Fernando Pessoa
Ele-mesmo
Canto e choro
 Insatisfação da alma humana
 A indecisão
 a limitação
 a dor de pensar
 a fome de se ultrapassar
 a tristeza
 a dor da alma humana
 se sente incapaz de construir
 compara as possibilidades miseráveis com a ambição
desmedida
 dissipa a vida no tédio
Hora Morta
Lenta e lenta a hora
 Por mim dentro soa
 (Alma que se ignora!)
 Lenta e lenta e lenta,
 Lenta e sonolenta
 A lua se escoa...
 Tudo tão inútil!
 Tão como que doente
 Tão divinamente
 Fútil — ah, tão fútil
 Sonho que se sente
 De si próprio ausente..
 .Naufrágio ante o ocaso
 Hora de piedade...
 Tudo é névoa e acaso
 Hora oca e perdida,
 Cinza de vivida
 (Que Poente me invade?)
 Por que lenta ante olha
 Lenta em seu som,
 Que sinto ignorar?
 Por que é que me gela
 Meu próprio pensar
 Em sonhar amar?...
 Que morta esta hora!
 Que alma minha chora
 Tão perdida e alheia?...
 Mar batendo na areia,
 Para quê? para quê?
 P'ra ser o que se vê
 Na alva areia batendo ?
 Só isto? Não há
 Lâmpada de haver —
 — Um — sentido ardendo
 Dentro da hora — já
 Espuma de morrer?

Remédios
 O sonho
 a evasão pela viagem
 o refúgio na infância
 a crença num mundo ideal e oculto, situado no
passado, a aventura do Sebastianismo messiânico, o
estoicismo de Ricardo Reis etc..
 Tentativas frustradas porque o mal é a própria
natureza humana e o tempo a sua condição fatal.
 É uma poesia cheia de desesperos e de entusiasmos
febris, de náusea, tédios e angústias iluminados por
uma inteligência lúcida – febre de absoluto e
insatisfação do relativo.

Análise
 Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.
 Fernando Pessoa, 12-1911
Poesia
 A poesia está não na dor experimentada ou sentida
mas no fingimento dela, apesar do poeta partir da dor
real “a dor que deveras sente”.
 Não há arte sem imaginação, sem que o real seja
imaginado de maneira a exprimir-se artisticamente e
ser concretizado em arte.
 Esta concretização opera na memória a dor inicial
fazendo parecer a dor imaginada mais autêntica do
que a dor real.
 Há 4 dores: a real (inicial), a que o poeta imagina
(finge), a dor real do leitor e a dor lida, ou seja,
intelectualizada, que provém da interpretação do
leitor.
Autopsicografia
 O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
TEMAS
Temas
Não é ainda a noite
 Não é ainda a noite
 Mas é já frio o céu.
 Do vento o ocioso açoite
 Envolve o tédio meu.
 Que vitórias perdidas
 Por não as ter querido!
 Quantas perdidas vidas!
 E o sonho sem ter sido...
 Ergue-te, ó vento, do ermo
 Da noite que aparece!
 Há um silêncio sem termo
 Por trás do que estremece...
 Pranto dos sonhos fúteis,
 Que a memória acordou,
 Inúteis, tão inúteis —
 Quem me dirá quem sou?

INCAPACIDADE DE DEFINIÇÃO
Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
Consciência do absurdo da
existência
 · Intelectualização da emoção (“Eu
simplesmente sinto/ Com a imaginação./
Não uso o coração.” – Isto)
Recusa da realidade, enquanto
aparência
 Há entre mim e o real um véu
 Há entre mim e o real um véu
 À própria concepção impenetrável.
 Não me concebo amando, combatendo,
 Vivendo como os outros. Há em mim,
 Uma impossibilidade de existir
 De que [abdiquei], vivendo.

Intelectualização da emoção
 Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!


Leitura
 Assunto: o fingimento e a criação artística; a
racionalização dos sentimentos (sentir com a
imaginação, não usando o coração).
Divisão do poema: duas primeiras quintilhas -
negação de que finge ou mente; justificação de que o
que faz é a racionalização dos sentimentos na busca
de algo mais belo mas inacessível;
 última quintilha - argumentação de que ao
escrever se distancia da realidade,
intelectualizando os sentimentos e elaborando
uma nova realidade - a arte.

sentido da 1ª estrofe: reconhecimento do
que dizem e negação de que finge ou mente
"sinto com a imaginação/ Não uso o coração"
- expressão da intelectualização do
sentimento.
 comparação da 2ª estrofe: "Tudo o que sonho ou passo/ O que
me falha ou finda" (primeiro termo da comparação) "(...) um
terraço/Sobre outra coisa ainda" (segundo termo), ou seja, o
mundo real ("terraço") é reflexo de ("Sobre outra coisa ainda") um
mundo ideal ("essa coisa é que é linda" - conceito oculto ou
platônico, mundo que fascina o sujeito poético).

Na 3ª estrofe, introduzida pela expressão "Por isso" de valor
conclusivo/ explicativo, o sujeito poético recusa a poesia como
expressão imediata das sensações. O sentir, no sentido
convencional do termo, é remetido para o leitor.

 situação a que chega o sujeito poético -
"livre de meu enleio" (desligado do tema) há
um ato de fingimento de pura elaboração
estética e o leitor que sinta o que ele
comunica apesar de não sentir ("Sentir? Sinta
quem lê!")


 O poema "Isto" apresenta-se como uma
espécie de esclarecimento em relação à
questão do fingimento poético enunciada
em "Autopsicografia" - não há mentira no
ato de criação poética; o fingimento
poético resulta da intelectualização do
"sentir" da racionalização.

 Aqui, o sujeito poético vai mais longe já
que, negando o "uso do coração",
aponta para a simultaneidade dos atos
de "sentir" e "imaginar", apresentando-
nos a obra poética como uma espécie
de síntese onde a sensação surge
filtrada pela imaginação criadora.

 A comparação presente na 2ª estrofe
(vv.6-9) evidencia o fato de a realidade
que envolve o sujeito poético ser apenas
a "ponte" para "outra coisa": a obra
poética, expressão máxima do Belo.
 "Fingir" não é o mesmo que "mentir" é a
tese defendida.
 Não há mentira no ato de criação
poética; o fingimento poético resulta da
intelectualização do "sentir", da
racionalização dos sentimentos vividos
pelo sujeito poético.
 O sujeito poético vai mais longe já que,
negando o "uso do coração", aponta
para a simultaneidade dos atos de
"sentir" e "imaginar", apresentando-nos
a obra poética como uma espécie de
síntese onde a sensação surge filtrada
pela imaginação criadora.

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  • 1.
  • 2.
    Canto e choro Insatisfação da alma humana  A indecisão  a limitação  a dor de pensar  a fome de se ultrapassar  a tristeza  a dor da alma humana  se sente incapaz de construir  compara as possibilidades miseráveis com a ambição desmedida  dissipa a vida no tédio
  • 3.
    Hora Morta Lenta elenta a hora  Por mim dentro soa  (Alma que se ignora!)  Lenta e lenta e lenta,  Lenta e sonolenta  A lua se escoa...  Tudo tão inútil!  Tão como que doente  Tão divinamente  Fútil — ah, tão fútil  Sonho que se sente  De si próprio ausente..  .Naufrágio ante o ocaso  Hora de piedade...  Tudo é névoa e acaso  Hora oca e perdida,  Cinza de vivida  (Que Poente me invade?)  Por que lenta ante olha  Lenta em seu som,  Que sinto ignorar?  Por que é que me gela  Meu próprio pensar  Em sonhar amar?...  Que morta esta hora!  Que alma minha chora  Tão perdida e alheia?...  Mar batendo na areia,  Para quê? para quê?  P'ra ser o que se vê  Na alva areia batendo ?  Só isto? Não há  Lâmpada de haver —  — Um — sentido ardendo  Dentro da hora — já  Espuma de morrer? 
  • 4.
    Remédios  O sonho a evasão pela viagem  o refúgio na infância  a crença num mundo ideal e oculto, situado no passado, a aventura do Sebastianismo messiânico, o estoicismo de Ricardo Reis etc..  Tentativas frustradas porque o mal é a própria natureza humana e o tempo a sua condição fatal.  É uma poesia cheia de desesperos e de entusiasmos febris, de náusea, tédios e angústias iluminados por uma inteligência lúcida – febre de absoluto e insatisfação do relativo. 
  • 5.
    Análise  Tão abstrataé a idéia do teu ser Que me vem de te olhar, que, ao entreter Os meus olhos nos teus, perco-os de vista, E nada fica em meu olhar, e dista Teu corpo do meu ver tão longemente, E a idéia do teu ser fica tão rente Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me Sabendo que tu és, que, só por ter-me Consciente de ti, nem a mim sinto. E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto A ilusão da sensação, e sonho, Não te vendo, nem vendo, nem sabendo Que te vejo, ou sequer que sou, risonho Do interior crepúsculo tristonho Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.  Fernando Pessoa, 12-1911
  • 6.
    Poesia  A poesiaestá não na dor experimentada ou sentida mas no fingimento dela, apesar do poeta partir da dor real “a dor que deveras sente”.  Não há arte sem imaginação, sem que o real seja imaginado de maneira a exprimir-se artisticamente e ser concretizado em arte.  Esta concretização opera na memória a dor inicial fazendo parecer a dor imaginada mais autêntica do que a dor real.  Há 4 dores: a real (inicial), a que o poeta imagina (finge), a dor real do leitor e a dor lida, ou seja, intelectualizada, que provém da interpretação do leitor.
  • 7.
    Autopsicografia  O poetaé um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração.
  • 8.
  • 9.
    Temas Não é aindaa noite  Não é ainda a noite  Mas é já frio o céu.  Do vento o ocioso açoite  Envolve o tédio meu.  Que vitórias perdidas  Por não as ter querido!  Quantas perdidas vidas!  E o sonho sem ter sido...  Ergue-te, ó vento, do ermo  Da noite que aparece!  Há um silêncio sem termo  Por trás do que estremece...  Pranto dos sonhos fúteis,  Que a memória acordou,  Inúteis, tão inúteis —  Quem me dirá quem sou? 
  • 10.
    INCAPACIDADE DE DEFINIÇÃO Gatoque brincas na rua Como se fosse na cama, Invejo a sorte que é tua Porque nem sorte se chama. Bom servo das leis fatais Que regem pedras e gentes, Que tens instintos gerais E sentes só o que sentes. És feliz porque és assim, Todo o nada que és é teu. Eu vejo-me e estou sem mim, Conheço-me e não sou eu.
  • 11.
    Consciência do absurdoda existência  · Intelectualização da emoção (“Eu simplesmente sinto/ Com a imaginação./ Não uso o coração.” – Isto)
  • 12.
    Recusa da realidade,enquanto aparência  Há entre mim e o real um véu  Há entre mim e o real um véu  À própria concepção impenetrável.  Não me concebo amando, combatendo,  Vivendo como os outros. Há em mim,  Uma impossibilidade de existir  De que [abdiquei], vivendo. 
  • 13.
    Intelectualização da emoção Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração.  Tudo o que sonho ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.  Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé, Livre do meu enleio, Sério do que não é. Sentir? Sinta quem lê!  
  • 14.
    Leitura  Assunto: ofingimento e a criação artística; a racionalização dos sentimentos (sentir com a imaginação, não usando o coração). Divisão do poema: duas primeiras quintilhas - negação de que finge ou mente; justificação de que o que faz é a racionalização dos sentimentos na busca de algo mais belo mas inacessível;
  • 15.
     última quintilha- argumentação de que ao escrever se distancia da realidade, intelectualizando os sentimentos e elaborando uma nova realidade - a arte.  sentido da 1ª estrofe: reconhecimento do que dizem e negação de que finge ou mente "sinto com a imaginação/ Não uso o coração" - expressão da intelectualização do sentimento.
  • 16.
     comparação da2ª estrofe: "Tudo o que sonho ou passo/ O que me falha ou finda" (primeiro termo da comparação) "(...) um terraço/Sobre outra coisa ainda" (segundo termo), ou seja, o mundo real ("terraço") é reflexo de ("Sobre outra coisa ainda") um mundo ideal ("essa coisa é que é linda" - conceito oculto ou platônico, mundo que fascina o sujeito poético).  Na 3ª estrofe, introduzida pela expressão "Por isso" de valor conclusivo/ explicativo, o sujeito poético recusa a poesia como expressão imediata das sensações. O sentir, no sentido convencional do termo, é remetido para o leitor. 
  • 17.
     situação aque chega o sujeito poético - "livre de meu enleio" (desligado do tema) há um ato de fingimento de pura elaboração estética e o leitor que sinta o que ele comunica apesar de não sentir ("Sentir? Sinta quem lê!")  
  • 18.
     O poema"Isto" apresenta-se como uma espécie de esclarecimento em relação à questão do fingimento poético enunciada em "Autopsicografia" - não há mentira no ato de criação poética; o fingimento poético resulta da intelectualização do "sentir" da racionalização. 
  • 19.
     Aqui, osujeito poético vai mais longe já que, negando o "uso do coração", aponta para a simultaneidade dos atos de "sentir" e "imaginar", apresentando- nos a obra poética como uma espécie de síntese onde a sensação surge filtrada pela imaginação criadora. 
  • 20.
     A comparaçãopresente na 2ª estrofe (vv.6-9) evidencia o fato de a realidade que envolve o sujeito poético ser apenas a "ponte" para "outra coisa": a obra poética, expressão máxima do Belo.
  • 21.
     "Fingir" nãoé o mesmo que "mentir" é a tese defendida.  Não há mentira no ato de criação poética; o fingimento poético resulta da intelectualização do "sentir", da racionalização dos sentimentos vividos pelo sujeito poético.
  • 22.
     O sujeitopoético vai mais longe já que, negando o "uso do coração", aponta para a simultaneidade dos atos de "sentir" e "imaginar", apresentando-nos a obra poética como uma espécie de síntese onde a sensação surge filtrada pela imaginação criadora.