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Sedu¸˜o dos Zumbis Cibern´ticos
                     ca                   e

                                     Hakim Bey

                               18 de agosto de 1997


   (Para Konrad e Marie)
    Para come¸ar, ajudaria se pud´ssemos falar sobre redes (nets) em vez de A Rede (The
              c                   e
Net). Apenas os mais extr´picos crentes na Net ainda sonham com ela como solu¸˜o
                            o                                                         ca
final. Pensadores mais realistas rejeitaram a cyber-soteriologia, mas aceitam a Rede como
ferramenta (ou arma) vi´vel. Eles concordariam que outras redes devem ser configuradas
                        a
e mantidas simultaneamente com ”a”Rede – de outra maneira, ela se torna apenas outro
meio de aliena¸˜o, mais envolvente que a TV, talvez, mas de qualquer maneira mais total
              ca
em sua hipnose.
    As outras redes obviamente incluem – primeira e principalmente – padr˜es de conv´
                                                                         o           ıvio
e comunicatividade. Empresto este termo da frenologia do s´culo XIX – aparentemente
                                                             e
existe um calombo de comunicatividade em algum lugar no crˆnio – mas eu o uso para
                                                               a
significar algo como o ”di´logo”de Bakhtin transposto para o registro do social; onde o
                            a
conv´ıvio implica presen¸a f´
                         c ısica, a comunicatividade pode tamb´m incluir outras m´
                                                                e                  ıdias.
Mas – como o hermetismo nos ensina – o ato positivo do significado comunicativo, seja
cara-a-cara (mesmo que sem fala), ou mediado simbolicamente (por texto, imagem, etc.),
´ sempre confrontado por sua negatividade. Nem toda a ”comunica¸˜o”comunica, mapa
e                                                                  ca
n˜o ´ territ´rio, e assim vai. ”Programas interativos”n˜o tˆm o menor sentido entre seres
  a e       o                                          a e
vivos, mas, de fato, nenhum meio ´ privilegiado ou completamente aberto. Como Blake
                                    e
poderia dizer, cada meio tem a sua forma e o seu espectro.
   O que precisamos, ent˜o, ´ uma ”an´lise espectral”Blakeana da Net. Uma ”an´lise
                          a e           a                                         a
Fourierista”tamb´m poderia ser util (n˜o o Fourier matem´tico, mas o Fourier Socialista
                 e              ´     a                 a
Ut´pico). Mas estes fil´sofos eram verdadeiros hermeticistas, enquanto n´s podemos
  o                     o                                                 o
apenas colar alguns cacos sobre o que quer que seja.
    A quest˜o impl´
             a      ıcita: – a Net vai al´m do prop´sito de comunicatividade, e pode
                                         e           o
ser usada como ferramenta para ”maximizar o potencial para emergir”de situa¸˜es de
                                                                                co
conv´ıvio? Ou existe um ”efeito contraproducente paradoxal”(como Ilich diria)? Em ou-
tras palavras: a sociologia das institui¸˜es (e.g. educa¸˜o, medicina) chega ` rigidez
                                        co              ca                    a
monopol´ ıstica e come¸a a produzir o oposto do efeito pretendido (a educa¸˜o estupidi-
                       c                                                  ca
fica, a medicina faz adoecer). A m´  ıdia tamb´m pode ser analisada desta maneira. A
                                              e
m´ıdia de massa, considerada como entidade paradoxal, se aproximou de um limite de
enclausuramento total pela imagem – uma crise da estase da imagem – e de completo
desaparecimento da comunicatividade. O que se considerava que tornava a Net t˜o singu-
                                                                              a
lar eram os seus padr˜es ”de-muitos-para-muitos”, tendo como implica¸˜o a possibilidade
                      o                                              ca

                                           1
de uma democracia popular eletrˆnica. A Net ´ uma institui¸˜o, pelo menos no sentido
                                  o             e             ca
lato da palavra. Ela serve ao seu prop´sito ”original”, ou h´ um efeito contraproducente
                                      o                     a
paradoxal?
     Outro padr˜o original dentro da Net ´ a sua descentralidade (sua heran¸a ”militar”);
                a                          e                               c
isto lan¸ou a Net numa esp´cie de guerra com os governos. A Net ”cruza fronteiras”como
         c                   e
um v´  ırus. Mas nisto a Net partilha certas qualidades com, digamos, as corpora¸˜es co
transnacionais (”zaibatsus”) – e com o pr´prio Capital nˆmade. O ”nomadismo”tem sua
                                            o            o
pr´pria forma e espectro. Como a Na¸˜o Islˆmica dos Cinco Porcento coloca, ”nem todo
   o                                  ca      a
irm˜o ´ um irm˜o”. A molecularidade ´ uma t´tica que pode ser usada contra e a favor da
     a e        a                      e        a
nossa autonomia. Estar informado compensa. E podemos ter certeza que a Inteligˆncia e
Global paga bem por sua informa¸˜o; – certamente a Net j´ est´ completamente penetrada
                                 ca                      a a
pela vigilˆncia... cada bit de um email ´ um cart˜o postal para Deus.
           a                             e        a
    Os nossos exemplos favoritos do uso imaginativo e insurreicion´rio da Net – o Caso
                                                                  a
McCal´nia, o Caso da Cientologia, e acima de tudo os Zapatistas – provam que a es-
       u
trutura descentralizada de muitos-para-muitos tem potencial de verdade (o McDonalds
ganhou a batalha mas parece estar perdendo a guerra – as franquias ca´  ıram em 50%!).
Ludditas que negam isto simplesmente est˜o se fazendo parecer desinformados – e muito
                                          a
mal dispostos na dire¸˜o das boas causas. Os Ludditas originais n˜o eram quebradores
                      ca                                           a
de m´quina indiscriminados – eles tencionavam defender seus teares manuais e o trabalho
     a
em casa contra a mecaniza¸˜o e centraliza¸˜o nas f´bricas. Tudo depende da situa¸˜o, e
                          ca              ca      a                               ca
a tecnologia ´ apenas um fator numa situa¸˜o complexa e superestimada. Exatamente o
             e                            ca
que ´ que precisa ser esmagado?
    e
    O Capital Global abra¸a abertamente a Net por que a Net parece ter a mesma estrutura
                         c
do Capital Global. Ele anuncia a Net como O Futuro Agora, e protege os cidad˜os       a
virtuais desses governos velhos e maus. Afinal, a Net ´ mesmo o paradigma de um
                                                          e
Mercado Livre, n˜o? O sonho de um Libert´rio. Mas secretamente o Capital Global
                   a                          a
(perdoem pela fal´cia pat´tica – puxa, eu n˜o consigo parar de reificar o Capital...)...
                   a       e                 a
secretamente, o Capital Global deve estar doente de preocupa¸˜o. Bilh˜es de d´lares de
                                                              ca        o       o
investimento foram tragados pela Net, mas a Net parece agir como um astro eclipsado: –
h´ um efeito de penumbra, mas o planeta est´ negro. Talvez um buraco negro. Afinal,
  a                                           a
Hawking provou que mesmo buracos negros produzem uma quantidade m´       ınima de energia
– alguns milh˜es de pratas, talvez. Mas essencialmente n˜o h´ dinheiro circulando na
               o                                            a a
Net, nem dinheiro saindo dela. Parece que a Net pode agir metaforicamente como uma
”feira livre”at´ certo ponto (possivelmente bem mais do que j´ age) – mas falhou em
               e                                                a
se desenvolver como um Grande Mercado. A WWW n˜o parece estar ajudando muito
                                                        a
neste ponto. A ”Realidade Virtual”come¸a a se parecer com mais um futuro perdido.
                                          c
IntraNets, transmiss˜o personalizada de dados e ”televis˜o interativa”s˜o as estrat´gias
                     a                                   a               a          e
propostas pelos Zaibatsus para colonizar o que resta da Net. O e-cash n˜o parece estar
                                                                           a
dando conta.
    Enquanto isso, a Net toma o aspecto n˜o apenas de uma feira livre sem corpo, mas
                                           a
tamb´m de uma favela ps´
      e                   ıquica. Avatares predat´rios – desinformacionistas – dados so-
                                                 o
bre trabalho escravo nas pris˜es americanas – cyber-estupro (viola¸˜o do corpo de dados)
                             o                                    ca
– vigilˆncia invis´ – ondas de pˆnico (Pedofilia, Nazistas-na-Net, etc) – invas˜es mas-
        a         ıvel            a                                              o
sivas de privacidade – propaganda – todo tipo de polui¸˜o ps´
                                                         ca    ıquica. Sem mencionar a
possibilidade de lavagem cerebral biˆnica, s´
                                    o       ıdrome do t´nel carpal, e a sinistra presen¸a
                                                        u                              c

                                           2
em cinza e verde das pr´prias m´quinas, como nos cen´rios dos velhos filmes de ficc¸˜o
                        o       a                   a                            ca
cient´
     ıfica (o futuro como design pobre).
   De fato, como Gibson previu, a Net j´ est´ virtualmente assombrada. Cemit´rios
                                            a    a                                  e
na web para cyber-mascotes mortos – obitu´rios falsos – Tim Leary ainda mandando
                                              a
mensagens pessoais – mestres ascensos do ”Heaven’s Gate-- sem mencionar a j´ vasta ar-
                                                                              a
queologia da pr´pria Net, os n´
                o             ıveis da Arpa, velhas BBSs, linguagens esquecidas, p´ginas
                                                                                  a
da web abandonadas. De fato, como algu´m disse na ultima conferˆncia da NETTIME
                                           e           ´            e
em Liubliana, a Net j´ se tornou um tipo de ru´ romˆntica. E aqui, no n´ mais ”es-
                      a                         ına    a                   ıvel
pectral”da nossa an´lise, repentinamente a Net come¸a a parecer... interessante de novo.
                    a                                c
Uma pitada de horror g´tico. A sedu¸˜o dos Zumbis Cibern´ticos. Fin-de-millenium,
                         o              ca                     e
flores de estufa, l´udano.
                  a
   Enfim.
   Vivemos num pa´ em que 1% da popula¸˜o controla metade do dinheiro – num mundo
                    ıs                       ca
onde menos que 400 pessoas controlam metade do dinheiro – onde 94.2% de todo o di-
nheiro se refere apenas a dinheiro, n˜o a produ¸˜o de qualquer tipo (exceto de dinheiro);
                                     a          ca
– um pa´ com a maior popula¸˜o carcer´ria per capita do mundo, onde ”seguran¸a”´ a
         ıs                     ca        a                                        c e
unica ind´stria que cresce (fora a do entretenimento), onde uma insana guerra `s drogas
´         u                                                                    a
e ao meio-ambiente ´ concebida como a ultima fun¸˜o v´lida do governo; – um mundo
                      e                    ´         ca a
de ecoc´ıdio, agrobusiness, desflorestamento, assassinato de popula¸˜es ind´
                                                                  co       ıgenas, bioen-
genharia, trabalho for¸ado – um mundo constru´ na afirma¸˜o de que o lucro m´ximo
                        c                        ıdo         ca                    a
para 500 empresas ´ o melhor plano para toda a humanidade – um mundo em que a
                     e
imagem total absorveu e sufocou as vozes e mentes de cada falante – em que a imagem
da troca tomou o lugar de todas as rela¸˜es humanas.
                                         co
    Em vez de resmungar clichˆs liberais sobre tudo isto – ou levantar a perturbadora
                                e
quest˜o da ”´tica-- permita-me simplesmente comentar como um anarquista Stirneriano
      a       e
(um ponto de vista que ainda acho util depois de todos estes anos): – presumindo que o
                                     ´
mundo seja a minha ostra, eu estou em guerra pessoal contra todos os ”fatos”acima, por
que eles violam os meus desejos e impedem os meus prazeres. Portanto, procuro alian¸a    c
com outros indiv´ıduos (numa ”uni˜o de independentes”) que partilham de minhas metas.
                                   a
Para os Stirnerianos de esquerda, a t´tica favorita sempre foi a Greve Geral (o mito
                                        a
Soreliano). Em resposta ao Capital Global n´s precisamos de uma nova vers˜o deste mito
                                             o                               a
que possa incluir estruturas sindicalistas mas n˜o se limitar a elas. O velho inimigo dos
                                                a
anarquistas sempre foi o Estado. Ainda temos o Estado para nos preocupar (seguran¸as    c
no Shopping universal), mas claramente os inimigos reais s˜o os zaibatsus e bancos (o
                                                             a
maior erro na hist´ria revolucion´ria foi a falha em dominar o Banco em Paris, 1871).
                   o              a
Num futuro muito pr´ximo haver´ uma guerra contra a estrutura OMC/FMI/GATT do
                      o           a
Capital Global – uma guerra de desespero claro, alimentada por um mundo de indiv´    ıduos
e grupos orgˆnicos contra as corpora¸˜es e ”o poder do dinheiro”(i.e., o pr´prio dinheiro).
             a                       co                                    o
De preferˆncia uma guerra pac´
         e                     ıfica, como uma grande Greve Geral – mas realisticamente
cada um deve se preparar para o pior. E o que precisamos saber ´, o que a InterNet pode
                                                                  e
fazer por n´s?
           o
   Obviamente uma boa revolta precisa de bons sistemas de comunica¸˜o. Neste mo-
                                                                     ca
mento no entanto eu preferiria transmitir meus segredos conspirat´rios (se eu tivesse
                                                                 o
algum) pelos Correios em vez da Net. Uma conspira¸˜o realmente bem-sucedida n˜o
                                                    ca                             a


                                            3
deixa rastro em papel, como a Revolu¸˜o da L´
                                       ca       ıbia de 1969 (mas, na ´poca, os gram-
                                                                       e
pos telefˆnicos ainda eram bastante primitivos). Mais do que isto, como poder´
         o                                                                   ıamos ter
certeza que o que vimos na Net era informa¸˜o e n˜o desinforma¸˜o? Especialmente se
                                            ca      a            ca
nossa organiza¸˜o existe apenas na Net? Falando como Stirnerita, eu n˜o quero banir
                ca                                                       a
assombra¸˜es da minha cabe¸a apenas para encontr´-las de novo na tela. Luta de rua
          co                  c                      a
virtual, ru´
           ınas virtuais. N˜o parece uma proposi¸˜o vantajosa.
                           a                    ca
    Mais perturbador para n´s seria a qualidade ”gn´stica”da Net, sua tendˆncia ` ex-
                             o                         o                     e      a
clus˜o do corpo, sua promessa de transcendˆncia tecnol´gica da carne. Mesmo que algu-
    a                                       e             o
mas pessoas tenham ”se conhecido pela Net”, o movimento geral ´ rumo ` atomiza¸˜o –
                                                                  e       a        ca
”ca´ sozinho em frente ` tela”. O ”movimento”hoje presta muita aten¸˜o ` m´
   ıdo                    a                                              ca a ıdia em
geral por que o poder virtualmente nos iludiu – e dentro do speculum da Net o seu reflexo
zomba de n´s. A Net como substituto ao conv´
            o                                    ıvio e ` comunicatividade. A Net como
                                                         a
uma m´ religi˜o. Parte do transe midi´tico. A comoditiza¸˜o da diferen¸a.
       a      a                       a                     ca          c
    `
    A parte a cr´ ıtica da Net do ponto de vista da Soberania Individual, n´s poder´
                                                                                 o       ıamos
tamb´m lan¸ar uma an´lise de uma posi¸˜o Fourierista. Aqui no lugar de indiv´
      e      c             a                 ca                                           ıduos
n´s considerar´
 o              ıamos a ”s´rie”, o grupo b´sico Passional sem o qual cada ser humano
                             e               a
permanece incompleto – e o Falanst´rio, ou S´rie completa de S´ries (m´
                                        e        e                      e        ınimo de 1620
membros). Mas a meta permanece a mesma: – o agrupamento ocorre para maximizar os
prazeres ou o ”luxo”para os membros do grupo, Paix˜o sendo a unica for¸a vi´vel de coes˜o
                                                       a            ´       c     a          a
social (de fato, nesta base n´s poder´
                               o        ıamos considerar uma ”s´   ıntese”de Stirner e Fourier,
na aparˆncia polarmente opostos). Para Fourier, a Paix˜o ´ por defini¸˜o incorporada;
         e                                                    a e             ca
todo o ”networking”´ mantido via presen¸a f´
                        e                    c ısica (apesar dele permitir pombos-correio
para comunica¸˜o entre Falanst´rios). Como um m´
                ca                 e                    ıstico dos n´meros, Fourier bem que
                                                                      u
poderia gostar do computador – na verdade ele inventou o ”namoro por computador”, de
certa maneira – mas ele provavelmente desaprovaria qualquer tecnologia que envolvesse
a separa¸˜o f´
          ca ısica (eu creio que foi Balzac quem disse que para Fourier o unico pecado
                                                                                   ´
era almo¸ar sozinho). Conv´
          c                    ıvio no sentido mais literal – idealmente, a orgia. ”Atra¸˜o ca
Passional”funciona por que cada um tem Paix˜es diferentes: a diferen¸a j´ ´ ”luxo”. O
                                                 o                          c ae
corpo de dados, o corpo na tela, ´ apenas metaforicamente um corpo. O espa¸o entre n´s
                                    e                                                c       o
– o ”medium-- deve ser preenchido com Raios Aromais, zod´        ıacos de luz brilhante (novas
cores!), profus˜es de frutas e flores, os aromas da cozinha gastros´fica – e finalmente o
               o                                                         o
espa¸o deve ser fechado, curado.
     c
    Outra cr´ıtica da Net poderia ser feita de uma perspectiva Proudhoniana (Proudhon
foi influenciado por Fourier, apesar de fingir que n˜o foi. Ambos eram de Bezan¸on, como
                                                    a                              c
Victor Hugo). Proudhon era mais ”progressivo”quanto a tecnologia do que nossos outros
exemplos, e seria interessante ver que tipo de papel ele teria para a Net em seu futuro ideal
de Mutualismo e anarco-federa¸˜o. Para ele, ”governo”era meramente uma quest˜o de
                                 ca                                                     a
administra¸˜o da produ¸˜o e troca. Os computadores poderiam se provar como ferramen-
           ca            ca
tas uteis sob estas condi¸˜es. Mas Proudhon, assim como Marx, sem d´vida modificaria
     ´                    co                                               u
sua vis˜o otimista da tecnologia se fosse consultado hoje da sua opini˜o: – a m´quina
        a                                                                  a          a
como polui¸˜o social, a pr´pria tecnologia (e por implica¸˜o, o Trabalho) como aliena¸˜o.
            ca             o                               ca                             ca
Este argumento foi obviamente feito por Marxistas libert´rios, anarquistas Verdes, etc.
                                                              a
– descendentes leg´ ıtimos de Marx e Proudhon, como Marcuse ou Ilich. N˜o seria justo
                                                                               a
considerar a InterNet fora desta cr´ ıtica da tecnologia. (Tampouco a bioengenharia.) O
trabalho de Benjamin, Debord e at´ Baudrillard (at´ ele ter ca´ exausto) torna claro que
                                    e                 e          ıdo


                                              4
a imagem total – ”a m´ ıdia-- tem um papel central nesta cr´
                                                           ıtica. Proudhon questionaria a
Net quanto a justi¸a, e quanto a presen¸a.
                  c                    c
    Mas eu preferiria focar mais estritamente na quest˜o da imagem. Aqui n´s poder´
                                                      a                        o        ıamos
retornar a Blake como nosso ”martelo filos´fico”(Nietzsche queria realmente dar a enten-
                                             o
der uma esp´cie de diapas˜o), uma vez que estamos falando do ´
              e             a                                        ıdolo, da imagem. Eu
argumentaria que estamos sofrendo uma crise de superprodu¸˜o da imagem. N´s esta-
                                                                ca                    o
mos, como Giordano Bruno colocou, ”acorrentados”, hipnotizados pela imagem. Em tal
caso n´s precisamos ou de uma dose saud´vel de iconoclastia, ou ent˜o (ou tamb´m) um
       o                                    a                           a             e
tipo mais sutil de senso cr´ıtico herm´tico, uma libera¸˜o da imagem pela imagem. Na
                                        e                ca
verdade, Blake nos supriu com ambos – ele era tanto um esmagador-de-´       ıdolos quanto si-
multaneamente um hermetista que usava imagens para a liberta¸˜o, tanto pol´
                                                                  ca             ıtica quanto
espiritual. Hermetistas entendem que o ”hier´glifo”, a imagem/texto ou comunica¸˜o me-
                                               o                                      ca
diada (simb´lica), tem um efeito ”m´gico”, ultrapassando a consciˆncia racional linear e
             o                         a                              e
                                        e ´
influenciando profundamente a psiquˆ. E por isso que Blake dizia que uma pessoa deve
fazer seu pr´prio sistema ou ent˜o ser escravo do sistema de outros. A autonomia da
             o                     a
imagina¸˜o ´ um alto valor para o hermetismo – e a cr´
         ca e                                           ıtica da imagem ´ a defesa da ima-
                                                                          e
gina¸˜o. A tela ´ um aspecto da imagem que n˜o pode escapar desta ”an´lise espectral--
     ca         e                                a                           a
a m´ıdia como ”moedores satˆnicos”.
                              a
    Parece que n˜o h´ mesmo como fugir da tecnologia ou da aliena¸˜o. A pr´pria techn´
                a a                                                ca       o          e
´ pr´tese da consciˆncia, e, portanto, insepar´vel da condi¸˜o humana (linguagem inclusa
e o                e                          a            ca
aqui como techn´). A Tecnologia como a fus˜o ´bvia de techn´ e linguagem (a magnitude
                e                            a o               e
ou ”raz˜o”da techn´) tem sido simplesmente uma categoria da existˆncia humana desde
        a           e                                                e
pelo menos o Paleol´ ıtico. Mas – podemos perguntar at´ que ponto o pr´prio cora¸˜o foi
                                                         e               o       ca
substitu´ por um ´rg˜o artificial? At´ que ponto uma determinada tecnologia ”surta”e
         ıdo         o a                 e
come¸a a produzir uma contraprodutividade paradoxal? Se pud´ssemos alcan¸ar um
     c                                                             e            c
consenso nisto, ainda existiria motivo para falar de determinismo tecnol´gico, ou o ma-
                                                                          o
quinismo como destino? Neste sentido, os velhos Ludditas merecem alguma considera¸˜o.
                                                                                    ca
A techn´ deve servir ao ser humano, n˜o definir o ser humano.
        e                               a
    Precisamos (aparentemente) aceitar a inevitabilidade da consciˆncia, mas apenas na
                                                                    e
condi¸˜o de que n˜o ser´ a mesma consciˆncia. Suspeitamos que a consciˆncia racional,
      ca             a     a                e                               e
maqu´  ınica, linear, aufklaerung, universal governou em muito tempo numa tirania – ou
”monop´lio”. N˜o h´ nada de errado com a raz˜o (na verdade n´s poder´
           o      a a                             a               o       ıamos usar bem
mais dela) mas o racionalismo parece uma ideologia fora de moda. A raz˜o deve divi-
                                                                              a
dir o espa¸o com outras formas de consciˆncia: consciˆncia psicotr´pica, ou consciˆncia
             c                               e          e            o               e
xamˆnica (que n˜o tem nada a ver com ”religi˜o”, como ´ usualmente definida) – bi-
     a              a                              a           e
oconsciˆncia, o discernimento sistˆmico do ideal herm´tico da terra viva – consciˆncia
          e                          e                   e                           e
´tnica ou cultural, modos diferentes de ver – povos ind´
e                                                       ıgenas – ou os Celtas – ou o Isl˜ –
                                                                                        a
consciˆncias de ”identidade”de todos os tipos – e consciˆncias de trans-identidade. Uma
        e                                                 e
variedade de consciˆncias parece ser o unico campo poss´ para a nossa ´tica.
                      e                  ´                ıvel             e
   Ent˜o, e quanto a consciˆncia da InterNet? Ela tem seus aspectos n˜o-lineares, n˜o
      a                    e                                         a             a
tem? Se pode existir uma ”racionalidade do maravilhoso”, n˜o h´ um lugar para a Net
                                                          a a
no banquete?
   No fim, n´s devemos nos contentar com a ambig¨idade. Uma resposta ”pura”´ im-
           o                                    u                         e
poss´ aqui – iria feder a ideologia. Sim e n˜o.
    ıvel                                    a


                                             5
Mas – ”Entre o Sim e o N˜o, estrelas caem do c´u e cabe¸as voam do pesco¸o”, como
                           a                      e         c              c
o grande sufi Shayk Ibn Arabi disse ao fil´sofo Aristot´lico Aver¨es.
                                        o            e         o
   Uma imagem adequada para uma ru´ romˆntica...
                                  ına  a

                                                                Revisado por Bruno Cardoso




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  • 1. Sedu¸˜o dos Zumbis Cibern´ticos ca e Hakim Bey 18 de agosto de 1997 (Para Konrad e Marie) Para come¸ar, ajudaria se pud´ssemos falar sobre redes (nets) em vez de A Rede (The c e Net). Apenas os mais extr´picos crentes na Net ainda sonham com ela como solu¸˜o o ca final. Pensadores mais realistas rejeitaram a cyber-soteriologia, mas aceitam a Rede como ferramenta (ou arma) vi´vel. Eles concordariam que outras redes devem ser configuradas a e mantidas simultaneamente com ”a”Rede – de outra maneira, ela se torna apenas outro meio de aliena¸˜o, mais envolvente que a TV, talvez, mas de qualquer maneira mais total ca em sua hipnose. As outras redes obviamente incluem – primeira e principalmente – padr˜es de conv´ o ıvio e comunicatividade. Empresto este termo da frenologia do s´culo XIX – aparentemente e existe um calombo de comunicatividade em algum lugar no crˆnio – mas eu o uso para a significar algo como o ”di´logo”de Bakhtin transposto para o registro do social; onde o a conv´ıvio implica presen¸a f´ c ısica, a comunicatividade pode tamb´m incluir outras m´ e ıdias. Mas – como o hermetismo nos ensina – o ato positivo do significado comunicativo, seja cara-a-cara (mesmo que sem fala), ou mediado simbolicamente (por texto, imagem, etc.), ´ sempre confrontado por sua negatividade. Nem toda a ”comunica¸˜o”comunica, mapa e ca n˜o ´ territ´rio, e assim vai. ”Programas interativos”n˜o tˆm o menor sentido entre seres a e o a e vivos, mas, de fato, nenhum meio ´ privilegiado ou completamente aberto. Como Blake e poderia dizer, cada meio tem a sua forma e o seu espectro. O que precisamos, ent˜o, ´ uma ”an´lise espectral”Blakeana da Net. Uma ”an´lise a e a a Fourierista”tamb´m poderia ser util (n˜o o Fourier matem´tico, mas o Fourier Socialista e ´ a a Ut´pico). Mas estes fil´sofos eram verdadeiros hermeticistas, enquanto n´s podemos o o o apenas colar alguns cacos sobre o que quer que seja. A quest˜o impl´ a ıcita: – a Net vai al´m do prop´sito de comunicatividade, e pode e o ser usada como ferramenta para ”maximizar o potencial para emergir”de situa¸˜es de co conv´ıvio? Ou existe um ”efeito contraproducente paradoxal”(como Ilich diria)? Em ou- tras palavras: a sociologia das institui¸˜es (e.g. educa¸˜o, medicina) chega ` rigidez co ca a monopol´ ıstica e come¸a a produzir o oposto do efeito pretendido (a educa¸˜o estupidi- c ca fica, a medicina faz adoecer). A m´ ıdia tamb´m pode ser analisada desta maneira. A e m´ıdia de massa, considerada como entidade paradoxal, se aproximou de um limite de enclausuramento total pela imagem – uma crise da estase da imagem – e de completo desaparecimento da comunicatividade. O que se considerava que tornava a Net t˜o singu- a lar eram os seus padr˜es ”de-muitos-para-muitos”, tendo como implica¸˜o a possibilidade o ca 1
  • 2. de uma democracia popular eletrˆnica. A Net ´ uma institui¸˜o, pelo menos no sentido o e ca lato da palavra. Ela serve ao seu prop´sito ”original”, ou h´ um efeito contraproducente o a paradoxal? Outro padr˜o original dentro da Net ´ a sua descentralidade (sua heran¸a ”militar”); a e c isto lan¸ou a Net numa esp´cie de guerra com os governos. A Net ”cruza fronteiras”como c e um v´ ırus. Mas nisto a Net partilha certas qualidades com, digamos, as corpora¸˜es co transnacionais (”zaibatsus”) – e com o pr´prio Capital nˆmade. O ”nomadismo”tem sua o o pr´pria forma e espectro. Como a Na¸˜o Islˆmica dos Cinco Porcento coloca, ”nem todo o ca a irm˜o ´ um irm˜o”. A molecularidade ´ uma t´tica que pode ser usada contra e a favor da a e a e a nossa autonomia. Estar informado compensa. E podemos ter certeza que a Inteligˆncia e Global paga bem por sua informa¸˜o; – certamente a Net j´ est´ completamente penetrada ca a a pela vigilˆncia... cada bit de um email ´ um cart˜o postal para Deus. a e a Os nossos exemplos favoritos do uso imaginativo e insurreicion´rio da Net – o Caso a McCal´nia, o Caso da Cientologia, e acima de tudo os Zapatistas – provam que a es- u trutura descentralizada de muitos-para-muitos tem potencial de verdade (o McDonalds ganhou a batalha mas parece estar perdendo a guerra – as franquias ca´ ıram em 50%!). Ludditas que negam isto simplesmente est˜o se fazendo parecer desinformados – e muito a mal dispostos na dire¸˜o das boas causas. Os Ludditas originais n˜o eram quebradores ca a de m´quina indiscriminados – eles tencionavam defender seus teares manuais e o trabalho a em casa contra a mecaniza¸˜o e centraliza¸˜o nas f´bricas. Tudo depende da situa¸˜o, e ca ca a ca a tecnologia ´ apenas um fator numa situa¸˜o complexa e superestimada. Exatamente o e ca que ´ que precisa ser esmagado? e O Capital Global abra¸a abertamente a Net por que a Net parece ter a mesma estrutura c do Capital Global. Ele anuncia a Net como O Futuro Agora, e protege os cidad˜os a virtuais desses governos velhos e maus. Afinal, a Net ´ mesmo o paradigma de um e Mercado Livre, n˜o? O sonho de um Libert´rio. Mas secretamente o Capital Global a a (perdoem pela fal´cia pat´tica – puxa, eu n˜o consigo parar de reificar o Capital...)... a e a secretamente, o Capital Global deve estar doente de preocupa¸˜o. Bilh˜es de d´lares de ca o o investimento foram tragados pela Net, mas a Net parece agir como um astro eclipsado: – h´ um efeito de penumbra, mas o planeta est´ negro. Talvez um buraco negro. Afinal, a a Hawking provou que mesmo buracos negros produzem uma quantidade m´ ınima de energia – alguns milh˜es de pratas, talvez. Mas essencialmente n˜o h´ dinheiro circulando na o a a Net, nem dinheiro saindo dela. Parece que a Net pode agir metaforicamente como uma ”feira livre”at´ certo ponto (possivelmente bem mais do que j´ age) – mas falhou em e a se desenvolver como um Grande Mercado. A WWW n˜o parece estar ajudando muito a neste ponto. A ”Realidade Virtual”come¸a a se parecer com mais um futuro perdido. c IntraNets, transmiss˜o personalizada de dados e ”televis˜o interativa”s˜o as estrat´gias a a a e propostas pelos Zaibatsus para colonizar o que resta da Net. O e-cash n˜o parece estar a dando conta. Enquanto isso, a Net toma o aspecto n˜o apenas de uma feira livre sem corpo, mas a tamb´m de uma favela ps´ e ıquica. Avatares predat´rios – desinformacionistas – dados so- o bre trabalho escravo nas pris˜es americanas – cyber-estupro (viola¸˜o do corpo de dados) o ca – vigilˆncia invis´ – ondas de pˆnico (Pedofilia, Nazistas-na-Net, etc) – invas˜es mas- a ıvel a o sivas de privacidade – propaganda – todo tipo de polui¸˜o ps´ ca ıquica. Sem mencionar a possibilidade de lavagem cerebral biˆnica, s´ o ıdrome do t´nel carpal, e a sinistra presen¸a u c 2
  • 3. em cinza e verde das pr´prias m´quinas, como nos cen´rios dos velhos filmes de ficc¸˜o o a a ca cient´ ıfica (o futuro como design pobre). De fato, como Gibson previu, a Net j´ est´ virtualmente assombrada. Cemit´rios a a e na web para cyber-mascotes mortos – obitu´rios falsos – Tim Leary ainda mandando a mensagens pessoais – mestres ascensos do ”Heaven’s Gate-- sem mencionar a j´ vasta ar- a queologia da pr´pria Net, os n´ o ıveis da Arpa, velhas BBSs, linguagens esquecidas, p´ginas a da web abandonadas. De fato, como algu´m disse na ultima conferˆncia da NETTIME e ´ e em Liubliana, a Net j´ se tornou um tipo de ru´ romˆntica. E aqui, no n´ mais ”es- a ına a ıvel pectral”da nossa an´lise, repentinamente a Net come¸a a parecer... interessante de novo. a c Uma pitada de horror g´tico. A sedu¸˜o dos Zumbis Cibern´ticos. Fin-de-millenium, o ca e flores de estufa, l´udano. a Enfim. Vivemos num pa´ em que 1% da popula¸˜o controla metade do dinheiro – num mundo ıs ca onde menos que 400 pessoas controlam metade do dinheiro – onde 94.2% de todo o di- nheiro se refere apenas a dinheiro, n˜o a produ¸˜o de qualquer tipo (exceto de dinheiro); a ca – um pa´ com a maior popula¸˜o carcer´ria per capita do mundo, onde ”seguran¸a”´ a ıs ca a c e unica ind´stria que cresce (fora a do entretenimento), onde uma insana guerra `s drogas ´ u a e ao meio-ambiente ´ concebida como a ultima fun¸˜o v´lida do governo; – um mundo e ´ ca a de ecoc´ıdio, agrobusiness, desflorestamento, assassinato de popula¸˜es ind´ co ıgenas, bioen- genharia, trabalho for¸ado – um mundo constru´ na afirma¸˜o de que o lucro m´ximo c ıdo ca a para 500 empresas ´ o melhor plano para toda a humanidade – um mundo em que a e imagem total absorveu e sufocou as vozes e mentes de cada falante – em que a imagem da troca tomou o lugar de todas as rela¸˜es humanas. co Em vez de resmungar clichˆs liberais sobre tudo isto – ou levantar a perturbadora e quest˜o da ”´tica-- permita-me simplesmente comentar como um anarquista Stirneriano a e (um ponto de vista que ainda acho util depois de todos estes anos): – presumindo que o ´ mundo seja a minha ostra, eu estou em guerra pessoal contra todos os ”fatos”acima, por que eles violam os meus desejos e impedem os meus prazeres. Portanto, procuro alian¸a c com outros indiv´ıduos (numa ”uni˜o de independentes”) que partilham de minhas metas. a Para os Stirnerianos de esquerda, a t´tica favorita sempre foi a Greve Geral (o mito a Soreliano). Em resposta ao Capital Global n´s precisamos de uma nova vers˜o deste mito o a que possa incluir estruturas sindicalistas mas n˜o se limitar a elas. O velho inimigo dos a anarquistas sempre foi o Estado. Ainda temos o Estado para nos preocupar (seguran¸as c no Shopping universal), mas claramente os inimigos reais s˜o os zaibatsus e bancos (o a maior erro na hist´ria revolucion´ria foi a falha em dominar o Banco em Paris, 1871). o a Num futuro muito pr´ximo haver´ uma guerra contra a estrutura OMC/FMI/GATT do o a Capital Global – uma guerra de desespero claro, alimentada por um mundo de indiv´ ıduos e grupos orgˆnicos contra as corpora¸˜es e ”o poder do dinheiro”(i.e., o pr´prio dinheiro). a co o De preferˆncia uma guerra pac´ e ıfica, como uma grande Greve Geral – mas realisticamente cada um deve se preparar para o pior. E o que precisamos saber ´, o que a InterNet pode e fazer por n´s? o Obviamente uma boa revolta precisa de bons sistemas de comunica¸˜o. Neste mo- ca mento no entanto eu preferiria transmitir meus segredos conspirat´rios (se eu tivesse o algum) pelos Correios em vez da Net. Uma conspira¸˜o realmente bem-sucedida n˜o ca a 3
  • 4. deixa rastro em papel, como a Revolu¸˜o da L´ ca ıbia de 1969 (mas, na ´poca, os gram- e pos telefˆnicos ainda eram bastante primitivos). Mais do que isto, como poder´ o ıamos ter certeza que o que vimos na Net era informa¸˜o e n˜o desinforma¸˜o? Especialmente se ca a ca nossa organiza¸˜o existe apenas na Net? Falando como Stirnerita, eu n˜o quero banir ca a assombra¸˜es da minha cabe¸a apenas para encontr´-las de novo na tela. Luta de rua co c a virtual, ru´ ınas virtuais. N˜o parece uma proposi¸˜o vantajosa. a ca Mais perturbador para n´s seria a qualidade ”gn´stica”da Net, sua tendˆncia ` ex- o o e a clus˜o do corpo, sua promessa de transcendˆncia tecnol´gica da carne. Mesmo que algu- a e o mas pessoas tenham ”se conhecido pela Net”, o movimento geral ´ rumo ` atomiza¸˜o – e a ca ”ca´ sozinho em frente ` tela”. O ”movimento”hoje presta muita aten¸˜o ` m´ ıdo a ca a ıdia em geral por que o poder virtualmente nos iludiu – e dentro do speculum da Net o seu reflexo zomba de n´s. A Net como substituto ao conv´ o ıvio e ` comunicatividade. A Net como a uma m´ religi˜o. Parte do transe midi´tico. A comoditiza¸˜o da diferen¸a. a a a ca c ` A parte a cr´ ıtica da Net do ponto de vista da Soberania Individual, n´s poder´ o ıamos tamb´m lan¸ar uma an´lise de uma posi¸˜o Fourierista. Aqui no lugar de indiv´ e c a ca ıduos n´s considerar´ o ıamos a ”s´rie”, o grupo b´sico Passional sem o qual cada ser humano e a permanece incompleto – e o Falanst´rio, ou S´rie completa de S´ries (m´ e e e ınimo de 1620 membros). Mas a meta permanece a mesma: – o agrupamento ocorre para maximizar os prazeres ou o ”luxo”para os membros do grupo, Paix˜o sendo a unica for¸a vi´vel de coes˜o a ´ c a a social (de fato, nesta base n´s poder´ o ıamos considerar uma ”s´ ıntese”de Stirner e Fourier, na aparˆncia polarmente opostos). Para Fourier, a Paix˜o ´ por defini¸˜o incorporada; e a e ca todo o ”networking”´ mantido via presen¸a f´ e c ısica (apesar dele permitir pombos-correio para comunica¸˜o entre Falanst´rios). Como um m´ ca e ıstico dos n´meros, Fourier bem que u poderia gostar do computador – na verdade ele inventou o ”namoro por computador”, de certa maneira – mas ele provavelmente desaprovaria qualquer tecnologia que envolvesse a separa¸˜o f´ ca ısica (eu creio que foi Balzac quem disse que para Fourier o unico pecado ´ era almo¸ar sozinho). Conv´ c ıvio no sentido mais literal – idealmente, a orgia. ”Atra¸˜o ca Passional”funciona por que cada um tem Paix˜es diferentes: a diferen¸a j´ ´ ”luxo”. O o c ae corpo de dados, o corpo na tela, ´ apenas metaforicamente um corpo. O espa¸o entre n´s e c o – o ”medium-- deve ser preenchido com Raios Aromais, zod´ ıacos de luz brilhante (novas cores!), profus˜es de frutas e flores, os aromas da cozinha gastros´fica – e finalmente o o o espa¸o deve ser fechado, curado. c Outra cr´ıtica da Net poderia ser feita de uma perspectiva Proudhoniana (Proudhon foi influenciado por Fourier, apesar de fingir que n˜o foi. Ambos eram de Bezan¸on, como a c Victor Hugo). Proudhon era mais ”progressivo”quanto a tecnologia do que nossos outros exemplos, e seria interessante ver que tipo de papel ele teria para a Net em seu futuro ideal de Mutualismo e anarco-federa¸˜o. Para ele, ”governo”era meramente uma quest˜o de ca a administra¸˜o da produ¸˜o e troca. Os computadores poderiam se provar como ferramen- ca ca tas uteis sob estas condi¸˜es. Mas Proudhon, assim como Marx, sem d´vida modificaria ´ co u sua vis˜o otimista da tecnologia se fosse consultado hoje da sua opini˜o: – a m´quina a a a como polui¸˜o social, a pr´pria tecnologia (e por implica¸˜o, o Trabalho) como aliena¸˜o. ca o ca ca Este argumento foi obviamente feito por Marxistas libert´rios, anarquistas Verdes, etc. a – descendentes leg´ ıtimos de Marx e Proudhon, como Marcuse ou Ilich. N˜o seria justo a considerar a InterNet fora desta cr´ ıtica da tecnologia. (Tampouco a bioengenharia.) O trabalho de Benjamin, Debord e at´ Baudrillard (at´ ele ter ca´ exausto) torna claro que e e ıdo 4
  • 5. a imagem total – ”a m´ ıdia-- tem um papel central nesta cr´ ıtica. Proudhon questionaria a Net quanto a justi¸a, e quanto a presen¸a. c c Mas eu preferiria focar mais estritamente na quest˜o da imagem. Aqui n´s poder´ a o ıamos retornar a Blake como nosso ”martelo filos´fico”(Nietzsche queria realmente dar a enten- o der uma esp´cie de diapas˜o), uma vez que estamos falando do ´ e a ıdolo, da imagem. Eu argumentaria que estamos sofrendo uma crise de superprodu¸˜o da imagem. N´s esta- ca o mos, como Giordano Bruno colocou, ”acorrentados”, hipnotizados pela imagem. Em tal caso n´s precisamos ou de uma dose saud´vel de iconoclastia, ou ent˜o (ou tamb´m) um o a a e tipo mais sutil de senso cr´ıtico herm´tico, uma libera¸˜o da imagem pela imagem. Na e ca verdade, Blake nos supriu com ambos – ele era tanto um esmagador-de-´ ıdolos quanto si- multaneamente um hermetista que usava imagens para a liberta¸˜o, tanto pol´ ca ıtica quanto espiritual. Hermetistas entendem que o ”hier´glifo”, a imagem/texto ou comunica¸˜o me- o ca diada (simb´lica), tem um efeito ”m´gico”, ultrapassando a consciˆncia racional linear e o a e e ´ influenciando profundamente a psiquˆ. E por isso que Blake dizia que uma pessoa deve fazer seu pr´prio sistema ou ent˜o ser escravo do sistema de outros. A autonomia da o a imagina¸˜o ´ um alto valor para o hermetismo – e a cr´ ca e ıtica da imagem ´ a defesa da ima- e gina¸˜o. A tela ´ um aspecto da imagem que n˜o pode escapar desta ”an´lise espectral-- ca e a a a m´ıdia como ”moedores satˆnicos”. a Parece que n˜o h´ mesmo como fugir da tecnologia ou da aliena¸˜o. A pr´pria techn´ a a ca o e ´ pr´tese da consciˆncia, e, portanto, insepar´vel da condi¸˜o humana (linguagem inclusa e o e a ca aqui como techn´). A Tecnologia como a fus˜o ´bvia de techn´ e linguagem (a magnitude e a o e ou ”raz˜o”da techn´) tem sido simplesmente uma categoria da existˆncia humana desde a e e pelo menos o Paleol´ ıtico. Mas – podemos perguntar at´ que ponto o pr´prio cora¸˜o foi e o ca substitu´ por um ´rg˜o artificial? At´ que ponto uma determinada tecnologia ”surta”e ıdo o a e come¸a a produzir uma contraprodutividade paradoxal? Se pud´ssemos alcan¸ar um c e c consenso nisto, ainda existiria motivo para falar de determinismo tecnol´gico, ou o ma- o quinismo como destino? Neste sentido, os velhos Ludditas merecem alguma considera¸˜o. ca A techn´ deve servir ao ser humano, n˜o definir o ser humano. e a Precisamos (aparentemente) aceitar a inevitabilidade da consciˆncia, mas apenas na e condi¸˜o de que n˜o ser´ a mesma consciˆncia. Suspeitamos que a consciˆncia racional, ca a a e e maqu´ ınica, linear, aufklaerung, universal governou em muito tempo numa tirania – ou ”monop´lio”. N˜o h´ nada de errado com a raz˜o (na verdade n´s poder´ o a a a o ıamos usar bem mais dela) mas o racionalismo parece uma ideologia fora de moda. A raz˜o deve divi- a dir o espa¸o com outras formas de consciˆncia: consciˆncia psicotr´pica, ou consciˆncia c e e o e xamˆnica (que n˜o tem nada a ver com ”religi˜o”, como ´ usualmente definida) – bi- a a a e oconsciˆncia, o discernimento sistˆmico do ideal herm´tico da terra viva – consciˆncia e e e e ´tnica ou cultural, modos diferentes de ver – povos ind´ e ıgenas – ou os Celtas – ou o Isl˜ – a consciˆncias de ”identidade”de todos os tipos – e consciˆncias de trans-identidade. Uma e e variedade de consciˆncias parece ser o unico campo poss´ para a nossa ´tica. e ´ ıvel e Ent˜o, e quanto a consciˆncia da InterNet? Ela tem seus aspectos n˜o-lineares, n˜o a e a a tem? Se pode existir uma ”racionalidade do maravilhoso”, n˜o h´ um lugar para a Net a a no banquete? No fim, n´s devemos nos contentar com a ambig¨idade. Uma resposta ”pura”´ im- o u e poss´ aqui – iria feder a ideologia. Sim e n˜o. ıvel a 5
  • 6. Mas – ”Entre o Sim e o N˜o, estrelas caem do c´u e cabe¸as voam do pesco¸o”, como a e c c o grande sufi Shayk Ibn Arabi disse ao fil´sofo Aristot´lico Aver¨es. o e o Uma imagem adequada para uma ru´ romˆntica... ına a Revisado por Bruno Cardoso 6