Imagens
    Chamavam-lhe Muriel, a eslava...
    Não era linda, nem simpática, talvez...
    No rosto branco, espiritual quase transparente, os olhos eram
duas janelas enormes, escancaradas, mostrando um céu sem
estrelas cinzento azulado...
    Eram um mistério para mim aqueles olhos grandes, profundos,
silenciosos como sombras. Mas eu gostava de Muriel. Gostava
daquela serenidade doce, daquela placidez interior que emanava
dela como uma mensagem de silêncio no meio barulhento lá da
turma.
    Tinha um porte gentil e um andar cadenciado de cisne. Se erguia
a fronte muito ampla e um pouco proeminente, os cabelos
acobreados balouçavam-lhe despretensiosamente pelos ombros
como agitados por brisa suave. Eram uns cabelos lisos, sedosos, cor
das searas maduras a perder de vista, soltos, ao abandono,
espalhados no negro cetinoso da bata!
    Raramente sorria, mas quando o fazia, eu ficava a olhar-lhe a face
distendida, os lábios entreabertos, os dentes maravilhosamente
brancos, os olhos semicerrados numa carícia profunda e lenta... As
mãos brincavam-lhe no peito lançando no espaço limitado do
regaço um medalhão de prata pendente de um fio metálico, branco
e luzidio.
    Conhecia-lhe aquele gesto sempre igual de erguer os braços sobre
a cabeça, num anseio de voo, e deixá-los cair ao longo do corpo,
num protesto mudo como se lhe houvessem cortado as asas. As
outras não gostavam de Muriel. Achavam-na vazia, dura, distante,
gelada... Não que ela fosse orgulhosa e má. O ponto da antipatia
nascera ao primeiro contacto, originado pelo porte dela, pela sua
maneira de ser original e fechada, que tornava impossível uma
aproximação mais íntima. Se umas a julgavam louca, outras
acreditavam que Muriel jamais seria uma rapariga vulgar.
    Mas eu... eu queria-lhe muito.
    Um dia cruzámo-nos nos claustros do pátio ajardinado...
   - Olá Muriel!
    - Parou, olhou-me, levou as mãos ao medalhão e, num gesto de
espanto, escancarou mais os olhos...
 - Conheces-me?
- Sim, conheço-te... Simpatizo contigo, sabes?
   - Mas...
   Sorrindo por cima das nossas mãos estendidas, os nossos olhos
encontraram-se divertidos, dispostos a serem amigos.
    Depois de uma tarde de conversa aprendi bastante acerca de
Muriel. Tinha uma alma de artista a nossa colega. Aquela
serenidade, aquele sorriso lento e demorado, eram um pouco da
alma dela, eram reflexos daquela personalidade que intimidava as
outras, principalmente naqueles momentos em que erguia os braços
sobre os ombros como se pretendesse voar sobre nós...
     Um dia Muriel deixou de sorrir, as faces tornaram-se-lhe
diáfanas, os olhos maiores, semelhantes a firmamentos sem luz...
Diziam no colégio que Muriel sofria de doença estranha.
Leucemia, talvez. As Irmãs cochichavam ao longo dos corredores,
quando passávamos em direção ao refeitório notando na fila o
espaço vazio ao meu lado...
   Uma tarde fui visitá-la à enfermaria das mais novas. Reconheci
nela a figura alada de outros tempos, por causa dos cabelos sedosos
e brilhantes dispersos no travesseiro amarrotado. Não sei se
estremeci. Recordei as outras que não gostavam dela e perguntei a
mim mesma o que diriam se a vissem assim, muito branca, muito
fraca, quase desfigurada pela enfermidade.
    Abriu os olhos lentamente e pousou-os sobre mim, um pouco
espantada, um nada comovida, como naquela tarde em que ficamos
amigas.
   - Vieste... Obrigada porque vieste!...
  - Muriel! minha amiga...
   - Amiga... És realmente minha amiga?...
   - Então... Então...
     Vi que um rubor intenso lhe subia ao rosto, tornando-a
divinamente encantadora.
   Respondi procurando sorrir:
   - Não te acanhes, Muriel!
    - Por favor, toma estes papéis... Guarda-os na tua carteira do
dormitório... Se eu morrer peço-te que as leias... a todas.. a todas...
que não gostavam de mim... e que lhes digas, que eu, a Muriel, a
quem elas chamavam a eslava, lhes quero muito... lhes perdoo
tudo... O colégio... elas... tu... as Irmãs... tudo isto... (e sorria). Passei
aqui os dias mais felizes da minha vida de refugiada...
   Que a vida há de ser feita de neve.
Vereis -ó Mãe - como eu hei de subir.
      Falara sorrindo, de olhos cerrados, de mãos estendidas,
segurando                um             rolo            de            papéis              amarelos.
    Fiquei com ela até a noite cair. Depois despedi-me. Olhou-me
longamente e murmurou acariciando a renda do lençol:
   - Deus te pague!
    ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
    Será escusado dizer-vos que Muriel morreu. Aquela serenidade
doce, aquela placidez que emanava dela como se fosse uma
mensagem de silêncio, não podia pertencer ao nosso meio
barulhento e estranho.
    Foi uma morte branca a de Muriel. Contaram-me depois que
tinha vindo não sei de onde e havia sido criada num orfanato de
crianças sem famílias. Uns anos antes de a conhecer havia sido
sucessivamente empregada de balcão, datilógrafa, criada de servir e
depois mendiga, até que alguém a recolheu e a entregou ao meio
buliçoso                           em                         que                         vivíamos.
    Fui amiga de Muriel, compreendi-lhe os sorrisos parados e os
silêncios opressivos, mas o mistério daquele modo de ser espiritual
e estranho, descobri-o no maço de papéis amarelos.
   Chamavam-lhe Muriel, a eslava.
    Não era linda, nem simpática talvez... mas a sua alma devia ser
indiscutivelmente bela e grande para escrever:

Eu amo a Vida, os pássaros e o Sol
E o riso das crianças quando correm...
E o canto das minhas companheiras
Quando rezam matinas,
Ou saltam na caçada,
D'oiro nos olhos e auroras no rosto.
Como se a Vida fosse toda Azul

E nunca se perdessem na Estrada...
Ó Irmãs d'Alegria,
Vinde colorir a minha caminhada!...
                                                                    Maria Helena Amaro
                                                                  In, «Maria Mãe», 1973.
                         Data da conclusão da edição no blogue – 27 de novembro de 2012
                                                      http://mariahelenaamaro.blogspot.com/

Imagens

  • 1.
    Imagens Chamavam-lhe Muriel, a eslava... Não era linda, nem simpática, talvez... No rosto branco, espiritual quase transparente, os olhos eram duas janelas enormes, escancaradas, mostrando um céu sem estrelas cinzento azulado... Eram um mistério para mim aqueles olhos grandes, profundos, silenciosos como sombras. Mas eu gostava de Muriel. Gostava daquela serenidade doce, daquela placidez interior que emanava dela como uma mensagem de silêncio no meio barulhento lá da turma. Tinha um porte gentil e um andar cadenciado de cisne. Se erguia a fronte muito ampla e um pouco proeminente, os cabelos acobreados balouçavam-lhe despretensiosamente pelos ombros como agitados por brisa suave. Eram uns cabelos lisos, sedosos, cor das searas maduras a perder de vista, soltos, ao abandono, espalhados no negro cetinoso da bata! Raramente sorria, mas quando o fazia, eu ficava a olhar-lhe a face distendida, os lábios entreabertos, os dentes maravilhosamente brancos, os olhos semicerrados numa carícia profunda e lenta... As mãos brincavam-lhe no peito lançando no espaço limitado do regaço um medalhão de prata pendente de um fio metálico, branco e luzidio. Conhecia-lhe aquele gesto sempre igual de erguer os braços sobre a cabeça, num anseio de voo, e deixá-los cair ao longo do corpo, num protesto mudo como se lhe houvessem cortado as asas. As outras não gostavam de Muriel. Achavam-na vazia, dura, distante, gelada... Não que ela fosse orgulhosa e má. O ponto da antipatia nascera ao primeiro contacto, originado pelo porte dela, pela sua maneira de ser original e fechada, que tornava impossível uma aproximação mais íntima. Se umas a julgavam louca, outras acreditavam que Muriel jamais seria uma rapariga vulgar. Mas eu... eu queria-lhe muito. Um dia cruzámo-nos nos claustros do pátio ajardinado... - Olá Muriel! - Parou, olhou-me, levou as mãos ao medalhão e, num gesto de espanto, escancarou mais os olhos... - Conheces-me?
  • 2.
    - Sim, conheço-te...Simpatizo contigo, sabes? - Mas... Sorrindo por cima das nossas mãos estendidas, os nossos olhos encontraram-se divertidos, dispostos a serem amigos. Depois de uma tarde de conversa aprendi bastante acerca de Muriel. Tinha uma alma de artista a nossa colega. Aquela serenidade, aquele sorriso lento e demorado, eram um pouco da alma dela, eram reflexos daquela personalidade que intimidava as outras, principalmente naqueles momentos em que erguia os braços sobre os ombros como se pretendesse voar sobre nós... Um dia Muriel deixou de sorrir, as faces tornaram-se-lhe diáfanas, os olhos maiores, semelhantes a firmamentos sem luz... Diziam no colégio que Muriel sofria de doença estranha. Leucemia, talvez. As Irmãs cochichavam ao longo dos corredores, quando passávamos em direção ao refeitório notando na fila o espaço vazio ao meu lado... Uma tarde fui visitá-la à enfermaria das mais novas. Reconheci nela a figura alada de outros tempos, por causa dos cabelos sedosos e brilhantes dispersos no travesseiro amarrotado. Não sei se estremeci. Recordei as outras que não gostavam dela e perguntei a mim mesma o que diriam se a vissem assim, muito branca, muito fraca, quase desfigurada pela enfermidade. Abriu os olhos lentamente e pousou-os sobre mim, um pouco espantada, um nada comovida, como naquela tarde em que ficamos amigas. - Vieste... Obrigada porque vieste!... - Muriel! minha amiga... - Amiga... És realmente minha amiga?... - Então... Então... Vi que um rubor intenso lhe subia ao rosto, tornando-a divinamente encantadora. Respondi procurando sorrir: - Não te acanhes, Muriel! - Por favor, toma estes papéis... Guarda-os na tua carteira do dormitório... Se eu morrer peço-te que as leias... a todas.. a todas... que não gostavam de mim... e que lhes digas, que eu, a Muriel, a quem elas chamavam a eslava, lhes quero muito... lhes perdoo tudo... O colégio... elas... tu... as Irmãs... tudo isto... (e sorria). Passei aqui os dias mais felizes da minha vida de refugiada... Que a vida há de ser feita de neve.
  • 3.
    Vereis -ó Mãe- como eu hei de subir. Falara sorrindo, de olhos cerrados, de mãos estendidas, segurando um rolo de papéis amarelos. Fiquei com ela até a noite cair. Depois despedi-me. Olhou-me longamente e murmurou acariciando a renda do lençol: - Deus te pague! ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Será escusado dizer-vos que Muriel morreu. Aquela serenidade doce, aquela placidez que emanava dela como se fosse uma mensagem de silêncio, não podia pertencer ao nosso meio barulhento e estranho. Foi uma morte branca a de Muriel. Contaram-me depois que tinha vindo não sei de onde e havia sido criada num orfanato de crianças sem famílias. Uns anos antes de a conhecer havia sido sucessivamente empregada de balcão, datilógrafa, criada de servir e depois mendiga, até que alguém a recolheu e a entregou ao meio buliçoso em que vivíamos. Fui amiga de Muriel, compreendi-lhe os sorrisos parados e os silêncios opressivos, mas o mistério daquele modo de ser espiritual e estranho, descobri-o no maço de papéis amarelos. Chamavam-lhe Muriel, a eslava. Não era linda, nem simpática talvez... mas a sua alma devia ser indiscutivelmente bela e grande para escrever: Eu amo a Vida, os pássaros e o Sol E o riso das crianças quando correm... E o canto das minhas companheiras Quando rezam matinas, Ou saltam na caçada, D'oiro nos olhos e auroras no rosto. Como se a Vida fosse toda Azul E nunca se perdessem na Estrada... Ó Irmãs d'Alegria, Vinde colorir a minha caminhada!... Maria Helena Amaro In, «Maria Mãe», 1973. Data da conclusão da edição no blogue – 27 de novembro de 2012 http://mariahelenaamaro.blogspot.com/