MÚSICA .FILME .HQ .SHOWAno 4 nº 20 João Pessoa, março 2014
Distribuiçãogratuita
Rotten Flies - O Saco é de Gilete
Algumaspessoasacreditamqueodestinodecadaserdonossoplanetaestátraçado.ARottenFliesamargouaesperadedezanosparao
primeirodiscoserlançado.Entrounumarotadecolisãotãoviolentaqueculminoucomatrocadevocalista.Sentiram-se,maisumavez,
alvodefalatórios,policiamentosecobranças.Noentanto,viverdentrodeumsacodegilete,pareceserasinadessequarteto,quecarrega
aessênciadopunkemsuasveias.Umviking,denãomuitolonge,inalouporanos,acolheuechegouparatornaressaessênciaaindamais
vibrante.Aseguir, Beto, Cecílio,Adriano e Francisquinho falam da nova fase da banda e dos votos renovados com o punk/hardcore.
Fotos:OlgaCosta
rentemente, era uma banda para quem estava de fora.
Adriano – Era um “bater o cartão”... “porra, tem
ensaio hoje!”... desde que eu entendo de RF, não é
muito diferente, não, a gente sempre queria mais e
não podia ter. Ou a gente se acomodou a não ter isso.
Beto – E, por conta de muitos ensaios, quase dois
meses sem vocal, quase nos tornávamos uma banda
instrumental!
Adriano – Teve até um ano...
Cecílio – Mas esse um ano foi diferente, pois estáva-
mos sabendo...
Adriano – Voltando à resposta, a gente redescobriu
mesmo. Tem uma coisa que quero deixar bem clara:
Eu já toco há um bom tempo. Vou até fazer uma piada
interna aqui - “há mais de 20 anos” e, quando é dia
de ensaio, é o meu dia mais feliz. Eu gosto disso,
depois desse tempo todo! Nunca vou dizer que acho
uma merda ter ensaio e agora está melhor ainda!
Ensaio é o combustível da banda! Quando se forma
uma banda, é para se fazer música, o resto é conse-
qüência! Nunca vi a banda tão unida como agora!
Essa união da banda fez com que vocês tomassem
maisgostoemreouvire/ouredescobrirsonoridades?
Beto – A banda está mais agressiva, devido ao vocal
de Francisquinho, que tem uma pegada bem agressiva.
Mas a RF nunca teve uma postura séria demais, a gente
tocou o que gostava, só que, atualmente, está agres-
sivo. E pegar as músicas antigas é muito bom, porque,
às vezes, você até esquece de como elas são legais.
Adriano –Acho que, com a entrada de Francisquinho,
oqueeleagregou,foioqueagentejásabia.ARFeraum
barril de pólvora, mas não tinha faísca, Francisquinho
foi que fez detonar. Ele apenas seguiu o que já existia.
Ele deu um empurrão no carro, o carro pegou, ele en-
trou e foi simbora!Vou citar uma frase de Lawrence, da
Comedores de Lixo: “às vezes, uma faísca cria um in-
cêndio.” E era dessa faísca que estávamos precisando.
Francisquinho, como você se sentia an-
tes de ser convidado para assumir o vo-
cal da banda e como você se sente hoje?
Francisquinho – Eu tenho um carinho e um res-
peito muito grande pela RF. Não nego que, quan-
do recebi o convite, fiquei um pouco apreensivo,
porque era para tocar com três caras que tem uma
história e quem tinha que correr, para alcançá-
los, era eu. Por essa razão, eu me esforcei e juntei
o que eu sei fazer com o ódio que tenho dentro de
mim e trabalhei para que a RF desse uma guinada.
Vocês gravaram o Amargo (2002) no Estúdio
Peixeboi. Como foi trabalhar novamente com Mar-
celinho Macedo?
Adriano – Marcelinho, para mim, guardadas as devi-
das proporções, é um George Martin. Martin era ma-
estro e foi produzir os Beatles. Marcelinho é do jazz,
mas ele entende a linguagem. Quando eu falo, ele en-
tende o que quero! É legal trabalhar com alguém que
não é do mesmo estilo porque ele vai descobrir algo
Vocês entraram em estúdio bem ensaiados. Como
foi esse processo até chegar à gravação de fato?
Cecílio – Começamos a ensaiar, o disco estava 100
por cento pronto e, quando fomos gravar... aí foi raw
punk! (risos)
Adriano – Foi um processo tortuoso. Não foi fácil,
foi o disco mais difícil. Na verdade, na Rotten Flies,
nada é fácil! A vontade e o interesse da banda foram
maiores em querer finalizar. Passamos por momentos
difíceis e chatos, ao mesmo tempo, foi bom também
porque houve uma renovação. Eu sempre tirava onda
comigo mesmo, dizendo que “a Rotten Flies é um
carro velho, que andava um pouquinho e parava”...
Cecílio – Mas, agora, o carro velho pegou e foi
para aquele cara que faz umas reformas e está en-
venenado agora! Tá um motor raw punk!(risos)
Beto – A gente achou que o processo seria mais
difícil, mas depois melhorou e agora é só alegria!
Cecílio – Quando paramos o processo, eu pen-
sei o seguinte: pior do que está não pode fi-
car, não! Ou parava de vez, ou iria melhorar!
É correto afirmar que, com esse CD, vocês re-
descobriram como é tocar como uma banda?
Adriano – Nós somos hoje uma velha nova banda!
Cecílio – A gente voltou a saber o que é tocar numa
banda! Porque fazia muito tempo que a gente não sa-
bia o que era isso. Estávamos numa situação que, apa-
MICROFONIA2
EXPEDIENTE
Editores:
Adriano Stevenson (DRT - 3401)
Olga Costa (DRT - 60/85)
Colaboradores: Josival Fonseca/Beto L./Erivan
Silva/Adelvan Kenobi
Fotos/Editoração:Olga Costa
Ilustração:Josival Fonseca
Revisão: Juliene Paiva Osias
E-mail:jornalmicrofonia@gmail.com
Facebook.com/jornalmicrofonia
Twitter:@jmicrofonia
Tiragem:5.000 exemplares
Todos os textos dos nossos colaboradores são as-
sinados e não necessariamente refletem a opinião
da redação.
que, provavelmente, alguém que saque muito do es-
tilo, deixaria passar. E isso engrandece o som. Dessa
segunda vez, acho que ele está muito melhor!
Beto – Até comentei com Marcelinho que o disco
Orgamestron, do Motorhead foi produzido por um
cara que produziu a galera do funk dos anos 70. E o
Orgamestrom é o disco mais pesado do Motorhead,
ficou fuderoso. Não tem que estar dentro do hard-
core... é muito tranquilo gravar com Marcelinho.
Saco de Gilete, de certa forma, aponta para
vocês, uma nova forma de fazer música?
Adriano – Em parte, porque Saco de Gilete é um
apanhado de várias fases da Rotten Flies. Tem
músicas da época de Gil (guitarrista), Neto (gui-
tarrista), Edy (guitarrista). Mas esse já mostrou
alguma coisa, a música Saco de Gilete é um
exemplo disso, Meu Inimigo Sou Eu, Dizima-
dor... o próximo será a prova de fogo porque ser-
emos apenas nós quatro. Saco de Gilete é uma
fase nova e próxima, será uma continuação dela.
Beto – Para saber como vai ser o próximo, é só
escutar as músicas que Francisquinho compôs.
Francisquinho, você não possuía a fa-
miliaridade de compor dentro de uma banda,
como foi ter que começar a fazer esse tra-
balho de criar letras, melodia, encaixar?
Francisquinho – Compor foi difícil. Toda a
vida, eu tive uma ligação muito forte com o punk
hardcore. Colei muito tempo com os punks e já
tinha uma revolta incubada dentro de mim. A
partir do momento que cheguei na RF, liberou
na minha cabeça... eu não fazia letras, mas já
tinha a revolta. Apenas juntei o útil ao agradável
e estou passando todo esse ódio para as letras.
Cecílio – No primeiro ensaio, Francisquinho já
chegou com uma letra!
De onde veio a ideia da letra de Saco de Gilete?
Francisquinho – Saco de Gilete fala da falsidade do
nosso meio. São pessoas que, na sua frente, dizem
uma coisa e, por trás, uma outra. Isso é estar dentro
de um saco de gilete, porque você não sabe em quem
confiar, a qualquer momento você é estiletado, rasga-
do, entende? Como tenho uma certa noção de quem
são essas pessoas, a letra foi criada para essa galera.
Beto – Acho que essa letra tem um sentido mais
amplo... os políticos cortam o povo do nosso país
o tempo inteiro. Gilete, não, o povo é empalado!
Adriano – São os cortes vivenciais, segundo Alex-
andre Falante da N.T.E.
Pegando o gancho de Beto com relação aos
políticos... no documentário do Clash, Joe
Strummer pergunta: o que você faria se
pudesse governar o mundo? Ele mesmo diz,
em seguida, que não tem uma resposta...
Beto – A resposta não vai acontecer nunca! A respos-
ta é honestidade, mas isso não vai vingar no mundo...
Adriano – Governar o mundo é uma merda! É
melhor sem governados e sem governantes...
Francisquinho – Nem ia chegar a go-
vernar, iria ser morto em poucos meses!
Como vocês definem a nova fase da Rotten
Flies? Vocês deram o máximo nesse disco novo?
Adriano–Euvejoabandacommaisvontade.Agente
ensaia todo final de semana, e tinha muito tempo que
não fazíamos isso! E com 4, 5 horas de ensaio! Fran-
cisquinho se empenhou muito, aliás, foi um empenho
conjunto dos quatro. Esse é o melhor momento da
banda!Eissoésóumpingodoqueaindaestarparavir.
Cecílio – Acho que a gente não deu o má-
ximo, ainda não! Estamos esquentando, nos
acostumando ao modo de ser de uma banda.
Beto – Quando teve a mudança, a gente não imagina-
va que ia ser rápido encontrar um vocalista. Na minha
cabeça, íamos testar algumas pessoas e, ano que vem,
a gente ia começar a gravar material novo. Só que
tivemos sorte, o cara estava do nosso lado. Tudo foi
muito rápido, e, nessa pegada, eu só espero coisa boa!
Vocês mencionaram a mudança... como
foi ver uma questão interna da ban-
da sendo exposta numa rede social?
Beto – Há três anos, a gente pensou em fazer um
livro da RF. Quando começou o processo do livro,
eu tive uma noção de que alguma coisa ia mu-
dar na banda, porque mudou o clima. Depois a
banda parou um ano, logo depois de ter lançado
o Rota de Colisão. Em seguida, voltamos a en-
saiar, mas não estava legal, tava meio que obriga-
ção e culminou na mudança. Essa é a minha visão.
Adriano – Eu via que, realmente, eu, Cecílio e
Beto nos divertíamos, mas o vocalista não se di-
vertia tanto quanto a gente. Parecia que estava car-
regando um fardo muito pesado. Marcelinho me fa-
lou que existe uma síndrome antes da gravação: ou
você grava ou vai dar merda. E, uma semana antes,
aconteceu um desconforto interno. A questão foi re-
solvida, e nós voltamos, só que instrumental! Fazer
hardcore instrumental não dá, tem que ter a voz.
Cecílio – A conversa final foi muito tranquila. Ele
disse que entendia e que a amizade era a mesma,
que, se precisasse de ajuda com o novo vocalis-
ta, não teria problema algum... até aí, eu entendi.
Eu só não entendi o depoimento na rede social!
Beto – Quando terminou a reunião, eu disse: essas
palavras aí não vão rolar não! Vai vir chumbo! E
foi dito e feito! Conversando com Adriano, no dia
seguinte, depois da reunião, levantamos a possi-
bilidade de até ligar pro cara! Vinte minutos depois,
Adriano liga de novo e diz: “Hei, véi, não vai rolar
ligar mais, não.” E eu disse: “O que foi que houve?”
Ele respondeu: “O cara lavou roupa suja na internet.”
Adriano – Se tinha uma chance para
EDITORIAL
“Muitos existem, poucos resistem”: esta
frase traduz uma trajetoria de quase 25
anos dos nossos entrevistados desta e-
dição – o quarteto paraibano Rotten Flies,
além da resenha de seu mais recente tra-
balho : Saco de Gilete, patrocinado pelo
Fundo Municipal de Cultura da Paraíba
(FMC). Na mesma pegada temos Gan-
grena Gasosa que não sucumbiu as tur-
bulências de ser desagradável. No Amor
à Queima-Roupa o relato de Joelson Nas-
cimento sobre uma história que resiste ao
tempo, enquanto no El Mariachi algumas
bandas conservam-se no estilo que gos-
tam desde o indie, passando pelo hard-
core, ao metal. Poucos resistem, porém,
eles fazem a diferença! Boa leitura!
voltar, morreu ali na rede social.
Cecílio – A troca de vocalista se con-
solidou depois do texto na rede social.
Beto – O texto definiu tudo. Eu disse a Cecílio
e a Adriano que não íamos responder, era me-
lhor deixar pra lá, porque eu não tenho mais saco
pra isso! Eu quero me divertir! Eu quero tocar!
Adriano – Se a gente fosse revidar, ia virar Revista
Contigo.Queremossótocar!Existeumcódigointerno
nosso:oqueaconteceeoqueéfaladonabanda,ficaen-
tre os membros da banda, e esse código foi quebrado.
Cecílio – Tanto que a visão que o pessoal tinha de
fora não correspondia ao que realmente estava acon-
tecendo.
Francisquinho – Quando eu soube de alguns
fatos, eu fiquei de bobeira, porque nunca isso
tinha chegado aos meus ouvidos, mesmo eu sen-
do fã da banda e indo a quase todos os shows.
Adriano – Todos tinham uma visão romanceada
da banda. “Eles estão juntos há vinte anos!
Que maravilha!”, e o cassete rolando em casa!
Quero encerrar com um trecho de uma entre-vis-
ta realizada pelo Sávio Vilela com Ian MacKaye
(Minor Threat): “As pessoas falam: “o punk está
morto”; e eu digo: “não, o seu punk está morto”.
O punk não morre... Enquanto houver main-
stream haverá underground. Enquanto houver
inércia e tédio e a tentativa de convencer a garota-
da que este é o jeito como as coisas são, o punk vai
dizer: “nós rejeitamos isso”.
Francisquinho – Isso aí é meu ‘livro de cabeceira’!
Adriano – O que a gente faz está totalmente
fora do mainstream. Nós somos os ‘meninos
feios’ e seremos sempre. Como diz meu amigo
Sopa d’Osso: “fazer música punk não é bonito”.
MICROFONIA 3
Enquanto isso, fora da redação...
NECROHUNTER – HUNTER’S CURSE CD 2014 (PB) Quando se mistura peso e agressividade este estilo fica muito bom. Agora ima-
gine velocidade! É o que iremos ouvir neste trabalho. A banda conta com Mauro Medeiros (guitarra/vocal), André Felipe (bateria), Marcéu
Brito (baixo) e Petrus Carvalho (guitarra). A produção é muito boa, tanto no material gráfico com ilustrações de Adi França e Edson Fer-
reira, mostrando a violência dos temas abordados, como na gravação que tem guitarras rápidas, baixo pesado e bem marcado, bateria técnica,
mesclando mudanças na medida certa, e um vocal gutural (algo como um urso polar com fome!) que comunga perfeitamente com o som da
banda. Destaques para as músicas Bloodshed, I Sacrifice (uma pancada só!), Hunter’s Curse e Seven Razors (que se tem a impressão que o
King Diamond vai entrar cantando!). Se você gosta de death metal, a satra está sortida em João Pessoa! B.L. Contato: kriattus@hotmail.com
METACROSE – INTERRORGATE CD 2014 (PB) O death metal em João Pessoa vai muito bem, obrigado! O Metacrose tra-
balha bem as músicas, não deixando de lado a brutalidade. O CD está bem gravado. As mudanças de andamento dão toda uma dinâmi-
ca no baixo, na bateria e no vocal, muito bem executado. As guitarras se destacam com bases pesadas e as melodias nos solos es-
tão muito bem direcionadas. A arte da capa ficou muito legal, principalmente o desenho em HQ que passa toda raiva da temática das
letras. O CD tem participação de Nívea Maria na flauta, Thomas Rodrigues no cello, Marcus Siepen do Blind Guardian e Zé do
Caixão na música que leva seu nome e é a única cantada em português. A formação tem Vinicius Laurindo (vocal), Deathmetrius (ba-
teria), Thiago Bandeira (guitarra), Israel Rêmora (guitarra) e o novo baixista Marcos Meireles. Músicas que destaco neste novo trab-
alho: Is This Democracy? Are You the Truth? e Exteriorem, um instrumental a la Iron Maiden. B.L. Contato: metacrose@gmail.com.
ROTTEN FLIES - SACO DE GILETE CD 2014 (PB) “O sucesso não resulta de uma combustão espontânea; você tem que se pôr no
fogo”. Esta frase de Reggie Leach define, em boa parte, o resultado de Saco de Gilete – terceiro CD oficial da banda paraibana de
hardcore Rotten Flies. Aqui, não falamos de sucesso com significado de mainstream ou glamour, e sim, no êxito da simples e pura satisfa-
ção de poder fazer o que gosta: tocar! Um novo integrante numa banda com mais de vinte anos é, literalmente, se jogar no fogo. A espera
de quase um ano para isso se concretizar foi coroada pela chegada de um cara que estava em quase todos os shows da banda: Francis-
quinho. E, é claro, que essa história não é inédita, esse filme já foi visto antes com outras bandas, tanto no Brasil, quanto no mundo. Saco
de Gilete agrupa diversas fases da banda com músicas que passaram por três guitarristas diferentes e com composições do novo integrante,
incluindo a que dá nome ao CD. Da inércia para a ação, levou pouco mais de três meses. A combustão com o novo vocal foi instantânea,
resultando em Dizimador, Amarras, Mentiras e Meu Inimigo Sou Eu, cuja letra é do Alexandre Falante (N.T.E. – RN), que também divide
os vocais com Francisquinho, criando um dos melhores momentos desse trabalho. Depois de quatro anos, Cecílio (baixo), Adriano (gui-
tarra), Beto (bateria) e Francisquinho (vocal) voltaram para a estrada. Voltaram para o que mais gostam e sabem fazer – hardcore! O.C.
El Mariachi
SNOOZE - EMPTY STAR EP CD-R 2012 (SE) Os veteranos do Snooze nesse EP, que parece uma compilação/tributo ao início da
banda, trazem versões para bandas que influenciaram o seu trabalho e músicas autorais no melhor esquema barulho e melodia, o que
marcou uma geração de guitar bands brasileiras, que cantavam em inglês e não se importavam muito em seguir a cartilha do rock nacio-
nal oitentista. Mais um disco que se revela incisivo em explorar melodias e guitarras afiadas, que consegue prender o ouvinte da primei-
ra à última faixa. Além de versões para The Clash e Guided By Voices, presentes em duas belas releituras para dois grupos contem-
porâneos do Snooze, que são o Second Come (esta também presente no tributo que várias bandas prestaram ao Second Come) e
o Pin Ups. O disco possui três músicas autorais e se encerra com um registro ao vivo de Old Record, mostrando, mais uma vez, que os
caras não deixam nada a desejar aos grandes discos antigos que foram referência para o seu som. I.N. Contato: snooze.se@gmail.com
SOTURNUS – OF EVERYTHING THAT HURTS CD 2013 (PB) Depois de ter lançado When Flesh Becomes
Spirit em 2007, agora os caras, nas pessoas de Eduardo Vieira (bateria), Guilherme Augusto (baixo), Andrei Targino (gui-
tarra), Eduardo Borsero (guitarra) e Rodrigo Barbosa (vocal), vem com Of Everything That Hurts, algo como “de tudo que
magoa”, mas aqui, a mágoa fica longe, já que o CD é muito bem produzido. Tanto com relação a capa, que ficou belíssima e
que tem tudo a ver com o disco, assim como a gravação, destacando-se as guitarras, baixo e bateria que estão bem pesados.
O vocal é diversificado, alternando o gutural com o rasgado. O som é aquele Doom Metal, lembrando bons tempos de Para-
dise Lost e Candlemass. Destaques para I Wish I knew, Of Everything That Hurts e Leaving. B.L. Site: www.soturnus.com.
NÖVA – S/T CD 2013 (PI) Direto de Teresina vem o registro mais recente do NÖVA, gravado em 2013, soando direto e cru,
mas com um senso melódico bem anos 90, remetendo a alguns dos melhores grupos do underground americano desse período.
Guitarras gritando, vocais passionais e o poder de fogo de um baixo e bateria que lembram algo do hard rock setentista são
os elementos que fazem parte da receita que compõe a sonoridade da banda. Não parece existir uma pretensão em fazer um
som que seja algo além do rock velho de guerra. Um som nada burocrático e que dispensa explicações. Apenas escute em alto
e bom som. A atual formação conta com João José (guitarra base e voz), Sérgio Lemos (bateria), Rubens Lerneh (guitarra) e
Fernando Castelo Branco (baixo) e vem ganhando destaque nos palcos de Teresina. I.N. Site: https://soundcloud.com/n-va-1
MICROFONIA4
Amor à queima-roupaO Chamado
Teach Me Vol. 3 (Club 59 Girls)
Direção Asa Akira
com Asa Akira, India Summer,
Tanya Tate (2013)
Tudo que envolve a Gangrena Gasosa, lendária ban-
da de “Saravá metal” carioca, parece ter um toque
de bizarrice. Sou fã desde quando conheci o antigo
vocalista, Chorão 3. Havia lido, há muito tempo,
uma entrevista na qual eles se diziam todos viados e
representantes do movimento Homo Core. Normal.
Fui a Recife ver um show do Jason (RJ), e encon-
tro lá o Chorão, com quem havia trocado algumas
correspondências e feito uma entrevista para o meu
fanzine. Gente boa. Mas eis que, no final do show,
ele me convida pra ir dormir na casa de um tio dele
em Boa Viagem. Normal, mas imediatamente a lem-
brança da tal entrevista me veio à mente e um sinal
de alerta começou a tocar em meu cérebro. “Será
que esse negão tá a fim de abusar de minha ingenui-
dade?”. Avaliei o indivíduo e concluí que poderia
resistir a uma abordagem mais agressiva. Chegando
lá, logo me chama para o quarto, supostamente para
vermos um vídeo inofensivo. Só que parecia um
quarto de motel, com cama redonda e espelho no
teto. Percebendo minha hesitação, me explica que
o tio era garanhão, que não ligasse. Respirei alivia-
do e lhe falei da entrevista que havia lido. Rimos
muito e somos amigos desde então. O DVD é “De-
sagradável”, saiba que assistirá a uma das melhores
peças de comédia involuntária - ou não! - já produ-
zidas. Dirigido por Fernando Rick (Guidable) conta
com o depoimentos, testemunhas oculares ilustres
como Jello Biafra, Marcos Bragatto e Tom Leão.
Um verdadeiro inventário de insanidades e histórias
bizarras e supostamente reais, na medida em que o
olhar de quem conta o conto interfere na autentici-
dade dos fatos. São muitas histórias - e poucas ima-
gens da época, infelizmente. Não havia a facilidade
que temos hoje. Para compensar a falta de imagens
históricas temos, num segundo DVD, um show de
2010 no “Inferno” (SP). Infelizmente a banda não
estava em uma de suas melhores formações, o que
prejudicou o desempenho e o resultado final. Em
todo caso, é muito bom vê-los finalmente numa
produção à altura de sua reputação. Imperdível!A.K.
Um clássico dos quadrinhos publicado nos 80 pela
série Graphic Marvel, a morte do capitão Marvel
foi inspirada no pai do autor, Jim Starlin, que na
época lutava conta um câncer já em fase terminal.
Aqui no Brasil, essa edição deu início as publi-
cações em formato álbum e que logo depois, foi
lançado a uma serie de edições especiais com ou-
tros personagens como Hulk, Justiceiro, X-men.
Jim Starlin começou a trabalhar na indústria de
quadrinhos na década de 70. Escreveu e desen-
hou para a Marvel e DC Comics. Foi responsável
pelas grandes sagas cósmicas nessas duas editoras.
Seu grande auge aqui no Brasil foi na década de
80. É o criador do personagem Thanos e da sé-
rie Dreadstar pela editora Epiccomics (um selo da
Marvel). Seus trabalhos mais bem sucedidos na
Marvel são com os personagens Warlock,Thanos.
Assim como e o próprio Capitão Marvel que pro-
tagoniza essa história. A história conta os últimos
dias do guerreiro Kree conhecido como Mar-vell.
Um herói que viajou pelo espaço e cruzou as es-
trelas em grandes aventuras. Mas se viu impotente
diante de um câncer sem cura. Com uma arte fabu-
losa e um roteiro bem escrito, a edição tem a par-
ticipação de grandes heróis e vilões do universo
Marvel como Homem Aranha, Vingadores, X-
men, Thanos, os Skrulls. Um dos pontos tocantes
da história é a revolta do parceiro Rick Jones em
não puder ajudar o amigo, e o encontro com seu
grande inimigo Thanos à beira da morte. A história
nos leva a uma reflexão sobre a vida e a morte.
E nos faz enxergar os heróis de uma forma mais
humana, uma característica do universo Marvel.
A morte do capitão Marvel é um daqueles clás-
sicos que devem fazer parte da sua coleção, e que
merecia um relançamento pela editora Panini. J.N.
Gangrena
Gasosa
DVD
Desa-
gradável
Läjä Re-
cords
2013
R$ 19,90
Mais um filme só com mulheres. O título diz muito,
pois a suavidade das cenas são nítidas. Já ouvi pes-
soas dizendo que, em um filme desse, é puro fingi-
mento, mas a produção mostra que não. Dividido
em quatro cenas, que inclui até relato das atrizes,
o filme serve até de parâmetro, de como se deve
tocar, neste ser maravilhoso que é a mulher. Todas
as cenas são bombásticas. Destaco algumas atrizes
como Asa Akira, Cindy Starfall, Chastity Lynn
e a veterana gatíssima India Summer. No Brasil,
o filme recebeu o título de Gatas Versus Gatas 2.
Arte e Ro-
teiro: Jim
Starlin
Publicação
no Brasil:
Graphic Nov-
el #3, Editora
Abril, 1986
Papel: cou-
ché, 132
páginas
Atrás da Porta Verde
Patrocínio
Depois de uma festa alucinante, Salsicha se envolve
com uma das garotas (Lily Labeau) mostrando que
de bobo ele não tem nada! A transa rola de todas
as formas, mas ao acordar pela manhã, ele percebe
que Scooby sumiu e imediatamente, convoca seus
amigos Fred, Velma e Dafene. Neste filme você
vai ver Fred comendo Velma e Dafene dando para
Salsicha e vice-versa. Mas a cena Power metal do
filme é Bree Olson (Dafene) e Bobbi Star (Velma)
transando de uma maneira que até o fantasma que
os perseguia ficou excitado! Destaque para as duas
atrizes que são muito gatas e que lembram atrizes
da década de 70. Scooby Doo Be Doooooo! B.L.
Scooby Doo A XXX Parody
Direção Eddie Power com Bree
Olson, Bobbi Star, Lilly Labeau,
Chad Alva e Michael Vegas

Jornalmicrofonia #20

  • 1.
    MÚSICA .FILME .HQ.SHOWAno 4 nº 20 João Pessoa, março 2014 Distribuiçãogratuita Rotten Flies - O Saco é de Gilete Algumaspessoasacreditamqueodestinodecadaserdonossoplanetaestátraçado.ARottenFliesamargouaesperadedezanosparao primeirodiscoserlançado.Entrounumarotadecolisãotãoviolentaqueculminoucomatrocadevocalista.Sentiram-se,maisumavez, alvodefalatórios,policiamentosecobranças.Noentanto,viverdentrodeumsacodegilete,pareceserasinadessequarteto,quecarrega aessênciadopunkemsuasveias.Umviking,denãomuitolonge,inalouporanos,acolheuechegouparatornaressaessênciaaindamais vibrante.Aseguir, Beto, Cecílio,Adriano e Francisquinho falam da nova fase da banda e dos votos renovados com o punk/hardcore. Fotos:OlgaCosta rentemente, era uma banda para quem estava de fora. Adriano – Era um “bater o cartão”... “porra, tem ensaio hoje!”... desde que eu entendo de RF, não é muito diferente, não, a gente sempre queria mais e não podia ter. Ou a gente se acomodou a não ter isso. Beto – E, por conta de muitos ensaios, quase dois meses sem vocal, quase nos tornávamos uma banda instrumental! Adriano – Teve até um ano... Cecílio – Mas esse um ano foi diferente, pois estáva- mos sabendo... Adriano – Voltando à resposta, a gente redescobriu mesmo. Tem uma coisa que quero deixar bem clara: Eu já toco há um bom tempo. Vou até fazer uma piada interna aqui - “há mais de 20 anos” e, quando é dia de ensaio, é o meu dia mais feliz. Eu gosto disso, depois desse tempo todo! Nunca vou dizer que acho uma merda ter ensaio e agora está melhor ainda! Ensaio é o combustível da banda! Quando se forma uma banda, é para se fazer música, o resto é conse- qüência! Nunca vi a banda tão unida como agora! Essa união da banda fez com que vocês tomassem maisgostoemreouvire/ouredescobrirsonoridades? Beto – A banda está mais agressiva, devido ao vocal de Francisquinho, que tem uma pegada bem agressiva. Mas a RF nunca teve uma postura séria demais, a gente tocou o que gostava, só que, atualmente, está agres- sivo. E pegar as músicas antigas é muito bom, porque, às vezes, você até esquece de como elas são legais. Adriano –Acho que, com a entrada de Francisquinho, oqueeleagregou,foioqueagentejásabia.ARFeraum barril de pólvora, mas não tinha faísca, Francisquinho foi que fez detonar. Ele apenas seguiu o que já existia. Ele deu um empurrão no carro, o carro pegou, ele en- trou e foi simbora!Vou citar uma frase de Lawrence, da Comedores de Lixo: “às vezes, uma faísca cria um in- cêndio.” E era dessa faísca que estávamos precisando. Francisquinho, como você se sentia an- tes de ser convidado para assumir o vo- cal da banda e como você se sente hoje? Francisquinho – Eu tenho um carinho e um res- peito muito grande pela RF. Não nego que, quan- do recebi o convite, fiquei um pouco apreensivo, porque era para tocar com três caras que tem uma história e quem tinha que correr, para alcançá- los, era eu. Por essa razão, eu me esforcei e juntei o que eu sei fazer com o ódio que tenho dentro de mim e trabalhei para que a RF desse uma guinada. Vocês gravaram o Amargo (2002) no Estúdio Peixeboi. Como foi trabalhar novamente com Mar- celinho Macedo? Adriano – Marcelinho, para mim, guardadas as devi- das proporções, é um George Martin. Martin era ma- estro e foi produzir os Beatles. Marcelinho é do jazz, mas ele entende a linguagem. Quando eu falo, ele en- tende o que quero! É legal trabalhar com alguém que não é do mesmo estilo porque ele vai descobrir algo Vocês entraram em estúdio bem ensaiados. Como foi esse processo até chegar à gravação de fato? Cecílio – Começamos a ensaiar, o disco estava 100 por cento pronto e, quando fomos gravar... aí foi raw punk! (risos) Adriano – Foi um processo tortuoso. Não foi fácil, foi o disco mais difícil. Na verdade, na Rotten Flies, nada é fácil! A vontade e o interesse da banda foram maiores em querer finalizar. Passamos por momentos difíceis e chatos, ao mesmo tempo, foi bom também porque houve uma renovação. Eu sempre tirava onda comigo mesmo, dizendo que “a Rotten Flies é um carro velho, que andava um pouquinho e parava”... Cecílio – Mas, agora, o carro velho pegou e foi para aquele cara que faz umas reformas e está en- venenado agora! Tá um motor raw punk!(risos) Beto – A gente achou que o processo seria mais difícil, mas depois melhorou e agora é só alegria! Cecílio – Quando paramos o processo, eu pen- sei o seguinte: pior do que está não pode fi- car, não! Ou parava de vez, ou iria melhorar! É correto afirmar que, com esse CD, vocês re- descobriram como é tocar como uma banda? Adriano – Nós somos hoje uma velha nova banda! Cecílio – A gente voltou a saber o que é tocar numa banda! Porque fazia muito tempo que a gente não sa- bia o que era isso. Estávamos numa situação que, apa-
  • 2.
    MICROFONIA2 EXPEDIENTE Editores: Adriano Stevenson (DRT- 3401) Olga Costa (DRT - 60/85) Colaboradores: Josival Fonseca/Beto L./Erivan Silva/Adelvan Kenobi Fotos/Editoração:Olga Costa Ilustração:Josival Fonseca Revisão: Juliene Paiva Osias E-mail:jornalmicrofonia@gmail.com Facebook.com/jornalmicrofonia Twitter:@jmicrofonia Tiragem:5.000 exemplares Todos os textos dos nossos colaboradores são as- sinados e não necessariamente refletem a opinião da redação. que, provavelmente, alguém que saque muito do es- tilo, deixaria passar. E isso engrandece o som. Dessa segunda vez, acho que ele está muito melhor! Beto – Até comentei com Marcelinho que o disco Orgamestron, do Motorhead foi produzido por um cara que produziu a galera do funk dos anos 70. E o Orgamestrom é o disco mais pesado do Motorhead, ficou fuderoso. Não tem que estar dentro do hard- core... é muito tranquilo gravar com Marcelinho. Saco de Gilete, de certa forma, aponta para vocês, uma nova forma de fazer música? Adriano – Em parte, porque Saco de Gilete é um apanhado de várias fases da Rotten Flies. Tem músicas da época de Gil (guitarrista), Neto (gui- tarrista), Edy (guitarrista). Mas esse já mostrou alguma coisa, a música Saco de Gilete é um exemplo disso, Meu Inimigo Sou Eu, Dizima- dor... o próximo será a prova de fogo porque ser- emos apenas nós quatro. Saco de Gilete é uma fase nova e próxima, será uma continuação dela. Beto – Para saber como vai ser o próximo, é só escutar as músicas que Francisquinho compôs. Francisquinho, você não possuía a fa- miliaridade de compor dentro de uma banda, como foi ter que começar a fazer esse tra- balho de criar letras, melodia, encaixar? Francisquinho – Compor foi difícil. Toda a vida, eu tive uma ligação muito forte com o punk hardcore. Colei muito tempo com os punks e já tinha uma revolta incubada dentro de mim. A partir do momento que cheguei na RF, liberou na minha cabeça... eu não fazia letras, mas já tinha a revolta. Apenas juntei o útil ao agradável e estou passando todo esse ódio para as letras. Cecílio – No primeiro ensaio, Francisquinho já chegou com uma letra! De onde veio a ideia da letra de Saco de Gilete? Francisquinho – Saco de Gilete fala da falsidade do nosso meio. São pessoas que, na sua frente, dizem uma coisa e, por trás, uma outra. Isso é estar dentro de um saco de gilete, porque você não sabe em quem confiar, a qualquer momento você é estiletado, rasga- do, entende? Como tenho uma certa noção de quem são essas pessoas, a letra foi criada para essa galera. Beto – Acho que essa letra tem um sentido mais amplo... os políticos cortam o povo do nosso país o tempo inteiro. Gilete, não, o povo é empalado! Adriano – São os cortes vivenciais, segundo Alex- andre Falante da N.T.E. Pegando o gancho de Beto com relação aos políticos... no documentário do Clash, Joe Strummer pergunta: o que você faria se pudesse governar o mundo? Ele mesmo diz, em seguida, que não tem uma resposta... Beto – A resposta não vai acontecer nunca! A respos- ta é honestidade, mas isso não vai vingar no mundo... Adriano – Governar o mundo é uma merda! É melhor sem governados e sem governantes... Francisquinho – Nem ia chegar a go- vernar, iria ser morto em poucos meses! Como vocês definem a nova fase da Rotten Flies? Vocês deram o máximo nesse disco novo? Adriano–Euvejoabandacommaisvontade.Agente ensaia todo final de semana, e tinha muito tempo que não fazíamos isso! E com 4, 5 horas de ensaio! Fran- cisquinho se empenhou muito, aliás, foi um empenho conjunto dos quatro. Esse é o melhor momento da banda!Eissoésóumpingodoqueaindaestarparavir. Cecílio – Acho que a gente não deu o má- ximo, ainda não! Estamos esquentando, nos acostumando ao modo de ser de uma banda. Beto – Quando teve a mudança, a gente não imagina- va que ia ser rápido encontrar um vocalista. Na minha cabeça, íamos testar algumas pessoas e, ano que vem, a gente ia começar a gravar material novo. Só que tivemos sorte, o cara estava do nosso lado. Tudo foi muito rápido, e, nessa pegada, eu só espero coisa boa! Vocês mencionaram a mudança... como foi ver uma questão interna da ban- da sendo exposta numa rede social? Beto – Há três anos, a gente pensou em fazer um livro da RF. Quando começou o processo do livro, eu tive uma noção de que alguma coisa ia mu- dar na banda, porque mudou o clima. Depois a banda parou um ano, logo depois de ter lançado o Rota de Colisão. Em seguida, voltamos a en- saiar, mas não estava legal, tava meio que obriga- ção e culminou na mudança. Essa é a minha visão. Adriano – Eu via que, realmente, eu, Cecílio e Beto nos divertíamos, mas o vocalista não se di- vertia tanto quanto a gente. Parecia que estava car- regando um fardo muito pesado. Marcelinho me fa- lou que existe uma síndrome antes da gravação: ou você grava ou vai dar merda. E, uma semana antes, aconteceu um desconforto interno. A questão foi re- solvida, e nós voltamos, só que instrumental! Fazer hardcore instrumental não dá, tem que ter a voz. Cecílio – A conversa final foi muito tranquila. Ele disse que entendia e que a amizade era a mesma, que, se precisasse de ajuda com o novo vocalis- ta, não teria problema algum... até aí, eu entendi. Eu só não entendi o depoimento na rede social! Beto – Quando terminou a reunião, eu disse: essas palavras aí não vão rolar não! Vai vir chumbo! E foi dito e feito! Conversando com Adriano, no dia seguinte, depois da reunião, levantamos a possi- bilidade de até ligar pro cara! Vinte minutos depois, Adriano liga de novo e diz: “Hei, véi, não vai rolar ligar mais, não.” E eu disse: “O que foi que houve?” Ele respondeu: “O cara lavou roupa suja na internet.” Adriano – Se tinha uma chance para EDITORIAL “Muitos existem, poucos resistem”: esta frase traduz uma trajetoria de quase 25 anos dos nossos entrevistados desta e- dição – o quarteto paraibano Rotten Flies, além da resenha de seu mais recente tra- balho : Saco de Gilete, patrocinado pelo Fundo Municipal de Cultura da Paraíba (FMC). Na mesma pegada temos Gan- grena Gasosa que não sucumbiu as tur- bulências de ser desagradável. No Amor à Queima-Roupa o relato de Joelson Nas- cimento sobre uma história que resiste ao tempo, enquanto no El Mariachi algumas bandas conservam-se no estilo que gos- tam desde o indie, passando pelo hard- core, ao metal. Poucos resistem, porém, eles fazem a diferença! Boa leitura! voltar, morreu ali na rede social. Cecílio – A troca de vocalista se con- solidou depois do texto na rede social. Beto – O texto definiu tudo. Eu disse a Cecílio e a Adriano que não íamos responder, era me- lhor deixar pra lá, porque eu não tenho mais saco pra isso! Eu quero me divertir! Eu quero tocar! Adriano – Se a gente fosse revidar, ia virar Revista Contigo.Queremossótocar!Existeumcódigointerno nosso:oqueaconteceeoqueéfaladonabanda,ficaen- tre os membros da banda, e esse código foi quebrado. Cecílio – Tanto que a visão que o pessoal tinha de fora não correspondia ao que realmente estava acon- tecendo. Francisquinho – Quando eu soube de alguns fatos, eu fiquei de bobeira, porque nunca isso tinha chegado aos meus ouvidos, mesmo eu sen- do fã da banda e indo a quase todos os shows. Adriano – Todos tinham uma visão romanceada da banda. “Eles estão juntos há vinte anos! Que maravilha!”, e o cassete rolando em casa! Quero encerrar com um trecho de uma entre-vis- ta realizada pelo Sávio Vilela com Ian MacKaye (Minor Threat): “As pessoas falam: “o punk está morto”; e eu digo: “não, o seu punk está morto”. O punk não morre... Enquanto houver main- stream haverá underground. Enquanto houver inércia e tédio e a tentativa de convencer a garota- da que este é o jeito como as coisas são, o punk vai dizer: “nós rejeitamos isso”. Francisquinho – Isso aí é meu ‘livro de cabeceira’! Adriano – O que a gente faz está totalmente fora do mainstream. Nós somos os ‘meninos feios’ e seremos sempre. Como diz meu amigo Sopa d’Osso: “fazer música punk não é bonito”.
  • 3.
    MICROFONIA 3 Enquanto isso,fora da redação... NECROHUNTER – HUNTER’S CURSE CD 2014 (PB) Quando se mistura peso e agressividade este estilo fica muito bom. Agora ima- gine velocidade! É o que iremos ouvir neste trabalho. A banda conta com Mauro Medeiros (guitarra/vocal), André Felipe (bateria), Marcéu Brito (baixo) e Petrus Carvalho (guitarra). A produção é muito boa, tanto no material gráfico com ilustrações de Adi França e Edson Fer- reira, mostrando a violência dos temas abordados, como na gravação que tem guitarras rápidas, baixo pesado e bem marcado, bateria técnica, mesclando mudanças na medida certa, e um vocal gutural (algo como um urso polar com fome!) que comunga perfeitamente com o som da banda. Destaques para as músicas Bloodshed, I Sacrifice (uma pancada só!), Hunter’s Curse e Seven Razors (que se tem a impressão que o King Diamond vai entrar cantando!). Se você gosta de death metal, a satra está sortida em João Pessoa! B.L. Contato: kriattus@hotmail.com METACROSE – INTERRORGATE CD 2014 (PB) O death metal em João Pessoa vai muito bem, obrigado! O Metacrose tra- balha bem as músicas, não deixando de lado a brutalidade. O CD está bem gravado. As mudanças de andamento dão toda uma dinâmi- ca no baixo, na bateria e no vocal, muito bem executado. As guitarras se destacam com bases pesadas e as melodias nos solos es- tão muito bem direcionadas. A arte da capa ficou muito legal, principalmente o desenho em HQ que passa toda raiva da temática das letras. O CD tem participação de Nívea Maria na flauta, Thomas Rodrigues no cello, Marcus Siepen do Blind Guardian e Zé do Caixão na música que leva seu nome e é a única cantada em português. A formação tem Vinicius Laurindo (vocal), Deathmetrius (ba- teria), Thiago Bandeira (guitarra), Israel Rêmora (guitarra) e o novo baixista Marcos Meireles. Músicas que destaco neste novo trab- alho: Is This Democracy? Are You the Truth? e Exteriorem, um instrumental a la Iron Maiden. B.L. Contato: metacrose@gmail.com. ROTTEN FLIES - SACO DE GILETE CD 2014 (PB) “O sucesso não resulta de uma combustão espontânea; você tem que se pôr no fogo”. Esta frase de Reggie Leach define, em boa parte, o resultado de Saco de Gilete – terceiro CD oficial da banda paraibana de hardcore Rotten Flies. Aqui, não falamos de sucesso com significado de mainstream ou glamour, e sim, no êxito da simples e pura satisfa- ção de poder fazer o que gosta: tocar! Um novo integrante numa banda com mais de vinte anos é, literalmente, se jogar no fogo. A espera de quase um ano para isso se concretizar foi coroada pela chegada de um cara que estava em quase todos os shows da banda: Francis- quinho. E, é claro, que essa história não é inédita, esse filme já foi visto antes com outras bandas, tanto no Brasil, quanto no mundo. Saco de Gilete agrupa diversas fases da banda com músicas que passaram por três guitarristas diferentes e com composições do novo integrante, incluindo a que dá nome ao CD. Da inércia para a ação, levou pouco mais de três meses. A combustão com o novo vocal foi instantânea, resultando em Dizimador, Amarras, Mentiras e Meu Inimigo Sou Eu, cuja letra é do Alexandre Falante (N.T.E. – RN), que também divide os vocais com Francisquinho, criando um dos melhores momentos desse trabalho. Depois de quatro anos, Cecílio (baixo), Adriano (gui- tarra), Beto (bateria) e Francisquinho (vocal) voltaram para a estrada. Voltaram para o que mais gostam e sabem fazer – hardcore! O.C. El Mariachi SNOOZE - EMPTY STAR EP CD-R 2012 (SE) Os veteranos do Snooze nesse EP, que parece uma compilação/tributo ao início da banda, trazem versões para bandas que influenciaram o seu trabalho e músicas autorais no melhor esquema barulho e melodia, o que marcou uma geração de guitar bands brasileiras, que cantavam em inglês e não se importavam muito em seguir a cartilha do rock nacio- nal oitentista. Mais um disco que se revela incisivo em explorar melodias e guitarras afiadas, que consegue prender o ouvinte da primei- ra à última faixa. Além de versões para The Clash e Guided By Voices, presentes em duas belas releituras para dois grupos contem- porâneos do Snooze, que são o Second Come (esta também presente no tributo que várias bandas prestaram ao Second Come) e o Pin Ups. O disco possui três músicas autorais e se encerra com um registro ao vivo de Old Record, mostrando, mais uma vez, que os caras não deixam nada a desejar aos grandes discos antigos que foram referência para o seu som. I.N. Contato: snooze.se@gmail.com SOTURNUS – OF EVERYTHING THAT HURTS CD 2013 (PB) Depois de ter lançado When Flesh Becomes Spirit em 2007, agora os caras, nas pessoas de Eduardo Vieira (bateria), Guilherme Augusto (baixo), Andrei Targino (gui- tarra), Eduardo Borsero (guitarra) e Rodrigo Barbosa (vocal), vem com Of Everything That Hurts, algo como “de tudo que magoa”, mas aqui, a mágoa fica longe, já que o CD é muito bem produzido. Tanto com relação a capa, que ficou belíssima e que tem tudo a ver com o disco, assim como a gravação, destacando-se as guitarras, baixo e bateria que estão bem pesados. O vocal é diversificado, alternando o gutural com o rasgado. O som é aquele Doom Metal, lembrando bons tempos de Para- dise Lost e Candlemass. Destaques para I Wish I knew, Of Everything That Hurts e Leaving. B.L. Site: www.soturnus.com. NÖVA – S/T CD 2013 (PI) Direto de Teresina vem o registro mais recente do NÖVA, gravado em 2013, soando direto e cru, mas com um senso melódico bem anos 90, remetendo a alguns dos melhores grupos do underground americano desse período. Guitarras gritando, vocais passionais e o poder de fogo de um baixo e bateria que lembram algo do hard rock setentista são os elementos que fazem parte da receita que compõe a sonoridade da banda. Não parece existir uma pretensão em fazer um som que seja algo além do rock velho de guerra. Um som nada burocrático e que dispensa explicações. Apenas escute em alto e bom som. A atual formação conta com João José (guitarra base e voz), Sérgio Lemos (bateria), Rubens Lerneh (guitarra) e Fernando Castelo Branco (baixo) e vem ganhando destaque nos palcos de Teresina. I.N. Site: https://soundcloud.com/n-va-1
  • 4.
    MICROFONIA4 Amor à queima-roupaOChamado Teach Me Vol. 3 (Club 59 Girls) Direção Asa Akira com Asa Akira, India Summer, Tanya Tate (2013) Tudo que envolve a Gangrena Gasosa, lendária ban- da de “Saravá metal” carioca, parece ter um toque de bizarrice. Sou fã desde quando conheci o antigo vocalista, Chorão 3. Havia lido, há muito tempo, uma entrevista na qual eles se diziam todos viados e representantes do movimento Homo Core. Normal. Fui a Recife ver um show do Jason (RJ), e encon- tro lá o Chorão, com quem havia trocado algumas correspondências e feito uma entrevista para o meu fanzine. Gente boa. Mas eis que, no final do show, ele me convida pra ir dormir na casa de um tio dele em Boa Viagem. Normal, mas imediatamente a lem- brança da tal entrevista me veio à mente e um sinal de alerta começou a tocar em meu cérebro. “Será que esse negão tá a fim de abusar de minha ingenui- dade?”. Avaliei o indivíduo e concluí que poderia resistir a uma abordagem mais agressiva. Chegando lá, logo me chama para o quarto, supostamente para vermos um vídeo inofensivo. Só que parecia um quarto de motel, com cama redonda e espelho no teto. Percebendo minha hesitação, me explica que o tio era garanhão, que não ligasse. Respirei alivia- do e lhe falei da entrevista que havia lido. Rimos muito e somos amigos desde então. O DVD é “De- sagradável”, saiba que assistirá a uma das melhores peças de comédia involuntária - ou não! - já produ- zidas. Dirigido por Fernando Rick (Guidable) conta com o depoimentos, testemunhas oculares ilustres como Jello Biafra, Marcos Bragatto e Tom Leão. Um verdadeiro inventário de insanidades e histórias bizarras e supostamente reais, na medida em que o olhar de quem conta o conto interfere na autentici- dade dos fatos. São muitas histórias - e poucas ima- gens da época, infelizmente. Não havia a facilidade que temos hoje. Para compensar a falta de imagens históricas temos, num segundo DVD, um show de 2010 no “Inferno” (SP). Infelizmente a banda não estava em uma de suas melhores formações, o que prejudicou o desempenho e o resultado final. Em todo caso, é muito bom vê-los finalmente numa produção à altura de sua reputação. Imperdível!A.K. Um clássico dos quadrinhos publicado nos 80 pela série Graphic Marvel, a morte do capitão Marvel foi inspirada no pai do autor, Jim Starlin, que na época lutava conta um câncer já em fase terminal. Aqui no Brasil, essa edição deu início as publi- cações em formato álbum e que logo depois, foi lançado a uma serie de edições especiais com ou- tros personagens como Hulk, Justiceiro, X-men. Jim Starlin começou a trabalhar na indústria de quadrinhos na década de 70. Escreveu e desen- hou para a Marvel e DC Comics. Foi responsável pelas grandes sagas cósmicas nessas duas editoras. Seu grande auge aqui no Brasil foi na década de 80. É o criador do personagem Thanos e da sé- rie Dreadstar pela editora Epiccomics (um selo da Marvel). Seus trabalhos mais bem sucedidos na Marvel são com os personagens Warlock,Thanos. Assim como e o próprio Capitão Marvel que pro- tagoniza essa história. A história conta os últimos dias do guerreiro Kree conhecido como Mar-vell. Um herói que viajou pelo espaço e cruzou as es- trelas em grandes aventuras. Mas se viu impotente diante de um câncer sem cura. Com uma arte fabu- losa e um roteiro bem escrito, a edição tem a par- ticipação de grandes heróis e vilões do universo Marvel como Homem Aranha, Vingadores, X- men, Thanos, os Skrulls. Um dos pontos tocantes da história é a revolta do parceiro Rick Jones em não puder ajudar o amigo, e o encontro com seu grande inimigo Thanos à beira da morte. A história nos leva a uma reflexão sobre a vida e a morte. E nos faz enxergar os heróis de uma forma mais humana, uma característica do universo Marvel. A morte do capitão Marvel é um daqueles clás- sicos que devem fazer parte da sua coleção, e que merecia um relançamento pela editora Panini. J.N. Gangrena Gasosa DVD Desa- gradável Läjä Re- cords 2013 R$ 19,90 Mais um filme só com mulheres. O título diz muito, pois a suavidade das cenas são nítidas. Já ouvi pes- soas dizendo que, em um filme desse, é puro fingi- mento, mas a produção mostra que não. Dividido em quatro cenas, que inclui até relato das atrizes, o filme serve até de parâmetro, de como se deve tocar, neste ser maravilhoso que é a mulher. Todas as cenas são bombásticas. Destaco algumas atrizes como Asa Akira, Cindy Starfall, Chastity Lynn e a veterana gatíssima India Summer. No Brasil, o filme recebeu o título de Gatas Versus Gatas 2. Arte e Ro- teiro: Jim Starlin Publicação no Brasil: Graphic Nov- el #3, Editora Abril, 1986 Papel: cou- ché, 132 páginas Atrás da Porta Verde Patrocínio Depois de uma festa alucinante, Salsicha se envolve com uma das garotas (Lily Labeau) mostrando que de bobo ele não tem nada! A transa rola de todas as formas, mas ao acordar pela manhã, ele percebe que Scooby sumiu e imediatamente, convoca seus amigos Fred, Velma e Dafene. Neste filme você vai ver Fred comendo Velma e Dafene dando para Salsicha e vice-versa. Mas a cena Power metal do filme é Bree Olson (Dafene) e Bobbi Star (Velma) transando de uma maneira que até o fantasma que os perseguia ficou excitado! Destaque para as duas atrizes que são muito gatas e que lembram atrizes da década de 70. Scooby Doo Be Doooooo! B.L. Scooby Doo A XXX Parody Direção Eddie Power com Bree Olson, Bobbi Star, Lilly Labeau, Chad Alva e Michael Vegas