"DESVENTURADO HOMEM QUE SOU!"                                              21




        "DESVENTURADO HOMEM                                    QUE          SOU!"
                                        A. W. Pink



              N o sétimo capítulo da carta aos   Romanos 7.1-6, ele falou sobre a
        Romanos, o apóstolo Paulo se refe-       identificação do crente com Cristo,
        riu a dois assuntos: primeiramente,      apresentado-o como “morto para a
        ele mostrou qual é a relação do cren-    lei” (vv. 4 a 6). Em seguida, do
        te para com a lei de Deus — judi-        versículo 7 em diante, Paulo descre-
        cialmente, o crente está emancipado      veu as experiências do crente. Assim,
        da maldição e da penalidade da lei       nos capítulos 6 e 7 de Romanos, na
        (vv. 1-6); moralmente, o crente está     primeira metade de ambos, Paulo
        sob laços de obediência à lei (vv. 22,   aborda a posição do crente, enquan-
        25). Em segundo, Paulo nos prote-        to na segunda metade de ambos os
        geu da falsa inferência que poderia      capítulos ele fala sobre o estado do
        ser deduzida daquilo que ele havia       crente, mas com a seguinte diferen-
        ensinado no capítulo 6.                  ça: a segunda metade de Romanos 6
            No capítulo 6, versículos 1 a 11,    revela qual deve ser o nosso estado,
        Paulo havia apresentado a união do       enquanto a segunda metade do capí-
        crente com Cristo, retratando o cren-    tulo 7 (vv. 13-25) mostra qual é, na
        te como alguém “morto para o             realidade, o nosso estado.
        pecado” (vv. 2, 7, etc.). Em segui-          A presente controvérsia suscita-
        da, do versículo 11 em diante, ele       da sobre Romanos 7 é amplamente
        mostrou o efeito que essa verdade        um fruto do perfeccionismo de John
        deve ter sobre o viver do crente. No     Wesley e seus seguidores. O fato de
        capítulo 7, o apóstolo Paulo seguiu      que esses irmãos, dos quais temos
        a mesma ordem de pensamento. Em          motivo para reverenciar, adotaram




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          este erro de forma modificada ape- diários (Lc 11.4), pois “todos tro-
          nas nos mostra quão abrangente em peçamos em muitas coisas” (Tg 3.2).
          nossos dias é o espírito do laodi- Nos próximos parágrafos, conside-
          ceísmo. A segunda metade de Ro- raremos os dois últimos versículos de
          manos 7 descreve o conflito das duas Romanos 7, que dizem: “Desventu-
          naturezas que o crente possui; sim- rado homem que sou! Quem me li-
          plesmente apresenta em detalhes o vrará do corpo desta morte? Graças
          que está sumariado em Gálatas 5.17. a Deus por Jesus Cristo, nosso Se-
          As afirmações de Romanos 7. nhor. De maneira que eu, de mim
          14,15,18,19 e 21 são verdadeiras a mesmo, com a mente, sou escravo
          respeito de todos                                         da lei de Deus,
          os crentes que vi-                                        mas, segundo a
          vem nesse mun-                        g                   carne, da lei do
          do. Todo crente         Quanto mais o crente              pecado” (vv. 24-
          fica aquém, mui-                                          25).
          to aquém do pa-          se achega a Cristo,                   Essa é a lin-
          drão colocado di- tanto mais ele descobri-                guagem de uma
          ante dele; estamos       rá as corrupções de              alma regenerada e
          nos referindo ao                                          resume o conteú-
          padrão de Deus, e       sua velha natureza, e             do dos versículos
          não ao padrão dos      tanto mais ardentemen- i m e d i a t a m e n t e
          ensinadores da          te desejará ser liberto           anteriores. O ho-
          suposta “vida vi-                                         mem incrédulo é
          toriosa”. Se qual-         de tal natureza.               realmente des-
          quer leitor crente                    g                   venturado, mas
          disser que Roma-                                          ele não conhece a
          nos 7 não descre-                                         “desventurança”
          ve a sua vida, afirmamos com toda a que evoca a lamentação expressada
          bondade que ele se encontra terrivel- nessa passagem. Todo o contexto se
          mente enganado. Não estamos dedica a descrever o conflito entre
          dizendo que todo crente quebra a lei as duas naturezas do filho de Deus.
          dos homens ou que ele é um ousado “Porque, no tocante ao homem inte-
          transgressor da lei de Deus. Estamos rior, tenho prazer na lei de Deus”
          afirmando que a vida de todo crente (v. 22) — isso é verdade apenas so-
          está muito aquém do nível de vida bre a pessoa nascida de novo.
          que nosso Senhor vivenciou, quan- Todavia, aquele que tem prazer na
          do esteve neste mundo. Estamos lei de Deus encontra, em seus “mem-
          dizendo que muito da “carne” ainda bros, outra lei”. Isso não pode estar
          se evidencia em todo crente, inclusi- limitado aos membros do corpo físi-
          ve naqueles que se vangloriam, em co, mas tem de ser entendido como
          voz alta, de suas conquistas espiritu- algo que inclui todas as várias partes
          ais. Estamos dizendo que todo crente de sua personalidade carnal — a me-
          tem necessidade urgente de orar su- mória, a imaginação, a vontade, o
          plicando perdão por seus pecados coração, etc.




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             Essa “outra lei”, disse o apósto-    periência normal do crente; e qual-
        lo, guerreava contra a lei de sua mente   quer crente que não geme dessa ma-
        (a nova natureza); e não somente          neira está em um estado de anorma-
        isso, ela também o fazia “prisionei-      lidade e falta de saúde espiritual. O
        ro da lei do pecado” (v. 23). Ele não     homem que não profere diariamente
        definiu em que extensão se expres-        esse clamor se encontra tão ausente
        sava essa servidão. Mas ele estava em     da comunhão com Cristo, ou tão ig-
        servidão à lei do pecado, assim como      norante dos ensinos das Escrituras,
        todo crente também o está. A va-          ou tão enganado a respeito de sua
        gueação da mente, na hora de ler a        condição atual, que não conhece as
        Palavra de Deus, os maus pensamen-        corrupções de seu coração e a des-
        tos que brotam do coração (Mc             prezível imperfeição de sua própria
        7.21), quando estamos envolvidos na       vida.
        oração, as más figuras que, às ve-            Aquele que se curva diante do
        zes, aparecem quando estamos em           solene e perscrutador ensino da Pa-
        estado de sonolência — citando ape-       lavra de Deus, aquele que nela
        nas alguns — são exemplos de ha-          aprende a terrível ruína que o peca-
        vermos sido feitos prisioneiros “da       do tem realizado na constituição do
        lei do pecado”. “Se o princípio mau       ser humano, aquele que percebe o
        de nossa natureza prevalece, a ponto      padrão elevado que Deus nos tem
        de despertar em nós apenas um pen-        proposto não falhará em descobrir
        samento mau, ele nos tomou como           que é um ser maligno e vil. Se ele se
        cativos. Visto que ele nos conquis-       esforça para perceber o quanto tem
        tou, estamos vencidos e feitos            falhado em alcançar o padrão de
        prisioneiros” (Robert Haldane).           Deus; se, na luz do santuário divi-
             O reconhecimento dessa guerra        no, ele descobre quão pouco se
        em seu íntimo e o fato de que se tor-     parece com o Cristo de Deus, então,
        nou cativo ao pecado levam o crente       reconhecerá que essa linguagem de
        a exclamar: “Desventurado homem           Romanos 7 é muito apropriada para
        que sou!” Esse é um clamor produ-         descrever sua tristeza espiritual. Se
        zido por uma profunda compreensão         Deus lhe revela a frieza de seu amor,
        da habitação do pecado. É a confis-       o orgulho de seu coração, as va-
        são de alguém que reconhece não           gueações de sua mente, o mal que
        haver bem algum em seu homem              contamina suas atitudes piedosas, o
        natural. É o lamento melancólico de       crente haverá de clamar: “Desven-
        alguém que descobriu algo a respei-       turado homem que sou!” Se o crente
        to da horrível profundeza de ini-         estiver consciente de sua ingratidão
        qüidade que existe em seu próprio         e de quão pouco ele tem apreciado
        coração. É o gemido de uma pessoa         as misericórdias diárias de Deus; se
        iluminada por Deus, uma pessoa que        o crente percebe a ausência daquele
        odeia a si mesma — ou seja, o ho-         fervor profundo e genuíno que tem
        mem natural — e anela por libertação.     de caracterizar seus louvores e sua
             Esse gemido — “Desventurado          adoração Àquele que é “glorificado
        homem que sou!” — expressa a ex-          em santidade” (Êx 15.11); se o cren-




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          te reconhece o espírito pecaminoso Cristo produz ambas as coisas. Isso
          de rebeldia que, com freqüência, o aconteceu com Paulo. Em Romanos
          faz murmurar ou irrita-o contra as 7.22, ele afirmou: “Tenho prazer na
          realizações dEle em sua vida cotidia- lei de Deus”. Logo em seguida, po-
          na; se o crente admite que está cien- rém, ele clamou: “Desventurado
          te não apenas de seus pecados de homem que sou!” Outras passagens
          comissão, mas também daqueles de também nos mostram isso. Em 2
          omissão, dos quais ele é culpado to- Coríntios 6, Paulo disse: “Entriste-
          dos os dias, ele realmente clamará: cidos, mas sempre alegres” (v. 10)
          “Desventurado homem que sou!”          — entristecido por causa de suas fa-
              Esse clamor não será proferido lhas, por causa de seus pecados
          apenas por aquele crente que se acha diários; alegre por causa da graça que
          afastado do Se-                                              ainda perma-
          nhor. Aquele                                                 necia com ele e
          que está em co-                      g                       por causa da
          munhão ver-         Onde não existe o clamor: bendita provi-
          dadeira com o                                                são que Deus
          Senhor Jesus
                                 “Desventurado homem                   fizera até para
          também emiti-          que sou!”, deve haver                 os pecados de
          rá esse gemi-        um grande temor de que                  seus santos.
          do, todos os                                                 Também em
          dias e todas as
                               ali não existe, de manei-               Romanos 8,
          horas. Sim,           ra alguma, comunhão                    depois de ha-
          quanto mais o                 com Cristo.                    ver declarado:
          crente se ache-                      g
                                                                       “Agora, pois,
          ga a Cristo,                                                 já nenhuma
          tanto mais ele                                               condenação há
          descobrirá as corrupções de sua ve- para os que estão em Cristo Jesus”
          lha natureza, e tanto mais arden- (v. 1); “O próprio Espírito testifica
          temente desejará ser liberto de tal com o nosso espírito que somos fi-
          natureza. É somente quando a luz do lhos de Deus. Ora, se somos filhos,
          sol inunda um cômodo que a poeira somos também herdeiros, herdeiros
          e a sujeira são completamente reve- de Deus e co-herdeiros com Cristo;
          lados. Quando estamos realmente na se com ele sofremos, também com
          presença dAquele que é luz, ficamos ele seremos glorificados” (vv. 16-
          conscientes da impureza e impieda- 17), o apóstolo Paulo acrescentou:
          de que habita em nós e contamina “Também nós, que temos as primí-
          cada parte de nosso ser. E essa des- cias do Espírito, igualmente geme-
          coberta nos levará a clamar: “Des- mos em nosso íntimo, aguardando a
          venturado homem que sou!”              adoção de filhos, a redenção do nos-
              “Mas”, talvez alguns perguntem, so corpo” (v. 23). O ensino do
          “a comunhão com Cristo não pro- apóstolo Pedro é semelhante ao de
          duz regozijo, ao invés de gemidos?” Paulo — “Nisso exultais, embora, no
          Respondemos que a comunhão com presente, por breve tempo, se neces-




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        sário, sejais contristados por várias    principal” (1 Tm 1.15). Essas de-
        provações” (1 Pe 1.6). Tristeza e ge-    clarações não procederam de pessoas
        mido não se encontram ausentes no        não-regeneradas, e sim dos lábios de
        mais elevado nível de espiritualidade.   santos de Deus. Elas não foram con-
            Nestes dias de complacência e        fissões de crentes relaxados; pelo
        orgulho laodicense, existe conside-      contrário, elas foram proferidas pe-
        rável parola e muita exaltação a res-    los mais eminentes membros do povo
        peito da comunhão com Cristo; po-        de Deus. Em nossos dias, onde en-
        rém, quão pouca manifestação dessa       contramos crentes que podem ser
        comunhão nós contemplamos! Onde          colocados lado a lado com Abraão,
        não existe qualquer senso de com-        Jó, Isaías, Daniel e Paulo? Onde,
        pleta indignidade; onde não existe       realmente?! Mas eles foram homens
        qualquer lamentação pela depravação      que estavam conscientes de sua vile-
        total de nossa natureza; onde não        za e indignidade!
        existe qualquer entristecimento por          “Desventurado homem que sou!”
        nossa falta de conformidade com          Essa é a linguagem de uma alma nas-
        Cristo; onde não existe qualquer ge-     cida de novo; é a confissão de um
        mido por havermos sido feitos “pri-      crente normal (não-iludido, não-en-
        sioneiros” do pecado; em resumo,         ganado). A essência dessa afirmativa
        onde não existe o clamor: “Desven-       pode ser encontrada não somente nas
        turado homem que sou!”, deve haver       declarações dos santos do Antigo e
        um grande temor de que ali não exis-     do Novo Testamento, mas também
        te, de maneira alguma, comunhão          nos escritos de muitos dos eminentes
        com Cristo.                              servos de Cristo que viveram nos
            Quando estava andando com o          últimos séculos. As afirmações e o
        Senhor, Abraão exclamou: “Eis que        testemunho pronunciado pelos emi-
        me atrevo a falar ao Senhor, eu que      nentes santos do passado eram muito
        sou pó e cinza” (Gn 18.27). Estan-       diferentes da ignorância e da arro-
        do face a face com Deus, Jó de-          gante jactância dos laodicences
        clarou: “Por isso, me abomino” (Jó       modernos! É um refrigério volver-
        42.6). Ao entrar na presença de          nos das biografias de nossos dias
        Deus, Isaías clamou: “Ai de mim!         para aquelas biografias escritas há
        Estou perdido! Porque sou homem          muito tempo. Medite nos trechos de
        de lábios impuros” (Is 6.5). Quando      biografias que apresentamos em se-
        teve aquela maravilhosa visão de         guida.
        Cristo, Daniel confessou: “Não res-          Bradford, que foi martirizado no
        tou força em mim; o meu rosto            reinado de Maria, a sanguinária, em
        mudou de cor e se desfigurou, e não      uma carta dirigida a um amigo que
        retive força alguma” (Dn 10.8). Em       estava em outra prisão, subscreveu-
        uma das últimas epístolas do apósto-     se com as seguintes palavras: “O
        lo dos gentios, lemos: “Fiel é a         pecaminoso John Bradford, um hi-
        palavra e digna de toda aceitação:       pócrita notável, o pecador mais
        Cristo Jesus veio ao mundo para sal-     miserável, de coração endurecido e
        var os pecadores, dos quais eu sou o     ingrato — John Bradford” (1555).




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               O piedoso Samuel Rutherford         posto a considerar os outros crentes
          escreveu: “Este corpo de pecado e        melhores do que ele mesmo e a olhar
          de corrupção torna amargo e enve-        para si mesmo como o pior e o me-
          nena nosso regozijo. Oh! Se eu es-       nor de todos os crentes, mas também,
          tivesse onde nunca mais pecarei!”        com muita freqüência, a ver a si mes-
          (1650).                                  mo como o mais vil e o pior de todos
               O bispo Berkeley disse: “Não        os homens”.
          posso orar, mas cometo pecados.               O próprio Jonathan Edwards, que
          Não posso pregar, mas cometo pe-         entre muitos foi mais honrado por
          cados. Não posso ministrar, nem          Deus (quer em suas realizações espi-
          receber a Ceia do Senhor, mas co-        rituais, quer na extensão em que Deus
          meto pecados. Preciso arrepen-           o usou para abençoar outros), escre-
          der-me de meu próprio arrependi-         veu nos últimos dias de sua vida:
          mento; e as lágrimas que derramei        “Quando olho para meu coração e
          necessitam da lavagem do sangue de       vejo a sua impiedade, ele parece um
          Cristo” (1670).                          abismo infinitamente mais profundo
               Jonathan Edwards, em sua obra       do que o inferno. E parece-me que,
          A Vida de David Brainerd1 (o pri-        se não fosse a graça de Deus, exalta-
          meiro missionário entre os índios,       da e elevada à infinita sublimidade
          cuja devoção a Cristo foi testemu-       de toda a plenitude e glória do gran-
          nhada por todos os que o conhe-          de Jeová, eu deveria comparecer,
          ciam), afirmou a respeito de Brai-       mergulhado em meus pecados, nas
          nerd: “Sua iluminação, suas afeições     profundezas do próprio inferno, mui-
          e seu conforto espiritual parecem ter    to distante da contemplação de todas
          sido, em grande medida, acompa-          as coisas, exceto do olhar da graça
          nhadas por humildade evangélica;         soberana, que pode destruir tal
          consistiam em um senso de sua com-       profundeza. É comovente pensar o
          pleta insuficiência, de sua vileza e     quanto eu ignorava, quando era um
          de sua própria abominação; com           crente novo (infelizmente, muitos
          uma disposição correspondente e          crentes velhos ainda o ignoram — A.
          uma propensão do coração. Quão           W. Pink), a profunda impiedade,
          profundamente Brainerd foi afetado       orgulho, hipocrisia e engano deixa-
          quase continuamente por seus gran-       dos em meu coração” (1743).
          des defeitos na vida cristã; por sua          Augustus Toplady, autor do hino
          ampla distância daquela espiri-          “Rocha Eterna”, escreveu as seguin-
          tualidade e daquela disposição men-      tes palavras em seu diário no dia 31
          tal que convém a um filho de Deus;       de dezembro de 1767: “Ao fazer uma
          por sua ignorância, seu orgulho, sua     retrospectiva deste ano, desejo con-
          apatia e sua esterilidade! Ele não foi   fessar que minha infidelidade tem sido
          somente afetado pela recordação dos      excessivamente grande, e meus pe-
          pecados cometidos antes de sua con-      cados, ainda maiores. Todavia, as
          versão, mas também pelo sentimento       misericórdias de Deus têm sido maio-
          de sua presente vileza e corrupção.      res do que ambos”. E mais: “Minhas
          Brainerd não se mostrava apenas dis-     falhas, meus pecados, minha incre-




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"DESVENTURADO HOMEM QUE SOU!"                                               27

        dulidade e minha falta de amor me         ra, eu me envergonho mais ainda”.
        afundariam no mais profundo do in-            James Ingliss (editor de “Mar-
        ferno, se Jesus não fosse minha jus-      cos no Deserto”), no final de sua
        tiça e meu Redentor”.                     vida, escreveu: “Visto que fui trazi-
             Observem estas palavras de uma       do a uma nova opinião sobre o fim,
        piedosa mulher, a esposa do eminen-       a minha vida parece ser constituída
        te missionário Adoniran Judson:           de tantas oportunidades desperdi-
        “Oh! Como eu me regozijo porque           çadas e de tanta escassez de resul-
        estou fora do redemoinho! Sou gaia-       tados, que às vezes isso é muito do-
        ta e fútil demais, para ser a esposa      loroso. A graça, porém, se apresenta
        de um missionário! Talvez a gaiati-       para satisfazer todas essas deficiên-
        ce seja o meu mais leve pecado. Não       cias; e o Senhor Jesus também será
        são os atrativos do mundo que me          glorificado em minha humilhação”
        tornam um simples bebê na causa de        (1872). J. H. Brookers, o biógrafo
        Cristo; pelo contrário, é a minha frie-   de James Ingliss, observou sobre es-
        za de coração, a minha insignificân-      sas palavras: “Quão semelhante a
        cia, a minha falta de fé, a minha         Cristo e quão diferente daqueles que
        ineficiência e inércia espiritual, por    estão se gloriando em suas supostas
        amor do meu próprio ‘eu’, e a mi-         realizações!”
        nha pecaminosidade abundante e                Apresentamos mais uma cita-
        inerente de minha natureza”.              ção, proveniente de um sermão de
             John Newton, o escritor do ben-      Charles H. Spurgeon. O Príncipe
        dito hino “Graça Admirável” (que          dos Pregadores disse: “Existem al-
        afirma: “Graça admirável, quão doce       guns crentes professos que falam
        é o som que salvou um ímpio como          sobre si mesmos em termos de ad-
        eu; estava perdido, mas fui achado;       miração. Todavia, em meu íntimo,
        era cego, agora vejo”), quando se         detesto mais e mais esses discursos,
        referia às expectativas que ele nutria    a cada dia que eu vivo. Aqueles que
        no final de sua vida cristã, escreveu     falam dessa maneira arrogante devem
        o seguinte: “Infelizmente, essas mi-      possuir uma natureza muito diferen-
        nhas preciosas expectativas se            te da minha. Enquanto eles estão
        tornaram como sonhos dos mares do         congratulando a si mesmos, tenho de
        Sul. Vivi neste mundo como um pe-         me prostrar aos pés da cruz de Cris-
        cador e creio que assim morrerei. Eu      to e admirar-me de que estou salvo,
        ganhei alguma coisa? Sim, ganhei          pois sei que fui salvo. Tenho de ad-
        aquilo com o que antes eu preferia        mirar-me de não crer mais pro-
        não viver! Essas provas acumuladas        fundamente em Cristo e de que sou
        do engano e da terrível impiedade do      privilegiado por crer nEle. Tenho de
        meu coração me ensinaram, pela bên-       admirar-me de não amá-Lo mais pro-
        ção do Senhor, a compreender o que        fundamente, mas igualmente devo
        significa dizer: vejam, eu sou um         admirar-me até de que O amo de al-
        homem vil… Eu me envergonhava             guma maneira. Devo admirar-me de
        de mim mesmo, quando comecei a            não possuir mais santidade e admi-
        procurar a bênção do Senhor; ago-         rar-me, igualmente, de que eu tenho




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          algum desejo de ser santo, levando       e sim de um desejo ardente de ajuda
          em conta quão corrompida, degene-        de fora e do alto. Aquilo do que o
          rada e depravada natureza eu ainda       apóstolo desejava ser livre é chama-
          encontro em minha alma, apesar de        do de “o corpo desta morte”. Esta é
          tudo o que a graça de Deus tem feito     uma expressão figurada, pois a na-
          em mim. Se Deus permitisse que as        tureza carnal é chamada de “o corpo
          fontes do grande abismo da depra-        do pecado” e vista como algo que
          vação se rompessem nos melhores          tem “membros” (Rm 7.23). Portan-
          homens que vivem neste mundo, eles       to, entendemos que as palavras do
          se tornariam demônios tão maus           apóstolo significam: “Quem me li-
          como o próprio diabo. Não me im-         vrará desse fardo mortal e pernicioso
          porto com o que dizem esses van-         — meu eu pecaminoso?!”
          gloriosos a respeito de suas próprias        No versículo seguinte, o apósto-
          perfeições. Estou certo de que eles      lo responde essa pergunta: “Graças
          não conhecem a si mesmos; se co-         a Deus por Jesus Cristo, nosso Se-
          nhecessem, não falariam como             nhor” (Rm 7.25). Deve ser óbvio
          freqüentemente o fazem. Mesmo no         para qualquer mente imparcial que
          crente que está mais próximo do céu      isso aponta para o futuro. Paulo ha-
          existe combustível suficiente para       via perguntado: “Quem me livrará?”
          acender outro inferno, se Deus tão-      A sua resposta foi: Jesus Cristo me
          somente permitisse que uma chama         livrará. Isso expõe o erro daqueles
          caísse sobre ele. Alguns crentes pa-     que ensinam uma libertação presen-
          recem que nunca descobrem isto. Eu       te da natureza carnal, por intermédio
          quase desejo que eles nunca o descu-     do poder do Espírito Santo. Em sua
          bram, pois esta é uma descoberta         resposta, o apóstolo não falou nada
          dolorosa para qualquer um fazer; mas     sobre o Espírito Santo; ao invés dis-
          ela tem o efeito benéfico de fazer que   so, ele mencionou apenas “Jesus
          paremos de confiar em nós mesmos         Cristo, nosso Senhor”. Não é por
          e de nos levar a nos gloriarmos so-      meio da obra presente do Espírito
          mente no Senhor”.                        Santo em nós que os crentes serão
               Poderíamos apresentar outros        libertados “do corpo desta morte”, e
          testemunhos dos lábios e dos escri-      sim por meio da vinda futura do Se-
          tos de homens igualmente piedosos        nhor Jesus Cristo para nós. Naquele
          e eminentes, porém citamos o sufi-       tempo, esse corpo mortal será reves-
          ciente para mostrar que os santos de     tido de imortalidade, e a nossa
          todas as épocas tinham motivo para       corrupção, de incorrupção.
          fazerem suas essas palavras do após-         Como se estivesse pensando em
          tolo Paulo: “Desventurado homem          remover toda dúvida a respeito de
          que sou!” Faremos mais algumas           que essa libertação ocorrerá no futu-
          poucas observações sobre essas pala-     ro, o apóstolo concluiu dizendo: “De
          vras finais de Romanos 7.                maneira que eu, de mim mesmo,
               “Quem me livrará do corpo des-      com a mente, sou escravo da lei de
          ta morte?” “Quem me livrará?” Esta       Deus, mas, segundo a carne, da lei
          não é uma linguagem de desespero,        do pecado”. O leitor deve observar




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        cuidadosamente que Paulo havia da sua glória, segundo a eficácia do
        agradecido a Deus pelo fato de que poder que ele tem de até subordinar
        ele seria libertado. A última parte do a si todas as coisas” (Fp 3.20). E,
        versículo 25 resume o que ele havia havendo feito isso, o Senhor Jesus
        dito na segunda parte de Romanos nos apresentará, “com exultação,
        7; descreve a vida dupla do crente. imaculados diante da sua glória” (Jd
        A nova natureza serve a lei de Deus; 24). Aleluia! Que grande Salvador!
        a velha natureza, até ao final da His-     É admirável que somente mais
        tória, servirá à “lei do pecado”. Que uma vez a palavra “desventurado” é
        isso aconteceu com o apóstolo Paulo utilizada no Novo Testamento (no
        é evidente das palavras que ele es- texto grego). Essa outra ocorrência
        creveu no final de sua vida, quando está em Apocalipse 3.17, onde Cris-
        chamou a si mesmo de “o principal” to disse à igreja de Laodicéia: “Nem
        dos pecadores (1 Tm 1.15). Essa afir- sabes que tu és INFELIZ”. A arrogân-
        mativa não era um exagero de fervor cia dos membros dessa igreja era que
        evangelístico, nem mesmo um mo- eles não precisavam “de coisa algu-
        tejo de modesta hipocrisia. Era uma ma”. Eles estavam tão inchados com
        convicção segura, uma experiência a soberba, tão satisfeitos com o que
        vivenciada, uma conscientização fir- haviam atingido, que não tinham
        me de alguém que viu com amplitude consciência de sua própria miséria.
        as profundezas da corrupção que ha- E não é isso mesmo que testemunha-
        via em seu próprio íntimo e que sabia mos em nossos dias? Não é evidente
        o quanto fica-                                               que estamos
        va aquém de                                                  vivendo no
        atingir o pa-                          g                     período lao-
        drão de santi-        Mesmo no crente que está               diceiano da
        dade que Deus        mais próximo do céu existe              história da
        havia coloca-                                                Igreja? Mui-
        do diante de-        combustível suficiente para             tos estavam
        le. Essa tam-         acender outro inferno, se              cônscios da
        bém é a con-         Deus tão-somente permitis-              “necessida-
        vicção e a con-                                              de”, mas a-
        fissão de todo        se que uma chama caísse                gora imagi-
        crente que não                  sobre ele.                   nam que re-
        se encontra                                                  ceberam a
        cativo ao pre-                         g                     “segunda bên-
        conceito. E o                                                ção”, ou que
        resultado dessa convicção fará o cren- obtiveram o “batismo do Espírito
        te desejar mais intensamente o Santo”, ou que entraram na “vitó-
        livramento e agradecer a Deus com ria”. E, imaginando isso, pensam
        mais fervor pela promessa do livra- que sua necessidade foi satisfeita. E
        mento, na vinda de nosso Senhor, “o a prova disso é que eles vivem em
        qual transformará o nosso corpo de uma atmosfera de tal superioridade
        humilhação, para ser igual ao corpo espiritual, que nos dirão haverem saí-




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          do de Romanos 7 e entrado na expe-       da pintura — a luta espiritual do fi-
          riência de Romanos 8. Com des-           lho de Deus. Ele ilustrou, por re-
          prezível complacência, eles nos di-      ferir-se à sua própria experiência, o
          rão que Romanos 7 não descreve           conflito incessante que se realiza en-
          mais a experiência deles. Com pre-       tre duas naturezas antagonistas na-
          sunçosa satisfação, eles olharão com     quele que nasceu de novo.
          piedade para o crente que clama:              Que, em sua misericórdia, Deus
          “Desventurado homem que sou!” e          nos liberte do espírito de orgulho que
          como o fariseu, no templo, agrade-       agora corrompe o ambiente do
          cerão a Deus porque a situação deles     evangelicalismo moderno e nos con-
          é diferente. Pobres almas cegas! É       ceda um humilde ponto de vista a
          exatamente o que o Filho de Deus         respeito de nossa própria impureza;
          afirma nessa passagem de Apo-            fazendo-o de tal modo que nos una-
          calipse: “Nem sabes que tu és            mos ao apóstolo Paulo em clamar
          INFELIZ”. Nós dissemos: “Almas ce-       com um fervor cada vez mais pro-
          gas”, porque observamos que é para       fundo: “Desventurado homem que
          os crentes laodicenses que Jesus de-     sou!” Sim, que Deus outorgue tanto
          clara: “Aconselho-te que de mim          ao autor dessas linhas quanto ao seu
          compres... colírio para ungires os       leitor uma tão grande percepção de
          olhos, a fim de que vejas” (Ap 3.19).    sua própria depravação e indignida-
              Devemos observar que na segun-       de, que eles realmente se prostrem
          da parte de Romanos 7 o apóstolo         no pó, diante de Deus, e O adorem
          Paulo fala no singular. Isso é admi-     por sua maravilhosa graça para com
          rável e bastante abençoador. O           esses pecadores que merecem o in-
          Espírito Santo desejava transmitir-nos   ferno.
          a verdade de que mesmo as mais ele-
          vadas realizações na graça não           ______________
          isentam o crente da dolorosa experi-        1 A Vida de David Brainerd,
          ência ali descrita. Com o pincel de         Jonathan Edwards, Editora Fiel,
          um artista, o apóstolo retratou — uti-      1993, 240 págs.
          lizando a si mesmo como o objeto




                A mente   do homem é como um depósito de idolatria e
                superstição; de modo que, se o homem confiar em sua
                própria mente, é certo que ele abandonará a Deus e inven-
                tará um ídolo, segundo sua própria razão.
                                                                        João Calvino


                  Uma gota de graça vale mais do que um mar de dons.
                                                                    William Jenkyn




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Desaventurado Homem que sou

  • 1.
    "DESVENTURADO HOMEM QUESOU!" 21 "DESVENTURADO HOMEM QUE SOU!" A. W. Pink N o sétimo capítulo da carta aos Romanos 7.1-6, ele falou sobre a Romanos, o apóstolo Paulo se refe- identificação do crente com Cristo, riu a dois assuntos: primeiramente, apresentado-o como “morto para a ele mostrou qual é a relação do cren- lei” (vv. 4 a 6). Em seguida, do te para com a lei de Deus — judi- versículo 7 em diante, Paulo descre- cialmente, o crente está emancipado veu as experiências do crente. Assim, da maldição e da penalidade da lei nos capítulos 6 e 7 de Romanos, na (vv. 1-6); moralmente, o crente está primeira metade de ambos, Paulo sob laços de obediência à lei (vv. 22, aborda a posição do crente, enquan- 25). Em segundo, Paulo nos prote- to na segunda metade de ambos os geu da falsa inferência que poderia capítulos ele fala sobre o estado do ser deduzida daquilo que ele havia crente, mas com a seguinte diferen- ensinado no capítulo 6. ça: a segunda metade de Romanos 6 No capítulo 6, versículos 1 a 11, revela qual deve ser o nosso estado, Paulo havia apresentado a união do enquanto a segunda metade do capí- crente com Cristo, retratando o cren- tulo 7 (vv. 13-25) mostra qual é, na te como alguém “morto para o realidade, o nosso estado. pecado” (vv. 2, 7, etc.). Em segui- A presente controvérsia suscita- da, do versículo 11 em diante, ele da sobre Romanos 7 é amplamente mostrou o efeito que essa verdade um fruto do perfeccionismo de John deve ter sobre o viver do crente. No Wesley e seus seguidores. O fato de capítulo 7, o apóstolo Paulo seguiu que esses irmãos, dos quais temos a mesma ordem de pensamento. Em motivo para reverenciar, adotaram 5 - Fé13 - Desventurado.p65 21 5/6/02, 7:05 PM
  • 2.
    22 Fé para Hoje este erro de forma modificada ape- diários (Lc 11.4), pois “todos tro- nas nos mostra quão abrangente em peçamos em muitas coisas” (Tg 3.2). nossos dias é o espírito do laodi- Nos próximos parágrafos, conside- ceísmo. A segunda metade de Ro- raremos os dois últimos versículos de manos 7 descreve o conflito das duas Romanos 7, que dizem: “Desventu- naturezas que o crente possui; sim- rado homem que sou! Quem me li- plesmente apresenta em detalhes o vrará do corpo desta morte? Graças que está sumariado em Gálatas 5.17. a Deus por Jesus Cristo, nosso Se- As afirmações de Romanos 7. nhor. De maneira que eu, de mim 14,15,18,19 e 21 são verdadeiras a mesmo, com a mente, sou escravo respeito de todos da lei de Deus, os crentes que vi- mas, segundo a vem nesse mun- g carne, da lei do do. Todo crente Quanto mais o crente pecado” (vv. 24- fica aquém, mui- 25). to aquém do pa- se achega a Cristo, Essa é a lin- drão colocado di- tanto mais ele descobri- guagem de uma ante dele; estamos rá as corrupções de alma regenerada e nos referindo ao resume o conteú- padrão de Deus, e sua velha natureza, e do dos versículos não ao padrão dos tanto mais ardentemen- i m e d i a t a m e n t e ensinadores da te desejará ser liberto anteriores. O ho- suposta “vida vi- mem incrédulo é toriosa”. Se qual- de tal natureza. realmente des- quer leitor crente g venturado, mas disser que Roma- ele não conhece a nos 7 não descre- “desventurança” ve a sua vida, afirmamos com toda a que evoca a lamentação expressada bondade que ele se encontra terrivel- nessa passagem. Todo o contexto se mente enganado. Não estamos dedica a descrever o conflito entre dizendo que todo crente quebra a lei as duas naturezas do filho de Deus. dos homens ou que ele é um ousado “Porque, no tocante ao homem inte- transgressor da lei de Deus. Estamos rior, tenho prazer na lei de Deus” afirmando que a vida de todo crente (v. 22) — isso é verdade apenas so- está muito aquém do nível de vida bre a pessoa nascida de novo. que nosso Senhor vivenciou, quan- Todavia, aquele que tem prazer na do esteve neste mundo. Estamos lei de Deus encontra, em seus “mem- dizendo que muito da “carne” ainda bros, outra lei”. Isso não pode estar se evidencia em todo crente, inclusi- limitado aos membros do corpo físi- ve naqueles que se vangloriam, em co, mas tem de ser entendido como voz alta, de suas conquistas espiritu- algo que inclui todas as várias partes ais. Estamos dizendo que todo crente de sua personalidade carnal — a me- tem necessidade urgente de orar su- mória, a imaginação, a vontade, o plicando perdão por seus pecados coração, etc. 5 - Fé13 - Desventurado.p65 22 5/6/02, 7:05 PM
  • 3.
    "DESVENTURADO HOMEM QUESOU!" 23 Essa “outra lei”, disse o apósto- periência normal do crente; e qual- lo, guerreava contra a lei de sua mente quer crente que não geme dessa ma- (a nova natureza); e não somente neira está em um estado de anorma- isso, ela também o fazia “prisionei- lidade e falta de saúde espiritual. O ro da lei do pecado” (v. 23). Ele não homem que não profere diariamente definiu em que extensão se expres- esse clamor se encontra tão ausente sava essa servidão. Mas ele estava em da comunhão com Cristo, ou tão ig- servidão à lei do pecado, assim como norante dos ensinos das Escrituras, todo crente também o está. A va- ou tão enganado a respeito de sua gueação da mente, na hora de ler a condição atual, que não conhece as Palavra de Deus, os maus pensamen- corrupções de seu coração e a des- tos que brotam do coração (Mc prezível imperfeição de sua própria 7.21), quando estamos envolvidos na vida. oração, as más figuras que, às ve- Aquele que se curva diante do zes, aparecem quando estamos em solene e perscrutador ensino da Pa- estado de sonolência — citando ape- lavra de Deus, aquele que nela nas alguns — são exemplos de ha- aprende a terrível ruína que o peca- vermos sido feitos prisioneiros “da do tem realizado na constituição do lei do pecado”. “Se o princípio mau ser humano, aquele que percebe o de nossa natureza prevalece, a ponto padrão elevado que Deus nos tem de despertar em nós apenas um pen- proposto não falhará em descobrir samento mau, ele nos tomou como que é um ser maligno e vil. Se ele se cativos. Visto que ele nos conquis- esforça para perceber o quanto tem tou, estamos vencidos e feitos falhado em alcançar o padrão de prisioneiros” (Robert Haldane). Deus; se, na luz do santuário divi- O reconhecimento dessa guerra no, ele descobre quão pouco se em seu íntimo e o fato de que se tor- parece com o Cristo de Deus, então, nou cativo ao pecado levam o crente reconhecerá que essa linguagem de a exclamar: “Desventurado homem Romanos 7 é muito apropriada para que sou!” Esse é um clamor produ- descrever sua tristeza espiritual. Se zido por uma profunda compreensão Deus lhe revela a frieza de seu amor, da habitação do pecado. É a confis- o orgulho de seu coração, as va- são de alguém que reconhece não gueações de sua mente, o mal que haver bem algum em seu homem contamina suas atitudes piedosas, o natural. É o lamento melancólico de crente haverá de clamar: “Desven- alguém que descobriu algo a respei- turado homem que sou!” Se o crente to da horrível profundeza de ini- estiver consciente de sua ingratidão qüidade que existe em seu próprio e de quão pouco ele tem apreciado coração. É o gemido de uma pessoa as misericórdias diárias de Deus; se iluminada por Deus, uma pessoa que o crente percebe a ausência daquele odeia a si mesma — ou seja, o ho- fervor profundo e genuíno que tem mem natural — e anela por libertação. de caracterizar seus louvores e sua Esse gemido — “Desventurado adoração Àquele que é “glorificado homem que sou!” — expressa a ex- em santidade” (Êx 15.11); se o cren- 5 - Fé13 - Desventurado.p65 23 5/6/02, 7:05 PM
  • 4.
    24 Fé para Hoje te reconhece o espírito pecaminoso Cristo produz ambas as coisas. Isso de rebeldia que, com freqüência, o aconteceu com Paulo. Em Romanos faz murmurar ou irrita-o contra as 7.22, ele afirmou: “Tenho prazer na realizações dEle em sua vida cotidia- lei de Deus”. Logo em seguida, po- na; se o crente admite que está cien- rém, ele clamou: “Desventurado te não apenas de seus pecados de homem que sou!” Outras passagens comissão, mas também daqueles de também nos mostram isso. Em 2 omissão, dos quais ele é culpado to- Coríntios 6, Paulo disse: “Entriste- dos os dias, ele realmente clamará: cidos, mas sempre alegres” (v. 10) “Desventurado homem que sou!” — entristecido por causa de suas fa- Esse clamor não será proferido lhas, por causa de seus pecados apenas por aquele crente que se acha diários; alegre por causa da graça que afastado do Se- ainda perma- nhor. Aquele necia com ele e que está em co- g por causa da munhão ver- Onde não existe o clamor: bendita provi- dadeira com o são que Deus Senhor Jesus “Desventurado homem fizera até para também emiti- que sou!”, deve haver os pecados de rá esse gemi- um grande temor de que seus santos. do, todos os Também em dias e todas as ali não existe, de manei- Romanos 8, horas. Sim, ra alguma, comunhão depois de ha- quanto mais o com Cristo. ver declarado: crente se ache- g “Agora, pois, ga a Cristo, já nenhuma tanto mais ele condenação há descobrirá as corrupções de sua ve- para os que estão em Cristo Jesus” lha natureza, e tanto mais arden- (v. 1); “O próprio Espírito testifica temente desejará ser liberto de tal com o nosso espírito que somos fi- natureza. É somente quando a luz do lhos de Deus. Ora, se somos filhos, sol inunda um cômodo que a poeira somos também herdeiros, herdeiros e a sujeira são completamente reve- de Deus e co-herdeiros com Cristo; lados. Quando estamos realmente na se com ele sofremos, também com presença dAquele que é luz, ficamos ele seremos glorificados” (vv. 16- conscientes da impureza e impieda- 17), o apóstolo Paulo acrescentou: de que habita em nós e contamina “Também nós, que temos as primí- cada parte de nosso ser. E essa des- cias do Espírito, igualmente geme- coberta nos levará a clamar: “Des- mos em nosso íntimo, aguardando a venturado homem que sou!” adoção de filhos, a redenção do nos- “Mas”, talvez alguns perguntem, so corpo” (v. 23). O ensino do “a comunhão com Cristo não pro- apóstolo Pedro é semelhante ao de duz regozijo, ao invés de gemidos?” Paulo — “Nisso exultais, embora, no Respondemos que a comunhão com presente, por breve tempo, se neces- 5 - Fé13 - Desventurado.p65 24 5/6/02, 7:05 PM
  • 5.
    "DESVENTURADO HOMEM QUESOU!" 25 sário, sejais contristados por várias principal” (1 Tm 1.15). Essas de- provações” (1 Pe 1.6). Tristeza e ge- clarações não procederam de pessoas mido não se encontram ausentes no não-regeneradas, e sim dos lábios de mais elevado nível de espiritualidade. santos de Deus. Elas não foram con- Nestes dias de complacência e fissões de crentes relaxados; pelo orgulho laodicense, existe conside- contrário, elas foram proferidas pe- rável parola e muita exaltação a res- los mais eminentes membros do povo peito da comunhão com Cristo; po- de Deus. Em nossos dias, onde en- rém, quão pouca manifestação dessa contramos crentes que podem ser comunhão nós contemplamos! Onde colocados lado a lado com Abraão, não existe qualquer senso de com- Jó, Isaías, Daniel e Paulo? Onde, pleta indignidade; onde não existe realmente?! Mas eles foram homens qualquer lamentação pela depravação que estavam conscientes de sua vile- total de nossa natureza; onde não za e indignidade! existe qualquer entristecimento por “Desventurado homem que sou!” nossa falta de conformidade com Essa é a linguagem de uma alma nas- Cristo; onde não existe qualquer ge- cida de novo; é a confissão de um mido por havermos sido feitos “pri- crente normal (não-iludido, não-en- sioneiros” do pecado; em resumo, ganado). A essência dessa afirmativa onde não existe o clamor: “Desven- pode ser encontrada não somente nas turado homem que sou!”, deve haver declarações dos santos do Antigo e um grande temor de que ali não exis- do Novo Testamento, mas também te, de maneira alguma, comunhão nos escritos de muitos dos eminentes com Cristo. servos de Cristo que viveram nos Quando estava andando com o últimos séculos. As afirmações e o Senhor, Abraão exclamou: “Eis que testemunho pronunciado pelos emi- me atrevo a falar ao Senhor, eu que nentes santos do passado eram muito sou pó e cinza” (Gn 18.27). Estan- diferentes da ignorância e da arro- do face a face com Deus, Jó de- gante jactância dos laodicences clarou: “Por isso, me abomino” (Jó modernos! É um refrigério volver- 42.6). Ao entrar na presença de nos das biografias de nossos dias Deus, Isaías clamou: “Ai de mim! para aquelas biografias escritas há Estou perdido! Porque sou homem muito tempo. Medite nos trechos de de lábios impuros” (Is 6.5). Quando biografias que apresentamos em se- teve aquela maravilhosa visão de guida. Cristo, Daniel confessou: “Não res- Bradford, que foi martirizado no tou força em mim; o meu rosto reinado de Maria, a sanguinária, em mudou de cor e se desfigurou, e não uma carta dirigida a um amigo que retive força alguma” (Dn 10.8). Em estava em outra prisão, subscreveu- uma das últimas epístolas do apósto- se com as seguintes palavras: “O lo dos gentios, lemos: “Fiel é a pecaminoso John Bradford, um hi- palavra e digna de toda aceitação: pócrita notável, o pecador mais Cristo Jesus veio ao mundo para sal- miserável, de coração endurecido e var os pecadores, dos quais eu sou o ingrato — John Bradford” (1555). 5 - Fé13 - Desventurado.p65 25 5/6/02, 7:05 PM
  • 6.
    26 Fé para Hoje O piedoso Samuel Rutherford posto a considerar os outros crentes escreveu: “Este corpo de pecado e melhores do que ele mesmo e a olhar de corrupção torna amargo e enve- para si mesmo como o pior e o me- nena nosso regozijo. Oh! Se eu es- nor de todos os crentes, mas também, tivesse onde nunca mais pecarei!” com muita freqüência, a ver a si mes- (1650). mo como o mais vil e o pior de todos O bispo Berkeley disse: “Não os homens”. posso orar, mas cometo pecados. O próprio Jonathan Edwards, que Não posso pregar, mas cometo pe- entre muitos foi mais honrado por cados. Não posso ministrar, nem Deus (quer em suas realizações espi- receber a Ceia do Senhor, mas co- rituais, quer na extensão em que Deus meto pecados. Preciso arrepen- o usou para abençoar outros), escre- der-me de meu próprio arrependi- veu nos últimos dias de sua vida: mento; e as lágrimas que derramei “Quando olho para meu coração e necessitam da lavagem do sangue de vejo a sua impiedade, ele parece um Cristo” (1670). abismo infinitamente mais profundo Jonathan Edwards, em sua obra do que o inferno. E parece-me que, A Vida de David Brainerd1 (o pri- se não fosse a graça de Deus, exalta- meiro missionário entre os índios, da e elevada à infinita sublimidade cuja devoção a Cristo foi testemu- de toda a plenitude e glória do gran- nhada por todos os que o conhe- de Jeová, eu deveria comparecer, ciam), afirmou a respeito de Brai- mergulhado em meus pecados, nas nerd: “Sua iluminação, suas afeições profundezas do próprio inferno, mui- e seu conforto espiritual parecem ter to distante da contemplação de todas sido, em grande medida, acompa- as coisas, exceto do olhar da graça nhadas por humildade evangélica; soberana, que pode destruir tal consistiam em um senso de sua com- profundeza. É comovente pensar o pleta insuficiência, de sua vileza e quanto eu ignorava, quando era um de sua própria abominação; com crente novo (infelizmente, muitos uma disposição correspondente e crentes velhos ainda o ignoram — A. uma propensão do coração. Quão W. Pink), a profunda impiedade, profundamente Brainerd foi afetado orgulho, hipocrisia e engano deixa- quase continuamente por seus gran- dos em meu coração” (1743). des defeitos na vida cristã; por sua Augustus Toplady, autor do hino ampla distância daquela espiri- “Rocha Eterna”, escreveu as seguin- tualidade e daquela disposição men- tes palavras em seu diário no dia 31 tal que convém a um filho de Deus; de dezembro de 1767: “Ao fazer uma por sua ignorância, seu orgulho, sua retrospectiva deste ano, desejo con- apatia e sua esterilidade! Ele não foi fessar que minha infidelidade tem sido somente afetado pela recordação dos excessivamente grande, e meus pe- pecados cometidos antes de sua con- cados, ainda maiores. Todavia, as versão, mas também pelo sentimento misericórdias de Deus têm sido maio- de sua presente vileza e corrupção. res do que ambos”. E mais: “Minhas Brainerd não se mostrava apenas dis- falhas, meus pecados, minha incre- 5 - Fé13 - Desventurado.p65 26 5/6/02, 7:05 PM
  • 7.
    "DESVENTURADO HOMEM QUESOU!" 27 dulidade e minha falta de amor me ra, eu me envergonho mais ainda”. afundariam no mais profundo do in- James Ingliss (editor de “Mar- ferno, se Jesus não fosse minha jus- cos no Deserto”), no final de sua tiça e meu Redentor”. vida, escreveu: “Visto que fui trazi- Observem estas palavras de uma do a uma nova opinião sobre o fim, piedosa mulher, a esposa do eminen- a minha vida parece ser constituída te missionário Adoniran Judson: de tantas oportunidades desperdi- “Oh! Como eu me regozijo porque çadas e de tanta escassez de resul- estou fora do redemoinho! Sou gaia- tados, que às vezes isso é muito do- ta e fútil demais, para ser a esposa loroso. A graça, porém, se apresenta de um missionário! Talvez a gaiati- para satisfazer todas essas deficiên- ce seja o meu mais leve pecado. Não cias; e o Senhor Jesus também será são os atrativos do mundo que me glorificado em minha humilhação” tornam um simples bebê na causa de (1872). J. H. Brookers, o biógrafo Cristo; pelo contrário, é a minha frie- de James Ingliss, observou sobre es- za de coração, a minha insignificân- sas palavras: “Quão semelhante a cia, a minha falta de fé, a minha Cristo e quão diferente daqueles que ineficiência e inércia espiritual, por estão se gloriando em suas supostas amor do meu próprio ‘eu’, e a mi- realizações!” nha pecaminosidade abundante e Apresentamos mais uma cita- inerente de minha natureza”. ção, proveniente de um sermão de John Newton, o escritor do ben- Charles H. Spurgeon. O Príncipe dito hino “Graça Admirável” (que dos Pregadores disse: “Existem al- afirma: “Graça admirável, quão doce guns crentes professos que falam é o som que salvou um ímpio como sobre si mesmos em termos de ad- eu; estava perdido, mas fui achado; miração. Todavia, em meu íntimo, era cego, agora vejo”), quando se detesto mais e mais esses discursos, referia às expectativas que ele nutria a cada dia que eu vivo. Aqueles que no final de sua vida cristã, escreveu falam dessa maneira arrogante devem o seguinte: “Infelizmente, essas mi- possuir uma natureza muito diferen- nhas preciosas expectativas se te da minha. Enquanto eles estão tornaram como sonhos dos mares do congratulando a si mesmos, tenho de Sul. Vivi neste mundo como um pe- me prostrar aos pés da cruz de Cris- cador e creio que assim morrerei. Eu to e admirar-me de que estou salvo, ganhei alguma coisa? Sim, ganhei pois sei que fui salvo. Tenho de ad- aquilo com o que antes eu preferia mirar-me de não crer mais pro- não viver! Essas provas acumuladas fundamente em Cristo e de que sou do engano e da terrível impiedade do privilegiado por crer nEle. Tenho de meu coração me ensinaram, pela bên- admirar-me de não amá-Lo mais pro- ção do Senhor, a compreender o que fundamente, mas igualmente devo significa dizer: vejam, eu sou um admirar-me até de que O amo de al- homem vil… Eu me envergonhava guma maneira. Devo admirar-me de de mim mesmo, quando comecei a não possuir mais santidade e admi- procurar a bênção do Senhor; ago- rar-me, igualmente, de que eu tenho 5 - Fé13 - Desventurado.p65 27 5/6/02, 7:05 PM
  • 8.
    28 Fé para Hoje algum desejo de ser santo, levando e sim de um desejo ardente de ajuda em conta quão corrompida, degene- de fora e do alto. Aquilo do que o rada e depravada natureza eu ainda apóstolo desejava ser livre é chama- encontro em minha alma, apesar de do de “o corpo desta morte”. Esta é tudo o que a graça de Deus tem feito uma expressão figurada, pois a na- em mim. Se Deus permitisse que as tureza carnal é chamada de “o corpo fontes do grande abismo da depra- do pecado” e vista como algo que vação se rompessem nos melhores tem “membros” (Rm 7.23). Portan- homens que vivem neste mundo, eles to, entendemos que as palavras do se tornariam demônios tão maus apóstolo significam: “Quem me li- como o próprio diabo. Não me im- vrará desse fardo mortal e pernicioso porto com o que dizem esses van- — meu eu pecaminoso?!” gloriosos a respeito de suas próprias No versículo seguinte, o apósto- perfeições. Estou certo de que eles lo responde essa pergunta: “Graças não conhecem a si mesmos; se co- a Deus por Jesus Cristo, nosso Se- nhecessem, não falariam como nhor” (Rm 7.25). Deve ser óbvio freqüentemente o fazem. Mesmo no para qualquer mente imparcial que crente que está mais próximo do céu isso aponta para o futuro. Paulo ha- existe combustível suficiente para via perguntado: “Quem me livrará?” acender outro inferno, se Deus tão- A sua resposta foi: Jesus Cristo me somente permitisse que uma chama livrará. Isso expõe o erro daqueles caísse sobre ele. Alguns crentes pa- que ensinam uma libertação presen- recem que nunca descobrem isto. Eu te da natureza carnal, por intermédio quase desejo que eles nunca o descu- do poder do Espírito Santo. Em sua bram, pois esta é uma descoberta resposta, o apóstolo não falou nada dolorosa para qualquer um fazer; mas sobre o Espírito Santo; ao invés dis- ela tem o efeito benéfico de fazer que so, ele mencionou apenas “Jesus paremos de confiar em nós mesmos Cristo, nosso Senhor”. Não é por e de nos levar a nos gloriarmos so- meio da obra presente do Espírito mente no Senhor”. Santo em nós que os crentes serão Poderíamos apresentar outros libertados “do corpo desta morte”, e testemunhos dos lábios e dos escri- sim por meio da vinda futura do Se- tos de homens igualmente piedosos nhor Jesus Cristo para nós. Naquele e eminentes, porém citamos o sufi- tempo, esse corpo mortal será reves- ciente para mostrar que os santos de tido de imortalidade, e a nossa todas as épocas tinham motivo para corrupção, de incorrupção. fazerem suas essas palavras do após- Como se estivesse pensando em tolo Paulo: “Desventurado homem remover toda dúvida a respeito de que sou!” Faremos mais algumas que essa libertação ocorrerá no futu- poucas observações sobre essas pala- ro, o apóstolo concluiu dizendo: “De vras finais de Romanos 7. maneira que eu, de mim mesmo, “Quem me livrará do corpo des- com a mente, sou escravo da lei de ta morte?” “Quem me livrará?” Esta Deus, mas, segundo a carne, da lei não é uma linguagem de desespero, do pecado”. O leitor deve observar 5 - Fé13 - Desventurado.p65 28 5/6/02, 7:05 PM
  • 9.
    "DESVENTURADO HOMEM QUESOU!" 29 cuidadosamente que Paulo havia da sua glória, segundo a eficácia do agradecido a Deus pelo fato de que poder que ele tem de até subordinar ele seria libertado. A última parte do a si todas as coisas” (Fp 3.20). E, versículo 25 resume o que ele havia havendo feito isso, o Senhor Jesus dito na segunda parte de Romanos nos apresentará, “com exultação, 7; descreve a vida dupla do crente. imaculados diante da sua glória” (Jd A nova natureza serve a lei de Deus; 24). Aleluia! Que grande Salvador! a velha natureza, até ao final da His- É admirável que somente mais tória, servirá à “lei do pecado”. Que uma vez a palavra “desventurado” é isso aconteceu com o apóstolo Paulo utilizada no Novo Testamento (no é evidente das palavras que ele es- texto grego). Essa outra ocorrência creveu no final de sua vida, quando está em Apocalipse 3.17, onde Cris- chamou a si mesmo de “o principal” to disse à igreja de Laodicéia: “Nem dos pecadores (1 Tm 1.15). Essa afir- sabes que tu és INFELIZ”. A arrogân- mativa não era um exagero de fervor cia dos membros dessa igreja era que evangelístico, nem mesmo um mo- eles não precisavam “de coisa algu- tejo de modesta hipocrisia. Era uma ma”. Eles estavam tão inchados com convicção segura, uma experiência a soberba, tão satisfeitos com o que vivenciada, uma conscientização fir- haviam atingido, que não tinham me de alguém que viu com amplitude consciência de sua própria miséria. as profundezas da corrupção que ha- E não é isso mesmo que testemunha- via em seu próprio íntimo e que sabia mos em nossos dias? Não é evidente o quanto fica- que estamos va aquém de vivendo no atingir o pa- g período lao- drão de santi- Mesmo no crente que está diceiano da dade que Deus mais próximo do céu existe história da havia coloca- Igreja? Mui- do diante de- combustível suficiente para tos estavam le. Essa tam- acender outro inferno, se cônscios da bém é a con- Deus tão-somente permitis- “necessida- vicção e a con- de”, mas a- fissão de todo se que uma chama caísse gora imagi- crente que não sobre ele. nam que re- se encontra ceberam a cativo ao pre- g “segunda bên- conceito. E o ção”, ou que resultado dessa convicção fará o cren- obtiveram o “batismo do Espírito te desejar mais intensamente o Santo”, ou que entraram na “vitó- livramento e agradecer a Deus com ria”. E, imaginando isso, pensam mais fervor pela promessa do livra- que sua necessidade foi satisfeita. E mento, na vinda de nosso Senhor, “o a prova disso é que eles vivem em qual transformará o nosso corpo de uma atmosfera de tal superioridade humilhação, para ser igual ao corpo espiritual, que nos dirão haverem saí- 5 - Fé13 - Desventurado.p65 29 5/6/02, 7:05 PM
  • 10.
    30 Fé para Hoje do de Romanos 7 e entrado na expe- da pintura — a luta espiritual do fi- riência de Romanos 8. Com des- lho de Deus. Ele ilustrou, por re- prezível complacência, eles nos di- ferir-se à sua própria experiência, o rão que Romanos 7 não descreve conflito incessante que se realiza en- mais a experiência deles. Com pre- tre duas naturezas antagonistas na- sunçosa satisfação, eles olharão com quele que nasceu de novo. piedade para o crente que clama: Que, em sua misericórdia, Deus “Desventurado homem que sou!” e nos liberte do espírito de orgulho que como o fariseu, no templo, agrade- agora corrompe o ambiente do cerão a Deus porque a situação deles evangelicalismo moderno e nos con- é diferente. Pobres almas cegas! É ceda um humilde ponto de vista a exatamente o que o Filho de Deus respeito de nossa própria impureza; afirma nessa passagem de Apo- fazendo-o de tal modo que nos una- calipse: “Nem sabes que tu és mos ao apóstolo Paulo em clamar INFELIZ”. Nós dissemos: “Almas ce- com um fervor cada vez mais pro- gas”, porque observamos que é para fundo: “Desventurado homem que os crentes laodicenses que Jesus de- sou!” Sim, que Deus outorgue tanto clara: “Aconselho-te que de mim ao autor dessas linhas quanto ao seu compres... colírio para ungires os leitor uma tão grande percepção de olhos, a fim de que vejas” (Ap 3.19). sua própria depravação e indignida- Devemos observar que na segun- de, que eles realmente se prostrem da parte de Romanos 7 o apóstolo no pó, diante de Deus, e O adorem Paulo fala no singular. Isso é admi- por sua maravilhosa graça para com rável e bastante abençoador. O esses pecadores que merecem o in- Espírito Santo desejava transmitir-nos ferno. a verdade de que mesmo as mais ele- vadas realizações na graça não ______________ isentam o crente da dolorosa experi- 1 A Vida de David Brainerd, ência ali descrita. Com o pincel de Jonathan Edwards, Editora Fiel, um artista, o apóstolo retratou — uti- 1993, 240 págs. lizando a si mesmo como o objeto A mente do homem é como um depósito de idolatria e superstição; de modo que, se o homem confiar em sua própria mente, é certo que ele abandonará a Deus e inven- tará um ídolo, segundo sua própria razão. João Calvino Uma gota de graça vale mais do que um mar de dons. William Jenkyn 5 - Fé13 - Desventurado.p65 30 5/6/02, 7:05 PM