prevê que algo demorará 50 anos para ocorrer, na realidade se equivoca: acontecerá em menos de 20. Acostumadas às estimativas dos anos 90, as pessoas não percebem que a tecnologia avança cada vez mais rápido, e o que ocorreu há uma década teria levado meio século para o que hoje leva 20 anos. Talvez não possamos definir com precisão nem detalhes as mudanças, mas é possível antecipar o que ocorrerá de modo geral. Assim como a Revolução Industrial, que surgiu de descobertas em química, termodinâmica e eletricidade, modificou as técnicas de fabricação - estas, por sua vez, provocaram mudanças na sociedade, nas táticas de guerra, na demografia e no estilo de vida - os atuais avanços em ciência e tecnologia terão profundos efeitos em nossas organizações econômicas e sociais. Alguns poderão pensar que se trata de tendências de longo prazo; no entanto, toda empresa voltada para a fabricação deveria estar informada dos desenvolvimentos na ciência dos materiais, para poder elaborar produtos de melhor qualidade, mais baratos e que não danifiquem o meio ambiente. O mesmo ocorre com as companhias que atuam no mercado de cuidados com a saúde ou na agricultura: sem exceção, elas têm de prestar atenção ao que ocorre no campo da biotecnologia. Por sua vez, as firmas de comunicação ou de publicidade precisam analisar como as novas gerações utilizam as redes e encontrar uma maneira de manter contato com elas. Todas teriam de pensar que a forma da organização corporativa, que surgiu no século 19, provavelmente não seja apropriada para atuar no século 21. Quais são os principais avanços científicos aos quais devemos dar mais atenção? O primeiro grande grupo tem a ver com a “ciência molecular”. Uso esse tema para indicar que a biotecnologia, a ciência dos materiais e a nanotecnologia aproveitam os novos conhecimentos sobre o comportamento das moléculas e as ferramentas necessárias para a sua manipulação. Os chamados “nanomanipuladores" são máquinas capazes de movimentar átomos individualmente, desenvolvidas no âmbito da ciência dos materiais e da microeletrônica com o objetivo de fabricar chips cada vez menores. O segundo avanço importante está vinculado à ciência das redes, ou seja, a área da matemática que explica a forma como crescem e se comportam os sistemas interconectados, como o sistema nervoso ou a internei.
  • 2. O terceiro avanço-chave é o dos modelos de simulação baseados em agentes; está muito ligado à ciência das redes, porque, quanto mais as entendemos, maior é nossa capacidade de criar simulações que sejam reflexo das decisões, as quais, de forma metafórica, vão desde as de um gene para regular outro gene até aquelas que uma pessoa normalmente toma. A capacidade de simular comportamentos individuais, assim como as interações com os modelos de agentes, nos permitirá usar o que aprendemos das ciências molecular e das redes para administrar as empresas. Quais áreas serão mais afetadas por essas correntes? Sem dúvida, a fabricação será transformada por tudo que temos aprendido no âmbito molecular. As duas aplicações mais significativas em termos quantitativos são relativas a revestimentos de superfícies e cosméticos. Como resultado da incorporação de elementos em escala manométrica, obtêm-se as tintas mais brilhantes para automóveis, que não descascam, e cosméticos de melhor qualidade. Há também muitos avanços no campo da biologia que provocam impacto nas indústrias farmacêutica e de alimentação e na agricultura. A empresa Cyrano Sciences, por exemplo, criou um dispositivo que identifica odores: o Cyranose. Essa tecnologia permitirá aos médicos diagnosticar infecções a partir do ar exalado por uma pessoa, assim como servirá a aplicações militares, podendo detectar produtos tóxicos na atmosfera. Por outro lado, os avanços no estudo das redes já são capitalizados por empreendimentos na indústria dos meios de comunicação. Um exemplo é o ATTAP (sigla em inglês de all things to all people, ou tudo para todos), que analisa como o comportamento de um indivíduo na internet pode corresponder ao de outros, para então disponibilizar essa informação em uma rede de pessoas com interesses similares. Que forças impulsionam esse tipo de desenvolvimento? A mais importante é o poder do processamento barato. O maior mercado de supercomputadores da IBM está na biologia. As pesquisas sobre o genoma, por exemplo, demandam tanta capacidade de processamento que seriam impossíveis sem os benefícios do cálculo barato. O segundo fator está relacionado às redes. Há alguns anos, Duncan Watts, diretor do projeto SmallWorld e conhecido internacionalmente por ter atualizado a teoria dos "seis graus de separação", escreveu um ensaio extraordinário no qual demonstrava a semelhança entre a estrutura matemática do sistema nervoso do nematódeo (um helminto microscópico que se alimenta de raízes), a rede de energia elétrica da região oeste dos Estados Unidos e a ligação disso com as estrelas de Hollywood. São três tipos diferentes de rede: a primeira se desenvolve biologicamente; a segunda é construída por engenheiros; e a terceira constitui um processo sociológico. De certa forma, elas apresentam uma estrutura matemática idêntica. Uma das palavras-chave na ciência atual é “bio-computação”. Em que consiste e quais são suas aplicações nos negócios? Biocomputação significa que, se podemos expressar o código biológico como código computacional, tudo que sabemos fazer com o código digital pode ser aplicado à análise e simulação dos sistemas biológicos. E é isso o que está acontecendo: cada vez mais sistemas biológicos são projetados, e a pesquisa em medicina avança por meio da simulação "em sílicio", isto é, feita pelo computador. Há alguns anos, por exemplo, um grupo de pesquisadores conseguiu simular o músculo cardíaco, e a FDA (Federal Drug Administration), dos Estados Unidos, aprovou a simulação como prova daquilo que se imagina ser a batida cardíaca. A partir dessa descoberta, simulou-se o funcionamento
  • 3. completo do coração, para que fosse possível estudar os efeitos das diferentes drogas. Outro exemplo da convergência da simulação para as ciências moleculares é o Institute for Systems Biology, que trabalha com simulações para o estudo do funcionamento dos órgãos em nível celular. O eixo de It's Alive é a eminente convergência entre a tecnologia da informação, a biologia e os negócios. O sr. Acaba de dar exemplos das duas primeiras. Como os negócios se integram com essa equação? Os algorítmos genéticos são um bom exemplo de sistemas informáticos inspirados em modelos biológicos para a resolução de problemas nas organizações.John Deere os aplicou para melhorar a eficiência de suas fábricas de máquinas semeadoras. Para a empresa, tornava-se muito difícil projetar os cronogramas das linhas de fabricação, já que há mais de 1 milhão de configurações diferentes para máquinas que devem adap- tar-se a diferentes condições de cultivo e de sementes. Algumas têm dosadores de plástico que armazenam fertilizantes e inseticidas; outras operam mecanicamente, enquanto há alguns modelos que funcionam por sistema hidráulico. O problema consistia em criar o cronograma ideal ou a melhor sequência de fabricação de diferentes máquinas semeadoras. Depois de experimentar diversas técnicas sem bons resultados, John Deere recorreu aos algoritmos genéticos, que se baseiam nos princípios da evolução e cujo ponto de partida é o conjunto de máquinas a fabricar. Com isso, muitos cronogramas foram gerados, assim como simulação do rendimento de cada um. Depois de escolhidos os melhores e após a etapa de "criação", eles são "recombinados" para criar um cronograma "filho". Cada noite são criados e avaliados 40 mil cronogramas, e os melhores são utilizados na fábrica no dia seguinte. Que outras empresas utilizam algoritmos genéticos? A General Electric (GE) os utilizou para melhorar o desenho do motor do Boeing 777, e a Marks & Spencer, para avaliar as solicitações de cartões de crédito. Em poucas palavras, os algoritmos genéticos traduzem noções de evolução, como a recombinação genética, para a matemática. Mas a evolução também oferece lições para a gestão de empresas. Quais? O que impulsiona a evolução é a diversidade: maior variedade no "pool genético" - ou seja, o conjunto da informação genética de uma população em determinado momento -, maior originalidade nas espécies. Nos Estados Unidos, por exemplo, são cultivados quatro tipos de milho, com os quais, conforme o clima, é possível obter rendimentos máximos. No entanto, o Departamento de Agricultura guarda centenas de cepas que lhe permitirão desenvolver uma variedade de milho para se adaptar melhor ao ambiente, em caso de ocorrência de mudanças climáticas ou de pestes que afetem as quatro variedades cultivadas. Assim, a diversidade se torna um ingrediente fundamental. O segundo algoritmo é a recombinação - o processo por meio do qual dois genomas são combinados para criar um novo. E, por último, a pressão seletiva ou sobrevivência dos melhores, a dos mais aptos para se adaptar ao ambiente. Nesse caso, a forma de inovar das empresas pode ser vista como evolucionista, ou seja, um processo regido pelas leis da diversidade, da recombinação e
  • 4. da pressão seletivo. Antes as organizações costumavam formar grupos de pessoas com antecedentes parecidos, que compartilhavam expectativas semelhantes. Na época da industrialização, esse enfoque fazia sentido, porque as empresas, em termos biológicos, eram de "monocultura” e, como tais, podiam ser muito eficientes para alcançar altos rendimentos. As companhias denominadas "adaptativas", por sua vez, caracterizam-se pela grande variedade: congregam pessoas provenientes de culturas diferentes, com idioma, formação e experiências distintos. A segunda característica é a recombinação de idéias: são empresas que sempre se reorganizam porque sabem que criar novas aproximações entre pessoas e atualizar as redes de contato aumenta a flexibilidade e a capacidade de adaptação. Elas promovem a rotatividade da equipe, designando aos funcionários diferentes funções e criando oficinas abertas que incentivam a comunicação. O terceiro ponto é a pressão seletiva. Às vezes, existem muitas novas idéias, mas isso não significa que são boas, ou há tantas boas idéias que talvez seja impossível desenvolver todas; em ambos os casos, é preciso encontrar a forma de selecionar as melhores. Nos Estados Unidos, o treinador de uma das principais equipes de beisebol aplicava a seguinte regra: cada ano, um dos oito jogadores estaria fora da equipe e se ausentaria na temporada seguinte. Isso levava a uma grande pressão. O que aconteceria se um alto executivo fosse substituído cada ano? O efeito seria interessante, porque garantiria a sobrevivência dos melhores. No entanto, as mudanças no mercado e a astúcia dos concorrentes, entre outros fatores, também causam pressão. Por que seria necessário tomar medidas internas? O problema é que as empresas não assimilam a pressão externa antes que seja tarde demais. Sempre percebem que o mundo ao redor muda, mas não conseguem adptar-se a ele porque, enquanto o mercado é regido por suas próprias leis econômicas, o sistema interno é determinado por jogos políticos e de poder, que são forças bem mais conservadoras. De que forma elas podem aumentar sua capacidade de adaptação? Percebemos que as empresas adaptativas se caracterizam pelas capacidades de perceber e reagir e de aprender a se adaptar. Assim como um ritmo cardíaco inalterável é sinal de coração doente - porque o normal é que varie de acordo com as emoções e a velocidade em que trabalha, entre outros fatores -, as organizações que procuram ser muito estáveis não aproveitam o feedback que seu ambiente proporciona em dois sentidos. Um deles é o que chamamos "perceber e reagir", e equivale a captar de imediato as variações nos mercados e a elas reagir. O segundo é identificar os erros e com eles aprender. A Amazon, por exemplo, cada vez que recebe uma reclamação de cliente, analisa a ocorrência e determina o que deve ser mudado. Em síntese, as empresas adaptativas percebem e reagem às variações no mercado e em seguida avaliam a efetividade das respostas, procedendo aos ajustes necessários e aprendendo com seus erros.
  • 5. AS NOVAS CIÊNCIAS Segundo uma das versões da lenda, o filósofo e geômetra Tales de Mileto caminhava absorto na contemplação das estrelas quando tropeçou e caiu num poço. A criada trácia que o acompanhava o fez perceber, risonha, que, enquanto ele estudava o céu com paixão, não enxergava o que estava diante de seu nariz nem sob seus pés. Dessa forma, a atitude pragmática zombava da aparente inutilidade da teoria pura. Uma versão posterior inverteu os termos. Nela, Tales previu que haveria uma boa colheita de azeitonas e alugou com antecedência (e sem gastar muito, pois ninguém concorreria com sua oferta) os moinhos de azeite de Mileto e Quios. Quando a época da colheita chegou e a demanda disparou, ele sublocou as instalações por um preço muito bom, demonstrando, assim, que se pode obter sucesso nos negócios por meio do conhecimento dos fenômenos celestes. Stuart Kauffman estuda sistemas que estão muito mais próximos de nós, embora nem por isso sejam mais fáceis de compreender. Os modelos que projetou simulam desde o comportamento da cadeia de distribuição até a evolução tecnológica e biológica, permitindo que empresas como Unilever e Procter & Gamble, entre outras, tornassem seus processos mais eficientes. Claro que, como boa teoria que é, a complexidade exige um esforço de abstração. Mas a dedicação rende muitos frutos nesse caso, e é por isso que há cada vez mais pesquisadores de management; dedicados a ela. Um deles é Daniel Levinthal, professor da Wharton School, que a utiliza para a elaboração de estratégias eficazes. Nesta entrevista exclusiva a HSM Management, Kauffman se refere às possibilidades que o novo campo científico abre e sua utilidade para as organizações. Em que consistem as ciências da complexidade? Não há uma resposta simples a essa pergunta. O que acontece é que estamos atravessando um período de transição na ciência. Deixamos para trás 350 anos de ciências reducionistas, que separavam as coisas, e passamos para uma era na qual estamos tentando juntá-las. Sempre soubemos que elas teriam de ser reunidas, pos Newton o fez com a lei da gravidade universal. A novidade é que agora temos computadores e podemos observar os sistemas e suas partes enquanto interagem de formas muito diferentes, assim como estudar o comportamento de um sistema em sua totalidade, constituído por todas essas interações. Os físicos diriam que podemos observar o comportamento coletivo de muitas partes diferentes. É isso que está impulsionando as ciências da complexidade em todas as áreas. Chaman-se “da complexidade” porque há muitas variáveis interagindo com outras. A disciplina nasceu há 20 anos, no Santa Fé Institute, do Estado do Novo México, Estados Unidos. Muitas idéias que hoje são trabalhadas pelos departamentos de física, biologia, sociologia, economia e pelas escolas de administração de empresas e de direito de muitos países surgiram ali. Ao mesmo tempo, a biologia é uma fonte ,muito rica em idéias para as ciências da complexidade, embora minha opinião possa ter sofrido influência, porque sou biólogo. Outras fontes são a economia, a física e, em menor grau, as ciências da computação.
  • 6. Quais os métodos ou ferramentas utilizados para estudar a complexidade? Começou-se com modelos computacionais de sistemas complexos de equações matemáticas. Eram equações que não podiam ser analisadas por meio de técnicas matemáticas clássicas, mas sim com um computador. Depois chegou o desenvolvimento de modelos baseados em agentes. Um exemplo desse tipo de modelos é o que Andy Illachinsky desenvolveu para o Center for Naval Analyses (CNA), dos Estados Unidos. É um modelo de campo de batalha no qual cada soldado tem diferentes “propriedades”, tais como a distância a que sua arma sua arma poderia disparar, a precisão com que dispararia, sua probabilidade de escapar do fogo inimigo ou de socorrer um soldado ferido, entra outras. O soldado é um "agente" e, como tal, tem um cojunto de propriedades ou “genótipo”. Illachinsly criou genótipos para os soldados de cada bando, em um modelo de grade de duas dimensões que simula o campo de batalha. Ao fazer mudanças nas propriedades dos agentes, modifica-se comportamento coletivo do exército, que descrevem e resolvem equações, nos modelos baseados em agentes oferecemos as propriedades dos agentes e depois permitimos que eles interajam, para ver o que acontece. Como se aplicam nos negócios esses modelos baseados em agentes? Na BiosGroup estudamos, por exemplo, a cadeia de distribuição da Procter & Gamble (P&G). Fizemos um modelo que levava em conta, entre outros fatores, os depósitos, os caminhões, as caixas de mercadorias carregadas nos caminhões, a capacidades destes de reabastecer as lojas onde certos artigos se esgotavam e a fabricação de produtos. E observamos de que forma as mudanças produzidas em diferentes aspectos da cadeia repercutiam na operação – por exemplo, o que acontecia quando se acumulava mercadoria nos depósitos ou se ampliava ou reduzia o tempo que os produtos demoravam em chegar ao mercado. E o que descobriram? Várias coisas interessantes. A P&G insistia em enviar os caminhões com sua carga completa, mas descobrimos que esse procedimento é muito ineficiente e que o rendimento melhora se os caminhões vão parcialmente carregados. Embora o custo por pacote seja mais alto, a flexibilidade gerada compensa com juros esse aumento de custos. A P&G modificou suas operações a partir dessa descoberta. Também descobrimos que existem várias formas de reabastecer um grupo de lojas vizinhas. Todas essas coisas aumentam consideravelmente a eficiência da cadeia de distribuição. Como se obtém a informação sobre as propriedades dos agentes? Da observação ou da dedução? É uma combinação das duas.Tentamos ser inteligentes e deduzir o modelo, mas também saímos para nos informar sobre o que as pessoas estão fazendo. No caso da P&G, conversamos com o pessoal da companhia. ndy Illachinsky, no Center for Naval Analyses, aproveitou seu conhecimento das táticas militares e das características dos soldados. Depois, os margines tomaram seu modelo para entender como as mudanças no genótipo dos soldados modificam o resultado da batalha.
  • 7. Somente as propriedades dos agentes determinam o resultado final? Não há regras externas? Sempre há regras externas. Um dos problemas que resolvemos na Bios estava relacionado com a recolocação de tanques que continham gases como oxigênio e nitrogênio. Nosso cliente era uma empresa fornecedora dessas substâncias, que tinha que levar os tanques de um comprador a outro. Nesse modelo, a rede viária era uma propriedade ou variável externa que devíamos levar em conta para otimizar o tempo de viagem. Que outras lições as ciências da complexidade oferecem ao mundo dos negócios? Há um modelo para resolver um problema de fluxos de trabalho em uma oficina industrial. A idéia é que uma empresa tem determinada quantidade de máquinas e certo número de objetos para fabricar, e para cada objeto devem ser utilizadas as máquinas durante um tempo e ordem predeterminados, que poderiam ser diferentes para cada um deles. O tempo total que demanda a fabricação de um grupo de objetos recebe o nome técnico de "intervalo de produção". Se o intervalo é longo, podem ser encontradas várias maneiras de fabricar os produtos, mas, à medida que ele diminui, as possibilidades se reduzem e é mais difícil resolver o problema de encontrar a distribuição mais eficiente dos objetos nas máquinas. Intuitivamente, tendemos a pensar que a melhor solução é um programa com o menor intervalo possível. No entanto, em tais casos, acontece que, quando uma máquina falha, tudo é derrubado e a conseqüência é catastrófica. Se, no entanto, o intervalo de produção se estende um pouco, podem ser desenhados programas alternativos que são igualmente bons e também permitem evitar a queda do sistema. De modo que é preciso encontrar um equilíbrio entre a otimização do intervalo de produção e a fragilidade que leva a falhas catastróficas. Na Bios fizemos um trabalho para a Unilever com base nessas noções. A Unilever tinha um problema de fluxo de trabalho: eles haviam otimizado o fluxo para minimizar o tempo requerido para realizá-lo, mas tropeçavam em falhas catastróficas. Demonstramos que. Se aumentassem até certo ponto, e não além desse ponto, a capacidade de produção, aumentariam a flexibilidade e não teriam tais falhas. Foi assim que resolveram o problema com um investimento de US$ 1 milhão, em vez de gastarem US$ 20 milhões. Essa idéia também se aplica à estratégia ou à logística militar, em que há sempre um debate entre ter a estratégia mais eficiente, que pode ser frágil, e a mais sólida, que pode custar um pouco mais, mas evita problemas. Várias escolas de administração de empresas utilizam seu modelo NK, para o desenho de estratégias. O sr. poderia nos explicar em que consiste? É um modelo bastante simples. Imaginemos uma cadeira composta por três partes-encosto, assento e pés - e que cada parte pode ser de metal ou de plástico. Desse modo, há oito cadeiras possíveis: uma totalmente metálica; uma com pés e assento de plástico e encosto de metal; uma com pés e assento de metal e encosto de plástico etc. O modelo NK começa com um objeto que tem N partes (nesse caso, três) e cada uma delas pode estar em vários estados alternativos (metal ou plástico). A idéia é que cada parte faz uma contribuição para a função do objeto completo (a cadeira), que depende do material dela (metal ou plástico) e do material das outras partes, ou seja, depende da parte em si e de K outras partes, daí o modelo chamar NK. Todo o resto é aleatório. Se você decide que K é 2 e N é 3, terá um objeto em três partes, cada uma delas contribuindo para a aptidão total. Depois se determinam ao acaso cada parte e as outras duas, e todas as combinações possíveis dessa parte e das outras, e se designa uma contribuição de
  • 8. aptidão seguindo alguma distribuição matemática, como o intervalo uniforme entre zero e um, ou seja, designa-se um decimal ao acaso. Dado um objeto com um conjunto de partes, soma-se a contribuição de todas elas e divide-se o resultado pelo número de partes, para assim obter a aptidão do objeto. No caso da cadeira, a aptidão poderia ser quanto ela é confortável ou quanto custa produzí-la. A conseqüência disso é um conjunto de objetos (cadeira), cada um ao lado do seguinte, com uma distribuição de alturas como em uma cordilheira, na qual o cume mais alto representa o melhor objeto (a melhor cadeira). O pesquisador pode trabalhar com essa paisagem adaptativa e ver o que acontece quando modifica uma parte de cada vez. Isso é o que chamamos “trabalho de adaptação”. Podemos aprender muitas coisas com esses modelos. Por exemplo, as curvas de aprendizado na economia. A análise de paisagens adaptativas é um exemplo de olhar sobre o todo, típico das ciências da complexidade e com todo tipo de implicações. Implica, por exemplo, que, quando uma pessoa não é muito boa em algo, ela tem muitas formas de melhorar, mas, à medida que se aperfeiçoa, fica-lhe mais difícil continuar avançando. No início, há muitas ramificações ou direções possíveis, mas as possibilidades se reduzem à medida que ela progride. É o que se vê na evolução biológica, o chamado "rebote pós-extinção". Depois de um episódio de extinção, formam-se novas espécies, que têm enorme quantidade de variáveis menores, até que a mudança se detém. Essa característica básica da evolução biológica é também um rasgo essencial da evolução tecnológica. Os primeiros aeroplanos inventados pelos irmãos Wright eram muito diferentes dos que foram fabricados uma ou duas décadas depois. Os primeiros aparelhos tinham sete asas, seis asas ou uma asa e o motor na frente ou na parte posterior, até que, em poucos anos, o desenho estabilizou-se.
  • 9. A NOVA NATUREZA HUMANA Em um futuro não muito distante, quando próteses sintéticas aguçarem nossos sentidos e implantes cerebrais melhorarem nosso desempenha, talvez se torne possível mover objetos e até alterar nossos sistemas endócrino e imunológico com o pensamento, como escreve Susan Greenfield, especialista da Royal Institution of Great Britain. Como espécie, provavelmente não aceitaríamos bem a idéia de uma reforma de nossa mente. À medida que as tecnologias cada vez mais nos surpreendem e chocam, normalmente buscamos refúgio em nossa natureza humana e em nossa obstinada disposição de amar, odiar e fazer vingança, como faziam nossos ancestrais da Grécia antiga. Então por que, agora, na virada do século 21, deveria ser rompido o último dos bastiões? Para entender como, pela primeira vez em quase 100 mil anos, nossas mentes podem ser radicalmente transformadas, precisamos primeiramente explorar o que a mente humana realmente pode ser como realidade física. A mente humana é moldável Quanto mais aprendemos da neurociência, mais parece que, em vez de ser uma antítese alternativa ao cérebro, a mente tem um substrato físico na pegajosa massa cinzenta entre nossas orelhas. Vejamos primeiramente como o cérebro realmente é organizado. A unidade de trabalho básica ali é uma célula cerebral (neurônio), porém ainda mais importantes são os circuitos de células cerebrais, que depois viram conjuntos complexos que formam macroestruturas cerebrais reconhecíveis. Cada uma dessas estruturas cerebrais é como um instrumento em uma orquestra: elas podem desempenhar muitas funções, de acordo com as combinações e o grau em que estão operando em determinado momento. No ato de ver, por exemplo, existem pelo menos 30 regiões diferentes do cérebro envolvidas. No entanto, em termos de anatomia grosseira, todos os cérebros parecem ser praticamente iguais. Se estivéssemos procurando uma mente, ou individualidade, ela não residiria em nenhuma estrutura altamente variável. De fato, a noção de um cérebro dentro de um cérebro não só não faz sentido, como também é inútil. A mente tem ainda menos probabilidade de residir nos componentes mais básicos que permitirão às células cerebrais trabalhar dentro dos conjuntos: os genes. Estes fazem proteínas, mas não têm uma missão própria. Eles não são obstinadamente predispostos a escravizar o cérebro para seus próprios propósitos; ao contrário, estão ali como pequenos, porém importantes, participantes que são necessários - mas não suficientes - para características mentais complexas. Quer um exemplo de como é importante a interação entre natureza e experiência de vida? Pense em um estudo de alguns anos atrás em que ratos que foram criados deliberadamente para carregar o gene aberrante para a doença de Huntington. Trata-se de uma doença neurodegenerativa caracterizada por um distúrbio grave de movimento que, diferentemente do que ocorre na maioria dos distúrbios cerebrais, está relacionada com um único gene trapaceiro. Pois bem. Quando os ratos que eram geneticamente fadados a desenvolver o distúrbio recebiam estímulos ambientais – tubos de papelão e rodas com os quais interagir - desenvolviama doença em uma idade bem mais avançada e sua deficiência de movimento era muito menor. Com esse estudo, fica óbvia, portanto, a relação - ainda que indireta - entre o gene e a conduta mental, uma vez que o cérebro humano é ainda mais sensível ao
  • 10. ambiente do que o cérebro do rato. E a relação tende a ser mais estreita ainda em enfermidades em que agem múltiplos genes. Os genes são importantes pelo fato de produzirem proteínas, mas essas proteínas, assim como as regiões cerebrais, podem ter muitas funções. Nas regiões cerebrais, os genes se conectam e desconectam ao longo da vida toda e as proteínas que eles produzem, por sua vez, mudam as configurações das conexões das células cerebrais. O que causa essas mudanças é simplesmente a interação contínua com o ambiente. Por essa razão, a velha dicotomia "natureza versus experiência de vida" - ou seja, a herança genética versus os fatores ambientais - não se sustenta. Na verdade, a interação interminável entre os estímulos do ambiente e a química do cérebro é o que leva a mudanças na conectividade dos neurônios, o que, por sua vez, determina, literalmente, como você vê o mundo. É a essa personalização de conexões de células cerebrais por meio da experiência, oriunda do diálogo constante com o mundo exterior, que eu dou o nome de "mente". Você nasce em meio a uma confusão crescente e ruidosa, quando avalia o mundo em termos de doçura, rapidez, frio, brilho e assim por diante. Mas gradualmente essas sensações abstratas se juntam a rostos ou objetos que, no final, ganharão rótulos e significados, desencadeando cada vez mais associações à medida que forem surgindo. Essa plasticidade do cérebro tem sido documentada não apenas em ratos de laboratório, nos quais a mera exposição a rodas e escadas pode aumentar a quantia de conexões, mas também em seres humanos. Talvez o exemplo mais fascinante recentemente seja o relatório mostrando que os motoristas de táxi de Londres, com a memória de trabalho sobrecarregada com o desafio extra de lembrar todos os nomes de ruas da cidade, têm uma parte de seu cérebro maior do que a da maioria das pessoas. Então, a conclusão é elementar: se o cérebro é tão sensível à mudança, qualquer coisa no ambiente, ou qualquer coisa que vise essas conexões cerebrais, pode mudar a mente. Neurochips Então, o que acontecerá com nossa mente no século 21, quando finalmente todas as promessas das descobertas científicas do século 20 estiverem subitamente proporcionando rápida e furiosamente uma cornucópia de tecnologias? O brilhante trabalho de Peter Fromhertz na Alemanha, entre outros, mostrou que agora é possível fazer com que as células nervosas humanas cresçam em circuitos integrados. Essa idéia imediatamente dá origem ao neurochip, no qual as excelentes propriedades eletrônicas das células cerebrais podem ser exploradas para a produção de neurochips híbridos de carbono e silício. E, se esses sinais elétricos gerados por células cerebrais puderem se comunicar diretamente com os sinais elétricos gerados no silício, então ocorre que não apenas podemos ter um novo tipo de computador mas que se poderiam implantar eletrodos dentro do cérebro. Por exemplo, na Emory University, um paciente paralisado do pescoço para baixo já pode "ordenar" por pensamento que um cursor se mova em uma tela de computador: um implante faz com que um pensamento seja transformado em um movimento para compensar seu sistema motor lesionado. Então, em um futuro não muito distante, quando não apenas as próteses sintéticas aguçarem nossos sentidos, mas os implantes cerebrais melhorarem nosso desempenho, talvez se torne possível mover objetos com o pensamento e até alterar
  • 11. nossos sistemas endócrino e imunológico com o pensamento. Além disso, todas essas informações serão lidas por minúsculos dispositivos nanotecnológicos dentro do corpo. Outra barreira que será, portanto, cruzada é a existente entre mental e físico, entre objetivo e subjetivo. E, da mesma forma que o advento dessa tecnologia da informação (TI) invasiva e incrivelmente sofisticada mudará a maneira como enxergamos o mundo e como enxergamos a nós mesmos, também inevitavelmente mudará a maneira como trabalhamos. Em um mundo caracterizado pelo crescimento do comércio eletrônico, robôs e bancos de dados estão gradualmente substituindo os especialistas. Portanto, a terceirização e a subcontratação substituirão a hierarquia corporativa, dado que as pessoas trabalham de maneira independente - como fre-lancers - a partir de onde quer que estejam - até de suas casas. E será cada vez mais difícil definir que parte da vida cotidiana será atividade mental recreacional distinta do trabalho. Outra mudança importante que a TI pode trazer é uma força de trabalho cada vez mais velha, livre da necessidade de exercitar habilidades físicas ou até mesmo de ser extremamente móvel. Pode ser que estejamos enfrentando um mundo onde a aposentadoria se torne coisa do passado. Os avanços das tecnologias desafiarão a própria noção de vida. Por exemplo, as biotecnologias estão prometendo genes adicionais aperfeiçoados, que podem até ser sintéticos e talvez se apóiem em cromossomos artificiais sem interferir nos genes naturais. Além disso, a engenharia de uma linha de células embrionárias que têm o material genético de uma geração permitirá selecionar os genes de forma mais eficiente, sem a enorme responsabilidade de inculcar essa característica por gerações. E somemos a esse cenário a possibilidade de extrair material genético de qualquer célula do corpo, de forma que qualquer pessoa de qualquer idade esteja em condições de reproduzir-se. É razoável imaginar que isso pode sinalizar o fim da vida como a conhecemos. Se qualquer pessoa de qualquer idade puder ter um filho com qualquer pessoa, então as barreiras entre gerações com certeza serão quebradas. A nova natureza humana Então, o que tudo isso significará para nós, para nossa tão propalada e celebrada natureza humana? Podemos dizer que a natureza humana é uma forma de pensar, um estado da mente. Como já vimos, as conexões cerebrais que fazemos refletem as experiências que temos, e a mente pode ser essa personalizarão do cérebro. Nossa situação na sociedade, portanto, depende de como evolui a configuração das conexões e do contexto do tempo e do espaço específicos em que vivemos. Nosso ambiente pode estar prestes a mudar para sempre, para se tornar um ambiente em que não precisaremos mais coexistir em sociedade. Podemos viver por meio das telas de computador. Pela primeira vez em 100 mil anos, a natureza humana pode ser radicalmente mudada ou até mesmo desaparecer. Portanto, a questão vital para nós agora é canalizar essas novas tecnologias para obter maior percepção da natureza humana. Assim, podemos nos preparar - como nunca antes – para celebrar nossa individualidade, em vez de aniquilá-la.
  • 12. AS NOVAS MÁQUINAS Em 2029, os computadores serão milhares de vezes mais poderosos do que o cérebro humano, pois combinarão as atuais vantagens da inteligência humana, sobretudo a capacidade de reconhecimento de padrões, com os aspectos em que eles já nos superam. E, em 2045, nossa porção tecnológica superará nossa porção biológica, como diz o inventor Ray Kurzweil nesta entrevista a Tom Peters. Não é todo dia que uma máquina de idéias se encontra com outra máquina de idéias. Quando duas máquinas desse tipo interagem, é grande a probabilidade de ocorrer um curto-circuito de proporções desconhecidas. Ou podem abrir-se novos horizontes de pensamento. Na entrevista a seguir, que o inovador especialista em gestão Tom Peters fez com o inovador inventor norte-americano Ray Kurzweil, abrem-se tais horizontes. E justamente sobre as máquinas - tanto as computacionais, que mudam com o advento da biocomputação, como as humanas, ou seja, nós. O que é a singularidade de que você tanto fala? É uma metáfora emprestada do campo da física e designa um horizonte de acontecimentos no qual é difícil ver mais além. Na física, trata-se de um horizonte de acontecimentes físicos que cercam um buraco negro. Em nosso caso, estamos falando de fatos futuros na história da humanidade, que serão tão profundamente transformadores que a análise se torna bastante difícil. Envolve a ampliação de nossa inteligência por meio da fusão com as formas não-biológicas que estamos criando. São muitos os passos para conseguir compreender esse processo. O primeiro é a recriação em máquina da inteligência humana, com todas suas sutilezas, flexibilidade, capacidade de reconhecimento de padrões e inteligência emocional, entre outros fatores. Para isso, será preciso envolver tanto o hardware como o software. Então vamos começar pelo lado "hardware" da inteligência humana. Quando você fala em "hardware", está referindo-se ao cérebro humano? Exatamente, refiro-me à memória e à capacidade de processamento do cérebro humano. Tenho diversas análises de pessoas diferentes, inclusive de mim, que mostram que é preciso atingir uma capacidade de cálculo entre 10 14 e 10 16 por segundo para recriar funcionalmente a capacidade do cérebro humano. Assim, para estimular de modo realista todas as áreas do cérebro humano (várias centenas delas), precisaremos contar com essa capacidade em um computador. Isso será atingido no final desta década com o supercomputador; e em 2020 tal capacidade estará presente em um equipamento que custará por volta de US$ 1 mil. A questão seguinte envolve os softwares, pois sem eles não teríamos mais do que calculadoras de alta velocidade. Temos de entender os princípios do funcionamento da inteligência humana e, para isso, estamos envolvidos em outro projeto grandioso, que é a engenharia reversa do cérebro humano. A situação é similar a do projeto genoma uma década atrás, o que quer dizer que se vem ampliando em rítmo exponencial. Fizemos mais progressos do que as pessoas podem imaginar. Estamos apenas obtendo as ferramentas para realizar a tarefa. Pela primeira vez, os scanners de cérebro apresentam resolução alta o bastante para vermos os sinais individuais das conexões interneuroniais em tempo real. Até pouco tempo, tecnologias como a da fMRI [abreviação de functional magnetic resonance imaging, ou imagem por ressonância magnética funcional] só conseguiam mostrar grandes grupos de células. Agora, estamos conseguindo dados detalhados e mostrando que podemos transformá-los em reproduções e simulações. Quinze regiões do córtex auditivo foram reproduzidas e simuladas em um computador, por exemplo. Há também uma simulação do cerebelo, que é onde se formam nossas habilidades e que abriga mais da metade dos neurônios existentes no cérebro. Assim, o progresso já é maior do que as pessoas comseguem perceber. Então, no longo prazo acontecerão mais coisas do que podemos supor...... Sim. As pessoas estão fazendo projeções de modo linear para o futuro. É um erro. Em meu livro, eu abordo a diferença radical entre a tendência exponencial e a linear. Faz parte da intuição humana achar que o progresso será linear, ou seja, seguirá no ritmo atual. Mas o ritmo do progresso está acelerando-se e a ampliação das ferramentas em todas as áreas (informática, comunicações, compreensão do cérebro e da biologia humanos) dobra todo ano. A tecnologia da informação já afeta profundamente diversos aspectos de nossa vida e, se você imaginá-la multiplicada por 1 bilhão nos próximos 25 anos, verá uma transformação imensa. Em 2020 já deverá haver estruturas de software com os princípios de funcionamento de todas as regiões do cérebro. Seremos capazes de aplicar esses padrões aos computadores, e, em 2029, estes serão milhares de vezes mais poderosos do que o cérebro humano. Que tem de tao importante colocar a inteligência humana em uma máquina?
  • 13. Poderemos combinar as atuais vantagens da inteligência humana, sobretudo nossa capacidade de reconhecimento de padrões, com os aspectos nos quais as máquinas nos superam. Os computadores conseguem partilhar seu conhecimento a velocidades eletrônicas, por exemplo. Hoje precisamos de anos para transferir o conhecimento para cada criança. Mas, com os recursos da inteligência não-biológica, é possível apenas fazer o download dos padrões de um computador que aprendeu as lições. Além disso, os computadores sempre poderão ampliar-se tanto o hardware como o software continuarão a evoluir de forma intensa, enquanto a inteligência humana, em si, permanecerá fixa. Mas por que a inteligência humana é fixa? O tamanho do cérebro constitui uma limitação? O cérebro humano é limitado pelo tamanho e, mais importante, pelo paradigma do uso de sinais, de gradientes químicos que se deslocam a poucas centenas de centímetros por segundo, o que é milhões de vezes mais lento do que a velocidade eletrônica. O cérebro não consegue reprojetar-se de modo a incorporar um método de informação 1 milhão de vezes mais veloz. É claro que no limite faremos exatamente isso - mas por meio da tecnologia, e não da biologia. De acordo com minhas estimativas, temos uma capacidade de cálculo de 10 26 por segundo nos mais de 6,5 bilhões de seres humanos. Daqui a meio século, a parte biológica de nossa inteligência ainda será de 10 26 , mas a porção não-biológica será imensamente maior, porque está crescendo a uma proporção de mais de mil por década. Podemos dizer que a parte não-biológica de nossa inteligência excederá em grande medida a porção biológica. Situei a singularidade em 2045, porque nesse momento a [capacidade da] parte não-biológica [do homem] será 1 bilhão de vezes maior do que toda a porção biológica. Trata-se de uma mudança profundamente transformadora. De acordo com meu modo de pensar, ainda assim será inteligência humana. Não gosto do termo "transumano", porque pressupõe ultrapassar o aspecto humano e, em minha opinião, ainda estamos falando da civilização humana. É "transbiológico": meu livro fala sobre a superação da biologia, e não de nossa humanidade. Importante: não se trata de uma invasão alienígena de máquinas inteligentes. Os computadores já são parte muito importante de nossa civilização. Se todos os programas de inteligência artificial do mundo fossem interrompidos amanhã, nossa civilização entraria em colapso: não seria possível retirar dinheiro do banco e todos os sistemas de transporte e de comunicações seriam interrompidos. Seu livro é assustador em certa medida, mas acredito que você fundamenta bem sua teoria. A singularidade se parece com alguma coisa que já conhecemos? Trata-se apenas de um grupo seleto de pessoas? Não se trata de um grupo seleto. Se olharmos o que acontece com a tecnologia hoje, veremos que apenas os mais ricos conseguem bancar as novidades assim que elas surgem, quando nem sempre funcionam bem. Alguns anos depois, tudo funciona um pouco melhor e ainda custa caro, mas já é mais acessível para maior número de pessoas. Com o passar do tempo, a tendência é custar menos e funcionar melhor. Então, os usuários de primeira hora, singulares, de certo modo são cobaias... Isso mesmo, e em geral em um momento muito experimental. Veja só como os telefones celulares custam menos hoje. No caso dos países asiáticos, o Banco Mundial estimou que a pobreza no continente caiu pela metade e terá uma redução de 90% na próxima década. Em muitos desses países, que hoje constituem prósperas economias baseadas na informação, há 15 anos a maioria da população puxava arado. Certo, porém essa não parece ser a percepção geral... A percepção geral está errada. Mas certamente essa é uma das barreiras que você vem encontrando em relação a suas teorias, certo? A percepção das pessoas em relação ao que você diz... Em geral, existe uma espécie de percepção anômala em relação às máquinas, mas ao mesmo tempo há forte crença no progresso e na capacidade de solução de problemas atribuída à tecnologia. As duas reações ocorrem simultaneamente. O processo de transformação de uma tecnologia nova e cara em uma commodity de preço baixo e acesso fácil hoje leva dez anos, mas daqui a uma década bastarão cinco anos e, em 20 anos, apenas dois ou três. Isso está relacionado com outra tendência da duplicação do ritmo de mudança dos paradigmas a cada década. Essas tecnologias se transformarão com muita velocidade. Vejamos o caso dos medicamentos antiaids, uma tecnologia da informação. Há 15 anos, o gasto anual com medicamentos (que não funcionavam muito bem) era de US$ 30 mil por paciente. O valor hoje é de US$ 100 nos paises pobres, e o tratamento é eficaz. Esta conversa me faz lembrar de uma cena do filme Matrix, na qual Trinity precisa pilotar um helicóptero, mas não sabe fazer isso. Rapidamente, ela "baixa" as informações para pilotar o aparelho. Isso faz parte da singularidade? Trata-se de uma semi-realidade possível para 2050?
  • 14. Deixando de lado as anomalias, esse filme apresentou, sim, uma série de conceitos que fazem sentido. A idéia básica de uma imersão total na realidade virtual é bastante realista. Você me perguntou com o que a singularidade pode ser comparada. Para quem participar dela, será algo fantástico, porque uma das aplicações dos nanorrobôs no cérebro será a imersão completa na realidade virtual dentro do sistema nervoso. Se você quiser entrar em um ambiente virtual, os nanorrobôs "desligarão" os sinais vindos dos sentidos naturais e os substituirão por sinais do ambiente virtual. Para seu cérebro, será como se você estivesse no ambiente virtual, no qual você poderá ser um ator. A criação dos ambientes de realidade virtual será uma nova forma de arte: alguns terão inspiração no mundo que conhecemos, como uma praia do mar Mediterrâneo, mas outros serão pura fantasia. As pessoas poderão ter um corpo diferente e não terão de ser quem de fato são. E será possivel recorrer ao botão de "deletar" se as coisas começarem a dar errado, certo? Isso mesmo, o que é uma grande vantagem. Poderemos interromper uma chamada telefônica, que é realidade virtual auditiva. Assim, o sexo virtual é mais seguro - por exemplo, não há riscos de doenças sexualmente transmissíveis ou de gravidez e, no caso de violência ou de outras dificuldades, pode-se abandonar a experiência. Sempre haverá esses "nichos de segurança". Muito provavelmente passaremos grande parte do tempo nesses ambientes de realidade virtual. Se contarmos com a nanotecnologia plena e conseguirmos criar as coisas físicas com grande velocidade, também poderemos trazer parte dessas habilidades de adaptação veloz para a realidade. Eu li que você toma 250 suplementos por dia para "renovar" a química de seu corpo e que conseguiu eliminar o diabetes do tipo 2 de sua bioquímica. É verdade? Bem, essa é outra questão importante, outro aspecto que gostaria de abordar, que é a compreensão da longevidade humana. No ano passado, publiquei o livro Fantastic Voyage: Live Long Enough to Live Forever, escrito em parceria com Terry Grossman. Nele discutimos o impacto dessas tecnologias especificamente na saúde e na expectativa de vida das pessoas. Definimos três “pontes" capazes de ampliar radicalmente a vida humana. Já estamos vivenciando a primeira delas, que consiste na aplicação radical de todo o conhecimento atual para bem mais do que as desgastadas recomendações da saúde pública. Nós, da geração do baby-boom [crianças nascidas após a Segunda Guerra Mundial, quando houve uma explosão demográfica], temos de nos esforçar muito para estar em boa forma daqui a uns 15 anos, quando deverá ocorrer a segunda ponte, que é o pleno amadurecimento da revolução da biotecnologia. O grande paradigma da biologia hoje é a tentativa de remoldar os processos biológicos, como a arteriosclerose, o câncer ou a resistência à insulina, e reprogramá-los. Temos meios de “desligar" os genes com alterações de RNA. Novos métodos permitem o acréscimo de genes responsáveis por “corrigir” a informação no cromossomo certo. Podemos “ligar” e “desligar” as enzimas. Para dar apenas um exemplo, o medicamento Torcetrapib, da Pfizer, consegue desativar uma enzima necessária em determinado estágio da arteriosclerose. Os testes da segunda fase mostram que o medicamento basicamente contém o processo de deterioração, mas não o reverte, e hoje o laboratório, está investindo uma cifra recorde de US$ 1 bilhão nos testes da terceira fase. E esse é apenas um dos milhares de avanços. O pleno florescimento da revolução da biotecnologia deverá ocorrer em aproximadamente 15 anos. Também se trata de um processo exponencial. Quando isso acontecer, contaremos com ferramentas muito poderosas para deter essas doenças e os processos de envelhecimento - e estaremos apenas na segunda ponte. Em seguida virá a terceira, que envolve a nanotecnologia e nos permitirá ultrapassar as limitações da biologia. O grande destaque dessa fase serão os nanorrobôs, aparelhos do tamanho de uma célula sanguínea que poderão circular por nosso corpo e nosso cérebro e auxiliar na manutenção da saúde. Assim, nosso livro fala sobre essas três fases, porém mais da metade da obra está dedicada à primeira ponte, incluindo um guia prático para a reprogramação de nossa bioquímica nos dias de hoje. Não dispomos atualmente dos recursos que teremos em 15 anos; no entanto, com a adoção de um programa correto de suplementos nutricionais, é possível, por exemplo, reduzir drasticamente os níveis de colesterol. Minha taxa de colesterol já chegou a 280, mas há muitos anos não passa de 130. Eu tive diabetes do tipo 2 e há 20 anos não tenho mais. Quase todos meus índices estão próximos do ideal hoje; há algumas décadas não era assim. Como sou engenheiro, eu não me limito a tomar alguns medicamentos e esperar que as coisas melhorem - só me movimento se puder contar com instrumentos de vôo. Regularmente faço 40 ou 50 exames, do tipo daqueles destinados a verificar os níveis do sangue. Entendo, mas, para mim (e imagino que para muitas outras pessoas também), parece um pouco de exagero. Há muito mais gente no planeta fazendo isso? São poucos os que têm esse tipo de postura, mas tivemos diversos depoimentos animados de pessoas que conseguiram superar complicações de saúde sérias utilizando as informações presentes no livro. Não se trata de um programa do tipo “receita única", pois nossa idéia é compreender cada situação. Em minha opinião, exagero é alguém sofrer um ataque cardíaco, enfrentar um câncer ou qualquer
  • 15. uma dessas doenças mais graves. Do ponto de vista filosófico, as pessoas podem advogar os aspectos positivos da morte, mas na realidade é uma tragédia terrível. Em toda essa discussão, parece que há uma idéia de viver para sempre. Neste momento, conseguir imaginar uma vida sem morte parece radical demais para nossos cerebros humanos pequenos e inferiores, não é? No capítulo 7 do livro, chamado "Ich bin ein Singularitarian", eu apresento a idéia de seguir uma filosofia capaz de incorporar essas mudanças significativas. Não estou tentando introduzir um novo conjunto de dogmas, mas, em minha opinião, um Singularitarian é alguém que já pensou nessas coisas. Não se trata de uma proposta que dura 20 minutos e acaba. Se eu coloco a questão para pessoas que jamais pensaram em algo parecido, é comum que elas passem a enfrentar dilemas e dúvidas. Eu precisei de décadas para desenvolver o assunto até aqui, pois não é um conceito de fácil digestão. Para mim, trata-se de algo bastante libertador. Embora ainda não disponhamos dessas tecnologias, acredito que podemos ter um grau de confiança bastante alto de que isso acontecerá. Essa certeza talvez afete nosso comportamento atual. Podemos aplicar o conhecimento que temos hoje, que já é bastante volumoso, com objetivo de nos mantermos em boa forma quando esses progressos forem realidade. Nós racionalizamos a morte e a doença como coisas positivas porque não tínhamos alternativa. Diversas religiões, por exemplo, dedicam-se a apresentar a morte como algo positivo. Não faltam filmes ou obras escritas sobre "a boa morte" - uma expressão que, em minha opinião, é uma contradição. Mas, na realidade, começamos a morrer já no momento do nascimento, não e isso? Bem, podemos dizer que começamos a crescer no momento do nascimento. Eu acredito que conseguiremos continuar fazendo isso. Não precisamos da morte para dar sentido à vida: o que realmente dá sentido à vida é a expansão do conhecimento humano. Somos a única espécie que consegue transmitir conhecimento de uma geração para outra, e nossa capacidade de compreender e de se beneficiar com o conhecimento tende a continuar a se expandir em ritmo exponencial. Acredito que essas são notícias muito boas. Não considero como conhecimento apenas as áridas bases de dados, mas também a música, a arte, a ciência, a engenharia, a literatura e a valorização da história, entre outros. Estou pensando no mundo dos negócios, onde sempre se falou muito sobre gestão do conhecimento. As pessoas e as empresas estão preocupadas com a possibilidade de que os profissionais da geração baby-boom se aposentem e Ievem consigo todas as informações que possuem. Não vai ser assim então? Estamos acumulando cada vez mais nosso conhecimento não-biológico e, ao mesmo tempo, adquirimos ferramentas cada vez mais poderosas para ter acesso a esse conhecimento. As pessoas perguntam como nos acostumaremos a todas essas mudanças, e respondo que basta ver a rapidez com que as mudanças no mundo foram absorvidas. Com certeza, na Tom Peters Company!, vocês estão atentos a isso. Há apenas três anos, ninguém achava viável ganhar dinheiro com propaganda na internet, por exemplo. E, hoje, existem empresas com capital de bilhões de dólares que garantem a maior parte de seu faturamento vendendo espaço de publicidade na internet. A primeira referência à web, feita pelo hornal The New York Times, aconteceu em 1993. Como se pode ver, as novidades são absorvidas com grande rapidez e não acredito que haverá hesitação para aceitar a cura das doenças. Se alguém colocar no mercado um produto capaz de retardar o envelhecimento, terá absorção muito rápida. O envelhecimento não é uma coisa boa, pois envolve perda de nossas faculdades. Sim, e certo que toda a geração do baby-boom está esforcando-se para desafiar o envelhecimento, embora neste momento a questão pareça estar mais voltada para o aspecto externo, como a cirurgia plástica. Talvez esse seja o começo... Vamos encontrar maneiras melhores de resolver tudo isso. Você chegou a dizer que a maioria das invenções fracassa porque o timing não está correto. Mas você tem alguma idéia de timing em relação a seu corpo? Gostaria de ter nascido um pouco depois? Quero dizer, você estabeleceu o ano 2045 como data com base em seu caso? Considero o ano 2045 como um ponto de transformações muito profundas. Mas, com o amadurecimento da revolução da biotecnologia, conseguiremos solucionar os problemas da biologia dentro.de 15 anos. Neste exato momento hä muita coisa interessante sendo preparada e a cada ano vemos mais e mais coisas acontecerem.
  • 16. Pelo fato de me preocupar com o assunto e tê-lo estudado um pouco, e depois de ter escrito dois livros sobre essas questões, estou confiante de que me encontro fora da curva. Tenho feito detalhados exames de envelhecimento biológico. Existe certa controvérsia quanto a essas avaliações, mas eu acho que elas nos fornecem algumas informações razoáveis: determinam o nível bioquímico e identificam outros indicadores, como a sensibilidade tátil, a memória e o tempo de reação, e depois os comparam com os padrões da população em idades diferentes. Quando eu tinha 40 anos, de acordo com esses testes, contabva com uma idade de 38. Hoje estou com 57 e os testes atribuem a mim uma idade biológica de aproximadamente 40 anos. Então quer dizer que você não envelheceu nos últimos 17 anos? Bem, de acordo com esses testes, eu envelheci só dois anos. Minha intenção é voltar aos 38 antes de atingir a idade cronológica de 60 anos. Acredito realmente que estou envelhecendo bem devagar. A prática de exercicios faz parte desse processo? Sem dúvida, isso é muito importante. Nós combinamos uma série de idéias diferentes. O que nosso programa tem de peculiar é a suplementação agressiva, com o objetivo de realmente reprogramar a bioquímica das pessoas. Por um lado, é muito bom priorizar o que é natural, e certamente existem diversos componentes artificiais em nossa alimentação que não nos fazem bem. Mas, por outro, não basta apostar apenas no que é natural. Nossos genes evoluíram quando não havia a preocupação para a espécie humana em viver muito mais do que a idade que tenho hoje. No passado, as crianças contavam apenas com os recursos da tribo, e as calorias eram escassas. Há 10 mil anos, a expectativa de vida era de 20 e poucos anos e, em 1800, não passava de 37. Precisamos ir além da biologia para conseguir colocar nossa bioquímica em um estado mais produtivo. É isso que estou fazendo. Não posso dar 100% de garantia de sucesso, pois sempre podem acontecer acidentes e por isso tomo muito cuidado quando dirijo. E o que você me diz sobre a possibilidade de uma imensa descontinuidade? Bem, eu me preocupo com os riscos existenciais dos aspectos negativos dessas tecnologias. O capítulo 8 do livro trata da promessa e dos perigos da genética, nanotecnologia e robótica. Tem havido muita discussão sobre os perigos da bioengenharia e da nanotecnologia de auto-replicação. Abordei esses assuntos em 1999, no livro The Age of Spiritual Machines, e a revista Wired fez uma matéria de capa em reação ao livro, intitulada "Por que o futuro não precisa de nós". Também escrevi recentemente um artigo para o New York Times criticando a publicação do genoma da gripe 1918, porque seria mais fácil recriar a enfermidade do que construir uma bomba atômica: a tarefa não exige materiais raros como o plutônio. Seria uma interpretação utópica demais achar que tudo transcorrerá sem sobressaltos. Até hoje nada foi assim, certo? Exatamente. Mas também vale lembrar que essas grandes rupturas não impediram os avanços tecnológicos. Cinquenta milhões de pessoas morreram na Segunda Guerra Mundial, porém o crescimento exponencial da relação preço-lucro (PL) das empresas transcorreu tranqüilamente no decorrer de todo o século, enfrentando altos e baixos, mais ou menos possibilidades, depressões e booms, períodos de guerra e de paz. Tendo a pensar que somos uma espécie bélica. Com a singularidade, isso poderá mudar ou o que mudará serão os motivos dos conflitos? Não afirmo que conseguiremos ficar livres de todos os conflitos. Acredito que teremos mais conhecimento de nós mesmos e seremos capazes de identificar algumas fontes de disfunções humanas, mas não creio que isso nos livre de todas as disputas. Eu realmente acredito que os conflitos humanos estejam diminuindo. Podemos não ter essa impressão porque hoje percebemos os conflitos com mais sensibilidade. Na Segunda Guerra Mundial, 20 mil pessoas podiam morrer em uma batalha e talvez duas semanas depois alguma imagem pouco definida do episódio chegasse a algum cinema. Hoje temos imagens em tempo real de tudo que acontece. Existem estudos que mostram que as guerras estão diminuindo, e acho que isso ocorre porque toda essa comunicação eletrônica descentralizada contribui bastante para a democracia. Quando abordei o assunto no livro The Age of Intelligent Machines, previ o colapso da União Soviética porque as autoridades não seriam capazes de controlar a informação. Na realidade, o golpe contra Gorbachev em 1991 fracassou graças a essa rede clandestina de aparelhos de fax e e-mails em
  • 17. contraposição às máquinas de telex. Controlar as estações de rádio e a TV centralizada não bastava mais para manter as pessoas alheias ao que ocorria. E essa rede de comunicação cresceu imensamente com a internet e os blogs. Hoje existem milhões de blogs, até mesmo na China. Participei recentemente de uma conferência na qual Rebecca McKinnon, estudiosa da Harvard Uníversity, ressaltou que todos os mecanismos de busca de internet chineses operam com censura prévia. Se alguem estiver na China e procurar por "Praça da Paz Celestial", não obterá nenhum resultado... É verdade, mas é uma censura marginal. De certa maneira, a especialista vê o fenômeno se espalhar porque atualmente empresas norte-americanas estão desenvolvendo programas para o mercado chinês e incluindo os mecanismos de censura neles. Ou seja, de certa maneira, a prática está tornando-se parte do código-base... Mas isso não equivale a interromper o fluxo de comunicação. Não sei se é bem assim... Existe certa informação “delicada", que as pessoas compreendem que não podem divulgar, mas o que isso representa? É 1% do que é dito? Isso não basta para alterar o fluxo da democratização, esse enorme poder da comunicação descentralizada. Eles não estão detendo os avanços da internei, mas apenas impondo censura a algumas questões. E você não considera isso grave? Com certeza eu não apóio isso, mas não vejo como um fator capaz de frear realmente a natureza dessa tendência. E isso basta... Outro assunto que as pessoas debatem é o das células-tronco. A oposição do governo [dos EUA] tem conseguido interromper o processo da biotecnologia? Não! Acho que é bastante parecido. Há pedras no rio, mas elas não impedem a passagem da água. Até na restrita área da biotecnologia chamada de "transdiferenciação", que é a essência da questão das células-tronco, tem havido um progresso imenso. Sou favorável às pesquisas e contrário às proibições, mas, deixando de lado os aspectos éticos e políticos não queremos usar as células-tronco embriônicas de qualquer maneira, porque existem poucas delas e o DNA não combina com o receptor. Eu quero que se criem células pluripotentes a partir das células de minha pele, processo que foi demonstrado recentemente. A questão é que a oposição às pesquisas sobre células tronco não está obstruindo os progressos na biotecnologia. Muito obrigado, Ray. Gostei da conversa que tivemos. Sempre quis conversar com você sobre um de seus livros! Eu também gostei da entrevista, foi divertida!