Obrigadoleitores,
agentesecolaboradores
pelacentenáriaparceria
esde as suas origens, no início do sé-
culo XX, até as últimas edições que
encaminham o encerramento de sua
vida enquanto jornal impresso, o Correio
Riograndense, através de todas as trans-
formações, seja de nome como de projeto
gráfico ou conteúdo abordado, manteve-se
sempre como um meio de comunicação
assumidamente eclesial e católico. Dada a
impossibilidade material de refazer o per-
curso de todo o longo período, nos dete-
remos nesta breve análise apenas nos dois
momentos de maior crise e reconstrução
eclesial que marcaram a vida do jornal e
nos quais ele demonstrou seu senso ecle-
sial. O primeiro, na primeira década de sua
existência, quando a Igreja Católica, recém
emancipada da tutela do Estado, buscava
reconstruir-se na fidelidade ao modo ro-
mano de ser católico. O segundo, já na se-
gunda metade do século XX, quando, em
consequência do movimento de renovação
capitalizado e impulsionado pelo Concílio
Ecumênico Vaticano II, a Igreja do Brasil
e do continente tomou o rumo da proximi-
dade com a realidade do povo sofrido no
continente e reconfigurou-se nas culturas
latino-americanas e brasileiras e aproxi-
mou-se dos movimentos sociais e popula-
res que buscaram construir uma sociedade
justa e democrática.
AFP/CorreioRiograndense
ArquivoCR
Texto de Vanildo Zugno*
Porto Alegre - RS
No curto lapso de tempo en-
tre 1880 e 1920 aconteceu a
mais radical transformação na
história da Igreja Católica no
Brasil. Impulsionada pelos bis-
pos, no seu conjunto, ela pode
ser descrita como a “reforma
romanizante” da Igreja Cató-
lica no Brasil. “Reforma” por
pretender substituir elementos
considerados deficientes ou
sem vitalidade por novas for-
mas que permitissem à fé ca-
tólica apresentar-se com nova
face. “Romanizante”, pois tra-
tava-se de subtrair a Igreja do
domínio do Estado e, ao mes-
mo tempo, purificá-la dos ele-
mentos do catolicismo popular
não acordes ao modo romano
de ser católico.
É no contexto desta reforma
que surge no Brasil uma im-
prensa católica. No Rio Gran-
de do Sul, na década de 1870,
apareceram os jornais “Es-
trella do Sul” e “O Thabor”.
Na década de 1890, sob a tu-
tela dos jesuítas, foi a vez do
“Deutsches Volksblatt” levan-
tar a bandeira dos interesses da
Igreja Católica no Estado. Na
Região de Colonização Italia-
na (RCI), foram os confrontos
entre a maçonaria e o clero que
fizeram surgir uma imprensa
católica. Na região, o primeiro
jornal com identidade católi-
ca foi o “Il Colono Italiano”
fundado em 1898 pelo padre
Piero Nosadini. Pároco de Ca-
xias do Sul desde 1896, padre
Nosadini procurava fazer con-
trapeso, através da imprensa,
ao “O Caxiense”, jornal ligado
ao governista Partido Republi-
cano Riograndense. Depois de
vários conflitos com as autori-
dades caxienses, o “Il Colono
Italiano” deixou de circular em
agosto de 1898 e, em dezembro
do mesmo ano, padre Nosadini
regressou à Itália.
Em 1909, foi a vez do padre
Cármine Fasulo fundar um jor-
nal católico que levou o nome
de “La Libertá”. De circula-
ção semanal, o jornal logo teve
dificuldades para manter-se.
No fim de 1909, padre Fasulo
regressou à Itália e a continui-
dade do jornal se viu ameaçada.
Com o objetivo de mantê-lo em
circulação, padre João Fron-
chetti, pároco de Garibaldi,
com a ajuda deAdolfo Moreau
e João Carlotto e o apoio dos
freis capuchinhos franceses,
adquiriu o jornal e a tipografia e
os transladou a Garibaldi. Para
esquecer as polêmicas de Ca-
xias ou, quem sabe, homenage-
ar ao padre Nosadini, o nome
foi alterado na edição de 12 de
março de 1910 para “Il Colono
Italiano”.
Da análise das edições do “Il
Colono Italiano” na sua primei-
ra década de existência podemos
identificar três temáticas que são
representativas do espírito da re-
forma romanizante: a construção
da identidade católica como sub-
missão à autoridade eclesiástica;
o combate aos inimigos da Igreja
Católica e a busca da afirmação
da hegemonia cultural da Igre-
ja sobre a sociedade através do
discurso da submissão da ordem
social aos mandamentos divinos
transmitidos pela Igreja.
Em seu primeiro número sob
a direção do padre Fronchetti, o
jornal afirma, em editorial, seu
programa originário: “La Liber-
tá’ será assumidamente católico;
não somente atenderá religiosa-
mente os comandos da autori-
dade eclesiástica; mas fará todo
o esforço para antecipar-se aos
seus desejos”.
A identidade católica constru-
ída a partir da identificação com
a autoridade eclesiástica trans-
parece nas reportagens em que
são apresentadas as atividades
do Papa Pio X, especialmente as
caritativas. A exaltação do Papa
chega ao ponto de, no editorial
da edição de 2 de novembro de
1912, serem noticiadas várias
curas realizadas pelo Papa ainda
em vida.
A identidade católica também
era cultivada na dimensão de en-
tretenimento que o jornal levava
a seus leitores.Através de peque-
nas histórias edificantes, eram
apresentados os ideais e valores
do bom católico. Em cada edi-
ção, nas páginas 3 e 4, havia uma
seção dedicada a uma novela
edificante. Do número 45 ao 52,
por exemplo, foi publicada a no-
vela “Dalle spine a la Rosa” em
que se narrava a história de uma
amizade entre um rapaz e uma
moça que era capaz de transcen-
der o amor humano e alcançar a
oblação da vida a Deus. Imelda
e Rômulo, dois jovens apaixona-
dos e prometidos em casamento,
após a realização de exercícios
espirituais e da orientação de um
capuchinho, deixaram o mundo,
ela para tornar-se freira, e ele
para tornar-se frade.
Como toda a identidade, a afir-
mação da catolicidade do jornal
também foi construída a partir da
identificaçãoe desconstruçãodos
seus inimigos. Dentro do pensa-
mento da restauração expresso
no “Syllabus Errorum” de Pio
IX, o primeiro e maior inimigo
da fé católica é aquela forma de
pensar que prega a não existên-
cia de Deus. No editorial da edi-
ção de 4 de maio de 1910, após
apresentar as figuras de Diderot,
Voltaire, Rousseau, D’Alembert
e Spinoza, o jornal afirmava que
as concepções filosóficas por
eles apresentadas vão contra os
sentimentos do coração humano.
Para desqualificar as ideias dos
filósofos, o texto não apresen-
tava argumentos filosóficos an-
tagônicos, mas afirmava que os
próprios livres-pensadores não
acreditavam naquilo que eles en-
sinavam.
A maçonaria aparece como a
outra grande inimiga. Ela é apre-
sentada como a mais intolerante
das instituições na medida em
que não admite, em seu interior,
qualquer divergência de pensa-
mento. Na seção “Per il mondo”
da edição de 15 de janeiro de
1910, o jornal compara as exco-
munhões da Igreja Católica com
as intolerâncias damaçonariaita-
liana que expulsou de seus qua-
dros três deputados que votaram
a favor do ensino religioso nas
escolas públicas.
O protestantismo, tradicional
inimigo da identidade católica,
poucas vezes aparece nas pá-
ginas do “Il Colono Italiano”.
Na edição de 5 de fevereiro de
1910 é anunciada a conversão
de um professor da Universida-
de de Halle, na Alemanha, e, nos
Estados Unidos, a conversão de
todos os membros da “Socieda-
de da Reconciliação”, da Igreja
Anglicana para a Igreja Católica
Romana.
O espiritismo também é apre-
sentadocomoinimigo.Apartirde
abril de 1911, o jornal apresenta
uma coluna intitulada
onde se
refutam as teses espíritas. O es-
piritismo é definido como “uma
fraude inventada pelo diabo
contra o homem, a religião pela
qual os diabos, fingindo-se de
anjos bons ou almas de mortos,
para obter os seus intentos, dão
respostas aos homens que os in-
terrogam através de mesas, tripés
ou outros objetos materiais.”
A identidade católica, adverte o
jornal em seu editorial de apresen-
tação, não o impede de falar sobre
temas não especificamente reli-
giosos. Na edição de 15 de janeiro
de 1910, o jornal, além de católi-
co, se apresenta como “o amigo,
o conselheiro, a defesa do colono,
para o qual, além de assuntos reli-
giososeleiturasúteis,prazerosase
amenas, fornecerá também todos
aqueles conhecimentos que a ele
puderem ser úteis, como: noções
de agricultura, e neste assunto se
dará preferência a coisas feitas
no Rio Grande do Sul; o modo
de confeccionar, melhorar e con-
servar o vinho e seus respectivos
recipientes; higiene; quando for
o caso, um pouco de medicina;
também, sob a forma de diálogo
entreo colonoPedroe o advogado
doutor Pomieri, serão oferecidas
algumas informações sobre as leis
do belo país que os hospeda, que
são indispensáveis a todos.”
Com este objetivo, desde a sua
primeiraedição, o jornal apresenta
a “Sezione dell’Agricultore” em
que são dadas informações sobre
os cultivos da região e a melhor
forma de incrementar a produção.
A partir da edição de 11 de março
de 1911, a coluna ganha o nome
de “Cognizioni utili”. Notícias e
estímulos a cooperativas e asso-
ciações também são frequentes
nas páginas do jornal. As princi-
pais iniciativas do governo federal
e estadual em favor da agricultu-
ra são noticiadas com destaque a
cada edição.
Tanto num período como no ou-
tro, podemos dizer, com toda tran-
quilidade, que o jornal, em suas
diversas nomenclaturas – La Li-
bertà, Il Colono Italiano, Stafetta
Riograndense e Correio Riogran-
dense – e nas muitas mudanças
que viveu no decorrer destes lon-
gos 108 anos, manteve-se fiel ao
propósito de frei Bruno de Gillon-
nay que, em 1904, ao gestionar
junto aos superiores da França a
compra de uma impressora para
poder produzir um jornal nas co-
lônias italianas, pretendia “estabe-
lecer com simplicidade, no centro
da colônia italiana, uma pequena
impressora, que levará, periodi-
camente, no seio das famílias, em
sua língua materna, uma página
do santo Evangelho, explicada e
comentada, uma história edifican-
te, alguns conselhos de agricultu-
ra, a indicação de algumas bro-
churas adaptadas às necessidades
dos colonos.”
ais do que as reformas
externas em termos esté-
ticos e litúrgicos, o Con-
cílio Vaticano II foi uma tentati-
va de colocar a Igreja no século
XX. Com efeito, em virtude do
trauma da Reforma Protestante
e das determinações canônicas
do Concílio de Trento, a Igreja
Católica, durante quatro séculos,
permaneceu alheia e inimiga da
modernidade.
Para João XXIII, o Papa que
convocou o Concílio, o desafio
era tanto o de “abrir a janela da
Igreja para que possamos ver
o que acontece do lado de fora
e para que o mundo possa ver
o que acontece na nossa casa”
como o de manter as portas e ja-
nelas da Igreja abertas para que
o Espírito Santo pudesse orientar
a Igreja no seu processo de “ag-
giornamento”.
Acolhendoas decisõesdoCon-
cílio, na edição de 15 de dezem-
bro de 1965 – a primeira após a
conclusão da Assembleia Conci-
liar – o jornal, em editorial, assim
se expressa em relação ao evento
que consolidou e impulsionou a
maior reforma da Igreja Católica
nos últimos 500 anos: “O Con-
cílio Ecumênico terminou. Ago-
ra começa nossa tarefa. A tarefa
de cada um de nós, os cristãos”.
Numa clara referência à “Lumen
Gentiun” que, a partir da noção
de Sacerdócio Universal dos Fi-
éis propunha uma nova eclesio-
logia, o editorial prossegue: “E
isso em face do santo batismo
que nos elevou à dignidade de fi-
lhos de Deus. Ou cada um de nós
cuida, deveras, valorizar o seu
batismo, ou nada feito do Concí-
lio, continuando o mundo como
dantes: trôpego, anêmico, ilhado,
coxo, mudo, surdo, cego.”
Na mesma edição, o jornal des-
taca como manchete principal o
Ano SantoproclamadopeloPapa
PauloVI para acolher as decisões
conciliares. Na mesma página
de capa, fazendo outra matéria,
elenca os documentos concilia-
res e, citando o programa de rá-
dio “A Voz do Pastor” de Dom
Vicente Scherer, afirma que o
desafio agora cabe a cada um dos
católicos e se resume na palavra
“atualização” pois “as resoluções
do Concílio permaneceriam es-
téreis e infecundas se sacerdotes
e leigos não as recebessem com
docilidade e amor”.
Na edição seguinte, de 22 de
dezembro, a temática do Concí-
lio é retomada e, citando nova-
mente o Papa Paulo VI, afirma
que a renovação proposta pelo
Concílio “não é coisa passageira
como muitas outras coisas o são,
mas algo que prolonga seus efei-
tos além do período de celebra-
ção atual”.
O desejo de renovação do Con-
cílio Vaticano II se concretizou,
na América Latina, nas Assem-
bleias das Conferências Episco-
pais de Medellín (1968), Puebla
(1979), Santo Domingo (1992)
e Aparecida (2007). Elas mar-
caram com a palavra dos bispos
do Continente Latino-americano
e do Caribe as mudanças impul-
sionadas pelo Concílio. Atento
ao caminhar da Igreja, o Cor-
reio Riograndense acompanhou
os novos processos eclesiais em
curso na região. A edição de 6 de
março de 1985 é representativa
desta nova postura do jornal em
sintonia com a vida da Igreja.
Com chamada de capa e reporta-
gem na página 8, o jornal celebra
a diminuição das ditaduras no
continente e festeja os novos ven-
tos democráticos que se ampliam
a cada ano.
Também com foco na realidade
social e na perspectiva dos pobres
tão cara à Igreja latino-americana
e caribenha, na página central,
é destacada a realidade de fome
que ainda persiste no mundo e a
necessidade de um projeto global
para a superação de tal situação.
A mesma problemática é tratada
em nível local quando, com cha-
mada na capa e matéria na página
3, é apresentada a dramática situ-
ação dos pequenos agricultores e
cantinas da região serrana do Rio
Grande do Sul ante o baixo preço
da uva e do vinho.Ainda na mes-
ma edição, com chamada de capa
e reportagem na página 18, é feito
Reprodução/CorreioRiograndense
ArquivoCR
EdiliaS.C.Menin/Div/CR
frei capuchinho,
graduado em
Filosofia e
Teologia, doutor
em Teologia
um relato da 8ª Romaria da Terra
que acabara de acontecer em Te-
nente Portela.
Ao lado das reportagens que
focam a realidade social e as ini-
ciativas da Igreja para a elas dar
resposta, as colunas de autores
tornaram-se cada vez mais um
espaço privilegiado para a refle-
xão da realidade à luz da fé cris-
tã. Impossível não lembrar do
saudoso frei Wilson Sperandio
e sua leve e profunda coluna se-
manal “Novo Jeito deViver”.Ao
lado dele, já na década de 1990,
estava frei Aldo Colombo e seu
“Um Olhar Diferente”. Já no
novo milênio, a eles somaram-
se a teóloga Maria Clara Binge-
mer, Frei Betto, Leonardo Boff,
Padre Zezinho e, sempre com o
cariz capuchinho, os freis Jaime
Bettega com a coluna “Olhar a
Vida” e Luiz Turra sempre falan-
do “No Coração da Vida”. Cada
um deles, com seus temas prefe-
ridos e sua abordagem pessoal,
ajudavam o leitor a pensar-se
como cristão no mundo em que
vivemos, em sua dimensão pes-
soal, eclesial e social.
Para contribuir no propósi-
to do Concílio Vaticano II e do
caminhar da Igreja brasileira e
latino-americana que deseja o
protagonismo dos leigos e leigas
no assumir e implementar a fé no
âmbito social e eclesial, a partir
de 2005, o Correio Riogranden-
se, em parceria com a Escola
Superior de Teologia e Espiritu-
alidade Franciscana (Estef), ofe-
receu, anualmente, o Curso de
Teologia à Distância. Orientados
por módulos semanais produzi-
dos pelos professores da Facul-
dade de Teologia mantida pelos
capuchinhos em PortoAlegre, os
leitores e leitoras tiveram a opor-
tunidade de aprofundar temáti-
cas ligadas à fé cristã, à vivência
eclesiale aocompromissosocial.

O correio riograndense e a identidade eclesial

  • 1.
  • 2.
    esde as suasorigens, no início do sé- culo XX, até as últimas edições que encaminham o encerramento de sua vida enquanto jornal impresso, o Correio Riograndense, através de todas as trans- formações, seja de nome como de projeto gráfico ou conteúdo abordado, manteve-se sempre como um meio de comunicação assumidamente eclesial e católico. Dada a impossibilidade material de refazer o per- curso de todo o longo período, nos dete- remos nesta breve análise apenas nos dois momentos de maior crise e reconstrução eclesial que marcaram a vida do jornal e nos quais ele demonstrou seu senso ecle- sial. O primeiro, na primeira década de sua existência, quando a Igreja Católica, recém emancipada da tutela do Estado, buscava reconstruir-se na fidelidade ao modo ro- mano de ser católico. O segundo, já na se- gunda metade do século XX, quando, em consequência do movimento de renovação capitalizado e impulsionado pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, a Igreja do Brasil e do continente tomou o rumo da proximi- dade com a realidade do povo sofrido no continente e reconfigurou-se nas culturas latino-americanas e brasileiras e aproxi- mou-se dos movimentos sociais e popula- res que buscaram construir uma sociedade justa e democrática. AFP/CorreioRiograndense ArquivoCR Texto de Vanildo Zugno* Porto Alegre - RS No curto lapso de tempo en- tre 1880 e 1920 aconteceu a mais radical transformação na história da Igreja Católica no Brasil. Impulsionada pelos bis- pos, no seu conjunto, ela pode ser descrita como a “reforma romanizante” da Igreja Cató- lica no Brasil. “Reforma” por pretender substituir elementos considerados deficientes ou sem vitalidade por novas for- mas que permitissem à fé ca- tólica apresentar-se com nova face. “Romanizante”, pois tra- tava-se de subtrair a Igreja do domínio do Estado e, ao mes- mo tempo, purificá-la dos ele- mentos do catolicismo popular não acordes ao modo romano de ser católico. É no contexto desta reforma que surge no Brasil uma im- prensa católica. No Rio Gran- de do Sul, na década de 1870, apareceram os jornais “Es- trella do Sul” e “O Thabor”. Na década de 1890, sob a tu- tela dos jesuítas, foi a vez do “Deutsches Volksblatt” levan- tar a bandeira dos interesses da Igreja Católica no Estado. Na Região de Colonização Italia- na (RCI), foram os confrontos entre a maçonaria e o clero que fizeram surgir uma imprensa católica. Na região, o primeiro jornal com identidade católi- ca foi o “Il Colono Italiano” fundado em 1898 pelo padre Piero Nosadini. Pároco de Ca- xias do Sul desde 1896, padre Nosadini procurava fazer con- trapeso, através da imprensa, ao “O Caxiense”, jornal ligado ao governista Partido Republi- cano Riograndense. Depois de vários conflitos com as autori- dades caxienses, o “Il Colono Italiano” deixou de circular em agosto de 1898 e, em dezembro do mesmo ano, padre Nosadini regressou à Itália. Em 1909, foi a vez do padre Cármine Fasulo fundar um jor- nal católico que levou o nome de “La Libertá”. De circula- ção semanal, o jornal logo teve dificuldades para manter-se. No fim de 1909, padre Fasulo regressou à Itália e a continui- dade do jornal se viu ameaçada. Com o objetivo de mantê-lo em circulação, padre João Fron- chetti, pároco de Garibaldi, com a ajuda deAdolfo Moreau e João Carlotto e o apoio dos freis capuchinhos franceses, adquiriu o jornal e a tipografia e os transladou a Garibaldi. Para esquecer as polêmicas de Ca- xias ou, quem sabe, homenage- ar ao padre Nosadini, o nome foi alterado na edição de 12 de março de 1910 para “Il Colono Italiano”. Da análise das edições do “Il Colono Italiano” na sua primei- ra década de existência podemos identificar três temáticas que são representativas do espírito da re- forma romanizante: a construção da identidade católica como sub- missão à autoridade eclesiástica; o combate aos inimigos da Igreja Católica e a busca da afirmação da hegemonia cultural da Igre- ja sobre a sociedade através do discurso da submissão da ordem social aos mandamentos divinos transmitidos pela Igreja. Em seu primeiro número sob a direção do padre Fronchetti, o jornal afirma, em editorial, seu programa originário: “La Liber- tá’ será assumidamente católico; não somente atenderá religiosa- mente os comandos da autori- dade eclesiástica; mas fará todo o esforço para antecipar-se aos seus desejos”. A identidade católica constru- ída a partir da identificação com a autoridade eclesiástica trans- parece nas reportagens em que são apresentadas as atividades do Papa Pio X, especialmente as caritativas. A exaltação do Papa chega ao ponto de, no editorial da edição de 2 de novembro de 1912, serem noticiadas várias curas realizadas pelo Papa ainda em vida. A identidade católica também era cultivada na dimensão de en- tretenimento que o jornal levava a seus leitores.Através de peque- nas histórias edificantes, eram apresentados os ideais e valores do bom católico. Em cada edi- ção, nas páginas 3 e 4, havia uma seção dedicada a uma novela edificante. Do número 45 ao 52, por exemplo, foi publicada a no- vela “Dalle spine a la Rosa” em que se narrava a história de uma amizade entre um rapaz e uma moça que era capaz de transcen- der o amor humano e alcançar a oblação da vida a Deus. Imelda e Rômulo, dois jovens apaixona- dos e prometidos em casamento, após a realização de exercícios espirituais e da orientação de um capuchinho, deixaram o mundo, ela para tornar-se freira, e ele para tornar-se frade. Como toda a identidade, a afir- mação da catolicidade do jornal também foi construída a partir da identificaçãoe desconstruçãodos seus inimigos. Dentro do pensa- mento da restauração expresso no “Syllabus Errorum” de Pio IX, o primeiro e maior inimigo da fé católica é aquela forma de pensar que prega a não existên- cia de Deus. No editorial da edi- ção de 4 de maio de 1910, após apresentar as figuras de Diderot, Voltaire, Rousseau, D’Alembert e Spinoza, o jornal afirmava que as concepções filosóficas por eles apresentadas vão contra os sentimentos do coração humano. Para desqualificar as ideias dos filósofos, o texto não apresen- tava argumentos filosóficos an- tagônicos, mas afirmava que os próprios livres-pensadores não acreditavam naquilo que eles en- sinavam. A maçonaria aparece como a outra grande inimiga. Ela é apre- sentada como a mais intolerante das instituições na medida em que não admite, em seu interior, qualquer divergência de pensa- mento. Na seção “Per il mondo” da edição de 15 de janeiro de 1910, o jornal compara as exco- munhões da Igreja Católica com as intolerâncias damaçonariaita- liana que expulsou de seus qua- dros três deputados que votaram a favor do ensino religioso nas escolas públicas. O protestantismo, tradicional inimigo da identidade católica, poucas vezes aparece nas pá- ginas do “Il Colono Italiano”. Na edição de 5 de fevereiro de 1910 é anunciada a conversão de um professor da Universida- de de Halle, na Alemanha, e, nos Estados Unidos, a conversão de todos os membros da “Socieda- de da Reconciliação”, da Igreja Anglicana para a Igreja Católica Romana. O espiritismo também é apre- sentadocomoinimigo.Apartirde abril de 1911, o jornal apresenta uma coluna intitulada onde se refutam as teses espíritas. O es- piritismo é definido como “uma fraude inventada pelo diabo contra o homem, a religião pela qual os diabos, fingindo-se de anjos bons ou almas de mortos, para obter os seus intentos, dão respostas aos homens que os in- terrogam através de mesas, tripés ou outros objetos materiais.”
  • 3.
    A identidade católica,adverte o jornal em seu editorial de apresen- tação, não o impede de falar sobre temas não especificamente reli- giosos. Na edição de 15 de janeiro de 1910, o jornal, além de católi- co, se apresenta como “o amigo, o conselheiro, a defesa do colono, para o qual, além de assuntos reli- giososeleiturasúteis,prazerosase amenas, fornecerá também todos aqueles conhecimentos que a ele puderem ser úteis, como: noções de agricultura, e neste assunto se dará preferência a coisas feitas no Rio Grande do Sul; o modo de confeccionar, melhorar e con- servar o vinho e seus respectivos recipientes; higiene; quando for o caso, um pouco de medicina; também, sob a forma de diálogo entreo colonoPedroe o advogado doutor Pomieri, serão oferecidas algumas informações sobre as leis do belo país que os hospeda, que são indispensáveis a todos.” Com este objetivo, desde a sua primeiraedição, o jornal apresenta a “Sezione dell’Agricultore” em que são dadas informações sobre os cultivos da região e a melhor forma de incrementar a produção. A partir da edição de 11 de março de 1911, a coluna ganha o nome de “Cognizioni utili”. Notícias e estímulos a cooperativas e asso- ciações também são frequentes nas páginas do jornal. As princi- pais iniciativas do governo federal e estadual em favor da agricultu- ra são noticiadas com destaque a cada edição. Tanto num período como no ou- tro, podemos dizer, com toda tran- quilidade, que o jornal, em suas diversas nomenclaturas – La Li- bertà, Il Colono Italiano, Stafetta Riograndense e Correio Riogran- dense – e nas muitas mudanças que viveu no decorrer destes lon- gos 108 anos, manteve-se fiel ao propósito de frei Bruno de Gillon- nay que, em 1904, ao gestionar junto aos superiores da França a compra de uma impressora para poder produzir um jornal nas co- lônias italianas, pretendia “estabe- lecer com simplicidade, no centro da colônia italiana, uma pequena impressora, que levará, periodi- camente, no seio das famílias, em sua língua materna, uma página do santo Evangelho, explicada e comentada, uma história edifican- te, alguns conselhos de agricultu- ra, a indicação de algumas bro- churas adaptadas às necessidades dos colonos.” ais do que as reformas externas em termos esté- ticos e litúrgicos, o Con- cílio Vaticano II foi uma tentati- va de colocar a Igreja no século XX. Com efeito, em virtude do trauma da Reforma Protestante e das determinações canônicas do Concílio de Trento, a Igreja Católica, durante quatro séculos, permaneceu alheia e inimiga da modernidade. Para João XXIII, o Papa que convocou o Concílio, o desafio era tanto o de “abrir a janela da Igreja para que possamos ver o que acontece do lado de fora e para que o mundo possa ver o que acontece na nossa casa” como o de manter as portas e ja- nelas da Igreja abertas para que o Espírito Santo pudesse orientar a Igreja no seu processo de “ag- giornamento”. Acolhendoas decisõesdoCon- cílio, na edição de 15 de dezem- bro de 1965 – a primeira após a conclusão da Assembleia Conci- liar – o jornal, em editorial, assim se expressa em relação ao evento que consolidou e impulsionou a maior reforma da Igreja Católica nos últimos 500 anos: “O Con- cílio Ecumênico terminou. Ago- ra começa nossa tarefa. A tarefa de cada um de nós, os cristãos”. Numa clara referência à “Lumen Gentiun” que, a partir da noção de Sacerdócio Universal dos Fi- éis propunha uma nova eclesio- logia, o editorial prossegue: “E isso em face do santo batismo que nos elevou à dignidade de fi- lhos de Deus. Ou cada um de nós cuida, deveras, valorizar o seu batismo, ou nada feito do Concí- lio, continuando o mundo como dantes: trôpego, anêmico, ilhado, coxo, mudo, surdo, cego.” Na mesma edição, o jornal des- taca como manchete principal o Ano SantoproclamadopeloPapa PauloVI para acolher as decisões conciliares. Na mesma página de capa, fazendo outra matéria, elenca os documentos concilia- res e, citando o programa de rá- dio “A Voz do Pastor” de Dom Vicente Scherer, afirma que o desafio agora cabe a cada um dos católicos e se resume na palavra “atualização” pois “as resoluções do Concílio permaneceriam es- téreis e infecundas se sacerdotes e leigos não as recebessem com docilidade e amor”. Na edição seguinte, de 22 de dezembro, a temática do Concí- lio é retomada e, citando nova- mente o Papa Paulo VI, afirma que a renovação proposta pelo Concílio “não é coisa passageira como muitas outras coisas o são, mas algo que prolonga seus efei- tos além do período de celebra- ção atual”. O desejo de renovação do Con- cílio Vaticano II se concretizou, na América Latina, nas Assem- bleias das Conferências Episco- pais de Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007). Elas mar- caram com a palavra dos bispos do Continente Latino-americano e do Caribe as mudanças impul- sionadas pelo Concílio. Atento ao caminhar da Igreja, o Cor- reio Riograndense acompanhou os novos processos eclesiais em curso na região. A edição de 6 de março de 1985 é representativa desta nova postura do jornal em sintonia com a vida da Igreja. Com chamada de capa e reporta- gem na página 8, o jornal celebra a diminuição das ditaduras no continente e festeja os novos ven- tos democráticos que se ampliam a cada ano. Também com foco na realidade social e na perspectiva dos pobres tão cara à Igreja latino-americana e caribenha, na página central, é destacada a realidade de fome que ainda persiste no mundo e a necessidade de um projeto global para a superação de tal situação. A mesma problemática é tratada em nível local quando, com cha- mada na capa e matéria na página 3, é apresentada a dramática situ- ação dos pequenos agricultores e cantinas da região serrana do Rio Grande do Sul ante o baixo preço da uva e do vinho.Ainda na mes- ma edição, com chamada de capa e reportagem na página 18, é feito Reprodução/CorreioRiograndense ArquivoCR EdiliaS.C.Menin/Div/CR frei capuchinho, graduado em Filosofia e Teologia, doutor em Teologia um relato da 8ª Romaria da Terra que acabara de acontecer em Te- nente Portela. Ao lado das reportagens que focam a realidade social e as ini- ciativas da Igreja para a elas dar resposta, as colunas de autores tornaram-se cada vez mais um espaço privilegiado para a refle- xão da realidade à luz da fé cris- tã. Impossível não lembrar do saudoso frei Wilson Sperandio e sua leve e profunda coluna se- manal “Novo Jeito deViver”.Ao lado dele, já na década de 1990, estava frei Aldo Colombo e seu “Um Olhar Diferente”. Já no novo milênio, a eles somaram- se a teóloga Maria Clara Binge- mer, Frei Betto, Leonardo Boff, Padre Zezinho e, sempre com o cariz capuchinho, os freis Jaime Bettega com a coluna “Olhar a Vida” e Luiz Turra sempre falan- do “No Coração da Vida”. Cada um deles, com seus temas prefe- ridos e sua abordagem pessoal, ajudavam o leitor a pensar-se como cristão no mundo em que vivemos, em sua dimensão pes- soal, eclesial e social. Para contribuir no propósi- to do Concílio Vaticano II e do caminhar da Igreja brasileira e latino-americana que deseja o protagonismo dos leigos e leigas no assumir e implementar a fé no âmbito social e eclesial, a partir de 2005, o Correio Riogranden- se, em parceria com a Escola Superior de Teologia e Espiritu- alidade Franciscana (Estef), ofe- receu, anualmente, o Curso de Teologia à Distância. Orientados por módulos semanais produzi- dos pelos professores da Facul- dade de Teologia mantida pelos capuchinhos em PortoAlegre, os leitores e leitoras tiveram a opor- tunidade de aprofundar temáti- cas ligadas à fé cristã, à vivência eclesiale aocompromissosocial.