MÚSICA .FILME .HQ .SHOWAno 4 nº 19 João Pessoa, fevereiro 2014
Distribuiçãogratuita
N.T.E. - Você acha que é livre?O funcionamento da mente humana é surpreendente. Ainda mais quando o resultado desse trabalho está perpetuado na música, espe-
cificamente, no punk rock. Alexandre Falante, dono de uma mente que trabalha de forma segmentada, consegue unir tudo de forma coe-
sa e eficiente, montando um painel cheio de indignação, revolta, denúncia e, acima de tudo, contribuindo para que aquilo que já está sacra-
mentado historicamente, que tenha causado dor, sofrimento e mortes, não seja esquecido, e que não venha a se repetir – uma missão quase
impossível, e daí? O objetivo não é o fim, e sim o que acontece durante o caminho traçado. Impossível ou não, Nem Todos Esquecem é esse
painel, longe de ser estático, que se encontra no seu melhor momento sonoro. Depois de várias formações, inclusive com Falante na ba-
teria, agora, junto com Eduardo, Thadeu e Bruno, a N.T.E. está pronta para deixar sua marca na música potiguar. Ninguém será esquecido!
Fotos:OlgaCosta
quando vê os pedaços de papel com as frases, ela
guarda e depois eu monto. As letras são atempo-
rais, para que, daqui a dez anos, permaneçam atuais.
Você não pode esquecer! Falando nisso, o nome
da banda, Nem Todos Esquecem, vem de onde?
Alexandre – O nome N.T.E. veio de momentos em
nosso país, onde acontecem várias atrocidades, como
por exemplo, a ditadura militar, e, com o passar do
tempo, ninguém nem tá mais aí. Tem até um livro que
fala disso chamado Perfil dos Atingidos. Acontecem
coisas ruins, e, no dia seguinte, as maioria da popu-
lação esquece, não sei se esquece por medo, porém,
existem pessoas como nós, que não esquecemos!
vibe dele é do reggae! Ele fez umas guitarras iradas.
Como foi a entrada de Bruno e Tadeu?
Eduardo – Tadeu eu já conhecia. Dos quatro, ele
é o mais músico, tem um potencial muito grande!
Alexandre – O Bruno já é um cara mais hard-
core, no sentido do pensamento, tem a músi-
ca, mas também tem a vivência, e Bruno
já havia tocado comigo na Raça Odiada.
O cenário em Natal é complexo. Tem vários polos...
como funcionam os espaços? Explica um pouco isso.
Alexandre – Espaços existem, porém ainda são
poucos. Já teve época que existiam mais locais para
se tocar. Atualmente, tem o Frutos Estúdio e o Do-
Você comentou sobre o corte vivencial que ajuda na
hora de compor. Vocês estão em um saco de gilete?
Alexandre - Sim, se você vai para a frente, corta, para
trás, aos lados, toda hora! A sociedade é um grande
saco de gilete porque você não pode falar o que você
pensa, até mesmo o que você fala poderá ser usado
contra você mesmo, é um saco de gilete constante.
Somos Prisioneiros foi feita com uma forma-
ção. Depois da gravação, saíram dois integran-
tes. Recentemente, entraram dois novos inte-
grantes. O que mudou na sonoridade da banda?
Eduardo – A gravação do Somos Prisio-
neiros foi feita com Marquinhos na gui-
tarra e Marujo na bateria, foi muito massa!
Alexandre – Os meninos são maravilhosos, mas,
infelizmente, não estava ocorrendo essa simetria...
Eduardo – Marquinhos é um puta músico, mas a
Somos Prisioneiros é o primeiro CD oficial da
N.T.E. Como foi o processo da escolha das músicas?
Eduardo – Pegamos seis músicas de EPs an-
tigos, reformulamos todas, e as outras qua-
torze são inéditas. Ao todo, são vinte músi-
cas que compõem esse novo trabalho.
Você acha que acrescentou ao som
da banda a entrada do baixo?
Alexandre Falante – Melhorou bastante! Com a en-
trada do Eduardo, o som da N.T.E. ficou preenchido.
Eu nunca tinha ouvido a banda com baixo, pois era só
guitarra, bateria e voz. Além disso, trouxe também as
influências dele de punk rock/hardcore.AN.T.E. é out-
ra depois que Eduardo entrou. Começamos em 2010,
comigo e Tiago. Gravamos o primeiro EP chamado
Agora, depois veio o Pelo Menos por um Instante e o
Egoísmo, que foi o primeiro com Eduardo no baixo.
Você falou na influência de punk/hardcore. Em
Natal, a N.T.E. é, praticamente, a única banda de
punk/hardcore. É realmente correto afirmar isso?
Alexandre – Existem bandas que têm influên-
cias do punk e outras que têm influências do hard-
core. Nós temos as duas, não somos só punk
rock, nem só hardcore. Aqui, ou o som é mui-
to veloz, ou vai para o pop rock alternativo...
As letras da N.T.E. têm um diferencial, a letra é
uma arma também. No caso de vocês, elas têm um
direcionamento mais social, vocês são narradores...
Alexandre – A mensagem tanto pode ser de in-
dignação social, inconformismo ou como tam-
bém abordamos coisas nossas que passamos,
algo como Meu Inimigo Sou Eu, que a Rotten
Flies gravou, que fala dos conflitos internos.
Quando ouvi pela primeira vez o Egoísmo, apesar
de ter ouvido os mesmos temas em outras letras, no
entanto, na N.T.E., chamou a-tenção por tornar o
‘velho’discursomaisverdadeiro,agora,nopresente.
Alexandre – Talvez porque realmente é a ver-
dade, porque, se não tivesse sentindo essa dor,
seria difícil transmitir, mas, quando você sofre
mesmo o corte vivencial, você está explicitando
nada mais, nada menos, do que o que você já vive.
Como é que você escreve as letras?
Alexandre – São fragmentos, pedaços. Eu vou es-
crevendo frases, que surgem em momentos diferen-
tes, vou montando pedaços de frases e adaptando.
Eu escrevo a toda hora! A Fernanda, minha esposa,
MICROFONIA2
EXPEDIENTE
Editores:
Adriano Stevenson (DRT - 3401)
Olga Costa (DRT - 60/85)
Colaboradores: Josival Fonseca/Beto L./Erivan
Silva/Fred (Não Conformismo)/Adelvan Kenobi
Fotos/Editoração:Olga Costa
Ilustração:Josival Fonseca
Revisão: Juliene Paiva Osias
E-mail:jornalmicrofonia@gmail.com
Facebook.com/jornalmicrofonia
Twitter:@jmicrofonia
Tiragem:5.000 exemplares
Todos os textos dos nossos colaboradores são as-
sinados e não necessariamente refletem a opinião
da redação.
sol. São os lugares em que fazemos os eventos. No
cenário daqui, prevalece muito a sonoridade rápida,
barulho, mas tem outras segmentações, que é o pes-
soal do hardcore nordeste NHC, que são as bandas
que têm influências do Madball, tem o pessoal do
metal, que é bem organizado! Nos outros eventos,
o pessoal vai, mas não entra, fica a metade fora e o
próprio pessoal que reclama não apoia! A N.T.E. não
é só uma banda, a gente promove eventos também...
VocêsfazemoCaosNatal,queéumeventoqueacon-
tece anualmente. Quantos anos tem o Caos Natal?
Alexandre – Dez anos. No primeiro, veio o Agnose,
Quarto237, bandas de Aracaju Noia; de João Pes-
soa, foi Rotten Flies...foi muito significativo, mar-
cou porque deu muita gente, foi algo que não tinha
acontecido no B52, que depois virou o Blackout, que
era um bar que, geralmente, tocava metal e pop rock
porque o valor da casa era alto. O primeiro grande
evento de hardcore bem organizado foi o Caos Natal
de 2003! Teve duas edições que não estava aqui que
foram feitas pelo Denis e Foca, a de 2007 e 2008.
Qual a diferença de gravar na sua ci-
dade e sair para gravar em outra? O
que é que muda? O que vai acrescentar?
Eduardo – Para mim, não. O ob-
jetivo não era a mudança de som.
Alexandre – Para mim, também não. Aqui
tem estúdios bons. O lance mesmo foi pela a-
mizade, de conhecer novas pessoas, interação...
O fato de ter gravado em João Pessoa diferencia
em alguma coisa dentro do cenário da cidade?
Eduardo – Eu vou me colocar no lugar do consumir,
podeserquesim,masissonãoinfluenciaosomdagente.
Alexandre – Acredito que o público goste...
Eduardo – É como se fosse um marketing.
Já tem música nova com essa for-
mação mais recente da banda?
Alexandre – Tem, eu diria que tem umas seis músi-
cas. Porém, ainda tem o resquício do EP Pelo Menos
por um Instante. A gente quer regravar tudo que não
foi lançado oficialmente. A intenção é que, no ter-
ceiro disco, a gente consiga resgatar tudo. Por isso, a
nossa necessidade de gravar vinte músicas! É muita
música para um CD de hardcore? Sim! Porém, so-
mos uma banda desconhecida, então, é muito difícil
fazer um disco oficial, a gente tem que aproveitar ao
máximo! Sabe aquele menino que não tem o doce? A
N.T.E. quer o doce! Quer chupar até o palito! (risos)
Vocês tem um apreço muito grande
pelo CD prensado, o resultado fi-
nal nesse formato é o doce da história?
Alexandre – É a cereja do bolo.
Eduardo – É o escritor publicando seus li-
vros. No nosso caso, são livros musicais.
Vocês estão nadando contra a maré, pois estamos
no mundo do MP3. Este formato agrada a vocês?
Alexandre – A mim, não!
Eduardo – Também não. Acho muito bolado. Você
pega um álbum em MP3 e existe uma probabi-
lidade muito grande de só escutar uma vez e nunca
mais escutar. Não é a melhor forma de consumir.
Alexandre – Prefiro passar dez anos com mil có-
pias de CD, distribuindo bem vagarosamente,
do que colocar em MP3. Eu compro CD e o
Eduardo compra vinil, a gente sabe que tem um
mercado, que tem uma galera que consome.
Interessante observar que poucos artistas se preo-
cupam com o resultado de suas músicas quando
vão para a internet. Aqui no Brasil, temos o ex-
emplo de Tulipa Ruiz, que, quando viu seu tra-
balho ripado em 128 kbps, pediu para que fosse
retirado e colocado em melhor qualidade. O Neil
Young se juntou a um pessoal do Vale do Silício
para encontrar uma forma de não comprimir
tanto a música para ser ouvida na grande rede...
Eduardo – Só quero deixar claro que não
estamos boicotando a tecnologia, isso
é uma coisa que não tem mais volta...
Alexandre – Daqui a algum tempo, o Somos Prisio-
neiros estará disponível para baixar e, se tiver quem
queira baixar, beleza! Se tiver quem queira com-
prar o CD, massa! Sou contra o MP3 como forma
de apresentação do trabalho, mas, como divulgação,
é um instrumento poderoso e de alcance infinito.
Qual o próximo passo da N.T.E.?
Alexandre – Fazer o disco Solidão Social!
Se eu pudesse, já estava entrando lá no Peixe-
boi! Já está tudo traçado, é só a vida conspi-
rar a favor! A escolha é essa, produzir discos,
fazer músicas com sinceridade, honestidade!
EDITORIAL
“Sem tesão não há solução”, já dizia o
anarquista Roberto Freire com seu livro
lançado nos idos dos anos 80. Parafra-
sear essa máxima é o que fazemos no
Microfonia. Não vale a pena sem emoção,
não vale a pena se não for dito de cora-
ção, e muito menos se não acreditar.
Nossos entrevistados fazem isso com
mérito, passionalidade pura, 110% de ati-
tude e crença, que com a música existe
transformação. Contamos também com o
auxilio luxuoso de Adelvan Kenobi (par-
ceiro de longa data), expondo um clás-
sico do punk brazuca de Aracaju. Essa
edição esta igual a tirinha de Val Fonseca,
tesão ao quadrado, assim como, o peque-
no cabeça de ovo francês. Boa leitura.
Karne Krua, de Aracaju, Sergipe, é, muito pro-
vavelmente, uma das bandas punk mais antigas
em atividade ininterrupta no norte e nordeste do
Brasil. Nunca pararam! Posso atestar isso, já que
os acompanho desde 1987, quando fui ao meu pri-
meiro show de rock “underground”. Sobrevive às
idas e vindas de componentes graças à persistên-
cia de Silvio, o vocalista e único membro original
remanescente. A Karne Krua existe desde 1985, e
seu primeiro disco está fazendo 20 anos de lançado
– um clássico, apesar de seus defeitos gritantes –
de gravação e mixagem, principalmente. Principal-
mente porque foi gravado ainda com a formação
mais célebre – que, logo depois, se dissolveu defin-
itivamente – e tem um repertório impecável, fruto
da excelente fase pela qual passavam na época e que
rendeu pérolas do quilate de “O vinho da História”
e “A Noite do Deus morto”. Além disso, havia a
bagagem que já vinham acumulando em quase 10
anos de atuação nos porões do punk rock nordes-
tino, período no qual compuseram alguns clássi-
cos que até hoje são cantados em coro nos shows:
“America Latina Now”, “Cenas de Ódio e Revol-
ta” e “Sindicato”, dentre outras. Músicas que, para
além da simplicidade dos acordes primários típicos
do estilo, carregavam uma poesia improvável em
suas letras, como na de “Política da Seca” - um
lamento que, a meu ver, poderia constar tranquila-
mente ao lado de grandes canções icônicas sobre a
tragédia do sofrimento do povo do nordeste, como
“Asa Branca” e “A Triste Partida”. Seus versos
são um verdadeiro soco no estômago do confor-
mismo e não me deixam mentir: falam de “pessoas
castigadas pelo sol e pela fome” que “lamentam
a dor de mais um ano que passou”. Porque “os
miseráveis são fonte de renda, mão-de-obra bara-
ta. Voto Comprado. Essa é a grande armadilha, e
deverá ser cultivada”. O disco foi lançado tardia-
mente, numa época de transição para a indústria
da música, do analógico para o digital. Não teve
versão em CD e, muito por conta disso, teve uma
repercussão reduzida. Hoje, no entanto, a situação
se inverteu: é cultuado justamente por ser, além do
primeiro registro “oficial” de uma banda clássica
do cenário local e nacional, um dos poucos discos
sergipanos a ter tido uma edição em vinil. A.K.
E o Vento Levou...
MICROFONIA 3
Enquanto isso, fora da redação...
C.A.M. (COMPANHIA DE AMORES MISERÁVEIS)- O IMBECIL CD-R 2013 (PE) À primeira vista, o nome parece até algo de
banda californiana melódica, assim como também caberia muito bem para as bandas de rock nacional dos anos 80. Eis que, quando o CD
roda, meu irmão, é peia na moleira, não tem mi mimi. A introdução tem uma microfonia anunciando que a destruição está chegando. A
primeira faixa do EP, Drº Crânio, fala daquele cidadão, dono da verdade, certo em tudo, hardcore loud’n’fast; Falso Amigo (Chegando
comumbompapo/pareciaserumbomamigo/masnofundosóqueriafodercomigo),comrefrãoalaMisfits.Bruno(vocal),Zinho(baixo),
Batata (bateria), Diego (guitarra) nos divertem e se divertem com um simples EP. Um detalhe interessante é que o nome da banda foi ti-
rado de uma música do EPViolent Pacification, da banda D.R.I. Quer melhor influência? ciadeamoresmizeraveis@hotmail.com A.S.
OBTUS –VER-OUVIR-CALAR CD 2014 (PI) DeTeresina, chega pouca coisa, das que me recordo de cara é o Megahertz (trash), mas,
devidoaumaconexãodoElprodutorNildoGonzáles,agenteficoumaisinteiradodacenapiauiense.Emumadesuasvisitas,elenostrouxe
esse brinquedinho chamado Obtus. Chakal (voz), Neto (guitarra), Crispim (baixo) eAssis (bateria) fizeram “o CD”: Hardcore casca-gros-
sa-cospe-fogo-dos-infernos. São dezesseis músicas...músicas? São dezesseis chutes na oreia, mas parece que foram apenas quatro, de tão
rápido que passa esse petardo. Letras que fazem a casadinha perfeita com o estilo, indignação e revolta ao quadrado, com uma gravação de
nível, onde tudo está no lugar certo. Digo sem sombra de dúvida: um dos melhores lançamentos do ano. www.facebook.com/Obtus A.S.
N.T.E. SOMOS PRI$IONEIROS CD 2013 (RN) Puta que pariu! Eu estava precisando ouvir isso! Essa mescla de Punk Rock rui-
doso com partes em média velocidade é a receita certa para um verdadeiro show Punk, daqueles que é impossível não pogar até a
exaustão bater. Não há um destaque entre as 20 faixas que compõem o CD, tudo tá no lugar certo, na hora certa. Instrumental simples,
porém bem tocado, vocais excelentes com um inigualável sotaque, letras combativas, muita raiva destilada faixa após faixa. Mas, se eu
tiver que cometer alguma injustiça e destacar um som apenas, esse som se chama “Nem todos esquecem”. Eu me emocionei ao ouvir
esse som. Puta nó na garganta! Escute-a pra ter uma ideia melhor do que estou falando. Bandas como o N.T.E. nos fazem crer que a
verdadeira atitude punk não se apaga perante modismos capitalistas e superficiais. Parabéns, N.T.E! ntepunk@hotmail.com F.N.C.
El Mariachi
PRIMORDIUM-GATESOFRE-STAÚ:CONJURATIONOFDAEMONAPOPICD-REP(RN)Onordestesempreteveumacena
metálica muito forte, algo que não poderia ser diferente em Natal. O que ouvimos neste trabalho da banda Primordium, já com mais de dez
anosdeestrada,équeoscarastocamaqueledeathmetalbrutal,lembrandobemacenadosanos80.OEPémuitobemgravado.Éumapena
ter apenas três músicas, duas gravadas em estúdio e uma ao vivo. Os solos têm forte influência do heavy metal tradicional. O baixo é bem
marcado, enquanto a bateria imprime até a metranca (batida encontrada nos CDs do Sarcófago).Aformação, que gravou o EP, conta com:
GersonLima(vocal),ThiagoVarella(guitarra),KleyberJunior(baixo),DeniltonFalcão(guitarra)eAugustoOliveira(bateria).Sópeçoao
pessoal da banda para não deixarAugusto tomar chopp de vinho antes de uma apresentação. www.facebook.com/Primordiumbr . B.L.
MICROFONIA4
Amor à queima roupaFahrenheit 451
The
Battery
Horror.
Direção:
Jeremy
Gardner
(2013)
Uma boa história tem que ter uma boa treta, ou mel-
hor, um bom causo, e, nesse quesito, os Sex Pistols
batem o recorde. Banda seminal do Punk Inglês que
fez estardalhaço nos meados da década de 70. Até aí,
a história é batida, mas não se pode negar que a zueira
feita por esses garotos ingleses era o que realmente
se precisava ver e ouvir. O rock já tinha ficado sem
paudurecência. A mamãe estava gostando de ouvir
as mesmas coisas do filhinho, eis aí o problema. Os
autores Alan G. Parker (que fez o filme Who Killed
Nancy?) e Mick O’Shea percorreram a via crucis dos
cinco Pistols, aqui, incluo Malcolm McLaren, em-
presário da banda e peça fundamental, que precisava
satisfazer suas ambições artísticas e financeiras. O
mesmo já tinha alguma pouca experiência ao pegar o
finalzinho do New York Dolls e levou a ideia além do
Atlântico, pegando o cleptomaníaco Steve Jones, seu
comparsa Paul Cook, juntamente com seu funcionário
da Loja de roupas Sex, Glen Matlock e um certo John
ainda levando seu sobrenome de batismo, Lyndon.
Os autores que foram questionados sobre o direito de
escrever sobre os Sex Pistols, por não pertencerem à
cena no seu auge, se defendem: “Existe um bocado
de livro sobre a Roma antiga e ninguém critica por
seus autores não estarem por perto para testemunhar”.
Eles percorreram os três anos intensos, sendo revela-
das situações escabrosas, desde a substituição de Glen
Matlock por Sid Vicious, passando pelos furtos de eq-
uipamentos de Bowie e Rod Stewart, sabotagem da
gravadora, perseguição da mídia, culminando na por-
ralouquicequedariacabodabanda.Paraquemgostade
rock, punk ou uma boa história, taí um bom livro.A.S.
Uma das coisas boas dos quadrinhos, sem dúvida,
são aquelas histórias com crianças curiosas, es-
pertas e sempre metidas em confusões cheias de
aventuras e muito bom humor. Como prova dis-
so, temos a Turma da Mônica, Mafalda, Calvin e
Haroldo, Luluzinha, Peanuts e uma infinidade de
tantos outros ao longo dos anos. Bem, o novo pir-
ralho do pedaço, ou melhor, das HQs, chama-se
Titeuf (lê-se Titãf, que, abreviado do francês étête
d’oeuf, significa cabeça de ovo). Foi criado na
década de 1990 por Zep (pseudônimo de Philippe
Chappuis). O gibi mostra o garoto de topete loiro
e sua turma em torno de assuntos do universo dos
adultos, principalmente com muita ingenuidade e
curiosidade, o sexo. As histórias, em geral, se re-
sumem em uma página com tiradas espetaculares e
hilárias. A imaginação de Titeuf vai de oito a oitenta
sobre o que ouve de seus amiguinhos falarem da
sexualidade humana, e ele acaba sempre entrando
numa fria por causadas outras crianças e também
dos adultos. Já foram lançados em torno de doze
álbuns, com mais de um milhão de exemplares só
na França, e mais de vinte milhões em outros vinte
e cinco países. Aqui já está saindo o quarto vo-
lume, intitulado “Isso não é justo”. Os outros três
anteriores são: “Deus, o sexo e os suspensórios”,
“O amor é nojento” e “Do que elas gostam”, todos
em média de 52 páginas. Em 2011, Titeuf lançou-se
como um desenho animado direto para os cinemas,
o que, provavelmente, deve ser tanto ou até mais
divertido do que seus quadrinhos. A Cia das Letras
chegou a lançar em 2007 o livro “Aparelho Sexual
e Cia. - Um Guia Inusitado Para Crianças Descola-
das –Zep” com o próprio Titeuf na capa, e que cu-
riosamente teve o nome traduzido como Tito.Agora
é correr atrás destas edições e ver o quanto a mente
das crianças é criativa quando se trata de “certos as-
suntos”. E quem de nós já não pensou em bobagens
na época da descoberta sobre os prazeres da carne?
Leia Titeuf e talvez você se identifique com algu-
ma dessas embaraçosas e divertidas situações. J.F.
Crescen-
do
com os
Sex
Pistols
Precisa-
se de
Sangue
Novo
Editora
Madras
100 pgs.,
R$ 39,90
cada
Um lugar bucólico, com vaquinhas da raça holandesa,
lagos rodeados de belas árvores centenárias, passarin-
hos cantando ao amanhecer, uma vasta macieira, ca-
choeiras, bangalôs e mortos vivos. Escrito, dirigido e
estrelado por Jeremy Gardner, que teve a sacação de
quebrar alguns clichês nos filmes de zumbi, algo que
se vê pouco no filme: eles existem, mas aqui prevale-
cia o que os protagonistas sentiam com aquela situa-
ção. A falta de sexo, um simples escovar de dentes ou
dormir numa cama, coisas que realmente não se fala
em filmes do gênero, a palavra zumbi é outra coisa
que é pouco dita em filmes, e, aqui, eles brincam e
quebram essa regra. A história fala de dois ex-joga-
dores de baseball que atravessam o país sem destino
e tentam conviver com suas diferenças. Ben (Jeremy
Gardner) já está adaptado ao novo mundo, onde a
regra é matar pra não morrer e virar comida, e Mickey
(Adam Crohein) ainda corre atrás do conforto, da
namorada e um lugar seguro, sem ter que acertar ne-
nhum morto vivo. A reviravolta acontece quando es-
cutam a voz de uma mulher, Annie, por um walk talk,
e daí as possibilidades – ou a falta delas – são jogadas
à mesa. O filme conta com uma trilha sonora um tanto
curiosa (Rock Plaza Central/Sun Hotel/Wise Blood),
tanto que é considerado um filme de zumbi indie. Dos
filmes que já vi, esse é o que mais se aproxima do
que seria sobreviver, sem muita pirotecnia. Somente
o caminhar, respirar e aproveitar o momento (a cena
onde eles ficam presos no carro demonstra isso).
Vencedor de melhor filme em 2013 no Horror Festival
Internacional da Escócia e também de melhor filme de
apocalipse zumbi no festival Fantaspoa (IX Festival
de Cinema Fantástico de Porto Alegre) no Brasil. A.S.
Editora
Vergara
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Riba
21x28 cm
52 pgs.
R$ 34,90
Zumbilândia
PATROCÍNIO

Jornalmicrofonia #19

  • 1.
    MÚSICA .FILME .HQ.SHOWAno 4 nº 19 João Pessoa, fevereiro 2014 Distribuiçãogratuita N.T.E. - Você acha que é livre?O funcionamento da mente humana é surpreendente. Ainda mais quando o resultado desse trabalho está perpetuado na música, espe- cificamente, no punk rock. Alexandre Falante, dono de uma mente que trabalha de forma segmentada, consegue unir tudo de forma coe- sa e eficiente, montando um painel cheio de indignação, revolta, denúncia e, acima de tudo, contribuindo para que aquilo que já está sacra- mentado historicamente, que tenha causado dor, sofrimento e mortes, não seja esquecido, e que não venha a se repetir – uma missão quase impossível, e daí? O objetivo não é o fim, e sim o que acontece durante o caminho traçado. Impossível ou não, Nem Todos Esquecem é esse painel, longe de ser estático, que se encontra no seu melhor momento sonoro. Depois de várias formações, inclusive com Falante na ba- teria, agora, junto com Eduardo, Thadeu e Bruno, a N.T.E. está pronta para deixar sua marca na música potiguar. Ninguém será esquecido! Fotos:OlgaCosta quando vê os pedaços de papel com as frases, ela guarda e depois eu monto. As letras são atempo- rais, para que, daqui a dez anos, permaneçam atuais. Você não pode esquecer! Falando nisso, o nome da banda, Nem Todos Esquecem, vem de onde? Alexandre – O nome N.T.E. veio de momentos em nosso país, onde acontecem várias atrocidades, como por exemplo, a ditadura militar, e, com o passar do tempo, ninguém nem tá mais aí. Tem até um livro que fala disso chamado Perfil dos Atingidos. Acontecem coisas ruins, e, no dia seguinte, as maioria da popu- lação esquece, não sei se esquece por medo, porém, existem pessoas como nós, que não esquecemos! vibe dele é do reggae! Ele fez umas guitarras iradas. Como foi a entrada de Bruno e Tadeu? Eduardo – Tadeu eu já conhecia. Dos quatro, ele é o mais músico, tem um potencial muito grande! Alexandre – O Bruno já é um cara mais hard- core, no sentido do pensamento, tem a músi- ca, mas também tem a vivência, e Bruno já havia tocado comigo na Raça Odiada. O cenário em Natal é complexo. Tem vários polos... como funcionam os espaços? Explica um pouco isso. Alexandre – Espaços existem, porém ainda são poucos. Já teve época que existiam mais locais para se tocar. Atualmente, tem o Frutos Estúdio e o Do- Você comentou sobre o corte vivencial que ajuda na hora de compor. Vocês estão em um saco de gilete? Alexandre - Sim, se você vai para a frente, corta, para trás, aos lados, toda hora! A sociedade é um grande saco de gilete porque você não pode falar o que você pensa, até mesmo o que você fala poderá ser usado contra você mesmo, é um saco de gilete constante. Somos Prisioneiros foi feita com uma forma- ção. Depois da gravação, saíram dois integran- tes. Recentemente, entraram dois novos inte- grantes. O que mudou na sonoridade da banda? Eduardo – A gravação do Somos Prisio- neiros foi feita com Marquinhos na gui- tarra e Marujo na bateria, foi muito massa! Alexandre – Os meninos são maravilhosos, mas, infelizmente, não estava ocorrendo essa simetria... Eduardo – Marquinhos é um puta músico, mas a Somos Prisioneiros é o primeiro CD oficial da N.T.E. Como foi o processo da escolha das músicas? Eduardo – Pegamos seis músicas de EPs an- tigos, reformulamos todas, e as outras qua- torze são inéditas. Ao todo, são vinte músi- cas que compõem esse novo trabalho. Você acha que acrescentou ao som da banda a entrada do baixo? Alexandre Falante – Melhorou bastante! Com a en- trada do Eduardo, o som da N.T.E. ficou preenchido. Eu nunca tinha ouvido a banda com baixo, pois era só guitarra, bateria e voz. Além disso, trouxe também as influências dele de punk rock/hardcore.AN.T.E. é out- ra depois que Eduardo entrou. Começamos em 2010, comigo e Tiago. Gravamos o primeiro EP chamado Agora, depois veio o Pelo Menos por um Instante e o Egoísmo, que foi o primeiro com Eduardo no baixo. Você falou na influência de punk/hardcore. Em Natal, a N.T.E. é, praticamente, a única banda de punk/hardcore. É realmente correto afirmar isso? Alexandre – Existem bandas que têm influên- cias do punk e outras que têm influências do hard- core. Nós temos as duas, não somos só punk rock, nem só hardcore. Aqui, ou o som é mui- to veloz, ou vai para o pop rock alternativo... As letras da N.T.E. têm um diferencial, a letra é uma arma também. No caso de vocês, elas têm um direcionamento mais social, vocês são narradores... Alexandre – A mensagem tanto pode ser de in- dignação social, inconformismo ou como tam- bém abordamos coisas nossas que passamos, algo como Meu Inimigo Sou Eu, que a Rotten Flies gravou, que fala dos conflitos internos. Quando ouvi pela primeira vez o Egoísmo, apesar de ter ouvido os mesmos temas em outras letras, no entanto, na N.T.E., chamou a-tenção por tornar o ‘velho’discursomaisverdadeiro,agora,nopresente. Alexandre – Talvez porque realmente é a ver- dade, porque, se não tivesse sentindo essa dor, seria difícil transmitir, mas, quando você sofre mesmo o corte vivencial, você está explicitando nada mais, nada menos, do que o que você já vive. Como é que você escreve as letras? Alexandre – São fragmentos, pedaços. Eu vou es- crevendo frases, que surgem em momentos diferen- tes, vou montando pedaços de frases e adaptando. Eu escrevo a toda hora! A Fernanda, minha esposa,
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    MICROFONIA2 EXPEDIENTE Editores: Adriano Stevenson (DRT- 3401) Olga Costa (DRT - 60/85) Colaboradores: Josival Fonseca/Beto L./Erivan Silva/Fred (Não Conformismo)/Adelvan Kenobi Fotos/Editoração:Olga Costa Ilustração:Josival Fonseca Revisão: Juliene Paiva Osias E-mail:jornalmicrofonia@gmail.com Facebook.com/jornalmicrofonia Twitter:@jmicrofonia Tiragem:5.000 exemplares Todos os textos dos nossos colaboradores são as- sinados e não necessariamente refletem a opinião da redação. sol. São os lugares em que fazemos os eventos. No cenário daqui, prevalece muito a sonoridade rápida, barulho, mas tem outras segmentações, que é o pes- soal do hardcore nordeste NHC, que são as bandas que têm influências do Madball, tem o pessoal do metal, que é bem organizado! Nos outros eventos, o pessoal vai, mas não entra, fica a metade fora e o próprio pessoal que reclama não apoia! A N.T.E. não é só uma banda, a gente promove eventos também... VocêsfazemoCaosNatal,queéumeventoqueacon- tece anualmente. Quantos anos tem o Caos Natal? Alexandre – Dez anos. No primeiro, veio o Agnose, Quarto237, bandas de Aracaju Noia; de João Pes- soa, foi Rotten Flies...foi muito significativo, mar- cou porque deu muita gente, foi algo que não tinha acontecido no B52, que depois virou o Blackout, que era um bar que, geralmente, tocava metal e pop rock porque o valor da casa era alto. O primeiro grande evento de hardcore bem organizado foi o Caos Natal de 2003! Teve duas edições que não estava aqui que foram feitas pelo Denis e Foca, a de 2007 e 2008. Qual a diferença de gravar na sua ci- dade e sair para gravar em outra? O que é que muda? O que vai acrescentar? Eduardo – Para mim, não. O ob- jetivo não era a mudança de som. Alexandre – Para mim, também não. Aqui tem estúdios bons. O lance mesmo foi pela a- mizade, de conhecer novas pessoas, interação... O fato de ter gravado em João Pessoa diferencia em alguma coisa dentro do cenário da cidade? Eduardo – Eu vou me colocar no lugar do consumir, podeserquesim,masissonãoinfluenciaosomdagente. Alexandre – Acredito que o público goste... Eduardo – É como se fosse um marketing. Já tem música nova com essa for- mação mais recente da banda? Alexandre – Tem, eu diria que tem umas seis músi- cas. Porém, ainda tem o resquício do EP Pelo Menos por um Instante. A gente quer regravar tudo que não foi lançado oficialmente. A intenção é que, no ter- ceiro disco, a gente consiga resgatar tudo. Por isso, a nossa necessidade de gravar vinte músicas! É muita música para um CD de hardcore? Sim! Porém, so- mos uma banda desconhecida, então, é muito difícil fazer um disco oficial, a gente tem que aproveitar ao máximo! Sabe aquele menino que não tem o doce? A N.T.E. quer o doce! Quer chupar até o palito! (risos) Vocês tem um apreço muito grande pelo CD prensado, o resultado fi- nal nesse formato é o doce da história? Alexandre – É a cereja do bolo. Eduardo – É o escritor publicando seus li- vros. No nosso caso, são livros musicais. Vocês estão nadando contra a maré, pois estamos no mundo do MP3. Este formato agrada a vocês? Alexandre – A mim, não! Eduardo – Também não. Acho muito bolado. Você pega um álbum em MP3 e existe uma probabi- lidade muito grande de só escutar uma vez e nunca mais escutar. Não é a melhor forma de consumir. Alexandre – Prefiro passar dez anos com mil có- pias de CD, distribuindo bem vagarosamente, do que colocar em MP3. Eu compro CD e o Eduardo compra vinil, a gente sabe que tem um mercado, que tem uma galera que consome. Interessante observar que poucos artistas se preo- cupam com o resultado de suas músicas quando vão para a internet. Aqui no Brasil, temos o ex- emplo de Tulipa Ruiz, que, quando viu seu tra- balho ripado em 128 kbps, pediu para que fosse retirado e colocado em melhor qualidade. O Neil Young se juntou a um pessoal do Vale do Silício para encontrar uma forma de não comprimir tanto a música para ser ouvida na grande rede... Eduardo – Só quero deixar claro que não estamos boicotando a tecnologia, isso é uma coisa que não tem mais volta... Alexandre – Daqui a algum tempo, o Somos Prisio- neiros estará disponível para baixar e, se tiver quem queira baixar, beleza! Se tiver quem queira com- prar o CD, massa! Sou contra o MP3 como forma de apresentação do trabalho, mas, como divulgação, é um instrumento poderoso e de alcance infinito. Qual o próximo passo da N.T.E.? Alexandre – Fazer o disco Solidão Social! Se eu pudesse, já estava entrando lá no Peixe- boi! Já está tudo traçado, é só a vida conspi- rar a favor! A escolha é essa, produzir discos, fazer músicas com sinceridade, honestidade! EDITORIAL “Sem tesão não há solução”, já dizia o anarquista Roberto Freire com seu livro lançado nos idos dos anos 80. Parafra- sear essa máxima é o que fazemos no Microfonia. Não vale a pena sem emoção, não vale a pena se não for dito de cora- ção, e muito menos se não acreditar. Nossos entrevistados fazem isso com mérito, passionalidade pura, 110% de ati- tude e crença, que com a música existe transformação. Contamos também com o auxilio luxuoso de Adelvan Kenobi (par- ceiro de longa data), expondo um clás- sico do punk brazuca de Aracaju. Essa edição esta igual a tirinha de Val Fonseca, tesão ao quadrado, assim como, o peque- no cabeça de ovo francês. Boa leitura. Karne Krua, de Aracaju, Sergipe, é, muito pro- vavelmente, uma das bandas punk mais antigas em atividade ininterrupta no norte e nordeste do Brasil. Nunca pararam! Posso atestar isso, já que os acompanho desde 1987, quando fui ao meu pri- meiro show de rock “underground”. Sobrevive às idas e vindas de componentes graças à persistên- cia de Silvio, o vocalista e único membro original remanescente. A Karne Krua existe desde 1985, e seu primeiro disco está fazendo 20 anos de lançado – um clássico, apesar de seus defeitos gritantes – de gravação e mixagem, principalmente. Principal- mente porque foi gravado ainda com a formação mais célebre – que, logo depois, se dissolveu defin- itivamente – e tem um repertório impecável, fruto da excelente fase pela qual passavam na época e que rendeu pérolas do quilate de “O vinho da História” e “A Noite do Deus morto”. Além disso, havia a bagagem que já vinham acumulando em quase 10 anos de atuação nos porões do punk rock nordes- tino, período no qual compuseram alguns clássi- cos que até hoje são cantados em coro nos shows: “America Latina Now”, “Cenas de Ódio e Revol- ta” e “Sindicato”, dentre outras. Músicas que, para além da simplicidade dos acordes primários típicos do estilo, carregavam uma poesia improvável em suas letras, como na de “Política da Seca” - um lamento que, a meu ver, poderia constar tranquila- mente ao lado de grandes canções icônicas sobre a tragédia do sofrimento do povo do nordeste, como “Asa Branca” e “A Triste Partida”. Seus versos são um verdadeiro soco no estômago do confor- mismo e não me deixam mentir: falam de “pessoas castigadas pelo sol e pela fome” que “lamentam a dor de mais um ano que passou”. Porque “os miseráveis são fonte de renda, mão-de-obra bara- ta. Voto Comprado. Essa é a grande armadilha, e deverá ser cultivada”. O disco foi lançado tardia- mente, numa época de transição para a indústria da música, do analógico para o digital. Não teve versão em CD e, muito por conta disso, teve uma repercussão reduzida. Hoje, no entanto, a situação se inverteu: é cultuado justamente por ser, além do primeiro registro “oficial” de uma banda clássica do cenário local e nacional, um dos poucos discos sergipanos a ter tido uma edição em vinil. A.K. E o Vento Levou...
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    MICROFONIA 3 Enquanto isso,fora da redação... C.A.M. (COMPANHIA DE AMORES MISERÁVEIS)- O IMBECIL CD-R 2013 (PE) À primeira vista, o nome parece até algo de banda californiana melódica, assim como também caberia muito bem para as bandas de rock nacional dos anos 80. Eis que, quando o CD roda, meu irmão, é peia na moleira, não tem mi mimi. A introdução tem uma microfonia anunciando que a destruição está chegando. A primeira faixa do EP, Drº Crânio, fala daquele cidadão, dono da verdade, certo em tudo, hardcore loud’n’fast; Falso Amigo (Chegando comumbompapo/pareciaserumbomamigo/masnofundosóqueriafodercomigo),comrefrãoalaMisfits.Bruno(vocal),Zinho(baixo), Batata (bateria), Diego (guitarra) nos divertem e se divertem com um simples EP. Um detalhe interessante é que o nome da banda foi ti- rado de uma música do EPViolent Pacification, da banda D.R.I. Quer melhor influência? ciadeamoresmizeraveis@hotmail.com A.S. OBTUS –VER-OUVIR-CALAR CD 2014 (PI) DeTeresina, chega pouca coisa, das que me recordo de cara é o Megahertz (trash), mas, devidoaumaconexãodoElprodutorNildoGonzáles,agenteficoumaisinteiradodacenapiauiense.Emumadesuasvisitas,elenostrouxe esse brinquedinho chamado Obtus. Chakal (voz), Neto (guitarra), Crispim (baixo) eAssis (bateria) fizeram “o CD”: Hardcore casca-gros- sa-cospe-fogo-dos-infernos. São dezesseis músicas...músicas? São dezesseis chutes na oreia, mas parece que foram apenas quatro, de tão rápido que passa esse petardo. Letras que fazem a casadinha perfeita com o estilo, indignação e revolta ao quadrado, com uma gravação de nível, onde tudo está no lugar certo. Digo sem sombra de dúvida: um dos melhores lançamentos do ano. www.facebook.com/Obtus A.S. N.T.E. SOMOS PRI$IONEIROS CD 2013 (RN) Puta que pariu! Eu estava precisando ouvir isso! Essa mescla de Punk Rock rui- doso com partes em média velocidade é a receita certa para um verdadeiro show Punk, daqueles que é impossível não pogar até a exaustão bater. Não há um destaque entre as 20 faixas que compõem o CD, tudo tá no lugar certo, na hora certa. Instrumental simples, porém bem tocado, vocais excelentes com um inigualável sotaque, letras combativas, muita raiva destilada faixa após faixa. Mas, se eu tiver que cometer alguma injustiça e destacar um som apenas, esse som se chama “Nem todos esquecem”. Eu me emocionei ao ouvir esse som. Puta nó na garganta! Escute-a pra ter uma ideia melhor do que estou falando. Bandas como o N.T.E. nos fazem crer que a verdadeira atitude punk não se apaga perante modismos capitalistas e superficiais. Parabéns, N.T.E! ntepunk@hotmail.com F.N.C. El Mariachi PRIMORDIUM-GATESOFRE-STAÚ:CONJURATIONOFDAEMONAPOPICD-REP(RN)Onordestesempreteveumacena metálica muito forte, algo que não poderia ser diferente em Natal. O que ouvimos neste trabalho da banda Primordium, já com mais de dez anosdeestrada,équeoscarastocamaqueledeathmetalbrutal,lembrandobemacenadosanos80.OEPémuitobemgravado.Éumapena ter apenas três músicas, duas gravadas em estúdio e uma ao vivo. Os solos têm forte influência do heavy metal tradicional. O baixo é bem marcado, enquanto a bateria imprime até a metranca (batida encontrada nos CDs do Sarcófago).Aformação, que gravou o EP, conta com: GersonLima(vocal),ThiagoVarella(guitarra),KleyberJunior(baixo),DeniltonFalcão(guitarra)eAugustoOliveira(bateria).Sópeçoao pessoal da banda para não deixarAugusto tomar chopp de vinho antes de uma apresentação. www.facebook.com/Primordiumbr . B.L.
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    MICROFONIA4 Amor à queimaroupaFahrenheit 451 The Battery Horror. Direção: Jeremy Gardner (2013) Uma boa história tem que ter uma boa treta, ou mel- hor, um bom causo, e, nesse quesito, os Sex Pistols batem o recorde. Banda seminal do Punk Inglês que fez estardalhaço nos meados da década de 70. Até aí, a história é batida, mas não se pode negar que a zueira feita por esses garotos ingleses era o que realmente se precisava ver e ouvir. O rock já tinha ficado sem paudurecência. A mamãe estava gostando de ouvir as mesmas coisas do filhinho, eis aí o problema. Os autores Alan G. Parker (que fez o filme Who Killed Nancy?) e Mick O’Shea percorreram a via crucis dos cinco Pistols, aqui, incluo Malcolm McLaren, em- presário da banda e peça fundamental, que precisava satisfazer suas ambições artísticas e financeiras. O mesmo já tinha alguma pouca experiência ao pegar o finalzinho do New York Dolls e levou a ideia além do Atlântico, pegando o cleptomaníaco Steve Jones, seu comparsa Paul Cook, juntamente com seu funcionário da Loja de roupas Sex, Glen Matlock e um certo John ainda levando seu sobrenome de batismo, Lyndon. Os autores que foram questionados sobre o direito de escrever sobre os Sex Pistols, por não pertencerem à cena no seu auge, se defendem: “Existe um bocado de livro sobre a Roma antiga e ninguém critica por seus autores não estarem por perto para testemunhar”. Eles percorreram os três anos intensos, sendo revela- das situações escabrosas, desde a substituição de Glen Matlock por Sid Vicious, passando pelos furtos de eq- uipamentos de Bowie e Rod Stewart, sabotagem da gravadora, perseguição da mídia, culminando na por- ralouquicequedariacabodabanda.Paraquemgostade rock, punk ou uma boa história, taí um bom livro.A.S. Uma das coisas boas dos quadrinhos, sem dúvida, são aquelas histórias com crianças curiosas, es- pertas e sempre metidas em confusões cheias de aventuras e muito bom humor. Como prova dis- so, temos a Turma da Mônica, Mafalda, Calvin e Haroldo, Luluzinha, Peanuts e uma infinidade de tantos outros ao longo dos anos. Bem, o novo pir- ralho do pedaço, ou melhor, das HQs, chama-se Titeuf (lê-se Titãf, que, abreviado do francês étête d’oeuf, significa cabeça de ovo). Foi criado na década de 1990 por Zep (pseudônimo de Philippe Chappuis). O gibi mostra o garoto de topete loiro e sua turma em torno de assuntos do universo dos adultos, principalmente com muita ingenuidade e curiosidade, o sexo. As histórias, em geral, se re- sumem em uma página com tiradas espetaculares e hilárias. A imaginação de Titeuf vai de oito a oitenta sobre o que ouve de seus amiguinhos falarem da sexualidade humana, e ele acaba sempre entrando numa fria por causadas outras crianças e também dos adultos. Já foram lançados em torno de doze álbuns, com mais de um milhão de exemplares só na França, e mais de vinte milhões em outros vinte e cinco países. Aqui já está saindo o quarto vo- lume, intitulado “Isso não é justo”. Os outros três anteriores são: “Deus, o sexo e os suspensórios”, “O amor é nojento” e “Do que elas gostam”, todos em média de 52 páginas. Em 2011, Titeuf lançou-se como um desenho animado direto para os cinemas, o que, provavelmente, deve ser tanto ou até mais divertido do que seus quadrinhos. A Cia das Letras chegou a lançar em 2007 o livro “Aparelho Sexual e Cia. - Um Guia Inusitado Para Crianças Descola- das –Zep” com o próprio Titeuf na capa, e que cu- riosamente teve o nome traduzido como Tito.Agora é correr atrás destas edições e ver o quanto a mente das crianças é criativa quando se trata de “certos as- suntos”. E quem de nós já não pensou em bobagens na época da descoberta sobre os prazeres da carne? Leia Titeuf e talvez você se identifique com algu- ma dessas embaraçosas e divertidas situações. J.F. Crescen- do com os Sex Pistols Precisa- se de Sangue Novo Editora Madras 100 pgs., R$ 39,90 cada Um lugar bucólico, com vaquinhas da raça holandesa, lagos rodeados de belas árvores centenárias, passarin- hos cantando ao amanhecer, uma vasta macieira, ca- choeiras, bangalôs e mortos vivos. Escrito, dirigido e estrelado por Jeremy Gardner, que teve a sacação de quebrar alguns clichês nos filmes de zumbi, algo que se vê pouco no filme: eles existem, mas aqui prevale- cia o que os protagonistas sentiam com aquela situa- ção. A falta de sexo, um simples escovar de dentes ou dormir numa cama, coisas que realmente não se fala em filmes do gênero, a palavra zumbi é outra coisa que é pouco dita em filmes, e, aqui, eles brincam e quebram essa regra. A história fala de dois ex-joga- dores de baseball que atravessam o país sem destino e tentam conviver com suas diferenças. Ben (Jeremy Gardner) já está adaptado ao novo mundo, onde a regra é matar pra não morrer e virar comida, e Mickey (Adam Crohein) ainda corre atrás do conforto, da namorada e um lugar seguro, sem ter que acertar ne- nhum morto vivo. A reviravolta acontece quando es- cutam a voz de uma mulher, Annie, por um walk talk, e daí as possibilidades – ou a falta delas – são jogadas à mesa. O filme conta com uma trilha sonora um tanto curiosa (Rock Plaza Central/Sun Hotel/Wise Blood), tanto que é considerado um filme de zumbi indie. Dos filmes que já vi, esse é o que mais se aproxima do que seria sobreviver, sem muita pirotecnia. Somente o caminhar, respirar e aproveitar o momento (a cena onde eles ficam presos no carro demonstra isso). Vencedor de melhor filme em 2013 no Horror Festival Internacional da Escócia e também de melhor filme de apocalipse zumbi no festival Fantaspoa (IX Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre) no Brasil. A.S. Editora Vergara & Riba 21x28 cm 52 pgs. R$ 34,90 Zumbilândia PATROCÍNIO