Cultura QUARTA-FEIRA • 22 DE MAIO DE 2013
Diário do Minho
Este suplemento faz parte da edição n.º 29951
de 22 de maio de 2013, do jornal Diário do Minho,
não podendo ser vendido separadamente
> “Em legítima defesa...”
– Galiza, Espanha - Agosto de 2012
[Foto de V. B. Vasconcellos]
II Diário do MinhoQUARTA-FEIRA, 22 de maio de 2013CulturaCultura
Aquele André Brun dá-me cabo do juízo!Aquele André Brun dá-me cabo do juízo!
A soma
dos nadas
O ontem do nada
é o nada de amanhã,
quem partiu não ‘stá cá,
quem foi já não o é,
é sombra deitada
que vagueou de pé,
no cacifo adormeceu,
no silêncio se perdeu,
sua voz sucumbiu
eco que jamais se ouviu
na longínqua morada.
Estrela que se apagou
no mundo de corre e corre,
onde todo ser vivo morre,
não há fortes sem ais
nem fracos protegidos
nem criminosos escondidos
em escuros labirintos,
são ignorados famintos
títulos e coroas riais.
Reina aqui a paz eterna,
neste sagrado museu,
onde se guarda
o valor da cada troféu,
de feitos e de glórias,
ligados às memórias
desta comunidade fraterna!
M. R. Silva
(Inédito. Trofa, 9-12-11)
Palco da Poesia
Poema cor de luto
Vou escrever um poema cor de luto
Para um testamento de amor;
E se em vida comi o fruto.
Posse do alheio que o deixou morrer,
De gaivotas farei um andor
Para passear sobre as ondas:
A musa que fiz reviver
E será minha e do infinito...
Virão os anjos em jeito de rondas
Cantar para nós os seus hinos.
Tocarão os sinos,
Crescerão abetos no Natal.
E então um poema será dito
Com voz de papoila-mulher, papoila-flor.
E será um poema cor de cal
Para uma promessa de amor.
Américo Brito
(Inédito. Abril de 2013)
1
Ferme du bois 2
, 16 de Junho de 1917
A aurora abria-se e a claridade dos very-
-ligthsvaisendosubstituídapelosolainda
pálido do início do estio. Como toupei-
ras negras vamos emergindo do nosso
buraco para o triste inferno a que fomos
votados pelo governo republicano.
– Pedro de Freitas 3
, ainda sobrou rum?
– O lazarento cospe terra e acena-me
afirmativamente.Adoramosasmanhãs,
são tranquilas como a morte e isso é
uma bênção caída do céu.
Aventuro-me a pôr a cabeça acima da
trincheira perscrutando o horizonte e
a linha de arame farpado. Lembro-me
subitamente das irmãs Ajus e Joé 4
e
do seu famoso opiário por detrás do
coliseu. A noite é terrível, em Lisboa
a noite era a dança e o frenesim dos
botequins, aqui é o triste inferno vivido
na carne, e agradecemos ao governo
republicano por tal dádiva.
Uma hora antes do cair da noite aper-
ta-se-nos o estômago, as sombras
envolvem-nos e todos nos interroga-
mos: O von da costa virá? A baioneta
do boche irá tentar espetar-se-nos no
bulho, deixando as nossas tripas pela
lama? Os oficiais da retaguarda não
sabem disso, atulhados na burocracia
dosegurobunker.Malditos!comoeuos
detesto!, não sabem que de noite todos
os medos estão à flor da pele. Não sa-
bem que ou vamos de patrulha com o
alicatetentandofuraroaramefarpadoe
tomar uma trincheira ou então ficamos
à espera que eles caiam em cima de
nós com aqueles elmos pontiagudos a
gritarem pelo imperador...
Malditos oficiais de retaguarda! E quan-
do não é isso, é o maldito gás debaixo
da trabuzanada das metralhadoras.
Escutamos os ecos da guerra em plena
escuridão e nossos corações são como
asnossasolheiras,fundasenegras,sem
esperança nem remissão. Lá estão eles,
os malditos, a inspeccionar-nos:
– Hora das visitas, meu alferes. – Cen-
suraPedro.Àfrentedelesumoficialque
tirou o curso comigo, André Brun de
sua graça, parecia bem disposto depois
de ter tido uma noite confortável com
uma cama fofa de palha. Fuma uma
cigarrilha e admoesta-me:
– Alferes Malheiro!, existem homens
que já estão a dormir vestidos encosta-
dos aos sacos, é uma falta de aprumo!
E está tudo cheio de cartuchos vazios
no chão, é um desmazelo!
–AndréBrun,vocêsóservemesmopara
escrever comédias, não é verdade?
– Como?
– Nada. – Brun vê um livro de couro
caído, apanha-o e abre-o. Olha para
mim e comenta:
– Então… se em vez de escrever você
tratasse do aprumo das trincheiras es-
távamos bem melhor. – Riem-se todos.
Passa-me o meu diário.
Raios!,quandoéqueeuescreviisto?Foi
ontemdecerto.Andomesmorepetitivo,
pudera!, todos os dias a viver o mesmo
inferno. Releio as primeiras linhas:
“A aurora abria-se e a claridade dos
very-ligths vai sendo substituída pelo
sol ainda pálido do início do estio…” ◗
1
Escritor, jornalista e dramaturgo.
2
Frente da primeira Grande Guerra no
norte de França.
3
Soldado que participou na Grande
Guerra e que deixou um diário escrito.
4
Curandeiras vindas de Xangai, estabe-
lecidas em Lisboa.
Mário Escoto
Envio de trabalhos para publicação neste suplementoDiário do Minho
CulturaCultura Diário do Minho / Secção Cultural
Rua de S.ta
Margarida, 4 - 4710-306 Braga; Fax: 253609469. E-mail: cultura@diariodominho.pt
22.Maio.
2013
N.º 699
Aristides de Sousa Mendes do
Amaral e Abranches nasceu em
Cabanas de Viriato – Canas de
Senhorim, a 19 de Junho de 1815,
e faleceu a 3 de Abril de 1954
com 68 anos, em Lisboa.
Vivendo em ambiente familiar
católico, conservador e monár-
quico, licenciou-se em Direito
pela Universidade de Coimbra,
seguindo a carreira diplomática
e exercendo funções em inúme-
ras delegações portuguesas por
todo mundo, com desempenho
notável, o que lhe granjeou re-
putação e prestígio, recebendo
condecorações e louvores.
De eventual ascendência judaica
muito remota e estando refe-
renciado pertencer à linha des-
cendente do Rei David, casado e
com 14 filhos, protagonizou um
desempenho de grande dimen-
são humana e marco histórico,
na salvação de mais de 30.000
refugiados, nomeadamente ju-
deus,aquandodaSegundaGuerra
Mundial, altura em que sendo
Cônsul em Bordéus, facultou
vistos de entrada para Portugal,
contra as determinações do Go-
verno Português, heroicidade já
traduzida em filme e em livros.
Esta atitude de não obediência,
desencadeou procedimentos pu-
nitivos, provocando o seu afasta-
mento da carreira diplomática e
proibindo-o de exercer advoca-
cia, o que com o falecimento de
sua esposa e vicissitudes infelizes
da sua vida pessoal, contribuíram
para que morresse na miséria,
abandonado.
O reconhecimento público e
político, só ocorreu, inicialmente
em Israel em 1960, com diversas
manifestações promovidas por
organizações ligadas à memória
do Holocausto e posteriormente
em Portugal após 1986, com a
atribuição de inúmeras conde-
corações a título póstumo e a
reabilitação da sua memória, em
diversos actos, programas e ini-
ciativas de cariz político e cultural,
sendo de grande valor simbólico,
a iniciativa promovida para a re-
construção da sua casa em Caba-
nasdeViriato,queseencontraem
ruínas e está classificada como
Monumento Nacional.
A comemoração do dia da morte
de Aristides Sousa Mendes, a
3/4/1954, neste período Pascal,
faz-nos recordar outro descen-
dente da linha de David, que tão
revolucionáriofoinosensinamen-
tos que propagou e na vivência
que protagonizou, entregando-se
na ajuda a todos e para todos,
acabandoabandonadoàinjustiça
dos homens, mas reabilitado pela
justiça divina.
Que natureza é a nossa em que
sendo protagonistas da maior
heroicidade, somos capazes
das maiores atrocidades, numa
variabilidade imprevisível e irra-
cional, para nós e para os outros,
perdendo toda a dignidade que
impregna o ser humano?
O individualismo e o colectivis-
mo fundem-se numa amálgama
explosiva e clivante, provocando
grandes rupturas individuais
e sociais, impulsionando um
percurso de vivência com falsas
ideias e falseada felicidade, de
final auto destrutivo.
Reflectir com humildade, com a
força dos valores morais e com
o procedimento ético que deve
nortear a nossa existência, será
uma atitude corajosa a incutir na
vida de cada um, nestes tempos
também conturbados e confu-
sos, e que Aristides Sousa Men-
des traduziu na frase: “Se há que
desobedecer, que seja a uma
ordem dos homens e nunca a
uma ordem de Deus”. ◗
A natureza humanaA natureza humana
POR
A. MANUEL DOS SANTOS
MÉDICO PSIQUIATRA
CulturaCultura IIIDiário do Minho QUARTA-FEIRA, 22 de maio de 2013
José Fernandes da Silva, poeta e
músico natural de Braga e residen-
te em Vila Verde, acaba de perfazer
vinte anos de intensa criação artís-
tica, tendo dado à estampa neste
período mais de duas dezenas de
obras do foro musical e poético.
No ano de 1992, este profícuo e
versátil autor iniciou-se nos dois
géneros artísticos, ao publicar
Cofre de Ternuras e Canções da
Minha Escola. Nascido em 1948 na
Lageosa, Sobreposta, José Fernan-
des da Silva, em plena infância,
ficou privado da visão num infeliz
acidente, tragédia que não o im-
pediu de prosseguir estudos e de
se tornar telefonista-recepcionista.
O seu gosto artístico levou-o
porém a obter o Bacharelato em
Composição, pelo Conservatório
de Música Calouste Gulbenkian,
título académico que lhe valeu a
entrada no ensino oficial, sendo
actualmente professor do quadro
de Educação Musical na EB 2,3 de
Moure, Vila Verde.
Quando publicou Relicário (1993),
José Manuel Mendes, numa das
badanas da capa, diria que “a
poesia de José da Silva Fernandes
procura sempre o registo das vi-
vências e das sensações pessoais.”
E ao comentar o título seguinte
(Celeiro de Retalhos, 1994), o
mesmo escritor, aliás amigo de
infância do autor, nota que “numa
linguagem que muito deve aos
ritmos populares e musicais das
construções clássicas, a sua pala-
vra fala das relações com a natu-
reza e os seres, da vibração íntima
e dos sentimentos, sem demitir o
sobressalto metafísico, os registos
solidários, a deceptividade ante o
desconcerto do mundo”. A título
de exemplo deste pensamento,
citemos apenas a primeira quadra
do poema Presto: “Queria ter um
cavalo / mas um cavalo de vento
/ que a qualquer hora, num halo /
me levasse o pensamento...”
Paralelamente à publicação de
poesia, José Fernandes da Silva foi
dando à estampa também obras
musicais, do foro lúdico, didáctico,
religioso e tradicional (cantares
de Natal, Reis e Janeiras). Quando
vieram a lume as Aclamações ao
Evangelho, já em 2009, o Padre
António Rodrigues, fraterno com-
panheiro do autor, abre o prefácio
da obra com estas justas e ilumi-
nantes palavras: “Não há ninguém
que, tendo perseguido durante
muitos anos, com toda a sua
determinação e sem desânimos,
um determinado objectivo, dele se
possa dizer que se não apaixonou.
E quem fez da escrita, música,
poesia ou romance, o sonho dos
seus dias e vai semeando como
quem reparte pedaços da sua
alma, esse já se tornou para todos
mais que um luminar, um guia ou
um exemplo; ele é um pedaço de
todos nós, entra na nossa alma
e fica cantando aí a sua música
e dizendo aí as suas composições.”
Palavras igualmente abonatórias,
mas merecidas, recebeu-as o au-
tor do escritor João Lobo, o qual,
no prefácio de Barca de Esperan-
ça (2000), assevera que
“... dar à estampa um livro ilu-
minado pela singeleza das coisas
simples, por entre esta áspera
fuzilaria a que chamamos civili-
zação, é um momento grave de
combate.” E mais à frente, o mes-
mo escritor, sublinha que “... na sua
simplicidade infinitamente como-
vente (o poeta) soube deixar-nos
ao lume da consciência um livro
que arrancando do lirismo telúrico
regional é sugestivamente rico em
sensações visuais, fundamente
catártico no seu pode emotivo,
sincero nos temas que trata...”.
Vejamos, como pequena ilustra-
ção destas ideias, estes quatro
decassílabos: “Com ternura recor-
do aquele dia, / em que p’la vez
primeira te encontrei; / o vendaval
de frases, de alegria; / o prolonga-
do abraço que te dei!”
Já em 1997, Maria Teresa Lobato,
a propósito de Alfobre de Amores,
um título de poesia infanto-juvenil,
dado à estampa três anos depois,
dizia que “José Fernandes da Silva
alude a sensações pessoais e a
situações onde o sentir e a mu-
sicalidade que lhe é inerente se
revelam, onde a generosidade das
dádivas simples mas significativas
da vida se sobrepõe ao vazio das
incongruências de certo mundo
moderno e metropolitano.” A
propósito do mesmo livro, Alfredo
Pedrosa, ao escrever uma recen-
são crítica no jornal da EB 2,3 de
Vila Verde, adianta que (o poeta)
surge-nos “como um homem que
joga com as sílabas e as palavras
de uma forma invulgarmente au-
têntica, até instintiva, gostosamen-
te entregue a um infinito espectá-
culo de sensações, transpirando o
ambiente bucólico em que temos
a felicidade de estar inseridos de
uma forma intensa e objectiva.”
Também a escritora Maria do Céu
Nogueira se associa a este laudé-
mio generalizado, pois, segundo
ela, “ler Alfobre de Amores foi pe-
netrar no mundo maravilhoso da
infância.” E prossegue: “Pela mão
do seu autor, José Fernandes da
Silva, apequenei-me e revivi, en-
cantada, os meus tempos de me-
nina. Cantei e dancei, fiz diabruras
inocentes sob o olhar atento dos
meus pais, trepei às árvores e aos
muros da quinta onde nasci, provei
todos os sabores dos frutos madu-
ros, bebi, insaciável, a água pura e
cristalina das fontes, nadei no Neiva,
o rio das belas trutas, e corri, louca,
pelos caminhos de erva fresca que
calcava de pés descalços.”
Quando o José Fernandes da Silva
me convidou para prefaciar o seu
mais recente título poético, Rama-
lhete de Safiras (2012), reparei que
a obra estava mergulhada num
denso halo de misantropia, e que
o seu costumado confessionalis-
mo redentor e auto-compadecido
declinava já para um tom elegíaco
e passadista, e para a assumpção
de um indisfarçável desencanto
existencial. Deste modo, Rama-
lhete de Safiras marca de forma
iniludível a entrada de José Fer-
nandes da Silva na senectude da
vida, tanto mais que na sua in-
trospecção contrita admite: “...aos
poucos, começo a ver desfeito / o
meu sonho de vida...”. Esta toada
disfórica e lamentosa pode ver-
-se em sonetos como o Cântico
Final, onde o poeta confidencia:
“Imensas vezes, Mãe, nas horas de
amargura, / ugio nos teus dotes de
ternura...” Em contraponto a esta
derrota anímica, José Fernandes
da Silva deita mão das sempre
encantatórias redondilhas para
abordar matéria mais comezinha
e grácil, e para fugir talvez ao
tormentório da existência: “A Lua
infinita / é hóstia bendita /feita de
luar: / formoso luzeiro, / que não
tem parceiro / para o imitar!”
Em Ramalhete de Safiras o leitor
mergulha no perturbador lirismo
de um poeta que persiste estoica-
mente em renunciar aos sedutores
cantos de sereia da sociedade
contemporânea e se aferra aos va-
lores perenes e inamovíveis do seu
afectuoso ideário. Neste universo
de grande coerência e solidez
moral abundam não só poemas
saídos do peito de um Eu lírico,
de que cito, a título de exemplo,
o primeiro dístico de Escravidão:
“Era bem tempo de apagar o círio,
/ que alumia há anos o martírio...”;
mas também poemas saídos de
um Eu social, como se verifica em
Outros Tempos: “Já não se reza o
terço, como outrora, / nos pacífi-
cos lares das aldeias...” A expressão
de uma emoção redentora a um
tempo e solidária a outro, leva o
poeta a alimentar o gosto pelo
bucólico: “Lua pura, véu da noite /
derrama bento luar...”; pelo nostál-
gico: “Já gozei dias felizes...”, pela
contemplação: “Infindáveis tapetes
de verdura...”, pela identificação
com a dor alheia: “Jamais com-
preendi qual a razão / dele tomar
aquela decisão (...) atendendo a
que foi arrebatado / por um golpe
brutal da fera Sorte...”, e por todo
um tipo de proposições que vão
desde a confissão de desgostos
pessoais até ao desagravo cris-
tológico, passando por hinos ao
amor conjugal, ao culto mariano e
à saudade, esta bem expressa em
elegias e epitáfios.
Ramalhete de Safiras também é
relicário de saudade e de luz sim-
bólica de tudo o que é grandiosa-
mente belo, como a misteriosa luz
que nimba a noite e o dia, e que
José Fernandes da Silva perdeu
acidentalmente na sua infância. ◗
DoDo “Cofre de Ternuras” (1992)“Cofre de Ternuras” (1992)
aoao “Ramalhete de Safiras” (2012)“Ramalhete de Safiras” (2012)
No 20.º aniversário da vida literária de José Fernandes da SilvaNo 20.º aniversário da vida literária de José Fernandes da Silva
POR
FERNANDO PINHEIRO
ESCRITOR
O poeta e músico José
Fernandes da Silva,
autor de “Ramalhete
de Safiras”, nasceu em
Sobreposta (Braga) e
vive em Vila Verde. O
seu primeiro livro foi
publicado há 20 anos.
IV Diário do MinhoQUARTA-FEIRA, 22 de maio de 2013CulturaCultura
Durante a primeira metade do
século passado, viveu na fregue-
sia de Barbudo, concelho de Vila
Verde, um médico muito respei-
tado, casado com uma senhora
natural da freguesia da Lage, do
mesmo concelho, pertencente a
uma conceituada família da então,
denominada “Quinta do Alferes”.
Deste casamento não houve filhos,
mas trouxeram da dita “Quinta do
Alferes”, para sua companhia uma,
irmã da esposa e uma filha desta.
A irmã era mãe solteira.
O médico era muito bondoso,
e tinha fama de responder com
prontidão e desvelo a quem o
solicitasse na doença, mesmo para
localidades de difícil acesso. Além
de raramente cobrar honorários,
era frequente deixar aos mais
necessitados a sua contribuição
para a compra dos medicamen-
tos. Profundamente religioso, era
católico praticante. Também era
monárquico.
Mais tarde, em 1927, a sobrinha,
filha da irmã, contraiu matrimó-
nio e todos ficaram a partilhar a
mesma habitação, com a quinta
anexa. Deste casamento nasceram
onze filhos.
Acontece que entre eles, em
conversa divertida, por vezes, di-
ziam que sua mãe era filha de um
«Chasco». E brincavam com esta
história de família sem qualquer
sombra de maldade. Do seu nome
verdadeiro nada sabiam. Que
teria falecido vítima de um tiro de
revólver que um filho da “Casa do
Alferes” lhe terá disparado volunta-
riamente, quando o mencionado
«Chasco», que morava próximo,
tentava aproximar-se da avó, com
intenções um pouco suspeitas.
Pois que de ambos já existia uma
filha, que era a sua mãe. E tão con-
vencidos e conformados viveram
com esta versão, que nunca senti-
ram necessidade de saber não só a
identidade do avô, mas também as
reais causas que motivaram a sua
trágica morte. E, por isso, a maio-
ria dos netos partiu deste mundo
sem nunca ter conhecido o seu
nome. Mas ficaram seus bisnetos e
trinetos e consideramos que estes
têm todo o direito, se o desejarem,
de saber a sua identidade. Nesta
conformidade fomos em demanda
dessa história. Delimitadas as bali-
zas temporais, fomos encontrá-la
nos primeiros anos da República,
encaixada em certos aconteci-
mentos ocorridos no concelho de
Vila Verde, e relatados pela im-
prensa da época.
Um pouco distante do rescaldo
das comemorações do primei-
ro centenário da implantação
da República, achamos, mesmo
assim, que teria interesse a sua
divulgação.
Os primeiros anos da República:
ambiente político, social
e económico do País.
Nessa altura, em 1916, a Europa
vivia mergulhada na Primeira
Guerra Mundial – 1914-1918. Em
Portugal, após a queda do governo
de Bernardino Machado e a sua
substituição por um ministério to-
talmente democrático, o presiden-
te Arriaga, alarmado com a vio-
lência da luta política e cedendo a
pressões dos seus amigos políticos
e pessoais, decidiu intervir. Assim,
em Janeiro de 1915, promovendo
a demissão do Governo, confiou
ao seu amigo pessoal, general
Pimenta de Castro, a tarefa de
organizar o ministério, com o fim
de pacificar a Nação e de presidir,
com imparcialidade, às eleições
legislativas que se avizinhavam.
Tinha o apoio dos Evolucionistas,
dos Unionistas, de parte do exér-
cito, e dos monárquicos, isto é,
de todas as correntes opostas ao
Partido Democrático.
Muitos republicanos começaram a
recear um perigo monárquico por
detrás das medidas de tolerância
governamentais. Fruto dessa situa-
ção, no dia 14 de Maio de 1915, os
democráticos fizeram eclodir uma
revolução armada em Lisboa, que
teve a participação da marinha,
de parte do exército e de grande
número de civis.
Assim, Arriaga viu-se obrigado a
demitir-se e o Congresso elegeu
Teófilo Braga para completar o seu
período presidencial. As eleições
legislativas realizadas a 13 de
Junho de 1915 deram aos demo-
cráticos a maioria absoluta nas
duas câmaras. Foram as primeiras
eleições gerais na vigência da
Constituição de 1911.
Em Agosto, Bernardino Machado
foi eleito presidente da República
para o quadriénio 1915-1919. O
novo parlamento iniciou a ses-
são a 2 de Novembro de 1915 e
manteve-se em funções até à sua
dissolução, ocorrida no dia 6 De-
zembro de 1917, na sequência do
golpe de Estado de Sidónio Pais.
Nos princípios de 1916, a Grã-Bre-
tanha, deparando-se com dificul-
dades crescentes na obtenção de
transportes marítimos, solicitou de
Portugal que requisitasse as deze-
nas de navios mercantes alemães
que se encontravam fundeados
nos portos continentais, insulares
e ultramarinos. Calculando os ris-
cos e as vantagens, o governo por-
tuguês procedeu à requisição das
embarcações (Fevereiro de 1916).
A Alemanha respondeu com a de-
claração de guerra a Portugal (9 de
Março). No dia seguinte, é Portugal
que declara guerra à Alemanha.
Perante essa grave situação do
País, Democráticos e Evolucionis-
tas assentaram na constituição
de uma União Sagrada, cedendo
Afonso Costa a presidência do
Ministério ao seu antigo adver-
sário António José de Almeida,
Acontecimentos ocorridos no concelho deAcontecimentos ocorridos no concelho de
Vila VerdeVila Verde
em tempos conturbados da 1.ª Repúblicaem tempos conturbados da 1.ª República
– uma história de família– uma história de família
POR
ANTÓNIO RODRIGUES MORAIS
MESTRE EM HISTÓRIA DAS POPULAÇÕES
PELA UNIVERSIDADE DO MINHO
“Uns dias depois, o‘Commércio do Minho’ do dia 14 do mesmo mês
de Novembro dá notícia de que na noite de sexta-feira, dia 10 de No-
vembro, na freguesia da Lage, concelho de Vila Verde, Avelino José
Ferreira, proprietário da‘Casa do Alferes’, de 28 anos, matou com um
tiro de revólver, Domingos Gonçalves Pimentel, o ‘Chasco’, alfaiate
de33anos, natural da freguesia de Gême, ambos residentes naquela
freguesia da Lage, isto é, três dias após as referidas prisões.”
CulturaCultura VDiário do Minho QUARTA-FEIRA, 22 de maio de 2013
conservando apenas a pasta das
Finanças.
O governo da União Sagrada
teve de cumprir a difícil missão
de organizar uma força expedi-
cionária que fosse combater em
França. Como consequência da
guerra, as condições de vida das
massas populares agravaram-se,
escasseando os géneros de primei-
ra necessidade, até ao extremo da
fome.
Os acontecimentos
que abalaram
o concelho de Vila Verde.
Nessa altura, o País vivia num cli-
ma de grande turbulência política
e social, a que o concelho de Vila
Verde não esteve imune. Nele
ocorreram graves acontecimentos
que os jornais da cidade de Braga,
«Commércio do Minho» e outros,
e ainda a “Folha de Vila Verde”,
noticiaram e classificaram como
“actos de malvadez”.
Desses actos fizeram parte, no dia
4 de Novembro de 1916, em Vila
Verde, a explosão de uma bomba
no peitoril uma janela da casa da
Câmara e, ainda na madrugada
do mesmo dia, outra contra o
posto do registo civil do lugar da
Portela, freguesia de Atães.
Reforçando o cariz marcadamen-
te político, em Marrancos, fre-
guesia do concelho de Vila Verde,
explodiu outra bomba junto da
casa do dr. Joaquim de Oliveira,
deputado pelo círculo de Braga.
Também foi noticiado que “foram
cortados alguns postes da linha
telegráfica e apareceram pinheiros
atravessados nas estradas”.
Igualmente na cidade de Braga
explodiram bombas, em Maxi-
minos, na casa do Sr. Bento de
Oliveira, Governador Civil substi-
tuto, e do Dr. Domingos Pereira,
deputado por este círculo. Todas
elas produziram apenas prejuízos
materiais.
O ambiente em que se vivia
continuava a ser de muita tensão
entre a Igreja e o poder instituído,
fruto das medidas anticlericais
que já vinham do Governo Provi-
sório presidido por Afonso Costa.
Embora a Igreja, em 1916, se
tornasse mais flexível para com o
novo regime, e no plano político
começasse a firmar alianças com
os elementos mais conservadores
do republicanismo, porém, man-
teve e não abandonou a aliança
tradicional com a Monarquia e
com os aristocratas.
Por isso, não admira que sobre
muitos sacerdotes do conce-
lho de Vila Verde e sobre outros
cidadãos ligados à Monarquia
recaíssem as suspeitas de esta-
rem por de trás dos mencionados
acontecimentos.
Nessa conformidade foram efec-
tuadas prisões, continuando
as investigações por parte das
autoridades, de harmonia com a
imprensa da época.
O “Commercio do Minho”, de Bra-
ga, de 9 de Novembro, relata que
no passado dia 7 (3ª. feira), “transi-
taram do comissariado da polícia
para a cadeia civil de Braga, fican-
do ali à disposição do Sr. Adminis-
trador do concelho de Vila Verde,
os presos que vieram daquela Vila
sob arguição da autoria no caso
das bombas ali lançadas”.
Esta mesma notícia é-nos dada
também pela “Folha de Vila Verde”,
de 19 de Novembro, de forma
pormenorizada: “de terem estado
detidos no posto da guarda re-
publicana e cadeia de Vila Verde,
seguiram para Braga, escoltados
por força armada”, os párocos
das freguesias de Azões, de Duas
Igrejas, da Loureira, de Aboim e
alguns leigos.
Noticia ainda o jornal vilaverden-
se que “sob a acusação de pedi-
rem votos e praticarem outros
delitos também foram chamados
à Administração, diversos cava-
lheiros”. Eram provenientes das
freguesias da Lage, de Vila Verde,
do Pico, de Escariz, de Azões, e
ainda os párocos de Doçãos, da
Lage, de Godinhaços, de
S. Cristóvão do Pico e da Portela
e também padres de Valdreu e de
Godinhaços.
Assassínio de Domingos
Gonçalves Pimentel
– o «Chasco»
Uns dias depois, o “Commércio
do Minho” do dia 14 do mesmo
mês de Novembro dá a notícia
de que na noite de sexta-feira,
dia 10 de Novembro, na freguesia
da Lage, concelho de Vila Verde,
Avelino José Ferreira, proprietário
da “Casa do Alferes”, de 28 anos,
matou com um tiro de revólver,
Domingos Gonçalves Pimentel,
o «Chasco», alfaiate, de 33 anos,
natural da freguesia de Gême,
ambos residentes naquela fregue-
sia da Lage, isto é, três dias após
as referidas prisões.
Mas entre o dia 11 de Novembro,
sábado, e o dia 13, segunda-feira,
restituídos à liberdade todos os
presos por nada se averiguar que
os comprometesse.
Sobre o homicídio, vejamos o que
dizem documentos da época.
Atingido o objectivo da identifica-
ção desse ramo parental, fomos
em busca das razões que provo-
caram o homicídio, tendo como
pano de fundo os graves aconte-
cimentos relatados.
A imprensa da cidade de Braga
e local apontava que na origem
da contenda estavam causas
políticas e ainda outras anterio-
res à proclamação da República.
Que o “Chasco” era republicano e
que teria ofendido gravemente a
honra da família da “Casa do Al-
feres”, que era monárquica, e que
a partir daí tornaram-se inimigos
irreconciliáveis.
E à luz das notícias da imprensa e
de documentos fidedignos, fomos
compreendendo que, embora
tenham existido causas remotas,
a causa próxima do fatal desfecho
terão sido as suspeitas que sobre
si («Chasco») recaíram de ter de-
nunciado junto da Administração
do concelho Vila Verde alguns
residentes na freguesia da Lage.
Outros documentos referem que,
perante o crime, o Administrador
do concelho de então participou
no dia seguinte – 11 de Novem-
bro de 1916 –, ao Delegado do
Procurador da República de Vila
Verde, a ocorrência do homicí-
dio. Comunicava “que no dia 10
de Novembro, seriam 19 horas,
no lugar de Bouçós, freguesia da
Lage, deste concelho, quando ali
passava em companhia de outros
indivíduos, manso e pacífico, foi,
sem mais nem menos, assassi-
nado a tiro de revólver ou pistola
– Domingos Gonçalves Pimen-
tel, solteiro, alfaiate, da mesma
freguesia. Que o assassinado
tinha ido desta Administração de
prestar declarações sobre os últi-
mos acontecimentos, sendo logo
ameaçado”.
Declarações de testemunhas que
presenciaram o homicídio, sob
palavra de honra!
Todas as testemunhas relacio-
naram esta morte com os graves
acontecimentos deste concelho,
porque o falecido era “republica-
no e o homicida um autêntico
monárquico”.
Algumas narraram que pouco
antes de se dar o assassinato
estiveram com Avelino José
Ferreira numa taberna sediada no
lugar de Bouçós; que o referido
Avelino convidara um grupo de
homens que o acompanhavam
para irem à sua residência beber
uma pinga de vinho e ao pas-
sar em frente ao assassinado, o
Avelino disse a seguinte frase:
“bamos comer quatro castanhas
e beber uma pinga de água-pé
para fazer teré-té-té para o Chas-
co”; que chegados ao portão do
Avelino apareceu neste momen-
to o referido «Chasco» que lhe
perguntou: Que é que quer ao
«Chasco»? E num dado momento
o homicida “mete a mão ao bolso,
puxa de uma pistola, desfechando
um tiro sobre o «Chasco», que
caiu redondamente morto”. Outra
mais disse que a seguir ao homi-
cídio o Avelino pôs-se em fuga.
Uma outra relatou que ouviu dizer
ao Avelino que tinha queixa de
um homem do lugar e dizendo
que era o «Chasco» por este ter
chamado à Administração do
concelho algumas pessoas da sua
freguesia.
Os mesmos documentos dão-nos
a conhecer que o Avelino con-
fessou o crime e foi preso. Quatro
meses passados foi transferido da
cadeia para ser julgado no Tribu-
nal no dia 26 de Abril de 1917.
Referem, por fim, que o Avelino
José Ferreira foi absolvido sem
selos nem custas, com alegação de
ter agido em legítima defesa. Nar-
ram também que, enquanto o au-
tor do homicídio tinha em sua mão
um revólver, a vítima tinha apenas
uma pedra com que o agredira.
Convém insistir que se viviam
tempos de grande conflitualidade,
em que a Monarquia pretendia re-
conquistar o poder e a República
respondia, procurando defender-
-se a todo o custo.
Já em relação à justiça praticada
durante estes primeiros anos, a
História diz-nos que os tribunais
da República, infelizmente, con-
tinuavam a funcionar com um
vasto número de juízes, confes-
sadamente monárquicos e, nessa
medida, suspeitos de julgarem
parcialmente; e não era uma
suspeição: o contrário também,
é provável, que terá sido verda-
deiro.
Por fim, julgamos que no seio de
outras famílias poderão eventual-
mente contar-se episódios idên-
ticos, que paixões, preconceitos e
o próprio tempo terão deturpado.
Em nossa opinião, seria interes-
sante que pudessem ser confir-
mados e devidamente enqua-
drados no tempo, pois que desse
trabalho talvez pudesse resultar
algum ganho para a história das
respectivas comunidades.◗
Vila Verde, Abril de 2013
Vila Verde, na actualidade
VI Diário do MinhoQUARTA-FEIRA, 22 de maio de 2013CulturaCultura
“Em sintonia com o povo e o pároco, o Cóne-
go Avelino de Jesus da Costa (na foto), natu-
ral do Barral, é o grande promotor, a alma de
todo este projeto, que integra ainda o novo
Santuário da Senhora da Paz, edifício mais
recente, em sistema basilical de três naves.”
A caminho do centenário da Senhora da PazA caminho do centenário da Senhora da Paz
Aparições do BarralAparições do Barral
ocorreram há 96 anosocorreram há 96 anos
POR
LUÍS AREZES
PROFESSOR DE LÍNGUA PORTUGUESA
NO ENSINO SECUNDÁRIO
PONTE
PONTE
DA BARCA
DA BARCA
Faltam quatro anos para o cen-
tenário das aparições de Nossa
Senhora, no lugar do Barral, Vila
Chã S. João, Ponte da Barca.
Tudo remonta a 1917. A Euro-
pa continuava em guerra. Nas
trincheiras lamacentas do velho
continente caíam milhares de
cadáveres e, na frente de batalha,
estavam Portugueses, combatiam
homens de Ponte da Barca! Por cá,
Miguel Calheiros e Passos deci-
dira, em 1916, erguer, no monte
de Santa Rita, sobranceiro à sede
do concelho, um monumento à
Senhora da Paz.
Longe de todo este mundo de afli-
ções, vive, em “extrema pobreza”,
o pequeno Severino Alves. Tem
10 anos de idade e reside com sua
mãe, que enviuvara cinco meses
antes, e com mais seis irmãos.
Todo o seu tempo de menino é
ocupado com os rebanhos, nas
redondezas do Barral.
No dia 10 de maio de 1917, Severi-
no inicia o dia, com a mesma roti-
na de sempre – o nosso pastor vai
para os montes com as ovelhas.
Nos seus dedinhos de miúdo, cor-
rem as contas do terço que reza
devotamente, aplicando metade
pelo pai e a outra metade a Nossa
Senhora. Até que, por volta das
oito horas, numa ramada, perto
da ermida de Santa Marinha, é
surpreendido por uma enorme
luz vinda do céu... É um clarão tão
forte e tão brilhante que o menino
fica possuído por um medo fasci-
nante.
Vencida a emoção, dá alguns pas-
sos, atravessa um portelo e olha
em redor. Nesse momento, avista
uma Senhora! Tem as mãos postas
e o indicador da mão direita desta-
cado em determinada direção. O
seu rosto é lindo, como nenhum
outro. Veste-se de branco e um
manto azul cobre-lhe a cabeça.
Toda Ela é cheia de luz e de es-
plendor! Fascinado com tamanha
beleza celestial, o nosso pastor
recua uns passos, maravilhado, e
cai por terra.
Readquirido o ânimo, ergue-se e
exclama:
– Jesus Cristo!
Não voltou a ver a Senhora!...
No dia seguinte, 11 de maio, sexta-
-feira, quando passa no mesmo
local com o rebanho, o portelo
abre-lhe a alma para uma nova
visão. Ali está, de novo, a Senhora
cheia de graça e de luz.
Severino cai por terra, de joelhos.
Olha, depois, o rosto sorridente
da Senhora e diz-lhe o que o seu
pároco lhe havia aconselhado:
– Quem não falou ontem, fale
hoje...
Então, a voz da aparição, “diferen-
te do falar de todos os mortais”,
manifesta-se, acalmando-o:
– Não te assustes, sou Eu, menino!
E prossegue: – Diz aos pastores do
monte que rezem sempre o terço,
que os homens e mulheres rezem
o terço e cantem a “Estrela do
Céu”. E as mães que têm os filhos
lá fora que rezem o terço, cantem
a “Estrela do Céu” e se apeguem
Comigo, que hei de acudir ao
mundo e aplacar a guerra.
– Sim, Senhora! – responde Severi-
no extasiado, ao que a visão, olhan-
do para a ramada, acrescenta:
– Que gomos tão lindos! Que
cachos tão bonitos!
O pastorinho olha e, quando se
volta, vê que a extraordinária apa-
rição já tinha desaparecido.
Rezem o terço
e cantem a “Estrela do Céu”
A sua fé de criança garante-lhe
que acabara de ser protagonista
de um acontecimento sobrenatu-
ral. Corre a espalhar a Boa Nova.
Ele quer partilhar tão grande mara-
vilha com as “mães dos filhos da
localidade que estão no exército”.
Entre outros, há um facto que a
todos deixa perplexos: a referência
à “Estrela do Céu”, uma oração que
se cantava na freguesia, “quando
havia alguma calamidade ou guer-
ra”, mas que – segundo o pároco
– caíra em desuso há mais de
quatro décadas, pelo que o povo a
desconhecia.
Severino não estava, portanto,
a faltar à verdade. E, “a todos
quantos se acercam dele e põem
em dúvida o que ele viu e relata,
responde invariavelmente:
– Se quiserem acreditar, que
acreditem; se não quiserem, que
não acreditem. Eu fiz a minha
obrigação, avisando como me
mandaram”.
A notícia espalha-se pelas re-
dondezas. De tal forma que, uma
semana depois, no dia 17 de maio,
festa da Ascensão do Senhor,
juntam-se “já numerosos devotos
no local das aparições”.
No dia 1 de junho, primeira sexta-
feira, chega ao conhecimento
de Sebastião de Vasconcelos,
advogado do Porto, com ligações
familiares a Ponte da Barca. No dia
seguinte, ele faz-se ao caminho.
Vai ao encontro do pequeno Seve-
rino. “E ali – lê-se num manuscrito
inédito da sua autoria, divulgado
pelo Cónego Avelinode Jesus da
Capela da Senhora da Paz,
no Lugar do Barral, freguesia de Vila Chã S. João (Ponte da Barca)
CulturaCultura VIIDiário do Minho QUARTA-FEIRA, 22 de maio de 2013
Costa –, no meio do povoado,
entre crianças, ouvi a descrição
simples e impressionante que me
fez, que tem sido sempre invaria-
velmente repetida”.
Os elementos que recolhe nesta
primeira viagem ao Barral dão
corpo a dois artigos que, a 9 de
junho de 1917, publica nos jornais
católicos do Porto, “A Ordem” e
“Liberdade”, e que temos seguido
de perto nesta apresentação. O
título é sugestivo: “Nossa Senhora
do Barral?”.
Peregrinos aos milhares
Os textos despertam enorme
interesse, esgotando-se ambos os
jornais, facto que levou “A Ordem”
a fazer uma separata do seu artigo
para atender os inúmeros pedi-
dos. No mesmo dia da publicação
dos textos, o “Senhor Bispo do
Porto aprovava a ‘Estrela do Céu’,
concedendo 100 dias de indul-
gência a quem a rezasse”. Desde
aí, espalharam-se aos milhares as
pagelas com a “Estrela do Céu” e
os jornais publicaram-na, repeti-
damente. A 28 de julho, “A Ordem”
anuncia ter à venda a música da
antífona.
Em finais de 1917, Sebastião de
Vasconcelos “mandou fazer uma
estampa segundo as indicações
do ‘vidente’ […], com a legenda
Regina pacis na frente […] e ‘Súpli-
cas à Virgem Santíssima pela paz’,
no verso”.
Muitos jornais divulgam, entretan-
to, os artigos e publicam outras
notícias, ao longo dos meses de
verão, de tal modo que as apa-
rições do Barral já eram pratica-
mente conhecidas em todo o País
e nas Ilhas Adjacentes, quando
veio a público a primeira notícia
das aparições de Fátima, que saiu
em O Século, a 24 de julho de 1917.
Face à repercussão dos aconteci-
mentos do Barral, o “Sr. Arcebispo
de Braga nomeou ‘uma comissão
de graves e conceituados teólo-
gos’, que foi ao local, logo a 20 de
julho de 1917, para colher elemen-
tos para o processo canónico,
segundo informaram os ‘Echos do
Minho’ (órgão oficioso da diocese
de Braga) de 22 deste mês”.
Os peregrinos acorrem aos mi-
lhares, vindas das mais diversas
terras. O jornal “A Ordem”, que
apenas se refere ao caso de
Fátima a 27 de outubro, divulga
os acontecimentos do Barral
com entusiasmo, em números
seguidos. Nas edições de 16 e 17
de junho de 1917, diz que a “devo-
ção do Terço do Rosário ganhou
muito com a narrativa do caso
do Barral” e noticia que “tem sido
uma verdadeira peregrinação para
o lugar do Barral, em Ponte da
Barca, tantas são as pessoas que
ali vão interrogar o pastorinho
Severino Alves acerca da Aparição
de Maria Santíssima e ver o local”.
Esta afluência mantém-se durante
vários anos, passando a diminuir
depois de 1926. Nem seria de
esperar outra coisa, pois, no local,
nem sequer fora construída uma
imagem, muito menos uma cape-
la. A atenção e a devoção vão-se,
progressivamente, concentrando
em Fátima, onde Nossa Senhora
se manifestara, dois dias mais
tarde, a 13 de maio do mesmo
ano... E, assim, as aparições da
Senhora da Paz quase caem no
esquecimento.
Quase! Porque, 50 anos depois,
Fátima cruzar-se-ia, de novo, com
o Barral.
Centro Mariano
conhece uma nova alma
Foram, de facto, os historiadores
de Fátima que contribuíram para
reavivar o interesse pela Senhora
da Paz. Consultando a imprensa
de 1917 para saberem o que se
escrevera sobre a Cova de Iria e,
assim, prepararem o 50.º aniver-
sário destas aparições, acabaram
por encontrar numerosos artigos
sobre o Barral, situação que alte-
rou o rumo dos acontecimentos.
Em agosto de 1967, Fátima acolhe
o XII Congresso Mariano Interna-
cional para assinalar o cinquen-
tenário das aparições. O Cón.
Prof. doutor Avelino de Jesus da
Costa, historiador e catedrático da
Universidade de Coimbra, é con-
vidado para colaborar e apresenta
uma comunicação que desperta
grande interesse: “As aparições de
Nossa Senhora do Barral, a 10 e 11
de maio de 1917”.
A devoção à Senhora da Paz está
a ganhar nova alma. Com au-
torização do Arcebispo Primaz,
Avelino da Costa – também nas-
cido no Barral e contemporâneo
do vidente pastorinho – escreve
uma série de artigos no “Diário do
Minho”, que, em parte, são publi-
cados nos jornais “Novidades”, “A
Voz” e “O Povo da Barca”. E, em
sintonia com o pároco e os seus
conterrâneos, logo pede auto-
rização para mandar fazer uma
imagem e para erigir uma capela
no local.
A 24 de junho de 1967, a imagem
da Senhora da Paz é benzida e
colocada num nicho, à veneração
dos fiéis. E a Confraria de Santa
Ana decide promover a cons-
trução da capela, cuja licença é
assinada, em maio de 1968, por
D. António Ribeiro, na altura bispo
auxiliar de Braga e futuro cardeal
patriarca.
Muito trabalho
e várias inaugurações
Orçado em cerca de 400 contos,
o templo é decorado com quartzo
cristalizado e a inauguração acon-
tece a 15 de setembro de 1969,
com a bênção do vigário-geral
da arquidiocese, o então cónego
e futuro bispo auxiliar de Braga,
D. Carlos Pinheiro.
“A solene bênção e inauguração
da capela-monumento atingiram
um brilhantismo que ultrapassou
o que era de esperar por ter sido
em dia de semana, o tempo estar
muito chuvoso e ter havido em
alguns meios obstrucionismo à
capela e à sua inauguração”, es-
creve, na altura, Avelino de Jesus
da Costa.
O dia festivo, que mereceu uma
reportagem da RTP, fica, entre
outros aspetos, marcado também
pela estreia do “Hino de Nossa
Senhora da Paz”, letra de Castro
Gil e música de Manuel Borda.
Pouco tempo volvido, já a capela
era considerada pequena para a
afluência de devotos. Para reme-
diar o mal, projeta-se a constru-
ção de uma cave por baixo do
adro e de uma pequena casa de
recordações, junto da oliveira, que
ficara como recordação de 1917.
A 2 de maio de 1971, é benzida
a cripta e o altar de quartzo, um
enorme bloco cristalizado, o
maior existente em Portugal, com
cerca de três toneladas de peso.
Neste ano, a festa da Senhora da
Paz regista a presença de altas
individualidades, tais como o go-
vernador civil do distrito e o pre-
sidente da Câmara Municipal de
Ponte da Barca, sendo a procissão
presidida pelo Vigário-Geral.
Em 1972, a festa celebra-se a 20
de agosto, com a bênção e inau-
guração dos painéis de azulejo
que revestem as paredes da cripta
e representam a Última Ceia, as
aparições do Sagrado Coração
de Jesus em Paray-le-Monial, as
aparições de Nossa Senhora em
La Salette, Lourdes, Pontmain,
Fátima e Banneux, os Santuários
Marianos da Peneda, Sameiro e
Vila Viçosa, e também de dois pai-
néis, cada um com seu anjo em
saudação à Virgem Maria, tendo
o da direita a legenda “Ave, Maria,
cheia de graça” e o da esquerda
“Por Maria a Jesus”.
A 15 de Setembro de 1974, por
ocasião do 5.º aniversário da bên-
ção da Capela, é inaugurada uma
imagem do Sagrado Coração de
Jesus (4,20 m de altura), de braços
abertos.
Apesar da forte
e persistente oposição...
O Santuário da Senhora da Paz
não pára de crescer, de se afirmar
como um centro de vida espiritual
e de devoção mariana. Apesar
da “forte e persistente oposição
de pessoas, que antes nos de-
viam ajudar. A pretexto de que as
aparições não foram ainda apro-
vadas pela autoridade eclesiástica
(mas também não foram rejeita-
das por ela), faz-se campanha e
obstrucionismo contra o templo e
devoção a Nossa Senhora da Paz”
– lamenta-se Avelino de Jesus da
Costa, em outubro de 1976.
Independentemente dos con-
tratempos, no ano seguinte, a
29 de maio, acontece mais um
momento-alto: é inaugurado o
monumento ao Coração Imacu-
lado de Maria, cerimónia que é
testemunhada por um elevado
número de devotos. São também
erigidos monumentos ao Anjo da
Guarda de Portugal e à Paz, este
último constituído por um pe-
destal de quartzo cristalizado, em
cima do qual esvoaça uma pom-
ba em bronze.
O local é cada vez mais um ponto
de atração de peregrinos e de
muitos turistas, até do estrangeiro,
sobretudo ingleses, atraídos, em
geral, pela beleza da magnífica
coleção de cristais de quartzo,
considerada uma das melhores
do mundo.
Em sintonia com o povo e o pá-
roco, o Cón. Avelino de Jesus da
Costa é, ao longo deste período, o
grande promotor, a alma de todo
este projeto que integra ainda o
novo Santuário da Senhora da
Paz, edifício mais recente, em
sistema basilical de três naves.
Hoje, este é um centro com
algum movimento religioso e tu-
rístico. O dia maior é o da peregri-
nação que se realiza no último do-
mingo de maio. Mas, ao longo de
todo o ano, várias são as pessoas
que por lá passam, gente devota da
Senhora da Paz, gente atraída pela
beleza natural de um cenário com
horizontes largos e convidativos,
gente interessada numa visita aos
monumentos e à Biblioteca-Museu
que apresenta uma rica coleção de
cristais de quartzo.
É um património único, mas ainda
pouco valorizado, seja ao nível
do turismo de natureza, seja em
termos de turismo religioso e até
no âmbito pastoral.
Ninguém está, evidentemente,
obrigado a dar crédito às apa-
rições, mas qualquer pessoa de
bom senso terá de convir que a
Senhora da Paz possui um enor-
me potencial que permanece
quase virgem.
As celebrações do centenário,
dentro de quatro anos, bem
poderão ser a alavanca capaz de
transfigurar o Barral, afirmando-
o como um centro da devoção
popular no Alto Lima e um local
de visita obrigatória.
Deus queira que assim aconteça!
E que o homem sonhe, para que a
obra nasça...
Ponte da Barca, Maio de 2013
Monumento à Senhora da Paz e ao Imaculado Coração de Jesus, situado junto à Capela-santuário
VIII Diário do MinhoQUARTA-FEIRA, 22 de maio de 2013CulturaCultura
Na Revista Cultural – DOM FAFES
–, da Câmara Municipal de Fafe,
no volume XVII, n.º 17/18, cor-
respondente aos anos de 2010 e
2011, comemorativo do centená-
rio da implantação da República,
entre as diversas colaborações,
acentuando aspectos da história
local – ensino, saúde, cultura
–, avulta o artigo, subordinado
ao título em epígrafe, da autoria
de D. Joaquim Gonçalves, com
a colaboração do Prof. Doutor
António Franquelim Neiva Soares,
que vamos apreciar.
Iniciamos estas breves notas,
observando que este estudo
resultou da convergência de duas
circunstâncias, de certo modo,
afins – a conclusão do Ano
Sacerdotal, que assinalou os 150
anos da morte de S. João Maria
Vianney, Cura d’Ars, em Junho de
2010, e o facto de, nesse mes-
mo ano, D. Joaquim Gonçalves
celebrar as bodas de ouro sacer-
dotais, efemérides que se propôs
comemorar na dupla perspectiva:
pastoral e cultural,
No plano pastoral, além do apro-
fundamento da doutrina sobre o
sacerdócio, efectuado no contex-
to das celebrações festivas, reali-
zadas na diocese de Vila Real e na
sua terra natal, mereceu-lhe par-
ticular atenção o problema das
vocações sacerdotais, de tanta
importância no contexto eclesial.
A dimensão cultural, iniciada pela
elaboração do elenco dos páro-
cos de Revelhe, que foi possível
identificar, com menção especial
daqueles que o acompanharam
ao longo da sua caminhada,
desde a entrada no Seminário,
até ao episcopado. A par desta,
foi surgindo outra lista, tal como a
precedente, destinada a revelar e
perpetuar a memória dos padres
oriundos desta mesma paróquia,
fazendo-os emergir do silêncio
dos arquivos paroquial e diocesa-
no, este, há cem anos, apropriado
pela República e, posteriormente,
integrado do Arquivo Distrital de
Braga.
A organização destas listas de
párocos e de padres naturais de
Revelhe constitui um precioso
contributo para a história des-
ta paróquia e traduz, de forma
inequívoca, a estreita ligação de
D. Joaquim Gonçalves à sua terra
natal, patente também noutros
aspectos do estudo em análise.
Nesse sentido, assumem particu-
lar relevo os apontamentos sobre
a vida autónoma das paróquias
de Cortegaça e Revelhe, tendo
a primeira sido incorporada na
segunda, em data desconhecida,
mas compreendida entre 1551 e
1571, possivelmente, por decisão
de D. Frei Bartolomeu dos Már-
tires, de cuja actividade pastoral,
através da Arquidiocese de Braga,
constam outros casos similares
de uniões e desmembramentos.
A título de exemplos, basta recor-
dar que, em Melgaço, em 1572-
-1573, uniu as de Santa Maria do
Campo – actualmente, evocada
na igreja da Misericórdia – e a de
S. Facundo à de Santa Maria da
Porta, e que, dada a extensão do
couto e freguesia do Mosteiro de
Paderne, dela desmembrou as de
Párocos de RevelhePárocos de Revelhe
e Padres naturais da Paróquiae Padres naturais da Paróquia
Cubalhão e de Cousso, embora
nos primeiros tempos conser-
vassem uma ténue ligação à
paróquia-mãe.
Além de ter acompanhado a vida
de Cortegaça, cuja referência
mais antiga consta da doação
de Pedro Toderigues à Sé de
Braga, em 3 de Abril de 1157, até
à sua incorporação em Revelhe,
o Autor proporcionou aos inte-
ressados um conjunto de infor-
mações, por vezes contraditórias
entre os autores citados, sobre a
toponímia local, a começar pela
de Cortegaça, não deixando de
mencionar a arbitrariedade de
alguns nomes mais recentes, que
gostaria de ver alterados. Neste
domínio, o caso mais estranho e
incompreensível é o da barragem
construída na freguesia de Reve-
lhe, mas referida como sendo de
Queimadela! Também aqui, a par
do pormenorizado conhecimen-
to da região, é patente o amor à
terra que o viu crescer.
Mas o grande objectivo deste
estudo era revelar os nomes dos
párocos de Revelhe, ampliada
com a incorporação de Corte-
gaça, e os dos sacerdotes daí
oriundos, tendo identificado trinta
e dois párocos, desde 1548 até à
actualidade, e vinte e quatro pa-
dres daí naturais, desde meados
do século XV. Na impossibilidade
de traçar a biografia de cada um
deles, estes dois conjuntos foram
enriquecidos com os dados pes-
soais e outras informações que
pôde reunir.
Como estímulo à leitura atenta
da lista dos párocos, observamos,
apenas, que Domingos José
Pereira (1791-1797) e José Joa-
quim de Araújo (1812-1850) foram
Cavaleiros da Ordem de Cristo,
tendo o segundo permaneci-
do nas funções paroquiais, em
Revelhe, quase trinta e oito anos.
Em data mais recente – podendo
haver, ainda, quem dele se recor-
de –, pastoreou esta freguesia o
P. Francisco José Galvão (1907-
-1930), que, além de exímio violi-
nista e flautista, ligou o seu nome
à paróquia que lhe estava confia-
da, pela acção cultural, concreti-
zada na organização de «Banda
de Revelhe», que tanto prestígio
continua a ter.
Quanto aos vinte e quatro sacer-
dotes naturais de Revelhe, a que,
na segunda metade do século
XVI, ficou definitivamente ligada
Cortegaça, apraz-nos anotar que
os quatro últimos: José Gonçal-
ves, Joaquim Soares, D. Joaquim
Gonçalves e Albano Nogueira,
estão, felizmente vivos, aos quais
desejamos longa vida e óptima
saúde. Também em relação a
eles, não sendo necessário deter-
nos em aspectos biográficos,
porque bem conhecidos, vem a
propósito observar que os irmãos
Gonçalves (José e D. Joaquim)
são naturais do lugar de Cortega-
ça, que perpetua a memória da
extinta paróquia, acima referida.
Acerca do autor, D. Joaquim
Gonçalves, seria grave omitir
que, após a formação humanísti-
ca e teológica nos Seminários de
Braga, licenciou-se em Filosofia,
na Faculdade de Letras do Porto,
POR
PROF. DOUTOR
JOSÉ MARQUES
PROFESSOR APOSENTADO
DA UNIVERSIDADE DO PORTO
leccionou no ensino secundário
e, após a ordenação episcopal, foi
Bispo Auxiliar de Braga, Coadjutor
e Titular de Vila Real, de que é
Bispo Emérito.
Os resultados deste estudo,
apesar do longo período crono-
lógico abrangido e não obstante
algumas lacunas, são muito
positivos e proporcionam dados
históricos, para os tempos mais
remotos, geralmente desconhe-
cidos, integrando-se, por isso, nos
objectivos culturais da Revista
Municipal, que o acolheu.
Resta, agora, esperar que, no futu-
ro, surjam respostas semelhantes
ao convite dirigido por
D. Joaquim Gonçalves aos páro-
cos da sua antiga diocese de Vila
Real, no cinquentenário da sua
ordenação sacerdotal, para faze-
rem listas «dos seus antecesso-
res, a fim de manter viva entre o
povo a memória dos respectivos
pastores e estimular as vocações
ao sacerdócio», convite que bem
se pode tornar extensivo aos das
outras dioceses portuguesas. ◗
D. Joaquim Gonçalves,
Bispo Emérito de Vila Real
(natural de Revelhe – Fafe)

Cultura dia 22 de maio

  • 1.
    Cultura QUARTA-FEIRA •22 DE MAIO DE 2013 Diário do Minho Este suplemento faz parte da edição n.º 29951 de 22 de maio de 2013, do jornal Diário do Minho, não podendo ser vendido separadamente > “Em legítima defesa...” – Galiza, Espanha - Agosto de 2012 [Foto de V. B. Vasconcellos]
  • 2.
    II Diário doMinhoQUARTA-FEIRA, 22 de maio de 2013CulturaCultura Aquele André Brun dá-me cabo do juízo!Aquele André Brun dá-me cabo do juízo! A soma dos nadas O ontem do nada é o nada de amanhã, quem partiu não ‘stá cá, quem foi já não o é, é sombra deitada que vagueou de pé, no cacifo adormeceu, no silêncio se perdeu, sua voz sucumbiu eco que jamais se ouviu na longínqua morada. Estrela que se apagou no mundo de corre e corre, onde todo ser vivo morre, não há fortes sem ais nem fracos protegidos nem criminosos escondidos em escuros labirintos, são ignorados famintos títulos e coroas riais. Reina aqui a paz eterna, neste sagrado museu, onde se guarda o valor da cada troféu, de feitos e de glórias, ligados às memórias desta comunidade fraterna! M. R. Silva (Inédito. Trofa, 9-12-11) Palco da Poesia Poema cor de luto Vou escrever um poema cor de luto Para um testamento de amor; E se em vida comi o fruto. Posse do alheio que o deixou morrer, De gaivotas farei um andor Para passear sobre as ondas: A musa que fiz reviver E será minha e do infinito... Virão os anjos em jeito de rondas Cantar para nós os seus hinos. Tocarão os sinos, Crescerão abetos no Natal. E então um poema será dito Com voz de papoila-mulher, papoila-flor. E será um poema cor de cal Para uma promessa de amor. Américo Brito (Inédito. Abril de 2013) 1 Ferme du bois 2 , 16 de Junho de 1917 A aurora abria-se e a claridade dos very- -ligthsvaisendosubstituídapelosolainda pálido do início do estio. Como toupei- ras negras vamos emergindo do nosso buraco para o triste inferno a que fomos votados pelo governo republicano. – Pedro de Freitas 3 , ainda sobrou rum? – O lazarento cospe terra e acena-me afirmativamente.Adoramosasmanhãs, são tranquilas como a morte e isso é uma bênção caída do céu. Aventuro-me a pôr a cabeça acima da trincheira perscrutando o horizonte e a linha de arame farpado. Lembro-me subitamente das irmãs Ajus e Joé 4 e do seu famoso opiário por detrás do coliseu. A noite é terrível, em Lisboa a noite era a dança e o frenesim dos botequins, aqui é o triste inferno vivido na carne, e agradecemos ao governo republicano por tal dádiva. Uma hora antes do cair da noite aper- ta-se-nos o estômago, as sombras envolvem-nos e todos nos interroga- mos: O von da costa virá? A baioneta do boche irá tentar espetar-se-nos no bulho, deixando as nossas tripas pela lama? Os oficiais da retaguarda não sabem disso, atulhados na burocracia dosegurobunker.Malditos!comoeuos detesto!, não sabem que de noite todos os medos estão à flor da pele. Não sa- bem que ou vamos de patrulha com o alicatetentandofuraroaramefarpadoe tomar uma trincheira ou então ficamos à espera que eles caiam em cima de nós com aqueles elmos pontiagudos a gritarem pelo imperador... Malditos oficiais de retaguarda! E quan- do não é isso, é o maldito gás debaixo da trabuzanada das metralhadoras. Escutamos os ecos da guerra em plena escuridão e nossos corações são como asnossasolheiras,fundasenegras,sem esperança nem remissão. Lá estão eles, os malditos, a inspeccionar-nos: – Hora das visitas, meu alferes. – Cen- suraPedro.Àfrentedelesumoficialque tirou o curso comigo, André Brun de sua graça, parecia bem disposto depois de ter tido uma noite confortável com uma cama fofa de palha. Fuma uma cigarrilha e admoesta-me: – Alferes Malheiro!, existem homens que já estão a dormir vestidos encosta- dos aos sacos, é uma falta de aprumo! E está tudo cheio de cartuchos vazios no chão, é um desmazelo! –AndréBrun,vocêsóservemesmopara escrever comédias, não é verdade? – Como? – Nada. – Brun vê um livro de couro caído, apanha-o e abre-o. Olha para mim e comenta: – Então… se em vez de escrever você tratasse do aprumo das trincheiras es- távamos bem melhor. – Riem-se todos. Passa-me o meu diário. Raios!,quandoéqueeuescreviisto?Foi ontemdecerto.Andomesmorepetitivo, pudera!, todos os dias a viver o mesmo inferno. Releio as primeiras linhas: “A aurora abria-se e a claridade dos very-ligths vai sendo substituída pelo sol ainda pálido do início do estio…” ◗ 1 Escritor, jornalista e dramaturgo. 2 Frente da primeira Grande Guerra no norte de França. 3 Soldado que participou na Grande Guerra e que deixou um diário escrito. 4 Curandeiras vindas de Xangai, estabe- lecidas em Lisboa. Mário Escoto Envio de trabalhos para publicação neste suplementoDiário do Minho CulturaCultura Diário do Minho / Secção Cultural Rua de S.ta Margarida, 4 - 4710-306 Braga; Fax: 253609469. E-mail: cultura@diariodominho.pt 22.Maio. 2013 N.º 699 Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches nasceu em Cabanas de Viriato – Canas de Senhorim, a 19 de Junho de 1815, e faleceu a 3 de Abril de 1954 com 68 anos, em Lisboa. Vivendo em ambiente familiar católico, conservador e monár- quico, licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, seguindo a carreira diplomática e exercendo funções em inúme- ras delegações portuguesas por todo mundo, com desempenho notável, o que lhe granjeou re- putação e prestígio, recebendo condecorações e louvores. De eventual ascendência judaica muito remota e estando refe- renciado pertencer à linha des- cendente do Rei David, casado e com 14 filhos, protagonizou um desempenho de grande dimen- são humana e marco histórico, na salvação de mais de 30.000 refugiados, nomeadamente ju- deus,aquandodaSegundaGuerra Mundial, altura em que sendo Cônsul em Bordéus, facultou vistos de entrada para Portugal, contra as determinações do Go- verno Português, heroicidade já traduzida em filme e em livros. Esta atitude de não obediência, desencadeou procedimentos pu- nitivos, provocando o seu afasta- mento da carreira diplomática e proibindo-o de exercer advoca- cia, o que com o falecimento de sua esposa e vicissitudes infelizes da sua vida pessoal, contribuíram para que morresse na miséria, abandonado. O reconhecimento público e político, só ocorreu, inicialmente em Israel em 1960, com diversas manifestações promovidas por organizações ligadas à memória do Holocausto e posteriormente em Portugal após 1986, com a atribuição de inúmeras conde- corações a título póstumo e a reabilitação da sua memória, em diversos actos, programas e ini- ciativas de cariz político e cultural, sendo de grande valor simbólico, a iniciativa promovida para a re- construção da sua casa em Caba- nasdeViriato,queseencontraem ruínas e está classificada como Monumento Nacional. A comemoração do dia da morte de Aristides Sousa Mendes, a 3/4/1954, neste período Pascal, faz-nos recordar outro descen- dente da linha de David, que tão revolucionáriofoinosensinamen- tos que propagou e na vivência que protagonizou, entregando-se na ajuda a todos e para todos, acabandoabandonadoàinjustiça dos homens, mas reabilitado pela justiça divina. Que natureza é a nossa em que sendo protagonistas da maior heroicidade, somos capazes das maiores atrocidades, numa variabilidade imprevisível e irra- cional, para nós e para os outros, perdendo toda a dignidade que impregna o ser humano? O individualismo e o colectivis- mo fundem-se numa amálgama explosiva e clivante, provocando grandes rupturas individuais e sociais, impulsionando um percurso de vivência com falsas ideias e falseada felicidade, de final auto destrutivo. Reflectir com humildade, com a força dos valores morais e com o procedimento ético que deve nortear a nossa existência, será uma atitude corajosa a incutir na vida de cada um, nestes tempos também conturbados e confu- sos, e que Aristides Sousa Men- des traduziu na frase: “Se há que desobedecer, que seja a uma ordem dos homens e nunca a uma ordem de Deus”. ◗ A natureza humanaA natureza humana POR A. MANUEL DOS SANTOS MÉDICO PSIQUIATRA
  • 3.
    CulturaCultura IIIDiário doMinho QUARTA-FEIRA, 22 de maio de 2013 José Fernandes da Silva, poeta e músico natural de Braga e residen- te em Vila Verde, acaba de perfazer vinte anos de intensa criação artís- tica, tendo dado à estampa neste período mais de duas dezenas de obras do foro musical e poético. No ano de 1992, este profícuo e versátil autor iniciou-se nos dois géneros artísticos, ao publicar Cofre de Ternuras e Canções da Minha Escola. Nascido em 1948 na Lageosa, Sobreposta, José Fernan- des da Silva, em plena infância, ficou privado da visão num infeliz acidente, tragédia que não o im- pediu de prosseguir estudos e de se tornar telefonista-recepcionista. O seu gosto artístico levou-o porém a obter o Bacharelato em Composição, pelo Conservatório de Música Calouste Gulbenkian, título académico que lhe valeu a entrada no ensino oficial, sendo actualmente professor do quadro de Educação Musical na EB 2,3 de Moure, Vila Verde. Quando publicou Relicário (1993), José Manuel Mendes, numa das badanas da capa, diria que “a poesia de José da Silva Fernandes procura sempre o registo das vi- vências e das sensações pessoais.” E ao comentar o título seguinte (Celeiro de Retalhos, 1994), o mesmo escritor, aliás amigo de infância do autor, nota que “numa linguagem que muito deve aos ritmos populares e musicais das construções clássicas, a sua pala- vra fala das relações com a natu- reza e os seres, da vibração íntima e dos sentimentos, sem demitir o sobressalto metafísico, os registos solidários, a deceptividade ante o desconcerto do mundo”. A título de exemplo deste pensamento, citemos apenas a primeira quadra do poema Presto: “Queria ter um cavalo / mas um cavalo de vento / que a qualquer hora, num halo / me levasse o pensamento...” Paralelamente à publicação de poesia, José Fernandes da Silva foi dando à estampa também obras musicais, do foro lúdico, didáctico, religioso e tradicional (cantares de Natal, Reis e Janeiras). Quando vieram a lume as Aclamações ao Evangelho, já em 2009, o Padre António Rodrigues, fraterno com- panheiro do autor, abre o prefácio da obra com estas justas e ilumi- nantes palavras: “Não há ninguém que, tendo perseguido durante muitos anos, com toda a sua determinação e sem desânimos, um determinado objectivo, dele se possa dizer que se não apaixonou. E quem fez da escrita, música, poesia ou romance, o sonho dos seus dias e vai semeando como quem reparte pedaços da sua alma, esse já se tornou para todos mais que um luminar, um guia ou um exemplo; ele é um pedaço de todos nós, entra na nossa alma e fica cantando aí a sua música e dizendo aí as suas composições.” Palavras igualmente abonatórias, mas merecidas, recebeu-as o au- tor do escritor João Lobo, o qual, no prefácio de Barca de Esperan- ça (2000), assevera que “... dar à estampa um livro ilu- minado pela singeleza das coisas simples, por entre esta áspera fuzilaria a que chamamos civili- zação, é um momento grave de combate.” E mais à frente, o mes- mo escritor, sublinha que “... na sua simplicidade infinitamente como- vente (o poeta) soube deixar-nos ao lume da consciência um livro que arrancando do lirismo telúrico regional é sugestivamente rico em sensações visuais, fundamente catártico no seu pode emotivo, sincero nos temas que trata...”. Vejamos, como pequena ilustra- ção destas ideias, estes quatro decassílabos: “Com ternura recor- do aquele dia, / em que p’la vez primeira te encontrei; / o vendaval de frases, de alegria; / o prolonga- do abraço que te dei!” Já em 1997, Maria Teresa Lobato, a propósito de Alfobre de Amores, um título de poesia infanto-juvenil, dado à estampa três anos depois, dizia que “José Fernandes da Silva alude a sensações pessoais e a situações onde o sentir e a mu- sicalidade que lhe é inerente se revelam, onde a generosidade das dádivas simples mas significativas da vida se sobrepõe ao vazio das incongruências de certo mundo moderno e metropolitano.” A propósito do mesmo livro, Alfredo Pedrosa, ao escrever uma recen- são crítica no jornal da EB 2,3 de Vila Verde, adianta que (o poeta) surge-nos “como um homem que joga com as sílabas e as palavras de uma forma invulgarmente au- têntica, até instintiva, gostosamen- te entregue a um infinito espectá- culo de sensações, transpirando o ambiente bucólico em que temos a felicidade de estar inseridos de uma forma intensa e objectiva.” Também a escritora Maria do Céu Nogueira se associa a este laudé- mio generalizado, pois, segundo ela, “ler Alfobre de Amores foi pe- netrar no mundo maravilhoso da infância.” E prossegue: “Pela mão do seu autor, José Fernandes da Silva, apequenei-me e revivi, en- cantada, os meus tempos de me- nina. Cantei e dancei, fiz diabruras inocentes sob o olhar atento dos meus pais, trepei às árvores e aos muros da quinta onde nasci, provei todos os sabores dos frutos madu- ros, bebi, insaciável, a água pura e cristalina das fontes, nadei no Neiva, o rio das belas trutas, e corri, louca, pelos caminhos de erva fresca que calcava de pés descalços.” Quando o José Fernandes da Silva me convidou para prefaciar o seu mais recente título poético, Rama- lhete de Safiras (2012), reparei que a obra estava mergulhada num denso halo de misantropia, e que o seu costumado confessionalis- mo redentor e auto-compadecido declinava já para um tom elegíaco e passadista, e para a assumpção de um indisfarçável desencanto existencial. Deste modo, Rama- lhete de Safiras marca de forma iniludível a entrada de José Fer- nandes da Silva na senectude da vida, tanto mais que na sua in- trospecção contrita admite: “...aos poucos, começo a ver desfeito / o meu sonho de vida...”. Esta toada disfórica e lamentosa pode ver- -se em sonetos como o Cântico Final, onde o poeta confidencia: “Imensas vezes, Mãe, nas horas de amargura, / ugio nos teus dotes de ternura...” Em contraponto a esta derrota anímica, José Fernandes da Silva deita mão das sempre encantatórias redondilhas para abordar matéria mais comezinha e grácil, e para fugir talvez ao tormentório da existência: “A Lua infinita / é hóstia bendita /feita de luar: / formoso luzeiro, / que não tem parceiro / para o imitar!” Em Ramalhete de Safiras o leitor mergulha no perturbador lirismo de um poeta que persiste estoica- mente em renunciar aos sedutores cantos de sereia da sociedade contemporânea e se aferra aos va- lores perenes e inamovíveis do seu afectuoso ideário. Neste universo de grande coerência e solidez moral abundam não só poemas saídos do peito de um Eu lírico, de que cito, a título de exemplo, o primeiro dístico de Escravidão: “Era bem tempo de apagar o círio, / que alumia há anos o martírio...”; mas também poemas saídos de um Eu social, como se verifica em Outros Tempos: “Já não se reza o terço, como outrora, / nos pacífi- cos lares das aldeias...” A expressão de uma emoção redentora a um tempo e solidária a outro, leva o poeta a alimentar o gosto pelo bucólico: “Lua pura, véu da noite / derrama bento luar...”; pelo nostál- gico: “Já gozei dias felizes...”, pela contemplação: “Infindáveis tapetes de verdura...”, pela identificação com a dor alheia: “Jamais com- preendi qual a razão / dele tomar aquela decisão (...) atendendo a que foi arrebatado / por um golpe brutal da fera Sorte...”, e por todo um tipo de proposições que vão desde a confissão de desgostos pessoais até ao desagravo cris- tológico, passando por hinos ao amor conjugal, ao culto mariano e à saudade, esta bem expressa em elegias e epitáfios. Ramalhete de Safiras também é relicário de saudade e de luz sim- bólica de tudo o que é grandiosa- mente belo, como a misteriosa luz que nimba a noite e o dia, e que José Fernandes da Silva perdeu acidentalmente na sua infância. ◗ DoDo “Cofre de Ternuras” (1992)“Cofre de Ternuras” (1992) aoao “Ramalhete de Safiras” (2012)“Ramalhete de Safiras” (2012) No 20.º aniversário da vida literária de José Fernandes da SilvaNo 20.º aniversário da vida literária de José Fernandes da Silva POR FERNANDO PINHEIRO ESCRITOR O poeta e músico José Fernandes da Silva, autor de “Ramalhete de Safiras”, nasceu em Sobreposta (Braga) e vive em Vila Verde. O seu primeiro livro foi publicado há 20 anos.
  • 4.
    IV Diário doMinhoQUARTA-FEIRA, 22 de maio de 2013CulturaCultura Durante a primeira metade do século passado, viveu na fregue- sia de Barbudo, concelho de Vila Verde, um médico muito respei- tado, casado com uma senhora natural da freguesia da Lage, do mesmo concelho, pertencente a uma conceituada família da então, denominada “Quinta do Alferes”. Deste casamento não houve filhos, mas trouxeram da dita “Quinta do Alferes”, para sua companhia uma, irmã da esposa e uma filha desta. A irmã era mãe solteira. O médico era muito bondoso, e tinha fama de responder com prontidão e desvelo a quem o solicitasse na doença, mesmo para localidades de difícil acesso. Além de raramente cobrar honorários, era frequente deixar aos mais necessitados a sua contribuição para a compra dos medicamen- tos. Profundamente religioso, era católico praticante. Também era monárquico. Mais tarde, em 1927, a sobrinha, filha da irmã, contraiu matrimó- nio e todos ficaram a partilhar a mesma habitação, com a quinta anexa. Deste casamento nasceram onze filhos. Acontece que entre eles, em conversa divertida, por vezes, di- ziam que sua mãe era filha de um «Chasco». E brincavam com esta história de família sem qualquer sombra de maldade. Do seu nome verdadeiro nada sabiam. Que teria falecido vítima de um tiro de revólver que um filho da “Casa do Alferes” lhe terá disparado volunta- riamente, quando o mencionado «Chasco», que morava próximo, tentava aproximar-se da avó, com intenções um pouco suspeitas. Pois que de ambos já existia uma filha, que era a sua mãe. E tão con- vencidos e conformados viveram com esta versão, que nunca senti- ram necessidade de saber não só a identidade do avô, mas também as reais causas que motivaram a sua trágica morte. E, por isso, a maio- ria dos netos partiu deste mundo sem nunca ter conhecido o seu nome. Mas ficaram seus bisnetos e trinetos e consideramos que estes têm todo o direito, se o desejarem, de saber a sua identidade. Nesta conformidade fomos em demanda dessa história. Delimitadas as bali- zas temporais, fomos encontrá-la nos primeiros anos da República, encaixada em certos aconteci- mentos ocorridos no concelho de Vila Verde, e relatados pela im- prensa da época. Um pouco distante do rescaldo das comemorações do primei- ro centenário da implantação da República, achamos, mesmo assim, que teria interesse a sua divulgação. Os primeiros anos da República: ambiente político, social e económico do País. Nessa altura, em 1916, a Europa vivia mergulhada na Primeira Guerra Mundial – 1914-1918. Em Portugal, após a queda do governo de Bernardino Machado e a sua substituição por um ministério to- talmente democrático, o presiden- te Arriaga, alarmado com a vio- lência da luta política e cedendo a pressões dos seus amigos políticos e pessoais, decidiu intervir. Assim, em Janeiro de 1915, promovendo a demissão do Governo, confiou ao seu amigo pessoal, general Pimenta de Castro, a tarefa de organizar o ministério, com o fim de pacificar a Nação e de presidir, com imparcialidade, às eleições legislativas que se avizinhavam. Tinha o apoio dos Evolucionistas, dos Unionistas, de parte do exér- cito, e dos monárquicos, isto é, de todas as correntes opostas ao Partido Democrático. Muitos republicanos começaram a recear um perigo monárquico por detrás das medidas de tolerância governamentais. Fruto dessa situa- ção, no dia 14 de Maio de 1915, os democráticos fizeram eclodir uma revolução armada em Lisboa, que teve a participação da marinha, de parte do exército e de grande número de civis. Assim, Arriaga viu-se obrigado a demitir-se e o Congresso elegeu Teófilo Braga para completar o seu período presidencial. As eleições legislativas realizadas a 13 de Junho de 1915 deram aos demo- cráticos a maioria absoluta nas duas câmaras. Foram as primeiras eleições gerais na vigência da Constituição de 1911. Em Agosto, Bernardino Machado foi eleito presidente da República para o quadriénio 1915-1919. O novo parlamento iniciou a ses- são a 2 de Novembro de 1915 e manteve-se em funções até à sua dissolução, ocorrida no dia 6 De- zembro de 1917, na sequência do golpe de Estado de Sidónio Pais. Nos princípios de 1916, a Grã-Bre- tanha, deparando-se com dificul- dades crescentes na obtenção de transportes marítimos, solicitou de Portugal que requisitasse as deze- nas de navios mercantes alemães que se encontravam fundeados nos portos continentais, insulares e ultramarinos. Calculando os ris- cos e as vantagens, o governo por- tuguês procedeu à requisição das embarcações (Fevereiro de 1916). A Alemanha respondeu com a de- claração de guerra a Portugal (9 de Março). No dia seguinte, é Portugal que declara guerra à Alemanha. Perante essa grave situação do País, Democráticos e Evolucionis- tas assentaram na constituição de uma União Sagrada, cedendo Afonso Costa a presidência do Ministério ao seu antigo adver- sário António José de Almeida, Acontecimentos ocorridos no concelho deAcontecimentos ocorridos no concelho de Vila VerdeVila Verde em tempos conturbados da 1.ª Repúblicaem tempos conturbados da 1.ª República – uma história de família– uma história de família POR ANTÓNIO RODRIGUES MORAIS MESTRE EM HISTÓRIA DAS POPULAÇÕES PELA UNIVERSIDADE DO MINHO “Uns dias depois, o‘Commércio do Minho’ do dia 14 do mesmo mês de Novembro dá notícia de que na noite de sexta-feira, dia 10 de No- vembro, na freguesia da Lage, concelho de Vila Verde, Avelino José Ferreira, proprietário da‘Casa do Alferes’, de 28 anos, matou com um tiro de revólver, Domingos Gonçalves Pimentel, o ‘Chasco’, alfaiate de33anos, natural da freguesia de Gême, ambos residentes naquela freguesia da Lage, isto é, três dias após as referidas prisões.”
  • 5.
    CulturaCultura VDiário doMinho QUARTA-FEIRA, 22 de maio de 2013 conservando apenas a pasta das Finanças. O governo da União Sagrada teve de cumprir a difícil missão de organizar uma força expedi- cionária que fosse combater em França. Como consequência da guerra, as condições de vida das massas populares agravaram-se, escasseando os géneros de primei- ra necessidade, até ao extremo da fome. Os acontecimentos que abalaram o concelho de Vila Verde. Nessa altura, o País vivia num cli- ma de grande turbulência política e social, a que o concelho de Vila Verde não esteve imune. Nele ocorreram graves acontecimentos que os jornais da cidade de Braga, «Commércio do Minho» e outros, e ainda a “Folha de Vila Verde”, noticiaram e classificaram como “actos de malvadez”. Desses actos fizeram parte, no dia 4 de Novembro de 1916, em Vila Verde, a explosão de uma bomba no peitoril uma janela da casa da Câmara e, ainda na madrugada do mesmo dia, outra contra o posto do registo civil do lugar da Portela, freguesia de Atães. Reforçando o cariz marcadamen- te político, em Marrancos, fre- guesia do concelho de Vila Verde, explodiu outra bomba junto da casa do dr. Joaquim de Oliveira, deputado pelo círculo de Braga. Também foi noticiado que “foram cortados alguns postes da linha telegráfica e apareceram pinheiros atravessados nas estradas”. Igualmente na cidade de Braga explodiram bombas, em Maxi- minos, na casa do Sr. Bento de Oliveira, Governador Civil substi- tuto, e do Dr. Domingos Pereira, deputado por este círculo. Todas elas produziram apenas prejuízos materiais. O ambiente em que se vivia continuava a ser de muita tensão entre a Igreja e o poder instituído, fruto das medidas anticlericais que já vinham do Governo Provi- sório presidido por Afonso Costa. Embora a Igreja, em 1916, se tornasse mais flexível para com o novo regime, e no plano político começasse a firmar alianças com os elementos mais conservadores do republicanismo, porém, man- teve e não abandonou a aliança tradicional com a Monarquia e com os aristocratas. Por isso, não admira que sobre muitos sacerdotes do conce- lho de Vila Verde e sobre outros cidadãos ligados à Monarquia recaíssem as suspeitas de esta- rem por de trás dos mencionados acontecimentos. Nessa conformidade foram efec- tuadas prisões, continuando as investigações por parte das autoridades, de harmonia com a imprensa da época. O “Commercio do Minho”, de Bra- ga, de 9 de Novembro, relata que no passado dia 7 (3ª. feira), “transi- taram do comissariado da polícia para a cadeia civil de Braga, fican- do ali à disposição do Sr. Adminis- trador do concelho de Vila Verde, os presos que vieram daquela Vila sob arguição da autoria no caso das bombas ali lançadas”. Esta mesma notícia é-nos dada também pela “Folha de Vila Verde”, de 19 de Novembro, de forma pormenorizada: “de terem estado detidos no posto da guarda re- publicana e cadeia de Vila Verde, seguiram para Braga, escoltados por força armada”, os párocos das freguesias de Azões, de Duas Igrejas, da Loureira, de Aboim e alguns leigos. Noticia ainda o jornal vilaverden- se que “sob a acusação de pedi- rem votos e praticarem outros delitos também foram chamados à Administração, diversos cava- lheiros”. Eram provenientes das freguesias da Lage, de Vila Verde, do Pico, de Escariz, de Azões, e ainda os párocos de Doçãos, da Lage, de Godinhaços, de S. Cristóvão do Pico e da Portela e também padres de Valdreu e de Godinhaços. Assassínio de Domingos Gonçalves Pimentel – o «Chasco» Uns dias depois, o “Commércio do Minho” do dia 14 do mesmo mês de Novembro dá a notícia de que na noite de sexta-feira, dia 10 de Novembro, na freguesia da Lage, concelho de Vila Verde, Avelino José Ferreira, proprietário da “Casa do Alferes”, de 28 anos, matou com um tiro de revólver, Domingos Gonçalves Pimentel, o «Chasco», alfaiate, de 33 anos, natural da freguesia de Gême, ambos residentes naquela fregue- sia da Lage, isto é, três dias após as referidas prisões. Mas entre o dia 11 de Novembro, sábado, e o dia 13, segunda-feira, restituídos à liberdade todos os presos por nada se averiguar que os comprometesse. Sobre o homicídio, vejamos o que dizem documentos da época. Atingido o objectivo da identifica- ção desse ramo parental, fomos em busca das razões que provo- caram o homicídio, tendo como pano de fundo os graves aconte- cimentos relatados. A imprensa da cidade de Braga e local apontava que na origem da contenda estavam causas políticas e ainda outras anterio- res à proclamação da República. Que o “Chasco” era republicano e que teria ofendido gravemente a honra da família da “Casa do Al- feres”, que era monárquica, e que a partir daí tornaram-se inimigos irreconciliáveis. E à luz das notícias da imprensa e de documentos fidedignos, fomos compreendendo que, embora tenham existido causas remotas, a causa próxima do fatal desfecho terão sido as suspeitas que sobre si («Chasco») recaíram de ter de- nunciado junto da Administração do concelho Vila Verde alguns residentes na freguesia da Lage. Outros documentos referem que, perante o crime, o Administrador do concelho de então participou no dia seguinte – 11 de Novem- bro de 1916 –, ao Delegado do Procurador da República de Vila Verde, a ocorrência do homicí- dio. Comunicava “que no dia 10 de Novembro, seriam 19 horas, no lugar de Bouçós, freguesia da Lage, deste concelho, quando ali passava em companhia de outros indivíduos, manso e pacífico, foi, sem mais nem menos, assassi- nado a tiro de revólver ou pistola – Domingos Gonçalves Pimen- tel, solteiro, alfaiate, da mesma freguesia. Que o assassinado tinha ido desta Administração de prestar declarações sobre os últi- mos acontecimentos, sendo logo ameaçado”. Declarações de testemunhas que presenciaram o homicídio, sob palavra de honra! Todas as testemunhas relacio- naram esta morte com os graves acontecimentos deste concelho, porque o falecido era “republica- no e o homicida um autêntico monárquico”. Algumas narraram que pouco antes de se dar o assassinato estiveram com Avelino José Ferreira numa taberna sediada no lugar de Bouçós; que o referido Avelino convidara um grupo de homens que o acompanhavam para irem à sua residência beber uma pinga de vinho e ao pas- sar em frente ao assassinado, o Avelino disse a seguinte frase: “bamos comer quatro castanhas e beber uma pinga de água-pé para fazer teré-té-té para o Chas- co”; que chegados ao portão do Avelino apareceu neste momen- to o referido «Chasco» que lhe perguntou: Que é que quer ao «Chasco»? E num dado momento o homicida “mete a mão ao bolso, puxa de uma pistola, desfechando um tiro sobre o «Chasco», que caiu redondamente morto”. Outra mais disse que a seguir ao homi- cídio o Avelino pôs-se em fuga. Uma outra relatou que ouviu dizer ao Avelino que tinha queixa de um homem do lugar e dizendo que era o «Chasco» por este ter chamado à Administração do concelho algumas pessoas da sua freguesia. Os mesmos documentos dão-nos a conhecer que o Avelino con- fessou o crime e foi preso. Quatro meses passados foi transferido da cadeia para ser julgado no Tribu- nal no dia 26 de Abril de 1917. Referem, por fim, que o Avelino José Ferreira foi absolvido sem selos nem custas, com alegação de ter agido em legítima defesa. Nar- ram também que, enquanto o au- tor do homicídio tinha em sua mão um revólver, a vítima tinha apenas uma pedra com que o agredira. Convém insistir que se viviam tempos de grande conflitualidade, em que a Monarquia pretendia re- conquistar o poder e a República respondia, procurando defender- -se a todo o custo. Já em relação à justiça praticada durante estes primeiros anos, a História diz-nos que os tribunais da República, infelizmente, con- tinuavam a funcionar com um vasto número de juízes, confes- sadamente monárquicos e, nessa medida, suspeitos de julgarem parcialmente; e não era uma suspeição: o contrário também, é provável, que terá sido verda- deiro. Por fim, julgamos que no seio de outras famílias poderão eventual- mente contar-se episódios idên- ticos, que paixões, preconceitos e o próprio tempo terão deturpado. Em nossa opinião, seria interes- sante que pudessem ser confir- mados e devidamente enqua- drados no tempo, pois que desse trabalho talvez pudesse resultar algum ganho para a história das respectivas comunidades.◗ Vila Verde, Abril de 2013 Vila Verde, na actualidade
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    VI Diário doMinhoQUARTA-FEIRA, 22 de maio de 2013CulturaCultura “Em sintonia com o povo e o pároco, o Cóne- go Avelino de Jesus da Costa (na foto), natu- ral do Barral, é o grande promotor, a alma de todo este projeto, que integra ainda o novo Santuário da Senhora da Paz, edifício mais recente, em sistema basilical de três naves.” A caminho do centenário da Senhora da PazA caminho do centenário da Senhora da Paz Aparições do BarralAparições do Barral ocorreram há 96 anosocorreram há 96 anos POR LUÍS AREZES PROFESSOR DE LÍNGUA PORTUGUESA NO ENSINO SECUNDÁRIO PONTE PONTE DA BARCA DA BARCA Faltam quatro anos para o cen- tenário das aparições de Nossa Senhora, no lugar do Barral, Vila Chã S. João, Ponte da Barca. Tudo remonta a 1917. A Euro- pa continuava em guerra. Nas trincheiras lamacentas do velho continente caíam milhares de cadáveres e, na frente de batalha, estavam Portugueses, combatiam homens de Ponte da Barca! Por cá, Miguel Calheiros e Passos deci- dira, em 1916, erguer, no monte de Santa Rita, sobranceiro à sede do concelho, um monumento à Senhora da Paz. Longe de todo este mundo de afli- ções, vive, em “extrema pobreza”, o pequeno Severino Alves. Tem 10 anos de idade e reside com sua mãe, que enviuvara cinco meses antes, e com mais seis irmãos. Todo o seu tempo de menino é ocupado com os rebanhos, nas redondezas do Barral. No dia 10 de maio de 1917, Severi- no inicia o dia, com a mesma roti- na de sempre – o nosso pastor vai para os montes com as ovelhas. Nos seus dedinhos de miúdo, cor- rem as contas do terço que reza devotamente, aplicando metade pelo pai e a outra metade a Nossa Senhora. Até que, por volta das oito horas, numa ramada, perto da ermida de Santa Marinha, é surpreendido por uma enorme luz vinda do céu... É um clarão tão forte e tão brilhante que o menino fica possuído por um medo fasci- nante. Vencida a emoção, dá alguns pas- sos, atravessa um portelo e olha em redor. Nesse momento, avista uma Senhora! Tem as mãos postas e o indicador da mão direita desta- cado em determinada direção. O seu rosto é lindo, como nenhum outro. Veste-se de branco e um manto azul cobre-lhe a cabeça. Toda Ela é cheia de luz e de es- plendor! Fascinado com tamanha beleza celestial, o nosso pastor recua uns passos, maravilhado, e cai por terra. Readquirido o ânimo, ergue-se e exclama: – Jesus Cristo! Não voltou a ver a Senhora!... No dia seguinte, 11 de maio, sexta- -feira, quando passa no mesmo local com o rebanho, o portelo abre-lhe a alma para uma nova visão. Ali está, de novo, a Senhora cheia de graça e de luz. Severino cai por terra, de joelhos. Olha, depois, o rosto sorridente da Senhora e diz-lhe o que o seu pároco lhe havia aconselhado: – Quem não falou ontem, fale hoje... Então, a voz da aparição, “diferen- te do falar de todos os mortais”, manifesta-se, acalmando-o: – Não te assustes, sou Eu, menino! E prossegue: – Diz aos pastores do monte que rezem sempre o terço, que os homens e mulheres rezem o terço e cantem a “Estrela do Céu”. E as mães que têm os filhos lá fora que rezem o terço, cantem a “Estrela do Céu” e se apeguem Comigo, que hei de acudir ao mundo e aplacar a guerra. – Sim, Senhora! – responde Severi- no extasiado, ao que a visão, olhan- do para a ramada, acrescenta: – Que gomos tão lindos! Que cachos tão bonitos! O pastorinho olha e, quando se volta, vê que a extraordinária apa- rição já tinha desaparecido. Rezem o terço e cantem a “Estrela do Céu” A sua fé de criança garante-lhe que acabara de ser protagonista de um acontecimento sobrenatu- ral. Corre a espalhar a Boa Nova. Ele quer partilhar tão grande mara- vilha com as “mães dos filhos da localidade que estão no exército”. Entre outros, há um facto que a todos deixa perplexos: a referência à “Estrela do Céu”, uma oração que se cantava na freguesia, “quando havia alguma calamidade ou guer- ra”, mas que – segundo o pároco – caíra em desuso há mais de quatro décadas, pelo que o povo a desconhecia. Severino não estava, portanto, a faltar à verdade. E, “a todos quantos se acercam dele e põem em dúvida o que ele viu e relata, responde invariavelmente: – Se quiserem acreditar, que acreditem; se não quiserem, que não acreditem. Eu fiz a minha obrigação, avisando como me mandaram”. A notícia espalha-se pelas re- dondezas. De tal forma que, uma semana depois, no dia 17 de maio, festa da Ascensão do Senhor, juntam-se “já numerosos devotos no local das aparições”. No dia 1 de junho, primeira sexta- feira, chega ao conhecimento de Sebastião de Vasconcelos, advogado do Porto, com ligações familiares a Ponte da Barca. No dia seguinte, ele faz-se ao caminho. Vai ao encontro do pequeno Seve- rino. “E ali – lê-se num manuscrito inédito da sua autoria, divulgado pelo Cónego Avelinode Jesus da Capela da Senhora da Paz, no Lugar do Barral, freguesia de Vila Chã S. João (Ponte da Barca)
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    CulturaCultura VIIDiário doMinho QUARTA-FEIRA, 22 de maio de 2013 Costa –, no meio do povoado, entre crianças, ouvi a descrição simples e impressionante que me fez, que tem sido sempre invaria- velmente repetida”. Os elementos que recolhe nesta primeira viagem ao Barral dão corpo a dois artigos que, a 9 de junho de 1917, publica nos jornais católicos do Porto, “A Ordem” e “Liberdade”, e que temos seguido de perto nesta apresentação. O título é sugestivo: “Nossa Senhora do Barral?”. Peregrinos aos milhares Os textos despertam enorme interesse, esgotando-se ambos os jornais, facto que levou “A Ordem” a fazer uma separata do seu artigo para atender os inúmeros pedi- dos. No mesmo dia da publicação dos textos, o “Senhor Bispo do Porto aprovava a ‘Estrela do Céu’, concedendo 100 dias de indul- gência a quem a rezasse”. Desde aí, espalharam-se aos milhares as pagelas com a “Estrela do Céu” e os jornais publicaram-na, repeti- damente. A 28 de julho, “A Ordem” anuncia ter à venda a música da antífona. Em finais de 1917, Sebastião de Vasconcelos “mandou fazer uma estampa segundo as indicações do ‘vidente’ […], com a legenda Regina pacis na frente […] e ‘Súpli- cas à Virgem Santíssima pela paz’, no verso”. Muitos jornais divulgam, entretan- to, os artigos e publicam outras notícias, ao longo dos meses de verão, de tal modo que as apa- rições do Barral já eram pratica- mente conhecidas em todo o País e nas Ilhas Adjacentes, quando veio a público a primeira notícia das aparições de Fátima, que saiu em O Século, a 24 de julho de 1917. Face à repercussão dos aconteci- mentos do Barral, o “Sr. Arcebispo de Braga nomeou ‘uma comissão de graves e conceituados teólo- gos’, que foi ao local, logo a 20 de julho de 1917, para colher elemen- tos para o processo canónico, segundo informaram os ‘Echos do Minho’ (órgão oficioso da diocese de Braga) de 22 deste mês”. Os peregrinos acorrem aos mi- lhares, vindas das mais diversas terras. O jornal “A Ordem”, que apenas se refere ao caso de Fátima a 27 de outubro, divulga os acontecimentos do Barral com entusiasmo, em números seguidos. Nas edições de 16 e 17 de junho de 1917, diz que a “devo- ção do Terço do Rosário ganhou muito com a narrativa do caso do Barral” e noticia que “tem sido uma verdadeira peregrinação para o lugar do Barral, em Ponte da Barca, tantas são as pessoas que ali vão interrogar o pastorinho Severino Alves acerca da Aparição de Maria Santíssima e ver o local”. Esta afluência mantém-se durante vários anos, passando a diminuir depois de 1926. Nem seria de esperar outra coisa, pois, no local, nem sequer fora construída uma imagem, muito menos uma cape- la. A atenção e a devoção vão-se, progressivamente, concentrando em Fátima, onde Nossa Senhora se manifestara, dois dias mais tarde, a 13 de maio do mesmo ano... E, assim, as aparições da Senhora da Paz quase caem no esquecimento. Quase! Porque, 50 anos depois, Fátima cruzar-se-ia, de novo, com o Barral. Centro Mariano conhece uma nova alma Foram, de facto, os historiadores de Fátima que contribuíram para reavivar o interesse pela Senhora da Paz. Consultando a imprensa de 1917 para saberem o que se escrevera sobre a Cova de Iria e, assim, prepararem o 50.º aniver- sário destas aparições, acabaram por encontrar numerosos artigos sobre o Barral, situação que alte- rou o rumo dos acontecimentos. Em agosto de 1967, Fátima acolhe o XII Congresso Mariano Interna- cional para assinalar o cinquen- tenário das aparições. O Cón. Prof. doutor Avelino de Jesus da Costa, historiador e catedrático da Universidade de Coimbra, é con- vidado para colaborar e apresenta uma comunicação que desperta grande interesse: “As aparições de Nossa Senhora do Barral, a 10 e 11 de maio de 1917”. A devoção à Senhora da Paz está a ganhar nova alma. Com au- torização do Arcebispo Primaz, Avelino da Costa – também nas- cido no Barral e contemporâneo do vidente pastorinho – escreve uma série de artigos no “Diário do Minho”, que, em parte, são publi- cados nos jornais “Novidades”, “A Voz” e “O Povo da Barca”. E, em sintonia com o pároco e os seus conterrâneos, logo pede auto- rização para mandar fazer uma imagem e para erigir uma capela no local. A 24 de junho de 1967, a imagem da Senhora da Paz é benzida e colocada num nicho, à veneração dos fiéis. E a Confraria de Santa Ana decide promover a cons- trução da capela, cuja licença é assinada, em maio de 1968, por D. António Ribeiro, na altura bispo auxiliar de Braga e futuro cardeal patriarca. Muito trabalho e várias inaugurações Orçado em cerca de 400 contos, o templo é decorado com quartzo cristalizado e a inauguração acon- tece a 15 de setembro de 1969, com a bênção do vigário-geral da arquidiocese, o então cónego e futuro bispo auxiliar de Braga, D. Carlos Pinheiro. “A solene bênção e inauguração da capela-monumento atingiram um brilhantismo que ultrapassou o que era de esperar por ter sido em dia de semana, o tempo estar muito chuvoso e ter havido em alguns meios obstrucionismo à capela e à sua inauguração”, es- creve, na altura, Avelino de Jesus da Costa. O dia festivo, que mereceu uma reportagem da RTP, fica, entre outros aspetos, marcado também pela estreia do “Hino de Nossa Senhora da Paz”, letra de Castro Gil e música de Manuel Borda. Pouco tempo volvido, já a capela era considerada pequena para a afluência de devotos. Para reme- diar o mal, projeta-se a constru- ção de uma cave por baixo do adro e de uma pequena casa de recordações, junto da oliveira, que ficara como recordação de 1917. A 2 de maio de 1971, é benzida a cripta e o altar de quartzo, um enorme bloco cristalizado, o maior existente em Portugal, com cerca de três toneladas de peso. Neste ano, a festa da Senhora da Paz regista a presença de altas individualidades, tais como o go- vernador civil do distrito e o pre- sidente da Câmara Municipal de Ponte da Barca, sendo a procissão presidida pelo Vigário-Geral. Em 1972, a festa celebra-se a 20 de agosto, com a bênção e inau- guração dos painéis de azulejo que revestem as paredes da cripta e representam a Última Ceia, as aparições do Sagrado Coração de Jesus em Paray-le-Monial, as aparições de Nossa Senhora em La Salette, Lourdes, Pontmain, Fátima e Banneux, os Santuários Marianos da Peneda, Sameiro e Vila Viçosa, e também de dois pai- néis, cada um com seu anjo em saudação à Virgem Maria, tendo o da direita a legenda “Ave, Maria, cheia de graça” e o da esquerda “Por Maria a Jesus”. A 15 de Setembro de 1974, por ocasião do 5.º aniversário da bên- ção da Capela, é inaugurada uma imagem do Sagrado Coração de Jesus (4,20 m de altura), de braços abertos. Apesar da forte e persistente oposição... O Santuário da Senhora da Paz não pára de crescer, de se afirmar como um centro de vida espiritual e de devoção mariana. Apesar da “forte e persistente oposição de pessoas, que antes nos de- viam ajudar. A pretexto de que as aparições não foram ainda apro- vadas pela autoridade eclesiástica (mas também não foram rejeita- das por ela), faz-se campanha e obstrucionismo contra o templo e devoção a Nossa Senhora da Paz” – lamenta-se Avelino de Jesus da Costa, em outubro de 1976. Independentemente dos con- tratempos, no ano seguinte, a 29 de maio, acontece mais um momento-alto: é inaugurado o monumento ao Coração Imacu- lado de Maria, cerimónia que é testemunhada por um elevado número de devotos. São também erigidos monumentos ao Anjo da Guarda de Portugal e à Paz, este último constituído por um pe- destal de quartzo cristalizado, em cima do qual esvoaça uma pom- ba em bronze. O local é cada vez mais um ponto de atração de peregrinos e de muitos turistas, até do estrangeiro, sobretudo ingleses, atraídos, em geral, pela beleza da magnífica coleção de cristais de quartzo, considerada uma das melhores do mundo. Em sintonia com o povo e o pá- roco, o Cón. Avelino de Jesus da Costa é, ao longo deste período, o grande promotor, a alma de todo este projeto que integra ainda o novo Santuário da Senhora da Paz, edifício mais recente, em sistema basilical de três naves. Hoje, este é um centro com algum movimento religioso e tu- rístico. O dia maior é o da peregri- nação que se realiza no último do- mingo de maio. Mas, ao longo de todo o ano, várias são as pessoas que por lá passam, gente devota da Senhora da Paz, gente atraída pela beleza natural de um cenário com horizontes largos e convidativos, gente interessada numa visita aos monumentos e à Biblioteca-Museu que apresenta uma rica coleção de cristais de quartzo. É um património único, mas ainda pouco valorizado, seja ao nível do turismo de natureza, seja em termos de turismo religioso e até no âmbito pastoral. Ninguém está, evidentemente, obrigado a dar crédito às apa- rições, mas qualquer pessoa de bom senso terá de convir que a Senhora da Paz possui um enor- me potencial que permanece quase virgem. As celebrações do centenário, dentro de quatro anos, bem poderão ser a alavanca capaz de transfigurar o Barral, afirmando- o como um centro da devoção popular no Alto Lima e um local de visita obrigatória. Deus queira que assim aconteça! E que o homem sonhe, para que a obra nasça... Ponte da Barca, Maio de 2013 Monumento à Senhora da Paz e ao Imaculado Coração de Jesus, situado junto à Capela-santuário
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    VIII Diário doMinhoQUARTA-FEIRA, 22 de maio de 2013CulturaCultura Na Revista Cultural – DOM FAFES –, da Câmara Municipal de Fafe, no volume XVII, n.º 17/18, cor- respondente aos anos de 2010 e 2011, comemorativo do centená- rio da implantação da República, entre as diversas colaborações, acentuando aspectos da história local – ensino, saúde, cultura –, avulta o artigo, subordinado ao título em epígrafe, da autoria de D. Joaquim Gonçalves, com a colaboração do Prof. Doutor António Franquelim Neiva Soares, que vamos apreciar. Iniciamos estas breves notas, observando que este estudo resultou da convergência de duas circunstâncias, de certo modo, afins – a conclusão do Ano Sacerdotal, que assinalou os 150 anos da morte de S. João Maria Vianney, Cura d’Ars, em Junho de 2010, e o facto de, nesse mes- mo ano, D. Joaquim Gonçalves celebrar as bodas de ouro sacer- dotais, efemérides que se propôs comemorar na dupla perspectiva: pastoral e cultural, No plano pastoral, além do apro- fundamento da doutrina sobre o sacerdócio, efectuado no contex- to das celebrações festivas, reali- zadas na diocese de Vila Real e na sua terra natal, mereceu-lhe par- ticular atenção o problema das vocações sacerdotais, de tanta importância no contexto eclesial. A dimensão cultural, iniciada pela elaboração do elenco dos páro- cos de Revelhe, que foi possível identificar, com menção especial daqueles que o acompanharam ao longo da sua caminhada, desde a entrada no Seminário, até ao episcopado. A par desta, foi surgindo outra lista, tal como a precedente, destinada a revelar e perpetuar a memória dos padres oriundos desta mesma paróquia, fazendo-os emergir do silêncio dos arquivos paroquial e diocesa- no, este, há cem anos, apropriado pela República e, posteriormente, integrado do Arquivo Distrital de Braga. A organização destas listas de párocos e de padres naturais de Revelhe constitui um precioso contributo para a história des- ta paróquia e traduz, de forma inequívoca, a estreita ligação de D. Joaquim Gonçalves à sua terra natal, patente também noutros aspectos do estudo em análise. Nesse sentido, assumem particu- lar relevo os apontamentos sobre a vida autónoma das paróquias de Cortegaça e Revelhe, tendo a primeira sido incorporada na segunda, em data desconhecida, mas compreendida entre 1551 e 1571, possivelmente, por decisão de D. Frei Bartolomeu dos Már- tires, de cuja actividade pastoral, através da Arquidiocese de Braga, constam outros casos similares de uniões e desmembramentos. A título de exemplos, basta recor- dar que, em Melgaço, em 1572- -1573, uniu as de Santa Maria do Campo – actualmente, evocada na igreja da Misericórdia – e a de S. Facundo à de Santa Maria da Porta, e que, dada a extensão do couto e freguesia do Mosteiro de Paderne, dela desmembrou as de Párocos de RevelhePárocos de Revelhe e Padres naturais da Paróquiae Padres naturais da Paróquia Cubalhão e de Cousso, embora nos primeiros tempos conser- vassem uma ténue ligação à paróquia-mãe. Além de ter acompanhado a vida de Cortegaça, cuja referência mais antiga consta da doação de Pedro Toderigues à Sé de Braga, em 3 de Abril de 1157, até à sua incorporação em Revelhe, o Autor proporcionou aos inte- ressados um conjunto de infor- mações, por vezes contraditórias entre os autores citados, sobre a toponímia local, a começar pela de Cortegaça, não deixando de mencionar a arbitrariedade de alguns nomes mais recentes, que gostaria de ver alterados. Neste domínio, o caso mais estranho e incompreensível é o da barragem construída na freguesia de Reve- lhe, mas referida como sendo de Queimadela! Também aqui, a par do pormenorizado conhecimen- to da região, é patente o amor à terra que o viu crescer. Mas o grande objectivo deste estudo era revelar os nomes dos párocos de Revelhe, ampliada com a incorporação de Corte- gaça, e os dos sacerdotes daí oriundos, tendo identificado trinta e dois párocos, desde 1548 até à actualidade, e vinte e quatro pa- dres daí naturais, desde meados do século XV. Na impossibilidade de traçar a biografia de cada um deles, estes dois conjuntos foram enriquecidos com os dados pes- soais e outras informações que pôde reunir. Como estímulo à leitura atenta da lista dos párocos, observamos, apenas, que Domingos José Pereira (1791-1797) e José Joa- quim de Araújo (1812-1850) foram Cavaleiros da Ordem de Cristo, tendo o segundo permaneci- do nas funções paroquiais, em Revelhe, quase trinta e oito anos. Em data mais recente – podendo haver, ainda, quem dele se recor- de –, pastoreou esta freguesia o P. Francisco José Galvão (1907- -1930), que, além de exímio violi- nista e flautista, ligou o seu nome à paróquia que lhe estava confia- da, pela acção cultural, concreti- zada na organização de «Banda de Revelhe», que tanto prestígio continua a ter. Quanto aos vinte e quatro sacer- dotes naturais de Revelhe, a que, na segunda metade do século XVI, ficou definitivamente ligada Cortegaça, apraz-nos anotar que os quatro últimos: José Gonçal- ves, Joaquim Soares, D. Joaquim Gonçalves e Albano Nogueira, estão, felizmente vivos, aos quais desejamos longa vida e óptima saúde. Também em relação a eles, não sendo necessário deter- nos em aspectos biográficos, porque bem conhecidos, vem a propósito observar que os irmãos Gonçalves (José e D. Joaquim) são naturais do lugar de Cortega- ça, que perpetua a memória da extinta paróquia, acima referida. Acerca do autor, D. Joaquim Gonçalves, seria grave omitir que, após a formação humanísti- ca e teológica nos Seminários de Braga, licenciou-se em Filosofia, na Faculdade de Letras do Porto, POR PROF. DOUTOR JOSÉ MARQUES PROFESSOR APOSENTADO DA UNIVERSIDADE DO PORTO leccionou no ensino secundário e, após a ordenação episcopal, foi Bispo Auxiliar de Braga, Coadjutor e Titular de Vila Real, de que é Bispo Emérito. Os resultados deste estudo, apesar do longo período crono- lógico abrangido e não obstante algumas lacunas, são muito positivos e proporcionam dados históricos, para os tempos mais remotos, geralmente desconhe- cidos, integrando-se, por isso, nos objectivos culturais da Revista Municipal, que o acolheu. Resta, agora, esperar que, no futu- ro, surjam respostas semelhantes ao convite dirigido por D. Joaquim Gonçalves aos páro- cos da sua antiga diocese de Vila Real, no cinquentenário da sua ordenação sacerdotal, para faze- rem listas «dos seus antecesso- res, a fim de manter viva entre o povo a memória dos respectivos pastores e estimular as vocações ao sacerdócio», convite que bem se pode tornar extensivo aos das outras dioceses portuguesas. ◗ D. Joaquim Gonçalves, Bispo Emérito de Vila Real (natural de Revelhe – Fafe)