JOÃO CALVINO
AS INSTITUTAS
Volume 3
Edição especial para estudo e pesquisa
Institution de la Religion Chrestienne – As Institutas ou Instituição da Religião Cristã
Da edição original francesa de 1541 – Conforme publicação feita pela Société les Belles Letres,
Paris, 1936, com a colaboração da Société du Musée historique de la Réformation.
1ª edição em português 2002 – 3.000 exemplares
TRADUÇÃO e LEITURA DE PROVAS
Odayr Olivetti
REVISÃO e NOTAS DE ESTUDO E PESQUISA
Hermisten Maia Pereira da Costa
FORMATAÇÃO
Rissato
CAPA
Publicação autorizada pelo Conselho Editorial:
Cláudio Marra (Presidente), Alex Barbosa Vieira, Aproniano Wilson de Macedo, Fernando
Hamilton Costa, Mauro Meister, Ricardo Agreste e Sebastião Bueno Olinto
Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas
Editor: Cláudio A. Batista Marra
CAPÍTULO VII
[1539] Expus anteriormenteb
, na medida em que me foi possível, um resumo da
doutrina cristã sobre o conhecimento de Deus e de nós mesmos, pela qual obte-
mos a salvação. Agora temos necessidade de acrescentar um artigoc
que é um
bom recurso para ajudar-nos a estabelecer a veracidade daquela doutrina que
previamente ensinamos. É que todos os homens que desde o princípio do mundo
Deus chamou para a companhia do Seu povo chegaram a alcançar tal graça medi-
ante essa doutrina e se uniram a Deus pelos seus laços. Bem certo está que os
a. Este capítulo de 1539 não tem equivalente em 1536.
No Sumário (Sommaire) de Farel (cap. XV, Sobre a Escritura Sagrada), lê-se: “O que designou e
simbolizou as figuras e os mandamentos cerimoniais da lei encobertamente e em sombra, Jesus Cristo
ensinou claramente, como também os Seus apóstolos”; mas este capítulo não tem mais que quatro páginas.
Na Instrução de 1537, Calvino explicou resumidamente “que a lei é um degrau para se chegar a Cristo”
(Opera selecta, I, 389).
Comentando Hebreus: “Quanto mais elevada é a dignidade de Cristo da dignidade dos anjos, tanto mais
reverência se deve prestar ao evangelho do que à lei. É a pessoa de seu Autor que enobrece a doutrina. Se a
alguém parece absurdo que ambas as doutrinas, a lei e o evangelho, provêm de Deus, e que uma deve ser
preferível à outra, como se a majestade de Deus fosse apoucada ao ser a lei relegada a segundo plano, a
resposta é simples, a saber: Deus deve ser sempre ouvido com a mesma atenção, toda vez que fala; sempre
que se nos manifesta com mais plenitude, tanto mais reverência e mais desejo de obedecer à sua revelação
devem crescer proporcionalmente. Não é que sucede de Deus deixar de ser o que é em si mesmo, mas é
porque sua grandeza nem sempre se manifesta na proporção.”95
b. Acima, capítulos I, II e VI.
c. vice appendicis.
95
João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo, Paracletos, 1997, (Hb 2.1), p. 52.
4 As Institutas – Edição Especial
testemunhos que juntamos, tanto da Lei como dos Profetas, para mostrar o que
dizíamos, mostram suficientemente que jamais o povo de Deus teve outra regra
de santidadea
e de religião; entretanto, como os doutoresb
freqüentemente fazem
longos debates sobre a diferença entre o Antigo e o Novo Testamentos, discus-
sões que poderiam gerar algum escrúpulo, ou seja, alguma inquietação de consci-
ência, em pessoas simples, pareceu-me bem fazer um tratado especial para discu-
tir melhor este assunto. Ademais, isso é muito útil e necessário por causa da
importunação feita por alguns anabatistasc
, que consideram o povo de Israel como
uma manada de porcosd
, visto que pensam que o Senhor só o quis engordar na
terra, como que numa manjedoura, sem nenhuma esperança da imortalidade
celestialc
. Por isso, a fim de tirar todos os fiéis desse erro pestilente, e igualmente
livrar as pessoas simples de todas as dificuldades introduzidas em sua mente
quando se faz menção de alguma diversidade entre oAntigo e o Novo Testamen-
tos, consideremos resumidamente o que tem de semelhante ou de diferente a
aliança que o Senhor fez com o povo de Israel antes do adventof
de Cristo, e a que
Ele fez conosco, depois que se manifestou em carne.
Ora, ambos os aspectos podem ser resolvidos com uma palavra: É que a
aliança feita com os pais antigos, em sua substância e em sua verdade é tão seme-
lhante à nossa que se pode dizer que ambas são somente uma; só existe diferença
na ordem da dispensação de cada uma delas. Mas, visto que com tal brevidade ao
falar deste assunto ninguém poderia entendê-lo bem, é necessário dar-lhe seqüência
mais ampla, se é que desejamos ter algum proveito. Ao explicar a sua semelhan-
ça, ou melhor, a sua unidade, seria supérfluo tratar novamente de todas as exten-
sas partes que já definimos. Restrinjamo-nos aqui a três artigos
Três artigos sobre a unidade existente entre o
Antigo e o Novo Testamentos
Primeiro, o Senhor não propôs aos judeus uma felicidade ou opulência terrena
como uma meta à qual eles devessem aspirar, mas os adotou com vistas à espe-
a. pietatis.
b. scriptores.
c. Calvino, em 1538, em Estrasburgo, pôde conhecer melhor as doutrinas anabatistas, como, por exemplo, as
de Th. Münzer (que ele chama Monetarius). No colóquio ou conferência de Poissy (1561), P. Vermigli tinha
exposto o mesmo argumento: “Anabaptistæ vetus testamentum pertinere ad Christianos infitiantur” (Opera
Calv., XVIII, 769).
d. Essa questão das relações entre o Antigo e o Novo Testamento, que ganha atualidade em nossos dias pela
presença de certos movimentos anti-semitas, ocupa a ardorosa atenção de Calvino, não somente por seu
desejo de demonstrar a unidade do plano redentor de Deus através do desdobramento da história, mas
também para refutar aquilo que se poderia chamar de “tolstoísmo” dos anabatistas do seu tempo, que consis-
tia em se apoiarem na monarquia israelita e na “administração terrena” do povo de Deus, e para estabelecer,
face aos mesmos sectários, a legitimidade do batismo de crianças, semelhante sob a Nova Aliança ao que era
a circuncisão sob a antiga.
e. Christi adventum (1541 tem, por erro: advencement).
f. administratio.
5
rança da imortalidade, e lhes revelou e testificou essa adoção, tanto por visões
como em Sua Lei e em Seus Profetas.1
Segundo, a aliança pela qual eles foram
ligados a Deus não se fundou nos méritos deles, mas unicamente na misericórdia
de Deus. Terceiro, eles tinham e reconheciam Cristo como o seu Mediador, pelo
qual estavam unidos a Deus e foram feitos participantes das Suas promessas.
O segundo ponto nos deve ser notório, visto que provamos claramente, com
muitos testemunhos dos profetas, segundo os quais todo o bem que o Senhor fez
ou prometeu a Seu povo proveio de Sua pura bondade e clemência. O terceiro
também já demonstramos aqui e ali com facilidade; mesmo no primeiro tocamos
um pouco, de passagem. Mas, como este foi tratado mais ligeiramente que os
outros, e é o que tem sofrido mais debates e controvérsias, devemos explicá-lo
mais diligentemente. Mas precisamos deter-nos aí de tal maneira que, se faltar
alguma coisa à correta exposição dos outros pontos, os resolvamos sucintamente.
Decisiva palavra apostólica
Certamente o apóstolo nos tira toda a dúvida quanto aos três artigos, quando
declara que “o Senhor há muito tempo prometeu o Evangelho de Jesus Cristo,
por meio dos seus profetas em suas Sagradas Escrituras, o qual agora ele deu a
conhecer no tempo por ele determinado”.2
E também: que agora “se manifestou
a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas”.3
Certo é que o Evan-
gelho não mantém o coração dos homens com uma alegria da vida presente,
mas o eleva à esperança da imortalidade; e não os liga aos prazeres terrenos,
mas, demonstrando a esperança que lhes está preparada no céu, transporta-os
às alturas. Porquanto a isso nos leva a definição que ele insere noutro lugar.
“Em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade”, diz ele, “o
evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o
Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança”, etc. E mais:
“Ouvimos da vossa fé em Cristo Jesus e do amor que tendes para com todos os
santos; por causa da esperança que vos está preservada nos céus, da qual antes
ouvistes pela palavra da verdade do evangelho”.4
E ainda: O Senhor “vos cha-
mou mediante o nosso evangelho, para alcançardes a glória de nosso Senhor
Jesus Cristo”.5
1
“Somente os crentes genuínos conhecem a diferença entre este estado transitório e a bem-aventurada eternidade,
para a qual foram criados; eles sabem qual deve ser a meta de sua vida. Ninguém, pois, pode regular sua vida
com uma mente equilibrada, senão aquele que, conhecendo o fim dela, isto é, a morte propriamente dita, é
levado a considerar o grande propósito da existência humana neste mundo, para que aspire o prêmio da voca-
ção celestial.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Parakletos, 2002, Vol. 3, (Sl 90.12), p. 440].
2
Rm 1.1,2 [tradução direta].
3
Rm 3.21.
4
Ef 1.13,14; Cl 1.4,5.
5
2Ts 2.14.
6 As Institutas – Edição Especial
Daí também procede que o Evangelho é chamado doutrina da salvação,
poder de Deus, para salvar todos os que crêema
, e reino dos céus.6
Ora, se a
doutrina do Evangelho é espiritual e nos dá acesso à vida incorruptível, não pen-
semos que aqueles aos quais o Evangelho foi prometido e pregado se divertem
como animais, deixando-se dominar por suas volúpias carnais, sem se preocupa-
rem com suas almasb
. E não é preciso que ninguém teça cavilações neste ponto,
supondo que as promessas que Deus na antigüidade fez do Evangelho, por meio
dos Seus profetas, foram destinadas ao povo do Novo Testamento. Porque o após-
tolo, pouco depois de haver inserido a declaração de que o Evangelho foi prome-
tido na Lei, acrescenta igualmente que “tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei
o diz”.7
Reconheço que o seu propósito era outro. Mas ele não era tão esquecido
que, ao dizer que tudo o que a Lei ensina pertence aos judeus, não pensasse no
que tinha dito antes, quanto ao Evangelho prometido na Lei. O apóstolo demons-
tra claramente, pois, nessa passagemc
, que o Antigo Testamento tinha em vista
principalmente a vida futurad
, uma vez que ele afirma que as promessas do Evan-
gelho estão nele incluídas. Por igual razão segue-se que ele se baseia na miseri-
córdia gratuita de Deus e tem sua firmeza em Cristo. Porque a pregação do Evan-
gelho não proclamae
outra coisa senão que os pobres pecadores são justificados
pela clemência paternal de Deus, sem terem eles mérito algum. E a soma total
disso tudo está contida em Jesus Cristo.8
Portanto, quem se atreverá a privar os judeus de Cristo? Sendo que ouvimos
que a aliança do Evangelho foi feita a eles, aliança cujo único fundamento é
Cristo. Quem ousará pô-los foraf
da esperança da salvação gratuita? Visto que
ouvimos que a doutrina da fé lhes foi ministrada, a qual nos traz justiça gratuita.g
Sublime palavra do Senhor Jesus
E para não fazer longo debate sobre uma coisa tão clara, temos para isso uma
sentença notável do Senhor Jesus. Diz Ele: “Abraão... alegrou-se por ver o meu
dia, viu-o e regozijou-se”.9
O que aí se diz de Abraão o apóstolo mostra que era
a. fideles.
b. Era um dos motivos de queixa contra os anabatistas.
c. Acréscimo a 1539.
d. Calvino sublinha aqui o caráter escatológico da mensagem dos homens do Antigo Testamento. Com efeito,
as promessas dos profetas se centralizam menos nas bênçãos temporais que no “dia do Senhor” e na vida do
Messias.
e. pronunciat.
f. alienos reddere.
g. 1539 tem somente: justitiæ fidei doctrinam.
6
“Felizes, porém, são aqueles que abraçaram o evangelho e firmemente permanecem nele! Porque ele – o
evangelho –, fora de qualquer dúvida, é a verdade e a vida.” [João Calvino, Efésios, São Paulo, Paracletos,
1998, (Ef 1.13), p. 35-36].
7
Rm 3.19.
8
“Cristo é o fim da lei e a suma do Evangelho” [João Calvino, Efésios, São Paulo, Paracletos, 1998, (Ef 2.20), p. 78].
9
Jo 8.56.
7
universal quanto a todo o povo crente, quando declara que “Jesus Cristo, ontem e
hoje, é o mesmo e o será para sempre”.10
Porque ele não fala somente da divinda-
de eterna de Cristo, mas também do conhecimento do Seu poder, que é sempre
dispensado aos que nele crêem. Essa é a razão pela qual Maria e Zacarias, em
seus cânticos, à salvação revelada em Cristo chamam cumprimento das promes-
sas que Deus fez a Abraão e aos patriarcas.11
Se Deus, ao manifestar Seu Filho,
cumpriu a Sua antiga promessa, não se pode dizer que a finalidade do Antigo
Testamento não estava em Cristo e na vida eterna. Ademais, o apóstolo não so-
mente assemelha e iguala Israel a nós na graça da aliança, mas também na signi-
ficação dos sacramentos. Pois, querendo atemorizar os coríntios pelo exemplo
dos israelitas, para que não caíssem nos mesmos pecados que Deus tinha punido
neles, faz uso deste prefácio: “Não temos nenhuma prerrogativa ou dignidade
que nos possa livrar da vingança de Deus que sobreveio a eles”.12
Vê-se que
assim é, pois não somente o Senhor lhes fez os mesmos benefícios que nos faz,
mas também ilustrou Sua graça entre eles com os mesmos sinais e sacramentosa
,
como se Paulo dissesse: Parece-lhes que vocês estão fora de perigo, por causa do
Batismo, com o qual vocês foram assinalados, e da Ceia do Senhorb
, cujas pro-
messas são singulares; entretanto, desprezando a bondade de Deus, vocês vivem
dissolutamente. Mas, continua o apóstolo, vocês devem entender que os judeus
não estavam desprovidos dos mesmos sacramentosc
; nem por isso o Senhor dei-
xou de exercer contra eles o rigor do Seu juízo. Eles foram batizados na passa-
gem do Mar Vermelhod
e pela nuvem que os defendia do ardor do sol.
Os que repudiam essa doutrina dizem que esse foi um batismo carnal,
correspondendo ao nosso espiritual por alguma semelhança. Mas, se isso lhes
for concedido, o argumento do apóstolo não procederá, sendo que ele quis cor-
tar dos cristãos esta vã confiança de pensar que eram mais excelentes que os
judeus, por causa do Batismo. E ainda mais, quanto ao que se segue de imedia-
to, não há lugar para sofismas, pois, eles “comeram do mesmo manjar espiritu-
al e beberam da mesma bebida que a nós foram dados13
, ficando explícito que a
referência é a Jesus Cristo.
Cristo contra Paulo?
Mas, para derribar a autoridade do apóstolo Paulo, eles ainda objetam citando
estas palavras de Cristo: “Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram...
a. Uma só palavra em 1539: symbolis.
b. 1539 acrescenta: quam quotidie suscipitis.
c. symbolis. “Ele declara que os sacramentos antigos da Lei tinham um poder semelhante ao que os nossos têm
hoje em dia”, dirá Calvino em seu Comentário sobre esta passagem, publicado em latim em Estrasburgo, em
1546, e em francês em Genebra, em 1547.
d. transitum illum.
10
Hb 13.8.
11
Lc 1.46-55 e 67-79.
12
1Co 10 [tradução direta].
13
1Co 10.3,4 [tradução direta].
8 As Institutas – Edição Especial
Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna”.14
Mas
ambos se harmonizam facilmente. O Senhor Jesus, porque dirige a Sua palavra a
ouvintes que só procuravam saciar seus estômagos, não se importando nenhum
pouco com a verdadeira nutrição da alma, acomoda de algum modo Suas pala-
vras à capacidade deles,15
e, principalmente, faz essa comparação do maná com o
Seu corpo, segundo o entendimento deles. Eles exigiam que, para ter autoridade,
Ele comprovasse o Seu poder com algum milagre, como o que Moisés tinha feito
no deserto, quando fez chover maná do céu.
Ora, com o maná eles não captaram nada mais que um remédio para suprir
a indigência físicaa
, pela qual o povo estava premido no deserto. Não se elevaram
a. carnalis inediæ.
14
Jo 6.49,54.
15
Calvino entendia que Deus, na Sua Palavra, “se acomodava à nossa capacidade” [J. Calvino, Exposição de
1 Coríntios, (1Co 2.7), p. 82. Ver: João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 1.19), p. 64], balbuciando
a Sua Palavra a nós como as amas fazem com as crianças. Calvino usou deste recurso hemenêutico para
explicar assuntos aparentemente contraditórios na Bíblia. Falando sobre os antropomorfismos bíblicos, diz
em lugares diferentes: “Pois quem, mesmo que de bem parco entendimento, não percebe que Deus assim
conosco fala como que a balbuciar, como as amas costumam fazer com as crianças? Por isso, formas de
expressão que tais não exprimem, de maneira clara e precisa, tanto quê Deus seja, quanto Lhe acomodam o
conhecimento à paucidade da compreensão nossa. Para que assim se dê, necessário Lhe é descer muito
abaixo de Sua excelsitude.” (J. Calvino, As Institutas, I.13.1). “A descrição que dEle se nos outorga tem de
acomodar-se-nos à capacidade, para que seja de nós entendida. Esta é, na verdade, a forma de acomodar-se:
que tal se nos represente, não qual é em Si, porém, qual é possível de ser de nós apreendido.” (J. Calvino, As
Institutas, I.17.13). Ver também: João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 13.3), p. 265; Vol. 2, (Sl
50.14), p. 409; John Calvin, Commentary on the Book of Psalms, Grand Rapids, Michigan, Baker Book
House (Calvin’s Commentaries, Vol. V), 1996 (Reprinted), (Sl 78.65), p. 274; As Institutas, 1.14.3,11;
I.16.9; IV.17.11. Disto, ele tirou um princípio pedagógico: “Um sábio mestre tem a responsabilidade de
acomodar-se ao poder de compreensão daqueles a quem ele administra o ensino, de modo a iniciar-se com
os princípios rudimentares quando instrui os débeis e ignorantes, não lhes dando algo que porventura seja
mais forte do que podem suportar” [J. Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 3.1), p. 98-99]. Deiz que
“... Deus, acomoda-se ao nosso modo ordinário de falar por causa de nossa ignorância, às vezes também, se
me é permitida a expressão, gagueja.”[ John Calvin, Commentary on the Gospel According to John,
Grand Rapids, Michigan, Baker Book House (Calvin’s Commentaries, Vol. XVIII), 1996 (Reprinted), (Jo
21.25), p. 299] Resumindo: “Em Cristo, Deus, por assim dizer, tornou-se pequeno, para acomodar-se à
nossa compreensão”. [John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan, Baker Book House
Company, 1996 (Reprinted), Vol. XXII, (1Pe 1.21), p. 54]. Portanto, quando lemos as Escrituras, “somos
arrebatados mais pela dignidade do conteúdo que pela graça da linguagem.” [João Calvino, As Institutas,
I.8.1. Calvino continua: “Ora, e não sem a exímia providência de Deus isto se faz, que sublimes mistérios do
reino celeste fossem, em larga medida transmitidos em termos de linguagem apoucada e sem realce, para
que houvessem eles de ser adereçados em mais esplendorosa eloqüência, os ímpios não alegassem
cavilosamente que a só força desta aqui impera.
“Agora, quando essa não burilada e quase rústica simplicidade provoca maior reverência de si que qual-
quer eloqüência de retóricos oradores, que é de julgar-se, senão que a pujança da verdade da Sagrada Escritura
tão sobranceira se estadeia, que não necessite do artifício das palavras?” (J. Calvino, As Institutas, I.8.1).
No entanto, ele também entendia que “alguns Profetas têm um modo de dizer elegante e polido, até
mesmo esplendoroso, assim que a eloqüência lhes não cede aos escritores profanos.” (J. Calvino,As Institutas,
I.8.2)]. Esses pontos tornam o homem inescusável e realçam a relevância das Escrituras para a vida cristã.
Ele diz: “Ora, primeiro, com Sua Palavra nos ensina e instrui o Senhor; então, com os sacramentos no-
la confirma; finalmente, com a luz de Seu Santo Espírito a mente nos ilumina e abre acesso em nosso
coração à Palavra e aos sacramentos, que, de outra sorte, apenas feririam os ouvidos e aos olhos se apresen-
tariam, mas, longe estariam de afetar-nos o íntimo.” [João Calvino, As Institutas, IV.14.8. Vd. também
João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 10.16), p. 373-374].
9
o bastante para considerar o mistério de que Paulo fala. Por isso Cristo, para
demonstrar que eles deveriam esperar dele um maior e mais excelente benefício
que aquele que eles achavam que os seus pais tinham recebido de Moisés, faz
esta comparação: Se foi um milagre tão digno, na opinião de vocês, o fato de que
o Senhor enviou a Seu povo um manjara
celeste pela mão de Moisés para que não
perecesse de fome, mas fosse sustentado por algum tempo, desse mesmo fato
vocês ficam sabendo quão mais precioso é o manjar que nos supre da imortalida-
de. Vemos por que foi que o Senhor deixou para trás o que no maná é o elemento
principal, só fazendo uso da sua utilidade menor. Foi porque os judeus, como se
quisessem censurá-lo, lhe tinham apresentado Moisés como sua objeção, pois
Moisés tinha socorrido o povo de Israel em sua necessidade, alimentando-o mila-
grosamente com o maná.
Respondo que Cristo é despenseiro de uma graça bem mais preciosa, em
comparação com a qual, o que Moisés fez ao povo de Israel não é quase nada,
embora eles lhe dedicassem tão alta estima. Paulo, considerando que o Senhor,
quando fez chover o maná do céu, não quis apenas enviar manjar físico ou mate-
rial a Seu povo, mas também lhe quis dar um mistério espiritual, para representar
a vida eterna que Seu povo devia esperar de Cristob
, trata deste argumento com a
boa explicação que ele merece. Portanto, podemos concluir sem vacilar que as
mesmas promessas da vida eterna que hoje nos são apresentadas, não somente
foram comunicadas aos judeus, mas também foram seladas e confirmadas por
intermédio de sacramentos verdadeiramente espirituais.
A revelação da aliança espiritual no Antigo Testamento
Se os leitores quiserem contemplar melhor na Lei e nos Profetas esta revelação
da aliança espiritual de Deus que, pela boca de Jesus Cristo e dos Seus apóstolos,
nós mostramos que faz parte do seu conteúdo, alegra-me satisfazê-los aqui; e
com tanto maior desejo o farei, esperando que assim os adversários sejam mais
plenamente convencidos, a fim de que não tenham como tergiversar, ou seja, que
não possam inventar desculpas ou pretextos.
Começaremos com uma demonstração que, embora sem dúvida pareça fútil
e quase ridícula aos anabatistas (lembrando que eles costumam desprezar altiva-
mente todas as razõesc
), terá entretanto grande importância para todas as pessoas
dóceis e de são juízo. Consideremos o seguinte: Visto que Deus se comunicou
a. cibum.
b. Calvino, ao falar das “figuras” do Antigo Testamento, situa-se evidentemente, como o apóstolo Paulo, no
ponto de vista da significação que as figuras podem ter para nós, cristãos. Porque antes de Jesus Cristo essas
figuras não eram nada explícitas, e bem se pode perguntar se os hebreus foram capazes de captar o sentido
espiritual da passagem pelo Mar Vermelho, ou o do maná.
c. Frase acrescentada em 1541.
10 As Institutas – Edição Especial
por Sua Palavra de Vidaa
a todos os que Ele recebeu por Sua graça, disso deve-
mos inferir que os fez participantes da vida eterna. Eu digo que na Palavra de
Deus há uma tal eficácia de vida que a sua comunicação é uma segura e certa
vivificação da alma. Entendo por comunicação não a geral e comum, que se pro-
paga por céus e terra e sobre todas as criaturas do mundo. Porque, conquanto esta
vivifique todas as coisas conforme a sua respectiva natureza diversa, todavia não
livra nada nem ninguém da corrupção. Mas a comunicação a que me refiro é
especial,16
e por esta a alma dos crentes é iluminada no conhecimento de Deus e
de algum modo é ligada a Ele.
Sendo, pois, que Abraão, Isaque, Noé, Abel, Adão e os outros pais foram
unidos a Deus por tal iluminação da Sua Palavra, afirmo sem nenhuma dúvida que
ela foi para eles uma entrada no reino eterno de Deus. Porque ela constitui uma
verdadeira participação de Deus, a qual não pode existir sem a graça da vida eterna.
Se o que acima foi dito parece muito obscuro por isto ou por aquilo, passe-
mos a examinar o próprio formulário da aliança. Este não somente vai satisfazer
a todos os espíritos pacíficos, mas também servirá para redargüir ou contestar
suficientemente a ignorância dos que se esforçam para fazer oposição.
O Senhor sempre fez este pacto com os Seus servos: “Serei o vosso Deus, e
vós sereis o meu povo”.17
Sob essas palavras os profetas apregoavam a vida e a
salvação, e elas contêm a súmula de toda a bem-aventurança. Porque não é sem
motivo que Davi várias vezes declara que “é feliz a nação cujo Deus é o Senhor,
e o povo que ele escolheu para sua herança”.18
Não se trata aqui de uma felicida-
de terrena, mas sim do fato de que, como Deus opera resgate ou libertação da
morte, Ele preserva e mantêm por Sua misericórdia todos quantos recebeu na
companhia do Seu povo. Como também é dito pelos outros profetas: “Tu és o
nosso Deus; não morreremos”.19
E também: “O Senhor é o nosso juiz, o Senhor é
o nosso legislador, o Senhor é o nosso Rei; ele nos salvará”.20
E mais: “És muito
feliz, Israel, pois em Deus tens salvação”.21
Consideração fundamental
Mas, para não nos ocuparmos muito de coisas supérfluas, a admoestação que por
todo lado a Escritura nos faz e que comentaremos a seguir deve deixar-nos satis-
a. Para apreendermos o alcance dessa frase e da subseqüente, devemos lembrar-nos de que a expressão “pala-
vra da vida” designa aqui não uma simples declaração de Deus, mas o próprio Verbo, portanto Jesus Cristo
preexistente, como nos é ensinado no prólogo do Evangelho Segundo João. O raciocínio de Calvino é o
seguinte: Os homens da antiga aliança receberam a Palavra de Deus; ora, esta Palavra é Jesus Cristo; portan-
to, eles receberam Jesus Cristo e todos os benefícios que Ele comunica, entre os quais a vida eterna.
16
“De nenhum efeito é a Palavra sem a iluminação do Espírito Santo.” (João Calvino, As Institutas, III.2.33).
17
[Cf. Êx 6.7; Lv 26.12; etc.]
18
“Sl 33.12 e 144.15. [Ver também Sl 89.15.]
19
Hc 1.12 [tradução direta].
20
Is 33.22.
21
Dt 33.29 [tradução direta].
11
feitos. É que nada nos impede de possuirmos abundância de todo bem e a certeza
da salvação, desde que tenhamos o Senhor como o nosso Deus.22
E isso com toda
a razão. Porque, se basta que o Seu rosto brilhe para que haja uma firme e certa
segurança da salvação, como se poderia levar alguém a conhecer o seu Deus, que
Este não lhe abrisse na mesma hora os tesouros da salvação? Porquanto Ele é
nosso Deus em tal condição que “ele habita no meio de nós”, como Ele próprio
testificou por meio de Moisés.23
Ora, não é possível obter tal presença sem pos-
suir igualmente a vida.
******
E mesmo que já lhes tivesse sido dito mais que o necessário, eles tinham
claras promessas da vida espiritual nestas palavras: “Eu sou o vosso Deus”. Por-
que Ele não anunciou que seria Deus dos seus corpos, mas principalmente das
suas almas. Pois bem, se as almas não estiverem unidas a Deus pela justiça, sendo
estranhas a Ele e para Ele, permanecerão na morte. Por outro lado, se tiverem
essa reconciliação e união com Deus, isso lhes trará a vida perpétuaa
.
E ainda mais: Ele não somente dizia ser o seu Deus, mas prometia que
sempre o seria, a fim de que a sua esperança, não contenteb
com as coisas presen-
tes, tivesse duração perpétua, ou se estendesse à perpetuidade. Agora, que essa
locução adverbial de tempo referente ao futuro tem esse sentido transparece das
numerosas declarações dos crentes, onde eles se consolam, assegurando-se de
que Deus jamais falharác
. Além disso, havia outro elemento na aliança, um se-
gundo membro, que os confirmava ainda mais amplamente no fato de que a bên-
ção de Deus lhes estava preparada fora e além dos limites da vida terrena. Pois
Ele havia dito: “Estabelecerei a minha aliança... para ser o teu Deus e da tua
descendência”.24
Porque, se o Senhor quis manifestar a Sua bondade para com
eles fazendo o bem aos seus sucessores, com mais forte razão era necessário que
a Sua bondade fosse manifestada para com eles mesmos. Porquanto Deus não é
como os homens, os quais transferem o amor que tinham pelos que faleceram
para os seus filhosd
por não terem condições de lhes fazer o bem após a morte.
Mas Deus, cuja benignidade não é impedida pela morte, não negou o fruto da Sua
misericórdia a eles,e
por amor dos quais Ele a mostrouf
a mil gerações dos seus
a. perpetuam salutem.
b. non contenta.
c. defuturus.
d. 1539 tinha – por erro, sem dúvida – ad amicorum filios.
e. mortuis.
f. transfundit.
22
“Certamente que, embora, com respeito a nós mesmos, nossa salvação esteja ainda oculta na esperança,
todavia em Cristo já possuímos a bem-aventurada imortalidade e glória.” [João Calvino, Efésios, São Paulo,
Paracletos, 1998, (Ef 2.6), p. 36].
23
Lv 26.11,12 [tradução direta].
24
Gn 17.7.
12 As Institutas – Edição Especial
descendentes. Por isso Ele quis mostrar, dessa forma, a infinita abundância da
Sua bondade, a qual os Seus servos haveriam de gozar mesmo depois do seu
passamento. E o Senhor selou a veracidade dessa promessa, como também reve-
lou o seu cumprimento, dando a Si mesmo o nome de “Deus deAbraão, de Isaque
e de Jacó”25
muito tempo depois da morte deles. Ora, esse nome de Deus não
seria ridículo se eles tivessem perecido? Porque seria como se Ele dissesse: “Eu
sou o Deus dos que não existem”. Entretanto, os evangelistas registram que os
saduceus foram convencidos por Cristo, bastando esse argumento, de modo que
eles não puderam negar que Moisés tinha testificado a ressurreição dos mortos
naquela passagem. E de fato eles haviam aprendido também de Moisés26
que
todos os santos estão nas mãos de Deus; disso é fácil concluir que eles não são
dados como mortos, pois Aquele que tem em Seu poder a vida e a morte os rece-
beu sob a Sua tutela e proteção.
O principal ponto desta controvérsia
Consideremos agora o principala
ponto desta controvérsia, qual seja, a questão
sobre se os crentes do Antigo Testamento foram ou não instruídos por Deus no
sentido de que reconhecessem que teriam uma vida diferente e melhor que a da
terra, para pensarem nela, desprezando esta vida corruptível. Primeiro, a maneira
de viver que lhes foi concedida nada mais é que um constante exercício pelo qual
Deus os admoestava, advertindo-os de que seriam os seres mais miseráveis do
mundo, se tivessem a sua felicidade na terra.
Adão, Abel e Noé
Adão, que certamente se sentia tanto mais infeliz pela simples recordação da
felicidade perdida, teve grande dificuldade em sustentar-se pobrementeb
, traba-
lhando quanto pôde. E, para que o mal que o deveria perseguir não se restringisse
a isso, foi atingido por uma espantosa afliçãoc
, da qual por certo não teve nenhu-
ma consolação. De dois filhos que teve, um foi morto pela mão cruel do outrod
.
Caime
sobreviveu ao irmão, sendo que todos têm todos os justos motivos para
repudiá-lo e abominá-lo. Abel, tendo sido morto daquela maneira, e na flor da
idade, para nós é um exemplo da catastrófica maldade humana. Noéf
consumiu
grande parte da sua vida na construção da arca, debaixo de muita luta e amolaçãog
,
a. præcipuus cardo. As idéias deste parágrafo são repetidas e desenvolvidas no capítulo XVII, acrescentado
em 1539.
b. egestatem.
c. luctum.
d. fratris patricidio.
e. eum.
f. 1541, por erro, tem: Noël; 1539: Noe.
g. 1539 tem somente: fatigatione.
25
Êx 3.15; Mt 22.32.
26
Dt 33.
13
enquanto todo o mundo se alegrava em delícias e prazeresa
. Aquilo que serviu
para que ele evitasse a morte tornou-se para ele maior causa de aflição do que
se tivesse que morrer cem vezes, Porque, além do fato de que a arca lhe foi
como um túmulo durante dez meses, haverá coisa mais molestab
que ficar no
meio dos excrementos e da sujeira dos animais, e num recinto não arejadoc
? E,
depois de livrar-se de tanta dificuldade, tornou a cair noutra causa de tristeza.
Viu-se objeto da zombaria do seu próprio filho, e se sentiu constrangido a amal-
diçoar com sua própria boca aquele que Deus lhe tinha preservado do Dilúvio
como grande bênção.
Abraão, Isaque e Jacó
Abraão, quando foi originariamente chamado por Deus, foi tirado do seu país,
deixando atrás os seus pais e amigos27
, e foi privado das coisas mais desejáveis
deste mundo. Como se Deus, de propósito e deliberadamente, o quisesse despo-
jar de toda alegria terrena. Assim que ele entrou na terra onde tinha recebido
ordem para habitar, foi premido pela fome. Saiu de lá e foi buscar socorro num
país onde, para salvar sua vida, foi forçado a abandonar sua mulher – o que lhe
causou mais tristeza que se sofresse muitas mortes. Voltou para o lugar onde
devia morar? De novo foi de lá expulso pela fome. Que felicidade haveria em
morar numa terra onde mais de uma vez esteve na miséria e por pouco não mor-
reu de fome? E de novo teve que abandonar sua mulher no país de Abimeleque.
Após haver vagadod
por todo lado e durante vários anos sem nenhuma cer-
teza e segurança, foi constrangido a pôr fora de casa seu sobrinho, a quem tinha
como filho, por causa de discussões e brigas dos servos de ambos. Não há dúvida
de que essa separação foi para ele como se lhe arrancassem um braço ou uma
perna. Pouco tempo depoise
, ele soube que os inimigos o tinham feito prisioneiro.
Tendo chegado a extrema velhice, viu-se sem filhos, que era a coisa mais duraf
que podia suceder naquela época. Por fim, gerou Ismael, fora da linhagem da sua
esperança; mas ainda o nascimento desse filho custou-lhe bem caro28
. Isso por-
que sua mulher Sara foi humilhada como se, pelo fomentog
dado ao orgulho da
sua serva, aí estivesse a causa do problema que havia naquela casa. Já em seus
últimos tempos de vida, foi-lhe dado o filho Isaque, mas com a triste compensa-
ção de que o seu filho [Ismael] fosse deixado em plena matah
, como se fosse um
a. secure delitiatur.
b. insuavius nihil.
c. Frase acrescentada em 1541.
d. vagatur; 1541, por erro, tem: vaugué.
e. sectionem passus.
f. insuavissimum et acerbissimum.
g. fovendo.
h. Imagem acrescentada em 1541 (1539: pro derelicto pæne hostiliter).
27
Gn 12.
28
Gn 16.
14 As Institutas – Edição Especial
pobre cão. Depois que só ficou Isaque, o qual deve ter sido todo o consolo da sua
velhice, recebeu ordem para matá-lo.29
É possível imaginar coisa mais infeliz que
dizer a um pai que seja o carrasco do seu próprio filho? Se fosse morto por doen-
ça, quem já não consideraria infeliz esse pobre velho, por tê-lo recebido por tão
pouco tempo, como que por zombaria, para que tivesse sofrimento em dobro e se
visse destituído de linhagem própria? Se fosse morto por um estranho, a calami-
dade seria então bem maior. Mas sobrepuja toda desgraça dizer que morra pela
mão do seu pai!
Em resumo, toda a vida de Abraão foi de tal modo atormentada e afligida
que, se alguém quisesse representar numa pintura um exemplo de vida miserável,
não encontraria nada que fosse mais apropriado. Se alguém objetar dizendo que
ao menos ele não foi totalmente infeliz porque escapou de tantos perigos e supe-
rou tantas tempestades, respondo que não diremos que é feliz a vida que chega a
uma avançada velhice tendo passado por infindas dificuldades, mas sim a vida na
qual o homem é sustentado e mantido em situação tranqüila e afortunadaa
.
Passemos ao caso de Isaque, que não sofreu tantas calamidades, mas que,
todavia, com grande sofrimento e muito labor, pouco ou nenhum prazer ou ale-
gria teve em sua existência. E, por outro lado, experimentou dificuldades que de
forma alguma tornam feliz o homem na terra. A fome o perseguiu na terra de
Canaã, como tinha acontecido com seu pai. Sua mulher foi tirada do seu convício.
Por onde quer que andasse, os moradores vizinhos o molestavam e o atormenta-
vam de muitas maneiras; tanto que ele se via obrigado a lutar30
por águab
. As
mulheres de Esaú causaram muito desgosto à sua família. Ele sofreu extraordiná-
ria aflição, causada pela discórdia dos seus filhos, e o grande mal só foi remedi-
ado com o banimento daquele que tinha recebido a sua bênção.
Quanto a Jacó, veio a ser um modelo e figurac
da maior infelicidade que se
poderia descrever. Enquanto viveu na casa dos pais, em sua infância, vivia ator-
mentado pela inquietação causada pelas ameaças do seu irmão, e acabou tendo
que fugir para longe dos seus pais e do seu país. Além da angústia que lhe trouxe
o banimento, foi tratado rudemente por seu tio Labão. Não bastou que trabalhas-
se sete anos debaixo de dura e desumana servidão; no fim desse período lhe foi
dada outra mulher, não a que ele queria. E, para tê-la, teve que renovar a sua
servidão, na qual sofria o ardor do sol de dia, e a umidaded
e o frio de noite;
suportava chuva, vento e tempestade31
, sem dormir e sem descansar, como ele
mesmo se queixoue
. Depois de vinte anos, ainda na pobreza, teve que suportar
a. sine malorum sensu præsentibus bonis fruatur.
b. A propósito de poços cavados por seus servos.
c. insigne exemplar.
d. pervigil urgeatur.
e. Acréscimo feito em 1541.
29
Gn 22.
30
Gn 26.
31
Gn 31.
15
diariamente os abusos do seu sogro. Em sua casa, era consumido pelo ódio, pelas
brigas e pelo ciúme das suas mulheres. Quando Deus lhe ordenou que voltasse
para a sua terra, precisou usar astúcia e partir como se estivesse empreendendo
uma humilhante fuga. E mesmo assim não pôde evitar a maldade do sogro, que o
perseguiu e o deteve na jornada. E, embora Deus não permitisse que lhe sucedes-
se o pior, viu-se oprimido por muitas afrontas vergonhosas e por muitos ultrajes,
coisas que lhe deram forte motivo para lamentar-se.
Logo depois, Jacó passou por uma tristeza maior, porque, ao aproximar-se
do seu irmão, viu tremendamente a morte diante dos seus olhos, como a que se
pode esperar de um inimigo cruel. Seu coração foi terrivelmente atormentado e
dilacerado pela angústia, enquanto aguardava a chegada de Esaú. Quando o viu,
lançou-se aos seus pés como se estivesse para morrer, até ver que ele o recebia
com inesperada brandura.
Mal Jacó entrou em seu país, perdeu sua esposa Raquel, que morreu durante
um parto – perdeu a mulher que ele amava singularmente.32
Tempos depois, conta-
ram-lhe que o rapaz que lhe tinha sido dado por Raquel havia sido devorado por
um animal feroz. A notícia dessa morte encheu o seu coração de tanto amargor e
aflição que, mesmo depois de muito pranto, ele não quis ser consolado; queria
morrer de tanta angústia, e a sua única vontade era seguir seu filho na sepultura.
Além dessa tristeza, desse fato horrível e dessa angústia, como achamos
que ele ficou, quando soube que sua filha [Diná] tinha sido violentadaa
? E mais
ainda, quando viu que os seus filhos saquearam uma cidade para vingar a irmã?
Com isso eles não somente o fizeram odioso aos habitantes de toda aquela região,
mas também puseram em perigo a sua vida. A seguir houve o horrível pecado de
Rúben [Gn 35.22] que, sem dúvida, causou-lhe assombrosa angústia. Pois, se
uma das maiores desgraças que um homem pode sofrer é que sua mulher seja
violentada, que diremos nós quando essa maldade é cometida por seu próprio
filho? Pouco tempo depois, sua família foi maculada por outro incesto [Gn 38], o
que nos leva a pensar que tantos atos desonrosos poderiam romper o coração
mais firme e mais paciente do mundo.
Já em sua extrema velhice, Jacó mandou seus filhos a um país estranho em
busca de trigo.33
Um deles foi feito prisioneiro, e o pai julgou que corria perigo de
morte. Para resgatá-lo, foi forçado a enviar Benjamim, que era toda a sua alegria.
Quem pensaria que numa tal multidão de desgraças esse homem pôde ter um
minuto para respirar com satisfação ou alívio? Foi o que ele declarou ao faraó,
quando lhe disse que os dias da sua vida foram “poucos e maus”.34
Ao declarar
que tinha sofrido desgraças contínuas, não admitiu que tivesse recebido a prospe-
ridade prometida por Deus. E então, ou Jacó foi ingrato e mau para com Deus, ou
a. deflorata.
32
Gn 35.
33
Gn 42.
34
Gn 47.9.
16 As Institutas – Edição Especial
declarou a verdade quando disse que tinha tido vida miserável. Se ele disse a
verdade, conclui-se que a sua esperança não tinha sido posta em coisas terrenas.
Se todos esses santos pais esperaram uma vida muito feliz (o que é
indubitável), certamente conheceram e aguardaram outra bem-aventurança, qual
seja, a da vida não terrena. O que o apóstolo demonstra muito bem. “Abraão”, diz
ele35
, “peregrinou na terra da promessa como em terra alheia, habitando em ten-
das com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa; porque aguardava
a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador... Todos
estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e
saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra”.
Com isso queriam dizer que buscavam outro país. Ora, se o anseio deles fosse
pelo país natural que tinham abandonado, poderiam muito bem voltar para lá.
Mas eles esperavam uma pátria melhor, a saber, o céu. Por isso Deus não se
envergonha de se chamar seu Deus, pelo que lhes preparou uma habitação. E de
fato eles teriam sido mais cabeças-duras que pau ou pedra se persistissem em
seguir as promessas, das quais não tinham nem sequer uma amostra na terra, a
não ser que esperassem outro tipo de cumprimento.
Também não é sem motivo que o apóstolo insiste principalmente no fato de
que eles são chamados estrangeiros e peregrinos neste mundo. Como o próprio
Moisés diz [quando fala das “peregrinações” de Jacó]36
Pois bem, se eles foram
estrangeiros na terra de Canaã, onde está a promessa de Deus, pela qual eles
foram constituídos herdeiros? Isso demonstra que o que Deus lhes tinha prometi-
do dizia respeito a algo que estava além da terra. Por isso não receberam em
Canaã nenhuma herança, “nem sequer o espaço de um pé”,37
e só adquiriram
terreno para as suas sepulturas. Com isso testificaram que só tinham esperança de
gozar a promessa depois da morte.
Essa é também a causa pela qual Jacó deu tanta importância a ser enterrado
em Canaã que fez seu filho prometer com juramento que tomaria as providências
para que o seu corpo fosse transportado para lá. Esse mesmo pensamento José
seguiu, ordenando que as suas cinzas fossem levadas, o que aconteceu cerca de
quatrocentos anos após a sua morte. Em suma, vê-se claramente que, em todas as
suas obras, eles sempre tinham em vista a bem-aventurança da vida futura. Por-
quanto, com que propósito Jacó desejou a primogenitura, que não lhe trouxe
nenhum bem e causou a sua saída da casa do seu pai, trazendo-lhe, não obstante,
uma bênção mais alta? Ele até declarou esta aspiração quando estava prestes a
exalar os últimos suspiros, exclamando: “A tua salvaçãoa
espero, ó Senhor!”.38
a. salutare.
35
Hb 11.9-16.
36
Gn 47.9.
37
At 7.5.
38
Gn 49.18.
17
Pois, sabendo que ia render o espírito, que salvação esperava, se não visse na
morte o começo da uma nova vida?
Balaão, testemunha a seu contragosto
E por que discutir sobre os filhos de Deusa
, se mesmo aquele que se esforçava
para impugnar ou contestar a verdade teve o mesmo sentimento e a mesma per-
cepção em seu entendimento? Porque, que terá desejado Balaão quando disse:
“Que eu morra a morte dos justos, e o meu fim seja como o deles”,39
senão que ele
sentia em seu coração o que Davi escreveu depois, a saber, “Preciosa é aos olhos
do Senhor a morte dos seus santos” e que a morte dos ímpios é infeliz40
? Se a
meta final dos homens estivesse na morte, não se poderia notar nela nenhuma
diferença entre o justo e o injusto. É necessário, pois, distingui-los pelo que espe-
ra um e outro na era vindoura.
Moisés e outros profetas testificam a aliança espiritual
Ainda não vamos deixar Moisés e ir adiante, o qual certos sonhadores, contra os
quais já falamosb
, acham que não tinha outro ofício que não o de induzir o povo a
temer e honrar a Deus prometendo-lhe propriedades férteis e abundância de bens.
Ainda que alguém queira apagar a luz que se apresenta, já temos ali uma revelação
clara e patente da aliança espiritualc
. E, se formos aos profetas, encontraremos
neles plena claridade, que nos permite contemplar a vida eterna e o reino de Cristo.
Davi e outros profetas
Consideremos primeiro Davi que, visto ser anterior aos demais, fala dos mistérios
celestiais mais obscuramente que aqueles. Contudo, com que perspicácia e segu-
rança ele dirige toda a sua doutrina a esse alvo! Qual é a sua avaliação das mora-
das terrenas ele demonstra com esta sentença: “Sou forasteiro à tua presença,
peregrino como todos os meus pais o foram. Na verdade, todo homem, por mais
firme que esteja, é pura vaidade. Com efeito, passa o homem como uma sombra...
E eu, Senhor, que espero? Tu és a minha esperança”.41
Certamente, depois de
confessar que neste mundo não existe coisa alguma que seja firme e permanente,
ele todavia mantém firmeza de esperança em Deus, contemplando a sua felicida-
de noutro lugar, não neste mundo. Por isso ele próprio costumava conclamar os
a. de sanctis ac filiis Dei.
b. Os anabatistas.
c. Provavelmente não é por acaso que Calvino passa tão rapidamente pelo caso de Moisés, pois é certo que as
promessas de “terras férteis e abundância de bens” têm um papel a desempenhar na pregação de Moisés,
sem se omitir o que consta no quinto mandamento.
39
Nm 23.10.
40
Sl 116.15 e 34.21.
41
Sl 39.5-7,12.
18 As Institutas – Edição Especial
crentes a essa contemplação, todas as vezes que os queria consolar. Porque, nou-
tra passagem depois de demonstrar quão breve e frágil é esta vida, acrescenta:
“Mas a misericórdia do Senhor é de eternidade a eternidade sobre os que o te-
mem”.42
O que se assemelha ao que ele diz nesta outra passagem:43
“Em tempos
remotos, lançaste os fundamentos da terra; e os céus são obra das tuas mãos. Eles
perecerão, mas tu permaneces; todos eles envelhecerão como um vestido, como
roupa os mudarás, e serão mudados. Tu, porém, és sempre o mesmo, e os teus
anos jamais terão fim. Os filhos dos teus servos habitarão seguros, e diante de ti
se estabelecerá a sua descendência”. Se com a eliminação do céu e da terra os
crentes não deixarão de ser estabelecidos diante de Deus, segue-se que a salvação
deles está ligada à Sua eternidade.
A promessa feita por meio de Isaías
E, de fato, esta esperança não poderia subsistir, se não estivesse fundada na pro-
messa exposta no Livro de Isaías, onde lemos: “Os céus desaparecerão como a
fumaça, e a terra envelhecerá como um vestido, e os seus moradores morrerão
como mosquitos, mas a minha salvação durará para sempre, e a minha justiça não
será anulada”.44
Nessa passagem a perpetuidade é atribuída à salvação e à justiça.
Não no sentido de que as coisas permanecem em Deus, mas que Ele as comunica
aos homens. E, na realidade, não se pode tomar ao pé da letra as coisas que ele
vez por outra diz sobre a felicidade dos crentes, a não ser colocando-as em termos
da manifestação da glória celestial. Como quando ele diz: “Ele [o Senhor] guar-
da a alma dos seus santos, livra-os das mãos dos ímpios. A luz difunde-se para o
justo, e a alegria, para os retos de coração”.45
“A sua justiça permanece para
sempre, e o seu poder se exaltará em glória. ...o desejo dos perversos perecerá”
[Sl 112.9,10]. E também: “Os justos renderão graças ao teu nome; os retos habi-
tarão na tua presença”. E mais: O justo “será tido em memória eterna”. E ainda:
“O Senhor resgata a alma dos seus servos”.46
Os justos nas garras dos ímpios
Ora, o Senhor não somente permite que os Seus servos sejam atormentados pelos
ímpios, mas também muitas vezes deixa que eles sejam dissipados e destruídos
pelos maus. Deixa que os retos desfaleçam nas trevas e no infortúnio, enquanto
os ímpios brilham como as estrelas do firmamento. E não mostra o fulgor do Seu
rosto aos Seus servos fiéis o bastante para deixá-los gozar alegria por muito tem-
po. Por isso Davi mesmo não esconde o fato de que, se tivermos os olhos postos
42
Sl 103.17.
43
Sl 102.25-28.
44
Is 51.6.
45
Sl 97.10,11.
46
Sl 140.13; 112.6; 34.22.
19
no presente estado deste mundo, sofreremos com isso forte tentação para deixar-
nos vacilar; como se não recebêssemos nenhuma recompensa por nossa integri-
dade. A esse ponto a impiedade prospera e floresce, ao passo que os justos são
oprimidos pela ignomínia, pela pobreza, pelo desprezo e por outras espécies de
calamidade. “Quase me resvalaram os pés”, diz o salmista; “pouco faltou para
que se desviassem os meus passos. Pois eu invejava os arrogantes, ao ver a pros-
peridade dos perversos.” Depois de fazer uma descrição disso, ele conclui: “Em
só refletir para compreender isso, achei mui pesada tarefa para mim; até que
entrei no santuário de Deus e atinei com o fim deles”.47
Lição deduzida
Aprendamos, pois, dessa confissão de Davi, que os santos pais, sob o Antigo
Testamento, não ignoravam quão pouco e quão poucas vezes Deus cumpriu, ou
plenamente jamais cumpriu, neste mundo as coisas que Ele promete aos Seus
servos. E que por essa causa elevavam o seu coração no santuário de Deus, onde
encontravam o que lá estava reservado e que não lhes era manifesto nesta vida
corruptível. Esse santuário era o juízo final que esperamos, o qual eles se conten-
tavam em entender pela fé, embora não o captassem com os olhos. Munidos
dessa confiança, fosse o que fosse que lhes adviesse neste mundo, eles não duvi-
davam que chegaria o dia em que as promessas de Deus seriam cumpridas. Isso
demonstram muito bem estas declarações:48
“Na justiça contemplarei a tua face;
quando acordar, eu me satisfarei com a tua semelhança”. E também: “Sou como
a oliveira verdejante, na Casa de Deus”. E ainda: “O justo florescerá como a
palmeira, crescerá como o cedro do Líbano. Plantados na Casa do Senhor, flores-
cerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice darão ainda frutos, serão cheios de
seiva e de verdor”. Onde estarão essa beleza e esse vigor, senão quando a aparên-
cia deste mundo for substituída pela manifestação do reino de Deus? Por isso,
tendo os olhos postos na eternidade e desprezando o amargor das calamidades
presentes, que eles viam que são transitórias, gloriavam-se confiantemente nes-
tas palavras: “Jamais permitirás, ó Senhor, que o justo pereça eternamente, mas
afundarás o ímpio no abismo da destruição”.49
Onde está neste mundo o abismo
de destruição que devora os ímpios, sobre cuja felicidade se diz noutra passagem
que eles morrem sem longoa
enfraquecimento e sem demorada agonia? [Sl 73.4].
Onde estão a firmeza e a fortaleza dos santos, sobre os quais o próprio Davi diz
várias vezes (queixosamente) que eles não somente são abalados, mas são total-
mente oprimidos e abatidos? É, pois, necessário que se ponha diante dos olhos
não aquilo que traz a incerteza deste mundo, visto que este é como um mar agita-
a. in puncto.
47
Sl 73.2,3,16,17.
48
Sl 17.15; 52.8; 92.12-14.
49
Sl 55.22,23 [tradução direta].
20 As Institutas – Edição Especial
do por diversas tempestades, mas sim o que o Senhor vai fazer quando se assentar
em juízo para estabelecer o estado permanente do céu e da terraa
.
Como ele descreve muito bem noutro lugar:50
“...dos que confiam nos seus
bens e na sua muita riqueza se gloriam? Ao irmão, verdadeiramente, ninguém o
pode remir, nem pagar por ele a Deus o seu resgate (Pois a redenção da alma
deles é caríssima, e cessará a tentativa para sempre.), para que continue a viver
perpetuamente e não veja a cova; porquanto vê-se morrerem os sábios e perecem
tanto o estulto como o inepto, os quais deixam a outros as suas riquezas. O seu
pensamento íntimo é que as suas casas são perpétuas e, as suas moradas, para
todas as gerações; chegam a dar seu próprio nome às suas terras. Todavia, o
homem não permanece em sua ostentação; é, antes, como os animais, que pere-
cem. Tal proceder é estultícia deles; assim mesmo os seus seguidores aplaudem o
que eles dizem. Como ovelhas são postos na sepultura; a morte é o seu pastor;
eles descem diretamente para a cova, onde a sua formosura se consome51
; a se-
pultura é o lugar em que habitam”.
Consideremos:
Primeiro, zombando dos tolos porque descansam e condescendem em seus
prazeres mundanos, transitórios que são, ele demonstra que a sabedoria consiste
em buscar outra felicidade. Mas, em segundo lugar, ele proclama de maneira
mais clara o mistério da ressurreição quando erige o reino dos justos predizendo
a ruína e a desolação dos ímpios. Porquanto, que é que entendemos pela expres-
são “alvorecer do dia” de que ele fala [ver nota], senão uma revelação da nova
vida, após o fim da presente existência? Disso também decorre esta reflexão: Os
crentes daquela época tinham o costume de se consolar e de se fortalecer para a
paciente perseverança dizendo que “não passa de um momento a sua ira; o seu
favor dura a vida inteira”.52
Mas, como poderiam pôr fim às suas aflições, visto
que eram afligidos a vida inteira? Onde consta que eles viam uma tão longa dura-
ção da bondade de Deus, a qual a duras penas eles tinham escassa ocasião de
usufruir? Certamente, se eles buscassem duradoura alegria na terrab
, não teriam
encontrado nenhuma. Mas, quando elevavam os olhos ao céu, compreendiam
que todo bem terreno não passa de um sopro de ventoc
, que os santos têm que
suportar tribulaçãod
, e que as bênçãos que devem receber são eternas.
a. Apega-se aqui à viva escatologia (esperança das coisas finais) presente no Antigo Testamento, e Calvino está
de acordo com o autor da Epístola aos Hebreus em sublinhá-la. Tem-se feito falsa acusação contra o reformador
de que ele negligencia a escatologia. Ao contrário, a sua mensagem é totalmente impregnada dela, e ele
insiste em dizer que os discípulos eram essencialmente “peregrinos” nesta terra.
b. si in terra hæsissent.
c. punctum temporis.
d. 1539 acrescentou: “per crucem”, após “miserationes seculi esse, quibus colliguntur”: caso raro, no qual um
elemento completo de frase não foi traduzido.
50
Sl 49.6-14.
51
No original francês: “No alvorecer do dia os justos terão domínio sobre eles” (N. do T.).
52
Sl 30.5.
21
Por outro lado, previam que a desgraça dos ímpios não teria fim, embora se
considerassem muito felizes, como que vivendo de sonhos. Daí vinham estas
declarações, que eles conheciam bem: “A memória do justo é abençoada, mas o
nome dos perversos cai em podridão”.53
E também: “A morte dos santos é preci-
osa diante do Senhor; a morte do pecador é terrivelmente funesta” [tradução dire-
ta. Cf. Sl 116.15 e Ez 28.8]. E mais: “[O Senhor] guarda os pés dos seus santos,
porém os perversos emudecem nas trevas da morte”.54
Uma conclusão tranqüilizadora
Vê-se, pois, que as palavras acima transcritas demonstram que os pais do Antigo
Testamento sabiam muito bem que, fosse qual fosse o infortúnio que os crentes
tivessem que sofrer neste mundo, seu fim seria vida e salvação. Por outro lado,
sabiam que a felicidade dos ímpios é um caminho belo e aprazível que leva à
desgraça. Por essa causa eles chamavam a morte dos incrédulos “morte de
incircuncisos” [ou, literalmente, “ruína dos incircuncisos”]55
, querendo com isso
indicar que a esperança da ressurreição lhes é cortada. Por isso Davi não poderia
ter imaginado maldição mais grave sobre os seus inimigos que a seguinte, que ele
pediu em oração a Deus: “Sejam riscados do livro da vida, e não sejam inscritos
com os justos”.56
O vibrante testemunho de Jó
Mas a seguinte declaração de Jó é mais notável que as outras: “Eu sei que o meu
Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra. Depois, revestido este meu
corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus. ...de saudade me desfalece o
coração dentro em mim”.57
Os que querem exibir a sua sutileza argumentam com
rodeios e sofismas dizendo que não se deve entender essa passagem como uma
referência à ressurreição final, mas sim ao período em que Jó esperava que o
Senhor lhe seria mais brando e mais amigável. Ainda que concordássemos com
eles em parte, sempre teríamos esta verdade (querendo eles ou não), que Jó não
poderia alcançar uma esperança tão alta se pensasse em repouso na terra. Portan-
to, devemos reconhecer e confessar que ele elevou os seus olhos para contemplar
a imortalidade futura, pois esperava o seu Redentor como quem está na sepultu-
ra, ou seja, como estando ele, Jó, na sepultura. Porque a morte é um desespero
extremo para aqueles que só pensam na vida presente, e, todavia, a morte não
pôde eliminar a esperança de Jó. “Ainda que ele [Deus] me mate”, disse ele,
“nele esperarei” [Almeida, Revista e Corrigida, semelhante ao original francês].
53
Pv 10.7.
54
1Sm 2.9.
55
Ez 28.10; 31.18; etc.
56
Sl 69.28 [tradução direta].
57
Jó 19.25-27.
22 As Institutas – Edição Especial
Se alguém for bastante teimoso para murmurar que as sentenças acima citadas
são de pouca gente e que com elas não se pode provar que essa doutrina era
comum entre os judeus, responderei incontinenti que tais sentenças, em pequeno
número, não pretendem mostrar alguma sabedoria oculta, que só os espíritos su-
periores poderiam entender. Porque os que assim falaram foram constituídos
mestres do povoa
pelo Espírito Santo. Por isso, segundo o seu ofício, eles divul-
garam abertamente a doutrina que deveria ser sustentada pelo povo todob
. Quan-
do, pois, ouvimos tão evidentes oráculos do Espírito Santo, pelos quais Ele
testificou antigamente a vida espiritual com vistas à igreja dos judeus e a estes deu
indubitável esperança, seria obstinação por demais exorbitante só deixar ao povo
uma aliança carnal, na qual só se faz menção da terra e da felicidade mundana.
Outros profetas
Se eu descer aos profetas posteriores, terei matéria ainda mais ampla e mais fácil
de debater na causa em foco. Porque, se a vitória não nos parece difícil demais
em Davi, Jó e Samuel, para nós será muito mais fácil. Pois o Senhor mesmo
seguiu este modo de agir ao dispensar a aliança da Sua misericórdia, no sentido
de que, à medida que se aproximava o dia da revelação completa, a Ele aprouve
aumentar cada vez mais a clareza da Sua doutrina. Porque, quando a primeira
promessa foi feita no princípio a Adão, ele apenas teve como que algumas cente-
lhas para a sua iluminação. De lá para cá, pouco a pouco a luz foi crescendo e
aumentando dia após dia, até que o Senhor Jesus Cristo, que é o Sol da justiça,
fazendo desvanecer todas as nuvens, iluminou plenamente o mundoc
. Se quiser-
mos valer-nos dos testemunhos dos profetas para comprovar a nossa causa, não
devemos temer que eles nos falhem. Mas, visto que noto que este assunto já se
estendeu demaisd
, devemos restringir ainda mais o que pretendíamos fazer (por-
que daria para encher um grosso volume). Ademais, como penso que fiz acima
uma apresentação para todos os leitores de médio entendimento de maneira que
eles poderão ter suficiente compreensão do conteúdo, vou evitar ser prolixo, a
não ser que haja grande necessidade.
A chave para abrir o estudo
Limito-me a admoestar os leitores a que se sirvam da chave que lhes dei para
abrir o estudo. É que, todas as vezes e quantas os profetas relembram a bem-
aventurança dos crentes (da qual só se vê uma pequena sombrae
neste mundo),
a. plebis.
b. quæ communiter ediscenda essent Dei mysteria, et popularis religionis principia.
c. Calvino admite a idéia de uma progressão na revelação através dos séculos. Mas atribui essa progressão às
dispensações de Deus, e não, como os evolucionistas modernos, ao desenvolvimento do sentimento religio-
so de Israel.
d. ingentem materiæ sylvam.
e. mínima vestigia.
23
eles sempre voltam a esta distinção: Os profetas, para demonstrar melhor a bon-
dade de Deus, usaram os benefícios terrenos como figuras, como imagens repre-
sentativas, mas, entretanto, quiseram com esses quadros elevar os corações aci-
ma da terra e dos elementos deste mundo e deste século corruptível, e induzi-los
a meditar na felicidade da vida espiritual.58
Um exemplo
Um exemplo nos basta. É o seguinte: Tendo o povo de Israel sido transportado
para a Babilônia, considerava o seu exílio e a desolação em que se encontrava
como uma morte. Não havia como fazê-lo crer que tudo o que Ezequiel prometia
quanto à sua restauração não era fábula nem mentira. Porque o povo pensava que
fosse como se ele dissesse que um corpo já putrefacto haveria de ressuscitar. O
Senhor, para mostrar que nem mesmo essa dificuldade O impediria de levar a
cabo [o propósito da] Sua graça em Seu povo, revelou por visão ao profeta um
campo cheio de ossos59
, aos quais Ele deu espírito e vigor num momento, somen-
te pelo poder da Sua palavra. Essa visão serviu para corrigir a incredulidade do
povo. Todavia, ao mesmo tempo serviu para admoestá-lo quanto ao poder de
Deus de ir além da restauração prometida, pois unicamente a Seu mandado Lhe
foi fácil devolver à vida as ossadas espalhadas por todo lado. Mas, para comparar
com essa passagem, temos outra semelhante em Isaías, onde se diz que os mortos
viverão e ressuscitarão com os seus corpos.60
A seguir lhes é dirigida esta exorta-
ção: “Despertai e exultai, os que habitais no pó, porque o teu orvalho, ó Deus,
será como o orvalho de vida, e a terra dará à luz os seus mortos. Vai, pois, povo
meu, entra nos teus quartos e fecha as tuas portas sobre ti; esconde-te só por um
momento, até que passe a ira. Pois eis que o Senhor sai do seu lugar, para castigar
a iniqüidade dos moradores da terra; a terra descobrirá o sangue que embebeu e já
não encobrirá aqueles que foram mortos”.
Bem que eu gostaria de dizer que devemos enquadrar todas as outras passa-
gens nesta regra. Pois há algumas que, sem nenhuma figura nem obscuridade,
demonstram a imortalidade futura, a qual é preparada para os crentes no reino de
Deus, como já dissemos. E em muitas outras, mas principalmente em duas, a
mesma promessa está presente. Uma delas é Isaías, onde o profeta diz:61
“Como
os novos céus e a nova terra, que hei de fazer, estarão diante de mim, diz o Se-
nhor, assim há de estar a vossa posteridade e o vosso nome. E será que, de uma
Festa da Lua Nova à outra e de um sábado a outro, virá toda a carne a adorar
perante mim, diz o Senhor. Eles sairão e verão os cadáveres dos homens que
58
“Ora, essa é uma tentação muito grave, ou seja, avaliar alguém o amor e o favor divinos segundo a medida da
prosperidade terrena que ele alcança.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 17.14), p. 346].
59
Ez 37.
60
Is 26.19.
61
Is 66.22-24.
24 As Institutas – Edição Especial
prevaricaram contra mim; porque o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se
apagará; e eles serão um horror para toda a carne”. A outra acha-se em Daniel.
“Nesse tempo”, diz ele62
, “se levantará Miguel, o grande príncipea
, o defensor dos
filhos do teu povo, e haverá tempo de angústia, qual nunca houve, desde que
houve nação até àquele tempo; mas, naquele tempo, será salvo o teu povo, todo
aquele que for achado inscrito no livro. Muitos63
dos que dormem no pó da terra
ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno”.
Dois pontos que dispensam comprovação
Quanto aos dois outros pontos, quais sejam, que os antigos pais tinham Cristo
como penhor e garantia das promessas a eles feitas por Deus, e que eles punham
nele toda a sua confiança quanto à esperada bênção, não vou me esforçar para
provar, porque são fáceis de entender, e sobre eles já houve muita controvérsia.
Conclusão desta parte
Concluiremos, pois, que o Antigo Testamento, ou seja, a aliança que Deus fez
com o povo de Israel, não se limitava a coisas terrenasb
, mas também abrangia
certas promessas da vida espiritual e eterna, a esperança da qual devia estar im-
pressa no coração de todos os que se aliavam a esse Testamento. Não há maqui-
nação do Diabo que possa derrubar essa conclusão. Portanto, fique longe de nós
esta opinião insanac
e perniciosa, qual seja, que Deus não ofereceu aos judeus, ou
que estes não esperavam da Sua mão, nada mais que satisfazer seu estômago,
viver em prazeres carnais, ter abundantes riquezas, ser exaltados em honra, ter
numerosa descendência, e outras coisas semelhantes, que os mundanos desejam.
Porque Jesus Cristo não promete hoje aos que nele crêem outro reino dos céus,
senão aquele no qual eles descansarão com Abraão, Isaque e Jacó64
. O apóstolo
Pedro lembrou aos judeus do seu tempo que eles eram herdeiros da graça evangé-
lica, visto que eram sucessores dos profetas, estando incluídos na aliança que
Deus tinha feito nos tempos antigos com Israel65
. E para que não fosse testemu-
nho só de palavras, o Senhor também o comprovou de fato. Porque na mesma
a. princeps magnus.
b. Calvino reconhece aqui a dupla significação das promessas feitas aos judeus: uma imediata e temporal,
outra mais distante e espiritual.
c. insanam.
62
Dn 12.1,2.
63
Segundo o original francês: “Os que descansam...”. Schröder, no comentario editado por Lange, sobre
Daniel 12.2 diz numa nota de rodapé, entre outras coisas, o seguinte: “Cf. Calvino sobre esta passagem:
‘Multos hic ponit pro omnibus, ut certum est. Neque hæc locutio debet nobis videri absurda. ...; cfr.
Rom. V.15,19’. [Em tradução simplificada: “Muitos, aqui, vale por todos, o que está certo. E não conside-
remos essa locução absurda. ... ver Rm 5.12,19”.] O próprio Keil admite que [essa palavra] ‘só pode ser
corretamente interpretada à luz do contexto’. Stuart afirma claramente que o contexto lhe dá aqui o
sentido universal”. Nota do tradutor.
64
Mt 8.11.
65
At 3.11-26.
25
hora em que ressuscitou, fez muitos santos participantes da Sua ressurreição, os
quais foram vistos em Jerusalém66
. Com isso nos é dada uma garantia de que tudo
o que o Senhor tinha feito e sofrido para adquirir salvação para o gênero humano
pertencia tanto aos crentes do Antigo Testamento quanto a nós. E, de fato, eles
tinham um mesmo espírito que nós temos, pelo qual Deus regenera os Seus para
a vida eterna. Portanto, como vemos que o Espírito de Deus, que é como uma
semente de imortalidade em nós (pelo que é chamado penhor da nossa herança),
habitava neles, como ousaríamos vetar a eles a herança da vida? Por isso o ho-
mem prudente nunca irá conseguir espantar-se o bastante com o fato de os saduceus
no passado terem caído em tão grande estupidez, que é a de negarem a ressurrei-
ção [do corpo] e a imortalidade da alma, sendo que tanto uma como a outra são
demonstradas com muita clareza na Escritura.
Grave erro do judaísmo atual
Em face da brutal ignorância que [com assombro] vemos hoje em todo o povo
judeu, no fato de esperar estultamente um reino terreno de Cristo, não devería-
mos espantar-nos menos ante o fato de que tenha sido predito que lhe sobreviria
tão grande castigo por ter desprezado Jesus Cristo e Seu Evangelho. Porque com
toda a razão Deus feriu os judeus de uma tal cegueira que, tendo eles apagado a luz
que lhes foi apresentada, eles preferiram as trevas. É certo que eles lêem Moisés e
meditam constantemente no que ele escreveu, mas têm o véu que os impede de
contemplar a luz do seu rosto67
. Véu que permanecerá para sempre, enquanto não
se converterem a Cristo, de quem eles agora se desviam quanto podem.
Não há diferença entre o Antigo e o Novo Testamentos?
“E então?” dirá alguém. “Não restará nenhuma diferença entre oAntigo e o Novo
Testamentos? E que dizer de tantas passagens da Escritura que os opõem um ao
outro como coisas muito diferentes?” Respondo que admito de boa vontade todas
as diferenças que encontrarmos registradasa
na Escritura, mas com a condição de
que não tirem nada da unidade que já deixamos estabelecida. Será fácil ver isso
quando tratarmos delas na devida ordem. Ora, quanto me é possível constatar
examinando diligentemente a Escritura, as diferenças são quatro. Se alguém qui-
ser acrescentar-lhes a quinta, não direi nada contra.
Vou empenhar-me em mostrar que todas elas pertencem, e devem referir-se,
à maneira diversa que Deus empregou para dispensar Sua doutrina, e não ao seu
conteúdo substancial. Assim, não haverá empecilho bastante forte para a seme-
lhança existente entre as promessas do Antigo e as do Novo Testamento, e para
que Cristo seja considerado o fundamento único tanto destas como daquelas.
a. commemorantur.
66
Mt 27.50-53.
67
2Co 3 [notar os versículos 14 e 15].
26 As Institutas – Edição Especial
A primeira diferençaa
é, então, a seguinte: Conquanto Deus sempre tenha
desejado que o Seu povo elevasse o seu pensamento à herança celestial, e pusesse
nisso o seu coração, todavia, para melhor manter a esperança das coisas invisí-
veis, ele o levava a contemplá-las sob Suas bênçãos terrenas, quase sempre lhe
dando algo que lhe agradava. Mas agora, tendo revelado claramente a graça da
vida futura pelo Evangelho, Ele dirige a nossa mente de maneira direta, levando-
nos a meditar nela, sem nos envolvermos com coisas inferiores, como fazia com
os israelitas. Os que não levam em consideração o conselho de Deus acham que
os antigos não subiam a nível mais alto que o de esperar e querer somente o que
se relaciona com a satisfação do corpo. Eles vêem que a terra de Canaã é menci-
onada várias vezes como a recompensa suprema, para remunerar os que obser-
vassem a Lei de Deus. Por outro lado, eles vêem que Deus não faz aos judeus
ameaças mais graves que a de exterminá-los da terra que lhes tinha dado, e de os
espalhar pelas nações estrangeiras. Finalmente, eles vêem que as bênçãos e as
maldições recitadas por Moisés têm, quase todas, esse objetivo. Disso tudo eles
concluem que Deus separou os judeus dos outros povos, não para proveito deles,
mas para o nosso, a fim de que a igreja cristã tivesse uma imagem exteriorb
na
qual pudesse contemplar as coisas espirituais. Vê-se, entretanto, que a Escritura
demonstra que Deus, por meio de todas as promessas terrenas que lhes fazia, quis
conduzi-los, como pela mão, na esperança da Suas graças celestiais. Não consi-
derar esse recurso, essa instrumentalidade, é cometer um erro grosseiro, para não
dizer uma tolicec
.
Debate sobre o significado de Canaã
Eis aqui o ponto que devemos debater contra esse tipo de gente: Eles dizem que
a terra de Canaã, considerada pelo povo de Israel como a sua felicidade suprema,
para nós representa a nossa herança celestial. Nós, ao contrário, sustentamos que,
na posse e no gozo desse bem terreno, o povo de Israel contemplou a herança
futura que lhe estava preparada no céu. Esclarece melhor isto a símile emprega-
da pelo apóstolo Paulo na Epístola aos Gálatas68
. Ele compara o povo judeu com
um herdeiro que ainda está na infância e que, não sendo capaz de se governar, está
sob as mãos do seu tutord
, ou do seu pedagogo69
. É bem verdade que nessa passa-
gem o apóstolo trata principalmente das cerimônias; mas isso não impede que apli-
quemos aquela declaração ao nosso propósito. Vemos, pois, que lhes foi destinada
a mesma herança que a nós, a qual, contudo, eles não puderam gozar plenamentee
.
a. Palavra acrescentada em 1541.
b. Idem.
c. imperitiæ, ne dicam hebetudinis.
d. pædagogi cujus custodiæ commissus.
e. adeundæ et tractandæ nondum capaces (termos do direito romano).
68
Gl 3 e 4 [mormente 3.23-26 e 4.1-7].
69
No sentido do termo grego respectivo: guia, protetor e instrutor ou preceptor de meninos; tutor (N. do T.).
27
Havia entre eles a mesma igreja que a nossa, mas era como se ela estivesse em
sua infância. Por isso o Senhor os manteve com esta pedagogia [sob esta tutela
instrutiva e disciplinar]: Não lhes dar claramente as promessas espirituais, mas
oferecer-lhes alguma imagem e figura delas sob as promessas terrenas. Querendo
receber Abraão, Isaque, Jacó e toda a sua raça na esperança da imortalidade,
prometeu-lhes a terra de Canaã como herança, não para colocarem nela o seu
amor, mas antes para que, considerando-a, se fortalecessem na segura e certa
esperança da verdadeira herança, quea
ainda não lhes era manifesta. E, a fim de
que não abusassem, acrescentou-lhes também uma promessa mais alta, que lhes
testificava que aquela herança terrena não era o principal e supremo bem que Ele
lhes queria fazer. Assim Abraão, tendo recebido a promessa da posse da terra de
Canaã, não ficou enlevadob70
com o que viu, mas foi altamente elevado pela
promessa anexa, como disse Deus: “Não temas,Abrão, eu sou o teu escudo, e teu
galardão será sobremodo grande”.71
Em Deus estava o vero Galardão prometido a Abraão
Vemos que o fim do seu galardão estava em Deus, para que ele não se fixasse
num galardão transitório deste mundo, mas noutro, incorruptível no céu. Tam-
bém vemos que a posse da terra de Canaã não lhe foi prometida com outra finali-
dade senão a de que fosse um sinal da bondade de Deus e uma figura da herança
celestial. E de fato se vê, pelas declarações dos crentes, que eles tinham esse
sentimento. Dessa maneira, Davi foi incentivado pelas bênçãos temporais de Deus
a meditar em Sua graça soberana, como ele diz: “Meu coração e meu corpo des-
falecem de desejo de te ver, Senhor! O Senhor é a minha porção hereditária para
sempre”. E também: “O Senhor é a porção da minha herança e o meu cálice; tu és
o arrimo da minha sorte”. E mais: “Eu clamo ao Senhor, dizendo: Tu és a minha
esperança e a minha herança na terra dos viventes72
”.
Certo é que todos os que assim falaram transcenderam este mundo e todas
as coisas presentes. Contudo, muitas e muitas vezes os profetas descrevem a
bem-aventurança do século futuro fazendo uso da imagem e figura que recebe-
ram de Deus. É dessa forma que devemos entender as declarações que se verão
a seguir, nas quais se diz que “os justos possuirão a terra em herança, e os
ímpios serão exterminados”. “Jerusalém terá abundância de riquezas, e Sião
terá fartura de bens”.73
a. 1541 tem, por erro do secretário: “qu’il”; 1539: “qua”.
b. torpere non sinitur.
70
A expressão latina (torpere non sinitur, cf. nota d) é rica, incluindo a idéia de deixar-se entorpecer, deixar-se
embotar. Abraão não ficou extasiado ou deslumbrado com a terra de Canaã ao ponto de ficar com os seus
sentidos embotados. Nota do tradutor.
71
Gn 15.1.
72
Sl 73.26 [tradução direta]; 16.5; 142.5 [tradução direta].
73
Sl 37.20,29; Jó 18; Pv 2.21,22; Is 62 e diversas outras passagens nesse livro. [Tradução direta.]
28 As Institutas – Edição Especial
Entendamos bem: Essas passagens não se referem a esta vida mortal, que é
como uma peregrinação. E não são pertinentes à cidade terrestre de Jerusalém,
mas são pertinentes e se referem à verdadeira pátria dos que crêem, e à cidade
celeste, na qual Deus preparou venturosa bênção e vida para sempre.74
Mas por
isso mesmo [com tantas promessas em termos terrenais] os santos do Antigo
Testamento apreciavam esta vida mortal mais do que nos cabe fazê-lo hoje. Por-
que, embora soubessem muito bem que não se deviam fixar nas coisas da terra
como se constituíssem sua meta última, todavia, como por outro lado eles julga-
vam que Deus representava por elas a Sua graça para fortalecê-los na esperança,
tendo em vista a sua pequenez, eles se apegavam a elas com maior amor do que se
as considerassem pelo que elas realmente são.
Ora, assim como o Senhor, ao testificar a Sua bondade para com os Seus
fiéis mediante benefícios terrenos, representava por eles a bem-aventurança
espiritual, à qual eles deviam inclinar-se, assim também, por outro lado, as
penas e dores corporais que Ele enviava sobre os maus eram sinais do Seu juízo
futuro sobre os réprobos. Porque, assim como os benefícios de Deus eram en-
tão mais manifestos nas coisas temporais, também o eram as vingançasa
ou
punições. Os ignorantes, não tomando em consideração esta semelhança e con-
formidade entre as penas e as recompensas que havia naquele tempo, ficam
espantados, perguntando-se como pode haver tal variedade em Deus. Como se
antigamente Ele estivesse sempre prontob
para de súbito se vingar com rigorc
dos homens, imediatamente após O terem ofendido; já no presente, como se
Ele tivesse moderadod
a Sua cólera, pune mais brandamente e menos
freqüentemente. E daí pouco falta para imaginarem Deuses diferentes no Anti-
go e no Novo Testamentos.
Mas nos será fácil livrar-nos de todos esses [falsos] escrúpulos, se pensar-
mos na dispensação de Deus, como temos observado, isto é, se considerarmos o
tempo em que Ele fez Sua aliança com o povo de Israel e qual a sua abrangência.
Por um lado, Deus quis simbolizar e representar a bem-aventurança eterna, que
lhes prometeu sob as Suas bênçãos terrenas; e, por outro, a terrível condenaçãoe
,
que os ímpios deveriam esperar sob penas e sofrimentos corporais.
Segunda diferença
A segunda diferença entre o Antigo e o Novo Testamentos consiste nas figuras. É
que, no tempo em que a verdade [plena e concreta] ainda estava ausente, oAntigo
Testamento a representava por meio de imagens, e mostrava sombra em lugar de
a. pœnæ.
b. subitus.
c. sævis horrendisque suppliciis.
d. posito pristinæ iracundiæ affectu.
e. spiritualis mortis gravitatem.
74
Sl 132.
29
corpo. O Novo Testamento contém a verdade presente, e a substânciaa
[real e
concreta]. E nesse sentido devem ser entendidas quase todas as passagens nas
quais, comparativamente, o Antigo Testamento se opõe ao Novo. Tenha-se em
conta, porém, que não há nenhuma outra passagem onde isto seja tratado mais
amplamente que na Epístola aos Hebreus. Ali o apóstolo contesta os que pensa-
vam que a religião ficaria totalmente arruinada se as cerimônias mosaicas fossem
abolidas. Para refutar esse erro, ele toma, em primeiro lugar, o que tinha sido dito
pelo profeta no tocante ao sacrifício de Jesus Cristo75
. Porque, depois que o Pai
constituiu o sacerdote eterno, é certo que os sacrifícios levíticos estão elimina-
dos, no sentido de que aquele sucede a estes. Ora, que este novo sacerdócio é
mais excelente que o outro ele prova, mostrando que foi estabelecido por jura-
mento. Logo a seguir ele acrescenta que, quando o sacerdócio foi assim transfe-
rido, houve transferência de aliança. Além disso, ele ensina categoricamente que
isso era também necessário porque havia tal fraqueza na Lei que ela não podia
levar à perfeição. Subseqüentemente, ele passa a dizer qual é essa fraqueza, de-
clarando que as suas justiças eram exterioresb
, e, por isso, não podiam tornar
perfeitos os seus praticantes, tendo-se em vista a consciência.A razão dada é que
o sangue de animaisc
não pode apagar pecados nem adquirir santidade. Ele então
conclui que na Lei havia uma sombra dos bens futuros, não uma viva presença, a
qual nos é dada no Evangelho.
Comparação da aliança da Lei com a do Evangelho
Aqui devemos considerar em que ponto ele compara a aliança da Lei com a alian-
ça evangélica, o ofíciod
de Moisés com o de Cristo. Porque, se essa comparação
se reportasse à substância das promessas, haveria um grande repúdio recíproco
entre os dois Testamentos. Mas, como vemos que o apóstolo tende para outro
lado, devemos acompanhar a sua intenção, para podermos encontrar a verdade
satisfatoriamente. Centralizemos, pois, a nossa atenção na aliança de Deus que,
uma vez feita, é para durar para sempre. Jesus Cristo é seu cumprimento e sua
consumação. Contudo, enquanto era necessário esperare
o seu cumprimento, o
Senhor, por meio de Moisés, ordenou as cerimônias, para que fossem sinais e
representações delaf
. Eis o ponto xis da controvérsia: Se era preciso que as ceri-
mônias ordenadas e estabelecidas na Lei cessassem, para darem lugar a Jesus
Cristo. Pois bem, embora elas não passassem de acidentes ou acessóriosg
do An-
a. corpus solidum.
b. externas carnis justitias.
c. 1539 tem somente: pecudum victimis.
d. ministerium.
e. dum expectatur.
f. solemnis confirmationis symbola.
g. 1539 acrescenta: ac annexa.
75
Hb, capítulos 8, 9 e 10.
30 As Institutas – Edição Especial
tigo Testamento, não obstante, visto que eram instrumentos pelos quais Deus
mantinha Seu povo na sua doutrina, elas trazem o nome das coisas que represen-
tam, como a Escritura costuma fazer, atribuindo aos sacramentos o nome das
coisas representadas por eles. Porque, em resumo, o Antigo Testamento é aqui
mencionado da maneira solene como o Testamento do Senhor era sancionado ou
confirmado para os judeus, sendo ele constituído de ofertas sacrificiais e de ou-
tras cerimônias. Uma vez que, limitadas a si mesmas, elas nada têm de firmes e
sólidas, o apóstolo sustenta que deveriam ser finalmente ab-rogadas, para cede-
rem lugar a Jesus Cristo, sendo Ele penhora
e Mediador de uma aliança melhor.
Por esta a santificação eterna foi adquirida uma vez por todas para os eleitos, e as
transgressões, que permaneciam no Antigo Testamento, foram abolidas. Ou, se
alguém preferir, oferecemos esta definição.
Definição
O Antigo Testamento foi a doutrina que Deus deu ao povo judeu, doutrina envol-
ta em observância de cerimônias que não tinham nem eficácia nem solidez. Daí o
seu caráter temporal, pois estava como em suspense, até que se firmasse em seu
cumprimento e fosse confirmado em sua substância. Mas então ele foi feito novo
e eterno, quando foi confirmado e estabelecido no sangue de Cristo. Por essa
causa Cristo lhe chamou cálice, que Ele deu aos Seus discípulos na Ceia, o cálice
do novo testamento ou da nova aliança, para indicar que quando a aliança de
Deus foi selada em Seu sangue, cumpriu-se e consumou-se a sua realidade. E
assim foi feita a nova e eterna aliança.
Por aí se vê em que sentido o apóstolo Paulo afirma que os judeus foram
conduzidos a Cristo pela doutrina infantilb
da Lei, antes de Ele se manifestar em
carne. Paulo reconhece que eles eram filhos e herdeiros de Deus, mas, visto que
estavam como que na infância, declara que eles estiveram a cargo de um
pedagogo76
, de um preceptor. Pois é fácil concordar que, antes de elevar-se o Sol
da justiça, não havia grande claridade de revelação, nem entendimento muito
claro. Então o Senhor lhes dispensou a luz da Sua Palavra de modo que a vissem,
ainda que de longe. Foi por isso que Paulo, querendo fazer notar essa pequenez
de entendimento, fez uso de expressão referente à infânciac
, dizendo que o Se-
nhor os quis instruir nessa idade por meio das cerimônias, como que por rudi-
mentos, ou por aspectos elementares próprios da idade infantild
, até que Cristo
fosse manifestado, para aumentar o conhecimento dos Seus, confirmando-os e
fortalecendo-os de tal sorte que não estivessem mais na infância.
a. sponsor.
b. pædagogia.
c. pueritiæ.
d. 1539 tem somente: observatiunculis, tanquam regulis puerilis disciplinæ.
76
Gl 3 e 4.
31
Distinção feita por Jesus Cristo
Esta foi a distinção que Jesus Cristo inseriu quando disse77
que “a lei e os profetas
existiram até João Batista”, e que desde o tempo dele “o reino de Deus é
divulgado”.a
Que foi que Moisés e os Profetas ensinaram em seu tempo? Eles
propiciaram certo gosto e sabor da sabedoria que haveria de ser revelada um dia,
e a mostraram à distânciab
. Mas quando Jesus Cristo pode ser mostrado com o
dedo, o reino de Deus fica aberto e exposto. Porque nele estão ocultos todos os
tesouros da sabedoria e da doutrina78
, e [por Ele] subimos pouco menos que aos
pontos mais altos do céu.
Menos luz, mas grandes exemplos de fé!
Ora, isso não contradiz o fato de que com muita dificuldade encontraremos uma
igreja cristã que mereça ser comparada comAbraão, quanto à firmeza de fé. Igual-
mente, os profetas tinham tão grande entendimento que ainda hoje seria capaz de
iluminar o mundo. O que acontece é que aqui não estamos considerando as gra-
ças e dons que Deus confere a alguns, mas sim a ordem [progressiva] seguida
então. Isso transparece até mesmo na doutrina dos profetas, embora tenham tido
singular privilégio, acima dos demais [servos de Deus]. Porque a doutrina deles é
obscura, como algo longínquo, e está encerrada em figuras ou tiposc
. Ademais,
apesar do fato de que receberam algumas revelações, todavia, como lhes era ne-
cessário submeter-se à pedagogia ou instrução elementar comum a todo o povo,
eles ficavam incluídos no número das crianças, como os outros [filhos de Israel].
Finalmente, jamais houve, naquele tempo, um entendimento tão claro que não
sofresse de algum modo a influência da obscuridade da época. Essa é a razão pela
qual Jesus Cristo disse: “Em verdade vos digo que muitos profetas e justos dese-
jaram ver o que vedes e não viram; e ouvir o que ouvis e não ouviram. Bem-
aventurados, porém, os vossos olhos, porque vêem; e os vossos ouvidos, porque
ouvem”.79
E, de fato, é mais que certo que a presença de Jesus Cristo teve privile-
giada ocasião de trazer ao mundo mais amplo entendimento dos mistérios celestiais,
como nunca antes.
Terceira diferença
Passemos agora à terceira diferença, com base nas seguintes palavras de Jeremias:
“Eis aí vêm dias, diz o Senhor, em que firmarei nova aliança com a casa de Israel
a. evangelizari. (O termo é mais literalmente traduzido: é forçado [ARA: “é tomado por esforço”], mas Calvino,
em seu Comentário sobre a Concordância, etc., diz: “As pessoas... recebem com impetuosidade veemente
a graça que lhes é apresentada”).
b. procul emicantem.
c. typis.
77
Mt 11.12,13 [tradução direta].
78
Cl 2.3.
79
Mt 13.56,57.
32 As Institutas – Edição Especial
e com a casa de Judá. Não conforme a aliança que fiz com seus pais, no dia em
que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; porquanto eles anularam
minha aliança, não obstante eu os haver desposado, diz o Senhor. Porque esta é a
aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: Na
mente lhes imprimirei as minhas leis, também no coração as inscreverei; eu serei
o seu Deus, e eles serão o meu povo.80
Não ensinará jamais cada um ao seu
próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao Senhor, porque todos
me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o Senhor”.81
Dessa passa-
gem Paulo toma ocasião para a comparação que faz entre a Lei e o Evangelho,
descrevendo a Lei nestes termos:82
doutrina literal, pregação que mata e condena,
escrita em tábuas de pedra. Já o Evangelho ele descreve como doutrina espiritual,
que vivifica e justifica, e gravada no coração. Acresce que a Lei seria abolida, e
o Evangelho durará para sempre. Visto que a intenção do apóstolo Paulo era
expor o sentido do ensino do profeta, para nós bastará considerar as palavras de
um para entender os dois. Se bem que eles têm alguma diferença entre si. Porque
o apóstolo fala mais adversamente da Lei que o profeta. Isso ele faz, não simples-
mente considerando a natureza dela, mas, visto que havia alguns fulanos confusosa
que, por um zelo desordenadob
que tinham pelas cerimônias, esforçavam-se para
obscurecer a clareza do Evangelho, ele foi forçado a discutir segundo o erro deles
e seu apego insensato.
Devemos ter em mente esta particularidade em Paulo: Quando ele e Jeremias
estão de acordo, naquilo em que ambos opõem o Antigo Testamento ao Novo,
eles não consideram na Lei nada senão o que é próprio dela. Exemplo: A Lei
contém aqui e ali promessas da misericórdia de Deus; mas como tais promessas
são tomadas doutra parte, não entram em conta quando se trata da questão da
natureza da Lei. Eles só tratam das funções da Lei nas quais ela ordena o que é
justo e bom; proíbe toda maldade; promete recompensa aos que praticam a justi-
ça; ameaça os pecadores com a vingança de Deus – sem que ela possa mudar ou
corrigir a perversidade existente naturalmente em todos os homens.
Exame da comparação apostólica, parte por parte
Expliquemos agora, parte por parte, a comparação feita pelo apóstolo. O Antigo
Testamento, diz ele, é literal [é mera letra], porque foi publicado sem a eficácia
[interior] do Espírito; o Novo é espiritual, porque o Senhor o gravou no coração
dos Seus. Em vista disso, o segundo contraste que ele faz é com o fim de aclarar
a. nebulones.
b. kaxozhloi.
80
A parte impressa em tipo itálico, no original francês está: “...e lhes serei propício, perdoando os seus pecadosa
”.
Cf. parte final do versículo 34 (N. do T.).
a. propitiabor iniquitati. [Na tradução, ocorre na nota de rodapé.]
81
Jr 31.31-34.
82
2Co 3.1-11.
33
o primeiro. Diz ele que o Antigo Testamento é mortal [mata] porque não pode
fazer nada senão envolver em maldição todo o gênero humano. O Novo é instru-
mento de vida porque, livrando-nos da maldição, remete-nos à graça de Deus. À
mesma finalidade visa o que ele declara em seguida: O primeiro é um ministério
de condenação, porque mostra que todos os filhos de Adão são culpados de ini-
qüidade. O segundo é um ministério de justiça, porque nos revela a misericórdia
de Deus, graças à qual somos justificados. A última parte da comparação deve se
reportar às cerimônias. Porque eram uma imagem de coisas ausentes, acontecia
que com o tempo se desvaneciam; como o Evangelho contém o corpo [o conteú-
do substancial], sua firme consistência dura para sempre. Jeremias também des-
creve a Lei moral como uma aliança fraca e frágil, mas por outro motivo, a saber,
que, por causa da ingratidão do povo, ela foi logo posta de lado e quebrantada.
Mas, visto que essa violação é um erro que vem de fora, não se deve atribuir
propriamente à Lei. Outra coisa: como as cerimônias, por sua própria fraqueza,
foram ab-rogadas quando do advento de Cristo, elas contêm em si mesmas a
causa da sua ab-rogação. Agora, a diferença assinalada entre a letra e o Espírito,
não deve ser entendida como se, no passado, o Senhor tivesse dado Sua Lei aos
judeus sem que ela produzisse nenhum fruto nem tivesse utilidade nenhumaa
, não
convertendo ninguém a si; mas isso é dito em termos de comparação, para en-
grandecer mais a abundância da graça, a qual aprouve ao Senhor mostrar na pre-
gação do Evangelho, para honrar o reino do Seu Cristo. Porque, se julgarmos a
multidão congregadab
de diversas nações pela pregação do Seu Evangelho e
graças à regeneração operada por Seu Espírito, veremos que o número dos que
receberam e acataram a doutrina da Leic
com verdadeiro amor e de coração foi tão
pequeno que não há termos de comparaçãod
. Se bem que, se se tomar o povo de
Israel sem considerar a igreja cristã, havia naquele tempo muitos crentes fiéis.83
Quarta diferença
A quarta diferença decorre e depende da terceira. Porque a Escritura dá aoAntigo
Testamento o título de aliança de escravidão, porquanto ele gera temor e terror no
coração dos homens; já o Novo é denominado aliança de liberdade, porque ele os
confirma na segurança e na confiança. Assim fala o apóstolo Paulo na Epístola
aos Romanos:84
“Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes,
a. Palavra acrescentada em 1541.
b. 1539 acrescentou: in ecclesiæ suæ communionem.
c. fœdus Domini.
d. 1539 tem somente: sine comparatione.
83
“A glória da lei é abolida quando produz o evangelho. Assim como a lua e as estrelas, ainda que elas mesmas
brilhem e espalhem sua luz sobre todo o orbe, todavia desvanecem diante do brilho mais intenso do sol,
assim também a lei, não obstante ser gloriosa em si mesma, não resplandece em face da maior grandeza do
evangelho.” [João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, São Paulo, Paracletos, 1995, (2Co 3.10), p. 72-73].
84
Rm 8.15.
34 As Institutas – Edição Especial
outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual
clamamos:Aba, Pai”! [NVI: “Pois vocês não receberam um espírito que os escra-
vize para novamente temerem, mas receberam o Espírito que os adota como fi-
lhos, por meio do qual clamamos: Aba, Pai”!]. É isso também que o autor da
Epístola aos Hebreus quer dizer, quando afirma, a respeito dos crentes: “Ora, não
tendes chegado ao fogo palpável e ardente, e à escuridão, e às trevas, e à tempes-
tade, e ao clangor da trombeta”, quando o povo de Israel não viu nada que não lhe
causasse pavor e espanto. “Na verdade, de tal modo era horrível o espetáculo,
que Moisés disse: Sinto-me aterrado e trêmulo!”85
Também Deus não fala com
eles com voz terrível, como fazia então, pois o que se diz é: “Mas tendes chegado
ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a incontáveis
hostes de anjos, e à universal assembléia” etc. [versículos 22-24].
Essa declaração, que de passo foi tocada na passagem que citamos da Epís-
tola aos Romanos, é exposta mais amplamente na Epístola aos Gálatas, onde o
apóstolo Paulo tece uma alegoria dos dois filhos de Abraão, desta maneira:86
Hagar, a escrava, é uma figura do Monte Sinai, onde o povo de Israel recebeu a
Lei. Sara, a senhora, é uma figura de Jerusalém, de onde procede o Evangelho.
Como a linhagem de Hagar é escrava, não pode vir à herança; ao contrário, a
linhagem de Sara é livre, e deve vir à herança.Assim, a Lei não pode gerar em nós
nada mais que escravidão; o que não se dá com o Evangelho, que nos regenera
para a liberdade.
Sumário desta parte
Eis o resumo que disso se tem: que o Antigo Testamento foi dado para incutir
pavora
nas consciências, e o Novo, para que lhes fosse dada alegria e contentamentob
;
que o primeiro teve as consciências oprimidas e encerradas sob o jugo da servi-
dão, ao passo que o segundo nos liberta e nos declara livres. Se alguém objetar
dizendo que, visto que os pais doAntigo Testamentoc
tinham o mesmo espírito de
fé que nós temos, segue-se que eles participaram da mesma liberdade e alegria,
respondemos que nem uma coisa nem outra eles tiveram pelo benefício da Lei;
antes, vendo-se por ela cativos, em escravidão e com problema de consciência, o
recurso que tiveram foi o Evangelho. Pelo que se vê que a liberdade que eles
tiveram daquela miséria foi um fruto especial do Novo Testamento.
Além disso, negamos que eles, gozando grande liberdade e segurança, não
tenham sentido nada do temor e da escravidão que a Lei causava. Porque, embora
gozassem do privilégio obtido pelo Evangelho, ainda estavam sujeitos, em co-
mum com os demais [servos de Deus], a todas as observâncias requeridas, às
a. pavorem ac trepidationem incussisse.
b. 1539 tem somente: lætitiam.
c. ex populo israelitico sancti patres.
85
Hb 12.18-21.
86
Gl 4.21-31.
35
acusações e aos laços então vigentes. Sendo, pois, assim, eles estavam obrigados
a observar as cerimônias, que eram como símbolosa
da pedagogia [da instrução
infantil], que o apóstolo Paulo afirmab
que era como uma escravidão, e igualmen-
te como cédulasc
pelas quais eles se confessavam culpados diante de Deus, sem
liqüidar os seus débitos. Com razão se afirma que, diversamente de nós, eles
estavam sob o Testamento da escravidão, quando se considera a ordem e o modo
de agir que o Senhor seguia naquele tempo com relação ao povo de Israel.
Classificação das comparações feitas
As três últimas comparações são da Lei e o Evangelho. Porque nelas, sob o nome
de Antigo Testamento devemos entender a Lei, como o nome Novo Testamento
significa o Evangelho. A primeira que apresentamos tem maior alcance. Porque
inclui também o estado dos antigos pais, anteriores à Lei. Agora, quanto ao que
Agostinho nega87
, que as promessas daquele tempo estavam sob o Antigo Testa-
mento, sua opinião é boa; e ele não quis dizer outra coisa senão o que nós ensina-
mos. Porque ele examinou as declarações que nós citamos de Jeremias e do após-
tolo Paulo, e aquelas que o Antigo Testamento opõe à doutrina da graça e da
misericórdia. Portanto, fala-se com propriedade quando se diz que todos os cren-
tes que foram regenerados por Deus, desde o princípio do mundo, e que seguiram
Sua vontade com fé e vero amor, pertencem ao Novo Testamento; e que eles
tinham sua esperança firmemente posta, não em bens carnais, terrenos e tempo-
rais, mas espirituais, celestes e eternos. E mais, que eles criam singular e exclusi-
vamente no Mediador, graças ao qual não duvidavam que o Espírito Santo lhes
tinha sido dado e que obteriam perdão todas as vezes e quantas tivessem cometi-
do pecado.
Foi isso que desejei sustentar, isto é, que todos os santos a respeito dos
quais lemos na Escritura que foram escolhidos por Deus, desde o princípio do
mundo, têm sido participantes conosco das mesmas bênçãos que nos são dadas
com a salvação eterna. Entre a divisão que coloquei e a de Agostinho há somente
esta diferença: eu quis distinguir entre a clareza do Evangelho e a obscuridade
que havia anteriormente, seguindo as declarações de Cristo registradas na passa-
gem em que Ele afirma que “a lei e os profetas duraram até João” e que “ nesse
tempo [a partir de João] o reino de Deus começou a ser pregado”.88
Ele se conten-
ta em distinguir entre a fraqueza da Lei e a firmeza ou solidez do Evangelho.
Também devemos notar que os antigos pais viveram de tal modo sob o Antigo
Testamento que não ficaram confinados a ele, mas sempre aspiraram ao Novo, e
a. symbola.
b. Acréscimo feito em 1541.
c. chirographa.
87
L. 3, ad Bonifac.
88
Mt 11.12,13 [tradução direta].
36 As Institutas – Edição Especial
até de fato participaram dele de coração e com verdadeiro amora
. Porque todos os
que se contentaram com as sombras exterioresb
, não elevando o seu entendimen-
to a Cristo, são acusados de cegueira e condenados à maldição pelo apóstolo. E,
realmente, que cegueira maior se poderia imaginar que a de esperar a expiação
dos seus pecados pela morte de um animal irracional, ou buscar a purificação
da sua alma na aspersão corporal de água? ou desejar apaziguar a Deus com
cerimônias que são nulas de importância, como se Ele tivesse nisso grande
prazer? E isso que nos calamos, deixando de mencionar muitas outras coisas
semelhantes. Pois bem, todos os que se satisfazem com práticas exteriores da
Lei caem nesse absurdo.
Quinta diferença
A quinta diferença, que dissemos que poderia ser acrescentada, consiste em que,
até ao advento de Cristo, Deus separou um povo ao qual confiou a aliança da Sua
graça. “Quando o Altíssimo distribuía as heranças às nações”, diz Moisés, “quan-
do separava os filhos dos homens uns dos outros, fixou os limites dos povos,
segundo o número dos filhos de Israel. Porque a porção do Senhor é o seu povo;
Jacó é a parte da sua herança”.89
E noutro lugar90
ele fala assim ao povo: “Eis que
os céus e os céus dos céus são do Senhor, teu Deus, a terra e tudo o que nela há.
Tão-somente o Senhor se afeiçoou a teus pais para os amar; a vós outros, descen-
dentes deles, escolheu de todos os povos, como hoje se vê”. Portanto, o Senhor
fez essa honra unicamente àquele povo, a honra de se dar a conhecer a ele como
se Lhe pertencesse mais que os outros. O Senhor confiou a esse povo a Sua alian-
ça; manifestou a presença da Sua Divindade no meio dele e o exaltou com todos
os outros privilégios [de que há registro]. Deixemos, porém, de lado os outros
benefícios que lhe fez; contentemo-nos com o que ora está em questão. Refiro-
me ao fato de que, ao comunicar ao povo a Sua Palavra, uniu-se a ele, para ser
chamado e considerado seu Deus. Enquanto isso, o Senhor deixou que as outras
nações caminhassem na vaidade e no erro, como se não tivessem nenhuma rela-
ção com Ele, e não lhes deu o remédio com o qual poderia socorrê-las. Que remé-
dio? A pregação da Sua Palavra. Enquanto Israel era chamado o tenro e precioso
filho de Deus, todos os outros povos eram tidos como estrangeiros e estranhos.
Dele se diz que era conhecido de Deus e acolhido sob Sua proteção e tutela; os
outros foram deixados em suas trevas. De Israel se diz que foi santificado para
Deus; os demais eram considerados profanos. Dele se diz que foi honrado pela
presença de Deus; os outros, que foram excluídos.
a. certam communionem.
b. præssentibus.
89
Dt 32.8,9.
90
Dt 10.14,15.
37
A plenitude dos tempos
Mas, quando veio a plenitude dos tempos, ordenada para reparar todas as coisas;
quando, digo, o Mediador entre Deus e os homens se manifestou e “derrubou a
parede91
que por longo tempo mantinha a misericórdia confinada num só povo,
Ele fez com que a paz fosse anunciada aos que estavam longe, como também aos
que estavam perto, a fim de que, estando todos juntamente reconciliados com
Deus, se unissem formando um corpo. Por isso já não se levam em consideração
as questões de judeu e grego, circuncisão e incircuncisão. Mas Cristo é tudo em
todos; a Ele todos os povos da terra foram dados em herança, e os confins da terra
foram sujeitos ao Seu senhorio, para que, sem distinção, Ele domine de mar a mar
e do Oriente ao Ocidente.
Vocação dos gentios –
excelente característica do Novo Testamento
Portanto, a vocação dos gentios é uma notável marca pela qual fica demonstrada
a excelência e a superioridade do Novo Testamento em relação ao Antigo. Ela
havia sido predita e testificada antigamente por muitas profecias, mas de maneira
que o seu cumprimento era remetido à vinda do Messias. Mesmo Jesus Cristo, no
início da sua pregação, não quis fazer abertura para os gentios, deferindo a voca-
ção deles para o tempo em que, tendo acertado e consumado tudo o que diz res-
peito à nossa redenção, e tendo passado o período da Sua humilhação, Ele rece-
besse do Pai “o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se
dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra”.92
Foi por isso que Ele
disse à mulher Cananéia: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de
Israel”.93
Foi por isso também que, quando Ele enviou pela primeira vez os Seus
apóstolos, proibiu-lhes que ultrapassassem certos limites.94
Porque o tempo a que
nos havíamos referido ainda não tinha chegado. Note-se ainda que, apesar de a
vocação dos gentios ter sido demonstrada por meio de tantos testemunhos, toda-
via, quando chegou a hora de ela começar, pareceu tão nova e estranha aos após-
tolos que eles a temeram como se estivessem diante de um prodígio assombroso.
Certo é que eles se empenharam nessa obra com grande dificuldade. E não é de
admirar, porque não lhes parecia razoável que Deus, que por tão longos anos
tinha mantido Israel separado das outras nações, subitamente, como tendo muda-
do de propósito, eliminasse tal distinção. Isso tinha sido predito claramente pelos
profetas. Mas eles não puderam estar suficientemente atentos aos profetas para
que a novidade não lhes causasse tão forte comoção. Os exemplos dados previa-
91
Ef 2.14 [Ver o contexto.] e outras passagens [como: Rm 10.12; Gl 3.28; Cl 3.11].
92
Fp 2.9,10.
93
Mt 15.24.
94
Mt 10.5,6.
38 As Institutas – Edição Especial
mente por Deus para mostrar sua ação futura não bastaram para os libertar de
escrúpulos. Porque Ele tinha chamado muito poucos gentios para a Sua igreja, e,
ademais, ao chamá-los, tinha-os incorporado no povo de Israel por meio da cir-
cuncisão, para que fossem como da família de Abraão. Pois bem, pela vocação
pública dos gentios, feita após a ascensão de Jesus Cristo, eles não somente fo-
ram elevados ao mesmo grau de honra dos judeus, mas, o que é mais importante,
foram colocados no lugar deles, como seus substitutos.
39
CAPÍTULO VIII
Consideremos agora o seguinte: Tendo-se em vista o fato de que a Aliança da
Vida não é pregada igualmente a todos, e também que onde é pregada não é
a. CAPÍTULO VIII: Sobre a Predestinação e a Providência de Deus. É muito importante constatar que Calvino
fala da predestinação, não a propósito da doutrina de Deus, mas a propósito da doutrina da salvação. A
predestinação não é, pois, uma teoria filosófica, mas o prolongamento no secreto conselho de Deus e, pois,
na eternidade, da afirmação bíblica da salvação somente pela graça.
No plano completamente remanejado da sua edição latina de 1559 e francesa de 1560, Calvino separará
os dois assuntos do presente capítulo: tratará da providência de Deus em seu primeiro livro, onde se vê como
parte do conhecimento de Deus, o Criador e Preservador do mundo, mas tratará da predestinação em seu
terceiro livro, onde é vista como questão da ação do Espírito Santo nos corações, e da apropriação da
salvação cristã pela fé pessoal. A doutrina da predestinação faz então, para ele, parte daquilo que hoje
chamamos descrição da experiência cristã. Quer dizer que ela não pode ser julgada de fora [ou isoladamen-
te]. A preocupação de Calvino é fortemente pastoral e não especulativa.166
Não deixa de ser instrutivo e
revelador o fato de Calvino, na edição final da Instituição (1559), ter tratado deste assunto depois de um
longo capítulo sobre a oração que, sozinho, é maior do que os quatro dedicados à doutrina da Eleição.167
166
Philip Schaff (1819-1893) referindo-se a Calvino, diz que “seu principal interesse foi mais religioso do que
metafísico. Ele achou nesta doutrina [predestinação] o apoio mais forte para a sua fé. Ele combinou com isto
a certeza da salvação, que é o privilégio e conforto de todo crente. Neste ponto ele diferiu de Agostinho, que
ensinou o conceito católico da incerteza subjetiva de salvação. Calvino fez da certeza, Agostinho a incerte-
za, um estímulo ao zelo e santidade.” [Philip Schaff & David S. Schaff, History of the Christian Church,
Peabody, Massachusetts, Hendrickson Publishers, 1996, Vol. VIII, p. 549). Ver também: Philip Schaff &
David S. Schaff, History of the Christian Church, Vol. VIII, p. 561].
167
Ver: João Calvino, As Institutas, III.20. Do mesmo modo, no Catecismo de Genebra, das 373 perguntas, ele
dedica 63 à oração.
40 As Institutas – Edição Especial
recebida igualmente por todosa
, vê-se nessa diversidadeb
um admirável mistério
do juízo de Deusc
. Não há dúvida nenhuma de que essa variedade atende ao Seu
beneplácitod
, agrada ao Seu querer. Pois bem, como é evidente que isto é feito
pela vontadee
de Deus – que a salvação é oferecida a uns e os outros são deixados
de ladof
– daí decorrem grandes e altas questões, as quais só se resolvem ensinando
aos crentes o que eles podem compreender da eleição e da predestinação de Deus.
Divisão da matéria
Esta matéria compõe-se de duas partes. Primeiramente, devemos resolver a ques-
tão sobre o motivo pelo qual uns são predestinados para a salvação e outros para
a condenação. Depois é preciso demonstrar como o mundo é governado pela
providência de Deus, visto que tudo o que se faz depende da Sua ordenação e do
Seu comando.
Antes, porém, de tratar desse argumento, devo fazer um estudo preliminar
sobre duas classes de pessoas. Porque, além de o presente tema ser em si mesmo
um tanto obscurog
, a curiosidade dos homens o torna complexo e complicado, e
mesmo perigosoh
. Por quê? Porque o entendimento humano não pode refrear-se e
a. Os capítulos precedentes já mostraram quanta leitura Calvino fez dos tratados deAgostinho De prædestinatione
sanctorum, De gratia et libero arbitrio (Sobre a Predestinação dos Santos, Sobre a Graça e o Livre Arbítrio)
etc. Erasmo tinha publicado em 1524 o seu tratado De libero arbitrio; Lutero tinha respondido em 1525 [com
sua obra]: De servo arbitrio (Sobre o Arbítrio Servo, ou Escravo). Melanchton, antes determinado partidário
da predestinação, silenciou sobre ela em 1530, na Confissão de Augsburgo, A Institutio de 1536 reafirma, aqui
e ali, no capítulo II (De fide – Sobre a Fé) alguns elementos da doutrina, que foi exposta logicamente em 1539
e que aqui se acha traduzida, em 1541. A Instruction (Instrução) de 1537 já contém um artigo muito claro e
preciso (XIII, Opera selecta – Obras Seletas, p. 390): Sobre a Eleição e a Predestinação.
Durante os colóquios de Worms (dezembro de 1540) e de Ratisbone168
(maio de 1541), Calvino, então
pastor em Estrasburgo, teve discussões com o holandês Pigghe, que deram ocasião a dois escritos: Defensio
sanæ et orthodoxæ doctrinæ de servitute et liberatione humani arbitrii, adversus calumnias Pighii (Defesa
da Sã e Ortodoxa Doutrina da Servidão e da Libertação do Livre Arbítrio Contra as Calúnias de Pigghe –
Genebra, 1543), e De æterna Dei prædestinatione (Sobre a Predestinação Eterna de Deus), etc., só publica-
do em 1552, em Genebra: a matéria do presente capítulo é desenvolvida ali. No prefácio da tradução do
segundo tratado, Calvino diz expressamente: “Tratei suficientemente nas Institutas do que os cristãos de-
vem compreender”, etc.
168
Como Worms, nome mais conhecido, Ratisbone (ou Regensburgo) era uma cidade da Alemanha (N. do T.).
b. Essa diversidade é um fato inegável. É dessa constatação que Calvino sempre parte, quando fala sobre a
predestinação.
c. Instrução de 1537: “Numa tal diferença há a considerar necessariamente o grande mistério do conselho de
Deus, porque a semente da Palavra de Deus só fixa raízes e frutifica naqueles que o Senhor, por Sua eleição
eterna, predestinou para serem Seus filhos e herdeiros do reino celestial.
d. æternæ voluntatis arbitrio. Nessas primeiras páginas de 1541 a tradução segue cada frase latina, como antes,
mas é particularmente livre na escolha das palavras francesas, e capta com precisão o sentido do texto.
e. nutu.
f.Termo jurídico.
g. aliquantum impedita.
h. Vai-se notar que a doutrina da predestinação não é uma especulação filosófica (que teria seu lugar na parte
inicial da obra, a propósito da doutrina de Deus), mas que é colocada por Calvino após a exposição da
justificação pela fé, como o prolongamento da afirmação da salvação gratuita. Isso é ainda mais evidente na
edição de 1559, onde a doutrina da providência encontra lugar logo no princípio do livro, a da predestinação
não aparecendo senão na segunda metade, após a salvação, no fim do Livro III.
41
conter-se, mas sempre tende a desgarrar-se, metendo-se em grandesa
desvios e
rodeios, e a subir alto demais em suas pretensões. Seu desejo é, se possível, não
deixar nenhum segredo de Deus sem a sua investigação minuciosa. Pois vemos
muitos caírem nessa audácia e nessa presunção. Além disso, muitos há que não
são maus, mas que carecem da nossa admoestação no sentido de se dominarem e
se controlarem nesta área.
Em primeiro lugar, então, quando os homens quiserem fazer pesquisa sobre
a predestinação, é preciso que se lembrem de entrar no santuário da sabedoria
divina. Nesta questão, se a pessoa estiver cheia de si e se intrometer com excessi-
va autoconfiança e ousadia, jamais irá satisfazer a sua curiosidade. Entrará num
labirinto do qual nunca achará saída.1
Porque não é certob
que as coisas que Deus
quis manter ocultas e das quais Ele não concede pleno conhecimento sejam
esquadrinhadasc
dessa forma pelos homens. Também não é certo sujeitar a sabe-
doria de Deus ao critério humano e pretender que este penetre a Sua infinidade
eterna. Pois Ele quer que a Sua altíssima sabedoria seja mais adorada que
compreendidad2
(a fim de que seja admirada pelo que é). Os mistérios da vontade
de Deus que Ele achou bom comunicar-nos, Ele nos testificou em Sua Palavra.
Ora, Ele achou bom comunicar-nos tudo o que viu que era do nosso interesse e
que nos seria proveitoso.
Se alguma vez nos ocorreu ou nos ocorrer este pensamento: que a Palavra
de Deus é o único caminho que nos leva a inquirire
tudo quanto nos é lícito conhe-
cer sobre Ele; e mais, que ela é a única luz que nos ilumina para contemplarmos
tudo quanto nos é lícito ver – ela nos poderá manter afastados de toda atitude
temerária. Porque saberemos que, saindo dos limites próprios, caminharemos fora
do caminho e vagaremos na escuridão total. E assim só poderemos errar, tropeçar
e nos ferir a cada passo. Tenhamos, pois, em mente que será uma loucuraf
querer
conhecer todas as coisas relacionadas com a predestinação, exceto o que nos é
dado na Palavra de Deus. Estejamos igualmente apercebidos de que, se alguém
quiser caminhar por entre as rochas inacessíveis, irá mergulhar nas trevas.
Calvino gosta de partir dos fatos da experiência toda vez que fala da predestinação. Vê-se que Calvino
quer dar cabo desta discussão concernente à predestinação mediante um aconselhamento pastoral totalmen-
te prático: que as almas busquem a causa da sua ruína em suas próprias faltas e culpas, onde ela é bastante
evidente, e não nos mistérios que Deus não julgou oportuno revelar-nos.
a. vetitas.
b. æquum.
c. impune excutiat.
d. apprehendi.
e. investigandum.
f. insânia.
1
“A predestinação divina se constitui realmente num labirinto do qual a mente humana é completamente incapaz
de desembaraçar-se. Mas a curiosidade humana é tão insistente que, quanto mais perigoso é um assunto, tanto
mais ousadamente ela se precipita para ele. Daí, quando a predestinação se acha em discussão, visto que o
indivíduo não pode conter-se dentro de determinados limites, imediatamente, pois, mergulha nas profundezas
do oceano de sua impetuosidade.” [J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 9.14), p. 329-330]
2
O Ser essencial de Deus devemos adorar, não pesquisar com curiosidade” (João Calvino, As Institutas,
(1541), I.14.
42 As Institutas – Edição Especial
Certa ignorância é mais douta que o saber
E não nos envergonhemos por ignorar algo deste assunto, no qual há certa igno-
rância mais douta que o saber. Melhor faremos em dispor-nos a abster-nos de um
conhecimento cuja exibição é estulta e perigosa, e até mesmo perniciosa. Se a
curiosidade da nossa mente nos solicitar que investiguemos tudo, sempre temos
em mãos esta sentença para rebater essa pretensão: “Quem esquadrinhar a majes-
tade de Deusa
será oprimido por sua glória”.3
Muito bom será que nos desenterre-
mos dessa audácia, pois vemos que ela não nos pode fazer outra coisa senão
precipitar-nos na desgraça.
O outro extremo: omissão negligente
Por outro lado, há outros que, desejando remediar esse mal, esforçam-se para
fazer com que a lembrança da predestinação seja enterrada4
; quando menos, eles
nos advertem de que tomam cuidado para não inquirir nada a respeito dela, con-
siderando-a uma coisa perigosab
. Embora seja louvável a modéstia de querermos
abordar os mistérios de Deus com grande sobriedade, descer tão baixo nisso não
dá bom resultado para os espíritos humanos, porque estes não se deixam domarc
tão facilmente.5
O equilíbrio da Escritura
Por isso, para que tenhamos aqui bom equilíbrio, devemos examinar a Palavra de
Deus, na qual temos excelente regra para o entendimento firme e correto. Por-
quanto, a Escritura é a escola do Espírito Santo, na qual, assim como nada que
seja útil e salutar conhecer é omitido, assim também não há nada que nela seja
ensinado que não seja válido e proveitoso saber.6
a. Instrução de 1537, III: Visto que a majestade de Deus sobrepuja a capacidade da mente humana, e nem pode
ser entendida por esta, devemos adorar a Sua altíssima posição, em vez de inquiri-la.
b. a scopulo.
c. coerceri.
3
Pv 25.2 [tradução direta].
4
Traduzo literalmente para manter o paralelismo. Ver acima: Enterrados na audácia, devemos desenterrar-nos
dela; e não devemos enterrar a doutrina da predestinação (N. do T.).
5
“As coisas que o Senhor deixou recônditas em secreto não perscrutemos, as que pôs a descoberto não negli-
genciemos, para que não sejamos condenados ou de excessiva curiosidade, de uma parte, ou de ingratidão, de
outra”. [J. Calvino, As Institutas, III.21.4].
6
É o Espírito Quem nos ensina através das Escrituras (Vd. J. Calvino, As Institutas, I.9.3); esta é “a escola do
Espírito Santo” (J. Calvino, As Institutas, III.21.3), que é a “escola de Cristo” [João Calvino, Efésios, (Ef
4.17), p. 133], “escola do Senhor”[João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 1.17), p. 55; (1Co 3.3),
p. 100]; e, o Espírito é o “Mestre” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 1.16), p. 58]; “o melhor
mestre” [João Calvino, As Institutas, IV.17.36]; é o “Mestre interior” [João Calvino, As Institutas, III.1.4;
III.2.34; IV.14.9]. “O Espírito de Deus, de quem emana o ensino do evangelho, é o único genuíno intérprete
para no-lo tornar acessível” [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 2.14), p. 93]. “.... é Ele que nos
ilumina com a Sua luz para nos fazer entender as grandezas da bondade de Deus, que em Jesus Cristo
possuímos. Tão importante é o Seu ministério que com justiça podemos dizer que Ele é a chave com a qual
43
Portanto, devemos ter o cuidado de não impedir os crentes de procurarem
saber o que há na Escritura sobre a predestinação, para não parecer que deseja-
mos fraudá-los negando-lhes o bem que Deus lhes comunicou, ou que pretende-
mos discutir com o Espírito Santo, como se Ele tivesse divulgado coisas que faria
bem em suprimir.7
Permitamos, pois, que o cristão abra os ouvidos e o entendimento para toda
doutrina dirigida a ele por Deus. Isso com a condição de que ele sempre mante-
nha este equilíbrio, esta moderação: Quando vir fechada a santa boca de Deus,
feche também o caminho da inquirição. Eis um bom marco memorial da sobrie-
dade: Se em nossa aprendizagem ou em nosso ensinoa
seguirmos a Deus, tenhamo-
lo sempre adiante de nós. Contrariamente, se Ele parar de ensinar, paremos de
querer continuar a ouvir e a entender.8
Então, o perigo que a boa gente que citei
teme não é tão importante que deva levar-nos a deixar de prestar atenção em
Deus, em tudo quanto Ele diz. Reconheço que os homens maus e blasfemosb
depressa encontram na doutrina da predestinação coisas para acusar, torcer, re-
moer e zombarc
. Mas, se cedermos à sua petulânciad
, eles darão fim aos artigos da
nossa fé, dos quais não deixarão um só que não fique contaminado por suas blas-
fêmias. Um espírito rebelde se porá a campo e, tanto ousará negar que numa só
essência de Deus há três Pessoas, como também que, quando Deus criou o ho-
mem, previu o que lhe aconteceria no futuro. Semelhantemente, esses maus ele-
mentos não se absterão de rir-se quando lhes for dito que não faz muito mais que
cinco mil anose
que o mundo foi criado. Por que vão querer que lhes expliquemos
como é que Deus ficou ocioso por tão longo tempo. Para reprimir tais sacrilégios,
devemos deixar de falar da divindade de Cristo e do Espírito Santo? Devemos
calar-nos sobre a criação do mundo?
são abertos para nós os tesouros do reino celestial, e que a Sua iluminação são os olhos do nosso entendimen-
to, que nos habilitam a contemplar os mencionados tesouros. Por essa causa Ele é agora chamado Penhor e
Selo, visto que sela em nosso coração a certeza das promessas. Como também agora Ele é chamado mestre da
verdade, autor da luz, fonte de sabedoria, conhecimento e discernimento”. [João Calvino,As Institutas, (1541),
II.4]. Portanto, “Se porventura desejamos lograr algum progresso na escola do Senhor, devemos antes renun-
ciar nosso próprio entendimento e nossa própria vontade.” [ João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co
3.3), p. 100].
7
“... É uma ímpia e danosa invenção tentar privar o povo comum das Santas Escrituras, sob o pretexto de serem
elas um mistério oculto, como se todos os que o temem de coração, seja qual for seu estado e condição em
outros aspectos, não fossem expressamente chamados ao conhecimento da aliança de Deus.” [João Calvino,
O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 25.14), p. 558].
8
“....Que esta seja a nossa regra sacra: não procurar saber nada mais senão o que a Escritura nos ensina. Onde
o Senhor fecha seus próprios lábios, que nós igualmente impeçamos nossas mentes de avançar sequer um
passo a mais.” [J. Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo, Paracletos, 1997, (Rm 9.14), p. 330].
a. loquendo.
b. profani.
c. allatrent.
d. procacitas.
e. A era [ou idade] do mundo dita bizantina contava 5.508 anos desde a criação até ao dia primeiro de setembro
do ano primeiro de Jesus Cristo.
44 As Institutas – Edição Especial
Antes, muito ao contrário, a verdade de Deus é tão poderosa, tanto nesta
questão como em tudo mais, que não teme a maledicência dos ímpios. O que
Agostinho confirma muito bem em sua pequena obra intitulada Sobre o Benefício
da Perseverança (“Du bien de persévérance9
”). Porque vemos que os falsos
apóstolos, ridicularizando e difamando a doutrina do apóstolo Paulo, nada mais
puderam fazer do que se tornarem objeto de vergonha.
Velhas objeções
Há alguns que consideram esta discussão perigosa, mesmo quando mantida entre
os crentes. Dizem eles que a doutrina da predestinação é contrária às exortações,
abala a fé, perturba os corações e os abate. Mas essa alegação é fútil. Agostinho
não dissimula o fato de que era criticado pelas razões acima citadas, pois ele
pregava livre e abertamente a predestinação. Mas, com facilidade os refutou sufi-
cientemente. Quanto a nós, visto que fazem objeção com diversos absurdos con-
tra a doutrina que apresentamos, melhor será deixar para resolver, mais adiante,
uma por veza
. Por ora, desejo conseguir que todos os homens, em geral, se juntem
a nós neste propósito: Que não procuremosb
as coisas que Deus quis manter ocul-
tas, e que não negligenciemos as que Ele tornou manifestas. Isso para que, por
um lado, não sejamos acusados de curiosidade exagerada, ou, por outro, de ingra-
tidão. Nesse sentido, esta sentença de Agostinho é muito boa: “Podemos seguir
com segurança a Escritura, a qual condescende com a nossa pequenezc
, como a
mãe condescende com a pequenez do seu bebê, quando quer ensiná-lo a andar”.10
Definição de termos
Os antigos explicavam diferentemente os vocábulos presciência, predestinação,
eleição e providência. Nós, deixando de lado toda discussão supérflua, seguimos
simplesmente a propriedade dos termosd
. Quando atribuímos presciência11
a Deus,
queremos dizer que todas as coisas sempre estiveram e continuam estando sob os
Seus olhos, de modo que para o Seu conhecimento não há nada que seja futuro ou
passado. Todas as coisas Lhe são presentes, e de tal modo presentes que Ele não
as imagina como que mediante algumas espéciese
ou categorias, como acontece
com as coisas que temos na memória e que, lembrando-as, vêm diante dos nossos
olhos pela imaginação, mas as vê e as observa real e verdadeiramente, como
a. suo loco diluendam.
b. ne scrutemur.
c. velut materno incessu submissius graditur, ne infirmitatem nostram deserat.
d. etymologiæ.
e. ex idæis.
9
Capítulos 15 a 20.
10
Lib. V, De Genes.. ad litteram.
11
Daqui em diante, salvo possíveis casos excepcionais, substituiremos “presciência” por “pré-conhecimento”,
que expressa melhor o significado do termo na Escritura.
45
estando diante do Seu rostoa
. Dizemos que este pré-conhecimento abrange toda a
área do universo e todas as criaturas.
Denominamos predestinação o conselho eterno de Deus pelo qual Ele de-
terminou o que desejava fazer com cada ser humano. Porque Ele não criou todos
em igual condição, mas ordenoub
uns para a vida eterna e os demais para a conde-
nação eterna. Assim, conforme a finalidade para a qual o homem foi criado, dize-
mos que foi predestinado para a vida ou para a morte.
O uso conseguiu impor que se chame providência à ordemc
que Deus segue
no governo do mundo e na direção e condução de todas as coisas.12
A doutrina da predestinação
Em primeiro lugar, trataremos da predestinação. Conforme o que a Escritura mostra
claramente, dizemos que o Senhor constituiu uma vez por todas, em Seu conse-
lho eterno e imutável, aqueles que Ele quis tomar para a salvação, e aqueles que
Ele quis deixar em abandonod
. Quanto aos que Ele chama para a salvação, dize-
mos: Que Ele os recebee
por Sua misericórdia gratuita, sem levar em conta a
dignidade deles; que, ao contrário, o acesso à vida é vedadof
a todos aqueles que
Ele quis deixar entregues à condenação; e que isso é realizado por Seu juízo
oculto e incompreensível, conquanto justo e imparcial. Ensinamos, ademais, que
a vocação dos eleitos é como uma demonstração e um testemunhog
da sua elei-
ção. Semelhantemente dizemos que a justificação deles é outro símboloh
e sinal
dela, até quando eles chegarem à glória, na qual se dará o seu cumprimento e a
sua consumaçãoi
.
a. Seria proveitoso que Calvino tivesse desenvolvido esse pensamento e lhe tivesse dado mais importância em
sua exposição. Porque a principal pedra de tropeço que as almas encontram na doutrina da predestinação
provém do fato de que a entendem num sentido temporal: antes de me chamar à existência histórica, Deus
decidiu salvar-me ou deixar que eu pereça.
Ora, em Deus não há nem antes nem depois, porque Ele vive na eternidade e não no tempo. Por conse-
guinte, dizer que Deus me salva por pura graça (o que todo cristão deve dizer) e dizer que ele me salva desde
toda a eternidade, é uma só e a mesma coisa.
b. præordinatur.
c. æconomiam. (sic)
d. exitio.
e.cooptari. Cf. Instrução, 1537: “Ora, por que o Senhor usa Sua misericórdia para com uns e exerce o rigor do
Seu juízo para com os outros, convém deixar unicamente com Ele o conhecimento disso”. (Cf. acima, Sobre
a Fé, e Institutio, 1536: Quos vocavit, justificat; vocat, dum ad se attrahit suos. –[Os que Ele chama,
justifica; chama, e então os atrai a Si]).
f. præcludi (termo do direito).
g. 1539 tem somente: testificatio.
h. Id.: symbolum.
i. Calvino retoma aqui a gradação do apóstolo Paulo: predestinados, chamados, justificados, glorificados (Rm
8.30).
12
“Visto que a providência divina no mundo não é agora evidente, é mister que exerçamos paciência e subamos
acima das sugestões do senso carnal a antecipar o resultado favorável.” [João Calvino, O Livro dos Salmos,
São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 2, (Sl 49.1), p. 371].
46 As Institutas – Edição Especial
Pois bem, assim como o Senhor assinala aqueles que Ele escolheu chamando-
os e justificando-os, assim também, ao contrário, privando os réprobos do conheci-
mento da Sua Palavra, ou da santificação realizada pelo Seu Espírito, Ele demons-
tra por tal sinal qual será o fim deles, e que julgamento está preparado para eles.
Deixo de lado, nesta altura, muitas fantasias forjadas por numerosos tolos, na tenta-
tiva de derrubar a predestinaçãog
. Vou restringir-me unicamente a considerar os
argumentos deles que têm lugar entre pessoas dotadas de saber, ou que poderiam
gerar escrúpulos entre os simples, ou, ainda, que têm alguma aparência de verdade,
podendo fazer crer que Deus não é justo, se assim o considerarmos.
O que ensinamos sobre a eleição gratuita dos crentes não é dito sem dificul-
dade. Porque em geral se considera que o Senhor distingue entre os homens se-
gundo prevêh
os méritos de cada um deles. Assim sendo, Ele adota e introduz no
número dos Seus filhos aqueles cuja natureza Ele prevê que deve ser tal que eles
não são indignos da Sua graça.Ao contrário, dizem os tais mestres, Deus deixa na
perdição aqueles que Ele sabe que devem ser inclinados à maldade ou à impieda-
de. E essa opinião, comumente aceita nesses termos, não pertence somente à
gente comum do povo; em todos os tempos ela tem tido a seu favor grandes
escritores. O que eu declaro francamentea
, a fim de que não se pense que isso
prejudicará muito a nossa causa, se acontecer contra nós.
Porque a verdade de Deus é tão clara neste campo que não poderá ser obs-
curecida; e tão certa e firme que não poderá ser abalada por nenhuma autoridade
dos homens. Certamente o apóstolo Paulo, ao nos ensinar que “fomos eleitos em
Cristo antes da criação do mundo”,13
elimina toda e qualquer consideração por
nossa dignidade ou merecimento. É como se dissesse: Visto que na semente uni-
versal de Adão [nele e em sua descendência], o Pai celestial não encontrou nada
que fosse digno da Sua eleição, dirigiu o olhar para o Seu Cristo, a fim de eleger,
como membros do Seu corpo, aqueles que Ele quis admitirb
à vida. Fique pois
definido e estabelecido este argumento entre os crentes: que Deus nos adotou em
Cristo para sermos Seus herdeiros, porque em nós mesmos não tínhamos capaci-
dade para alcançar tão excelente posiçãoc
. Isso o apóstolo registra igualmente
bem noutro lugar, quando exorta os colossenses a darem graças a Deus por havê-
los feito idôneos para participarem da herança dos santos.14
Se a eleição de Deus
g. 1539 acrescenta aqui: “Non enim refutatione indigent quæ, simul ac proferuntur, suam ipsa felicitatem
abunde redarguunt”.
h. providet (1541, por erro: prenoit).
a. ingenue.
b. In vitæ consortium assumpturus.
c. Palavra bem vinda ao pecador que reconhece que não encontra em sua vida nenhuma justiça que o torne
merecedor da salvação. É a aflição das almas arrependidas que Calvino tem sem cessar diante dos seus
olhos. Porque, antes de tudo, ele á pastor.
13
Ef 1.4 [tradução direta].
14
Cl 1.12.
47
precede a esta graça pela qual Ele nos torna idôneos para obtermos a glória da
vida futura, que encontrará Ele em nós que O mova a eleger-nos?15
O que pretendo mostrar ficará ainda mais bem expresso por esta outra sen-
tença: Deus nos escolheu, diz ele, “antes da fundação do mundo, para sermos
santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a
adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vonta-
de”.16
Paulo coloca o beneplácito de Deus em oposição a todos os méritos que se
possa mencionar, porque, onde quer que reine o beneplácito17
de Deus, nenhuma
obra entra em consideração. É certo que ele não trata dissoa
nessa passagem, mas
devemos entender essa comparação nos termos em que ele a explica noutro lu-
gar, quando diz: Deus “nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo
as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada
em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos”.18
As palavras que na passagem de Efésios
ele acrescenta (“para sermos santos e irrepreensíveis”) não nos livram totalmente
de inquietação. Sim, pois, se dissermos que Deus nos escolheu porque previu que
seríamos santos, estaremos invertendo a ordem seguida pelo apóstolo Paulo.
Sumário certo e seguro
Podemos então afirmar com segurança: Visto que Ele nos escolheu a fim de que
fôssemos santos, logo não foi porque previu que haveríamos de ser santos. Por-
que as duas coisas são contraditórias entre si: que os crentes obtenham a sua
santidade graças a sua eleição; e que por essa santidadeb
eles tenham sido eleitos.
As cavilações sofísticasc
a que os tais mestres sempre recorrem não têm nenhum
valor aqui. No presente caso eles dizem que, embora Deus não recompense os
méritos anteriores à graça da eleição, Ele os recompensa pelos méritos futuros.
Mas logo se vê que quando se diz que os crentes foram escolhidos para serem
santos, significa que toda a santidade que eles haveriam de ter tem sua origem e
seu iníciod
na escolha. E com que tipo de coerência se poderá dizer que o que é
produto de eleiçãoe
seja causa desta? Além disso, o apóstolo confirma com ainda
maior firmeza o que tinha dito, acrescentando que Deus nos escolheu conforme o
decreto da Sua vontade, que Ele determinou em Si mesmo. Isso equivale a dizer
que Ele não considerou coisa alguma fora de Si mesmo à qual desse atenção,
a. antithesin.
b. ratione operum.
c. cavillum.
d. 1539 tem somente: exordium
e. quæ ab electione derivantur.
15
“Se porventura Deus escolheu uns e rejeitou outros, em consonância com sua previsão, se serão dignos ou
não da salvação, então o galardão das obras já foi estabelecido, e a graça de Deus jamais reinará soberana,
mas será apenas uma metade de nossa eleição”. [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 11.6), p. 389].
16
Ef 1.4,5.
17
A vontade prazerosa de Deus. Sua “boa, agradável e perfeita” vontade (Rm 12.2) (N. do T.).
18
2Tm 1.9.
48 As Institutas – Edição Especial
quando procedeu a essa deliberação. Por isso Paulo acrescenta, logo a seguir, que
tudo aquilo em que se resume a nossa eleição tem que ver com este objetivo:
“para louvor da glória de sua graça”. Certamente a graça de Deus só merece ser
exaltada em nossa eleição se for gratuita. Ora, não seria gratuita se Deus, ao
escolher os Seus, atribuísse algum valor às obras de cada pessoa eleita. Daí se vê
que o que Cristo disse aos Seus discípulos é verdade aplicável a todos os crentes.
Disse Ele: “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos
escolhi a vós outros”.19
Com isso Ele não somente exclui todos os méritos anteri-
ores, mas também quer dizer que eles não tinham nada em si mesmos que desse
motivo para serem escolhidos, pois Ele se antecedeu a eles com a Sua misericórdiaa
.
Nesse sentido devemos também tomar estes dizeres do apóstolo Paulo: “Quem
primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído?20
”. Porque ele quer mos-
trar que a bondade de Deus de tal maneira se antecipa aos homens que ela não
encontra nada neles, nem quanto ao passado nem quanto ao futuro, que lhes pos-
sibilite cooperar com elab
.21
Ilustração baseada em Jacó e Esaú
Acresce que, na Epístola aos Romanosc
, onde Paulo começa este argumento do
ponto mais alto e depois lhe dá seqüência mais ampla, ele trata, sob o exemplo de
Jacó e Esaú, da condição dos eleitos e dos reprovados, e o faz desta maneira22
: “E
ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para
que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por
a. sua misericordia antevertisset.
b. quo ipsis concilietur.
c. A Epístola aos Romanos foi a primeira da qual Calvino publicou um comentário, desde 1539, tendo-o
publicado em Estrasburgo. Todo esse comentário feito sobre os versículos 6 a 18 do capítulo 9 expressa,
noutros termos, o que faz parte do conteúdo da segunda edição da Institutio, publicada em Estrasburgo
nesse mesmo ano. (Op. Calv., XLIX, 174 a 182).
19
Jo 15.16.
20
Rm 11.35.
21
“Que outra coisa poderá Deus encontrar em nós, que o induza a amar-nos, a não ser aquilo que ele já nos deu?”,
indaga Calvino. [João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 6.10), p. 159]. Em outro lugar: “É preciso lembrar
que sempre que atribuímos nossa salvação à graça divina, estamos confessando que não há mérito algum nas
obras; ou, antes, devemos lembrar que sempre que fazemos menção da graça, estamos destruindo a justiça
[procedente] das obras.” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 11.6), p. 389]. “As pessoas são muitíssi-
mo insensatas ao suporem que existe algum mérito ou dignidade nos homens que preceda a eleição divina.”
[João Calvino, Exposição de 1Coríntios, (1Co 1.28), p. 70]. Ainda: “Que ninguém conclua que os eleitos o são
em virtude de serem eles merecedores, ou porque de alguma forma conquistaram para si o favor divino, ou
ainda porque possuíam alguma semente de dignidade pela qual Deus pôde ser movido a agir. A idéia simples,
que devemos levar em conta, é esta: o fato de sermos contados entre os eleitos independe tanto de nossa
vontade quanto de nossos esforços – pois o apóstolo substituiu correr por esforço ou diligência. Ao contrário,
deve ser atribuído totalmente à benevolência divina, a qual, por si mesma, recebe graciosamente aqueles que
nada empreendem, nem se esforçam, nem mesmo tentam.” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 9.16),
p. 333]. “Em toda a Escritura se faz evidente que não existe outra fonte de salvação exceto a graciosa mercê
divina.” [João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 6.10), p. 158].
22
Rm 9.11-13.
49
aquele que chamaa
), já fora dito a ela: O mais velho será servo do mais moçob
.
Como está escrito: Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú”. Que é que preten-
dem aqueles que, obscurecendo essas palavras, atribuem algum lugar às obras em
nossa eleição (quer anteriores quer futuras)? Isso é inverter completamente o que
o apóstolo diz, pois, segundo este, a diferença existente entre os dois irmãos não
depende em nenhum aspecto das suas obras, mas da pura e simples vocação de
Deus. Sim, porquanto Deus determinou o que iria fazer antes de eles terem nasci-
do. A sutileza utilizada pelos sofistasc
não escaparia ao conhecimento de Paulo,
se tivesse algum fundamento. Mas, como ele sabia que Deus não poderia prever
nada de bom no homem, senão o que deliberou dar-lhe pela graça da Sua eleição,
deixou de lado essa opinião perversa, que consiste em preferir as boas obras à sua
causa e origem. Dasd
palavras do apóstolo deduzimos que a salvação dos que
crêem funda-se no beneplácito da eleição de Deus, e que esta graça não é adqui-
rida por boas obras, mas lhes vem da Sua bondade gratuita. Elas nos propiciam
também como que um espelho ou um quadro que representa esta verdade. Esaú e
Jacó são irmãos, gerados dos mesmos pais, de uma mesma gestação, estando
juntos no ventre de sua mãe antes de nascerem. Todas as coisas são semelhantes
num e no outro; todavia, o juízo de Deus distingue entre eles, pois escolhe um e
rejeita o outro. Só restava a questão da primogenitura, que fazia que um fosse
preferido ao outro. Mas mesmo isso foi deixado para trás; foi dado ao que nasceu
por último o que foi negado ao que nasceu primeiro.
Outros exemplos
Em muitos outros casos se vê que Deus, com deliberado propósito, desprezou a
primogenitura a fim de extirpar da carne todo elemento de glória. Rejeitando
Ismael, ligou o Seu coração a Isaque; rebaixando Manasses, preferiu Efraim23
.
Se alguém replicar que não devemos julgar questões relacionadas com a vida
eterna recorrendo a coisas inferiores e levianas, e que é uma zombaria inferir que
aquele que é exaltado pela honra da primogenitura é adotado como participante
da herança celestial (havendo alguns que não poupam nem mesmo o apóstolo
Paulo, dizendo que ele abusou dos testemunhos da Escritura, aplicando-os a este
assunto), respondo que o apóstolo não falou disso inconsideradamente, e não
quis torcer o sentido dos testemunhos da Escritura; mas ele enxergava o que esse
tipo de gente era incapaz de considerar. É que Deus quis, por meio de um sinal
corporal, representar a eleição espiritual de Jacó, a qual, noutro aspecto, estava
oculta em Seu conselho secreto. Porque, se não aplicássemos à vida futura a
a. ex vocante.
b. minor (o caçula).
c. istorum.
d. ex.
23
Gn 17 e 48. [Ver Gn 21.12.]
50 As Institutas – Edição Especial
primogenitura que foi dada a Jacó, a bênção que ele recebeu seria totalmente
ridícula, porque não teria outra coisa senão total miséria e calamidade.
Vendo, pois, o apóstolo Paulo que Deus, por meio dessa bênção exterior,
testificou Sua bênção eterna, que Ele preparou em Seu reino celestial para o Seu
servo, não teve dúvida nenhuma em tomar o argumento de que Jacó recebeu a
primogenitura para provar que ele foi escolhido por Deus. Portanto, Jacó foi elei-
to, Esaú tendo sido repudiado, e assim é feita distinção entre eles pela eleição de
Deus – apesar de não haver diferença em seus méritos.
Qual o motivo disso?
Se alguém pedir a razão disso, Paulo lhe dará; é o que Deus disse a Moisés:
“Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem
eu me compadecer”.24
E que será que isso quer dizer? Claro está que o Senhor
afirma explicitamente que não encontra em nós nenhuma razão pela qual deva
fazer-nos bem, mas que se baseia totalmente em Sua misericórdia, pelo que a
salvação dos Seus é Sua obra, e de mais ninguém.
Responda quem puder
Uma vez que Deus firma unicamente em Si a tua salvação, por que hás de descer
a ti? Visto que Ele destina a ti a Sua misericórdia como causa única, por que hás
de desviar-te e recorrer aos teus méritos? Como Ele quer que todo o teu pensa-
mento se restrinjaa
a concentrar-se unicamente em Sua bondade, porque o farás
mudar, considerando em parte as tuas obras?25
Mas não faltará quem me diga queAmbrósio, Jerônimo e Orígenes escreve-
ram que Deus distribui a Sua graça entre os homens conforme o conhecimento
que tem de que cada um deles fará bom uso dela. Concedo mais que isso: que
Agostinho tinha a mesma opiniãob
. Entretanto, depois de obter melhor conheci-
mento da Escritura, não somente se retratou, declarando-a falsa, mas a refutou
com vigor e firmeza.26
E, acusando os pelagianos desse erro, emprega as pala-
vras: “Quem se espantaria se essa tão grande sutileza levasse o apóstolo a fraquejar,
pois, tendo tratado do caso muito estranho concernente a Esaú e Jacó, e tendo
formulado a pergunta, ‘Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus?’, poderia
responder que Deus tinha previsto os méritos de ambos, se ele quisesse resolver a
questão rapidamente. Ora, não foi isso que ele disse, mas sim, reduziu tudo ao juízo
e à misericórdia de Deus”. – Oxalá o testemunho de Agostinho tenha algum valor
para os que estão acostumados a fixar-se na autoridade dos pais!
a. contineat.
b. As epístolas de Agostinho faltam na edição de Paris, 1515, mas se encontram na edição de Erasmo, Basiléia,
1529.
24
Êx 33.19.
25
Adoto nesse trecho a segunda pessoa, em tradução literal, para destaque e ênfase (N. do T.).
26
Lib. Retractation., I, cap. II. Epistola ad Sixtum, 105.
51
Consideração da matéria em si
Suponhamos, porém, que ele não dissesse nada, e consideremos a coisa em si.
O apóstolo fez uma pergunta muito difícil, a saber, se Deus age com justiça só
beneficiando com Sua graça a quem Lhe apraz. Ele poderia solucionar o caso
com uma breve palavra – afirmando que Deus leva em conta as obras. Por que
não fez isso? Por que continuou ele em seu propósito, de molde a deixar-nos na
mesma dificuldade? Não há outra razão, senão que é seu dever proceder assim,
porque o Espírito Santo, que falava por sua boca, jamais deixou algo no esque-
cimento. Por isso ele responde sem tergiversação, sem subterfúgios, que Deus
aceita pela graça os Seus escolhidos porque Lhe apraz, e lhes faz misericórdia
porque Lhe apraz. Porquanto, o testemunho de Moisés citado por ele, “terei
misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me
compadecer”, é como se dissesse que Deus não é movido à misericórdia e à
bondade por nenhuma outra causa senão por Seu querer – porque Ele quer.
Logo, o que diz Agostinho noutro lugar permanece verdadeiro, a saber, que a
graça de Deus não encontrou coisa alguma pela qual devesse escolher os Seusa
;
mas Ele os escolheu.27
A sutileza de Tomás de Aquino vira bigorna
sob o malho da verdade
Não me preocupa esta sutilezab
de Tomás de Aquino:28
que, embora o pré-conhe-
cimento dos méritos não possa ser mencionado como causa da predestinação por
parte de Deus, todavia pode ser chamada assim por parte de nós. Como quando
ele declara que Deus predestinou os Seus eleitos para receberem a glória por seus
méritos, visto que Ele quis dar-lhes a graça pela qual eles merecem essa glória.
Muito ao contrário, uma vez que Deus não queria que considerássemos coisa
alguma em nossa eleição senão a Sua bondade e nada mais, é uma atitude forçada
e perversa querer ter em consideração alguma outra coisa. Se eu quisesse contender
fazendo uso também de sutileza, teria bom recurso com o qual rebater esses ro-
deios sofísticosc
de Tomás. Ele afirma que de algum modo a glória foi preordenadad
para os eleitos por seus méritos, porque Deus lhes deu primeiramentee
a graça
para que eles a merecessem.
Que se dirá, porém, se eu replicar contrariamente, dizendo que a graça [ou o
dom] do Espírito Santo, que o nosso Senhor Jesus Cristo dá aos Seus, promove a
a. non invenire eligendos, sed facere.
b. argutiam.
c. argutiolam.
d. prædestinari. Calvino faz notar aqui, e mais adiante, os sinônimos que ele prefere a predestinar.
e. prædestinat.
27
Epist. 106.
28
In pri. sentent. tract., quæst. 23.
52 As Institutas – Edição Especial
eleição deles, vendo-se logo que essa graça não precedea
à eleição, visto que ela
é conferida àqueles aos quais a herança da vida foi destinada anteriormente?
Porque a ordem que Deus segue consiste em justificar depois de ter escolhido.
Decorre disso que a predestinação de Deus, pela qual Ele delibera chamar os
Seus para a salvação, é antes causa da deliberação de que os haverá de justificar,
e não outra coisa. Mas, deixemos todos estes debates inúteis com aqueles que
acham que têm bastante conhecimento da Palavra de Deus. Pois disse bem um
antigo doutor29
quando declarou que aqueles que atribuem aos méritos [huma-
nos] a causa da eleição, querem saberb
mais do que aquilo que lhes seria útil.
E quanto aos réprobos?
Tratemos agora dos réprobos, dos quais Paulo fala também na citada passagem.30
Porque, como Jacó, não tendo mérito algum por suas boas obras, foi aceito pela
graça, também Esaú, não tendo feito nenhuma ofensa, foi rejeitado por Deusc
. Se
dirigíssemos nossas reflexões às obras, faríamos injúria ao apóstolo, como se ele
não tivesse enxergado algo que para nós é evidente. Ora, que ele não viu isso está
patente, porque especificadamente ele segue esta linha: nenhum dos dois fez nem
o bem nem o mal, e um deles foi escolhido e o outro reprovado; donde se conclui
que o fundamento da predestinação não está nas obras. Ademais, tendo feito esta
pergunta, se Deus é injusto, Paulo não alega que Deus deu a Esaú o que a sua
maldade merecia (com o que ficaria clara e certa a defesa da eqüidade de Deus).
Mas ele apresenta uma solução inteiramente diversa. Diz ele que Deus suscita os
réprobos a fim de neles exaltar a Sua glória. Finalmente ele acrescenta, em con-
clusão, que Deus faz misericórdia a quem Lhe parece bem, e endurece a quem
bem Lhe parece. Vemos que o apóstolo subordina um e outro ao beneplácito de
Deus. Então, se não podemos atribuir outra razão pela qual Deus aceita os Seus
eleitos que não seja o Seu agrado, tampouco teremos outra razão pela qual Ele
rejeita os demais, senão a Sua vontade. Porque, quando se declara que Deus en-
durece ou faz misericórdia conforme o Seu beneplácito, essa declaração é feita
para nos advertir de que não procuremos causa nenhuma fora da Sua vontade.
a. Coisa bastante rara: esta frase é antes uma paráfrase do texto de 1539: Prædestinationem ad gratiam, electioni
ad vitam subservire, esseque ejus veluti pedissequam; gratiam iis prædestinari quibus gloriæ possessio
jamdiu assignata sit, quia in justificationem ex electione filios suos adducere Domino placeat.
b. sapere.
c. Cf. Farel, Sumário, cap XLII (Sobre o Dia do Juízo): “a plena revelação da glória dos eleitos... ...será na
vinda triunfal do nosso Salvador... Então os eleitos inscritos e enumerados no livro da vida antes que o
mundo existisse... etc. Considerem Esaú... Considerem Judas..., com tantos milagres realizados. Mas isso
tudo nada vale!... Deus somente salva e dá vida conforme o que dispôs... Nada pode impedir a eleição de
Deus, e Seu propósito imutável... O propósito de Deus é firme: porque a eleição e a graça de Deus... não
estão presas a nenhum tempo, a nenhum lugar, a nenhuma pessoa, a nenhum modo de agir”, etc.
29
Ambros., De vocatione gent., li. I, cap. II.
30
Rm 9.
53
A imoderação humana gera reações contrárias à
doutrina da predestinação
Ora, quando o entendimento humano ouve estas coisas, sua intemperança não se
pode conter e provoca inquietação e reações emocionais, como se uma trombeta
tivesse dado toque de avançar. Porque os homens carnais (cheios de loucuras
como estão) contestam a Deus como se O tivessem sujeito às suas repreensões!
Primeiro eles exigem que se explique com que propósito Deus se enfurece contra
as Suas criaturas que não lhe fizeram nenhuma ofensa. Porque, pôr a perder e
arruinar a quem bem Lhe parece é coisa mais própria da crueldade de um tirano
que da sentença justaa
dada por um juiz. Assim lhes parece que os homens têm
bom motivo para queixar-se de Deus, se por Seu puro querer, sem o próprio mé-
rito deles, foram predestinados à morte eterna.
O recurso dos crentes
Se tais cogitações subirem alguma vez ao entendimento dos crentes, eles estarão
suficientemente armados para as repelir, bastando que considerem que tremenda
temeridade é sequer inquirir as causas da vontade de Deus. Pois a vontade de
Deus é (com todo o direito) a causa de todas as coisas que se fazem31
.32
Por que,
se ela tivesse alguma causa, esta necessariamente a precederia, e seria como se
estivesse atada a ela, o que não é lícito nem imaginar. Porque a vontade de Deus
é de tal modo a regra suprema e soberana da justiça que tudo o que Deus quer,
necessariamente o tem como justo, simplesmenteb
porque o quer. Por isso, se for
feita a pergunta: Por que Deus agiu assim? Deve-se responder: Por que Ele o
quis. Se ainda se perguntar: Por que Ele o quis? É querer conhecer uma coisa
maior e mais alta que a vontade de Deus; o que não se pode encontrar. Portan-
to, que a temeridade humana trate de se moderar, e que não procure o que não
está a seu alcance, sob pena de não encontrar o que está. Estas rédeas serão
muito boas para conter e manter reverentes todos os que desejam refletirc
sobre
os mistérios de Deus.
Contra os ímpios Deus não precisa de advogados
Contra os ímpios, que com destemor falam mal de Deus abertamente, o Senhor se
defende suficientemente com a Sua justiça, sem que Lhe sirvamos de advogados.
Faz isso quando, pondo fim às suas tergiversações em sua consciência, Ele os
a. legitimæ sententiæ.
b. eo ipso quod vult.
c. philosophari.
31
(1539) Hoc ex Augustino sumptum: De Gene., contra Manichæos, ib. I, cap. III.
32
“Não busquemos a causa em parte alguma, senão na vontade divina. Notemos particularmente as expressões
de quem quer e a quem lhe apraz. Paulo não permite que avancemos além disto.” [J. Calvino, Exposição de
Romanos, (Rm 9.18), p. 337].
54 As Institutas – Edição Especial
pressiona e os convence ao ponto de não poderem escapara
. Não obstante, para
que não toleremos que eles façam zombaria do Seu santo Nome, Deus nos deu
uma armadura completa em Sua Palavra para podermos resistir ao furor deles.
Portanto, se alguém nos atacar com o propósito de querer saber por que Deus
predestinou alguns para a condenação eterna, sem terem feito nada para merecê-
la, visto que ainda não existiam, lhes perguntaremos, por outro lado, em que ele
pensa que Deus é devedor ao homem, se acha que Ele tem a sua natureza. Pois,
como todos nós fomos corrompidos e estamos contaminados por vícios e peca-
dos, nada podemos fazer que não nos faça objeto do ódio de Deus. E isso não é
por crueldade tirânica, mas por uma eqüidade racionalb
. Sendo, pois, verdade que
todos os homens, em sua condição natural, são culpados e réus de condenação
mortal, de que maldade, imploro que me digam – de que maldade se queixarão os
que Deus predestinou para a morte? Que todos os filhos de Adão se apresentem
para contender e combater contra o seu Criador porque Ele, por Sua providência
eterna, antes do seu nascimento, eles foram destinados33
à calamidade perpétua!
Quando, ao contrário, Deus os levar a se conhecerem a si mesmos, que é que
poderão murmurar contra isso? Pois, como todos eles fazem parte de uma massa
corrupta, não é de admirar que estejam todos sujeitos à condenação eterna. Por-
tanto, é melhor que não acusem Deus de maldade ou de injustiça, visto que,
mediante o Seu juízo eterno, eles foram ordenados para a condenação, à qual a
sua própria natureza os levac
.
A corrupção humana terá sido predestinada?
Mas alguém perguntarád
se os homens não foram predestinados pela ordenação
de Deus a esta corrupção que dizemos ser a causa da sua ruína. Porque, dirá o
inquiridor, quando eles perecem em sua corrupção, outra coisa não é senão que
eles levam em si a calamidade na qual Adão, pela vontade de Deus, caiu, e na
qual precipitou todos os seus sucessores. Deus não é, pois, injusto em brincar tão
cruelmente com as Suas criaturas? Em resposta, reconheço que foi pela vontade
de Deus que todos os filhos de Adão caíram nesta miséria, na qual agora estamos
retidose
. Mas o que eu venho dizendo desde o começo é que devemos sempre
a. Calvino remete aqui o incrédulo à sua consciência, que, malgrado todos os argumentos intelectuais empre-
gados para desculpá-lo (“se eu agi mal, é que Deus o quis”), lembra-lhe sem cessar a sua responsabilidade
moral e, pois, a sua culpabilidade pessoal.
b. æquissima justitiæ ratione.
c. sponte perducuntur.
d. Acréscimo feito no texto latino.
e. Se nem mesmo a consciência do pecador o convence de culpabilidade pessoal, ele deve se lembrar que
está envolvido na rebelião universal da raça, e, como é filho de Adão, não tem direito a outra coisa senão
à condenação.
Calvino fecha aqui o círculo (e a Bíblia não lhe dá esse direito?), atribuindo a queda de Adão à vontade
de Deus. Isso o leva forçosamente a “pôr em seu devido lugar” a última questão levantada pelo homem, e a
mais grave, citando a admoestação do apóstolo: “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?”
33
Literalmente: consagrados (N. do T.).
55
retornar tão-somente ao beneplácito de Deusa
, pelo qual Ele mantém a causa oculta
em Si mesmo. Disso não se segue, porém, que possamos detratar a Deusb
, pelo
que nos adiantamos, com o apóstolo Paulo, desta maneira: “Quem és tu, ó ho-
mem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o
fez: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do
mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra?”c34
Dirão os opo-
nentes que não se pode defender retamente dessa maneira a justiça de Deus, mas
que isso não passa de um subterfúgio próprio daqueles que não têm desculpa
satisfatória. Porque se vê que isso não diz nada, exceto que o poder de Deus não
pode ser impedido de fazer o que bem Lhe parece. Digo que é coisa bem diferen-
te. Pois, que motivo mais firme e mais forte se poderá apresentar do que o de nos
exortar a que pensemos em quem Deus é? Porque, como poderia cometer alguma
iniqüidadeAquele que julga o mundo? Se é próprio da Sua natureza fazer justiça,
Ele ama naturalmente essa justiça, e odeia toda iniqüidaded
. Por isso o apóstolo
não procurou nenhum esconderijo, como se estivesse surpreso ou derrotado; mas
ele quis mostrar que a justiça de Deus é tão alta e tão excelente que não deve ser
reduzida à medida humana ou ser comprimida pela pequenez do entendimentoe
dos homens.
O apóstolo confessa, alto e claro, que os juízos de Deus têm uma profundi-
dade que pode abismar a mente de todos quantos queiram alcançá-los. E não
seria coisa por demais irracional querer submeter as obras de Deus a uma condi-
ção na qual, quando pudéssemos entender a razão, ousaríamos vituperá-lo, insultá-
lo? Pois logo aí vem algum maniqueu ou Celestino ou outro herege para caluniar
a providência de Deus! Digo, com o apóstolo Paulo, que não há necessidade de
169
João (Johannes) Duns Scotus (1265 ou 1274-1308). Filósofo medieval, autor de comentários da Bíblia, de
Aristóteles e das Sentenças de Pedro Lombardo, e outras obras. Defendia, entre outras coisas, que se pode
obter um puro conhecimento da teologia somente pelo uso da razão. É chamado “Doctor Subtilis” (Doutor
Sutil). Não há certeza sobre onde nasceu, apesar do nome (“Scotus” – “Scot” – escocês). Alguns dizem que
ele nasceu na Inglaterra, outros, na Irlanda do Norte (N. do T.).
170
Guilherme de Occam, ou de Ockham, inglês (nasceu entre 1290 e 1300, aproximadamente, e morreu por volta
de 1349). Um dos “escolásticos”, chamado “Doctor Singularis et Invincibilis” (Doutor Singular e Invencível).
Tornou-se mais famoso por suas obras sobre lógica e sobre filosofia, e por sua teoria política (N. do T.).
a. A expressão “tão-somente ao beneplácito de Deus” implica que, em Seu “beneplácito”, Deus tem a razão
ou “a causa oculta em Si mesmo”. E mostra que estamos longe da doutrina que o próprio Calvino imputa a
Scotus169
e que Occam170
certamente sustentava sobre a arbitrariedade divina. Para Calvino, não existe
causa ou razão mais alta que a vontade de Deus, mas a vontade de Deus tem, ela própria, razões de sabedoria
e justiça inacessíveis ao nosso entendimento. Durante toda a sua vida, Calvino muitas vezes protestou
contra a identificação da sua doutrina com a que ele imputa, com ou sem razão, a Scotus. (Ver isso na edição
de 1560 das Institutas de Calvino, III, XXIII, 2 e 4.)
34
Ef 3; [Rm 9.20, 21].
b. huic obtrectationi Deum subjacere.
c. in contumeliam.
d. Calvino toma posição aqui contra o scotismo [relativo a Duns Scotus], que admitia arbitrariedade em Deus.
Para o nosso reformador, tudo depende efetivamente da livre vontade de Deus, mas esta vontade é justa por
natureza.
e. absorbendæ mentes.
56 As Institutas – Edição Especial
explicar a razão desta verdade, porque ela “excede todo o entendimento”.35
Que
absurdo há nisso? Gostaríamos que o poder de Deus fosse tão limitado que não
conseguisse fazer coisa alguma que o nosso espírito não pudesse compreender?!36
Digo com Agostinho37
que Deus criou alguns que Ele previu38
que iriam
para a perdição eterna, e que o fez porque o quis.39
Ora, porque Ele o quis não
significa que nos cabe exigir a razão, visto que não a podemos compreender. E,
por outro lado, não se deve discutir se a vontade de Deus é justa ou não; quando
se falar a respeito da vontade de Deus, esta deve ser entendida sob o nome de
regra infalívela
da justiça. Como se vai duvidar se há iniqüidade onde a justiça é
patente? Portanto, não hesitemos em fechar a boca dos ímpios, como fez o após-
tolo Paulo; e, todas as vezes e quantas eles se atreverem a vociferar40
, não vacile-
mos em contestar, dizendo: Quem são vocês, pobres e miseráveis [criaturas],
para intentarem acusação contra Deus? Vocês não têm outro motivo senão rebai-
xar a grandeza das Suas obras à sua rudeza humana, como se o que Ele faz fosse
mau, simplesmente porque nos é oculto! – Não ganharemos nada em querer argu-
mentar em mais alto nível, porque não satisfaremos à sua petulância. E, por outro
lado, Deus não se serve doutra defesa que a que Ele usou por meio do Seu Espí-
rito, falando pela boca do apóstolo Paulo. E o que é mais, desaprendemos a falar
bem quando não falamos em conformidade comb
Deus.
Mais uma objeção dos ímpios: Desculpa para o pecador
Há outra objeção produzida pela impiedade, objeção que, todavia, não tende tan-
to a blasfemar contra Deus como a escusar o pecador. Se bem que, a bem da
verdade, o pecador não poderá justificar-se sem difamar o Juiz. Mas vejamos
qual é. Por que, indagam os opositores, Deus julgará más as coisas que lhes im-
a. suprema.
b. cum Deo.
35
Fp 4.7.
36
“Ponderem, por uns instantes, aqueles a quem isto se afigura áspero, quão tolerável lhes seja a impertinência,
quando, porque lhes excede a compreensão, rejeitam matéria atestada de claros testemunhos da Escritura e
inquinam de vício o serem a público trazidas cousas que, a não ser que houvesse reconhecido serem provei-
tosas de conhecer-se, Deus jamais haveria ordenado fossem ensinadas através de Seus Profetas e Apóstolos.
Ora, nosso saber não deve ser outra cousa senão abraçar com branda docilidade e, certamente, sem restrição,
tudo quanto foi ensinado nas Sagradas Escrituras.” [João Calvino, As Institutas, I.18.4].
37
Epist. 106. “A graça não teria razão de ser se os méritos a precedessem. Mas a graça é graça. Não encontrou
méritos, foi a causa dos méritos. Vede, caríssimos, como o Senhor não escolhe os bons mas escolhe para
fazer bons”, orienta pastoralmente Agostinho (354-430). [“A graça não teria razão de ser se os méritos a
precedessem. Mas a graça é graça. Não encontrou méritos, foi a causa dos méritos. Vede, caríssimos, como
o Senhor não escolhe os bons mas escolhe para fazer bons”, orienta pastoralmente Agostinho (354-430)].
38
Entendo que no presente contexto Calvino empregou o verbo “prever” neste sentido: ”Julgar por antecipação
que algo deverá acontecer” (apud Nouveau Petit Larousse em Couleurs). Nota do tradutor.
39
“Se porventura Deus escolheu uns e rejeitou outros, em consonância com sua previsão, se serão dignos ou
não da salvação, então o galardão das obras já foi estabelecido, e a graça de Deus jamais reinará soberana,
mas será apenas uma metade de nossa eleição”, conclui Calvino. [João Calvino, Exposição de Romanos,
(Rm 11.6), p. 389].
40
Literalmente: “ladrar como cães” (N. do T.).
57
pôs como necessárias por Sua predestinação? Que poderiam fazer os homens?
Resistiriam aos decretos divinos? Mas seria em vão, e nem poderiam fazê-lo
inteiramente. Portanto, não é direito Deus punir as coisas cuja principal causa
está em Sua predestinação.
Não usarei aqui o tipo de defesa geralmente empregado pelos doutores da
igreja, qual seja, que o pré-conhecimento de Deus não impede que o homem seja
considerado pecador, no qual Ele vê as práticas pecaminosas, e não os Seus [esco-
lhidos]. Porque aqueles que estão habituados a rodeios sutis não se contentariam
com isso [caso acedêssemos], mas iriam mais longe e diriam que, se Deus quises-
se, poderia impedir os males e maldades que previu. Mas não o fez. Em vez disso,
criou o homem para portar-se dessa maneira. Ora, se o homem foi criado em tal
condição que haveria de fazer tudo o que faz, não se pode julgar como faltas as
coisas que ele não pode evitar e às quais ficou adstrito pelo querer de Deus.
Vejamos como se pode sair dessa dificuldade.
Resposta
Devemos primeiro aceitar como coisa resolvida o que diz Salomão: “O Senhor
faz tudo com um propósito; até os ímpios para o diaa
do castigo”.41
Sendo, pois,
que a disposição de todas as coisas está nas mãos de Deus, e que Ele envia a
morte ou a vida como Lhe apraz, Ele dispensa e ordena, por Seu conselho, que
alguns, desde o ventre de sua mãe, sejam certa e seguramente destinados à morte
eterna, para que o Seu Nome seja glorificado na perdição deles.
Se alguém, querendo escusar a Deus, alegar que, por Sua providência,
Ele não lhes impõe nada necessariamente, mas que, vendo a perversidade que
terão, cria-os visando a essa condição, dirá alguma coisa, mas não tudob
. Os
antigos doutores se serviam algumas vezes dessa solução, mas como que em
dúvida. Os sorbonistasc
se apegaram inteiramente a ela, como se não houves-
se como contestá-lad
.
Pois bem, concedo que o pré-conhecimento, só, não confere nenhuma ne-
cessidade às criaturas, embora eu saiba que nem todos concordarão com isso,
porque há quem faça dela a causa de todas as coisas. Mas me parece que Lorenzo
Valla fez uma distinção mais sutile
, que mostra que essa contenda é vã, porquanto
a. ad diem malum.
b. Vê-se que Calvino não rejeita totalmente a solução proposta, mas que a acha insuficiente. É que a sua noção
da soberania de Deus o impedia de aceitar o conceito de uma “permissão nua” [e crua]. A única permissão
que ele podia conceber, segundo o seu ponto de vista, era uma permissão que implica a certeza objetiva do
evento, sem que, aliás, a natureza intrínseca desse evento seja modificada. Isso ressalta as últimas linhas do
presente parágrafo [5º. Parágrafo na presente tradução]. A posição assumida por Calvino veio a ser clássica
entre os seus discípulos, e se encontra nas confissões de fé que abordam este assunto.
c. scholastici.
d. nihil opponi posset.
e. O tratado de Lorenzo Valla, De libero arbitrio (Sobre o Livre Arbítrio) tinha sido reimpresso em 1518, em
Basiléia.
41
Pv 16.4 [NVI – tradução semelhante à que foi empregada pelo Autor].
58 As Institutas – Edição Especial
a vida e a morte são atos da vontade de Deus, mais que da Sua providência. Se
Deus só previsse o que acontece com os homens, sem o dispor nem o ordenar por
Seu beneplácito, esta questão não seria ventilada sem propósito, qual seja: A
necessidade induz a providênciaa
de Deus?42
Mas, como se vê que as coisas não
acontecem por outra razão senão porque Deus determinou que acontecessem, é
uma insensatez disputar e debater o que o Seu pré-conhecimento faz, quando é
evidente que tudo acontece por Sua ordenação e disposição. Não se pode negar
que Deus previu, antes de criar o homem, a que fim ele chegaria, e que o previu
porque assim ordenou em Seuconselho. Se neste ponto alguém acusar a provi-
dência de Deus, cometerá uma temeridade. Sim, pois, com que propósito Deus
será censurado por não ter ignorado as coisas que haveriam de existir e aconte-
cer? Se, então, houver algum lamento, justo ou aparentemente justo, melhor será
dirigi-lo à Sua providência.
Agora, o que vou dizer não deve causar estranheza: que Deus não somente
previu a queda do primeiro homem e com ela a desgraça de toda a sua posterida-
de, mas também Ele quis que assim fosse. Porque, assim como pertence à Sua
sabedoria ter pré-conhecimento de todas as coisas futuras, assim também perten-
ce ao Seu poder reger e governar todas as coisas com a Sua mão.
Alguns recorrem aqui à [pretensa] diferença entre vontade e permissão e
dizem que os ímpios perecem porque Deus o permite, não porque o querb
. Mas,
por que diremos que Ele o permite, se não é porque o quer?Ainda mais quando se
considera que não parece provável, em si mesmo, que seja por pura permissão, e
não pela ordenação de Deus, que o homem recebe a condenaçãoc
, como se Deus
não tivesse ordenado qual seria a condição do ser que Ele queria que fosse a
principal e a mais nobre das Suas criaturas! Não hesito, pois, em confessar com
Agostinho que a vontade de Deus é a necessidade43
de todas as coisas, e que,
necessariamente, o que Ele ordenou e quis que sucedesse, assim como tudo quan-
to Ele previu, certamente sucederá.
a. Deus ordena e dispõe até mesmo os fatos contingentes e os atos livres, o que significa que, nisso, Ele decreta
a futurição. Dispor e ordenar não são sinônimos de causar de maneira eficiente [como causa eficiente].
b. Deus quis a Queda, isto é, o abuso da liberdade do qual Adão se fez culpado; podendo impedi-la, Deus
permitiu sua ocorrência mediante uma permissão soberana. É por equívoco que freqüentemente se confunde
a doutrina da preordenação da Queda com o supralapsarismo. Os infralapsários também reconhecem esta
preordenação. O supralapsarismo e o infralapsarismo se propõem a indicar quais são os objetos dos decretos
de eleição e de reprovação. O supralapsarismo ensina que o objeto desses decretos é o homem, considerado
como antes de cair. O infralapsarismo pretende que seja o homem considerado como já decaído. Mas, em
ambos os casos, não se trata do decreto preordenando a orientação do futuro religioso da humanidade, mas
de decretos relativos à salvação ou à condenação do pecador.
c. “Damnation” significa aqui: sentença de condenação.
d. pendet.
42
“Deus, sem sua inescrutável sabedoria, governa as atividades humanas de tal forma que suas obras, que
ocupam muito pouco o pensamento humano em virtude de sua constante familiaridade com elas, excedem
muitíssimo a compreensão da mente humana.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos,
1999, Vol. 2, (Sl 40.5), p. 220].
43
“Necessidade” e termos cognatos, neste contexto e noutros semelhantes, no sentido filosófico de inevitabilidade
(N. do T.).
59
Quatro seitas refutadas de uma vez
Agora, se os pelagianos, os maniqueus, os anabatistas e os epicureus (temos algo
que fazer com estas quatro seitas, no trato desta matéria), alegarem para sua escu-
sa a necessidade, pois são contrários à predestinação de Deus, nada apresentarão
que seja pertinente à causa em foco. Porque, se a predestinação não é outra coisa
que a ordem e a dispensação da justiça divina, a qual só pode ser irrepreensível,
embora oculta, pois é certo que os ímpios merecem ser predestinados para tal
fim, também é certo que a desgraça na qual eles caem pela predestinação de Deus
é justa e equânime, é imparcial. Além disso, a sua perdição procedea
da
predestinação de Deus de tal maneira que a sua causa e substância se encontra
neles. O primeiro homem caiu porque Deus julgou que isso era um meio útil para
os Seus propósitos. Ora, porque julgou assim, não sabemos. Todavia, é certo que
não o julgou por outra razão senão porque viu que isso trabalharia pela glória do
Seu Nome. Pois bem, quando se fizer menção da glória de Deus, pensemos igual-
mente em Sua justiça, porque é necessário que o que merece louvor seja justo e
imparcialb
. Acontece, então, que o homem caic
segundo o que tinha sido ordena-
do por Deus, mas cai por seu próprio erro. Pouco antes [na narrativa da criação e
da Queda] o Senhor tinha declaradod
que todas as coisas que Ele fez ficaram
muito boas; de onde vem, então, a perversidade do homem, senão do fato de que
se afastou de Deus? Para que não se pensasse que a perversidade humana proveio
da Sua criação, o Senhor aprovou por Seu próprio testemunho tudo quanto havia
colocado nele. Foi o homem, então, que, por sua própria maldade, corrompeu a
boa natureza que tinha recebido do Senhore
. E assim, por sua queda, lançou con-
sigo toda a sua descendência à desgraça. Porque vemos melhor na natureza cor-
rompida do homem a causa da sua condenação, causa evidente para elef
, do que
procurá-la na predestinação de Deus, onde ela está oculta e a qual é totalmente
incompreensível.44
E que não achemos ruim submeter neste ponto o nosso enten-
a. justum.
b. cadit.
c. providentia Dei.
d. Em 1539 ocorria: Paulo171
, alusão a 1 Timóteo 4.4, mas sem equivalente no capítulo da Epístola aos Roma-
nos comentado mais acima.
e. Malgrado tudo o que acaba de dizer, Calvino não tira nem um iota da responsabilidade de Adão.
44
“.... Adão, em sua queda, foi despojado de sua justiça original, sua razão foi obscurecida, sua vontade,
pervertida, e que, sendo reduzido, a este estado de corrupção, trouxe filhos ao mundo semelhantes a ele em
caráter. Se porventura alguém objetar, dizendo que essa geração se confina aos corpos, e que as almas jamais
poderão derivar uns dos outros algo em comum, eu responderia que Adão, quanto em sua criação foi dotado
com os dons do Espírito, não mantinha um caráter privativo ou isolado, mas que era o representante de toda
a humanidade, que pode ser considerado como tendo sido dotado com esses dons em sua pessoa; e deste
conceito necessariamente se segue que, quando ele caiu, todos nós, juntamente com ele, perdemos nossa
integridade original.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 51.5), p. 431-432].
171
Em latim (N. do T.).
f. 1539 tem somente: evidentem.
60 As Institutas – Edição Especial
dimento à sabedoria de Deus, aos cuidados da qual Ele deixa muitos segredos.
Porque é douta ignorância ignorar as coisas que não é lícito nem possível saber;
o desejo de sabê-las revela uma espécie de raiva canina.45
Por mais que se argumente, mais a impiedade reclama
Possivelmente alguém dirá que eu não apresentei ainda nenhum argumento razo-
ável que sirva para refrear a escusa blasfema que eu condeno. Confesso que não
se pode apresentar argumento que a impiedade não difame em constante murmu-
ração. Entretanto, parece-me que já disse o que deveria ser suficiente para elimi-
nar do homem, não somente toda razão para murmurar, mas também toda descul-
pa ou pretextoa
! Os réprobos querem ser desculpados por pecarem, porque não
conseguem evadir-se à necessidade do pecado; principalmente tendo-se em vista
que isso procede da ordenação e da vontade de Deus. Ao contrário, eu nego que
isso lhes sirva de desculpa, porquanto essa ordenação de Deus, da qual eles se
queixam, é imparcial. E embora ignoremos essa imparcialidade, ela é mais que
certa. Concluímos, pois, que os homens não sofrem pena alguma que não lhes
seja imposta pelo justíssimo juízo de Deus. Ensinamos também que é agir perver-
samente, como estes oponentes fazem, querer penetrar os segredos de Deus, os
quais nos é impossível alcançar, em busca da origem da sua condenação, e deixar
de lado a corrupção da sua natureza, da qual na verdade essa condenação proce-
de. Ora, que essa corrupção não deve ser imputada a Deus vê-se claramente pelo
testemunho que Ele deu da Sua criação. Porque, conquanto pela providência eter-
na de Deus o homem tenha sido criado para chegar à condição miserável em que
se encontra, todavia, é de si mesmo que ele toma essa triste realidade, e não de
Deus. Porque ele não perece por outra causa, senão porque degenerou e com
perversidade corrompeu a natureza pura que Deus lhe tinha dado.
Mais um absurdo dos adversários da predestinação
Os adversários de Deus ainda têm outro absurdob
para com ele difamar a Sua
predestinação. Porque, considerando que, quando falamos daqueles que o Se-
nhor retira da condição universal dos homens para fazê-los herdeiros do Seu
reino, não atribuímos a isso outra causa senão o Seu beneplácito, eles inferem
que Deus faz acepção de pessoas – o que a Escritura nega totalmente. Logo,
dizem eles, ou devemos dizer que a Escritura se contradiz, ou que Ele toma em
consideração os méritos daqueles que Ele escolhe. Vejamos:
a. prætextum.
b. tertia.
45
“Por mais diligentemente uma pessoa se põe a meditar sobre as obras de Deus, ela só pode alcançar as
superfícies ou as bordas delas. Embora sendo assim de tão grande altitude, muito acima de nosso alcance,
devemos, não obstante, diligenciar-nos, o quanto nos for possível, por aproximar-nos dela mais e mais em
contínuo progresso; ao vermos também a mão divina estendida para descortinar-nos, o quanto nos é oportu-
no, aquelas maravilhas que por nós mesmos somos incapazes de descobrir.” [João Calvino, O Livro dos
Salmos, Vol. 2, (Sl 40.5), p. 223].
61
Primeiro, o que diz a Escritura, que “Deus não faz acepção de pessoas”, di-
lo noutro sentido, não no sentido em que eles o entendem. Porque, com a expres-
são “de pessoas” Ele não se refere ao homem, mas às coisas como parecem aos
olhos do homem, para com elas obter favor, graça e dignidade; ou, ao contrário,
serem feitos objeto de ódio, desprezo ou má fama. Tais são, por um lado, as
riquezas, o crédito, a nobreza, os ofícios ou cargos honrosos, a pátriaa
, a beleza
física, e coisas semelhantes; ou, por outro, a pobreza, o opróbrio, a falta de crédi-
to, a falta de honrab
, etc. Nesse sentido os apóstolos Pedro e Paulo advertem46
que Deus não faz acepção de pessoas, porque não distingue entre grego e judeu,
para agradar-se de um e rejeitar o outro só por causa da nação a que pertencem.
Tiago emprega palavras semelhantes, quando afirma que Deus, em Seu juízo,
não dá importância nenhuma às riquezas.47
O apóstolo Paulo também, noutras
passagens,48
faz uso dec
expressões semelhantes, com o fim de mostrar que Deus
não faz diferença entre senhor e servo, julgando igualmente um e outro. Por isso
tudo se vê que não deve causar nenhuma repulsa o fato de que Deus escolhe os
que bem Lhe parece, segundo o Seu beneplácito, sem levar em conta nenhum
mérito humano, reprovando uns e rejeitando os outros.
Embora desnecessário, Calvino amplia a explicação
Todavia, para satisfazer mais plenamente aos interessados, vamos expor assim a
matéria: Os oponentes querem saber como se faz isto, que, dentre dois homens
que não diferem em méritos, Deus deixa um de lado e escolhe o outro? Pergunto,
por outro lado, se eles acham que naquele que é escolhido há alguma coisa que
possa inclinar o coração de Deus para que o ame. Se eles confessarem que não há
(como é necessário), a conclusão será que Deus não leva em conta o homem, mas
toma da Sua bondade a razão para beneficiá-lo. Portanto, o fato de Deus escolher
um e rejeitar outro não decorre de levar em consideraçãod
o homem, mas unica-
mente da Sua misericórdia, a qual Ele é livre para mostrar onde e quando bem
Lhe pareça.49
É, pois, falsa e maldosamente que alguns acusam Deus de justiça
desigual, visto que não trata a todos da mesma maneirae
. Se Deus, dizem eles,
acha que todos os homens são culpados, que os castigue a todos igualmente! Se
a. opes, potentia, nobilitas, magistratus, patria.
b. Frase acrescentada em 1541.
c. Assim em 1539. 1541, por engano, tem: 3.
d. respectu.
e. non eundem erga omnes.
46
At 10.34; Rm 2.11; Gl 2.6c.
47
Tg 2.1-13.
48
Cl 3.11; Ef 6.5-9.
49
“Os homens se acham num deplorável estado a menos que Deus os trate misericordiosamente, não debitando
seus pecados em sua conta” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol 1, (Sl 32.1), p. 39]. “Ele nos estende sua
compaixão por amor de Seu nome; porque, como é misericordioso, Ele terá nossas bocas fechadas; e para
que somente Ele seja considerado justo, graciosamente perdoa nossos pecados.” [João Calvino, O Livro dos
Salmos, São Paulo, Parakletos, 2002, Vol. 3, (Sl 79.10), p. 258].
62 As Institutas – Edição Especial
os acha inocentes, que se abstenha de rigor para com todos! Mas eles tratam Deus
como se Lhe fosse proibido fazer misericórdia; ou então, como se, ao fazê-la, fosse
obrigado a renunciar a todo o Seu juízo. Porque, que outra coisa exigem eles ao
quererem que, se todos ofenderam a Deus, sejam todos punidos igualmente?
Confessamos que a ofensa é universal, mas dizemos que a misericórdia de
Deus socorre algunsa
. Que socorra a todos! dizem eles. Mas nós replicamos que
há muito boa razão para que Ele também se mostre justo punindo. Não querendo
sofrer punição, não se esforçam eles para tirar de Deus a faculdade de fazer mise-
ricórdia? ou então, que Lhe seja permitido fazê-la unicamenteb
com a condição
de que desista de exercer juízo? Portanto, vêm muito a propósito estas declara-
ções de Agostinho: “Sendo pois”, diz ele, “que a massa universal do gênero hu-
mano caiuc
em condenação em Adão, os homens separados para ocuparem posi-
ção de honra não são instrumentosd
da sua própria justiça, mas da misericórdia de
Deus. Assim como quanto aos outros, postos em condição de opróbrio, não há
nada que se deva destinar a eles, a não ser o Seu juízo, sem que Ele deva ser
acusado de injustiça”.50
E também: “O fato de que Deus dá aos que Ele reprovou
a punição que lhes é devida, e aos que escolheu dá a graça que não lhes é devida,
pode ser demonstrado como justo e irrepreensível pela símile de um credor, ao
qual é permitido perdoar a dívida de um e exigir seu pagamento de outro. Assim
também o senhor pode dar Sua graça a quem Ele quiser, por ser Ele misericordi-
oso, e não dá-la a todos, por ser Ele um Juiz justo”.51
E ainda: “Dando a alguns o
que eles não merecem, Ele pode demonstrar Sua graça gratuita; não lhe dando
Sua graça a todos, pode demonstrar o que todos merecem”.
Mais uma calúnia para destruir a doutrina da predestinação
Os inimigos da verdade usam ainda outra calúnia para destruir a doutrina da
predestinação. Dizem eles que, se houvesse predestinação, todo o interesse e
zeloe
por uma vida honesta seria abatido. Porque, dizem eles, se o homem sou-
a. Essa frase é muito importante. Porque mostra que não há igualdade entre o decreto de perdição e o decreto de
salvação: o primeiro é necessário, visto que é a conseqüência normal da rebelião do gênero humano; ele não
provém de uma fantasia arbitrária de Deus, que seria então um tirano odioso, mas da Sua justiça perfeita, em
virtude da qual “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23). O segundo decreto, ao contrário (o da salvação)
não é necessário:172
“o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 6.23). Este
segundo decreto provém da boa vontade [beneplácito] de Deus, do Seu amor insondável, da Sua livre graça,
imprevisível para o pecador, e se alguém tachar de arbitrário este amor que não salva todos os homens,
Calvino responde com Agostinho que também era necessário que Deus mostrasse a Sua justiça deixando
que os não eleitos seguissem o caminho normal da sua perdição.
50
Epist. 106.
51
De prædestinatione et gratia.
172
“Necessário” no sentido filosófico. Isto é, algo que por força de causas próprias é inevitável (N. do T.).
b. defluxerit.
c. vassa.
d. Se Calvino atribui tão grande valor à doutrina da predestinação é que ela é a única medida pela qual se pode
garantir a gratuidade absoluta... da graça. As duas afirmações são concomitantes: Paulo, Agostinho, Calvino,
Pascal: quatro teólogos da graça e quatro predestinacionistas.
e. studium.
63
ber que a morte ou a vida já lhe foi decretada pelo conselho imutável de Deus,
logo pensará: Não importa como vivam os homens, pois a predestinação divina
não pode ser nem impedida nem favorecida por suas obras. Assim, cada um se
abandonará e se deixará conduzir desordenadamente para onde quer que a sua
cupidez o levar.
Essa alegação não é totalmente falsa, porquanto há alguns maus elemen-
tos52
que enlameiama
a predestinação de Deus com tremendas blasfêmias, e sob
essa capa zombam de todas as admoestações e advertências. Deus sabe muito
bem o que deliberou outrora fazer conosco. Se Ele se determinou a salvar-nos, a
Seu tempo nos conduzirá à salvação; se se determinou a condenar-nos, em vão
nos atormentaríamos tentando nos salvar. Mas a Escritura, advertindo-nos a que
com a maior reverência e temor meditemos neste mistério, instrui os filhos de
Deus num sentido muito diferente, e condena a maldosa audácia e insensatez
daquele tipo de gente. Porque ela não fala da predestinação para nos encher de
abusiva e presunçosa temeridade ou para nos incitar a esquadrinhar com audácia
ilícita os mistérios inacessíveis de Deus. Em vez disso, seu propósito é que, com
humildade e modéstia, aprendamos a temer o Seu juízo e a engrandecer a Sua
misericórdia.53
E, assim, todos os crentes fiéis tenderão a buscar esse objetivo. A
trovoada desses maus elementos é muito bem silenciada pelo apóstolo Paulo.
Eles dizem que não ficam preocupados por viverem dissolutamente porque, se
estiverem incluídos entre os eleitos, seus vícios não os impedirão de chegar à
salvação. Mas, contrariamente a isso, o apostolo Paulo ensina54
que a finalidade
da nossa eleição é que levemos vida santa e irrepreensível. Se o objetivo da nossa
eleição é que vivamos santamente, claro está que ela nos impulsiona e nos esti-
mula a meditar na santidade e a promovê-la, não a buscar cobertura para a negli-
gência. E quão diferentes são estas duas coisas! – não cuidar de praticar o bem e
a virtude porque a eleição é suficiente para a salvação; e a idéia de que o homem
foi eleito para dedicar-se à prática do bem e da virtude. Como, então, poderemos
suportar essas blasfêmias, que invertem tão perversamente toda a ordem da
predestinação?!55
No que se refere ao outro ponto, a saber, que eles dizem que aquele que foi
reprovado por Deus, o réprobo, ficará livre da punição se se aplicar a viver com
pureza e na inocência, nisso eles se mostram convencidos por uma mentira inso-
lente e cínica. Porque, de onde procederia tal aplicação, senão da eleição feita por
a. conspurcant. 1541 tem, por engano, fouillent [confundem, em vez de souillent, enlameiam, conspurcam].
52
No original: “porcos” (N. do T.).
53
“Os homens jamais encontrarão um antídoto para suas misérias, enquanto, esquecendo-se de seus próprios
méritos, diante do fato de que são os únicos a enganar a si próprios, não aprenderem a recorrer à misericór-
dia gratuita de Deus.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 6.4), p. 128-129].
54
Ef 1.4. – De bono perseverantiæ, cap. XII.
55
“A santidade, a inocência, e assim toda e qualquer virtude que porventura exista no homem, são frutos da
eleição” [João Calvino, Efésios, (Ef 1.4), p. 25]. “É uma atitude ímpia dissociar a santidade de vida da graça
da eleição.” [João Calvino, Efésios, (Ef 1.4), p. 26].
64 As Institutas – Edição Especial
Deus? Pois todos os que pertencem ao número dos réprobos, sendo, como são,
instrumentos ou vasos feitos para desonra [Rm 9.21], não cessam de provocar a
ira de Deus, cometendo crimesa
e mais crimese confirmando por sinais evidentes
o juízo de Deus decretado contra eles; e em vão resistem ao Seu juízo. Contudo,
para maior esclarecimento, devemos tratar tanto da vocação dos eleitos como do
endurecimento e execração dos réprobos.
A vocação dos eleitos: “testemunho da eleição”
A eleição que diversamente o Senhor mantém oculta em Si, é por fim manifesta-
da por Sua vocação, a qual, por esse motivo, eu costumo denominar testemunho
da eleição.56
Porque “aos que de antemão conheceu, também os predestinou para
serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito
entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que
chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorifi-
cou”.57
Sendo, pois, certo que o Senhor, escolhendo os Seus, adotou-os como
Seus filhos, vemos, contudo, que eles não chegam a ter posse de tão grande bem
senão quando Ele os chama. Por outro lado, tendo sido chamados, já têm algum
gozo da sua eleição. Por essa razão o apóstolo Paulo chama o espírito [ou Espíri-
to] recebido por eles “espírito de adoção”. E também, “selo e penhor da herança
futura” [cf. Rm 8.15 e Ef 1.13,14], visto que, por Seu testemunho, Ele confirma e
sela no coração deles a certeza dessa adoção.58
Portanto, o Senhor escolhe para
serem Seus filhos os que Ele elege, e delibera ser seu Pai. Mas, ao chamá-los, Ele
os introduz em Sua família e se comunica com eles.
Ora, a Escritura, juntando dessa maneira a vocação à eleição, com isso mostra
claramente que não devemos buscar coisa alguma, senão a misericórdia gratuita
de Deus. Pois, se perguntarmos quem são os que Ele chama, e por quê, a Escritura
responde: os que Ele escolheu. Ora, quando se chega à eleição, a misericórdia, e
somente ela, aparece por todos os lados, conforme o que nos passa a sentença do
apóstolo Paulo, segundo a qual “não depende de quem quer ou de quem corre,
mas de usar Deus a sua misericórdia”.59
E não devemos entender isso no sentido
56
“A causa eficaz de fé não é a perspicácia de nossa mente, mas a vocação de Deus. E ele [Pedro] não se refere
somente à vocação externa, que é em si mesma ineficaz; mas à vocação interna, realizada pelo poder secreto
do Espírito, quando Deus não somente emite sons em nossas orelhas pela voz do homem, mas, pelo Seu
próprio Espírito atrai intimamente nossos corações para Ele mesmo.” [John Calvin, Calvin’s Commentaries,
Grand Rapids, Michigan, Baker Book House, 1996 (reprinted), Vol. 22, (2Pe 1.3), p. 369]. Em outro lugar:
“O fundamento de nossa vocação é a eleição divina gratuita pela qual fomos ordenados para a vida antes que
fôssemos nascidos. Desse fato depende nossa vocação, nossa fé, a concretização de nossa salvação.” [João
Calvino, Gálatas, (Gl 4.9), p. 128].
57
Rm 8.29,30.
58
Temos nesta vida “umas poucas gotas do Espírito” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 8.23), p.
287]. Estejamos atentos à figura de Calvino. Comentando Tt 3.6, diz: “.... uma gota do Espírito, por assim
dizer, por menor que seja, é como uma fonte a fluir tão abundantemente que jamais secará.” [J. Calvino, As
Pastorais, (Tt 3.6), p. 351].
59
Rm 9.16.
a. perpetuis.
65
de repartir a eleição entre a graça de Deus e a vontade do homem, como comumente
se faz. Pois é comum dizer-se que certamente o desejo e o esforço do homem
nada podem, a não ser que a graça de Deus os faça prosperar, mas, se Deus acres-
centar a Sua ajuda, tanto um como o outro [isto é, o desejo e o esforço] farão algo
que o ajudará na obtenção da salvação. Essa cavilação, essa manha sutil, prefiro
refutar com as palavras de Agostinho a fazê-lo com as minhas próprias. “Se o
apóstolo”, diz ele, “não quisesse outra coisa senão dizer que não é só pela facul-
dade de querer e de correr, mas que o Senhor ajuda nisso por Sua misericórdia,
poderíamos ao contrário replicar e dizer: Não é só pela misericórdia de Deus,
mas esta recebe ajuda da vontade e da ação do homem, Se isso é um ímpio erro,
como evidentemente é, não devemos duvidar de que o apóstolo quis atribuir tudo
à misericórdia de Deus, sem nada deixar à nossa vontade ou ao nosso esforço”.60
Aí estão as palavras desse pio personagem. Não reduzo o valor da sutileza dos
oponentes ao de um argueiro, de um fiapo de palha, pois, o apóstolo Paulo não
teria falado como falou se não existisse nenhum esforço e querer em nós. O que
se deve entender é que ele não estava fazendo uma avaliação do que existe no
homem, mas sim, vendo que havia alguns que atribuíam parte da salvação do
homem ao seu engenho e arte, no primeiro membro da sua oração condena sim-
plesmente o erro deles, e em seguida sustenta que a soma total da salvação funda-
se na misericórdia de Deus.
E que outra coisa fazem os profetas, senão pregar continuamente a vocação
gratuita de Deus? O que também vemos em seu conteúdo substancial. Porque ela
consiste na pregação da Palavra e na iluminação do Espírito Santo. Pois bem,
pelo profeta ficamos sabendo a quem o Senhor oferece a Sua Palavra. “Fui bus-
cado pelos que não perguntavam por mim”, diz o Senhor; “fui achado por aqueles
que não me buscavam; a um povo que não se chamava do meu nome, eu disse:
Eis-me aqui”.61
E para que os judeus não pensassem que tal graça pertencia so-
mente aos gentios, o Senhor lhes traz à memória o lugar de origem do seu pai
Abraão, de onde o tinha tirado quando quis recebe-lo em Seu amor, a saber, do
meio da idolatria,62
em cujos males ele estava mergulhado, ele e todos os sus
parentes. Visto que Deus ilumina e esclarece por Sua Palavra aqueles que nada
merecem, com isso nos dá um sinal suficientemente claro da Sua bondade gratui-
ta. Mas, para que a carne não se glorie em que Lhe responde tendo sido chamada,
Ele afirma que não temos ouvidos para ouvir, nem olhos para ver, mas que Ele os
criou em nós e para nós.63
E declara, ademais, que fez isso não conforme o mere-
cimento deste ou daquele, mas segundo a Sua eleição. Disso temos um exemplo
notável em Lucas, onde nos é dito64
que os judeus e os gentios ouviram em co-
60
Enchiridion ad Laure., cap. 32.
61
Is 65.1.
62
Js 24.1-3, 14,15.
63
Isto é, que Ele nos deu a capacidade de ouvir e ver a Sua verdade (N. do T.).
64
At 13.44-48.
66 As Institutas – Edição Especial
mum a pregação do apóstolo Pauloa
. Pois bem, tendo-se em vista que receberam
ensino da mesma doutrina, consta ali que os que creram tinham sido preordenados
para a vida eterna. Não nos causaria vergonha negar que a vocação é gratuita,
sendo que nela reina soberana e única a eleição, de um extremo ao outro?
Vê-se, pois, que com o citado testemunho da Escritura, não somente são
refutados os que fazem do homem companheirob
de Deus para cooperar com Ele
na realização da Sua vocação, mas também os que ensinam que se deve conside-
rar a eleição em termos tais que seria como se ela fosse incerta e estivesse em
suspense, enquanto não fosse confirmada pela vocação. É certo que é confirmada
por esta, com a condição de que só entendamos por essa palavra que a eleição é
comprovada por firme testemunho, e como que selada. Mas é falso o ensino que
afirma que a eleição não é válida enquanto não recebemos o Evangelho, e que
deste toma seu vigor.
Onde buscar comprovação da eleição?
Ora, como aqueles que ensinam que o poder e a firmeza da eleição dependem da
fé, pela qual entramos na comunhão dos eleitos, noutro aspecto também agem
perversamente, teremos uma boa ordem para seguir se, procurando ter certeza da
nossa eleição, nos fixarmos nestes sinais, que são testemunhos [bíblicos] firmes e
claros. Nenhuma tentação do Diabo é mais perigosa para abalar os fiéis do que
quando, fazendo com que os inquiete a dúvida quanto à sua eleição, provoca
neles o estulto desejo de buscar essa certeza fora do caminho. Chamo buscar fora
do caminho a atitude na qual o pobre homem se esforça para penetrar nos segre-
dos incompreensíveis da sabedoria divinac
, e, para saber o que a respeito dele foi
ordenado no juízo de Deus, quer ir ao princípio da eternidade em sua busca.
Nessa tentativa ele se precipita como que num imenso e profundo golfo em que
se afoga; enrosca-se como que em laços de armadilha dos quais jamais consegui-
rá se desembaraçar; e entra numa espécie de abismo de trevas do qual nunca
poderá sair. Porque com justa razão a presunção do entendimento humano é as-
sim punido com horrível desgraça, quando tenta elevar-se por seu poder ao
altíssimo nível da sabedoria divina. Agora, a tentação que acabo de mencionar
vê-se tanto mais perniciosa quanto é fato que quase todos nós somos inclinados a
cair nela. Porque são bem poucos os que não se deixam tocar no coração por este
pensamento: Donde vem que você obtém a salvação somente pela eleição de
Deus? E como se revela essa eleição? Uma vez que esse pensamento encontre
guarida no homem, ou lhe causará assombroso tormento, ou o fará sucumbir de
espanto. Não pretendo ter argumento mais próprio para mostrar quão perversa-
mente esse tipo de gente imagina a predestinação. Porque o espírito do homem
não pode ser infeccionado por erro mais virulento que quando a consciência é
a. 1539 acrescenta: et Barnabæ.
b. cooperarium.
c. Cf. 1536: Hoc enim cogitandum, nihil penitus nobis defuturum..., si ille noster est.
67
destituída da sua tranqüilidade e paz, que lhe cabe ter com Deus. Esta questão é
como um mar, no qual, se tememos perecer, tenhamos cuidado acima de tudo
com o rochedo que, se não for evitado, só nos causará desgosto. Entretanto, em-
bora se considere a discussão sobre a predestinação um mar perigoso, a navega-
ção é segura e calma, e até alegre, se não acontecer que alguém queira por vonta-
de própria meter-se em perigo. Pois, assim como aqueles que, desejando ter cer-
teza da sua eleição, invadem o conselho eterno de Deus sem a Sua Palavra, preci-
pitam-se e afundam num abismo mortal, assim também, por outro lado, os que
buscam certeza corretamente, e segundo a ordem revelada na Escritura, recebem
singular consolação. Portanto, seja este o caminho que sigamos em nossa busca:
começar pela vocação de Deus e terminar nela. Pois o Senhor quer que ela seja
para nós como um marco ou um sinala
para nos certificar de tudo o que nos é
lícito saber do Seu conselho.
“Olhando para Jesus”
Em primeiro lugar, se pretendemos ter a clemência paternal de Deus e a Sua
benevolência em nosso favorb
, devemos voltar os olhos para Cristo, unicamente
em quem repousa o beneplácito do Pai.65
Se nós buscamos a salvação, a vida e a
imortalidade, é preciso que não recorramos mais a outros, visto que Ele é a única
fonte de vida,o único refúgio de salvação e o herdeiro do reino celestial.66
Agora
vejamos: qual é a finalidade da eleição, senão que, sendo nós adotados por Deus
como Seus filhos, obtenhamos a salvação e a imortalidade, por Sua graça e por
Seu amor? O que quer que se vire, revire e esquadrinhe mostrará que o objetivo
da eleição não é outro. Portanto, dos que Deus escolheu para serem Seus filhos
não se diz que os escolheu neles mesmos, mas em Seu Cristo67
, visto que não os
poderia amar senão nele, e não os poderia honrar com a Sua herança, a não ser
fazendo-os primeiro partícipes dele. Pois bem, se fomos eleitos em Cristo, não
encontramos em nós a certeza da nossa eleição; nem mesmo em Deus, o Pai, a
encontramos, se é que podemos imaginá-lo nua e cruamente sem Seu Filho.
Cristo, espelho da nossa eleição
Cristo é, pois, como um espelhoc
no qual convém e é próprio contemplar a nossa
eleição, e no qual a contemplaremos sem embuste. Portanto, uma vez que é em
a. 1539 tem somente: tessera.
b. Cf. 1536 (cap. II): Quis tam improba cupiditate fuerit, qui, non contentus se filium Dei esse, aliquid ultra
appetat!
c. Instrução de 1537: Cristo não é somente um espelho por meio do qual a vontade de Deus nos é representada,
mas também um penhor pelo qual ela nos é como que selada e confirmada.
65
Mt 3.17.
66
“Transferimos para Cristo os nossos pensamentos, para que nele, como num espelho, vejamos os gloriosos
tesouros da graça divina e a imensurável grandeza desse poder que ainda não se manifestou em nós.” [João
Calvino, Efésios, São Paulo, Paracletos, 1998, (Ef 1.20), p. 45].
67
Ef 1d
.4.
d. 1541 (por engano): Ef 7.
68 As Institutas – Edição Especial
Cristo que o Pai se propôs incorporar aqueles que desde toda a eternidade Ele
quis que fossem Seus, a fim de reconhecer como Seus filhos todos os que Ele
reconhecesse como membros de Cristo, teremos um testemunho bastante firme e
evidente de que estamos inscritos no livro da vida, se tivermos comunhão com
Ele. E o fato é que Ele nos foi comunicado suficientemente quando, pela prega-
ção do Evangelho, Ele próprio nos testificou que nos foi dado pelo Pai, a fim de
Ele nos ser nosso; Ele e todos os Seus bens. Ele é para nós, repito, um testemunho
de que todos os que O receberem com fé verdadeira serão tidos pelo Pai celestial
como Seus filhos. Se acaso tivermos a pretensão de ser mais que filhos e herdei-
ros de Deus, teremos que subir mais alto que Cristo. Mas se temos nele o nosso
limite extremo, não estaremos provocando Sua ira máxima, se buscarmos fora de
Cristo o que já obtivemos nele, sendo que só o podemos obter nele? Além disso,
visto que Cristo é a sabedoria68
eterna do Pai, a verdade imutável, o conselho ina-
balável, não devemos acreditar que o que Ele nos declara com Sua boca possa
diferir um átomo que seja da vontade do Pai, a qual buscamosa
conhecer.Antes, Ele
nos manifesta fielmente qual é a vontade do Pai, desde o princípio e para sempre.
Comprovação específica da ligação existente entre a
eleição e a vocação eficaz
Isso também ajuda a definir e a estabelecer a nossa confiança em que a segurança
da nossa eleição vem entrelaçada com a nossa vocação. Porque, quanto àqueles
que Cristo iluminou para O conhecerem e introduziu na companhia da Sua igre-
ja, Ele declara que os recebe e os coloca sob a Sua proteção e tutela. E diz mais,
que o Pai os confiou a Ele, colocando-os sob Sua guarda, para conduzi-los à vida
eterna. Que é que queremos mais? O Senhor proclama em alta voz que o Pai
confiou à Sua proteção todos os que Ele queria que fossem salvos.69
Portanto, se
quisermos saber se Deus recomendou a nossa salvação, procuremos saber se a
recomendou a Cristo, a quem Ele constituiu único guarda e protetor de todos
quantos Lhe pertencemb
. Caso duvidemos se Cristo nos recebeu para Sua tutela e
salvaguarda, Ele mesmo se antepõe a essa dúvida quando se apresenta como pas-
tor e declara que nos incluirá no número das Suas ovelhas, se ouvirmos a Sua
voz. Recebamos então a Cristo, pois ele se revela grandemente benigno para
a. Vê-se a ponta prática [o fim prático] deste desenvolvimento: os crentes, preocupados com a sua salvação,
encontrarão suficiente segurança se, constatando que Deus lhes manifesta a Sua boa vontade fazendo
com que lhes seja pregado o Evangelho, buscam a certeza da sua eleição, não nos mistérios do conselho
de Deus, e não em seu próprio coração (no sentimento de paz, tão frágil), mas unicamente em Jesus
Cristo, em quem Deus nos elegeu (Ef 1.4) e que é proposto à nossa fé pela pregação do Evangelho.
Portanto, colocam-se voluntariamente no número dos réprobos os que se recusam a seguir este caminho
humilde da fé em Jesus Cristo.
b. 1536: in fidem ac custodiam tradidit, ut neminem eorum perderet, sed ressuscitaret.
68
Cf. 1Co 1.30 (N. do T.).
69
Em Jo 6.30-51 e noutras passagens.
69
conosco, e se antecipa a nós para receber-nosa
. Não há nenhuma dúvida de que
Ele nos terá em Seu rebanho e nos guardará em Seu redil.
Objeções e repostas
Mas alguém dirá que devemos preocupar-nos com o que nos possa sucederb
, e
que, quando pensamos no futuro, a nossa fraqueza nos exorta à solicitude, a que
tenhamos zelo e cuidado. Porque, assim como o apóstolo Paulo diz, “aos que
[Deus] predestinou, a esses também chamou”,70
assim também o Senhor Jesus
diz: “Muitos são chamados, mas poucos escolhidos”.71
Também o apóstolo Paulo
nos exorta noutra passagem no sentido de que não sejamos autoconfiantes. Diz
ele: “Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia”.72
E também: Foste
incorporado na igreja? “Não te ensoberbeças, mas teme. Porque, se Deus não
poupou os ramos naturais, também não te poupará”, e colocará outro em teu
lugar. Finalmente, a experiência nos mostra que a fé e a vocação pouco ou quase
nada são, se não estiverem aliadas à perseverança, dizem os nossos oponentes; e
esta não é dada a todos.
Respondo que Cristo nos livrou dessa perplexidade. Porque, sem dúvida,
estas promessas não pertencem ao futuro: “Todo aquele que o Pai me dá, esse
virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora”. E mais: “E a
vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu;
pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia”. E ainda: “As minhas ovelhas
ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna;
jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão”.73
Que lição hemos de
aprender aqui de Cristo? Outra não é, senão a seguinte: Ele nos dá a certeza de
que vamos ter salvação eterna, visto que fomos feitos Seus uma vez por todas.
Alguém replicará que acontece todo dia que os que parecem pertencer a
Cristo se enfraquecem e tropeçam. Na mesma passagem em que o Senhor Jesus
afirma que nenhum dos Seus pereceu, Ele declara: “exceto o filho da perdição”.74
É verdade, mas, por outro lado, é certo que esse tipo de gente nunca se apegou a
Cristo com confiança de coração, pela qual dizemos que nos é dada certeza da
nossa eleição.Veja-se também: “Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram
dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco”.75
Não nego que eles tinham sinais parecidos com os dos eleitos, mas não concedo
a. Toda esta discussão sobre a predestinação se reduz, portanto, para cada homem, a esta simples pergunta que
lhe é dirigida: Você quer ou não quer crer em Jesus Cristo, o seu Salvador?
b. Frase acrescentada em 1541.
70
Rm 8.30.
71
Mt 22.14.
72
1Co 10.12; cf. Rm 11.11-24, mormente os versículos 17 a 21.
73
Jo 6.37,39; 10.27,28.
74
Jo 17.12.
75
1Jo 2.19.
70 As Institutas – Edição Especial
que eles tinham este fundamento certo e seguro da sua eleição, que, como tenho
dito, os crentes tomam da palavra do Evangelho.a
Portanto, que os exemplos cita-
dos não nos inquietem, e que, firmes e seguros, nos atenhamos às promessas do
Senhor Jesus, nas quais Ele declara que o Pai Lhe deu todos aqueles que O rece-
beram com verdadeira fé, e que nenhum deles perecerá, porquanto Ele é seu
guarda e protetor.
Noutra parte desta obra se falará sobre Judas.
Destaque quanto ao apóstolo Paulo
Quanto ao apóstolo Paulo, ele não nos proíbe simplesmente toda segurança, mas,
sim, uma negligência carnalb
, à qual se conjugam o orgulho, a presunção e o
desprezo pelos outros; atitude que extingue a humildade e a reverência para com
Deus, e induz o esquecimento de Suas graças. Porque, na passagem acima citada,
dirigindo-se aos gentios, ele os corrige, exortando-os a não insultarem soberba e
desumanamente os judeus, sendo que os substituíram e lhes são devedores.
Semelhantemente, Paulo não exige de nós um temor que nos faça tremer de as-
sombro, mas o temor que, ensinando-nos a reverenciar humildemente a graça de
Deus, não diminui nem um pouco a confiança que temos nele, como foi dito
noutro lugar.
Destaque quanto a Cristo. Dupla espécie de vocação
No tocante ao pronunciamento de Cristo, que muitos são chamados e poucos
escolhidos, é grande a necessidade que temos de compreendê-lo como se deve.
Para termos verdadeiro entendimento dessa declaração, precisamos notar que
existe uma dupla espécie de vocação. Uma é a vocação universal, que consiste na
pregação exterior do Evangelho, por meio da qual o Senhor convida a que ve-
nham a Ele todos os homens, indiferentemente, até mesmo aqueles aos quais a
pregação é feita com odor de mortec
e com o fim de lançar sobre eles mais grave
condenação. A outra é a vocação especial, da qual são feitos participantes os que
crêem, quando, pela luz interior do Seu Espírito, a doutrina é plantada e se enra-
íza no coração deles. Se bem que algumas vezes o Senhor faz uso desta vocação
a pessoas que o Seu Espírito ilumina por um tempo, e, depois, por causa da ingra-
tidão delas, as abandona e as lança a maior cegueira. Pois bem, vendo o Senhor
Jesus que o Evangelho, divulgado a um grande número de pessoas, é rejeitado
por muitos e desprezado por outros, e que poucos Lhe prestam a devida honra,
a. No momento em que ele se arrisca a precipitar de novo as almas na inquietação lembrando-lhes o exemplo de
Judas e dizendo que o homem poderá ser reprovado apesar de ter “sinais semelhantes aos dos eleitos”, se
não se apegar a Cristo com uma confiança verdadeira e de coração, Calvino oferece logo o remédio àquele
que, analisando o seu coração, não encontra ali “tal confiança”: ele o remete à “Palavra do Evangelho”, quer
dizer, às boas novas da salvação, e o exorta a aceitá-lo pessoalmente.
b. supinam ac solutam carnis securitatem.
c. 2 Co 2.16.
71
representa Deus com a figura de um rei que planejou um banquete solene e festi-
vo, e enviou seus servos por toda parte para convidarem insistentemente grande
multidão.76
Mas poucos prometeram ir, porque cada um tinha uma desculpa para
não comparecer. Tão contrariado e constrangido ficou o rei ante a recusa deles
que mandou chamar todos quantos fossem encontrados nas ruas. Não há quem
não veja que a parábola mesma, em si, refere-se à vocação exterior. Subseqüente-
mente, Ele acrescenta que Deus, a modo dos que convidam e recebem comensais,
vai de mesa em mesa para saudar alegremente os convidados. Se encontrar al-
guém que não vestiu o traje de honra,77
diz a parábola que o rei não suportará que
seja feita desonra ao seu banquete, e que o expulsará. Minha convicção é que se
deve entender este membro ou frase como se referindo aos que fazem profissão
de fé e são recebidos à comunhão da igreja, mas que, todavia, não foram vestidos
com a santificação de Cristo. Diz, então, o texto que chegará o tempo em que o
Senhor não tolerará essas células cancerosasa
que só sabem contaminar e cobrir
de má fama a Sua igreja; mas, conforme o que merece a sua torpeza, Ele os
expulsará. Vê-se, então, que, dos muitos chamados, poucos são os escolhidos.
Mas esse chamado não se refere à vocação que ensinamos os crentes a reconhe-
cer como evidência da sua eleição.
O que acima se disse refere-se, pois, aos ímpios [que estão incluídos entre
os que recebem a vocação geral ou universal]. A segunda [a vocação especial,
eficaz] traz consigo a ação do Espírito de regeneração, o qual é o penhor e o
selo78
da herança futura e pelo qual o nosso coração é selado e firmado até o dia
da ressurreição.79
Essa é também a razão pela qual Cristo fez a exceção mencio-
nada, quando Ele disse que nenhuma de Suas ovelhas pereceu, senão Judas.80
Porque ele não foi considerado como uma de Suas ovelhas como se de fato o
fosse, mas porque teve lugar entre elas. O fato de que outra passagem informa
que o Senhor o escolheu com os outros apóstolos deve ser entendido somente em
referência ao ofício. “Não vos escolhi eu em número de doze?”, disse Jesus aos
a. dehonestamenta et velut carcinomata.
76
Mt 22.1-14.
77
Ver 2Co 5.3 e Ap 3.5,18; 16.15; 19.7,8.
78
“.... é Ele que nos ilumina com a Sua luz para nos fazer entender as grandezas da bondade de Deus, que em
Jesus Cristo possuímos. Tão importante é o Seu ministério que com justiça podemos dizer que Ele é a chave
com a qual são abertos para nós os tesouros do reino celestial, e que a Sua iluminação são os olhos do nosso
entendimento, que nos habilitam a contemplar os mencionados tesouros. Por essa causa Ele é agora chama-
do Penhor e Selo, visto que sela em nosso coração a certeza das promessas. Como também agora Ele é
chamado mestre da verdade, autor da luz, fonte de sabedoria, conhecimento e discernimento” [João Calvino,
As Institutas, (1541), II.4].
79
“Só quando Deus irradia em nós a luz de seu Espírito é que a Palavra logra produzir algum efeito. Daí a
vocação interna, que só é eficaz no eleito e apropriada para ele, distingue-se da voz externa dos homens.”
(João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 10.16), p. 374). A vocação eficaz do eleito, “não consiste
somente na pregação da Palavra, senão também na iluminação do Espírito Santo.” (J. Calvino, As Institutas,
III.24.2).
80
Jo17.12.
72 As Institutas – Edição Especial
apóstolos. “Contudo, um de vós é diabo”.81
Jesus o tinha constituído apóstolo,
mas, quando fala da eleição para a salvação, Ele o separa do número dos Seus
escolhidos. Como quando disse: “Não falo a respeito de todos vós, pois eu conhe-
ço aqueles que escolhi”.82
Se alguém se confundir com o vocábulo referente à
eleição nessas passagens, estará resguardado pobremente; se souber discerni-lo,
nada lhe será mais fácil. Por isso se vê que Gregório83
falou de maneira grave-
mente errônea84
quando disse que sabemos muita coisaa
sobre a nossa vocação,
mas, quanto à nossa eleição, estamos incertos. E por isso nos exorta a que tenha-
mos temor e tremor. Nesse sentido ele argumenta dizendo que sabemos bem o
que somos e como estamos hoje, mas ignoramos o que seremos amanhã. Mas,
pela maneira como ele se conduz em sua oração, vê-se quanto errou e se desviou
da verdade. Porque, visto que ele fundamentou a eleição no mérito das obras,
tinha muita coisa com que assustar e amedrontar os homens e enchê-los de des-
confiança. Confirmá-los e fortalecê-los ele não podia, porque não os levava a
confiar na bondade de Deus. Por aí os crentes podem experimentar um pouco do
gosto do que dissemos no princípio, a saber: Se for feita uma boa reflexão sobre
a predestinação, esta não perturbará nem abalará a fé; antes, a confirmará e a
fortalecerá extraordinariamenteb
.
Quando ocorre a vocação dos eleitos?
Agora vejamos: Os eleitos não são todos reunidos pela vocação do Senhor ao
rebanho de Cristo desde o ventre de sua mãe, nem ao mesmo tempo, mas quando
e como apraz a Deus dispensar a Sua graça. Portanto, antes de serem convertidos
ao Soberano Pastor, eles vagam como os demais e são espalhados em meio à
dissipação universal deste mundo. E em nada diferem dos outrosc
, a não ser no
fato de que Deus, por singular misericórdia, os preserva, para que não caiam na
perdição eterna. Daí, se os observarmos, veremos neles a raça de Adão, a qual
não pode deixar de levar sobre si a perversidade da sua origem. O fato de não
caírem numa impiedade para a qual não haveria esperança não se dá por alguma
bondade natural deles, mas sim porque os olhos do Senhor velam por sua salva-
a. conscios esse.
d. A primeira edição das obras de Gregório de Nissa acabava de vir a lume em 1537, em Colônia.
81
Jo 6.70.
82
Jo 13.18.
83
Gregório de Nissa (N. do T.).
84
Homil. 38d
.
b. Compare-se essa passagem com a pergunta que um pastor fez recentemente aos adversários da predestinação:
“Por que vocês declaram que é desesperadora uma doutrina na qual vocês não crêem, ao passo que aqueles
que nela crêem encontram nela a fonte da sua maior certeza e da sua maior alegria?”
c. Desse fato decorre o “juízo de caridade” que cada crente deve exercer sobre todo homem, porquanto nenhum
sinal exterior nos pode fazer julgar de golpe se este ou aquele faz parte do número dos réprobos. Exemplo:
Calvino declara que orou até o fim pela conversão do duque de Guise, encarniçado adversário dos evangé-
licos na França.
73
ção, e Seu braço está estendido para os conduzir a esse fim. Porque, aqueles que
imaginam que eles têm sabe-se lá que semente da eleição arraigada em seu cora-
ção desde o nascimento e que, por isso, estão sempre inclinados ao temor de
Deus, não possuem nenhuma autoridade da Escritura para provar sua opinião; e a
própria experiência os refuta.
Exemplos impropriamente citados em favor do erro,
e a refutação de Calvino
Eles apresentam alguns exemplos com vistas a provar que alguns dos eleitos não
estiveram totalmente sem religião antes de receberem a iluminação propriamen-
te dita. Alegam que o apóstolo Paulo era irrepreensível em seu farisaísmo e que o
centurião Cornélio era agradável a Deus por suas preces e orações85
[e por suas
esmolas]. Quanto ao apóstolo Paulo, eu lhes concedo o que dizem. Quanto a
Cornélio, digo que estão enganados. Porque ele já tinha sido regenerado e ilumi-
nado, tanto é que não lhe faltava nada, senão uma revelação mais clara do Evan-
gelho. Mas, vejamos ainda: Que é que eles obteriam afinal? Quando concordás-
semos com eles a respeito de uma dúzia de exemplos, concluiriam que todos os
eleitos de Deus tiveram um mesmo espírito? É como se alguém que, tendo de-
monstrado a integridade de Sócrates,Aristides, Xenócrates, Cipião, Curius, Camilo
e outros pagãos, quisessem inferir, desses casos, que todos os que viveram na
cegueira da idolatria tiveram vida santa e íntegra. Além de estar claro que o argu-
mento deles não tem nenhum valor, a Escritura os contesta em muitas passagens.
Porque o estado e as condições que o apóstolo Paulo descreve ao falar sobre a
vida dos efésios, antes da sua regeneração, não mostra um grão sequer de dita
semente. “Vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados, nos quais cos-
tumavam viver, quando seguiam a presente ordem deste mundo e o príncipe do
poder do ar, o espírito que agora está atuando nos que vivem na desobediência.
Anteriormente, todos nós também vivíamos entre eles, satisfazendo as vontades
da nossa carne, seguindo os seus desejos e pensamentos. Como os outros, éramos
por natureza merecedores da ira”.86
E também: “Naquele tempo, estáveis sem
Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa,
não tendo esperança e sem Deus no mundo.87
E mais: “Outrora, éreis trevas,
porém, agora, sois luz no Senhor; andai como filhos da luz”.88
Possivelmente os
meus oponentes dirão que isso se deve à ignorância da verdade, na qual eles
reconhecem que os crentes estavam retidos antes da sua vocação.
Ora, embora seja isso uma calúnia impudente, pois o apóstolo Paulo infere
do propósito aí expresso que os efésios não deviam mentir nem roubar, ainda que
85
At 10.2,4.
86
Ef 2.1-3 [NVI, semelhante à versão utilizada pelo Autor na parte inicial].
87
Ef 2.12.
88
Ef 5.8.
74 As Institutas – Edição Especial
lhes concedêssemos força em seu argumento, que responderiam eles a outras
passagens? Como quando, por exemplo, tendo o apóstolo sentenciado aos coríntios
que “nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas,
nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores
herdarão o reino de Deus”,89
acrescenta incontinenti que eles estavam envolvidos
nesses crimes antes de conhecerem Cristo, mas agora foram purificados por Seu
sangue e libertados por Seu Espírito. E também, em Romanos:90
“Assim como
oferecestes os vossos membros para a escravidão da impureza e da maldade para
a maldade, assim oferecei, agora, os vossos membros para servirem à justiça,
para a santificação. ... Naquele tempo, que resultados colhestes? Somente as cousas
de que agora vos envergonhais” etc. Que semente da eleição, imploro que me
digam, frutificou neles, os quais, levando uma vida totalmente vil e perversa,
caracterizada por uma malícia pouco menos que sem esperança de retorno, se
entregaram aos vícios mais execráveis do mundo? Se o apóstolo quisesse falar do
jeito desses doutores inexperientes, deveria admoestar seus leitores a reconhece-
rem quão devedores eram a Deus por não os ter deixado cair em tal miséria.
Semelhantemente, o apóstolo Pedro deveria exortar os destinatários da sua epís-
tola a darem graças a Deus por tê-los preservado, dando-lhes desde o princípio
uma semente de santidade. Mas, ao contrário, ele os admoesta declarando que já
tinham passado tempo suficiente dando largas a todas as horríveis concupiscên-
cias.91
E, que aconteceria, se passássemos a apresentar exemplos? Que semente
de santidade havia em Raabe, prostituta antes da fé? Igualmente em Manassés,
lembrando-nos de que ele derramou o sangue dos profetas ao ponto de encher
dele as ruas de Jerusalém? E também no malfeitor que veio a arrepender-se no
momento em que rendia o espírito? Deixemos de lado, pois, essas invenções
levianas que sabe-se lá quais mentes curiosas forjam fora da Escritura. Melhor
será que nos mantenhamos firmes no conteúdo da Escritura. Esta nos ensina que
todos nós éramos como pobres ovelhas desgarradas, e que cada um de nós seguia
o seu próprio caminho, isto é, a perdição. Assim é que desse poço de perdição o
Senhor tira os que Lhe apraz, não de um só golpe, mas variando em sua oportuni-
dade, e enquanto isso os preserva de molde a não caírem em blasfêmia irremissívela
.
Proteção aos salvos e execução do juízo contra os réprobos
Assim como o Senhor, em virtude da Sua vocação, conduz os Seus escolhidos à
salvação, para a qual os preordenou segundo o Seu conselho eterno, assim tam-
bém, por outro lado, Ele tem Seus juízos contra os réprobos, e por esses juízos
a. No Sumário de Farel só uma passagem pode ser comparada com a presente (cap. X): “Onde falta a luz da lei,
a claridade da Palavra de Deus, ali reinam os príncipes das trevas, ali estão os que tropeçam e caem no
abismo”. Cf. cap. XLII: Sobre o Dia do Juízo.
89
1Co 6.9,10.
90
Rm 6.19-21.
91
1Pe 4.3.
75
executa o que se havia determinado a fazera
. Portanto, com relação aos que Ele
criou com vistas à condenação e morte eterna, a fim de serem instrumentos da
Sua ira e exemplos da Sua severidade, eis como Ele procede para fazê-los chegar
a seu fim: ou os priva da faculdade de ouvir a Sua Palavra, ou, pela pregação da
mesma, cega-os e endurece-os ainda mais. Do primeiro caso temos inumeráveis
exemplos, mas escolhemos um, que é muito mais notável que os demais. Passa-
ram-se mais de quatro mil anos antes da vinda de Cristo, durante os quais o Se-
nhor sempre manteve oculta a Sua salutar doutrina. Se alguém alegar que Deus
não fez os homens daquele tempo participantes de tal benefício porque os consi-
derava indignos, os sucessores deles não são mais dignos. Por que será, então,
que Ele concedeu essa graça a uns e a outros não? Se aqui alguém quiser buscar
razão mais alta que o conselho secreto oculto em Deus, vai se atormentar em vão.
E não temamos que algum discípulo de Porfíriob
, ou outro blasfemo qualquer,
tenha liberdade para detratar a justiça de Deus, se nada respondermos. Porque,
quando afirmamos que ninguém perece sem o merecer e que é pela bondade de
Deus que alguns são libertados da condenação, isso basta para manter a glória de
Deus, sem que ela precise de nossas tergiversações ou rodeios para defender-se.
Portanto, o Senhor, privando da luz da Sua verdade os réprobos e deixando-os na
cegueira, encaminhou dessa maneira a Sua predestinação.
Quanto ao segundo caso, temos dele experiência diáriac
, e há muitos exem-
plos na Escritura. De cem homens que ouvem o mesmo sermão, vinte o recebem
com a obediência da fé, e os outros, ou não o levam em conta, ou zombam dele,
ou o rejeitam e o condenam. Se alguém alegar que essa diversidade decorre da
própria maldade e perversidade dos homens, essa alegação não será satisfatória.
Sim, porque a mesma maldade ocuparia a mente de todos, se o Senhor não corri-
gisse alguns por Sua graça. E então, por que Deus concede Sua graça a um e
deixa outro de lado? Lucas92
dá a razão pela qual Deus chama alguns dizendo
que foram por Ele “destinados para a vida”. Que pensaremos, então, dos outros,
senão que eles são instrumentos de Sua ira manifesta em opróbrio? Não nos en-
vergonhemos, pois, de falar com Agostinho93
desta maneira: “Deus poderia per-
feitamente” diz ele, “converter em bem o querer dos maus, visto que Ele é todo-
poderoso. Disso não há dúvida. Por que não o faz? Porque não quer. E por que
a. Essa passagem nos leva a entender porque na igreja reformada jamais se fala em “bom ladrão”, mas sempre
o tal é designado pela expressão “o malfeitor perdoado”. A primeira expressão recende a pelagianismo; a
segunda exprime uma graça pura, e nos permite esperar a salvação mesmo daqueles que nos parecem os
mais perdidos. É a essa esperança prática, a essa intercessão concreta, que Calvino quer induzir os crentes
pela doutrina da predestinação.
b. Filósofo neoplatônico que Calvino, em 1532, citou duas vezes em seu comentário da obra De Clementia
(Sobre a Clemência) – (Opera, V, 42 e 51); ele havia lido alguns fragmentos citados pelos [chamados] pais
[da igreja]. Uma primeira edição das obras de Porfírio só apareceu em 1539.
c. cum extant quotidiana documenta.
92
At 13.48.
93
Lib. II, De Genes. ad litteram, cap. X.
76 As Institutas – Edição Especial
não quer? Isso está oculto nele. Porque não devemos saber mais que o razoável”.a
Isso é muito melhor do que tergiversar com Crisóstomo94
, que disse: “Ele [Deus]
acolhe aquele que O invoca, e estende a mão para ajudá-lo”; nesse caso, a dife-
rença não está no juízo de Deus, mas na vontade dos homens.
O mistério do endurecimento
Certamente não se pode pôr em dúvida o fato de que o Senhor envia Sua Palavra
a alguns que Ele sabe que terão agravada a sua cegueira. Por que foi que Ele
enviou tantas mensagens ao faraó? Porque esperava poder abrandar seu coração
enviando a ele embaixada após embaixada? Não, pois ele sabia antes de começar
qual seria o resultado, e o tinha predito. “Vai”, disse Ele a Moisés, “e expõe a ele
a minha vontade. Mas eu endurecerei o seu coração para que não me obedeça”.95
De igual maneira, suscitando Ezequiel, Deus o advertiu de que o enviava a um
povo rebelde e obstinado, de modo que não deveria espantar-se quando os visse
surdos.96
De semelhante maneira Ele predisse a Jeremias97
que a sua doutrina
seria como fogo, para destruir e dissipar o povo como palha. Mas a profecia que
temos em Isaías aperta mais forte ainda,98
pois o Senhor o envia com este manda-
mento: “Vai e dize a este povo: Ouvi, ouvi e não entendais; vede, vede, mas não
percebais. Torna insensível o coração deste povo, endurece-lheb
os ouvidos e
fecha-lhe os olhos, para que não venha ele a ver com os olhos, ouvir com os
ouvidos e a entender com o coração, e se converta, e seja salvo”. Deus lhes dirige
a Sua Palavra, mas para torná-los mais surdos; acende-lhes a luz, mas para torná-
los mais cegos; apresenta-lhes a doutrina, mas para torná-los mais insensatos; dá-
lhes remédio, mas para que não sarem. O apóstolo João, citando essa profecia,
declara99
que os judeus não puderam crer na doutrina de Cristo porque essa mal-
dição de Deus pesava sobre eles.
Também não se pode pôr em dúvida o fato de que, quando Deus não quer
iluminar alguém, mantém encoberta a Sua doutrina para que a pessoa não tenha
proveito dela, mas, sim, que seja tomada por maior assombro e se torne mais tola.
Cristo testificou pessoalmente100
que só aos Seus apóstolos explicava as Suas
parábolas narradas ao povo “porque aos apóstolos foi dada a graça de conhece-
rem os mistérios do seu reino, e não aos outros”. Que pretende o Senhor ao ensi-
nar aqueles dos quais Ele cuida de não ser entendido? Consideremosc
de onde
a. quam oportet.
b. aggravat.
c. considera.
94
Homil. De conversione Pauli.
95
Êx 4 [tradução direta].
96
Ez 2.1-7 e 12.1,2.
97
Jr 1.13-19.
98
Is 6.9,10.
99
Jo 12.37-40.
100
Mt 13.11 [tradução direta].
77
vem o erro, e depois deixaremos de lado esta questão. Porque, ainda que haja
alguma obscuridade na doutrina, sempre há clareza suficiente para convencer a
consciência dos maus. Mas ainda resta por ver por que é que o Senhor faz isso,
porquanto é certo que o faz. Se a resposta a ser dada for que Ele o faz porque os
homens merecem isso por causa da sua perversidade e ingratidão, terá sido dita a
pura verdade. Mas, visto que a razão dessa diversidade não se evidencia, por que
Ele faz com que alguns se inclinem a obedecer e a outros faz persistir em seu
endurecimento, para resolver bem a questão devemos chegar ao que Paulo obser-
vou quanto ao testemunho de Moisés, que diz: “Para isso mesmo te levantei”, ao
faraó, “para mostrar em ti o meu poder e para que o meu nome seja anunciado por
toda a terra”.101
Porque, tendo os réprobos o reino de Deus aberto diante deles,
não acedem, o que justifica a sua rejeição, que se baseia em sua perversidade e
maldade. Acrescente-se que, como condição subseqüente, eles se deixam escra-
vizar por essa perversidade.Vê-se, pois, que, pelo juízo imparcial mas incompre-
ensível de Deus, os réprobos são suscitados ou postos em evidência para exaltar
e tornar célebre a Sua glória pela condenação deles.
Dessa maneira, quando se declara que os filhos de Eli não deram atenção às
salutares admoestações do seu pai porque o Senhor os queria matar102
, não signi-
fica que essa contumácia não venha da sua própria maldade. Nota-se, porém,
semelhantemente, que eles agiram daquela maneira porque foram abandonados
nessa contumácia, visto que Deus poderia amolecer o coração deles. Quer dizer,
o decreto imutável de Deus, a Seu tempo, os destinou à perdição.
Quando os ímpios ouvem isso, queixam-se de que Deus abusa das Suas
pobres criaturas, zombando cruelmente deles com um poder irrefreável. Mas nós,
que sabemos que os homens são tão culpados e de tantas maneiras diante de Deus
que “quando lhes fizessem mil perguntas, nem a uma só poderiam responder”,103
declaramos que os réprobos não têm nada que não dê razão ao justo juízo de Deus
contra eles. Quanto ao fato de que não compreendemos os Seus motivos, deve-
mos recebê-lo pacientemente e não deixar de reconhecer que somos ignorantes
nas coisas em que a sabedoria de Deus sobe às culminâncias da sublimidadea
.104
Objeções com citações bíblicas, e respostas
Há, porém, quem faça objeção citando passagens nas quais parece que o Senhor
nega que é pela ordenação divina que os ímpios perecem, e alegando que pere-
a. se Dei sapientia in suam sublimitatem attollit.
101
Rm 9.17.
102
1 Sm 2.25.
103
Jó 9.3 [tradução direta].
104
“As coisas que o Senhor deixou recônditas em secreto não perscrutemos, as que pôs a descoberto não negligen-
ciemos, para que não sejamos condenados ou de excessiva curiosidade, de uma parte, ou de ingratidão, de
outra” (As Institutas, III.21.4). “Nem nos envergonhemos em até este ponto submeter o entendimento à sabedo-
ria imensa de Deus, que em Seus muitos arcanos sucumba. Pois, dessas coisas que nem é dado, nem é lícito
saber, douta é a ignorância, a avidez de conhecimento, uma espécie de loucura.” (As Institutas, III.23.8)
78 As Institutas – Edição Especial
cem porque fazem jus à morte por sua resistência contra Ele. Devemos explicar
isso para mostrar que elas não contradizem coisa alguma do que foi dito. Ci-
tam-se as sentenças do apóstolo, segundo as quais Deus “deseja que todos os
homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade”.105
E tam-
bém, que “Deus a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericór-
dia para com todos”.106
E ainda, o que Ele diz por intermédio do Seu profeta,
quando declara que não tem prazer na morte do perverso, mas, antes, deseja
que ele se converta e viva.107
A primeira passagem de Pauloa
é impropriamente citada aqui, pois é fácil
mostrar pelo contextob
que ele não fala de todos os homens no sentido de cada um
deles, mas sim de todas as condições sociaisc
. Ele tinha mandado Timóteo fazer
orações solenes em favor dos reis e dos príncipes. Ora, para que não parecesse
estranhod
fazer oração a Deus em favor de pessoas que viviam sem esperança,
visto que não somente estavam fora da comunidade dos crentes, mas também fazi-
am o que podiam para oprimir o reino de Cristo, ele acrescenta que isso é agradável
a Deus, que deseja que todos os homens sejam salvos. É certo que com isso ele não
quer dizer outra coisa, senão que Deus não fechou o caminho da salvação para
nenhuma categoria social, mas, antes, propagou a Sua misericórdia de tal maneira
que deseja fazer participantes dela pessoas de todas as condições sociais.
Os outros testemunhos citados não declaram o que o Senhor determinou em
Seu juízo oculto, mas somente anunciam que o perdão está disponível a todos os
pecadores que o peçam verdadeiramente arrependidos. Porque, se alguém teimar
em se apoiar na palavra segundo a qual Deus quer fazer misericórdia a todos,
replicarei que, por outro lado, diz a Escritura que “o nosso Deus está no céu, de
onde ele faz tudo o que bem lhe parece”.108
Devemos, pois, explicar aquela passagem em termos que se harmonizem
com esta outra: “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compade-
cerei de quem eu me compadecer”.109
Uma vez que Ele escolhe aqueles a quem
fará misericórdia, significa que não ae
faz a todos. Mas alguém me dirá: Se assim
é, pouca certezaf
resta nas promessas evangélicas, as quais, testificando a vonta-
de de Deus, declaram que ela quer o que repugna ao que Ele determinou em
segredo. Respondo que não. Por quê? Porque, embora as promessas de salvação
a. Apostoli.
b. ex contextu.
c. O apóstolo quer, pois, dizer, não que Deus quer salvar a massa total dos homens, indiferentemente, mas
homens de toda categoria, logo, tanto príncipes como também escravos.
d. absurdum.
e. eam non omnibus impertitur. 1541 (por erro): l’a.
f. fidei.
105
1Tm 2.4.
106
Rm 11.32.
107
Ez 18.23.
108
Cf. Jó 34.33; Sl 33.9;135.5,6; Ec 5.2; Dn 4.17; Mt 26.39,46 (N. do T.).
109
Êx 33.19; Rm 9.15.
79
sejam universais, todavia não contradizem de modo algum a predestinação dos
réprobos, bastando que tenhamos em vista o cumprimento delas. Sabemos que,
portanto, as promessas de Deus são válidas para nós quando as recebemos pela
fé. Ao contrário, quando a fé deixa de existir, elas são anuladas. Se tal é a nature-
za das promessas, consideremos agora se elas se contrapõem à predestinação de
Deusa
. A questão é que se declara que Deus determinou desde o princípiob
quais
seriam os que Ele receberia por Sua graça, e quais os que quis rejeitar; e, não
obstante, Ele promete salvação a todos, indiferentemente. Digo que isso se coa-
duna perfeitamente bem com a doutrina, porque o Senhor, prometendo como
promete, não quer dizer outra coisa, senão que a Sua misericórdia está exposta a
todos quantos a buscarem. Só que ninguém a busca, senão aqueles que são ilumi-
nados por Ele. Finalmente, Deus ilumina aqueles que Ele predestinou para a sal-
vação.110
Ora, estes experimentam a veracidade das promessas com tanta segu-
rança e certeza que não se pode dizer que haja alguma contradição entre a eleição
eterna de Deus e o oferecimento do testemunho da Sua graça aos que crêem.
O problema específico do plural “todos” os homens
Mas, por que diz o apóstolo “todos” os homens? É para que as boas consciências
descansem com maior segurança, vendo que não há diferença nenhuma entre os
pecadores, a não ser a diferença interposta pela condição da fé. E, por outro lado,
melhor será que os ímpios não aleguem que não têm nenhum refúgio para onde
fugir da sua miséria, visto que o rejeitam por sua ingratidão. Sendo, pois, que a
misericórdia de Deus é apresentada a uns e a outros pelo Evangelho, não há o que
possa distinguir entre os crentes e os incrédulos, senão a fé, quer dizer, a ilumina-
ção de Deus, no sentido de que aqueles sentem a eficácia do Evangelho, e estes
não recebem benefício dele [para a salvação]. Pois bem, a referida iluminação
tem como norma determinante a eleição eterna de Deus.111
a. numquid inter se hæc dissideant.
b. ab æterno Dominus ordinasse quos bonitate complecti, in quos iram exercere velit. Em 1536, cap. II, de fide
(Sobre a Fé), no fim da explicação da primeira parte do Credo, Calvino disse somente: “Talem omnipotentiam,
qua omnia operatur in omnibus, talemque providentiam qua omnibus moderatur, cogitare oportet (1 Co 12;
Thren. 3)”.
110
“Na verdade, o Senhor chama eficazmente só os eleitos” [João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo,
Paracletos, 1997, (Hb 6.4), p. 153].
111
“De nenhum efeito é a Palavra sem a iluminação do Espírito Santo.” [João Calvino, As Institutas, III.2.33].
“O evangelho não pode ser adequadamente conhecido a não ser através da iluminação do Espírito; e, conhe-
cendo-o dessa forma, somos afastados deste mundo e elevados até ao céu; e ao percebermos a benevolência
de Deus, descansamos em sua Palavra.” [João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo, Paracletos, 1997,
(Hb 6.4), p. 154]. “É Ele (Espírito Santo) que o distribui a cada um, segundo seu beneplácito, a luz e o
entendimento que nos são indispensáveis.” [João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo, Paracletos,
1997, (Hb 6.4), p. 152].
80 As Institutas – Edição Especial
Sobre a providência de Deus
Agora devemos falar sobre a providência de Deus, que abrange o governoa
do
mundo inteiro. E, embora esta doutrina, bem compreendida, seja maravilhosa-
mente útil para confirmar e fortalecer a fé, são muito poucos os que têm adequada
concepção dela ou que refletem sobre ela como devem. Bem por isso, a maioria
imagina que nessa questão o que há é tão-somente um puro e simples pré-conhe-
cimento de Deus, não admitindo que todas as coisas sejam conduzidas por Seu
querer e por Sua ordenação: Outros Lhe atribuem algum governo, mas obscuro e
geral, quer dizer, um governo pelo qual toda a estrutura deste mundo, com todas
as suas partes, é mantida e ativada. Mas, para eles, dizer que Deus dirige as ações
de cada criatura está fora de questão. Eles chamam universal a esta providência,
a respeito da qual afirmam que as criaturas todas não são impedidas de desviar-se
para cá e para lá, fortuitamenteb
, [ou, ao acaso, ou a seu talante]; como também
que o homem se converte quando parece bem ao seu livre arbítrioc
. Porque eles
dividem de tal modo [o poder de decisão e de ação] entre Deus e o homem que
acabam considerando que Deus, por Seu poder, apenas inspira ao homem a facul-
dade de se mover e de agir, para que possa fazer o que cabe à sua natureza.
Contudo, eles querem que o homem modere as suas ações pelo conselho de Deus.
Sumário parcial
Em resumo, a opinião comum é que o mundo, as coisas humanas, os próprios
homens, são governados pelo poder de Deus. Não, porém, por uma providência
deliberadad
, querendo dizer com isso que eles determinam tudo o que se há de
fazer. Passo por alto os epicureuse
(praga da qual o mundo sempre esteve cheio),
os quais imaginam um Deus112
ocioso, que não se envolve com nada.
Semelhantemente outros, que não estão menos fora de si, atribuem a Deus a
função de governar as coisas que estão acima dos ares, abandonando o restof
à
sua própria sorte. Passo-os por alto porque as próprias criaturasg
condenam alto
e bom som essa virulência.
a. administratio.
b. contingenter.
c. libero voluntatis arbitrio.
d. destinatione (sem equivalente da frase que aqui se segue).
e. Segundo Epicuro, tudo se opera pelo acaso fortuito e pelo movimento e declinação dos átomos. Provavelmene
Calvino não conhecia as teorias de Epicuro, a não ser conforme as citações contidas nas obras de Diógenes
de Laerte [Laércio] (edição original:173
Basiléia, 1533). Ele vai criticando, cada vez mais, o epicurismo
(Opera, II, 44, 70, 148, 705; V, 18).
112
Mantenho a inicial maiúscula (Deus) porque entendo que o Autor se refere a pessoas que em geral crêem em
Deus, mas, querendo ou não, dão a idéia de que Deus é ocioso (N. do T.).
173
Édition princeps, “a primeira de todas as edições de uma obra” (Larousse) (N. do T.).
f. inferiora.
g. mutæ ipsæ.
81
Sobre a providência universal
Quanto à opinião já citada sobre a providência universal de Deusa
, note-se desde
logo que ela é aceita por quase todos. Pois bem, embora essa opinião tenha algu-
ma aparência de veracidade, não é nem verdadeira nem tolerável. Porque, como
não concede a Deus senão um movimento ou uma ação cega e inconsiderada,
corta-lhe o principal, a saber: que Ele dirige e dispõe cada coisa para o seu fim. E,
assim, esse conceito faz de Deus um governante do mundo só de palavra, e não de
fato, visto que Lhe nega um governo autêntico e realb
. Porquanto, que é governar,
senão presidir de tal maneira que as coisas presididas sejam conduzidas orde-
nadamente e segundo um plano adrede preparadoc
? E o fato é que a Escritura, em
toda parte, nos mostra tão diligentemente uma providência particular de Deus
que é espantoso que se possa pôr em dúvida. O que diz o apóstolo, que “nele
vivemos, e nos movemos, e existimos”,113
e também o que Cristo testifica, dizen-
do: “Meu Pai trabalha, e eu trabalho também”,114
embora provem claramente que
o Senhor trabalha sem cessar em todas as obras criadas por Ele, apesar disso
querem os tais opositores reportar ou atribuir isso à providência universal. Mas
há testemunhos tão claros que é impossível torcê-los mediante tais cavilações e
subterfúgios. O profeta Jeremias brada: “Eu sei, ó Senhor, que não cabe ao ho-
mem determinar o seu caminho, nem ao que caminha o dirigir os seus passos”.115
Igualmente Salomão: “Do Senhor provém a direção do homem; como poderá ele
então traçar o seu caminho?”.116
Quem se atreverá a dizer, agora, que o homem é
impulsionado por Deus segundo a inclinação da sua natureza, mas que ele muda
o rumo das ações onde e quando bem lhe parece?! Se fosse assim, o homem teria
os seus caminhos sob o seu próprio comando. Talvez digam que não, porque ele
nada pode sem o poder de Deus. Mas isso não resolve a questão, porquanto é
evidente que Salomão não quis atribuir apenas o poder a Deus, mas também a
eleição e a providência, de modo que tudo é feito conforme o Seu beneplácito.
O próprio Salomão, noutra passagem,117
repreende particularmente a temeridade
dos homens, que empreendem suas realizações sem sondar [a vontade de] Deus,
como se elas não fossem conduzidas por Sua mão. Diz ele: “O coração do homem
pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do Senhor”. É por certo
uma estultícia ridícula os homens se disporem a fazer sem Deus o que eles não
podem falar com seus lábios, limitados como estão a dizer somente o que Lhe
agrada. E ainda a Escritura, para expressar mais claramente que nada absoluta-
a. Calvino combate aqi, por antecipação, o deísmo do século XVIII.
b. Acréscimo feito no texto latino.
c. destinato ordine. É nesse sentido que o presidente de sínodo reformado seria chamado moderador.
113
At 17.28.
114
Jo 5.17.
115
Jr 10.23.
116
Pv 21.2 [tradução direta; cf. Pv 16.9].
117
Pv 16.1.
82 As Institutas – Edição Especial
mente se faz neste mundo que não seja pela ordenaçãoa
de Deus, subordina a Ele,
nominal e explicitamente, todas as coisas que têm toda a aparência de fortuitas ou
casuais. Que coisa diríamos que é mais casual do que um galho de árvore cair
sobre alguém que passa e o matar?118
Mas, diversamente, Deus declara que o
colocou nas mãos daquele que o maneja para matá-lo.119
A mesma coisa quanto
aos sorteios. Quem é que não atribui a sorte aos riscos do acaso? Mas Deus não
admite isso; Ele afirma que a Ele pertence a decisão.120
Ele não diz que é por
Seu poder que se lança a sorte no chapéub
e dali se tira; mas o que tem a aparên-
cia de fortuito ou casual Ele atribui à Sua providência, que a faz sair para um ou
para outroc
.
Pecha de estoicismo lançada sobre a
doutrina da predestinação
Os que querem tornar esta doutrina odiosa a caluniam dizendo que ela se identi-
fica com o paradoxo dos estóicosd
, segundo o qual todas as coisas sucedem ne-
cessária ou inevitavelmente.121
O que é fortemente repudiado por Agostinho, en-
tre outros.122
Quanto a nós (conquanto não nos agrade debater palavras), não
aceitamos o vocábulo empregado pelos estóicos, qual seja: Fatum123 e
. Por isso
mesmo, quanto a muitos vocábulos, Paulo nos ensina a fugir das novidades; pois
não é que os nossos inimigos mancham, por ódio ao nome [da doutrina], a verda-
de de Deus com sua acusação? Quanto à referida opinião, é falsa e maldosamen-
te dada como uma objeçãof
a nós. Porque nem sonhamos com uma necessidade
ou inevitabilidade mantida na natureza por uma conjunção perpétua de todas as
coisasg
, como faziam os estóicos. Mas nós declaramos Deus o Soberano Senhorh
e Governador de todas as coisas, e dizemos que desde o princípioi
, segundo a Sua
sabedoria, Ele determinou o que haveria de fazer e então haveria de executar,
segundo o Seu poder, tudo quanto havia deliberado. Concluímos, pois, que não
somente o céu, a terra e todas as criaturas destituídas de razão, são governadas
por Sua providência, mas também os conselhos e os desejosj
dos homens, e que
os governa de modo tal que os conduz ao propósito determinado por Ele. E
174
Filósofo grego, fundador do estoicismo (c. 340-265 a. C.) (N. do T.).
a. destinatione.
b. in sinu conjiciantur lapilli.
c. Frase acrescentada no texto latino.
d. dogma Stoïcorum. Nos tratados De scandalis (1550) e De æterna Dei prædestinatione (1552 ) – (Sobre os
Escândalos e Sobre a Predestinação Eterna de Deus) Calvino insistirá nessa distinção entre o fatum [fatali-
dade] estóico e a predestinação. Provavelmente foi pela obra De fato (Sobre a Fatalidade) de Cícero que ele
teve algum conhecimento sobre a teoria de Zenão (ou Zênon)174
sobre a heimarméne.
e. Quer dizer Destino, Sorte ou Fatalidade.
f. objectatur.
g. Calvino nitidamente se separa daquilo que se chamaria no século XIX determinismo (científico ou filosófico).
h. arbitrum.
i. ab ultima æternitate.
j. voluntates.
83
então? dirá alguém, nada se faz ou acontece por acaso ou por contingência?a
Respondo que foi muito bem declarado porb
Basílio quando ele escreveu que
Sorte (Fortuna) e Acasoc
são palavras pagãs, cujo significado não deve entrar
num coração fiel. Porque, se toda prosperidade é bênção de Deus, e toda adver-
sidade é Sua maldição, não resta nenhum lugar à sorte em tudo quando sobre-
venha aos homens.124
Reforço do argumento para consolo
Todavia, visto que a nossa debilidade sucumbe ante a altitude da providência de
Deus,125
introduzirei aqui uma distinção para nosso consolo. Diremos então que,
conquanto todas as coisas sejam feitas e aconteçam pela ordenação de Deus,
sucede, porém, que para nós elas são fortuitas ou casuais. Não é que julgamos
que a Fortuna126
domine sobre os homensd
, elevando e rebaixando todas as coisas
com arrogante audácia (porque esse devaneio deve estar longe do coração cris-
tão).127
O fato é que, como as coisas que acontecem, a ordem, a razão, o fim e a
a. contingenter.
b. a (quer dizer: por). A primeira de todas as edições das obras de Basílio em grego veio a lume em Basiléia, em
1532.
c. fortunæ aut casui.
d. mundo ac hominibus.
118
Aqui e após a palavra “acaso”, logo adiante, falta o sinal de interrogação, que os editores do texto que
estamos utilizando acrescentaram entre colchetes (N. do T.).
119
Êx 21.
120
Pv 16.33.
121
O “Fatalismo Estóico” considerando que todos os eventos são inevitavelmente guiados à sua consumação
por forças internas; – “tudo acontece por necessidade do destino” [Justino de Roma, Segunda Apologia, 6:
In: I e II Apologia: diálogo com Trifão, São Paulo, Paulus, 1995. (Patrística, 3), 97] –, ordena ao homem que
aceite o destino porque é impossível resistir ao curso dos acontecimentos. Por isso, para o filósofo estóico, a
virtude consiste numa total indiferença, apatia, renúncia a todos os bens do mundo que não dependem de
nós. Tudo está fatalmente determinado, logo, cabe-nos apenas o controle das paixões e total resignação.
Calvino (1509-1564), como nós Reformados, longe de entender que o cristão é um fatalista, escreveu
antes de Leibniz, em 1559, mostrando que o conceito de Providência nada tem a ver com o conceito estóico.
“Aqueles que desejam suscitar ódio para com esta doutrina, caluniam-na de ser o dogma do destino dos
Estóicos....” [J. Calvino, As Institutas, I.16.8]. Em outro lugar: “Longe estará do coração dos cristãos aceitar
o todo e distorcido consolo dos filósofos pagãos que tentam se endurecer contra as adversidades, culpando
a si mesmos da sorte e do destino.” [João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 44].
122
Libr. ad Bonif., II, c. 6.
123
Destino, fatalidade. Em latim no original (N. do T.).
124
“A providência de Deus, qual é ensinada na Escritura, é o oposto da sorte e dos acontecimentos atribuídos ao
acaso. (...) Todos e quaisquer eventos são governados pelo conselho secreto de Deus.” [João Calvino, As
Institutas, I.16.2]. Para os crentes, permanece o princípio: “O que nos parece contingente, a fé reconhecerá
haver sido secreta injunção de Deus”. [João Calvino, As Institutas, I.16.9]. Em resumo: “Deus não faz nada
sem razão”. [Juan Calvino, El Señor dio y El Señor quito: In: Sermones Sobre Job, Jenison, Michigan,
T.E.L.L., 1988, (Sermon nº 2), p. 42] (T)
125
“Visto que a providência divina no mundo não é agora evidente, é mister que exerçamos paciência e suba-
mos acima das sugestões do senso carnal a antecipar o resultado favorável.” [João Calvino, O Livro dos
Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 2, (Sl 49.1), p. 371].
126
“La Signora Fortuna”, diz uma canção italiana (N. do T).
127
Um bom exemplo do pensamento combatido por Calvino temos em seu contemporâneo, o filósofo florentino
Niccolò Machiavelli (1469-1527), considerado o fundador do pensamento político moderno. No Príncipe
84 As Institutas – Edição Especial
necessidade, na maioria das vezes estão ocultas no conselho de Deus e não po-
dem ser entendidas pela opinião humana, as coisas que reconhecemos que certa-
mente provêm da vontade de Deus são, para nós, pouco menos que casuais. Por-
que elas não mostram outra aparência, quando consideradas em sua natureza, ou
quando avaliadas segundo o nosso juízo e conhecimento. Como exemplo, consi-
deremos o caso de um negociante que, tendo entrado numa floresta em boa com-
panhia, perde-se do grupo e acaba caindo nas mãos de bandidos, e estes lhe cor-
tam a garganta. Sua morte não somente havia sido prevista por Deus, mas tam-
bém tinha sido decretada segundo a Sua vontadea
. Porquanto, não somente se
afirma que Ele previu tudo quanto abrange a vida de cada um, mas também decla-
ra: “Tu [Senhor] ao homem puseste limites além dos quais não passará128
. Toda-
via, tendo em vista o que a nossa concepção é capaz de apreender, todas as coisas
parecem casuais nesse tipo de morte. Que é que um cristão pensará aqui? Certa-
mente julgará que é casual em sua natureza, mas não duvidará que a providência
de Deus tenha presidido tudo, conduzindo a sorte a Seu objetivo. O mesmo argu-
mento serve com relação aos eventos futuros: como todas as coisas vindouras são
incertas para nós, também nisso nos mantemos em suspense, como se elas pudes-
sem cair numa ou noutra sorte. Isto, porém, permanece resolvido firmemente em
nosso coração: Nada acontecerá que Deus não tenha ordenadob
.
(1513), Maquiavel ensina que 50% de nossa vida e destino estão entregues à sorte ou fortuna, divindade
cega. Notemos que aqui Maquiavel substitui a palavra Providência por Fortuna; no entanto, mais do que a
palavra, ele modifica o conceito; a Fortuna em Maquiavel é uma forma secularizada da Providência. A outra
metade, é comandada pelo nosso livre arbítrio. (Ver: N. Maquiavel, O Príncipe, São Paulo, Abril Cultural
(Os Pensadores, Vol. IX), 1973, Cap. XXV, p. 109 e XXVI, p. 114). Deste modo, os homens podem con-
quistar parte da sorte pela “virtù”, mas nunca opor-se a ela, aos seus desígnios. No entanto a sorte é bastante
passional: “Estou convencido de que é melhor ser impetuoso do que circunspecto, porque a sorte é mulher,
e para dominá-la, é preciso bater-lhe e contrariá-la. E é geralmente reconhecido que ele se deixa dominar
mais por estes do que por aqueles que procedem friamente. A sorte, como mulher, é sempre amiga dos
jovens, porque são menos circunspectos, mais ferozes e com maior audácia a dominam.” (N. Maquiavel, O
Príncipe, Cap. XXV, p. 111.). Equivocadamente confiante no poder do homem, propõe o escape de um
fatalismo rígido, sugerindo a conquista de parte do território governado pela fortuna, pela “virtù”, que é a
capacidade de liderança e de grandes feitos. O caminho de que dispomos é a “oportunidade”. Compete ao
príncipe - a exemplo de Moisés, Ciro, Teseu, entre outros - usar do seu livre arbítrio [“Deus não quer fazer
tudo, para não nos tolher o livre arbítrio e parte da glória que nos cabe.” (Maquiavel, O Príncipe, Cap.
XXVI, p. 114)] – para não entregar o seu futuro simplesmente à sorte. “.... digo que se vê hoje o sucesso de
um príncipe e amanhã a sua ruína, sem ter havido mudança das suas qualidades. Creio que a razão disso,
conforme o que se disse anteriormente, é que, quando um príncipe se apóia totalmente na fortuna, arruina-
se segundo as variações daquela. Também julgo feliz aquele que combina o seu modo de proceder com as
particularidades dos tempos, e infeliz o que faz discordar dos tempos a sua maneira de proceder.” (N.
Maquiavel, O Príncipe, Cap. XXV, p. 110). Percebemos o quão diferente é conceito de Calvino a respeito da
Providência de Deus: “Notamos que a maioria atribui à fortuna o que deveria ser atribuído à providência de
Deus.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 46.8), p. 336].
128
Jó 14.5.
a. decreto stabilita.
b. providerit.
85
Cuidado com as invencionices dos que falseiam a verdade!
Portanto, ao considerarmos a providência de Deus, devemos cuidar de não cair
na multidão de fantasias de tantos tipos de tolos, os quais ficam a tagarelar de tal
modo sobre isso que acabam confundindo céus e terra [em sua negação da doutri-
na da predestinação. Como no seguinte pensamento]: “Se Deus tivesse marcado
a hora da nossa morte, não poderíamos escapar. Então seria inútil nos empenhar-
mos em proteger-nos”. Assim, há os que não ousam pôr-se a caminho quando
ouvem dizer que ali há perigo, temendo o assalto de bandidos; outros correm
atrás de remédios e de médicos, em busca de ajuda para as suas doenças; outros
se abstêm de carne gorda para prevenir-se; outros têm medo de morar em casas
ruinosas; e todos em geral procuram meios para levar a cabo as suas intenções.
Todas estas coisas são remédios fúteis a que recorrem para corrigir a vontade de
Deus; ou então não é por Sua vontade e por Sua ordenação que todas as coisas
acontecem. Porque estas coisas são incompatíveis: Dizer que a vida e a morte, a
saúde e a doença, a paz e a guerra, as riquezas e a pobreza, vêm de Deus, e dizer
que os homens, por sua habilidade, ou as evitam ou as obtêm, conforme as detes-
tam ou as deseja.
Para que orar?129
Acresce que aqueles homens dizem que as orações dos crentes não somente são
supérfluas mas também são más, porquanto por elas se pede que Deus faça ou dê
o que deliberoua
eternamente. Em suma, eles suprimem toda deliberação que se
tome com relação a coisas futuras como repugnantes à providência de Deus, a
qual, sem nos convocar para conselho, determinou uma vez por todas aquilo que
ela quer que seja feito.Além disso, tudo o que acontece eles imputam de tal modo
à providência de Deus que não tomam em consideração o homem, que sempre
terá feito algo daquilo do que se trata. Se algum malfeitor mata um homem de
bem, eles dizem que esse homem executou o conselho de Deus. Se alguém rou-
bou ou adulterou, dizem eles que tal homem é ministro da providência de Deus,
uma vez que fez o que Deus tinha previsto. Se o filho deixa morrer o pai sem lhe
prestar socorro, a explicação dada é que ele não poderia resistir a Deus, que
assim tinha ordenado. Dessa forma eles transformam todas as más ações em vir-
tudes, alegando que elas prestam serviço à ordenação de Deus.
a. decrevit.
129
Calvino, relacionando as nossas orações ao cuidado providente de Deus, escreve: “Para incitar os verdadei-
ros crentes a uma mais profunda solicitude à oração, Ele promete que, o que propusera fazer movido por Seu
próprio beneplácito, Ele concederia em resposta a seus pedidos. Tampouco existe alguma inconsistência
entre estas duas verdades, a saber: que Deus preserva a Igreja no exercício de sua soberana mercê, e que Ele
a preserva em resposta às orações de Seu povo. Pois, visto que suas orações se acham conectadas às promes-
sas graciosas, o efeito daquelas depende inteiramente destas.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 3, (Sl
102.17), p. 57]. “Aquele que confia na providência divina deve fugir para Deus com orações e forte clamor.”
[João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 31.17), p. 27].
86 As Institutas – Edição Especial
Quanto às coisas futuras...
Quanto às coisas futuras, Salomão facilmente concede à providência de Deus as
decisõesa
que se tomam. Porque, assim como ele zomba do atrevimento daqueles
que, sem levar Deus em conta, audaciosamente empreendem tudo quanto vem a
eles em sua fantasia, como se não fossem regidos por Sua mão, assim também em
certa passagem ele diz: “O coração do homem traça o seu caminho, mas o Senhor
lhe dirige os passos”.130
Com isso ele quer dizer que o decreto eterno de Deus não
nos impede de agir sob a Sua boa vontade e que controlemos as coisas que nos
dizem respeito. A razão é clara e manifesta. Porque Aquele que limitou a nossa
vida, confiou-nos também a solicitude por ela, o cuidado dela; deu-nos os meios
para preservá-la; e nos habilitou a prever os perigos, para que não nos surpreen-
dam, dando-nos ao contrário remédiosb
para capacitar-nos a preveni-los.
Agora se vê qual é o nosso dever. Se o Senhor nos dá a nossa vida para que
dela cuidemos, que a preservemos; se nos dá os meios para fazê-lo, que os
utilizemosc
; se Ele nos mostra os perigos, que não nos atiremos loucamente e sem
propósito; se Ele nos oferece remédios, que não os menosprezemos.131
Mas, dirá alguém, nenhum perigo nos fará mal, se não tiver sido ordenado
que faça. E, se assim é, pode-se ir ao encontro dele com qualquer remédio ou
recurso. Mas, por outro lado, que acontecerá se os perigos não forem insuperá-
veis, visto que o Senhor nos designou os remédios pra sobrepujá-los? [Respon-
do:] Considere que acordo há entre o seu argumento e a ordem da providênciad
divina. Você infere que não devemos guardar-nos dos perigos porque podemos
escapar sem nos guardarmos, desde que não sejam insuperáveis; mas também
que, por outro lado, o Senhor lhe ordena que se guarde, porque quer que você
escape. Os fulanos mentalmente transtornados que assim argumentam não consi-
deram o que se vê com os olhos: que a habilidade de guiar-nos e guardar-nos foi
inspirada aos homens por Deus. Com que finalidade? Para com isso poderem
servir à providência divina preservando a sua vida. Como também, por sua negli-
gência e desconsideração, eles recebem as misérias que Ele queira impor-lhes.
Por que será então que, na mesma situação em que o homem prudente, que orde-
na e dirige as coisas que lhes dizem respeito, desvia de si o mal que está perto, e
o tolo, por sua temeridade, perece? Que outra coisa pode ser, senão que a insensatez
a. humanas deliberationes.
b. cautiones ac remedia.
c. Calvino atribui aqui aos recursos humanos: medicina, higiene, engenhosidade do nosso espírito, o que pode
parecer que ele lhes tinha negado três linhas acima. Sabe-se do progresso que as ciências tiveram entre os
povos calvinistas.
d. tuæ ratiocinationi cum ordine divinæ dispensationis.
130
Pv 16.9.
131
“Se o Senhor nos confiou a proteger a nossa vida, que a cerquemos de cuidados; se oferece recursos, que os
usemos; se nos previne de perigos, a eles não nos arrojemos temerariamente; se fornece remédios, não os
negligenciemos.” (J. Calvino, As Institutas, I.17.4). Vd. também, As Institutas, I.17.9.
87
e a prudência são instrumentos da dispensação de Deus, de um lado e do outro? Por
isso o Senhor quis que todas as coisas futuras nos estejam ocultas, a fim de prosse-
guirmos em nosso caminho não sabendo o que irá acontecer; e que não deixemos
de usar os remédios ou recursos que Ele nos dá para enfrentarmos os perigos até
que alcancemos o objetivo proposto, ou que sejamos sobrepujados por eles.
Quanto às coisas passadas...
Quanto às coisas já acontecidas e passadas, esses homens cobertos de fantasias
consideram mal e perversamente a providência de Deus. Nós dizemos que to-
das as coisas dependem da Providência como de seu fundamento; e, portanto,
não se pratica nem latrocínio, nem adultério, nem homicídio que a vontade de
Deus não interfira. Sobre isso os tais perguntam: Sendo assim, por que deverá
ser punido o ladrão que puniu aquele que Deus quis que fosse castigado com a
pobreza? Por que deverá ser punido o assassino que matou aquele a cuja vida
Deus pôs termo? Resumindo, se semelhantes pessoas servem à vontade de Deus,
por que deverão ser punidas?
Eu, porém, nego que elas com isso estão servindo à vontade de Deus.
Porque não diremos que alguém que é movido por um mau coração se dedica a
servir a Deus, visto que ele tão-somente quer comprazer sua malvada cupidez.
Aquiesce e obedece a Deus aquele que, aprendendo a Sua vontade, vai aonde
esta o chama. Agora, onde é que Deus nos ensina a Sua vontade, senão em Sua
Palavra? Portanto, em tudo quanto nos cabe fazer, devemos contemplar a von-
tade de Deus tal qual nos é revelada em Sua Palavra. Deus só exigea
de nós o
que Ele ordena. Não fazer nada contra o Seu preceito não é obediência, mas,
antes obstinação e transgressão.
Pois não é que os tais replicam que não ofenderíamos a Deus se Ele não
quisesse? Reconheço. Mas, fazemos isso a fim de agradá-lo? Ora, Ele não nos
manda praticar o mal; mas nós o praticamos sem pensar no fato de que Ele não
nos manda fazer isso. O fato é que, estando nós tão alterados pela fúria da nossa
intemperança que com deliberado propósito nos empenhamos em praticar trans-
gressão, dessa maneira servimos à Sua justa ordenação, ao praticarmos o mal;
porque, pela grandeza infinita da Sua sabedoria, Ele de maneira justa e reta se
serve de instrumentos maus para fazer o bem.
A absurdidade das objeções em foco posta às claras
Mas vejamos bem quão absurda é a argumentação dos nossos opositores. Eles
querem que os crimes permaneçam impunes e que estejam livres os que os prati-
cam, uma vez que não são cometidos independentemente da ordenação de Deus.
a. requirit. 1537, Sobre a Lei do Senhor: “É evidente que Deus compreende em duas tábuas tudo o que Ele
requer de nós”.
88 As Institutas – Edição Especial
Digo mais, que os ladrões, as meretrizes e outros malfeitores são instrumentos da
providência de Deus, dos quais Deus se utiliza para executar os juízos decretados
por Ele. Mas eu nego que, por isso, possam pretender alguma escusa. Então quê?
Envolverão eles a Deus na mesma iniqüidade com eles? Ou vão querer cobrir a
sua perversidade com a justiça divina? Não podem fazer nem uma coisa nem
outra; e a sua própria consciência de tal modo os acusa que eles não podem extir-
par ou sanar o seu mal.Acusar a Deus eles não podem, visto que encontram em si
mesmos toda a maldade, e em Deus nada encontram, senão um uso bom e legíti-
mo dos males que eles praticam.
No entanto, Deus trabalha por meio deles, dirá alguém. E de onde vem o
odor da podridão de um cadáver exposto? Qualquer pessoa pode ver claramente
que vem dos raios solares. E, todavia, não é por isso que se vai dizer que os raios
do sol têm mau cheiro. Assim, visto que a substância e a culpa do mal subsistem
no homem mau, por que Deus eliminaria toda e qualquer mácula e sujidade, se a
usa conforme a Sua vontade? Portanto, acabemos com essa petulância animalesca,
a qual pode ladrar de longe contra a justiça de Deus, mas não a pode tocar.
Boa norma para se avaliar a providência divina
Contudo, não se pode refutar melhor nem mais rápido esses absurdos do que
demonstrando qual é a regra que devemos ter para julgar e considerar bem a
providência de Deus. Por isso, visto que o coração do cristão já tem como coisa
esclarecida e resolvida que nada acontece por acaso, mas que todas as coisas são
feitas pela providência divina ou por meio dela, ele sempre considerará a Deus
como a causa principal de tudo o que se faz; entretanto, não deixará de ter em
conta as causas inferiores ou secundárias, em seus respectivos graus. Além disso,
o cristão não duvidará de que a providência de Deus vela por sua preservação e
não permitirá que lhe aconteça nada que não seja para seu benefício e para a sua
salvação. Agora, tendo-se em vista que Deus cuida primeiro do homem132
e, em
segundo lugar, das demais criaturas [sem omitir aquele ou estas], o cristão afir-
mará que a providência divina impera sobre todos e sobre tudo.
No que se refere aos homens, bons ou maus, ele reconhecerá que os seus
conselhos, suas vontades e suas forças, seus poderes e seus empreendimentos,
estão sob a mão de Deus; tanto que a Ele cabe dobrá-los para onde Lhe apraz e
reprimi-los toda vez que bem Lhe pareça. Há muitas promessas evidentes que
testificam que a providência de Deus cuida dos crentes e vigiaa
os seus passos
para manter e assegurar a sua salvação. Como quando a Escritura diz: “Confia os
a. infidelium salutem excubare.
132
“Não há homem de mente tão embotada e estúpida que não consiga ver, bastando dar-se ao trabalho de abrir
seus olhos para o fato de que é pela espantosa providência de Deus que os cavalos e bois prestam seus
serviços aos homens – que as ovelhas produzem lã para vesti-los –, e que todas as sortes de animais os
suprem de alimento para sua nutrição e sustento, mesmo de sua própria carne” [João Calvino, O Livro dos
Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 1, (Sl 8.7-9), p. 173].
89
teus cuidados ao Senhor, e ele te susterá; jamais permitirá que o justo seja abala-
do”. E também: “Os olhos do Senhor repousam sobre os justos, e os seus ouvidos
estão abertos às suas súplicas”. E ainda: “Quem habita no esconderijo doAltíssimo
será sustentado pela sua proteção”. E mais: “Aquele que tocar em vós toca na
menina do seu olho [do olho do Senhor]”. E também: “Deus lhe põe a salvação
por muros e baluartes” [para a defesa do Seu povo]. E finalmente: “Ainda quando
a mãe esquecesse seus filhos, eu não me esquecerei de ti”.133
Sucede mesmo que o principal objetivo das narrativas da Bíblia é mostrar
que Deus cuida tão solicitamente dos Seus servos que não deixará que tropecem
nalguma pedra. Embora com razão eu acima tenha reprovado a opinião daqueles
que imaginam uma providência universal de Deus, a qual não desce para dar
atenção especial a nenhuma criatura, devemos, porém, acima de tudo mais, reco-
nhecer esta solicitude especial de Deus para conosco. Por essa razão Cristo, após
haver dito que “nenhum deles [pardais] cairá em terra sem o consentimento de
vosso Pai”,134
aplica incontinenti essa sentença ao nosso caso, no sentido de que
devemos estar certos de que, como para Deus somos mais preciosos que os passa-
rinhos, Ele cuida de nós mais atentamente do que deles. Também disse o Senhor
que tal é o cuidado de Deus por nós que não se perderá nem um só fio do nosso
cabelo135
sem a Sua permissão. Que é que nós queremos mais, se nem um só fio
de cabelo pode cair sem que Deus o queira?136
Portanto, o servo de Deus, confirmado e fortalecido por todas essas pro-
messas e pelos exemplos correspondentesa
, junta a eles os testemunhos nos
quais se declara que todos os homens estão sob o poder de Deus, seja que Ele
induza o coração deles a nos amar, seja que reprima a sua maldade, para que
esta não nos prejudique.
Porque foi o Senhor que deu graça a Seu povob
, não somente para com os
que distintamente lhe foram amistosos, mas também para com os egípcios.137
Quanto ao furor dos nossos inimigos, Ele sabe muito bem como detê-los ou des-
truí-los de diversas maneiras. Às vezes Ele fecha o seu entendimento, para que
não possam tomar conselho ou formular bom plano. Foi o que fezc
com Acabe,
a. Acrescentado no texto latino.
b. nobis.
c. Acrescentado no texto latino.
133
Sl 55.22; 1Pe 3.12; Sl 91.1 [tradução direta]; Zc 2.8; Is 26.2; 49.15 [tradução direta].
134
Mt 10.29,31.
135
Lc 21.18.
136
“É evidente que Deus emprega seus anjos de diferentes maneiras, pondo um só anjo sobre várias nações e
também vários anjos sobre um só homem, Não há necessidade de sermos exigentes e escrupulosos inquirindo
sobre o modo exato em que ministram juntamente para nossa segurança; baste que, conhecendo pela autorida-
de de um apóstolo o fato de serem eles designados como ministros sobre nós, descansemos satisfeitos com o
fato de que estão sempre atentos a sua incumbência. Lemos em outra parte sobre sua prontidão em obedecer e
executar as ordens divinas; e isso deve contribuir para o fortalecimento de nossa fé, visto que Deus faz uso de
seus esforços para nossa defesa.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 3, (Sl 91.11), p. 452].
137
Êx 1.
90 As Institutas – Edição Especial
enviando-lhe o Diabo, para lhe profetizar mentira pela boca de todos os profetas,
a fim de enganá-lo.138
Como também fez com Roboão, cegando-o por meio do
estulto conselho dos jovens para despojá-lo do seu reino.139
Por vezes, dando aos
homens entendimento para que vejam e entendam o que é válido e benéfico, de
tal modo Deus abate o coração deles e os enche de espanto que não se atrevem a
realizara
o que tinham planejado. Às vezes, permitindo-lhes que se esforcem para
executar o que a sua insanidade os induz a fazer, Deus se antecipa a seu ímpeto e
não permite que eles levem a cabo a sua intenção. Desse modo Ele dissipou pre-
viamente o conselho de Aitofel, que era pernicioso para Davi140
. Dessa maneira
Deus cuida de governar e conduzir todas as criaturas com vistas à salvação dos
Seus. Faz isso até com o Diabo, o qual vemos que não se atreveu a atentar contra
Jó sem o Seu consentimento e a Sua ordem.141
O conhecimento da verdade acima exposta leva a um adequado
julgamento sobre a Providência
Tendo nós esse conhecimento, resultarão necessariamente tanto a bondade de
Deus presente em toda prosperidade como a paciência e a perseverança na adver-
sidade; e, ademais, uma singularb
segurança quanto ao que possa suceder. Porque
toda e qualquer coisa que aconteça de acordo com o nosso querer, atribuiremos a
Deus, seja que percebamos o benefício que Ele nos faz por meio dos homens,
seja que nos ajude por meio de suas outrasc
criaturas. Porque este é o julgamento
que faremos em nosso coração: “Certamente foi Deus que levou o coração deles
a me querer bem, e fez deles instrumentos da Sua benignidade em meu favor”.
Havendo fertilidade no solo, consideraremos que foi o Senhor que mandou o céu
fazer chover sobre a terra, a fim de que frutificasse. Em todos os outros casos de
prosperidade, não duvidaremos de que unicamente a bênção de Deus é a sua
causa. Quanto às Suas admoestações e advertências, não seremos ingratos. Ao
contrário, se nos sobrevier alguma adversidade, imediatamente elevaremos o nosso
coração a Deus, o único que nos poderá habilitar à paciência e à tranqüilidaded
.
Se José ficasse pensando na deslealdade dos seus irmãos e ficasse remoendo o
que eles lhe tinham feitoe
, jamais os teria tratado com bravura fraternal. Mas,
a. velint aut machinentur.
b. incredibilis.
c. inanimatis.
d. placidam animi moderationem.
e. Frase acrescentada no texto latino.
138
1Rs 22.5,6.
139
1Rs 12.1-15.
140
2Sm 17.1-23.
141
“Os ladrões e os homicidas, e os demais malfeitores, são instrumentos da divina providência, dos quais o
próprio Senhor Se utiliza para executar os juízos que em Si determinou.” (João Calvino, As Institutas, I.17.5).
Comentando a investida de Satanás contra Jó, arremata: “Concluímos que desta provação de que Satanás e os
perversos salteadores foram os ministros, Deus foi o autor.” (João Calvino, As Institutas, I.18.1).
91
visto que dirigiu seu pensamento a Deus, esquecendo a injúria sofrida, foi incli-
nado à mansidão e à brandura, ao ponto de ele próprio os consolar, dizendo: “Não
vos entristeçais, nem vos irriteis contra vós mesmos por me haverdes vendido
para aqui; porque, para conservação da vida, Deus me enviou adiante de vós.
Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem142
”.
Se Jó ficasse com a atenção fixa nos [sabeus e nos] caldeus que o tinham ultraja-
do, seria inflamado pelo desejo de vingança. Mas, uma vez que reconheceu igual-
mente a ação de Deus, consolou-se com esta belaa
declaração: “O Senhor o deu e
o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor!143
” A mesma coisa com Davi;
se se dedicasse totalmente a considerar a maldade de Simei, que o perseguiu com
palavras ofensivas e lhe atirando pedras, teria incitado os seus soldados à vingan-
ça. Mas, como entendeu que ele não estava fazendo aquilo sem que Deus a isso o
movesse, apaziguou os seus valentes, em vez de despertar-lhes a irab
, dizendo-
lhes: “Deixai-o amaldiçoar; pois, se o Senhor lhe disse: Amaldiçoa a Davi, quem
diria: Por que assim fizeste?144
”.
Se não houver melhor remédio contra a ira e a impaciência, de bom provei-
to será meditar na providência de Deus no sentido de que sempre possamos redu-
zir o nosso pensamento a este ponto: O Senhor o quis; portanto, recebamo-lo com
paciência. Não somente porque ninguém pode resistir a Ele, mas também porque
Ele não quer coisa alguma que não seja justo e benéfico.
Comprovação bíblica
Essa a razão pela qual a Escritura se firma tão diligentemente em nos provar este
artigo. Como quando Deus declara, por meio de Amós: “Sucederá algum mal à
cidade, sem que o Senhor o tenha feito?145
”. E também, quando Jeremias repre-
ende os que pensam que pode sobrevir alguma calamidade sem que Deus a tenha
ordenado146
. Porque, se os males que padecemos procedem dos homens, o que se
diz é que Deus os santificou ou consagrou para executarem a Sua obra, e, por isso
são chamados redes, gládios ou espadas e machados, que Ele próprio maneja.; e
mais,“instrumentosdasuaira,osquaiselelevantacomumsimplesassobio147
”.Disso
decorre que sobre Pilatos e Herodes, que conspiraram para levar Cristo à morte,
se diz que planejaram fazer o que o conselhoc
de Deus tinha decretado148
. Nesse
mesmo sentido se afirma que os judeus mataram Cristo conforme o Pai celeste
a. pulcherrima.
b. Acrescentado no texto latino.
c. manus et consilium.
142
Gn 45.5; 50.20.
143
Jó 1.13-17, 21.
144
2Sm 16.10.
145
Am 3.6.
146
Lm 3.37,38 [todo o capítulo gira em torno dessa idéia].
147
Is 13.3; Ez 12.13; 17.20; Sl 17.13,14; Is 10.13-17 e 13.3-5; Jr 1.10,18. [Tradução direta.]
148
At 4.27,28.
92 As Institutas – Edição Especial
havia determinadoa
, de forma que realizaram todas as coisas que estavam escri-
tas sobre Ele. Como também várias vezes se repete nos evangelhos que os solda-
dos que O crucificaram puseram em execução tudo o que estava predito na Escri-
tura.149
Essas coisas todas se reportam à realidade aqui focalizada, de modo que,
sempre que os homens nos aflijam com a sua maldade, não deixemos de conside-
rar a ação de Deus e de ter como coisa certa e segura o seguinte: Por mais
impiedosamente que eles se portem conosco, isso não sucede senão pela justa
ordenaçãob
de Deus, que o permite, o quer e o dispõe dessa formac
. Ou então, se
alguma adversidade nos oprime sem a interferência [causal] dos homens, a Escri-
tura nos declara que a esterilidade da terra, a fome, as doenças em geral e todas as
outras coisas que consideramos casuais, são maldições de Deus, ou, ao menos,
castigos que Ele nos envia.150
As causas secundárias
Todavia, se não fecharmos os olhos, não poderemos deixar de dar atenção às
causas secundárias. Porque importa considerar ministros da benignidade de Deus
aqueles dos quais recebemos algum bem, não os menosprezando como se não
merecessem nenhum gesto de graça ou de bênção da nossa parte por sua atitude
humanitária, mas, antes, reconhecendo e confessando de bom grado que lhes
somos gratos [por seus favores]; como também nos esforçando para pagar-lhes o
bem com o bem, quando houver oportunidade.
Em resumo, prestaremos a Deus a honrad
de reconhecê-lo como o principal
Autor de todo bem; mas também honraremos os homens como ministros e
despenseiros dos Seus benefícios, entendendo que Deus nos quis tornar devedo-
res a eles, visto que Ele se mostrou nosso benfeitor por intermédio das mãos
deles. Se sofrermos algum dano ou prejuízo, por nossa negligência ou displicên-
cia, estaremos julgando bem se pensarmos que isso é feito pela vontade de Deus,
não deixando, porém, de imputar a nós a culpa. Se algum dos nossos parentes ou
amigos, do qual deveríamos cuidar, morrer sem ter recebido os necessários
cuidadose
, embora não ignoremos que ele chegou ao termo que não poderia ultra-
passar, isso não diminuirá o nosso pecado. Mas, sim, visto que não cumprimos o
nosso dever, tomaremos a sua morte como tendo ocorrido por nossa culpa. Por
mais forte razão, se houver astúcia enganosa ou maldade deliberada ao se come-
ter assassínio ou latrocínio, não devemos escusar esses crimes alegando como
a. definito ejus consilio et scientia traditum.
b. dispensatione.
c. 1539 tem somente: permissum et immissum.
d. reverebit.
e. 1539 tem somente: si quis. Entre 1536 e 1539 Calvino perdeu seu irmão Charles, falecido em Noyon, em
1537.
149
At 2.23.
150
Lv 26; Dt 27 e 28.
93
pretextoa
a providência de Deus. Mas, num mesmo fato [dessa natureza], deve-
mos ver a justiça de Deus e a iniqüidade do homem, sendo evidente que ambas
estão presentes.
As causas secundárias em relação ao futuro
Quanto às coisas futuras, teremos em conta principalmente as causas secundárias
das quais falamos acima. Porque julgamos que é uma bênção dar-nos Deus os
meios humanos para por eles sustentar-nos e preservar-nosb
. Portanto, nós nos
aconselharemos sobre o que fazer, não menosprezando a ajuda de outros, mas
buscando o auxílio daqueles que vemos que têm condições de ajudar-nos. Tendo
ainda em conta que é Deus que coloca à nossa disposição todas as criaturas que
nos podem ser proveitosas, trataremos de pô-las em uso como legítimos instru-
mentos da Sua providência. E, como não temos certeza do resultado dos nossos
empreendimentos, exceto que confiamos em Deus, certos de que em tudo e por
tudo nos proverá do necessário para o nosso bem, procuraremos dedicar-nos ao
que nos for proveitoso, aplicando a nossa inteligência quanto estiver ao nosso
alcance. Entretanto, ao fazermos nossos planos, não seguiremos os nossos senti-
dos e a nossa razão, mas nos encomendaremos à sabedoria de Deus, para que esta
nos conduza bem e retamente. Finalmente, a nossa confiança não estará deposita-
da de tal modo na ajuda e nos meiosc
humanos que neles descansemos quando os
tivermos em mãos, ou que, quando nos faltarem, percamos a coragem e o ânimod
.
Porque a nossa mente estará firmada unicamente na providência de Deus, e não
permitiremos que a consideração das coisas presentes distraia a nossa atenção delae
.
Uma singular felicidade dos cristãos
Pois bem, neste ponto pode-se ver uma singular felicidade dos cristãos. A vida
humana está rodeada e pouco menos que sitiada por misérias sem fim. Sem ir
mais longe, vê-se que o nosso corpo é um receptáculo de mil e uma doenças, e ele
mesmo alimentaf
em si as causas dos seus males. Para onde quer que vá, o homem
leva consigo muitas espécies de morte, tanto que se pode dizer que, de certa
maneira, a sua vida está envolvida na morte. Porque, que outra coisa vamos dizer,
quando não se pode sentir frio nem suar sem perigog
? Além disso, para qualquer
a. prætextu.
b. ad incolumitatem.
c. 1539 tem somente: subsidiis.
d. trepidet. Na linguagem de Calvino, essa palavra exprime uma inquietude vívida e impaciente. Acima (capí-
tulo VII), é traduzida por estonner [étonner, surpreender, causar assombro].
e. Como não evocar aqui a palavra do médico huguenote Abroise Paré: “Eu lhe aplico o remédio, Deus o
cura”?
f. inclusæs teneat ac foveat.
g. Grassou uma “peste” em Estrasburgo em 1540-1541. Calvino e sua mulher, recém-casados, foram atingidos
por ela. “Encharquei o travesseiro”, escreve ele.
94 As Institutas – Edição Especial
lado que nos viremos, tudo o que há em torno de nós não somente é suspeito, mas
nos ameaça mais ou menos abertamente, como que tencionando a nossa morte.
Quando embarcamos num navio, pode-se dizer que não há um palmo de distância
entre a morte [e nós]a
. Se montamos um cavalob
, basta que tropece numa pedra
para que nos faça quebrar o pescoço. Caminhemos pelas ruas: tantos são os peri-
gos que há sobre nós quantas são as telhas sobre os tetos. Se temos uma espada,
ou se alguém por perto a tem, pouco ou nada faltará para que nos fira. Onde quer
que vejamos feras ou selvagens ou rebeldes ou gente difícil de governar, estão
todos armados contra nós. Se nos encerramos num belo jardim, onde tudo é
aprazível, uma serpente poderá estar ali oculta. As casas em que moramos, como
estão sempre sujeitas a incêndio, de dia nos ameaçam empobrecer, e de noite
ameaçam ruir sobre nós. Quanto às propriedades que acaso tenhamos, estando
elas sujeitas a granizo, geada, seca e outras tempestades e intempéries, o que nos
prenunciam é esterilidade e, conseqüentemente, fome. Deixo de lado os envene-
namentos, as emboscadasc
, as violências que assediam a vida do homem, tanto
em casa como no campod
. Entre tantas dificuldades que nos deixam perplexos,
não é verdade que o homem só pode sentir-se mais que miserável? Isto é, o ho-
mem meio vive meio não vive, sustentando-se com grande e penoso esforço,
premido por tristezas e pelo desalento. É tudo como se tivesse a faca na garganta
a todo instante.151
Haverá exagero aí?
Alguém dirá que essas coisas não são tão freqüentes, ou que, ao menos, não
acontecem sempre, nem a toda gente; e que, por outro lado, não podem vir todas
de uma vez. Reconheço. Mas, visto que pelo exemplo de outros somos advertidos
de que tais coisas podem suceder conosco, e sendo que a nossa vida não está
isenta de nenhuma delas, não podemos deixar de temê-lase
, como se houvessem
de nos sobrevir. Que miséria maior poderíamos imaginar que a de estarmos sem-
a. pede uno a morte distas. (?????) Antes de 1536 Calvino talvez nunca tenha embarcado num navio. Em 1539,
está a bordo do “Reno”.
b. Calvino fez longos trajetos a cavalo, por exemplo em novembro de 1534, quando foi com seu amigo du Tillet
de Paris a Estrasburgo, e foi abandonado por um criado que lhe roubou a bolsa.
c. insidias, latrocinia.
d. Peregre.
e. timeamus ac formidemus.
151
Em outro lugar:
“Se considerarmos a enorme quantidade de acidentes aos quais estamos sujeitos, veremos o quão neces-
sários é exercitarmos nossa mente desta maneira.
“Enfermidades de todos os tipos tocam nossos débeis corpos, uma atrás da outra: ou a pestilência nos
enclausura, ou os desastres da guerra nos atormentam.
“Em outra ocasião, as geadas e os granizos destroem nossas colheitas, e ainda somos ameaçados pela
escassez e a pobreza.
“Em vista destes acontecimentos, as pessoas maldizem suas vidas, e até o dia em que nasceram; culpam
o sol e às estrelas, e ainda censuram e blasfemam a Deus, como se Ele fora cruel e injusto.” (João Calvino,
A Verdadeira Vida Cristã, p. 43).
95
pre tremendo de angústiaa
? É preciso dizer, ademais, que não é sem causar opró-
brio a Deus que se declara que Deus abandonou o homem, a mais nobre de Suas
criaturas, aos riscos temerários do acaso.
Mas não é a nossa intenção aqui falar da miséria em que o homem estaria,
se vivesse sujeito aos azares da sorteb
. Ao contrário, se a providência de Deus
reluz no coração do crente fiel, ele não somente está livre do medo e da aflição,
que antes o oprimiam, mas também é libertado de toda dúvida. Porque, como há
bom motivo para temermos a sorte, também temos boa razão para não nos atre-
vermos a abandonar152
audaciosamente a Deus. Para nós é, pois, uma consolação
maravilhosac
compreender que o Senhor tem de tal maneira todas as coisas em
Seu poder, que as governa segundo o Seu quererd
e as dirige com a Sua sabedoria,
e nada sucedee
, senão como Ele determinou. E ainda mais, que Ele nos recebeu à
Sua custódia e proteção, nos confiou aos cuidados dos Seus anjos, a fim de que
nem a água, nem o fogo, nem a espada, nem coisa alguma possam prejudicar-nos
ou causar-nos dano, senão o que nos traga o Seu beneplácito. Porquanto, como
diz o Livro de Salmos153
, “ele te livrará do laço do passarinheiro e da peste perni-
ciosa. Cobrir-te-á com as suas penas, e, sob suas asas, estarás seguro; a sua verda-
de é pavês e escudo. Não te assustarás do terror noturno, nem da seta que voa de
dia, nem da peste que se propaga nas trevas, nem da mortandade que assola ao
meio-dia”, etc. Dele vem a confiança na qual os Seus santos se gloriam:154
“O
Senhor está comigo; não temerei. Que me poderá fazer o homem? O Senhor está
comigo entre os que me ajudam. O Senhor é a minha luz e a minha salvação; de
quem terei medo? O Senhor é a fortaleza da minha vida; a quem temerei? Em
Deus, cuja palavra eu exalto, neste Deus ponho a minha confiança e nada teme-
rei. Que me pode fazer um mortal?Ainda que um exército se acampe contra mim,
não se atemorizará o meu coração; e, se estourar contra mim a guerra, ainda
assim terei confiança”.
Onde o crente poderá ter tal segurança, a qual jamais poderá ser extirpada,
senão no fato de que, quando o mundo parece terrivelmente transtornado e virado
ao avesso, ele sabe que Deus agef
no sentido de dirigi-lo, sendo que ele espera
confiante que todas as Suas obras lhe serão benéficas. Se ele se vê assaltado ou
molestado pelo Diabo ou por malfeitores, não fará bem em se fortalecer trazendo
a. 1539 tem somente: trepidatione. Cf. acima, p. 93 , a nota d. [Na tradução, no trecho que está sob o subtítulo:
“As causas secundárias em relação ao futuro.]
b. sub imperium fortunæ.
c. Acrescentado na edição de 1539.
d. potentia.
e. cadat.
f. operari.
152
No original francês: permettre, entendido no sentido etimológico de “abandonar”, do latim: permitto,
permittere, numa de suas acepções (N. do T.).
153
Sl 91.3-6.
154
Sl 118.6,7; 27.1,3; 56.4; e outras passagens.
96 As Institutas – Edição Especial
à memória a providência de Deus? Pois, sem a recordação dela, só lhe restará o
desesperoa
. Por outro lado, quando o crente sabe que o Diabo e toda a companhiab
de malfeitores são mantidos firmemente seguros pela mão de Deus, como que
com rédeas, de tal modo que não podem conceber nenhum mal, e, mesmo quando
o tenham concebido, não conseguem tramar a sua execução; e ainda quando a
consigam tramar, não o executarão; não conseguem nem mesmo levantar o dedo
mínimoc
, a não ser que Deus lhes ordene que o façamd
; isso é suficiente para
consolar e fortalecer o cristão. Porque, assim como é somente Deus que pode
armar, acionar e mudar o furor deles como bem Lhe parece, assim também está
em Seu poder contê-los, para que não façam tudo segundo a sua intemperançae
.
Por essa causa disse o Senhor155
que Rezim e o rei de Israel, tendo conspirado
para destruir a nação de Judá, e parecendo, em sua fúria, tochas ardentes capa-
zes de inflamar toda a terra, eram na verdade nada mais que “dois tocos de
tições” dos quais só saia um pouco de fumaça. Digo, em suma, para não demo-
rar tempo demais neste propósito, que a maior miséria que um homem pode ter
é ignorar a providência de Deus;156
e, por outro lado, que é uma singular bem-
a. concidere.
b. cohortem.
c. 1539 tem somente: digitum.
d. Calvino dá a maior importância à narrativa que inicia o Livro de Jó e que nos mostra Satanás mantido a
rédeas curtas por Deus, de modo que as suas piores maquinações estão sob o controle de Deus.
e. pro sua libidine licentiose exultent.
155
Is 7.1-9 [note-se o versículo 4].
156
Como podemos perceber, Calvino não termina o seu argumento numa descrição “existencialista” da vida,
mas na certeza própria de um coração dominado pela Palavra de Deus. Assim, ele conclui falando da “incal-
culável felicidade da mente piedosa.” João Calvino, As Institutas, I.17.10). “Quando, porém, essa luz da
Divina Providência uma vez dealbou ao homem piedoso, já não só está aliviado e libertado da extrema
ansiedade e do temor de que era antes oprimido, mas ainda de toda preocupação. Pois assim como, com
razão, se arrepia de pavor da Sorte, também assim ousa entregar-se a Deus com plena segurança.” (João
Calvino, As Institutas, I.17.11). “Faz parte de seu [de Davi] propósito também exortar os fiéis a uma consi-
deração da providência de Deus, para que não hesitem em lançar sobre ela toda a sua preocupação.” [João
Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 40.5), p. 222].
Calvino admite que para qualquer lado que olharmos encontraremos sempre desespero, até que torne-
mos para Deus, em Quem encontramos estabilidade no meio de um mundo que se corrompe. [João Calvino,
O Livro dos Salmos, Vol. 3, (Sl. 102.26), p. 586].
Em 7 de julho de 1553, Calvino escreve mais uma carta aos “prisioneiros de Lyon” que aguardavam a
sua condenação por terem aderido à Reforma Protestante. Esta ele dirige em especial a dois deles: Denis
Peloquin de Blois e Louis de Marsac. A certa altura, diz:
“Meus irmãos (...), estejam certos de que Deus, que se manifesta em tempos de necessidade e aperfeiçoa
Sua força em nossa fraqueza, não vos deixará desprovidos daquilo que poderosamente glorificará o Seu
nome. (...) E como você sabe, temos resistido firmemente as abominações do Papado, a menos que nós
renunciássemos o Filho de Deus, que nos comprou para Si mesmo pelo precioso preço. Medite, igualmente,
naquela glória celestial e imortalidade para as quais nós somos chamados, e é certo de alcançar pela Cruz –
– por infâmia e morte. De fato, para a razão humana é estranho que os filhos de Deus sejam tão intensamen-
te afligidos, enquanto os ímpios divertem-se em prazeres; porém, ainda mais, que os escravos de Satanás
esmaguem-nos sob seus pés, como diríamos, e triunfem sobre nós. Contudo, temos meios de confortar-nos
em todas as nossas misérias, buscando aquela solução feliz que está prometida para nós, que Ele não apenas
nos libertará mediante Seus anjos, mas pessoalmente enxugará as lágrimas de nossos olhos. [Comentando o
salmo 56.8, Calvino assim se expressou: “.... Se Deus concede tal honra às lágrimas de seus santos [lembrar-
se delas], então pode ele contabilizar cada gota do sangue que eles derramaram. Os tiranos podem queimar
97
aventurança conhecê-la.157
Sobre a imutabilidade do conselho de Deus
Poderia ser suficiente o que já falamos sobre a providência de Deus, para instruçãoa
e consolação dos crentes (porque jamais se diria o bastante para satisfazer a curi-
osidade dos tolos; e não vale a pena ter esse trabalho). Seria suficiente, digo, não
fossem algumas passagens da Escritura que parecem significar que o conselho
(ou o propósito) de Deus não é firme e imutável como foi dito, mas que muda
conforme a disposição e a distribuição das coisas inferiores.
Primeiro, às vezes se faz menção do arrependimento de Deus. Como quan-
do se declara que Ele se arrependeu de haver criado o homem e de haver elevado
Saul à coroa real, e que se arrependeria do mal que se havia proposto enviar sobre
o Seu povo, ao vê-lo corrigir-se.158
Lemos também que Ele aboliu e anulou o que
havia determinado. Por meio de Jonas, Ele tinha anunciado aos ninivitas que a
sua cidade seria destruída após quarenta dias; mas, depois da conversão deles,
Deus inclinou-se à clemência.159
Também o Senhor, por meio de Isaías, havia
anunciado a morte de Ezequias, mas a protelou, comovido por suas lágrimas.160
Por causa dessas passagens, muitos argumentam dizendo que Deus não estabele-
ceu por um decreto eterno o que faria com relação aos homens, mas sim que Ele
ordena cadab
dia e cada hora o que Ele sabe que é bomc
e razoável; e o faz confor-
me o requerem os méritos de cada pessoa.
No que se refere à palavra penitência, devemos adotar esta solução: O arre-
pendimento não pode compactuar-se com Deus, como igualmente não o podem a
ignorância, o erro e a fraquezad
. Porque, se ninguém se coloca por decisão própria
ou por querer na necessidade de arrepender-se, se dissermos que Deus se arrepen-
sua carne e seus ossos, mas seu sangue continua a clamar em altos brados por vingança; e as eras intervenientes
jamais poderão apagar o que foi escrito no registro divino das memórias.” [João Calvino, O Livro dos
Salmos, Vol. 2, (Sl 56.8), p. 501] E, assim, temos todo o direito de desprezar o orgulho desses pobres homens
cegos, que para a própria ruína levantam seu ódio contra o céu; e, apesar de não estar neste momento em
suas condições, nem por isso deixamos de lutar junto com vocês em oração, com ansiedade e suave compai-
xão, como companheiros, percebendo que agradou a nosso Pai celeste, em Sua bondade infinita, unir-nos
em um só corpo sob Seu Filho, nossa cabeça. Pelo que eu lhe suplicarei que possa garantir a vocês essa
graça; que Ele os conserve sob Sua proteção e lhes dê tal segurança disso que possam estar aptos a desprezar
tudo o que é deste mundo. Meus irmãos os saúdam mui afetuosamente, e assim também muitos outros. ––
Seu irmão, João Calvino.” [John Calvin, To the Prisoners of Lyons, “Letters,” John Calvin Collection, [CD-
ROM], nº 320].
157
“Não há nada mais absurdo do que simular, propositadamente, uma grosseira ignorância da providência de
Deus, uma vez que não podemos compreendê-la perfeitamente, a não ser discerni-la só em parte.” [João
Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 40.5), p. 223].
158
Gn 6.6; 1Sm 15.11; Jr 18.7-10.
159
Jn 3.4,10.
160
Is 38.1-5.
a. eruditionem
b. in annos, dies.
c. æquum.
d. impotentiam.
98 As Institutas – Edição Especial
de, estaremos confessando, ou que Ele ignora o que há de acontecer, ou que não o
pode evitar, ou que em Seu conselho e propósito precipitou-se inconsideradamente.
Ora, tão longe isso está do entendimento do Espírito Santo que, ao fazer Ele men-
ção dessa classe de arrependimento, nega que Deus possa arrepender-se, visto que
não é homem.161
É, pois, certo que o governoa
que Deus exerce sobre as coisas
humanas é constante, perpétuo e totalmente isento de arrependimento.
E, a fim de que não se possa pôr em dúvida a constância do Seu propósito e
do Seu governo, faço notar que até os Seus adversários se vêem constrangidos a
dar testemunho em Seu favor. Balaão, querendo ou não, não pôde conter-se e
evitar dizer que “Deus não é homem, para que minta; nem filho de homem, para
que se arrependa”.162
Vê-se, pois, que Deus pode fazer com que tudo o que Ele
diz se cumpra e se realize.
Sentido da palavra arrependimento
Que significa, então, a palavra arrependimento? Alguém perguntaráb
. Respondoc
que ela tem o mesmo sentido dos outros modos de falar que nos descrevem Deus
humanamente. Porque, considerando que a nossa debilidade não alcança e não
toca a Sua altura, a descrição que dele se faz para nós subordina-se à nossa capa-
cidade, para que a possamos entender. Então, o recurso é que Ele seja representa-
do, não pelo que realmente é, mas tal como o sentimos. Embora Ele seja imune a
toda perturbação, diz a Escritura que Ele se ira contra os pecadores. Por isso,
quando ouvimos que Deus está irado, não devemos imaginar que haja alguma
comoção nele, mas, antes, devemos entender que essa expressão é tomada do
nosso sentimento, porque Ele mostra a aparência de uma pessoa irada quando
exerce o rigor do Seu juízo.
Também, pela palavra penitência, ou arrependimento, devemos entender
simplesmente uma mudança das obras de Deus em função do fato de que os
homens, mudando as suas obras, testificam que elas lhes desagradam. Por isso,
então, como toda mudança ocorrida entre os homens é correção do que desagra-
da, e a correção vem pelo arrependimento, por essa razão, a mudança que Deus
faz em Suas obras é representada pelo nome de arrependimento. Tenha-se em
mente, porém, que o conselho e propósito de Deus não volta atrás, a Sua vontade
não se desvia e o Seu amor não muda; a verdade é que o que Ele, desde toda a
eternidade, provou,163
aprovou e decretou, vai constantemente pondo em execu-
ção, sem nada variar, embora pareça haver ali uma diversidade ou alteração súbi-
a. ordinationem.
b. Acréscimos feitos à edição de 1539.
c. Sem equivalente em latim.
161
1Sm 15.29.
162
Nm 23.19.
163
No sentido etimológico de “examinar”, “ensaiar”, “experimentar”, do latim probo, probare, entre outras
acepções. Um tanto em desuso em português. Cf. Aurélio, 3ª. acepção do verbete “Provar” (. Nota do tradutor.
99
ta. Porquanto, narrando a Escritura que a calamidade anunciada por Jonas aos
habitantes de Nínive lhes foi perdoada, e que a vida de Ezequias foi prolongada
depois de haver ele recebido a mensagem de que morreria, com isso ela não
demonstra que Deus ab-rogou os Seus decretos. Os que assim pensam fazem
tresloucada violênciaa
às proclamações bíblicas; estas, conquanto sejam redigidas
simples e concisamente, todavia contêm uma condição tácita, como se pode ver
pelo objetivo a que se destinam.
Explicação de uma condição implícita
Vejamos: Por que foi que Deus enviou Jonas aos ninivitas para lhes predizer a
ruína da sua cidade? Por que anunciou, mediante Isaías, a morte de Ezequias?
Pois a verdade é que Ele bem podia dar-lhes cabo sem enviar-lhes nenhuma men-
sagem. Então Ele tinha outro objetivo, que não o de querer fazê-los saber da sua
ruína muito tempo antes da sua ocorrência. É que Deus não queria que eles pere-
cessem, mas, sim, que se emendassem para não perecerem. Por que Jonas profe-
tizou que Nínive seria destruída quarenta anos depois? Para que não fosse destruída.
Por que foi cortada a Ezequias a esperança de viver mais longamente? Para que
orasse rogando a Deus vida mais longa. Quem é que agora não vê que com tais
ameaças Deus quis mover ao arrependimento aqueles que foram ameaçados por
Ele, para evitarem o juízo que tinham merecido por seus pecados? Se isso é ver-
dade [como certamente é], a ordem natural nos induz a suprirb
o texto, explicitando
uma condição tácita, implícita, não expressa nos anúncios feitos.
Comprovação com mais alguns exemplos bíblicos
O que acabamos de dizer pode ser confirmado por outros exemplos
semelhantes.[Citamos o seguinte:] Quando o Senhor repreendeu o reiAbimeleque
por ter raptado a mulher de Abraão, empregou estas palavras:164
“Vais ser punido
de morte por causa da mulher que tomaste, porque ela tem marido. Agora, pois,
restitui a mulher a seu marido, pois ele é profeta e intercederá por ti, e viverás; se,
porém, não lha restituíres, sabe que certamente morrerás, tu e tudo o que é teu”.
Notemos como na primeira parte Deus faz uso de grande veemência para encher
de medo o coração do rei, a fim de melhor induzi-lo a cumprir o seu dever; e que,
depois, Ele explica claramente a Sua intenção. Visto que as outras passagens têm
o mesmo sentido, não se pode inferir delas que Deus revogou o Seu predetermi-
nado conselho e propósito suspendendo o que antes havia publicado. Porque,
muito ao contrário, Ele abre caminho para o Seu conselhoc
e ordenação eterna
quando induz ao arrependimento aqueles que deseja perdoar, anunciando-lhes as
a. hallucinantur.
b. subaudiamus (= suppléons) [supramos – “nos induz a suprir”].
c. 1539 tem somente: æternæ ordinationi.
164
Gn 20.3,7.
100 As Institutas – Edição Especial
165
Is 14.27.
penas que lhes sobrevirão se perseverarem em seus erros e vícios. O que acontece
longe está de ser que Ele muda Sua vontade, e nem mesmo Sua palavra, mas sim
que Ele não explica letra por letra a Sua intenção. Todavia, esta é fácil entender.
Permanece, pois, firme esta declaração de Isaías:165
“O Senhor dos Exércitos o
determinou; quem, pois, o invalidará? A sua mão está estendida; quem, pois, a
fará voltar atrás?”
101
CAPÍTULO IX
Introdução, relacionando o texto presente com textos prévios
[1536] Do que foi tratado anteriormentec
, vemos muito bem quão desnudo e des-
provido de todo bem o homem é, e como lhe falta tudo quanto lhe é necessário
para a sua salvaçãod
. Porque, se ele quiser suprir a sua necessidade, terá que sair
de si e buscar socorro fora. Além disso, também foi explicado ao leitor que o
Senhor se apresenta a nós liberalmente em Seu Filho Jesus Cristo, oferecendo-
nos, por meio dele, toda a felicidade, em lugar do nosso infortúnio; toda a abun-
dância, em lugar da nossa pobreza; e nos desvendando, nele, todos os seus tesou-
ros e riquezas celestiais. Com que finalidade? A fim de que toda a nossa fé seja
posta no Seu dileto Filho, dele seja a nossa dependência, e toda a nossa esperança
seja postae
nele. Esta é uma filosofia misteriosa, oculta e velada, e não pode ser
entendida por meio de silogismos; mas a compreendem aqueles a quem o Senhor
abriu os olhos, para que, em Sua luz, enxergassem claramente.
Vê-se então que a fé nos ensina que todo o bem que nos é necessário e que
em nós mesmos não existe está em Deus e em Seu Filho, nosso Senhor Jesus
Cristo, em quem o Senhor constituiu toda a plenitude das Suas bênçãos e da Sua
liberalidade1
. Seu propósito é que, como de uma fonte transbordante da qual to-
dos nós nos abeberamos, O busquemos e, por nossas preces e orações, peçamos a
Ele o que aprendemos que nele há.2
Porque, diversamente, conhecer a Deus e
Este capítulo estavam sem as notas a, b, c etc. do original francês, por isso não pude formatá-lo
corretamente. As notas 1, 2, 3 etc. estão no final do capítulo. Zenaide
102 As Institutas – Edição Especial
reconhecê-lo como senhor, autor e distribuidor de todos os bens, e que Ele nos
convida a solicitá-los dele, e não nos dirigirmos a Ele e nada Lhe pedirmos,
seria tão nulo como se alguém desprezasse e deixasse enterrado e oculto sob o
solo um tesouro que lhe tinha sido mostrado. Portanto, devemos tratar agora,
mais amplamente, deste ponto, sobre o qual não falamos antes, senão
incidentalmente e de passagem.
A oração nos leva ao templo celestial
[1539] É, pois, pelo benefício da oração que penetramos nas riquezas que temos
em Deus. Porque ela é uma forma de comunicação dos homens com Deusa
pela
qual, sendo introduzidos no verdadeiro templob
, que é o céu, eles fazem presentes
ao Senhor as Suas promessas para que, de maneira experimental, Ele lhes mostre,
quando a necessidade o exigir, que a Sua simples palavra, que eles creram ser
verdadeira, não é mentira nem coisa vãc
. Assim, não vemos Deus propor-nos
alguma coisa que devemos esperar dele que, paralelamente, não nos mande pedir
em oração. Tanto é verdade o que dissemos, que pela oração buscamos e encon-
tramos os tesouros que são expostos e ensinados à nossa fé no Evangelho.3
Ago-
ra, quanto é necessário, e de quantas maneiras o exercício da oração é útil para
nós, não se pode explicar satisfatoriamente com palavras.
Invocar o nome do Senhor é segurança de salvação
Certamente não é sem motivo que o Senhor testifica que toda a segurança da
nossa salvação se funda na invocação do Seu nome4
, visto que por ela obtemos
tanto a presença da Sua providência, pela qual Ele se mostra vigilante no cuidado
que nos dispensaa
, como do Seu poder, pelo qual Ele nos alivia e nos consola em
nossa fraqueza e imperfeição, e também da Sua bondade, pela qual Ele nos rece-
be em Sua graça, apesar de estarmos carregados de pecados. E, para falar resumi-
damente, como pela oração O chamamos para que se manifeste inteiramente pre-
sente conosco, daí decorre um singular repouso para a nossa consciência. Por-
que, após expormos ao Senhor a necessidade que nos cerca, temos onde descan-
sar satisfatoriamente, sendo que entendemos que nada da nossa miséria está ocul-
to para Aquele cuja boa vontade para conosco é certa, e cujo poder para nos
ajudar é indubitável.5
Objeção: Não é desnecessário ou inútil orar?
Todavia, alguém poderá objetar, dizendo: Ele não nos conhece sem necessidade
de informaçãob
, e não sabe em que aspecto estamos em aperto, e quais recursos
nos são úteis? Disso decorre que pareceria coisa supérflua pedi-los em oração,
visto que estamos acostumados a solicitar coisas inúteis e ociosasc
. Mas os que
argumentam desse modo não vêem a que fim o Senhor instituiu a oração para os
103
Seus. Porque não a estabeleceu por Sua causa, mas em atenção a nós. Porque,
embora Ele esteja sempre em vigilância e faça constantemente a ronda para nos
preservar, mesmo quando somos tão tolos e obtusosd
que não percebemos os
males que nos rodeiam,6
e embora por vezes Ele nos dê socorro antes de ser
invocado, todavia nos é necessário suplicá-lo constantemente.
Motivos para orar
Primeiro, a fim de que o nosso coração seja inflamado de um veemente e ardente
desejo de buscar, amar e honrar sempre a Deus, o que nos fará habituar-nos a ter
nele o nosso refúgio em todas as necessidades, como o único portoa
de salvação.
Depois, a fim de que o nosso coração seja tocado de algum desejo, que nem
sempre Lhe ousamos confessar de imediatob
, como quando expomos diante dos
Seus olhos todo o nosso afeto e, por assim dizer, desenrolamos e abrimos todo o
nosso coração perante Elec
. E ainda, a fim de que sejamos habilitados a receber
Suas bênçãos com verdadeiro reconhecimento e ação de graças, visto que pela
oração somos advertidos de que elas nos vêm da Sua mão7
.Além desses motivos,
este:A fim de que, tendo obtido o que pedimos, tenhamos em consideração o fato
de que Ele nos atendeu e, por isso, sejamos incitados a meditar mais ardorosa-
mente em Sua benignidade. E também tenhamos mais prazer em gozar os benefí-
cios que Ele nos faz, tendo em mente que os obtivemos por meio das nossas
orações. Finalmente, a fim de que a Sua providência seja confirmada e aprovada
em nosso coração, na medida da nossa pequena capacidade, sendo que nós vemos
que Ele não somente promete jamais abandonar-nos, mas também nos dá acesso
para buscá-lo e Lhe fazer súplicas quando há necessidade.
Por todas essas razões o Pai, cheio de clemência, jamais dorme nem cessa o
Seu cuidado. Todavia, às vezes pareced
dormir e cessar, a fim de que por isso
sejamos incitados a dirigir-lhe orações e súplicas; recurso divino válido para corri-
gir a nossa preguiça e o nosso esquecimento. Portanto, é grande perversidade que-
rer alguém fazer com que deixemos de orar, alegando que é coisa supérflua solici-
tar, por nossas preces, a providência de Deus, a qual, sem ser solicitada, vela pela
preservação de todas as coisas. O que ao contrário se vê é que o Senhor não testifica
em vão que estará perto de todos os que invocarem seu nome em verdade8
.9
Negar o valor da oração é loucura
É uma grande loucura alegar que não há nenhuma razão para pedir as coisas que
o Senhor voluntariamente está pronto a cumular sobre nós. Por quê? Porque Ele
quer que nós consideremos que as bênçãos que recebemos, provenientes da Sua
liberalidade gratuita, são concedidas às nossas orações.
104 As Institutas – Edição Especial
Leis ou diretrizes para a prática da oração
A PRIMEIRA LEI
Pois bem, que a primeira lei para instituir-se bem e devidamente a oração seja tal
que não tenhamos mente e disposição de ânimo que não sejam convenientes aos
que entram em conversa com Deusa
. O que se fará quando, com a mente
desembaraçadab
de todas as solicitudes e cogitações carnais pelas quais poderia
ser desviada e impedida de considerar bem e puramente a Deus, o crente não só
se aplicar totalmente à intenção de orar, mas também, fazendo o que puder, ele-
var-se acima de si próprio. Todavia, não entendo que se deve exigir que ele esteja
de tal maneira livre de preocupaçõesc
* que nenhuma solicitude o esmurre ou o
provoque. Porquanto, o que antes e ao contrário é necessário é que o ardor da
oração seja inflamado em nós pela angústia e por grande afliçãod
. Exemplos
disso vemos nos santos servos de Deus, que se mostram em espantoso tormentoe
e, ainda mais fortemente, revelam grande e solícita inquietação, ao dizerem que
elevam sua voz ao Senhor, da profundeza dos abismos e do sorvedouro da mor-
te10
. Mas entendo que se deve lançar para longe todas as inquietações* estranhasa
que só se prestam para fazer a mente ficar vacilante e, sendo afastada do céu, cair
em depressão e afundar na terra.11
Ademais, com o que eu afirmei, que o crente deve elevar-se acima de si
próprio, quero dizer que ele não deve se apresentar perante o Senhor com o que a
nossa razão tola e cega costuma sonhar; e não deve deter-se e restringir-se à sua
vaidade, mas sim elevar-se a uma pureza semelhante à de Deus. Nisso se peca
comumente, e com muita gravidade. Pois em geral os homens se atrevem, sem
nenhum pudor e sem reverência, a fazer de Deus uma testemunha das suas loucu-
ras, e a apresentar impudentemente diante do Seu trono tudo o que lhes tem sido
agradável, até em sonho. E em muitos há tão grande bestialidade ou loucura que
eles ousam expor a Deus suas cobiças tão vis que eles teriam vergonha de
manifestá-las aos homens.
Semelhantemente, é necessário que o coração, com todo o empenho, aspire
a um mesmo objetivo e siga o mesmo passo. Sim, pois, assim como a inteligênciab
deve estar totalmente direcionada para Deus, assim também os afetosc
devem
elevar-se a Ele em verdadeiro arrebatamento. Ora, falta muito para que as facul-
dades do homem sejam capazes de tal perfeição; porque, ou elas permanecem
tempo demais em níveis mais baixos, ou na verdade sucumbem e fracassam, a
não ser que o Espírito de Deus minore a sua fraqueza e fortaleça o homem. Por-
que, visto que não sabemos orar bem, Ele vem em nosso socorro e ora por nós
com gemidos inexprimíveis12
; não que de fato Ele ore ou gema, mas nos comove
e nos incita à confiança, aos desejos e aos suspiros; de conceber tais coisas as
forças da nossa natureza não são capazes.
105
Aqui não se diz que, lançando o ofício da oração sobre o Espírito de Deus,
podemos adormecer negligentes ou displicentes, como alguns se acostumaram a
blasfemar, dizendo: Devemos ficar à espera, sem nenhuma preocupação, até que
o Espírito chame a atenção da nossa mente, até então ocupada e distraída com
outras coisas. Muito ao contrário, aqui somos induzidos a desejar e a implorar tal
auxílio, com aversão e desgosto por nossa preguiça e displicência.13
A segunda lei da oração
[1536] A seguir, tenha o crente uma segundaa
lei. Que nos desfaçamos de toda
cogitação referente à nossa glória; que nos despojemos de toda opinião que eleve
a nossa dignidade pessoal; que eliminemos toda confiança em nós mesmosb
; dan-
do glória a Deus em nossa humildade e autodesprezo [1539], para não suceder
que, se quisermos atribuir a nós mesmos alguma coisa, por menor que seja, em
nossa tola arrogância, não sejamos derribados diante da Sua face.14
Temos nume-
rosos exemplos dessa atitude humilde nos servos de Deus, entre os quais o mais
santo mais se humilha, quando lhe cabe comparecer diante do Senhor. Nessa
questão, Daniel, que recebeu grande testemunho da boca de Deus, todavia ora
como segue: “Não lançamos as nossas súplicas perante a tua face fiados em nos-
sas justiças, mas em tuas muitas misericórdias. Ó Senhor, ouve; ó Senhor, per-
doa; ó Senhor, atende-nos e age; não te retardes, por amor de ti mesmo, ó Deus
meu; porque a tua cidade e o teu povo são chamados pelo teu nome15
”. Dessa
mesma forma ora Isaías, em nome do povo: “Eis que te iraste, porque pecamos;
por muito tempo temos pecado e havemos de ser salvos? Mas todos nós somos
como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós
murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades, como um vento, nos arreba-
tam. Já ninguém há que invoque o teu nome, que se desperte e te detenha; porque
escondes de nós o rosto e nos consomes por causa das nossas iniqüidades. Mas
agora, ó Senhor, tu és nosso Pai, nós somos o barro, e tu, o nosso oleiro; e todos
nós, obra das tuas mãos. Não te enfureças tanto, ó Senhor, nem perpetuamente te
lembres da nossa iniqüidade; olha, pois, nós te pedimos: todos nós somos o teu
povo16
”. Pode-se perceber aí que eles não confiavam noutra coisa senão nisto:
Como se consideravam pertencentes a Deus, não perdiam a esperança de que Ele
os acolheria sob Sua proteção.
Jeremias não fala diferentemente quando diz: “Posto que as nossas malda-
des testificam contra nós, ó Senhor, age por amor do teu nome17
”.Assim, recende
santidade o que está escrito na profecia que se atribui a Baruque (embora haja
incerteza quanto ao autor). Diz ele [1536]: “A alma que está triste por causa da
grandeza do mal, e anda encurvada e abatida, e tem os olhos enfraquecidos, a
alma faminta, é que te dá, ó Senhor, glória e justiça. Porque não é apoiados na
justiça de nossos pais, que nós derramamos os nossos rogos e imploramos mise-
ricórdia diante da tua face, ó Senhor nosso Deus, mas, como és misericordioso,
tem piedade de nós, pois temos pecado diante de ti18
”.
106 As Institutas – Edição Especial
Por que os servos de Deus, na Escritura,
alegam justiça pessoal?
[1539] É verdade que às vezes os santos apelam para as suas justiças como forma
de ajuda, para obterem mais facilmente de Deus o que pedem. Como quando
Davi diz: “Preserva a minha alma, pois eu sou piedoso19
”. Também Ezequias:
“Lembra-te, Senhor, peço-te, de que andei diante de ti com fidelidade, com intei-
reza de coração e fiz o que era reto aos teus olhos20
”. Todavia, por essa maneira
de falar eles não pretendem outra coisa senão testificar que, pela regeneração,
eles são filhos de Deus, aos quais Deus prometeu ser propício. Mediante Seu
profeta Ele revela que os Seus olhos “repousam sobre os justos, e os seus ouvidos
estão abertos ao seu clamor21
”; semelhantemente, por meio do apóstolo João, Ele
nos promete que “aquilo que pedimos dele recebemos, porque guardamos os seus
mandamentos e fazemos diante dele o que lhe é agradável22
”.
Por essas declarações Ele não quer dizer que as orações serão apreciadas
segundo o mérito das obras, mas sim que dessa maneira Ele quer estabelecer a
confiança daqueles que sentem sua consciência pura e íntegraa
e sem hipocrisia,
o que deve ter presença universal em todos os crentes. Porque, o que no Evange-
lho Segundo João disse o cego que tinha tido restaurada a sua vista é fruto da pura
verdade: “Deus não atende a pecadores23
”, desde que por “pecadores” entenda-
mos aqueles que, não tendo nenhum desejo de praticar o bem, estão completa-
mente adormecidosb
em seus pecados. Porquanto o coração jamais poderá dedi-
car-se a invocar sincera e verdadeiramente a Deus sem que, ao mesmo tempo,
não aspire e não tenda a honrá-lo e servi-loc
. Portanto, as declaraçõesd
feitas pelos
santos, nas quais trazem à memória a sua pureza ou a sua inocência, respondem
àquelas promessas, a fim de que as coisas que todos os servos de Deus podem e
devem esperar lhes sejam concedidas. Além disso, pode-se notar que em geral
eles oravam desse modo quando faziam comparação de si com os seus inimigos,
rogando a Deus que os livrasse da maldade deles. Pois bem, não é de admirar que
nessa comparação eles alegassem sua justiça e a sinceridade do seu coração, para
mais fortemente moverem Deus, pela eqüidade das suas razões e das suas causas,
a ajudá-los e apoiá-los. Não negamos, pois, este benefício à alma fiel: Que ela
pode ter gozo da sua boa consciência diante de Deus, e que com isso ela se con-
firma e se fortalece nas promessas com as quais o Senhor consola os Seus servos
fiéis, mas ensinamos que toda a confiança em obter de Deus o que Lhe pedimos
baseia-se unicamente em Sua santa clemência, sem nenhuma consideração pelos
nossos próprios méritos.
A terceira lei da oração
[1536]A terceira leia
deve ser tal que [1539], toda vez que pedirmos alguma coisa
que nos seja proveitosa [1536], reconheçamos sem hipocrisia nossa pobreza e,
107
considerando sem falsidade que de fato estamos necessitados, façamos nossas
súplicas com real desejo de obter o que pedimos. [1539] Porque, que é que
julgamos ser mais execrável para Deus do que esta simulação e hipocrisia: [1536]
alguém pedir perdão dos seus pecados não se julgando pecador; ou então, sem
pensar em seu pecado. Isso é zombar de Deus. [1539] Contudo, o mundo está
cheio desse tipo de perversidade, sendo que muitos, por desencargo24
de consci-
ência, às vezes pedem a Deus coisas que acham que vêm de outra fonte, ou que
consideram que já estão em suas mãos, independentemente da graça de Deus.
Pois bem, os crentes devem tomar o cuidado de não pedir a Deus coisa alguma,
senão aquilo que desejam ardentemente e que procuram obter da Sua mão. [1536]
Mesmo o que pedirmos unicamente para a glória de Deus deve ser pedido com
zelo e com desejo repassados de fervor. Por exemplo, quando pedimos que o Seu
nome seja santificado, é próprio e conveniente desejar ardorosamente essa
santificação. [1539] Com esta regra rejeitamos e extirpamos da oração cristã toda
hipocrisia e astúcia com que se pretenda mentir a Deus. Porque Ele promete estar
perto de todos os que O invocam em verdade, e declara que aqueles que O busca-
rem de todo o coração O encontrarão25
.
A quarta lei
A quarta lei para orar bem é que, quando orarmos, sejamos movidos pela segura
e certa esperança de que obteremos o objeto da nossa súplica. Agora, não enten-
damos com isso uma confiança capaz de propiciar seguro descanso ao espírito,
livrando-nos de toda ansiedade. Porque, ter um descanso tão tranqüilo é coisa
própria daqueles que, tendo diante de si todas as coisas para desejar, não são
atormentados por nenhum desejo. Ao contrário, é um excelente aguilhão para
impelir os crentes a invocarem a Deus sentirem eles a pressão da necessidade e
serem agitados por problemas e tormentos, quase ao ponto de desfalecerem. Mas,
no meio de tais angústias, a bondade de Deus não deixa de luzir para eles. Por
isso, por mais que sintam o peso e a gravidade do mal, além do temor e tremor de
que algo pior lhes suceda, pela oração eles são consolados e fortalecidos, na
esperança de bom êxito.
Portanto, convém que a oração do crente proceda destes dois sentimentos,
ambos presentes nela e por ela representados reciprocamente. Um é que aquele
que ora suspire e gema pelo mal que o deprime; o outro é que tenha no Senhor o
seu socorro com a certeza de que Ele se manifestará para dar auxílio e fortaleza
ao oprimido. Porque não é possível expressar quanto Deus se ira com a nossa
desconfiança, se Lhe pedimos uma bênção que não esperamos receber. Pois o
Senhor Jesus estabeleceu esta regra para as nossas orações: que esperemosa
que
todas as coisas que Lhe pedirmos nos serão concedidas e nos sucederão confor-
me a nossa esperança26
. [1536] Por outro lado, aqueles que, não estando seguros
da Sua promessa, anulam com sua dúvida a verdade de Deus, e estando incertos
108 As Institutas – Edição Especial
sobre se serão atendidos, O invocam, contudo nada aproveitam, como diz Tiago.
Aliás, ele até os compara com as ondas do mar, impelidas para cá e para lá pelo
vento27
. Além disso, tendo em vista que muitas vezes o Senhor declara que será
feito a cada um segundo a sua fé, Ele indica, por outro lado, que sem fé nada
receberemos. [1539] Em suma, é a fé que obtém para nós tudo o que é concedido
às nossas orações. É o que nos quer dizer a seguinte sentença do apóstolo Paulo:
“Como, porém, invocarão aquele em quem não creram?” [Rm 10.14]. Porque
com isso ele conclui que Deus não pode ser devidamente invocado senão por
aqueles aos quais a Sua bondade e a Sua clemência tenham sido proclamadas
pela pregação do Evangelho.
Ora, quando juntamos uma tal segurança de fé com o reconhecimento da
nossa miséria e da nossa pobreza, das nossas máculas e dos nossos pecados, de-
claramos suficientemente que, ao reconhecer-nos pobres e indignos, não deve-
mos ter por isso menos esperançab
. [1536] Se nos sentimos sobrecarregados de
pecados, se vemos que somos imperfeitos e vazios de todas as coisas que nos
poderiam tornar agradáveis a Deus, isso não nos deve causar terror, nem nos deve
fazer temer buscá-lo, pois é necessário que, ao dirigir-nos a Ele, reconheçamos
que somos assim mesmo28
. Porque a oração não é feita para nos exaltarmos dian-
te de Deus, nem para que seja apreciado o que há em nós, mas para confessarmos
a nossa miséria e para fazermos sentida lamentação de tudo o que pesa sobre nós,
como uma criança faz a seu pai. Ao contrário, pois, de causar temor, o senso de
miséria pessoal deve antes ser como uma espora ou como um aguilhão que nos
incite à oração. [1539] Como somos advertidos pelo exemplo do profeta, que
orou a Deus pedindo-lhe: “Compadece-te de mim, Senhor; sara a minha alma,
porque pequei contra ti29
.
Aléma
desteb
aguilhão, pelo qual a consciência da nossa miséria pesa cons-
tantemente sobre nós [1536], o nosso bondoso Pai nos acrescentou mais duas
coisas, as quais principalmente nos devem mover e incitar à oração. Uma é o
mandamento para orar. A outra é Sua promessa de que obteremos tudo o que
pedirmos em oração.30
Quanto ao mandamento
O mandamento nos é dado e repetido muitas vezes, quando Ele diz: “Pedi.Vinde
a mim. Buscai a minha presença. Tornai para mim. Invocai-me no dia da angús-
tia31
”, e em muitas outras passagens. E, semelhantemente, no terceiro manda-
mento da Lei, onde nos é proibido tomar o nome de Deus em vão32
. Sim, pois,
assim como nos proibiu tomar Seu nome em vão, igualmente nos manda tomá-lo
para a Sua glória, glorificando-o por Seu poder, por Sua bondade, por Seu auxí-
lio, por Seu consolo e fortalezac
, e por atender o que Lhe pedimosd33
.
Portanto, se em nossas necessidades não buscamos refúgio em Deus, não O
invocamos e não pedimos Seu auxílio, também dessa forma transgredimos o Seu
109
mandamento. Com isso não provocamos menos a Sua ira do que se tivéssemos
outros deuses além dele e fizéssemos ídolos para nós. Porque desprezamos a Sua
vontade tanto quando menosprezamos um dos Seus mandamentos como quando
menosprezamos outro, visto que Ele ordena tanto um como outro [1539]. Certa-
mente não se pode imaginar nenhuma idéia que nos possa livrar melhor de todo
escrúpulo ou de toda inquietação de consciência do que considerar que não há
nenhum obstáculo que justifique a demora em obedecer ao preceito de Deus pelo
qual Ele nos manda orar. [1536] Porque aqueles que O invocam, Lhe fazem súpli-
cas e O louvam têm um grande consolo em saber que, fazendo isso, obedecem ao
Seu mandamento e à Sua vontade, e que fazem algo agradável a Elea
, uma vez
que Ele declara que nada Lhe é mais aceitável que a obediência.34
Quanto à promessa
Mas os crentes recebem consolação ainda melhor da Sua promessa, na qual se
baseia toda a confiança em obterem o que pedem. Nesse sentido o Senhor nos
convida repetidas vezes mediante dulcíssimas promessas, como as seguintes:
[1536] “Pedi, e dar-se-vos-á”; [1539] “Buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á”.
E, por meio do profeta: “Então, me invocareis, passareis a orar a mim, e eu vos
ouvirei. Buscar-me-eis e me achareis”. E também: “Invoca-me no dia da angús-
tia; eu te livrarei”. E mais: “Ele me invocará, e eu lhe responderei; na sua angús-
tia eu estarei com ele, livrá-lo-ei e o glorificarei35
”. Mas, como são inumeráveis
as passagens semelhantes, por certo basta citar alguns exemplos. Contudo, algu-
mas delas são especialmente notáveis, e vale a pena mantê-las vívidas na memó-
ria. Como as seguintes: “Perto está o senhor de todos os que o invocam, de todos
os que o invocam em verdade”. E também: “Certamente, se compadecerá de ti, à
voz do teu clamor, e, ouvindo-a, te responderá36
”. E para que não se pense que Ele
é tardio para ouvir, acrescenta mais adiante: “E será que, antes que clamem, eu
responderei; estando eles ainda falando, eu os ouvirei” [Is 65.24]. Mas, dentre
todas as outras passagens, a que vem a seguir é a mais notável: a palavra registra-
da no lugar onde se fala da terrível vingança de Deus que há de sobrevir a todo o
mundo. Refiro-me a esta declaração: “E acontecerá que todo aquele que invocar
o nome do Senhor será salvo37
”. Contendo as demais passagens semelhantes a
segurança das mesmas exortações, consideramos, entretanto, que já temos sufici-
ente suporte para a obtenção do que pedimos. [1536] Porque não é o mérito da
oração ou a dignidade da pessoa que nos habilita a obter as bênçãos pedidas, mas
toda a nossa esperança está situada nas promessas e delas depende.38
No que somos iguais aos santos mais fiéis
Portanto, estejamos certos de que não seremos menos atendidos que os apóstolos
Pedro e Paulo e todos os outros santos (embora tenham tido vida mais santa que
nós), desde que façamos as nossas súplicas a Deus com a mesma e igualmente
110 As Institutas – Edição Especial
grande e firme fé que eles tinham. [1539] Sendo no demais inferiores a eles,
somos iguais nisto: Temos, como eles, o mandamento da oração e a promessa de
que seremos atendidos. E Deus, à condição de que seja invocado com puro amor,
não mede o valor da oração com base na dignidade da pessoa, mas somente em
razão da fé, firmados na qual os Seus servos obedecem a Seu mandamento e
confiam em Sua promessa. O que considerando Davi, disse: “Tu, ó Senhor dos
Exércitos, Deus de Israel, fizeste ao teu servo esta revelação, dizendo: Edificar-
te-ei casa. Por isso, o teu servo se animou para fazer-te esta oração. Agora, pois,
ó Senhor Deus, tu mesmo és Deus, e as tuas palavras são verdade, e tens prome-
tido a teu servo este bem. Sê, pois, agora, servido de abençoar a casa do teu servo,
a fim de permanecer para sempre diante de ti, pois tu, ó Senhor Deus, o disseste;
e, com a tua bênção, será, para sempre, bendita a casa do teu servo39
”. Isso mesmo
os israelitas consideravam, fundamentando as suas solicitações na lembrança da
aliança feita por Deus com Abraão, e, fazendo isso, seguiam o exemplo de seus
pais, principalmente de Jacó. Sim, pois, este, depois de haver confessado que era
incapaz de obter tantos bens que havia recebido da mão do Senhor, todavia, ou-
sou rogar-lhe bênção, baseado na promessa a ele feita40
.
Solução para a nossa indignidade: o Mediador
[1536] Mas, visto que todo homem é indigno de se dirigir a Deus e de se apresen-
tar diante de Sua face, a fim de nos livrar da vergonha que sentimos ou que
deveríamos sentir, o Pai celestea
nos deu Seu Filho, o nosso Senhor Jesus Cristo,
para ser o nosso Mediador e Advogado para com Ele, para que, por meio dele,
pudéssemos aproximar-nos livremente dele41
. Com isso nos certificamos de que,
tendo tal Intercessor, o qual não pode ser recusado pelo Pai, também nada nos
será negado de tudo o que pedirmos em Seu nome42
. Seguros também de que o
trono de Deus não é somente trono de majestade, mas também de Sua graça,
podendo nós comparecer perante ele com toda a confiança e ousadia, em nome
do Mediador e Intercessor, para rogar misericórdia e encontrar graça e ajuda, em
toda necessidade que tivermos.
Por isso, como nos é ordenado invocar a Deus, e como é dada aos que O
invocarem a promessa de que serão atendidos, também, singular e expressamen-
te, nos é ordenado que invoquemos a Deus em nome do nosso Senhor Jesus Cris-
to. E temos a promessa de que seremos atendidos em tudo o que pedirmos em Seu
nome43
: [1539] “Até agora nada tendes pedido em meu nome; pedi e recebereis”,
disse Ele. E mais: “tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o
Pai seja glorificado no Filho”. [1536] Do que acima foi dito, sem dúvida alguma,
vê-se claramente que todos os que invocam a Deus noutro nome que não o de
Jesus Cristo, desobedecem ao mandamento de Deus e se contrapõem à Sua von-
tade. Vê-se igualmente que eles não têm nenhuma promessa de que obterão o que
quer que seja, pois, como diz o apóstolo Paulo, “quantas são as promessas de
111
Deus, tantas têm nele o sim; porquanto também por ele é o amém para glória de
Deus44
”. Quer dizer que todas as promessas de Deus em Jesus Cristo são seguras,
firmes e certas, e se cumprem. E, visto que Ele é o único caminho e o único
acesso a Deus com que podemos contar45
, quando os homens não tomam esse
caminho e não buscam esse acesso, ficam sem nada que os possa aproximar de
Deus, e em Seu trono só poderão encontrar ira, terror e juízo. E também, uma vez
que Deus O assinalou e marcou para que Ele fosse o nosso Cabeça e o nossoa
Guia46
, os que dele se desviam fazem o que podem para apagar a marcab
de Deus.
Jesus Cristo, o único Mediador
[1539] Dessa maneira, Jesus Cristo foi constituído o único Mediador, por cuja
intercessão o Pai se torna propício e acessível a nós. Se bem que admitimos o fato
de que os santos fazem as suas intercessõesa
, pelas quais encomendam mutua-
mente a Deus a saúde uns dos outros, como Paulo menciona47
. Todavia, solicita-
mos que tais intercessões sejam feitas de maneira que sempre dependam da sin-
gular e única intercessão de Jesus Cristo. Assim, as nossas intercessões devem
ser como que miniaturas da de Cristo. Porque, como procedem do puro amor pelo
qual somos unidos como membros, também se reportam à unidade da nossa Ca-
beça48
. Pois, visto que são feitos em nome de Cristo, com isso não testificam que
ninguém pode ser socorrido e ajudado por orações de outros, a não ser que Jesus
Cristo seja o Intercessor? E assim como Jesus Cristo, por Sua intercessão, não
impede que nos ajudemos na igreja pelas orações feitas uns pelos outros, assim
também é necessário que isto fique resolvido – que todas as intercessões da igreja
devem ser dirigidas e jungidas unicamente à de Cristo.49
Como dividir o poder intercessor de Cristo com outros?!
É pura mentira o que tagarelam os sofistas atuaisb
, dizendo que Cristo é Media-
dor da redenção e que os crentes são mediadores da intercessão. Como se Cristo,
tendo realizado uma mediação temporal [histórica] e tendo ficado quite com esse
dever que Lhe cabia, deixasse a cargo dos Seus servos o ofício eterno e para
sempre duradouro! Bela honra Lhe prestam, atribuir-lhe uma porção tão pequena
da honra que Lhe é devida! Mas a Escritura segue nisso outro rumo, completa-
mente diverso. E o crente deve apegar-se à simplicidade da Escritura e deixar de
lado aqueles embusteiros. Porque, quando João declara que “se alguém pecar,
temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo50
”, ele não entende que Cristo
foi nosso Advogado no passado, mas Lhe atribui ofício de Intercessor perpétuo.
E também o apóstolo Paulo afirma que, tendo Cristo se assentado à destra do Pai,
intercede por nós51
. E quando noutra passagem ele O menciona como sendo o
único Mediador entre Deus e os homens, não inclui aí as orações das quais tinha
feito menção? Porque, tendo dito um pouco antesa
que devemos usar “a prática de
súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens52
”,
112 As Institutas – Edição Especial
como complemento dessa declaração diz subseqüentementeb
que “há um só Deus
e um só mediador entre Deus e os homens”. É certo que não O imaginamos de
joelhosc
, fazendo humilde súplica; mas entendemos, com o apóstolo, que Ele
comparece de tal modo diante de Deus que a virtude e o poder da Sua morte têm
valor de intercessão perpétua. E disso entendemos também que, tendo Ele entra-
do no santuário do céu, só Ele pode apresentard
as orações do [Seu] povo, sendo
que este [por si mesmo] não tem acessoe
junto a Deus.
Quanto às orações dos santos falecidos
[1536] Quanto aos santos que passaram deste mundo e estão vivendo com Cristo,
se formos atribuir a eles alguma oraçãog
, nem em sonho imaginemos que eles
tenham outro caminho para a oração senão Cristo, que é o único caminho; ou que
os seus pedidos sejam aceitos por Deus quando feitos em outro nome.Visto, pois,
que a Escritura nos priva de todos os outros, conclamando-nos a dirigir-nos uni-
camente a Cristo; visto, igualmente, que o Pai celestial quer que todas as coisas
sejam reunidas nele53
, é uma grande tolice, beirando mesmo a loucurah
, pretender
ter acesso a Deus por meio deles de tal modo que nos afastemos dele. [1539] Ora,
que é isso que se fazia e que continua sendo feito onde o papado tem presença,
quem o negará? Para tornar Deus propício alegam-se os méritos dos santos e se
invoca a Deus em nome deles, deixando Jesus Cristo para trás. Que outra coisa é
isso, senão usurpar o ofício singular de intercessão, que acima mantivemos liga-
do unicamente a Cristo? Além disso, quem foi o anjo ou o diabo que jamais
revelou uma sílaba sequer aos homens da intercessão dos santos que não tenha
sido forjadaa
? Porque não há nada disso na Escritura. Qual o motivo, então, para
inventar tal falsidadeb
? O certo é que, quando o espírito humano busca auxílios
secundários dessa natureza, demonstra evidentemente a sua falta de confiança. E
se se chamar a testemunho a consciência daqueles que se apegam à intercessão
dos santos, vai-se ver que essa prática não vem de outra coisa que não do fato de
que eles estão confusos e perplexos, como se Cristo falhasse com eles, ou se
fosse rigoroso demais.
Recorrer à intercessão dos santos é desonrar Cristo e
despojá-lo do título e da função de Mediador
Com essa dúvida eles fazem grande desonra a Cristo e o despojam do título e do
direito de único Mediador. Título e direito que, como Lhe foram dados com sin-
gular prerrogativa, não devem ser transferidos para outros. [1536] Acresce que,
fazendo isso, eles obscurecem a glória da Sua natividade, tornam nulac
a Sua cruz
e desfazem o louvor de tudo o que Ele fez e sofreu, visto que tudo isso não visa a
outro fim senão o de que Ele seja reconhecido como o único Mediador.
Semelhantemente, eles rejeitam a bondade de Deus, que se declarou seu Pai,
porque não será seu Pai, a não ser que considerem Jesus Cristo como seu irmão.
113
A isso eles renunciam totalmente, se não consideram que Ele tem para com eles
um amor fraterno, amor tão terno e meigo que igual não há no mundo. Porquanto
a Escritura nos apresenta Cristo de maneira singular, envia-nos a Ele e quer que
nos apeguemos a Ele. Como diz Ambrósio54
, “Ele é a nossa boca, pela qual fala-
mos com o Pai; os nossos olhos, pelos quais vemos o Pai; a nossa destra, pela
qual nos oferecemos ao Pai; Medianeiro sem o qual não há nenhuma proximida-
de de Deus, nem para nós, nem para nenhum de todos os santos”.
[1539] Ora, nessa questão é tão desvairada a loucura que podemos nela
contemplar ao vivo a natureza da superstição, a qual, uma vez soltas as rédeas,
não tem limites para a sua extravagância. Porque, tendo começado a dirigir seu
pensamento aos santos como intercessores, pouco a pouco vai atribuindo a cada
um deles encargos particulares. Tanto assim que, conforme a diversidade dos
fatos, ora um ora outro são invocados para defensores. Além disso, cada pessoa
escolhe o seu santo particular e se coloca sob a sua proteção, como se fosse a
própria proteção de Deus. Acontece não somente o que o profeta reprovou nos
israelitas, que os deuses eram erigidos conforme os nomes das cidades, mas tam-
bém sucede que são fabricados conforme a multidão de pessoas, de modo que
cada uma tem o seu.
[1536] Ora, a verdade é que eles têm seu amor voltado para a vontade de
Deus e nela vêem e a ela reportam todos os seus desejos. Assim, quem quer que
lhes atribua outra oração que a de augurar a vinda do reino de Deus, faz deles
uma idéia muito rude e carnal, e até lhes fazem injúria. [1539] Por aí se pode
julgar como se deve considerar a fantasia generalizada que consiste em pensar
que os santos se tornam favoráveis a cada um conforme a honra que lhes é pres-
tada. Finalmente, muitos não se contentam com esse horrível sacrilégio e os invo-
cam não somente como patronos ou advogados, mas também como governadores
da sua salvação. Eis onde vão cair os míseros homens, quando ultrapassam os
seus limitesa
, isto é, quando se apartam da Palavra de Deus.
Vãs tentativas de fundar a intercessão dos
santos na Escritura
No esforço que alguns fazem para mostrar que a intercessão dos santos pode se
ver fundada na Escritura, eles se atormentam à toa. Dizem eles que é feita fre-
qüente menção das orações dos anjos; e não só isso, mas também que as ora-
ções dos crentes são levadas por suas mãos até à presença de Deus. Vá lá; mas,
se lhes parece bom comparar os santos finados com os anjos, terão que provar
que, como estes, aqueles são espíritos enviados para trabalhar pela nossa salva-
ção, e que receberam o encargo e a comissão de nos guiar em todos os nossos
caminhos, que eles estão ao redor de nós, e que nos admoestam, velando sem-
pre pela nossa preservação. Porque todas essas coisas são atribuídas aos anjos,
e não aos santos.
114 As Institutas – Edição Especial
Aqueles tais alegam também o que o Senhor disse a Jeremias: “Ainda que
Moisés e Samuel se pusessem diante de mim, meu coração não se inclinaria para
este povo55
”. E com essa passagem eles formulam o seu argumento deste modo:
“Falando assim de Moisés e de Samuel, que já estavam mortos, não quis Deus
dizer que os mortos oram pelos vivos?” Muito ao contrário, eu argumento desta
maneira: Como Moisés e Samuel não oravam então pelo povo de Israel, vê-se
que os mortos não fazem nenhuma oração pelos vivos. Pois, quem pensaríamos
nós que, dentre os santos, tivesse solicitude pelo povo, se Moisés não era sufici-
ente para isso, sendo que ele sobrepujou todos os demais nesse ponto? Ora, pode-
se inferir das palavras do profeta que ele não fazia então nenhuma súplica. Por-
que, se com essas pequenas sutilezas eles concluem que os mortos oram pelos
vivos, tendo Deus dito: “Ainda que Moisés e Samuel orassem”, eu terei uma
razão mais patente para afirmar que Moisés, estando o povo em extrema necessi-
dade, não orou, o que se pode inferir do fato de que ao povo foi dito o seguinte:
Se ele orasse, não seria atendido. E isso tem como verdade paralela que nenhum
outro ora, uma vez que Moisés suplanta todos os outros em bondade e clemência.
Eis o proveito que tiram eles das suas cavilações: São feridos pela própria espada
de que se julgavam munidos! Todavia, é uma verdadeira zombaria forçar dessa
maneira a citada declaração violentando o seu sentido simples, pois o Senhor
outra coisa não quer dizer senão que Ele não perdoaria aquele povo nem que
tivessem um Moisés ou um Samuel como advogado; sendo que outrora tinha
feito tanto bem atendendo às orações delesa
!
Esse sentido se pode deduzir claramente de outra passagem semelhante,
registrada em Ezequiel. Falando sobre o que faria com uma terra ou uma cidade
que caísse em pecado, diz o Senhor: “Ainda que estivessem no meio dela estes
três homens, Noé, Daniel e Jó, eles, pela sua justiça, salvariam apenas a sua
própria vida56
”. Aí, sem dúvida, Ele quis dizer: caso eles ressuscitassem e vives-
sem na cidade.
Deixemos, pois, de lado aqueles dos quais a Escritura testifica abertamente
que já terminaram a sua carreira. Por isso foi que o apóstolo Paulo, falando de
Davi, não diz que ele ajuda os seus pósteros atendendo às suas orações, mas
somente que ele tinha prestado serviço à sua época, “à sua própria geração57
”.
Mas eles perguntarão se eu pretendo eliminar toda a bondade demonstrada por
aqueles santos, visto que durante toda a sua vida eles tiveram ardente amor e
piedade. – A isso respondo que não quero especular curiosamente, que é o que
eles fazem pensando como pensam. Também não parece nem um pouco possível
que os santos se movam por todos os lados atendendo a desejos diversos, mas é
um pensamento verossímil julgar que, com resoluta e firme vontade, eles bus-
cam o reino de Deus, que não consiste menos na confusão dos ímpios que na
salvação dos crentes.
[1536] Além disso, embora concedamos que eles oram dessa maneira por
nós, todavia, não se segue daí que devam ser invocados. E não se deve deduzir
115
isso do fato de que os homens que vivem na terra se recomendam às orações uns
dos outros. Porque, aos que vivem neste mundo, a intercessão mútua serve para
manter e desenvolver o amor e a caridade entre eles, quando compartilham suas
necessidades e assumem mutua responsabilidade por elas. [1539] Isso eles fa-
zem por obediência ao mandamento de Deus, e não ficam sem promessas, sendo
estes os dois pontos principais relacionados com a oração. [1536] Todas estas
razões faltam aos mortos. Com os quais o Senhor nos priva de toda e qualquer
comunicação quando os retira da nossa companhia58
; também da parte deles para
conosco, segundo o que nos é possível presumir. E se alguém pretender afirmar
que é impossível que os santos não retenham o mesmo amor caridoso que tinham
quando vivos, assim como estão unidos a nós por uma só fé, acrescentarei esta
pergunta: Quem foi que nos revelou que eles têm ouvido tão bom que podem
ouvir as nossas palavras? e que têm visão tão aguda que podem ver e avaliar as
nossas necessidades?
Mais um sofisma dos sofistas
[1539] É certo que os sofistas falam demais em suas escolas, alegando que a luz
da face de Deus é tão grande que, contemplando-a como num espelho, os santos
podem contemplar o que se faz cá na terra. Mas afirmar isso, e principalmente
com o atrevimento com que eles o fazem, é o mesmo que desejar penetrar os
mistérios dos juízos de Deus com os nossos sonhos irrefletidos, sem levar em
conta a Sua Palavra. Isso é pisar a Escritura, a qual tantas vezes declara que a
sabedoria* da nossa carne é inimiga da sabedoria de Deus.
Citações bíblicas impróprias
[1539] Os testemunhos da Escritura que citam em apoio às suas mentiras são
corrompidos perversamente por eles. Dizem eles que Jacó, quando estava para
morrer, pediu que o seu nome e o de seus pais Abraão e Isaque fossem invocados
sobre os seus descendentes59
. Primeiro, observemos que essa é a forma de invo-
cação entre os israelitas. Eles não chamam seus pais para que os ajudem, mas tão-
somente pedem a Deus que se lembre dos Seus servos Abraão, Isaque e Jacó.
Esse exemplo de nada serve aos que dirigem suas palavras aos santos. Mas, visto
que esses cabeças de paua
, lerdos e tolos como sãob
, não consideram o que signi-
fica invocar o nome de Jacó ou com que finalidade deve ser invocado, não é de
admirar que errem de maneira tão ridícula. Para entendermos bem este assunto,
devemos notar que essa frase consta noutra passagem da Escritura. Diz o profeta
Isaías que o nome dos homens é invocado sobre as mulheres, como quando elas
os reconhecem como seus maridos e ficam sob a sua tutela e proteção60
. Portanto,
a invocação do nome de Abraão sobre os israelitas consiste em que, reconhecen-
do nele o autor da sua linhagem e descendência, mantêm solenemente a memória
do seu nome, como do próprio pai. E isso Jacó não faz preocupado com sua
116 As Institutas – Edição Especial
reputação ou fama pessoal. Mas é que ele considera que toda a felicidade da sua
posteridade nisso está estabelecida, podendo ser desfrutada graças à sucessão
assegurada pela aliança que Deus tinha feito com ele; e deseja para os seus des-
cendentes o que ele sabe que é o seu principal bem: que eles sejam considerados
pelo nome dos seus filhos [de Jacó] e reconhecidos como sua linhagem. Pois isso
outra coisa não é senão a transferência direta e ininterrupta da sucessão da referi-
da aliança.
Por outro lado, os sucessores ou descendentes, trazendo com suas orações
tais fatos à lembrança, não têm seu refúgio na intercessão dos mortos, mas pedem
ao Senhor que se lembre da promessa com a qual Ele tinha testificado que lhes
seria propício e generoso por causa de Abraão, Isaque e Jacó. Ademais, bem
pouco podem os crentes descansar firmados nos méritos dos seus pais, sendo
suficiente a respeito disso a declaração que lemos em Isaías, na qual, falando em
nome de toda a igreja em geral, o profeta se expressa desta forma: Senhor, “tu és
nosso Pai, ainda que Abraão não nos conhece, e Israel não nos reconhece; tu, ó
Senhor, és nosso Pai; nosso Redentor é o teu nome desde a antigüidade61
”. Não
obstante falar desse modo, ele acrescenta igualmente este clamor ao Senhor: “Volta,
por amor dos teus servos e das tribos da tua herança”. Não significa que eles
imaginam alguma intercessão, mas sim que trazem à lembrança o benefício da
aliança. Pois bem, agora que temos o Senhor Jesus, por cuja mão a aliança eterna
da misericórdia não somente foi feita, mas também foi confirmada, de quem mais
pretenderíamos usar o nome em nossas orações?
[1536] Mas alguns se impressionam com esta razão: que as orações dos
santos freqüentemente são atendidas. Por quê? Certamente porque oram assim:
“Nossos pais confiaram em ti”, diz o profeta; “confiaram, e os livraste. A ti cla-
maram e se livraram; confiaram em ti e não foram confundidos62
”. Portanto, ore-
mos também conforme o seu exemplo, para que nós, como eles, sejamos atendi-
dos. – Mas não argumentemosa
contra toda a ordem da razão dizendo que nisso
ninguém será atendido, senão aqueles que já o foram. Muito melhor é o argumen-
to de Tiago63
. Diz ele: “Elias era homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos
sentimentos, e orou, com instância, para que não chovesse sobre a terra, e, por
três anos e seis meses, não choveu. E orou, de novo, e o céu deu chuva, e a terra
fez germinar seus frutos”. E então? Infere ele que Elias tinha alguma prerrogativa
singular à qual não devemos recorrer? Não. Ao contrário, ele demonstra a eficá-
cia perpétua da oração pura e santa, para nos exortar a orar de modo semelhante.
Porque reconheceremos mui pobremente a prontidão e a benignidade de Deus
para atender aos Seus, a não ser que, pela experiência dos santos que foram aten-
didos, sejamos fortalecidos numa confiança mais segura em Suas promessas. Ora,
nestas Ele não dizb
que os Seus ouvidos estão inclinados para ouvir um ou dois ou
um pequeno número, mas sim para ouvir todos os que invocarem o Seu nome.
117
Elementos componentes da oração
A oração, como nós a entendemosc
, tem duas partes, quais sejam: petição e ação
de graças. Porque os elementos citados pelo apóstolo Paulo64
se reduzem todos a
estes dois membrosd
. Pela petição expomos o nosso coração e o nosso desejo a
Deus, primeiro pedindo de Sua bondade as coisas que visam e servem à Sua
glória, e, depois, as que também nos são úteis e das quais temos necessidade. E
pela ação de graças reconhecemos os benefícios que Ele nos faz e os confessa-
mos para o Seu louvor, e a Ele remetemos todas as coisas, dando-lhe glória por
todos os bens em geral e os atribuindo à Sua bondade. Essas duas partes Davi
abrange num só versículo quando, em nome do Senhor, diz: “Invoca-me no dia da
angústia65
; eu te livrarei, e tu me glorificarás66
”.67
Devemos fazer constante uso dos dois componentes da oração68
, porque a
nossa indigência e pobreza é tão grande, as nossas imperfeições nos pressionam
tão fortemente de todos os lados e pesam tanto sobre nós, que é bom que todos,
até mesmo os santos, busquem sempre ocasião para lamentar-se e suspirar diante
de Deus e invocá-lo com toda a humildade. Por outro lado, tão grandes, constan-
tes e abundantes bênçãos do Senhor jorram sobre nós, como também os milagres
das Suas obras que se vêem por toda parte para onde se olhe, manifestam-se tão
grandiosos, tão excelentes e infindáveis, que jamais nos faltam causa e motivos
para louvá-lo, glorificá-lo, exaltá-lo, e para Lhe render graças em tudo e por tudo.
E, para que isso seja explicado melhor, visto que [1536] toda a nossa esperança e
todo o nosso bem estão de tal modo firmados em Deus, como há pouco foi
suficientemente demonstrado, que não podemos prosperar, nós, o que é nosso, e
tudo o que diz respeito a nós, sem a Sua bênção, devemos encomendar-nos con-
tinuamente69
a Ele, nós e tudo quanto é nosso. Além disso, que tudo o que proje-
tarmos, dissermos e fizermos seja projetado, dito e feito sob a Sua mão e Sua
vontade, e com esperança de receber o Seu auxílio. Porque estão sob a maldição
de Deus todos os que, confiando em si mesmos ou em outros, planejam e delibe-
ram o seu propósito, e empreendem e se dispõem a começar alguma coisa fora da
Sua vontade e sem invocar nem implorar o Seu auxílio70
.
Do que foi dito, que é necessário crer e reconhecer que Deus é o autor de
todo bem, segue-se que devemos receber tudo como vindo de Sua mão, e com
incessante ação de graças. Reconheçamos igualmente que não haverá nenhuma
boa maneira de fazer uso dos benefícios que generosa e abundantemente Ele
derrama sobre nós, se não Lhe estivermos dando constante louvor, com ações de
graças. Porque, quando o apóstolo Paulo declara que todos os benefícios de Deus
nos são santificados pela Palavra e pela oração71
, com isso igualmente demonstra
que sem a Palavra e a oração eles não são santificados. Pela Palavra ele entende
a féa
[1541], que tem correlação com a Palavra, na qual é preciso ter fé. Assim,
sem oração e sem a fé nenhum bem dado por Deus nos será santificado.
118 As Institutas – Edição Especial
[1539] Bomb
ensino nos dá, pois, Davi quando declara que, tendo recebido
nova bênção de Deus, foi posto em seus lábios um novo cântico72
. Com isso ele
dá a entender que o nosso silêncio não estará isento de ingratidão, se deixarmos
passar sem louvor alguma de Suas graças; visto que todas as vezes que Ele nos
faz algum benefício, dá-nos motivo para bendizê-lo.
“Orai sem cessar.”
[1536] Essa é a razão pela qual o apóstolo Paulo, noutra passagem73
, nos manda
orar sem cessar. Quer ele dizer o seguinte: que devemos fazer o possível para
que o tempo todo, toda hora, em todo lugar e em todas as coisas, os nossos
desejos sejam elevados a Deus; que desejemos dele todo bem e Lhe rendamos
louvor e graças por todo bem; lembrando que em todas as coisas Ele continua-
mente nos exorta e nos adverte por meio delas. E que assim se deve orar cons-
tantemente, embora se entenda como se referindo principalmente a cada pessoa
orando em particular, todavia também se refere de algum modo às orações pú-
blicas. Se bem que não podem ser contínuas e que não devem ser feitas senão
conforme as normasa
estabelecidas por consentimento comum da igreja, em
suas assembléias oportunamente realizadas. Há, portanto, horas determinadas,
indiferentes quanto a Deus, mas necessárias quando ao uso dos homens, a fim
de que se dê atenção à comodidade de todos e que, como diz o apóstolo Paulo74
,
“tudo seja feito com decência e ordem”. [1539]b
Isso não impede, porém, que
cada igreja deva sempre incentivar o freqüente uso da oração, particularmente
quando se vir premida por alguma necessidade.
O Senhor proíbe orações demoradas e
suas vãs repetições
No tocante à perseverançac
, muito próxima da continuidade, teremos ocasião de
falar na parte final destas considerações.Agora, de nada serve manter o superstici-
oso prolongamento e repetição das oraçõesd
, prática que o Senhor nos proíbe.75
Ele
não proíbe a persistência nas orações, nem que elas sejam feitas demoradamente,
nem com freqüência nem com veemente fervor, mas nos ensina a não confiar em
que se pode constranger Deus a atender às nossas petições pela nossa importunação
com vã loquacidade, como se fosse possível dobrá-lo pelo muito falar, como se
dá entre os homens76
.77
Interioridade e recato
[1536] Visto que, como já foi dito, a finalidade da oração é que o nosso espírito se
eleve e se dirija a Deus para augurar Sua glória, proclamar Seus louvores e pedir
que nos ajude em nossas necessidades, disso mesmo podemos saber que o prin-
cipal na oração está no coração e no espíritoe
. Ou ainda, tomamos consciência de
119
que a oração é, propriamente, voltar e dirigir o nosso desejo interior a Deus, que
conhece os segredos do nosso coração. Por isso o Senhor Jesus Cristo, quando
quis dar-nos uma boa regra para a prática da oração, nos ordenou que entremos
em nosso quarto, fechemos a porta, e em secreto oremos ao nosso Pai celeste, a
fim de que Ele, que vê e penetra todos os segredos, nos atenda. Porque, depois de
nos afastar do exemplo dos hipócritas que, por ambiciosa ostentação em suas
orações, procuram ser glorificados e favorecidos pelo povo, Ele acrescenta e en-
sina subseqüentemente o que se deve fazer, a saber, entrar no quarto e orar a sós.
Por essas palavras eu entendo que Ele nos instrui a buscar refúgio e uma
concentração tal que nos ajude a penetrar o nosso íntimo com todo o nosso pen-
samento, e nos promete que, aprofundando-nos nos sentimentos recônditos do
nosso coração, teremos Deus próximo de nós, de quem o nosso corpo deve ser
um verdadeiro templo78
. Com isso Ele não quis dizer que não é permitido e que é
errôneo orar noutros lugares, mas apenas quis declarar que a oração é algo secre-
to e que se abriga principalmente no coração e no espírito, cuja tranqüilidade ela
requer, distante de todos os sentimentos e afetos carnais, bem como de todas as
preocupações com interesses e cuidados terrenais.79
O exemplo de Jesus
[1539] Não é, pois, sem motivo que mesmo o Senhor Jesus, querendo dedicar-se
à oração, retirava-se do vozerio dos homens80
. Mas Ele fazia isso mais para ad-
moestar-nos, por Seu exemplo, a não desprezarmos recursos como esse para que
por eles seja elevado o ardor do nosso amor pela prática da oração. Entretanto,
como Ele não deixava de orar no meio da multidão quando Lhe era dada oportu-
nidade, assim também nós não devemos pôr dificuldade em elevar as mãos aos
céus em todo e qualquer lugar, sempre que houver motivo e ocasião para isso. E
ainda, como a Palavra de Deus ordena que se façam orações públicas entre os
crentes81
, assim é necessário que haja templos para esse fim designadosa
. Com
isso, todos os que se recusarem a orar em comunhão com o povo de Deus, não
poderão acobertar-seb
com a desculpa de que, para orar, entram em seus quartos,
em obediência ao mandamento de Deus. Porque Aquele que prometeu fazer o
que dois ou três reunidos em Seu nome pedirem82
, testifica fartamente que Ele
não condena as orações públicasc
, mas sim requer que toda ambição e toda cobiça
de glória sejam excluídas. E, ao contrário, que haja verdadeiro e puro amor no
fundo do coração. Se este for o uso legítimo dos templos (como é certo que é),
devemos ter o cuidado de não considerá-los dignos habitáculos de Deus (como
se tem feito por longos anos) nos quais o Senhor nos ouve mais de perto; que não
lhes atribuamos alguma santidade secreta capaz de tornar a nossa oração melhor
diante de Deusd
. Porque, se nós somos verdadeiros templos de Deus83
, devemos
orar a Deus em nosso íntimo, se O queremos invocar em Seu verdadeiro templo.
E quanto àquela opinião grosseira e carnal, deixemo-la com os judeus ou com os
120 As Institutas – Edição Especial
gentios, porquanto nós temos o mandamento que nos impele a invocar o Senhor
“em espírito e em verdade84
”, sem dar importância a diferenças de lugar. É verda-
de que antigamente o templo era dedicado, por mandamento de Deus, à oferta de
orações e de sacrifícios; mas isso foi no tempo em que a verdade era figurada sob
tais sombras85
. Como agora a verdade nos é declarada vividamente, não nos é
permitido apegar-nos a nenhum templo material. E mesmo entre os judeus o tem-
plo não era recomendado no sentido de que eles enclausurassem a presença de
Deus dentro dos seus muros, mas para que eles se exercitassem pela contempla-
ção da figura e imagem do templo verdadeiro86
. Porque os que de algum modo
achavam que Deus habita templos construídos pelas mãos dos homens foram
repreendidos por Estêvão87
.
***
A hipocrisia condenada
[1536] Semelhantemente, Ele expõe com toda a clareza que o falar e o cantar, se
acompanham a oração, de nada valem diante de Deus e não Lhe são de nenhum
proveito, se não são fruto do amor e se não vêm do fundo do coração. Muito ao
contrário, porém, causam ao Senhor grande indignação e provocam fortemente
a Sua ira, se só procedem da boca e dela saem, porque isso é abusar do Seu
sacratíssimo nome e zombar da Sua majestade, como Ele o declara por intermé-
dio do Seu profeta, dizendo: “Visto que este povo se aproxima de mim e com a
sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim, e
o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, que maquinal-
mente aprendeu, continuarei a fazer obra maravilhosa no meio deste povo; sim,
obra maravilhosa e um portento; de maneira que a sabedoria dos seus sábios
perecerá, e a prudência dos seus prudentes se esconderá88
”. Todavia, não dizemos
que a palavra e o canto não são bons; antes, os prezamos muito, desde que sigam
o amor de coração e a este atendam.89
[1536] Porquea
, assim procedendo, eles
ajudam a intenção do homem e a mantém ligada à reflexão sobre Deus e em Sua
contemplação, advertidos como devemos estar de que aquela boa intenção tende
a desviar-se facilmente desse propósito, se não for fortalecida por todos os meios
disponíveis. Além disso, tendo em vista que todos os membros do nosso corpo
devem glorificar a Deus, bom será que a própria língua, criada por Deus especi-
almente para anunciar e glorificar o Seu nome, seja empregada nesse mister, quer
falando quer cantando. E, principalmente, ela é necessária para as orações que se
fazem publicamente nas assembléias dos cristãos, aos quais devemos mostrar
que, como honramos a Deus com um mesmo espírito e com a mesma fé, também
O louvamos com uma mesma palavra, comum a todos, e, pode-se dizer, com a
mesma bocaa
. E isso diante dos homens, para que cada um ouça declaradamente
a confissão da fé que seu irmão tem, e seja edificado e incitadob
a imitá-la.
121
Na língua do povo...
Daí se vê também que as orações públicas não devem ser feitas em grego entre
os latinos, e em latim entre os franceses ou ingleses (como até aqui tem sido
costume), mas na língua comum do paísc
, de maneira que toda a assembléia as
possa entender. Sim, pois, a oração deve ser feita para a edificação de toda a
igreja, a qual não receberá nenhum fruto de um palavrório não entendido. Mes-
mo aqueles que não tem nenhum respeito pela caridade nem pela humanidade
deveriam ao menos sensibilizar-se um pouco diante da autoridade do apóstolo
Paulo, cujas palavras são bastante claras90
: “Se tu bendisseres com o espíritod
,
como dirá o que ocupa o lugar de indouto, o Amém, sobre a tua ação de graças,
visto que [ele] não sabe o que dizes? Porque realmente tu dás bem graças, mas
o outro não é edificado”.
[1539] Não há, pois, como assombrar-nos suficientemente com a audácia
desenfreada dos seguidores do papa de antanho e atuais que, contra a proibiçãoe
do apóstolo, cantam e falam ostensivamente em língua estrangeira e desconhecidaa
,
da qual muitas vezes nem eles entendem uma sílaba sequer – e querem que os
outros entendam! Pois bem, o apóstolo nos mostra que devemos seguir outro
caminho, dizendo91
: “Que farei, então? Orarei com a voz; orarei com o entendi-
mento. Cantarei com a voz; cantarei com inteligência”. Nessa passagem ele em-
prega a palavra “espírito” onde nós colocamos a palavra “voz”; mas com o mes-
mo sentido, porque eu entendo que o som formado pela respiração é a reverberaçãob
do ar ao ser espirado pela garganta.92
[1536] Contudo, devemos pensar sempre que, sem o coração, a língua é
muito desagradável a Deus (quer na oração particular quer na pública); que, ade-
mais, o ardor e veemência do querer deve ser tão grande que ultrapasse tudo
quanto a língua possa exprimir; e, finalmente, que na oração particular a língua
mesma não é tão necessária, acontecendo, porém, que o entendimento ou a mente
nem sempre é suficiente para induzir piedade [1539], ou então sendo o caso de
que, pela emoção calorosa, a oração impulsione a língua e a constranja a pôr-se
em ação. Porque, embora por vezes as melhores orações sejam as que são feitas
sem o uso da fala audível, não obstante, muitas vezes sucede que o sentimento do
coração é tão ardoroso que incita à ação a língua e outros membros, sem que haja
nisso algum sentimento ambiciosoc
. Disso decorre que Ana, mãe de Samuel,
murmurou movendo os lábiosd
, pretendendo orar93
. E os crentes experimentam
diariamente algo disso quando, em suas orações, emitem voz e suspiros sem ter
pensado nisso.
Quanto a atitudes e modos
Quanto às atitudes e aos modos exteriores do corpo que é costume observar
(como o hábito de ajoelhar-se e dee
descobrir a cabeça), estas maneiras de agir
122 As Institutas – Edição Especial
são práticas pelas quais nos esforçamos para nos preparar para prestar maior
reverência a Deus.
[1536] Ademais, agora é necessário que aprendamos não somente o modoa
de fazer oração, mas o próprio estilo, e também a f’órmula que o nosso Pai celestial
nos deu por meio do Seu amado Filho, nosso Senhor Jesus Cristo94
. Vemos aí
uma grande bondade e ternura. Porque, além deb
nos admoestar e exortar a que O
busquemos em todas as nossas necessidades (como os filhos podem recorrer a
seu pai sempre que são premidos pela necessidade), sabendo que não podemos
entender quão grande é a nossa pobreza e miséria nem compreender o que é bom
pedir-lhe e o que de fato nos é útil e proveitoso, Ele quis acudir-nos e suprir-nos
de Si próprio o que falta ao nosso espírito. E nos deu uma oração modelar na
qual, como num quadro, Ele coloca em evidência para nós tudo o que nos é lícito
querer e desejar dele; tudo o que nos pode servir e nos dar proveito; e tudo o que
é bom e necessário que Lhe peçamos. Dessa benignidade e mansuetude podemos
gozar singular consolo. Porque nos apercebemos e nos certificamos de que não
Lhe fazemos pedido ilícito ou importuno, nada que Lhe pareça estranho ou insen-
sato. E não Lhe pedimos nada que não Lhe seja agradável quando, seguindo
assim a Sua norma, oramos como que por Sua boca.
Lição oriunda de um poeta pagão por meio de um
famoso filósofo também pagão
[1539] Platão95
, vendo a ignorância dos homens em seus desejos e nos votos que
fazem a Deus, os quais muitas vezes não lhes podem ser concedidos senão à custa
de grande prejuízo ou dano, declara que a melhor maneira de orar é a que nos é
dada por um poeta pagão antigo, nestes termos: “Pedir a Deus que nos faça o
bem, quer Lhe peçamos quer nãoa
, e que se disponha a afastar de nós o mal
quando desejamos que nos sobrevenha”. Boa opinião essa, considerando-se que
vem de um pagão, pois ele vê quão perigoso é pedir a Deus o que nos ensina a
nossa cobiça. Paralelamente, mostra a nossa desgraça, que consiste em não po-
dermos abrir sem risco a nossa boca para pedir alguma coisa a Deus, se o Espírito
Santo não nos conduzir na forma certa de bem orar.96
A oração do Senhor: Seis petições.
[1536] Esta oração ou modelo normativo para orar contém seis petiçõesb
. Te-
nho motivo para não concordar com os que fazem uma divisão de setec
artigos,
pois o evangelista, falando desta forma, “Não nos induzas à tentação, mas li-
vra-nos do maligno97
”,98
junta estes dois membros, formando assim com eles
uma só petição. Como se dissesse: “Não permitas que sejamos vencidos pela
tentação; antes, socorre a nossa fragilidade e livra-nos, para que não sucumba-
mos”. E de fato os antigos doutores99
concordam com esta exposição. Com base
nisso, é fácil julgar que a parte que foi acrescentada em Mateus e que alguns
123
têm contado como uma sétima petição, é tão-somente uma explicação da sexta
e a esta deve ser reportada.
Agora, considerando que a oração é tal que em cada parte dela devemos ter
em vista principalmente a honra de Deus, e também, conquanto nos seja provei-
toso que tudo o que nela se contém suceda nos termos em que o pedimos, todavia,
as três primeiras petições são especialmente destinadas a requerer a glória de
Deusa
, a qual nelas devemos considerar sem dar nenhuma atenção a nós mesmos;
as outras três contêm especialmente as coisas que devemos pedir com vistas às
nossas necessidades.
Reforçando o ponto: Quando pedimos na oração que o nome de Deus seja
santificado, não devemos fazer essa petição tendo em vista algum proveito para
nós, mas somente tendo em consideração a glória de Deus, sem nenhum outro
interesse, fim ou intenção. E, contudo, essa mesma petição redunda em nosso
proveito e utilidade. Porque, quando pedimos dessa maneira que o nome de Deus
seja santificado, paralelamente é feito benefício à nossa santificação. Mas, como
foi dito, nem nesse proveito devemos pensar quando fazemos a primeira petição.
De tal modo deve ser assim que, ainda que fosse excluído todo o nosso proveito
e que nada recebêssemos de Deus em resposta à oração, não devemos deixar de
desejar e pedir em oração esta santificação do nome de Deus, bem como as outras
coisas semelhantes que pertencem à Sua glória.100
O exemplo de Moisés e de Paulo
Como se vê no exemplo de Moisés e de Paulo101
, os quais, desviando de si mes-
mos o seu amor, desejaram com um zelo fervoroso e inflamado a sua própria
perdição. Agiram assim para que, mesmo com seu próprio prejuízo e dano, se
necessário fosse, a glória de Deus fosse exaltada e Seu reino multiplicado. Por
outro lado, quando pedimos que nos seja dado o nosso pão cotidiano, embora
estejamos pedindo coisas concernentes a nós e ao nosso proveito, devemos, con-
tudo, buscar nisso primeiramente a glória de Deus; a tal ponto se deve levar isso
a sério que, se não visarmos à glória de Deus, não devemos querer fazer petição,
nem desejar ou querer ter o que pretenderíamos pedir.102
[1539] Passemos agora a expor a oração.
Exposição da oração do Senhor
[1536] PAI NOSSO, QUE ESTÁS NOS CÉUS
Primeiramente aqui, no começo desta oração, vê-se o que já dissemos: que
é necessário que todas as nossas orações sejam apresentadas e dirigidas por nós a
Deus em nome de Jesus Cristo, porquanto nenhuma oração Lhe será aceitávela
,
se feita mediante outro nome. Como aqui chamamos a Deus nosso Pai, significa
que nos dirigimos a Ele em nome de Jesus Cristo. Porque nós mesmos não pode-
mos denominar Deus nosso Pai, e seria arrogânciab
e temeridade usurpar o nome
124 As Institutas – Edição Especial
de Seus filhos, se não tivermos sido feitos fihos da Sua graça em Jesus Cristo.
Este, sendo o Seu verdadeiro, natural e próprio Filho, nos é dado por Ele como
irmão, a fim de que, aquilo que Ele tem por natureza, seja feito nosso por dádiva
e por adoção, se com genuína fé aceitamos este grande benefício. Como diz o
apóstolo João: “A todos os que crêem em seu Filho Jesus Cristo, ele deu esta
grande e excelente bênção e este privilégio de serem feitos filhos de Deus103
”.
Portanto, Ele se denomina nosso Pai, e quer ser assim chamado por nós,
livrando-nos de toda dúvida pelo grande dulçor contido nesse nome. Porque não
existe nenhum afeto amoroso que se compare com o amor paterno. [1539]Assim,
Ele não poderia testificar com argumentos mais seguros e indubitáveis o Seu
infinito amor por nós que neste fato: querer que nós sejamos considerados Seus
filhos. [1536] E, ainda mais, o Seu amor por nós é maior do que todo o amor dos
pais terrenos para com seus filhos, visto que, acima de todos os homens, Ele é
perfeito em toda bondade e misericórdia. Tanto que, se pudesse acontecer que
todos os pais existentes na terá viessem a perder todo o seu amor e afeto paterno
e abandonassem e desamparassem os seus filhos, jamais o amor paternal de
Deus poderia faltar ou falhar, porquanto Ele não pode negar-se a Si mesmo.
125
1
Cl 1.19 e contexto; Jo 1.14-18.
2
“Cristo não é só o primogênito de toda criatura; ele é também o restaurador da humanidade.” [João Calvino,
O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 1, (Sl 8.5), p. 169].
3
Na edição de 1559, Calvino ratifica sua compreensão, entendendo que “com a oração encontramos e desenter-
ramos os tesouros que se mostram e descobrem à nossa fé pelo Evangelho” [J. Calvino, As Institutas,
III.20.2] e, que “a oração é um dever compulsório de todos os dias e de todos os momentos de nossa vida”
[João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 50.14-15), p. 410] e: “Os crentes genuínos, quando confiam
em Deus, não se tornam por essa conta negligentes à oração.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1,
(Sl 30.6), p. 633]. Portanto, este tesouro não pode ser negligenciado como se “enterrado e oculto no solo!”.
[João Calvino, As Institutas, III.20.1]
4
Joel 2. [Notar o versículo 17.]
5
“Aquele que confia na providência divina deve fugir para Deus com orações e forte clamor.” [João Calvino, O
Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 31.17), p. 27].
6
“Embora Deus nem sempre surja imediatamente em nosso socorro, segundo a pressa de nossos desejos,
todavia ele sempre virá a nós no tempo oportuno....”. [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 46.5),
p. 333].
7
Sl 45. [Notar os versículos 2, 6 e 7.]
8
[Sl 145.18.]
9
“Todo crente deve ter o desejo fervoroso de contar com Deus em cada momento de sua vida.” (João Calvino,
A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo, Novo Século, 2000, p. 31).
10
Sl 130.
11
“Quando a segurança carnal se haja assenhoreado de alguém, tal pessoa não pode entregar-se alegremente à
oração até que seja feita maleável pela cruz e completamente subjugada. E esta é a vantagem primordial das
aflições, ou seja, enquanto nos tornam conscientes de nossa miséria, nos estimulam novamente para supli-
carmos o favor divino.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 30.8), p. 635].
12
Rm 8.26.
13
"A língua nem sempre é necessária, mas a oração verdadeira não pode carecer de inteligência e de afeto de
ânimo”, [J. Calvino, Catecismo de Genebra, Perg. 240] a saber: “O primeiro, que sintamos nossa pobreza
e miséria, e que este sentimento gere dor e angústia em nossos ânimos. O segundo, que estejamos inflama-
dos com um veemente e verdadeiro desejo de alcançar misericórdia de Deus, e que este desejo acenda em
nós o ardor de orar.” [J. Calvino, Catecismo de Genebra, Perg. 243].
14
De forma figurada, Calvino diz que “o coração de Deus é um ‘Santo dos Santos’, inacessível a todos os
homens”, sendo o Espírito Quem nos conduz a ele. [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo,
Paracletos, 1996, (1Co 2.11), p. 88].
15
Dn 9.18,19.
16
Is 64.5-9.
17
Jr 14.7.
18
Baruque 2.18,19. [Apud Matos Soares. A parte final, em itálico, é minha tradução direta do texto de Calvino.
N. do T.].
19
“Sl 86.2. [Calvino: “Guarda a minha alma, pois eu sou bom”. Almeida, Revista e Corrigida: “...pois sou
santo”. NVI: “...pois sou fiel a ti”. Hebraico: hasid. Gesenius: bondoso, excelente. Com relação a Deus:
piedoso. N. do T.]
20
Is 38.3.
21
Sl 34.15.
22
1Jo 3.22.
23
Jo 9.31.
24
Alguns mestres condenam essa expressão, mas prefiro ficar com Caldas Aulete, que diz: “Desencargo, s. m.
O mesmo que descargo: ...só por desencargo de consciência alguns...”. Nota do tradutor.
25
Sl 145.18; Jr 29.13.
26
Mc 11.20-26.
27
Tg 1.5-8.
126 As Institutas – Edição Especial
28
Rm 10.1-12.
29
Sl 41.4.
30
Calvino, relacionando as nossas orações ao cuidado providente de Deus, escreve: “Para incitar os verdadei-
ros crentes a uma mais profunda solicitude à oração, Ele promete que, o que propusera fazer movido por Seu
próprio beneplácito, Ele concederia em resposta a seus pedidos. Tampouco existe alguma inconsistência
ente estas duas verdades, a saber: que Deus preserva a Igreja no exercício de sua soberana mercê, e que Ele
a preserva em resposta às orações de Seu povo. Pois, visto que suas orações se acham conectadas às promes-
sas graciosas, o efeito daquelas depende inteiramente destas.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 3,
(Sl 102.17), p. 578].
31
Lc 11.9-13; Jo 16.24; Mt 7.7-11 e 11.28; [Sl 27.8; 50.15; Zc 3.1].
32
Êx 20.7.
33
[Sl 22.23,24; 35.27; Is 24.14-16; Mt 6.13; At 12.23; Rm 11.36; 1Pe 4.11; Ap 4.11,12; 7.12; 14.6,7.]
34
“Deus só é corretamente servido quando sua lei for obedecida. Não se deixa a cada um a liberdade de
codificar um sistema de religião ao sabor de sua própria inclinação, senão que o padrão de piedade deve ser
tomado da Palavra de Deus.” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 1, (Sl
1.2), p. 53). “Portanto, em nosso curso de ação, deve-se-nos ter em mira esta vontade de Deus que Ele
declara em Sua Palavra. Deus requer de nós unicamente isto: o que Ele preceitua. Se intentamos algo contra
o Seu preceito, obediência não é; pelo contrário, contumácia e transgressão.” (João Calvino, As Institutas,
I.17.5).
35
Mt 7.7; Jr 29.12,13; Sl 50.15 e 91.15.
36
Sl 145.18; Is 30.19.
37
Jl 2.32.
38
“Nossa fé não tem que estar fundamentada no que nós tenhamos pensado por nós mesmos, senão no que nos
foi prometido por Deus.” [J. Calvino, Sermones Sobre La Obra Salvadora de Cristo, Jenison, Michigan,
TELL, 1988, “Sermon nº 13”, p. 156].
39
2Sm 7.27-29; 1Cr 17.25-27.
40
Gn 32.9-12, 22-32.
41
1Tm 2.5; 1Jo 2.1; Hb 8.6 e 9.15.
42
Hb 4.14-16.
43
Jo 14.13,14 e 16.23-27.
44
2Co 1.20.
45
Jo 14.6. [ver os versículos 5 a 11].
46
Jo 6.41-71.
47
1Tm 2.1-3.
48
Quando a referência é mais geral ou é especificamente feita à chefia ou soberania universal de Cristo,
emprego a expressão “o Cabeça”; quando a referência é implícita ou explicitamente à igreja como organis-
mo (corpo), com relação a Cristo emprego a expressão “a Cabeça”. Cf. Ef 4.15 e Cl 2.10 (NVI; quanto a Ef
4.15, comparar ARA 1ª. e 2ª. edições) (N. do T.).
49
“Não carecemos de nutrir nenhuma preocupação de que Deus rejeite as nossas orações em favor da Igreja,
visto que o nosso Rei celestial nos precedeu para fazer intercessão por ela, de modo que, ao orarmos por ela,
estamos apenas nos diligenciando por seguir seu exemplo.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl
21.1), p. 456]. “Não temos como medir esta intercessão pelo nosso critério carnal, pois não podemos pensar
do Intercessor como humilde suplicante diante do Pai, com os joelhos genuflexos e com as mãos estendidas.
Cristo contudo, com razão intercede por nós, visto que comparece continuamente diante do Pai, como morto
e ressurreto, que assume a posição de eterno intercessor, defendendo-nos com eficácia e vívida oração para
reconciliar-nos com o Pai e levá-lo a ouvir-nos com prontidão.” [J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm
8.34), p. 304].
50
1Jo 2.1.
51
Rm 8.34.
52
1Tm 2.1,5.
53
Cl 1.13-19; Ef 1.
127
54
De Isaac et anima, cap. 8, 75 (Migne, 14, 550).
55
Jr 15.1.
56
Ez 14.14.
57
At 13.36.
58
Ec 9 [notem-se os versículos 4, 5 e 10].
59
Gn 48.16; Ec 9.
60
Is 4.1.
61
Is 63.16, 17.
62
Sl 22.4,5.
63
Tg 5.17,18.
64
1Tm 2.1.
65
Na tradução usada por Calvino: “necessidade” (N. do T..).
66
Sl 50.15.
67
“Tudo quanto no serve de encorajamento, ao nos pormos a buscar a Deus em oração, nos é ensinado neste
livro [Salmos].” (João Calvino, O Livro de Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. I, p. 34)
68
Lc 18 e 21; Ef 5.18-21.
69
Tg 4.1-10.
70
Is 30 e 31.
71
1Tm 4.1-5.
72
Sl 40.1-3.
73
1 Ts 5.17; 2 Tm 2.22.
74
1Co 14.40.
75
Jesus nos ensina a não usarmos em nossas orações de ”vãs repetições” (ARA;ACR; BJ), “palavras vãs”
(ARC).A expressão usada por Cristo (Battaloge/w “battalogeõ”), que só ocorre aqui, parece ser onomatopéica,
significando “falar sem sentido”, “balbuciar”, “repetir palavras ou sons inarticulados”, “falar sem pensar”,
“falar futilmente”, “gaguejar”, “dizer sempre a mesma coisa”, “tagarelar”, “uma repetição supérflua e exa-
gerada”, “repetir uma fórmula muitas vezes”, etc. Tyndale traduz: “Tagareleis demais”; Knox: “Useis muitas
frases”; Velha Versão Siríaca: “Não digais coisas ociosas”. Esta palavra é constituída de (Ba/ttoj = “gago” &
loge/w = “falar”). Ela é de derivação incerta; Erasmo (1467-1536), por exemplo, entendia que esta expres-
são era proveniente de “Bato”, personagem descrito por Heródoto: “Chegando a Teras, Polineto, homem de
alta posição, tomou a jovem como concubina, e o casal teve, no fim de certo tempo, um filho que gaguejava
e sibilava. Essa criança, segundo os Tereus e Cireneus, recebeu o nome de Bato” (Heródoto, História,
IV.155). No entanto, Heródoto, que discorda desta explicação para o nome do menino, diz que “batus
significa rei na língua dos Líbios.” (Heródoto, História, IV.155). Também especula-se que esta expressão
viria por derivação de um poeta medíocre, Battus, que teria feito hinos extensos, cheios de repetições. O fato
é que ninguém consegue precisar a origem da palavra.
Agostinho observa que “toda essa abundância de palavras vem dos gentios, que se preocupam mais em
exercitar sua língua do que purificar o coração. Esforçam-se eles em aplicar também esse linguajar frívolo
na oração para tentar dobrar a Deus. Julgam que alguém pode incliná-lo com o fluxo de palavras.” (Agosti-
nho, Sermão da Montanha, II.1.3. p. 113).
76
Mt 6.7,8.
77
“Os crentes não oram com a intenção de informar a Deus a respeito das coisas que Ele desconheça, ou para
incitá-lo a cumprir o Seu dever, ou para apressá-Lo, como se Ele fosse relutante. Pelo contrário, eles oram
para que assim possam despertar-se e buscá-Lo, e assim exercitem sua fé na meditação das Suas promessas,
e aliviem suas ansiedades, deixando-as nas mãos dEle; numa palavra, oram com o fim de declarar que sua
esperança e expectativa das coisas boas, para eles mesmos e para os outros, está só nEle”. [John Calvin,
Commentary on a Harmony of the Evangelists, Mattew, Mark, and Luke, Grand Rapids, Michigan,
Baker Book House, 1981 (Reprinted), p. 314].
78
1Co 3.16,17; [6.19]; 2Co 6.16.
79
Agostinho (354-430), comentando Mt 6.6, diz:
“Não basta entrar no quarto. Se a porta ficar aberta aos importúnios, ela dá entrada às futilidades exteriores que
128 As Institutas – Edição Especial
vêm perturbar nosso recolhimento. Dissemos que vêm de fora para significar as realidades passageiras e
sensíveis que penetram pela porta, isto é, pelos nossos sentidos corporais, pois uma multidão de vãs imagens
perturbam nossa oração. Em conseqüência, é preciso fechar a porta: resistir às solicitações dos sentidos
corporais, para que uma oração toda espiritual se dirija ao Pai. Oração essa feita no íntimo do coração, onde
em segredo rezamos [oramos] ao Pai.” (Agostinho, Sermão da Montanha, São Paulo, Paulinas, 1992,
II.1.3. p. 112)
80
Mc 1.35; 6.46.
81
1Tm 2.1-8.
82
Mt 18.19,20.
83
1Co 3.16,17 e 6.19; 2Co 6.16.
84
Jo 4.23,24.
85
Hb 9 e 10.
86
Is 66.
87
At 7.42-53.
88
Is 29.13,14; Mt 15.7-9.
89
“Nem, contudo, aqui condenamos a voz ou o canto, senão que antes, muito os recomendamos, desde que
acompanhem o afeto da alma. Ora, assim exercitam a mente na cogitação de Deus e a retêm atenta, a qual,
como é escorregadia e versátil, facilmente se afrouxa e a variadas direções se distrai, a menos que seja de
variados adminículos sustentada. Ademais, como em cada parte de nosso corpo, uma a uma, deva luzir, de
certo modo, a glória de Deus, convém especialmente seja a língua, que foi criada peculiarmente para decla-
rar e proclamar o louvor de Deus, adjudicada e devotada a este ministério, quer cantando, quer falando....”.
[J. Calvino, As Institutas, III.20.31].
90
1Co 14.16,17.
91
1Co 14.15 [tradução direta].
92
A língua e a linguagem devem ser conhecidas da congregação. A Segunda Confissão Helvética declara de
forma incisiva: “Calem-se, pois, todas as línguas estranhas nas reuniões de culto, e sejam todas as coisas
expressas na língua do povo, compreendida por todas as pessoas”. [Segunda Confissão Helvética, XXII.
In: O Livro de Confissões, São Paulo, Missão Presbiteriana do Brasil Central, 1969, § 5.217] Do mesmo
modo, a Confissão de Westminster, especificando a oração pública, orienta: “A oração com ações de graças,
sendo uma parte especial do culto religioso, é por Deus exigida de todos os homens; e, para que seja aceita,
deve ser feita em o nome do Filho, pelo auxílio do seu Espírito, segundo a sua vontade, e isto com inteligên-
cia, reverência, humildade, fervor, fé, amor e perseverança. Se for vocal, deve ser proferida em uma língua
conhecida dos circunstantes.” [Confissão de Westminster, 21.3].
O Diretório de Culto de Westminster (1645), falando sobre a leitura dos livros da Bíblia no culto, prescreve:
“serão lidos publicamente na língua do povo, na melhor tradução permitida, distintamente, para que todos
possam ouvir e entender”.[O Diretório de Culto de Westminster, São Paulo, Editora os Puritanos, 2000, p.
29].
93
1Sm 1.9-17.
94
Mt 6.5-15; Lc 11.1-4.
95
In Alcibi. 2, vel De voto.
96
A oração eficaz é aquela que tem o Espírito como seu autor. Sem o auxílio do Espírito jamais oraríamos com
discernimento. Calvino, analisando o fato de que pedimos tantas coisas erradas a Deus e, que se Ele nos
concedesse o que solicitamos, traria muitos males sobre nós, diz: “Não podemos nem sequer abrir a boca
diante de Deus sem grande perigo para nós, a não ser que o Espírito Santo nos guie à forma devida de orar.”
[J. Calvino, Institución, III.20.34. Comentando o Texto de Romanos 8.26, Calvino diz: “O Espírito,
portanto, é Quem deve prescrever a forma de nossas orações.” [J. Calvino, Exposição de Romanos, São
Paulo, Paracletos, 1997, (Rm 8.26), p. 291]. Ver também, J. Calvino, O Catecismo de Genebra, Perg. 254].
97
Mt 6.13. Tradução direta. A NVI traz na margem: “Grego: E não nos induzas à”, e: “Ou do Maligno” (N. do
T.).
98
“Nós estamos conscientes de nossas próprias debilidades, e desejamos desfrutar a proteção de Deus, Aquele
que pode manter-nos invencíveis diante de todos os assaltos de Satanás.” [John Calvin, Harmony of the
Evangelists, p. 327-328. Vejam-se também:. Catecismo de Genebra, Pergunta 293; Catecismo Maior de
Westminster, pergunta 195].
129
99
Agostinho, in euchin. ad Laurent., c. 116; Chrysostomus: Autor operis imq. (sic).
100
O Catecismo de Heidelberg (1563), à questão 122 – “Qual é a primeira petição?” –, responde:
“‘Santificado seja o teu nome.’ Isto é: Ajuda-nos primeiro que tudo, a conhecer-te, glorificar-te e louvar-te e
todas as tuas obras, pelas quais brilham o teu poder onipotente, a tua sabedoria, bondade, justiça, misericór-
dia e verdade. E de tal modo disciplina toda a nossa vida, no que diz respeito a pensamento, palavras e obras,
que teu nome nunca seja blasfemado por nossa causa, mas seja sempre honrado e louvado.”
101
Êx 32.30-33; Rm 9.1-5.
102
“Não oraremos de uma maneira correta a menos que a preocupação por nossa própria salvação e zelo pela
glória de Deus sejam inseparavelmente entrelaçados em nosso exercício.” [João Calvino, O Livro dos Sal-
mos, Vol. 3, (Sl 79.10), p. 259].
103
Jo 1.12 [tradução direta].
CAPÍTULO X
Definição e uso
Agora devemos falar sobre os sacramentos. Temos grande necessidade de rece-
ber doutrina correta, pela qual possamos ficar sabendo com que finalidade eles
foram instituídos e de que maneira os devemos usar.
Precisamos primeiro entender o que é sacramento. É um sinal exterior pelo
qual o Senhor representa para nós e nos testifica a Sua boa vontade para conosco,
para sustentar, confirmar e fortalecer a nossa fraca fé. Também se pode definir
diferentemente o sacramento, e descrevê-lo como um testemunho da graça de
Deusb
, testemunho declarado mediante um sinal exterior. Com isso vemos que
jamais o sacramento é apresentado sem a Palavra de Deus, que o precedec
. Ele é
a. Cf. Sommaire (Sumário) de Farel, cap. XVIII: sobre os sacramentos; e sua obra intitulada Manière et fasson
qu’on tient em baillant le saint Baptesme, etc.(Método e modo de tratar do santo Batismo); Institutio de
1536, capítulo IV (aqui notavelmente ampliado); Instruction (Instrução) de 1537: dois artigos (Sobre os
sacramentos e Que é sacramento?), na ordem inversa da seguida aqui.
Em 1522 tinha surgido em Londres um livro cujo autor não era outro senão o próprio rei Henrique VIII:
Défense des sept sacrements contre Martin Luther (Defesa dos sete sacramentos contra Martinho Lutero),
que logo recebeu aqui a respectiva réplica.
b. Essa dupla definição, repetida quase palavra por palavra na Instrução de 1537, é uma paráfrase da definição
feita por Agostinho: “um sinal visível da graça invisível”. O próprio Calvino declarou a qual autor ele tinha
recorrido para a sua doutrina sobre os sacramentos: “Declaramos que não sentimos nem falamos diversa-
mente daquilo que foi expresso palavra por palavra por Agostinho, a saber, que, se os sacramentos não
tivessem nenhuma semelhança com as coisas que eles significam, não seriam sacramentos”. Na margem ele
cita expressamente a epístola 26 a Bonifácio, e continua: “Nós sempre colocamos em conjunção a verdade
e a figura, de modo que esse mistério não é frustrante”. (Confession de foi au nom des Eglises reformées de
France pour présenter à l’empereur (1562), impresso em 1564, Opera, IX, 772. – Confissão de fé em nome
das igrejas reformadas da França para ser apresentada ao imperador).
c. præeunte promissione.
132 As Institutas – Edição Especial
acrescentado à Palavra como um apêndicea
ordenado para simbolizá-la, confirmá-
la e certificá-la mais fortemente em nosso interesse, pois o Senhor vê que te-
mos necessidade disto pela ignorância com que julgamos as coisas e pela fra-
queza da nossa carne. Não significa que a Palavra não seja suficientemente
forte e firme em si mesma, ou que ela própria careça de melhor confirmação e
fortalecimento (porque outra coisa ela não é senão a verdade de Deus, em si e
por si tão certa e segura que não pode receber de outra parte melhor confirma-
ção e fortalecimento; só o pode receber de si mesma); o objetivo é que com ela
e por ela sejamos fortalecidos.1
A razão disso é que a nossa fé é tão pequena e débil que, se não tiver suporte
por todos os lados e não for mantida por todos os meios, de repente se verá total-
mente abalada, sacudida e vacilante. E como somos tão ignorantes e tão dados e
apegados às coisas terrenas e carnaisb
que não pensamos nem podemos entender
nem conceber nada que seja espiritual, o Senhor misericordioso se acomoda com
isso à rudeza dos nossos sentidos de modo que, pelos elementos carnais dos sa-
cramentos, Ele nos conduz a Si e nos faz contemplar, mesmo na carne, o que
pertence ao espírito. Não por que as coisas que nos são oferecidas como sacra-
mentos tenham em sua natureza alguma qualidade e algum poder, mas porque são
assinadas e assinaladasc
por Deus para terem esta significação.
Cavilações totalmente rejeitáveis
Não devemos dar ouvidos a algunsd
que, em suas cavilações, argumentam falsa-
mente dizendo: “Ou sabemos que a Palavra de Deus, que precede ao sacramento,
é a verdadeira vontade de Deus, ou não sabemos. Se o sabemos, nada aprende-
mos de novo pelo sacramento subseqüente. Se não o sabemos, o sacramento não
no-lo poderá ensinar, visto que toda a sua virtude e eficácia jaz na Palavra”. Só
lhes seja respondido, resumidamente, que os selos que se colocam nas cartas e
nos instrumentos públicos, em si nada são, porque, se no pergaminho ou no papel
não houver nada escrito, eles não servirão para coisa alguma, e em vão serão
postos nele. E, todavia, nem por isso eles deixam de confirmar, atestar e tornar
a. appendicem.
b. humi semper adrepentes et in carne hærentes.
c. Palavra acrescentada em 1541.
d. Os anabatistas, com os quais Calvino se preocupava desde 1535, antes de os conhecer melhor em Estrasburgo,
em 1538.
Ele próprio caracterizou a sua atitude para com os outros reformadores no que se refere aos sacramen-
tos: “Estando a sair pouco a pouco das trevas do papado e tendo tomado algum gosto pela sã doutrina,
quando li em Lutero que Ecolampádio e Zwínglio não deixavam nos sacramentos nada senão figuras e
representações sem a verdade, confesso que isso me afastou dos seus livros, de modo que de há muito me
abstenho de os ler. Ora, antes de eu começar a escrever, eles já tinham discutido entre si (1529) em Marburgo”,
etc. (Contre les calomnies de I. Westphal (1556), Opuscules, edição de Genebra, 1566, p. 1503).
1
“Um sinal externo mediante o qual o Senhor nos sela à consciência as promessas de Sua benevolência para
conosco, a fim de suster-nos a fraqueza da fé, e nós, de nossa parte, atestamos nossa piedade para com Ele,
tanto diante dEle e dos anjos, quanto junto aos homens.” [J. Calvino, As Institutas, IV.14.1)
133
mais autênticaa
a escritura contida nas cartas ou nos documentos, quando a
estes os selos são acrescentados. E não poderão dizer que esta figura foi forjadab
por nós, feita a nosso bel-prazer, pois o apóstolo Paulo fez uso dela quando se
referiu ao sacramento da circuncisão com uma palavra grega2
, a saber, sfraguîdac
(quer dizer, selo).
[1539] Na passagem acima citada o apóstolo demonstra que a circuncisão
não foi imputada a Abraão para justiça. É antes um selo da aliança, na confiança
e garantia da qual ele já tinha sido justificado. E por que, rogo que me digam –
por que isso deverá fazer-nos merecedores de injúria, se ensinamos que a pro-
messa é selada pelos sacramentos, visto que é claro e manifesto que, entre as
promessas, uma é confirmada por outra? Porque a que é mais manifesta é mais
própria para assegurar a fé. Ora, os sacramentos nos trazem promessas claríssimas,
e com esta particularidade superior à Palavra, que eles representam vividamente
as promessas, como que numa pintura. E não devemos deixar-nos abalar pela
diferença que se falad
que existe entre os sacramentos e os selos das cartas paten-
tes. A saber, que, uma vez que uns e outros consistem de elementos carnais deste
mundo, os sacramentos não podem servir para selar as promessas de Deus, que
são espirituais, como acontece com os selos utilizados para selar escritos de prín-
cipes, que tratam de coisas transitórias e obsoletas. Não se leve isso em conta
porque o homem crente, ao ver o sacramento, não se prende à exterioridade, mas
sim, com santa consideração, eleva-se para contemplar os altos mistérios ali ocultos
conforme a harmonia existente entre a figura carnal e a realidade espiritual.
Sinais e selos da aliança, colunas da fé, espelhos da graça
[1536] Sendo, pois, que o Senhor dá às promessas o nome de acordos ou aliançase
,
e aos sacramentos os de sinais e instruções das alianças, pode-se aproveitar algo
da semelhança dos acordos e alianças dos homens3
. Para confirmação dos seus
acordos, os antigos costumavam matar uma porca. [1536] Que adiantaria uma
porca morta, se não houvesse palavras de acordo, ou melhor, se estas não tives-
sem sido lavradas antes? Porque muitas vezes se matam porcas sem haver nisso
mistério nenhum. Semelhantemente, que dizer do aperto de mãos, visto que mui-
tos apertam as mãos dos seus inimigos com a intenção de lhes fazer mal? E,
todavia, quando tiverem sido proferidas as palavras de amizade e de aliança, tais
a. Estes termos jurídicos traduzem obsignant.
b. confictam.
c. Em caracteres gregos em 1536 e 1539, onde faltam grego e o parêntese.
Sem dúvida, o parágrafo subseqüente responde, em 1539, às objeções feitas no anterior pelos leitores
de 1536.
d. Ver a nota c da página 200.
e. 1536 e 1539 têm somente fœdera.
2
Rm 4.11.
3
Gn 6.18; 9.9,17; 17.20,21.
134 As Institutas – Edição Especial
sinais servem para confirmá-las, mesmo quando já tenham sido propostas, reali-
zadas e estabelecidas. Portanto, os sacramentos são exercícios praticados com a
finalidade de nos tornar mais certos e seguros da Palavra de Deus e de Suas
promessasa
. E como somos carnais, os sacramentos também nos são dados em
coisas carnais, a fim de que eles nos instruam conforme a capacidade da nossa
rude condição e nos dirijam e nos conduzamb
como os mestres fazem com as
crianças que estão aos seus cuidados. Por isso Agostinho4
chama ao sacramento
palavra visível, porque nos mostra, como numa pintura, as promessas de Deus, e
as representa vividamente para nósc
.5
***
Podemos usar ainda outras figuras para designar os sacramentos e, por elas, tor-
nar a sua significação mais completa e mais clara. Por exemplo, podemos chamá-
los colunasd
da nossa fé. Porquanto, assim como um edifício se fixa e se sustém
sobre o seu fundamento, e, contudo, quando se acrescentam a ele colunas que lhe
dêem suporte, ele se torna mais seguro e mais firme, assim também a fé descansa
e se sustém sobre a Palavra de Deus como sobre seu fundamento; mas, quando
lhe são acrescentados os sacramentos, estes lhe servem como colunas, sobre as
quais se apóia com mais firmeza e mais se fortalece.
Também podemos chamá-los espelhos, nos quais podemos contemplar as
riquezas da graça de Deus, por Ele distribuídas. Sim, pois, como já foi dito, Ele se
manifesta a nós na medida em que a nossa entorpecida mente O pode conhecer, e
por eles testifica a Sua boa vontade para conosco.
Réplica à crítica ao valor e eficácia dos sacramentos
Não argumentam bem os que alegam que os sacramentos não são testemunhos da
graça de Deus, visto que muitas vezes são recebidos pelos maus e estes, todavia,
não sentem nada que lhes mostre que Deus lhes é propício; ao contrário, recebem
mais grave condenação. Demonstra-se o erro dessa crítica com o fato de que, a
julgar assim, o Evangelho também não seria testemunho da graça de Deus, por-
quanto muitos são os que o ouvem e que o desprezam. E, afinal, nem o próprio
Senhor Jesus Cristo o seria, sendo fato notório que Ele foi visto e conhecido por
muitos, dos quais bem poucos O receberam. Coisa semelhante se pode ver nas
a. Instrução de 1537: Os sacramentos foram instituídos para serem exercícios da nossa fé.
b. manu ducant.
c. sub aspectu graphice atque eikótos expressas.
d. columnas.
4
In Ioh. tractat. 80,3 (Migne, 35, 1840), cf. Contra Faustum, lib. XIX, c. XVI (Migne, 42, 356).
5
Tornou-se clássica a definição de Agostinho (354-430) de sacramento como sendo a “palavra visível”
[Agostinho, On The Gospel of St. John: In: NPNF1., Vol. 7, Tractate LXXX.3, p. 344b] e um sinal
visível de uma graça invisível. [Agostinho, As Catequesis, XXVI.50; Cartas, 105.III,12. Apud J. Calvino,
As Institutas, IV.14.1].
135
cartas patentesa
dos príncipes, ou seja, em seus documentos oficiais. Porque grande
parte do povo, embora reconheça que o selo neles posto é autênticob
e provém do
príncipe, não deixa porém de menosprezá-loc
. Uns o deixam de lado como se não
lhes dissesse respeito; outros o repudiam pura e simplesmente. De tal modo se
parecem essas coisas que só podemos aprovard
a comparação acima feita. Pois é
certo que, tanto em Sua Palavra como em Seus sacramentos, o Senhor nos ofere-
ce misericórdia e a graça da Sua boa vontade. Mas esta não é comunicada senão
àqueles que recebem a Palavra e os sacramentos com plena certeza de fé.Aconte-
ce, então, que o nosso senhor Jesus Cristo foi oferecido e apresentado a todos
para salvação, mas nem todos O reconheceram e O receberam. Em certo lugar6
Agostinho, querendo assinalar esta idéia, disse que a eficácia da Palavra, presen-
te no sacramento, não está em ser ela proferida, mas em ser crida e aceita.
Corolário
Concluímos, pois, que os sacramentos são legitimamente chamados testemunhos
da graça de Deus e selos do favor que Deus por eles nos faz. Assim, sinalizando
e consignando em nós a graça de Deus, eles consolam e animam a nossa fé, e a
alimentam, fortalecem e aumentam. E as razões contrárias que algunse
têm pre-
tendido alegar são inúteis e fracas. Uns dizem que, se a nossa fé é boa, não pode
ser melhorada, porque só é fé a que se apóia e se fixa tão firmemente na miseri-
córdia de Deus que não pode ser nem abalada nem desviadaf
.
Muito melhor seria que eles orassem com os apóstolos, quando pediram ao
Senhor que lhes aumentasse a fé7
, em vez de se vangloriarem de uma pretensa
perfeição de fé, perfeição que nenhum homem jamais teve e jamais terá nesta vida.
Oxalá sua resposta fosse que a fé que eles julgam ter é do tipo daquele homem que
disse: “Eu creio, Senhor! Socorre a minha incredulidade8
!” Pois essa fé incipiente,
mesmo tendo algo de bom, pode ser melhorada pela diminuição da incredulidade.
O argumento da própria consciência
Mas não há melhor argumento para refutá-los que a sua própria consciência.
Porque, se confessam que são pecadores (o que, querendo ou não, não podem
negar), necessariamente têm que imputar esse fato à imperfeição da sua fé. Mas
eles retrucam: “Filipe respondeu ao eunuco que, se cresse de todo o coração,
a. diplomatibus.
b. authentikón.
c. irridet atque eludit.
d. magis ac magis arridere.
e. Os mesmos adversários, anabatistas, etc.
f. Cf. Zwínglio, De vera et falsa religione commentarius (Opera, III, 761).
6
Sobre João. Tractat. 80, 3 (Migne, 35, 840).
7
Lc 17.5.
8
Mc 9.24 [tradução direta].
136 As Institutas – Edição Especial
seria lícito receber ele o batismo”.9
Que lugar tem aqui a confirmação do batis-
mo, se a fé ocupa e enche todo o coração? Em resposta, por minha vez, pergunto:
Não sentem eles que uma grande parte do seu coração está desnudo e vazio de fé?
Não se apercebem de que cada dia há neles algum acréscimo à fé? Um pagão
orgulhava-se de que envelhecia aprendendo. Nós, cristãos, seríamos então muito
mais miseráveis se envelhecêssemos sem nenhum proveito para o crescimento da
nossa fé. Pois esta deve ir se desenvolvendo por etapas, progredindo sempre até
chegarmos à condição de homem perfeito10
. Portanto, na passagem acima citada
de Atos, crer de todo o coração não é estar perfeitamente ligado a Cristo, mas é
apenas abraçá-lo com bom ânimo e com zelo não fingido. Não significa assimilara
plenamente a Cristo, mas sim, com ardoroso afeto, ter fome e sede dele, e suspi-
rar por Ele. Esse é o modo geral de falar da Escritura, significando, quando afir-
ma que algo é feito de todo o coração, que é feito com sinceridade e com bom
ânimo. Temos exemplos disto nas seguintes passagens: “De todo o coração te
busquei”; e também: “De todo o coração renderei graças ao Senhor11
”, e outras
passagens semelhantes. Já, ao contrário, a Escritura costuma censurar os hipócri-
tas e os mentirosos por terem coração e coração12
, quer dizer, coração dobre.
Aqueles críticosb
acrescentam ainda que, se a fé fosse aumentada pelos sa-
cramentos, o Espírito Santo teria sido dado em vão, pois a obra que ele realiza e
o Seu poder consistem em iniciar, fortalecer e aperfeiçoar a fé. Respondo-lhes
que reconheço e declaro que a fé é propriamente, toda ela, obra do Espírito Santo,
por cuja iluminação conhecemos a Deus e os imensos tesouros da Sua bondade;
e mais, sem a Sua luz o nosso entendimento seria tão cego que nós não podería-
mos ver coisa alguma, e tão desprovido de sensibilidade que não poderíamos
perceber e acolher bemc
as realidades espirituais.
Tríplice benefício da ação divina em nós
Mas, para um benefício da graça de Deus que eles consideram, nós reconhece-
mos estes três: Primeiro, o Senhor nos ensina e nos instrui por Sua Palavra; se-
gundo, Ele nos confirma e nos fortalece pelos sacramentos; terceiro, pela luz do
Seu Espírito Ele esclarece o nosso entendimento e dá entrada em nosso coração à
Palavra e aos sacramentos, os quais, sem essa obra divina em nós, só bateriam em
a. saturum.
b. 1536: alii.
Esse parágrafo parece dirigido contra as opiniões de Schwenkfeld, segundo P. Barth.
c. subodorari.
9
At 8.37.
10
Ef 4.13.
11
Sl 119.10; 111.1; 138.1.
12
Hebraísmo.Ver, por exemplo, Sl 12.3, onde Figueiredo traduz a referida expressão por “coração dobrado”(nessa
versão, Sl 11.3). No hebraico: belebh valebh – “com coração e coração”. Gesenius cita 1 Cr 12.38, exemplo
em termos negativos: “não duplo coração”, e sugere a tradução “com um coração sincero”. Tradução adota-
da também por Figueiredo (N. do T.).
137
nossos ouvidos e se apresentariam aos nossos olhos, mas não penetrariam o nos-
so íntimo e não comoveriam o nosso coração.
A raiz da questão
[1539] Portanto, desejo que os leitores estejam avisados de que eu atribuo aos
sacramentos o ofício de confirmar e aumentar a fé, não porque eu considere que
eles tenham em si a virtude necessária e perpétua para fazerem isso, mas porque
foram instituídos por Deus para essa finalidade. De resto, eles produzem eficaz-
mente o esperado efeito quando o Mestre interno, instruidor do espírito, lhes
acrescenta a Sua virtude, único poder capaz de penetrar o coração, sensibilizar
nossos afetos e possibilitar a entrada dos sacramentos em nosso ser interior. Se
esta ação do Espírito de Deus faltar, os sacramentos não poderão oferecer ao
nosso espírito mais que aquilo que a luz do Sol pode oferecer aos cegos, nem
mais que o que uma voz altissonante pode dar a ouvidos surdos. Por isso eu traço
esta diferença entre o Espírito e os sacramentos: que o poder de ação reside no
Espírito, só restando aos sacramentos a função de instrumentos dos quais o Se-
nhor se serve a nosso favor, sendo que serão inúteis e vãos sem a operação do
Espírito. Grande é, porém, a sua eficácia, quando o Espírito age internamente.
Agora fica evidente como, segundo a minha opinião, a fé é confirmada e
fortalecida pelos sacramentos, o que ocorre à semelhança dos olhos, que vêem
quando se irradia a luz do Sol, e dos ouvidos, que ouvem quando se emite o som
da voz. Certamente a luz não teria nenhum valor para os olhos, se estes não
tivessem a faculdade de ver, pela qual a podem receber; como também da nada
valeria para os ouvidos um alto clamor, se não lhes fosse dado por natureza o dom
de ouvir. Ora, se reconhecemos como verdade (como para nós deve ser indubitável)
que a operação do Espírito Santo para originar, manter, proteger e fortalecer a fé
é comparável à visão e à audição, que dependem da faculdade de ver e de ouvir,
é clara decorrência que os sacramentos de nada adiantam sem a virtude e o poder
do Espírito. O que não impede que no coração já por Ele ensinado a fé seja
corroborada e aumentada pelos sacramentos.
Objeções respondidas
Desta forma se resolvem as objeções feitas por alguns no sentido de que, se atri-
buirmos o aumento e a confirmação da fé às criaturas, com isso ofenderemos o
Espírito de Deus, unicamente a quem devemos reconhecer como seu autor. Mas o
fato é que não O privamos do louvor que só a Ele pertence, visto que, mesmo o
que é dito sobre confirmar e aumentar a fé, não é outra coisa senão preparar por
Sua iluminação o nosso espírito para receber a iluminação que nos é oferecida
nos sacramentos. E se a nossa palavra sobre isso ainda está muito obscura, será
esclarecida por esta comparação: Se você quiser persuadir alguém a fazer algo,
pensará em todas as razões e motivos possíveis para levá-lo a aceitar a idéia, e
138 As Institutas – Edição Especial
fará pouco menos que induzi-lo a sentir-se obrigado a atendê-lo. Mas, nada disso
terá efeito, se a pessoa em causa não tiver discernimento agudo e penetrante que
a habilite a captar a força dos seus argumentos; e mais, se ela não tiver índole
dócil e não for dada a obedecer a instruções; e, finalmente, se não tiver tão boa
opinião sobre a sua sabedoria e a sua lealdade, e de que você merece tal confian-
ça, que ela se sinta disposta a acatar o que você lhe diz. Porque não são poucos os
que têm cabeça dura, que nenhuma razão é capaz de dobrar. Acresce que quando
o caráter é duvidosoa
e a autoridade é contestável, nada se aproveita, nem com
aqueles que é fácil conduzir e liderar. Ao contrário, existindo as coisas e qualida-
des inexistentes no caso acima descrito, elas farão com que o conselho dado seja
seguido com boa vontade, o qual de outro modo seria menosprezado.
Ação do Espírito Santo mediante a Palavra e os sacramentos
De semelhante maneira age em nós o Espírito. Para que a Palavra não fira em vão
os nossos ouvidos e os sacramentos não sejam apresentados inutilmente aos nos-
sos olhos, Ele nos revela que é Deus que fala por ela e por eles e amolece a dureza
do nosso coração, preparando-nos assim para a obediência devida à Sua Palavra.
Finalmente, Ele transfere tantob
a Palavra como os sacramentos dos ouvidos para
a alma. Não há, pois, dúvida de que os sacramentos confirmam e fortalecem a
nossa fé, pondo diante dos nossos olhos a boa vontade do nosso Pai celestial para
conosco, sendo que é no conhecimento da Sua boa vontade que subsiste a firme-
za da nossa fé e se apóia toda a sua força. O Espírito igualmente confirma e
fortalece a fé, na medida em que imprime em nosso coração essa confirmação
tornando-a eficaz.
Que essa propriedade é da Palavra externa o Senhor Jesus demonstra quan-
do lhe chama semente. Porque, como acontece com a semente, se ela cair em
terreno deserto e não lavrado, nada produzirá e se perderá. Ao contrário, se for
lançada em solo bem trabalhado, dará fruto em abundância. Assim também, se a
Palavra de Deus cair numa cerviz obstinada e rebelde, ficará estéril13
, como uma
semente lançada no cascalho de uma praia pedregosa. Mas, se cair numa alma
bem preparada pela operação do Espírito Santo, será fecunda e produzirá muitos
frutos. Ora, se é válida a comparação da semente com a Palavra, se dizemos que
o trigo nasce, cresce e se aperfeiçoa em seu amadurecimento, e em tudo isso ele
provém da semente, por que não dizer também que a fé recebe o seu início, o seu
crescimento e a sua perfeição da Palavra?
a. ubi suspecta fides.
b. externa illa ab auribus in animam transmittit.
13
Lc 8.4-15.
139
A eficácia vem do Espírito, e de nada mais!
[1536] Os sacramentos são meios de graça pelos quais a fé é confirmada e
fortalecida, mas isso ocorre de tal maneira que às vezes, quando Deus quer elimi-
nar a confiança nas coisas prometidas nos sacramentos, Ele elimina até mesmo os
próprios sacramentos. Quando privou e despojou Adão do dom da imortalidade,
Deus disse: “Que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma,
e viva eternamente14
”. Que é que entendemos disso? Aquele fruto poderia restau-
rar e devolver aAdão a incorrupção que tinha perdido em sua queda? Nada disso!
Mas é como se Ele dissesse: Você fica privado do sinal da minha promessa, que
poderia dar-lhe alguma esperança de imortalidade, para que não volte a ter vã
esperança. Pela mesma razão também o apóstolo Paulo, quando exortou os efésios
lembrando-lhes que antes da sua conversão estavam “sem Cristo, separados da
comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e
sem Deus no mundo”, disse-lhes que naquele tempo eles não eram participantes
da circuncisão15
. Com isso ele quis dizer que eles estavam fora da promessa por-
que não tinham recebido o sinal e penhora
da mesma.
Os nossos oponentes fazem outra objeção. Dizem eles que a glória é
transferida para as criaturas, atribuindo-se a elas a mesma proporção de virtude e
eficácia que se subtrai de Deus. É fácil responder a isso. Basta dizer que não
colocamos nenhuma virtude nas criaturas, mas somente dizemos que Deus faz
uso de meios e instrumentos que ele sabe que são convenientes no sentido de que
todas as coisas sejam levadas a submeter-se à Sua glória, visto que Ele é o Senhor
e o Árbitrob
de todas as coisas.Assim como Ele nos sustenta por meio do pão e de
outros alimentos, por meio do Sol ilumina o mundo, e pelo fogo o aquece, e, não
obstante, nem o pão nem o sol nem o fogo são coisa alguma, servindo tão-somen-
te como meios pelos quais Deus nos dispensa as Sua bênçãos, assim também Ele
alimenta e sustenta espiritualmente a nossa fé por meio dos sacramentos. E estes
não têm outra função senão a de representar as promessas de Deus perante os
nossos olhos. E assim como não devemos pôr nenhuma confiança nas outras
criaturas, as quais pela generosidade de Deus são destinadas ao nosso uso e pelo
serviço que nos prestam Ele nos distribui abundantes dádivas do Seu amor, assim
também não devemos pôr a nossa confiança nos sacramentos, nem transferir para
eles a glória de Deus, como se eles fossem a causa e a fonte das bênçãos que por
meio deles recebemos. Antes, deixando de lado todas as coisas e delas nos des-
prendendo, elevemos e dirijamos o nosso testemunho de fé Àquele que é o Autor
dos sacramentos e de todos os demais bens.
a. tesseram. O penhor (méreau, um tipo de senha) era o sinal de reconhecimento (nós diríamos: o cartão de
identidade) dos membros das corporações, etc. Cada igreja reformada tinha o seu méreau, que os presbíteros
remetiam aos membros que desejassem participar da comunhão.
b. arbiter.
14
Gn 3.22.
15
Ef 2.11,12.
140 As Institutas – Edição Especial
Objeção pretensamente baseada no nome “sacramento”
Finalmente, eles procuram apoio para o seu erro baseados no nome “sacramen-
to”. Quanto a isso, cuidado! Dizem elesa
que a palavra sacramento, embora se-
gundo autores reconhecidos tenha muitos significados, todavia um só é compatí-
vel com os referidos sinais. O único sentido válido, dizem eles, é o de juramentob
solene, que é feito pelo soldado diante do seu comandante quando se engaja em
suas tropas e nelas é admitido. Porque, assim como por esse juramento os novos
soldados se obrigam a ser leais a seu príncipe ou comandante e se comprometem
com ele, e se declaram pertencentes às suas fileiras, assim também nós, por meio
dos nossos sinais e símbolos, confessamos a Jesus Cristo como o nosso
Comandantec
, e testificamos que combatemos sob a Sua insígnia e bandeira.
Os tais opositores acrescentam algumas figuras e comparações para refor-
çar e aclarar o que dizem. Como na guerra [1541] os franceses e os ingleses se
distinguem uns dos outros e se reconhecem, os primeiros usando a cruz branca e
os ingleses a vermelha; [1536] como também os romanos se distinguiam dos
gregos pelo uso de diferentes trajesd16
; e como as diversas ordense
ou classes de
Roma se diferenciavamf
, distinguindo-se umas das outras, por exemplo, os sena-
dores dos cavaleiros17
, vestindo-se de púrpura e calçando sapatos ou sandálias de
ponta arredondada, e, por sua vez, os cavaleiros se distinguiam dos plebeus pelo
uso de um anel, de igual maneira nós temos os nossos símbolos pelos quais nos
diferenciamos e nos distinguimos dos que não pertencem à nossa religiãog
.
“Sacramento”, como “fé”, são nomes com sentido modificado
Mas eu garanto que os antigos que deram o nome de sacramento aos nossos
símbolos não levaram em consideração o sentido em que os escritores latinos
entenderam essa palavra, mas simplesmente lhe atribuíram um novo significado
para designativo dos referidos sinais sagrados. E, se quisermos penetrar no as-
sunto com maior perspicácia, é só lembrar que elesh
mudaram o sentido de “sa-
cramento” pela mesma razão ou semelhança pela qual mudaram o sentido da
palavra “fé”, atribuindo-lhe o significado com o qual agora ela é empregada.
Porque, sendo fato que “fé” significa propriamente a verdade que se deve manter
a. Os anabatistas. P. Barth cita Zwínglio, De vera et falsa religione (Opera, III, 758).
b. miles imperatori cum militiæ initiatur. (É o “juramento”, serment.)
c. imperatorem.
d. toga Romani a palliatis Græcis discernebantur.
e. ordines.
f. symbolis.
g. a prophanis.
h. Os anabatistas.
16
Os gregos usavam o pálio (manto ou capa), e os romanos usavam a toga, geralmente toga longa ou veste talar,
isto é, que ia até o calcanhar (N. do T.).
17
Faziam parte da nobreza (N. do T.).
141
no cumprimento do que se promete, contudo eles a tomam no sentido de certeza
ou de persuasão certa e segura que se tem dessa verdade. Dessa maneira, apesar
de o sacramento ser o juramento pelo qual o soldado se compromete com o seu
comandante e se obriga a obedecer-lhe, eles o tomaram como significando o sinal
utilizado pelo comandante no ato pelo qual admite soldados em suas fileirasa
e
sob o seu soldo. Porque o Senhor, por Seus sacramentos, nos promete que será o
nosso Deus e que nós seremos o Seu povo.
Mas deixemos de lado essas sutilezas. A verdade é que se pode demonstrar
e comprovar com muitos argumentos fortes e claros que os antigos não tiveram
outra intenção, ao dar aos nossos símbolos o nome de sacramentos, senão a de
que fossem utilizados como sinais de realidades santas e espirituais, [1539] de-
vendo nós levar em conta que esse vocábulo várias vezes é tomado no sentido de
mistério na tradução latina da Escritura. Concordamos com o que dizem sobre as
figuras e comparações acima apresentadas, mas não toleramos que aquilo que
está em último lugar nos sacramentos seja posto em primeiro lugar; muito menos
que não reconheçam neles outra coisa senão esses usos não espirituais. O ponto
principal a considerar nos sacramentos é que eles sãob
destinados a servir à nossa
fé em Deus. A segunda, é que se prestam para dar testemunho da nossa profissão
de fé perante os homens. Com relação a esta segunda razão, são boas e aplicáveis
as semelhanças acima referidas.
Erros do outro extremo
Por outro lado, se temos necessidade de estar advertidos contra os que pretendem
destruir a eficácia dos sacramentos e abolir o seu uso, também há, do lado opostoc
,
aqueles que atribuem aos sacramentos sabe-se lá que virtudes secretas, sobre as
quais em parte alguma da Escritura se lê que Deus lhes tenha dado. Por esse erro
as pessoas simples e ignorantes são vítimas de fraude e engano, pois são levadas
a buscar os dons e as bênçãos de Deus onde nunca os poderão encontrar, e assim
acabam se afastando de Deus para seguir nada mais que a mentira pura e vãd
.
Porque as escolas dos sofistas, em comum acordo, ensinam que os sacramentos
da nova lei, isto é, os que a igreja cristã usa, justificam e conferem graça, bastan-
do que não lhes coloquem o óbice ou o impedimento de algum pecado mortal18
.
Não se pode nem demonstrar quão perniciosa é essa opinião, tanto mais
quando se vê que durante muitos e longos anos ela foi aceitae
, e ainda o é, em
a. in ordines DOMINVS recipiat.
b. 1541 tem, por erro, font (1539: apud Deum serviant). [Corrigido no texto de que estamos fazendo uso.]
c. Os católicos romanos.
d. Aqui traduz melhor 1536: ut post vanitatem abeant que 1539: ut pro ejus veritate meram amplexentur
vanitatem.
e. Bula de Eugênio IV, Exultate Deo, c. 9 (Bullar. roman., V, 44). Cf. Gabriel Biel, In sentent. IV, dist. I, Quæst.
1 e 3. A Apologia da Confissão de Augsburgo (c. VII, 18) também combate vivamente essa opinião.
18
Duns Scot, In sentent. IV, dist. I quæst. 6: Sacramentum ex virtute operis operati confert gratiam, ita quod
non requiritur ibi bonus motus interior qui mereatur gratiam, sed sufficit quod suscipiens non ponat obicem.
142 As Institutas – Edição Especial
grande parte do mundo, em grave detrimento da igreja. Não há dúvida de que é
totalmente diabólica, porque, uma vez que promete justiça ou justificação sem
a fé, põe a consciência em confusão e a lança à condenação. [1539] Além disso,
ao fazer do sacramento a causa da justiça, envolve e amarra o entendimento
humano com esta superstição, favorecendo a tendência humana de preferir algo
corporal a Deus e de apegar-se à terra mais que o necessário. Bom seria que não
tivéssemos muita experiência desses dois erros. Bem pouca necessidade de pro-
vas temos disso!
Que é o sacramento sem a fé, senão a desgraça da igreja? Porque, como não
se deve esperar dele nada, a não ser em virtude da promessa, e como a promessa
tanto oferece a graça de Deus aos crentes como proclama a ira de Deus contra os
incrédulos, comete grande abuso aquele que pensa receber do sacramento algum
benefício, senão aquele que, tendo sido oferecido pela Palavra, é recebido medi-
ante a fé. De resto, daí se pode inferir também que a confiança na salvação não
depende da participação nos sacramentos, como se neles estivesse a justiça e
disso dependesse a nossa justificação. Bem sabemos que a justiça de que neces-
sitamos está em Cristo e que nele e por meio dele temos a justificação. Sabemos
igualmente que a justiça de Cristo, que nos é comunicada pela pregação do Evan-
gelho e testificada pelos sacramentos, pode subsistir perfeitamentea
sem estes. É,
pois, verdade o que diz Agostinho, que por vezes ocorre que aparece o sinal
visível sem a santificação invisível, e, por outro lado, pode ocorrer a santificação
sem o sinal visível.19
Ofício ou função dos sacramentos: Como se dá com a Palavra,
os sacramentos nos oferecem Cristo – Este recebido pela fé
[1536] Portanto, estejamos certos de que os sacramentos não têm outro ofício
que não o da Palavra de Deus.20
Este ofício consiste em nos oferecer e nos apre-
sentar Jesus Cristo, e nele os tesouros da graça celestial. E eles não servem para
nada e não dão proveito nenhum senão para os que os tomam e os recebem pela
fé. Além disso, devemos tomar cuidado para não cairmos noutro erro parecido,
qual seja: Dar ouvidos ao que os antigos, querendo aumentar a dignidade dos
sacramentos, falavam dos sacramentos de maneira tão honrosa, exaltando-os tan-
to, que podem levar-nos a pensar que existe alguma virtude ou algum poder liga-
do fixamente a eles, de tal modo que eles mesmos distribuem e administram as
graças do Espírito Santo, como o vinho que se serve num copo ou numa taçab
.
a. in solidum.
b. in cratere.
19
Libr. III, Quæ. vete. testa.
20
“Um sinal externo mediante o qual o Senhor nos sela à consciência as promessas de Sua benevolência para
conosco, a fim de suster-nos a fraqueza da fé, e nós, de nossa parte, atestamos nossa piedade para com Ele,
tanto diante dele e dos anjos, quanto junto aos homens.” [J. Calvino, As Institutas, IV.14.1)
143
Ora, a verdade é que todo o seu ofício ou função se resume em testificar e confir-
mar a bondade e o favor de Deus para conosco, e nenhum proveito teremos deles,
se o Espírito não vier abrir o nosso entendimento e o nosso coração, capacitando-
nos para o recebimento e a percepção desse testemunho.21
Comparação com a pregação do Evangelho
Nesse processo também se manifestam claramente diversas e distintas graças de
Deus. Porque, como acima fizemos notar, eles nos servem, da parte de Deus,
como algo semelhante ao que os mensageiros das boas novas nos servem da parte
dos homens. Quer dizer, eles não nos conferem bênção por si mesmos, mas so-
mente nos anunciam as coisas que nos são dadas pela generosidade divina. Note-
se que o Espírito Santo, que não é comunicado a todos indiferentemente pelos
sacramentos, mas que é dado peculiarmente por Deus aos Seus, é quem traz Con-
sigo as graças de Deus; é Ele que em nós dá lugar aos sacramentos e os faz
frutificarem. Ora, se bem que não negamos que o Senhor assiste à Sua instituição
com a presente virtude do Seu Espírito para que a administração dos sacramentos
por Ele ordenada não seja vã nem infrutífera, todavia ensinamos esta verdade:
Deve-se considerar separadamente a graça interna do Espírito, visto que esta é
distinta do ministério externo22
.
Aplicação da parte ora concluída
Quando se ministra esta doutrina dos sacramentos, a sua dignidade é exposta sufi-
cientemente, o seu uso é claramente demonstrado e a sua utilidade é devidamente
recomendada. Mantém-se, entretanto, uma boa moderação, de modo que não se
atribui a eles mais do que se deve, e não lhes é tirado nada do que lhes pertence.
Sacramento, nome abrangente
[1539] Como já expusemos, o nome sacramento abrange em geral todos os sinais
que Deus concedeu aos homens para os certificar e lhes dar segurança da veraci-
dade das Suas promessas. Por vezes Ele mostrou os sinais em coisas naturais,
outras vezes mediante milagres.
21
Conforme vimos supra: “Atribuo aos sacramentos o ofício de confirmar e aumentar a fé, não porque eu
considere que eles tenham em si a virtude necessária e perpétua para fazerem isso, mas porque foram
instituídos por Deus para essa finalidade. De resto, eles produzem eficazmente o esperado efeito quando o
Mestre interno, instruidor do espírito, lhes acrescenta a Sua virtude, único poder capaz de penetrar o cora-
ção, sensibilizar nossos afetos e possibilitar a entrada dos sacramentos em nosso ser interior. Se esta ação do
Espírito de Deus faltar, os sacramentos não poderão oferecer ao nosso espírito mais que aquilo que a luz do
Sol pode oferecer aos cegos, nem mais que o que uma voz altissonante pode dar a ouvidos surdos. Por isso
eu traço esta diferença entre o Espírito e os sacramentos: que o poder de ação reside no Espírito, só restando
aos sacramentos a função de instrumentos dos quais o Senhor se serve a nosso favor, sendo que serão inúteis
e vãos sem a operação do Espírito. Grande é, porém, a sua eficácia, quando o Espírito age internamente.”
[João Calvino, As Institutas, (1541), III.10].
22
No texto original francês, por erro: “ministério interno” (ministère intérieur) (N. do T.).
144 As Institutas – Edição Especial
Exemplos do primeiro caso: quando Deus deu aAdão e Eva a árvore da vida
como penhor da imortalidade, para se sentirem seguros de que a possuíam toda
vez que comessem do fruto dessa árvore23
; e quando falou a Noé24
do arco que ia
colocar no céu como símbolo e sinal para ele e para a sua posteridade, para lembrá-
los de que nunca mais destruiria a terra com dilúvio. Adão e Noé tiveram essas
coisas por sacramentos. Não que a árvore desse imortalidade ao homem, pois não
a teve nem para si mesma; nem que o arco-íris, que não passa de uma reverberaçãoa
dos raios do Sol em oposição às nuvens, tivesse o poder de sustar e reter as águas.
Mas sim porque na árvore e no arco eles tinham um sinal, gravado neles pela
Palavra de Deus, para lhes servirem de símbolo e selo das Suas promessas. É
evidente que, antes, a árvore era árvore, e o arco-íris era arco-íris; mas depois que
foram marcados pela Palavra de Deus, foi-lhes dada uma nova forma, para que
começassem a ser o que dantes não eram. E para que ninguém pense que o que se
afirma aqui não tem razão de ser, ainda hoje o arco-íris nos dá testemunho da pro-
messa de Deus e de Sua aliança com Noé, e toda vez que o contemplamos reconhe-
cemos nele a promessa de Deus de que a terra jamais será destruída por dilúvio.
“Quem ri por último ri melhor”
Pelo que, se alguém, metido a filósofob
, querendo zombar da simplicidade da
nossa fé, disser que a variedade de cores que compõem o arco-íris provém natu-
ralmente da reverberação ou reflexo dos raios do Sol e da nuvem oposta, teremos
que o reconhecer. Mas poderemos muito bem rir da sua tolice, pois ele não reco-
nhece que Deus é o Senhor da natureza e que, segundo a Sua vontade, faz uso de
todos os elementos para que sirvam à Sua glória. E se Deus tivesse gravado no
Sol, nas estrelas, na Terra, nas pedras tais símbolos e sinais, os teríamos todos
como sacramentos. Porquanto, por que a prata bruta e a refinada não têm o mes-
mo valor, se é fato que em ambos os casos é o mesmo metal? É porque aquela só
tem o que é próprio da sua natureza, ao passo que a outra, sendo refinada e cunha-
da de acordo com a regulamentação oficial, vem a ser moeda e recebe novo valor
financeiro. E Deus não pode assinalar e selar com a Sua Palavra as coisas que Ele
criou, para que se tornem sacramentos, sendo que antes não eram nada mais que
simples elementos naturais?
Exemplos do segundo recurso: sinais mediante milagres
Exemplos da segunda maneira pela qual Deus estabeleceu sinais se vêem nos
seguintes casos: quando molhou a porção de lãc
que Gideão tinha posto na eira,
a. repercussio.
b. philosophaster.
c. vellus (o velocino colocado por Gideão em sua eira).
23
Gn 2 e 3.
24
Gn 9.
145
sem molhar a terra, e depois, quando molhou a terra, e a porção de lã permaneceu
seca25
, na promessa de vitória a Gideão; e quando fez retroceder dez graus o
relógio de sola
, atestando a Sua promessa de saúde a Ezequias26
. Visto que estas
coisas eram realizadas para confirmar e fortalecer a sua fraca fé, também os ti-
nham como sacramentos.
Sacramentos no sentido estrito
Mas o nosso propósito no presente é tratar especialmente dos sacramentos que o
nosso Senhor instituiu e quis que fossem de uso comum em Sua igreja, para
edificar e manter os Seus numa só fé e na confissão dessa fé. Os quais nos foram
dados não só em sinais, mas também em cerimônias, ou, se assim se preferir, os
sinais que aqui são dados são cerimônias. Por isso faz bem Crisóstomo27
em chamá-
los pactos ou alianças, pelas quais a escrita28
da nossa dívida é cancelada e, por
outro lado, por elas nos tornamos devedores, com a obrigaçãob
de vivermos de
maneira pura e santa. Porque, assim como nelas o Senhor promete perdoar, e
perdoa, toda a dívida que pesa sobre nós pelas faltas e ofensas por nós cometidas,
assim também nós, reciprocamente, nos obrigamos a servi-lo com pureza e santi-
dade em nosso viver. [1536] Tanto assim que se pode definir tais sacramentos
como cerimônias pelas quais o Senhor queria exercitar o Seu povoc
, [1539] pri-
meiro, para sustentar, fomentar, confirmar e fortalecer a fé interiormente, no co-
ração; depois, para o testemunho que se deve dar da religião perante os homens.
Palavra geral sobre os sacramentos do
Antigo e do Novo Testamentos
[1536] Diversos têm sido estes sacramentos, segundo a dispensação vigente nas
respectivas épocas, tendo sido do agrado do Senhor revelar-se e manifestar-sed
aos homens de diferentes maneiras.29
AAbraão e à sua descendência foi ordenada
a Circuncisão30
, à qual, após a dádiva da Lei a Moisés, foram acrescentados os
a. O mostrador do relógio solar.
b. antapochas.
c. Instrução de 1537: A nossa fé é exercida pelos sacramentos para com os homens quando se manifesta em
confissão pública e é incitada a render louvores ao Senhor.
d. exhibere.
25
Jz 6.36-40.
26
2Rs 20.9-11; Is 38.7,8.
27
Homil. ad neophitos.
28
No original francês: “a cédula da nossa dívida”. Almeida, Edição Revista e Corrigida, diz: “a cédula que era
contra nós”; a Atualizada: “o escrito de dívida”; a NVI: “a escrita de dívida” (Cl 2.14) (N. do T.).
29
“Sempre que Deus deu algum sinal aos patriarcas, o uniu indissoluvelmente com a doutrina, sem a qual
nossos sentidos ficariam atônitos com visão única do signo. Portanto, quando ouvimos menção da palavra
sacramental, entendamos por ela a promessa, que deve ser pregada em voz alta pelo ministro para levar ao
povo aonde tem o sinal.” (J. Calvino, As Institutas, IV.14.4).
30
Gn 17.9-11.
146 As Institutas – Edição Especial
sacrifícios e as abluções.31
Esses foram os sacramentos dos judeus até à vinda de
nosso Senhor Jesus Cristo. Com a Sua vindaa
, aqueles foram abolidos, e outros
dois foram instituídos, dos quais a igreja faz uso atualmente, quais sejam, o Ba-
tismo e a Ceia do Senhor32
.
Os antigos sacramentos dos judeus visavam a um mesmo fim e a um mesmo
objetivo que os nossos dois: enviar e conduzir os homens a Jesus Cristo, ou,
melhor dizendo, como figuras ou imagens, representá-lo e dá-lo a conhecer. Por-
que, como já acima foi demonstrado, os sacramentos são como selos com os
quais são seladas as promessas de Deus, e como é certo que nenhuma promessa
de Deus foi feita aos homens senão em Jesus Cristo33
, é preciso, necessariamente,
que os sacramentos, ensinando-nos as promessas de Deus e nos admoestando
com elas, nos mostrem Jesus Cristo.
Há somente uma diferença entre os sacramentos antigos e os novos. É que
aqueles prefiguravam a Cristo prometido, quando ainda se esperava a Sua vin-
da, ao passo que os novos, os nossos, testificam e assinalam que Ele já nos foi
dado e manifestado.
Significado e objetivos dos sacramentos34
do Antigo Testamento
Quando todas estas coisas forem explicadas separadamente, ficarão muito mais
claras e mais fáceis de entender.
Consideremos primeiro a Circuncisão. Esta era para os judeus um sinal que
servia para adverti-los de que tudo quanto provém de semente humana, quer di-
zer, toda a natureza do homem, foi corrompido e precisa sofrer amputação ou
corteb
. Além disso, era um testemunho e um memorial para confirmá-los na pro-
messa feita a Abraão de que na semente bendita todas as nações seriam abençoa-
das, devendo eles também esperar a mesma bênção de Deus35
. Pois bem, aquela
semente bendita, de vida e salvação, é Jesus Cristo, como nos ensina o apóstolo
Paulo36
, unicamente em Quemc
eles esperavam recuperar o que tinham perdido
em Adão. Daí, a Circuncisão era para eles o que o apóstolo Paulo disse que tinha
sido para Abraão37
, isto é, um “selo da justiça da fé”, pelo qual eles teriam cada
a. 1536 e 1539: quo. 1541 tem, por erro, ausquels. [Corrigido no texto de que estamos fazendo uso para a
tradução.]
b. putatione haberet opus.
c. in quo.
31
Lv 1 a 7.
32
Mt 28.19; 26.26-29.
33
2Co 1.20.
34
Como se viu acima, Calvino emprega a palavra “sacramento” num sentido um tanto amplo, quando se refere
ao Antigo Testamento. Atualmente se faz distinção entre os sacramentos propriamente ditos (a Circuncisão
e a Páscoa) e as demais ordenanças (outros sacrifícios, abluções e ritos) (N. do T.).
35
Gn 12.3; 22.18.
36
Gl 3.16.
37
Rm 4.11.
147
vez maior confirmação de que a sua fé, pela qual esperavam aquela semente
bendita, lhes era e lhes fosse sempre imputada por Deus para justiça. [1539] Mas
noutro lugar, um pouco adiantea
, explanaremos mais adequadamente a compara-
ção entre a Circuncisão e o Batismo.
[1536] As abluções e as purificações lhes tornavam manifestas a sua imun-
dície, a sua impureza e a sua corrupção, pelas quais a sua natureza tinha sido
conspurcada, maculada e contaminada. Também lhes prometiam um novo
lavamentob
, que os limparia e os purificaria das suas manchas e da sua corrupção38
.
Esse novo lavamento era Cristo, cujo sangue nos limpa e nos purifica e por cujas
chagas somos sarados39
.
Os sacrifícios os acusavam e os convenciam dos seus pecados e da sua
iniqüidade; ao mesmo tempo os ensinavam que é necessária alguma expiação
para que fosse satisfeita a justiça de Deus. Para isso era necessário um grande
sacerdote. Este seria mediador entre Deus e os homens e prestaria plena satisfa-
ção à justiça de Deus, pelo derramamento de sangue e pela imolação e oferta de
um sacrifício aceitável e suficiente para a remissão dos pecados. Esse “grande
sumo sacerdote” é Jesus Cristo; o derramamento é do Seu sangue; Ele próprio é o
Sacrifício40
. Porque Ele se ofereceu ao Pai, sendo obediente até à morte, e com a
Sua obediência destruiu a desobediência do homem, a qual tinha provocado a ira
e a indignação de Deus41
.
O Batismo e a Ceia do Senhor
Quanto aos nossos dois sacramentos, eles nos apresentam Jesus Cristo tanto mais
claramente quanto mais de perto Ele se manifestou aos homens, desde quando
nos foi dado e revelado pelo Pai, como pelo Pai nos tinha sido prometido. Porque
o Batismo testifica que somos lavados e purificados, e a Ceia da eucaristia, que
fomos redimidos. A água representa a ablução, o lavamento; o sangue, a satisfa-
ção. As duas coisas se encontram em Jesus Cristo, o qual, como diz o apóstolo
João, veio “com a água e com o sangue”, quer dizer, para limpar e redimir; e “três
são os que testificam na terra: o Espírito, a água e o sangue, e os três são unâni-
mes num só propósito42
”. Na água e no sangue temos testemunho da nossa purifi-
cação e da nossa redenção. E o Espírito Santo, que é a principal testemunha, dá-
nos certeza desse testemunho, nos capacita a crer nele, a entendê-lo e a reconhecê-
lo e confessá-lo, pois de outro modo não o poderíamos compreender. Este misté-
rio sublime nos foi maravilhosamente demonstrado quando, estando Cristo pen-
a. Cap. XI.
b. lavacrum.
38
Hb 9.13,14; 1Jo 1.7; Ap 1.5,6.
39
Is 53.5; 1Pe 2.21-24; 3.18-21.
40
Ver a Epístola aos Hebreus. [Notem-se Hb 4.14; 5.5,6; 9.11.]
41
Fp 2.8; Rm 5.19.
42
1Jo 5.6,8.
148 As Institutas – Edição Especial
dente na cruz, do seu santo lado “saiu sangue e água43
”. Santo lado que, por essa
causa, Agostinho descreve muito bema
como origem e fonte da qual promanam
os nossos sacramentos44
. Mas é preciso que tratemos deles mais amplamente.
Os sacramentos das duas dispensações
têm igual importância
[1539] Cabe ainda considerar o seguinte: Os doutores escolásticosb
fazem uma
grande diferença entre os sacramentos da antiga Lei e os da nova, como se aque-
les só servissem para figurar superficialmentec
a graça de Deus, e estes a apresen-
tassem e a dessem aos homens. Essa doutrina deve ser rejeitada totalmente. Sim,
pois o apóstolo não exalta mais uns do que os outros quando ensina que os nossos
pais “comeram de um só manjar espiritual e beberam da mesma fonte espiritual”
que nós, e logo explica que esse manjar e essa fonte é Cristo45
. Quem se atreverá
a dizer que era vão e vazio aquele sinal que demonstrava para os judeus a verda-
deira comunhão de Jesus Cristo? E bem nos favorece na causa que defendemos o
que o apóstolo debated
na citada passagem. Porque, a fim de que ninguém faça
pouco caso da justiça de Deus, sob pretexto de estar sob a Sua graça, Paulo nos
mostra exemplos do rigor e severidade com que Deus castigou os judeus. E tam-
bém, para que ninguém se julgue objeto da preferência divina, como se tivesse
algum privilégio extraordinário, ele contrapõe essa objeção, igualando-os a nós.
Réplica à alegação de que a Circuncisão é
inferior ao Batismo
Mas alguém poderá alegar o que Paulo, escrevendo aos crentes romanos, disse
sobre a Circuncisão, onde parece que ele a faz muito inferior ao Batismo46
, o que
não é verdade. Porque tudo o que ali se diz sobre a Circuncisão se poderia com
razão dizer também do Batismo, e de fato se diz. O primeiro a fazê-lo é o apósto-
lo Paulo, quando ensina que Deus não dá importância à ablução externa47
, mas
sim a que o coração seja purificado interiormente e persevere na pureza até o fim.
Depois, Pedro também o diz, quando testifica que “a verdade do batismo não está
na purificação externa, mas na boa consciência48
”. Contudo, já que me dispus a
a. sæpe.
b. scolasticum dogma.
c. adumbrarint.
d. Termo jurídico (1539: agit).
43
Jo 19.34.
44
In Ioh. tract.120,2; serm. 5,3; in psalm. 138,2; 126,7; 40,10.
45
1Co 10.3,4.
46
Rm 2.25-29 [1Co 7.19; Gl 5.6; 6.15].
47
1Co 10.1-13
48
1Pe 3.21.
149
49
No preâmbulo da exposição do Salmo 73 [73.2]. [Ver: Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo,
Paulus, 1997, Vol. II, p. 586-587].
50
Conforme se vê na epístola 5.
a. Cap. XI.
b. eadem, virtute spirituali.
expor mais longamente esta matéria na partea
em que deliberei comparar o Batis-
mo com a Circuncisão, agora faço apenas breve alusão a ela.
As diferenças são superficiais
É possível que os excessivos louvores aos sacramentos que se lêem nos escritores
antigos tenham confundido e enganado estes pobres sofistas, levando-os a caírem
nesse erro. Cito como exemplo isto que Agostinho diz: “Os sacramentos da anti-
ga Lei só prometiam salvação, mas os nossos a propiciam49
”. Por não se darem
conta de que esse linguajar era hiperbólico, quer dizer, excessivo, também eles
semearam e divulgaram as suas conclusões em termos hiperbólicos, mas num
sentido muito diferente do que se vê nos escritos dos antigos. Porque no citado
passo Agostinho não quis dizer outra coisa que aquilo que ele mesmo escreveu
noutro lugar50
, a saber, que os sacramentos da lei mosaica prenunciavam Jesus
Cristo, e os nossos O anunciam. Como se dissesse que aqueles O prefiguravam
como Alguém que havia de vir, e os nossos O mostram presente, após ter Ele
vindo e nos ter sido dado. O que facilmente podemos concluir da citação acima
feita, se examinarmos mais acuradamente os seus termos. O mesmo se pode dizer
de uma sua homilia, na qual ele confessa abertamente que os sacramentos dos
judeus eram diferentes nos sinais, mas eram iguais no que significavam; diferen-
tes na aparência perceptível, mas iguais e unos em sua virtude e eficácia espiritualb
.
CAPÍTULO XI
Objetivos da instituição do Batismo
[1536] O Batismo nos foi dado por Deus primeiramente para servir à nossa fé
naquele que o instituiu e, em segundo lugar, para servir à nossa confissão dessa fé
perante os homens. Trataremos nessa ordem desses dois objetivos e motivosb
da
sua instituição.1
a. Este capítulo é muito mais desenvolvido em 1539 do que o era a parte do capítulo correspondente (IV) de
1536. Bucer tratou deste mesmo assunto, mas de maneira muito diferente, em 1536, em sua Exposition de
l’Evangile selon S. Matthieu (Exposição do Evangelho Segundo Mateus, tradução francesa, 1540). A
Instruction (Instrução) de 1537 começa quase nos mesmos termos que temos aqui as duas páginas “Du
baptesme” (Sobre o Batismo).
Farel, em seu Sommaire (Sumário) não contém (ainda em 1534) um capítulo especialmente dedicado ao
Batismo. Ele diz apenas: “Renunciando a tudo por amor de Jesus, como sinal disso são batizados... e confes-
sando que o nosso Senhor deu Seu corpo, morrendo para nos unir a todos num corpo”.
Uma das mais antigas exposições da doutrina evangélica em língua francesa, a Somme chrestienne
(Suma Cristã), dedicada por François Lambert, dito de Avignon, a Carlos Quinto (Marburgo, 1529, exem-
plar único na Biblioteca do Protestantismo Francês), no capítulo (XLVII), sobre o Batismo, diz: “Assim
como a circuncisão era, sob a Lei, um sinal do povo de Deus, assim também, após aquela e a revelação de
Jesus Cristo, o Batismo é um sinal exterior daqueles que confessam o Seu santo nome.
“E, ademais, significa que, assim como Ele morreu e ressuscitou, aqueles que Lhe pertencem devem
também morrer para a carne e para o mundo, e ressuscitar e renovar-se todos os dias em espírito. Rm 6.
“E, visto que sob a Lei os pequeninos recebiam o sinal da Circuncisão, é prestar bom serviço dar às
criancinhas o sinal do Batismo, e orar a Deus por elas e sobre elas”.
b. rationem (uma só palavra).
1
“Batismo é o sinal de iniciação pelo qual somos recebidos à sociedade da Igreja para que, enxertados em Cristo,
sejamos contados entre os filhos de Deus. Com efeito, o batismo foi-nos dado por Deus para este fim, o que
ensinei [Institutas, IV.14.1] ser comum a todos os mistérios, primeiro, para que servisse à nossa fé perante Ele,
segundo, para que servisse à confissão [nossa] perante os homens.” [João Calvino, As Institutas, IV.15.1].
“Finalmente, este proveito também nossa fé recebe do batismo: que nos atesta seguramente não só termos sido
enxertados na morte e na vida de Cristo, mas ainda assim unidos ao próprio Cristo sejamos partícipes de todas
as Suas cousas boas.” [João Calvino, As Institutas, IV.15.6]. “É o Espírito de Deus quem nos regenera e nos
transforma em novas criaturas, visto, porém, que sua graça é invisível e oculta, no batismo nos é dado um
símbolo visível dela.” [João Calvino, As Pastorais, São Paulo, Paracletos, 1998, (Tt 3.5), p. 350-351].
152 As Institutas – Edição Especial
Quanto ao primeiro objetivo, o Batismo faz três benefícios à nossa fé, os
quais é necessário examinar separadamente, um por vez. Primeiro, o propósito de
Deus é que ele seja um símbolo e um sinala
da nossa purificação, ou, melhor
dizendo, foi-nos enviado por Deus como uma mensagem pela qual Ele nos comu-
nica, confirma e assegura que todos os nossos pecados foram perdoados, cober-
tos, abolidos e canceladosb
de tal maneira que jamais serão apresentados à Sua
consideração, nem recordados para nova remissão, nem imputados a nós. Nesse
sentido Ele quer que todos os que crerem sejam batizados para a remissão dos
pecados2
. Por isso, aqueles que se atreveram a escrever que o Batismo não é
senão uma marcac
e um símbolo pelo qual declaramos diante dos homens a nossa
religião, como um soldado leva a farda e a insígnia do seu prínciped
para com isso
declarar-se subordinado a elee
, deixaram de considerar o principal do Batismo, a
saber: que devemos recebe-lo com a promessa de que os que crerem e forem
batizados receberão a salvação3
.
Fundamentos bíblicos
Nesse sentido se deve entender o que apóstolo Paulo escreveu4
, que Cristo se
entregou pela igreja, Sua esposa, “para que a santificasse, tendo-a purificadof
por
meio da lavagem de água pela palavra”, isto é, pelo Batismo com água. E noutro
lugar5
, que, “segundo a sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar
regenerador e renovador do Espírito Santo”. E também o que o apóstolo Pedro
a. symbolum (uma só palavra).
b. deleta, inducta, obliterata (três palabras).
c. tessera (alhures traduzida por: méreau; cf. p. 209, nota a. do original francês).
d. insignia imperatoris.
e. Esta doutrina dos anabatistas era combatida no capítulo XX da Confissão de Fé Helvética, adotada na
Basiléia em 1536. (Cf. Lutero, Concio de confessione et sacramento eucharistiæ, [Discurso sobre a confis-
são e o sacramento da Eucaristia], 1524. Na Segunda Confissão Helvética (1562-1566),113
lemos: “Há um
só batismo na Igreja de Deus; e é suficiente ser uma só vez batizado ou consagrado a Deus. Pois o batismo,
uma vez recebido, continua por toda a vida; e é o selo perpétuo de nossa adoção.”114
2
Mt 28.19; At 2.38.
3
Mc 16.16.
4
Ef 5.26.
5
Tt 3.5.
f. mundatam.
113
A Segunda Confissão Helvética, foi primariamente elaborada em latim, em 1562, pelo amigo, discípulo e
sucessor de Zuínglio (1484-1531), Henry Bullinger (1504-1575). Em 1564, quando a peste voltou a atacar
em Zurique, Bullinger perdeu a esposa e as três filhas. Ele mesmo ficou doente mas foi curado. Neste
ínterim ele fez a revisão da Confissão de 1562 e, como uma espécie de testamento espiritual, anexou-a ao
seu testamento, para ser entregue ao magistrado da cidade, caso ele viesse a falecer. Esta confissão foi
publicada, com algumas alterações – aceitas por Bullinger –, em latim e alemão em 12/03/1566. Ela foi
traduzida para vários idiomas (inclusive o Árabe), tendo ampla aceitação em diversos países nos anos se-
guintes, sendo também adotada na Escócia (1566); na Hungria (1567); na França (1571); na Polônia (1578).
Esta Confissão se tornaria um fator fundamental de união das Igrejas Reformadas da Europa.
114
Segunda Confissão Helvética, XX. In: Livro de Confissões, São Paulo, Missão Presbiteriana do Brasil
Central, 1969, § 5.186.
153
escreveu6
, dizendo que o Batismo nos salva. Certo é que o apóstolo Paulo não
quer dizer que o nosso lavamento e a nossa salvação sejam realizadas perfeita-
mente por meioa
da água; nem que a água contenha alguma virtude ou poder para
nos purificar, regenerar ou renovar. Tampouco o apóstolo Pedro quis dizer que a
água é a causa da nossa salvação. Eles somente quiseram dizer que no sacramen-
to se recebe a segurança de tais graças. As próprias palavras empregadas expli-
cam isso claramente. Porque o apóstolo Paulo junta a Palavra da vida, que é o
Evangelho, ao Batismo com água, como se dissesse: Pelo Evangelho nos é anun-
ciada a nossa purificação e santificação, e pelo Batismo esse anúncio ou essa
mensagem é simbolizada e selada. E o apóstolo Pedro, depois de dizer que o
Batismo nos salva, imediatamente acrescenta: “não sendo a remoção da imundí-
cia da carne” que o faz, “mas a indagação de uma boa consciência para com
Deus”, que provém da fé.
[1539] Por outro lado, porém, o Batismo não nos promete outra purificação
que a que é feita pela aspersão do sangue de Cristo, representado pela água por
sua semelhança com esta, em sua função de lavar e purificar. Quem, pois, dirá
que nós somos purificados pela água do Batismo, sendo que ela testifica que o
sangue de Cristo é o nosso verdadeiro e único lavamento, a nossa verdadeira e
única aspersão7
? Assim, não se poderia encontrar melhor argumento para refutar
o errob
daqueles que atribuem tanta virtude à água do que demonstrando oc
senti-
do do Batismo.
Remissão dos pecados passados e futuros
[1536] Não devemos achar que o Batismo nos é dado unicamente para atestar
solução para o passado, de modo que para os pecados que voltemos a cometer
depois de termos sido batizados precisemos encontrar outra solução, um novo
remédiod
. Certamente desse erro procede o fato de que antigamente alguns não
queriam ser batizados senão no fim da sua existência na terra, na hora da sua
morte, para que assim obtivessem pleno e completo perdão para toda a sua vida.
[1539] Contra essa tola fantasia os bispos falaram muitas vezes em seus escritos8e
.
[1536] Mas devemos saber que em qualquer tempo em que sejamos batizados,
somos lavados e purificados uma vez por todas e por todo o tempo da nossa vida.
Por essa razão, toda vez que cairmos em pecado devemos recorrer à lembrança
a. 1536: renovandi instrumentum esse. 1539: virtutem in se continere.
b. hallucinationem
c. 1541 tem, por erro: qu’elle.
d. Cf. Tomás de Aquino, Summa theol. (Suma teológica), II, I, quæst. 81, art. 3; quæst. 74, art. 3: Transit
peccatum originale reatu eat remanet actu.
e. O Concílio de Florença (1439) lutou contra este erro (Bula de Eugênio IV, Exultate Deo, cap. X).
6
1Pe 3.21.
7
Ver também 1Pe 1.2 (N. do T.).
8
Exemplos: Gregório de Nazianzo (c. 329-389), Discurso XL, 11, e Gregório de Nissa (c. 331-394), Discurso
contra os que protelam o Batismo (N. do T.).
154 As Institutas – Edição Especial
do Batismo e por ela nos confirmar e nos fortalecer na fé, para que estejamos
sempre certos e seguros do perdão dos nossos pecados. Porque, embora pareça
que, por nos ter sido administrado uma só vez, o Batismo já tenha perdido o seu
efeito, todavia ele não é cancelado ou apagado pelos pecados subseqüentes. Por-
quanto a pureza de Cristo nos é oferecida nele, e a Sua pureza está sempre em
vigor, dura para sempre, e não há mancha alguma que a possa sobrepujar.A pureza
de Cristo elimina toda a nossa sujidade e nos purifica de toda a nossa imundícia.
Contudo, não devemos ver nisso ocasião para pecar depois do Batismo,
pois é certo que neste ensino não há nada que nos incite a essa audácia. Esta
doutrina é oferecida unicamente àqueles que, depois de terem cometido pecado,
sentem-se desolados, e se lamentam, cansados e sobrecarregados sob o peso dos
seus pecados, para que tenham com que se levantar e se consolar, e não fiquem
confusos nem caiam no desespero. Por essa razão diz o apóstolo Paulo9
que
Jesus Cristo nos foi feito, Ele próprio, propiciação pelos pecados passados. Com
isso ele não quis dizer que nele não temos perpétua e continua remissão dos
pecados, até à nossa morte. O que quis dizer é que Cristo foi dado pelo Pai aos
pobres pecadores que, feridos pelo cáustico cautério da consciência, suspiram
pelo médico. A esses é oferecida a misericórdia de Deus. Mas aqueles que, des-
cansados em sua impunidade, buscam e tomam ocasião e liberdade para pecar, só
o que fazem é provocar contra si mesmos a ira e o juízo de Deus.
Mortificação e nova vida em Cristo
O segundo consolador benefício que nos faz o Batismo é que nos mostra a nossa
mortificação em Jesus Cristo e também a nossa nova vida nele. Porque, como diz
o apóstolo Paulo10
, “em Cristo fomos batizados em sua morte” e fomos “sepulta-
dos com ele na morte pelo batismo; para que... também andemos nós em novida-
de de vida”. Com essas palavras ele nos exorta, não somente a que O imitemos,
como se dissesse que o Batismo nos admoesta no sentido de que, à semelhança e
segundo o exemplo da morte de Jesus Cristo, morramos para as nossas concupis-
cências, e que, a exemplo da Sua ressurreição, revivamos para a justiça. Não. Ele
sobe a maiores alturas e afirma que pelo Batismo somos feitos participantes da
Sua morte, a fim de que sejamos enxertados nela. E como o enxerto extrai a sua
substância e o seu nutriente da raiz na qual foi inserido, assim também, aqueles
que recebem o Batismo com a fé com a qual ele deve ser recebido, sentem verda-
deiramente a eficácia da morte de Jesus Cristo na mortificação da sua carne. E o
mesmo se dá também com a Sua ressurreição na vivificação do seu espírito11
.
9
Rm 3.25.
10
Rm 6.4.
11
O contexto de Romanos 6 faz contraste entre carne (aí significando os membros e órgãos do corpo; notem-se
os versículos 12 e 13) e o espírito. Ou seja, o contraste é entre a natureza física e a natureza espiritual.
Certamente por isso Calvino faz uso da palavra “espírito”, com inicial minúscula (N. do T.).
155
Disso o apóstolo toma ocasião e matéria para nos exortar no sentido de que, se
somos cristãos, morramos para o pecado e vivamos para a justiça. Ele usa o mes-
mo argumento noutra passagem12
, na qual afirma que fomos circuncidados e des-
pojados do velho homem, e então fomos sepultados com Cristo no Batismo. Nes-
se sentido, na passagem que citamos anteriormente13
, ele descreve essa ação como
lavamento de regeneração e renovação.
A bênção da nossa união com Cristo
[1539] Finalmente, pelo Batismo a nossa fé recebe também esta reconfortante
bênção: Não somente nos é dada a certeza de que estamos inseridos como enxer-
to na morte e na vida de Jesus Cristo, mas também que estamos de tal modo
unidos a Ele que Ele nos faz participantes de todos os Seus bens. Porque por essa
razão Ele consagrou e santificou o Batismo em Seu corpo14
, para que fosse um
firme laço da comunhão e da união que Ele quis ter conosco. Tal é o significado
disso que o apóstolo Paulo prova que somos filhos de Deus pelo fato de que pelo
Batismo fomos revestidos de Cristo15
. Vemos, assim, que o cumprimento do Ba-
tismo está em Cristo, razão pela qual O chamamos objeto e meta a que o Batismo
visa. Por isso não deve causar estranheza que os apóstolos tenham batizado pes-
soas em nome de Cristo [Atos 8.16; 19.5], embora tivessem recebido mandamen-
to16
para batizar em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Porque todos os
dons e dádivas de Deus que nos são oferecidos no Batismo se encontram em
Cristo e unicamente nele. Todavia, quem batiza em nome de Cristo não pode
deixar de invocar igualmente o nome do Pai e do Espírito Santo. Fácil é ver a
razão disso, pois, se temos, como é fato que temos, a nossa purificação no sangue
de Cristo, é porque o Pai, querendo derramar a Sua bondade e a Sua clemência,
reconciliou-se conosco por meio dele como o Mediador. Como também recebe-
mos a nossa regeneração por Sua morte e por Sua vida se, santificados pelo Espí-
rito, é por Ele edificada em nós uma nova natureza espiritual. Segue-se, pois, que
devemos reconhecer que a nossa purificação e regeneração a temos no Pai; a
matéria17
, no Filho; e o efeito, no Espírito Santo. [1536] Vê-se que primeiro João
e depois os apóstolos ministraram o Batismo de arrependimento, para remissão
dos pecados, entendendo pela palavra arrependimento a regeneração, e pela re-
missão dos pecados, a ablução18
.
12
Cl 2.11,12.
13
Tt 3.5.
14
Mt 3.13.
15
Gl 3.27.
16
Mt 28.19.
17
A realidade concreta da redenção consumada historicamente (N. do T.).
18
Mt 3.6-11; Lc 3.16; Jo 3.23; 4.1,2; At 2.38,41.
156 As Institutas – Edição Especial
Não há diferença essencial entre o Batismo de
João e o Batismo cristão
Por isso também nos certificamos de que a ministração do Batismo feita por João
é inteiramente a mesma que depois foi confiada aos apóstolos. Embora adminis-
trado por diferentes mãos, a doutrina é a mesma, o que mostra que o Batismo é
um só e o mesmo. João e os apóstolos aceitavam coesos a mesma doutrina; bati-
zavam para arrependimento; ministravam o sacramento para remissão dos peca-
dos. João disse que Jesus Cristo é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do
mundo”.19
Com isso ele declarou, confessou e testificou que Cristo é o Sacrifício
agradável ao Pai, a propiciação e a salvação. Que mais os apóstolos poderiam acres-
centar a essa confissão? Certamente nada. [1539] Pois ela é plena e completa.
Réplica ao recurso aos escritores antigos
Portanto, que ninguém se perturbe tendo em vista que os mestres antigos se em-
penhavam em diferenciar um Batismo do outro. Porque não devemos ver neles
uma autoridade tal que faça vacilar a argumentação da Escritura. Quem concor-
dará mais com Crisóstomo do que com o evangelista Lucas? Sendo que aquele
nega que o Batismo de João inclui a remissão dos pecados20a
, e Lucas afirma o
contrário21
, quando declara que João pregou “batismo de arrependimento para
remissão de pecados”. A verdade é que, se alguém procurar na Palavra de Deus
alguma diferença entre o Batismo de João e o dos apóstolos, a única diferença
que encontrará é que João batizava em nome daquele que havia de vir, e o após-
tolos em nome daquele que já se havia manifestado.
O fato de que as graças do Espírito Santo foram dadas mais ampla e abun-
dantemente depois da ressurreição em nada contribui para estabelecer alguma
diversidade entre ambos. Porque o Batismo ministrado pelos apóstolos enquanto
Cristo ainda se encontrava entre eles na terra era chamado de Cristo e, contudo,
não apresentava mais riqueza de dons do Espírito que o Batismo de João. E mes-
mo depois da ascensão, os samaritanos, embora tenham sido batizados em nome
de Jesus, não receberam outras graças, além das que tinham recebido os que
creram no período anterior, enquanto não lhes foram enviados Pedro e João para
que lhes impusessem as mãos22
.
O que levou os antigos a considerarem o Batismo de João apenas como uma
preparação para o de Cristo, creio eu, foi que se enganaram quando leram que
aqueles que tinham recebido o Batismo de João tiveram que ser batizados nova-
a. Uma citação do capítulo anterior, e esta, fazem pensar que Calvino leu certos escritos de João Crisóstomo,
ou que ao menos teve intenção de fazer uso deles, depois de 1536 e antes de 1539.
19
Jo 1.29.
20
Comentário de Mateus, homilia X, 1 (N. do T.).
21
Lc 3.3.
22
At 8.14-19.
157
mente pelo apóstolo Paulo23
. Mas quão falso é esse modo de entender se verá
claramente mais adiante.
Como entender Mateus 3.11?
[1536] Que terá querido João dizer então, quando afirmou que ele batizava com
água mas que depois viriaAquele que batizaria com o Espírito Santo e com fogo24
?
Isso pode ser explicado rapidamente. João não quis distinguir entre um Batismo e o
outro, mas o que fez foi uma comparação da sua pessoa com a de Jesus Cristo. E
então se declarou ministro da água, e Cristo o doador do Espírito Santo, e que Ele
manifestaria esse poder por meio de um milagre visível no dia em que haveria de
enviar o Espírito Santo aos Seus apóstolos mediante línguas de fogo. Que outra
coisa mais os apóstolos poderiam atribuir a si mesmos? E também, que outra coisa
mais poderiam atribuir a si mesmos os que batizam atualmente? Pois eles são ape-
nas ministros do sinal externo, mas Jesus Cristo é o Autor da graça interna.
Figuras da mortificação e da purificação no
Antigo Testamento
O que dissemos sobre a mortificação e a ablução ou purificação foi prefigurado
no povo de Israel. Por essa razão diz o apóstolo Paulo que todos foram “batizados,
assim na nuvem como no mar”.25
A mortificação foi prefigurada quando o Se-
nhor, tendo-os libertado do jugo e da cruel servidão do faraó, abriu caminho para
eles através do Mar Vermelho e submergiu em suas águas o faraó e os demais
egípcios, seus inimigos, que os perseguiam26
. Porque dessa maneira no Batismo
Deus nos promete, e pelo símbolo nos demonstra e nos garante, que por Sua
virtude e por Seu poder, libertou-nos do cativeiro do Egito, isto é, da escravidão
do pecado, e que o nosso faraó, o Diabo, foi submerso, embora ainda não pare de
nos pressionar e de nos aborrecera
. Mas, assim como aquele egípcio afogado não
permaneceu no fundo do mar mas, sendo lançado à margem, continuou causando
temor aos filhos de Israel, que o achavam medonho, embora não pudesse prejudicá-
los, assim também é certo que esse nosso inimigo nos ameaça, exibe as suas
armas e nos faz sentir sua ação contra nós, mas não nos pode vencer.
Na nuvem foi prefigurada a purificação27
. Porque, assim como naquele tem-
po o Senhor os cobriu com uma nuvem, refrescando-os com sua sombra para que
não desmaiassem nem fossem consumidos pelo forte e ardente calor do sol, as-
sim também no Batismo fica demonstrado que somos cobertos e protegidos pelo
a. fatigare.
23
At 19.3-5.
24
Mt 3.11; Lc 3.16.
25
1Co 10.2
26
Êx 14.21-29.
27
Nm 9.15-22.
158 As Institutas – Edição Especial
sangue de Jesus Cristo, para que não caia sobre nós o rigor do juízo de Deus,
juízo que é realmente um fogo de ardor insuportável.
O Batismo não nos restitui a natureza
sem pecado anterior à Queda
Desde já podemos perceber claramente quão falso é o que alguns têm ensinado28
,
a saber: que pelo Batismo ficamos livres e isentos do pecado original e da corrupção
que passou de Adão a toda a sua descendência;29
e que somos restaurados à mes-
ma justiça original e à mesma pureza de natureza que Adão continuaria tendo se
tivesse permanecido sempre na integridade com a qual tinha sido criado origina-
riamente30
.31
Essa classe de doutores jamais entendeu o que é o pecado original, o
que é a justiça original e o que é a graça do Batismo.
Ora, já acimaa
sustentamos que o pecado original é uma perversão e corrupção
da nossa natureza, corrupção que primeiro nos torna culpados e merecedores da
ira de Deus e da condenação, e, em segundo lugar, produz em nós aquilo que a
Escritura denomina obras da carne. Devemos, pois, considerar estas duas verda-
des: a primeira é que, como estamos contaminados e pervertidos em todas as
partes da nossa natureza, já, por causa dessa corrupção, estamos com justiça con-
denados e convictos de culpa diante de Deus, a quem nada agrada mais que a
justiça, a inocência e a pureza. E até as crianças trazem consigo a sua própria
condenação, desde o ventre de sua mãe. Porque, embora não tenham ainda pro-
duzido os frutos da sua iniqüidade, elas têm em si mesmas a semente do mal. Na
verdade, toda a sua natureza é uma semente de pecado. Por essa causa, sua natu-
reza só pode ser odiosa e abominável para Deus.32
a. Cap. I.
28
Cf. Decret. Gratiani III, dist. IV, cap. 1 (Migne, 187, 1791).
29
*“.... Adão, em sua queda, foi despojado de sua justiça original, sua razão foi obscurecida, sua vontade,
pervertida, e que, sendo reduzido, a este estado de corrupção, trouxe filhos ao mundo semelhantes a ele em
caráter. Se porventura alguém objetar, dizendo que essa geração se confina aos corpos, e que as almas jamais
poderão derivar uns dos outros algo em comum, eu responderia que Adão, quanto em sua criação foi dotado
com os dons do Espírito, não mantinha um caráter privativo ou isolado, mas que era o representante de toda
a humanidade, que pode ser considerado como tendo sido dotado com esses dons em sua pessoa; e deste
conceito necessariamente se segue que, quando ele caiu, todos nós, juntamente com ele, perdemos nossa
integridade original.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 51.5), p. 431-432].
30
Alex. Halès, Summa, IV,9,8, m. 8, art. 3. [Alexandre Alésio (1500-1565), teólogo escocês, natural de Edim-
burgo. Estabelecido em Wittenberg, apoiou vigorosamente a Reforma. Fez-se amigo de Lutero e de
Melanchthon. Foi signatário da Confissão de Augsburgo. Acréscimo do tradutor.]
31
“Agora não nascemos tais como Adão fora inicialmente criado, senão que somos a semente adulterada do
homem degenerado e pecaminoso” [João Calvino, Efésios, São Paulo, Paracletos, 1998, (Ef 2.3), p. 56.].
32
“Não teremos uma idéia adequada do domínio do pecado, a menos que nos convençamos dele como algo que
se estende a cada parte da alma, e reconheçamos que tanto a mente quanto o coração humanos se têm
tornado completamente corrompidos.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 51.5), p. 431]. “Sa-
bemos, porém, que, pela queda de Adão, toda a humanidade caiu de seu primitivo estado de integridade;
porque, pela queda, a imagem divina ficou quase que totalmente extinta de nós, e fomos igualmente despo-
jados de todos os dons distintivos pelos quais teríamos sido, por assim dizer, elevados à condição de
semideuses. Em suma, de um estado da mais sublime excelência fomos reduzidos a uma condição de mise-
159
O Batismo certifica aos crentes que essa condenação foi eliminada e extir-
pada deles. Isso porque, como dissemos, o Senhor nos promete, mediante esse
sinal e símbolo, que nos é feita plena e completa remissão dos pecados, tanto da
culpa que nos deveria ser imputada, como da pena que pela culpa teríamos que
receber e sofrer. E também os crentes recebem justiça, mas nos termos em que
lhes é possível recebê-la nesta vida, isto é, unicamente por imputação, pela qual,
por Sua misericórdia, Deus os vê como justos e inocentes.
A segunda verdade que neste contexto devemos considerar é que a referida
perversidade da nossa natureza nunca cessa em nós, mas constantemente33
produz
em nós novos frutos, quais sejam, as obras da carne acima descritas como uma
fornalha acesa sempre a lançar labaredas e fagulhas, ou como um manancial de
águas correntesa
continuamente vertendo sua água. Porque a concupiscência nunca
morre nem é extinta por completo nos homens, até quando, livres da morte pela
morte do corpo, sejam inteiramente despojados de si mesmos. É certo que o Batis-
mo nos garante que o nosso faraó foi afogado e que a nossa carne está mortificada.
Todavia, não ao ponto de que o nosso inimigo não mais exista e que já não nos
incomode, mas somente no sentido de que já não nos pode vencer. Porque, enquan-
to vivermos encerrados na prisão que o nosso corpo é, os restos e as relíquiasb34
do
pecado habitarão em nós. Mas, se pela fé retivermos a promessa que Deus nos fez
no Batismo, essas forças adversas não nos dominarão e não reinarão em nós.35
Todavia, que ninguém se engane nem se vanglorie do seu mal, ao ouvir que
o pecado habita sempre em nós. Isso não é dito para que os pecadores durmam
sossegados em seus pecados, mas unicamente com este propósito: que aqueles
que, aborrecidos, tentados e espicaçados por sua carne, não fiquem desolados,
não se desanimem e não percam a esperança; antes, que vejam que continuam no
caminho certo e que tiveram bom proveito ao sentirem que a sua concupiscência
vai diminuindo pouco a pouco, dia após dia, até chegarem à meta almejada, a
saber, a eliminação derradeira e final da sua carne, alcançando a perfeição quan-
do esta vida mortal tiver fim.
rável e humilhante destruição.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 1,
(Sl 8.5), p. 169]. Não teremos uma idéia adequada do domínio do pecado, a menos que nos convençamos
dele como algo que se estende a cada parte da alma, e reconheçamos que tanto a mente quanto os corações
humanos se têm tornado completamente corrompidos.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo,
Paracletos, 1999, Vol. 2, (Sl 51.5), p. 431].
33
Rm 7.7-25.
34
O termo relíquias, no contexto eclesiológico romanista, refere-se mais especificamente a partes de cadáveres
de “santos”, ou a objetos do seu uso, ou a instrumentos utilizados em seu suplício, e que são preservados
com objetivo religioso (N. do T.).
35
“Ainda que o pecado não reine, ele continua a habitar em nós e a morte é ainda poderosa.” [João Calvino,
Efésios, São Paulo, Paracletos, 1998, (Ef 1.20), p. 44]. “Quanto trazemos ainda conosco de nossa carne é
algo que não podemos ignorar, pois ainda que a nossa habitação está no céu, todavia somos ainda peregrinos
na terra.” [J. Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo, Paracletos, 1997, (Rm 13.14), p. 462]
a.Aqui 1536 acrescenta: “Qui peccatum originale definierunt: carentiam justitiæ originalis, non satis significanter
vim ipsius expresserunt” (alusão à Suma de Tomás de Aquino, I, II, quæst. 82, art. 3).
b. 1536 tem somente: reliquiæ.
160 As Institutas – Edição Especial
Conclusão desta parte
Então, o que devemos saber e ter em mente é que somos batizados para a morti-
ficação da nossa carne, que essa mortificação começa assim que recebemos o
Batismo e a devemos continuar todos os dias da nossa vida; e que será perfeita
quando desta vida formos levados ao Senhor.
O Batismo é uma forma de confissão de fé
perante os homens
Pois bem, elea
serve de confissão diante dos homens da seguinte maneira: O Batis-
mo é um sinal e um símbolo pelo qual declaramosb
que desejamos ser contados
com o povo de Deus, e testificamos que consentimos e concordamos em servir a
um só Deus e a uma só religião com todos os cristãos; finalmente, por ele declara-
mos e asseveramos publicamente a nossa fé, de modo que Deus não seja adorado
somente em nosso coração, mas também a nossa língua e todos os membros do
nosso corpo, quanto possível, exteriorizem e proclamem os Seus louvores. Porque,
assim, tudo o que nos pertence [tudo o que somos e tudo o que fazemos] é posto,
como se deve, ao serviço da glória de Deus, glória que deve preencher todas as
coisas; e os demais, vendo o nosso exemplo, serão estimulados a dedicar-se a igual
propósito. Nisso pensava o apóstolo Paulo quando perguntou aos coríntios se eles
não tinham sido batizados em nome de Cristo36
. Com isso ele quis dizer que os
crentes coríntios se haviam dedicado a Ele, que O tinham recebido e confessado
como seu Senhor e Mestre, e que tinham assumido compromisso com sua fé diante
dos homens de tal modo que não poderiam confessar outro nome senão o de Cristo,
se não quisessem renegar a sua confissão, feita no Batismo.
Sentido e uso do Batismo quanto à
confirmação da fé
Tendo nós declarado o fim e a razão pela qual o Senhor instituiu e ordenou o
Batismo, agora será fácil mostrar como devemos fazer uso dele e recebê-lo. Por-
que, como nos é dado para fortalecer, consolar e confirmar a nossa fé, é necessá-
rio recebê-lo como procedente da mão de Deus e ter como coisa certa e indubitável
que é Ele que nos fala mediante este símbolo; que é Ele que nos limpa, nos puri-
fica e apaga a lembrança dos nossos pecados; que é Ele que nos faz participantes
da morte de Seu Filho; que é Ele que amortece as forças do Diabo e da nossa
concupiscência; que é Ele que até mesmo nos reveste de Seu Filho. Portantoc
,
a. O Batismo.
b. A Instrução de 1537 tem: fazemos profissão, nas poucas linhas que, de outro lugar, são reproduzidas quase
textualmente aqui.
c. 1536 e 1539: inquam (dis-ie, digo eu, fórmula freqüente quando Calvino fala).
36
1Co 1.13.
161
devemos crer e estar tão certa e verdadeiramente seguros de que Deus faz todas
estas coisas interiormente, em nossa alma, como exteriormentea
vemos o nosso
corpo lavado, submerso e rodeado de água. Pois esta analogia ou comparação é
uma certíssima regra relativa aos sacramentos, que nas coisas corporais vemos e
meditamos as espirituais, uma vez que ao Senhor aprouve representá-las por meio
destas figuras. Não é que tais graças estão atadas ao sacramento e nele encerra-
das, ou que por sua virtude ou poder elas nos são conferidas, mas é somente que,
por meio do sinal e símbolob
, o Senhor nos testifica a Sua boa vontade; isto é, que
Ele nos quer dar todas estas coisas.
Cornélio, uma boa ilustração
Desse ponto vê-se um bom exemplo no caso do centurião Cornélio. Note-se que,
depois de ele ter recebido a remissão dos pecados e os dons visíveis do Espírito
Santo, não obstante foi batizado37
, não para receber pelo Batismo mais ampla
remissão, mas para mais correto e seguro exercício da sua fé.
Objeção e réplica
Pode ser que alguém faça esta objeção: Se os pecados não são purificados pelo
Batismo, por que foi que Ananias disse ao apóstolo Paulo que pelo Batismo la-
vasse os seus pecados38
? Respondo: O que nos é dito é que recebemos e conse-
guimos ou obtemos aquilo que cremos que nos é dado por Deus, quer quando
começamos a conhecê-lo, quer, tendo-o conhecido anteriormente, passamos a ter
mais firme convicção. Logo, Ananias, com essas palavras só quis dizer o seguin-
te: “Paulo, para que estejas certo e seguro de que os teus pecados são perdoados,
aceita seres batizado. Porque no Batismo o Senhor promete a remissão dos peca-
dos; recebe-a e assegura-te dela”. Acresce que do sacramento não temos outra
coisa senão o que recebemos pela fé. Se nos faltar a fé, o próprio Batismo servirá
de testemunha contra nós, acusando-nos diante de Deus de que fomos incrédulos,
não crendo na promessa que nele nos é feita. Sendo, porém, um sinal e um símbo-
lo da nossa confissão, devemos por ele testificar que a nossa confiança firma-se
na misericórdia de Deus; que a nossa purificação apóia-se na remissão dos peca-
dos, realizada por Jesus Cristo; e que ingressamos na igreja de Deus a fim de que,
pela união e pelo consentimento comum nascidos da fé e do amor, convivamos com
um só espíritoc
com todos os crentes. É o que o apóstolo Paulo quis dizer quando
declarou que “em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo”.39
a. extra.
b. Uma só palavra em latim: tessera.
c. unanimes.
37
At 10.43-48.
38
At 22.16.
39
1Co 12.13.
162 As Institutas – Edição Especial
O ministro oficiante não é o fator determinante da eficácia do Batismo,
nem influi na maior ou menor riqueza dos seus benefícios
Se o que acima estabelecemos é verdade, isto é, que não se deve receber o sacra-
mento como procedente da mão daquele que o administra, mas como proveniente
da mão do próprio Deus, por quem sem dúvida nos é enviado, pode-se concluir
que o oficiante não acrescenta nem elimina coisa alguma da dignidade do sacra-
mento. E assim como entre os homens, se uma carta é enviada, pouco importa o
seu portador, desde que se reconheça a assinatura do missivista, assim também
devemos dar-nos por satisfeitos em reconhecer a mão e a assinatura do Senhor
em Seus sacramentos, seja quem for o mensageiro que no-los traga. Com isso
refutamos e destruímos o erro dos donatistas, que avaliavam e entendiam a virtu-
de e a eficácia do sacramento pela dignidade e capacidade do ministro.
Erro semelhante cometem os atuais anabatistasa
, que negam que fomos re-
almente batizados, porque fomos batizados por ímpios e idólatras pertencentes
ao reino do papa. Por isso exigem furiosamente que sejamos rebatizadosb
.
A validade do Batismo dos reformados
Para defender-nos dessas tolices dispomos de forte argumento. Basta lembrar
que fomos batizados, não em nome de algum homem, mas em nome do Pai e do
Filho e do Espírito Santoc
. E, portanto, o Batismo não é de homem, mas de Deus,
quem quer que o tenha ministrado. E então, qualquer ignorância e desprezo de
Deus que tenham tido os que nos batizaram, não nos batizaram na comunhão da
sua ignorância e da sua impiedade, mas na fé em Jesus Cristo. Porque eles não
invocaram o nome deles, mas o de Deus, e não nos batizaram noutro nome que
não o de Deus. Pois bem, se o Batismo era de Deus, teve certamente a promessa
de remissão dos pecados, de mortificação da carne, de vivificação espiritual e de
participação em Cristo.
O Batismo ministrado por ímpios, e seus frutos
Ademais, eles perguntam que fé foi seguida entre nós durante uns tantos anos
para daí concluírem que o nosso Batismo é vão, o qual não nos santifica a não ser
que a palavra da promessa seja recebida pela fé À apresentação dessa condição
respondemos que é certo que por longo tempo estivemos cegos e fomos incrédulosd
,
e que não aceitamos a promessa que nos era feita no Batismo. Todavia, também é
certo que, como a promessa é de Deus, permanece firme e verdadeira, desde o
a. 1536 e1539 tinham Catabaptistæ, palavra que designava mais exatamente esta doutrina, mas anabaptistes
prevaleceu, já por volta de 1540.
b. anabaptismum urgent. Cf. acima, cap. X.
c. João Calvino tinha sido batizado dessa forma pelo cura de Sainte-Godeberte, em Noyon, em 1509.
d. Para Calvino esse período durou até perto dos vinte anos de idade.
163
princípio até o fim. Porque, ainda que todos os homens fossem mentirosos e
infiéis, Deus não deixa de ser verdadeiro, e ainda que todos os homens se perdes-
sem e estivessem condenados, Jesus Cristo continua sendo a salvação.40
Reco-
nhecemos, pois, que naquele tempo o Batismo não foi de nenhum proveito para
nós, visto que a promessa permanecia desprezada, promessa sem a qual o Batis-
mo não é coisa alguma. Mas agora, graças a Deus, quando começamos a corrigir-
nos, condenamos a nossa cegueira e dureza de coração, tendo nos mantido por
tanto tempo ingratos á Sua bondade. Não cremos, porém, que a promessa tenha
desaparecido; antes, consideramos o seguinte: Pelo Batismo Deus promete a re-
missão dos pecados, e sem dúvida cumprirá a promessa para todos os que crêem.
Essa promessa nos foi oferecida no Batismo; abracemo-la, pois, pela fé! Certa-
mente, por causa da nossa infidelidade, essa promessa esteve sepultada por muito
tempo; recuperemo-laa
agora pela fé!
Ilustração: a Circuncisão não repetida
[1539] Por esse motivo, quando o Senhor exorta o povo judeu ao arrependimento,
não ordena que se circuncidem de novo aqueles que tinham sido circuncidados por
mãos de homens ímpios e sacrílegos, e que por algum tempo haviam vivido na
mesma impiedade. Somente exige deles que se convertam de coração. Porque,
embora a aliança tenha sido violada por eles, o sinal da aliança, instituído por Deus,
permanecia sempre firme e inviolável. Por isso Ele os recebia com a única condi-
ção de que se arrependessem. Confirmava-os assim na aliança outrora feita com
eles por meio da Circuncisão, apesar de esta lhes ter sido aplicada por sacerdotes
ímpiosb
e de eles mesmos a terem tornado falsa por sua própria iniqüidade.
Por que Paulo mandou rebatizar os que tinham recebido o
Batismo de João?
[1536] Mas parece a eles que nos lançam um dardo de fogo quando alegam que o
apóstolo Paulo rebatizou alguns que tinham recebido o Batismo de João41
. Só
parece, porque, conforme a exposição que fizemos, sendo o Batismo de João em
tudo igual ao que usamos atualmente, assim como aqueles que antes não estavam
bem estruturados, depois de serem instruídos na fé e na reta doutrina, foram
batizados novamente, assim também o Batismo que é ministrado sem a verdadei-
ra doutrina deve ser considerado nulo, e aqueles que foram batizados dessa forma
devem ser rebatizados na verdadeira religião, na qual agora estão instruídos.
[1539] Alguns são de opinião que a pessoa que os tinha batizado anterior-
mente era algum tolo imitadorc
de João Batista, e que o tinha feito mais baseado
a.recipiamus.
b. fœdifragi.
c.xxxozhlon.
40
1Co 1.30 (N. do T.).
41
At 19.3-5.
164 As Institutas – Edição Especial
em vãs superstições que na verdade. E eles acham que têm razão de conjeturar
que aqueles cristãos confessaram que não sabiam o que é o Espírito Santo, e que
João Batista não teria deixado os seus discípulos nessa ignorância. Mas também
não parece provável que os judeus, mesmo os que não foram batizados, não tives-
sem algum conhecimento do Espírito Santo, uma vez que a Escritura O menciona
muitas vezes. Portanto, a resposta por eles dada, de que nem sabiam “que existe
o Espírito Santo”, deve ser interpretada no sentido de que não tinham ouvido
falar que as graças do Espírito Santo, a respeito das quais Paulo os tinha interro-
gado, eram distribuídas aos discípulos de Cristo.
[1536] Quanto a mim, concordo que eles tinham recebido o verdadeiro Ba-
tismo quando foram batizados “no batismo de João”. Nego, porém, que tenham
sido rebatizados. Que é que significam as palavras: “Foram batizados em o nome
do Senhor Jesus”? Alguns as interpretam dizendo que só significam que eles
foram instruídos pelo apóstolo na pura e sã doutrina, mas eu prefiro explicá-las
mais simplesmente, neste sentido: que ele fala do Batismo do Espírito Santo,
querendo dizer que as graças visíveis do Espírito Santo lhes foram concedidas
mediante a imposição das mãos. De fato, não poucas vezes essas graças são de-
signadas pelo nome de Batismo na Escritura. [1539] Por exemplo, como ocorreu
que, segundo nos é narrado, no dia de Pentecoste os apóstolos se lembraram das
palavras proferidas pelo Senhor sobre o Batismo com o Espírito e com fogo. E
como também Pedro cita as mesmas palavras, lembrando que as mesmas graças
tinham sido derramadas sobre Cornélio e sua família42
. [1536] E isso não vai
contra o que se diz logo a seguir: “E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles
o Espírito Santo”. Porque Lucas não relata duas coisas diferentes, mas segue uma
forma de narração comum entre os hebreus, que costumavam apresentar primeiro
um resumo da matéria tratada e depois a expunham mais amplamente. Isso qual-
quer pessoa pode perceber deduzindo-o destas próprias palavras do texto: “Eles,
tendo ouvido isto, foram batizados em o nome do Senhor Jesus. E, impondo-lhes
Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo”. Esta última frase mostra clara-
mente que Batismo foi aquele.
[1539] Considere-se o seguinte: Se o primeiro Batismo fosse defeituosoa
e
nulob
por causa da ignorância dos batizandos, devendo eles ser rebatizados, os
próprios apóstolos teriam que ser os primeiros a ser batizados de novo, porque,
após o Batismo, passaram três anos sem ter grande conhecimento da verdadeira
doutrina. E entre nós, quantas águas oceânicasc
seriam suficientes para repetir-
mos tantos Batismosd
quantos seriam necessários para nos lavar da ignorância da
qual o Senhor nos censura e nos corrigee
diariamente?
a. b. Termos jurídicos. 1539 tem somente: vitiat.
c. 1539: flumina.
d. tinctionibus.
e. quot ignorantiæ.
42
At 1.5 e 11.16.
165
O BATISMO INFANTIL43
: OBJEÇÕES E RESPOSTAS
Não é acréscimo à Palavra de Deus; nela se baseia
[1541]a
Alguns espíritos mal-intencionadosb
se levantam contra o nosso hábito de
batizar criançasc
, como se essa prática não tivesse sido instituída por Deus, mas
se tratasse de algo inventado pelos homens recentemente, ou ao menos pouco
tempo depois dos apóstolos. Em face disso, achamos que, por dever de ofício, é
preciso confirmar e fortalecer nesse ponto as consciências fracas e refutar as
falsas objeções dos enganosos oponentes, com as quais eles poderiam perverter a
verdade de Deus no coração de pessoas simples, não suficientemente preparadas
para contestar suas cavilações sutis e hipócritas.
Porque em geral eles usam um argumento à primeira vista muito forte a seu
favor, alegando que só desejam que a Palavra de Deus seja guardada e mantida
em sua inteireza, sem nada lhe acrescentar nem subtrair. E acusam aqueles que
tomaram a iniciativa de, segundo os nossos opositores, inventar a prática de bati-
zar crianças e a acrescentaram ao que dispõe a Escritura, sem que para isso con-
tassem com algum mandamentod
. Concederíamos que esse argumento seria mais
que suficiente, se eles pudessem provar o seu intento – de que o Batismo infantil
é fruto de invenção humanae
, e não uma ordenança de Deus. Mas quando, ao
a. Caso assaz raro: não somente as poucas linhas de 1536 são muito desenvolvidas em 1539, mas também o
desenvolvimento de 1539 é substituído em 1541 por um texto que não é tradução do latim.
Em Estrasburgo provavelmente, pois em Genebra Calvino conheceu melhor certas doutrinas que ele
combate logo a seguir.
Já no início do século XVI existiam na Holanda partidários do Batismo só de adultos (mais tarde
denominados batistas), quando essa doutrina foi adotada por Menno Simons, que veio a ser o cabeça deles.
Primeiramente como pároco, teve, sobretudo depois de 1531, o desejo de estudar mais pessoalmente a
Bíblia e os escritos de Erasmo, de Lutero e dos primeiros “evangélicos”. Ele reprovava severamente as idéias
revolucionárias dos anabatistas sob o ponto de vista social; não se cometa o erro de confundir anabatismo
com menonismo. No início de 1536, Menno Simons demitiu-se do seu cargo e, quanto ao Batismo, limitou-
se a batizar adultos; ele escreveu (em baixo alemão115
) o Fondament bock (livro dos fundamentos), publica-
do em 1539, insistindo (como fez Calvino na epístola ao rei) em que não fosse associado aos fanáticos de
Munster. Calvino nunca se encontrou com ele, nem leu suas obras. Conheceu suas idéias por meio de
terceiros. Os “menonitas” foram assim chamados por seus adversários aproximadamente a partir de 1544.
Por volta de 1556, Calvino, escrevendo Contra Mennonem (Opera, X, 167), diz: “A doutrina menonita não
me era desconhecida”. Em 1562, em sua Response à un Holandois (Resposta a um Holandês), ele fala de
um “fantástico Menno, com o qual (diz ele) não tenho nada em comum, não mais do que a água tem em
comum com o fogo”. Havia “freiras suíças” e sectários alemães e tiroleses que, mais ou menos na mesma
época, mais próxima de Calvino, professavam doutrinas análogas; seus escritos, que Calvino pôde conhecer,
pouco menos que desapareceram.
43
Alguns criticam o uso do termo “infantil” ligado ao sacramento. Mas “infantil” tem, entre outros sentidos,
este: “Que diz respeito a crianças” (Michaelis 2000) (N. do T.).
115
Língua falada no norte da Alemanha (N. do T.).
b. O Sumário de Farel, mesmo em 1534, não fala sobre o Batismo de crianças (cap. XVIII). A Instrução de
1537, no fim do artigo Sobre o Batismo, diz: “Por boa razão batizamos as nossas crianças, sendo elas
participantes da aliança eterna, pela qual o Senhor promete, não somente que será nosso Deus, mas também
da nossa semente (Gênesis 17)”. Calvino teve um filho que morreu no dia em que nasceu.
c. Hoc século phrenetici quidam spiritus ob pædobaptismum graves excitarunt in ecclesia turbas.
d. Cf. 1539: hominum curiositate in usum temere receptus.
e. 1539: sola hominum temeritate excogitatum.
166 As Institutas – Edição Especial
contrário, mostrarmos claramente que são eles que com falsidade e erro nos pres-
sionam com a calúnia de chamar de tradição humana esta instituição muito bem
alicerçada na Palavra de Deus, que lhes restará, senão que esse pretexto que em
vão alegam vire fumaça?
A regra da fé
Pois aqui devemos lembrar-nos da regra a nós ditada pelo apóstolo Paulo, pela
qual se pode entender bem a Escritura. Por essa regra, na exposição da Escritura
sempre devemos fazer esse trabalho “segundo a medida da fé”.44
É como se nos
fosse ordenado que tenhamos os olhos postos neste alvo: Reportar tudo o que a
Escritura nos ensina à doutrina da fé, e desta, como a fonte verdadeira, deduzir a
explicação de toda e qualquer doutrina espirituala
. Uma vez tendo este funda-
mento (que para os cristãos deve ser perpétuo e geral, aplicável a toda a Palavra
de Deus), nos será fácil reconhecer que o Batismo infantil cumpre a vontade do
Senhor e é de instituição divina. Por outro lado, teremos facilidade em desfazer e
resolver todas as dificuldades nas quais alguns estão envolvidos por não observa-
rem esta regra tão necessária.
O que mais importa é a realidade interior e espiritual,
não os atos externos
[1539] Agora, passando a tratar especificamente do nosso presente propósito, os
crentes devem ter como algo resolvido o seguinte: Em que consiste a correta
consideração dos sinais e símbolos ou sacramentos que o Senhor deixou e dos
quais incumbiu a Sua igreja? Não consiste apenas nas exterioridades ou nas ceri-
mônias externas, mas depende principalmente das promessas e dos mistérios es-
pirituais que o Senhor quis representar com essas cerimônias.
Por isso mesmo, saber o que é o Batismo e qual a sua utilidadeb
não é ques-
tão de fixar toda a atenção na água e nos atos externos, mas é necessário elevar o
pensamento às promessas que Deus no Batismo nos faz e à realidade interior e
espiritual que ele representa. Se tivermos isso, teremos a substância e a verdade
do Batismo, decorrendo daí que viremos a compreender o fim para o qual esta
aspersão de água que no Batismo se faz, e para que nos serve. Por outro lado,
desprezando e deixando de lado estas coisas, se fixarmos o nosso espírito única e
totalmente na observância exterior, jamais compreenderemos a eficácia e a im-
portância do Batismo, como tampouco entenderemos o que significa esta água,
nem a sua utilidade. Não nos demoramos muito neste assunto, visto que é expos-
a. Cf. Farel, Sumário, cap. VIII: “Portanto, é preciso provar, pela santa Palavra de Deus, e examinar diligente-
mente todas as moções ou propostas, todas as resoluções e declarações de fé, para saber que espírito têm os
que as sugerem”.
b. quorsum spectet.
44
Rm 12.3.
167
to tantas vezes e com tanta clareza na Escritura que não deveria ficar duvidoso ou
obscuro para os cristãos.
O que ainda nos resta é averiguar, nas promessas feitas no Batismo, qual é a
sua substânciaa
.
Substância das promessas que nos são feitas no Batismo
A Escritura nos ensina que a remissão e purificação dos nossos pecados, bên-
ção que obtemos graças à efusão do sangue de Jesus Cristo, nos é representada
primeiramente, e, logo após, a mortificação da nossa carne, que obtemos parti-
cipando da Sua morte, para, semelhantemente, ressuscitarmos para uma nova
vida [1541]b
, a saber, para uma vida de inocência, santidade e pureza. Com
isso, entendemos logo de início que o sinal visível e material é tão-somente
uma representação de coisas mais altas e mais excelentes, para cujo conheci-
mento é preciso recorrer à Palavra de Deus, na qual está toda a virtude e eficá-
cia do sinal. Pois bem, por essas palavras vemos que as coisas simbolizadas e
representadas são a purificação da nossa carne, para sermos feitos participantes
da regeneração espiritual, a qual deve estar presente em todos os filhos de Deus.45
Finalmente, vemos que todas estas coisas são efetuadas em Jesus Cristo, sendo
que Ele é o fundamento.
Sumário desta parte
[1539] Eis aqui, em suma, a declaração sobre o Batismo à qual se pode reduzir
e referir tudo o que a respeito diz a Escritura, exceto um ponto que ainda não
foi tocado, qual seja, que ele nos serve também de marca por meio da qual
confessamos diante dos homens o Senhor como o nosso Deus, e somos admiti-
dos ao Seu povoc
.
Relação entre a Circuncisão e o Batismo
Tendo em vista que, antes da instituição do Batismo, o povo de Deus tinha em
lugar dele a Circuncisão, vigente sob o Antigo Testamento, devemos aqui consi-
derar estes dois sinais ou símbolos, para podermos entender sua semelhança e
sua diferença, e ver o que podemos deduzir de cada um deles.
a. quæ vis ejus sit et natura.
b. Este parágrafo, como o que consta acima [sob o título O Batismo Infantil: Objeções e Respostas, subtítu-
lo: Substância das promessas que nos são feitas no Batismo], não é uma tradução, mas um desenvolvi-
mento do texto de 1539; Calvino insiste em suas idéias previamente expostas.
c. Testandæ apud homines religionis tessera.
45
“O poder e o uso dos sacramentos são corretamente subentendidos quando conectamos o sinal com aquilo
que está implícito nele, de tal forma que o sinal não é algo vazio e ineficaz, e quando, querendo enaltecer o
sinal, não despojamos o Espírito Santo do que lhe pertence. (...) Se porventura não fizermos nem quisermos
fazer do santo batismo um ato nulo e vazio, devemos provar sua eficácia através da novidade de vida.” [J.
Calvino, As Pastorais, São Paulo, Paracletos, 1998, (Tt 3.5), p. 350].
168 As Institutas – Edição Especial
Quando o Senhor ordenou a Circuncisão a Abraão46
, primeiro lhe fez a pro-
messa de que seria ser o seu Deus e o Deus da sua descendência, declarando-se
todo-poderoso e revelando que tem em Suas mãos todas as coisas e que nele estão
a plenitude e a fonte de todos os bens. Essas palavras incluem a promessa da vida
eterna, como o declara o Senhor Jesus Cristo, ao formular um argumento extra-
ído do fato de que Seu Pai é chamado Deus deAbraão, para convencer os saduceus
da imortalidade e ressurreição dos crentes. Porque “Ele não é Deus de mortos e
sim de vivos”.47
Por isso mesmo o apóstolo Paulo, no capítulo dois de Efésios48
, mostrando
aos seus destinatários de que tremenda desgraça Deus os havia tirado, disso con-
clui que, não tendo eles recebido a Circuncisão, estavam “sem Cristo, separados
da comunidade de Israel, [eram] estranhos às alianças da promessa, não tendo
esperança e [estando] sem Deus no mundo”, visto que a Circuncisão testificava
todas essas bênçãos. Ora, o primeiro passo que devemos dar para aproximar-nos
de Deus e para entrarmos na vida eterna é a remissão dos nossos pecados. Disso
decorre que esta promessa corresponde à do Batismo,que testifica a nossa puri-
ficação e ablução.
Depois o Senhor declara a Abraão a Sua vontade, mostrando-lhe que deve
andar diante dele com integridade e inocência, o que outra coisa não é senão a
mortificação para ressuscitar para uma nova vida. E, para que não houvesse ne-
nhuma dúvida de que a Circuncisão é sinal e figura da mortificação, Moisés a
expõe mais claramente no capítulo dez de Deuteronômio [versículo 16], onde
exorta o povo de Israel a circuncidar o seu coração, oferecendo-o assim ao Se-
nhor, uma vez que é o povo escolhido por Ele dentre todas as nações da terra.
Assim como o Senhor, quando acolhe a descendência de Abraão como Seu povo,
ordena que se circuncide, assim também Moisés declara que “o coração” de Isra-
el e dos seus descendentes será circuncidado49
, como querendo demonstrar qual a
verdade da Circuncisão carnal.Além disso, para que ninguém sequer alimentasse
a esperança de que poderia realizar esta mortificação por sua própria capacidade,
Moisés ensina que é obra da graça de Deus em nós.
Todas estas coisas são repetidas tantas vezes nos Profetas que se dispensa
mais ampla discussão a respeito.
Conclusão do presente argumento
Do que acima foi dito concluímos que a Circuncisão continha para os pais, ou
seja, para os antepassados do povo de Deus, a mesma promessa que o Batismo
contém, significando e simbolizando a remissão dos seus pecados e a mortifica-
46
Gn 17.7-11.
47
Mt 22.32 (N. do T.).
48
Ef 2.12.
49
Dt 30.6.
169
ção da sua carne, para viverem para a justiçaa
. E mais: Como dissemos que Cristo
é o cumprimento de todas estas coisas, como também é o fundamento do Batis-
mo, igualmente o é da Circuncisão. Porque Ele foi prometido a Abraão, e nele foi
prometida bênção a todas as famílias da terra, como se o Senhor dissesse que toda
a terra, estando sob maldição, receberia bênção por Seu intermédio. E lhes é
acrescentado o sinal da Circuncisão para selar e confirmar dita promessa.
Sumário das semelhanças e da diferença entre a
Circuncisão e o Batismo
Nesta altura fica fácil julgar e discernir em que se harmonizam e são semelhantes
e em que diferem estes dois sinais e símbolos, a Circuncisão e o Batismo:
A promessa que dissemos que constitui a virtude e eficácia dos sacramentos
é uma e a mesma em ambos. E a promessa é da misericórdia de Deus, da remissão
dos pecados e da vida eterna.
A realidade simbolizada ou representada é sempre a mesma, qual seja, a
nossa purificação e mortificação.
A causa e fundamento destas coisas, que é Cristo, é o mesmo tanto na Cir-
cuncisão como no Batismo; com base nele elas são confirmadas e se cumprem.
Segue-se que não há diferençab
alguma, quanto ao mistério interior, no qual
reside toda a substância dos sacramentos, como já dissemosc
. Toda a diversidade
que se encontra é quanto ao cerimonial externo, que é a parte menos importante
dos sacramentos, pois que a consideração principal depende da Palavrad
e da
realidade significada e representada. Portanto, podemos concluir que tudo o que
pertence à circuncisão pertence igualmente ao Batismo, exceto a cerimônia ex-
terna e visível.
Regra paulina de interpretação da Escritura
E a essa dedução nos conduz a regra apostólica50
que seguimose
: que toda a Escri-
tura se deve medir segundo a proporção e a analogia da fé, a qual sempre tem em
vista as promessas. E, de fato, neste ponto quase que se pode tocar a verdade com
as mãos. Porque, assim como a Circuncisão foi um sinal ou uma marca para os
judeus, pela qual reconheciam que Deus os recebia como Seu povo e eles O
confessavam como seu Deus, e dessa maneira servia como a primeira entrada
externa na igreja de Deus, assim também pelo Batismo somos primeiramente
116
Para quem estranhar a letra final “n”, está correta essa declinação latina (N. do T.).
a. Quase assim foi a conclusão do capítulo de 1536.
b. vis et proprietas.
c. Acréscimo de 1541.
d. a promissione et re signata.
e. ad hanc anagogen116
et comparationem nos manu ducit Apostoli regula (Rom. 12). Ver acima [título: O
Batismo Infantil: Objeções e Respostas; subtítulo: A regra da fé].
50
Anteriormente considerada neste capítulo. Ver Rm 12.3,6 (N. do T.).
170 As Institutas – Edição Especial
recebidos na igreja do Senhor, para sermos reconhecidos como Seu povo, e nos
declaramos desejosos de tê-lo como o nosso Deus. Por aí se vê claramentea
que o
Batismo substituiu a Circuncisão.
À semelhança da Circuncisão,
as crianças devem ser batizadas
Agora, se alguém perguntar se o Batismo deve ser ministrado às crianças, supon-
do que estão incluídas na ordenação de Deusb
, quem será tão desprovido de bom
sensoc
que queira restringir-se a resolver o caso só levando em conta a água e a
observância visível, sem considerar o mistério espiritual? Porque, se o tivermos
em vista, não teremos dúvida alguma de que as crianças têm direito ao Batismo.
Quando antigamente o Senhor ordenoud
que se ministrasse a Circuncisão às cri-
anças, declarou-as explicitamente participantes de tudo o que nela e por ela é
representado. Se não fosse assim, com razão se poderia dizer que essa instituição
não passa de um engano e uma mentira, e até de uma tremenda farsa. O que não
se pode pensar nem tolerar entre os crentes.
O Senhor disse expressamente que a Circuncisão ministrada à criança se-
ria para confirmar a aliança que acima expusemos. Porque, como é certo que a
aliança permanece sempre a mesma, é mais que certo que os filhos dos cristãos
não são menos participantes dela do que o foram os filhos dos judeus no Antigo
Testamento. Ora, se as crianças participam da realidade representada ou simbo-
lizada, por que não deverão receber também o sacramento, que é seu símbolo
ou sua representação?
Cerrada argumentação pró pedobatismo
Se formos estabelecer diferença entre o sinal visível e a Palavra, qual deve ser
considerado mais importante e mais excelente? É claro e patente que, como o sinal
serve à Palavra, esta lhe é superior. E, visto que a Palavra é comunicada às crianças,
por que privá-las do sinal, que depende da Palavra? Se outra razão não houvesse,
esta seria suficiente para fechar a boca dos que defendem opinião contrária.
Quanto à objeção que alega que havia um dia marcado para a Circuncisão51
,
esse argumento não tem razão de ser. É certo que o Senhor não nos impôs deter-
minados dias, como fez com os judeus; nesse aspecto Ele nos deixou em liberda-
de. Todavia, Ele declarou que as crianças sejam recebidas solenemente em Sua
aliança. Vamos querer mais que isso?
a. extra controversiam.
b. 1539 tem somente: jure.
c. ineptire, imo delirare dicemus.
d. circumcisionis communione dignatus est.
51
Gn 17.12; 21.4 (N. do T.).
171
A aliança da graça, fundamento da Circuncisão, é também o
fundamento do Batismo infantil
Mas a Escritura nos conduz a um maior conhecimento da verdade. Porque é plena-
mente certo que a aliança que no passado Deus fez com Abraão, declarando-se seu
Deus e da sua descendência, não se aplica menos aos cristãos hoje do que se aplica-
va antigamente ao povo de Israel; e esta palavra não se aplica menos aos cristãos do
que no passado se aplicava aos pais do Antigo Testamento. Pois, de outro modo,
ocorreria esta conseqüência: A vinda de Cristo teria diminuído a graça e a miseri-
córdia de Deus – mas dizer ou pensar isto seria uma horrenda blasfêmia!
Linhagem santa – lá e cá
Outra coisa: Assim como os filhos dos judeus eram chamados linhagem santa,
porque eram herdeiros da aliança e eram separados dos filhos dos incrédulos e
dos idólatras, assim também os filhos dos cristãos são chamados santos, ainda
que só o pai ou a mãe seja crente; e o testemunho da Escrituraa
os distingue52
.
Pois bem, depois que o Senhor estabeleceu esta aliança com Abraão, determinou
que a mesma fosse selada nas crianças com o sacramento visível e externo53
. Que
desculpa podemos dar para não testificarmos a aliança e não a selarmos hoje
como se fazia naquele tempo? E não vale replicar dizendo que o Senhor não
instituiu nenhum outro sacramento para testificar esta aliança, senão o sacramen-
to da Circuncisão, que já foi abolido. É fácil responder a essa objeção. Basta
dizer que o Senhor instituiu a Circuncisão naquele tempo para confirmar a Sua
aliança, e que, abolida a Circuncisão, continuou e continua sempre de pé a razão
pela qual se deve confirmar a aliança, visto que ela atende tanto a nós como no
passado aos judeus. E, portanto, devemos observar sempre o que temos em co-
mum com eles, considerando também o que é semelhante e o que é diferente. A
aliança é comum a nós e a eles, e o motivo para a sua confirmação é semelhante; a
diferença consiste apenas nisto: Eles tinham a Circuncisão para confirmá-la, nós
hoje temos o Batismo para esse mesmo fim. De outro modo, a vinda de Cristo teria
feito que a misericórdia de Deus se manifestasse menos sobre nós do que o fez para
os judeus – se nos fosse tirado o testemunho que eles tinham para os seus filhos.
Se não se pode dizer isso sem fazer grave ultraje a Jesus Cristo, por inter-
médio de quem a bondade infinita do Senhor foi distribuída e manifestada mais
ampla e ricamente que nunca sobre a terra, é necessário conceder que a graça de
Deus mediante Jesus Cristo não deve ser mais oculta nem menos segura que o era
sob as sombras ou figuras da Lei.
a. Uma frase análoga encerra em 1536 a seção De baptismo (Sobre o Batismo).
52
1Co 7.14.
53
Gn 17.10,12 (N. do T.).
172 As Institutas – Edição Especial
Jesus e as crianças
Por essa razão o Senhor Jesus, querendo mostrar que veio a este mundo para
aumentar e multiplicar as graças de Seu Pai, e não para diminuí-las e restringi-
las, recebeu e abraçoua
bondosamente as crianças que Lhe foram apresentadas
e repreendeu os Seus apóstolos, que queriam impedi-lasb
e procuravam afastar
dele, sendo Ele o único caminho de acesso aos céus, aqueles aos quais pertence
o reino dos céus54
.
Objeções e respostas
Primeira: Mas alguém perguntará: Que semelhança há entre esse abraço de
Jesus e o Batismo? Porque a narrativa não diz que as crianças foram batizadas,
mas somente que Ele as abraçou e orou por elas. Se quisermos seguir fielmente
o exemplo do Senhor, devemos orar pelas crianças, e não batizá-las, pois Ele
não as batizou.
Pois bem, devemos examinar melhor que essa gente a doutrina da Escritura,
pois não foi alguma coisa leviana ou superficial que levou Jesus a querer que “os
pequeninos” Lhe fossem apresentados; Ele mesmo acrescentou o motivo, dizen-
do: “Porque dos tais é o reino dos céus”. E logo depois manifestou com atos a Sua
vontade, abraçando-os e orando por eles. Agora, se é razoável levar crianças a
Jesus Cristo, por que não há de ser lícito recebê-las para o Batismo, que é o sinal
exterior pelo qual Jesus Cristo nos declara a comunhão que temos com Ele? Se o
reino dos céus lhes pertence, como lhes negar o sinal que nos serve de ingresso na
igreja para que, como membros da igreja, sejamos declarados herdeiros do reino
de Deus? Não seríamos maus em expulsar aqueles que o Senhor chama a Si? Em
negar-lhes o que Ele lhes dá? Em fechar-lhes a porta quando Ele a abre para eles?
E se a questão é separar do Batismo aquilo que Jesus Cristo fez, que é que deve-
mos considerar maior e mais importante: o fato de que Jesus recebeu os pequeninos,
impôs as mãos sobre eles, sinal de santificação, e orou por eles, demonstrando
que eles Lhe pertencem, ou que, pelo Batismo, testifiquemos que eles pertencem
à Sua aliança?55
a. 1539 tem somente: comiter amplectitur.
b. 1536 expunha brevemente este mesmo argumento.
54
Mt 19.13-15.
55
“Se é próprio trazerem-se as crianças a Cristo, por que não também serem recebidas ao batismo, símbolo de
nossa própria comunhão e associação com Cristo? Se delas é o reino dos céus, por que se lhes negará o sinal
pelo qual como que se lhes abre o acesso à Igreja, de sorte que, nela adotadas, sejam arroladas por herdeiras
do Reino Celeste? Quão iníquos haveremos nós de ser, se enxotemos aquelas a quem Cristo convida a Si, se
espoliemos aquelas a quem exorna de Seus dons, se excetuamos aquelas a quem Ele Próprio recebe gracio-
samente? Ora, pois, se queremos deslindar quanto do batismo esteja longe o que Cristo fez ali, em quanto
maior apreço, entretanto, teremos o batismo, pelo qual se nos atesta que as crianças estão incluídas no pacto
de Deus, que a ação de recebe-las, o abraço, a imposição de mãos, a oração, com que o próprio Cristo
presente declara não só serem Suas as crianças, mas também serem elas por Ele santificadas?” [João Calvino,
As Institutas, IV.16.7].
173
As outras cavilações e manobras sutis feitas como meio de escapar da pas-
sagem que estamos estudando são por demais frívolas. Claro, pois querer provar
que as crianças eram já bem crescidasa
, visto que Jesus as chamou e lhes disse
que viessem a Ele, é argumento que evidentemente repugna ao texto da Escritura,
que se refere àquelas crianças chamando-as de “criancinhas de colob56
”, que pre-
cisavam ser carregadas. Dessa forma, a palavra “vir” deve ser interpretada como
“aproximar-se”,c
simplesmente.Veja o leitor como os que teimam contra a verda-
de procuram em cada sílaba matéria para as suas evasivas!
Segunda objeção: Afirmar que Jesus não disse que o reino dos céus pertence
às crianças, mas aos que são semelhantes a elas, também é outra escapatória. É o
que digo porque, se fosse assim, por que motivo o Senhor haveria de mostrar que
desejava que as criancinhas se aproximassem dele? Quando Ele diz, “Deixai vir a
mim os pequeninos”, não há nada que seja mais certo que o fato de que Ele fala de
crianças na idaded
. E para dar a entender que o que faz é razoável, acrescenta:
“Porque dos tais é o reino dos céus”. Nisso as criancinhas na idade estão necessari-
amente incluídas. E devemos entender a expressão “dos tais” da seguinte maneira:
Às crianças e aos que são semelhantes a elas pertence o reino dos céus.
Terceira objeção: Já não pode haver quem não enxergue que o Batismo
infantil não foi forjado temerariamente pelos homens, pois ele tem evidente apro-
vação das Escrituras. E não nos impressiona a objeção feita por alguns, qual seja:
Não se pode mostrar pela Escritura que alguma criança foi batizada pelos apósto-
los. Não nos impressiona essa objeção porque, mesmo admitindo a inexistência
de algum texto que o demonstre expressamente, não quer dizer que os apóstolos
não tenham batizado crianças, visto que elas não são excluídas quando se faz
menção de Batismo aplicado a uma família57
. Se fôssemos aceitar esse falso argu-
mento, não poderíamos permitir que as mulheres fossem admitidas à Ceia do
Senhor, pois nunca se diz na Escritura que elas tenham comungado no tempo dos
apóstolos. Mas neste ponto seguimos a regra da fé, pertinente no caso, só levando
em conta se a instituição da Ceia lhes convém, e se é da intenção do Senhor que
seja ministrada a elas. É o que também fazemos com relação ao Batismo, tendo
em vista o seguinte: Quando consideramos a finalidade para a qual ele foi orde-
nado e instituído, vemos que este sacramento não pertence menos às crianças que
às pessoas de mais idade. Dessa forma, negar o Batismo às crianças seria fraudar
a intenção do Senhor. E o que alguns semeiam é pura mentira, quando dizem que
só muito tempo depois dos apóstolos é que se introduziu a prática do Batismo
a. grandiusculos.
b. 1539: brefè kaì paidéia, quibus verbis significant Græc infantulos ab uberibus pendentes [...cujas palavras
em grego significam crianças ou bebês pendentes dos seios].
c. accedere.
d. veram infantiam.
56
O autor alude aqui ao texto de Lucas 18.15-17. Vide nota b (N. do T.).
57
At 16.15,33; 1Co 1.16 (N. do T.).
174 As Institutas – Edição Especial
infantil. O fato é que não há nenhuma história antiga, desde o tempo da Igreja
Primitiva, que não testifique que naquele tempo essa prática já estava em uso58
.
Frutos do Batismo infantil
Resta mostrar que proveito recebem os crentes da observância da prática de batizar
os seus pequeninos, e que proveito recebem as próprias crianças do Batismo rece-
bido nessa tenra idade. Não faltam os que o rejeitam como inútil e destituído de
qualquer importância. Nisso cometem grande abuso. E quando fazem isso, o que
de fato estão fazendo é zombar da instituição divina da Circuncisão, que merece
igual estima e consideração. Há muitos argumentos com os quais se pode reprimir
a temeridade e arrogância com que esses oponentes, tola e irracionalmente, conde-
nam tudo o que não conseguem compreender com o seu entendimento carnal.
Mas Deus nos supriu de armas melhores para abater a sua tola arrogância.
Porque Ele não deixou Sua vontade tão oculta que não tenha mostrado claramen-
te a utilidade da instituição aqui em apreço. É que o sinal dado aos pequeninos é
um selo que confirma e como que ratifica a promessa feita pelo Senhor aos Seus
servos de que derramaria a Sua misericórdia não somente sobre eles, mas tam-
bém sobre a sua descendência, até mil gerações.59
Na manifestação da Sua misericórdia, em primeiro lugar é testificada a bon-
dade de Deus para engrandecer e exaltar o Seu nome. Em segundo lugar, para
consolar o crente e animá-lo a dedicar-se totalmente a Deus, ao ver que o miseri-
cordioso Senhor não cuida somente dele, mas também dos seus filhos e da sua
descendência. E não há por que dizer que a promessa seria suficiente para nos dar
a certeza da salvação dos nossos filhos pequenos. Porque Deus vê o assunto com
outros olhos, pois, sabendo como é fraca a nossa fé, quis fortalecê-laa
desta for-
ma. Portanto, quem descansar confiantemente na promessa de que Deus se dis-
põe a fazer misericórdia à sua posteridade, deve apresentar seus filhos pequenos
para que recebam o sinal da misericórdia divina. E se sentirá consolado e cor-
roborado na fé ao contemplar a olhos vistos a aliança do Senhor sinalizada e
selada no corpo dos seus filhinhos.
Este proveito goza a criança batizada: A igreja cristã a reconhece como seu
membro e a tem na mais singular estima e consideração. E ela, quando chegar à
idade própria, estará mais inclinada a servir ao Senhor, que se havia declarado
seu Pai antes de ela o conhecer, e que a tinha recebido nas fileiras do Seu povo
desde o ventre de sua mãe.
a. illi indulgere.
58
Exemplos: Orígenes, Comentário de Romanos, V, 9; Agostinho, Epístola 166, cap. VII, 21; Irineu, Contra as
Heresias, livro II, cap. 22, 4; Cipriano, Epístola 64, 2. Note-se que Irineu viveu no segundo século (c. 120-
202) e Orígenes pouco tempo depois (186-c. 254) (N. do T.).
59
Comentando Rm 4.11: “Estes são selos pelos quais as promessas de Deus são de certa forma impressas em
nossos corações, e a certeza da graça é confirmada.” [João Calvino, Romanos, 2ª ed., São Paulo, Edições
Parakletos, 2001, (Rm 4.11), p. 157].
175
Finalmente, devemos temer sempre o perigo que nos ameaça, se despre-
zarmos o privilégio de assinalar os nossos filhos com o selo da aliança, de
que o Senhor nos castigue por termos renunciado à bênção que nos é ofereci-
da no Batismo60
.
Argumentos dos antipedobatistas
Passemos agora a considerar os argumentos com os quais aquele espírito maligno
tem procurado envolver muitos no erro e na ilusãoa
[1541], acobertado pelo pre-
texto de que quer manter-se fiel à Palavra de Deus. Avaliemos também a força
existente em todas as manobras de Satanás, com as quais ele tenta pôr abaixo esta
santa ordenança do Senhor que sempre tem sido respeitada e cumprida em Sua
igreja como se deve. Vejamos:
1º. Não há semelhança entre a Circuncisão e o Batismo
Aqueles que, impelidos pelo Diabo a contradizer a firme e clara Palavra de
Deus neste assunto, vendo-se pressionados e persuadidos da semelhança que de-
monstramos que há entre a Circuncisão e o Batismo, esforçam-se para mostrar
que há uma grande diferença entre estes dois símbolos ao ponto de não haver
coisa alguma que seja comum a ambos. Em primeiro lugar, eles dizem que a
realidade simbolizada é diferente. Em segundo lugar, que na Circuncisão a alian-
ça é uma e no Batismo é outra. E, em terceiro lugar, afirmam que a palavra “cri-
anças” deve ser entendida diferentemente.
Acontece que, para provar o primeiro ponto, eles alegam que a Circuncisão
era figura da mortificação, não do Batismo, o que concedemos prazerosamente,
pois essa interpretação nos favoreceb
. E a verdade é que, para provarmos a nossa
posição, não empregamos outras palavras senão estas:A Circuncisão e o Batismo
representam igualmente a mortificação. E assim concluímos que o Batismo subs-
tituiu a Circuncisão, porque aquele significa para os cristãos a mesma coisa que
esta significava para os judeus.61
Quanto ao segundo ponto, eles mostram como estão transtornados em seu
espíritoc
, pois, com a sua interpretação destroem, não somente uma passagem
bíblica, mas toda a Escritura. Porque eles nos apresentam os judeus como um
povo carnal e brutald
, dizendo que eles só tinham aliança com Deus para a vida
a. 1539: quibus sanctam hanc Dei institutionem furiosæ quædam belluæ impetere non cessant.
As linhas seguintes não têm texto equivalente em 1539.
b. nobis optime patrocinatur.
c. quam barbara audacia.
d. Palavra acrescentada.
60
Gn 17.14.
61
“Ao ficar estabelecido que a circuncisão serve somente para selar a graça de Deus, segue-se que ela não nos
é de nenhum proveito hoje, pois temos um sinal divinamente instituído em seu lugar. (...) A circuncisão não
é mais necessária onde existe o batismo....” [João Calvino, Romanos, 2ª ed. (Rm 4.11), p. 157].
176 As Institutas – Edição Especial
temporal, e só tinham Sua promessa para os bens presentes e corruptíveisa
. Se o
que dizem fosse certo, que restaria senão considerar a nação de Israel como uma
manada de porcos que o Senhor quis engordar ao máximo para depois deixá-los
perecer eternamente? Porque sempre que contestamos os seus argumentos falan-
do da Circuncisão e das promessas que ela representa, eles já têm na ponta da
língua a resposta, dizendo que o sinal é literal e que as promessas são carnais.
2º. A Circuncisão era apenas uma representação literal e carnal
O certo é que, se a Circuncisão fosse um sinal literal, também o Batismo o
seria. Vê-se isso claramente no que o apóstolo Paulo diz em Colossenses 262
, onde
ele afirma que uma ordenança não é mais espiritual que a outra, uma vez que em
Cristo somos circuncidados, não segundo a Circuncisão feita com as mãos, quando
fomos despojados de todo o pecado presente em nossa carne, a qual é a Circuncisão
de Cristo. Logo após, para esclarecer isso, ele diz: “...tendo sido sepultados, junta-
mente com ele [com Cristo] no batismo”. Que outra coisa quer dizer essa passa-
gem, senão que o cumprimento do Batismo é o cumprimento da Circuncisão? Por-
quanto ambos representam a mesma coisa. Porque Paulo quer mostrar que o Batis-
mo é para os cristãos o que a Circuncisão era para os judeus.
Agora, como acima expusemos claramente que as promessas destes dois
sinais, bem como os mistérios que eles simbolizam, não diferem em nada, não
nos deteremos mais demoradamente neste ponto. Tão-somente admoestamos os
crentes a que pensem no seguinte: Devemos considerar carnal e literal um sinal
quando tudo o que ele contém é espiritual e celestial? Entretanto, como eles ci-
tam algumas passagens para nos impressionar com a sua mentira, resolveremos
com três palavras as objeções que com relação ao seu segundo argumento eles
poderiam apresentar.
Não há dúvida de que as principais promessas que o Senhor fez a Seu povo
no Antigo Testamento, as quais constituíram a aliança que Ele fez com os filhos
de Israel, eram espirituais e pertinentes à vida eterna, e de igual modo foram
entendidas espiritualmente pelos pais, levando-os a conceber a esperança da gló-
ria futura e a se sentirem arrebatados de amor por ela. Todavia, não negamos que
o Senhor lhes tenha manifestado a Sua bondade por meio de outras promessas,
carnais e terrenas, até mesmo para confirmar as promessas espirituais. Vemos
exemplo disso no fato de que, depois de haver prometido a bem-aventurança
imperecível ao Seu servoAbraão, Deus acrescentou a promessa da terra de Canaã,
para lhe manifestar Sua graça e o Seu favor para com ele. Dessa forma devemos
entender todas as coisas terrenas prometidas ao povo judeu, notando que a pro-
messa espiritual sempre antecede a terrena, como fundamento e princípio, e como
centro referencial de tudo mais.
a. corporeis.
62
Cl 2.11.
177
3º. Os filhos de Abraão são unicamente os seus descendentes carnais
A diferença que os oponentes querem introduzir entre as crianças doAntigo
Testamento e as do Novo é a seguinte: Naquele tempo os filhos de Abraão eram a
sua linhagem carnal; agora, seus filhos são os que seguem a sua fé. Por isso os
meninos que na idade própria eram circuncidados, representavam os filhos espi-
rituais que pela Palavra de Deus são regenerados, nascendo para uma vida
incorruptível. Reconhecemos aí uma minúscula centelha de verdade. Mas esses
tais erram absurdamente e revelam pouca inteligência quando, tendo lido alguma
coisa, não entendem que devem prosseguir na leitura e examinar o que vem adi-
ante, para considerar tudo o que diga respeito ao assunto visado.
Reconhecemos que durante algum tempo a descendência corporal deAbraão
ocupou o lugar dos filhos espirituais que pela fé são incorporados a ele, apesar de
não terem nenhum parentesco de carne e sangue com elea
. Mas se eles entendem,
como o demonstram as suas palavras, que o Senhor não prometeu Sua bênção
espiritual aos descendentes físicos deAbraão, nisso erram rotundamente. Eis aqui,
pois, a maneira certa de entender isso, à qual nos conduz a Escritura: O Senhor
prometeu a Abraão que dele procederia a descendência por meio da qual todas as
nações da terra seriam abençoadas e santificadas, e lhe assegurou que seria o seu
Deus e o Deus da sua posteridade. Todos quantos recebem a Jesus Cristo pela fé
são herdeiros dessa promessa, razão pela qual são chamados filhos de Abraão.
Pois bem, é certo que, após a ressurreição de Jesus Cristo, o reino de Deus
tem sido proclamado a todos, indistintamente, abrindo acesso a todos os povos e
nações, para que, como Ele diz, sejam reunidos os crentes de todas as partes do
mundo, do Oriente e do Ocidente, e tenham lugar no reino celestial, na compa-
nhia de Abraão, de Isaque e de Jacó63
. Todavia, durante todo o tempo anterior à
ressurreição de Cristo, o Senhor normalmente mantinha essa misericórdia espe-
cial restrita aos judeus, os quais Ele declarou que constituíam o Seu reino, o Seu
povo peculiar, a sua propriedade singularmente adquirida64
. Então o Senhor, para
manifestar Sua graça para com essa nação, instituiu a Circuncisão, para lhes ser-
vir de sinal pelo qual Ele se declarava seu Deus e os recebia sob a Sua proteção,
para conduzi-los à vida eterna.
Citação do apóstolo Paulo
Foi por essa causa que Paulob
, desejoso de mostrar que, como os judeus, os gen-
tios são filhos de Abraão, pronuncia-se nestes termos: “Como pois lhe foi atribu-
ída [a justiça a Abraão]? Estando ele já circuncidado, ou ainda incircunciso? Não
no regime da circuncisão e sim quando incircunciso. E recebeu o sinal da circun-
a. naturalis cognatio (termos do direito romano).
b. Calvino comentou a Epístola aos Romanos durante o seu ministério em Estrasburgo, onde também foi
impressa a edição de 1539 das Institutas.
63
Mt 8.11 (N. do T.).
64
Êx 19.5 (N. do T.).
178 As Institutas – Edição Especial
cisão como selo da justiça da fé que teve quando ainda incircunciso; para vir a ser
o pai de todos os que crêem, embora não circuncidados, a fim de que lhes fosse
imputada a justiça, e pai da circuncisão, isto é, daqueles que não são apenas
circuncisos, mas também andam nas pisadas da fé que teve Abraão, nosso pai,
antes de ser circuncidado”.65
Não vemos como ele os nivela e os iguala em digni-
dade? Porque durante o tempo que para isso Deus determinou, ele foi o pai dos
crentes circuncisos; e, quando foi derribada a parede de separação, como diz o
apóstolo, para dar acesso aos que estavam foraa
a fim de que entrassem, ele foi
também feito pai destes, os quais não foram circuncidados.66
Assim é porque o
Batismo lhes serve de Circuncisão. E o que Paulo registra expressamente, que
Abraão não é pai dos que não tem nada mais que a Circuncisão, visa o objetivo de
abater a vã confiança daqueles judeus que só se atinham às cerimônias externas.
A mesma coisa se pode dizer do Batismo, para refutar o erro daqueles que só se
preocupam com a água.
Explicação de Romanos 9.7,8
Mas, que será que o apóstolo quer dizer noutra passagem, quando ensina que “os
verdadeiros filhos de Abraão não são os que descendem da carne, mas somente
os filhos da promessa são reputados como sua semente”?67
Transparece dessas
palavras que ele quer concluir que não adianta nada alguém ser descendente de
Abraão segundo a carne. É preciso notar diligentemente aqui a intenção do após-
tolo Paulo. Porque, para mostrar aos judeus que a graça de Deus não está ligada à
descendência de Abraão segundo a carne, e que esse parentesco de sangue em si
não merece nenhuma estima, ele os leva, no capítulo nove de Romanos, a Ismael
e a Esaú, que, embora descendentes de Abraão, foram rejeitados como estranhos,
e a bênção foi dada a Isaque e a Jacó. Por conseguinte, como ele mesmo conclui,
a salvação depende da misericórdia de Deus, que Ele concede a quem Lhe apraz.
E também que os judeus não devem vangloriar-se de que constituem a igreja de
Deus, se não obedecem à Sua Palavra. Contudo, depois de açoitar a sua pretensa
glória, sabendo por outro lado que a aliança feita com Abraão e para a sua des-
cendência não é destituída de importância, no capítulo onze ele declara que não
se deve desprezar tal aliança e que eles são os primeiros herdeiros do Evangelho,
a não ser que, por sua ingratidão, se façam indignos. Mas, por mais incrédulos
que sejam, não deixa de chamá-los santos, por causa da santa progênie68
da qual
descendem, e afirma que nós, comparados com eles, não passamos de filhos
abortivos, tendo sido enxertados na raiz ou no tronco vivo do qual eles são os
a. Termo do direito francês.
65
Rm 4.10-12.
66
Ef 2.14 (N. do T.).
67
Rm 9.8, tradução direta.
68
1Co 7.14.
179
ramos naturais. Por essa causa foi necessário apresentar o Evangelho primeira-
mente a eles, como sendo os primogênitos da casa do Senhor. Cabia-lhes essa
prerrogativa, até quando a recusaram. Ainda assim, não devemos desprezá-los,
seja qual for a rebelião que vejamos neles, confiantes em que a bondade do Se-
nhor ainda está sobre eles por causa da promessa. Porque Paulo testifica que esta
nunca se apartará deles, dizendo que os dons e a vocação de Deus são sem arre-
pendimento e são imutáveis69
.70
Conclusão desta parte: A aliança e seus benefícios são os mesmos
para judeus e gentios
Do que foi dito se vê quão importantea
é a promessa feita a Abraão acerca da sua
posteridade. Por isso, embora a eleição domine sobre este assunto, para discernir
entre os herdeiros do reino celestial e aqueles que não têm parte nele, aprouve ao
bom Deus estabelecer de maneira especial a Sua misericórdia na linhagem de
Abraão atestando-a e selando-a com a Circuncisão. Pois bem, atualmente entre
os cristãos a razão é a mesma. Porque como em Romanos 11 o apóstolo Paulo
declara que os judeus são santificados por sua raiz e sua origem, noutro lugar71
ele afirma que agora os filhos dos cristãos são santificados por seus pais, deven-
do ser separados dos filhos dos não crentes, os quais permanecem impuros. Daí
se pode facilmente concluir que, conseqüentemente, é falso o que os nossos
opositores pretendem, a saber, que as crianças pequenas que foram circuncidadas
só representavam as crianças espirituais, regeneradas pela Palavra de Deus. Pau-
lo não elevou tanto assim essa questão quando escreveu72
: “Cristo foi constituído
ministro da circuncisão, em prol da verdade de Deus, para confirmar as promes-
sas feitas aos nossos pais”. Como se dissesse: “Assim como as promessas feitas a
Abraão e aos demais patriarcas destinam-se também à sua descendência, assim
também Jesus Cristo, para cumprir a verdade de Seu Pai, veio a este mundo para
levar essa nação à salvação”. Eis como, após a ressurreição de Jesus Cristo,
Paulo entende que a promessa sempre deve se cumprir literalmente.
Vemos a mesma verdade no que diz Pedro no capítulo dois de Atos, quando
anuncia aos judeus que a promessa pertence a eles e também aos seus filhos ou
descendentes. E no capítulo três73
lhes chama “filhos da aliança”, ou seja, herdei-
ros dos testamentos, sempre em atenção à referida promessa. O que é claramente
demonstrado pela passagem do apóstolo Paulo que citei acima74
. Porque a Cir-
a. quid valeat et qua lance metienda.
69
Rm 11.29. ARA: “...os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis” (N. do T.).
70
“Esta não pode ser entendida como sendo qualquer vocação, mas aquela vocação por meio da qual Deus
adotou a progênie de Abraão em seu pacto.” [João Calvino, Romanos, 2ª ed., (Rm 11.29), p. 422].
71
1Co 7.14.
72
Rm 15.8.
73
At 3.25 (N. do T.).
74
Ef 2.11-14.
180 As Institutas – Edição Especial
cuncisão, dada para as crianças pequenas, foi instituída por Deus para testemu-
nho da comunhão espiritual com Cristo. E, de fato, que é que se poderia respon-
der à promessa que o Senhor fez aos crentes, por meio da Sua Lei, anunciando
que faria misericórdia aos seus descendentes até mil gerações? Diremos que tal
promessa foi abolida? Mas isto seria destruir a Lei de Deus, a qual foi estabelecida
por Cristo75
, tendo em conta que ela é benéfica a nós e à nossa salvação.
4°. Outras diferenças alegadas
Outras diferenças que os nossos oponentes se esforçam para mostrar entre a
Circuncisão e o Batismo são totalmente ridículas, sem propósito e contraditórias.
Porque, logo depois de afirmarem que o Batismo pertence ao primeiro dia da
batalha cristãa76
e a Circuncisão ao oitavo, dizem que a Circuncisão simboliza a
mortificação do pecado e o Batismo o sepultamento que ocorre depois que nele
morremos. Certamente nem um louco poderia contradizer-se de maneira tão clara
e patente! Porque da primeira afirmação se poderia deduzir que o Batismo deve
preceder à Circuncisão, e da segunda, que deve ser posterior à ela. Mas não te-
mos por que nos espantar com tal contradição, pois o espírito do homem, dado a
inventar fábulas e fantasias que mais parecem sonhos, é propenso a cair em ab-
surdos como esse.
Dizemos, pois, que dessas duas diferenças que eles apontam, a primeira é
fruto de puro devaneio. Não é desse modo que se deve alegorizarb
o oitavo dia, ou
interpretá-lo alegoricamente. Muito melhor seria explicá-lo como o fizeram os
doutores antigos, segundo os quais o oitavo dia representa a renovação da vida,
que depende da ressurreição de Cristo, a qual ocorreu no oitavo dia77
. Ou então,
que é necessário que esta Circuncisão do coração dure perpetuamente, enquanto
durar a presente existência78
. Se bem que, ao que parece, o motivo da protelação
até o oitavo dia seria que O Senhor levou em conta a fragilidade dos bebês. Que-
rendo Ele que a Sua aliança fosse impressa em seu corpo, é provável que tenha
dado esse prazo para que se fortalecessem e sua vida não fosse posta em perigo.
A segunda diferença de que falam não é menos correta nem mais sólida,
porque dizer que pelo Batismo somos sepultados depois da mortificação é uma
zombaria. É evidente que somos sepultados para sermos mortificados, como a
Escritura ensina79
.
a. spiritualis certaminis.
b. allegorízein.
75
Mt 5.17-19 (N. do T.).
76
A vida cristã vista como um combate (N. do T.). Apud Institutas, edição francesa de 1560.
77
Agostinho, Epístola 157, cap. III,14. Sermão 169,3 (N. do T.). Apud Institutas, edição francesa de 1560.
78
Id. Ibid. Contra Fausto, livro XVI, cap. XXIX (N. do T.).
79
Rm 6.4-6.
181
E as meninas?
Finalmente eles alegam que, se havemos de tomar a Circuncisão como funda-
mento do Batismo, não deveríamos batizar as meninas, visto que somente as
crianças do sexo masculino eram circuncidadas. Mas se eles considerassem bem
o significado da Circuncisão, deixariam de lado esse frívolo argumento. Porque,
como por meio desse sinal o Senhor demonstrava a santificação da descendência
de Israel, é certo que servia a ambos os sexos. Mas não se aplicava o sinal às
meninas pela óbvia razão de que sua natureza física não o permite. Assim o Se-
nhor, ao ordenar que os varões fossem circuncidados, incluía em sua significação
o sexo feminino que, não podendo receber a circuncisão em seu próprio corpo,
compartilhava de algum modo o Circuncisão dos varões.
Sendo assim rejeitadas e abandonadas, como merecem, todas essasa
tolas
fantasias, permanece a veracidade da semelhança existente entre o Batismo e a
Circuncisão, no tocante ao mistério interior, às promessas, ao uso e à eficácia.
5º. Por que batizar as crianças, se elas não entendem o significado
do Batismo?
Outro motivo para que as crianças não sejam batizadas, apresentado pelos
nossos oponentes, é que elas não podem entender o mistério representado pelo
sacramentob
. Esse mistério é a regeneração, para a qual as crianças são incapazes.
Por isso concluem que as crianças devem ser deixadas como filhas de Adão, até
que cresçam e possam receber a regeneração.
Mas, tudo isso contradiz impiamente a verdade de Deus. Porque, deixar os
pequeninos na condição de filhos de Adão é deixá-los na morte, visto que [1539]
em Adão outra coisa não podemos fazer senão morrer. [1539] Entretanto, contra-
riamente a isso, Jesus Cristo declara que se permita que os pequeninos se aproxi-
mem dele. Por quê? Porque Ele é a vida. Jesus Cristo quer que os pequeninos
participem dele para Ele os vivificar80
, ao passo que aqueles que aqui batalham
contra a Sua vontade querem que eles permaneçam na morte. Porque, se, maqui-
nando em suas sutilezas, os tais pensam que as crianças não perecem, apesar de
serem deixadas como filhas de Adão, seu erro é categoricamente refutado pela
Escritura. Isso ocorre, por exemplo, quando a Escritura afirma que em Adão to-
dos morremos, e que só mediante Cristo podemos esperar receber vida81
.
Semelhantemente, outra passagem82
afirma que por natureza somos filhos da ira,
concebidos em pecado, o que sempre traz consigo condenação. Segue-se, pois,
que precisamos livrar-nos da nossa natureza para podermos ter parte no reino de
a. talibus (1541 tem, por erro: ses).
b. É a primeira objeção, à qual ele já tinha respondido em 1536 noutros termos.
80
1Co 15.22.
81
Rm 5.12-21 (N. do T.).
82
Ef 2.3; Sl 51.5.
182 As Institutas – Edição Especial
Deus. E seria possível falar em termos mais francos e mais claros do que estes? –
“A carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus”.83
Portanto, é necessário
que tudo quanto há em nós seja aniquilado para que sejamos feitos herdeiros de
Deus, o que não nos poderá acontecer se não formos regenerados. Em suma, é
preciso que a Palavra de Jesus Cristo permaneça verdadeira, isto é, que se reco-
nheça que Jesus Cristo diz a verdade quando afirma que Ele é a vida.84
Por conse-
guinte, temos que estar nele para podermos escapar da escravidão da morte.
6º. Se os pequeninos não conhecem o bem e o mal, como poderão ser
regenerados?
Argumentam, porém, os tais opositores, indagando: Como é que os
pequeninos podem ser regenerados, sendo que não conhecem o bem e o mal? A
isso respondemos que, embora a obra de Deus seja misteriosa e incompreensívela
para nós, não é por isso que Ele vai deixar de realizá-la. Ora, que o Senhor rege-
nera crianças, se as quer salvar, como é certo que salva algumas, é mais que
evidente. Porque, como elas nascem herdando a corrupção, é necessário que se-
jam purificadas, antes de poderem entrar no reino celestial, no qual não entra
nada que esteja contaminado.85
Se nascem pecadoras, como Davi e Paulo testificam
que nascem, necessitam receber a justificação para serem aceitas por Deus. E que
mais queremos saber, se o próprio Senhor Jesus declara que é necessário que
todos nós nasçamos de novo para que possamos entrar no reino de Deus? E para
fechar a boca dos murmuradores, no que fez com João Batista o Senhor mostrou
o que pode fazer com outras pessoas, quando o santificou desde o ventre de sua
mãe.86
E é inaceitável a desculpa sutil segundo a qual o fato de que se fez isso
uma vez não significa que será sempre feito assim. Não é o que queremos dizer.
Só queremos demonstrar que os nossos opositores querem impiamente restringir
o poder de Deus em favor das crianças, poder que Ele manifestou uma vez agindo
em João Batista.
Mas eles insistem, vindo com outra evasiva, quando afirmam que a expressão
“desde o ventre da mãe” é um modo de falar da Escritura que significa, “desde a
juventude”. Que essa alegação não tem fundamente vê-se do fato de que, quando o
anjo falou com Zacarias, afirmou que, ainda estando no ventre de sua mãe, o meni-
no seria cheio do Espírito Santo. O certo é que O Senhor santifica a quem Ele
deseja santificar, como fez com João, pois a Sua mão não está encolhida.87
a. etiam si captui nostro non subjaceat.
Cf. 1536: si assequi non possumus, cogitemus quam... ejus consilia sint abstrusa sensibus nostris.
83
1Co 15.50 (N. do T.).
84
Jo 11.25; 14.6 (N. do T.).
85
Ap 21.27 (N. do T.).
86
Lc 1.15 (N. do T.).
87
Is 59.1 (N. do T.).
183
As crianças compartem a santificação de Cristo,
nele operada em Sua infância
Para que terá sido Jesus Cristo santificado em Sua infância? Para que pessoas de
todas as idades fossem santificadas nele, segundo o Seu santo querer. Porque,
assim como Ele se revestiu da nossa carne e assumiu um corpo em tudo seme-
lhante ao nosso, menos no pecado, para dar satisfação pela ofensa cometida em
nossa carne e para cumprir toda a justiça com obediência perfeita, assumindo a
nossa natureza, que Ele quis salvar, e também para nos fortalecer com ternura e
compaixão, assim também, desde a Sua concepção Ele foi plenamente santifica-
do em Sua natureza humana para santificar os Seus, as crianças inclusive. Ambos
os fatos acima descritos são fartamente testificados na Escritura. Quanto ao pri-
meiro, Ele é declarado descendente deAbraão e de Davi. Mais que isso, é chama-
do Filho de ambos, porque descende da linhagem e da posteridade deles, como
diz o apóstolo Paulo quando declara que Ele veio dos judeus segundo a carne. Em
confirmação disso, noutro lugar lemos que “Ele não se revestiu da natureza dos
anjos, mas da semente do homem”, e logo após nos é dada a razão disso – “para
que em tudo fosse semelhante a nós, exceto no pecado”88
.89
O que acentua o fato
de que em nossa própria carne e em nossa real e verdadeira humanidade Ele
cumpriu tudo o que diz respeito à nossa redenção.90
Quanto ao segundo ponto, temos que Ele foi concebido pelo Espírito San-
to, a fim de que a Sua natureza humana fosse plenamente santificada, para derra-
mar sobre nós o fruto da Sua santificação. Ora, se Jesus é o modelo e o exemplo
de todas as graças que o Senhor distribui a Seus filhos, nesta parte Ele também
pode ser modelo e exemplo, no sentido de que a mão de Deus não está encolhida
para com os pequeninos – não mais encolhida que para com os demais. Sendo,
pois, assim, é necessário concluir que o Senhor não tira do mundo nenhum dos
Seus escolhidosa
sem antes santificá-lo e regenerá-lo por Seu Espírito.
E a alegação de que a verdade revelada não reconhece outra regeneração
senão a que é realizada pela semente incorruptível, que é a Palavra de Deus,
a. Cf. 1536: omnes Dei electos per fidem ingredi in vitam æternam.
88
Hb 2.16; 4.15, tradução direta (N. do T.).
89
“O grande amor de Deus para com a humanidade é demonstrado pelo fato de o Filho de Deus não ter vindo
à terra como um anjo, e sim como homem – O homem Cristo Jesus – tendo natureza humana como a nossa.”
[John Owen, A Glória de Cristo, São Paulo, PES., 1989, p. 8].
90
“A descrição mais adequada da pessoa de Cristo está contida nas palavras ‘Deus se manifestou em carne’.
Em primeiro lugar, temos aqui uma afirmação distinta de ambas as naturezas, pois o apóstolo declara que
Cristo é ao mesmo tempo verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Em segundo lugar, ele põe em evidência a
distinção entre as duas naturezas, pois primeiramente o denomina de Deus, e em seguida declara sua mani-
festação em carne. E, em terceiro lugar, ele assevera a unidade de sua Pessoa, ao declarar que ela era uma e
mesma Pessoa que era Deus e que se manifestou em carne. Nesta única frase, a fé genuína e ortodoxa é
poderosamente armada contra Ário, Marcião, Nestório e Êutico. Há forte ênfase no contraste das duas
palavras: Deus e carne. A diferença entre Deus e o homem é imensa, e todavia em Cristo vemos a glória
infinita de Deus unida à nossa carne poluída, de tal sorte que ambas se tornaram uma só.” [João Calvino, As
Pastorais, São Paulo, Paracletos, 1998, (1Tm 3.16), p. 100].
184 As Institutas – Edição Especial
respondemos que os que fazem tal objeção entendem mal as palavras do apóstolo
Pedro91
. Ao dizer isso, ele dirige suas palavras unicamente aos que já tinham sido
instruídos no Evangelho, para os quais certamente a Palavra de Deus sempre é
semente de regeneração espiritual. Não se pode inferir daí, porém, que as crian-
ças pequenas não possam ser regeneradas pelo poder do Senhor, oculto e misteri-
oso para nós, mas para Ele, claro e fácil. Acresce que não é certo nem seguro
afirmar que o Senhor não pode manifestar-se de algum modo às criancinhas.
7°. As crianças não podem exercer fé
Mas os nossos opositores insistem, e perguntam: “Como as crianças podem
ser objeto do Batismo, uma vez que o apóstolo Paulo afirma que a fé é pelo
ouvir92
, e as crianças pequenas não discriminam nem o bem nem o mal? Mas eles
não consideram que Paulo aqui fala somente da maneira comum pela qual o Se-
nhor age para fazer aos Seus a dádiva da fé. Não significa que Ele não possa usar
outros meios, como de fato os tem usado muitas vezes com muitos, tocando o seu
íntimo para trazê-los ao conhecimento do Seu nome, sem jamais fazê-los ouvir a
Sua Palavra. E, visto que lhes parece que isso contraria a natureza das crianças,
as quais, segundo Moisés93
, não sabem distinguir entre o bem e o mal, eu lhes
pergunto por que querem restringir o poder de Deus, como se Ele não soubesse
fazer em parte às crianças o que Ele realmente lhes faz perfeitamente? Porque, se
a plenitude da vida consiste em conhecer perfeitamente a Deus, considerando
que o Senhor reserva para a salvação alguns que morrem na infância, sem dúvida
eles recebem plena manifestação de Deus. E então, se eles recebem esse conheci-
mento perfeitamente na vida futura, por que não podem sentir aqui um pouco do
seu gostoa
? Não é que pretendamos afirmar que as criancinhas têm féb
(pois não
sabemos como Deus trabalha nelas). Mas a nossa intenção é mostrar a temerida-
de e a presunção daqueles que, seguindo a sua estulta fantasia, afirmam e negam
o que lhes dá na telha, sem dar a mínima atenção a toda a argumentação que se
poderia apresentarc
.
8º. As criancinhas não podem arrepender-se
Mas os tais nos pressionam ainda mais, dizendo que o Batismo é o sacra-
mento do arrependimento e da fé, como nos ensina a Escriturad
. E como as crian-
ças pequenas não podem exercer o arrependimento e a fé, não há propósito em
aplicar a elas o sacramento, porque fazê-lo é tornar nula a sua significação. Só
a. exígua scintilla. Cf. 1536: cur non illis hic gustum aliquem et primitias dare possit.
b. 1539 acrescenta: quam in nobis experimur (quod in suspenso relinquere malim).
c. prout inflata bucca.
d. …e como Calvino o expunha desde 1536.
91
1Pe 1.23.
92
Rm 10.17. Grego: he pístis ex akoês (N. do T.).
93
Dt 1.39.
185
que esse argumento vai mais contra Deus do que contra nós, porque a Circunci-
são era símbolo de arrependimento, como o demonstram muitos testemunhos da
Escritura, principalmente o que vemos no capítulo quatro de Jeremias. E o pró-
prio apóstolo Paulo chama o sacramento da Circuncisão de “selo da justiça da
fé”.94
Que se questione a Deus, então, pedindo-lhe a razão pela qual Ele ordenou
que fosse aplicada aos pequeninos. Porque a razão é a mesma: se foi razoável
aplicar a Circuncisão às crianças, não é menos razoável aplicar-lhes o Batismo.
Se recorrerem aos seus costumeiros subterfúgios e afirmarem que as crianças na
idade representam as que são espiritualmente crianças, graças à regeneração, esse
recurso já foi eliminado.
Uma firme declaração a respeito
Eis, pois, o que dizemos: Uma vez que o Senhor quis que a Circuncisão, mesmo
sendo sacramento do arrependimento e da fé, fosse comunicada aos pequeninos,
não há nenhum inconveniente em que o Batismo lhes seja comunicado. Se não é
que esses caluniadores prefiram acusar Deus por ter ordenado essa prática. Mas a
verdade, a sabedoria e a justiça de Deus refulgem com claríssimo brilho para
confundir a loucura, a mentira e a iniqüidade desses tais. Porque, embora os
pequeninos ainda não entendam o significado da Circuncisão, eram circuncida-
dos na carne para a mortificação interior da sua natureza corrompida, para que,
na idade própria, a estudassem e meditassem nela, recebendo assim adequada
instrução desde a infância.
Dessa maneira podem ser explicadas todas as passagens referentes ao signi-
ficado do Batismo e que os nossos opositores citam. Um exemplo é a passagem
na qual o apóstolo Paulo descreve o Batismo como “o lavar regenerador e reno-
vador do Espírito Santo”.95
Com essa passagem eles pretendem que só devem ser
batizados os que estão em condições de ser regenerados e renovados. Mas sem-
pre teremos o que responder. No presente caso, lembramos que a Circuncisão é
sinal de regeneração e renovação, e só deveria ser aplicada aos que já dessem
mostras de que foram regenerados e renovados. E, se fosse como querem os que
fazem tal objeção, a ordenança estabelecida por Deus que mandava circuncidar
os pequeninos seria tola e irracional. Portanto, todos os argumentos utilizados
para combater o Circuncisão de nada valem contra o Batismo.
E eles não nos podem caluniar, ou seja, insinuar que agimos com má inten-
ção, quando afirmam que se deve tomar como líqüido e certo o que o Senhor
instituiua
, aceitando-o como algo bom e santo, sem se fazer investigação a respei-
to, reverência que não merecem as coisasb
não expressamente ordenadas por Ele.
a. statum nobis ac fixum, quo Dei authoritate certo nititur.
b. nec pædobaptismo debetur neque aliis similibus.
94
Rm 4.11 (N. do T.).
95
Tt 3.5.
186 As Institutas – Edição Especial
Acusação que, desde logo, não pede outra resposta senão esta: Ou Deus instituiu
por bom motivo a Circuncisão ou não. Se foi instituída com bom fundamento, de
modo que não se possa alegar nenhum absurdo contra ela, a mesma coisa se pode
dizer do Batismo.
Ampliando a resposta
Ao argumento acima exposto contra o Batismo infantil respondemos da seguinte
maneira: Os pequeninos que recebem o sinal da regeneração e da renovação, se
passam deste mundo antes de chegarem à idade da razão, caso tenham sido esco-
lhidos pelo Senhor, são regenerados e renovados pelo Seu Espírito, como Lhe
apraz, segundo o Seu poder, para nós oculto e incompreensível. Se chegarem à
idade em que possam ser instruídos na doutrina do Batismo, saberão que em toda
a sua vida não deverão fazer outra coisa senão meditar nesta regeneração, cujo
sinal trazem em si desde a sua infância. Assim também se deve entender o que o
apóstolo diz no capítulo seis de Romanos e no capítulo dois de Colossenses, a
saber: “Fomos, pois, sepultados com ele [Cristo] na morte pelo batismo”. Paulo
não quer dizer com isso que o sepultamento deve preceder ao Batismo, mas ape-
nas ensina a doutrina do Batismo e deixa claro que essa doutrina tanto se pode
mostrar e aprender depois de ser recebido o referido sacramento como antes. Por
isso mesmo, Moisés e os Profetas96
igualmente demonstravam uma e outra vez ao
povo de Israel o significado da Circuncisão, sendo que os israelitas tinham sido
circuncidados na infância.
Portanto, quem quiser concluir que tudo o que é representado pelo Batismo
deve preceder ao mesmo, erra grosseiramente. Basta reparar que essas coisas
foram escritas a pessoas que já tinham sido batizadas. Ensina a mesma coisa o
apóstolo Paulo quando diz aos gálatas: “Todos quantos fostes batizados em Cris-
to de Cristo vos revestistes”.97
Essa é uma verdade apostólica. Mas com que fina-
lidade o apóstolo diz isso? Para que daí em diante vivessem em Cristo. Não por-
que tivessem vivido antes nele. Tenha-se em conta igualmente que, embora os
adultos não devam receber o sinal sem antes terem entendido o seu sentido, dife-
rente deve ser o raciocínio com relação aos pequeninos, como explicaremos nou-
tro lugar. Portanto, todas as razões alegadas por nossos opositores não passam de
perversões da Escritura, como qualquer pessoa pode ver.
9º. Respostas a argumentos sobre o Batismo visto em relação à purifi-
cação do pecado
Tratemos resumidamente de alguns outros argumentos que podem ser
deslindados com facilidade. Os nossos oponentes alegam que o Batismo é a re-
96
Dt 10.16; Jr 4.4. No presente caso e noutros semelhantes, uso inicial maiúscula para “Profetas” por entender
que se refere a uma divisão do Velho Testamento. Vide Lc 24.44 (N. do T.).
97
Gl 3.27 (N. do T.).
187
missão dos nossos pecados. Nisso cometem grande erro. Por que ignorar o san-
gue de Jesus Cristo, sendo que unicamente nele temos purificação total e comple-
ta? Mas, desculpando sua falta, a qual é comum entre eles, para dar mais realce
ao seu argumento vamos formulá-lo baseando-nos na Escritura.
O Batismo é um testemunho da remissão dos nossos pecados, dizem eles.
Nisso concordamos. E por essa razão dizemos que é próprio aplicá-lo aos
pequeninos. Porque, sendo pecadores como são, precisam do perdão e da remis-
são das máculas do pecado. Pois bem, se o Senhor declara que quer usar de mise-
ricórdia para com os que pertencem a essa tenra idade, por que haveríamos de
negar-lhes o sinal, que é muito menos importante que a sua realidade espiritual?
Por isso voltamos o argumento dos nossos opositores contra eles. O Batismo é
sinal da remissão dos pecados. Os pequeninos têm a remissão dos seus pecados.
Logo, o sinal, que deve ser subseqüente à realidade significada, por direito lhes
deve ser comunicado.
Eles apresentam, como outro argumento, o que está escrito no capítulo cin-
co de Efésios, versículo 26, onde lemos que Cristo se entregou à igreja, “para que
a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra”.
Mas isso também vai contra eles, porque dessa declaração deduzimos este argu-
mento: Se o Senhor deseja que a purificação que Ele faz da Sua igreja seja
testificada e confirmada pelo sinal do Batismo, e os pequeninos são da igreja,
visto que são contados como pertencentes ao povo de Deus, e que pertencem ao
reino dos céus, segue-se que eles devem receber o atestado da sua purificação,
como o restante da igreja. Porque em sua declaração o apóstolo inclui, sem ne-
nhuma exceção, toda a igreja em geral, quando afirma que o Senhor a purificou
pelo Batismo.
Do que eles alegam, citando o capítulo doze da Primeira Epístola aos
Coríntios – que, “pelo batismo somos incorporados em Cristo”,98
pode-se fazer a
mesma dedução. Porque, se os pequeninos pertencem ao corpo de Cristo (como
transparece do que foi dito), é próprio e pertinente que eles sejam batizados, para
que se unam aos membros do corpo de Cristo. Veja só o leitor como esses
opositores lutam fortemente contra nós, citando passagens e mais passagens que
eles acumulam, mas de uma forma em que não se vê nem sentido, nem razão de
ser, nem inteligência.
10º. Os apóstolos não ministraram o Batismo infantil
Depois, apelando para a prática dos apóstolos, os tais querem mostrar que
só os adultosa
estão aptos para receber o Batismo. Eles citam o apóstolo Pedro e
dizem que, sendo ele interrogado pelos que se inclinavam a converter-se ao Se-
nhor sobre o que deveriam fazer, respondeu-lhes99
: “Arrependei-vos, e cada um
a. 1539 tinha uma frase: nemo nisi fidem ante, pœnitentiamque professus.
98
Rm 12.13, tradução direta (N. do T.).
99
At 2.37,38.
188 As Institutas – Edição Especial
de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados”.
Igualmente, quando o eunuco perguntou a Filipea
se não era lícito que ele fosse
batizado, Filipe lhe respondeu: “É lícito, se crês de todo o coração”.100
Dessas
palavras os nossos oponentes concluem que o Batismo foi instituído somente
para os que têm fé e arrependimento.
Entretanto, se é para seguir esse procedimento, note-se que, pela primeira
passagem, bastaria o arrependimento, uma vez que não se faz menção alguma da
fé; e, pela segunda, que a fé seria suficiente, visto que nela não se pede o arrepen-
dimento. Eles me dirão que uma passagem presta auxílio à outra e que, por isso,
é preciso juntá-las para obter-se bom entendimento. Ao que respondemos dizen-
do que, semelhantemente, para haver coerência, é necessário reunir as outras
passagens que podem ajudar-nos a eliminar essa dificuldade, pois muitas vezes o
entendimento do sentido correto da Escritura depende de elementos circunstanci-
ais, ou seja, do contexto.101
Vemos que as pessoas que perguntaram a Pedro o que deveriam fazer para
aderir ao Senhor eram pessoas que já tinham chegado à idade da razão. De tais
pessoas dizemos que só devem ser batizadas depois que derem testemunho de sua
fé e arrependimento, quanto seja possível aos seres humanos. Mas os pequeninos
gerados por cristãos devem ser colocados noutra categoria. E para que se veja
que assim é, não forjamos argumentos seguindo o que bem agrada ao nosso cére-
bro, mas a própria Escritura nos dá segurança e certeza para a defesa dessa distin-
ção. Pois vemos que se alguém desejava entrar nas fileiras do povo de Israel para
servir ao Deus vivo, era necessário que, antes de receber a Circuncisão, aceitasse
a Lei e fosse instruído na doutrina da aliança que o Senhor tinha feito com o Seu
povo. Isso porque o candidato não pertencia à nação judaica, para a qual esse
sacramento havia sido instituído.
Com o próprio Abraão foi assim, porque o Senhor não começou a agir para
com ele pela Circuncisão, sem que ele soubesse por quê, mas, sim, começou
dando-lhe instrução sobre a aliança, a qual Ele queria que fosse confirmada pela
Circuncisão. Só depois que Abraão creu na promessa é que Deus lhe ordenou o
sacramento. Consideremos, porém: Por que foi que Abraão só recebeu o sinal
depois que passou a ter fé, e Isaque, seu filho, o recebeu sem nada entender?
Porque estando o homem na idade da razão, não sendo ainda participante da
aliança do Senhor, para passar a fazer parte dela deve primeiro saber em que ela
consiste. Por outro lado, o filho pequeno gerado por esse homem, sendo herdeiro
da aliança por sucessão, como o comporta a promessa feita a seu pai, por direito
é apto a receber o sinal, sem contudo entender a sua significação.
a. Philippus.
100
At 8.36,37.
101
Lembremo-nos de que a palavra “contexto” geralmente é empregada com referência aos versículos e parágra-
fos próximos do texto em questão. Mas também existe o contexto mais amplo (capítulo, livro) e o contexto
remoto (Testamento, Bíblia toda). Neste último caso dá-se ao contexto o nome de “analogia da fé” (N. do T.).
189
Ou, para dizê-lo resumidamente e com maior clareza – como o filhinho do
crente participa da aliança sem entendê-la, não deve ser privado do respectivo
sinal, pois é apto para recebê-lo sem que se exija dele que o entenda. Por essa
razão o Senhor disse que os filhos pertencentes à linhagem de Israel tinham sido
gerados para Ele, eram Seus filhos, considerando-se Ele o Pai de todos os filhos
daqueles aos quais tinha prometido ser o seu Deus e o Deus da sua descendên-
cia102
. E os descrentes, nascidos de pais descrentes, enquanto não conhecessem a
Deus, isto é, enquanto não cressem nele103
, eram estranhos à aliança. Portanto,
não admira que não lhes fosse ministrado o sinal, porque seria um símbolo falso
e vão. Por isso o apóstolo afirma que os gentios, enquanto estavam na idolatria,
estavam sem testamento e sem aliança.
Sumário desta parte
Toda essa questão agora parece bastante clara. Resumindo: Os adultos que se
disponham a converter-se ao Senhor Jesus Cristo não devem ser admitidos ao
Batismo se não tiverem fé e arrependimento, visto que só pela fé e pelo arrepen-
dimento se pode ter acesso à aliança, a qual é simbolizada e selada pelo Batismo.
Mas os filhinhos dos cristãos, aos quais a aliança pertence por direito de herança,
em virtude da promessa, por esta razão, e só por esta, são idôneos para admissão
ao Batismo. A mesma coisa se deve dizer sobre aqueles que confessavam os seus
pecados e ofensas para serem batizados por João, pois neles vemos um exemplo
que devemos seguir. Porque, se viesse algum judeu, ou turco, ou qualquer pagãoa
,
não deveríamos aplicar-lhe o Batismob
antes de instruí-lo devidamente e de obter
sua confissão de uma forma que nos parecesse satisfatóriac
. Por isso, embora
Abraão não tenha sido circuncidado senão depois de receber a devida instrução,
isso não vem em detrimento do fato de que, depois dele, menininhos fosse cir-
cuncidados sem receberem instrução enquanto não fossem capazes de recebê-la.
11º. João 3.5 fala da água como condição para que o pecador possa
entrar no reino de Deus, igualando-a à regeneração
Mas, querendo mostrar que a natureza do Batismo é tal que requer uma
regeneração a ele presente, citam a seu favor o que se lê no capítulo três de João:
“Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus”. Aí
está, dizem eles, como o Senhor chama o Batismo de regeneração. Dessa manei-
ra, visto que as criancinhas não podem receber a regeneração, como julgá-las
idôneas para receberem o Batismo, que não subsiste sem aquela?
a. Em 1539 só se trata de Turca.
b. intingeretur.
c. qua Ecclesiæ satisfaciat.
102
Ez 16.20,21; 23.37.
103
É oportuno lembrar que Calvino define fé em termos de conhecimento (N. do T.).
190 As Institutas – Edição Especial
Em primeiro lugar, dá para agüentar a maneira como eles torcem as Escritu-
ras com suas falsas interpretações? Porque nessa passagem o Senhor Jesus Cristo
não faz menção alguma do Batismo, mas utiliza uma transposiçãoa
, ou seja, uma
figura tomada de coisas carnais para com ela indicar coisas espirituais e celestes.
Tanto assim que logo depois Ele diz a Nicodemos, com quem estava conversan-
do, que só havia tocado em coisas terrenas, pois, embora Seu propósito fosse
tratar de realidades espirituais, contudo as simplificou e tratou delas como se
fossem carnais ou terrenas, para ajustar-se à rudeza e à pequena capacidade do
seu interlocutor.
Tendo, então, mostrado que o homem carnal por natureza tende às coisas da
terra e não aspira ao céu, ao referir-se ao novo nascimento da água e do Espírito
Ele quer dizer que é necessário que, reconhecendo e renunciando à sua corrupção,
o homem seja reformadob
ou renovado, passando a ter uma natureza superior,
mais fina e sublimec
.104
Ademais, há outra razão para repudiar a explicação que
eles dão, pois, a ser verdadeira, todos os que não receberem o Batismo estarão
excluídos do reino de Deus. Suponhamos que fosse legitimamente sustentável a
sua opinião de que não se deve batizar os pequeninos, que diriam eles se um
jovem, adequadamente instruído em nossa fé, morresse sem ter tido ocasião de
ser batizadod
? Porquanto o Senhor diz: “Em verdade, em verdade vos digo: quem
ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra
em condenação, mas passou da morte para a vida”.105
Em parte alguma Ele con-
dena os que não foram batizados. Que ninguém entenda que com isso menospre-
zamos o Batismo, como se pudéssemos negligenciá-lo. Só quero mostrar que o
Batismo não é tão necessário que não se poderia escusar quem não o tivesse
recebido por força de algum impedimento legítimo. Já, por outro lado, segundo a
explicação dada pelos nossos opositores, todos os que não fossem batizados, sem
exceção, estariam condenados, ainda que tivessem a fé pela qual temos Jesus
Cristo. E não somente isso, mas também eles condename
os pequeninos, aos quais
eles negam o Batismo que, dizem elesf
, é necessário para a salvação.Agora, como
podem eles harmonizar o que dizem com a Palavra de Cristo, segundo a qual o
reino celestial pertence aos pequeninos! E ainda que lhes concedêssemos tudo
quanto exigem, vê-se quão falsa é a sua ilação, resultante de um raciocínio
a. allegoria.
b. A palavra era assim acentuada, somente na última letra, pelos reformés do século XVI.
c. In sublimiorem agilioremque naturam esse transeundum.
d. dum tinctionis dies appetit.
e. æterni mortis reos peragunt.
f. sua ipsorum confessione.
104
“A regeneração é a nova vida da alma, e que é por meio daquela que esta ressuscita dos mortos”. [João
Calvino, Efésios, São Paulo, Paracletos, 1998, (Ef 2.1), p. 51]. “Não há outra vida na alma senão aquela que
é bafejada em nós por Cristo; de modo que só começamos a viver quando somos enxertados nele e passamos
a desfrutar vida comum com ele.” [João Calvino, Efésios, (Ef 2.4), p. 56].
105
Jo 5.24. A palavra condenação é do original francês. ARA: “juízo” (N. do T.).
191
estulto e falso, que os leva a afirmar que as criancinhas não podem ser regenera-
das, pois, conforme a dedução amplamente exposta acima, sem a regeneração
ninguém entra no reino de Deus, nem grandes nem pequenos. Ora, se há aqueles
que morrem na mais tenra infância, os quais são herdeiros do reino de Deus, claro
está que eles foram regenerados antes do seu passamento.
Depois, tendo em vista o mesmo objetivo, eles se armam com os dizeres do
apóstolo Pedro106
, segundo os quais o Batismo, correspondendo à figura da arca
de Noé, nos é dado para a salvação, “não sendo a remoção da imundícia da carne,
mas a indagação de uma boa consciência para com Deus, por meio da ressurrei-
ção de Jesus Cristo”. Se a realidade significada pelo Batismo é um atestado de
boa consciência diante de Deus, se esta lhe faltar, que restará, senão uma coisa vã
e de importância nula? Por isso, se as criancinhas não podem ter boa consciência,
seu Batismo se esvai como fumaça. Nisso eles repetem o erro de sempre, pois
querem que necessariamente, sem nenhuma exceção, a realidade significada pre-
ceda ao respectivo sinal. Erro que já refutamos mais que suficientemente. Porque
a Circuncisão, aplicada aos pequeninos, não deixava de ser um sacramento da
justiça da fé, sinal e símbolo do arrependimento e da regeneração. Se estas coisas
fossem incompatíveis, Deus não a teria instituído. Mas, ensinando-nos que a subs-
tância da Circuncisão faz dela justamente o sacramento acima descrito, e atribu-
indo-o aos pequeninos, Ele mostra que, no tocante aos referidos pontos, é aplica-
do a eles com vista ao seu futuro. Portanto, a realidade que devemos considerar
presente no Batismoa
, quando este é ministrado aos pequeninos, é que ele é um
atestado da sua salvação, selando e confirmando a aliança de Deus neles. O res-
tante das coisas simbolizadas terá lugar no tempo que o Senhor tiver determinado
para lhes dar o necessário conhecimento.
******
12º. A instituição do Batismo, segundo Mateus e Marcos, citada como
argumento contra o Batismo infantil
Sobretudo, para fabricar o seu grande escudo e construir a sua principal
fortaleza para defesa da sua opinião, os nossos opositores citam a instituição
original do Batismo, quando foi ordenado pela primeira vez, o que eles dizem
que foi feito pelas palavras registradas no último capítulo de Mateus: “Portanto,
vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do
Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes orde-
nei”.107
A isso eles acrescentam a passagem do último capítulo de Marcos: “Quem
crer e for batizado será salvo”.108
Vejam, dizem eles, como o nosso Senhor ordena
a. O fim desse parágrafo desenvolve estas linhas de 1539: nihil tamen inde elicient, nisi prius, quod jam
constitutum est a nobis dogma de infantium regeneratione, everterint.
106
1Pe 3.20,21.
107
Nova Versão Internacional (NIV) (N. do T.).
108
Mt 28.19,20; Mc 16.16.
192 As Institutas – Edição Especial
que se dê instrução antes de batizar, e como Ele mostra que a fé deve preceder ao
Batismo. E acrescentam: De fato o Senhor demonstrou isso com o Seu exemplo,
pois Ele não foi batizado antes dos trinta anos de idade.
Nesse ponto eles erram em muitos aspectos. Porque é um erro por demais
evidente dizer que o Batismo foi ordenado pela primeira vez na ocasião a que se
referem os textos citados, visto que durante todo o tempo da pregação de Jesus
Cristo era vigente a sua prática. Então, se a instituição deve preceder à prática, e
se o Batismo esteve em uso por tanto tempo, como dizer que a sua instituição
primeira, original, ocorreu no tempo alegado por nossos oponentes? É, pois, vão
e inútil o esforço que eles fazem para apoiar-se na primeira ordenação para com
isso limitar a doutrina do Batismo precisamente nessas passagens.
Todavia, deixando de lado esse erro, consideremos bem que força têm os
seus argumentos. Ora, se fosse necessário empregar tergiversações ou evasivas,
não seria nada difícil escapar deles. Sim, pois, uma vez que eles se fundam tão
estritamente na ordem e na disposição das palavras, pretendendo que é preciso
primeiro instruir antes de batizar, e crer antes de receber o Batismo, alegando que
está escrito, “fazendo discípulos” (instruindo) e depois, “batizando-os”; e na ou-
tra passagem, “quem crer e for batizado”, pela mesma razão é fácil replicar-lhes
que é necessário batizar antes de ensinar a guardar todas as coisas que Jesus
ordenou, pois a passagem diz: “Batizando-os...; ensinando-os a guardar todas as
coisas que vos tenho ordenado”. E que seria se tomássemos a explicação que eles
dão da passagem de João citada anteriormente, na qual eles entendem como se
referindo ao Batismo o que é dito com referência ao novo nascimento da água?
Pois, sobre o seu próprio argumento provamos que o Batismo deveria preceder à
regeneração espiritual, porquanto é mencionado antes desta. Porque o texto não
diz, “Quem não nascer do Espírito e da água...”, mas, “Quem não nascer da água e
do Espírito...”. Já com isso o argumento deles dá mostras de grande abatimento.
Do argumento fraco apoiado em alheio argumento fraco,
passamos a argumentos mais fortes
Todavia, não nos detemos aqui, uma vez que temos resposta para defender a
verdade de maneira muito mais certeira e mais sólida. O que se deve notar é que
o principal mandamento que na passagem em foco o Senhor dá aos Seus apósto-
los é que anunciem o Evangelho, ao qual Ele acrescenta o serviço ministerial de
batizar, mas como algo subordinado à sua comissão ou incumbência principal.
Logo, aqui não se fala em Batismo, a não ser na medida em que sua prática vem
junto com o ensino doutrinário e com a pregaçãoa
. Pode-se entender melhor isso
fazendo-se uma exposição dedutiva mais longa.
a. Calvino censura os anabatistas por fundarem a sua recusa do batismo infantil na maneira pela qual é formu-
lado o mandamento do Senhor em Mateus 28 e Marcos 16. Porque esse mandamento, diz ele, tem como
elemento central a ordem de evangelizar o mundo pagão (é ordenada a missão), e é evidente que não se pode
193
O Senhor envia então os Seus apóstolos para instruírem os homens de todas
as nações da terra. Que homens? Certamente não pensa senão nos que são aptos
para receber doutrina. Então diz Ele que, depois de haverem sido instruídos, de-
vem ser batizados. E, prosseguindo na declaração do Seu propósito, Ele afirma
que os que crerem e forem batizados serão salvos. É feita alguma menção do
Batismo infantil numa passagem ou na outra? Note-se a maneira de argumentar
dessa gente, quando na verdade dizem: Os adultos devem ser instruídos e devem
crer, antes de serem batizados; logo, as criancinhas não têm direito ao Batismo!
Ainda que se atormentem quanto queiram, os nossos opositores não poderão tirar
dessas passagens outro ensino senão este: Devemos pregar o Evangelho aos que
são capazes de ouvi-lo, antes de batizá-los. É só disso que aí se trata. Portanto, é
perverter as palavras do Senhor excluir do Batismo os pequeninos, à sombra
dessa falsa interpretação.
Um exemplo demonstrativo da verdade,
num alerta contra a generalização
E para que cada leitor possa como que tocar com o dedo ou apalpar a ignorância
desses mestres, usarei um exemplo para mostrar em que se apóiam. Quando o
apóstolo Paulo diz, “Se alguém não quer trabalhar, também não coma”,109
se dis-
so alguém concluir que as crianças não devem receber alimentação, não será
digno de zombaria de todo o mundo? Por quê? Por isso: do que é dito de uma
parte, tal Fulano estaria generalizando como se abrangesse a todos. Pois as pesso-
as às quais contesto não fazem menos que isso no assunto do qual estamos tratan-
do. Porquanto o que se diz especificamente a respeito dos adultos elas reportam
aos pequeninos, fazendo disso uma regra geral.
Resposta à citação do Batismo de Jesus
No tocante ao citado exemplo do Senhor, em nada os favorece. É certo que Ele
não foi batizado antes dos seus trinta anos de idade, mas isso porque ia dar início
à sua pregação e por ela desejou fundamentar o Batismo, que já tinha sido inici-
ado por João. Querendo instituir o Batismo com base em Sua própria doutrina, já
evangelizar senão pessoas capazes de compreender a mensagem e de crer no Evangelho. Nada mais natural,
portanto, que os primeiros batizados tenham sido de adultos, e estes não seriam batizados senão depois de
abraçarem a nova fé. A questão do Batismo só vem como item subseqüente; e Calvino entende que, uma vez
batizados os pais convertidos, pode-se administrar o Batismo a seus filhos pequenos, como sinal da aliança
da graça, da qual os pequeninos fazem parte (em virtude de textos que permitem clara dedução). O Batismo
de crianças só extrai a sua eficácia da redenção evangélica, a qual lhes deve ser ensinada em seguida e ao
longo de toda a sua educação cristã, até chegarem à idade em que possam exercer fé. Não se trata, pois, da
questão de batizar outras crianças que não as de pais cristãos: O Batismo não é um meio de evangelização,
mas um sinal presente na família e na igreja cristãs. Não admira, então, que nos mandamentos do Senhor
registrados em Mateus 28 e em Marcos 16 o Batismo não figure em primeiro lugar, mas em segundo.
109
2Ts 3.10 (N. do T.).
194 As Institutas – Edição Especial
no princípio do Seu ministério público, santificou-o primeiro em Seu próprio
corpo, para dar-lhe maior autoridade.
13º. Citação de Atos 19.1-7.
[1541] Os nossos oponentesa
se esforçam igualmente para apoiar-se no exem-
plo que temos em Atos, capítulo dezenove. Lemos ali que o apóstolo Paulo
rebatizou alguns discípulos em Éfeso, os quais já tinham sido batizados por João.
Rebatizou-os porque eles não tinham sido suficientemente instruídos sobre o
Espírito Santo. Com esse fato os tais se empenham em mostrar que, se pela igno-
rância daqueles discípulos o seu primeiro Batismo não teve valor, por mais forte
razão o Batismo das criancinhas deverá ser considerado nulo, visto que lhes falta
o devido entendimento.
Mas, se a explicação deles fosse válida, cada um de nós precisaria de um rio
para se rebatizar, porque, quem de nós não reconhece em si diariamente grande e
grosseira ignorância em múltiplas formas?A cada reconhecimento de alguma igno-
rância cada um precisaria correr em busca de rebatismo, tendo sido anulado o ante-
rior. Portanto, deixando de lado essas absurdidades totalmente ridículas, busque-
mos o sentido correto da citada passagem. Alguns explicam que a afirmação de que
o apóstolo Paulo os batizou “em o nome do Senhor Jesus” não significa outra coisa
que não a ministração de ensino. Embora essa explicação se harmonize com a ma-
neira de falar da Escritura, não obstante apresentarei outra, mais própria, que espe-
ro demonstrar claramente, de molde a receber a aprovação de todos.
Não é novidade que o recebimento das graças visíveis do Espírito Santo,
como as que eram dadas naquele tempo, recebiam na Escritura o nome de Batis-
mo. Como quando se diz que o Senhor batizou os Seus apóstolos ao lhes enviar o
Seu Espírito para lhes conferir tais graças. Ora, conforme a narrativa, o apóstolo
Paulo interrogou os discípulos se tinham recebido as graças do Espírito, e eles
responderam que nem sequer sabiam da existência do Espírito. Razão pela qual
os batizou em nome de Jesus. Não com água, mas como os apóstolos foram
batizados no dia de Pentecostes. O que é comprovado pelo procedimento segui-
do, porquanto, o que logo em seguida se diz, “E, impondo-lhes as mãos, veio
sobre eles o Espírito Santo”, é uma declaração expressa e explícita desse Batis-
mo. Isso corresponde ao hábito da Escritura de apresentar resumidamente uma
coisa e depois declará-la mediante narração mais ampla.
Caso contrário, O apóstolo Paulo teria agido contra a razão, rebatizando por
causa de ignorância, visto que os próprios apóstolos, depois de terem sido batizados,
revelaram tal ignorância e rudeza de conhecimento que pouco ou quase nada sabi-
am do poder de Jesus Cristo. Mas não temos necessidade de preocupar-nos com
isso demoradamente, visto que se deve entender a referência ao Batismo no sentido
da imposição das mãos, pela qual o Espírito Santo lhes foi dado.
a.As duas páginas que se seguem não têm texto equivalente em 1539.
195
14º. Se os pequeninos devem ser batizados, por que não devem receber
a Ceia?
[1539] Eles objetam que pelo mesmo motivo a Ceia do Senhor deveria ser
ministrada aos pequeninos, os quais não queremos permitir que dela participem.
Como se a diferença entre uma coisa e outra não estivesse expressamente assina-
lada na Escritura, e em todos os aspectos!110
Porque, se considerarmos a natureza
e as características do Batismo, veremos que este sacramento é o primeiro ingres-
so que temos para sermos reconhecidos como membros da igreja, e para termos
lugar entre os que compõem o povo de Deus. Isso porque ele é o símbolo e sinal
da nossa regeneração e do nosso nascimento espiritual, que constituem o ato de
Deus pelo qual somos feitos Seus filhos. Diversamente, a Ceia foi ordenada para
aqueles que, tendo passado pela primeira infância, estão aptos a nutrir-se de ali-
mento sólido. Disso a Palavra de Deus nos dá evidente prova. Porque, quando
fala do Batismo, ela não faz nenhuma distinção de idade, mas não permite que a
Ceia seja comunicada senão aos que podem discernir o corpo do Senhor, podem
examinar-se e comer, e podem anunciar a morte do Senhor. Vamos querer pala-
vras mais claras que essas? “Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim,
coma do pão, e beba do cálice”.111
É necessário, pois, que o participante faça
exame de consciência antes de comer do pão e beber do cálice. Também diz o
texto bíblico: “Aquele que comer o pão ou beber o cálice, indignamente, será réu
do corpo e do sangue do Senhor”. Se não se pode participar dignamente sem
prévio exame próprio, por que haveríamos de submeter as nossas crianças a juízo
e condenação ministrando a elas a Ceia? Diz mais a Escritura: “Fazei isto em
memória de mim... Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o
cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha”. Como poderiam anunci-
ar a morte do Senhor os bebês, que ainda não conseguem nem falar?
Nada disso se requer para o Batismo. Portanto, é grande a diferença existen-
te entre estes dois sinais, ocorrendo o mesmo sob o Antigo Testamento com os
dois sinais que correspondem ao Batismo e à Ceia. Porque a Circuncisão, que se
ministrava em lugar do Batismo, era aplicada aos bebês, mas do cordeiro pascal,
em lugar do qual temos agora a Ceia, só participavam os filhos capazes de per-
guntar pelo seu sentido.112
Se aquela pobre gente que apresenta estas objeções
tivesse alguma capacidade de apreciaçãoa
do que diz a Palavra de Deus, não seria
tão cega ao ponto de não perceber estas coisas, que em si mesmas se mostram tão
claramente e a olhos vistos.
110
Ver errata, in loco (N. do T.).
111
1Co 11.28. [Ver os versículos 24 a 29.] N. do T.
112
Êx 12.26 (N. do T.).
a. si mica sani cerebri istis restaret.
196 As Institutas – Edição Especial
a. 1539 tem somente: pædobaptismum.
b. 1539 contém uma transição diferente.
c. 1539: non verbo tantum.
Conclusão e advertências finais sobre o antipedobatismo
Como se pode ver, o que dissemos é suficiente para mostrar como os nossos
oponentes, sem razão nem propósito, perturbam a igreja do Senhor agitando ques-
tões e debates, com o fim de contestar a santa observânciaa
que sempre, desde os
apóstolos, tem sido cumprida pelos crentes.
Visto queb
provamos com fartas evidências que o Batismo infantil tem fir-
me e seguro fundamento na Escritura Sagrada e que, por outro lado, refutamos
com muitos argumentos todas as objeções que costumam levantar contra ele, não
temos dúvida de que todos os fiéis servos de Deus, após terem lido este tratadoc
,
estarão plenamente satisfeitos, e com seus próprios olhos perceberão que todos
os ataques feitos para destruir e abolir esta santa ordenança não passam de astutas
maquinações do Diabo. Com isso ele quer enfraquecer a consolação que o Se-
nhor nos quis dar por meio da Sua promessa e obscurecer a glória do Seu nome,
glória que é tanto mais exaltada quanto mais amplamente Ele derrama as Suas
misericórdias sobre os homens. Porque, quando o Senhor visivelmente nos testifica
com o sinal do Batismo que por amor a nós Ele leva em consideração a nossa
posteridade, não temos nós forte motivo para regozijar-nos, a exemplo de Davi?
Pois isso nos leva a apreciar o fato de que o Senhor assume para conosco a pessoa
de um bom pai de família, estendendo a Sua providência não somente sobre nós,
mas também sobre os nossos descendentes, após a nossa morte. Nesse regozijo
paterno Deus é glorificado singularmente.
Eis por que Satanás se esforça para privar os nossos filhos da comunicação
do Batismo: é para que este atestado que o Senhor ordenou para nos confirmar as
graças que nos quer dar, tendo sido eliminado de diante dos nossos olhos, pouco
a pouco nos esqueçamos também da promessa que Ele nos fez com relação aos
nossos filhos. Resultariam daí, não somente uma ingratidão e uma incompreensão
da misericórdia do Senhor para conosco, mas também a negligência em instruir
os nossos filhos no temor e na disciplina da Sua Lei, bem como no conhecimento
do Seu Evangelho. Porque não é pequeno aguilhão, ótimo para nos estimular a
cultivar neles a verdadeira piedade e a obediência a Deus, entender que, desde o
nascimento dos nossos filhos, o Senhor os recebeu no seio do Seu povo, como
membros da Sua igreja. Então, não rejeitando a grande benignidade do nosso
Senhor, apresentemos a Ele, confiantes, os nossos filhinhos, aos quais Ele deu,
por Sua promessa, ingresso à companhia daqueles que Ele admite como seus
familiares e domésticos em Sua casa, que é a igreja cristã.

AS INSTITUTAS - VOLUME III - ESTUDO - JOÃO CALVINO

  • 1.
    JOÃO CALVINO AS INSTITUTAS Volume3 Edição especial para estudo e pesquisa
  • 2.
    Institution de laReligion Chrestienne – As Institutas ou Instituição da Religião Cristã Da edição original francesa de 1541 – Conforme publicação feita pela Société les Belles Letres, Paris, 1936, com a colaboração da Société du Musée historique de la Réformation. 1ª edição em português 2002 – 3.000 exemplares TRADUÇÃO e LEITURA DE PROVAS Odayr Olivetti REVISÃO e NOTAS DE ESTUDO E PESQUISA Hermisten Maia Pereira da Costa FORMATAÇÃO Rissato CAPA Publicação autorizada pelo Conselho Editorial: Cláudio Marra (Presidente), Alex Barbosa Vieira, Aproniano Wilson de Macedo, Fernando Hamilton Costa, Mauro Meister, Ricardo Agreste e Sebastião Bueno Olinto Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas Editor: Cláudio A. Batista Marra
  • 3.
    CAPÍTULO VII [1539] Expusanteriormenteb , na medida em que me foi possível, um resumo da doutrina cristã sobre o conhecimento de Deus e de nós mesmos, pela qual obte- mos a salvação. Agora temos necessidade de acrescentar um artigoc que é um bom recurso para ajudar-nos a estabelecer a veracidade daquela doutrina que previamente ensinamos. É que todos os homens que desde o princípio do mundo Deus chamou para a companhia do Seu povo chegaram a alcançar tal graça medi- ante essa doutrina e se uniram a Deus pelos seus laços. Bem certo está que os a. Este capítulo de 1539 não tem equivalente em 1536. No Sumário (Sommaire) de Farel (cap. XV, Sobre a Escritura Sagrada), lê-se: “O que designou e simbolizou as figuras e os mandamentos cerimoniais da lei encobertamente e em sombra, Jesus Cristo ensinou claramente, como também os Seus apóstolos”; mas este capítulo não tem mais que quatro páginas. Na Instrução de 1537, Calvino explicou resumidamente “que a lei é um degrau para se chegar a Cristo” (Opera selecta, I, 389). Comentando Hebreus: “Quanto mais elevada é a dignidade de Cristo da dignidade dos anjos, tanto mais reverência se deve prestar ao evangelho do que à lei. É a pessoa de seu Autor que enobrece a doutrina. Se a alguém parece absurdo que ambas as doutrinas, a lei e o evangelho, provêm de Deus, e que uma deve ser preferível à outra, como se a majestade de Deus fosse apoucada ao ser a lei relegada a segundo plano, a resposta é simples, a saber: Deus deve ser sempre ouvido com a mesma atenção, toda vez que fala; sempre que se nos manifesta com mais plenitude, tanto mais reverência e mais desejo de obedecer à sua revelação devem crescer proporcionalmente. Não é que sucede de Deus deixar de ser o que é em si mesmo, mas é porque sua grandeza nem sempre se manifesta na proporção.”95 b. Acima, capítulos I, II e VI. c. vice appendicis. 95 João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo, Paracletos, 1997, (Hb 2.1), p. 52.
  • 4.
    4 As Institutas– Edição Especial testemunhos que juntamos, tanto da Lei como dos Profetas, para mostrar o que dizíamos, mostram suficientemente que jamais o povo de Deus teve outra regra de santidadea e de religião; entretanto, como os doutoresb freqüentemente fazem longos debates sobre a diferença entre o Antigo e o Novo Testamentos, discus- sões que poderiam gerar algum escrúpulo, ou seja, alguma inquietação de consci- ência, em pessoas simples, pareceu-me bem fazer um tratado especial para discu- tir melhor este assunto. Ademais, isso é muito útil e necessário por causa da importunação feita por alguns anabatistasc , que consideram o povo de Israel como uma manada de porcosd , visto que pensam que o Senhor só o quis engordar na terra, como que numa manjedoura, sem nenhuma esperança da imortalidade celestialc . Por isso, a fim de tirar todos os fiéis desse erro pestilente, e igualmente livrar as pessoas simples de todas as dificuldades introduzidas em sua mente quando se faz menção de alguma diversidade entre oAntigo e o Novo Testamen- tos, consideremos resumidamente o que tem de semelhante ou de diferente a aliança que o Senhor fez com o povo de Israel antes do adventof de Cristo, e a que Ele fez conosco, depois que se manifestou em carne. Ora, ambos os aspectos podem ser resolvidos com uma palavra: É que a aliança feita com os pais antigos, em sua substância e em sua verdade é tão seme- lhante à nossa que se pode dizer que ambas são somente uma; só existe diferença na ordem da dispensação de cada uma delas. Mas, visto que com tal brevidade ao falar deste assunto ninguém poderia entendê-lo bem, é necessário dar-lhe seqüência mais ampla, se é que desejamos ter algum proveito. Ao explicar a sua semelhan- ça, ou melhor, a sua unidade, seria supérfluo tratar novamente de todas as exten- sas partes que já definimos. Restrinjamo-nos aqui a três artigos Três artigos sobre a unidade existente entre o Antigo e o Novo Testamentos Primeiro, o Senhor não propôs aos judeus uma felicidade ou opulência terrena como uma meta à qual eles devessem aspirar, mas os adotou com vistas à espe- a. pietatis. b. scriptores. c. Calvino, em 1538, em Estrasburgo, pôde conhecer melhor as doutrinas anabatistas, como, por exemplo, as de Th. Münzer (que ele chama Monetarius). No colóquio ou conferência de Poissy (1561), P. Vermigli tinha exposto o mesmo argumento: “Anabaptistæ vetus testamentum pertinere ad Christianos infitiantur” (Opera Calv., XVIII, 769). d. Essa questão das relações entre o Antigo e o Novo Testamento, que ganha atualidade em nossos dias pela presença de certos movimentos anti-semitas, ocupa a ardorosa atenção de Calvino, não somente por seu desejo de demonstrar a unidade do plano redentor de Deus através do desdobramento da história, mas também para refutar aquilo que se poderia chamar de “tolstoísmo” dos anabatistas do seu tempo, que consis- tia em se apoiarem na monarquia israelita e na “administração terrena” do povo de Deus, e para estabelecer, face aos mesmos sectários, a legitimidade do batismo de crianças, semelhante sob a Nova Aliança ao que era a circuncisão sob a antiga. e. Christi adventum (1541 tem, por erro: advencement). f. administratio.
  • 5.
    5 rança da imortalidade,e lhes revelou e testificou essa adoção, tanto por visões como em Sua Lei e em Seus Profetas.1 Segundo, a aliança pela qual eles foram ligados a Deus não se fundou nos méritos deles, mas unicamente na misericórdia de Deus. Terceiro, eles tinham e reconheciam Cristo como o seu Mediador, pelo qual estavam unidos a Deus e foram feitos participantes das Suas promessas. O segundo ponto nos deve ser notório, visto que provamos claramente, com muitos testemunhos dos profetas, segundo os quais todo o bem que o Senhor fez ou prometeu a Seu povo proveio de Sua pura bondade e clemência. O terceiro também já demonstramos aqui e ali com facilidade; mesmo no primeiro tocamos um pouco, de passagem. Mas, como este foi tratado mais ligeiramente que os outros, e é o que tem sofrido mais debates e controvérsias, devemos explicá-lo mais diligentemente. Mas precisamos deter-nos aí de tal maneira que, se faltar alguma coisa à correta exposição dos outros pontos, os resolvamos sucintamente. Decisiva palavra apostólica Certamente o apóstolo nos tira toda a dúvida quanto aos três artigos, quando declara que “o Senhor há muito tempo prometeu o Evangelho de Jesus Cristo, por meio dos seus profetas em suas Sagradas Escrituras, o qual agora ele deu a conhecer no tempo por ele determinado”.2 E também: que agora “se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas”.3 Certo é que o Evan- gelho não mantém o coração dos homens com uma alegria da vida presente, mas o eleva à esperança da imortalidade; e não os liga aos prazeres terrenos, mas, demonstrando a esperança que lhes está preparada no céu, transporta-os às alturas. Porquanto a isso nos leva a definição que ele insere noutro lugar. “Em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade”, diz ele, “o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança”, etc. E mais: “Ouvimos da vossa fé em Cristo Jesus e do amor que tendes para com todos os santos; por causa da esperança que vos está preservada nos céus, da qual antes ouvistes pela palavra da verdade do evangelho”.4 E ainda: O Senhor “vos cha- mou mediante o nosso evangelho, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo”.5 1 “Somente os crentes genuínos conhecem a diferença entre este estado transitório e a bem-aventurada eternidade, para a qual foram criados; eles sabem qual deve ser a meta de sua vida. Ninguém, pois, pode regular sua vida com uma mente equilibrada, senão aquele que, conhecendo o fim dela, isto é, a morte propriamente dita, é levado a considerar o grande propósito da existência humana neste mundo, para que aspire o prêmio da voca- ção celestial.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Parakletos, 2002, Vol. 3, (Sl 90.12), p. 440]. 2 Rm 1.1,2 [tradução direta]. 3 Rm 3.21. 4 Ef 1.13,14; Cl 1.4,5. 5 2Ts 2.14.
  • 6.
    6 As Institutas– Edição Especial Daí também procede que o Evangelho é chamado doutrina da salvação, poder de Deus, para salvar todos os que crêema , e reino dos céus.6 Ora, se a doutrina do Evangelho é espiritual e nos dá acesso à vida incorruptível, não pen- semos que aqueles aos quais o Evangelho foi prometido e pregado se divertem como animais, deixando-se dominar por suas volúpias carnais, sem se preocupa- rem com suas almasb . E não é preciso que ninguém teça cavilações neste ponto, supondo que as promessas que Deus na antigüidade fez do Evangelho, por meio dos Seus profetas, foram destinadas ao povo do Novo Testamento. Porque o após- tolo, pouco depois de haver inserido a declaração de que o Evangelho foi prome- tido na Lei, acrescenta igualmente que “tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz”.7 Reconheço que o seu propósito era outro. Mas ele não era tão esquecido que, ao dizer que tudo o que a Lei ensina pertence aos judeus, não pensasse no que tinha dito antes, quanto ao Evangelho prometido na Lei. O apóstolo demons- tra claramente, pois, nessa passagemc , que o Antigo Testamento tinha em vista principalmente a vida futurad , uma vez que ele afirma que as promessas do Evan- gelho estão nele incluídas. Por igual razão segue-se que ele se baseia na miseri- córdia gratuita de Deus e tem sua firmeza em Cristo. Porque a pregação do Evan- gelho não proclamae outra coisa senão que os pobres pecadores são justificados pela clemência paternal de Deus, sem terem eles mérito algum. E a soma total disso tudo está contida em Jesus Cristo.8 Portanto, quem se atreverá a privar os judeus de Cristo? Sendo que ouvimos que a aliança do Evangelho foi feita a eles, aliança cujo único fundamento é Cristo. Quem ousará pô-los foraf da esperança da salvação gratuita? Visto que ouvimos que a doutrina da fé lhes foi ministrada, a qual nos traz justiça gratuita.g Sublime palavra do Senhor Jesus E para não fazer longo debate sobre uma coisa tão clara, temos para isso uma sentença notável do Senhor Jesus. Diz Ele: “Abraão... alegrou-se por ver o meu dia, viu-o e regozijou-se”.9 O que aí se diz de Abraão o apóstolo mostra que era a. fideles. b. Era um dos motivos de queixa contra os anabatistas. c. Acréscimo a 1539. d. Calvino sublinha aqui o caráter escatológico da mensagem dos homens do Antigo Testamento. Com efeito, as promessas dos profetas se centralizam menos nas bênçãos temporais que no “dia do Senhor” e na vida do Messias. e. pronunciat. f. alienos reddere. g. 1539 tem somente: justitiæ fidei doctrinam. 6 “Felizes, porém, são aqueles que abraçaram o evangelho e firmemente permanecem nele! Porque ele – o evangelho –, fora de qualquer dúvida, é a verdade e a vida.” [João Calvino, Efésios, São Paulo, Paracletos, 1998, (Ef 1.13), p. 35-36]. 7 Rm 3.19. 8 “Cristo é o fim da lei e a suma do Evangelho” [João Calvino, Efésios, São Paulo, Paracletos, 1998, (Ef 2.20), p. 78]. 9 Jo 8.56.
  • 7.
    7 universal quanto atodo o povo crente, quando declara que “Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre”.10 Porque ele não fala somente da divinda- de eterna de Cristo, mas também do conhecimento do Seu poder, que é sempre dispensado aos que nele crêem. Essa é a razão pela qual Maria e Zacarias, em seus cânticos, à salvação revelada em Cristo chamam cumprimento das promes- sas que Deus fez a Abraão e aos patriarcas.11 Se Deus, ao manifestar Seu Filho, cumpriu a Sua antiga promessa, não se pode dizer que a finalidade do Antigo Testamento não estava em Cristo e na vida eterna. Ademais, o apóstolo não so- mente assemelha e iguala Israel a nós na graça da aliança, mas também na signi- ficação dos sacramentos. Pois, querendo atemorizar os coríntios pelo exemplo dos israelitas, para que não caíssem nos mesmos pecados que Deus tinha punido neles, faz uso deste prefácio: “Não temos nenhuma prerrogativa ou dignidade que nos possa livrar da vingança de Deus que sobreveio a eles”.12 Vê-se que assim é, pois não somente o Senhor lhes fez os mesmos benefícios que nos faz, mas também ilustrou Sua graça entre eles com os mesmos sinais e sacramentosa , como se Paulo dissesse: Parece-lhes que vocês estão fora de perigo, por causa do Batismo, com o qual vocês foram assinalados, e da Ceia do Senhorb , cujas pro- messas são singulares; entretanto, desprezando a bondade de Deus, vocês vivem dissolutamente. Mas, continua o apóstolo, vocês devem entender que os judeus não estavam desprovidos dos mesmos sacramentosc ; nem por isso o Senhor dei- xou de exercer contra eles o rigor do Seu juízo. Eles foram batizados na passa- gem do Mar Vermelhod e pela nuvem que os defendia do ardor do sol. Os que repudiam essa doutrina dizem que esse foi um batismo carnal, correspondendo ao nosso espiritual por alguma semelhança. Mas, se isso lhes for concedido, o argumento do apóstolo não procederá, sendo que ele quis cor- tar dos cristãos esta vã confiança de pensar que eram mais excelentes que os judeus, por causa do Batismo. E ainda mais, quanto ao que se segue de imedia- to, não há lugar para sofismas, pois, eles “comeram do mesmo manjar espiritu- al e beberam da mesma bebida que a nós foram dados13 , ficando explícito que a referência é a Jesus Cristo. Cristo contra Paulo? Mas, para derribar a autoridade do apóstolo Paulo, eles ainda objetam citando estas palavras de Cristo: “Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram... a. Uma só palavra em 1539: symbolis. b. 1539 acrescenta: quam quotidie suscipitis. c. symbolis. “Ele declara que os sacramentos antigos da Lei tinham um poder semelhante ao que os nossos têm hoje em dia”, dirá Calvino em seu Comentário sobre esta passagem, publicado em latim em Estrasburgo, em 1546, e em francês em Genebra, em 1547. d. transitum illum. 10 Hb 13.8. 11 Lc 1.46-55 e 67-79. 12 1Co 10 [tradução direta]. 13 1Co 10.3,4 [tradução direta].
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    8 As Institutas– Edição Especial Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna”.14 Mas ambos se harmonizam facilmente. O Senhor Jesus, porque dirige a Sua palavra a ouvintes que só procuravam saciar seus estômagos, não se importando nenhum pouco com a verdadeira nutrição da alma, acomoda de algum modo Suas pala- vras à capacidade deles,15 e, principalmente, faz essa comparação do maná com o Seu corpo, segundo o entendimento deles. Eles exigiam que, para ter autoridade, Ele comprovasse o Seu poder com algum milagre, como o que Moisés tinha feito no deserto, quando fez chover maná do céu. Ora, com o maná eles não captaram nada mais que um remédio para suprir a indigência físicaa , pela qual o povo estava premido no deserto. Não se elevaram a. carnalis inediæ. 14 Jo 6.49,54. 15 Calvino entendia que Deus, na Sua Palavra, “se acomodava à nossa capacidade” [J. Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 2.7), p. 82. Ver: João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 1.19), p. 64], balbuciando a Sua Palavra a nós como as amas fazem com as crianças. Calvino usou deste recurso hemenêutico para explicar assuntos aparentemente contraditórios na Bíblia. Falando sobre os antropomorfismos bíblicos, diz em lugares diferentes: “Pois quem, mesmo que de bem parco entendimento, não percebe que Deus assim conosco fala como que a balbuciar, como as amas costumam fazer com as crianças? Por isso, formas de expressão que tais não exprimem, de maneira clara e precisa, tanto quê Deus seja, quanto Lhe acomodam o conhecimento à paucidade da compreensão nossa. Para que assim se dê, necessário Lhe é descer muito abaixo de Sua excelsitude.” (J. Calvino, As Institutas, I.13.1). “A descrição que dEle se nos outorga tem de acomodar-se-nos à capacidade, para que seja de nós entendida. Esta é, na verdade, a forma de acomodar-se: que tal se nos represente, não qual é em Si, porém, qual é possível de ser de nós apreendido.” (J. Calvino, As Institutas, I.17.13). Ver também: João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 13.3), p. 265; Vol. 2, (Sl 50.14), p. 409; John Calvin, Commentary on the Book of Psalms, Grand Rapids, Michigan, Baker Book House (Calvin’s Commentaries, Vol. V), 1996 (Reprinted), (Sl 78.65), p. 274; As Institutas, 1.14.3,11; I.16.9; IV.17.11. Disto, ele tirou um princípio pedagógico: “Um sábio mestre tem a responsabilidade de acomodar-se ao poder de compreensão daqueles a quem ele administra o ensino, de modo a iniciar-se com os princípios rudimentares quando instrui os débeis e ignorantes, não lhes dando algo que porventura seja mais forte do que podem suportar” [J. Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 3.1), p. 98-99]. Deiz que “... Deus, acomoda-se ao nosso modo ordinário de falar por causa de nossa ignorância, às vezes também, se me é permitida a expressão, gagueja.”[ John Calvin, Commentary on the Gospel According to John, Grand Rapids, Michigan, Baker Book House (Calvin’s Commentaries, Vol. XVIII), 1996 (Reprinted), (Jo 21.25), p. 299] Resumindo: “Em Cristo, Deus, por assim dizer, tornou-se pequeno, para acomodar-se à nossa compreensão”. [John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan, Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), Vol. XXII, (1Pe 1.21), p. 54]. Portanto, quando lemos as Escrituras, “somos arrebatados mais pela dignidade do conteúdo que pela graça da linguagem.” [João Calvino, As Institutas, I.8.1. Calvino continua: “Ora, e não sem a exímia providência de Deus isto se faz, que sublimes mistérios do reino celeste fossem, em larga medida transmitidos em termos de linguagem apoucada e sem realce, para que houvessem eles de ser adereçados em mais esplendorosa eloqüência, os ímpios não alegassem cavilosamente que a só força desta aqui impera. “Agora, quando essa não burilada e quase rústica simplicidade provoca maior reverência de si que qual- quer eloqüência de retóricos oradores, que é de julgar-se, senão que a pujança da verdade da Sagrada Escritura tão sobranceira se estadeia, que não necessite do artifício das palavras?” (J. Calvino, As Institutas, I.8.1). No entanto, ele também entendia que “alguns Profetas têm um modo de dizer elegante e polido, até mesmo esplendoroso, assim que a eloqüência lhes não cede aos escritores profanos.” (J. Calvino,As Institutas, I.8.2)]. Esses pontos tornam o homem inescusável e realçam a relevância das Escrituras para a vida cristã. Ele diz: “Ora, primeiro, com Sua Palavra nos ensina e instrui o Senhor; então, com os sacramentos no- la confirma; finalmente, com a luz de Seu Santo Espírito a mente nos ilumina e abre acesso em nosso coração à Palavra e aos sacramentos, que, de outra sorte, apenas feririam os ouvidos e aos olhos se apresen- tariam, mas, longe estariam de afetar-nos o íntimo.” [João Calvino, As Institutas, IV.14.8. Vd. também João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 10.16), p. 373-374].
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    9 o bastante paraconsiderar o mistério de que Paulo fala. Por isso Cristo, para demonstrar que eles deveriam esperar dele um maior e mais excelente benefício que aquele que eles achavam que os seus pais tinham recebido de Moisés, faz esta comparação: Se foi um milagre tão digno, na opinião de vocês, o fato de que o Senhor enviou a Seu povo um manjara celeste pela mão de Moisés para que não perecesse de fome, mas fosse sustentado por algum tempo, desse mesmo fato vocês ficam sabendo quão mais precioso é o manjar que nos supre da imortalida- de. Vemos por que foi que o Senhor deixou para trás o que no maná é o elemento principal, só fazendo uso da sua utilidade menor. Foi porque os judeus, como se quisessem censurá-lo, lhe tinham apresentado Moisés como sua objeção, pois Moisés tinha socorrido o povo de Israel em sua necessidade, alimentando-o mila- grosamente com o maná. Respondo que Cristo é despenseiro de uma graça bem mais preciosa, em comparação com a qual, o que Moisés fez ao povo de Israel não é quase nada, embora eles lhe dedicassem tão alta estima. Paulo, considerando que o Senhor, quando fez chover o maná do céu, não quis apenas enviar manjar físico ou mate- rial a Seu povo, mas também lhe quis dar um mistério espiritual, para representar a vida eterna que Seu povo devia esperar de Cristob , trata deste argumento com a boa explicação que ele merece. Portanto, podemos concluir sem vacilar que as mesmas promessas da vida eterna que hoje nos são apresentadas, não somente foram comunicadas aos judeus, mas também foram seladas e confirmadas por intermédio de sacramentos verdadeiramente espirituais. A revelação da aliança espiritual no Antigo Testamento Se os leitores quiserem contemplar melhor na Lei e nos Profetas esta revelação da aliança espiritual de Deus que, pela boca de Jesus Cristo e dos Seus apóstolos, nós mostramos que faz parte do seu conteúdo, alegra-me satisfazê-los aqui; e com tanto maior desejo o farei, esperando que assim os adversários sejam mais plenamente convencidos, a fim de que não tenham como tergiversar, ou seja, que não possam inventar desculpas ou pretextos. Começaremos com uma demonstração que, embora sem dúvida pareça fútil e quase ridícula aos anabatistas (lembrando que eles costumam desprezar altiva- mente todas as razõesc ), terá entretanto grande importância para todas as pessoas dóceis e de são juízo. Consideremos o seguinte: Visto que Deus se comunicou a. cibum. b. Calvino, ao falar das “figuras” do Antigo Testamento, situa-se evidentemente, como o apóstolo Paulo, no ponto de vista da significação que as figuras podem ter para nós, cristãos. Porque antes de Jesus Cristo essas figuras não eram nada explícitas, e bem se pode perguntar se os hebreus foram capazes de captar o sentido espiritual da passagem pelo Mar Vermelho, ou o do maná. c. Frase acrescentada em 1541.
  • 10.
    10 As Institutas– Edição Especial por Sua Palavra de Vidaa a todos os que Ele recebeu por Sua graça, disso deve- mos inferir que os fez participantes da vida eterna. Eu digo que na Palavra de Deus há uma tal eficácia de vida que a sua comunicação é uma segura e certa vivificação da alma. Entendo por comunicação não a geral e comum, que se pro- paga por céus e terra e sobre todas as criaturas do mundo. Porque, conquanto esta vivifique todas as coisas conforme a sua respectiva natureza diversa, todavia não livra nada nem ninguém da corrupção. Mas a comunicação a que me refiro é especial,16 e por esta a alma dos crentes é iluminada no conhecimento de Deus e de algum modo é ligada a Ele. Sendo, pois, que Abraão, Isaque, Noé, Abel, Adão e os outros pais foram unidos a Deus por tal iluminação da Sua Palavra, afirmo sem nenhuma dúvida que ela foi para eles uma entrada no reino eterno de Deus. Porque ela constitui uma verdadeira participação de Deus, a qual não pode existir sem a graça da vida eterna. Se o que acima foi dito parece muito obscuro por isto ou por aquilo, passe- mos a examinar o próprio formulário da aliança. Este não somente vai satisfazer a todos os espíritos pacíficos, mas também servirá para redargüir ou contestar suficientemente a ignorância dos que se esforçam para fazer oposição. O Senhor sempre fez este pacto com os Seus servos: “Serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo”.17 Sob essas palavras os profetas apregoavam a vida e a salvação, e elas contêm a súmula de toda a bem-aventurança. Porque não é sem motivo que Davi várias vezes declara que “é feliz a nação cujo Deus é o Senhor, e o povo que ele escolheu para sua herança”.18 Não se trata aqui de uma felicida- de terrena, mas sim do fato de que, como Deus opera resgate ou libertação da morte, Ele preserva e mantêm por Sua misericórdia todos quantos recebeu na companhia do Seu povo. Como também é dito pelos outros profetas: “Tu és o nosso Deus; não morreremos”.19 E também: “O Senhor é o nosso juiz, o Senhor é o nosso legislador, o Senhor é o nosso Rei; ele nos salvará”.20 E mais: “És muito feliz, Israel, pois em Deus tens salvação”.21 Consideração fundamental Mas, para não nos ocuparmos muito de coisas supérfluas, a admoestação que por todo lado a Escritura nos faz e que comentaremos a seguir deve deixar-nos satis- a. Para apreendermos o alcance dessa frase e da subseqüente, devemos lembrar-nos de que a expressão “pala- vra da vida” designa aqui não uma simples declaração de Deus, mas o próprio Verbo, portanto Jesus Cristo preexistente, como nos é ensinado no prólogo do Evangelho Segundo João. O raciocínio de Calvino é o seguinte: Os homens da antiga aliança receberam a Palavra de Deus; ora, esta Palavra é Jesus Cristo; portan- to, eles receberam Jesus Cristo e todos os benefícios que Ele comunica, entre os quais a vida eterna. 16 “De nenhum efeito é a Palavra sem a iluminação do Espírito Santo.” (João Calvino, As Institutas, III.2.33). 17 [Cf. Êx 6.7; Lv 26.12; etc.] 18 “Sl 33.12 e 144.15. [Ver também Sl 89.15.] 19 Hc 1.12 [tradução direta]. 20 Is 33.22. 21 Dt 33.29 [tradução direta].
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    11 feitos. É quenada nos impede de possuirmos abundância de todo bem e a certeza da salvação, desde que tenhamos o Senhor como o nosso Deus.22 E isso com toda a razão. Porque, se basta que o Seu rosto brilhe para que haja uma firme e certa segurança da salvação, como se poderia levar alguém a conhecer o seu Deus, que Este não lhe abrisse na mesma hora os tesouros da salvação? Porquanto Ele é nosso Deus em tal condição que “ele habita no meio de nós”, como Ele próprio testificou por meio de Moisés.23 Ora, não é possível obter tal presença sem pos- suir igualmente a vida. ****** E mesmo que já lhes tivesse sido dito mais que o necessário, eles tinham claras promessas da vida espiritual nestas palavras: “Eu sou o vosso Deus”. Por- que Ele não anunciou que seria Deus dos seus corpos, mas principalmente das suas almas. Pois bem, se as almas não estiverem unidas a Deus pela justiça, sendo estranhas a Ele e para Ele, permanecerão na morte. Por outro lado, se tiverem essa reconciliação e união com Deus, isso lhes trará a vida perpétuaa . E ainda mais: Ele não somente dizia ser o seu Deus, mas prometia que sempre o seria, a fim de que a sua esperança, não contenteb com as coisas presen- tes, tivesse duração perpétua, ou se estendesse à perpetuidade. Agora, que essa locução adverbial de tempo referente ao futuro tem esse sentido transparece das numerosas declarações dos crentes, onde eles se consolam, assegurando-se de que Deus jamais falharác . Além disso, havia outro elemento na aliança, um se- gundo membro, que os confirmava ainda mais amplamente no fato de que a bên- ção de Deus lhes estava preparada fora e além dos limites da vida terrena. Pois Ele havia dito: “Estabelecerei a minha aliança... para ser o teu Deus e da tua descendência”.24 Porque, se o Senhor quis manifestar a Sua bondade para com eles fazendo o bem aos seus sucessores, com mais forte razão era necessário que a Sua bondade fosse manifestada para com eles mesmos. Porquanto Deus não é como os homens, os quais transferem o amor que tinham pelos que faleceram para os seus filhosd por não terem condições de lhes fazer o bem após a morte. Mas Deus, cuja benignidade não é impedida pela morte, não negou o fruto da Sua misericórdia a eles,e por amor dos quais Ele a mostrouf a mil gerações dos seus a. perpetuam salutem. b. non contenta. c. defuturus. d. 1539 tinha – por erro, sem dúvida – ad amicorum filios. e. mortuis. f. transfundit. 22 “Certamente que, embora, com respeito a nós mesmos, nossa salvação esteja ainda oculta na esperança, todavia em Cristo já possuímos a bem-aventurada imortalidade e glória.” [João Calvino, Efésios, São Paulo, Paracletos, 1998, (Ef 2.6), p. 36]. 23 Lv 26.11,12 [tradução direta]. 24 Gn 17.7.
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    12 As Institutas– Edição Especial descendentes. Por isso Ele quis mostrar, dessa forma, a infinita abundância da Sua bondade, a qual os Seus servos haveriam de gozar mesmo depois do seu passamento. E o Senhor selou a veracidade dessa promessa, como também reve- lou o seu cumprimento, dando a Si mesmo o nome de “Deus deAbraão, de Isaque e de Jacó”25 muito tempo depois da morte deles. Ora, esse nome de Deus não seria ridículo se eles tivessem perecido? Porque seria como se Ele dissesse: “Eu sou o Deus dos que não existem”. Entretanto, os evangelistas registram que os saduceus foram convencidos por Cristo, bastando esse argumento, de modo que eles não puderam negar que Moisés tinha testificado a ressurreição dos mortos naquela passagem. E de fato eles haviam aprendido também de Moisés26 que todos os santos estão nas mãos de Deus; disso é fácil concluir que eles não são dados como mortos, pois Aquele que tem em Seu poder a vida e a morte os rece- beu sob a Sua tutela e proteção. O principal ponto desta controvérsia Consideremos agora o principala ponto desta controvérsia, qual seja, a questão sobre se os crentes do Antigo Testamento foram ou não instruídos por Deus no sentido de que reconhecessem que teriam uma vida diferente e melhor que a da terra, para pensarem nela, desprezando esta vida corruptível. Primeiro, a maneira de viver que lhes foi concedida nada mais é que um constante exercício pelo qual Deus os admoestava, advertindo-os de que seriam os seres mais miseráveis do mundo, se tivessem a sua felicidade na terra. Adão, Abel e Noé Adão, que certamente se sentia tanto mais infeliz pela simples recordação da felicidade perdida, teve grande dificuldade em sustentar-se pobrementeb , traba- lhando quanto pôde. E, para que o mal que o deveria perseguir não se restringisse a isso, foi atingido por uma espantosa afliçãoc , da qual por certo não teve nenhu- ma consolação. De dois filhos que teve, um foi morto pela mão cruel do outrod . Caime sobreviveu ao irmão, sendo que todos têm todos os justos motivos para repudiá-lo e abominá-lo. Abel, tendo sido morto daquela maneira, e na flor da idade, para nós é um exemplo da catastrófica maldade humana. Noéf consumiu grande parte da sua vida na construção da arca, debaixo de muita luta e amolaçãog , a. præcipuus cardo. As idéias deste parágrafo são repetidas e desenvolvidas no capítulo XVII, acrescentado em 1539. b. egestatem. c. luctum. d. fratris patricidio. e. eum. f. 1541, por erro, tem: Noël; 1539: Noe. g. 1539 tem somente: fatigatione. 25 Êx 3.15; Mt 22.32. 26 Dt 33.
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    13 enquanto todo omundo se alegrava em delícias e prazeresa . Aquilo que serviu para que ele evitasse a morte tornou-se para ele maior causa de aflição do que se tivesse que morrer cem vezes, Porque, além do fato de que a arca lhe foi como um túmulo durante dez meses, haverá coisa mais molestab que ficar no meio dos excrementos e da sujeira dos animais, e num recinto não arejadoc ? E, depois de livrar-se de tanta dificuldade, tornou a cair noutra causa de tristeza. Viu-se objeto da zombaria do seu próprio filho, e se sentiu constrangido a amal- diçoar com sua própria boca aquele que Deus lhe tinha preservado do Dilúvio como grande bênção. Abraão, Isaque e Jacó Abraão, quando foi originariamente chamado por Deus, foi tirado do seu país, deixando atrás os seus pais e amigos27 , e foi privado das coisas mais desejáveis deste mundo. Como se Deus, de propósito e deliberadamente, o quisesse despo- jar de toda alegria terrena. Assim que ele entrou na terra onde tinha recebido ordem para habitar, foi premido pela fome. Saiu de lá e foi buscar socorro num país onde, para salvar sua vida, foi forçado a abandonar sua mulher – o que lhe causou mais tristeza que se sofresse muitas mortes. Voltou para o lugar onde devia morar? De novo foi de lá expulso pela fome. Que felicidade haveria em morar numa terra onde mais de uma vez esteve na miséria e por pouco não mor- reu de fome? E de novo teve que abandonar sua mulher no país de Abimeleque. Após haver vagadod por todo lado e durante vários anos sem nenhuma cer- teza e segurança, foi constrangido a pôr fora de casa seu sobrinho, a quem tinha como filho, por causa de discussões e brigas dos servos de ambos. Não há dúvida de que essa separação foi para ele como se lhe arrancassem um braço ou uma perna. Pouco tempo depoise , ele soube que os inimigos o tinham feito prisioneiro. Tendo chegado a extrema velhice, viu-se sem filhos, que era a coisa mais duraf que podia suceder naquela época. Por fim, gerou Ismael, fora da linhagem da sua esperança; mas ainda o nascimento desse filho custou-lhe bem caro28 . Isso por- que sua mulher Sara foi humilhada como se, pelo fomentog dado ao orgulho da sua serva, aí estivesse a causa do problema que havia naquela casa. Já em seus últimos tempos de vida, foi-lhe dado o filho Isaque, mas com a triste compensa- ção de que o seu filho [Ismael] fosse deixado em plena matah , como se fosse um a. secure delitiatur. b. insuavius nihil. c. Frase acrescentada em 1541. d. vagatur; 1541, por erro, tem: vaugué. e. sectionem passus. f. insuavissimum et acerbissimum. g. fovendo. h. Imagem acrescentada em 1541 (1539: pro derelicto pæne hostiliter). 27 Gn 12. 28 Gn 16.
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    14 As Institutas– Edição Especial pobre cão. Depois que só ficou Isaque, o qual deve ter sido todo o consolo da sua velhice, recebeu ordem para matá-lo.29 É possível imaginar coisa mais infeliz que dizer a um pai que seja o carrasco do seu próprio filho? Se fosse morto por doen- ça, quem já não consideraria infeliz esse pobre velho, por tê-lo recebido por tão pouco tempo, como que por zombaria, para que tivesse sofrimento em dobro e se visse destituído de linhagem própria? Se fosse morto por um estranho, a calami- dade seria então bem maior. Mas sobrepuja toda desgraça dizer que morra pela mão do seu pai! Em resumo, toda a vida de Abraão foi de tal modo atormentada e afligida que, se alguém quisesse representar numa pintura um exemplo de vida miserável, não encontraria nada que fosse mais apropriado. Se alguém objetar dizendo que ao menos ele não foi totalmente infeliz porque escapou de tantos perigos e supe- rou tantas tempestades, respondo que não diremos que é feliz a vida que chega a uma avançada velhice tendo passado por infindas dificuldades, mas sim a vida na qual o homem é sustentado e mantido em situação tranqüila e afortunadaa . Passemos ao caso de Isaque, que não sofreu tantas calamidades, mas que, todavia, com grande sofrimento e muito labor, pouco ou nenhum prazer ou ale- gria teve em sua existência. E, por outro lado, experimentou dificuldades que de forma alguma tornam feliz o homem na terra. A fome o perseguiu na terra de Canaã, como tinha acontecido com seu pai. Sua mulher foi tirada do seu convício. Por onde quer que andasse, os moradores vizinhos o molestavam e o atormenta- vam de muitas maneiras; tanto que ele se via obrigado a lutar30 por águab . As mulheres de Esaú causaram muito desgosto à sua família. Ele sofreu extraordiná- ria aflição, causada pela discórdia dos seus filhos, e o grande mal só foi remedi- ado com o banimento daquele que tinha recebido a sua bênção. Quanto a Jacó, veio a ser um modelo e figurac da maior infelicidade que se poderia descrever. Enquanto viveu na casa dos pais, em sua infância, vivia ator- mentado pela inquietação causada pelas ameaças do seu irmão, e acabou tendo que fugir para longe dos seus pais e do seu país. Além da angústia que lhe trouxe o banimento, foi tratado rudemente por seu tio Labão. Não bastou que trabalhas- se sete anos debaixo de dura e desumana servidão; no fim desse período lhe foi dada outra mulher, não a que ele queria. E, para tê-la, teve que renovar a sua servidão, na qual sofria o ardor do sol de dia, e a umidaded e o frio de noite; suportava chuva, vento e tempestade31 , sem dormir e sem descansar, como ele mesmo se queixoue . Depois de vinte anos, ainda na pobreza, teve que suportar a. sine malorum sensu præsentibus bonis fruatur. b. A propósito de poços cavados por seus servos. c. insigne exemplar. d. pervigil urgeatur. e. Acréscimo feito em 1541. 29 Gn 22. 30 Gn 26. 31 Gn 31.
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    15 diariamente os abusosdo seu sogro. Em sua casa, era consumido pelo ódio, pelas brigas e pelo ciúme das suas mulheres. Quando Deus lhe ordenou que voltasse para a sua terra, precisou usar astúcia e partir como se estivesse empreendendo uma humilhante fuga. E mesmo assim não pôde evitar a maldade do sogro, que o perseguiu e o deteve na jornada. E, embora Deus não permitisse que lhe sucedes- se o pior, viu-se oprimido por muitas afrontas vergonhosas e por muitos ultrajes, coisas que lhe deram forte motivo para lamentar-se. Logo depois, Jacó passou por uma tristeza maior, porque, ao aproximar-se do seu irmão, viu tremendamente a morte diante dos seus olhos, como a que se pode esperar de um inimigo cruel. Seu coração foi terrivelmente atormentado e dilacerado pela angústia, enquanto aguardava a chegada de Esaú. Quando o viu, lançou-se aos seus pés como se estivesse para morrer, até ver que ele o recebia com inesperada brandura. Mal Jacó entrou em seu país, perdeu sua esposa Raquel, que morreu durante um parto – perdeu a mulher que ele amava singularmente.32 Tempos depois, conta- ram-lhe que o rapaz que lhe tinha sido dado por Raquel havia sido devorado por um animal feroz. A notícia dessa morte encheu o seu coração de tanto amargor e aflição que, mesmo depois de muito pranto, ele não quis ser consolado; queria morrer de tanta angústia, e a sua única vontade era seguir seu filho na sepultura. Além dessa tristeza, desse fato horrível e dessa angústia, como achamos que ele ficou, quando soube que sua filha [Diná] tinha sido violentadaa ? E mais ainda, quando viu que os seus filhos saquearam uma cidade para vingar a irmã? Com isso eles não somente o fizeram odioso aos habitantes de toda aquela região, mas também puseram em perigo a sua vida. A seguir houve o horrível pecado de Rúben [Gn 35.22] que, sem dúvida, causou-lhe assombrosa angústia. Pois, se uma das maiores desgraças que um homem pode sofrer é que sua mulher seja violentada, que diremos nós quando essa maldade é cometida por seu próprio filho? Pouco tempo depois, sua família foi maculada por outro incesto [Gn 38], o que nos leva a pensar que tantos atos desonrosos poderiam romper o coração mais firme e mais paciente do mundo. Já em sua extrema velhice, Jacó mandou seus filhos a um país estranho em busca de trigo.33 Um deles foi feito prisioneiro, e o pai julgou que corria perigo de morte. Para resgatá-lo, foi forçado a enviar Benjamim, que era toda a sua alegria. Quem pensaria que numa tal multidão de desgraças esse homem pôde ter um minuto para respirar com satisfação ou alívio? Foi o que ele declarou ao faraó, quando lhe disse que os dias da sua vida foram “poucos e maus”.34 Ao declarar que tinha sofrido desgraças contínuas, não admitiu que tivesse recebido a prospe- ridade prometida por Deus. E então, ou Jacó foi ingrato e mau para com Deus, ou a. deflorata. 32 Gn 35. 33 Gn 42. 34 Gn 47.9.
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    16 As Institutas– Edição Especial declarou a verdade quando disse que tinha tido vida miserável. Se ele disse a verdade, conclui-se que a sua esperança não tinha sido posta em coisas terrenas. Se todos esses santos pais esperaram uma vida muito feliz (o que é indubitável), certamente conheceram e aguardaram outra bem-aventurança, qual seja, a da vida não terrena. O que o apóstolo demonstra muito bem. “Abraão”, diz ele35 , “peregrinou na terra da promessa como em terra alheia, habitando em ten- das com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa; porque aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador... Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra”. Com isso queriam dizer que buscavam outro país. Ora, se o anseio deles fosse pelo país natural que tinham abandonado, poderiam muito bem voltar para lá. Mas eles esperavam uma pátria melhor, a saber, o céu. Por isso Deus não se envergonha de se chamar seu Deus, pelo que lhes preparou uma habitação. E de fato eles teriam sido mais cabeças-duras que pau ou pedra se persistissem em seguir as promessas, das quais não tinham nem sequer uma amostra na terra, a não ser que esperassem outro tipo de cumprimento. Também não é sem motivo que o apóstolo insiste principalmente no fato de que eles são chamados estrangeiros e peregrinos neste mundo. Como o próprio Moisés diz [quando fala das “peregrinações” de Jacó]36 Pois bem, se eles foram estrangeiros na terra de Canaã, onde está a promessa de Deus, pela qual eles foram constituídos herdeiros? Isso demonstra que o que Deus lhes tinha prometi- do dizia respeito a algo que estava além da terra. Por isso não receberam em Canaã nenhuma herança, “nem sequer o espaço de um pé”,37 e só adquiriram terreno para as suas sepulturas. Com isso testificaram que só tinham esperança de gozar a promessa depois da morte. Essa é também a causa pela qual Jacó deu tanta importância a ser enterrado em Canaã que fez seu filho prometer com juramento que tomaria as providências para que o seu corpo fosse transportado para lá. Esse mesmo pensamento José seguiu, ordenando que as suas cinzas fossem levadas, o que aconteceu cerca de quatrocentos anos após a sua morte. Em suma, vê-se claramente que, em todas as suas obras, eles sempre tinham em vista a bem-aventurança da vida futura. Por- quanto, com que propósito Jacó desejou a primogenitura, que não lhe trouxe nenhum bem e causou a sua saída da casa do seu pai, trazendo-lhe, não obstante, uma bênção mais alta? Ele até declarou esta aspiração quando estava prestes a exalar os últimos suspiros, exclamando: “A tua salvaçãoa espero, ó Senhor!”.38 a. salutare. 35 Hb 11.9-16. 36 Gn 47.9. 37 At 7.5. 38 Gn 49.18.
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    17 Pois, sabendo queia render o espírito, que salvação esperava, se não visse na morte o começo da uma nova vida? Balaão, testemunha a seu contragosto E por que discutir sobre os filhos de Deusa , se mesmo aquele que se esforçava para impugnar ou contestar a verdade teve o mesmo sentimento e a mesma per- cepção em seu entendimento? Porque, que terá desejado Balaão quando disse: “Que eu morra a morte dos justos, e o meu fim seja como o deles”,39 senão que ele sentia em seu coração o que Davi escreveu depois, a saber, “Preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos” e que a morte dos ímpios é infeliz40 ? Se a meta final dos homens estivesse na morte, não se poderia notar nela nenhuma diferença entre o justo e o injusto. É necessário, pois, distingui-los pelo que espe- ra um e outro na era vindoura. Moisés e outros profetas testificam a aliança espiritual Ainda não vamos deixar Moisés e ir adiante, o qual certos sonhadores, contra os quais já falamosb , acham que não tinha outro ofício que não o de induzir o povo a temer e honrar a Deus prometendo-lhe propriedades férteis e abundância de bens. Ainda que alguém queira apagar a luz que se apresenta, já temos ali uma revelação clara e patente da aliança espiritualc . E, se formos aos profetas, encontraremos neles plena claridade, que nos permite contemplar a vida eterna e o reino de Cristo. Davi e outros profetas Consideremos primeiro Davi que, visto ser anterior aos demais, fala dos mistérios celestiais mais obscuramente que aqueles. Contudo, com que perspicácia e segu- rança ele dirige toda a sua doutrina a esse alvo! Qual é a sua avaliação das mora- das terrenas ele demonstra com esta sentença: “Sou forasteiro à tua presença, peregrino como todos os meus pais o foram. Na verdade, todo homem, por mais firme que esteja, é pura vaidade. Com efeito, passa o homem como uma sombra... E eu, Senhor, que espero? Tu és a minha esperança”.41 Certamente, depois de confessar que neste mundo não existe coisa alguma que seja firme e permanente, ele todavia mantém firmeza de esperança em Deus, contemplando a sua felicida- de noutro lugar, não neste mundo. Por isso ele próprio costumava conclamar os a. de sanctis ac filiis Dei. b. Os anabatistas. c. Provavelmente não é por acaso que Calvino passa tão rapidamente pelo caso de Moisés, pois é certo que as promessas de “terras férteis e abundância de bens” têm um papel a desempenhar na pregação de Moisés, sem se omitir o que consta no quinto mandamento. 39 Nm 23.10. 40 Sl 116.15 e 34.21. 41 Sl 39.5-7,12.
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    18 As Institutas– Edição Especial crentes a essa contemplação, todas as vezes que os queria consolar. Porque, nou- tra passagem depois de demonstrar quão breve e frágil é esta vida, acrescenta: “Mas a misericórdia do Senhor é de eternidade a eternidade sobre os que o te- mem”.42 O que se assemelha ao que ele diz nesta outra passagem:43 “Em tempos remotos, lançaste os fundamentos da terra; e os céus são obra das tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permaneces; todos eles envelhecerão como um vestido, como roupa os mudarás, e serão mudados. Tu, porém, és sempre o mesmo, e os teus anos jamais terão fim. Os filhos dos teus servos habitarão seguros, e diante de ti se estabelecerá a sua descendência”. Se com a eliminação do céu e da terra os crentes não deixarão de ser estabelecidos diante de Deus, segue-se que a salvação deles está ligada à Sua eternidade. A promessa feita por meio de Isaías E, de fato, esta esperança não poderia subsistir, se não estivesse fundada na pro- messa exposta no Livro de Isaías, onde lemos: “Os céus desaparecerão como a fumaça, e a terra envelhecerá como um vestido, e os seus moradores morrerão como mosquitos, mas a minha salvação durará para sempre, e a minha justiça não será anulada”.44 Nessa passagem a perpetuidade é atribuída à salvação e à justiça. Não no sentido de que as coisas permanecem em Deus, mas que Ele as comunica aos homens. E, na realidade, não se pode tomar ao pé da letra as coisas que ele vez por outra diz sobre a felicidade dos crentes, a não ser colocando-as em termos da manifestação da glória celestial. Como quando ele diz: “Ele [o Senhor] guar- da a alma dos seus santos, livra-os das mãos dos ímpios. A luz difunde-se para o justo, e a alegria, para os retos de coração”.45 “A sua justiça permanece para sempre, e o seu poder se exaltará em glória. ...o desejo dos perversos perecerá” [Sl 112.9,10]. E também: “Os justos renderão graças ao teu nome; os retos habi- tarão na tua presença”. E mais: O justo “será tido em memória eterna”. E ainda: “O Senhor resgata a alma dos seus servos”.46 Os justos nas garras dos ímpios Ora, o Senhor não somente permite que os Seus servos sejam atormentados pelos ímpios, mas também muitas vezes deixa que eles sejam dissipados e destruídos pelos maus. Deixa que os retos desfaleçam nas trevas e no infortúnio, enquanto os ímpios brilham como as estrelas do firmamento. E não mostra o fulgor do Seu rosto aos Seus servos fiéis o bastante para deixá-los gozar alegria por muito tem- po. Por isso Davi mesmo não esconde o fato de que, se tivermos os olhos postos 42 Sl 103.17. 43 Sl 102.25-28. 44 Is 51.6. 45 Sl 97.10,11. 46 Sl 140.13; 112.6; 34.22.
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    19 no presente estadodeste mundo, sofreremos com isso forte tentação para deixar- nos vacilar; como se não recebêssemos nenhuma recompensa por nossa integri- dade. A esse ponto a impiedade prospera e floresce, ao passo que os justos são oprimidos pela ignomínia, pela pobreza, pelo desprezo e por outras espécies de calamidade. “Quase me resvalaram os pés”, diz o salmista; “pouco faltou para que se desviassem os meus passos. Pois eu invejava os arrogantes, ao ver a pros- peridade dos perversos.” Depois de fazer uma descrição disso, ele conclui: “Em só refletir para compreender isso, achei mui pesada tarefa para mim; até que entrei no santuário de Deus e atinei com o fim deles”.47 Lição deduzida Aprendamos, pois, dessa confissão de Davi, que os santos pais, sob o Antigo Testamento, não ignoravam quão pouco e quão poucas vezes Deus cumpriu, ou plenamente jamais cumpriu, neste mundo as coisas que Ele promete aos Seus servos. E que por essa causa elevavam o seu coração no santuário de Deus, onde encontravam o que lá estava reservado e que não lhes era manifesto nesta vida corruptível. Esse santuário era o juízo final que esperamos, o qual eles se conten- tavam em entender pela fé, embora não o captassem com os olhos. Munidos dessa confiança, fosse o que fosse que lhes adviesse neste mundo, eles não duvi- davam que chegaria o dia em que as promessas de Deus seriam cumpridas. Isso demonstram muito bem estas declarações:48 “Na justiça contemplarei a tua face; quando acordar, eu me satisfarei com a tua semelhança”. E também: “Sou como a oliveira verdejante, na Casa de Deus”. E ainda: “O justo florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro do Líbano. Plantados na Casa do Senhor, flores- cerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice darão ainda frutos, serão cheios de seiva e de verdor”. Onde estarão essa beleza e esse vigor, senão quando a aparên- cia deste mundo for substituída pela manifestação do reino de Deus? Por isso, tendo os olhos postos na eternidade e desprezando o amargor das calamidades presentes, que eles viam que são transitórias, gloriavam-se confiantemente nes- tas palavras: “Jamais permitirás, ó Senhor, que o justo pereça eternamente, mas afundarás o ímpio no abismo da destruição”.49 Onde está neste mundo o abismo de destruição que devora os ímpios, sobre cuja felicidade se diz noutra passagem que eles morrem sem longoa enfraquecimento e sem demorada agonia? [Sl 73.4]. Onde estão a firmeza e a fortaleza dos santos, sobre os quais o próprio Davi diz várias vezes (queixosamente) que eles não somente são abalados, mas são total- mente oprimidos e abatidos? É, pois, necessário que se ponha diante dos olhos não aquilo que traz a incerteza deste mundo, visto que este é como um mar agita- a. in puncto. 47 Sl 73.2,3,16,17. 48 Sl 17.15; 52.8; 92.12-14. 49 Sl 55.22,23 [tradução direta].
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    20 As Institutas– Edição Especial do por diversas tempestades, mas sim o que o Senhor vai fazer quando se assentar em juízo para estabelecer o estado permanente do céu e da terraa . Como ele descreve muito bem noutro lugar:50 “...dos que confiam nos seus bens e na sua muita riqueza se gloriam? Ao irmão, verdadeiramente, ninguém o pode remir, nem pagar por ele a Deus o seu resgate (Pois a redenção da alma deles é caríssima, e cessará a tentativa para sempre.), para que continue a viver perpetuamente e não veja a cova; porquanto vê-se morrerem os sábios e perecem tanto o estulto como o inepto, os quais deixam a outros as suas riquezas. O seu pensamento íntimo é que as suas casas são perpétuas e, as suas moradas, para todas as gerações; chegam a dar seu próprio nome às suas terras. Todavia, o homem não permanece em sua ostentação; é, antes, como os animais, que pere- cem. Tal proceder é estultícia deles; assim mesmo os seus seguidores aplaudem o que eles dizem. Como ovelhas são postos na sepultura; a morte é o seu pastor; eles descem diretamente para a cova, onde a sua formosura se consome51 ; a se- pultura é o lugar em que habitam”. Consideremos: Primeiro, zombando dos tolos porque descansam e condescendem em seus prazeres mundanos, transitórios que são, ele demonstra que a sabedoria consiste em buscar outra felicidade. Mas, em segundo lugar, ele proclama de maneira mais clara o mistério da ressurreição quando erige o reino dos justos predizendo a ruína e a desolação dos ímpios. Porquanto, que é que entendemos pela expres- são “alvorecer do dia” de que ele fala [ver nota], senão uma revelação da nova vida, após o fim da presente existência? Disso também decorre esta reflexão: Os crentes daquela época tinham o costume de se consolar e de se fortalecer para a paciente perseverança dizendo que “não passa de um momento a sua ira; o seu favor dura a vida inteira”.52 Mas, como poderiam pôr fim às suas aflições, visto que eram afligidos a vida inteira? Onde consta que eles viam uma tão longa dura- ção da bondade de Deus, a qual a duras penas eles tinham escassa ocasião de usufruir? Certamente, se eles buscassem duradoura alegria na terrab , não teriam encontrado nenhuma. Mas, quando elevavam os olhos ao céu, compreendiam que todo bem terreno não passa de um sopro de ventoc , que os santos têm que suportar tribulaçãod , e que as bênçãos que devem receber são eternas. a. Apega-se aqui à viva escatologia (esperança das coisas finais) presente no Antigo Testamento, e Calvino está de acordo com o autor da Epístola aos Hebreus em sublinhá-la. Tem-se feito falsa acusação contra o reformador de que ele negligencia a escatologia. Ao contrário, a sua mensagem é totalmente impregnada dela, e ele insiste em dizer que os discípulos eram essencialmente “peregrinos” nesta terra. b. si in terra hæsissent. c. punctum temporis. d. 1539 acrescentou: “per crucem”, após “miserationes seculi esse, quibus colliguntur”: caso raro, no qual um elemento completo de frase não foi traduzido. 50 Sl 49.6-14. 51 No original francês: “No alvorecer do dia os justos terão domínio sobre eles” (N. do T.). 52 Sl 30.5.
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    21 Por outro lado,previam que a desgraça dos ímpios não teria fim, embora se considerassem muito felizes, como que vivendo de sonhos. Daí vinham estas declarações, que eles conheciam bem: “A memória do justo é abençoada, mas o nome dos perversos cai em podridão”.53 E também: “A morte dos santos é preci- osa diante do Senhor; a morte do pecador é terrivelmente funesta” [tradução dire- ta. Cf. Sl 116.15 e Ez 28.8]. E mais: “[O Senhor] guarda os pés dos seus santos, porém os perversos emudecem nas trevas da morte”.54 Uma conclusão tranqüilizadora Vê-se, pois, que as palavras acima transcritas demonstram que os pais do Antigo Testamento sabiam muito bem que, fosse qual fosse o infortúnio que os crentes tivessem que sofrer neste mundo, seu fim seria vida e salvação. Por outro lado, sabiam que a felicidade dos ímpios é um caminho belo e aprazível que leva à desgraça. Por essa causa eles chamavam a morte dos incrédulos “morte de incircuncisos” [ou, literalmente, “ruína dos incircuncisos”]55 , querendo com isso indicar que a esperança da ressurreição lhes é cortada. Por isso Davi não poderia ter imaginado maldição mais grave sobre os seus inimigos que a seguinte, que ele pediu em oração a Deus: “Sejam riscados do livro da vida, e não sejam inscritos com os justos”.56 O vibrante testemunho de Jó Mas a seguinte declaração de Jó é mais notável que as outras: “Eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra. Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus. ...de saudade me desfalece o coração dentro em mim”.57 Os que querem exibir a sua sutileza argumentam com rodeios e sofismas dizendo que não se deve entender essa passagem como uma referência à ressurreição final, mas sim ao período em que Jó esperava que o Senhor lhe seria mais brando e mais amigável. Ainda que concordássemos com eles em parte, sempre teríamos esta verdade (querendo eles ou não), que Jó não poderia alcançar uma esperança tão alta se pensasse em repouso na terra. Portan- to, devemos reconhecer e confessar que ele elevou os seus olhos para contemplar a imortalidade futura, pois esperava o seu Redentor como quem está na sepultu- ra, ou seja, como estando ele, Jó, na sepultura. Porque a morte é um desespero extremo para aqueles que só pensam na vida presente, e, todavia, a morte não pôde eliminar a esperança de Jó. “Ainda que ele [Deus] me mate”, disse ele, “nele esperarei” [Almeida, Revista e Corrigida, semelhante ao original francês]. 53 Pv 10.7. 54 1Sm 2.9. 55 Ez 28.10; 31.18; etc. 56 Sl 69.28 [tradução direta]. 57 Jó 19.25-27.
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    22 As Institutas– Edição Especial Se alguém for bastante teimoso para murmurar que as sentenças acima citadas são de pouca gente e que com elas não se pode provar que essa doutrina era comum entre os judeus, responderei incontinenti que tais sentenças, em pequeno número, não pretendem mostrar alguma sabedoria oculta, que só os espíritos su- periores poderiam entender. Porque os que assim falaram foram constituídos mestres do povoa pelo Espírito Santo. Por isso, segundo o seu ofício, eles divul- garam abertamente a doutrina que deveria ser sustentada pelo povo todob . Quan- do, pois, ouvimos tão evidentes oráculos do Espírito Santo, pelos quais Ele testificou antigamente a vida espiritual com vistas à igreja dos judeus e a estes deu indubitável esperança, seria obstinação por demais exorbitante só deixar ao povo uma aliança carnal, na qual só se faz menção da terra e da felicidade mundana. Outros profetas Se eu descer aos profetas posteriores, terei matéria ainda mais ampla e mais fácil de debater na causa em foco. Porque, se a vitória não nos parece difícil demais em Davi, Jó e Samuel, para nós será muito mais fácil. Pois o Senhor mesmo seguiu este modo de agir ao dispensar a aliança da Sua misericórdia, no sentido de que, à medida que se aproximava o dia da revelação completa, a Ele aprouve aumentar cada vez mais a clareza da Sua doutrina. Porque, quando a primeira promessa foi feita no princípio a Adão, ele apenas teve como que algumas cente- lhas para a sua iluminação. De lá para cá, pouco a pouco a luz foi crescendo e aumentando dia após dia, até que o Senhor Jesus Cristo, que é o Sol da justiça, fazendo desvanecer todas as nuvens, iluminou plenamente o mundoc . Se quiser- mos valer-nos dos testemunhos dos profetas para comprovar a nossa causa, não devemos temer que eles nos falhem. Mas, visto que noto que este assunto já se estendeu demaisd , devemos restringir ainda mais o que pretendíamos fazer (por- que daria para encher um grosso volume). Ademais, como penso que fiz acima uma apresentação para todos os leitores de médio entendimento de maneira que eles poderão ter suficiente compreensão do conteúdo, vou evitar ser prolixo, a não ser que haja grande necessidade. A chave para abrir o estudo Limito-me a admoestar os leitores a que se sirvam da chave que lhes dei para abrir o estudo. É que, todas as vezes e quantas os profetas relembram a bem- aventurança dos crentes (da qual só se vê uma pequena sombrae neste mundo), a. plebis. b. quæ communiter ediscenda essent Dei mysteria, et popularis religionis principia. c. Calvino admite a idéia de uma progressão na revelação através dos séculos. Mas atribui essa progressão às dispensações de Deus, e não, como os evolucionistas modernos, ao desenvolvimento do sentimento religio- so de Israel. d. ingentem materiæ sylvam. e. mínima vestigia.
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    23 eles sempre voltama esta distinção: Os profetas, para demonstrar melhor a bon- dade de Deus, usaram os benefícios terrenos como figuras, como imagens repre- sentativas, mas, entretanto, quiseram com esses quadros elevar os corações aci- ma da terra e dos elementos deste mundo e deste século corruptível, e induzi-los a meditar na felicidade da vida espiritual.58 Um exemplo Um exemplo nos basta. É o seguinte: Tendo o povo de Israel sido transportado para a Babilônia, considerava o seu exílio e a desolação em que se encontrava como uma morte. Não havia como fazê-lo crer que tudo o que Ezequiel prometia quanto à sua restauração não era fábula nem mentira. Porque o povo pensava que fosse como se ele dissesse que um corpo já putrefacto haveria de ressuscitar. O Senhor, para mostrar que nem mesmo essa dificuldade O impediria de levar a cabo [o propósito da] Sua graça em Seu povo, revelou por visão ao profeta um campo cheio de ossos59 , aos quais Ele deu espírito e vigor num momento, somen- te pelo poder da Sua palavra. Essa visão serviu para corrigir a incredulidade do povo. Todavia, ao mesmo tempo serviu para admoestá-lo quanto ao poder de Deus de ir além da restauração prometida, pois unicamente a Seu mandado Lhe foi fácil devolver à vida as ossadas espalhadas por todo lado. Mas, para comparar com essa passagem, temos outra semelhante em Isaías, onde se diz que os mortos viverão e ressuscitarão com os seus corpos.60 A seguir lhes é dirigida esta exorta- ção: “Despertai e exultai, os que habitais no pó, porque o teu orvalho, ó Deus, será como o orvalho de vida, e a terra dará à luz os seus mortos. Vai, pois, povo meu, entra nos teus quartos e fecha as tuas portas sobre ti; esconde-te só por um momento, até que passe a ira. Pois eis que o Senhor sai do seu lugar, para castigar a iniqüidade dos moradores da terra; a terra descobrirá o sangue que embebeu e já não encobrirá aqueles que foram mortos”. Bem que eu gostaria de dizer que devemos enquadrar todas as outras passa- gens nesta regra. Pois há algumas que, sem nenhuma figura nem obscuridade, demonstram a imortalidade futura, a qual é preparada para os crentes no reino de Deus, como já dissemos. E em muitas outras, mas principalmente em duas, a mesma promessa está presente. Uma delas é Isaías, onde o profeta diz:61 “Como os novos céus e a nova terra, que hei de fazer, estarão diante de mim, diz o Se- nhor, assim há de estar a vossa posteridade e o vosso nome. E será que, de uma Festa da Lua Nova à outra e de um sábado a outro, virá toda a carne a adorar perante mim, diz o Senhor. Eles sairão e verão os cadáveres dos homens que 58 “Ora, essa é uma tentação muito grave, ou seja, avaliar alguém o amor e o favor divinos segundo a medida da prosperidade terrena que ele alcança.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 17.14), p. 346]. 59 Ez 37. 60 Is 26.19. 61 Is 66.22-24.
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    24 As Institutas– Edição Especial prevaricaram contra mim; porque o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se apagará; e eles serão um horror para toda a carne”. A outra acha-se em Daniel. “Nesse tempo”, diz ele62 , “se levantará Miguel, o grande príncipea , o defensor dos filhos do teu povo, e haverá tempo de angústia, qual nunca houve, desde que houve nação até àquele tempo; mas, naquele tempo, será salvo o teu povo, todo aquele que for achado inscrito no livro. Muitos63 dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno”. Dois pontos que dispensam comprovação Quanto aos dois outros pontos, quais sejam, que os antigos pais tinham Cristo como penhor e garantia das promessas a eles feitas por Deus, e que eles punham nele toda a sua confiança quanto à esperada bênção, não vou me esforçar para provar, porque são fáceis de entender, e sobre eles já houve muita controvérsia. Conclusão desta parte Concluiremos, pois, que o Antigo Testamento, ou seja, a aliança que Deus fez com o povo de Israel, não se limitava a coisas terrenasb , mas também abrangia certas promessas da vida espiritual e eterna, a esperança da qual devia estar im- pressa no coração de todos os que se aliavam a esse Testamento. Não há maqui- nação do Diabo que possa derrubar essa conclusão. Portanto, fique longe de nós esta opinião insanac e perniciosa, qual seja, que Deus não ofereceu aos judeus, ou que estes não esperavam da Sua mão, nada mais que satisfazer seu estômago, viver em prazeres carnais, ter abundantes riquezas, ser exaltados em honra, ter numerosa descendência, e outras coisas semelhantes, que os mundanos desejam. Porque Jesus Cristo não promete hoje aos que nele crêem outro reino dos céus, senão aquele no qual eles descansarão com Abraão, Isaque e Jacó64 . O apóstolo Pedro lembrou aos judeus do seu tempo que eles eram herdeiros da graça evangé- lica, visto que eram sucessores dos profetas, estando incluídos na aliança que Deus tinha feito nos tempos antigos com Israel65 . E para que não fosse testemu- nho só de palavras, o Senhor também o comprovou de fato. Porque na mesma a. princeps magnus. b. Calvino reconhece aqui a dupla significação das promessas feitas aos judeus: uma imediata e temporal, outra mais distante e espiritual. c. insanam. 62 Dn 12.1,2. 63 Segundo o original francês: “Os que descansam...”. Schröder, no comentario editado por Lange, sobre Daniel 12.2 diz numa nota de rodapé, entre outras coisas, o seguinte: “Cf. Calvino sobre esta passagem: ‘Multos hic ponit pro omnibus, ut certum est. Neque hæc locutio debet nobis videri absurda. ...; cfr. Rom. V.15,19’. [Em tradução simplificada: “Muitos, aqui, vale por todos, o que está certo. E não conside- remos essa locução absurda. ... ver Rm 5.12,19”.] O próprio Keil admite que [essa palavra] ‘só pode ser corretamente interpretada à luz do contexto’. Stuart afirma claramente que o contexto lhe dá aqui o sentido universal”. Nota do tradutor. 64 Mt 8.11. 65 At 3.11-26.
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    25 hora em queressuscitou, fez muitos santos participantes da Sua ressurreição, os quais foram vistos em Jerusalém66 . Com isso nos é dada uma garantia de que tudo o que o Senhor tinha feito e sofrido para adquirir salvação para o gênero humano pertencia tanto aos crentes do Antigo Testamento quanto a nós. E, de fato, eles tinham um mesmo espírito que nós temos, pelo qual Deus regenera os Seus para a vida eterna. Portanto, como vemos que o Espírito de Deus, que é como uma semente de imortalidade em nós (pelo que é chamado penhor da nossa herança), habitava neles, como ousaríamos vetar a eles a herança da vida? Por isso o ho- mem prudente nunca irá conseguir espantar-se o bastante com o fato de os saduceus no passado terem caído em tão grande estupidez, que é a de negarem a ressurrei- ção [do corpo] e a imortalidade da alma, sendo que tanto uma como a outra são demonstradas com muita clareza na Escritura. Grave erro do judaísmo atual Em face da brutal ignorância que [com assombro] vemos hoje em todo o povo judeu, no fato de esperar estultamente um reino terreno de Cristo, não devería- mos espantar-nos menos ante o fato de que tenha sido predito que lhe sobreviria tão grande castigo por ter desprezado Jesus Cristo e Seu Evangelho. Porque com toda a razão Deus feriu os judeus de uma tal cegueira que, tendo eles apagado a luz que lhes foi apresentada, eles preferiram as trevas. É certo que eles lêem Moisés e meditam constantemente no que ele escreveu, mas têm o véu que os impede de contemplar a luz do seu rosto67 . Véu que permanecerá para sempre, enquanto não se converterem a Cristo, de quem eles agora se desviam quanto podem. Não há diferença entre o Antigo e o Novo Testamentos? “E então?” dirá alguém. “Não restará nenhuma diferença entre oAntigo e o Novo Testamentos? E que dizer de tantas passagens da Escritura que os opõem um ao outro como coisas muito diferentes?” Respondo que admito de boa vontade todas as diferenças que encontrarmos registradasa na Escritura, mas com a condição de que não tirem nada da unidade que já deixamos estabelecida. Será fácil ver isso quando tratarmos delas na devida ordem. Ora, quanto me é possível constatar examinando diligentemente a Escritura, as diferenças são quatro. Se alguém qui- ser acrescentar-lhes a quinta, não direi nada contra. Vou empenhar-me em mostrar que todas elas pertencem, e devem referir-se, à maneira diversa que Deus empregou para dispensar Sua doutrina, e não ao seu conteúdo substancial. Assim, não haverá empecilho bastante forte para a seme- lhança existente entre as promessas do Antigo e as do Novo Testamento, e para que Cristo seja considerado o fundamento único tanto destas como daquelas. a. commemorantur. 66 Mt 27.50-53. 67 2Co 3 [notar os versículos 14 e 15].
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    26 As Institutas– Edição Especial A primeira diferençaa é, então, a seguinte: Conquanto Deus sempre tenha desejado que o Seu povo elevasse o seu pensamento à herança celestial, e pusesse nisso o seu coração, todavia, para melhor manter a esperança das coisas invisí- veis, ele o levava a contemplá-las sob Suas bênçãos terrenas, quase sempre lhe dando algo que lhe agradava. Mas agora, tendo revelado claramente a graça da vida futura pelo Evangelho, Ele dirige a nossa mente de maneira direta, levando- nos a meditar nela, sem nos envolvermos com coisas inferiores, como fazia com os israelitas. Os que não levam em consideração o conselho de Deus acham que os antigos não subiam a nível mais alto que o de esperar e querer somente o que se relaciona com a satisfação do corpo. Eles vêem que a terra de Canaã é menci- onada várias vezes como a recompensa suprema, para remunerar os que obser- vassem a Lei de Deus. Por outro lado, eles vêem que Deus não faz aos judeus ameaças mais graves que a de exterminá-los da terra que lhes tinha dado, e de os espalhar pelas nações estrangeiras. Finalmente, eles vêem que as bênçãos e as maldições recitadas por Moisés têm, quase todas, esse objetivo. Disso tudo eles concluem que Deus separou os judeus dos outros povos, não para proveito deles, mas para o nosso, a fim de que a igreja cristã tivesse uma imagem exteriorb na qual pudesse contemplar as coisas espirituais. Vê-se, entretanto, que a Escritura demonstra que Deus, por meio de todas as promessas terrenas que lhes fazia, quis conduzi-los, como pela mão, na esperança da Suas graças celestiais. Não consi- derar esse recurso, essa instrumentalidade, é cometer um erro grosseiro, para não dizer uma tolicec . Debate sobre o significado de Canaã Eis aqui o ponto que devemos debater contra esse tipo de gente: Eles dizem que a terra de Canaã, considerada pelo povo de Israel como a sua felicidade suprema, para nós representa a nossa herança celestial. Nós, ao contrário, sustentamos que, na posse e no gozo desse bem terreno, o povo de Israel contemplou a herança futura que lhe estava preparada no céu. Esclarece melhor isto a símile emprega- da pelo apóstolo Paulo na Epístola aos Gálatas68 . Ele compara o povo judeu com um herdeiro que ainda está na infância e que, não sendo capaz de se governar, está sob as mãos do seu tutord , ou do seu pedagogo69 . É bem verdade que nessa passa- gem o apóstolo trata principalmente das cerimônias; mas isso não impede que apli- quemos aquela declaração ao nosso propósito. Vemos, pois, que lhes foi destinada a mesma herança que a nós, a qual, contudo, eles não puderam gozar plenamentee . a. Palavra acrescentada em 1541. b. Idem. c. imperitiæ, ne dicam hebetudinis. d. pædagogi cujus custodiæ commissus. e. adeundæ et tractandæ nondum capaces (termos do direito romano). 68 Gl 3 e 4 [mormente 3.23-26 e 4.1-7]. 69 No sentido do termo grego respectivo: guia, protetor e instrutor ou preceptor de meninos; tutor (N. do T.).
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    27 Havia entre elesa mesma igreja que a nossa, mas era como se ela estivesse em sua infância. Por isso o Senhor os manteve com esta pedagogia [sob esta tutela instrutiva e disciplinar]: Não lhes dar claramente as promessas espirituais, mas oferecer-lhes alguma imagem e figura delas sob as promessas terrenas. Querendo receber Abraão, Isaque, Jacó e toda a sua raça na esperança da imortalidade, prometeu-lhes a terra de Canaã como herança, não para colocarem nela o seu amor, mas antes para que, considerando-a, se fortalecessem na segura e certa esperança da verdadeira herança, quea ainda não lhes era manifesta. E, a fim de que não abusassem, acrescentou-lhes também uma promessa mais alta, que lhes testificava que aquela herança terrena não era o principal e supremo bem que Ele lhes queria fazer. Assim Abraão, tendo recebido a promessa da posse da terra de Canaã, não ficou enlevadob70 com o que viu, mas foi altamente elevado pela promessa anexa, como disse Deus: “Não temas,Abrão, eu sou o teu escudo, e teu galardão será sobremodo grande”.71 Em Deus estava o vero Galardão prometido a Abraão Vemos que o fim do seu galardão estava em Deus, para que ele não se fixasse num galardão transitório deste mundo, mas noutro, incorruptível no céu. Tam- bém vemos que a posse da terra de Canaã não lhe foi prometida com outra finali- dade senão a de que fosse um sinal da bondade de Deus e uma figura da herança celestial. E de fato se vê, pelas declarações dos crentes, que eles tinham esse sentimento. Dessa maneira, Davi foi incentivado pelas bênçãos temporais de Deus a meditar em Sua graça soberana, como ele diz: “Meu coração e meu corpo des- falecem de desejo de te ver, Senhor! O Senhor é a minha porção hereditária para sempre”. E também: “O Senhor é a porção da minha herança e o meu cálice; tu és o arrimo da minha sorte”. E mais: “Eu clamo ao Senhor, dizendo: Tu és a minha esperança e a minha herança na terra dos viventes72 ”. Certo é que todos os que assim falaram transcenderam este mundo e todas as coisas presentes. Contudo, muitas e muitas vezes os profetas descrevem a bem-aventurança do século futuro fazendo uso da imagem e figura que recebe- ram de Deus. É dessa forma que devemos entender as declarações que se verão a seguir, nas quais se diz que “os justos possuirão a terra em herança, e os ímpios serão exterminados”. “Jerusalém terá abundância de riquezas, e Sião terá fartura de bens”.73 a. 1541 tem, por erro do secretário: “qu’il”; 1539: “qua”. b. torpere non sinitur. 70 A expressão latina (torpere non sinitur, cf. nota d) é rica, incluindo a idéia de deixar-se entorpecer, deixar-se embotar. Abraão não ficou extasiado ou deslumbrado com a terra de Canaã ao ponto de ficar com os seus sentidos embotados. Nota do tradutor. 71 Gn 15.1. 72 Sl 73.26 [tradução direta]; 16.5; 142.5 [tradução direta]. 73 Sl 37.20,29; Jó 18; Pv 2.21,22; Is 62 e diversas outras passagens nesse livro. [Tradução direta.]
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    28 As Institutas– Edição Especial Entendamos bem: Essas passagens não se referem a esta vida mortal, que é como uma peregrinação. E não são pertinentes à cidade terrestre de Jerusalém, mas são pertinentes e se referem à verdadeira pátria dos que crêem, e à cidade celeste, na qual Deus preparou venturosa bênção e vida para sempre.74 Mas por isso mesmo [com tantas promessas em termos terrenais] os santos do Antigo Testamento apreciavam esta vida mortal mais do que nos cabe fazê-lo hoje. Por- que, embora soubessem muito bem que não se deviam fixar nas coisas da terra como se constituíssem sua meta última, todavia, como por outro lado eles julga- vam que Deus representava por elas a Sua graça para fortalecê-los na esperança, tendo em vista a sua pequenez, eles se apegavam a elas com maior amor do que se as considerassem pelo que elas realmente são. Ora, assim como o Senhor, ao testificar a Sua bondade para com os Seus fiéis mediante benefícios terrenos, representava por eles a bem-aventurança espiritual, à qual eles deviam inclinar-se, assim também, por outro lado, as penas e dores corporais que Ele enviava sobre os maus eram sinais do Seu juízo futuro sobre os réprobos. Porque, assim como os benefícios de Deus eram en- tão mais manifestos nas coisas temporais, também o eram as vingançasa ou punições. Os ignorantes, não tomando em consideração esta semelhança e con- formidade entre as penas e as recompensas que havia naquele tempo, ficam espantados, perguntando-se como pode haver tal variedade em Deus. Como se antigamente Ele estivesse sempre prontob para de súbito se vingar com rigorc dos homens, imediatamente após O terem ofendido; já no presente, como se Ele tivesse moderadod a Sua cólera, pune mais brandamente e menos freqüentemente. E daí pouco falta para imaginarem Deuses diferentes no Anti- go e no Novo Testamentos. Mas nos será fácil livrar-nos de todos esses [falsos] escrúpulos, se pensar- mos na dispensação de Deus, como temos observado, isto é, se considerarmos o tempo em que Ele fez Sua aliança com o povo de Israel e qual a sua abrangência. Por um lado, Deus quis simbolizar e representar a bem-aventurança eterna, que lhes prometeu sob as Suas bênçãos terrenas; e, por outro, a terrível condenaçãoe , que os ímpios deveriam esperar sob penas e sofrimentos corporais. Segunda diferença A segunda diferença entre o Antigo e o Novo Testamentos consiste nas figuras. É que, no tempo em que a verdade [plena e concreta] ainda estava ausente, oAntigo Testamento a representava por meio de imagens, e mostrava sombra em lugar de a. pœnæ. b. subitus. c. sævis horrendisque suppliciis. d. posito pristinæ iracundiæ affectu. e. spiritualis mortis gravitatem. 74 Sl 132.
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    29 corpo. O NovoTestamento contém a verdade presente, e a substânciaa [real e concreta]. E nesse sentido devem ser entendidas quase todas as passagens nas quais, comparativamente, o Antigo Testamento se opõe ao Novo. Tenha-se em conta, porém, que não há nenhuma outra passagem onde isto seja tratado mais amplamente que na Epístola aos Hebreus. Ali o apóstolo contesta os que pensa- vam que a religião ficaria totalmente arruinada se as cerimônias mosaicas fossem abolidas. Para refutar esse erro, ele toma, em primeiro lugar, o que tinha sido dito pelo profeta no tocante ao sacrifício de Jesus Cristo75 . Porque, depois que o Pai constituiu o sacerdote eterno, é certo que os sacrifícios levíticos estão elimina- dos, no sentido de que aquele sucede a estes. Ora, que este novo sacerdócio é mais excelente que o outro ele prova, mostrando que foi estabelecido por jura- mento. Logo a seguir ele acrescenta que, quando o sacerdócio foi assim transfe- rido, houve transferência de aliança. Além disso, ele ensina categoricamente que isso era também necessário porque havia tal fraqueza na Lei que ela não podia levar à perfeição. Subseqüentemente, ele passa a dizer qual é essa fraqueza, de- clarando que as suas justiças eram exterioresb , e, por isso, não podiam tornar perfeitos os seus praticantes, tendo-se em vista a consciência.A razão dada é que o sangue de animaisc não pode apagar pecados nem adquirir santidade. Ele então conclui que na Lei havia uma sombra dos bens futuros, não uma viva presença, a qual nos é dada no Evangelho. Comparação da aliança da Lei com a do Evangelho Aqui devemos considerar em que ponto ele compara a aliança da Lei com a alian- ça evangélica, o ofíciod de Moisés com o de Cristo. Porque, se essa comparação se reportasse à substância das promessas, haveria um grande repúdio recíproco entre os dois Testamentos. Mas, como vemos que o apóstolo tende para outro lado, devemos acompanhar a sua intenção, para podermos encontrar a verdade satisfatoriamente. Centralizemos, pois, a nossa atenção na aliança de Deus que, uma vez feita, é para durar para sempre. Jesus Cristo é seu cumprimento e sua consumação. Contudo, enquanto era necessário esperare o seu cumprimento, o Senhor, por meio de Moisés, ordenou as cerimônias, para que fossem sinais e representações delaf . Eis o ponto xis da controvérsia: Se era preciso que as ceri- mônias ordenadas e estabelecidas na Lei cessassem, para darem lugar a Jesus Cristo. Pois bem, embora elas não passassem de acidentes ou acessóriosg do An- a. corpus solidum. b. externas carnis justitias. c. 1539 tem somente: pecudum victimis. d. ministerium. e. dum expectatur. f. solemnis confirmationis symbola. g. 1539 acrescenta: ac annexa. 75 Hb, capítulos 8, 9 e 10.
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    30 As Institutas– Edição Especial tigo Testamento, não obstante, visto que eram instrumentos pelos quais Deus mantinha Seu povo na sua doutrina, elas trazem o nome das coisas que represen- tam, como a Escritura costuma fazer, atribuindo aos sacramentos o nome das coisas representadas por eles. Porque, em resumo, o Antigo Testamento é aqui mencionado da maneira solene como o Testamento do Senhor era sancionado ou confirmado para os judeus, sendo ele constituído de ofertas sacrificiais e de ou- tras cerimônias. Uma vez que, limitadas a si mesmas, elas nada têm de firmes e sólidas, o apóstolo sustenta que deveriam ser finalmente ab-rogadas, para cede- rem lugar a Jesus Cristo, sendo Ele penhora e Mediador de uma aliança melhor. Por esta a santificação eterna foi adquirida uma vez por todas para os eleitos, e as transgressões, que permaneciam no Antigo Testamento, foram abolidas. Ou, se alguém preferir, oferecemos esta definição. Definição O Antigo Testamento foi a doutrina que Deus deu ao povo judeu, doutrina envol- ta em observância de cerimônias que não tinham nem eficácia nem solidez. Daí o seu caráter temporal, pois estava como em suspense, até que se firmasse em seu cumprimento e fosse confirmado em sua substância. Mas então ele foi feito novo e eterno, quando foi confirmado e estabelecido no sangue de Cristo. Por essa causa Cristo lhe chamou cálice, que Ele deu aos Seus discípulos na Ceia, o cálice do novo testamento ou da nova aliança, para indicar que quando a aliança de Deus foi selada em Seu sangue, cumpriu-se e consumou-se a sua realidade. E assim foi feita a nova e eterna aliança. Por aí se vê em que sentido o apóstolo Paulo afirma que os judeus foram conduzidos a Cristo pela doutrina infantilb da Lei, antes de Ele se manifestar em carne. Paulo reconhece que eles eram filhos e herdeiros de Deus, mas, visto que estavam como que na infância, declara que eles estiveram a cargo de um pedagogo76 , de um preceptor. Pois é fácil concordar que, antes de elevar-se o Sol da justiça, não havia grande claridade de revelação, nem entendimento muito claro. Então o Senhor lhes dispensou a luz da Sua Palavra de modo que a vissem, ainda que de longe. Foi por isso que Paulo, querendo fazer notar essa pequenez de entendimento, fez uso de expressão referente à infânciac , dizendo que o Se- nhor os quis instruir nessa idade por meio das cerimônias, como que por rudi- mentos, ou por aspectos elementares próprios da idade infantild , até que Cristo fosse manifestado, para aumentar o conhecimento dos Seus, confirmando-os e fortalecendo-os de tal sorte que não estivessem mais na infância. a. sponsor. b. pædagogia. c. pueritiæ. d. 1539 tem somente: observatiunculis, tanquam regulis puerilis disciplinæ. 76 Gl 3 e 4.
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    31 Distinção feita porJesus Cristo Esta foi a distinção que Jesus Cristo inseriu quando disse77 que “a lei e os profetas existiram até João Batista”, e que desde o tempo dele “o reino de Deus é divulgado”.a Que foi que Moisés e os Profetas ensinaram em seu tempo? Eles propiciaram certo gosto e sabor da sabedoria que haveria de ser revelada um dia, e a mostraram à distânciab . Mas quando Jesus Cristo pode ser mostrado com o dedo, o reino de Deus fica aberto e exposto. Porque nele estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e da doutrina78 , e [por Ele] subimos pouco menos que aos pontos mais altos do céu. Menos luz, mas grandes exemplos de fé! Ora, isso não contradiz o fato de que com muita dificuldade encontraremos uma igreja cristã que mereça ser comparada comAbraão, quanto à firmeza de fé. Igual- mente, os profetas tinham tão grande entendimento que ainda hoje seria capaz de iluminar o mundo. O que acontece é que aqui não estamos considerando as gra- ças e dons que Deus confere a alguns, mas sim a ordem [progressiva] seguida então. Isso transparece até mesmo na doutrina dos profetas, embora tenham tido singular privilégio, acima dos demais [servos de Deus]. Porque a doutrina deles é obscura, como algo longínquo, e está encerrada em figuras ou tiposc . Ademais, apesar do fato de que receberam algumas revelações, todavia, como lhes era ne- cessário submeter-se à pedagogia ou instrução elementar comum a todo o povo, eles ficavam incluídos no número das crianças, como os outros [filhos de Israel]. Finalmente, jamais houve, naquele tempo, um entendimento tão claro que não sofresse de algum modo a influência da obscuridade da época. Essa é a razão pela qual Jesus Cristo disse: “Em verdade vos digo que muitos profetas e justos dese- jaram ver o que vedes e não viram; e ouvir o que ouvis e não ouviram. Bem- aventurados, porém, os vossos olhos, porque vêem; e os vossos ouvidos, porque ouvem”.79 E, de fato, é mais que certo que a presença de Jesus Cristo teve privile- giada ocasião de trazer ao mundo mais amplo entendimento dos mistérios celestiais, como nunca antes. Terceira diferença Passemos agora à terceira diferença, com base nas seguintes palavras de Jeremias: “Eis aí vêm dias, diz o Senhor, em que firmarei nova aliança com a casa de Israel a. evangelizari. (O termo é mais literalmente traduzido: é forçado [ARA: “é tomado por esforço”], mas Calvino, em seu Comentário sobre a Concordância, etc., diz: “As pessoas... recebem com impetuosidade veemente a graça que lhes é apresentada”). b. procul emicantem. c. typis. 77 Mt 11.12,13 [tradução direta]. 78 Cl 2.3. 79 Mt 13.56,57.
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    32 As Institutas– Edição Especial e com a casa de Judá. Não conforme a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; porquanto eles anularam minha aliança, não obstante eu os haver desposado, diz o Senhor. Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no coração as inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo.80 Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao Senhor, porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o Senhor”.81 Dessa passa- gem Paulo toma ocasião para a comparação que faz entre a Lei e o Evangelho, descrevendo a Lei nestes termos:82 doutrina literal, pregação que mata e condena, escrita em tábuas de pedra. Já o Evangelho ele descreve como doutrina espiritual, que vivifica e justifica, e gravada no coração. Acresce que a Lei seria abolida, e o Evangelho durará para sempre. Visto que a intenção do apóstolo Paulo era expor o sentido do ensino do profeta, para nós bastará considerar as palavras de um para entender os dois. Se bem que eles têm alguma diferença entre si. Porque o apóstolo fala mais adversamente da Lei que o profeta. Isso ele faz, não simples- mente considerando a natureza dela, mas, visto que havia alguns fulanos confusosa que, por um zelo desordenadob que tinham pelas cerimônias, esforçavam-se para obscurecer a clareza do Evangelho, ele foi forçado a discutir segundo o erro deles e seu apego insensato. Devemos ter em mente esta particularidade em Paulo: Quando ele e Jeremias estão de acordo, naquilo em que ambos opõem o Antigo Testamento ao Novo, eles não consideram na Lei nada senão o que é próprio dela. Exemplo: A Lei contém aqui e ali promessas da misericórdia de Deus; mas como tais promessas são tomadas doutra parte, não entram em conta quando se trata da questão da natureza da Lei. Eles só tratam das funções da Lei nas quais ela ordena o que é justo e bom; proíbe toda maldade; promete recompensa aos que praticam a justi- ça; ameaça os pecadores com a vingança de Deus – sem que ela possa mudar ou corrigir a perversidade existente naturalmente em todos os homens. Exame da comparação apostólica, parte por parte Expliquemos agora, parte por parte, a comparação feita pelo apóstolo. O Antigo Testamento, diz ele, é literal [é mera letra], porque foi publicado sem a eficácia [interior] do Espírito; o Novo é espiritual, porque o Senhor o gravou no coração dos Seus. Em vista disso, o segundo contraste que ele faz é com o fim de aclarar a. nebulones. b. kaxozhloi. 80 A parte impressa em tipo itálico, no original francês está: “...e lhes serei propício, perdoando os seus pecadosa ”. Cf. parte final do versículo 34 (N. do T.). a. propitiabor iniquitati. [Na tradução, ocorre na nota de rodapé.] 81 Jr 31.31-34. 82 2Co 3.1-11.
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    33 o primeiro. Dizele que o Antigo Testamento é mortal [mata] porque não pode fazer nada senão envolver em maldição todo o gênero humano. O Novo é instru- mento de vida porque, livrando-nos da maldição, remete-nos à graça de Deus. À mesma finalidade visa o que ele declara em seguida: O primeiro é um ministério de condenação, porque mostra que todos os filhos de Adão são culpados de ini- qüidade. O segundo é um ministério de justiça, porque nos revela a misericórdia de Deus, graças à qual somos justificados. A última parte da comparação deve se reportar às cerimônias. Porque eram uma imagem de coisas ausentes, acontecia que com o tempo se desvaneciam; como o Evangelho contém o corpo [o conteú- do substancial], sua firme consistência dura para sempre. Jeremias também des- creve a Lei moral como uma aliança fraca e frágil, mas por outro motivo, a saber, que, por causa da ingratidão do povo, ela foi logo posta de lado e quebrantada. Mas, visto que essa violação é um erro que vem de fora, não se deve atribuir propriamente à Lei. Outra coisa: como as cerimônias, por sua própria fraqueza, foram ab-rogadas quando do advento de Cristo, elas contêm em si mesmas a causa da sua ab-rogação. Agora, a diferença assinalada entre a letra e o Espírito, não deve ser entendida como se, no passado, o Senhor tivesse dado Sua Lei aos judeus sem que ela produzisse nenhum fruto nem tivesse utilidade nenhumaa , não convertendo ninguém a si; mas isso é dito em termos de comparação, para en- grandecer mais a abundância da graça, a qual aprouve ao Senhor mostrar na pre- gação do Evangelho, para honrar o reino do Seu Cristo. Porque, se julgarmos a multidão congregadab de diversas nações pela pregação do Seu Evangelho e graças à regeneração operada por Seu Espírito, veremos que o número dos que receberam e acataram a doutrina da Leic com verdadeiro amor e de coração foi tão pequeno que não há termos de comparaçãod . Se bem que, se se tomar o povo de Israel sem considerar a igreja cristã, havia naquele tempo muitos crentes fiéis.83 Quarta diferença A quarta diferença decorre e depende da terceira. Porque a Escritura dá aoAntigo Testamento o título de aliança de escravidão, porquanto ele gera temor e terror no coração dos homens; já o Novo é denominado aliança de liberdade, porque ele os confirma na segurança e na confiança. Assim fala o apóstolo Paulo na Epístola aos Romanos:84 “Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, a. Palavra acrescentada em 1541. b. 1539 acrescentou: in ecclesiæ suæ communionem. c. fœdus Domini. d. 1539 tem somente: sine comparatione. 83 “A glória da lei é abolida quando produz o evangelho. Assim como a lua e as estrelas, ainda que elas mesmas brilhem e espalhem sua luz sobre todo o orbe, todavia desvanecem diante do brilho mais intenso do sol, assim também a lei, não obstante ser gloriosa em si mesma, não resplandece em face da maior grandeza do evangelho.” [João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, São Paulo, Paracletos, 1995, (2Co 3.10), p. 72-73]. 84 Rm 8.15.
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    34 As Institutas– Edição Especial outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos:Aba, Pai”! [NVI: “Pois vocês não receberam um espírito que os escra- vize para novamente temerem, mas receberam o Espírito que os adota como fi- lhos, por meio do qual clamamos: Aba, Pai”!]. É isso também que o autor da Epístola aos Hebreus quer dizer, quando afirma, a respeito dos crentes: “Ora, não tendes chegado ao fogo palpável e ardente, e à escuridão, e às trevas, e à tempes- tade, e ao clangor da trombeta”, quando o povo de Israel não viu nada que não lhe causasse pavor e espanto. “Na verdade, de tal modo era horrível o espetáculo, que Moisés disse: Sinto-me aterrado e trêmulo!”85 Também Deus não fala com eles com voz terrível, como fazia então, pois o que se diz é: “Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a incontáveis hostes de anjos, e à universal assembléia” etc. [versículos 22-24]. Essa declaração, que de passo foi tocada na passagem que citamos da Epís- tola aos Romanos, é exposta mais amplamente na Epístola aos Gálatas, onde o apóstolo Paulo tece uma alegoria dos dois filhos de Abraão, desta maneira:86 Hagar, a escrava, é uma figura do Monte Sinai, onde o povo de Israel recebeu a Lei. Sara, a senhora, é uma figura de Jerusalém, de onde procede o Evangelho. Como a linhagem de Hagar é escrava, não pode vir à herança; ao contrário, a linhagem de Sara é livre, e deve vir à herança.Assim, a Lei não pode gerar em nós nada mais que escravidão; o que não se dá com o Evangelho, que nos regenera para a liberdade. Sumário desta parte Eis o resumo que disso se tem: que o Antigo Testamento foi dado para incutir pavora nas consciências, e o Novo, para que lhes fosse dada alegria e contentamentob ; que o primeiro teve as consciências oprimidas e encerradas sob o jugo da servi- dão, ao passo que o segundo nos liberta e nos declara livres. Se alguém objetar dizendo que, visto que os pais doAntigo Testamentoc tinham o mesmo espírito de fé que nós temos, segue-se que eles participaram da mesma liberdade e alegria, respondemos que nem uma coisa nem outra eles tiveram pelo benefício da Lei; antes, vendo-se por ela cativos, em escravidão e com problema de consciência, o recurso que tiveram foi o Evangelho. Pelo que se vê que a liberdade que eles tiveram daquela miséria foi um fruto especial do Novo Testamento. Além disso, negamos que eles, gozando grande liberdade e segurança, não tenham sentido nada do temor e da escravidão que a Lei causava. Porque, embora gozassem do privilégio obtido pelo Evangelho, ainda estavam sujeitos, em co- mum com os demais [servos de Deus], a todas as observâncias requeridas, às a. pavorem ac trepidationem incussisse. b. 1539 tem somente: lætitiam. c. ex populo israelitico sancti patres. 85 Hb 12.18-21. 86 Gl 4.21-31.
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    35 acusações e aoslaços então vigentes. Sendo, pois, assim, eles estavam obrigados a observar as cerimônias, que eram como símbolosa da pedagogia [da instrução infantil], que o apóstolo Paulo afirmab que era como uma escravidão, e igualmen- te como cédulasc pelas quais eles se confessavam culpados diante de Deus, sem liqüidar os seus débitos. Com razão se afirma que, diversamente de nós, eles estavam sob o Testamento da escravidão, quando se considera a ordem e o modo de agir que o Senhor seguia naquele tempo com relação ao povo de Israel. Classificação das comparações feitas As três últimas comparações são da Lei e o Evangelho. Porque nelas, sob o nome de Antigo Testamento devemos entender a Lei, como o nome Novo Testamento significa o Evangelho. A primeira que apresentamos tem maior alcance. Porque inclui também o estado dos antigos pais, anteriores à Lei. Agora, quanto ao que Agostinho nega87 , que as promessas daquele tempo estavam sob o Antigo Testa- mento, sua opinião é boa; e ele não quis dizer outra coisa senão o que nós ensina- mos. Porque ele examinou as declarações que nós citamos de Jeremias e do após- tolo Paulo, e aquelas que o Antigo Testamento opõe à doutrina da graça e da misericórdia. Portanto, fala-se com propriedade quando se diz que todos os cren- tes que foram regenerados por Deus, desde o princípio do mundo, e que seguiram Sua vontade com fé e vero amor, pertencem ao Novo Testamento; e que eles tinham sua esperança firmemente posta, não em bens carnais, terrenos e tempo- rais, mas espirituais, celestes e eternos. E mais, que eles criam singular e exclusi- vamente no Mediador, graças ao qual não duvidavam que o Espírito Santo lhes tinha sido dado e que obteriam perdão todas as vezes e quantas tivessem cometi- do pecado. Foi isso que desejei sustentar, isto é, que todos os santos a respeito dos quais lemos na Escritura que foram escolhidos por Deus, desde o princípio do mundo, têm sido participantes conosco das mesmas bênçãos que nos são dadas com a salvação eterna. Entre a divisão que coloquei e a de Agostinho há somente esta diferença: eu quis distinguir entre a clareza do Evangelho e a obscuridade que havia anteriormente, seguindo as declarações de Cristo registradas na passa- gem em que Ele afirma que “a lei e os profetas duraram até João” e que “ nesse tempo [a partir de João] o reino de Deus começou a ser pregado”.88 Ele se conten- ta em distinguir entre a fraqueza da Lei e a firmeza ou solidez do Evangelho. Também devemos notar que os antigos pais viveram de tal modo sob o Antigo Testamento que não ficaram confinados a ele, mas sempre aspiraram ao Novo, e a. symbola. b. Acréscimo feito em 1541. c. chirographa. 87 L. 3, ad Bonifac. 88 Mt 11.12,13 [tradução direta].
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    36 As Institutas– Edição Especial até de fato participaram dele de coração e com verdadeiro amora . Porque todos os que se contentaram com as sombras exterioresb , não elevando o seu entendimen- to a Cristo, são acusados de cegueira e condenados à maldição pelo apóstolo. E, realmente, que cegueira maior se poderia imaginar que a de esperar a expiação dos seus pecados pela morte de um animal irracional, ou buscar a purificação da sua alma na aspersão corporal de água? ou desejar apaziguar a Deus com cerimônias que são nulas de importância, como se Ele tivesse nisso grande prazer? E isso que nos calamos, deixando de mencionar muitas outras coisas semelhantes. Pois bem, todos os que se satisfazem com práticas exteriores da Lei caem nesse absurdo. Quinta diferença A quinta diferença, que dissemos que poderia ser acrescentada, consiste em que, até ao advento de Cristo, Deus separou um povo ao qual confiou a aliança da Sua graça. “Quando o Altíssimo distribuía as heranças às nações”, diz Moisés, “quan- do separava os filhos dos homens uns dos outros, fixou os limites dos povos, segundo o número dos filhos de Israel. Porque a porção do Senhor é o seu povo; Jacó é a parte da sua herança”.89 E noutro lugar90 ele fala assim ao povo: “Eis que os céus e os céus dos céus são do Senhor, teu Deus, a terra e tudo o que nela há. Tão-somente o Senhor se afeiçoou a teus pais para os amar; a vós outros, descen- dentes deles, escolheu de todos os povos, como hoje se vê”. Portanto, o Senhor fez essa honra unicamente àquele povo, a honra de se dar a conhecer a ele como se Lhe pertencesse mais que os outros. O Senhor confiou a esse povo a Sua alian- ça; manifestou a presença da Sua Divindade no meio dele e o exaltou com todos os outros privilégios [de que há registro]. Deixemos, porém, de lado os outros benefícios que lhe fez; contentemo-nos com o que ora está em questão. Refiro- me ao fato de que, ao comunicar ao povo a Sua Palavra, uniu-se a ele, para ser chamado e considerado seu Deus. Enquanto isso, o Senhor deixou que as outras nações caminhassem na vaidade e no erro, como se não tivessem nenhuma rela- ção com Ele, e não lhes deu o remédio com o qual poderia socorrê-las. Que remé- dio? A pregação da Sua Palavra. Enquanto Israel era chamado o tenro e precioso filho de Deus, todos os outros povos eram tidos como estrangeiros e estranhos. Dele se diz que era conhecido de Deus e acolhido sob Sua proteção e tutela; os outros foram deixados em suas trevas. De Israel se diz que foi santificado para Deus; os demais eram considerados profanos. Dele se diz que foi honrado pela presença de Deus; os outros, que foram excluídos. a. certam communionem. b. præssentibus. 89 Dt 32.8,9. 90 Dt 10.14,15.
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    37 A plenitude dostempos Mas, quando veio a plenitude dos tempos, ordenada para reparar todas as coisas; quando, digo, o Mediador entre Deus e os homens se manifestou e “derrubou a parede91 que por longo tempo mantinha a misericórdia confinada num só povo, Ele fez com que a paz fosse anunciada aos que estavam longe, como também aos que estavam perto, a fim de que, estando todos juntamente reconciliados com Deus, se unissem formando um corpo. Por isso já não se levam em consideração as questões de judeu e grego, circuncisão e incircuncisão. Mas Cristo é tudo em todos; a Ele todos os povos da terra foram dados em herança, e os confins da terra foram sujeitos ao Seu senhorio, para que, sem distinção, Ele domine de mar a mar e do Oriente ao Ocidente. Vocação dos gentios – excelente característica do Novo Testamento Portanto, a vocação dos gentios é uma notável marca pela qual fica demonstrada a excelência e a superioridade do Novo Testamento em relação ao Antigo. Ela havia sido predita e testificada antigamente por muitas profecias, mas de maneira que o seu cumprimento era remetido à vinda do Messias. Mesmo Jesus Cristo, no início da sua pregação, não quis fazer abertura para os gentios, deferindo a voca- ção deles para o tempo em que, tendo acertado e consumado tudo o que diz res- peito à nossa redenção, e tendo passado o período da Sua humilhação, Ele rece- besse do Pai “o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra”.92 Foi por isso que Ele disse à mulher Cananéia: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”.93 Foi por isso também que, quando Ele enviou pela primeira vez os Seus apóstolos, proibiu-lhes que ultrapassassem certos limites.94 Porque o tempo a que nos havíamos referido ainda não tinha chegado. Note-se ainda que, apesar de a vocação dos gentios ter sido demonstrada por meio de tantos testemunhos, toda- via, quando chegou a hora de ela começar, pareceu tão nova e estranha aos após- tolos que eles a temeram como se estivessem diante de um prodígio assombroso. Certo é que eles se empenharam nessa obra com grande dificuldade. E não é de admirar, porque não lhes parecia razoável que Deus, que por tão longos anos tinha mantido Israel separado das outras nações, subitamente, como tendo muda- do de propósito, eliminasse tal distinção. Isso tinha sido predito claramente pelos profetas. Mas eles não puderam estar suficientemente atentos aos profetas para que a novidade não lhes causasse tão forte comoção. Os exemplos dados previa- 91 Ef 2.14 [Ver o contexto.] e outras passagens [como: Rm 10.12; Gl 3.28; Cl 3.11]. 92 Fp 2.9,10. 93 Mt 15.24. 94 Mt 10.5,6.
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    38 As Institutas– Edição Especial mente por Deus para mostrar sua ação futura não bastaram para os libertar de escrúpulos. Porque Ele tinha chamado muito poucos gentios para a Sua igreja, e, ademais, ao chamá-los, tinha-os incorporado no povo de Israel por meio da cir- cuncisão, para que fossem como da família de Abraão. Pois bem, pela vocação pública dos gentios, feita após a ascensão de Jesus Cristo, eles não somente fo- ram elevados ao mesmo grau de honra dos judeus, mas, o que é mais importante, foram colocados no lugar deles, como seus substitutos.
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    39 CAPÍTULO VIII Consideremos agorao seguinte: Tendo-se em vista o fato de que a Aliança da Vida não é pregada igualmente a todos, e também que onde é pregada não é a. CAPÍTULO VIII: Sobre a Predestinação e a Providência de Deus. É muito importante constatar que Calvino fala da predestinação, não a propósito da doutrina de Deus, mas a propósito da doutrina da salvação. A predestinação não é, pois, uma teoria filosófica, mas o prolongamento no secreto conselho de Deus e, pois, na eternidade, da afirmação bíblica da salvação somente pela graça. No plano completamente remanejado da sua edição latina de 1559 e francesa de 1560, Calvino separará os dois assuntos do presente capítulo: tratará da providência de Deus em seu primeiro livro, onde se vê como parte do conhecimento de Deus, o Criador e Preservador do mundo, mas tratará da predestinação em seu terceiro livro, onde é vista como questão da ação do Espírito Santo nos corações, e da apropriação da salvação cristã pela fé pessoal. A doutrina da predestinação faz então, para ele, parte daquilo que hoje chamamos descrição da experiência cristã. Quer dizer que ela não pode ser julgada de fora [ou isoladamen- te]. A preocupação de Calvino é fortemente pastoral e não especulativa.166 Não deixa de ser instrutivo e revelador o fato de Calvino, na edição final da Instituição (1559), ter tratado deste assunto depois de um longo capítulo sobre a oração que, sozinho, é maior do que os quatro dedicados à doutrina da Eleição.167 166 Philip Schaff (1819-1893) referindo-se a Calvino, diz que “seu principal interesse foi mais religioso do que metafísico. Ele achou nesta doutrina [predestinação] o apoio mais forte para a sua fé. Ele combinou com isto a certeza da salvação, que é o privilégio e conforto de todo crente. Neste ponto ele diferiu de Agostinho, que ensinou o conceito católico da incerteza subjetiva de salvação. Calvino fez da certeza, Agostinho a incerte- za, um estímulo ao zelo e santidade.” [Philip Schaff & David S. Schaff, History of the Christian Church, Peabody, Massachusetts, Hendrickson Publishers, 1996, Vol. VIII, p. 549). Ver também: Philip Schaff & David S. Schaff, History of the Christian Church, Vol. VIII, p. 561]. 167 Ver: João Calvino, As Institutas, III.20. Do mesmo modo, no Catecismo de Genebra, das 373 perguntas, ele dedica 63 à oração.
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    40 As Institutas– Edição Especial recebida igualmente por todosa , vê-se nessa diversidadeb um admirável mistério do juízo de Deusc . Não há dúvida nenhuma de que essa variedade atende ao Seu beneplácitod , agrada ao Seu querer. Pois bem, como é evidente que isto é feito pela vontadee de Deus – que a salvação é oferecida a uns e os outros são deixados de ladof – daí decorrem grandes e altas questões, as quais só se resolvem ensinando aos crentes o que eles podem compreender da eleição e da predestinação de Deus. Divisão da matéria Esta matéria compõe-se de duas partes. Primeiramente, devemos resolver a ques- tão sobre o motivo pelo qual uns são predestinados para a salvação e outros para a condenação. Depois é preciso demonstrar como o mundo é governado pela providência de Deus, visto que tudo o que se faz depende da Sua ordenação e do Seu comando. Antes, porém, de tratar desse argumento, devo fazer um estudo preliminar sobre duas classes de pessoas. Porque, além de o presente tema ser em si mesmo um tanto obscurog , a curiosidade dos homens o torna complexo e complicado, e mesmo perigosoh . Por quê? Porque o entendimento humano não pode refrear-se e a. Os capítulos precedentes já mostraram quanta leitura Calvino fez dos tratados deAgostinho De prædestinatione sanctorum, De gratia et libero arbitrio (Sobre a Predestinação dos Santos, Sobre a Graça e o Livre Arbítrio) etc. Erasmo tinha publicado em 1524 o seu tratado De libero arbitrio; Lutero tinha respondido em 1525 [com sua obra]: De servo arbitrio (Sobre o Arbítrio Servo, ou Escravo). Melanchton, antes determinado partidário da predestinação, silenciou sobre ela em 1530, na Confissão de Augsburgo, A Institutio de 1536 reafirma, aqui e ali, no capítulo II (De fide – Sobre a Fé) alguns elementos da doutrina, que foi exposta logicamente em 1539 e que aqui se acha traduzida, em 1541. A Instruction (Instrução) de 1537 já contém um artigo muito claro e preciso (XIII, Opera selecta – Obras Seletas, p. 390): Sobre a Eleição e a Predestinação. Durante os colóquios de Worms (dezembro de 1540) e de Ratisbone168 (maio de 1541), Calvino, então pastor em Estrasburgo, teve discussões com o holandês Pigghe, que deram ocasião a dois escritos: Defensio sanæ et orthodoxæ doctrinæ de servitute et liberatione humani arbitrii, adversus calumnias Pighii (Defesa da Sã e Ortodoxa Doutrina da Servidão e da Libertação do Livre Arbítrio Contra as Calúnias de Pigghe – Genebra, 1543), e De æterna Dei prædestinatione (Sobre a Predestinação Eterna de Deus), etc., só publica- do em 1552, em Genebra: a matéria do presente capítulo é desenvolvida ali. No prefácio da tradução do segundo tratado, Calvino diz expressamente: “Tratei suficientemente nas Institutas do que os cristãos de- vem compreender”, etc. 168 Como Worms, nome mais conhecido, Ratisbone (ou Regensburgo) era uma cidade da Alemanha (N. do T.). b. Essa diversidade é um fato inegável. É dessa constatação que Calvino sempre parte, quando fala sobre a predestinação. c. Instrução de 1537: “Numa tal diferença há a considerar necessariamente o grande mistério do conselho de Deus, porque a semente da Palavra de Deus só fixa raízes e frutifica naqueles que o Senhor, por Sua eleição eterna, predestinou para serem Seus filhos e herdeiros do reino celestial. d. æternæ voluntatis arbitrio. Nessas primeiras páginas de 1541 a tradução segue cada frase latina, como antes, mas é particularmente livre na escolha das palavras francesas, e capta com precisão o sentido do texto. e. nutu. f.Termo jurídico. g. aliquantum impedita. h. Vai-se notar que a doutrina da predestinação não é uma especulação filosófica (que teria seu lugar na parte inicial da obra, a propósito da doutrina de Deus), mas que é colocada por Calvino após a exposição da justificação pela fé, como o prolongamento da afirmação da salvação gratuita. Isso é ainda mais evidente na edição de 1559, onde a doutrina da providência encontra lugar logo no princípio do livro, a da predestinação não aparecendo senão na segunda metade, após a salvação, no fim do Livro III.
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    41 conter-se, mas sempretende a desgarrar-se, metendo-se em grandesa desvios e rodeios, e a subir alto demais em suas pretensões. Seu desejo é, se possível, não deixar nenhum segredo de Deus sem a sua investigação minuciosa. Pois vemos muitos caírem nessa audácia e nessa presunção. Além disso, muitos há que não são maus, mas que carecem da nossa admoestação no sentido de se dominarem e se controlarem nesta área. Em primeiro lugar, então, quando os homens quiserem fazer pesquisa sobre a predestinação, é preciso que se lembrem de entrar no santuário da sabedoria divina. Nesta questão, se a pessoa estiver cheia de si e se intrometer com excessi- va autoconfiança e ousadia, jamais irá satisfazer a sua curiosidade. Entrará num labirinto do qual nunca achará saída.1 Porque não é certob que as coisas que Deus quis manter ocultas e das quais Ele não concede pleno conhecimento sejam esquadrinhadasc dessa forma pelos homens. Também não é certo sujeitar a sabe- doria de Deus ao critério humano e pretender que este penetre a Sua infinidade eterna. Pois Ele quer que a Sua altíssima sabedoria seja mais adorada que compreendidad2 (a fim de que seja admirada pelo que é). Os mistérios da vontade de Deus que Ele achou bom comunicar-nos, Ele nos testificou em Sua Palavra. Ora, Ele achou bom comunicar-nos tudo o que viu que era do nosso interesse e que nos seria proveitoso. Se alguma vez nos ocorreu ou nos ocorrer este pensamento: que a Palavra de Deus é o único caminho que nos leva a inquirire tudo quanto nos é lícito conhe- cer sobre Ele; e mais, que ela é a única luz que nos ilumina para contemplarmos tudo quanto nos é lícito ver – ela nos poderá manter afastados de toda atitude temerária. Porque saberemos que, saindo dos limites próprios, caminharemos fora do caminho e vagaremos na escuridão total. E assim só poderemos errar, tropeçar e nos ferir a cada passo. Tenhamos, pois, em mente que será uma loucuraf querer conhecer todas as coisas relacionadas com a predestinação, exceto o que nos é dado na Palavra de Deus. Estejamos igualmente apercebidos de que, se alguém quiser caminhar por entre as rochas inacessíveis, irá mergulhar nas trevas. Calvino gosta de partir dos fatos da experiência toda vez que fala da predestinação. Vê-se que Calvino quer dar cabo desta discussão concernente à predestinação mediante um aconselhamento pastoral totalmen- te prático: que as almas busquem a causa da sua ruína em suas próprias faltas e culpas, onde ela é bastante evidente, e não nos mistérios que Deus não julgou oportuno revelar-nos. a. vetitas. b. æquum. c. impune excutiat. d. apprehendi. e. investigandum. f. insânia. 1 “A predestinação divina se constitui realmente num labirinto do qual a mente humana é completamente incapaz de desembaraçar-se. Mas a curiosidade humana é tão insistente que, quanto mais perigoso é um assunto, tanto mais ousadamente ela se precipita para ele. Daí, quando a predestinação se acha em discussão, visto que o indivíduo não pode conter-se dentro de determinados limites, imediatamente, pois, mergulha nas profundezas do oceano de sua impetuosidade.” [J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 9.14), p. 329-330] 2 O Ser essencial de Deus devemos adorar, não pesquisar com curiosidade” (João Calvino, As Institutas, (1541), I.14.
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    42 As Institutas– Edição Especial Certa ignorância é mais douta que o saber E não nos envergonhemos por ignorar algo deste assunto, no qual há certa igno- rância mais douta que o saber. Melhor faremos em dispor-nos a abster-nos de um conhecimento cuja exibição é estulta e perigosa, e até mesmo perniciosa. Se a curiosidade da nossa mente nos solicitar que investiguemos tudo, sempre temos em mãos esta sentença para rebater essa pretensão: “Quem esquadrinhar a majes- tade de Deusa será oprimido por sua glória”.3 Muito bom será que nos desenterre- mos dessa audácia, pois vemos que ela não nos pode fazer outra coisa senão precipitar-nos na desgraça. O outro extremo: omissão negligente Por outro lado, há outros que, desejando remediar esse mal, esforçam-se para fazer com que a lembrança da predestinação seja enterrada4 ; quando menos, eles nos advertem de que tomam cuidado para não inquirir nada a respeito dela, con- siderando-a uma coisa perigosab . Embora seja louvável a modéstia de querermos abordar os mistérios de Deus com grande sobriedade, descer tão baixo nisso não dá bom resultado para os espíritos humanos, porque estes não se deixam domarc tão facilmente.5 O equilíbrio da Escritura Por isso, para que tenhamos aqui bom equilíbrio, devemos examinar a Palavra de Deus, na qual temos excelente regra para o entendimento firme e correto. Por- quanto, a Escritura é a escola do Espírito Santo, na qual, assim como nada que seja útil e salutar conhecer é omitido, assim também não há nada que nela seja ensinado que não seja válido e proveitoso saber.6 a. Instrução de 1537, III: Visto que a majestade de Deus sobrepuja a capacidade da mente humana, e nem pode ser entendida por esta, devemos adorar a Sua altíssima posição, em vez de inquiri-la. b. a scopulo. c. coerceri. 3 Pv 25.2 [tradução direta]. 4 Traduzo literalmente para manter o paralelismo. Ver acima: Enterrados na audácia, devemos desenterrar-nos dela; e não devemos enterrar a doutrina da predestinação (N. do T.). 5 “As coisas que o Senhor deixou recônditas em secreto não perscrutemos, as que pôs a descoberto não negli- genciemos, para que não sejamos condenados ou de excessiva curiosidade, de uma parte, ou de ingratidão, de outra”. [J. Calvino, As Institutas, III.21.4]. 6 É o Espírito Quem nos ensina através das Escrituras (Vd. J. Calvino, As Institutas, I.9.3); esta é “a escola do Espírito Santo” (J. Calvino, As Institutas, III.21.3), que é a “escola de Cristo” [João Calvino, Efésios, (Ef 4.17), p. 133], “escola do Senhor”[João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 1.17), p. 55; (1Co 3.3), p. 100]; e, o Espírito é o “Mestre” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 1.16), p. 58]; “o melhor mestre” [João Calvino, As Institutas, IV.17.36]; é o “Mestre interior” [João Calvino, As Institutas, III.1.4; III.2.34; IV.14.9]. “O Espírito de Deus, de quem emana o ensino do evangelho, é o único genuíno intérprete para no-lo tornar acessível” [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 2.14), p. 93]. “.... é Ele que nos ilumina com a Sua luz para nos fazer entender as grandezas da bondade de Deus, que em Jesus Cristo possuímos. Tão importante é o Seu ministério que com justiça podemos dizer que Ele é a chave com a qual
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    43 Portanto, devemos tero cuidado de não impedir os crentes de procurarem saber o que há na Escritura sobre a predestinação, para não parecer que deseja- mos fraudá-los negando-lhes o bem que Deus lhes comunicou, ou que pretende- mos discutir com o Espírito Santo, como se Ele tivesse divulgado coisas que faria bem em suprimir.7 Permitamos, pois, que o cristão abra os ouvidos e o entendimento para toda doutrina dirigida a ele por Deus. Isso com a condição de que ele sempre mante- nha este equilíbrio, esta moderação: Quando vir fechada a santa boca de Deus, feche também o caminho da inquirição. Eis um bom marco memorial da sobrie- dade: Se em nossa aprendizagem ou em nosso ensinoa seguirmos a Deus, tenhamo- lo sempre adiante de nós. Contrariamente, se Ele parar de ensinar, paremos de querer continuar a ouvir e a entender.8 Então, o perigo que a boa gente que citei teme não é tão importante que deva levar-nos a deixar de prestar atenção em Deus, em tudo quanto Ele diz. Reconheço que os homens maus e blasfemosb depressa encontram na doutrina da predestinação coisas para acusar, torcer, re- moer e zombarc . Mas, se cedermos à sua petulânciad , eles darão fim aos artigos da nossa fé, dos quais não deixarão um só que não fique contaminado por suas blas- fêmias. Um espírito rebelde se porá a campo e, tanto ousará negar que numa só essência de Deus há três Pessoas, como também que, quando Deus criou o ho- mem, previu o que lhe aconteceria no futuro. Semelhantemente, esses maus ele- mentos não se absterão de rir-se quando lhes for dito que não faz muito mais que cinco mil anose que o mundo foi criado. Por que vão querer que lhes expliquemos como é que Deus ficou ocioso por tão longo tempo. Para reprimir tais sacrilégios, devemos deixar de falar da divindade de Cristo e do Espírito Santo? Devemos calar-nos sobre a criação do mundo? são abertos para nós os tesouros do reino celestial, e que a Sua iluminação são os olhos do nosso entendimen- to, que nos habilitam a contemplar os mencionados tesouros. Por essa causa Ele é agora chamado Penhor e Selo, visto que sela em nosso coração a certeza das promessas. Como também agora Ele é chamado mestre da verdade, autor da luz, fonte de sabedoria, conhecimento e discernimento”. [João Calvino,As Institutas, (1541), II.4]. Portanto, “Se porventura desejamos lograr algum progresso na escola do Senhor, devemos antes renun- ciar nosso próprio entendimento e nossa própria vontade.” [ João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 3.3), p. 100]. 7 “... É uma ímpia e danosa invenção tentar privar o povo comum das Santas Escrituras, sob o pretexto de serem elas um mistério oculto, como se todos os que o temem de coração, seja qual for seu estado e condição em outros aspectos, não fossem expressamente chamados ao conhecimento da aliança de Deus.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 25.14), p. 558]. 8 “....Que esta seja a nossa regra sacra: não procurar saber nada mais senão o que a Escritura nos ensina. Onde o Senhor fecha seus próprios lábios, que nós igualmente impeçamos nossas mentes de avançar sequer um passo a mais.” [J. Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo, Paracletos, 1997, (Rm 9.14), p. 330]. a. loquendo. b. profani. c. allatrent. d. procacitas. e. A era [ou idade] do mundo dita bizantina contava 5.508 anos desde a criação até ao dia primeiro de setembro do ano primeiro de Jesus Cristo.
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    44 As Institutas– Edição Especial Antes, muito ao contrário, a verdade de Deus é tão poderosa, tanto nesta questão como em tudo mais, que não teme a maledicência dos ímpios. O que Agostinho confirma muito bem em sua pequena obra intitulada Sobre o Benefício da Perseverança (“Du bien de persévérance9 ”). Porque vemos que os falsos apóstolos, ridicularizando e difamando a doutrina do apóstolo Paulo, nada mais puderam fazer do que se tornarem objeto de vergonha. Velhas objeções Há alguns que consideram esta discussão perigosa, mesmo quando mantida entre os crentes. Dizem eles que a doutrina da predestinação é contrária às exortações, abala a fé, perturba os corações e os abate. Mas essa alegação é fútil. Agostinho não dissimula o fato de que era criticado pelas razões acima citadas, pois ele pregava livre e abertamente a predestinação. Mas, com facilidade os refutou sufi- cientemente. Quanto a nós, visto que fazem objeção com diversos absurdos con- tra a doutrina que apresentamos, melhor será deixar para resolver, mais adiante, uma por veza . Por ora, desejo conseguir que todos os homens, em geral, se juntem a nós neste propósito: Que não procuremosb as coisas que Deus quis manter ocul- tas, e que não negligenciemos as que Ele tornou manifestas. Isso para que, por um lado, não sejamos acusados de curiosidade exagerada, ou, por outro, de ingra- tidão. Nesse sentido, esta sentença de Agostinho é muito boa: “Podemos seguir com segurança a Escritura, a qual condescende com a nossa pequenezc , como a mãe condescende com a pequenez do seu bebê, quando quer ensiná-lo a andar”.10 Definição de termos Os antigos explicavam diferentemente os vocábulos presciência, predestinação, eleição e providência. Nós, deixando de lado toda discussão supérflua, seguimos simplesmente a propriedade dos termosd . Quando atribuímos presciência11 a Deus, queremos dizer que todas as coisas sempre estiveram e continuam estando sob os Seus olhos, de modo que para o Seu conhecimento não há nada que seja futuro ou passado. Todas as coisas Lhe são presentes, e de tal modo presentes que Ele não as imagina como que mediante algumas espéciese ou categorias, como acontece com as coisas que temos na memória e que, lembrando-as, vêm diante dos nossos olhos pela imaginação, mas as vê e as observa real e verdadeiramente, como a. suo loco diluendam. b. ne scrutemur. c. velut materno incessu submissius graditur, ne infirmitatem nostram deserat. d. etymologiæ. e. ex idæis. 9 Capítulos 15 a 20. 10 Lib. V, De Genes.. ad litteram. 11 Daqui em diante, salvo possíveis casos excepcionais, substituiremos “presciência” por “pré-conhecimento”, que expressa melhor o significado do termo na Escritura.
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    45 estando diante doSeu rostoa . Dizemos que este pré-conhecimento abrange toda a área do universo e todas as criaturas. Denominamos predestinação o conselho eterno de Deus pelo qual Ele de- terminou o que desejava fazer com cada ser humano. Porque Ele não criou todos em igual condição, mas ordenoub uns para a vida eterna e os demais para a conde- nação eterna. Assim, conforme a finalidade para a qual o homem foi criado, dize- mos que foi predestinado para a vida ou para a morte. O uso conseguiu impor que se chame providência à ordemc que Deus segue no governo do mundo e na direção e condução de todas as coisas.12 A doutrina da predestinação Em primeiro lugar, trataremos da predestinação. Conforme o que a Escritura mostra claramente, dizemos que o Senhor constituiu uma vez por todas, em Seu conse- lho eterno e imutável, aqueles que Ele quis tomar para a salvação, e aqueles que Ele quis deixar em abandonod . Quanto aos que Ele chama para a salvação, dize- mos: Que Ele os recebee por Sua misericórdia gratuita, sem levar em conta a dignidade deles; que, ao contrário, o acesso à vida é vedadof a todos aqueles que Ele quis deixar entregues à condenação; e que isso é realizado por Seu juízo oculto e incompreensível, conquanto justo e imparcial. Ensinamos, ademais, que a vocação dos eleitos é como uma demonstração e um testemunhog da sua elei- ção. Semelhantemente dizemos que a justificação deles é outro símboloh e sinal dela, até quando eles chegarem à glória, na qual se dará o seu cumprimento e a sua consumaçãoi . a. Seria proveitoso que Calvino tivesse desenvolvido esse pensamento e lhe tivesse dado mais importância em sua exposição. Porque a principal pedra de tropeço que as almas encontram na doutrina da predestinação provém do fato de que a entendem num sentido temporal: antes de me chamar à existência histórica, Deus decidiu salvar-me ou deixar que eu pereça. Ora, em Deus não há nem antes nem depois, porque Ele vive na eternidade e não no tempo. Por conse- guinte, dizer que Deus me salva por pura graça (o que todo cristão deve dizer) e dizer que ele me salva desde toda a eternidade, é uma só e a mesma coisa. b. præordinatur. c. æconomiam. (sic) d. exitio. e.cooptari. Cf. Instrução, 1537: “Ora, por que o Senhor usa Sua misericórdia para com uns e exerce o rigor do Seu juízo para com os outros, convém deixar unicamente com Ele o conhecimento disso”. (Cf. acima, Sobre a Fé, e Institutio, 1536: Quos vocavit, justificat; vocat, dum ad se attrahit suos. –[Os que Ele chama, justifica; chama, e então os atrai a Si]). f. præcludi (termo do direito). g. 1539 tem somente: testificatio. h. Id.: symbolum. i. Calvino retoma aqui a gradação do apóstolo Paulo: predestinados, chamados, justificados, glorificados (Rm 8.30). 12 “Visto que a providência divina no mundo não é agora evidente, é mister que exerçamos paciência e subamos acima das sugestões do senso carnal a antecipar o resultado favorável.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 2, (Sl 49.1), p. 371].
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    46 As Institutas– Edição Especial Pois bem, assim como o Senhor assinala aqueles que Ele escolheu chamando- os e justificando-os, assim também, ao contrário, privando os réprobos do conheci- mento da Sua Palavra, ou da santificação realizada pelo Seu Espírito, Ele demons- tra por tal sinal qual será o fim deles, e que julgamento está preparado para eles. Deixo de lado, nesta altura, muitas fantasias forjadas por numerosos tolos, na tenta- tiva de derrubar a predestinaçãog . Vou restringir-me unicamente a considerar os argumentos deles que têm lugar entre pessoas dotadas de saber, ou que poderiam gerar escrúpulos entre os simples, ou, ainda, que têm alguma aparência de verdade, podendo fazer crer que Deus não é justo, se assim o considerarmos. O que ensinamos sobre a eleição gratuita dos crentes não é dito sem dificul- dade. Porque em geral se considera que o Senhor distingue entre os homens se- gundo prevêh os méritos de cada um deles. Assim sendo, Ele adota e introduz no número dos Seus filhos aqueles cuja natureza Ele prevê que deve ser tal que eles não são indignos da Sua graça.Ao contrário, dizem os tais mestres, Deus deixa na perdição aqueles que Ele sabe que devem ser inclinados à maldade ou à impieda- de. E essa opinião, comumente aceita nesses termos, não pertence somente à gente comum do povo; em todos os tempos ela tem tido a seu favor grandes escritores. O que eu declaro francamentea , a fim de que não se pense que isso prejudicará muito a nossa causa, se acontecer contra nós. Porque a verdade de Deus é tão clara neste campo que não poderá ser obs- curecida; e tão certa e firme que não poderá ser abalada por nenhuma autoridade dos homens. Certamente o apóstolo Paulo, ao nos ensinar que “fomos eleitos em Cristo antes da criação do mundo”,13 elimina toda e qualquer consideração por nossa dignidade ou merecimento. É como se dissesse: Visto que na semente uni- versal de Adão [nele e em sua descendência], o Pai celestial não encontrou nada que fosse digno da Sua eleição, dirigiu o olhar para o Seu Cristo, a fim de eleger, como membros do Seu corpo, aqueles que Ele quis admitirb à vida. Fique pois definido e estabelecido este argumento entre os crentes: que Deus nos adotou em Cristo para sermos Seus herdeiros, porque em nós mesmos não tínhamos capaci- dade para alcançar tão excelente posiçãoc . Isso o apóstolo registra igualmente bem noutro lugar, quando exorta os colossenses a darem graças a Deus por havê- los feito idôneos para participarem da herança dos santos.14 Se a eleição de Deus g. 1539 acrescenta aqui: “Non enim refutatione indigent quæ, simul ac proferuntur, suam ipsa felicitatem abunde redarguunt”. h. providet (1541, por erro: prenoit). a. ingenue. b. In vitæ consortium assumpturus. c. Palavra bem vinda ao pecador que reconhece que não encontra em sua vida nenhuma justiça que o torne merecedor da salvação. É a aflição das almas arrependidas que Calvino tem sem cessar diante dos seus olhos. Porque, antes de tudo, ele á pastor. 13 Ef 1.4 [tradução direta]. 14 Cl 1.12.
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    47 precede a estagraça pela qual Ele nos torna idôneos para obtermos a glória da vida futura, que encontrará Ele em nós que O mova a eleger-nos?15 O que pretendo mostrar ficará ainda mais bem expresso por esta outra sen- tença: Deus nos escolheu, diz ele, “antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vonta- de”.16 Paulo coloca o beneplácito de Deus em oposição a todos os méritos que se possa mencionar, porque, onde quer que reine o beneplácito17 de Deus, nenhuma obra entra em consideração. É certo que ele não trata dissoa nessa passagem, mas devemos entender essa comparação nos termos em que ele a explica noutro lu- gar, quando diz: Deus “nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos”.18 As palavras que na passagem de Efésios ele acrescenta (“para sermos santos e irrepreensíveis”) não nos livram totalmente de inquietação. Sim, pois, se dissermos que Deus nos escolheu porque previu que seríamos santos, estaremos invertendo a ordem seguida pelo apóstolo Paulo. Sumário certo e seguro Podemos então afirmar com segurança: Visto que Ele nos escolheu a fim de que fôssemos santos, logo não foi porque previu que haveríamos de ser santos. Por- que as duas coisas são contraditórias entre si: que os crentes obtenham a sua santidade graças a sua eleição; e que por essa santidadeb eles tenham sido eleitos. As cavilações sofísticasc a que os tais mestres sempre recorrem não têm nenhum valor aqui. No presente caso eles dizem que, embora Deus não recompense os méritos anteriores à graça da eleição, Ele os recompensa pelos méritos futuros. Mas logo se vê que quando se diz que os crentes foram escolhidos para serem santos, significa que toda a santidade que eles haveriam de ter tem sua origem e seu iníciod na escolha. E com que tipo de coerência se poderá dizer que o que é produto de eleiçãoe seja causa desta? Além disso, o apóstolo confirma com ainda maior firmeza o que tinha dito, acrescentando que Deus nos escolheu conforme o decreto da Sua vontade, que Ele determinou em Si mesmo. Isso equivale a dizer que Ele não considerou coisa alguma fora de Si mesmo à qual desse atenção, a. antithesin. b. ratione operum. c. cavillum. d. 1539 tem somente: exordium e. quæ ab electione derivantur. 15 “Se porventura Deus escolheu uns e rejeitou outros, em consonância com sua previsão, se serão dignos ou não da salvação, então o galardão das obras já foi estabelecido, e a graça de Deus jamais reinará soberana, mas será apenas uma metade de nossa eleição”. [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 11.6), p. 389]. 16 Ef 1.4,5. 17 A vontade prazerosa de Deus. Sua “boa, agradável e perfeita” vontade (Rm 12.2) (N. do T.). 18 2Tm 1.9.
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    48 As Institutas– Edição Especial quando procedeu a essa deliberação. Por isso Paulo acrescenta, logo a seguir, que tudo aquilo em que se resume a nossa eleição tem que ver com este objetivo: “para louvor da glória de sua graça”. Certamente a graça de Deus só merece ser exaltada em nossa eleição se for gratuita. Ora, não seria gratuita se Deus, ao escolher os Seus, atribuísse algum valor às obras de cada pessoa eleita. Daí se vê que o que Cristo disse aos Seus discípulos é verdade aplicável a todos os crentes. Disse Ele: “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros”.19 Com isso Ele não somente exclui todos os méritos anteri- ores, mas também quer dizer que eles não tinham nada em si mesmos que desse motivo para serem escolhidos, pois Ele se antecedeu a eles com a Sua misericórdiaa . Nesse sentido devemos também tomar estes dizeres do apóstolo Paulo: “Quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído?20 ”. Porque ele quer mos- trar que a bondade de Deus de tal maneira se antecipa aos homens que ela não encontra nada neles, nem quanto ao passado nem quanto ao futuro, que lhes pos- sibilite cooperar com elab .21 Ilustração baseada em Jacó e Esaú Acresce que, na Epístola aos Romanosc , onde Paulo começa este argumento do ponto mais alto e depois lhe dá seqüência mais ampla, ele trata, sob o exemplo de Jacó e Esaú, da condição dos eleitos e dos reprovados, e o faz desta maneira22 : “E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por a. sua misericordia antevertisset. b. quo ipsis concilietur. c. A Epístola aos Romanos foi a primeira da qual Calvino publicou um comentário, desde 1539, tendo-o publicado em Estrasburgo. Todo esse comentário feito sobre os versículos 6 a 18 do capítulo 9 expressa, noutros termos, o que faz parte do conteúdo da segunda edição da Institutio, publicada em Estrasburgo nesse mesmo ano. (Op. Calv., XLIX, 174 a 182). 19 Jo 15.16. 20 Rm 11.35. 21 “Que outra coisa poderá Deus encontrar em nós, que o induza a amar-nos, a não ser aquilo que ele já nos deu?”, indaga Calvino. [João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 6.10), p. 159]. Em outro lugar: “É preciso lembrar que sempre que atribuímos nossa salvação à graça divina, estamos confessando que não há mérito algum nas obras; ou, antes, devemos lembrar que sempre que fazemos menção da graça, estamos destruindo a justiça [procedente] das obras.” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 11.6), p. 389]. “As pessoas são muitíssi- mo insensatas ao suporem que existe algum mérito ou dignidade nos homens que preceda a eleição divina.” [João Calvino, Exposição de 1Coríntios, (1Co 1.28), p. 70]. Ainda: “Que ninguém conclua que os eleitos o são em virtude de serem eles merecedores, ou porque de alguma forma conquistaram para si o favor divino, ou ainda porque possuíam alguma semente de dignidade pela qual Deus pôde ser movido a agir. A idéia simples, que devemos levar em conta, é esta: o fato de sermos contados entre os eleitos independe tanto de nossa vontade quanto de nossos esforços – pois o apóstolo substituiu correr por esforço ou diligência. Ao contrário, deve ser atribuído totalmente à benevolência divina, a qual, por si mesma, recebe graciosamente aqueles que nada empreendem, nem se esforçam, nem mesmo tentam.” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 9.16), p. 333]. “Em toda a Escritura se faz evidente que não existe outra fonte de salvação exceto a graciosa mercê divina.” [João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 6.10), p. 158]. 22 Rm 9.11-13.
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    49 aquele que chamaa ),já fora dito a ela: O mais velho será servo do mais moçob . Como está escrito: Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú”. Que é que preten- dem aqueles que, obscurecendo essas palavras, atribuem algum lugar às obras em nossa eleição (quer anteriores quer futuras)? Isso é inverter completamente o que o apóstolo diz, pois, segundo este, a diferença existente entre os dois irmãos não depende em nenhum aspecto das suas obras, mas da pura e simples vocação de Deus. Sim, porquanto Deus determinou o que iria fazer antes de eles terem nasci- do. A sutileza utilizada pelos sofistasc não escaparia ao conhecimento de Paulo, se tivesse algum fundamento. Mas, como ele sabia que Deus não poderia prever nada de bom no homem, senão o que deliberou dar-lhe pela graça da Sua eleição, deixou de lado essa opinião perversa, que consiste em preferir as boas obras à sua causa e origem. Dasd palavras do apóstolo deduzimos que a salvação dos que crêem funda-se no beneplácito da eleição de Deus, e que esta graça não é adqui- rida por boas obras, mas lhes vem da Sua bondade gratuita. Elas nos propiciam também como que um espelho ou um quadro que representa esta verdade. Esaú e Jacó são irmãos, gerados dos mesmos pais, de uma mesma gestação, estando juntos no ventre de sua mãe antes de nascerem. Todas as coisas são semelhantes num e no outro; todavia, o juízo de Deus distingue entre eles, pois escolhe um e rejeita o outro. Só restava a questão da primogenitura, que fazia que um fosse preferido ao outro. Mas mesmo isso foi deixado para trás; foi dado ao que nasceu por último o que foi negado ao que nasceu primeiro. Outros exemplos Em muitos outros casos se vê que Deus, com deliberado propósito, desprezou a primogenitura a fim de extirpar da carne todo elemento de glória. Rejeitando Ismael, ligou o Seu coração a Isaque; rebaixando Manasses, preferiu Efraim23 . Se alguém replicar que não devemos julgar questões relacionadas com a vida eterna recorrendo a coisas inferiores e levianas, e que é uma zombaria inferir que aquele que é exaltado pela honra da primogenitura é adotado como participante da herança celestial (havendo alguns que não poupam nem mesmo o apóstolo Paulo, dizendo que ele abusou dos testemunhos da Escritura, aplicando-os a este assunto), respondo que o apóstolo não falou disso inconsideradamente, e não quis torcer o sentido dos testemunhos da Escritura; mas ele enxergava o que esse tipo de gente era incapaz de considerar. É que Deus quis, por meio de um sinal corporal, representar a eleição espiritual de Jacó, a qual, noutro aspecto, estava oculta em Seu conselho secreto. Porque, se não aplicássemos à vida futura a a. ex vocante. b. minor (o caçula). c. istorum. d. ex. 23 Gn 17 e 48. [Ver Gn 21.12.]
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    50 As Institutas– Edição Especial primogenitura que foi dada a Jacó, a bênção que ele recebeu seria totalmente ridícula, porque não teria outra coisa senão total miséria e calamidade. Vendo, pois, o apóstolo Paulo que Deus, por meio dessa bênção exterior, testificou Sua bênção eterna, que Ele preparou em Seu reino celestial para o Seu servo, não teve dúvida nenhuma em tomar o argumento de que Jacó recebeu a primogenitura para provar que ele foi escolhido por Deus. Portanto, Jacó foi elei- to, Esaú tendo sido repudiado, e assim é feita distinção entre eles pela eleição de Deus – apesar de não haver diferença em seus méritos. Qual o motivo disso? Se alguém pedir a razão disso, Paulo lhe dará; é o que Deus disse a Moisés: “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer”.24 E que será que isso quer dizer? Claro está que o Senhor afirma explicitamente que não encontra em nós nenhuma razão pela qual deva fazer-nos bem, mas que se baseia totalmente em Sua misericórdia, pelo que a salvação dos Seus é Sua obra, e de mais ninguém. Responda quem puder Uma vez que Deus firma unicamente em Si a tua salvação, por que hás de descer a ti? Visto que Ele destina a ti a Sua misericórdia como causa única, por que hás de desviar-te e recorrer aos teus méritos? Como Ele quer que todo o teu pensa- mento se restrinjaa a concentrar-se unicamente em Sua bondade, porque o farás mudar, considerando em parte as tuas obras?25 Mas não faltará quem me diga queAmbrósio, Jerônimo e Orígenes escreve- ram que Deus distribui a Sua graça entre os homens conforme o conhecimento que tem de que cada um deles fará bom uso dela. Concedo mais que isso: que Agostinho tinha a mesma opiniãob . Entretanto, depois de obter melhor conheci- mento da Escritura, não somente se retratou, declarando-a falsa, mas a refutou com vigor e firmeza.26 E, acusando os pelagianos desse erro, emprega as pala- vras: “Quem se espantaria se essa tão grande sutileza levasse o apóstolo a fraquejar, pois, tendo tratado do caso muito estranho concernente a Esaú e Jacó, e tendo formulado a pergunta, ‘Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus?’, poderia responder que Deus tinha previsto os méritos de ambos, se ele quisesse resolver a questão rapidamente. Ora, não foi isso que ele disse, mas sim, reduziu tudo ao juízo e à misericórdia de Deus”. – Oxalá o testemunho de Agostinho tenha algum valor para os que estão acostumados a fixar-se na autoridade dos pais! a. contineat. b. As epístolas de Agostinho faltam na edição de Paris, 1515, mas se encontram na edição de Erasmo, Basiléia, 1529. 24 Êx 33.19. 25 Adoto nesse trecho a segunda pessoa, em tradução literal, para destaque e ênfase (N. do T.). 26 Lib. Retractation., I, cap. II. Epistola ad Sixtum, 105.
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    51 Consideração da matériaem si Suponhamos, porém, que ele não dissesse nada, e consideremos a coisa em si. O apóstolo fez uma pergunta muito difícil, a saber, se Deus age com justiça só beneficiando com Sua graça a quem Lhe apraz. Ele poderia solucionar o caso com uma breve palavra – afirmando que Deus leva em conta as obras. Por que não fez isso? Por que continuou ele em seu propósito, de molde a deixar-nos na mesma dificuldade? Não há outra razão, senão que é seu dever proceder assim, porque o Espírito Santo, que falava por sua boca, jamais deixou algo no esque- cimento. Por isso ele responde sem tergiversação, sem subterfúgios, que Deus aceita pela graça os Seus escolhidos porque Lhe apraz, e lhes faz misericórdia porque Lhe apraz. Porquanto, o testemunho de Moisés citado por ele, “terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer”, é como se dissesse que Deus não é movido à misericórdia e à bondade por nenhuma outra causa senão por Seu querer – porque Ele quer. Logo, o que diz Agostinho noutro lugar permanece verdadeiro, a saber, que a graça de Deus não encontrou coisa alguma pela qual devesse escolher os Seusa ; mas Ele os escolheu.27 A sutileza de Tomás de Aquino vira bigorna sob o malho da verdade Não me preocupa esta sutilezab de Tomás de Aquino:28 que, embora o pré-conhe- cimento dos méritos não possa ser mencionado como causa da predestinação por parte de Deus, todavia pode ser chamada assim por parte de nós. Como quando ele declara que Deus predestinou os Seus eleitos para receberem a glória por seus méritos, visto que Ele quis dar-lhes a graça pela qual eles merecem essa glória. Muito ao contrário, uma vez que Deus não queria que considerássemos coisa alguma em nossa eleição senão a Sua bondade e nada mais, é uma atitude forçada e perversa querer ter em consideração alguma outra coisa. Se eu quisesse contender fazendo uso também de sutileza, teria bom recurso com o qual rebater esses ro- deios sofísticosc de Tomás. Ele afirma que de algum modo a glória foi preordenadad para os eleitos por seus méritos, porque Deus lhes deu primeiramentee a graça para que eles a merecessem. Que se dirá, porém, se eu replicar contrariamente, dizendo que a graça [ou o dom] do Espírito Santo, que o nosso Senhor Jesus Cristo dá aos Seus, promove a a. non invenire eligendos, sed facere. b. argutiam. c. argutiolam. d. prædestinari. Calvino faz notar aqui, e mais adiante, os sinônimos que ele prefere a predestinar. e. prædestinat. 27 Epist. 106. 28 In pri. sentent. tract., quæst. 23.
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    52 As Institutas– Edição Especial eleição deles, vendo-se logo que essa graça não precedea à eleição, visto que ela é conferida àqueles aos quais a herança da vida foi destinada anteriormente? Porque a ordem que Deus segue consiste em justificar depois de ter escolhido. Decorre disso que a predestinação de Deus, pela qual Ele delibera chamar os Seus para a salvação, é antes causa da deliberação de que os haverá de justificar, e não outra coisa. Mas, deixemos todos estes debates inúteis com aqueles que acham que têm bastante conhecimento da Palavra de Deus. Pois disse bem um antigo doutor29 quando declarou que aqueles que atribuem aos méritos [huma- nos] a causa da eleição, querem saberb mais do que aquilo que lhes seria útil. E quanto aos réprobos? Tratemos agora dos réprobos, dos quais Paulo fala também na citada passagem.30 Porque, como Jacó, não tendo mérito algum por suas boas obras, foi aceito pela graça, também Esaú, não tendo feito nenhuma ofensa, foi rejeitado por Deusc . Se dirigíssemos nossas reflexões às obras, faríamos injúria ao apóstolo, como se ele não tivesse enxergado algo que para nós é evidente. Ora, que ele não viu isso está patente, porque especificadamente ele segue esta linha: nenhum dos dois fez nem o bem nem o mal, e um deles foi escolhido e o outro reprovado; donde se conclui que o fundamento da predestinação não está nas obras. Ademais, tendo feito esta pergunta, se Deus é injusto, Paulo não alega que Deus deu a Esaú o que a sua maldade merecia (com o que ficaria clara e certa a defesa da eqüidade de Deus). Mas ele apresenta uma solução inteiramente diversa. Diz ele que Deus suscita os réprobos a fim de neles exaltar a Sua glória. Finalmente ele acrescenta, em con- clusão, que Deus faz misericórdia a quem Lhe parece bem, e endurece a quem bem Lhe parece. Vemos que o apóstolo subordina um e outro ao beneplácito de Deus. Então, se não podemos atribuir outra razão pela qual Deus aceita os Seus eleitos que não seja o Seu agrado, tampouco teremos outra razão pela qual Ele rejeita os demais, senão a Sua vontade. Porque, quando se declara que Deus en- durece ou faz misericórdia conforme o Seu beneplácito, essa declaração é feita para nos advertir de que não procuremos causa nenhuma fora da Sua vontade. a. Coisa bastante rara: esta frase é antes uma paráfrase do texto de 1539: Prædestinationem ad gratiam, electioni ad vitam subservire, esseque ejus veluti pedissequam; gratiam iis prædestinari quibus gloriæ possessio jamdiu assignata sit, quia in justificationem ex electione filios suos adducere Domino placeat. b. sapere. c. Cf. Farel, Sumário, cap XLII (Sobre o Dia do Juízo): “a plena revelação da glória dos eleitos... ...será na vinda triunfal do nosso Salvador... Então os eleitos inscritos e enumerados no livro da vida antes que o mundo existisse... etc. Considerem Esaú... Considerem Judas..., com tantos milagres realizados. Mas isso tudo nada vale!... Deus somente salva e dá vida conforme o que dispôs... Nada pode impedir a eleição de Deus, e Seu propósito imutável... O propósito de Deus é firme: porque a eleição e a graça de Deus... não estão presas a nenhum tempo, a nenhum lugar, a nenhuma pessoa, a nenhum modo de agir”, etc. 29 Ambros., De vocatione gent., li. I, cap. II. 30 Rm 9.
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    53 A imoderação humanagera reações contrárias à doutrina da predestinação Ora, quando o entendimento humano ouve estas coisas, sua intemperança não se pode conter e provoca inquietação e reações emocionais, como se uma trombeta tivesse dado toque de avançar. Porque os homens carnais (cheios de loucuras como estão) contestam a Deus como se O tivessem sujeito às suas repreensões! Primeiro eles exigem que se explique com que propósito Deus se enfurece contra as Suas criaturas que não lhe fizeram nenhuma ofensa. Porque, pôr a perder e arruinar a quem bem Lhe parece é coisa mais própria da crueldade de um tirano que da sentença justaa dada por um juiz. Assim lhes parece que os homens têm bom motivo para queixar-se de Deus, se por Seu puro querer, sem o próprio mé- rito deles, foram predestinados à morte eterna. O recurso dos crentes Se tais cogitações subirem alguma vez ao entendimento dos crentes, eles estarão suficientemente armados para as repelir, bastando que considerem que tremenda temeridade é sequer inquirir as causas da vontade de Deus. Pois a vontade de Deus é (com todo o direito) a causa de todas as coisas que se fazem31 .32 Por que, se ela tivesse alguma causa, esta necessariamente a precederia, e seria como se estivesse atada a ela, o que não é lícito nem imaginar. Porque a vontade de Deus é de tal modo a regra suprema e soberana da justiça que tudo o que Deus quer, necessariamente o tem como justo, simplesmenteb porque o quer. Por isso, se for feita a pergunta: Por que Deus agiu assim? Deve-se responder: Por que Ele o quis. Se ainda se perguntar: Por que Ele o quis? É querer conhecer uma coisa maior e mais alta que a vontade de Deus; o que não se pode encontrar. Portan- to, que a temeridade humana trate de se moderar, e que não procure o que não está a seu alcance, sob pena de não encontrar o que está. Estas rédeas serão muito boas para conter e manter reverentes todos os que desejam refletirc sobre os mistérios de Deus. Contra os ímpios Deus não precisa de advogados Contra os ímpios, que com destemor falam mal de Deus abertamente, o Senhor se defende suficientemente com a Sua justiça, sem que Lhe sirvamos de advogados. Faz isso quando, pondo fim às suas tergiversações em sua consciência, Ele os a. legitimæ sententiæ. b. eo ipso quod vult. c. philosophari. 31 (1539) Hoc ex Augustino sumptum: De Gene., contra Manichæos, ib. I, cap. III. 32 “Não busquemos a causa em parte alguma, senão na vontade divina. Notemos particularmente as expressões de quem quer e a quem lhe apraz. Paulo não permite que avancemos além disto.” [J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 9.18), p. 337].
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    54 As Institutas– Edição Especial pressiona e os convence ao ponto de não poderem escapara . Não obstante, para que não toleremos que eles façam zombaria do Seu santo Nome, Deus nos deu uma armadura completa em Sua Palavra para podermos resistir ao furor deles. Portanto, se alguém nos atacar com o propósito de querer saber por que Deus predestinou alguns para a condenação eterna, sem terem feito nada para merecê- la, visto que ainda não existiam, lhes perguntaremos, por outro lado, em que ele pensa que Deus é devedor ao homem, se acha que Ele tem a sua natureza. Pois, como todos nós fomos corrompidos e estamos contaminados por vícios e peca- dos, nada podemos fazer que não nos faça objeto do ódio de Deus. E isso não é por crueldade tirânica, mas por uma eqüidade racionalb . Sendo, pois, verdade que todos os homens, em sua condição natural, são culpados e réus de condenação mortal, de que maldade, imploro que me digam – de que maldade se queixarão os que Deus predestinou para a morte? Que todos os filhos de Adão se apresentem para contender e combater contra o seu Criador porque Ele, por Sua providência eterna, antes do seu nascimento, eles foram destinados33 à calamidade perpétua! Quando, ao contrário, Deus os levar a se conhecerem a si mesmos, que é que poderão murmurar contra isso? Pois, como todos eles fazem parte de uma massa corrupta, não é de admirar que estejam todos sujeitos à condenação eterna. Por- tanto, é melhor que não acusem Deus de maldade ou de injustiça, visto que, mediante o Seu juízo eterno, eles foram ordenados para a condenação, à qual a sua própria natureza os levac . A corrupção humana terá sido predestinada? Mas alguém perguntarád se os homens não foram predestinados pela ordenação de Deus a esta corrupção que dizemos ser a causa da sua ruína. Porque, dirá o inquiridor, quando eles perecem em sua corrupção, outra coisa não é senão que eles levam em si a calamidade na qual Adão, pela vontade de Deus, caiu, e na qual precipitou todos os seus sucessores. Deus não é, pois, injusto em brincar tão cruelmente com as Suas criaturas? Em resposta, reconheço que foi pela vontade de Deus que todos os filhos de Adão caíram nesta miséria, na qual agora estamos retidose . Mas o que eu venho dizendo desde o começo é que devemos sempre a. Calvino remete aqui o incrédulo à sua consciência, que, malgrado todos os argumentos intelectuais empre- gados para desculpá-lo (“se eu agi mal, é que Deus o quis”), lembra-lhe sem cessar a sua responsabilidade moral e, pois, a sua culpabilidade pessoal. b. æquissima justitiæ ratione. c. sponte perducuntur. d. Acréscimo feito no texto latino. e. Se nem mesmo a consciência do pecador o convence de culpabilidade pessoal, ele deve se lembrar que está envolvido na rebelião universal da raça, e, como é filho de Adão, não tem direito a outra coisa senão à condenação. Calvino fecha aqui o círculo (e a Bíblia não lhe dá esse direito?), atribuindo a queda de Adão à vontade de Deus. Isso o leva forçosamente a “pôr em seu devido lugar” a última questão levantada pelo homem, e a mais grave, citando a admoestação do apóstolo: “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?” 33 Literalmente: consagrados (N. do T.).
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    55 retornar tão-somente aobeneplácito de Deusa , pelo qual Ele mantém a causa oculta em Si mesmo. Disso não se segue, porém, que possamos detratar a Deusb , pelo que nos adiantamos, com o apóstolo Paulo, desta maneira: “Quem és tu, ó ho- mem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra?”c34 Dirão os opo- nentes que não se pode defender retamente dessa maneira a justiça de Deus, mas que isso não passa de um subterfúgio próprio daqueles que não têm desculpa satisfatória. Porque se vê que isso não diz nada, exceto que o poder de Deus não pode ser impedido de fazer o que bem Lhe parece. Digo que é coisa bem diferen- te. Pois, que motivo mais firme e mais forte se poderá apresentar do que o de nos exortar a que pensemos em quem Deus é? Porque, como poderia cometer alguma iniqüidadeAquele que julga o mundo? Se é próprio da Sua natureza fazer justiça, Ele ama naturalmente essa justiça, e odeia toda iniqüidaded . Por isso o apóstolo não procurou nenhum esconderijo, como se estivesse surpreso ou derrotado; mas ele quis mostrar que a justiça de Deus é tão alta e tão excelente que não deve ser reduzida à medida humana ou ser comprimida pela pequenez do entendimentoe dos homens. O apóstolo confessa, alto e claro, que os juízos de Deus têm uma profundi- dade que pode abismar a mente de todos quantos queiram alcançá-los. E não seria coisa por demais irracional querer submeter as obras de Deus a uma condi- ção na qual, quando pudéssemos entender a razão, ousaríamos vituperá-lo, insultá- lo? Pois logo aí vem algum maniqueu ou Celestino ou outro herege para caluniar a providência de Deus! Digo, com o apóstolo Paulo, que não há necessidade de 169 João (Johannes) Duns Scotus (1265 ou 1274-1308). Filósofo medieval, autor de comentários da Bíblia, de Aristóteles e das Sentenças de Pedro Lombardo, e outras obras. Defendia, entre outras coisas, que se pode obter um puro conhecimento da teologia somente pelo uso da razão. É chamado “Doctor Subtilis” (Doutor Sutil). Não há certeza sobre onde nasceu, apesar do nome (“Scotus” – “Scot” – escocês). Alguns dizem que ele nasceu na Inglaterra, outros, na Irlanda do Norte (N. do T.). 170 Guilherme de Occam, ou de Ockham, inglês (nasceu entre 1290 e 1300, aproximadamente, e morreu por volta de 1349). Um dos “escolásticos”, chamado “Doctor Singularis et Invincibilis” (Doutor Singular e Invencível). Tornou-se mais famoso por suas obras sobre lógica e sobre filosofia, e por sua teoria política (N. do T.). a. A expressão “tão-somente ao beneplácito de Deus” implica que, em Seu “beneplácito”, Deus tem a razão ou “a causa oculta em Si mesmo”. E mostra que estamos longe da doutrina que o próprio Calvino imputa a Scotus169 e que Occam170 certamente sustentava sobre a arbitrariedade divina. Para Calvino, não existe causa ou razão mais alta que a vontade de Deus, mas a vontade de Deus tem, ela própria, razões de sabedoria e justiça inacessíveis ao nosso entendimento. Durante toda a sua vida, Calvino muitas vezes protestou contra a identificação da sua doutrina com a que ele imputa, com ou sem razão, a Scotus. (Ver isso na edição de 1560 das Institutas de Calvino, III, XXIII, 2 e 4.) 34 Ef 3; [Rm 9.20, 21]. b. huic obtrectationi Deum subjacere. c. in contumeliam. d. Calvino toma posição aqui contra o scotismo [relativo a Duns Scotus], que admitia arbitrariedade em Deus. Para o nosso reformador, tudo depende efetivamente da livre vontade de Deus, mas esta vontade é justa por natureza. e. absorbendæ mentes.
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    56 As Institutas– Edição Especial explicar a razão desta verdade, porque ela “excede todo o entendimento”.35 Que absurdo há nisso? Gostaríamos que o poder de Deus fosse tão limitado que não conseguisse fazer coisa alguma que o nosso espírito não pudesse compreender?!36 Digo com Agostinho37 que Deus criou alguns que Ele previu38 que iriam para a perdição eterna, e que o fez porque o quis.39 Ora, porque Ele o quis não significa que nos cabe exigir a razão, visto que não a podemos compreender. E, por outro lado, não se deve discutir se a vontade de Deus é justa ou não; quando se falar a respeito da vontade de Deus, esta deve ser entendida sob o nome de regra infalívela da justiça. Como se vai duvidar se há iniqüidade onde a justiça é patente? Portanto, não hesitemos em fechar a boca dos ímpios, como fez o após- tolo Paulo; e, todas as vezes e quantas eles se atreverem a vociferar40 , não vacile- mos em contestar, dizendo: Quem são vocês, pobres e miseráveis [criaturas], para intentarem acusação contra Deus? Vocês não têm outro motivo senão rebai- xar a grandeza das Suas obras à sua rudeza humana, como se o que Ele faz fosse mau, simplesmente porque nos é oculto! – Não ganharemos nada em querer argu- mentar em mais alto nível, porque não satisfaremos à sua petulância. E, por outro lado, Deus não se serve doutra defesa que a que Ele usou por meio do Seu Espí- rito, falando pela boca do apóstolo Paulo. E o que é mais, desaprendemos a falar bem quando não falamos em conformidade comb Deus. Mais uma objeção dos ímpios: Desculpa para o pecador Há outra objeção produzida pela impiedade, objeção que, todavia, não tende tan- to a blasfemar contra Deus como a escusar o pecador. Se bem que, a bem da verdade, o pecador não poderá justificar-se sem difamar o Juiz. Mas vejamos qual é. Por que, indagam os opositores, Deus julgará más as coisas que lhes im- a. suprema. b. cum Deo. 35 Fp 4.7. 36 “Ponderem, por uns instantes, aqueles a quem isto se afigura áspero, quão tolerável lhes seja a impertinência, quando, porque lhes excede a compreensão, rejeitam matéria atestada de claros testemunhos da Escritura e inquinam de vício o serem a público trazidas cousas que, a não ser que houvesse reconhecido serem provei- tosas de conhecer-se, Deus jamais haveria ordenado fossem ensinadas através de Seus Profetas e Apóstolos. Ora, nosso saber não deve ser outra cousa senão abraçar com branda docilidade e, certamente, sem restrição, tudo quanto foi ensinado nas Sagradas Escrituras.” [João Calvino, As Institutas, I.18.4]. 37 Epist. 106. “A graça não teria razão de ser se os méritos a precedessem. Mas a graça é graça. Não encontrou méritos, foi a causa dos méritos. Vede, caríssimos, como o Senhor não escolhe os bons mas escolhe para fazer bons”, orienta pastoralmente Agostinho (354-430). [“A graça não teria razão de ser se os méritos a precedessem. Mas a graça é graça. Não encontrou méritos, foi a causa dos méritos. Vede, caríssimos, como o Senhor não escolhe os bons mas escolhe para fazer bons”, orienta pastoralmente Agostinho (354-430)]. 38 Entendo que no presente contexto Calvino empregou o verbo “prever” neste sentido: ”Julgar por antecipação que algo deverá acontecer” (apud Nouveau Petit Larousse em Couleurs). Nota do tradutor. 39 “Se porventura Deus escolheu uns e rejeitou outros, em consonância com sua previsão, se serão dignos ou não da salvação, então o galardão das obras já foi estabelecido, e a graça de Deus jamais reinará soberana, mas será apenas uma metade de nossa eleição”, conclui Calvino. [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 11.6), p. 389]. 40 Literalmente: “ladrar como cães” (N. do T.).
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    57 pôs como necessáriaspor Sua predestinação? Que poderiam fazer os homens? Resistiriam aos decretos divinos? Mas seria em vão, e nem poderiam fazê-lo inteiramente. Portanto, não é direito Deus punir as coisas cuja principal causa está em Sua predestinação. Não usarei aqui o tipo de defesa geralmente empregado pelos doutores da igreja, qual seja, que o pré-conhecimento de Deus não impede que o homem seja considerado pecador, no qual Ele vê as práticas pecaminosas, e não os Seus [esco- lhidos]. Porque aqueles que estão habituados a rodeios sutis não se contentariam com isso [caso acedêssemos], mas iriam mais longe e diriam que, se Deus quises- se, poderia impedir os males e maldades que previu. Mas não o fez. Em vez disso, criou o homem para portar-se dessa maneira. Ora, se o homem foi criado em tal condição que haveria de fazer tudo o que faz, não se pode julgar como faltas as coisas que ele não pode evitar e às quais ficou adstrito pelo querer de Deus. Vejamos como se pode sair dessa dificuldade. Resposta Devemos primeiro aceitar como coisa resolvida o que diz Salomão: “O Senhor faz tudo com um propósito; até os ímpios para o diaa do castigo”.41 Sendo, pois, que a disposição de todas as coisas está nas mãos de Deus, e que Ele envia a morte ou a vida como Lhe apraz, Ele dispensa e ordena, por Seu conselho, que alguns, desde o ventre de sua mãe, sejam certa e seguramente destinados à morte eterna, para que o Seu Nome seja glorificado na perdição deles. Se alguém, querendo escusar a Deus, alegar que, por Sua providência, Ele não lhes impõe nada necessariamente, mas que, vendo a perversidade que terão, cria-os visando a essa condição, dirá alguma coisa, mas não tudob . Os antigos doutores se serviam algumas vezes dessa solução, mas como que em dúvida. Os sorbonistasc se apegaram inteiramente a ela, como se não houves- se como contestá-lad . Pois bem, concedo que o pré-conhecimento, só, não confere nenhuma ne- cessidade às criaturas, embora eu saiba que nem todos concordarão com isso, porque há quem faça dela a causa de todas as coisas. Mas me parece que Lorenzo Valla fez uma distinção mais sutile , que mostra que essa contenda é vã, porquanto a. ad diem malum. b. Vê-se que Calvino não rejeita totalmente a solução proposta, mas que a acha insuficiente. É que a sua noção da soberania de Deus o impedia de aceitar o conceito de uma “permissão nua” [e crua]. A única permissão que ele podia conceber, segundo o seu ponto de vista, era uma permissão que implica a certeza objetiva do evento, sem que, aliás, a natureza intrínseca desse evento seja modificada. Isso ressalta as últimas linhas do presente parágrafo [5º. Parágrafo na presente tradução]. A posição assumida por Calvino veio a ser clássica entre os seus discípulos, e se encontra nas confissões de fé que abordam este assunto. c. scholastici. d. nihil opponi posset. e. O tratado de Lorenzo Valla, De libero arbitrio (Sobre o Livre Arbítrio) tinha sido reimpresso em 1518, em Basiléia. 41 Pv 16.4 [NVI – tradução semelhante à que foi empregada pelo Autor].
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    58 As Institutas– Edição Especial a vida e a morte são atos da vontade de Deus, mais que da Sua providência. Se Deus só previsse o que acontece com os homens, sem o dispor nem o ordenar por Seu beneplácito, esta questão não seria ventilada sem propósito, qual seja: A necessidade induz a providênciaa de Deus?42 Mas, como se vê que as coisas não acontecem por outra razão senão porque Deus determinou que acontecessem, é uma insensatez disputar e debater o que o Seu pré-conhecimento faz, quando é evidente que tudo acontece por Sua ordenação e disposição. Não se pode negar que Deus previu, antes de criar o homem, a que fim ele chegaria, e que o previu porque assim ordenou em Seuconselho. Se neste ponto alguém acusar a provi- dência de Deus, cometerá uma temeridade. Sim, pois, com que propósito Deus será censurado por não ter ignorado as coisas que haveriam de existir e aconte- cer? Se, então, houver algum lamento, justo ou aparentemente justo, melhor será dirigi-lo à Sua providência. Agora, o que vou dizer não deve causar estranheza: que Deus não somente previu a queda do primeiro homem e com ela a desgraça de toda a sua posterida- de, mas também Ele quis que assim fosse. Porque, assim como pertence à Sua sabedoria ter pré-conhecimento de todas as coisas futuras, assim também perten- ce ao Seu poder reger e governar todas as coisas com a Sua mão. Alguns recorrem aqui à [pretensa] diferença entre vontade e permissão e dizem que os ímpios perecem porque Deus o permite, não porque o querb . Mas, por que diremos que Ele o permite, se não é porque o quer?Ainda mais quando se considera que não parece provável, em si mesmo, que seja por pura permissão, e não pela ordenação de Deus, que o homem recebe a condenaçãoc , como se Deus não tivesse ordenado qual seria a condição do ser que Ele queria que fosse a principal e a mais nobre das Suas criaturas! Não hesito, pois, em confessar com Agostinho que a vontade de Deus é a necessidade43 de todas as coisas, e que, necessariamente, o que Ele ordenou e quis que sucedesse, assim como tudo quan- to Ele previu, certamente sucederá. a. Deus ordena e dispõe até mesmo os fatos contingentes e os atos livres, o que significa que, nisso, Ele decreta a futurição. Dispor e ordenar não são sinônimos de causar de maneira eficiente [como causa eficiente]. b. Deus quis a Queda, isto é, o abuso da liberdade do qual Adão se fez culpado; podendo impedi-la, Deus permitiu sua ocorrência mediante uma permissão soberana. É por equívoco que freqüentemente se confunde a doutrina da preordenação da Queda com o supralapsarismo. Os infralapsários também reconhecem esta preordenação. O supralapsarismo e o infralapsarismo se propõem a indicar quais são os objetos dos decretos de eleição e de reprovação. O supralapsarismo ensina que o objeto desses decretos é o homem, considerado como antes de cair. O infralapsarismo pretende que seja o homem considerado como já decaído. Mas, em ambos os casos, não se trata do decreto preordenando a orientação do futuro religioso da humanidade, mas de decretos relativos à salvação ou à condenação do pecador. c. “Damnation” significa aqui: sentença de condenação. d. pendet. 42 “Deus, sem sua inescrutável sabedoria, governa as atividades humanas de tal forma que suas obras, que ocupam muito pouco o pensamento humano em virtude de sua constante familiaridade com elas, excedem muitíssimo a compreensão da mente humana.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 2, (Sl 40.5), p. 220]. 43 “Necessidade” e termos cognatos, neste contexto e noutros semelhantes, no sentido filosófico de inevitabilidade (N. do T.).
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    59 Quatro seitas refutadasde uma vez Agora, se os pelagianos, os maniqueus, os anabatistas e os epicureus (temos algo que fazer com estas quatro seitas, no trato desta matéria), alegarem para sua escu- sa a necessidade, pois são contrários à predestinação de Deus, nada apresentarão que seja pertinente à causa em foco. Porque, se a predestinação não é outra coisa que a ordem e a dispensação da justiça divina, a qual só pode ser irrepreensível, embora oculta, pois é certo que os ímpios merecem ser predestinados para tal fim, também é certo que a desgraça na qual eles caem pela predestinação de Deus é justa e equânime, é imparcial. Além disso, a sua perdição procedea da predestinação de Deus de tal maneira que a sua causa e substância se encontra neles. O primeiro homem caiu porque Deus julgou que isso era um meio útil para os Seus propósitos. Ora, porque julgou assim, não sabemos. Todavia, é certo que não o julgou por outra razão senão porque viu que isso trabalharia pela glória do Seu Nome. Pois bem, quando se fizer menção da glória de Deus, pensemos igual- mente em Sua justiça, porque é necessário que o que merece louvor seja justo e imparcialb . Acontece, então, que o homem caic segundo o que tinha sido ordena- do por Deus, mas cai por seu próprio erro. Pouco antes [na narrativa da criação e da Queda] o Senhor tinha declaradod que todas as coisas que Ele fez ficaram muito boas; de onde vem, então, a perversidade do homem, senão do fato de que se afastou de Deus? Para que não se pensasse que a perversidade humana proveio da Sua criação, o Senhor aprovou por Seu próprio testemunho tudo quanto havia colocado nele. Foi o homem, então, que, por sua própria maldade, corrompeu a boa natureza que tinha recebido do Senhore . E assim, por sua queda, lançou con- sigo toda a sua descendência à desgraça. Porque vemos melhor na natureza cor- rompida do homem a causa da sua condenação, causa evidente para elef , do que procurá-la na predestinação de Deus, onde ela está oculta e a qual é totalmente incompreensível.44 E que não achemos ruim submeter neste ponto o nosso enten- a. justum. b. cadit. c. providentia Dei. d. Em 1539 ocorria: Paulo171 , alusão a 1 Timóteo 4.4, mas sem equivalente no capítulo da Epístola aos Roma- nos comentado mais acima. e. Malgrado tudo o que acaba de dizer, Calvino não tira nem um iota da responsabilidade de Adão. 44 “.... Adão, em sua queda, foi despojado de sua justiça original, sua razão foi obscurecida, sua vontade, pervertida, e que, sendo reduzido, a este estado de corrupção, trouxe filhos ao mundo semelhantes a ele em caráter. Se porventura alguém objetar, dizendo que essa geração se confina aos corpos, e que as almas jamais poderão derivar uns dos outros algo em comum, eu responderia que Adão, quanto em sua criação foi dotado com os dons do Espírito, não mantinha um caráter privativo ou isolado, mas que era o representante de toda a humanidade, que pode ser considerado como tendo sido dotado com esses dons em sua pessoa; e deste conceito necessariamente se segue que, quando ele caiu, todos nós, juntamente com ele, perdemos nossa integridade original.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 51.5), p. 431-432]. 171 Em latim (N. do T.). f. 1539 tem somente: evidentem.
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    60 As Institutas– Edição Especial dimento à sabedoria de Deus, aos cuidados da qual Ele deixa muitos segredos. Porque é douta ignorância ignorar as coisas que não é lícito nem possível saber; o desejo de sabê-las revela uma espécie de raiva canina.45 Por mais que se argumente, mais a impiedade reclama Possivelmente alguém dirá que eu não apresentei ainda nenhum argumento razo- ável que sirva para refrear a escusa blasfema que eu condeno. Confesso que não se pode apresentar argumento que a impiedade não difame em constante murmu- ração. Entretanto, parece-me que já disse o que deveria ser suficiente para elimi- nar do homem, não somente toda razão para murmurar, mas também toda descul- pa ou pretextoa ! Os réprobos querem ser desculpados por pecarem, porque não conseguem evadir-se à necessidade do pecado; principalmente tendo-se em vista que isso procede da ordenação e da vontade de Deus. Ao contrário, eu nego que isso lhes sirva de desculpa, porquanto essa ordenação de Deus, da qual eles se queixam, é imparcial. E embora ignoremos essa imparcialidade, ela é mais que certa. Concluímos, pois, que os homens não sofrem pena alguma que não lhes seja imposta pelo justíssimo juízo de Deus. Ensinamos também que é agir perver- samente, como estes oponentes fazem, querer penetrar os segredos de Deus, os quais nos é impossível alcançar, em busca da origem da sua condenação, e deixar de lado a corrupção da sua natureza, da qual na verdade essa condenação proce- de. Ora, que essa corrupção não deve ser imputada a Deus vê-se claramente pelo testemunho que Ele deu da Sua criação. Porque, conquanto pela providência eter- na de Deus o homem tenha sido criado para chegar à condição miserável em que se encontra, todavia, é de si mesmo que ele toma essa triste realidade, e não de Deus. Porque ele não perece por outra causa, senão porque degenerou e com perversidade corrompeu a natureza pura que Deus lhe tinha dado. Mais um absurdo dos adversários da predestinação Os adversários de Deus ainda têm outro absurdob para com ele difamar a Sua predestinação. Porque, considerando que, quando falamos daqueles que o Se- nhor retira da condição universal dos homens para fazê-los herdeiros do Seu reino, não atribuímos a isso outra causa senão o Seu beneplácito, eles inferem que Deus faz acepção de pessoas – o que a Escritura nega totalmente. Logo, dizem eles, ou devemos dizer que a Escritura se contradiz, ou que Ele toma em consideração os méritos daqueles que Ele escolhe. Vejamos: a. prætextum. b. tertia. 45 “Por mais diligentemente uma pessoa se põe a meditar sobre as obras de Deus, ela só pode alcançar as superfícies ou as bordas delas. Embora sendo assim de tão grande altitude, muito acima de nosso alcance, devemos, não obstante, diligenciar-nos, o quanto nos for possível, por aproximar-nos dela mais e mais em contínuo progresso; ao vermos também a mão divina estendida para descortinar-nos, o quanto nos é oportu- no, aquelas maravilhas que por nós mesmos somos incapazes de descobrir.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 40.5), p. 223].
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    61 Primeiro, o quediz a Escritura, que “Deus não faz acepção de pessoas”, di- lo noutro sentido, não no sentido em que eles o entendem. Porque, com a expres- são “de pessoas” Ele não se refere ao homem, mas às coisas como parecem aos olhos do homem, para com elas obter favor, graça e dignidade; ou, ao contrário, serem feitos objeto de ódio, desprezo ou má fama. Tais são, por um lado, as riquezas, o crédito, a nobreza, os ofícios ou cargos honrosos, a pátriaa , a beleza física, e coisas semelhantes; ou, por outro, a pobreza, o opróbrio, a falta de crédi- to, a falta de honrab , etc. Nesse sentido os apóstolos Pedro e Paulo advertem46 que Deus não faz acepção de pessoas, porque não distingue entre grego e judeu, para agradar-se de um e rejeitar o outro só por causa da nação a que pertencem. Tiago emprega palavras semelhantes, quando afirma que Deus, em Seu juízo, não dá importância nenhuma às riquezas.47 O apóstolo Paulo também, noutras passagens,48 faz uso dec expressões semelhantes, com o fim de mostrar que Deus não faz diferença entre senhor e servo, julgando igualmente um e outro. Por isso tudo se vê que não deve causar nenhuma repulsa o fato de que Deus escolhe os que bem Lhe parece, segundo o Seu beneplácito, sem levar em conta nenhum mérito humano, reprovando uns e rejeitando os outros. Embora desnecessário, Calvino amplia a explicação Todavia, para satisfazer mais plenamente aos interessados, vamos expor assim a matéria: Os oponentes querem saber como se faz isto, que, dentre dois homens que não diferem em méritos, Deus deixa um de lado e escolhe o outro? Pergunto, por outro lado, se eles acham que naquele que é escolhido há alguma coisa que possa inclinar o coração de Deus para que o ame. Se eles confessarem que não há (como é necessário), a conclusão será que Deus não leva em conta o homem, mas toma da Sua bondade a razão para beneficiá-lo. Portanto, o fato de Deus escolher um e rejeitar outro não decorre de levar em consideraçãod o homem, mas unica- mente da Sua misericórdia, a qual Ele é livre para mostrar onde e quando bem Lhe pareça.49 É, pois, falsa e maldosamente que alguns acusam Deus de justiça desigual, visto que não trata a todos da mesma maneirae . Se Deus, dizem eles, acha que todos os homens são culpados, que os castigue a todos igualmente! Se a. opes, potentia, nobilitas, magistratus, patria. b. Frase acrescentada em 1541. c. Assim em 1539. 1541, por engano, tem: 3. d. respectu. e. non eundem erga omnes. 46 At 10.34; Rm 2.11; Gl 2.6c. 47 Tg 2.1-13. 48 Cl 3.11; Ef 6.5-9. 49 “Os homens se acham num deplorável estado a menos que Deus os trate misericordiosamente, não debitando seus pecados em sua conta” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol 1, (Sl 32.1), p. 39]. “Ele nos estende sua compaixão por amor de Seu nome; porque, como é misericordioso, Ele terá nossas bocas fechadas; e para que somente Ele seja considerado justo, graciosamente perdoa nossos pecados.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Parakletos, 2002, Vol. 3, (Sl 79.10), p. 258].
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    62 As Institutas– Edição Especial os acha inocentes, que se abstenha de rigor para com todos! Mas eles tratam Deus como se Lhe fosse proibido fazer misericórdia; ou então, como se, ao fazê-la, fosse obrigado a renunciar a todo o Seu juízo. Porque, que outra coisa exigem eles ao quererem que, se todos ofenderam a Deus, sejam todos punidos igualmente? Confessamos que a ofensa é universal, mas dizemos que a misericórdia de Deus socorre algunsa . Que socorra a todos! dizem eles. Mas nós replicamos que há muito boa razão para que Ele também se mostre justo punindo. Não querendo sofrer punição, não se esforçam eles para tirar de Deus a faculdade de fazer mise- ricórdia? ou então, que Lhe seja permitido fazê-la unicamenteb com a condição de que desista de exercer juízo? Portanto, vêm muito a propósito estas declara- ções de Agostinho: “Sendo pois”, diz ele, “que a massa universal do gênero hu- mano caiuc em condenação em Adão, os homens separados para ocuparem posi- ção de honra não são instrumentosd da sua própria justiça, mas da misericórdia de Deus. Assim como quanto aos outros, postos em condição de opróbrio, não há nada que se deva destinar a eles, a não ser o Seu juízo, sem que Ele deva ser acusado de injustiça”.50 E também: “O fato de que Deus dá aos que Ele reprovou a punição que lhes é devida, e aos que escolheu dá a graça que não lhes é devida, pode ser demonstrado como justo e irrepreensível pela símile de um credor, ao qual é permitido perdoar a dívida de um e exigir seu pagamento de outro. Assim também o senhor pode dar Sua graça a quem Ele quiser, por ser Ele misericordi- oso, e não dá-la a todos, por ser Ele um Juiz justo”.51 E ainda: “Dando a alguns o que eles não merecem, Ele pode demonstrar Sua graça gratuita; não lhe dando Sua graça a todos, pode demonstrar o que todos merecem”. Mais uma calúnia para destruir a doutrina da predestinação Os inimigos da verdade usam ainda outra calúnia para destruir a doutrina da predestinação. Dizem eles que, se houvesse predestinação, todo o interesse e zeloe por uma vida honesta seria abatido. Porque, dizem eles, se o homem sou- a. Essa frase é muito importante. Porque mostra que não há igualdade entre o decreto de perdição e o decreto de salvação: o primeiro é necessário, visto que é a conseqüência normal da rebelião do gênero humano; ele não provém de uma fantasia arbitrária de Deus, que seria então um tirano odioso, mas da Sua justiça perfeita, em virtude da qual “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23). O segundo decreto, ao contrário (o da salvação) não é necessário:172 “o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 6.23). Este segundo decreto provém da boa vontade [beneplácito] de Deus, do Seu amor insondável, da Sua livre graça, imprevisível para o pecador, e se alguém tachar de arbitrário este amor que não salva todos os homens, Calvino responde com Agostinho que também era necessário que Deus mostrasse a Sua justiça deixando que os não eleitos seguissem o caminho normal da sua perdição. 50 Epist. 106. 51 De prædestinatione et gratia. 172 “Necessário” no sentido filosófico. Isto é, algo que por força de causas próprias é inevitável (N. do T.). b. defluxerit. c. vassa. d. Se Calvino atribui tão grande valor à doutrina da predestinação é que ela é a única medida pela qual se pode garantir a gratuidade absoluta... da graça. As duas afirmações são concomitantes: Paulo, Agostinho, Calvino, Pascal: quatro teólogos da graça e quatro predestinacionistas. e. studium.
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    63 ber que amorte ou a vida já lhe foi decretada pelo conselho imutável de Deus, logo pensará: Não importa como vivam os homens, pois a predestinação divina não pode ser nem impedida nem favorecida por suas obras. Assim, cada um se abandonará e se deixará conduzir desordenadamente para onde quer que a sua cupidez o levar. Essa alegação não é totalmente falsa, porquanto há alguns maus elemen- tos52 que enlameiama a predestinação de Deus com tremendas blasfêmias, e sob essa capa zombam de todas as admoestações e advertências. Deus sabe muito bem o que deliberou outrora fazer conosco. Se Ele se determinou a salvar-nos, a Seu tempo nos conduzirá à salvação; se se determinou a condenar-nos, em vão nos atormentaríamos tentando nos salvar. Mas a Escritura, advertindo-nos a que com a maior reverência e temor meditemos neste mistério, instrui os filhos de Deus num sentido muito diferente, e condena a maldosa audácia e insensatez daquele tipo de gente. Porque ela não fala da predestinação para nos encher de abusiva e presunçosa temeridade ou para nos incitar a esquadrinhar com audácia ilícita os mistérios inacessíveis de Deus. Em vez disso, seu propósito é que, com humildade e modéstia, aprendamos a temer o Seu juízo e a engrandecer a Sua misericórdia.53 E, assim, todos os crentes fiéis tenderão a buscar esse objetivo. A trovoada desses maus elementos é muito bem silenciada pelo apóstolo Paulo. Eles dizem que não ficam preocupados por viverem dissolutamente porque, se estiverem incluídos entre os eleitos, seus vícios não os impedirão de chegar à salvação. Mas, contrariamente a isso, o apostolo Paulo ensina54 que a finalidade da nossa eleição é que levemos vida santa e irrepreensível. Se o objetivo da nossa eleição é que vivamos santamente, claro está que ela nos impulsiona e nos esti- mula a meditar na santidade e a promovê-la, não a buscar cobertura para a negli- gência. E quão diferentes são estas duas coisas! – não cuidar de praticar o bem e a virtude porque a eleição é suficiente para a salvação; e a idéia de que o homem foi eleito para dedicar-se à prática do bem e da virtude. Como, então, poderemos suportar essas blasfêmias, que invertem tão perversamente toda a ordem da predestinação?!55 No que se refere ao outro ponto, a saber, que eles dizem que aquele que foi reprovado por Deus, o réprobo, ficará livre da punição se se aplicar a viver com pureza e na inocência, nisso eles se mostram convencidos por uma mentira inso- lente e cínica. Porque, de onde procederia tal aplicação, senão da eleição feita por a. conspurcant. 1541 tem, por engano, fouillent [confundem, em vez de souillent, enlameiam, conspurcam]. 52 No original: “porcos” (N. do T.). 53 “Os homens jamais encontrarão um antídoto para suas misérias, enquanto, esquecendo-se de seus próprios méritos, diante do fato de que são os únicos a enganar a si próprios, não aprenderem a recorrer à misericór- dia gratuita de Deus.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 6.4), p. 128-129]. 54 Ef 1.4. – De bono perseverantiæ, cap. XII. 55 “A santidade, a inocência, e assim toda e qualquer virtude que porventura exista no homem, são frutos da eleição” [João Calvino, Efésios, (Ef 1.4), p. 25]. “É uma atitude ímpia dissociar a santidade de vida da graça da eleição.” [João Calvino, Efésios, (Ef 1.4), p. 26].
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    64 As Institutas– Edição Especial Deus? Pois todos os que pertencem ao número dos réprobos, sendo, como são, instrumentos ou vasos feitos para desonra [Rm 9.21], não cessam de provocar a ira de Deus, cometendo crimesa e mais crimese confirmando por sinais evidentes o juízo de Deus decretado contra eles; e em vão resistem ao Seu juízo. Contudo, para maior esclarecimento, devemos tratar tanto da vocação dos eleitos como do endurecimento e execração dos réprobos. A vocação dos eleitos: “testemunho da eleição” A eleição que diversamente o Senhor mantém oculta em Si, é por fim manifesta- da por Sua vocação, a qual, por esse motivo, eu costumo denominar testemunho da eleição.56 Porque “aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorifi- cou”.57 Sendo, pois, certo que o Senhor, escolhendo os Seus, adotou-os como Seus filhos, vemos, contudo, que eles não chegam a ter posse de tão grande bem senão quando Ele os chama. Por outro lado, tendo sido chamados, já têm algum gozo da sua eleição. Por essa razão o apóstolo Paulo chama o espírito [ou Espíri- to] recebido por eles “espírito de adoção”. E também, “selo e penhor da herança futura” [cf. Rm 8.15 e Ef 1.13,14], visto que, por Seu testemunho, Ele confirma e sela no coração deles a certeza dessa adoção.58 Portanto, o Senhor escolhe para serem Seus filhos os que Ele elege, e delibera ser seu Pai. Mas, ao chamá-los, Ele os introduz em Sua família e se comunica com eles. Ora, a Escritura, juntando dessa maneira a vocação à eleição, com isso mostra claramente que não devemos buscar coisa alguma, senão a misericórdia gratuita de Deus. Pois, se perguntarmos quem são os que Ele chama, e por quê, a Escritura responde: os que Ele escolheu. Ora, quando se chega à eleição, a misericórdia, e somente ela, aparece por todos os lados, conforme o que nos passa a sentença do apóstolo Paulo, segundo a qual “não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia”.59 E não devemos entender isso no sentido 56 “A causa eficaz de fé não é a perspicácia de nossa mente, mas a vocação de Deus. E ele [Pedro] não se refere somente à vocação externa, que é em si mesma ineficaz; mas à vocação interna, realizada pelo poder secreto do Espírito, quando Deus não somente emite sons em nossas orelhas pela voz do homem, mas, pelo Seu próprio Espírito atrai intimamente nossos corações para Ele mesmo.” [John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan, Baker Book House, 1996 (reprinted), Vol. 22, (2Pe 1.3), p. 369]. Em outro lugar: “O fundamento de nossa vocação é a eleição divina gratuita pela qual fomos ordenados para a vida antes que fôssemos nascidos. Desse fato depende nossa vocação, nossa fé, a concretização de nossa salvação.” [João Calvino, Gálatas, (Gl 4.9), p. 128]. 57 Rm 8.29,30. 58 Temos nesta vida “umas poucas gotas do Espírito” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 8.23), p. 287]. Estejamos atentos à figura de Calvino. Comentando Tt 3.6, diz: “.... uma gota do Espírito, por assim dizer, por menor que seja, é como uma fonte a fluir tão abundantemente que jamais secará.” [J. Calvino, As Pastorais, (Tt 3.6), p. 351]. 59 Rm 9.16. a. perpetuis.
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    65 de repartir aeleição entre a graça de Deus e a vontade do homem, como comumente se faz. Pois é comum dizer-se que certamente o desejo e o esforço do homem nada podem, a não ser que a graça de Deus os faça prosperar, mas, se Deus acres- centar a Sua ajuda, tanto um como o outro [isto é, o desejo e o esforço] farão algo que o ajudará na obtenção da salvação. Essa cavilação, essa manha sutil, prefiro refutar com as palavras de Agostinho a fazê-lo com as minhas próprias. “Se o apóstolo”, diz ele, “não quisesse outra coisa senão dizer que não é só pela facul- dade de querer e de correr, mas que o Senhor ajuda nisso por Sua misericórdia, poderíamos ao contrário replicar e dizer: Não é só pela misericórdia de Deus, mas esta recebe ajuda da vontade e da ação do homem, Se isso é um ímpio erro, como evidentemente é, não devemos duvidar de que o apóstolo quis atribuir tudo à misericórdia de Deus, sem nada deixar à nossa vontade ou ao nosso esforço”.60 Aí estão as palavras desse pio personagem. Não reduzo o valor da sutileza dos oponentes ao de um argueiro, de um fiapo de palha, pois, o apóstolo Paulo não teria falado como falou se não existisse nenhum esforço e querer em nós. O que se deve entender é que ele não estava fazendo uma avaliação do que existe no homem, mas sim, vendo que havia alguns que atribuíam parte da salvação do homem ao seu engenho e arte, no primeiro membro da sua oração condena sim- plesmente o erro deles, e em seguida sustenta que a soma total da salvação funda- se na misericórdia de Deus. E que outra coisa fazem os profetas, senão pregar continuamente a vocação gratuita de Deus? O que também vemos em seu conteúdo substancial. Porque ela consiste na pregação da Palavra e na iluminação do Espírito Santo. Pois bem, pelo profeta ficamos sabendo a quem o Senhor oferece a Sua Palavra. “Fui bus- cado pelos que não perguntavam por mim”, diz o Senhor; “fui achado por aqueles que não me buscavam; a um povo que não se chamava do meu nome, eu disse: Eis-me aqui”.61 E para que os judeus não pensassem que tal graça pertencia so- mente aos gentios, o Senhor lhes traz à memória o lugar de origem do seu pai Abraão, de onde o tinha tirado quando quis recebe-lo em Seu amor, a saber, do meio da idolatria,62 em cujos males ele estava mergulhado, ele e todos os sus parentes. Visto que Deus ilumina e esclarece por Sua Palavra aqueles que nada merecem, com isso nos dá um sinal suficientemente claro da Sua bondade gratui- ta. Mas, para que a carne não se glorie em que Lhe responde tendo sido chamada, Ele afirma que não temos ouvidos para ouvir, nem olhos para ver, mas que Ele os criou em nós e para nós.63 E declara, ademais, que fez isso não conforme o mere- cimento deste ou daquele, mas segundo a Sua eleição. Disso temos um exemplo notável em Lucas, onde nos é dito64 que os judeus e os gentios ouviram em co- 60 Enchiridion ad Laure., cap. 32. 61 Is 65.1. 62 Js 24.1-3, 14,15. 63 Isto é, que Ele nos deu a capacidade de ouvir e ver a Sua verdade (N. do T.). 64 At 13.44-48.
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    66 As Institutas– Edição Especial mum a pregação do apóstolo Pauloa . Pois bem, tendo-se em vista que receberam ensino da mesma doutrina, consta ali que os que creram tinham sido preordenados para a vida eterna. Não nos causaria vergonha negar que a vocação é gratuita, sendo que nela reina soberana e única a eleição, de um extremo ao outro? Vê-se, pois, que com o citado testemunho da Escritura, não somente são refutados os que fazem do homem companheirob de Deus para cooperar com Ele na realização da Sua vocação, mas também os que ensinam que se deve conside- rar a eleição em termos tais que seria como se ela fosse incerta e estivesse em suspense, enquanto não fosse confirmada pela vocação. É certo que é confirmada por esta, com a condição de que só entendamos por essa palavra que a eleição é comprovada por firme testemunho, e como que selada. Mas é falso o ensino que afirma que a eleição não é válida enquanto não recebemos o Evangelho, e que deste toma seu vigor. Onde buscar comprovação da eleição? Ora, como aqueles que ensinam que o poder e a firmeza da eleição dependem da fé, pela qual entramos na comunhão dos eleitos, noutro aspecto também agem perversamente, teremos uma boa ordem para seguir se, procurando ter certeza da nossa eleição, nos fixarmos nestes sinais, que são testemunhos [bíblicos] firmes e claros. Nenhuma tentação do Diabo é mais perigosa para abalar os fiéis do que quando, fazendo com que os inquiete a dúvida quanto à sua eleição, provoca neles o estulto desejo de buscar essa certeza fora do caminho. Chamo buscar fora do caminho a atitude na qual o pobre homem se esforça para penetrar nos segre- dos incompreensíveis da sabedoria divinac , e, para saber o que a respeito dele foi ordenado no juízo de Deus, quer ir ao princípio da eternidade em sua busca. Nessa tentativa ele se precipita como que num imenso e profundo golfo em que se afoga; enrosca-se como que em laços de armadilha dos quais jamais consegui- rá se desembaraçar; e entra numa espécie de abismo de trevas do qual nunca poderá sair. Porque com justa razão a presunção do entendimento humano é as- sim punido com horrível desgraça, quando tenta elevar-se por seu poder ao altíssimo nível da sabedoria divina. Agora, a tentação que acabo de mencionar vê-se tanto mais perniciosa quanto é fato que quase todos nós somos inclinados a cair nela. Porque são bem poucos os que não se deixam tocar no coração por este pensamento: Donde vem que você obtém a salvação somente pela eleição de Deus? E como se revela essa eleição? Uma vez que esse pensamento encontre guarida no homem, ou lhe causará assombroso tormento, ou o fará sucumbir de espanto. Não pretendo ter argumento mais próprio para mostrar quão perversa- mente esse tipo de gente imagina a predestinação. Porque o espírito do homem não pode ser infeccionado por erro mais virulento que quando a consciência é a. 1539 acrescenta: et Barnabæ. b. cooperarium. c. Cf. 1536: Hoc enim cogitandum, nihil penitus nobis defuturum..., si ille noster est.
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    67 destituída da suatranqüilidade e paz, que lhe cabe ter com Deus. Esta questão é como um mar, no qual, se tememos perecer, tenhamos cuidado acima de tudo com o rochedo que, se não for evitado, só nos causará desgosto. Entretanto, em- bora se considere a discussão sobre a predestinação um mar perigoso, a navega- ção é segura e calma, e até alegre, se não acontecer que alguém queira por vonta- de própria meter-se em perigo. Pois, assim como aqueles que, desejando ter cer- teza da sua eleição, invadem o conselho eterno de Deus sem a Sua Palavra, preci- pitam-se e afundam num abismo mortal, assim também, por outro lado, os que buscam certeza corretamente, e segundo a ordem revelada na Escritura, recebem singular consolação. Portanto, seja este o caminho que sigamos em nossa busca: começar pela vocação de Deus e terminar nela. Pois o Senhor quer que ela seja para nós como um marco ou um sinala para nos certificar de tudo o que nos é lícito saber do Seu conselho. “Olhando para Jesus” Em primeiro lugar, se pretendemos ter a clemência paternal de Deus e a Sua benevolência em nosso favorb , devemos voltar os olhos para Cristo, unicamente em quem repousa o beneplácito do Pai.65 Se nós buscamos a salvação, a vida e a imortalidade, é preciso que não recorramos mais a outros, visto que Ele é a única fonte de vida,o único refúgio de salvação e o herdeiro do reino celestial.66 Agora vejamos: qual é a finalidade da eleição, senão que, sendo nós adotados por Deus como Seus filhos, obtenhamos a salvação e a imortalidade, por Sua graça e por Seu amor? O que quer que se vire, revire e esquadrinhe mostrará que o objetivo da eleição não é outro. Portanto, dos que Deus escolheu para serem Seus filhos não se diz que os escolheu neles mesmos, mas em Seu Cristo67 , visto que não os poderia amar senão nele, e não os poderia honrar com a Sua herança, a não ser fazendo-os primeiro partícipes dele. Pois bem, se fomos eleitos em Cristo, não encontramos em nós a certeza da nossa eleição; nem mesmo em Deus, o Pai, a encontramos, se é que podemos imaginá-lo nua e cruamente sem Seu Filho. Cristo, espelho da nossa eleição Cristo é, pois, como um espelhoc no qual convém e é próprio contemplar a nossa eleição, e no qual a contemplaremos sem embuste. Portanto, uma vez que é em a. 1539 tem somente: tessera. b. Cf. 1536 (cap. II): Quis tam improba cupiditate fuerit, qui, non contentus se filium Dei esse, aliquid ultra appetat! c. Instrução de 1537: Cristo não é somente um espelho por meio do qual a vontade de Deus nos é representada, mas também um penhor pelo qual ela nos é como que selada e confirmada. 65 Mt 3.17. 66 “Transferimos para Cristo os nossos pensamentos, para que nele, como num espelho, vejamos os gloriosos tesouros da graça divina e a imensurável grandeza desse poder que ainda não se manifestou em nós.” [João Calvino, Efésios, São Paulo, Paracletos, 1998, (Ef 1.20), p. 45]. 67 Ef 1d .4. d. 1541 (por engano): Ef 7.
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    68 As Institutas– Edição Especial Cristo que o Pai se propôs incorporar aqueles que desde toda a eternidade Ele quis que fossem Seus, a fim de reconhecer como Seus filhos todos os que Ele reconhecesse como membros de Cristo, teremos um testemunho bastante firme e evidente de que estamos inscritos no livro da vida, se tivermos comunhão com Ele. E o fato é que Ele nos foi comunicado suficientemente quando, pela prega- ção do Evangelho, Ele próprio nos testificou que nos foi dado pelo Pai, a fim de Ele nos ser nosso; Ele e todos os Seus bens. Ele é para nós, repito, um testemunho de que todos os que O receberem com fé verdadeira serão tidos pelo Pai celestial como Seus filhos. Se acaso tivermos a pretensão de ser mais que filhos e herdei- ros de Deus, teremos que subir mais alto que Cristo. Mas se temos nele o nosso limite extremo, não estaremos provocando Sua ira máxima, se buscarmos fora de Cristo o que já obtivemos nele, sendo que só o podemos obter nele? Além disso, visto que Cristo é a sabedoria68 eterna do Pai, a verdade imutável, o conselho ina- balável, não devemos acreditar que o que Ele nos declara com Sua boca possa diferir um átomo que seja da vontade do Pai, a qual buscamosa conhecer.Antes, Ele nos manifesta fielmente qual é a vontade do Pai, desde o princípio e para sempre. Comprovação específica da ligação existente entre a eleição e a vocação eficaz Isso também ajuda a definir e a estabelecer a nossa confiança em que a segurança da nossa eleição vem entrelaçada com a nossa vocação. Porque, quanto àqueles que Cristo iluminou para O conhecerem e introduziu na companhia da Sua igre- ja, Ele declara que os recebe e os coloca sob a Sua proteção e tutela. E diz mais, que o Pai os confiou a Ele, colocando-os sob Sua guarda, para conduzi-los à vida eterna. Que é que queremos mais? O Senhor proclama em alta voz que o Pai confiou à Sua proteção todos os que Ele queria que fossem salvos.69 Portanto, se quisermos saber se Deus recomendou a nossa salvação, procuremos saber se a recomendou a Cristo, a quem Ele constituiu único guarda e protetor de todos quantos Lhe pertencemb . Caso duvidemos se Cristo nos recebeu para Sua tutela e salvaguarda, Ele mesmo se antepõe a essa dúvida quando se apresenta como pas- tor e declara que nos incluirá no número das Suas ovelhas, se ouvirmos a Sua voz. Recebamos então a Cristo, pois ele se revela grandemente benigno para a. Vê-se a ponta prática [o fim prático] deste desenvolvimento: os crentes, preocupados com a sua salvação, encontrarão suficiente segurança se, constatando que Deus lhes manifesta a Sua boa vontade fazendo com que lhes seja pregado o Evangelho, buscam a certeza da sua eleição, não nos mistérios do conselho de Deus, e não em seu próprio coração (no sentimento de paz, tão frágil), mas unicamente em Jesus Cristo, em quem Deus nos elegeu (Ef 1.4) e que é proposto à nossa fé pela pregação do Evangelho. Portanto, colocam-se voluntariamente no número dos réprobos os que se recusam a seguir este caminho humilde da fé em Jesus Cristo. b. 1536: in fidem ac custodiam tradidit, ut neminem eorum perderet, sed ressuscitaret. 68 Cf. 1Co 1.30 (N. do T.). 69 Em Jo 6.30-51 e noutras passagens.
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    69 conosco, e seantecipa a nós para receber-nosa . Não há nenhuma dúvida de que Ele nos terá em Seu rebanho e nos guardará em Seu redil. Objeções e repostas Mas alguém dirá que devemos preocupar-nos com o que nos possa sucederb , e que, quando pensamos no futuro, a nossa fraqueza nos exorta à solicitude, a que tenhamos zelo e cuidado. Porque, assim como o apóstolo Paulo diz, “aos que [Deus] predestinou, a esses também chamou”,70 assim também o Senhor Jesus diz: “Muitos são chamados, mas poucos escolhidos”.71 Também o apóstolo Paulo nos exorta noutra passagem no sentido de que não sejamos autoconfiantes. Diz ele: “Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia”.72 E também: Foste incorporado na igreja? “Não te ensoberbeças, mas teme. Porque, se Deus não poupou os ramos naturais, também não te poupará”, e colocará outro em teu lugar. Finalmente, a experiência nos mostra que a fé e a vocação pouco ou quase nada são, se não estiverem aliadas à perseverança, dizem os nossos oponentes; e esta não é dada a todos. Respondo que Cristo nos livrou dessa perplexidade. Porque, sem dúvida, estas promessas não pertencem ao futuro: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora”. E mais: “E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia”. E ainda: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão”.73 Que lição hemos de aprender aqui de Cristo? Outra não é, senão a seguinte: Ele nos dá a certeza de que vamos ter salvação eterna, visto que fomos feitos Seus uma vez por todas. Alguém replicará que acontece todo dia que os que parecem pertencer a Cristo se enfraquecem e tropeçam. Na mesma passagem em que o Senhor Jesus afirma que nenhum dos Seus pereceu, Ele declara: “exceto o filho da perdição”.74 É verdade, mas, por outro lado, é certo que esse tipo de gente nunca se apegou a Cristo com confiança de coração, pela qual dizemos que nos é dada certeza da nossa eleição.Veja-se também: “Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco”.75 Não nego que eles tinham sinais parecidos com os dos eleitos, mas não concedo a. Toda esta discussão sobre a predestinação se reduz, portanto, para cada homem, a esta simples pergunta que lhe é dirigida: Você quer ou não quer crer em Jesus Cristo, o seu Salvador? b. Frase acrescentada em 1541. 70 Rm 8.30. 71 Mt 22.14. 72 1Co 10.12; cf. Rm 11.11-24, mormente os versículos 17 a 21. 73 Jo 6.37,39; 10.27,28. 74 Jo 17.12. 75 1Jo 2.19.
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    70 As Institutas– Edição Especial que eles tinham este fundamento certo e seguro da sua eleição, que, como tenho dito, os crentes tomam da palavra do Evangelho.a Portanto, que os exemplos cita- dos não nos inquietem, e que, firmes e seguros, nos atenhamos às promessas do Senhor Jesus, nas quais Ele declara que o Pai Lhe deu todos aqueles que O rece- beram com verdadeira fé, e que nenhum deles perecerá, porquanto Ele é seu guarda e protetor. Noutra parte desta obra se falará sobre Judas. Destaque quanto ao apóstolo Paulo Quanto ao apóstolo Paulo, ele não nos proíbe simplesmente toda segurança, mas, sim, uma negligência carnalb , à qual se conjugam o orgulho, a presunção e o desprezo pelos outros; atitude que extingue a humildade e a reverência para com Deus, e induz o esquecimento de Suas graças. Porque, na passagem acima citada, dirigindo-se aos gentios, ele os corrige, exortando-os a não insultarem soberba e desumanamente os judeus, sendo que os substituíram e lhes são devedores. Semelhantemente, Paulo não exige de nós um temor que nos faça tremer de as- sombro, mas o temor que, ensinando-nos a reverenciar humildemente a graça de Deus, não diminui nem um pouco a confiança que temos nele, como foi dito noutro lugar. Destaque quanto a Cristo. Dupla espécie de vocação No tocante ao pronunciamento de Cristo, que muitos são chamados e poucos escolhidos, é grande a necessidade que temos de compreendê-lo como se deve. Para termos verdadeiro entendimento dessa declaração, precisamos notar que existe uma dupla espécie de vocação. Uma é a vocação universal, que consiste na pregação exterior do Evangelho, por meio da qual o Senhor convida a que ve- nham a Ele todos os homens, indiferentemente, até mesmo aqueles aos quais a pregação é feita com odor de mortec e com o fim de lançar sobre eles mais grave condenação. A outra é a vocação especial, da qual são feitos participantes os que crêem, quando, pela luz interior do Seu Espírito, a doutrina é plantada e se enra- íza no coração deles. Se bem que algumas vezes o Senhor faz uso desta vocação a pessoas que o Seu Espírito ilumina por um tempo, e, depois, por causa da ingra- tidão delas, as abandona e as lança a maior cegueira. Pois bem, vendo o Senhor Jesus que o Evangelho, divulgado a um grande número de pessoas, é rejeitado por muitos e desprezado por outros, e que poucos Lhe prestam a devida honra, a. No momento em que ele se arrisca a precipitar de novo as almas na inquietação lembrando-lhes o exemplo de Judas e dizendo que o homem poderá ser reprovado apesar de ter “sinais semelhantes aos dos eleitos”, se não se apegar a Cristo com uma confiança verdadeira e de coração, Calvino oferece logo o remédio àquele que, analisando o seu coração, não encontra ali “tal confiança”: ele o remete à “Palavra do Evangelho”, quer dizer, às boas novas da salvação, e o exorta a aceitá-lo pessoalmente. b. supinam ac solutam carnis securitatem. c. 2 Co 2.16.
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    71 representa Deus coma figura de um rei que planejou um banquete solene e festi- vo, e enviou seus servos por toda parte para convidarem insistentemente grande multidão.76 Mas poucos prometeram ir, porque cada um tinha uma desculpa para não comparecer. Tão contrariado e constrangido ficou o rei ante a recusa deles que mandou chamar todos quantos fossem encontrados nas ruas. Não há quem não veja que a parábola mesma, em si, refere-se à vocação exterior. Subseqüente- mente, Ele acrescenta que Deus, a modo dos que convidam e recebem comensais, vai de mesa em mesa para saudar alegremente os convidados. Se encontrar al- guém que não vestiu o traje de honra,77 diz a parábola que o rei não suportará que seja feita desonra ao seu banquete, e que o expulsará. Minha convicção é que se deve entender este membro ou frase como se referindo aos que fazem profissão de fé e são recebidos à comunhão da igreja, mas que, todavia, não foram vestidos com a santificação de Cristo. Diz, então, o texto que chegará o tempo em que o Senhor não tolerará essas células cancerosasa que só sabem contaminar e cobrir de má fama a Sua igreja; mas, conforme o que merece a sua torpeza, Ele os expulsará. Vê-se, então, que, dos muitos chamados, poucos são os escolhidos. Mas esse chamado não se refere à vocação que ensinamos os crentes a reconhe- cer como evidência da sua eleição. O que acima se disse refere-se, pois, aos ímpios [que estão incluídos entre os que recebem a vocação geral ou universal]. A segunda [a vocação especial, eficaz] traz consigo a ação do Espírito de regeneração, o qual é o penhor e o selo78 da herança futura e pelo qual o nosso coração é selado e firmado até o dia da ressurreição.79 Essa é também a razão pela qual Cristo fez a exceção mencio- nada, quando Ele disse que nenhuma de Suas ovelhas pereceu, senão Judas.80 Porque ele não foi considerado como uma de Suas ovelhas como se de fato o fosse, mas porque teve lugar entre elas. O fato de que outra passagem informa que o Senhor o escolheu com os outros apóstolos deve ser entendido somente em referência ao ofício. “Não vos escolhi eu em número de doze?”, disse Jesus aos a. dehonestamenta et velut carcinomata. 76 Mt 22.1-14. 77 Ver 2Co 5.3 e Ap 3.5,18; 16.15; 19.7,8. 78 “.... é Ele que nos ilumina com a Sua luz para nos fazer entender as grandezas da bondade de Deus, que em Jesus Cristo possuímos. Tão importante é o Seu ministério que com justiça podemos dizer que Ele é a chave com a qual são abertos para nós os tesouros do reino celestial, e que a Sua iluminação são os olhos do nosso entendimento, que nos habilitam a contemplar os mencionados tesouros. Por essa causa Ele é agora chama- do Penhor e Selo, visto que sela em nosso coração a certeza das promessas. Como também agora Ele é chamado mestre da verdade, autor da luz, fonte de sabedoria, conhecimento e discernimento” [João Calvino, As Institutas, (1541), II.4]. 79 “Só quando Deus irradia em nós a luz de seu Espírito é que a Palavra logra produzir algum efeito. Daí a vocação interna, que só é eficaz no eleito e apropriada para ele, distingue-se da voz externa dos homens.” (João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 10.16), p. 374). A vocação eficaz do eleito, “não consiste somente na pregação da Palavra, senão também na iluminação do Espírito Santo.” (J. Calvino, As Institutas, III.24.2). 80 Jo17.12.
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    72 As Institutas– Edição Especial apóstolos. “Contudo, um de vós é diabo”.81 Jesus o tinha constituído apóstolo, mas, quando fala da eleição para a salvação, Ele o separa do número dos Seus escolhidos. Como quando disse: “Não falo a respeito de todos vós, pois eu conhe- ço aqueles que escolhi”.82 Se alguém se confundir com o vocábulo referente à eleição nessas passagens, estará resguardado pobremente; se souber discerni-lo, nada lhe será mais fácil. Por isso se vê que Gregório83 falou de maneira grave- mente errônea84 quando disse que sabemos muita coisaa sobre a nossa vocação, mas, quanto à nossa eleição, estamos incertos. E por isso nos exorta a que tenha- mos temor e tremor. Nesse sentido ele argumenta dizendo que sabemos bem o que somos e como estamos hoje, mas ignoramos o que seremos amanhã. Mas, pela maneira como ele se conduz em sua oração, vê-se quanto errou e se desviou da verdade. Porque, visto que ele fundamentou a eleição no mérito das obras, tinha muita coisa com que assustar e amedrontar os homens e enchê-los de des- confiança. Confirmá-los e fortalecê-los ele não podia, porque não os levava a confiar na bondade de Deus. Por aí os crentes podem experimentar um pouco do gosto do que dissemos no princípio, a saber: Se for feita uma boa reflexão sobre a predestinação, esta não perturbará nem abalará a fé; antes, a confirmará e a fortalecerá extraordinariamenteb . Quando ocorre a vocação dos eleitos? Agora vejamos: Os eleitos não são todos reunidos pela vocação do Senhor ao rebanho de Cristo desde o ventre de sua mãe, nem ao mesmo tempo, mas quando e como apraz a Deus dispensar a Sua graça. Portanto, antes de serem convertidos ao Soberano Pastor, eles vagam como os demais e são espalhados em meio à dissipação universal deste mundo. E em nada diferem dos outrosc , a não ser no fato de que Deus, por singular misericórdia, os preserva, para que não caiam na perdição eterna. Daí, se os observarmos, veremos neles a raça de Adão, a qual não pode deixar de levar sobre si a perversidade da sua origem. O fato de não caírem numa impiedade para a qual não haveria esperança não se dá por alguma bondade natural deles, mas sim porque os olhos do Senhor velam por sua salva- a. conscios esse. d. A primeira edição das obras de Gregório de Nissa acabava de vir a lume em 1537, em Colônia. 81 Jo 6.70. 82 Jo 13.18. 83 Gregório de Nissa (N. do T.). 84 Homil. 38d . b. Compare-se essa passagem com a pergunta que um pastor fez recentemente aos adversários da predestinação: “Por que vocês declaram que é desesperadora uma doutrina na qual vocês não crêem, ao passo que aqueles que nela crêem encontram nela a fonte da sua maior certeza e da sua maior alegria?” c. Desse fato decorre o “juízo de caridade” que cada crente deve exercer sobre todo homem, porquanto nenhum sinal exterior nos pode fazer julgar de golpe se este ou aquele faz parte do número dos réprobos. Exemplo: Calvino declara que orou até o fim pela conversão do duque de Guise, encarniçado adversário dos evangé- licos na França.
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    73 ção, e Seubraço está estendido para os conduzir a esse fim. Porque, aqueles que imaginam que eles têm sabe-se lá que semente da eleição arraigada em seu cora- ção desde o nascimento e que, por isso, estão sempre inclinados ao temor de Deus, não possuem nenhuma autoridade da Escritura para provar sua opinião; e a própria experiência os refuta. Exemplos impropriamente citados em favor do erro, e a refutação de Calvino Eles apresentam alguns exemplos com vistas a provar que alguns dos eleitos não estiveram totalmente sem religião antes de receberem a iluminação propriamen- te dita. Alegam que o apóstolo Paulo era irrepreensível em seu farisaísmo e que o centurião Cornélio era agradável a Deus por suas preces e orações85 [e por suas esmolas]. Quanto ao apóstolo Paulo, eu lhes concedo o que dizem. Quanto a Cornélio, digo que estão enganados. Porque ele já tinha sido regenerado e ilumi- nado, tanto é que não lhe faltava nada, senão uma revelação mais clara do Evan- gelho. Mas, vejamos ainda: Que é que eles obteriam afinal? Quando concordás- semos com eles a respeito de uma dúzia de exemplos, concluiriam que todos os eleitos de Deus tiveram um mesmo espírito? É como se alguém que, tendo de- monstrado a integridade de Sócrates,Aristides, Xenócrates, Cipião, Curius, Camilo e outros pagãos, quisessem inferir, desses casos, que todos os que viveram na cegueira da idolatria tiveram vida santa e íntegra. Além de estar claro que o argu- mento deles não tem nenhum valor, a Escritura os contesta em muitas passagens. Porque o estado e as condições que o apóstolo Paulo descreve ao falar sobre a vida dos efésios, antes da sua regeneração, não mostra um grão sequer de dita semente. “Vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados, nos quais cos- tumavam viver, quando seguiam a presente ordem deste mundo e o príncipe do poder do ar, o espírito que agora está atuando nos que vivem na desobediência. Anteriormente, todos nós também vivíamos entre eles, satisfazendo as vontades da nossa carne, seguindo os seus desejos e pensamentos. Como os outros, éramos por natureza merecedores da ira”.86 E também: “Naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo.87 E mais: “Outrora, éreis trevas, porém, agora, sois luz no Senhor; andai como filhos da luz”.88 Possivelmente os meus oponentes dirão que isso se deve à ignorância da verdade, na qual eles reconhecem que os crentes estavam retidos antes da sua vocação. Ora, embora seja isso uma calúnia impudente, pois o apóstolo Paulo infere do propósito aí expresso que os efésios não deviam mentir nem roubar, ainda que 85 At 10.2,4. 86 Ef 2.1-3 [NVI, semelhante à versão utilizada pelo Autor na parte inicial]. 87 Ef 2.12. 88 Ef 5.8.
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    74 As Institutas– Edição Especial lhes concedêssemos força em seu argumento, que responderiam eles a outras passagens? Como quando, por exemplo, tendo o apóstolo sentenciado aos coríntios que “nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus”,89 acrescenta incontinenti que eles estavam envolvidos nesses crimes antes de conhecerem Cristo, mas agora foram purificados por Seu sangue e libertados por Seu Espírito. E também, em Romanos:90 “Assim como oferecestes os vossos membros para a escravidão da impureza e da maldade para a maldade, assim oferecei, agora, os vossos membros para servirem à justiça, para a santificação. ... Naquele tempo, que resultados colhestes? Somente as cousas de que agora vos envergonhais” etc. Que semente da eleição, imploro que me digam, frutificou neles, os quais, levando uma vida totalmente vil e perversa, caracterizada por uma malícia pouco menos que sem esperança de retorno, se entregaram aos vícios mais execráveis do mundo? Se o apóstolo quisesse falar do jeito desses doutores inexperientes, deveria admoestar seus leitores a reconhece- rem quão devedores eram a Deus por não os ter deixado cair em tal miséria. Semelhantemente, o apóstolo Pedro deveria exortar os destinatários da sua epís- tola a darem graças a Deus por tê-los preservado, dando-lhes desde o princípio uma semente de santidade. Mas, ao contrário, ele os admoesta declarando que já tinham passado tempo suficiente dando largas a todas as horríveis concupiscên- cias.91 E, que aconteceria, se passássemos a apresentar exemplos? Que semente de santidade havia em Raabe, prostituta antes da fé? Igualmente em Manassés, lembrando-nos de que ele derramou o sangue dos profetas ao ponto de encher dele as ruas de Jerusalém? E também no malfeitor que veio a arrepender-se no momento em que rendia o espírito? Deixemos de lado, pois, essas invenções levianas que sabe-se lá quais mentes curiosas forjam fora da Escritura. Melhor será que nos mantenhamos firmes no conteúdo da Escritura. Esta nos ensina que todos nós éramos como pobres ovelhas desgarradas, e que cada um de nós seguia o seu próprio caminho, isto é, a perdição. Assim é que desse poço de perdição o Senhor tira os que Lhe apraz, não de um só golpe, mas variando em sua oportuni- dade, e enquanto isso os preserva de molde a não caírem em blasfêmia irremissívela . Proteção aos salvos e execução do juízo contra os réprobos Assim como o Senhor, em virtude da Sua vocação, conduz os Seus escolhidos à salvação, para a qual os preordenou segundo o Seu conselho eterno, assim tam- bém, por outro lado, Ele tem Seus juízos contra os réprobos, e por esses juízos a. No Sumário de Farel só uma passagem pode ser comparada com a presente (cap. X): “Onde falta a luz da lei, a claridade da Palavra de Deus, ali reinam os príncipes das trevas, ali estão os que tropeçam e caem no abismo”. Cf. cap. XLII: Sobre o Dia do Juízo. 89 1Co 6.9,10. 90 Rm 6.19-21. 91 1Pe 4.3.
  • 75.
    75 executa o quese havia determinado a fazera . Portanto, com relação aos que Ele criou com vistas à condenação e morte eterna, a fim de serem instrumentos da Sua ira e exemplos da Sua severidade, eis como Ele procede para fazê-los chegar a seu fim: ou os priva da faculdade de ouvir a Sua Palavra, ou, pela pregação da mesma, cega-os e endurece-os ainda mais. Do primeiro caso temos inumeráveis exemplos, mas escolhemos um, que é muito mais notável que os demais. Passa- ram-se mais de quatro mil anos antes da vinda de Cristo, durante os quais o Se- nhor sempre manteve oculta a Sua salutar doutrina. Se alguém alegar que Deus não fez os homens daquele tempo participantes de tal benefício porque os consi- derava indignos, os sucessores deles não são mais dignos. Por que será, então, que Ele concedeu essa graça a uns e a outros não? Se aqui alguém quiser buscar razão mais alta que o conselho secreto oculto em Deus, vai se atormentar em vão. E não temamos que algum discípulo de Porfíriob , ou outro blasfemo qualquer, tenha liberdade para detratar a justiça de Deus, se nada respondermos. Porque, quando afirmamos que ninguém perece sem o merecer e que é pela bondade de Deus que alguns são libertados da condenação, isso basta para manter a glória de Deus, sem que ela precise de nossas tergiversações ou rodeios para defender-se. Portanto, o Senhor, privando da luz da Sua verdade os réprobos e deixando-os na cegueira, encaminhou dessa maneira a Sua predestinação. Quanto ao segundo caso, temos dele experiência diáriac , e há muitos exem- plos na Escritura. De cem homens que ouvem o mesmo sermão, vinte o recebem com a obediência da fé, e os outros, ou não o levam em conta, ou zombam dele, ou o rejeitam e o condenam. Se alguém alegar que essa diversidade decorre da própria maldade e perversidade dos homens, essa alegação não será satisfatória. Sim, porque a mesma maldade ocuparia a mente de todos, se o Senhor não corri- gisse alguns por Sua graça. E então, por que Deus concede Sua graça a um e deixa outro de lado? Lucas92 dá a razão pela qual Deus chama alguns dizendo que foram por Ele “destinados para a vida”. Que pensaremos, então, dos outros, senão que eles são instrumentos de Sua ira manifesta em opróbrio? Não nos en- vergonhemos, pois, de falar com Agostinho93 desta maneira: “Deus poderia per- feitamente” diz ele, “converter em bem o querer dos maus, visto que Ele é todo- poderoso. Disso não há dúvida. Por que não o faz? Porque não quer. E por que a. Essa passagem nos leva a entender porque na igreja reformada jamais se fala em “bom ladrão”, mas sempre o tal é designado pela expressão “o malfeitor perdoado”. A primeira expressão recende a pelagianismo; a segunda exprime uma graça pura, e nos permite esperar a salvação mesmo daqueles que nos parecem os mais perdidos. É a essa esperança prática, a essa intercessão concreta, que Calvino quer induzir os crentes pela doutrina da predestinação. b. Filósofo neoplatônico que Calvino, em 1532, citou duas vezes em seu comentário da obra De Clementia (Sobre a Clemência) – (Opera, V, 42 e 51); ele havia lido alguns fragmentos citados pelos [chamados] pais [da igreja]. Uma primeira edição das obras de Porfírio só apareceu em 1539. c. cum extant quotidiana documenta. 92 At 13.48. 93 Lib. II, De Genes. ad litteram, cap. X.
  • 76.
    76 As Institutas– Edição Especial não quer? Isso está oculto nele. Porque não devemos saber mais que o razoável”.a Isso é muito melhor do que tergiversar com Crisóstomo94 , que disse: “Ele [Deus] acolhe aquele que O invoca, e estende a mão para ajudá-lo”; nesse caso, a dife- rença não está no juízo de Deus, mas na vontade dos homens. O mistério do endurecimento Certamente não se pode pôr em dúvida o fato de que o Senhor envia Sua Palavra a alguns que Ele sabe que terão agravada a sua cegueira. Por que foi que Ele enviou tantas mensagens ao faraó? Porque esperava poder abrandar seu coração enviando a ele embaixada após embaixada? Não, pois ele sabia antes de começar qual seria o resultado, e o tinha predito. “Vai”, disse Ele a Moisés, “e expõe a ele a minha vontade. Mas eu endurecerei o seu coração para que não me obedeça”.95 De igual maneira, suscitando Ezequiel, Deus o advertiu de que o enviava a um povo rebelde e obstinado, de modo que não deveria espantar-se quando os visse surdos.96 De semelhante maneira Ele predisse a Jeremias97 que a sua doutrina seria como fogo, para destruir e dissipar o povo como palha. Mas a profecia que temos em Isaías aperta mais forte ainda,98 pois o Senhor o envia com este manda- mento: “Vai e dize a este povo: Ouvi, ouvi e não entendais; vede, vede, mas não percebais. Torna insensível o coração deste povo, endurece-lheb os ouvidos e fecha-lhe os olhos, para que não venha ele a ver com os olhos, ouvir com os ouvidos e a entender com o coração, e se converta, e seja salvo”. Deus lhes dirige a Sua Palavra, mas para torná-los mais surdos; acende-lhes a luz, mas para torná- los mais cegos; apresenta-lhes a doutrina, mas para torná-los mais insensatos; dá- lhes remédio, mas para que não sarem. O apóstolo João, citando essa profecia, declara99 que os judeus não puderam crer na doutrina de Cristo porque essa mal- dição de Deus pesava sobre eles. Também não se pode pôr em dúvida o fato de que, quando Deus não quer iluminar alguém, mantém encoberta a Sua doutrina para que a pessoa não tenha proveito dela, mas, sim, que seja tomada por maior assombro e se torne mais tola. Cristo testificou pessoalmente100 que só aos Seus apóstolos explicava as Suas parábolas narradas ao povo “porque aos apóstolos foi dada a graça de conhece- rem os mistérios do seu reino, e não aos outros”. Que pretende o Senhor ao ensi- nar aqueles dos quais Ele cuida de não ser entendido? Consideremosc de onde a. quam oportet. b. aggravat. c. considera. 94 Homil. De conversione Pauli. 95 Êx 4 [tradução direta]. 96 Ez 2.1-7 e 12.1,2. 97 Jr 1.13-19. 98 Is 6.9,10. 99 Jo 12.37-40. 100 Mt 13.11 [tradução direta].
  • 77.
    77 vem o erro,e depois deixaremos de lado esta questão. Porque, ainda que haja alguma obscuridade na doutrina, sempre há clareza suficiente para convencer a consciência dos maus. Mas ainda resta por ver por que é que o Senhor faz isso, porquanto é certo que o faz. Se a resposta a ser dada for que Ele o faz porque os homens merecem isso por causa da sua perversidade e ingratidão, terá sido dita a pura verdade. Mas, visto que a razão dessa diversidade não se evidencia, por que Ele faz com que alguns se inclinem a obedecer e a outros faz persistir em seu endurecimento, para resolver bem a questão devemos chegar ao que Paulo obser- vou quanto ao testemunho de Moisés, que diz: “Para isso mesmo te levantei”, ao faraó, “para mostrar em ti o meu poder e para que o meu nome seja anunciado por toda a terra”.101 Porque, tendo os réprobos o reino de Deus aberto diante deles, não acedem, o que justifica a sua rejeição, que se baseia em sua perversidade e maldade. Acrescente-se que, como condição subseqüente, eles se deixam escra- vizar por essa perversidade.Vê-se, pois, que, pelo juízo imparcial mas incompre- ensível de Deus, os réprobos são suscitados ou postos em evidência para exaltar e tornar célebre a Sua glória pela condenação deles. Dessa maneira, quando se declara que os filhos de Eli não deram atenção às salutares admoestações do seu pai porque o Senhor os queria matar102 , não signi- fica que essa contumácia não venha da sua própria maldade. Nota-se, porém, semelhantemente, que eles agiram daquela maneira porque foram abandonados nessa contumácia, visto que Deus poderia amolecer o coração deles. Quer dizer, o decreto imutável de Deus, a Seu tempo, os destinou à perdição. Quando os ímpios ouvem isso, queixam-se de que Deus abusa das Suas pobres criaturas, zombando cruelmente deles com um poder irrefreável. Mas nós, que sabemos que os homens são tão culpados e de tantas maneiras diante de Deus que “quando lhes fizessem mil perguntas, nem a uma só poderiam responder”,103 declaramos que os réprobos não têm nada que não dê razão ao justo juízo de Deus contra eles. Quanto ao fato de que não compreendemos os Seus motivos, deve- mos recebê-lo pacientemente e não deixar de reconhecer que somos ignorantes nas coisas em que a sabedoria de Deus sobe às culminâncias da sublimidadea .104 Objeções com citações bíblicas, e respostas Há, porém, quem faça objeção citando passagens nas quais parece que o Senhor nega que é pela ordenação divina que os ímpios perecem, e alegando que pere- a. se Dei sapientia in suam sublimitatem attollit. 101 Rm 9.17. 102 1 Sm 2.25. 103 Jó 9.3 [tradução direta]. 104 “As coisas que o Senhor deixou recônditas em secreto não perscrutemos, as que pôs a descoberto não negligen- ciemos, para que não sejamos condenados ou de excessiva curiosidade, de uma parte, ou de ingratidão, de outra” (As Institutas, III.21.4). “Nem nos envergonhemos em até este ponto submeter o entendimento à sabedo- ria imensa de Deus, que em Seus muitos arcanos sucumba. Pois, dessas coisas que nem é dado, nem é lícito saber, douta é a ignorância, a avidez de conhecimento, uma espécie de loucura.” (As Institutas, III.23.8)
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    78 As Institutas– Edição Especial cem porque fazem jus à morte por sua resistência contra Ele. Devemos explicar isso para mostrar que elas não contradizem coisa alguma do que foi dito. Ci- tam-se as sentenças do apóstolo, segundo as quais Deus “deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade”.105 E tam- bém, que “Deus a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericór- dia para com todos”.106 E ainda, o que Ele diz por intermédio do Seu profeta, quando declara que não tem prazer na morte do perverso, mas, antes, deseja que ele se converta e viva.107 A primeira passagem de Pauloa é impropriamente citada aqui, pois é fácil mostrar pelo contextob que ele não fala de todos os homens no sentido de cada um deles, mas sim de todas as condições sociaisc . Ele tinha mandado Timóteo fazer orações solenes em favor dos reis e dos príncipes. Ora, para que não parecesse estranhod fazer oração a Deus em favor de pessoas que viviam sem esperança, visto que não somente estavam fora da comunidade dos crentes, mas também fazi- am o que podiam para oprimir o reino de Cristo, ele acrescenta que isso é agradável a Deus, que deseja que todos os homens sejam salvos. É certo que com isso ele não quer dizer outra coisa, senão que Deus não fechou o caminho da salvação para nenhuma categoria social, mas, antes, propagou a Sua misericórdia de tal maneira que deseja fazer participantes dela pessoas de todas as condições sociais. Os outros testemunhos citados não declaram o que o Senhor determinou em Seu juízo oculto, mas somente anunciam que o perdão está disponível a todos os pecadores que o peçam verdadeiramente arrependidos. Porque, se alguém teimar em se apoiar na palavra segundo a qual Deus quer fazer misericórdia a todos, replicarei que, por outro lado, diz a Escritura que “o nosso Deus está no céu, de onde ele faz tudo o que bem lhe parece”.108 Devemos, pois, explicar aquela passagem em termos que se harmonizem com esta outra: “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compade- cerei de quem eu me compadecer”.109 Uma vez que Ele escolhe aqueles a quem fará misericórdia, significa que não ae faz a todos. Mas alguém me dirá: Se assim é, pouca certezaf resta nas promessas evangélicas, as quais, testificando a vonta- de de Deus, declaram que ela quer o que repugna ao que Ele determinou em segredo. Respondo que não. Por quê? Porque, embora as promessas de salvação a. Apostoli. b. ex contextu. c. O apóstolo quer, pois, dizer, não que Deus quer salvar a massa total dos homens, indiferentemente, mas homens de toda categoria, logo, tanto príncipes como também escravos. d. absurdum. e. eam non omnibus impertitur. 1541 (por erro): l’a. f. fidei. 105 1Tm 2.4. 106 Rm 11.32. 107 Ez 18.23. 108 Cf. Jó 34.33; Sl 33.9;135.5,6; Ec 5.2; Dn 4.17; Mt 26.39,46 (N. do T.). 109 Êx 33.19; Rm 9.15.
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    79 sejam universais, todavianão contradizem de modo algum a predestinação dos réprobos, bastando que tenhamos em vista o cumprimento delas. Sabemos que, portanto, as promessas de Deus são válidas para nós quando as recebemos pela fé. Ao contrário, quando a fé deixa de existir, elas são anuladas. Se tal é a nature- za das promessas, consideremos agora se elas se contrapõem à predestinação de Deusa . A questão é que se declara que Deus determinou desde o princípiob quais seriam os que Ele receberia por Sua graça, e quais os que quis rejeitar; e, não obstante, Ele promete salvação a todos, indiferentemente. Digo que isso se coa- duna perfeitamente bem com a doutrina, porque o Senhor, prometendo como promete, não quer dizer outra coisa, senão que a Sua misericórdia está exposta a todos quantos a buscarem. Só que ninguém a busca, senão aqueles que são ilumi- nados por Ele. Finalmente, Deus ilumina aqueles que Ele predestinou para a sal- vação.110 Ora, estes experimentam a veracidade das promessas com tanta segu- rança e certeza que não se pode dizer que haja alguma contradição entre a eleição eterna de Deus e o oferecimento do testemunho da Sua graça aos que crêem. O problema específico do plural “todos” os homens Mas, por que diz o apóstolo “todos” os homens? É para que as boas consciências descansem com maior segurança, vendo que não há diferença nenhuma entre os pecadores, a não ser a diferença interposta pela condição da fé. E, por outro lado, melhor será que os ímpios não aleguem que não têm nenhum refúgio para onde fugir da sua miséria, visto que o rejeitam por sua ingratidão. Sendo, pois, que a misericórdia de Deus é apresentada a uns e a outros pelo Evangelho, não há o que possa distinguir entre os crentes e os incrédulos, senão a fé, quer dizer, a ilumina- ção de Deus, no sentido de que aqueles sentem a eficácia do Evangelho, e estes não recebem benefício dele [para a salvação]. Pois bem, a referida iluminação tem como norma determinante a eleição eterna de Deus.111 a. numquid inter se hæc dissideant. b. ab æterno Dominus ordinasse quos bonitate complecti, in quos iram exercere velit. Em 1536, cap. II, de fide (Sobre a Fé), no fim da explicação da primeira parte do Credo, Calvino disse somente: “Talem omnipotentiam, qua omnia operatur in omnibus, talemque providentiam qua omnibus moderatur, cogitare oportet (1 Co 12; Thren. 3)”. 110 “Na verdade, o Senhor chama eficazmente só os eleitos” [João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo, Paracletos, 1997, (Hb 6.4), p. 153]. 111 “De nenhum efeito é a Palavra sem a iluminação do Espírito Santo.” [João Calvino, As Institutas, III.2.33]. “O evangelho não pode ser adequadamente conhecido a não ser através da iluminação do Espírito; e, conhe- cendo-o dessa forma, somos afastados deste mundo e elevados até ao céu; e ao percebermos a benevolência de Deus, descansamos em sua Palavra.” [João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo, Paracletos, 1997, (Hb 6.4), p. 154]. “É Ele (Espírito Santo) que o distribui a cada um, segundo seu beneplácito, a luz e o entendimento que nos são indispensáveis.” [João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo, Paracletos, 1997, (Hb 6.4), p. 152].
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    80 As Institutas– Edição Especial Sobre a providência de Deus Agora devemos falar sobre a providência de Deus, que abrange o governoa do mundo inteiro. E, embora esta doutrina, bem compreendida, seja maravilhosa- mente útil para confirmar e fortalecer a fé, são muito poucos os que têm adequada concepção dela ou que refletem sobre ela como devem. Bem por isso, a maioria imagina que nessa questão o que há é tão-somente um puro e simples pré-conhe- cimento de Deus, não admitindo que todas as coisas sejam conduzidas por Seu querer e por Sua ordenação: Outros Lhe atribuem algum governo, mas obscuro e geral, quer dizer, um governo pelo qual toda a estrutura deste mundo, com todas as suas partes, é mantida e ativada. Mas, para eles, dizer que Deus dirige as ações de cada criatura está fora de questão. Eles chamam universal a esta providência, a respeito da qual afirmam que as criaturas todas não são impedidas de desviar-se para cá e para lá, fortuitamenteb , [ou, ao acaso, ou a seu talante]; como também que o homem se converte quando parece bem ao seu livre arbítrioc . Porque eles dividem de tal modo [o poder de decisão e de ação] entre Deus e o homem que acabam considerando que Deus, por Seu poder, apenas inspira ao homem a facul- dade de se mover e de agir, para que possa fazer o que cabe à sua natureza. Contudo, eles querem que o homem modere as suas ações pelo conselho de Deus. Sumário parcial Em resumo, a opinião comum é que o mundo, as coisas humanas, os próprios homens, são governados pelo poder de Deus. Não, porém, por uma providência deliberadad , querendo dizer com isso que eles determinam tudo o que se há de fazer. Passo por alto os epicureuse (praga da qual o mundo sempre esteve cheio), os quais imaginam um Deus112 ocioso, que não se envolve com nada. Semelhantemente outros, que não estão menos fora de si, atribuem a Deus a função de governar as coisas que estão acima dos ares, abandonando o restof à sua própria sorte. Passo-os por alto porque as próprias criaturasg condenam alto e bom som essa virulência. a. administratio. b. contingenter. c. libero voluntatis arbitrio. d. destinatione (sem equivalente da frase que aqui se segue). e. Segundo Epicuro, tudo se opera pelo acaso fortuito e pelo movimento e declinação dos átomos. Provavelmene Calvino não conhecia as teorias de Epicuro, a não ser conforme as citações contidas nas obras de Diógenes de Laerte [Laércio] (edição original:173 Basiléia, 1533). Ele vai criticando, cada vez mais, o epicurismo (Opera, II, 44, 70, 148, 705; V, 18). 112 Mantenho a inicial maiúscula (Deus) porque entendo que o Autor se refere a pessoas que em geral crêem em Deus, mas, querendo ou não, dão a idéia de que Deus é ocioso (N. do T.). 173 Édition princeps, “a primeira de todas as edições de uma obra” (Larousse) (N. do T.). f. inferiora. g. mutæ ipsæ.
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    81 Sobre a providênciauniversal Quanto à opinião já citada sobre a providência universal de Deusa , note-se desde logo que ela é aceita por quase todos. Pois bem, embora essa opinião tenha algu- ma aparência de veracidade, não é nem verdadeira nem tolerável. Porque, como não concede a Deus senão um movimento ou uma ação cega e inconsiderada, corta-lhe o principal, a saber: que Ele dirige e dispõe cada coisa para o seu fim. E, assim, esse conceito faz de Deus um governante do mundo só de palavra, e não de fato, visto que Lhe nega um governo autêntico e realb . Porquanto, que é governar, senão presidir de tal maneira que as coisas presididas sejam conduzidas orde- nadamente e segundo um plano adrede preparadoc ? E o fato é que a Escritura, em toda parte, nos mostra tão diligentemente uma providência particular de Deus que é espantoso que se possa pôr em dúvida. O que diz o apóstolo, que “nele vivemos, e nos movemos, e existimos”,113 e também o que Cristo testifica, dizen- do: “Meu Pai trabalha, e eu trabalho também”,114 embora provem claramente que o Senhor trabalha sem cessar em todas as obras criadas por Ele, apesar disso querem os tais opositores reportar ou atribuir isso à providência universal. Mas há testemunhos tão claros que é impossível torcê-los mediante tais cavilações e subterfúgios. O profeta Jeremias brada: “Eu sei, ó Senhor, que não cabe ao ho- mem determinar o seu caminho, nem ao que caminha o dirigir os seus passos”.115 Igualmente Salomão: “Do Senhor provém a direção do homem; como poderá ele então traçar o seu caminho?”.116 Quem se atreverá a dizer, agora, que o homem é impulsionado por Deus segundo a inclinação da sua natureza, mas que ele muda o rumo das ações onde e quando bem lhe parece?! Se fosse assim, o homem teria os seus caminhos sob o seu próprio comando. Talvez digam que não, porque ele nada pode sem o poder de Deus. Mas isso não resolve a questão, porquanto é evidente que Salomão não quis atribuir apenas o poder a Deus, mas também a eleição e a providência, de modo que tudo é feito conforme o Seu beneplácito. O próprio Salomão, noutra passagem,117 repreende particularmente a temeridade dos homens, que empreendem suas realizações sem sondar [a vontade de] Deus, como se elas não fossem conduzidas por Sua mão. Diz ele: “O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do Senhor”. É por certo uma estultícia ridícula os homens se disporem a fazer sem Deus o que eles não podem falar com seus lábios, limitados como estão a dizer somente o que Lhe agrada. E ainda a Escritura, para expressar mais claramente que nada absoluta- a. Calvino combate aqi, por antecipação, o deísmo do século XVIII. b. Acréscimo feito no texto latino. c. destinato ordine. É nesse sentido que o presidente de sínodo reformado seria chamado moderador. 113 At 17.28. 114 Jo 5.17. 115 Jr 10.23. 116 Pv 21.2 [tradução direta; cf. Pv 16.9]. 117 Pv 16.1.
  • 82.
    82 As Institutas– Edição Especial mente se faz neste mundo que não seja pela ordenaçãoa de Deus, subordina a Ele, nominal e explicitamente, todas as coisas que têm toda a aparência de fortuitas ou casuais. Que coisa diríamos que é mais casual do que um galho de árvore cair sobre alguém que passa e o matar?118 Mas, diversamente, Deus declara que o colocou nas mãos daquele que o maneja para matá-lo.119 A mesma coisa quanto aos sorteios. Quem é que não atribui a sorte aos riscos do acaso? Mas Deus não admite isso; Ele afirma que a Ele pertence a decisão.120 Ele não diz que é por Seu poder que se lança a sorte no chapéub e dali se tira; mas o que tem a aparên- cia de fortuito ou casual Ele atribui à Sua providência, que a faz sair para um ou para outroc . Pecha de estoicismo lançada sobre a doutrina da predestinação Os que querem tornar esta doutrina odiosa a caluniam dizendo que ela se identi- fica com o paradoxo dos estóicosd , segundo o qual todas as coisas sucedem ne- cessária ou inevitavelmente.121 O que é fortemente repudiado por Agostinho, en- tre outros.122 Quanto a nós (conquanto não nos agrade debater palavras), não aceitamos o vocábulo empregado pelos estóicos, qual seja: Fatum123 e . Por isso mesmo, quanto a muitos vocábulos, Paulo nos ensina a fugir das novidades; pois não é que os nossos inimigos mancham, por ódio ao nome [da doutrina], a verda- de de Deus com sua acusação? Quanto à referida opinião, é falsa e maldosamen- te dada como uma objeçãof a nós. Porque nem sonhamos com uma necessidade ou inevitabilidade mantida na natureza por uma conjunção perpétua de todas as coisasg , como faziam os estóicos. Mas nós declaramos Deus o Soberano Senhorh e Governador de todas as coisas, e dizemos que desde o princípioi , segundo a Sua sabedoria, Ele determinou o que haveria de fazer e então haveria de executar, segundo o Seu poder, tudo quanto havia deliberado. Concluímos, pois, que não somente o céu, a terra e todas as criaturas destituídas de razão, são governadas por Sua providência, mas também os conselhos e os desejosj dos homens, e que os governa de modo tal que os conduz ao propósito determinado por Ele. E 174 Filósofo grego, fundador do estoicismo (c. 340-265 a. C.) (N. do T.). a. destinatione. b. in sinu conjiciantur lapilli. c. Frase acrescentada no texto latino. d. dogma Stoïcorum. Nos tratados De scandalis (1550) e De æterna Dei prædestinatione (1552 ) – (Sobre os Escândalos e Sobre a Predestinação Eterna de Deus) Calvino insistirá nessa distinção entre o fatum [fatali- dade] estóico e a predestinação. Provavelmente foi pela obra De fato (Sobre a Fatalidade) de Cícero que ele teve algum conhecimento sobre a teoria de Zenão (ou Zênon)174 sobre a heimarméne. e. Quer dizer Destino, Sorte ou Fatalidade. f. objectatur. g. Calvino nitidamente se separa daquilo que se chamaria no século XIX determinismo (científico ou filosófico). h. arbitrum. i. ab ultima æternitate. j. voluntates.
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    83 então? dirá alguém,nada se faz ou acontece por acaso ou por contingência?a Respondo que foi muito bem declarado porb Basílio quando ele escreveu que Sorte (Fortuna) e Acasoc são palavras pagãs, cujo significado não deve entrar num coração fiel. Porque, se toda prosperidade é bênção de Deus, e toda adver- sidade é Sua maldição, não resta nenhum lugar à sorte em tudo quando sobre- venha aos homens.124 Reforço do argumento para consolo Todavia, visto que a nossa debilidade sucumbe ante a altitude da providência de Deus,125 introduzirei aqui uma distinção para nosso consolo. Diremos então que, conquanto todas as coisas sejam feitas e aconteçam pela ordenação de Deus, sucede, porém, que para nós elas são fortuitas ou casuais. Não é que julgamos que a Fortuna126 domine sobre os homensd , elevando e rebaixando todas as coisas com arrogante audácia (porque esse devaneio deve estar longe do coração cris- tão).127 O fato é que, como as coisas que acontecem, a ordem, a razão, o fim e a a. contingenter. b. a (quer dizer: por). A primeira de todas as edições das obras de Basílio em grego veio a lume em Basiléia, em 1532. c. fortunæ aut casui. d. mundo ac hominibus. 118 Aqui e após a palavra “acaso”, logo adiante, falta o sinal de interrogação, que os editores do texto que estamos utilizando acrescentaram entre colchetes (N. do T.). 119 Êx 21. 120 Pv 16.33. 121 O “Fatalismo Estóico” considerando que todos os eventos são inevitavelmente guiados à sua consumação por forças internas; – “tudo acontece por necessidade do destino” [Justino de Roma, Segunda Apologia, 6: In: I e II Apologia: diálogo com Trifão, São Paulo, Paulus, 1995. (Patrística, 3), 97] –, ordena ao homem que aceite o destino porque é impossível resistir ao curso dos acontecimentos. Por isso, para o filósofo estóico, a virtude consiste numa total indiferença, apatia, renúncia a todos os bens do mundo que não dependem de nós. Tudo está fatalmente determinado, logo, cabe-nos apenas o controle das paixões e total resignação. Calvino (1509-1564), como nós Reformados, longe de entender que o cristão é um fatalista, escreveu antes de Leibniz, em 1559, mostrando que o conceito de Providência nada tem a ver com o conceito estóico. “Aqueles que desejam suscitar ódio para com esta doutrina, caluniam-na de ser o dogma do destino dos Estóicos....” [J. Calvino, As Institutas, I.16.8]. Em outro lugar: “Longe estará do coração dos cristãos aceitar o todo e distorcido consolo dos filósofos pagãos que tentam se endurecer contra as adversidades, culpando a si mesmos da sorte e do destino.” [João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 44]. 122 Libr. ad Bonif., II, c. 6. 123 Destino, fatalidade. Em latim no original (N. do T.). 124 “A providência de Deus, qual é ensinada na Escritura, é o oposto da sorte e dos acontecimentos atribuídos ao acaso. (...) Todos e quaisquer eventos são governados pelo conselho secreto de Deus.” [João Calvino, As Institutas, I.16.2]. Para os crentes, permanece o princípio: “O que nos parece contingente, a fé reconhecerá haver sido secreta injunção de Deus”. [João Calvino, As Institutas, I.16.9]. Em resumo: “Deus não faz nada sem razão”. [Juan Calvino, El Señor dio y El Señor quito: In: Sermones Sobre Job, Jenison, Michigan, T.E.L.L., 1988, (Sermon nº 2), p. 42] (T) 125 “Visto que a providência divina no mundo não é agora evidente, é mister que exerçamos paciência e suba- mos acima das sugestões do senso carnal a antecipar o resultado favorável.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 2, (Sl 49.1), p. 371]. 126 “La Signora Fortuna”, diz uma canção italiana (N. do T). 127 Um bom exemplo do pensamento combatido por Calvino temos em seu contemporâneo, o filósofo florentino Niccolò Machiavelli (1469-1527), considerado o fundador do pensamento político moderno. No Príncipe
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    84 As Institutas– Edição Especial necessidade, na maioria das vezes estão ocultas no conselho de Deus e não po- dem ser entendidas pela opinião humana, as coisas que reconhecemos que certa- mente provêm da vontade de Deus são, para nós, pouco menos que casuais. Por- que elas não mostram outra aparência, quando consideradas em sua natureza, ou quando avaliadas segundo o nosso juízo e conhecimento. Como exemplo, consi- deremos o caso de um negociante que, tendo entrado numa floresta em boa com- panhia, perde-se do grupo e acaba caindo nas mãos de bandidos, e estes lhe cor- tam a garganta. Sua morte não somente havia sido prevista por Deus, mas tam- bém tinha sido decretada segundo a Sua vontadea . Porquanto, não somente se afirma que Ele previu tudo quanto abrange a vida de cada um, mas também decla- ra: “Tu [Senhor] ao homem puseste limites além dos quais não passará128 . Toda- via, tendo em vista o que a nossa concepção é capaz de apreender, todas as coisas parecem casuais nesse tipo de morte. Que é que um cristão pensará aqui? Certa- mente julgará que é casual em sua natureza, mas não duvidará que a providência de Deus tenha presidido tudo, conduzindo a sorte a Seu objetivo. O mesmo argu- mento serve com relação aos eventos futuros: como todas as coisas vindouras são incertas para nós, também nisso nos mantemos em suspense, como se elas pudes- sem cair numa ou noutra sorte. Isto, porém, permanece resolvido firmemente em nosso coração: Nada acontecerá que Deus não tenha ordenadob . (1513), Maquiavel ensina que 50% de nossa vida e destino estão entregues à sorte ou fortuna, divindade cega. Notemos que aqui Maquiavel substitui a palavra Providência por Fortuna; no entanto, mais do que a palavra, ele modifica o conceito; a Fortuna em Maquiavel é uma forma secularizada da Providência. A outra metade, é comandada pelo nosso livre arbítrio. (Ver: N. Maquiavel, O Príncipe, São Paulo, Abril Cultural (Os Pensadores, Vol. IX), 1973, Cap. XXV, p. 109 e XXVI, p. 114). Deste modo, os homens podem con- quistar parte da sorte pela “virtù”, mas nunca opor-se a ela, aos seus desígnios. No entanto a sorte é bastante passional: “Estou convencido de que é melhor ser impetuoso do que circunspecto, porque a sorte é mulher, e para dominá-la, é preciso bater-lhe e contrariá-la. E é geralmente reconhecido que ele se deixa dominar mais por estes do que por aqueles que procedem friamente. A sorte, como mulher, é sempre amiga dos jovens, porque são menos circunspectos, mais ferozes e com maior audácia a dominam.” (N. Maquiavel, O Príncipe, Cap. XXV, p. 111.). Equivocadamente confiante no poder do homem, propõe o escape de um fatalismo rígido, sugerindo a conquista de parte do território governado pela fortuna, pela “virtù”, que é a capacidade de liderança e de grandes feitos. O caminho de que dispomos é a “oportunidade”. Compete ao príncipe - a exemplo de Moisés, Ciro, Teseu, entre outros - usar do seu livre arbítrio [“Deus não quer fazer tudo, para não nos tolher o livre arbítrio e parte da glória que nos cabe.” (Maquiavel, O Príncipe, Cap. XXVI, p. 114)] – para não entregar o seu futuro simplesmente à sorte. “.... digo que se vê hoje o sucesso de um príncipe e amanhã a sua ruína, sem ter havido mudança das suas qualidades. Creio que a razão disso, conforme o que se disse anteriormente, é que, quando um príncipe se apóia totalmente na fortuna, arruina- se segundo as variações daquela. Também julgo feliz aquele que combina o seu modo de proceder com as particularidades dos tempos, e infeliz o que faz discordar dos tempos a sua maneira de proceder.” (N. Maquiavel, O Príncipe, Cap. XXV, p. 110). Percebemos o quão diferente é conceito de Calvino a respeito da Providência de Deus: “Notamos que a maioria atribui à fortuna o que deveria ser atribuído à providência de Deus.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 46.8), p. 336]. 128 Jó 14.5. a. decreto stabilita. b. providerit.
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    85 Cuidado com asinvencionices dos que falseiam a verdade! Portanto, ao considerarmos a providência de Deus, devemos cuidar de não cair na multidão de fantasias de tantos tipos de tolos, os quais ficam a tagarelar de tal modo sobre isso que acabam confundindo céus e terra [em sua negação da doutri- na da predestinação. Como no seguinte pensamento]: “Se Deus tivesse marcado a hora da nossa morte, não poderíamos escapar. Então seria inútil nos empenhar- mos em proteger-nos”. Assim, há os que não ousam pôr-se a caminho quando ouvem dizer que ali há perigo, temendo o assalto de bandidos; outros correm atrás de remédios e de médicos, em busca de ajuda para as suas doenças; outros se abstêm de carne gorda para prevenir-se; outros têm medo de morar em casas ruinosas; e todos em geral procuram meios para levar a cabo as suas intenções. Todas estas coisas são remédios fúteis a que recorrem para corrigir a vontade de Deus; ou então não é por Sua vontade e por Sua ordenação que todas as coisas acontecem. Porque estas coisas são incompatíveis: Dizer que a vida e a morte, a saúde e a doença, a paz e a guerra, as riquezas e a pobreza, vêm de Deus, e dizer que os homens, por sua habilidade, ou as evitam ou as obtêm, conforme as detes- tam ou as deseja. Para que orar?129 Acresce que aqueles homens dizem que as orações dos crentes não somente são supérfluas mas também são más, porquanto por elas se pede que Deus faça ou dê o que deliberoua eternamente. Em suma, eles suprimem toda deliberação que se tome com relação a coisas futuras como repugnantes à providência de Deus, a qual, sem nos convocar para conselho, determinou uma vez por todas aquilo que ela quer que seja feito.Além disso, tudo o que acontece eles imputam de tal modo à providência de Deus que não tomam em consideração o homem, que sempre terá feito algo daquilo do que se trata. Se algum malfeitor mata um homem de bem, eles dizem que esse homem executou o conselho de Deus. Se alguém rou- bou ou adulterou, dizem eles que tal homem é ministro da providência de Deus, uma vez que fez o que Deus tinha previsto. Se o filho deixa morrer o pai sem lhe prestar socorro, a explicação dada é que ele não poderia resistir a Deus, que assim tinha ordenado. Dessa forma eles transformam todas as más ações em vir- tudes, alegando que elas prestam serviço à ordenação de Deus. a. decrevit. 129 Calvino, relacionando as nossas orações ao cuidado providente de Deus, escreve: “Para incitar os verdadei- ros crentes a uma mais profunda solicitude à oração, Ele promete que, o que propusera fazer movido por Seu próprio beneplácito, Ele concederia em resposta a seus pedidos. Tampouco existe alguma inconsistência entre estas duas verdades, a saber: que Deus preserva a Igreja no exercício de sua soberana mercê, e que Ele a preserva em resposta às orações de Seu povo. Pois, visto que suas orações se acham conectadas às promes- sas graciosas, o efeito daquelas depende inteiramente destas.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 3, (Sl 102.17), p. 57]. “Aquele que confia na providência divina deve fugir para Deus com orações e forte clamor.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 31.17), p. 27].
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    86 As Institutas– Edição Especial Quanto às coisas futuras... Quanto às coisas futuras, Salomão facilmente concede à providência de Deus as decisõesa que se tomam. Porque, assim como ele zomba do atrevimento daqueles que, sem levar Deus em conta, audaciosamente empreendem tudo quanto vem a eles em sua fantasia, como se não fossem regidos por Sua mão, assim também em certa passagem ele diz: “O coração do homem traça o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos”.130 Com isso ele quer dizer que o decreto eterno de Deus não nos impede de agir sob a Sua boa vontade e que controlemos as coisas que nos dizem respeito. A razão é clara e manifesta. Porque Aquele que limitou a nossa vida, confiou-nos também a solicitude por ela, o cuidado dela; deu-nos os meios para preservá-la; e nos habilitou a prever os perigos, para que não nos surpreen- dam, dando-nos ao contrário remédiosb para capacitar-nos a preveni-los. Agora se vê qual é o nosso dever. Se o Senhor nos dá a nossa vida para que dela cuidemos, que a preservemos; se nos dá os meios para fazê-lo, que os utilizemosc ; se Ele nos mostra os perigos, que não nos atiremos loucamente e sem propósito; se Ele nos oferece remédios, que não os menosprezemos.131 Mas, dirá alguém, nenhum perigo nos fará mal, se não tiver sido ordenado que faça. E, se assim é, pode-se ir ao encontro dele com qualquer remédio ou recurso. Mas, por outro lado, que acontecerá se os perigos não forem insuperá- veis, visto que o Senhor nos designou os remédios pra sobrepujá-los? [Respon- do:] Considere que acordo há entre o seu argumento e a ordem da providênciad divina. Você infere que não devemos guardar-nos dos perigos porque podemos escapar sem nos guardarmos, desde que não sejam insuperáveis; mas também que, por outro lado, o Senhor lhe ordena que se guarde, porque quer que você escape. Os fulanos mentalmente transtornados que assim argumentam não consi- deram o que se vê com os olhos: que a habilidade de guiar-nos e guardar-nos foi inspirada aos homens por Deus. Com que finalidade? Para com isso poderem servir à providência divina preservando a sua vida. Como também, por sua negli- gência e desconsideração, eles recebem as misérias que Ele queira impor-lhes. Por que será então que, na mesma situação em que o homem prudente, que orde- na e dirige as coisas que lhes dizem respeito, desvia de si o mal que está perto, e o tolo, por sua temeridade, perece? Que outra coisa pode ser, senão que a insensatez a. humanas deliberationes. b. cautiones ac remedia. c. Calvino atribui aqui aos recursos humanos: medicina, higiene, engenhosidade do nosso espírito, o que pode parecer que ele lhes tinha negado três linhas acima. Sabe-se do progresso que as ciências tiveram entre os povos calvinistas. d. tuæ ratiocinationi cum ordine divinæ dispensationis. 130 Pv 16.9. 131 “Se o Senhor nos confiou a proteger a nossa vida, que a cerquemos de cuidados; se oferece recursos, que os usemos; se nos previne de perigos, a eles não nos arrojemos temerariamente; se fornece remédios, não os negligenciemos.” (J. Calvino, As Institutas, I.17.4). Vd. também, As Institutas, I.17.9.
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    87 e a prudênciasão instrumentos da dispensação de Deus, de um lado e do outro? Por isso o Senhor quis que todas as coisas futuras nos estejam ocultas, a fim de prosse- guirmos em nosso caminho não sabendo o que irá acontecer; e que não deixemos de usar os remédios ou recursos que Ele nos dá para enfrentarmos os perigos até que alcancemos o objetivo proposto, ou que sejamos sobrepujados por eles. Quanto às coisas passadas... Quanto às coisas já acontecidas e passadas, esses homens cobertos de fantasias consideram mal e perversamente a providência de Deus. Nós dizemos que to- das as coisas dependem da Providência como de seu fundamento; e, portanto, não se pratica nem latrocínio, nem adultério, nem homicídio que a vontade de Deus não interfira. Sobre isso os tais perguntam: Sendo assim, por que deverá ser punido o ladrão que puniu aquele que Deus quis que fosse castigado com a pobreza? Por que deverá ser punido o assassino que matou aquele a cuja vida Deus pôs termo? Resumindo, se semelhantes pessoas servem à vontade de Deus, por que deverão ser punidas? Eu, porém, nego que elas com isso estão servindo à vontade de Deus. Porque não diremos que alguém que é movido por um mau coração se dedica a servir a Deus, visto que ele tão-somente quer comprazer sua malvada cupidez. Aquiesce e obedece a Deus aquele que, aprendendo a Sua vontade, vai aonde esta o chama. Agora, onde é que Deus nos ensina a Sua vontade, senão em Sua Palavra? Portanto, em tudo quanto nos cabe fazer, devemos contemplar a von- tade de Deus tal qual nos é revelada em Sua Palavra. Deus só exigea de nós o que Ele ordena. Não fazer nada contra o Seu preceito não é obediência, mas, antes obstinação e transgressão. Pois não é que os tais replicam que não ofenderíamos a Deus se Ele não quisesse? Reconheço. Mas, fazemos isso a fim de agradá-lo? Ora, Ele não nos manda praticar o mal; mas nós o praticamos sem pensar no fato de que Ele não nos manda fazer isso. O fato é que, estando nós tão alterados pela fúria da nossa intemperança que com deliberado propósito nos empenhamos em praticar trans- gressão, dessa maneira servimos à Sua justa ordenação, ao praticarmos o mal; porque, pela grandeza infinita da Sua sabedoria, Ele de maneira justa e reta se serve de instrumentos maus para fazer o bem. A absurdidade das objeções em foco posta às claras Mas vejamos bem quão absurda é a argumentação dos nossos opositores. Eles querem que os crimes permaneçam impunes e que estejam livres os que os prati- cam, uma vez que não são cometidos independentemente da ordenação de Deus. a. requirit. 1537, Sobre a Lei do Senhor: “É evidente que Deus compreende em duas tábuas tudo o que Ele requer de nós”.
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    88 As Institutas– Edição Especial Digo mais, que os ladrões, as meretrizes e outros malfeitores são instrumentos da providência de Deus, dos quais Deus se utiliza para executar os juízos decretados por Ele. Mas eu nego que, por isso, possam pretender alguma escusa. Então quê? Envolverão eles a Deus na mesma iniqüidade com eles? Ou vão querer cobrir a sua perversidade com a justiça divina? Não podem fazer nem uma coisa nem outra; e a sua própria consciência de tal modo os acusa que eles não podem extir- par ou sanar o seu mal.Acusar a Deus eles não podem, visto que encontram em si mesmos toda a maldade, e em Deus nada encontram, senão um uso bom e legíti- mo dos males que eles praticam. No entanto, Deus trabalha por meio deles, dirá alguém. E de onde vem o odor da podridão de um cadáver exposto? Qualquer pessoa pode ver claramente que vem dos raios solares. E, todavia, não é por isso que se vai dizer que os raios do sol têm mau cheiro. Assim, visto que a substância e a culpa do mal subsistem no homem mau, por que Deus eliminaria toda e qualquer mácula e sujidade, se a usa conforme a Sua vontade? Portanto, acabemos com essa petulância animalesca, a qual pode ladrar de longe contra a justiça de Deus, mas não a pode tocar. Boa norma para se avaliar a providência divina Contudo, não se pode refutar melhor nem mais rápido esses absurdos do que demonstrando qual é a regra que devemos ter para julgar e considerar bem a providência de Deus. Por isso, visto que o coração do cristão já tem como coisa esclarecida e resolvida que nada acontece por acaso, mas que todas as coisas são feitas pela providência divina ou por meio dela, ele sempre considerará a Deus como a causa principal de tudo o que se faz; entretanto, não deixará de ter em conta as causas inferiores ou secundárias, em seus respectivos graus. Além disso, o cristão não duvidará de que a providência de Deus vela por sua preservação e não permitirá que lhe aconteça nada que não seja para seu benefício e para a sua salvação. Agora, tendo-se em vista que Deus cuida primeiro do homem132 e, em segundo lugar, das demais criaturas [sem omitir aquele ou estas], o cristão afir- mará que a providência divina impera sobre todos e sobre tudo. No que se refere aos homens, bons ou maus, ele reconhecerá que os seus conselhos, suas vontades e suas forças, seus poderes e seus empreendimentos, estão sob a mão de Deus; tanto que a Ele cabe dobrá-los para onde Lhe apraz e reprimi-los toda vez que bem Lhe pareça. Há muitas promessas evidentes que testificam que a providência de Deus cuida dos crentes e vigiaa os seus passos para manter e assegurar a sua salvação. Como quando a Escritura diz: “Confia os a. infidelium salutem excubare. 132 “Não há homem de mente tão embotada e estúpida que não consiga ver, bastando dar-se ao trabalho de abrir seus olhos para o fato de que é pela espantosa providência de Deus que os cavalos e bois prestam seus serviços aos homens – que as ovelhas produzem lã para vesti-los –, e que todas as sortes de animais os suprem de alimento para sua nutrição e sustento, mesmo de sua própria carne” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 1, (Sl 8.7-9), p. 173].
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    89 teus cuidados aoSenhor, e ele te susterá; jamais permitirá que o justo seja abala- do”. E também: “Os olhos do Senhor repousam sobre os justos, e os seus ouvidos estão abertos às suas súplicas”. E ainda: “Quem habita no esconderijo doAltíssimo será sustentado pela sua proteção”. E mais: “Aquele que tocar em vós toca na menina do seu olho [do olho do Senhor]”. E também: “Deus lhe põe a salvação por muros e baluartes” [para a defesa do Seu povo]. E finalmente: “Ainda quando a mãe esquecesse seus filhos, eu não me esquecerei de ti”.133 Sucede mesmo que o principal objetivo das narrativas da Bíblia é mostrar que Deus cuida tão solicitamente dos Seus servos que não deixará que tropecem nalguma pedra. Embora com razão eu acima tenha reprovado a opinião daqueles que imaginam uma providência universal de Deus, a qual não desce para dar atenção especial a nenhuma criatura, devemos, porém, acima de tudo mais, reco- nhecer esta solicitude especial de Deus para conosco. Por essa razão Cristo, após haver dito que “nenhum deles [pardais] cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai”,134 aplica incontinenti essa sentença ao nosso caso, no sentido de que devemos estar certos de que, como para Deus somos mais preciosos que os passa- rinhos, Ele cuida de nós mais atentamente do que deles. Também disse o Senhor que tal é o cuidado de Deus por nós que não se perderá nem um só fio do nosso cabelo135 sem a Sua permissão. Que é que nós queremos mais, se nem um só fio de cabelo pode cair sem que Deus o queira?136 Portanto, o servo de Deus, confirmado e fortalecido por todas essas pro- messas e pelos exemplos correspondentesa , junta a eles os testemunhos nos quais se declara que todos os homens estão sob o poder de Deus, seja que Ele induza o coração deles a nos amar, seja que reprima a sua maldade, para que esta não nos prejudique. Porque foi o Senhor que deu graça a Seu povob , não somente para com os que distintamente lhe foram amistosos, mas também para com os egípcios.137 Quanto ao furor dos nossos inimigos, Ele sabe muito bem como detê-los ou des- truí-los de diversas maneiras. Às vezes Ele fecha o seu entendimento, para que não possam tomar conselho ou formular bom plano. Foi o que fezc com Acabe, a. Acrescentado no texto latino. b. nobis. c. Acrescentado no texto latino. 133 Sl 55.22; 1Pe 3.12; Sl 91.1 [tradução direta]; Zc 2.8; Is 26.2; 49.15 [tradução direta]. 134 Mt 10.29,31. 135 Lc 21.18. 136 “É evidente que Deus emprega seus anjos de diferentes maneiras, pondo um só anjo sobre várias nações e também vários anjos sobre um só homem, Não há necessidade de sermos exigentes e escrupulosos inquirindo sobre o modo exato em que ministram juntamente para nossa segurança; baste que, conhecendo pela autorida- de de um apóstolo o fato de serem eles designados como ministros sobre nós, descansemos satisfeitos com o fato de que estão sempre atentos a sua incumbência. Lemos em outra parte sobre sua prontidão em obedecer e executar as ordens divinas; e isso deve contribuir para o fortalecimento de nossa fé, visto que Deus faz uso de seus esforços para nossa defesa.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 3, (Sl 91.11), p. 452]. 137 Êx 1.
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    90 As Institutas– Edição Especial enviando-lhe o Diabo, para lhe profetizar mentira pela boca de todos os profetas, a fim de enganá-lo.138 Como também fez com Roboão, cegando-o por meio do estulto conselho dos jovens para despojá-lo do seu reino.139 Por vezes, dando aos homens entendimento para que vejam e entendam o que é válido e benéfico, de tal modo Deus abate o coração deles e os enche de espanto que não se atrevem a realizara o que tinham planejado. Às vezes, permitindo-lhes que se esforcem para executar o que a sua insanidade os induz a fazer, Deus se antecipa a seu ímpeto e não permite que eles levem a cabo a sua intenção. Desse modo Ele dissipou pre- viamente o conselho de Aitofel, que era pernicioso para Davi140 . Dessa maneira Deus cuida de governar e conduzir todas as criaturas com vistas à salvação dos Seus. Faz isso até com o Diabo, o qual vemos que não se atreveu a atentar contra Jó sem o Seu consentimento e a Sua ordem.141 O conhecimento da verdade acima exposta leva a um adequado julgamento sobre a Providência Tendo nós esse conhecimento, resultarão necessariamente tanto a bondade de Deus presente em toda prosperidade como a paciência e a perseverança na adver- sidade; e, ademais, uma singularb segurança quanto ao que possa suceder. Porque toda e qualquer coisa que aconteça de acordo com o nosso querer, atribuiremos a Deus, seja que percebamos o benefício que Ele nos faz por meio dos homens, seja que nos ajude por meio de suas outrasc criaturas. Porque este é o julgamento que faremos em nosso coração: “Certamente foi Deus que levou o coração deles a me querer bem, e fez deles instrumentos da Sua benignidade em meu favor”. Havendo fertilidade no solo, consideraremos que foi o Senhor que mandou o céu fazer chover sobre a terra, a fim de que frutificasse. Em todos os outros casos de prosperidade, não duvidaremos de que unicamente a bênção de Deus é a sua causa. Quanto às Suas admoestações e advertências, não seremos ingratos. Ao contrário, se nos sobrevier alguma adversidade, imediatamente elevaremos o nosso coração a Deus, o único que nos poderá habilitar à paciência e à tranqüilidaded . Se José ficasse pensando na deslealdade dos seus irmãos e ficasse remoendo o que eles lhe tinham feitoe , jamais os teria tratado com bravura fraternal. Mas, a. velint aut machinentur. b. incredibilis. c. inanimatis. d. placidam animi moderationem. e. Frase acrescentada no texto latino. 138 1Rs 22.5,6. 139 1Rs 12.1-15. 140 2Sm 17.1-23. 141 “Os ladrões e os homicidas, e os demais malfeitores, são instrumentos da divina providência, dos quais o próprio Senhor Se utiliza para executar os juízos que em Si determinou.” (João Calvino, As Institutas, I.17.5). Comentando a investida de Satanás contra Jó, arremata: “Concluímos que desta provação de que Satanás e os perversos salteadores foram os ministros, Deus foi o autor.” (João Calvino, As Institutas, I.18.1).
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    91 visto que dirigiuseu pensamento a Deus, esquecendo a injúria sofrida, foi incli- nado à mansidão e à brandura, ao ponto de ele próprio os consolar, dizendo: “Não vos entristeçais, nem vos irriteis contra vós mesmos por me haverdes vendido para aqui; porque, para conservação da vida, Deus me enviou adiante de vós. Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem142 ”. Se Jó ficasse com a atenção fixa nos [sabeus e nos] caldeus que o tinham ultraja- do, seria inflamado pelo desejo de vingança. Mas, uma vez que reconheceu igual- mente a ação de Deus, consolou-se com esta belaa declaração: “O Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor!143 ” A mesma coisa com Davi; se se dedicasse totalmente a considerar a maldade de Simei, que o perseguiu com palavras ofensivas e lhe atirando pedras, teria incitado os seus soldados à vingan- ça. Mas, como entendeu que ele não estava fazendo aquilo sem que Deus a isso o movesse, apaziguou os seus valentes, em vez de despertar-lhes a irab , dizendo- lhes: “Deixai-o amaldiçoar; pois, se o Senhor lhe disse: Amaldiçoa a Davi, quem diria: Por que assim fizeste?144 ”. Se não houver melhor remédio contra a ira e a impaciência, de bom provei- to será meditar na providência de Deus no sentido de que sempre possamos redu- zir o nosso pensamento a este ponto: O Senhor o quis; portanto, recebamo-lo com paciência. Não somente porque ninguém pode resistir a Ele, mas também porque Ele não quer coisa alguma que não seja justo e benéfico. Comprovação bíblica Essa a razão pela qual a Escritura se firma tão diligentemente em nos provar este artigo. Como quando Deus declara, por meio de Amós: “Sucederá algum mal à cidade, sem que o Senhor o tenha feito?145 ”. E também, quando Jeremias repre- ende os que pensam que pode sobrevir alguma calamidade sem que Deus a tenha ordenado146 . Porque, se os males que padecemos procedem dos homens, o que se diz é que Deus os santificou ou consagrou para executarem a Sua obra, e, por isso são chamados redes, gládios ou espadas e machados, que Ele próprio maneja.; e mais,“instrumentosdasuaira,osquaiselelevantacomumsimplesassobio147 ”.Disso decorre que sobre Pilatos e Herodes, que conspiraram para levar Cristo à morte, se diz que planejaram fazer o que o conselhoc de Deus tinha decretado148 . Nesse mesmo sentido se afirma que os judeus mataram Cristo conforme o Pai celeste a. pulcherrima. b. Acrescentado no texto latino. c. manus et consilium. 142 Gn 45.5; 50.20. 143 Jó 1.13-17, 21. 144 2Sm 16.10. 145 Am 3.6. 146 Lm 3.37,38 [todo o capítulo gira em torno dessa idéia]. 147 Is 13.3; Ez 12.13; 17.20; Sl 17.13,14; Is 10.13-17 e 13.3-5; Jr 1.10,18. [Tradução direta.] 148 At 4.27,28.
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    92 As Institutas– Edição Especial havia determinadoa , de forma que realizaram todas as coisas que estavam escri- tas sobre Ele. Como também várias vezes se repete nos evangelhos que os solda- dos que O crucificaram puseram em execução tudo o que estava predito na Escri- tura.149 Essas coisas todas se reportam à realidade aqui focalizada, de modo que, sempre que os homens nos aflijam com a sua maldade, não deixemos de conside- rar a ação de Deus e de ter como coisa certa e segura o seguinte: Por mais impiedosamente que eles se portem conosco, isso não sucede senão pela justa ordenaçãob de Deus, que o permite, o quer e o dispõe dessa formac . Ou então, se alguma adversidade nos oprime sem a interferência [causal] dos homens, a Escri- tura nos declara que a esterilidade da terra, a fome, as doenças em geral e todas as outras coisas que consideramos casuais, são maldições de Deus, ou, ao menos, castigos que Ele nos envia.150 As causas secundárias Todavia, se não fecharmos os olhos, não poderemos deixar de dar atenção às causas secundárias. Porque importa considerar ministros da benignidade de Deus aqueles dos quais recebemos algum bem, não os menosprezando como se não merecessem nenhum gesto de graça ou de bênção da nossa parte por sua atitude humanitária, mas, antes, reconhecendo e confessando de bom grado que lhes somos gratos [por seus favores]; como também nos esforçando para pagar-lhes o bem com o bem, quando houver oportunidade. Em resumo, prestaremos a Deus a honrad de reconhecê-lo como o principal Autor de todo bem; mas também honraremos os homens como ministros e despenseiros dos Seus benefícios, entendendo que Deus nos quis tornar devedo- res a eles, visto que Ele se mostrou nosso benfeitor por intermédio das mãos deles. Se sofrermos algum dano ou prejuízo, por nossa negligência ou displicên- cia, estaremos julgando bem se pensarmos que isso é feito pela vontade de Deus, não deixando, porém, de imputar a nós a culpa. Se algum dos nossos parentes ou amigos, do qual deveríamos cuidar, morrer sem ter recebido os necessários cuidadose , embora não ignoremos que ele chegou ao termo que não poderia ultra- passar, isso não diminuirá o nosso pecado. Mas, sim, visto que não cumprimos o nosso dever, tomaremos a sua morte como tendo ocorrido por nossa culpa. Por mais forte razão, se houver astúcia enganosa ou maldade deliberada ao se come- ter assassínio ou latrocínio, não devemos escusar esses crimes alegando como a. definito ejus consilio et scientia traditum. b. dispensatione. c. 1539 tem somente: permissum et immissum. d. reverebit. e. 1539 tem somente: si quis. Entre 1536 e 1539 Calvino perdeu seu irmão Charles, falecido em Noyon, em 1537. 149 At 2.23. 150 Lv 26; Dt 27 e 28.
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    93 pretextoa a providência deDeus. Mas, num mesmo fato [dessa natureza], deve- mos ver a justiça de Deus e a iniqüidade do homem, sendo evidente que ambas estão presentes. As causas secundárias em relação ao futuro Quanto às coisas futuras, teremos em conta principalmente as causas secundárias das quais falamos acima. Porque julgamos que é uma bênção dar-nos Deus os meios humanos para por eles sustentar-nos e preservar-nosb . Portanto, nós nos aconselharemos sobre o que fazer, não menosprezando a ajuda de outros, mas buscando o auxílio daqueles que vemos que têm condições de ajudar-nos. Tendo ainda em conta que é Deus que coloca à nossa disposição todas as criaturas que nos podem ser proveitosas, trataremos de pô-las em uso como legítimos instru- mentos da Sua providência. E, como não temos certeza do resultado dos nossos empreendimentos, exceto que confiamos em Deus, certos de que em tudo e por tudo nos proverá do necessário para o nosso bem, procuraremos dedicar-nos ao que nos for proveitoso, aplicando a nossa inteligência quanto estiver ao nosso alcance. Entretanto, ao fazermos nossos planos, não seguiremos os nossos senti- dos e a nossa razão, mas nos encomendaremos à sabedoria de Deus, para que esta nos conduza bem e retamente. Finalmente, a nossa confiança não estará deposita- da de tal modo na ajuda e nos meiosc humanos que neles descansemos quando os tivermos em mãos, ou que, quando nos faltarem, percamos a coragem e o ânimod . Porque a nossa mente estará firmada unicamente na providência de Deus, e não permitiremos que a consideração das coisas presentes distraia a nossa atenção delae . Uma singular felicidade dos cristãos Pois bem, neste ponto pode-se ver uma singular felicidade dos cristãos. A vida humana está rodeada e pouco menos que sitiada por misérias sem fim. Sem ir mais longe, vê-se que o nosso corpo é um receptáculo de mil e uma doenças, e ele mesmo alimentaf em si as causas dos seus males. Para onde quer que vá, o homem leva consigo muitas espécies de morte, tanto que se pode dizer que, de certa maneira, a sua vida está envolvida na morte. Porque, que outra coisa vamos dizer, quando não se pode sentir frio nem suar sem perigog ? Além disso, para qualquer a. prætextu. b. ad incolumitatem. c. 1539 tem somente: subsidiis. d. trepidet. Na linguagem de Calvino, essa palavra exprime uma inquietude vívida e impaciente. Acima (capí- tulo VII), é traduzida por estonner [étonner, surpreender, causar assombro]. e. Como não evocar aqui a palavra do médico huguenote Abroise Paré: “Eu lhe aplico o remédio, Deus o cura”? f. inclusæs teneat ac foveat. g. Grassou uma “peste” em Estrasburgo em 1540-1541. Calvino e sua mulher, recém-casados, foram atingidos por ela. “Encharquei o travesseiro”, escreve ele.
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    94 As Institutas– Edição Especial lado que nos viremos, tudo o que há em torno de nós não somente é suspeito, mas nos ameaça mais ou menos abertamente, como que tencionando a nossa morte. Quando embarcamos num navio, pode-se dizer que não há um palmo de distância entre a morte [e nós]a . Se montamos um cavalob , basta que tropece numa pedra para que nos faça quebrar o pescoço. Caminhemos pelas ruas: tantos são os peri- gos que há sobre nós quantas são as telhas sobre os tetos. Se temos uma espada, ou se alguém por perto a tem, pouco ou nada faltará para que nos fira. Onde quer que vejamos feras ou selvagens ou rebeldes ou gente difícil de governar, estão todos armados contra nós. Se nos encerramos num belo jardim, onde tudo é aprazível, uma serpente poderá estar ali oculta. As casas em que moramos, como estão sempre sujeitas a incêndio, de dia nos ameaçam empobrecer, e de noite ameaçam ruir sobre nós. Quanto às propriedades que acaso tenhamos, estando elas sujeitas a granizo, geada, seca e outras tempestades e intempéries, o que nos prenunciam é esterilidade e, conseqüentemente, fome. Deixo de lado os envene- namentos, as emboscadasc , as violências que assediam a vida do homem, tanto em casa como no campod . Entre tantas dificuldades que nos deixam perplexos, não é verdade que o homem só pode sentir-se mais que miserável? Isto é, o ho- mem meio vive meio não vive, sustentando-se com grande e penoso esforço, premido por tristezas e pelo desalento. É tudo como se tivesse a faca na garganta a todo instante.151 Haverá exagero aí? Alguém dirá que essas coisas não são tão freqüentes, ou que, ao menos, não acontecem sempre, nem a toda gente; e que, por outro lado, não podem vir todas de uma vez. Reconheço. Mas, visto que pelo exemplo de outros somos advertidos de que tais coisas podem suceder conosco, e sendo que a nossa vida não está isenta de nenhuma delas, não podemos deixar de temê-lase , como se houvessem de nos sobrevir. Que miséria maior poderíamos imaginar que a de estarmos sem- a. pede uno a morte distas. (?????) Antes de 1536 Calvino talvez nunca tenha embarcado num navio. Em 1539, está a bordo do “Reno”. b. Calvino fez longos trajetos a cavalo, por exemplo em novembro de 1534, quando foi com seu amigo du Tillet de Paris a Estrasburgo, e foi abandonado por um criado que lhe roubou a bolsa. c. insidias, latrocinia. d. Peregre. e. timeamus ac formidemus. 151 Em outro lugar: “Se considerarmos a enorme quantidade de acidentes aos quais estamos sujeitos, veremos o quão neces- sários é exercitarmos nossa mente desta maneira. “Enfermidades de todos os tipos tocam nossos débeis corpos, uma atrás da outra: ou a pestilência nos enclausura, ou os desastres da guerra nos atormentam. “Em outra ocasião, as geadas e os granizos destroem nossas colheitas, e ainda somos ameaçados pela escassez e a pobreza. “Em vista destes acontecimentos, as pessoas maldizem suas vidas, e até o dia em que nasceram; culpam o sol e às estrelas, e ainda censuram e blasfemam a Deus, como se Ele fora cruel e injusto.” (João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 43).
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    95 pre tremendo deangústiaa ? É preciso dizer, ademais, que não é sem causar opró- brio a Deus que se declara que Deus abandonou o homem, a mais nobre de Suas criaturas, aos riscos temerários do acaso. Mas não é a nossa intenção aqui falar da miséria em que o homem estaria, se vivesse sujeito aos azares da sorteb . Ao contrário, se a providência de Deus reluz no coração do crente fiel, ele não somente está livre do medo e da aflição, que antes o oprimiam, mas também é libertado de toda dúvida. Porque, como há bom motivo para temermos a sorte, também temos boa razão para não nos atre- vermos a abandonar152 audaciosamente a Deus. Para nós é, pois, uma consolação maravilhosac compreender que o Senhor tem de tal maneira todas as coisas em Seu poder, que as governa segundo o Seu quererd e as dirige com a Sua sabedoria, e nada sucedee , senão como Ele determinou. E ainda mais, que Ele nos recebeu à Sua custódia e proteção, nos confiou aos cuidados dos Seus anjos, a fim de que nem a água, nem o fogo, nem a espada, nem coisa alguma possam prejudicar-nos ou causar-nos dano, senão o que nos traga o Seu beneplácito. Porquanto, como diz o Livro de Salmos153 , “ele te livrará do laço do passarinheiro e da peste perni- ciosa. Cobrir-te-á com as suas penas, e, sob suas asas, estarás seguro; a sua verda- de é pavês e escudo. Não te assustarás do terror noturno, nem da seta que voa de dia, nem da peste que se propaga nas trevas, nem da mortandade que assola ao meio-dia”, etc. Dele vem a confiança na qual os Seus santos se gloriam:154 “O Senhor está comigo; não temerei. Que me poderá fazer o homem? O Senhor está comigo entre os que me ajudam. O Senhor é a minha luz e a minha salvação; de quem terei medo? O Senhor é a fortaleza da minha vida; a quem temerei? Em Deus, cuja palavra eu exalto, neste Deus ponho a minha confiança e nada teme- rei. Que me pode fazer um mortal?Ainda que um exército se acampe contra mim, não se atemorizará o meu coração; e, se estourar contra mim a guerra, ainda assim terei confiança”. Onde o crente poderá ter tal segurança, a qual jamais poderá ser extirpada, senão no fato de que, quando o mundo parece terrivelmente transtornado e virado ao avesso, ele sabe que Deus agef no sentido de dirigi-lo, sendo que ele espera confiante que todas as Suas obras lhe serão benéficas. Se ele se vê assaltado ou molestado pelo Diabo ou por malfeitores, não fará bem em se fortalecer trazendo a. 1539 tem somente: trepidatione. Cf. acima, p. 93 , a nota d. [Na tradução, no trecho que está sob o subtítulo: “As causas secundárias em relação ao futuro.] b. sub imperium fortunæ. c. Acrescentado na edição de 1539. d. potentia. e. cadat. f. operari. 152 No original francês: permettre, entendido no sentido etimológico de “abandonar”, do latim: permitto, permittere, numa de suas acepções (N. do T.). 153 Sl 91.3-6. 154 Sl 118.6,7; 27.1,3; 56.4; e outras passagens.
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    96 As Institutas– Edição Especial à memória a providência de Deus? Pois, sem a recordação dela, só lhe restará o desesperoa . Por outro lado, quando o crente sabe que o Diabo e toda a companhiab de malfeitores são mantidos firmemente seguros pela mão de Deus, como que com rédeas, de tal modo que não podem conceber nenhum mal, e, mesmo quando o tenham concebido, não conseguem tramar a sua execução; e ainda quando a consigam tramar, não o executarão; não conseguem nem mesmo levantar o dedo mínimoc , a não ser que Deus lhes ordene que o façamd ; isso é suficiente para consolar e fortalecer o cristão. Porque, assim como é somente Deus que pode armar, acionar e mudar o furor deles como bem Lhe parece, assim também está em Seu poder contê-los, para que não façam tudo segundo a sua intemperançae . Por essa causa disse o Senhor155 que Rezim e o rei de Israel, tendo conspirado para destruir a nação de Judá, e parecendo, em sua fúria, tochas ardentes capa- zes de inflamar toda a terra, eram na verdade nada mais que “dois tocos de tições” dos quais só saia um pouco de fumaça. Digo, em suma, para não demo- rar tempo demais neste propósito, que a maior miséria que um homem pode ter é ignorar a providência de Deus;156 e, por outro lado, que é uma singular bem- a. concidere. b. cohortem. c. 1539 tem somente: digitum. d. Calvino dá a maior importância à narrativa que inicia o Livro de Jó e que nos mostra Satanás mantido a rédeas curtas por Deus, de modo que as suas piores maquinações estão sob o controle de Deus. e. pro sua libidine licentiose exultent. 155 Is 7.1-9 [note-se o versículo 4]. 156 Como podemos perceber, Calvino não termina o seu argumento numa descrição “existencialista” da vida, mas na certeza própria de um coração dominado pela Palavra de Deus. Assim, ele conclui falando da “incal- culável felicidade da mente piedosa.” João Calvino, As Institutas, I.17.10). “Quando, porém, essa luz da Divina Providência uma vez dealbou ao homem piedoso, já não só está aliviado e libertado da extrema ansiedade e do temor de que era antes oprimido, mas ainda de toda preocupação. Pois assim como, com razão, se arrepia de pavor da Sorte, também assim ousa entregar-se a Deus com plena segurança.” (João Calvino, As Institutas, I.17.11). “Faz parte de seu [de Davi] propósito também exortar os fiéis a uma consi- deração da providência de Deus, para que não hesitem em lançar sobre ela toda a sua preocupação.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 40.5), p. 222]. Calvino admite que para qualquer lado que olharmos encontraremos sempre desespero, até que torne- mos para Deus, em Quem encontramos estabilidade no meio de um mundo que se corrompe. [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 3, (Sl. 102.26), p. 586]. Em 7 de julho de 1553, Calvino escreve mais uma carta aos “prisioneiros de Lyon” que aguardavam a sua condenação por terem aderido à Reforma Protestante. Esta ele dirige em especial a dois deles: Denis Peloquin de Blois e Louis de Marsac. A certa altura, diz: “Meus irmãos (...), estejam certos de que Deus, que se manifesta em tempos de necessidade e aperfeiçoa Sua força em nossa fraqueza, não vos deixará desprovidos daquilo que poderosamente glorificará o Seu nome. (...) E como você sabe, temos resistido firmemente as abominações do Papado, a menos que nós renunciássemos o Filho de Deus, que nos comprou para Si mesmo pelo precioso preço. Medite, igualmente, naquela glória celestial e imortalidade para as quais nós somos chamados, e é certo de alcançar pela Cruz – – por infâmia e morte. De fato, para a razão humana é estranho que os filhos de Deus sejam tão intensamen- te afligidos, enquanto os ímpios divertem-se em prazeres; porém, ainda mais, que os escravos de Satanás esmaguem-nos sob seus pés, como diríamos, e triunfem sobre nós. Contudo, temos meios de confortar-nos em todas as nossas misérias, buscando aquela solução feliz que está prometida para nós, que Ele não apenas nos libertará mediante Seus anjos, mas pessoalmente enxugará as lágrimas de nossos olhos. [Comentando o salmo 56.8, Calvino assim se expressou: “.... Se Deus concede tal honra às lágrimas de seus santos [lembrar- se delas], então pode ele contabilizar cada gota do sangue que eles derramaram. Os tiranos podem queimar
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    97 aventurança conhecê-la.157 Sobre aimutabilidade do conselho de Deus Poderia ser suficiente o que já falamos sobre a providência de Deus, para instruçãoa e consolação dos crentes (porque jamais se diria o bastante para satisfazer a curi- osidade dos tolos; e não vale a pena ter esse trabalho). Seria suficiente, digo, não fossem algumas passagens da Escritura que parecem significar que o conselho (ou o propósito) de Deus não é firme e imutável como foi dito, mas que muda conforme a disposição e a distribuição das coisas inferiores. Primeiro, às vezes se faz menção do arrependimento de Deus. Como quan- do se declara que Ele se arrependeu de haver criado o homem e de haver elevado Saul à coroa real, e que se arrependeria do mal que se havia proposto enviar sobre o Seu povo, ao vê-lo corrigir-se.158 Lemos também que Ele aboliu e anulou o que havia determinado. Por meio de Jonas, Ele tinha anunciado aos ninivitas que a sua cidade seria destruída após quarenta dias; mas, depois da conversão deles, Deus inclinou-se à clemência.159 Também o Senhor, por meio de Isaías, havia anunciado a morte de Ezequias, mas a protelou, comovido por suas lágrimas.160 Por causa dessas passagens, muitos argumentam dizendo que Deus não estabele- ceu por um decreto eterno o que faria com relação aos homens, mas sim que Ele ordena cadab dia e cada hora o que Ele sabe que é bomc e razoável; e o faz confor- me o requerem os méritos de cada pessoa. No que se refere à palavra penitência, devemos adotar esta solução: O arre- pendimento não pode compactuar-se com Deus, como igualmente não o podem a ignorância, o erro e a fraquezad . Porque, se ninguém se coloca por decisão própria ou por querer na necessidade de arrepender-se, se dissermos que Deus se arrepen- sua carne e seus ossos, mas seu sangue continua a clamar em altos brados por vingança; e as eras intervenientes jamais poderão apagar o que foi escrito no registro divino das memórias.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 56.8), p. 501] E, assim, temos todo o direito de desprezar o orgulho desses pobres homens cegos, que para a própria ruína levantam seu ódio contra o céu; e, apesar de não estar neste momento em suas condições, nem por isso deixamos de lutar junto com vocês em oração, com ansiedade e suave compai- xão, como companheiros, percebendo que agradou a nosso Pai celeste, em Sua bondade infinita, unir-nos em um só corpo sob Seu Filho, nossa cabeça. Pelo que eu lhe suplicarei que possa garantir a vocês essa graça; que Ele os conserve sob Sua proteção e lhes dê tal segurança disso que possam estar aptos a desprezar tudo o que é deste mundo. Meus irmãos os saúdam mui afetuosamente, e assim também muitos outros. –– Seu irmão, João Calvino.” [John Calvin, To the Prisoners of Lyons, “Letters,” John Calvin Collection, [CD- ROM], nº 320]. 157 “Não há nada mais absurdo do que simular, propositadamente, uma grosseira ignorância da providência de Deus, uma vez que não podemos compreendê-la perfeitamente, a não ser discerni-la só em parte.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 40.5), p. 223]. 158 Gn 6.6; 1Sm 15.11; Jr 18.7-10. 159 Jn 3.4,10. 160 Is 38.1-5. a. eruditionem b. in annos, dies. c. æquum. d. impotentiam.
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    98 As Institutas– Edição Especial de, estaremos confessando, ou que Ele ignora o que há de acontecer, ou que não o pode evitar, ou que em Seu conselho e propósito precipitou-se inconsideradamente. Ora, tão longe isso está do entendimento do Espírito Santo que, ao fazer Ele men- ção dessa classe de arrependimento, nega que Deus possa arrepender-se, visto que não é homem.161 É, pois, certo que o governoa que Deus exerce sobre as coisas humanas é constante, perpétuo e totalmente isento de arrependimento. E, a fim de que não se possa pôr em dúvida a constância do Seu propósito e do Seu governo, faço notar que até os Seus adversários se vêem constrangidos a dar testemunho em Seu favor. Balaão, querendo ou não, não pôde conter-se e evitar dizer que “Deus não é homem, para que minta; nem filho de homem, para que se arrependa”.162 Vê-se, pois, que Deus pode fazer com que tudo o que Ele diz se cumpra e se realize. Sentido da palavra arrependimento Que significa, então, a palavra arrependimento? Alguém perguntaráb . Respondoc que ela tem o mesmo sentido dos outros modos de falar que nos descrevem Deus humanamente. Porque, considerando que a nossa debilidade não alcança e não toca a Sua altura, a descrição que dele se faz para nós subordina-se à nossa capa- cidade, para que a possamos entender. Então, o recurso é que Ele seja representa- do, não pelo que realmente é, mas tal como o sentimos. Embora Ele seja imune a toda perturbação, diz a Escritura que Ele se ira contra os pecadores. Por isso, quando ouvimos que Deus está irado, não devemos imaginar que haja alguma comoção nele, mas, antes, devemos entender que essa expressão é tomada do nosso sentimento, porque Ele mostra a aparência de uma pessoa irada quando exerce o rigor do Seu juízo. Também, pela palavra penitência, ou arrependimento, devemos entender simplesmente uma mudança das obras de Deus em função do fato de que os homens, mudando as suas obras, testificam que elas lhes desagradam. Por isso, então, como toda mudança ocorrida entre os homens é correção do que desagra- da, e a correção vem pelo arrependimento, por essa razão, a mudança que Deus faz em Suas obras é representada pelo nome de arrependimento. Tenha-se em mente, porém, que o conselho e propósito de Deus não volta atrás, a Sua vontade não se desvia e o Seu amor não muda; a verdade é que o que Ele, desde toda a eternidade, provou,163 aprovou e decretou, vai constantemente pondo em execu- ção, sem nada variar, embora pareça haver ali uma diversidade ou alteração súbi- a. ordinationem. b. Acréscimos feitos à edição de 1539. c. Sem equivalente em latim. 161 1Sm 15.29. 162 Nm 23.19. 163 No sentido etimológico de “examinar”, “ensaiar”, “experimentar”, do latim probo, probare, entre outras acepções. Um tanto em desuso em português. Cf. Aurélio, 3ª. acepção do verbete “Provar” (. Nota do tradutor.
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    99 ta. Porquanto, narrandoa Escritura que a calamidade anunciada por Jonas aos habitantes de Nínive lhes foi perdoada, e que a vida de Ezequias foi prolongada depois de haver ele recebido a mensagem de que morreria, com isso ela não demonstra que Deus ab-rogou os Seus decretos. Os que assim pensam fazem tresloucada violênciaa às proclamações bíblicas; estas, conquanto sejam redigidas simples e concisamente, todavia contêm uma condição tácita, como se pode ver pelo objetivo a que se destinam. Explicação de uma condição implícita Vejamos: Por que foi que Deus enviou Jonas aos ninivitas para lhes predizer a ruína da sua cidade? Por que anunciou, mediante Isaías, a morte de Ezequias? Pois a verdade é que Ele bem podia dar-lhes cabo sem enviar-lhes nenhuma men- sagem. Então Ele tinha outro objetivo, que não o de querer fazê-los saber da sua ruína muito tempo antes da sua ocorrência. É que Deus não queria que eles pere- cessem, mas, sim, que se emendassem para não perecerem. Por que Jonas profe- tizou que Nínive seria destruída quarenta anos depois? Para que não fosse destruída. Por que foi cortada a Ezequias a esperança de viver mais longamente? Para que orasse rogando a Deus vida mais longa. Quem é que agora não vê que com tais ameaças Deus quis mover ao arrependimento aqueles que foram ameaçados por Ele, para evitarem o juízo que tinham merecido por seus pecados? Se isso é ver- dade [como certamente é], a ordem natural nos induz a suprirb o texto, explicitando uma condição tácita, implícita, não expressa nos anúncios feitos. Comprovação com mais alguns exemplos bíblicos O que acabamos de dizer pode ser confirmado por outros exemplos semelhantes.[Citamos o seguinte:] Quando o Senhor repreendeu o reiAbimeleque por ter raptado a mulher de Abraão, empregou estas palavras:164 “Vais ser punido de morte por causa da mulher que tomaste, porque ela tem marido. Agora, pois, restitui a mulher a seu marido, pois ele é profeta e intercederá por ti, e viverás; se, porém, não lha restituíres, sabe que certamente morrerás, tu e tudo o que é teu”. Notemos como na primeira parte Deus faz uso de grande veemência para encher de medo o coração do rei, a fim de melhor induzi-lo a cumprir o seu dever; e que, depois, Ele explica claramente a Sua intenção. Visto que as outras passagens têm o mesmo sentido, não se pode inferir delas que Deus revogou o Seu predetermi- nado conselho e propósito suspendendo o que antes havia publicado. Porque, muito ao contrário, Ele abre caminho para o Seu conselhoc e ordenação eterna quando induz ao arrependimento aqueles que deseja perdoar, anunciando-lhes as a. hallucinantur. b. subaudiamus (= suppléons) [supramos – “nos induz a suprir”]. c. 1539 tem somente: æternæ ordinationi. 164 Gn 20.3,7.
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    100 As Institutas– Edição Especial 165 Is 14.27. penas que lhes sobrevirão se perseverarem em seus erros e vícios. O que acontece longe está de ser que Ele muda Sua vontade, e nem mesmo Sua palavra, mas sim que Ele não explica letra por letra a Sua intenção. Todavia, esta é fácil entender. Permanece, pois, firme esta declaração de Isaías:165 “O Senhor dos Exércitos o determinou; quem, pois, o invalidará? A sua mão está estendida; quem, pois, a fará voltar atrás?”
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    101 CAPÍTULO IX Introdução, relacionandoo texto presente com textos prévios [1536] Do que foi tratado anteriormentec , vemos muito bem quão desnudo e des- provido de todo bem o homem é, e como lhe falta tudo quanto lhe é necessário para a sua salvaçãod . Porque, se ele quiser suprir a sua necessidade, terá que sair de si e buscar socorro fora. Além disso, também foi explicado ao leitor que o Senhor se apresenta a nós liberalmente em Seu Filho Jesus Cristo, oferecendo- nos, por meio dele, toda a felicidade, em lugar do nosso infortúnio; toda a abun- dância, em lugar da nossa pobreza; e nos desvendando, nele, todos os seus tesou- ros e riquezas celestiais. Com que finalidade? A fim de que toda a nossa fé seja posta no Seu dileto Filho, dele seja a nossa dependência, e toda a nossa esperança seja postae nele. Esta é uma filosofia misteriosa, oculta e velada, e não pode ser entendida por meio de silogismos; mas a compreendem aqueles a quem o Senhor abriu os olhos, para que, em Sua luz, enxergassem claramente. Vê-se então que a fé nos ensina que todo o bem que nos é necessário e que em nós mesmos não existe está em Deus e em Seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, em quem o Senhor constituiu toda a plenitude das Suas bênçãos e da Sua liberalidade1 . Seu propósito é que, como de uma fonte transbordante da qual to- dos nós nos abeberamos, O busquemos e, por nossas preces e orações, peçamos a Ele o que aprendemos que nele há.2 Porque, diversamente, conhecer a Deus e Este capítulo estavam sem as notas a, b, c etc. do original francês, por isso não pude formatá-lo corretamente. As notas 1, 2, 3 etc. estão no final do capítulo. Zenaide
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    102 As Institutas– Edição Especial reconhecê-lo como senhor, autor e distribuidor de todos os bens, e que Ele nos convida a solicitá-los dele, e não nos dirigirmos a Ele e nada Lhe pedirmos, seria tão nulo como se alguém desprezasse e deixasse enterrado e oculto sob o solo um tesouro que lhe tinha sido mostrado. Portanto, devemos tratar agora, mais amplamente, deste ponto, sobre o qual não falamos antes, senão incidentalmente e de passagem. A oração nos leva ao templo celestial [1539] É, pois, pelo benefício da oração que penetramos nas riquezas que temos em Deus. Porque ela é uma forma de comunicação dos homens com Deusa pela qual, sendo introduzidos no verdadeiro templob , que é o céu, eles fazem presentes ao Senhor as Suas promessas para que, de maneira experimental, Ele lhes mostre, quando a necessidade o exigir, que a Sua simples palavra, que eles creram ser verdadeira, não é mentira nem coisa vãc . Assim, não vemos Deus propor-nos alguma coisa que devemos esperar dele que, paralelamente, não nos mande pedir em oração. Tanto é verdade o que dissemos, que pela oração buscamos e encon- tramos os tesouros que são expostos e ensinados à nossa fé no Evangelho.3 Ago- ra, quanto é necessário, e de quantas maneiras o exercício da oração é útil para nós, não se pode explicar satisfatoriamente com palavras. Invocar o nome do Senhor é segurança de salvação Certamente não é sem motivo que o Senhor testifica que toda a segurança da nossa salvação se funda na invocação do Seu nome4 , visto que por ela obtemos tanto a presença da Sua providência, pela qual Ele se mostra vigilante no cuidado que nos dispensaa , como do Seu poder, pelo qual Ele nos alivia e nos consola em nossa fraqueza e imperfeição, e também da Sua bondade, pela qual Ele nos rece- be em Sua graça, apesar de estarmos carregados de pecados. E, para falar resumi- damente, como pela oração O chamamos para que se manifeste inteiramente pre- sente conosco, daí decorre um singular repouso para a nossa consciência. Por- que, após expormos ao Senhor a necessidade que nos cerca, temos onde descan- sar satisfatoriamente, sendo que entendemos que nada da nossa miséria está ocul- to para Aquele cuja boa vontade para conosco é certa, e cujo poder para nos ajudar é indubitável.5 Objeção: Não é desnecessário ou inútil orar? Todavia, alguém poderá objetar, dizendo: Ele não nos conhece sem necessidade de informaçãob , e não sabe em que aspecto estamos em aperto, e quais recursos nos são úteis? Disso decorre que pareceria coisa supérflua pedi-los em oração, visto que estamos acostumados a solicitar coisas inúteis e ociosasc . Mas os que argumentam desse modo não vêem a que fim o Senhor instituiu a oração para os
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    103 Seus. Porque nãoa estabeleceu por Sua causa, mas em atenção a nós. Porque, embora Ele esteja sempre em vigilância e faça constantemente a ronda para nos preservar, mesmo quando somos tão tolos e obtusosd que não percebemos os males que nos rodeiam,6 e embora por vezes Ele nos dê socorro antes de ser invocado, todavia nos é necessário suplicá-lo constantemente. Motivos para orar Primeiro, a fim de que o nosso coração seja inflamado de um veemente e ardente desejo de buscar, amar e honrar sempre a Deus, o que nos fará habituar-nos a ter nele o nosso refúgio em todas as necessidades, como o único portoa de salvação. Depois, a fim de que o nosso coração seja tocado de algum desejo, que nem sempre Lhe ousamos confessar de imediatob , como quando expomos diante dos Seus olhos todo o nosso afeto e, por assim dizer, desenrolamos e abrimos todo o nosso coração perante Elec . E ainda, a fim de que sejamos habilitados a receber Suas bênçãos com verdadeiro reconhecimento e ação de graças, visto que pela oração somos advertidos de que elas nos vêm da Sua mão7 .Além desses motivos, este:A fim de que, tendo obtido o que pedimos, tenhamos em consideração o fato de que Ele nos atendeu e, por isso, sejamos incitados a meditar mais ardorosa- mente em Sua benignidade. E também tenhamos mais prazer em gozar os benefí- cios que Ele nos faz, tendo em mente que os obtivemos por meio das nossas orações. Finalmente, a fim de que a Sua providência seja confirmada e aprovada em nosso coração, na medida da nossa pequena capacidade, sendo que nós vemos que Ele não somente promete jamais abandonar-nos, mas também nos dá acesso para buscá-lo e Lhe fazer súplicas quando há necessidade. Por todas essas razões o Pai, cheio de clemência, jamais dorme nem cessa o Seu cuidado. Todavia, às vezes pareced dormir e cessar, a fim de que por isso sejamos incitados a dirigir-lhe orações e súplicas; recurso divino válido para corri- gir a nossa preguiça e o nosso esquecimento. Portanto, é grande perversidade que- rer alguém fazer com que deixemos de orar, alegando que é coisa supérflua solici- tar, por nossas preces, a providência de Deus, a qual, sem ser solicitada, vela pela preservação de todas as coisas. O que ao contrário se vê é que o Senhor não testifica em vão que estará perto de todos os que invocarem seu nome em verdade8 .9 Negar o valor da oração é loucura É uma grande loucura alegar que não há nenhuma razão para pedir as coisas que o Senhor voluntariamente está pronto a cumular sobre nós. Por quê? Porque Ele quer que nós consideremos que as bênçãos que recebemos, provenientes da Sua liberalidade gratuita, são concedidas às nossas orações.
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    104 As Institutas– Edição Especial Leis ou diretrizes para a prática da oração A PRIMEIRA LEI Pois bem, que a primeira lei para instituir-se bem e devidamente a oração seja tal que não tenhamos mente e disposição de ânimo que não sejam convenientes aos que entram em conversa com Deusa . O que se fará quando, com a mente desembaraçadab de todas as solicitudes e cogitações carnais pelas quais poderia ser desviada e impedida de considerar bem e puramente a Deus, o crente não só se aplicar totalmente à intenção de orar, mas também, fazendo o que puder, ele- var-se acima de si próprio. Todavia, não entendo que se deve exigir que ele esteja de tal maneira livre de preocupaçõesc * que nenhuma solicitude o esmurre ou o provoque. Porquanto, o que antes e ao contrário é necessário é que o ardor da oração seja inflamado em nós pela angústia e por grande afliçãod . Exemplos disso vemos nos santos servos de Deus, que se mostram em espantoso tormentoe e, ainda mais fortemente, revelam grande e solícita inquietação, ao dizerem que elevam sua voz ao Senhor, da profundeza dos abismos e do sorvedouro da mor- te10 . Mas entendo que se deve lançar para longe todas as inquietações* estranhasa que só se prestam para fazer a mente ficar vacilante e, sendo afastada do céu, cair em depressão e afundar na terra.11 Ademais, com o que eu afirmei, que o crente deve elevar-se acima de si próprio, quero dizer que ele não deve se apresentar perante o Senhor com o que a nossa razão tola e cega costuma sonhar; e não deve deter-se e restringir-se à sua vaidade, mas sim elevar-se a uma pureza semelhante à de Deus. Nisso se peca comumente, e com muita gravidade. Pois em geral os homens se atrevem, sem nenhum pudor e sem reverência, a fazer de Deus uma testemunha das suas loucu- ras, e a apresentar impudentemente diante do Seu trono tudo o que lhes tem sido agradável, até em sonho. E em muitos há tão grande bestialidade ou loucura que eles ousam expor a Deus suas cobiças tão vis que eles teriam vergonha de manifestá-las aos homens. Semelhantemente, é necessário que o coração, com todo o empenho, aspire a um mesmo objetivo e siga o mesmo passo. Sim, pois, assim como a inteligênciab deve estar totalmente direcionada para Deus, assim também os afetosc devem elevar-se a Ele em verdadeiro arrebatamento. Ora, falta muito para que as facul- dades do homem sejam capazes de tal perfeição; porque, ou elas permanecem tempo demais em níveis mais baixos, ou na verdade sucumbem e fracassam, a não ser que o Espírito de Deus minore a sua fraqueza e fortaleça o homem. Por- que, visto que não sabemos orar bem, Ele vem em nosso socorro e ora por nós com gemidos inexprimíveis12 ; não que de fato Ele ore ou gema, mas nos comove e nos incita à confiança, aos desejos e aos suspiros; de conceber tais coisas as forças da nossa natureza não são capazes.
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    105 Aqui não sediz que, lançando o ofício da oração sobre o Espírito de Deus, podemos adormecer negligentes ou displicentes, como alguns se acostumaram a blasfemar, dizendo: Devemos ficar à espera, sem nenhuma preocupação, até que o Espírito chame a atenção da nossa mente, até então ocupada e distraída com outras coisas. Muito ao contrário, aqui somos induzidos a desejar e a implorar tal auxílio, com aversão e desgosto por nossa preguiça e displicência.13 A segunda lei da oração [1536] A seguir, tenha o crente uma segundaa lei. Que nos desfaçamos de toda cogitação referente à nossa glória; que nos despojemos de toda opinião que eleve a nossa dignidade pessoal; que eliminemos toda confiança em nós mesmosb ; dan- do glória a Deus em nossa humildade e autodesprezo [1539], para não suceder que, se quisermos atribuir a nós mesmos alguma coisa, por menor que seja, em nossa tola arrogância, não sejamos derribados diante da Sua face.14 Temos nume- rosos exemplos dessa atitude humilde nos servos de Deus, entre os quais o mais santo mais se humilha, quando lhe cabe comparecer diante do Senhor. Nessa questão, Daniel, que recebeu grande testemunho da boca de Deus, todavia ora como segue: “Não lançamos as nossas súplicas perante a tua face fiados em nos- sas justiças, mas em tuas muitas misericórdias. Ó Senhor, ouve; ó Senhor, per- doa; ó Senhor, atende-nos e age; não te retardes, por amor de ti mesmo, ó Deus meu; porque a tua cidade e o teu povo são chamados pelo teu nome15 ”. Dessa mesma forma ora Isaías, em nome do povo: “Eis que te iraste, porque pecamos; por muito tempo temos pecado e havemos de ser salvos? Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades, como um vento, nos arreba- tam. Já ninguém há que invoque o teu nome, que se desperte e te detenha; porque escondes de nós o rosto e nos consomes por causa das nossas iniqüidades. Mas agora, ó Senhor, tu és nosso Pai, nós somos o barro, e tu, o nosso oleiro; e todos nós, obra das tuas mãos. Não te enfureças tanto, ó Senhor, nem perpetuamente te lembres da nossa iniqüidade; olha, pois, nós te pedimos: todos nós somos o teu povo16 ”. Pode-se perceber aí que eles não confiavam noutra coisa senão nisto: Como se consideravam pertencentes a Deus, não perdiam a esperança de que Ele os acolheria sob Sua proteção. Jeremias não fala diferentemente quando diz: “Posto que as nossas malda- des testificam contra nós, ó Senhor, age por amor do teu nome17 ”.Assim, recende santidade o que está escrito na profecia que se atribui a Baruque (embora haja incerteza quanto ao autor). Diz ele [1536]: “A alma que está triste por causa da grandeza do mal, e anda encurvada e abatida, e tem os olhos enfraquecidos, a alma faminta, é que te dá, ó Senhor, glória e justiça. Porque não é apoiados na justiça de nossos pais, que nós derramamos os nossos rogos e imploramos mise- ricórdia diante da tua face, ó Senhor nosso Deus, mas, como és misericordioso, tem piedade de nós, pois temos pecado diante de ti18 ”.
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    106 As Institutas– Edição Especial Por que os servos de Deus, na Escritura, alegam justiça pessoal? [1539] É verdade que às vezes os santos apelam para as suas justiças como forma de ajuda, para obterem mais facilmente de Deus o que pedem. Como quando Davi diz: “Preserva a minha alma, pois eu sou piedoso19 ”. Também Ezequias: “Lembra-te, Senhor, peço-te, de que andei diante de ti com fidelidade, com intei- reza de coração e fiz o que era reto aos teus olhos20 ”. Todavia, por essa maneira de falar eles não pretendem outra coisa senão testificar que, pela regeneração, eles são filhos de Deus, aos quais Deus prometeu ser propício. Mediante Seu profeta Ele revela que os Seus olhos “repousam sobre os justos, e os seus ouvidos estão abertos ao seu clamor21 ”; semelhantemente, por meio do apóstolo João, Ele nos promete que “aquilo que pedimos dele recebemos, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos diante dele o que lhe é agradável22 ”. Por essas declarações Ele não quer dizer que as orações serão apreciadas segundo o mérito das obras, mas sim que dessa maneira Ele quer estabelecer a confiança daqueles que sentem sua consciência pura e íntegraa e sem hipocrisia, o que deve ter presença universal em todos os crentes. Porque, o que no Evange- lho Segundo João disse o cego que tinha tido restaurada a sua vista é fruto da pura verdade: “Deus não atende a pecadores23 ”, desde que por “pecadores” entenda- mos aqueles que, não tendo nenhum desejo de praticar o bem, estão completa- mente adormecidosb em seus pecados. Porquanto o coração jamais poderá dedi- car-se a invocar sincera e verdadeiramente a Deus sem que, ao mesmo tempo, não aspire e não tenda a honrá-lo e servi-loc . Portanto, as declaraçõesd feitas pelos santos, nas quais trazem à memória a sua pureza ou a sua inocência, respondem àquelas promessas, a fim de que as coisas que todos os servos de Deus podem e devem esperar lhes sejam concedidas. Além disso, pode-se notar que em geral eles oravam desse modo quando faziam comparação de si com os seus inimigos, rogando a Deus que os livrasse da maldade deles. Pois bem, não é de admirar que nessa comparação eles alegassem sua justiça e a sinceridade do seu coração, para mais fortemente moverem Deus, pela eqüidade das suas razões e das suas causas, a ajudá-los e apoiá-los. Não negamos, pois, este benefício à alma fiel: Que ela pode ter gozo da sua boa consciência diante de Deus, e que com isso ela se con- firma e se fortalece nas promessas com as quais o Senhor consola os Seus servos fiéis, mas ensinamos que toda a confiança em obter de Deus o que Lhe pedimos baseia-se unicamente em Sua santa clemência, sem nenhuma consideração pelos nossos próprios méritos. A terceira lei da oração [1536]A terceira leia deve ser tal que [1539], toda vez que pedirmos alguma coisa que nos seja proveitosa [1536], reconheçamos sem hipocrisia nossa pobreza e,
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    107 considerando sem falsidadeque de fato estamos necessitados, façamos nossas súplicas com real desejo de obter o que pedimos. [1539] Porque, que é que julgamos ser mais execrável para Deus do que esta simulação e hipocrisia: [1536] alguém pedir perdão dos seus pecados não se julgando pecador; ou então, sem pensar em seu pecado. Isso é zombar de Deus. [1539] Contudo, o mundo está cheio desse tipo de perversidade, sendo que muitos, por desencargo24 de consci- ência, às vezes pedem a Deus coisas que acham que vêm de outra fonte, ou que consideram que já estão em suas mãos, independentemente da graça de Deus. Pois bem, os crentes devem tomar o cuidado de não pedir a Deus coisa alguma, senão aquilo que desejam ardentemente e que procuram obter da Sua mão. [1536] Mesmo o que pedirmos unicamente para a glória de Deus deve ser pedido com zelo e com desejo repassados de fervor. Por exemplo, quando pedimos que o Seu nome seja santificado, é próprio e conveniente desejar ardorosamente essa santificação. [1539] Com esta regra rejeitamos e extirpamos da oração cristã toda hipocrisia e astúcia com que se pretenda mentir a Deus. Porque Ele promete estar perto de todos os que O invocam em verdade, e declara que aqueles que O busca- rem de todo o coração O encontrarão25 . A quarta lei A quarta lei para orar bem é que, quando orarmos, sejamos movidos pela segura e certa esperança de que obteremos o objeto da nossa súplica. Agora, não enten- damos com isso uma confiança capaz de propiciar seguro descanso ao espírito, livrando-nos de toda ansiedade. Porque, ter um descanso tão tranqüilo é coisa própria daqueles que, tendo diante de si todas as coisas para desejar, não são atormentados por nenhum desejo. Ao contrário, é um excelente aguilhão para impelir os crentes a invocarem a Deus sentirem eles a pressão da necessidade e serem agitados por problemas e tormentos, quase ao ponto de desfalecerem. Mas, no meio de tais angústias, a bondade de Deus não deixa de luzir para eles. Por isso, por mais que sintam o peso e a gravidade do mal, além do temor e tremor de que algo pior lhes suceda, pela oração eles são consolados e fortalecidos, na esperança de bom êxito. Portanto, convém que a oração do crente proceda destes dois sentimentos, ambos presentes nela e por ela representados reciprocamente. Um é que aquele que ora suspire e gema pelo mal que o deprime; o outro é que tenha no Senhor o seu socorro com a certeza de que Ele se manifestará para dar auxílio e fortaleza ao oprimido. Porque não é possível expressar quanto Deus se ira com a nossa desconfiança, se Lhe pedimos uma bênção que não esperamos receber. Pois o Senhor Jesus estabeleceu esta regra para as nossas orações: que esperemosa que todas as coisas que Lhe pedirmos nos serão concedidas e nos sucederão confor- me a nossa esperança26 . [1536] Por outro lado, aqueles que, não estando seguros da Sua promessa, anulam com sua dúvida a verdade de Deus, e estando incertos
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    108 As Institutas– Edição Especial sobre se serão atendidos, O invocam, contudo nada aproveitam, como diz Tiago. Aliás, ele até os compara com as ondas do mar, impelidas para cá e para lá pelo vento27 . Além disso, tendo em vista que muitas vezes o Senhor declara que será feito a cada um segundo a sua fé, Ele indica, por outro lado, que sem fé nada receberemos. [1539] Em suma, é a fé que obtém para nós tudo o que é concedido às nossas orações. É o que nos quer dizer a seguinte sentença do apóstolo Paulo: “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram?” [Rm 10.14]. Porque com isso ele conclui que Deus não pode ser devidamente invocado senão por aqueles aos quais a Sua bondade e a Sua clemência tenham sido proclamadas pela pregação do Evangelho. Ora, quando juntamos uma tal segurança de fé com o reconhecimento da nossa miséria e da nossa pobreza, das nossas máculas e dos nossos pecados, de- claramos suficientemente que, ao reconhecer-nos pobres e indignos, não deve- mos ter por isso menos esperançab . [1536] Se nos sentimos sobrecarregados de pecados, se vemos que somos imperfeitos e vazios de todas as coisas que nos poderiam tornar agradáveis a Deus, isso não nos deve causar terror, nem nos deve fazer temer buscá-lo, pois é necessário que, ao dirigir-nos a Ele, reconheçamos que somos assim mesmo28 . Porque a oração não é feita para nos exaltarmos dian- te de Deus, nem para que seja apreciado o que há em nós, mas para confessarmos a nossa miséria e para fazermos sentida lamentação de tudo o que pesa sobre nós, como uma criança faz a seu pai. Ao contrário, pois, de causar temor, o senso de miséria pessoal deve antes ser como uma espora ou como um aguilhão que nos incite à oração. [1539] Como somos advertidos pelo exemplo do profeta, que orou a Deus pedindo-lhe: “Compadece-te de mim, Senhor; sara a minha alma, porque pequei contra ti29 . Aléma desteb aguilhão, pelo qual a consciência da nossa miséria pesa cons- tantemente sobre nós [1536], o nosso bondoso Pai nos acrescentou mais duas coisas, as quais principalmente nos devem mover e incitar à oração. Uma é o mandamento para orar. A outra é Sua promessa de que obteremos tudo o que pedirmos em oração.30 Quanto ao mandamento O mandamento nos é dado e repetido muitas vezes, quando Ele diz: “Pedi.Vinde a mim. Buscai a minha presença. Tornai para mim. Invocai-me no dia da angús- tia31 ”, e em muitas outras passagens. E, semelhantemente, no terceiro manda- mento da Lei, onde nos é proibido tomar o nome de Deus em vão32 . Sim, pois, assim como nos proibiu tomar Seu nome em vão, igualmente nos manda tomá-lo para a Sua glória, glorificando-o por Seu poder, por Sua bondade, por Seu auxí- lio, por Seu consolo e fortalezac , e por atender o que Lhe pedimosd33 . Portanto, se em nossas necessidades não buscamos refúgio em Deus, não O invocamos e não pedimos Seu auxílio, também dessa forma transgredimos o Seu
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    109 mandamento. Com issonão provocamos menos a Sua ira do que se tivéssemos outros deuses além dele e fizéssemos ídolos para nós. Porque desprezamos a Sua vontade tanto quando menosprezamos um dos Seus mandamentos como quando menosprezamos outro, visto que Ele ordena tanto um como outro [1539]. Certa- mente não se pode imaginar nenhuma idéia que nos possa livrar melhor de todo escrúpulo ou de toda inquietação de consciência do que considerar que não há nenhum obstáculo que justifique a demora em obedecer ao preceito de Deus pelo qual Ele nos manda orar. [1536] Porque aqueles que O invocam, Lhe fazem súpli- cas e O louvam têm um grande consolo em saber que, fazendo isso, obedecem ao Seu mandamento e à Sua vontade, e que fazem algo agradável a Elea , uma vez que Ele declara que nada Lhe é mais aceitável que a obediência.34 Quanto à promessa Mas os crentes recebem consolação ainda melhor da Sua promessa, na qual se baseia toda a confiança em obterem o que pedem. Nesse sentido o Senhor nos convida repetidas vezes mediante dulcíssimas promessas, como as seguintes: [1536] “Pedi, e dar-se-vos-á”; [1539] “Buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á”. E, por meio do profeta: “Então, me invocareis, passareis a orar a mim, e eu vos ouvirei. Buscar-me-eis e me achareis”. E também: “Invoca-me no dia da angús- tia; eu te livrarei”. E mais: “Ele me invocará, e eu lhe responderei; na sua angús- tia eu estarei com ele, livrá-lo-ei e o glorificarei35 ”. Mas, como são inumeráveis as passagens semelhantes, por certo basta citar alguns exemplos. Contudo, algu- mas delas são especialmente notáveis, e vale a pena mantê-las vívidas na memó- ria. Como as seguintes: “Perto está o senhor de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade”. E também: “Certamente, se compadecerá de ti, à voz do teu clamor, e, ouvindo-a, te responderá36 ”. E para que não se pense que Ele é tardio para ouvir, acrescenta mais adiante: “E será que, antes que clamem, eu responderei; estando eles ainda falando, eu os ouvirei” [Is 65.24]. Mas, dentre todas as outras passagens, a que vem a seguir é a mais notável: a palavra registra- da no lugar onde se fala da terrível vingança de Deus que há de sobrevir a todo o mundo. Refiro-me a esta declaração: “E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo37 ”. Contendo as demais passagens semelhantes a segurança das mesmas exortações, consideramos, entretanto, que já temos sufici- ente suporte para a obtenção do que pedimos. [1536] Porque não é o mérito da oração ou a dignidade da pessoa que nos habilita a obter as bênçãos pedidas, mas toda a nossa esperança está situada nas promessas e delas depende.38 No que somos iguais aos santos mais fiéis Portanto, estejamos certos de que não seremos menos atendidos que os apóstolos Pedro e Paulo e todos os outros santos (embora tenham tido vida mais santa que nós), desde que façamos as nossas súplicas a Deus com a mesma e igualmente
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    110 As Institutas– Edição Especial grande e firme fé que eles tinham. [1539] Sendo no demais inferiores a eles, somos iguais nisto: Temos, como eles, o mandamento da oração e a promessa de que seremos atendidos. E Deus, à condição de que seja invocado com puro amor, não mede o valor da oração com base na dignidade da pessoa, mas somente em razão da fé, firmados na qual os Seus servos obedecem a Seu mandamento e confiam em Sua promessa. O que considerando Davi, disse: “Tu, ó Senhor dos Exércitos, Deus de Israel, fizeste ao teu servo esta revelação, dizendo: Edificar- te-ei casa. Por isso, o teu servo se animou para fazer-te esta oração. Agora, pois, ó Senhor Deus, tu mesmo és Deus, e as tuas palavras são verdade, e tens prome- tido a teu servo este bem. Sê, pois, agora, servido de abençoar a casa do teu servo, a fim de permanecer para sempre diante de ti, pois tu, ó Senhor Deus, o disseste; e, com a tua bênção, será, para sempre, bendita a casa do teu servo39 ”. Isso mesmo os israelitas consideravam, fundamentando as suas solicitações na lembrança da aliança feita por Deus com Abraão, e, fazendo isso, seguiam o exemplo de seus pais, principalmente de Jacó. Sim, pois, este, depois de haver confessado que era incapaz de obter tantos bens que havia recebido da mão do Senhor, todavia, ou- sou rogar-lhe bênção, baseado na promessa a ele feita40 . Solução para a nossa indignidade: o Mediador [1536] Mas, visto que todo homem é indigno de se dirigir a Deus e de se apresen- tar diante de Sua face, a fim de nos livrar da vergonha que sentimos ou que deveríamos sentir, o Pai celestea nos deu Seu Filho, o nosso Senhor Jesus Cristo, para ser o nosso Mediador e Advogado para com Ele, para que, por meio dele, pudéssemos aproximar-nos livremente dele41 . Com isso nos certificamos de que, tendo tal Intercessor, o qual não pode ser recusado pelo Pai, também nada nos será negado de tudo o que pedirmos em Seu nome42 . Seguros também de que o trono de Deus não é somente trono de majestade, mas também de Sua graça, podendo nós comparecer perante ele com toda a confiança e ousadia, em nome do Mediador e Intercessor, para rogar misericórdia e encontrar graça e ajuda, em toda necessidade que tivermos. Por isso, como nos é ordenado invocar a Deus, e como é dada aos que O invocarem a promessa de que serão atendidos, também, singular e expressamen- te, nos é ordenado que invoquemos a Deus em nome do nosso Senhor Jesus Cris- to. E temos a promessa de que seremos atendidos em tudo o que pedirmos em Seu nome43 : [1539] “Até agora nada tendes pedido em meu nome; pedi e recebereis”, disse Ele. E mais: “tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho”. [1536] Do que acima foi dito, sem dúvida alguma, vê-se claramente que todos os que invocam a Deus noutro nome que não o de Jesus Cristo, desobedecem ao mandamento de Deus e se contrapõem à Sua von- tade. Vê-se igualmente que eles não têm nenhuma promessa de que obterão o que quer que seja, pois, como diz o apóstolo Paulo, “quantas são as promessas de
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    111 Deus, tantas têmnele o sim; porquanto também por ele é o amém para glória de Deus44 ”. Quer dizer que todas as promessas de Deus em Jesus Cristo são seguras, firmes e certas, e se cumprem. E, visto que Ele é o único caminho e o único acesso a Deus com que podemos contar45 , quando os homens não tomam esse caminho e não buscam esse acesso, ficam sem nada que os possa aproximar de Deus, e em Seu trono só poderão encontrar ira, terror e juízo. E também, uma vez que Deus O assinalou e marcou para que Ele fosse o nosso Cabeça e o nossoa Guia46 , os que dele se desviam fazem o que podem para apagar a marcab de Deus. Jesus Cristo, o único Mediador [1539] Dessa maneira, Jesus Cristo foi constituído o único Mediador, por cuja intercessão o Pai se torna propício e acessível a nós. Se bem que admitimos o fato de que os santos fazem as suas intercessõesa , pelas quais encomendam mutua- mente a Deus a saúde uns dos outros, como Paulo menciona47 . Todavia, solicita- mos que tais intercessões sejam feitas de maneira que sempre dependam da sin- gular e única intercessão de Jesus Cristo. Assim, as nossas intercessões devem ser como que miniaturas da de Cristo. Porque, como procedem do puro amor pelo qual somos unidos como membros, também se reportam à unidade da nossa Ca- beça48 . Pois, visto que são feitos em nome de Cristo, com isso não testificam que ninguém pode ser socorrido e ajudado por orações de outros, a não ser que Jesus Cristo seja o Intercessor? E assim como Jesus Cristo, por Sua intercessão, não impede que nos ajudemos na igreja pelas orações feitas uns pelos outros, assim também é necessário que isto fique resolvido – que todas as intercessões da igreja devem ser dirigidas e jungidas unicamente à de Cristo.49 Como dividir o poder intercessor de Cristo com outros?! É pura mentira o que tagarelam os sofistas atuaisb , dizendo que Cristo é Media- dor da redenção e que os crentes são mediadores da intercessão. Como se Cristo, tendo realizado uma mediação temporal [histórica] e tendo ficado quite com esse dever que Lhe cabia, deixasse a cargo dos Seus servos o ofício eterno e para sempre duradouro! Bela honra Lhe prestam, atribuir-lhe uma porção tão pequena da honra que Lhe é devida! Mas a Escritura segue nisso outro rumo, completa- mente diverso. E o crente deve apegar-se à simplicidade da Escritura e deixar de lado aqueles embusteiros. Porque, quando João declara que “se alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo50 ”, ele não entende que Cristo foi nosso Advogado no passado, mas Lhe atribui ofício de Intercessor perpétuo. E também o apóstolo Paulo afirma que, tendo Cristo se assentado à destra do Pai, intercede por nós51 . E quando noutra passagem ele O menciona como sendo o único Mediador entre Deus e os homens, não inclui aí as orações das quais tinha feito menção? Porque, tendo dito um pouco antesa que devemos usar “a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens52 ”,
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    112 As Institutas– Edição Especial como complemento dessa declaração diz subseqüentementeb que “há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens”. É certo que não O imaginamos de joelhosc , fazendo humilde súplica; mas entendemos, com o apóstolo, que Ele comparece de tal modo diante de Deus que a virtude e o poder da Sua morte têm valor de intercessão perpétua. E disso entendemos também que, tendo Ele entra- do no santuário do céu, só Ele pode apresentard as orações do [Seu] povo, sendo que este [por si mesmo] não tem acessoe junto a Deus. Quanto às orações dos santos falecidos [1536] Quanto aos santos que passaram deste mundo e estão vivendo com Cristo, se formos atribuir a eles alguma oraçãog , nem em sonho imaginemos que eles tenham outro caminho para a oração senão Cristo, que é o único caminho; ou que os seus pedidos sejam aceitos por Deus quando feitos em outro nome.Visto, pois, que a Escritura nos priva de todos os outros, conclamando-nos a dirigir-nos uni- camente a Cristo; visto, igualmente, que o Pai celestial quer que todas as coisas sejam reunidas nele53 , é uma grande tolice, beirando mesmo a loucurah , pretender ter acesso a Deus por meio deles de tal modo que nos afastemos dele. [1539] Ora, que é isso que se fazia e que continua sendo feito onde o papado tem presença, quem o negará? Para tornar Deus propício alegam-se os méritos dos santos e se invoca a Deus em nome deles, deixando Jesus Cristo para trás. Que outra coisa é isso, senão usurpar o ofício singular de intercessão, que acima mantivemos liga- do unicamente a Cristo? Além disso, quem foi o anjo ou o diabo que jamais revelou uma sílaba sequer aos homens da intercessão dos santos que não tenha sido forjadaa ? Porque não há nada disso na Escritura. Qual o motivo, então, para inventar tal falsidadeb ? O certo é que, quando o espírito humano busca auxílios secundários dessa natureza, demonstra evidentemente a sua falta de confiança. E se se chamar a testemunho a consciência daqueles que se apegam à intercessão dos santos, vai-se ver que essa prática não vem de outra coisa que não do fato de que eles estão confusos e perplexos, como se Cristo falhasse com eles, ou se fosse rigoroso demais. Recorrer à intercessão dos santos é desonrar Cristo e despojá-lo do título e da função de Mediador Com essa dúvida eles fazem grande desonra a Cristo e o despojam do título e do direito de único Mediador. Título e direito que, como Lhe foram dados com sin- gular prerrogativa, não devem ser transferidos para outros. [1536] Acresce que, fazendo isso, eles obscurecem a glória da Sua natividade, tornam nulac a Sua cruz e desfazem o louvor de tudo o que Ele fez e sofreu, visto que tudo isso não visa a outro fim senão o de que Ele seja reconhecido como o único Mediador. Semelhantemente, eles rejeitam a bondade de Deus, que se declarou seu Pai, porque não será seu Pai, a não ser que considerem Jesus Cristo como seu irmão.
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    113 A isso elesrenunciam totalmente, se não consideram que Ele tem para com eles um amor fraterno, amor tão terno e meigo que igual não há no mundo. Porquanto a Escritura nos apresenta Cristo de maneira singular, envia-nos a Ele e quer que nos apeguemos a Ele. Como diz Ambrósio54 , “Ele é a nossa boca, pela qual fala- mos com o Pai; os nossos olhos, pelos quais vemos o Pai; a nossa destra, pela qual nos oferecemos ao Pai; Medianeiro sem o qual não há nenhuma proximida- de de Deus, nem para nós, nem para nenhum de todos os santos”. [1539] Ora, nessa questão é tão desvairada a loucura que podemos nela contemplar ao vivo a natureza da superstição, a qual, uma vez soltas as rédeas, não tem limites para a sua extravagância. Porque, tendo começado a dirigir seu pensamento aos santos como intercessores, pouco a pouco vai atribuindo a cada um deles encargos particulares. Tanto assim que, conforme a diversidade dos fatos, ora um ora outro são invocados para defensores. Além disso, cada pessoa escolhe o seu santo particular e se coloca sob a sua proteção, como se fosse a própria proteção de Deus. Acontece não somente o que o profeta reprovou nos israelitas, que os deuses eram erigidos conforme os nomes das cidades, mas tam- bém sucede que são fabricados conforme a multidão de pessoas, de modo que cada uma tem o seu. [1536] Ora, a verdade é que eles têm seu amor voltado para a vontade de Deus e nela vêem e a ela reportam todos os seus desejos. Assim, quem quer que lhes atribua outra oração que a de augurar a vinda do reino de Deus, faz deles uma idéia muito rude e carnal, e até lhes fazem injúria. [1539] Por aí se pode julgar como se deve considerar a fantasia generalizada que consiste em pensar que os santos se tornam favoráveis a cada um conforme a honra que lhes é pres- tada. Finalmente, muitos não se contentam com esse horrível sacrilégio e os invo- cam não somente como patronos ou advogados, mas também como governadores da sua salvação. Eis onde vão cair os míseros homens, quando ultrapassam os seus limitesa , isto é, quando se apartam da Palavra de Deus. Vãs tentativas de fundar a intercessão dos santos na Escritura No esforço que alguns fazem para mostrar que a intercessão dos santos pode se ver fundada na Escritura, eles se atormentam à toa. Dizem eles que é feita fre- qüente menção das orações dos anjos; e não só isso, mas também que as ora- ções dos crentes são levadas por suas mãos até à presença de Deus. Vá lá; mas, se lhes parece bom comparar os santos finados com os anjos, terão que provar que, como estes, aqueles são espíritos enviados para trabalhar pela nossa salva- ção, e que receberam o encargo e a comissão de nos guiar em todos os nossos caminhos, que eles estão ao redor de nós, e que nos admoestam, velando sem- pre pela nossa preservação. Porque todas essas coisas são atribuídas aos anjos, e não aos santos.
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    114 As Institutas– Edição Especial Aqueles tais alegam também o que o Senhor disse a Jeremias: “Ainda que Moisés e Samuel se pusessem diante de mim, meu coração não se inclinaria para este povo55 ”. E com essa passagem eles formulam o seu argumento deste modo: “Falando assim de Moisés e de Samuel, que já estavam mortos, não quis Deus dizer que os mortos oram pelos vivos?” Muito ao contrário, eu argumento desta maneira: Como Moisés e Samuel não oravam então pelo povo de Israel, vê-se que os mortos não fazem nenhuma oração pelos vivos. Pois, quem pensaríamos nós que, dentre os santos, tivesse solicitude pelo povo, se Moisés não era sufici- ente para isso, sendo que ele sobrepujou todos os demais nesse ponto? Ora, pode- se inferir das palavras do profeta que ele não fazia então nenhuma súplica. Por- que, se com essas pequenas sutilezas eles concluem que os mortos oram pelos vivos, tendo Deus dito: “Ainda que Moisés e Samuel orassem”, eu terei uma razão mais patente para afirmar que Moisés, estando o povo em extrema necessi- dade, não orou, o que se pode inferir do fato de que ao povo foi dito o seguinte: Se ele orasse, não seria atendido. E isso tem como verdade paralela que nenhum outro ora, uma vez que Moisés suplanta todos os outros em bondade e clemência. Eis o proveito que tiram eles das suas cavilações: São feridos pela própria espada de que se julgavam munidos! Todavia, é uma verdadeira zombaria forçar dessa maneira a citada declaração violentando o seu sentido simples, pois o Senhor outra coisa não quer dizer senão que Ele não perdoaria aquele povo nem que tivessem um Moisés ou um Samuel como advogado; sendo que outrora tinha feito tanto bem atendendo às orações delesa ! Esse sentido se pode deduzir claramente de outra passagem semelhante, registrada em Ezequiel. Falando sobre o que faria com uma terra ou uma cidade que caísse em pecado, diz o Senhor: “Ainda que estivessem no meio dela estes três homens, Noé, Daniel e Jó, eles, pela sua justiça, salvariam apenas a sua própria vida56 ”. Aí, sem dúvida, Ele quis dizer: caso eles ressuscitassem e vives- sem na cidade. Deixemos, pois, de lado aqueles dos quais a Escritura testifica abertamente que já terminaram a sua carreira. Por isso foi que o apóstolo Paulo, falando de Davi, não diz que ele ajuda os seus pósteros atendendo às suas orações, mas somente que ele tinha prestado serviço à sua época, “à sua própria geração57 ”. Mas eles perguntarão se eu pretendo eliminar toda a bondade demonstrada por aqueles santos, visto que durante toda a sua vida eles tiveram ardente amor e piedade. – A isso respondo que não quero especular curiosamente, que é o que eles fazem pensando como pensam. Também não parece nem um pouco possível que os santos se movam por todos os lados atendendo a desejos diversos, mas é um pensamento verossímil julgar que, com resoluta e firme vontade, eles bus- cam o reino de Deus, que não consiste menos na confusão dos ímpios que na salvação dos crentes. [1536] Além disso, embora concedamos que eles oram dessa maneira por nós, todavia, não se segue daí que devam ser invocados. E não se deve deduzir
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    115 isso do fatode que os homens que vivem na terra se recomendam às orações uns dos outros. Porque, aos que vivem neste mundo, a intercessão mútua serve para manter e desenvolver o amor e a caridade entre eles, quando compartilham suas necessidades e assumem mutua responsabilidade por elas. [1539] Isso eles fa- zem por obediência ao mandamento de Deus, e não ficam sem promessas, sendo estes os dois pontos principais relacionados com a oração. [1536] Todas estas razões faltam aos mortos. Com os quais o Senhor nos priva de toda e qualquer comunicação quando os retira da nossa companhia58 ; também da parte deles para conosco, segundo o que nos é possível presumir. E se alguém pretender afirmar que é impossível que os santos não retenham o mesmo amor caridoso que tinham quando vivos, assim como estão unidos a nós por uma só fé, acrescentarei esta pergunta: Quem foi que nos revelou que eles têm ouvido tão bom que podem ouvir as nossas palavras? e que têm visão tão aguda que podem ver e avaliar as nossas necessidades? Mais um sofisma dos sofistas [1539] É certo que os sofistas falam demais em suas escolas, alegando que a luz da face de Deus é tão grande que, contemplando-a como num espelho, os santos podem contemplar o que se faz cá na terra. Mas afirmar isso, e principalmente com o atrevimento com que eles o fazem, é o mesmo que desejar penetrar os mistérios dos juízos de Deus com os nossos sonhos irrefletidos, sem levar em conta a Sua Palavra. Isso é pisar a Escritura, a qual tantas vezes declara que a sabedoria* da nossa carne é inimiga da sabedoria de Deus. Citações bíblicas impróprias [1539] Os testemunhos da Escritura que citam em apoio às suas mentiras são corrompidos perversamente por eles. Dizem eles que Jacó, quando estava para morrer, pediu que o seu nome e o de seus pais Abraão e Isaque fossem invocados sobre os seus descendentes59 . Primeiro, observemos que essa é a forma de invo- cação entre os israelitas. Eles não chamam seus pais para que os ajudem, mas tão- somente pedem a Deus que se lembre dos Seus servos Abraão, Isaque e Jacó. Esse exemplo de nada serve aos que dirigem suas palavras aos santos. Mas, visto que esses cabeças de paua , lerdos e tolos como sãob , não consideram o que signi- fica invocar o nome de Jacó ou com que finalidade deve ser invocado, não é de admirar que errem de maneira tão ridícula. Para entendermos bem este assunto, devemos notar que essa frase consta noutra passagem da Escritura. Diz o profeta Isaías que o nome dos homens é invocado sobre as mulheres, como quando elas os reconhecem como seus maridos e ficam sob a sua tutela e proteção60 . Portanto, a invocação do nome de Abraão sobre os israelitas consiste em que, reconhecen- do nele o autor da sua linhagem e descendência, mantêm solenemente a memória do seu nome, como do próprio pai. E isso Jacó não faz preocupado com sua
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    116 As Institutas– Edição Especial reputação ou fama pessoal. Mas é que ele considera que toda a felicidade da sua posteridade nisso está estabelecida, podendo ser desfrutada graças à sucessão assegurada pela aliança que Deus tinha feito com ele; e deseja para os seus des- cendentes o que ele sabe que é o seu principal bem: que eles sejam considerados pelo nome dos seus filhos [de Jacó] e reconhecidos como sua linhagem. Pois isso outra coisa não é senão a transferência direta e ininterrupta da sucessão da referi- da aliança. Por outro lado, os sucessores ou descendentes, trazendo com suas orações tais fatos à lembrança, não têm seu refúgio na intercessão dos mortos, mas pedem ao Senhor que se lembre da promessa com a qual Ele tinha testificado que lhes seria propício e generoso por causa de Abraão, Isaque e Jacó. Ademais, bem pouco podem os crentes descansar firmados nos méritos dos seus pais, sendo suficiente a respeito disso a declaração que lemos em Isaías, na qual, falando em nome de toda a igreja em geral, o profeta se expressa desta forma: Senhor, “tu és nosso Pai, ainda que Abraão não nos conhece, e Israel não nos reconhece; tu, ó Senhor, és nosso Pai; nosso Redentor é o teu nome desde a antigüidade61 ”. Não obstante falar desse modo, ele acrescenta igualmente este clamor ao Senhor: “Volta, por amor dos teus servos e das tribos da tua herança”. Não significa que eles imaginam alguma intercessão, mas sim que trazem à lembrança o benefício da aliança. Pois bem, agora que temos o Senhor Jesus, por cuja mão a aliança eterna da misericórdia não somente foi feita, mas também foi confirmada, de quem mais pretenderíamos usar o nome em nossas orações? [1536] Mas alguns se impressionam com esta razão: que as orações dos santos freqüentemente são atendidas. Por quê? Certamente porque oram assim: “Nossos pais confiaram em ti”, diz o profeta; “confiaram, e os livraste. A ti cla- maram e se livraram; confiaram em ti e não foram confundidos62 ”. Portanto, ore- mos também conforme o seu exemplo, para que nós, como eles, sejamos atendi- dos. – Mas não argumentemosa contra toda a ordem da razão dizendo que nisso ninguém será atendido, senão aqueles que já o foram. Muito melhor é o argumen- to de Tiago63 . Diz ele: “Elias era homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos, e orou, com instância, para que não chovesse sobre a terra, e, por três anos e seis meses, não choveu. E orou, de novo, e o céu deu chuva, e a terra fez germinar seus frutos”. E então? Infere ele que Elias tinha alguma prerrogativa singular à qual não devemos recorrer? Não. Ao contrário, ele demonstra a eficá- cia perpétua da oração pura e santa, para nos exortar a orar de modo semelhante. Porque reconheceremos mui pobremente a prontidão e a benignidade de Deus para atender aos Seus, a não ser que, pela experiência dos santos que foram aten- didos, sejamos fortalecidos numa confiança mais segura em Suas promessas. Ora, nestas Ele não dizb que os Seus ouvidos estão inclinados para ouvir um ou dois ou um pequeno número, mas sim para ouvir todos os que invocarem o Seu nome.
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    117 Elementos componentes daoração A oração, como nós a entendemosc , tem duas partes, quais sejam: petição e ação de graças. Porque os elementos citados pelo apóstolo Paulo64 se reduzem todos a estes dois membrosd . Pela petição expomos o nosso coração e o nosso desejo a Deus, primeiro pedindo de Sua bondade as coisas que visam e servem à Sua glória, e, depois, as que também nos são úteis e das quais temos necessidade. E pela ação de graças reconhecemos os benefícios que Ele nos faz e os confessa- mos para o Seu louvor, e a Ele remetemos todas as coisas, dando-lhe glória por todos os bens em geral e os atribuindo à Sua bondade. Essas duas partes Davi abrange num só versículo quando, em nome do Senhor, diz: “Invoca-me no dia da angústia65 ; eu te livrarei, e tu me glorificarás66 ”.67 Devemos fazer constante uso dos dois componentes da oração68 , porque a nossa indigência e pobreza é tão grande, as nossas imperfeições nos pressionam tão fortemente de todos os lados e pesam tanto sobre nós, que é bom que todos, até mesmo os santos, busquem sempre ocasião para lamentar-se e suspirar diante de Deus e invocá-lo com toda a humildade. Por outro lado, tão grandes, constan- tes e abundantes bênçãos do Senhor jorram sobre nós, como também os milagres das Suas obras que se vêem por toda parte para onde se olhe, manifestam-se tão grandiosos, tão excelentes e infindáveis, que jamais nos faltam causa e motivos para louvá-lo, glorificá-lo, exaltá-lo, e para Lhe render graças em tudo e por tudo. E, para que isso seja explicado melhor, visto que [1536] toda a nossa esperança e todo o nosso bem estão de tal modo firmados em Deus, como há pouco foi suficientemente demonstrado, que não podemos prosperar, nós, o que é nosso, e tudo o que diz respeito a nós, sem a Sua bênção, devemos encomendar-nos con- tinuamente69 a Ele, nós e tudo quanto é nosso. Além disso, que tudo o que proje- tarmos, dissermos e fizermos seja projetado, dito e feito sob a Sua mão e Sua vontade, e com esperança de receber o Seu auxílio. Porque estão sob a maldição de Deus todos os que, confiando em si mesmos ou em outros, planejam e delibe- ram o seu propósito, e empreendem e se dispõem a começar alguma coisa fora da Sua vontade e sem invocar nem implorar o Seu auxílio70 . Do que foi dito, que é necessário crer e reconhecer que Deus é o autor de todo bem, segue-se que devemos receber tudo como vindo de Sua mão, e com incessante ação de graças. Reconheçamos igualmente que não haverá nenhuma boa maneira de fazer uso dos benefícios que generosa e abundantemente Ele derrama sobre nós, se não Lhe estivermos dando constante louvor, com ações de graças. Porque, quando o apóstolo Paulo declara que todos os benefícios de Deus nos são santificados pela Palavra e pela oração71 , com isso igualmente demonstra que sem a Palavra e a oração eles não são santificados. Pela Palavra ele entende a féa [1541], que tem correlação com a Palavra, na qual é preciso ter fé. Assim, sem oração e sem a fé nenhum bem dado por Deus nos será santificado.
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    118 As Institutas– Edição Especial [1539] Bomb ensino nos dá, pois, Davi quando declara que, tendo recebido nova bênção de Deus, foi posto em seus lábios um novo cântico72 . Com isso ele dá a entender que o nosso silêncio não estará isento de ingratidão, se deixarmos passar sem louvor alguma de Suas graças; visto que todas as vezes que Ele nos faz algum benefício, dá-nos motivo para bendizê-lo. “Orai sem cessar.” [1536] Essa é a razão pela qual o apóstolo Paulo, noutra passagem73 , nos manda orar sem cessar. Quer ele dizer o seguinte: que devemos fazer o possível para que o tempo todo, toda hora, em todo lugar e em todas as coisas, os nossos desejos sejam elevados a Deus; que desejemos dele todo bem e Lhe rendamos louvor e graças por todo bem; lembrando que em todas as coisas Ele continua- mente nos exorta e nos adverte por meio delas. E que assim se deve orar cons- tantemente, embora se entenda como se referindo principalmente a cada pessoa orando em particular, todavia também se refere de algum modo às orações pú- blicas. Se bem que não podem ser contínuas e que não devem ser feitas senão conforme as normasa estabelecidas por consentimento comum da igreja, em suas assembléias oportunamente realizadas. Há, portanto, horas determinadas, indiferentes quanto a Deus, mas necessárias quando ao uso dos homens, a fim de que se dê atenção à comodidade de todos e que, como diz o apóstolo Paulo74 , “tudo seja feito com decência e ordem”. [1539]b Isso não impede, porém, que cada igreja deva sempre incentivar o freqüente uso da oração, particularmente quando se vir premida por alguma necessidade. O Senhor proíbe orações demoradas e suas vãs repetições No tocante à perseverançac , muito próxima da continuidade, teremos ocasião de falar na parte final destas considerações.Agora, de nada serve manter o superstici- oso prolongamento e repetição das oraçõesd , prática que o Senhor nos proíbe.75 Ele não proíbe a persistência nas orações, nem que elas sejam feitas demoradamente, nem com freqüência nem com veemente fervor, mas nos ensina a não confiar em que se pode constranger Deus a atender às nossas petições pela nossa importunação com vã loquacidade, como se fosse possível dobrá-lo pelo muito falar, como se dá entre os homens76 .77 Interioridade e recato [1536] Visto que, como já foi dito, a finalidade da oração é que o nosso espírito se eleve e se dirija a Deus para augurar Sua glória, proclamar Seus louvores e pedir que nos ajude em nossas necessidades, disso mesmo podemos saber que o prin- cipal na oração está no coração e no espíritoe . Ou ainda, tomamos consciência de
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    119 que a oraçãoé, propriamente, voltar e dirigir o nosso desejo interior a Deus, que conhece os segredos do nosso coração. Por isso o Senhor Jesus Cristo, quando quis dar-nos uma boa regra para a prática da oração, nos ordenou que entremos em nosso quarto, fechemos a porta, e em secreto oremos ao nosso Pai celeste, a fim de que Ele, que vê e penetra todos os segredos, nos atenda. Porque, depois de nos afastar do exemplo dos hipócritas que, por ambiciosa ostentação em suas orações, procuram ser glorificados e favorecidos pelo povo, Ele acrescenta e en- sina subseqüentemente o que se deve fazer, a saber, entrar no quarto e orar a sós. Por essas palavras eu entendo que Ele nos instrui a buscar refúgio e uma concentração tal que nos ajude a penetrar o nosso íntimo com todo o nosso pen- samento, e nos promete que, aprofundando-nos nos sentimentos recônditos do nosso coração, teremos Deus próximo de nós, de quem o nosso corpo deve ser um verdadeiro templo78 . Com isso Ele não quis dizer que não é permitido e que é errôneo orar noutros lugares, mas apenas quis declarar que a oração é algo secre- to e que se abriga principalmente no coração e no espírito, cuja tranqüilidade ela requer, distante de todos os sentimentos e afetos carnais, bem como de todas as preocupações com interesses e cuidados terrenais.79 O exemplo de Jesus [1539] Não é, pois, sem motivo que mesmo o Senhor Jesus, querendo dedicar-se à oração, retirava-se do vozerio dos homens80 . Mas Ele fazia isso mais para ad- moestar-nos, por Seu exemplo, a não desprezarmos recursos como esse para que por eles seja elevado o ardor do nosso amor pela prática da oração. Entretanto, como Ele não deixava de orar no meio da multidão quando Lhe era dada oportu- nidade, assim também nós não devemos pôr dificuldade em elevar as mãos aos céus em todo e qualquer lugar, sempre que houver motivo e ocasião para isso. E ainda, como a Palavra de Deus ordena que se façam orações públicas entre os crentes81 , assim é necessário que haja templos para esse fim designadosa . Com isso, todos os que se recusarem a orar em comunhão com o povo de Deus, não poderão acobertar-seb com a desculpa de que, para orar, entram em seus quartos, em obediência ao mandamento de Deus. Porque Aquele que prometeu fazer o que dois ou três reunidos em Seu nome pedirem82 , testifica fartamente que Ele não condena as orações públicasc , mas sim requer que toda ambição e toda cobiça de glória sejam excluídas. E, ao contrário, que haja verdadeiro e puro amor no fundo do coração. Se este for o uso legítimo dos templos (como é certo que é), devemos ter o cuidado de não considerá-los dignos habitáculos de Deus (como se tem feito por longos anos) nos quais o Senhor nos ouve mais de perto; que não lhes atribuamos alguma santidade secreta capaz de tornar a nossa oração melhor diante de Deusd . Porque, se nós somos verdadeiros templos de Deus83 , devemos orar a Deus em nosso íntimo, se O queremos invocar em Seu verdadeiro templo. E quanto àquela opinião grosseira e carnal, deixemo-la com os judeus ou com os
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    120 As Institutas– Edição Especial gentios, porquanto nós temos o mandamento que nos impele a invocar o Senhor “em espírito e em verdade84 ”, sem dar importância a diferenças de lugar. É verda- de que antigamente o templo era dedicado, por mandamento de Deus, à oferta de orações e de sacrifícios; mas isso foi no tempo em que a verdade era figurada sob tais sombras85 . Como agora a verdade nos é declarada vividamente, não nos é permitido apegar-nos a nenhum templo material. E mesmo entre os judeus o tem- plo não era recomendado no sentido de que eles enclausurassem a presença de Deus dentro dos seus muros, mas para que eles se exercitassem pela contempla- ção da figura e imagem do templo verdadeiro86 . Porque os que de algum modo achavam que Deus habita templos construídos pelas mãos dos homens foram repreendidos por Estêvão87 . *** A hipocrisia condenada [1536] Semelhantemente, Ele expõe com toda a clareza que o falar e o cantar, se acompanham a oração, de nada valem diante de Deus e não Lhe são de nenhum proveito, se não são fruto do amor e se não vêm do fundo do coração. Muito ao contrário, porém, causam ao Senhor grande indignação e provocam fortemente a Sua ira, se só procedem da boca e dela saem, porque isso é abusar do Seu sacratíssimo nome e zombar da Sua majestade, como Ele o declara por intermé- dio do Seu profeta, dizendo: “Visto que este povo se aproxima de mim e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim, e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, que maquinal- mente aprendeu, continuarei a fazer obra maravilhosa no meio deste povo; sim, obra maravilhosa e um portento; de maneira que a sabedoria dos seus sábios perecerá, e a prudência dos seus prudentes se esconderá88 ”. Todavia, não dizemos que a palavra e o canto não são bons; antes, os prezamos muito, desde que sigam o amor de coração e a este atendam.89 [1536] Porquea , assim procedendo, eles ajudam a intenção do homem e a mantém ligada à reflexão sobre Deus e em Sua contemplação, advertidos como devemos estar de que aquela boa intenção tende a desviar-se facilmente desse propósito, se não for fortalecida por todos os meios disponíveis. Além disso, tendo em vista que todos os membros do nosso corpo devem glorificar a Deus, bom será que a própria língua, criada por Deus especi- almente para anunciar e glorificar o Seu nome, seja empregada nesse mister, quer falando quer cantando. E, principalmente, ela é necessária para as orações que se fazem publicamente nas assembléias dos cristãos, aos quais devemos mostrar que, como honramos a Deus com um mesmo espírito e com a mesma fé, também O louvamos com uma mesma palavra, comum a todos, e, pode-se dizer, com a mesma bocaa . E isso diante dos homens, para que cada um ouça declaradamente a confissão da fé que seu irmão tem, e seja edificado e incitadob a imitá-la.
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    121 Na língua dopovo... Daí se vê também que as orações públicas não devem ser feitas em grego entre os latinos, e em latim entre os franceses ou ingleses (como até aqui tem sido costume), mas na língua comum do paísc , de maneira que toda a assembléia as possa entender. Sim, pois, a oração deve ser feita para a edificação de toda a igreja, a qual não receberá nenhum fruto de um palavrório não entendido. Mes- mo aqueles que não tem nenhum respeito pela caridade nem pela humanidade deveriam ao menos sensibilizar-se um pouco diante da autoridade do apóstolo Paulo, cujas palavras são bastante claras90 : “Se tu bendisseres com o espíritod , como dirá o que ocupa o lugar de indouto, o Amém, sobre a tua ação de graças, visto que [ele] não sabe o que dizes? Porque realmente tu dás bem graças, mas o outro não é edificado”. [1539] Não há, pois, como assombrar-nos suficientemente com a audácia desenfreada dos seguidores do papa de antanho e atuais que, contra a proibiçãoe do apóstolo, cantam e falam ostensivamente em língua estrangeira e desconhecidaa , da qual muitas vezes nem eles entendem uma sílaba sequer – e querem que os outros entendam! Pois bem, o apóstolo nos mostra que devemos seguir outro caminho, dizendo91 : “Que farei, então? Orarei com a voz; orarei com o entendi- mento. Cantarei com a voz; cantarei com inteligência”. Nessa passagem ele em- prega a palavra “espírito” onde nós colocamos a palavra “voz”; mas com o mes- mo sentido, porque eu entendo que o som formado pela respiração é a reverberaçãob do ar ao ser espirado pela garganta.92 [1536] Contudo, devemos pensar sempre que, sem o coração, a língua é muito desagradável a Deus (quer na oração particular quer na pública); que, ade- mais, o ardor e veemência do querer deve ser tão grande que ultrapasse tudo quanto a língua possa exprimir; e, finalmente, que na oração particular a língua mesma não é tão necessária, acontecendo, porém, que o entendimento ou a mente nem sempre é suficiente para induzir piedade [1539], ou então sendo o caso de que, pela emoção calorosa, a oração impulsione a língua e a constranja a pôr-se em ação. Porque, embora por vezes as melhores orações sejam as que são feitas sem o uso da fala audível, não obstante, muitas vezes sucede que o sentimento do coração é tão ardoroso que incita à ação a língua e outros membros, sem que haja nisso algum sentimento ambiciosoc . Disso decorre que Ana, mãe de Samuel, murmurou movendo os lábiosd , pretendendo orar93 . E os crentes experimentam diariamente algo disso quando, em suas orações, emitem voz e suspiros sem ter pensado nisso. Quanto a atitudes e modos Quanto às atitudes e aos modos exteriores do corpo que é costume observar (como o hábito de ajoelhar-se e dee descobrir a cabeça), estas maneiras de agir
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    122 As Institutas– Edição Especial são práticas pelas quais nos esforçamos para nos preparar para prestar maior reverência a Deus. [1536] Ademais, agora é necessário que aprendamos não somente o modoa de fazer oração, mas o próprio estilo, e também a f’órmula que o nosso Pai celestial nos deu por meio do Seu amado Filho, nosso Senhor Jesus Cristo94 . Vemos aí uma grande bondade e ternura. Porque, além deb nos admoestar e exortar a que O busquemos em todas as nossas necessidades (como os filhos podem recorrer a seu pai sempre que são premidos pela necessidade), sabendo que não podemos entender quão grande é a nossa pobreza e miséria nem compreender o que é bom pedir-lhe e o que de fato nos é útil e proveitoso, Ele quis acudir-nos e suprir-nos de Si próprio o que falta ao nosso espírito. E nos deu uma oração modelar na qual, como num quadro, Ele coloca em evidência para nós tudo o que nos é lícito querer e desejar dele; tudo o que nos pode servir e nos dar proveito; e tudo o que é bom e necessário que Lhe peçamos. Dessa benignidade e mansuetude podemos gozar singular consolo. Porque nos apercebemos e nos certificamos de que não Lhe fazemos pedido ilícito ou importuno, nada que Lhe pareça estranho ou insen- sato. E não Lhe pedimos nada que não Lhe seja agradável quando, seguindo assim a Sua norma, oramos como que por Sua boca. Lição oriunda de um poeta pagão por meio de um famoso filósofo também pagão [1539] Platão95 , vendo a ignorância dos homens em seus desejos e nos votos que fazem a Deus, os quais muitas vezes não lhes podem ser concedidos senão à custa de grande prejuízo ou dano, declara que a melhor maneira de orar é a que nos é dada por um poeta pagão antigo, nestes termos: “Pedir a Deus que nos faça o bem, quer Lhe peçamos quer nãoa , e que se disponha a afastar de nós o mal quando desejamos que nos sobrevenha”. Boa opinião essa, considerando-se que vem de um pagão, pois ele vê quão perigoso é pedir a Deus o que nos ensina a nossa cobiça. Paralelamente, mostra a nossa desgraça, que consiste em não po- dermos abrir sem risco a nossa boca para pedir alguma coisa a Deus, se o Espírito Santo não nos conduzir na forma certa de bem orar.96 A oração do Senhor: Seis petições. [1536] Esta oração ou modelo normativo para orar contém seis petiçõesb . Te- nho motivo para não concordar com os que fazem uma divisão de setec artigos, pois o evangelista, falando desta forma, “Não nos induzas à tentação, mas li- vra-nos do maligno97 ”,98 junta estes dois membros, formando assim com eles uma só petição. Como se dissesse: “Não permitas que sejamos vencidos pela tentação; antes, socorre a nossa fragilidade e livra-nos, para que não sucumba- mos”. E de fato os antigos doutores99 concordam com esta exposição. Com base nisso, é fácil julgar que a parte que foi acrescentada em Mateus e que alguns
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    123 têm contado comouma sétima petição, é tão-somente uma explicação da sexta e a esta deve ser reportada. Agora, considerando que a oração é tal que em cada parte dela devemos ter em vista principalmente a honra de Deus, e também, conquanto nos seja provei- toso que tudo o que nela se contém suceda nos termos em que o pedimos, todavia, as três primeiras petições são especialmente destinadas a requerer a glória de Deusa , a qual nelas devemos considerar sem dar nenhuma atenção a nós mesmos; as outras três contêm especialmente as coisas que devemos pedir com vistas às nossas necessidades. Reforçando o ponto: Quando pedimos na oração que o nome de Deus seja santificado, não devemos fazer essa petição tendo em vista algum proveito para nós, mas somente tendo em consideração a glória de Deus, sem nenhum outro interesse, fim ou intenção. E, contudo, essa mesma petição redunda em nosso proveito e utilidade. Porque, quando pedimos dessa maneira que o nome de Deus seja santificado, paralelamente é feito benefício à nossa santificação. Mas, como foi dito, nem nesse proveito devemos pensar quando fazemos a primeira petição. De tal modo deve ser assim que, ainda que fosse excluído todo o nosso proveito e que nada recebêssemos de Deus em resposta à oração, não devemos deixar de desejar e pedir em oração esta santificação do nome de Deus, bem como as outras coisas semelhantes que pertencem à Sua glória.100 O exemplo de Moisés e de Paulo Como se vê no exemplo de Moisés e de Paulo101 , os quais, desviando de si mes- mos o seu amor, desejaram com um zelo fervoroso e inflamado a sua própria perdição. Agiram assim para que, mesmo com seu próprio prejuízo e dano, se necessário fosse, a glória de Deus fosse exaltada e Seu reino multiplicado. Por outro lado, quando pedimos que nos seja dado o nosso pão cotidiano, embora estejamos pedindo coisas concernentes a nós e ao nosso proveito, devemos, con- tudo, buscar nisso primeiramente a glória de Deus; a tal ponto se deve levar isso a sério que, se não visarmos à glória de Deus, não devemos querer fazer petição, nem desejar ou querer ter o que pretenderíamos pedir.102 [1539] Passemos agora a expor a oração. Exposição da oração do Senhor [1536] PAI NOSSO, QUE ESTÁS NOS CÉUS Primeiramente aqui, no começo desta oração, vê-se o que já dissemos: que é necessário que todas as nossas orações sejam apresentadas e dirigidas por nós a Deus em nome de Jesus Cristo, porquanto nenhuma oração Lhe será aceitávela , se feita mediante outro nome. Como aqui chamamos a Deus nosso Pai, significa que nos dirigimos a Ele em nome de Jesus Cristo. Porque nós mesmos não pode- mos denominar Deus nosso Pai, e seria arrogânciab e temeridade usurpar o nome
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    124 As Institutas– Edição Especial de Seus filhos, se não tivermos sido feitos fihos da Sua graça em Jesus Cristo. Este, sendo o Seu verdadeiro, natural e próprio Filho, nos é dado por Ele como irmão, a fim de que, aquilo que Ele tem por natureza, seja feito nosso por dádiva e por adoção, se com genuína fé aceitamos este grande benefício. Como diz o apóstolo João: “A todos os que crêem em seu Filho Jesus Cristo, ele deu esta grande e excelente bênção e este privilégio de serem feitos filhos de Deus103 ”. Portanto, Ele se denomina nosso Pai, e quer ser assim chamado por nós, livrando-nos de toda dúvida pelo grande dulçor contido nesse nome. Porque não existe nenhum afeto amoroso que se compare com o amor paterno. [1539]Assim, Ele não poderia testificar com argumentos mais seguros e indubitáveis o Seu infinito amor por nós que neste fato: querer que nós sejamos considerados Seus filhos. [1536] E, ainda mais, o Seu amor por nós é maior do que todo o amor dos pais terrenos para com seus filhos, visto que, acima de todos os homens, Ele é perfeito em toda bondade e misericórdia. Tanto que, se pudesse acontecer que todos os pais existentes na terá viessem a perder todo o seu amor e afeto paterno e abandonassem e desamparassem os seus filhos, jamais o amor paternal de Deus poderia faltar ou falhar, porquanto Ele não pode negar-se a Si mesmo.
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    125 1 Cl 1.19 econtexto; Jo 1.14-18. 2 “Cristo não é só o primogênito de toda criatura; ele é também o restaurador da humanidade.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 1, (Sl 8.5), p. 169]. 3 Na edição de 1559, Calvino ratifica sua compreensão, entendendo que “com a oração encontramos e desenter- ramos os tesouros que se mostram e descobrem à nossa fé pelo Evangelho” [J. Calvino, As Institutas, III.20.2] e, que “a oração é um dever compulsório de todos os dias e de todos os momentos de nossa vida” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 50.14-15), p. 410] e: “Os crentes genuínos, quando confiam em Deus, não se tornam por essa conta negligentes à oração.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 30.6), p. 633]. Portanto, este tesouro não pode ser negligenciado como se “enterrado e oculto no solo!”. [João Calvino, As Institutas, III.20.1] 4 Joel 2. [Notar o versículo 17.] 5 “Aquele que confia na providência divina deve fugir para Deus com orações e forte clamor.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 31.17), p. 27]. 6 “Embora Deus nem sempre surja imediatamente em nosso socorro, segundo a pressa de nossos desejos, todavia ele sempre virá a nós no tempo oportuno....”. [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 46.5), p. 333]. 7 Sl 45. [Notar os versículos 2, 6 e 7.] 8 [Sl 145.18.] 9 “Todo crente deve ter o desejo fervoroso de contar com Deus em cada momento de sua vida.” (João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo, Novo Século, 2000, p. 31). 10 Sl 130. 11 “Quando a segurança carnal se haja assenhoreado de alguém, tal pessoa não pode entregar-se alegremente à oração até que seja feita maleável pela cruz e completamente subjugada. E esta é a vantagem primordial das aflições, ou seja, enquanto nos tornam conscientes de nossa miséria, nos estimulam novamente para supli- carmos o favor divino.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 30.8), p. 635]. 12 Rm 8.26. 13 "A língua nem sempre é necessária, mas a oração verdadeira não pode carecer de inteligência e de afeto de ânimo”, [J. Calvino, Catecismo de Genebra, Perg. 240] a saber: “O primeiro, que sintamos nossa pobreza e miséria, e que este sentimento gere dor e angústia em nossos ânimos. O segundo, que estejamos inflama- dos com um veemente e verdadeiro desejo de alcançar misericórdia de Deus, e que este desejo acenda em nós o ardor de orar.” [J. Calvino, Catecismo de Genebra, Perg. 243]. 14 De forma figurada, Calvino diz que “o coração de Deus é um ‘Santo dos Santos’, inacessível a todos os homens”, sendo o Espírito Quem nos conduz a ele. [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo, Paracletos, 1996, (1Co 2.11), p. 88]. 15 Dn 9.18,19. 16 Is 64.5-9. 17 Jr 14.7. 18 Baruque 2.18,19. [Apud Matos Soares. A parte final, em itálico, é minha tradução direta do texto de Calvino. N. do T.]. 19 “Sl 86.2. [Calvino: “Guarda a minha alma, pois eu sou bom”. Almeida, Revista e Corrigida: “...pois sou santo”. NVI: “...pois sou fiel a ti”. Hebraico: hasid. Gesenius: bondoso, excelente. Com relação a Deus: piedoso. N. do T.] 20 Is 38.3. 21 Sl 34.15. 22 1Jo 3.22. 23 Jo 9.31. 24 Alguns mestres condenam essa expressão, mas prefiro ficar com Caldas Aulete, que diz: “Desencargo, s. m. O mesmo que descargo: ...só por desencargo de consciência alguns...”. Nota do tradutor. 25 Sl 145.18; Jr 29.13. 26 Mc 11.20-26. 27 Tg 1.5-8.
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    126 As Institutas– Edição Especial 28 Rm 10.1-12. 29 Sl 41.4. 30 Calvino, relacionando as nossas orações ao cuidado providente de Deus, escreve: “Para incitar os verdadei- ros crentes a uma mais profunda solicitude à oração, Ele promete que, o que propusera fazer movido por Seu próprio beneplácito, Ele concederia em resposta a seus pedidos. Tampouco existe alguma inconsistência ente estas duas verdades, a saber: que Deus preserva a Igreja no exercício de sua soberana mercê, e que Ele a preserva em resposta às orações de Seu povo. Pois, visto que suas orações se acham conectadas às promes- sas graciosas, o efeito daquelas depende inteiramente destas.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 3, (Sl 102.17), p. 578]. 31 Lc 11.9-13; Jo 16.24; Mt 7.7-11 e 11.28; [Sl 27.8; 50.15; Zc 3.1]. 32 Êx 20.7. 33 [Sl 22.23,24; 35.27; Is 24.14-16; Mt 6.13; At 12.23; Rm 11.36; 1Pe 4.11; Ap 4.11,12; 7.12; 14.6,7.] 34 “Deus só é corretamente servido quando sua lei for obedecida. Não se deixa a cada um a liberdade de codificar um sistema de religião ao sabor de sua própria inclinação, senão que o padrão de piedade deve ser tomado da Palavra de Deus.” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 1, (Sl 1.2), p. 53). “Portanto, em nosso curso de ação, deve-se-nos ter em mira esta vontade de Deus que Ele declara em Sua Palavra. Deus requer de nós unicamente isto: o que Ele preceitua. Se intentamos algo contra o Seu preceito, obediência não é; pelo contrário, contumácia e transgressão.” (João Calvino, As Institutas, I.17.5). 35 Mt 7.7; Jr 29.12,13; Sl 50.15 e 91.15. 36 Sl 145.18; Is 30.19. 37 Jl 2.32. 38 “Nossa fé não tem que estar fundamentada no que nós tenhamos pensado por nós mesmos, senão no que nos foi prometido por Deus.” [J. Calvino, Sermones Sobre La Obra Salvadora de Cristo, Jenison, Michigan, TELL, 1988, “Sermon nº 13”, p. 156]. 39 2Sm 7.27-29; 1Cr 17.25-27. 40 Gn 32.9-12, 22-32. 41 1Tm 2.5; 1Jo 2.1; Hb 8.6 e 9.15. 42 Hb 4.14-16. 43 Jo 14.13,14 e 16.23-27. 44 2Co 1.20. 45 Jo 14.6. [ver os versículos 5 a 11]. 46 Jo 6.41-71. 47 1Tm 2.1-3. 48 Quando a referência é mais geral ou é especificamente feita à chefia ou soberania universal de Cristo, emprego a expressão “o Cabeça”; quando a referência é implícita ou explicitamente à igreja como organis- mo (corpo), com relação a Cristo emprego a expressão “a Cabeça”. Cf. Ef 4.15 e Cl 2.10 (NVI; quanto a Ef 4.15, comparar ARA 1ª. e 2ª. edições) (N. do T.). 49 “Não carecemos de nutrir nenhuma preocupação de que Deus rejeite as nossas orações em favor da Igreja, visto que o nosso Rei celestial nos precedeu para fazer intercessão por ela, de modo que, ao orarmos por ela, estamos apenas nos diligenciando por seguir seu exemplo.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 21.1), p. 456]. “Não temos como medir esta intercessão pelo nosso critério carnal, pois não podemos pensar do Intercessor como humilde suplicante diante do Pai, com os joelhos genuflexos e com as mãos estendidas. Cristo contudo, com razão intercede por nós, visto que comparece continuamente diante do Pai, como morto e ressurreto, que assume a posição de eterno intercessor, defendendo-nos com eficácia e vívida oração para reconciliar-nos com o Pai e levá-lo a ouvir-nos com prontidão.” [J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 8.34), p. 304]. 50 1Jo 2.1. 51 Rm 8.34. 52 1Tm 2.1,5. 53 Cl 1.13-19; Ef 1.
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    127 54 De Isaac etanima, cap. 8, 75 (Migne, 14, 550). 55 Jr 15.1. 56 Ez 14.14. 57 At 13.36. 58 Ec 9 [notem-se os versículos 4, 5 e 10]. 59 Gn 48.16; Ec 9. 60 Is 4.1. 61 Is 63.16, 17. 62 Sl 22.4,5. 63 Tg 5.17,18. 64 1Tm 2.1. 65 Na tradução usada por Calvino: “necessidade” (N. do T..). 66 Sl 50.15. 67 “Tudo quanto no serve de encorajamento, ao nos pormos a buscar a Deus em oração, nos é ensinado neste livro [Salmos].” (João Calvino, O Livro de Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. I, p. 34) 68 Lc 18 e 21; Ef 5.18-21. 69 Tg 4.1-10. 70 Is 30 e 31. 71 1Tm 4.1-5. 72 Sl 40.1-3. 73 1 Ts 5.17; 2 Tm 2.22. 74 1Co 14.40. 75 Jesus nos ensina a não usarmos em nossas orações de ”vãs repetições” (ARA;ACR; BJ), “palavras vãs” (ARC).A expressão usada por Cristo (Battaloge/w “battalogeõ”), que só ocorre aqui, parece ser onomatopéica, significando “falar sem sentido”, “balbuciar”, “repetir palavras ou sons inarticulados”, “falar sem pensar”, “falar futilmente”, “gaguejar”, “dizer sempre a mesma coisa”, “tagarelar”, “uma repetição supérflua e exa- gerada”, “repetir uma fórmula muitas vezes”, etc. Tyndale traduz: “Tagareleis demais”; Knox: “Useis muitas frases”; Velha Versão Siríaca: “Não digais coisas ociosas”. Esta palavra é constituída de (Ba/ttoj = “gago” & loge/w = “falar”). Ela é de derivação incerta; Erasmo (1467-1536), por exemplo, entendia que esta expres- são era proveniente de “Bato”, personagem descrito por Heródoto: “Chegando a Teras, Polineto, homem de alta posição, tomou a jovem como concubina, e o casal teve, no fim de certo tempo, um filho que gaguejava e sibilava. Essa criança, segundo os Tereus e Cireneus, recebeu o nome de Bato” (Heródoto, História, IV.155). No entanto, Heródoto, que discorda desta explicação para o nome do menino, diz que “batus significa rei na língua dos Líbios.” (Heródoto, História, IV.155). Também especula-se que esta expressão viria por derivação de um poeta medíocre, Battus, que teria feito hinos extensos, cheios de repetições. O fato é que ninguém consegue precisar a origem da palavra. Agostinho observa que “toda essa abundância de palavras vem dos gentios, que se preocupam mais em exercitar sua língua do que purificar o coração. Esforçam-se eles em aplicar também esse linguajar frívolo na oração para tentar dobrar a Deus. Julgam que alguém pode incliná-lo com o fluxo de palavras.” (Agosti- nho, Sermão da Montanha, II.1.3. p. 113). 76 Mt 6.7,8. 77 “Os crentes não oram com a intenção de informar a Deus a respeito das coisas que Ele desconheça, ou para incitá-lo a cumprir o Seu dever, ou para apressá-Lo, como se Ele fosse relutante. Pelo contrário, eles oram para que assim possam despertar-se e buscá-Lo, e assim exercitem sua fé na meditação das Suas promessas, e aliviem suas ansiedades, deixando-as nas mãos dEle; numa palavra, oram com o fim de declarar que sua esperança e expectativa das coisas boas, para eles mesmos e para os outros, está só nEle”. [John Calvin, Commentary on a Harmony of the Evangelists, Mattew, Mark, and Luke, Grand Rapids, Michigan, Baker Book House, 1981 (Reprinted), p. 314]. 78 1Co 3.16,17; [6.19]; 2Co 6.16. 79 Agostinho (354-430), comentando Mt 6.6, diz: “Não basta entrar no quarto. Se a porta ficar aberta aos importúnios, ela dá entrada às futilidades exteriores que
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    128 As Institutas– Edição Especial vêm perturbar nosso recolhimento. Dissemos que vêm de fora para significar as realidades passageiras e sensíveis que penetram pela porta, isto é, pelos nossos sentidos corporais, pois uma multidão de vãs imagens perturbam nossa oração. Em conseqüência, é preciso fechar a porta: resistir às solicitações dos sentidos corporais, para que uma oração toda espiritual se dirija ao Pai. Oração essa feita no íntimo do coração, onde em segredo rezamos [oramos] ao Pai.” (Agostinho, Sermão da Montanha, São Paulo, Paulinas, 1992, II.1.3. p. 112) 80 Mc 1.35; 6.46. 81 1Tm 2.1-8. 82 Mt 18.19,20. 83 1Co 3.16,17 e 6.19; 2Co 6.16. 84 Jo 4.23,24. 85 Hb 9 e 10. 86 Is 66. 87 At 7.42-53. 88 Is 29.13,14; Mt 15.7-9. 89 “Nem, contudo, aqui condenamos a voz ou o canto, senão que antes, muito os recomendamos, desde que acompanhem o afeto da alma. Ora, assim exercitam a mente na cogitação de Deus e a retêm atenta, a qual, como é escorregadia e versátil, facilmente se afrouxa e a variadas direções se distrai, a menos que seja de variados adminículos sustentada. Ademais, como em cada parte de nosso corpo, uma a uma, deva luzir, de certo modo, a glória de Deus, convém especialmente seja a língua, que foi criada peculiarmente para decla- rar e proclamar o louvor de Deus, adjudicada e devotada a este ministério, quer cantando, quer falando....”. [J. Calvino, As Institutas, III.20.31]. 90 1Co 14.16,17. 91 1Co 14.15 [tradução direta]. 92 A língua e a linguagem devem ser conhecidas da congregação. A Segunda Confissão Helvética declara de forma incisiva: “Calem-se, pois, todas as línguas estranhas nas reuniões de culto, e sejam todas as coisas expressas na língua do povo, compreendida por todas as pessoas”. [Segunda Confissão Helvética, XXII. In: O Livro de Confissões, São Paulo, Missão Presbiteriana do Brasil Central, 1969, § 5.217] Do mesmo modo, a Confissão de Westminster, especificando a oração pública, orienta: “A oração com ações de graças, sendo uma parte especial do culto religioso, é por Deus exigida de todos os homens; e, para que seja aceita, deve ser feita em o nome do Filho, pelo auxílio do seu Espírito, segundo a sua vontade, e isto com inteligên- cia, reverência, humildade, fervor, fé, amor e perseverança. Se for vocal, deve ser proferida em uma língua conhecida dos circunstantes.” [Confissão de Westminster, 21.3]. O Diretório de Culto de Westminster (1645), falando sobre a leitura dos livros da Bíblia no culto, prescreve: “serão lidos publicamente na língua do povo, na melhor tradução permitida, distintamente, para que todos possam ouvir e entender”.[O Diretório de Culto de Westminster, São Paulo, Editora os Puritanos, 2000, p. 29]. 93 1Sm 1.9-17. 94 Mt 6.5-15; Lc 11.1-4. 95 In Alcibi. 2, vel De voto. 96 A oração eficaz é aquela que tem o Espírito como seu autor. Sem o auxílio do Espírito jamais oraríamos com discernimento. Calvino, analisando o fato de que pedimos tantas coisas erradas a Deus e, que se Ele nos concedesse o que solicitamos, traria muitos males sobre nós, diz: “Não podemos nem sequer abrir a boca diante de Deus sem grande perigo para nós, a não ser que o Espírito Santo nos guie à forma devida de orar.” [J. Calvino, Institución, III.20.34. Comentando o Texto de Romanos 8.26, Calvino diz: “O Espírito, portanto, é Quem deve prescrever a forma de nossas orações.” [J. Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo, Paracletos, 1997, (Rm 8.26), p. 291]. Ver também, J. Calvino, O Catecismo de Genebra, Perg. 254]. 97 Mt 6.13. Tradução direta. A NVI traz na margem: “Grego: E não nos induzas à”, e: “Ou do Maligno” (N. do T.). 98 “Nós estamos conscientes de nossas próprias debilidades, e desejamos desfrutar a proteção de Deus, Aquele que pode manter-nos invencíveis diante de todos os assaltos de Satanás.” [John Calvin, Harmony of the Evangelists, p. 327-328. Vejam-se também:. Catecismo de Genebra, Pergunta 293; Catecismo Maior de Westminster, pergunta 195].
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    129 99 Agostinho, in euchin.ad Laurent., c. 116; Chrysostomus: Autor operis imq. (sic). 100 O Catecismo de Heidelberg (1563), à questão 122 – “Qual é a primeira petição?” –, responde: “‘Santificado seja o teu nome.’ Isto é: Ajuda-nos primeiro que tudo, a conhecer-te, glorificar-te e louvar-te e todas as tuas obras, pelas quais brilham o teu poder onipotente, a tua sabedoria, bondade, justiça, misericór- dia e verdade. E de tal modo disciplina toda a nossa vida, no que diz respeito a pensamento, palavras e obras, que teu nome nunca seja blasfemado por nossa causa, mas seja sempre honrado e louvado.” 101 Êx 32.30-33; Rm 9.1-5. 102 “Não oraremos de uma maneira correta a menos que a preocupação por nossa própria salvação e zelo pela glória de Deus sejam inseparavelmente entrelaçados em nosso exercício.” [João Calvino, O Livro dos Sal- mos, Vol. 3, (Sl 79.10), p. 259]. 103 Jo 1.12 [tradução direta].
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    CAPÍTULO X Definição euso Agora devemos falar sobre os sacramentos. Temos grande necessidade de rece- ber doutrina correta, pela qual possamos ficar sabendo com que finalidade eles foram instituídos e de que maneira os devemos usar. Precisamos primeiro entender o que é sacramento. É um sinal exterior pelo qual o Senhor representa para nós e nos testifica a Sua boa vontade para conosco, para sustentar, confirmar e fortalecer a nossa fraca fé. Também se pode definir diferentemente o sacramento, e descrevê-lo como um testemunho da graça de Deusb , testemunho declarado mediante um sinal exterior. Com isso vemos que jamais o sacramento é apresentado sem a Palavra de Deus, que o precedec . Ele é a. Cf. Sommaire (Sumário) de Farel, cap. XVIII: sobre os sacramentos; e sua obra intitulada Manière et fasson qu’on tient em baillant le saint Baptesme, etc.(Método e modo de tratar do santo Batismo); Institutio de 1536, capítulo IV (aqui notavelmente ampliado); Instruction (Instrução) de 1537: dois artigos (Sobre os sacramentos e Que é sacramento?), na ordem inversa da seguida aqui. Em 1522 tinha surgido em Londres um livro cujo autor não era outro senão o próprio rei Henrique VIII: Défense des sept sacrements contre Martin Luther (Defesa dos sete sacramentos contra Martinho Lutero), que logo recebeu aqui a respectiva réplica. b. Essa dupla definição, repetida quase palavra por palavra na Instrução de 1537, é uma paráfrase da definição feita por Agostinho: “um sinal visível da graça invisível”. O próprio Calvino declarou a qual autor ele tinha recorrido para a sua doutrina sobre os sacramentos: “Declaramos que não sentimos nem falamos diversa- mente daquilo que foi expresso palavra por palavra por Agostinho, a saber, que, se os sacramentos não tivessem nenhuma semelhança com as coisas que eles significam, não seriam sacramentos”. Na margem ele cita expressamente a epístola 26 a Bonifácio, e continua: “Nós sempre colocamos em conjunção a verdade e a figura, de modo que esse mistério não é frustrante”. (Confession de foi au nom des Eglises reformées de France pour présenter à l’empereur (1562), impresso em 1564, Opera, IX, 772. – Confissão de fé em nome das igrejas reformadas da França para ser apresentada ao imperador). c. præeunte promissione.
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    132 As Institutas– Edição Especial acrescentado à Palavra como um apêndicea ordenado para simbolizá-la, confirmá- la e certificá-la mais fortemente em nosso interesse, pois o Senhor vê que te- mos necessidade disto pela ignorância com que julgamos as coisas e pela fra- queza da nossa carne. Não significa que a Palavra não seja suficientemente forte e firme em si mesma, ou que ela própria careça de melhor confirmação e fortalecimento (porque outra coisa ela não é senão a verdade de Deus, em si e por si tão certa e segura que não pode receber de outra parte melhor confirma- ção e fortalecimento; só o pode receber de si mesma); o objetivo é que com ela e por ela sejamos fortalecidos.1 A razão disso é que a nossa fé é tão pequena e débil que, se não tiver suporte por todos os lados e não for mantida por todos os meios, de repente se verá total- mente abalada, sacudida e vacilante. E como somos tão ignorantes e tão dados e apegados às coisas terrenas e carnaisb que não pensamos nem podemos entender nem conceber nada que seja espiritual, o Senhor misericordioso se acomoda com isso à rudeza dos nossos sentidos de modo que, pelos elementos carnais dos sa- cramentos, Ele nos conduz a Si e nos faz contemplar, mesmo na carne, o que pertence ao espírito. Não por que as coisas que nos são oferecidas como sacra- mentos tenham em sua natureza alguma qualidade e algum poder, mas porque são assinadas e assinaladasc por Deus para terem esta significação. Cavilações totalmente rejeitáveis Não devemos dar ouvidos a algunsd que, em suas cavilações, argumentam falsa- mente dizendo: “Ou sabemos que a Palavra de Deus, que precede ao sacramento, é a verdadeira vontade de Deus, ou não sabemos. Se o sabemos, nada aprende- mos de novo pelo sacramento subseqüente. Se não o sabemos, o sacramento não no-lo poderá ensinar, visto que toda a sua virtude e eficácia jaz na Palavra”. Só lhes seja respondido, resumidamente, que os selos que se colocam nas cartas e nos instrumentos públicos, em si nada são, porque, se no pergaminho ou no papel não houver nada escrito, eles não servirão para coisa alguma, e em vão serão postos nele. E, todavia, nem por isso eles deixam de confirmar, atestar e tornar a. appendicem. b. humi semper adrepentes et in carne hærentes. c. Palavra acrescentada em 1541. d. Os anabatistas, com os quais Calvino se preocupava desde 1535, antes de os conhecer melhor em Estrasburgo, em 1538. Ele próprio caracterizou a sua atitude para com os outros reformadores no que se refere aos sacramen- tos: “Estando a sair pouco a pouco das trevas do papado e tendo tomado algum gosto pela sã doutrina, quando li em Lutero que Ecolampádio e Zwínglio não deixavam nos sacramentos nada senão figuras e representações sem a verdade, confesso que isso me afastou dos seus livros, de modo que de há muito me abstenho de os ler. Ora, antes de eu começar a escrever, eles já tinham discutido entre si (1529) em Marburgo”, etc. (Contre les calomnies de I. Westphal (1556), Opuscules, edição de Genebra, 1566, p. 1503). 1 “Um sinal externo mediante o qual o Senhor nos sela à consciência as promessas de Sua benevolência para conosco, a fim de suster-nos a fraqueza da fé, e nós, de nossa parte, atestamos nossa piedade para com Ele, tanto diante dEle e dos anjos, quanto junto aos homens.” [J. Calvino, As Institutas, IV.14.1)
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    133 mais autênticaa a escrituracontida nas cartas ou nos documentos, quando a estes os selos são acrescentados. E não poderão dizer que esta figura foi forjadab por nós, feita a nosso bel-prazer, pois o apóstolo Paulo fez uso dela quando se referiu ao sacramento da circuncisão com uma palavra grega2 , a saber, sfraguîdac (quer dizer, selo). [1539] Na passagem acima citada o apóstolo demonstra que a circuncisão não foi imputada a Abraão para justiça. É antes um selo da aliança, na confiança e garantia da qual ele já tinha sido justificado. E por que, rogo que me digam – por que isso deverá fazer-nos merecedores de injúria, se ensinamos que a pro- messa é selada pelos sacramentos, visto que é claro e manifesto que, entre as promessas, uma é confirmada por outra? Porque a que é mais manifesta é mais própria para assegurar a fé. Ora, os sacramentos nos trazem promessas claríssimas, e com esta particularidade superior à Palavra, que eles representam vividamente as promessas, como que numa pintura. E não devemos deixar-nos abalar pela diferença que se falad que existe entre os sacramentos e os selos das cartas paten- tes. A saber, que, uma vez que uns e outros consistem de elementos carnais deste mundo, os sacramentos não podem servir para selar as promessas de Deus, que são espirituais, como acontece com os selos utilizados para selar escritos de prín- cipes, que tratam de coisas transitórias e obsoletas. Não se leve isso em conta porque o homem crente, ao ver o sacramento, não se prende à exterioridade, mas sim, com santa consideração, eleva-se para contemplar os altos mistérios ali ocultos conforme a harmonia existente entre a figura carnal e a realidade espiritual. Sinais e selos da aliança, colunas da fé, espelhos da graça [1536] Sendo, pois, que o Senhor dá às promessas o nome de acordos ou aliançase , e aos sacramentos os de sinais e instruções das alianças, pode-se aproveitar algo da semelhança dos acordos e alianças dos homens3 . Para confirmação dos seus acordos, os antigos costumavam matar uma porca. [1536] Que adiantaria uma porca morta, se não houvesse palavras de acordo, ou melhor, se estas não tives- sem sido lavradas antes? Porque muitas vezes se matam porcas sem haver nisso mistério nenhum. Semelhantemente, que dizer do aperto de mãos, visto que mui- tos apertam as mãos dos seus inimigos com a intenção de lhes fazer mal? E, todavia, quando tiverem sido proferidas as palavras de amizade e de aliança, tais a. Estes termos jurídicos traduzem obsignant. b. confictam. c. Em caracteres gregos em 1536 e 1539, onde faltam grego e o parêntese. Sem dúvida, o parágrafo subseqüente responde, em 1539, às objeções feitas no anterior pelos leitores de 1536. d. Ver a nota c da página 200. e. 1536 e 1539 têm somente fœdera. 2 Rm 4.11. 3 Gn 6.18; 9.9,17; 17.20,21.
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    134 As Institutas– Edição Especial sinais servem para confirmá-las, mesmo quando já tenham sido propostas, reali- zadas e estabelecidas. Portanto, os sacramentos são exercícios praticados com a finalidade de nos tornar mais certos e seguros da Palavra de Deus e de Suas promessasa . E como somos carnais, os sacramentos também nos são dados em coisas carnais, a fim de que eles nos instruam conforme a capacidade da nossa rude condição e nos dirijam e nos conduzamb como os mestres fazem com as crianças que estão aos seus cuidados. Por isso Agostinho4 chama ao sacramento palavra visível, porque nos mostra, como numa pintura, as promessas de Deus, e as representa vividamente para nósc .5 *** Podemos usar ainda outras figuras para designar os sacramentos e, por elas, tor- nar a sua significação mais completa e mais clara. Por exemplo, podemos chamá- los colunasd da nossa fé. Porquanto, assim como um edifício se fixa e se sustém sobre o seu fundamento, e, contudo, quando se acrescentam a ele colunas que lhe dêem suporte, ele se torna mais seguro e mais firme, assim também a fé descansa e se sustém sobre a Palavra de Deus como sobre seu fundamento; mas, quando lhe são acrescentados os sacramentos, estes lhe servem como colunas, sobre as quais se apóia com mais firmeza e mais se fortalece. Também podemos chamá-los espelhos, nos quais podemos contemplar as riquezas da graça de Deus, por Ele distribuídas. Sim, pois, como já foi dito, Ele se manifesta a nós na medida em que a nossa entorpecida mente O pode conhecer, e por eles testifica a Sua boa vontade para conosco. Réplica à crítica ao valor e eficácia dos sacramentos Não argumentam bem os que alegam que os sacramentos não são testemunhos da graça de Deus, visto que muitas vezes são recebidos pelos maus e estes, todavia, não sentem nada que lhes mostre que Deus lhes é propício; ao contrário, recebem mais grave condenação. Demonstra-se o erro dessa crítica com o fato de que, a julgar assim, o Evangelho também não seria testemunho da graça de Deus, por- quanto muitos são os que o ouvem e que o desprezam. E, afinal, nem o próprio Senhor Jesus Cristo o seria, sendo fato notório que Ele foi visto e conhecido por muitos, dos quais bem poucos O receberam. Coisa semelhante se pode ver nas a. Instrução de 1537: Os sacramentos foram instituídos para serem exercícios da nossa fé. b. manu ducant. c. sub aspectu graphice atque eikótos expressas. d. columnas. 4 In Ioh. tractat. 80,3 (Migne, 35, 1840), cf. Contra Faustum, lib. XIX, c. XVI (Migne, 42, 356). 5 Tornou-se clássica a definição de Agostinho (354-430) de sacramento como sendo a “palavra visível” [Agostinho, On The Gospel of St. John: In: NPNF1., Vol. 7, Tractate LXXX.3, p. 344b] e um sinal visível de uma graça invisível. [Agostinho, As Catequesis, XXVI.50; Cartas, 105.III,12. Apud J. Calvino, As Institutas, IV.14.1].
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    135 cartas patentesa dos príncipes,ou seja, em seus documentos oficiais. Porque grande parte do povo, embora reconheça que o selo neles posto é autênticob e provém do príncipe, não deixa porém de menosprezá-loc . Uns o deixam de lado como se não lhes dissesse respeito; outros o repudiam pura e simplesmente. De tal modo se parecem essas coisas que só podemos aprovard a comparação acima feita. Pois é certo que, tanto em Sua Palavra como em Seus sacramentos, o Senhor nos ofere- ce misericórdia e a graça da Sua boa vontade. Mas esta não é comunicada senão àqueles que recebem a Palavra e os sacramentos com plena certeza de fé.Aconte- ce, então, que o nosso senhor Jesus Cristo foi oferecido e apresentado a todos para salvação, mas nem todos O reconheceram e O receberam. Em certo lugar6 Agostinho, querendo assinalar esta idéia, disse que a eficácia da Palavra, presen- te no sacramento, não está em ser ela proferida, mas em ser crida e aceita. Corolário Concluímos, pois, que os sacramentos são legitimamente chamados testemunhos da graça de Deus e selos do favor que Deus por eles nos faz. Assim, sinalizando e consignando em nós a graça de Deus, eles consolam e animam a nossa fé, e a alimentam, fortalecem e aumentam. E as razões contrárias que algunse têm pre- tendido alegar são inúteis e fracas. Uns dizem que, se a nossa fé é boa, não pode ser melhorada, porque só é fé a que se apóia e se fixa tão firmemente na miseri- córdia de Deus que não pode ser nem abalada nem desviadaf . Muito melhor seria que eles orassem com os apóstolos, quando pediram ao Senhor que lhes aumentasse a fé7 , em vez de se vangloriarem de uma pretensa perfeição de fé, perfeição que nenhum homem jamais teve e jamais terá nesta vida. Oxalá sua resposta fosse que a fé que eles julgam ter é do tipo daquele homem que disse: “Eu creio, Senhor! Socorre a minha incredulidade8 !” Pois essa fé incipiente, mesmo tendo algo de bom, pode ser melhorada pela diminuição da incredulidade. O argumento da própria consciência Mas não há melhor argumento para refutá-los que a sua própria consciência. Porque, se confessam que são pecadores (o que, querendo ou não, não podem negar), necessariamente têm que imputar esse fato à imperfeição da sua fé. Mas eles retrucam: “Filipe respondeu ao eunuco que, se cresse de todo o coração, a. diplomatibus. b. authentikón. c. irridet atque eludit. d. magis ac magis arridere. e. Os mesmos adversários, anabatistas, etc. f. Cf. Zwínglio, De vera et falsa religione commentarius (Opera, III, 761). 6 Sobre João. Tractat. 80, 3 (Migne, 35, 840). 7 Lc 17.5. 8 Mc 9.24 [tradução direta].
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    136 As Institutas– Edição Especial seria lícito receber ele o batismo”.9 Que lugar tem aqui a confirmação do batis- mo, se a fé ocupa e enche todo o coração? Em resposta, por minha vez, pergunto: Não sentem eles que uma grande parte do seu coração está desnudo e vazio de fé? Não se apercebem de que cada dia há neles algum acréscimo à fé? Um pagão orgulhava-se de que envelhecia aprendendo. Nós, cristãos, seríamos então muito mais miseráveis se envelhecêssemos sem nenhum proveito para o crescimento da nossa fé. Pois esta deve ir se desenvolvendo por etapas, progredindo sempre até chegarmos à condição de homem perfeito10 . Portanto, na passagem acima citada de Atos, crer de todo o coração não é estar perfeitamente ligado a Cristo, mas é apenas abraçá-lo com bom ânimo e com zelo não fingido. Não significa assimilara plenamente a Cristo, mas sim, com ardoroso afeto, ter fome e sede dele, e suspi- rar por Ele. Esse é o modo geral de falar da Escritura, significando, quando afir- ma que algo é feito de todo o coração, que é feito com sinceridade e com bom ânimo. Temos exemplos disto nas seguintes passagens: “De todo o coração te busquei”; e também: “De todo o coração renderei graças ao Senhor11 ”, e outras passagens semelhantes. Já, ao contrário, a Escritura costuma censurar os hipócri- tas e os mentirosos por terem coração e coração12 , quer dizer, coração dobre. Aqueles críticosb acrescentam ainda que, se a fé fosse aumentada pelos sa- cramentos, o Espírito Santo teria sido dado em vão, pois a obra que ele realiza e o Seu poder consistem em iniciar, fortalecer e aperfeiçoar a fé. Respondo-lhes que reconheço e declaro que a fé é propriamente, toda ela, obra do Espírito Santo, por cuja iluminação conhecemos a Deus e os imensos tesouros da Sua bondade; e mais, sem a Sua luz o nosso entendimento seria tão cego que nós não podería- mos ver coisa alguma, e tão desprovido de sensibilidade que não poderíamos perceber e acolher bemc as realidades espirituais. Tríplice benefício da ação divina em nós Mas, para um benefício da graça de Deus que eles consideram, nós reconhece- mos estes três: Primeiro, o Senhor nos ensina e nos instrui por Sua Palavra; se- gundo, Ele nos confirma e nos fortalece pelos sacramentos; terceiro, pela luz do Seu Espírito Ele esclarece o nosso entendimento e dá entrada em nosso coração à Palavra e aos sacramentos, os quais, sem essa obra divina em nós, só bateriam em a. saturum. b. 1536: alii. Esse parágrafo parece dirigido contra as opiniões de Schwenkfeld, segundo P. Barth. c. subodorari. 9 At 8.37. 10 Ef 4.13. 11 Sl 119.10; 111.1; 138.1. 12 Hebraísmo.Ver, por exemplo, Sl 12.3, onde Figueiredo traduz a referida expressão por “coração dobrado”(nessa versão, Sl 11.3). No hebraico: belebh valebh – “com coração e coração”. Gesenius cita 1 Cr 12.38, exemplo em termos negativos: “não duplo coração”, e sugere a tradução “com um coração sincero”. Tradução adota- da também por Figueiredo (N. do T.).
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    137 nossos ouvidos ese apresentariam aos nossos olhos, mas não penetrariam o nos- so íntimo e não comoveriam o nosso coração. A raiz da questão [1539] Portanto, desejo que os leitores estejam avisados de que eu atribuo aos sacramentos o ofício de confirmar e aumentar a fé, não porque eu considere que eles tenham em si a virtude necessária e perpétua para fazerem isso, mas porque foram instituídos por Deus para essa finalidade. De resto, eles produzem eficaz- mente o esperado efeito quando o Mestre interno, instruidor do espírito, lhes acrescenta a Sua virtude, único poder capaz de penetrar o coração, sensibilizar nossos afetos e possibilitar a entrada dos sacramentos em nosso ser interior. Se esta ação do Espírito de Deus faltar, os sacramentos não poderão oferecer ao nosso espírito mais que aquilo que a luz do Sol pode oferecer aos cegos, nem mais que o que uma voz altissonante pode dar a ouvidos surdos. Por isso eu traço esta diferença entre o Espírito e os sacramentos: que o poder de ação reside no Espírito, só restando aos sacramentos a função de instrumentos dos quais o Se- nhor se serve a nosso favor, sendo que serão inúteis e vãos sem a operação do Espírito. Grande é, porém, a sua eficácia, quando o Espírito age internamente. Agora fica evidente como, segundo a minha opinião, a fé é confirmada e fortalecida pelos sacramentos, o que ocorre à semelhança dos olhos, que vêem quando se irradia a luz do Sol, e dos ouvidos, que ouvem quando se emite o som da voz. Certamente a luz não teria nenhum valor para os olhos, se estes não tivessem a faculdade de ver, pela qual a podem receber; como também da nada valeria para os ouvidos um alto clamor, se não lhes fosse dado por natureza o dom de ouvir. Ora, se reconhecemos como verdade (como para nós deve ser indubitável) que a operação do Espírito Santo para originar, manter, proteger e fortalecer a fé é comparável à visão e à audição, que dependem da faculdade de ver e de ouvir, é clara decorrência que os sacramentos de nada adiantam sem a virtude e o poder do Espírito. O que não impede que no coração já por Ele ensinado a fé seja corroborada e aumentada pelos sacramentos. Objeções respondidas Desta forma se resolvem as objeções feitas por alguns no sentido de que, se atri- buirmos o aumento e a confirmação da fé às criaturas, com isso ofenderemos o Espírito de Deus, unicamente a quem devemos reconhecer como seu autor. Mas o fato é que não O privamos do louvor que só a Ele pertence, visto que, mesmo o que é dito sobre confirmar e aumentar a fé, não é outra coisa senão preparar por Sua iluminação o nosso espírito para receber a iluminação que nos é oferecida nos sacramentos. E se a nossa palavra sobre isso ainda está muito obscura, será esclarecida por esta comparação: Se você quiser persuadir alguém a fazer algo, pensará em todas as razões e motivos possíveis para levá-lo a aceitar a idéia, e
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    138 As Institutas– Edição Especial fará pouco menos que induzi-lo a sentir-se obrigado a atendê-lo. Mas, nada disso terá efeito, se a pessoa em causa não tiver discernimento agudo e penetrante que a habilite a captar a força dos seus argumentos; e mais, se ela não tiver índole dócil e não for dada a obedecer a instruções; e, finalmente, se não tiver tão boa opinião sobre a sua sabedoria e a sua lealdade, e de que você merece tal confian- ça, que ela se sinta disposta a acatar o que você lhe diz. Porque não são poucos os que têm cabeça dura, que nenhuma razão é capaz de dobrar. Acresce que quando o caráter é duvidosoa e a autoridade é contestável, nada se aproveita, nem com aqueles que é fácil conduzir e liderar. Ao contrário, existindo as coisas e qualida- des inexistentes no caso acima descrito, elas farão com que o conselho dado seja seguido com boa vontade, o qual de outro modo seria menosprezado. Ação do Espírito Santo mediante a Palavra e os sacramentos De semelhante maneira age em nós o Espírito. Para que a Palavra não fira em vão os nossos ouvidos e os sacramentos não sejam apresentados inutilmente aos nos- sos olhos, Ele nos revela que é Deus que fala por ela e por eles e amolece a dureza do nosso coração, preparando-nos assim para a obediência devida à Sua Palavra. Finalmente, Ele transfere tantob a Palavra como os sacramentos dos ouvidos para a alma. Não há, pois, dúvida de que os sacramentos confirmam e fortalecem a nossa fé, pondo diante dos nossos olhos a boa vontade do nosso Pai celestial para conosco, sendo que é no conhecimento da Sua boa vontade que subsiste a firme- za da nossa fé e se apóia toda a sua força. O Espírito igualmente confirma e fortalece a fé, na medida em que imprime em nosso coração essa confirmação tornando-a eficaz. Que essa propriedade é da Palavra externa o Senhor Jesus demonstra quan- do lhe chama semente. Porque, como acontece com a semente, se ela cair em terreno deserto e não lavrado, nada produzirá e se perderá. Ao contrário, se for lançada em solo bem trabalhado, dará fruto em abundância. Assim também, se a Palavra de Deus cair numa cerviz obstinada e rebelde, ficará estéril13 , como uma semente lançada no cascalho de uma praia pedregosa. Mas, se cair numa alma bem preparada pela operação do Espírito Santo, será fecunda e produzirá muitos frutos. Ora, se é válida a comparação da semente com a Palavra, se dizemos que o trigo nasce, cresce e se aperfeiçoa em seu amadurecimento, e em tudo isso ele provém da semente, por que não dizer também que a fé recebe o seu início, o seu crescimento e a sua perfeição da Palavra? a. ubi suspecta fides. b. externa illa ab auribus in animam transmittit. 13 Lc 8.4-15.
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    139 A eficácia vemdo Espírito, e de nada mais! [1536] Os sacramentos são meios de graça pelos quais a fé é confirmada e fortalecida, mas isso ocorre de tal maneira que às vezes, quando Deus quer elimi- nar a confiança nas coisas prometidas nos sacramentos, Ele elimina até mesmo os próprios sacramentos. Quando privou e despojou Adão do dom da imortalidade, Deus disse: “Que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente14 ”. Que é que entendemos disso? Aquele fruto poderia restau- rar e devolver aAdão a incorrupção que tinha perdido em sua queda? Nada disso! Mas é como se Ele dissesse: Você fica privado do sinal da minha promessa, que poderia dar-lhe alguma esperança de imortalidade, para que não volte a ter vã esperança. Pela mesma razão também o apóstolo Paulo, quando exortou os efésios lembrando-lhes que antes da sua conversão estavam “sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo”, disse-lhes que naquele tempo eles não eram participantes da circuncisão15 . Com isso ele quis dizer que eles estavam fora da promessa por- que não tinham recebido o sinal e penhora da mesma. Os nossos oponentes fazem outra objeção. Dizem eles que a glória é transferida para as criaturas, atribuindo-se a elas a mesma proporção de virtude e eficácia que se subtrai de Deus. É fácil responder a isso. Basta dizer que não colocamos nenhuma virtude nas criaturas, mas somente dizemos que Deus faz uso de meios e instrumentos que ele sabe que são convenientes no sentido de que todas as coisas sejam levadas a submeter-se à Sua glória, visto que Ele é o Senhor e o Árbitrob de todas as coisas.Assim como Ele nos sustenta por meio do pão e de outros alimentos, por meio do Sol ilumina o mundo, e pelo fogo o aquece, e, não obstante, nem o pão nem o sol nem o fogo são coisa alguma, servindo tão-somen- te como meios pelos quais Deus nos dispensa as Sua bênçãos, assim também Ele alimenta e sustenta espiritualmente a nossa fé por meio dos sacramentos. E estes não têm outra função senão a de representar as promessas de Deus perante os nossos olhos. E assim como não devemos pôr nenhuma confiança nas outras criaturas, as quais pela generosidade de Deus são destinadas ao nosso uso e pelo serviço que nos prestam Ele nos distribui abundantes dádivas do Seu amor, assim também não devemos pôr a nossa confiança nos sacramentos, nem transferir para eles a glória de Deus, como se eles fossem a causa e a fonte das bênçãos que por meio deles recebemos. Antes, deixando de lado todas as coisas e delas nos des- prendendo, elevemos e dirijamos o nosso testemunho de fé Àquele que é o Autor dos sacramentos e de todos os demais bens. a. tesseram. O penhor (méreau, um tipo de senha) era o sinal de reconhecimento (nós diríamos: o cartão de identidade) dos membros das corporações, etc. Cada igreja reformada tinha o seu méreau, que os presbíteros remetiam aos membros que desejassem participar da comunhão. b. arbiter. 14 Gn 3.22. 15 Ef 2.11,12.
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    140 As Institutas– Edição Especial Objeção pretensamente baseada no nome “sacramento” Finalmente, eles procuram apoio para o seu erro baseados no nome “sacramen- to”. Quanto a isso, cuidado! Dizem elesa que a palavra sacramento, embora se- gundo autores reconhecidos tenha muitos significados, todavia um só é compatí- vel com os referidos sinais. O único sentido válido, dizem eles, é o de juramentob solene, que é feito pelo soldado diante do seu comandante quando se engaja em suas tropas e nelas é admitido. Porque, assim como por esse juramento os novos soldados se obrigam a ser leais a seu príncipe ou comandante e se comprometem com ele, e se declaram pertencentes às suas fileiras, assim também nós, por meio dos nossos sinais e símbolos, confessamos a Jesus Cristo como o nosso Comandantec , e testificamos que combatemos sob a Sua insígnia e bandeira. Os tais opositores acrescentam algumas figuras e comparações para refor- çar e aclarar o que dizem. Como na guerra [1541] os franceses e os ingleses se distinguem uns dos outros e se reconhecem, os primeiros usando a cruz branca e os ingleses a vermelha; [1536] como também os romanos se distinguiam dos gregos pelo uso de diferentes trajesd16 ; e como as diversas ordense ou classes de Roma se diferenciavamf , distinguindo-se umas das outras, por exemplo, os sena- dores dos cavaleiros17 , vestindo-se de púrpura e calçando sapatos ou sandálias de ponta arredondada, e, por sua vez, os cavaleiros se distinguiam dos plebeus pelo uso de um anel, de igual maneira nós temos os nossos símbolos pelos quais nos diferenciamos e nos distinguimos dos que não pertencem à nossa religiãog . “Sacramento”, como “fé”, são nomes com sentido modificado Mas eu garanto que os antigos que deram o nome de sacramento aos nossos símbolos não levaram em consideração o sentido em que os escritores latinos entenderam essa palavra, mas simplesmente lhe atribuíram um novo significado para designativo dos referidos sinais sagrados. E, se quisermos penetrar no as- sunto com maior perspicácia, é só lembrar que elesh mudaram o sentido de “sa- cramento” pela mesma razão ou semelhança pela qual mudaram o sentido da palavra “fé”, atribuindo-lhe o significado com o qual agora ela é empregada. Porque, sendo fato que “fé” significa propriamente a verdade que se deve manter a. Os anabatistas. P. Barth cita Zwínglio, De vera et falsa religione (Opera, III, 758). b. miles imperatori cum militiæ initiatur. (É o “juramento”, serment.) c. imperatorem. d. toga Romani a palliatis Græcis discernebantur. e. ordines. f. symbolis. g. a prophanis. h. Os anabatistas. 16 Os gregos usavam o pálio (manto ou capa), e os romanos usavam a toga, geralmente toga longa ou veste talar, isto é, que ia até o calcanhar (N. do T.). 17 Faziam parte da nobreza (N. do T.).
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    141 no cumprimento doque se promete, contudo eles a tomam no sentido de certeza ou de persuasão certa e segura que se tem dessa verdade. Dessa maneira, apesar de o sacramento ser o juramento pelo qual o soldado se compromete com o seu comandante e se obriga a obedecer-lhe, eles o tomaram como significando o sinal utilizado pelo comandante no ato pelo qual admite soldados em suas fileirasa e sob o seu soldo. Porque o Senhor, por Seus sacramentos, nos promete que será o nosso Deus e que nós seremos o Seu povo. Mas deixemos de lado essas sutilezas. A verdade é que se pode demonstrar e comprovar com muitos argumentos fortes e claros que os antigos não tiveram outra intenção, ao dar aos nossos símbolos o nome de sacramentos, senão a de que fossem utilizados como sinais de realidades santas e espirituais, [1539] de- vendo nós levar em conta que esse vocábulo várias vezes é tomado no sentido de mistério na tradução latina da Escritura. Concordamos com o que dizem sobre as figuras e comparações acima apresentadas, mas não toleramos que aquilo que está em último lugar nos sacramentos seja posto em primeiro lugar; muito menos que não reconheçam neles outra coisa senão esses usos não espirituais. O ponto principal a considerar nos sacramentos é que eles sãob destinados a servir à nossa fé em Deus. A segunda, é que se prestam para dar testemunho da nossa profissão de fé perante os homens. Com relação a esta segunda razão, são boas e aplicáveis as semelhanças acima referidas. Erros do outro extremo Por outro lado, se temos necessidade de estar advertidos contra os que pretendem destruir a eficácia dos sacramentos e abolir o seu uso, também há, do lado opostoc , aqueles que atribuem aos sacramentos sabe-se lá que virtudes secretas, sobre as quais em parte alguma da Escritura se lê que Deus lhes tenha dado. Por esse erro as pessoas simples e ignorantes são vítimas de fraude e engano, pois são levadas a buscar os dons e as bênçãos de Deus onde nunca os poderão encontrar, e assim acabam se afastando de Deus para seguir nada mais que a mentira pura e vãd . Porque as escolas dos sofistas, em comum acordo, ensinam que os sacramentos da nova lei, isto é, os que a igreja cristã usa, justificam e conferem graça, bastan- do que não lhes coloquem o óbice ou o impedimento de algum pecado mortal18 . Não se pode nem demonstrar quão perniciosa é essa opinião, tanto mais quando se vê que durante muitos e longos anos ela foi aceitae , e ainda o é, em a. in ordines DOMINVS recipiat. b. 1541 tem, por erro, font (1539: apud Deum serviant). [Corrigido no texto de que estamos fazendo uso.] c. Os católicos romanos. d. Aqui traduz melhor 1536: ut post vanitatem abeant que 1539: ut pro ejus veritate meram amplexentur vanitatem. e. Bula de Eugênio IV, Exultate Deo, c. 9 (Bullar. roman., V, 44). Cf. Gabriel Biel, In sentent. IV, dist. I, Quæst. 1 e 3. A Apologia da Confissão de Augsburgo (c. VII, 18) também combate vivamente essa opinião. 18 Duns Scot, In sentent. IV, dist. I quæst. 6: Sacramentum ex virtute operis operati confert gratiam, ita quod non requiritur ibi bonus motus interior qui mereatur gratiam, sed sufficit quod suscipiens non ponat obicem.
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    142 As Institutas– Edição Especial grande parte do mundo, em grave detrimento da igreja. Não há dúvida de que é totalmente diabólica, porque, uma vez que promete justiça ou justificação sem a fé, põe a consciência em confusão e a lança à condenação. [1539] Além disso, ao fazer do sacramento a causa da justiça, envolve e amarra o entendimento humano com esta superstição, favorecendo a tendência humana de preferir algo corporal a Deus e de apegar-se à terra mais que o necessário. Bom seria que não tivéssemos muita experiência desses dois erros. Bem pouca necessidade de pro- vas temos disso! Que é o sacramento sem a fé, senão a desgraça da igreja? Porque, como não se deve esperar dele nada, a não ser em virtude da promessa, e como a promessa tanto oferece a graça de Deus aos crentes como proclama a ira de Deus contra os incrédulos, comete grande abuso aquele que pensa receber do sacramento algum benefício, senão aquele que, tendo sido oferecido pela Palavra, é recebido medi- ante a fé. De resto, daí se pode inferir também que a confiança na salvação não depende da participação nos sacramentos, como se neles estivesse a justiça e disso dependesse a nossa justificação. Bem sabemos que a justiça de que neces- sitamos está em Cristo e que nele e por meio dele temos a justificação. Sabemos igualmente que a justiça de Cristo, que nos é comunicada pela pregação do Evan- gelho e testificada pelos sacramentos, pode subsistir perfeitamentea sem estes. É, pois, verdade o que diz Agostinho, que por vezes ocorre que aparece o sinal visível sem a santificação invisível, e, por outro lado, pode ocorrer a santificação sem o sinal visível.19 Ofício ou função dos sacramentos: Como se dá com a Palavra, os sacramentos nos oferecem Cristo – Este recebido pela fé [1536] Portanto, estejamos certos de que os sacramentos não têm outro ofício que não o da Palavra de Deus.20 Este ofício consiste em nos oferecer e nos apre- sentar Jesus Cristo, e nele os tesouros da graça celestial. E eles não servem para nada e não dão proveito nenhum senão para os que os tomam e os recebem pela fé. Além disso, devemos tomar cuidado para não cairmos noutro erro parecido, qual seja: Dar ouvidos ao que os antigos, querendo aumentar a dignidade dos sacramentos, falavam dos sacramentos de maneira tão honrosa, exaltando-os tan- to, que podem levar-nos a pensar que existe alguma virtude ou algum poder liga- do fixamente a eles, de tal modo que eles mesmos distribuem e administram as graças do Espírito Santo, como o vinho que se serve num copo ou numa taçab . a. in solidum. b. in cratere. 19 Libr. III, Quæ. vete. testa. 20 “Um sinal externo mediante o qual o Senhor nos sela à consciência as promessas de Sua benevolência para conosco, a fim de suster-nos a fraqueza da fé, e nós, de nossa parte, atestamos nossa piedade para com Ele, tanto diante dele e dos anjos, quanto junto aos homens.” [J. Calvino, As Institutas, IV.14.1)
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    143 Ora, a verdadeé que todo o seu ofício ou função se resume em testificar e confir- mar a bondade e o favor de Deus para conosco, e nenhum proveito teremos deles, se o Espírito não vier abrir o nosso entendimento e o nosso coração, capacitando- nos para o recebimento e a percepção desse testemunho.21 Comparação com a pregação do Evangelho Nesse processo também se manifestam claramente diversas e distintas graças de Deus. Porque, como acima fizemos notar, eles nos servem, da parte de Deus, como algo semelhante ao que os mensageiros das boas novas nos servem da parte dos homens. Quer dizer, eles não nos conferem bênção por si mesmos, mas so- mente nos anunciam as coisas que nos são dadas pela generosidade divina. Note- se que o Espírito Santo, que não é comunicado a todos indiferentemente pelos sacramentos, mas que é dado peculiarmente por Deus aos Seus, é quem traz Con- sigo as graças de Deus; é Ele que em nós dá lugar aos sacramentos e os faz frutificarem. Ora, se bem que não negamos que o Senhor assiste à Sua instituição com a presente virtude do Seu Espírito para que a administração dos sacramentos por Ele ordenada não seja vã nem infrutífera, todavia ensinamos esta verdade: Deve-se considerar separadamente a graça interna do Espírito, visto que esta é distinta do ministério externo22 . Aplicação da parte ora concluída Quando se ministra esta doutrina dos sacramentos, a sua dignidade é exposta sufi- cientemente, o seu uso é claramente demonstrado e a sua utilidade é devidamente recomendada. Mantém-se, entretanto, uma boa moderação, de modo que não se atribui a eles mais do que se deve, e não lhes é tirado nada do que lhes pertence. Sacramento, nome abrangente [1539] Como já expusemos, o nome sacramento abrange em geral todos os sinais que Deus concedeu aos homens para os certificar e lhes dar segurança da veraci- dade das Suas promessas. Por vezes Ele mostrou os sinais em coisas naturais, outras vezes mediante milagres. 21 Conforme vimos supra: “Atribuo aos sacramentos o ofício de confirmar e aumentar a fé, não porque eu considere que eles tenham em si a virtude necessária e perpétua para fazerem isso, mas porque foram instituídos por Deus para essa finalidade. De resto, eles produzem eficazmente o esperado efeito quando o Mestre interno, instruidor do espírito, lhes acrescenta a Sua virtude, único poder capaz de penetrar o cora- ção, sensibilizar nossos afetos e possibilitar a entrada dos sacramentos em nosso ser interior. Se esta ação do Espírito de Deus faltar, os sacramentos não poderão oferecer ao nosso espírito mais que aquilo que a luz do Sol pode oferecer aos cegos, nem mais que o que uma voz altissonante pode dar a ouvidos surdos. Por isso eu traço esta diferença entre o Espírito e os sacramentos: que o poder de ação reside no Espírito, só restando aos sacramentos a função de instrumentos dos quais o Senhor se serve a nosso favor, sendo que serão inúteis e vãos sem a operação do Espírito. Grande é, porém, a sua eficácia, quando o Espírito age internamente.” [João Calvino, As Institutas, (1541), III.10]. 22 No texto original francês, por erro: “ministério interno” (ministère intérieur) (N. do T.).
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    144 As Institutas– Edição Especial Exemplos do primeiro caso: quando Deus deu aAdão e Eva a árvore da vida como penhor da imortalidade, para se sentirem seguros de que a possuíam toda vez que comessem do fruto dessa árvore23 ; e quando falou a Noé24 do arco que ia colocar no céu como símbolo e sinal para ele e para a sua posteridade, para lembrá- los de que nunca mais destruiria a terra com dilúvio. Adão e Noé tiveram essas coisas por sacramentos. Não que a árvore desse imortalidade ao homem, pois não a teve nem para si mesma; nem que o arco-íris, que não passa de uma reverberaçãoa dos raios do Sol em oposição às nuvens, tivesse o poder de sustar e reter as águas. Mas sim porque na árvore e no arco eles tinham um sinal, gravado neles pela Palavra de Deus, para lhes servirem de símbolo e selo das Suas promessas. É evidente que, antes, a árvore era árvore, e o arco-íris era arco-íris; mas depois que foram marcados pela Palavra de Deus, foi-lhes dada uma nova forma, para que começassem a ser o que dantes não eram. E para que ninguém pense que o que se afirma aqui não tem razão de ser, ainda hoje o arco-íris nos dá testemunho da pro- messa de Deus e de Sua aliança com Noé, e toda vez que o contemplamos reconhe- cemos nele a promessa de Deus de que a terra jamais será destruída por dilúvio. “Quem ri por último ri melhor” Pelo que, se alguém, metido a filósofob , querendo zombar da simplicidade da nossa fé, disser que a variedade de cores que compõem o arco-íris provém natu- ralmente da reverberação ou reflexo dos raios do Sol e da nuvem oposta, teremos que o reconhecer. Mas poderemos muito bem rir da sua tolice, pois ele não reco- nhece que Deus é o Senhor da natureza e que, segundo a Sua vontade, faz uso de todos os elementos para que sirvam à Sua glória. E se Deus tivesse gravado no Sol, nas estrelas, na Terra, nas pedras tais símbolos e sinais, os teríamos todos como sacramentos. Porquanto, por que a prata bruta e a refinada não têm o mes- mo valor, se é fato que em ambos os casos é o mesmo metal? É porque aquela só tem o que é próprio da sua natureza, ao passo que a outra, sendo refinada e cunha- da de acordo com a regulamentação oficial, vem a ser moeda e recebe novo valor financeiro. E Deus não pode assinalar e selar com a Sua Palavra as coisas que Ele criou, para que se tornem sacramentos, sendo que antes não eram nada mais que simples elementos naturais? Exemplos do segundo recurso: sinais mediante milagres Exemplos da segunda maneira pela qual Deus estabeleceu sinais se vêem nos seguintes casos: quando molhou a porção de lãc que Gideão tinha posto na eira, a. repercussio. b. philosophaster. c. vellus (o velocino colocado por Gideão em sua eira). 23 Gn 2 e 3. 24 Gn 9.
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    145 sem molhar aterra, e depois, quando molhou a terra, e a porção de lã permaneceu seca25 , na promessa de vitória a Gideão; e quando fez retroceder dez graus o relógio de sola , atestando a Sua promessa de saúde a Ezequias26 . Visto que estas coisas eram realizadas para confirmar e fortalecer a sua fraca fé, também os ti- nham como sacramentos. Sacramentos no sentido estrito Mas o nosso propósito no presente é tratar especialmente dos sacramentos que o nosso Senhor instituiu e quis que fossem de uso comum em Sua igreja, para edificar e manter os Seus numa só fé e na confissão dessa fé. Os quais nos foram dados não só em sinais, mas também em cerimônias, ou, se assim se preferir, os sinais que aqui são dados são cerimônias. Por isso faz bem Crisóstomo27 em chamá- los pactos ou alianças, pelas quais a escrita28 da nossa dívida é cancelada e, por outro lado, por elas nos tornamos devedores, com a obrigaçãob de vivermos de maneira pura e santa. Porque, assim como nelas o Senhor promete perdoar, e perdoa, toda a dívida que pesa sobre nós pelas faltas e ofensas por nós cometidas, assim também nós, reciprocamente, nos obrigamos a servi-lo com pureza e santi- dade em nosso viver. [1536] Tanto assim que se pode definir tais sacramentos como cerimônias pelas quais o Senhor queria exercitar o Seu povoc , [1539] pri- meiro, para sustentar, fomentar, confirmar e fortalecer a fé interiormente, no co- ração; depois, para o testemunho que se deve dar da religião perante os homens. Palavra geral sobre os sacramentos do Antigo e do Novo Testamentos [1536] Diversos têm sido estes sacramentos, segundo a dispensação vigente nas respectivas épocas, tendo sido do agrado do Senhor revelar-se e manifestar-sed aos homens de diferentes maneiras.29 AAbraão e à sua descendência foi ordenada a Circuncisão30 , à qual, após a dádiva da Lei a Moisés, foram acrescentados os a. O mostrador do relógio solar. b. antapochas. c. Instrução de 1537: A nossa fé é exercida pelos sacramentos para com os homens quando se manifesta em confissão pública e é incitada a render louvores ao Senhor. d. exhibere. 25 Jz 6.36-40. 26 2Rs 20.9-11; Is 38.7,8. 27 Homil. ad neophitos. 28 No original francês: “a cédula da nossa dívida”. Almeida, Edição Revista e Corrigida, diz: “a cédula que era contra nós”; a Atualizada: “o escrito de dívida”; a NVI: “a escrita de dívida” (Cl 2.14) (N. do T.). 29 “Sempre que Deus deu algum sinal aos patriarcas, o uniu indissoluvelmente com a doutrina, sem a qual nossos sentidos ficariam atônitos com visão única do signo. Portanto, quando ouvimos menção da palavra sacramental, entendamos por ela a promessa, que deve ser pregada em voz alta pelo ministro para levar ao povo aonde tem o sinal.” (J. Calvino, As Institutas, IV.14.4). 30 Gn 17.9-11.
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    146 As Institutas– Edição Especial sacrifícios e as abluções.31 Esses foram os sacramentos dos judeus até à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Com a Sua vindaa , aqueles foram abolidos, e outros dois foram instituídos, dos quais a igreja faz uso atualmente, quais sejam, o Ba- tismo e a Ceia do Senhor32 . Os antigos sacramentos dos judeus visavam a um mesmo fim e a um mesmo objetivo que os nossos dois: enviar e conduzir os homens a Jesus Cristo, ou, melhor dizendo, como figuras ou imagens, representá-lo e dá-lo a conhecer. Por- que, como já acima foi demonstrado, os sacramentos são como selos com os quais são seladas as promessas de Deus, e como é certo que nenhuma promessa de Deus foi feita aos homens senão em Jesus Cristo33 , é preciso, necessariamente, que os sacramentos, ensinando-nos as promessas de Deus e nos admoestando com elas, nos mostrem Jesus Cristo. Há somente uma diferença entre os sacramentos antigos e os novos. É que aqueles prefiguravam a Cristo prometido, quando ainda se esperava a Sua vin- da, ao passo que os novos, os nossos, testificam e assinalam que Ele já nos foi dado e manifestado. Significado e objetivos dos sacramentos34 do Antigo Testamento Quando todas estas coisas forem explicadas separadamente, ficarão muito mais claras e mais fáceis de entender. Consideremos primeiro a Circuncisão. Esta era para os judeus um sinal que servia para adverti-los de que tudo quanto provém de semente humana, quer di- zer, toda a natureza do homem, foi corrompido e precisa sofrer amputação ou corteb . Além disso, era um testemunho e um memorial para confirmá-los na pro- messa feita a Abraão de que na semente bendita todas as nações seriam abençoa- das, devendo eles também esperar a mesma bênção de Deus35 . Pois bem, aquela semente bendita, de vida e salvação, é Jesus Cristo, como nos ensina o apóstolo Paulo36 , unicamente em Quemc eles esperavam recuperar o que tinham perdido em Adão. Daí, a Circuncisão era para eles o que o apóstolo Paulo disse que tinha sido para Abraão37 , isto é, um “selo da justiça da fé”, pelo qual eles teriam cada a. 1536 e 1539: quo. 1541 tem, por erro, ausquels. [Corrigido no texto de que estamos fazendo uso para a tradução.] b. putatione haberet opus. c. in quo. 31 Lv 1 a 7. 32 Mt 28.19; 26.26-29. 33 2Co 1.20. 34 Como se viu acima, Calvino emprega a palavra “sacramento” num sentido um tanto amplo, quando se refere ao Antigo Testamento. Atualmente se faz distinção entre os sacramentos propriamente ditos (a Circuncisão e a Páscoa) e as demais ordenanças (outros sacrifícios, abluções e ritos) (N. do T.). 35 Gn 12.3; 22.18. 36 Gl 3.16. 37 Rm 4.11.
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    147 vez maior confirmaçãode que a sua fé, pela qual esperavam aquela semente bendita, lhes era e lhes fosse sempre imputada por Deus para justiça. [1539] Mas noutro lugar, um pouco adiantea , explanaremos mais adequadamente a compara- ção entre a Circuncisão e o Batismo. [1536] As abluções e as purificações lhes tornavam manifestas a sua imun- dície, a sua impureza e a sua corrupção, pelas quais a sua natureza tinha sido conspurcada, maculada e contaminada. Também lhes prometiam um novo lavamentob , que os limparia e os purificaria das suas manchas e da sua corrupção38 . Esse novo lavamento era Cristo, cujo sangue nos limpa e nos purifica e por cujas chagas somos sarados39 . Os sacrifícios os acusavam e os convenciam dos seus pecados e da sua iniqüidade; ao mesmo tempo os ensinavam que é necessária alguma expiação para que fosse satisfeita a justiça de Deus. Para isso era necessário um grande sacerdote. Este seria mediador entre Deus e os homens e prestaria plena satisfa- ção à justiça de Deus, pelo derramamento de sangue e pela imolação e oferta de um sacrifício aceitável e suficiente para a remissão dos pecados. Esse “grande sumo sacerdote” é Jesus Cristo; o derramamento é do Seu sangue; Ele próprio é o Sacrifício40 . Porque Ele se ofereceu ao Pai, sendo obediente até à morte, e com a Sua obediência destruiu a desobediência do homem, a qual tinha provocado a ira e a indignação de Deus41 . O Batismo e a Ceia do Senhor Quanto aos nossos dois sacramentos, eles nos apresentam Jesus Cristo tanto mais claramente quanto mais de perto Ele se manifestou aos homens, desde quando nos foi dado e revelado pelo Pai, como pelo Pai nos tinha sido prometido. Porque o Batismo testifica que somos lavados e purificados, e a Ceia da eucaristia, que fomos redimidos. A água representa a ablução, o lavamento; o sangue, a satisfa- ção. As duas coisas se encontram em Jesus Cristo, o qual, como diz o apóstolo João, veio “com a água e com o sangue”, quer dizer, para limpar e redimir; e “três são os que testificam na terra: o Espírito, a água e o sangue, e os três são unâni- mes num só propósito42 ”. Na água e no sangue temos testemunho da nossa purifi- cação e da nossa redenção. E o Espírito Santo, que é a principal testemunha, dá- nos certeza desse testemunho, nos capacita a crer nele, a entendê-lo e a reconhecê- lo e confessá-lo, pois de outro modo não o poderíamos compreender. Este misté- rio sublime nos foi maravilhosamente demonstrado quando, estando Cristo pen- a. Cap. XI. b. lavacrum. 38 Hb 9.13,14; 1Jo 1.7; Ap 1.5,6. 39 Is 53.5; 1Pe 2.21-24; 3.18-21. 40 Ver a Epístola aos Hebreus. [Notem-se Hb 4.14; 5.5,6; 9.11.] 41 Fp 2.8; Rm 5.19. 42 1Jo 5.6,8.
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    148 As Institutas– Edição Especial dente na cruz, do seu santo lado “saiu sangue e água43 ”. Santo lado que, por essa causa, Agostinho descreve muito bema como origem e fonte da qual promanam os nossos sacramentos44 . Mas é preciso que tratemos deles mais amplamente. Os sacramentos das duas dispensações têm igual importância [1539] Cabe ainda considerar o seguinte: Os doutores escolásticosb fazem uma grande diferença entre os sacramentos da antiga Lei e os da nova, como se aque- les só servissem para figurar superficialmentec a graça de Deus, e estes a apresen- tassem e a dessem aos homens. Essa doutrina deve ser rejeitada totalmente. Sim, pois o apóstolo não exalta mais uns do que os outros quando ensina que os nossos pais “comeram de um só manjar espiritual e beberam da mesma fonte espiritual” que nós, e logo explica que esse manjar e essa fonte é Cristo45 . Quem se atreverá a dizer que era vão e vazio aquele sinal que demonstrava para os judeus a verda- deira comunhão de Jesus Cristo? E bem nos favorece na causa que defendemos o que o apóstolo debated na citada passagem. Porque, a fim de que ninguém faça pouco caso da justiça de Deus, sob pretexto de estar sob a Sua graça, Paulo nos mostra exemplos do rigor e severidade com que Deus castigou os judeus. E tam- bém, para que ninguém se julgue objeto da preferência divina, como se tivesse algum privilégio extraordinário, ele contrapõe essa objeção, igualando-os a nós. Réplica à alegação de que a Circuncisão é inferior ao Batismo Mas alguém poderá alegar o que Paulo, escrevendo aos crentes romanos, disse sobre a Circuncisão, onde parece que ele a faz muito inferior ao Batismo46 , o que não é verdade. Porque tudo o que ali se diz sobre a Circuncisão se poderia com razão dizer também do Batismo, e de fato se diz. O primeiro a fazê-lo é o apósto- lo Paulo, quando ensina que Deus não dá importância à ablução externa47 , mas sim a que o coração seja purificado interiormente e persevere na pureza até o fim. Depois, Pedro também o diz, quando testifica que “a verdade do batismo não está na purificação externa, mas na boa consciência48 ”. Contudo, já que me dispus a a. sæpe. b. scolasticum dogma. c. adumbrarint. d. Termo jurídico (1539: agit). 43 Jo 19.34. 44 In Ioh. tract.120,2; serm. 5,3; in psalm. 138,2; 126,7; 40,10. 45 1Co 10.3,4. 46 Rm 2.25-29 [1Co 7.19; Gl 5.6; 6.15]. 47 1Co 10.1-13 48 1Pe 3.21.
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    149 49 No preâmbulo daexposição do Salmo 73 [73.2]. [Ver: Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo, Paulus, 1997, Vol. II, p. 586-587]. 50 Conforme se vê na epístola 5. a. Cap. XI. b. eadem, virtute spirituali. expor mais longamente esta matéria na partea em que deliberei comparar o Batis- mo com a Circuncisão, agora faço apenas breve alusão a ela. As diferenças são superficiais É possível que os excessivos louvores aos sacramentos que se lêem nos escritores antigos tenham confundido e enganado estes pobres sofistas, levando-os a caírem nesse erro. Cito como exemplo isto que Agostinho diz: “Os sacramentos da anti- ga Lei só prometiam salvação, mas os nossos a propiciam49 ”. Por não se darem conta de que esse linguajar era hiperbólico, quer dizer, excessivo, também eles semearam e divulgaram as suas conclusões em termos hiperbólicos, mas num sentido muito diferente do que se vê nos escritos dos antigos. Porque no citado passo Agostinho não quis dizer outra coisa que aquilo que ele mesmo escreveu noutro lugar50 , a saber, que os sacramentos da lei mosaica prenunciavam Jesus Cristo, e os nossos O anunciam. Como se dissesse que aqueles O prefiguravam como Alguém que havia de vir, e os nossos O mostram presente, após ter Ele vindo e nos ter sido dado. O que facilmente podemos concluir da citação acima feita, se examinarmos mais acuradamente os seus termos. O mesmo se pode dizer de uma sua homilia, na qual ele confessa abertamente que os sacramentos dos judeus eram diferentes nos sinais, mas eram iguais no que significavam; diferen- tes na aparência perceptível, mas iguais e unos em sua virtude e eficácia espiritualb .
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    CAPÍTULO XI Objetivos dainstituição do Batismo [1536] O Batismo nos foi dado por Deus primeiramente para servir à nossa fé naquele que o instituiu e, em segundo lugar, para servir à nossa confissão dessa fé perante os homens. Trataremos nessa ordem desses dois objetivos e motivosb da sua instituição.1 a. Este capítulo é muito mais desenvolvido em 1539 do que o era a parte do capítulo correspondente (IV) de 1536. Bucer tratou deste mesmo assunto, mas de maneira muito diferente, em 1536, em sua Exposition de l’Evangile selon S. Matthieu (Exposição do Evangelho Segundo Mateus, tradução francesa, 1540). A Instruction (Instrução) de 1537 começa quase nos mesmos termos que temos aqui as duas páginas “Du baptesme” (Sobre o Batismo). Farel, em seu Sommaire (Sumário) não contém (ainda em 1534) um capítulo especialmente dedicado ao Batismo. Ele diz apenas: “Renunciando a tudo por amor de Jesus, como sinal disso são batizados... e confes- sando que o nosso Senhor deu Seu corpo, morrendo para nos unir a todos num corpo”. Uma das mais antigas exposições da doutrina evangélica em língua francesa, a Somme chrestienne (Suma Cristã), dedicada por François Lambert, dito de Avignon, a Carlos Quinto (Marburgo, 1529, exem- plar único na Biblioteca do Protestantismo Francês), no capítulo (XLVII), sobre o Batismo, diz: “Assim como a circuncisão era, sob a Lei, um sinal do povo de Deus, assim também, após aquela e a revelação de Jesus Cristo, o Batismo é um sinal exterior daqueles que confessam o Seu santo nome. “E, ademais, significa que, assim como Ele morreu e ressuscitou, aqueles que Lhe pertencem devem também morrer para a carne e para o mundo, e ressuscitar e renovar-se todos os dias em espírito. Rm 6. “E, visto que sob a Lei os pequeninos recebiam o sinal da Circuncisão, é prestar bom serviço dar às criancinhas o sinal do Batismo, e orar a Deus por elas e sobre elas”. b. rationem (uma só palavra). 1 “Batismo é o sinal de iniciação pelo qual somos recebidos à sociedade da Igreja para que, enxertados em Cristo, sejamos contados entre os filhos de Deus. Com efeito, o batismo foi-nos dado por Deus para este fim, o que ensinei [Institutas, IV.14.1] ser comum a todos os mistérios, primeiro, para que servisse à nossa fé perante Ele, segundo, para que servisse à confissão [nossa] perante os homens.” [João Calvino, As Institutas, IV.15.1]. “Finalmente, este proveito também nossa fé recebe do batismo: que nos atesta seguramente não só termos sido enxertados na morte e na vida de Cristo, mas ainda assim unidos ao próprio Cristo sejamos partícipes de todas as Suas cousas boas.” [João Calvino, As Institutas, IV.15.6]. “É o Espírito de Deus quem nos regenera e nos transforma em novas criaturas, visto, porém, que sua graça é invisível e oculta, no batismo nos é dado um símbolo visível dela.” [João Calvino, As Pastorais, São Paulo, Paracletos, 1998, (Tt 3.5), p. 350-351].
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    152 As Institutas– Edição Especial Quanto ao primeiro objetivo, o Batismo faz três benefícios à nossa fé, os quais é necessário examinar separadamente, um por vez. Primeiro, o propósito de Deus é que ele seja um símbolo e um sinala da nossa purificação, ou, melhor dizendo, foi-nos enviado por Deus como uma mensagem pela qual Ele nos comu- nica, confirma e assegura que todos os nossos pecados foram perdoados, cober- tos, abolidos e canceladosb de tal maneira que jamais serão apresentados à Sua consideração, nem recordados para nova remissão, nem imputados a nós. Nesse sentido Ele quer que todos os que crerem sejam batizados para a remissão dos pecados2 . Por isso, aqueles que se atreveram a escrever que o Batismo não é senão uma marcac e um símbolo pelo qual declaramos diante dos homens a nossa religião, como um soldado leva a farda e a insígnia do seu prínciped para com isso declarar-se subordinado a elee , deixaram de considerar o principal do Batismo, a saber: que devemos recebe-lo com a promessa de que os que crerem e forem batizados receberão a salvação3 . Fundamentos bíblicos Nesse sentido se deve entender o que apóstolo Paulo escreveu4 , que Cristo se entregou pela igreja, Sua esposa, “para que a santificasse, tendo-a purificadof por meio da lavagem de água pela palavra”, isto é, pelo Batismo com água. E noutro lugar5 , que, “segundo a sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo”. E também o que o apóstolo Pedro a. symbolum (uma só palavra). b. deleta, inducta, obliterata (três palabras). c. tessera (alhures traduzida por: méreau; cf. p. 209, nota a. do original francês). d. insignia imperatoris. e. Esta doutrina dos anabatistas era combatida no capítulo XX da Confissão de Fé Helvética, adotada na Basiléia em 1536. (Cf. Lutero, Concio de confessione et sacramento eucharistiæ, [Discurso sobre a confis- são e o sacramento da Eucaristia], 1524. Na Segunda Confissão Helvética (1562-1566),113 lemos: “Há um só batismo na Igreja de Deus; e é suficiente ser uma só vez batizado ou consagrado a Deus. Pois o batismo, uma vez recebido, continua por toda a vida; e é o selo perpétuo de nossa adoção.”114 2 Mt 28.19; At 2.38. 3 Mc 16.16. 4 Ef 5.26. 5 Tt 3.5. f. mundatam. 113 A Segunda Confissão Helvética, foi primariamente elaborada em latim, em 1562, pelo amigo, discípulo e sucessor de Zuínglio (1484-1531), Henry Bullinger (1504-1575). Em 1564, quando a peste voltou a atacar em Zurique, Bullinger perdeu a esposa e as três filhas. Ele mesmo ficou doente mas foi curado. Neste ínterim ele fez a revisão da Confissão de 1562 e, como uma espécie de testamento espiritual, anexou-a ao seu testamento, para ser entregue ao magistrado da cidade, caso ele viesse a falecer. Esta confissão foi publicada, com algumas alterações – aceitas por Bullinger –, em latim e alemão em 12/03/1566. Ela foi traduzida para vários idiomas (inclusive o Árabe), tendo ampla aceitação em diversos países nos anos se- guintes, sendo também adotada na Escócia (1566); na Hungria (1567); na França (1571); na Polônia (1578). Esta Confissão se tornaria um fator fundamental de união das Igrejas Reformadas da Europa. 114 Segunda Confissão Helvética, XX. In: Livro de Confissões, São Paulo, Missão Presbiteriana do Brasil Central, 1969, § 5.186.
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    153 escreveu6 , dizendo queo Batismo nos salva. Certo é que o apóstolo Paulo não quer dizer que o nosso lavamento e a nossa salvação sejam realizadas perfeita- mente por meioa da água; nem que a água contenha alguma virtude ou poder para nos purificar, regenerar ou renovar. Tampouco o apóstolo Pedro quis dizer que a água é a causa da nossa salvação. Eles somente quiseram dizer que no sacramen- to se recebe a segurança de tais graças. As próprias palavras empregadas expli- cam isso claramente. Porque o apóstolo Paulo junta a Palavra da vida, que é o Evangelho, ao Batismo com água, como se dissesse: Pelo Evangelho nos é anun- ciada a nossa purificação e santificação, e pelo Batismo esse anúncio ou essa mensagem é simbolizada e selada. E o apóstolo Pedro, depois de dizer que o Batismo nos salva, imediatamente acrescenta: “não sendo a remoção da imundí- cia da carne” que o faz, “mas a indagação de uma boa consciência para com Deus”, que provém da fé. [1539] Por outro lado, porém, o Batismo não nos promete outra purificação que a que é feita pela aspersão do sangue de Cristo, representado pela água por sua semelhança com esta, em sua função de lavar e purificar. Quem, pois, dirá que nós somos purificados pela água do Batismo, sendo que ela testifica que o sangue de Cristo é o nosso verdadeiro e único lavamento, a nossa verdadeira e única aspersão7 ? Assim, não se poderia encontrar melhor argumento para refutar o errob daqueles que atribuem tanta virtude à água do que demonstrando oc senti- do do Batismo. Remissão dos pecados passados e futuros [1536] Não devemos achar que o Batismo nos é dado unicamente para atestar solução para o passado, de modo que para os pecados que voltemos a cometer depois de termos sido batizados precisemos encontrar outra solução, um novo remédiod . Certamente desse erro procede o fato de que antigamente alguns não queriam ser batizados senão no fim da sua existência na terra, na hora da sua morte, para que assim obtivessem pleno e completo perdão para toda a sua vida. [1539] Contra essa tola fantasia os bispos falaram muitas vezes em seus escritos8e . [1536] Mas devemos saber que em qualquer tempo em que sejamos batizados, somos lavados e purificados uma vez por todas e por todo o tempo da nossa vida. Por essa razão, toda vez que cairmos em pecado devemos recorrer à lembrança a. 1536: renovandi instrumentum esse. 1539: virtutem in se continere. b. hallucinationem c. 1541 tem, por erro: qu’elle. d. Cf. Tomás de Aquino, Summa theol. (Suma teológica), II, I, quæst. 81, art. 3; quæst. 74, art. 3: Transit peccatum originale reatu eat remanet actu. e. O Concílio de Florença (1439) lutou contra este erro (Bula de Eugênio IV, Exultate Deo, cap. X). 6 1Pe 3.21. 7 Ver também 1Pe 1.2 (N. do T.). 8 Exemplos: Gregório de Nazianzo (c. 329-389), Discurso XL, 11, e Gregório de Nissa (c. 331-394), Discurso contra os que protelam o Batismo (N. do T.).
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    154 As Institutas– Edição Especial do Batismo e por ela nos confirmar e nos fortalecer na fé, para que estejamos sempre certos e seguros do perdão dos nossos pecados. Porque, embora pareça que, por nos ter sido administrado uma só vez, o Batismo já tenha perdido o seu efeito, todavia ele não é cancelado ou apagado pelos pecados subseqüentes. Por- quanto a pureza de Cristo nos é oferecida nele, e a Sua pureza está sempre em vigor, dura para sempre, e não há mancha alguma que a possa sobrepujar.A pureza de Cristo elimina toda a nossa sujidade e nos purifica de toda a nossa imundícia. Contudo, não devemos ver nisso ocasião para pecar depois do Batismo, pois é certo que neste ensino não há nada que nos incite a essa audácia. Esta doutrina é oferecida unicamente àqueles que, depois de terem cometido pecado, sentem-se desolados, e se lamentam, cansados e sobrecarregados sob o peso dos seus pecados, para que tenham com que se levantar e se consolar, e não fiquem confusos nem caiam no desespero. Por essa razão diz o apóstolo Paulo9 que Jesus Cristo nos foi feito, Ele próprio, propiciação pelos pecados passados. Com isso ele não quis dizer que nele não temos perpétua e continua remissão dos pecados, até à nossa morte. O que quis dizer é que Cristo foi dado pelo Pai aos pobres pecadores que, feridos pelo cáustico cautério da consciência, suspiram pelo médico. A esses é oferecida a misericórdia de Deus. Mas aqueles que, des- cansados em sua impunidade, buscam e tomam ocasião e liberdade para pecar, só o que fazem é provocar contra si mesmos a ira e o juízo de Deus. Mortificação e nova vida em Cristo O segundo consolador benefício que nos faz o Batismo é que nos mostra a nossa mortificação em Jesus Cristo e também a nossa nova vida nele. Porque, como diz o apóstolo Paulo10 , “em Cristo fomos batizados em sua morte” e fomos “sepulta- dos com ele na morte pelo batismo; para que... também andemos nós em novida- de de vida”. Com essas palavras ele nos exorta, não somente a que O imitemos, como se dissesse que o Batismo nos admoesta no sentido de que, à semelhança e segundo o exemplo da morte de Jesus Cristo, morramos para as nossas concupis- cências, e que, a exemplo da Sua ressurreição, revivamos para a justiça. Não. Ele sobe a maiores alturas e afirma que pelo Batismo somos feitos participantes da Sua morte, a fim de que sejamos enxertados nela. E como o enxerto extrai a sua substância e o seu nutriente da raiz na qual foi inserido, assim também, aqueles que recebem o Batismo com a fé com a qual ele deve ser recebido, sentem verda- deiramente a eficácia da morte de Jesus Cristo na mortificação da sua carne. E o mesmo se dá também com a Sua ressurreição na vivificação do seu espírito11 . 9 Rm 3.25. 10 Rm 6.4. 11 O contexto de Romanos 6 faz contraste entre carne (aí significando os membros e órgãos do corpo; notem-se os versículos 12 e 13) e o espírito. Ou seja, o contraste é entre a natureza física e a natureza espiritual. Certamente por isso Calvino faz uso da palavra “espírito”, com inicial minúscula (N. do T.).
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    155 Disso o apóstolotoma ocasião e matéria para nos exortar no sentido de que, se somos cristãos, morramos para o pecado e vivamos para a justiça. Ele usa o mes- mo argumento noutra passagem12 , na qual afirma que fomos circuncidados e des- pojados do velho homem, e então fomos sepultados com Cristo no Batismo. Nes- se sentido, na passagem que citamos anteriormente13 , ele descreve essa ação como lavamento de regeneração e renovação. A bênção da nossa união com Cristo [1539] Finalmente, pelo Batismo a nossa fé recebe também esta reconfortante bênção: Não somente nos é dada a certeza de que estamos inseridos como enxer- to na morte e na vida de Jesus Cristo, mas também que estamos de tal modo unidos a Ele que Ele nos faz participantes de todos os Seus bens. Porque por essa razão Ele consagrou e santificou o Batismo em Seu corpo14 , para que fosse um firme laço da comunhão e da união que Ele quis ter conosco. Tal é o significado disso que o apóstolo Paulo prova que somos filhos de Deus pelo fato de que pelo Batismo fomos revestidos de Cristo15 . Vemos, assim, que o cumprimento do Ba- tismo está em Cristo, razão pela qual O chamamos objeto e meta a que o Batismo visa. Por isso não deve causar estranheza que os apóstolos tenham batizado pes- soas em nome de Cristo [Atos 8.16; 19.5], embora tivessem recebido mandamen- to16 para batizar em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Porque todos os dons e dádivas de Deus que nos são oferecidos no Batismo se encontram em Cristo e unicamente nele. Todavia, quem batiza em nome de Cristo não pode deixar de invocar igualmente o nome do Pai e do Espírito Santo. Fácil é ver a razão disso, pois, se temos, como é fato que temos, a nossa purificação no sangue de Cristo, é porque o Pai, querendo derramar a Sua bondade e a Sua clemência, reconciliou-se conosco por meio dele como o Mediador. Como também recebe- mos a nossa regeneração por Sua morte e por Sua vida se, santificados pelo Espí- rito, é por Ele edificada em nós uma nova natureza espiritual. Segue-se, pois, que devemos reconhecer que a nossa purificação e regeneração a temos no Pai; a matéria17 , no Filho; e o efeito, no Espírito Santo. [1536] Vê-se que primeiro João e depois os apóstolos ministraram o Batismo de arrependimento, para remissão dos pecados, entendendo pela palavra arrependimento a regeneração, e pela re- missão dos pecados, a ablução18 . 12 Cl 2.11,12. 13 Tt 3.5. 14 Mt 3.13. 15 Gl 3.27. 16 Mt 28.19. 17 A realidade concreta da redenção consumada historicamente (N. do T.). 18 Mt 3.6-11; Lc 3.16; Jo 3.23; 4.1,2; At 2.38,41.
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    156 As Institutas– Edição Especial Não há diferença essencial entre o Batismo de João e o Batismo cristão Por isso também nos certificamos de que a ministração do Batismo feita por João é inteiramente a mesma que depois foi confiada aos apóstolos. Embora adminis- trado por diferentes mãos, a doutrina é a mesma, o que mostra que o Batismo é um só e o mesmo. João e os apóstolos aceitavam coesos a mesma doutrina; bati- zavam para arrependimento; ministravam o sacramento para remissão dos peca- dos. João disse que Jesus Cristo é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”.19 Com isso ele declarou, confessou e testificou que Cristo é o Sacrifício agradável ao Pai, a propiciação e a salvação. Que mais os apóstolos poderiam acres- centar a essa confissão? Certamente nada. [1539] Pois ela é plena e completa. Réplica ao recurso aos escritores antigos Portanto, que ninguém se perturbe tendo em vista que os mestres antigos se em- penhavam em diferenciar um Batismo do outro. Porque não devemos ver neles uma autoridade tal que faça vacilar a argumentação da Escritura. Quem concor- dará mais com Crisóstomo do que com o evangelista Lucas? Sendo que aquele nega que o Batismo de João inclui a remissão dos pecados20a , e Lucas afirma o contrário21 , quando declara que João pregou “batismo de arrependimento para remissão de pecados”. A verdade é que, se alguém procurar na Palavra de Deus alguma diferença entre o Batismo de João e o dos apóstolos, a única diferença que encontrará é que João batizava em nome daquele que havia de vir, e o após- tolos em nome daquele que já se havia manifestado. O fato de que as graças do Espírito Santo foram dadas mais ampla e abun- dantemente depois da ressurreição em nada contribui para estabelecer alguma diversidade entre ambos. Porque o Batismo ministrado pelos apóstolos enquanto Cristo ainda se encontrava entre eles na terra era chamado de Cristo e, contudo, não apresentava mais riqueza de dons do Espírito que o Batismo de João. E mes- mo depois da ascensão, os samaritanos, embora tenham sido batizados em nome de Jesus, não receberam outras graças, além das que tinham recebido os que creram no período anterior, enquanto não lhes foram enviados Pedro e João para que lhes impusessem as mãos22 . O que levou os antigos a considerarem o Batismo de João apenas como uma preparação para o de Cristo, creio eu, foi que se enganaram quando leram que aqueles que tinham recebido o Batismo de João tiveram que ser batizados nova- a. Uma citação do capítulo anterior, e esta, fazem pensar que Calvino leu certos escritos de João Crisóstomo, ou que ao menos teve intenção de fazer uso deles, depois de 1536 e antes de 1539. 19 Jo 1.29. 20 Comentário de Mateus, homilia X, 1 (N. do T.). 21 Lc 3.3. 22 At 8.14-19.
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    157 mente pelo apóstoloPaulo23 . Mas quão falso é esse modo de entender se verá claramente mais adiante. Como entender Mateus 3.11? [1536] Que terá querido João dizer então, quando afirmou que ele batizava com água mas que depois viriaAquele que batizaria com o Espírito Santo e com fogo24 ? Isso pode ser explicado rapidamente. João não quis distinguir entre um Batismo e o outro, mas o que fez foi uma comparação da sua pessoa com a de Jesus Cristo. E então se declarou ministro da água, e Cristo o doador do Espírito Santo, e que Ele manifestaria esse poder por meio de um milagre visível no dia em que haveria de enviar o Espírito Santo aos Seus apóstolos mediante línguas de fogo. Que outra coisa mais os apóstolos poderiam atribuir a si mesmos? E também, que outra coisa mais poderiam atribuir a si mesmos os que batizam atualmente? Pois eles são ape- nas ministros do sinal externo, mas Jesus Cristo é o Autor da graça interna. Figuras da mortificação e da purificação no Antigo Testamento O que dissemos sobre a mortificação e a ablução ou purificação foi prefigurado no povo de Israel. Por essa razão diz o apóstolo Paulo que todos foram “batizados, assim na nuvem como no mar”.25 A mortificação foi prefigurada quando o Se- nhor, tendo-os libertado do jugo e da cruel servidão do faraó, abriu caminho para eles através do Mar Vermelho e submergiu em suas águas o faraó e os demais egípcios, seus inimigos, que os perseguiam26 . Porque dessa maneira no Batismo Deus nos promete, e pelo símbolo nos demonstra e nos garante, que por Sua virtude e por Seu poder, libertou-nos do cativeiro do Egito, isto é, da escravidão do pecado, e que o nosso faraó, o Diabo, foi submerso, embora ainda não pare de nos pressionar e de nos aborrecera . Mas, assim como aquele egípcio afogado não permaneceu no fundo do mar mas, sendo lançado à margem, continuou causando temor aos filhos de Israel, que o achavam medonho, embora não pudesse prejudicá- los, assim também é certo que esse nosso inimigo nos ameaça, exibe as suas armas e nos faz sentir sua ação contra nós, mas não nos pode vencer. Na nuvem foi prefigurada a purificação27 . Porque, assim como naquele tem- po o Senhor os cobriu com uma nuvem, refrescando-os com sua sombra para que não desmaiassem nem fossem consumidos pelo forte e ardente calor do sol, as- sim também no Batismo fica demonstrado que somos cobertos e protegidos pelo a. fatigare. 23 At 19.3-5. 24 Mt 3.11; Lc 3.16. 25 1Co 10.2 26 Êx 14.21-29. 27 Nm 9.15-22.
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    158 As Institutas– Edição Especial sangue de Jesus Cristo, para que não caia sobre nós o rigor do juízo de Deus, juízo que é realmente um fogo de ardor insuportável. O Batismo não nos restitui a natureza sem pecado anterior à Queda Desde já podemos perceber claramente quão falso é o que alguns têm ensinado28 , a saber: que pelo Batismo ficamos livres e isentos do pecado original e da corrupção que passou de Adão a toda a sua descendência;29 e que somos restaurados à mes- ma justiça original e à mesma pureza de natureza que Adão continuaria tendo se tivesse permanecido sempre na integridade com a qual tinha sido criado origina- riamente30 .31 Essa classe de doutores jamais entendeu o que é o pecado original, o que é a justiça original e o que é a graça do Batismo. Ora, já acimaa sustentamos que o pecado original é uma perversão e corrupção da nossa natureza, corrupção que primeiro nos torna culpados e merecedores da ira de Deus e da condenação, e, em segundo lugar, produz em nós aquilo que a Escritura denomina obras da carne. Devemos, pois, considerar estas duas verda- des: a primeira é que, como estamos contaminados e pervertidos em todas as partes da nossa natureza, já, por causa dessa corrupção, estamos com justiça con- denados e convictos de culpa diante de Deus, a quem nada agrada mais que a justiça, a inocência e a pureza. E até as crianças trazem consigo a sua própria condenação, desde o ventre de sua mãe. Porque, embora não tenham ainda pro- duzido os frutos da sua iniqüidade, elas têm em si mesmas a semente do mal. Na verdade, toda a sua natureza é uma semente de pecado. Por essa causa, sua natu- reza só pode ser odiosa e abominável para Deus.32 a. Cap. I. 28 Cf. Decret. Gratiani III, dist. IV, cap. 1 (Migne, 187, 1791). 29 *“.... Adão, em sua queda, foi despojado de sua justiça original, sua razão foi obscurecida, sua vontade, pervertida, e que, sendo reduzido, a este estado de corrupção, trouxe filhos ao mundo semelhantes a ele em caráter. Se porventura alguém objetar, dizendo que essa geração se confina aos corpos, e que as almas jamais poderão derivar uns dos outros algo em comum, eu responderia que Adão, quanto em sua criação foi dotado com os dons do Espírito, não mantinha um caráter privativo ou isolado, mas que era o representante de toda a humanidade, que pode ser considerado como tendo sido dotado com esses dons em sua pessoa; e deste conceito necessariamente se segue que, quando ele caiu, todos nós, juntamente com ele, perdemos nossa integridade original.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 51.5), p. 431-432]. 30 Alex. Halès, Summa, IV,9,8, m. 8, art. 3. [Alexandre Alésio (1500-1565), teólogo escocês, natural de Edim- burgo. Estabelecido em Wittenberg, apoiou vigorosamente a Reforma. Fez-se amigo de Lutero e de Melanchthon. Foi signatário da Confissão de Augsburgo. Acréscimo do tradutor.] 31 “Agora não nascemos tais como Adão fora inicialmente criado, senão que somos a semente adulterada do homem degenerado e pecaminoso” [João Calvino, Efésios, São Paulo, Paracletos, 1998, (Ef 2.3), p. 56.]. 32 “Não teremos uma idéia adequada do domínio do pecado, a menos que nos convençamos dele como algo que se estende a cada parte da alma, e reconheçamos que tanto a mente quanto o coração humanos se têm tornado completamente corrompidos.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 51.5), p. 431]. “Sa- bemos, porém, que, pela queda de Adão, toda a humanidade caiu de seu primitivo estado de integridade; porque, pela queda, a imagem divina ficou quase que totalmente extinta de nós, e fomos igualmente despo- jados de todos os dons distintivos pelos quais teríamos sido, por assim dizer, elevados à condição de semideuses. Em suma, de um estado da mais sublime excelência fomos reduzidos a uma condição de mise-
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    159 O Batismo certificaaos crentes que essa condenação foi eliminada e extir- pada deles. Isso porque, como dissemos, o Senhor nos promete, mediante esse sinal e símbolo, que nos é feita plena e completa remissão dos pecados, tanto da culpa que nos deveria ser imputada, como da pena que pela culpa teríamos que receber e sofrer. E também os crentes recebem justiça, mas nos termos em que lhes é possível recebê-la nesta vida, isto é, unicamente por imputação, pela qual, por Sua misericórdia, Deus os vê como justos e inocentes. A segunda verdade que neste contexto devemos considerar é que a referida perversidade da nossa natureza nunca cessa em nós, mas constantemente33 produz em nós novos frutos, quais sejam, as obras da carne acima descritas como uma fornalha acesa sempre a lançar labaredas e fagulhas, ou como um manancial de águas correntesa continuamente vertendo sua água. Porque a concupiscência nunca morre nem é extinta por completo nos homens, até quando, livres da morte pela morte do corpo, sejam inteiramente despojados de si mesmos. É certo que o Batis- mo nos garante que o nosso faraó foi afogado e que a nossa carne está mortificada. Todavia, não ao ponto de que o nosso inimigo não mais exista e que já não nos incomode, mas somente no sentido de que já não nos pode vencer. Porque, enquan- to vivermos encerrados na prisão que o nosso corpo é, os restos e as relíquiasb34 do pecado habitarão em nós. Mas, se pela fé retivermos a promessa que Deus nos fez no Batismo, essas forças adversas não nos dominarão e não reinarão em nós.35 Todavia, que ninguém se engane nem se vanglorie do seu mal, ao ouvir que o pecado habita sempre em nós. Isso não é dito para que os pecadores durmam sossegados em seus pecados, mas unicamente com este propósito: que aqueles que, aborrecidos, tentados e espicaçados por sua carne, não fiquem desolados, não se desanimem e não percam a esperança; antes, que vejam que continuam no caminho certo e que tiveram bom proveito ao sentirem que a sua concupiscência vai diminuindo pouco a pouco, dia após dia, até chegarem à meta almejada, a saber, a eliminação derradeira e final da sua carne, alcançando a perfeição quan- do esta vida mortal tiver fim. rável e humilhante destruição.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 1, (Sl 8.5), p. 169]. Não teremos uma idéia adequada do domínio do pecado, a menos que nos convençamos dele como algo que se estende a cada parte da alma, e reconheçamos que tanto a mente quanto os corações humanos se têm tornado completamente corrompidos.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 2, (Sl 51.5), p. 431]. 33 Rm 7.7-25. 34 O termo relíquias, no contexto eclesiológico romanista, refere-se mais especificamente a partes de cadáveres de “santos”, ou a objetos do seu uso, ou a instrumentos utilizados em seu suplício, e que são preservados com objetivo religioso (N. do T.). 35 “Ainda que o pecado não reine, ele continua a habitar em nós e a morte é ainda poderosa.” [João Calvino, Efésios, São Paulo, Paracletos, 1998, (Ef 1.20), p. 44]. “Quanto trazemos ainda conosco de nossa carne é algo que não podemos ignorar, pois ainda que a nossa habitação está no céu, todavia somos ainda peregrinos na terra.” [J. Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo, Paracletos, 1997, (Rm 13.14), p. 462] a.Aqui 1536 acrescenta: “Qui peccatum originale definierunt: carentiam justitiæ originalis, non satis significanter vim ipsius expresserunt” (alusão à Suma de Tomás de Aquino, I, II, quæst. 82, art. 3). b. 1536 tem somente: reliquiæ.
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    160 As Institutas– Edição Especial Conclusão desta parte Então, o que devemos saber e ter em mente é que somos batizados para a morti- ficação da nossa carne, que essa mortificação começa assim que recebemos o Batismo e a devemos continuar todos os dias da nossa vida; e que será perfeita quando desta vida formos levados ao Senhor. O Batismo é uma forma de confissão de fé perante os homens Pois bem, elea serve de confissão diante dos homens da seguinte maneira: O Batis- mo é um sinal e um símbolo pelo qual declaramosb que desejamos ser contados com o povo de Deus, e testificamos que consentimos e concordamos em servir a um só Deus e a uma só religião com todos os cristãos; finalmente, por ele declara- mos e asseveramos publicamente a nossa fé, de modo que Deus não seja adorado somente em nosso coração, mas também a nossa língua e todos os membros do nosso corpo, quanto possível, exteriorizem e proclamem os Seus louvores. Porque, assim, tudo o que nos pertence [tudo o que somos e tudo o que fazemos] é posto, como se deve, ao serviço da glória de Deus, glória que deve preencher todas as coisas; e os demais, vendo o nosso exemplo, serão estimulados a dedicar-se a igual propósito. Nisso pensava o apóstolo Paulo quando perguntou aos coríntios se eles não tinham sido batizados em nome de Cristo36 . Com isso ele quis dizer que os crentes coríntios se haviam dedicado a Ele, que O tinham recebido e confessado como seu Senhor e Mestre, e que tinham assumido compromisso com sua fé diante dos homens de tal modo que não poderiam confessar outro nome senão o de Cristo, se não quisessem renegar a sua confissão, feita no Batismo. Sentido e uso do Batismo quanto à confirmação da fé Tendo nós declarado o fim e a razão pela qual o Senhor instituiu e ordenou o Batismo, agora será fácil mostrar como devemos fazer uso dele e recebê-lo. Por- que, como nos é dado para fortalecer, consolar e confirmar a nossa fé, é necessá- rio recebê-lo como procedente da mão de Deus e ter como coisa certa e indubitável que é Ele que nos fala mediante este símbolo; que é Ele que nos limpa, nos puri- fica e apaga a lembrança dos nossos pecados; que é Ele que nos faz participantes da morte de Seu Filho; que é Ele que amortece as forças do Diabo e da nossa concupiscência; que é Ele que até mesmo nos reveste de Seu Filho. Portantoc , a. O Batismo. b. A Instrução de 1537 tem: fazemos profissão, nas poucas linhas que, de outro lugar, são reproduzidas quase textualmente aqui. c. 1536 e 1539: inquam (dis-ie, digo eu, fórmula freqüente quando Calvino fala). 36 1Co 1.13.
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    161 devemos crer eestar tão certa e verdadeiramente seguros de que Deus faz todas estas coisas interiormente, em nossa alma, como exteriormentea vemos o nosso corpo lavado, submerso e rodeado de água. Pois esta analogia ou comparação é uma certíssima regra relativa aos sacramentos, que nas coisas corporais vemos e meditamos as espirituais, uma vez que ao Senhor aprouve representá-las por meio destas figuras. Não é que tais graças estão atadas ao sacramento e nele encerra- das, ou que por sua virtude ou poder elas nos são conferidas, mas é somente que, por meio do sinal e símbolob , o Senhor nos testifica a Sua boa vontade; isto é, que Ele nos quer dar todas estas coisas. Cornélio, uma boa ilustração Desse ponto vê-se um bom exemplo no caso do centurião Cornélio. Note-se que, depois de ele ter recebido a remissão dos pecados e os dons visíveis do Espírito Santo, não obstante foi batizado37 , não para receber pelo Batismo mais ampla remissão, mas para mais correto e seguro exercício da sua fé. Objeção e réplica Pode ser que alguém faça esta objeção: Se os pecados não são purificados pelo Batismo, por que foi que Ananias disse ao apóstolo Paulo que pelo Batismo la- vasse os seus pecados38 ? Respondo: O que nos é dito é que recebemos e conse- guimos ou obtemos aquilo que cremos que nos é dado por Deus, quer quando começamos a conhecê-lo, quer, tendo-o conhecido anteriormente, passamos a ter mais firme convicção. Logo, Ananias, com essas palavras só quis dizer o seguin- te: “Paulo, para que estejas certo e seguro de que os teus pecados são perdoados, aceita seres batizado. Porque no Batismo o Senhor promete a remissão dos peca- dos; recebe-a e assegura-te dela”. Acresce que do sacramento não temos outra coisa senão o que recebemos pela fé. Se nos faltar a fé, o próprio Batismo servirá de testemunha contra nós, acusando-nos diante de Deus de que fomos incrédulos, não crendo na promessa que nele nos é feita. Sendo, porém, um sinal e um símbo- lo da nossa confissão, devemos por ele testificar que a nossa confiança firma-se na misericórdia de Deus; que a nossa purificação apóia-se na remissão dos peca- dos, realizada por Jesus Cristo; e que ingressamos na igreja de Deus a fim de que, pela união e pelo consentimento comum nascidos da fé e do amor, convivamos com um só espíritoc com todos os crentes. É o que o apóstolo Paulo quis dizer quando declarou que “em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo”.39 a. extra. b. Uma só palavra em latim: tessera. c. unanimes. 37 At 10.43-48. 38 At 22.16. 39 1Co 12.13.
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    162 As Institutas– Edição Especial O ministro oficiante não é o fator determinante da eficácia do Batismo, nem influi na maior ou menor riqueza dos seus benefícios Se o que acima estabelecemos é verdade, isto é, que não se deve receber o sacra- mento como procedente da mão daquele que o administra, mas como proveniente da mão do próprio Deus, por quem sem dúvida nos é enviado, pode-se concluir que o oficiante não acrescenta nem elimina coisa alguma da dignidade do sacra- mento. E assim como entre os homens, se uma carta é enviada, pouco importa o seu portador, desde que se reconheça a assinatura do missivista, assim também devemos dar-nos por satisfeitos em reconhecer a mão e a assinatura do Senhor em Seus sacramentos, seja quem for o mensageiro que no-los traga. Com isso refutamos e destruímos o erro dos donatistas, que avaliavam e entendiam a virtu- de e a eficácia do sacramento pela dignidade e capacidade do ministro. Erro semelhante cometem os atuais anabatistasa , que negam que fomos re- almente batizados, porque fomos batizados por ímpios e idólatras pertencentes ao reino do papa. Por isso exigem furiosamente que sejamos rebatizadosb . A validade do Batismo dos reformados Para defender-nos dessas tolices dispomos de forte argumento. Basta lembrar que fomos batizados, não em nome de algum homem, mas em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santoc . E, portanto, o Batismo não é de homem, mas de Deus, quem quer que o tenha ministrado. E então, qualquer ignorância e desprezo de Deus que tenham tido os que nos batizaram, não nos batizaram na comunhão da sua ignorância e da sua impiedade, mas na fé em Jesus Cristo. Porque eles não invocaram o nome deles, mas o de Deus, e não nos batizaram noutro nome que não o de Deus. Pois bem, se o Batismo era de Deus, teve certamente a promessa de remissão dos pecados, de mortificação da carne, de vivificação espiritual e de participação em Cristo. O Batismo ministrado por ímpios, e seus frutos Ademais, eles perguntam que fé foi seguida entre nós durante uns tantos anos para daí concluírem que o nosso Batismo é vão, o qual não nos santifica a não ser que a palavra da promessa seja recebida pela fé À apresentação dessa condição respondemos que é certo que por longo tempo estivemos cegos e fomos incrédulosd , e que não aceitamos a promessa que nos era feita no Batismo. Todavia, também é certo que, como a promessa é de Deus, permanece firme e verdadeira, desde o a. 1536 e1539 tinham Catabaptistæ, palavra que designava mais exatamente esta doutrina, mas anabaptistes prevaleceu, já por volta de 1540. b. anabaptismum urgent. Cf. acima, cap. X. c. João Calvino tinha sido batizado dessa forma pelo cura de Sainte-Godeberte, em Noyon, em 1509. d. Para Calvino esse período durou até perto dos vinte anos de idade.
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    163 princípio até ofim. Porque, ainda que todos os homens fossem mentirosos e infiéis, Deus não deixa de ser verdadeiro, e ainda que todos os homens se perdes- sem e estivessem condenados, Jesus Cristo continua sendo a salvação.40 Reco- nhecemos, pois, que naquele tempo o Batismo não foi de nenhum proveito para nós, visto que a promessa permanecia desprezada, promessa sem a qual o Batis- mo não é coisa alguma. Mas agora, graças a Deus, quando começamos a corrigir- nos, condenamos a nossa cegueira e dureza de coração, tendo nos mantido por tanto tempo ingratos á Sua bondade. Não cremos, porém, que a promessa tenha desaparecido; antes, consideramos o seguinte: Pelo Batismo Deus promete a re- missão dos pecados, e sem dúvida cumprirá a promessa para todos os que crêem. Essa promessa nos foi oferecida no Batismo; abracemo-la, pois, pela fé! Certa- mente, por causa da nossa infidelidade, essa promessa esteve sepultada por muito tempo; recuperemo-laa agora pela fé! Ilustração: a Circuncisão não repetida [1539] Por esse motivo, quando o Senhor exorta o povo judeu ao arrependimento, não ordena que se circuncidem de novo aqueles que tinham sido circuncidados por mãos de homens ímpios e sacrílegos, e que por algum tempo haviam vivido na mesma impiedade. Somente exige deles que se convertam de coração. Porque, embora a aliança tenha sido violada por eles, o sinal da aliança, instituído por Deus, permanecia sempre firme e inviolável. Por isso Ele os recebia com a única condi- ção de que se arrependessem. Confirmava-os assim na aliança outrora feita com eles por meio da Circuncisão, apesar de esta lhes ter sido aplicada por sacerdotes ímpiosb e de eles mesmos a terem tornado falsa por sua própria iniqüidade. Por que Paulo mandou rebatizar os que tinham recebido o Batismo de João? [1536] Mas parece a eles que nos lançam um dardo de fogo quando alegam que o apóstolo Paulo rebatizou alguns que tinham recebido o Batismo de João41 . Só parece, porque, conforme a exposição que fizemos, sendo o Batismo de João em tudo igual ao que usamos atualmente, assim como aqueles que antes não estavam bem estruturados, depois de serem instruídos na fé e na reta doutrina, foram batizados novamente, assim também o Batismo que é ministrado sem a verdadei- ra doutrina deve ser considerado nulo, e aqueles que foram batizados dessa forma devem ser rebatizados na verdadeira religião, na qual agora estão instruídos. [1539] Alguns são de opinião que a pessoa que os tinha batizado anterior- mente era algum tolo imitadorc de João Batista, e que o tinha feito mais baseado a.recipiamus. b. fœdifragi. c.xxxozhlon. 40 1Co 1.30 (N. do T.). 41 At 19.3-5.
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    164 As Institutas– Edição Especial em vãs superstições que na verdade. E eles acham que têm razão de conjeturar que aqueles cristãos confessaram que não sabiam o que é o Espírito Santo, e que João Batista não teria deixado os seus discípulos nessa ignorância. Mas também não parece provável que os judeus, mesmo os que não foram batizados, não tives- sem algum conhecimento do Espírito Santo, uma vez que a Escritura O menciona muitas vezes. Portanto, a resposta por eles dada, de que nem sabiam “que existe o Espírito Santo”, deve ser interpretada no sentido de que não tinham ouvido falar que as graças do Espírito Santo, a respeito das quais Paulo os tinha interro- gado, eram distribuídas aos discípulos de Cristo. [1536] Quanto a mim, concordo que eles tinham recebido o verdadeiro Ba- tismo quando foram batizados “no batismo de João”. Nego, porém, que tenham sido rebatizados. Que é que significam as palavras: “Foram batizados em o nome do Senhor Jesus”? Alguns as interpretam dizendo que só significam que eles foram instruídos pelo apóstolo na pura e sã doutrina, mas eu prefiro explicá-las mais simplesmente, neste sentido: que ele fala do Batismo do Espírito Santo, querendo dizer que as graças visíveis do Espírito Santo lhes foram concedidas mediante a imposição das mãos. De fato, não poucas vezes essas graças são de- signadas pelo nome de Batismo na Escritura. [1539] Por exemplo, como ocorreu que, segundo nos é narrado, no dia de Pentecoste os apóstolos se lembraram das palavras proferidas pelo Senhor sobre o Batismo com o Espírito e com fogo. E como também Pedro cita as mesmas palavras, lembrando que as mesmas graças tinham sido derramadas sobre Cornélio e sua família42 . [1536] E isso não vai contra o que se diz logo a seguir: “E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo”. Porque Lucas não relata duas coisas diferentes, mas segue uma forma de narração comum entre os hebreus, que costumavam apresentar primeiro um resumo da matéria tratada e depois a expunham mais amplamente. Isso qual- quer pessoa pode perceber deduzindo-o destas próprias palavras do texto: “Eles, tendo ouvido isto, foram batizados em o nome do Senhor Jesus. E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo”. Esta última frase mostra clara- mente que Batismo foi aquele. [1539] Considere-se o seguinte: Se o primeiro Batismo fosse defeituosoa e nulob por causa da ignorância dos batizandos, devendo eles ser rebatizados, os próprios apóstolos teriam que ser os primeiros a ser batizados de novo, porque, após o Batismo, passaram três anos sem ter grande conhecimento da verdadeira doutrina. E entre nós, quantas águas oceânicasc seriam suficientes para repetir- mos tantos Batismosd quantos seriam necessários para nos lavar da ignorância da qual o Senhor nos censura e nos corrigee diariamente? a. b. Termos jurídicos. 1539 tem somente: vitiat. c. 1539: flumina. d. tinctionibus. e. quot ignorantiæ. 42 At 1.5 e 11.16.
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    165 O BATISMO INFANTIL43 :OBJEÇÕES E RESPOSTAS Não é acréscimo à Palavra de Deus; nela se baseia [1541]a Alguns espíritos mal-intencionadosb se levantam contra o nosso hábito de batizar criançasc , como se essa prática não tivesse sido instituída por Deus, mas se tratasse de algo inventado pelos homens recentemente, ou ao menos pouco tempo depois dos apóstolos. Em face disso, achamos que, por dever de ofício, é preciso confirmar e fortalecer nesse ponto as consciências fracas e refutar as falsas objeções dos enganosos oponentes, com as quais eles poderiam perverter a verdade de Deus no coração de pessoas simples, não suficientemente preparadas para contestar suas cavilações sutis e hipócritas. Porque em geral eles usam um argumento à primeira vista muito forte a seu favor, alegando que só desejam que a Palavra de Deus seja guardada e mantida em sua inteireza, sem nada lhe acrescentar nem subtrair. E acusam aqueles que tomaram a iniciativa de, segundo os nossos opositores, inventar a prática de bati- zar crianças e a acrescentaram ao que dispõe a Escritura, sem que para isso con- tassem com algum mandamentod . Concederíamos que esse argumento seria mais que suficiente, se eles pudessem provar o seu intento – de que o Batismo infantil é fruto de invenção humanae , e não uma ordenança de Deus. Mas quando, ao a. Caso assaz raro: não somente as poucas linhas de 1536 são muito desenvolvidas em 1539, mas também o desenvolvimento de 1539 é substituído em 1541 por um texto que não é tradução do latim. Em Estrasburgo provavelmente, pois em Genebra Calvino conheceu melhor certas doutrinas que ele combate logo a seguir. Já no início do século XVI existiam na Holanda partidários do Batismo só de adultos (mais tarde denominados batistas), quando essa doutrina foi adotada por Menno Simons, que veio a ser o cabeça deles. Primeiramente como pároco, teve, sobretudo depois de 1531, o desejo de estudar mais pessoalmente a Bíblia e os escritos de Erasmo, de Lutero e dos primeiros “evangélicos”. Ele reprovava severamente as idéias revolucionárias dos anabatistas sob o ponto de vista social; não se cometa o erro de confundir anabatismo com menonismo. No início de 1536, Menno Simons demitiu-se do seu cargo e, quanto ao Batismo, limitou- se a batizar adultos; ele escreveu (em baixo alemão115 ) o Fondament bock (livro dos fundamentos), publica- do em 1539, insistindo (como fez Calvino na epístola ao rei) em que não fosse associado aos fanáticos de Munster. Calvino nunca se encontrou com ele, nem leu suas obras. Conheceu suas idéias por meio de terceiros. Os “menonitas” foram assim chamados por seus adversários aproximadamente a partir de 1544. Por volta de 1556, Calvino, escrevendo Contra Mennonem (Opera, X, 167), diz: “A doutrina menonita não me era desconhecida”. Em 1562, em sua Response à un Holandois (Resposta a um Holandês), ele fala de um “fantástico Menno, com o qual (diz ele) não tenho nada em comum, não mais do que a água tem em comum com o fogo”. Havia “freiras suíças” e sectários alemães e tiroleses que, mais ou menos na mesma época, mais próxima de Calvino, professavam doutrinas análogas; seus escritos, que Calvino pôde conhecer, pouco menos que desapareceram. 43 Alguns criticam o uso do termo “infantil” ligado ao sacramento. Mas “infantil” tem, entre outros sentidos, este: “Que diz respeito a crianças” (Michaelis 2000) (N. do T.). 115 Língua falada no norte da Alemanha (N. do T.). b. O Sumário de Farel, mesmo em 1534, não fala sobre o Batismo de crianças (cap. XVIII). A Instrução de 1537, no fim do artigo Sobre o Batismo, diz: “Por boa razão batizamos as nossas crianças, sendo elas participantes da aliança eterna, pela qual o Senhor promete, não somente que será nosso Deus, mas também da nossa semente (Gênesis 17)”. Calvino teve um filho que morreu no dia em que nasceu. c. Hoc século phrenetici quidam spiritus ob pædobaptismum graves excitarunt in ecclesia turbas. d. Cf. 1539: hominum curiositate in usum temere receptus. e. 1539: sola hominum temeritate excogitatum.
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    166 As Institutas– Edição Especial contrário, mostrarmos claramente que são eles que com falsidade e erro nos pres- sionam com a calúnia de chamar de tradição humana esta instituição muito bem alicerçada na Palavra de Deus, que lhes restará, senão que esse pretexto que em vão alegam vire fumaça? A regra da fé Pois aqui devemos lembrar-nos da regra a nós ditada pelo apóstolo Paulo, pela qual se pode entender bem a Escritura. Por essa regra, na exposição da Escritura sempre devemos fazer esse trabalho “segundo a medida da fé”.44 É como se nos fosse ordenado que tenhamos os olhos postos neste alvo: Reportar tudo o que a Escritura nos ensina à doutrina da fé, e desta, como a fonte verdadeira, deduzir a explicação de toda e qualquer doutrina espirituala . Uma vez tendo este funda- mento (que para os cristãos deve ser perpétuo e geral, aplicável a toda a Palavra de Deus), nos será fácil reconhecer que o Batismo infantil cumpre a vontade do Senhor e é de instituição divina. Por outro lado, teremos facilidade em desfazer e resolver todas as dificuldades nas quais alguns estão envolvidos por não observa- rem esta regra tão necessária. O que mais importa é a realidade interior e espiritual, não os atos externos [1539] Agora, passando a tratar especificamente do nosso presente propósito, os crentes devem ter como algo resolvido o seguinte: Em que consiste a correta consideração dos sinais e símbolos ou sacramentos que o Senhor deixou e dos quais incumbiu a Sua igreja? Não consiste apenas nas exterioridades ou nas ceri- mônias externas, mas depende principalmente das promessas e dos mistérios es- pirituais que o Senhor quis representar com essas cerimônias. Por isso mesmo, saber o que é o Batismo e qual a sua utilidadeb não é ques- tão de fixar toda a atenção na água e nos atos externos, mas é necessário elevar o pensamento às promessas que Deus no Batismo nos faz e à realidade interior e espiritual que ele representa. Se tivermos isso, teremos a substância e a verdade do Batismo, decorrendo daí que viremos a compreender o fim para o qual esta aspersão de água que no Batismo se faz, e para que nos serve. Por outro lado, desprezando e deixando de lado estas coisas, se fixarmos o nosso espírito única e totalmente na observância exterior, jamais compreenderemos a eficácia e a im- portância do Batismo, como tampouco entenderemos o que significa esta água, nem a sua utilidade. Não nos demoramos muito neste assunto, visto que é expos- a. Cf. Farel, Sumário, cap. VIII: “Portanto, é preciso provar, pela santa Palavra de Deus, e examinar diligente- mente todas as moções ou propostas, todas as resoluções e declarações de fé, para saber que espírito têm os que as sugerem”. b. quorsum spectet. 44 Rm 12.3.
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    167 to tantas vezese com tanta clareza na Escritura que não deveria ficar duvidoso ou obscuro para os cristãos. O que ainda nos resta é averiguar, nas promessas feitas no Batismo, qual é a sua substânciaa . Substância das promessas que nos são feitas no Batismo A Escritura nos ensina que a remissão e purificação dos nossos pecados, bên- ção que obtemos graças à efusão do sangue de Jesus Cristo, nos é representada primeiramente, e, logo após, a mortificação da nossa carne, que obtemos parti- cipando da Sua morte, para, semelhantemente, ressuscitarmos para uma nova vida [1541]b , a saber, para uma vida de inocência, santidade e pureza. Com isso, entendemos logo de início que o sinal visível e material é tão-somente uma representação de coisas mais altas e mais excelentes, para cujo conheci- mento é preciso recorrer à Palavra de Deus, na qual está toda a virtude e eficá- cia do sinal. Pois bem, por essas palavras vemos que as coisas simbolizadas e representadas são a purificação da nossa carne, para sermos feitos participantes da regeneração espiritual, a qual deve estar presente em todos os filhos de Deus.45 Finalmente, vemos que todas estas coisas são efetuadas em Jesus Cristo, sendo que Ele é o fundamento. Sumário desta parte [1539] Eis aqui, em suma, a declaração sobre o Batismo à qual se pode reduzir e referir tudo o que a respeito diz a Escritura, exceto um ponto que ainda não foi tocado, qual seja, que ele nos serve também de marca por meio da qual confessamos diante dos homens o Senhor como o nosso Deus, e somos admiti- dos ao Seu povoc . Relação entre a Circuncisão e o Batismo Tendo em vista que, antes da instituição do Batismo, o povo de Deus tinha em lugar dele a Circuncisão, vigente sob o Antigo Testamento, devemos aqui consi- derar estes dois sinais ou símbolos, para podermos entender sua semelhança e sua diferença, e ver o que podemos deduzir de cada um deles. a. quæ vis ejus sit et natura. b. Este parágrafo, como o que consta acima [sob o título O Batismo Infantil: Objeções e Respostas, subtítu- lo: Substância das promessas que nos são feitas no Batismo], não é uma tradução, mas um desenvolvi- mento do texto de 1539; Calvino insiste em suas idéias previamente expostas. c. Testandæ apud homines religionis tessera. 45 “O poder e o uso dos sacramentos são corretamente subentendidos quando conectamos o sinal com aquilo que está implícito nele, de tal forma que o sinal não é algo vazio e ineficaz, e quando, querendo enaltecer o sinal, não despojamos o Espírito Santo do que lhe pertence. (...) Se porventura não fizermos nem quisermos fazer do santo batismo um ato nulo e vazio, devemos provar sua eficácia através da novidade de vida.” [J. Calvino, As Pastorais, São Paulo, Paracletos, 1998, (Tt 3.5), p. 350].
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    168 As Institutas– Edição Especial Quando o Senhor ordenou a Circuncisão a Abraão46 , primeiro lhe fez a pro- messa de que seria ser o seu Deus e o Deus da sua descendência, declarando-se todo-poderoso e revelando que tem em Suas mãos todas as coisas e que nele estão a plenitude e a fonte de todos os bens. Essas palavras incluem a promessa da vida eterna, como o declara o Senhor Jesus Cristo, ao formular um argumento extra- ído do fato de que Seu Pai é chamado Deus deAbraão, para convencer os saduceus da imortalidade e ressurreição dos crentes. Porque “Ele não é Deus de mortos e sim de vivos”.47 Por isso mesmo o apóstolo Paulo, no capítulo dois de Efésios48 , mostrando aos seus destinatários de que tremenda desgraça Deus os havia tirado, disso con- clui que, não tendo eles recebido a Circuncisão, estavam “sem Cristo, separados da comunidade de Israel, [eram] estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e [estando] sem Deus no mundo”, visto que a Circuncisão testificava todas essas bênçãos. Ora, o primeiro passo que devemos dar para aproximar-nos de Deus e para entrarmos na vida eterna é a remissão dos nossos pecados. Disso decorre que esta promessa corresponde à do Batismo,que testifica a nossa puri- ficação e ablução. Depois o Senhor declara a Abraão a Sua vontade, mostrando-lhe que deve andar diante dele com integridade e inocência, o que outra coisa não é senão a mortificação para ressuscitar para uma nova vida. E, para que não houvesse ne- nhuma dúvida de que a Circuncisão é sinal e figura da mortificação, Moisés a expõe mais claramente no capítulo dez de Deuteronômio [versículo 16], onde exorta o povo de Israel a circuncidar o seu coração, oferecendo-o assim ao Se- nhor, uma vez que é o povo escolhido por Ele dentre todas as nações da terra. Assim como o Senhor, quando acolhe a descendência de Abraão como Seu povo, ordena que se circuncide, assim também Moisés declara que “o coração” de Isra- el e dos seus descendentes será circuncidado49 , como querendo demonstrar qual a verdade da Circuncisão carnal.Além disso, para que ninguém sequer alimentasse a esperança de que poderia realizar esta mortificação por sua própria capacidade, Moisés ensina que é obra da graça de Deus em nós. Todas estas coisas são repetidas tantas vezes nos Profetas que se dispensa mais ampla discussão a respeito. Conclusão do presente argumento Do que acima foi dito concluímos que a Circuncisão continha para os pais, ou seja, para os antepassados do povo de Deus, a mesma promessa que o Batismo contém, significando e simbolizando a remissão dos seus pecados e a mortifica- 46 Gn 17.7-11. 47 Mt 22.32 (N. do T.). 48 Ef 2.12. 49 Dt 30.6.
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    169 ção da suacarne, para viverem para a justiçaa . E mais: Como dissemos que Cristo é o cumprimento de todas estas coisas, como também é o fundamento do Batis- mo, igualmente o é da Circuncisão. Porque Ele foi prometido a Abraão, e nele foi prometida bênção a todas as famílias da terra, como se o Senhor dissesse que toda a terra, estando sob maldição, receberia bênção por Seu intermédio. E lhes é acrescentado o sinal da Circuncisão para selar e confirmar dita promessa. Sumário das semelhanças e da diferença entre a Circuncisão e o Batismo Nesta altura fica fácil julgar e discernir em que se harmonizam e são semelhantes e em que diferem estes dois sinais e símbolos, a Circuncisão e o Batismo: A promessa que dissemos que constitui a virtude e eficácia dos sacramentos é uma e a mesma em ambos. E a promessa é da misericórdia de Deus, da remissão dos pecados e da vida eterna. A realidade simbolizada ou representada é sempre a mesma, qual seja, a nossa purificação e mortificação. A causa e fundamento destas coisas, que é Cristo, é o mesmo tanto na Cir- cuncisão como no Batismo; com base nele elas são confirmadas e se cumprem. Segue-se que não há diferençab alguma, quanto ao mistério interior, no qual reside toda a substância dos sacramentos, como já dissemosc . Toda a diversidade que se encontra é quanto ao cerimonial externo, que é a parte menos importante dos sacramentos, pois que a consideração principal depende da Palavrad e da realidade significada e representada. Portanto, podemos concluir que tudo o que pertence à circuncisão pertence igualmente ao Batismo, exceto a cerimônia ex- terna e visível. Regra paulina de interpretação da Escritura E a essa dedução nos conduz a regra apostólica50 que seguimose : que toda a Escri- tura se deve medir segundo a proporção e a analogia da fé, a qual sempre tem em vista as promessas. E, de fato, neste ponto quase que se pode tocar a verdade com as mãos. Porque, assim como a Circuncisão foi um sinal ou uma marca para os judeus, pela qual reconheciam que Deus os recebia como Seu povo e eles O confessavam como seu Deus, e dessa maneira servia como a primeira entrada externa na igreja de Deus, assim também pelo Batismo somos primeiramente 116 Para quem estranhar a letra final “n”, está correta essa declinação latina (N. do T.). a. Quase assim foi a conclusão do capítulo de 1536. b. vis et proprietas. c. Acréscimo de 1541. d. a promissione et re signata. e. ad hanc anagogen116 et comparationem nos manu ducit Apostoli regula (Rom. 12). Ver acima [título: O Batismo Infantil: Objeções e Respostas; subtítulo: A regra da fé]. 50 Anteriormente considerada neste capítulo. Ver Rm 12.3,6 (N. do T.).
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    170 As Institutas– Edição Especial recebidos na igreja do Senhor, para sermos reconhecidos como Seu povo, e nos declaramos desejosos de tê-lo como o nosso Deus. Por aí se vê claramentea que o Batismo substituiu a Circuncisão. À semelhança da Circuncisão, as crianças devem ser batizadas Agora, se alguém perguntar se o Batismo deve ser ministrado às crianças, supon- do que estão incluídas na ordenação de Deusb , quem será tão desprovido de bom sensoc que queira restringir-se a resolver o caso só levando em conta a água e a observância visível, sem considerar o mistério espiritual? Porque, se o tivermos em vista, não teremos dúvida alguma de que as crianças têm direito ao Batismo. Quando antigamente o Senhor ordenoud que se ministrasse a Circuncisão às cri- anças, declarou-as explicitamente participantes de tudo o que nela e por ela é representado. Se não fosse assim, com razão se poderia dizer que essa instituição não passa de um engano e uma mentira, e até de uma tremenda farsa. O que não se pode pensar nem tolerar entre os crentes. O Senhor disse expressamente que a Circuncisão ministrada à criança se- ria para confirmar a aliança que acima expusemos. Porque, como é certo que a aliança permanece sempre a mesma, é mais que certo que os filhos dos cristãos não são menos participantes dela do que o foram os filhos dos judeus no Antigo Testamento. Ora, se as crianças participam da realidade representada ou simbo- lizada, por que não deverão receber também o sacramento, que é seu símbolo ou sua representação? Cerrada argumentação pró pedobatismo Se formos estabelecer diferença entre o sinal visível e a Palavra, qual deve ser considerado mais importante e mais excelente? É claro e patente que, como o sinal serve à Palavra, esta lhe é superior. E, visto que a Palavra é comunicada às crianças, por que privá-las do sinal, que depende da Palavra? Se outra razão não houvesse, esta seria suficiente para fechar a boca dos que defendem opinião contrária. Quanto à objeção que alega que havia um dia marcado para a Circuncisão51 , esse argumento não tem razão de ser. É certo que o Senhor não nos impôs deter- minados dias, como fez com os judeus; nesse aspecto Ele nos deixou em liberda- de. Todavia, Ele declarou que as crianças sejam recebidas solenemente em Sua aliança. Vamos querer mais que isso? a. extra controversiam. b. 1539 tem somente: jure. c. ineptire, imo delirare dicemus. d. circumcisionis communione dignatus est. 51 Gn 17.12; 21.4 (N. do T.).
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    171 A aliança dagraça, fundamento da Circuncisão, é também o fundamento do Batismo infantil Mas a Escritura nos conduz a um maior conhecimento da verdade. Porque é plena- mente certo que a aliança que no passado Deus fez com Abraão, declarando-se seu Deus e da sua descendência, não se aplica menos aos cristãos hoje do que se aplica- va antigamente ao povo de Israel; e esta palavra não se aplica menos aos cristãos do que no passado se aplicava aos pais do Antigo Testamento. Pois, de outro modo, ocorreria esta conseqüência: A vinda de Cristo teria diminuído a graça e a miseri- córdia de Deus – mas dizer ou pensar isto seria uma horrenda blasfêmia! Linhagem santa – lá e cá Outra coisa: Assim como os filhos dos judeus eram chamados linhagem santa, porque eram herdeiros da aliança e eram separados dos filhos dos incrédulos e dos idólatras, assim também os filhos dos cristãos são chamados santos, ainda que só o pai ou a mãe seja crente; e o testemunho da Escrituraa os distingue52 . Pois bem, depois que o Senhor estabeleceu esta aliança com Abraão, determinou que a mesma fosse selada nas crianças com o sacramento visível e externo53 . Que desculpa podemos dar para não testificarmos a aliança e não a selarmos hoje como se fazia naquele tempo? E não vale replicar dizendo que o Senhor não instituiu nenhum outro sacramento para testificar esta aliança, senão o sacramen- to da Circuncisão, que já foi abolido. É fácil responder a essa objeção. Basta dizer que o Senhor instituiu a Circuncisão naquele tempo para confirmar a Sua aliança, e que, abolida a Circuncisão, continuou e continua sempre de pé a razão pela qual se deve confirmar a aliança, visto que ela atende tanto a nós como no passado aos judeus. E, portanto, devemos observar sempre o que temos em co- mum com eles, considerando também o que é semelhante e o que é diferente. A aliança é comum a nós e a eles, e o motivo para a sua confirmação é semelhante; a diferença consiste apenas nisto: Eles tinham a Circuncisão para confirmá-la, nós hoje temos o Batismo para esse mesmo fim. De outro modo, a vinda de Cristo teria feito que a misericórdia de Deus se manifestasse menos sobre nós do que o fez para os judeus – se nos fosse tirado o testemunho que eles tinham para os seus filhos. Se não se pode dizer isso sem fazer grave ultraje a Jesus Cristo, por inter- médio de quem a bondade infinita do Senhor foi distribuída e manifestada mais ampla e ricamente que nunca sobre a terra, é necessário conceder que a graça de Deus mediante Jesus Cristo não deve ser mais oculta nem menos segura que o era sob as sombras ou figuras da Lei. a. Uma frase análoga encerra em 1536 a seção De baptismo (Sobre o Batismo). 52 1Co 7.14. 53 Gn 17.10,12 (N. do T.).
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    172 As Institutas– Edição Especial Jesus e as crianças Por essa razão o Senhor Jesus, querendo mostrar que veio a este mundo para aumentar e multiplicar as graças de Seu Pai, e não para diminuí-las e restringi- las, recebeu e abraçoua bondosamente as crianças que Lhe foram apresentadas e repreendeu os Seus apóstolos, que queriam impedi-lasb e procuravam afastar dele, sendo Ele o único caminho de acesso aos céus, aqueles aos quais pertence o reino dos céus54 . Objeções e respostas Primeira: Mas alguém perguntará: Que semelhança há entre esse abraço de Jesus e o Batismo? Porque a narrativa não diz que as crianças foram batizadas, mas somente que Ele as abraçou e orou por elas. Se quisermos seguir fielmente o exemplo do Senhor, devemos orar pelas crianças, e não batizá-las, pois Ele não as batizou. Pois bem, devemos examinar melhor que essa gente a doutrina da Escritura, pois não foi alguma coisa leviana ou superficial que levou Jesus a querer que “os pequeninos” Lhe fossem apresentados; Ele mesmo acrescentou o motivo, dizen- do: “Porque dos tais é o reino dos céus”. E logo depois manifestou com atos a Sua vontade, abraçando-os e orando por eles. Agora, se é razoável levar crianças a Jesus Cristo, por que não há de ser lícito recebê-las para o Batismo, que é o sinal exterior pelo qual Jesus Cristo nos declara a comunhão que temos com Ele? Se o reino dos céus lhes pertence, como lhes negar o sinal que nos serve de ingresso na igreja para que, como membros da igreja, sejamos declarados herdeiros do reino de Deus? Não seríamos maus em expulsar aqueles que o Senhor chama a Si? Em negar-lhes o que Ele lhes dá? Em fechar-lhes a porta quando Ele a abre para eles? E se a questão é separar do Batismo aquilo que Jesus Cristo fez, que é que deve- mos considerar maior e mais importante: o fato de que Jesus recebeu os pequeninos, impôs as mãos sobre eles, sinal de santificação, e orou por eles, demonstrando que eles Lhe pertencem, ou que, pelo Batismo, testifiquemos que eles pertencem à Sua aliança?55 a. 1539 tem somente: comiter amplectitur. b. 1536 expunha brevemente este mesmo argumento. 54 Mt 19.13-15. 55 “Se é próprio trazerem-se as crianças a Cristo, por que não também serem recebidas ao batismo, símbolo de nossa própria comunhão e associação com Cristo? Se delas é o reino dos céus, por que se lhes negará o sinal pelo qual como que se lhes abre o acesso à Igreja, de sorte que, nela adotadas, sejam arroladas por herdeiras do Reino Celeste? Quão iníquos haveremos nós de ser, se enxotemos aquelas a quem Cristo convida a Si, se espoliemos aquelas a quem exorna de Seus dons, se excetuamos aquelas a quem Ele Próprio recebe gracio- samente? Ora, pois, se queremos deslindar quanto do batismo esteja longe o que Cristo fez ali, em quanto maior apreço, entretanto, teremos o batismo, pelo qual se nos atesta que as crianças estão incluídas no pacto de Deus, que a ação de recebe-las, o abraço, a imposição de mãos, a oração, com que o próprio Cristo presente declara não só serem Suas as crianças, mas também serem elas por Ele santificadas?” [João Calvino, As Institutas, IV.16.7].
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    173 As outras cavilaçõese manobras sutis feitas como meio de escapar da pas- sagem que estamos estudando são por demais frívolas. Claro, pois querer provar que as crianças eram já bem crescidasa , visto que Jesus as chamou e lhes disse que viessem a Ele, é argumento que evidentemente repugna ao texto da Escritura, que se refere àquelas crianças chamando-as de “criancinhas de colob56 ”, que pre- cisavam ser carregadas. Dessa forma, a palavra “vir” deve ser interpretada como “aproximar-se”,c simplesmente.Veja o leitor como os que teimam contra a verda- de procuram em cada sílaba matéria para as suas evasivas! Segunda objeção: Afirmar que Jesus não disse que o reino dos céus pertence às crianças, mas aos que são semelhantes a elas, também é outra escapatória. É o que digo porque, se fosse assim, por que motivo o Senhor haveria de mostrar que desejava que as criancinhas se aproximassem dele? Quando Ele diz, “Deixai vir a mim os pequeninos”, não há nada que seja mais certo que o fato de que Ele fala de crianças na idaded . E para dar a entender que o que faz é razoável, acrescenta: “Porque dos tais é o reino dos céus”. Nisso as criancinhas na idade estão necessari- amente incluídas. E devemos entender a expressão “dos tais” da seguinte maneira: Às crianças e aos que são semelhantes a elas pertence o reino dos céus. Terceira objeção: Já não pode haver quem não enxergue que o Batismo infantil não foi forjado temerariamente pelos homens, pois ele tem evidente apro- vação das Escrituras. E não nos impressiona a objeção feita por alguns, qual seja: Não se pode mostrar pela Escritura que alguma criança foi batizada pelos apósto- los. Não nos impressiona essa objeção porque, mesmo admitindo a inexistência de algum texto que o demonstre expressamente, não quer dizer que os apóstolos não tenham batizado crianças, visto que elas não são excluídas quando se faz menção de Batismo aplicado a uma família57 . Se fôssemos aceitar esse falso argu- mento, não poderíamos permitir que as mulheres fossem admitidas à Ceia do Senhor, pois nunca se diz na Escritura que elas tenham comungado no tempo dos apóstolos. Mas neste ponto seguimos a regra da fé, pertinente no caso, só levando em conta se a instituição da Ceia lhes convém, e se é da intenção do Senhor que seja ministrada a elas. É o que também fazemos com relação ao Batismo, tendo em vista o seguinte: Quando consideramos a finalidade para a qual ele foi orde- nado e instituído, vemos que este sacramento não pertence menos às crianças que às pessoas de mais idade. Dessa forma, negar o Batismo às crianças seria fraudar a intenção do Senhor. E o que alguns semeiam é pura mentira, quando dizem que só muito tempo depois dos apóstolos é que se introduziu a prática do Batismo a. grandiusculos. b. 1539: brefè kaì paidéia, quibus verbis significant Græc infantulos ab uberibus pendentes [...cujas palavras em grego significam crianças ou bebês pendentes dos seios]. c. accedere. d. veram infantiam. 56 O autor alude aqui ao texto de Lucas 18.15-17. Vide nota b (N. do T.). 57 At 16.15,33; 1Co 1.16 (N. do T.).
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    174 As Institutas– Edição Especial infantil. O fato é que não há nenhuma história antiga, desde o tempo da Igreja Primitiva, que não testifique que naquele tempo essa prática já estava em uso58 . Frutos do Batismo infantil Resta mostrar que proveito recebem os crentes da observância da prática de batizar os seus pequeninos, e que proveito recebem as próprias crianças do Batismo rece- bido nessa tenra idade. Não faltam os que o rejeitam como inútil e destituído de qualquer importância. Nisso cometem grande abuso. E quando fazem isso, o que de fato estão fazendo é zombar da instituição divina da Circuncisão, que merece igual estima e consideração. Há muitos argumentos com os quais se pode reprimir a temeridade e arrogância com que esses oponentes, tola e irracionalmente, conde- nam tudo o que não conseguem compreender com o seu entendimento carnal. Mas Deus nos supriu de armas melhores para abater a sua tola arrogância. Porque Ele não deixou Sua vontade tão oculta que não tenha mostrado claramen- te a utilidade da instituição aqui em apreço. É que o sinal dado aos pequeninos é um selo que confirma e como que ratifica a promessa feita pelo Senhor aos Seus servos de que derramaria a Sua misericórdia não somente sobre eles, mas tam- bém sobre a sua descendência, até mil gerações.59 Na manifestação da Sua misericórdia, em primeiro lugar é testificada a bon- dade de Deus para engrandecer e exaltar o Seu nome. Em segundo lugar, para consolar o crente e animá-lo a dedicar-se totalmente a Deus, ao ver que o miseri- cordioso Senhor não cuida somente dele, mas também dos seus filhos e da sua descendência. E não há por que dizer que a promessa seria suficiente para nos dar a certeza da salvação dos nossos filhos pequenos. Porque Deus vê o assunto com outros olhos, pois, sabendo como é fraca a nossa fé, quis fortalecê-laa desta for- ma. Portanto, quem descansar confiantemente na promessa de que Deus se dis- põe a fazer misericórdia à sua posteridade, deve apresentar seus filhos pequenos para que recebam o sinal da misericórdia divina. E se sentirá consolado e cor- roborado na fé ao contemplar a olhos vistos a aliança do Senhor sinalizada e selada no corpo dos seus filhinhos. Este proveito goza a criança batizada: A igreja cristã a reconhece como seu membro e a tem na mais singular estima e consideração. E ela, quando chegar à idade própria, estará mais inclinada a servir ao Senhor, que se havia declarado seu Pai antes de ela o conhecer, e que a tinha recebido nas fileiras do Seu povo desde o ventre de sua mãe. a. illi indulgere. 58 Exemplos: Orígenes, Comentário de Romanos, V, 9; Agostinho, Epístola 166, cap. VII, 21; Irineu, Contra as Heresias, livro II, cap. 22, 4; Cipriano, Epístola 64, 2. Note-se que Irineu viveu no segundo século (c. 120- 202) e Orígenes pouco tempo depois (186-c. 254) (N. do T.). 59 Comentando Rm 4.11: “Estes são selos pelos quais as promessas de Deus são de certa forma impressas em nossos corações, e a certeza da graça é confirmada.” [João Calvino, Romanos, 2ª ed., São Paulo, Edições Parakletos, 2001, (Rm 4.11), p. 157].
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    175 Finalmente, devemos temersempre o perigo que nos ameaça, se despre- zarmos o privilégio de assinalar os nossos filhos com o selo da aliança, de que o Senhor nos castigue por termos renunciado à bênção que nos é ofereci- da no Batismo60 . Argumentos dos antipedobatistas Passemos agora a considerar os argumentos com os quais aquele espírito maligno tem procurado envolver muitos no erro e na ilusãoa [1541], acobertado pelo pre- texto de que quer manter-se fiel à Palavra de Deus. Avaliemos também a força existente em todas as manobras de Satanás, com as quais ele tenta pôr abaixo esta santa ordenança do Senhor que sempre tem sido respeitada e cumprida em Sua igreja como se deve. Vejamos: 1º. Não há semelhança entre a Circuncisão e o Batismo Aqueles que, impelidos pelo Diabo a contradizer a firme e clara Palavra de Deus neste assunto, vendo-se pressionados e persuadidos da semelhança que de- monstramos que há entre a Circuncisão e o Batismo, esforçam-se para mostrar que há uma grande diferença entre estes dois símbolos ao ponto de não haver coisa alguma que seja comum a ambos. Em primeiro lugar, eles dizem que a realidade simbolizada é diferente. Em segundo lugar, que na Circuncisão a alian- ça é uma e no Batismo é outra. E, em terceiro lugar, afirmam que a palavra “cri- anças” deve ser entendida diferentemente. Acontece que, para provar o primeiro ponto, eles alegam que a Circuncisão era figura da mortificação, não do Batismo, o que concedemos prazerosamente, pois essa interpretação nos favoreceb . E a verdade é que, para provarmos a nossa posição, não empregamos outras palavras senão estas:A Circuncisão e o Batismo representam igualmente a mortificação. E assim concluímos que o Batismo subs- tituiu a Circuncisão, porque aquele significa para os cristãos a mesma coisa que esta significava para os judeus.61 Quanto ao segundo ponto, eles mostram como estão transtornados em seu espíritoc , pois, com a sua interpretação destroem, não somente uma passagem bíblica, mas toda a Escritura. Porque eles nos apresentam os judeus como um povo carnal e brutald , dizendo que eles só tinham aliança com Deus para a vida a. 1539: quibus sanctam hanc Dei institutionem furiosæ quædam belluæ impetere non cessant. As linhas seguintes não têm texto equivalente em 1539. b. nobis optime patrocinatur. c. quam barbara audacia. d. Palavra acrescentada. 60 Gn 17.14. 61 “Ao ficar estabelecido que a circuncisão serve somente para selar a graça de Deus, segue-se que ela não nos é de nenhum proveito hoje, pois temos um sinal divinamente instituído em seu lugar. (...) A circuncisão não é mais necessária onde existe o batismo....” [João Calvino, Romanos, 2ª ed. (Rm 4.11), p. 157].
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    176 As Institutas– Edição Especial temporal, e só tinham Sua promessa para os bens presentes e corruptíveisa . Se o que dizem fosse certo, que restaria senão considerar a nação de Israel como uma manada de porcos que o Senhor quis engordar ao máximo para depois deixá-los perecer eternamente? Porque sempre que contestamos os seus argumentos falan- do da Circuncisão e das promessas que ela representa, eles já têm na ponta da língua a resposta, dizendo que o sinal é literal e que as promessas são carnais. 2º. A Circuncisão era apenas uma representação literal e carnal O certo é que, se a Circuncisão fosse um sinal literal, também o Batismo o seria. Vê-se isso claramente no que o apóstolo Paulo diz em Colossenses 262 , onde ele afirma que uma ordenança não é mais espiritual que a outra, uma vez que em Cristo somos circuncidados, não segundo a Circuncisão feita com as mãos, quando fomos despojados de todo o pecado presente em nossa carne, a qual é a Circuncisão de Cristo. Logo após, para esclarecer isso, ele diz: “...tendo sido sepultados, junta- mente com ele [com Cristo] no batismo”. Que outra coisa quer dizer essa passa- gem, senão que o cumprimento do Batismo é o cumprimento da Circuncisão? Por- quanto ambos representam a mesma coisa. Porque Paulo quer mostrar que o Batis- mo é para os cristãos o que a Circuncisão era para os judeus. Agora, como acima expusemos claramente que as promessas destes dois sinais, bem como os mistérios que eles simbolizam, não diferem em nada, não nos deteremos mais demoradamente neste ponto. Tão-somente admoestamos os crentes a que pensem no seguinte: Devemos considerar carnal e literal um sinal quando tudo o que ele contém é espiritual e celestial? Entretanto, como eles ci- tam algumas passagens para nos impressionar com a sua mentira, resolveremos com três palavras as objeções que com relação ao seu segundo argumento eles poderiam apresentar. Não há dúvida de que as principais promessas que o Senhor fez a Seu povo no Antigo Testamento, as quais constituíram a aliança que Ele fez com os filhos de Israel, eram espirituais e pertinentes à vida eterna, e de igual modo foram entendidas espiritualmente pelos pais, levando-os a conceber a esperança da gló- ria futura e a se sentirem arrebatados de amor por ela. Todavia, não negamos que o Senhor lhes tenha manifestado a Sua bondade por meio de outras promessas, carnais e terrenas, até mesmo para confirmar as promessas espirituais. Vemos exemplo disso no fato de que, depois de haver prometido a bem-aventurança imperecível ao Seu servoAbraão, Deus acrescentou a promessa da terra de Canaã, para lhe manifestar Sua graça e o Seu favor para com ele. Dessa forma devemos entender todas as coisas terrenas prometidas ao povo judeu, notando que a pro- messa espiritual sempre antecede a terrena, como fundamento e princípio, e como centro referencial de tudo mais. a. corporeis. 62 Cl 2.11.
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    177 3º. Os filhosde Abraão são unicamente os seus descendentes carnais A diferença que os oponentes querem introduzir entre as crianças doAntigo Testamento e as do Novo é a seguinte: Naquele tempo os filhos de Abraão eram a sua linhagem carnal; agora, seus filhos são os que seguem a sua fé. Por isso os meninos que na idade própria eram circuncidados, representavam os filhos espi- rituais que pela Palavra de Deus são regenerados, nascendo para uma vida incorruptível. Reconhecemos aí uma minúscula centelha de verdade. Mas esses tais erram absurdamente e revelam pouca inteligência quando, tendo lido alguma coisa, não entendem que devem prosseguir na leitura e examinar o que vem adi- ante, para considerar tudo o que diga respeito ao assunto visado. Reconhecemos que durante algum tempo a descendência corporal deAbraão ocupou o lugar dos filhos espirituais que pela fé são incorporados a ele, apesar de não terem nenhum parentesco de carne e sangue com elea . Mas se eles entendem, como o demonstram as suas palavras, que o Senhor não prometeu Sua bênção espiritual aos descendentes físicos deAbraão, nisso erram rotundamente. Eis aqui, pois, a maneira certa de entender isso, à qual nos conduz a Escritura: O Senhor prometeu a Abraão que dele procederia a descendência por meio da qual todas as nações da terra seriam abençoadas e santificadas, e lhe assegurou que seria o seu Deus e o Deus da sua posteridade. Todos quantos recebem a Jesus Cristo pela fé são herdeiros dessa promessa, razão pela qual são chamados filhos de Abraão. Pois bem, é certo que, após a ressurreição de Jesus Cristo, o reino de Deus tem sido proclamado a todos, indistintamente, abrindo acesso a todos os povos e nações, para que, como Ele diz, sejam reunidos os crentes de todas as partes do mundo, do Oriente e do Ocidente, e tenham lugar no reino celestial, na compa- nhia de Abraão, de Isaque e de Jacó63 . Todavia, durante todo o tempo anterior à ressurreição de Cristo, o Senhor normalmente mantinha essa misericórdia espe- cial restrita aos judeus, os quais Ele declarou que constituíam o Seu reino, o Seu povo peculiar, a sua propriedade singularmente adquirida64 . Então o Senhor, para manifestar Sua graça para com essa nação, instituiu a Circuncisão, para lhes ser- vir de sinal pelo qual Ele se declarava seu Deus e os recebia sob a Sua proteção, para conduzi-los à vida eterna. Citação do apóstolo Paulo Foi por essa causa que Paulob , desejoso de mostrar que, como os judeus, os gen- tios são filhos de Abraão, pronuncia-se nestes termos: “Como pois lhe foi atribu- ída [a justiça a Abraão]? Estando ele já circuncidado, ou ainda incircunciso? Não no regime da circuncisão e sim quando incircunciso. E recebeu o sinal da circun- a. naturalis cognatio (termos do direito romano). b. Calvino comentou a Epístola aos Romanos durante o seu ministério em Estrasburgo, onde também foi impressa a edição de 1539 das Institutas. 63 Mt 8.11 (N. do T.). 64 Êx 19.5 (N. do T.).
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    178 As Institutas– Edição Especial cisão como selo da justiça da fé que teve quando ainda incircunciso; para vir a ser o pai de todos os que crêem, embora não circuncidados, a fim de que lhes fosse imputada a justiça, e pai da circuncisão, isto é, daqueles que não são apenas circuncisos, mas também andam nas pisadas da fé que teve Abraão, nosso pai, antes de ser circuncidado”.65 Não vemos como ele os nivela e os iguala em digni- dade? Porque durante o tempo que para isso Deus determinou, ele foi o pai dos crentes circuncisos; e, quando foi derribada a parede de separação, como diz o apóstolo, para dar acesso aos que estavam foraa a fim de que entrassem, ele foi também feito pai destes, os quais não foram circuncidados.66 Assim é porque o Batismo lhes serve de Circuncisão. E o que Paulo registra expressamente, que Abraão não é pai dos que não tem nada mais que a Circuncisão, visa o objetivo de abater a vã confiança daqueles judeus que só se atinham às cerimônias externas. A mesma coisa se pode dizer do Batismo, para refutar o erro daqueles que só se preocupam com a água. Explicação de Romanos 9.7,8 Mas, que será que o apóstolo quer dizer noutra passagem, quando ensina que “os verdadeiros filhos de Abraão não são os que descendem da carne, mas somente os filhos da promessa são reputados como sua semente”?67 Transparece dessas palavras que ele quer concluir que não adianta nada alguém ser descendente de Abraão segundo a carne. É preciso notar diligentemente aqui a intenção do após- tolo Paulo. Porque, para mostrar aos judeus que a graça de Deus não está ligada à descendência de Abraão segundo a carne, e que esse parentesco de sangue em si não merece nenhuma estima, ele os leva, no capítulo nove de Romanos, a Ismael e a Esaú, que, embora descendentes de Abraão, foram rejeitados como estranhos, e a bênção foi dada a Isaque e a Jacó. Por conseguinte, como ele mesmo conclui, a salvação depende da misericórdia de Deus, que Ele concede a quem Lhe apraz. E também que os judeus não devem vangloriar-se de que constituem a igreja de Deus, se não obedecem à Sua Palavra. Contudo, depois de açoitar a sua pretensa glória, sabendo por outro lado que a aliança feita com Abraão e para a sua des- cendência não é destituída de importância, no capítulo onze ele declara que não se deve desprezar tal aliança e que eles são os primeiros herdeiros do Evangelho, a não ser que, por sua ingratidão, se façam indignos. Mas, por mais incrédulos que sejam, não deixa de chamá-los santos, por causa da santa progênie68 da qual descendem, e afirma que nós, comparados com eles, não passamos de filhos abortivos, tendo sido enxertados na raiz ou no tronco vivo do qual eles são os a. Termo do direito francês. 65 Rm 4.10-12. 66 Ef 2.14 (N. do T.). 67 Rm 9.8, tradução direta. 68 1Co 7.14.
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    179 ramos naturais. Poressa causa foi necessário apresentar o Evangelho primeira- mente a eles, como sendo os primogênitos da casa do Senhor. Cabia-lhes essa prerrogativa, até quando a recusaram. Ainda assim, não devemos desprezá-los, seja qual for a rebelião que vejamos neles, confiantes em que a bondade do Se- nhor ainda está sobre eles por causa da promessa. Porque Paulo testifica que esta nunca se apartará deles, dizendo que os dons e a vocação de Deus são sem arre- pendimento e são imutáveis69 .70 Conclusão desta parte: A aliança e seus benefícios são os mesmos para judeus e gentios Do que foi dito se vê quão importantea é a promessa feita a Abraão acerca da sua posteridade. Por isso, embora a eleição domine sobre este assunto, para discernir entre os herdeiros do reino celestial e aqueles que não têm parte nele, aprouve ao bom Deus estabelecer de maneira especial a Sua misericórdia na linhagem de Abraão atestando-a e selando-a com a Circuncisão. Pois bem, atualmente entre os cristãos a razão é a mesma. Porque como em Romanos 11 o apóstolo Paulo declara que os judeus são santificados por sua raiz e sua origem, noutro lugar71 ele afirma que agora os filhos dos cristãos são santificados por seus pais, deven- do ser separados dos filhos dos não crentes, os quais permanecem impuros. Daí se pode facilmente concluir que, conseqüentemente, é falso o que os nossos opositores pretendem, a saber, que as crianças pequenas que foram circuncidadas só representavam as crianças espirituais, regeneradas pela Palavra de Deus. Pau- lo não elevou tanto assim essa questão quando escreveu72 : “Cristo foi constituído ministro da circuncisão, em prol da verdade de Deus, para confirmar as promes- sas feitas aos nossos pais”. Como se dissesse: “Assim como as promessas feitas a Abraão e aos demais patriarcas destinam-se também à sua descendência, assim também Jesus Cristo, para cumprir a verdade de Seu Pai, veio a este mundo para levar essa nação à salvação”. Eis como, após a ressurreição de Jesus Cristo, Paulo entende que a promessa sempre deve se cumprir literalmente. Vemos a mesma verdade no que diz Pedro no capítulo dois de Atos, quando anuncia aos judeus que a promessa pertence a eles e também aos seus filhos ou descendentes. E no capítulo três73 lhes chama “filhos da aliança”, ou seja, herdei- ros dos testamentos, sempre em atenção à referida promessa. O que é claramente demonstrado pela passagem do apóstolo Paulo que citei acima74 . Porque a Cir- a. quid valeat et qua lance metienda. 69 Rm 11.29. ARA: “...os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis” (N. do T.). 70 “Esta não pode ser entendida como sendo qualquer vocação, mas aquela vocação por meio da qual Deus adotou a progênie de Abraão em seu pacto.” [João Calvino, Romanos, 2ª ed., (Rm 11.29), p. 422]. 71 1Co 7.14. 72 Rm 15.8. 73 At 3.25 (N. do T.). 74 Ef 2.11-14.
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    180 As Institutas– Edição Especial cuncisão, dada para as crianças pequenas, foi instituída por Deus para testemu- nho da comunhão espiritual com Cristo. E, de fato, que é que se poderia respon- der à promessa que o Senhor fez aos crentes, por meio da Sua Lei, anunciando que faria misericórdia aos seus descendentes até mil gerações? Diremos que tal promessa foi abolida? Mas isto seria destruir a Lei de Deus, a qual foi estabelecida por Cristo75 , tendo em conta que ela é benéfica a nós e à nossa salvação. 4°. Outras diferenças alegadas Outras diferenças que os nossos oponentes se esforçam para mostrar entre a Circuncisão e o Batismo são totalmente ridículas, sem propósito e contraditórias. Porque, logo depois de afirmarem que o Batismo pertence ao primeiro dia da batalha cristãa76 e a Circuncisão ao oitavo, dizem que a Circuncisão simboliza a mortificação do pecado e o Batismo o sepultamento que ocorre depois que nele morremos. Certamente nem um louco poderia contradizer-se de maneira tão clara e patente! Porque da primeira afirmação se poderia deduzir que o Batismo deve preceder à Circuncisão, e da segunda, que deve ser posterior à ela. Mas não te- mos por que nos espantar com tal contradição, pois o espírito do homem, dado a inventar fábulas e fantasias que mais parecem sonhos, é propenso a cair em ab- surdos como esse. Dizemos, pois, que dessas duas diferenças que eles apontam, a primeira é fruto de puro devaneio. Não é desse modo que se deve alegorizarb o oitavo dia, ou interpretá-lo alegoricamente. Muito melhor seria explicá-lo como o fizeram os doutores antigos, segundo os quais o oitavo dia representa a renovação da vida, que depende da ressurreição de Cristo, a qual ocorreu no oitavo dia77 . Ou então, que é necessário que esta Circuncisão do coração dure perpetuamente, enquanto durar a presente existência78 . Se bem que, ao que parece, o motivo da protelação até o oitavo dia seria que O Senhor levou em conta a fragilidade dos bebês. Que- rendo Ele que a Sua aliança fosse impressa em seu corpo, é provável que tenha dado esse prazo para que se fortalecessem e sua vida não fosse posta em perigo. A segunda diferença de que falam não é menos correta nem mais sólida, porque dizer que pelo Batismo somos sepultados depois da mortificação é uma zombaria. É evidente que somos sepultados para sermos mortificados, como a Escritura ensina79 . a. spiritualis certaminis. b. allegorízein. 75 Mt 5.17-19 (N. do T.). 76 A vida cristã vista como um combate (N. do T.). Apud Institutas, edição francesa de 1560. 77 Agostinho, Epístola 157, cap. III,14. Sermão 169,3 (N. do T.). Apud Institutas, edição francesa de 1560. 78 Id. Ibid. Contra Fausto, livro XVI, cap. XXIX (N. do T.). 79 Rm 6.4-6.
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    181 E as meninas? Finalmenteeles alegam que, se havemos de tomar a Circuncisão como funda- mento do Batismo, não deveríamos batizar as meninas, visto que somente as crianças do sexo masculino eram circuncidadas. Mas se eles considerassem bem o significado da Circuncisão, deixariam de lado esse frívolo argumento. Porque, como por meio desse sinal o Senhor demonstrava a santificação da descendência de Israel, é certo que servia a ambos os sexos. Mas não se aplicava o sinal às meninas pela óbvia razão de que sua natureza física não o permite. Assim o Se- nhor, ao ordenar que os varões fossem circuncidados, incluía em sua significação o sexo feminino que, não podendo receber a circuncisão em seu próprio corpo, compartilhava de algum modo o Circuncisão dos varões. Sendo assim rejeitadas e abandonadas, como merecem, todas essasa tolas fantasias, permanece a veracidade da semelhança existente entre o Batismo e a Circuncisão, no tocante ao mistério interior, às promessas, ao uso e à eficácia. 5º. Por que batizar as crianças, se elas não entendem o significado do Batismo? Outro motivo para que as crianças não sejam batizadas, apresentado pelos nossos oponentes, é que elas não podem entender o mistério representado pelo sacramentob . Esse mistério é a regeneração, para a qual as crianças são incapazes. Por isso concluem que as crianças devem ser deixadas como filhas de Adão, até que cresçam e possam receber a regeneração. Mas, tudo isso contradiz impiamente a verdade de Deus. Porque, deixar os pequeninos na condição de filhos de Adão é deixá-los na morte, visto que [1539] em Adão outra coisa não podemos fazer senão morrer. [1539] Entretanto, contra- riamente a isso, Jesus Cristo declara que se permita que os pequeninos se aproxi- mem dele. Por quê? Porque Ele é a vida. Jesus Cristo quer que os pequeninos participem dele para Ele os vivificar80 , ao passo que aqueles que aqui batalham contra a Sua vontade querem que eles permaneçam na morte. Porque, se, maqui- nando em suas sutilezas, os tais pensam que as crianças não perecem, apesar de serem deixadas como filhas de Adão, seu erro é categoricamente refutado pela Escritura. Isso ocorre, por exemplo, quando a Escritura afirma que em Adão to- dos morremos, e que só mediante Cristo podemos esperar receber vida81 . Semelhantemente, outra passagem82 afirma que por natureza somos filhos da ira, concebidos em pecado, o que sempre traz consigo condenação. Segue-se, pois, que precisamos livrar-nos da nossa natureza para podermos ter parte no reino de a. talibus (1541 tem, por erro: ses). b. É a primeira objeção, à qual ele já tinha respondido em 1536 noutros termos. 80 1Co 15.22. 81 Rm 5.12-21 (N. do T.). 82 Ef 2.3; Sl 51.5.
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    182 As Institutas– Edição Especial Deus. E seria possível falar em termos mais francos e mais claros do que estes? – “A carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus”.83 Portanto, é necessário que tudo quanto há em nós seja aniquilado para que sejamos feitos herdeiros de Deus, o que não nos poderá acontecer se não formos regenerados. Em suma, é preciso que a Palavra de Jesus Cristo permaneça verdadeira, isto é, que se reco- nheça que Jesus Cristo diz a verdade quando afirma que Ele é a vida.84 Por conse- guinte, temos que estar nele para podermos escapar da escravidão da morte. 6º. Se os pequeninos não conhecem o bem e o mal, como poderão ser regenerados? Argumentam, porém, os tais opositores, indagando: Como é que os pequeninos podem ser regenerados, sendo que não conhecem o bem e o mal? A isso respondemos que, embora a obra de Deus seja misteriosa e incompreensívela para nós, não é por isso que Ele vai deixar de realizá-la. Ora, que o Senhor rege- nera crianças, se as quer salvar, como é certo que salva algumas, é mais que evidente. Porque, como elas nascem herdando a corrupção, é necessário que se- jam purificadas, antes de poderem entrar no reino celestial, no qual não entra nada que esteja contaminado.85 Se nascem pecadoras, como Davi e Paulo testificam que nascem, necessitam receber a justificação para serem aceitas por Deus. E que mais queremos saber, se o próprio Senhor Jesus declara que é necessário que todos nós nasçamos de novo para que possamos entrar no reino de Deus? E para fechar a boca dos murmuradores, no que fez com João Batista o Senhor mostrou o que pode fazer com outras pessoas, quando o santificou desde o ventre de sua mãe.86 E é inaceitável a desculpa sutil segundo a qual o fato de que se fez isso uma vez não significa que será sempre feito assim. Não é o que queremos dizer. Só queremos demonstrar que os nossos opositores querem impiamente restringir o poder de Deus em favor das crianças, poder que Ele manifestou uma vez agindo em João Batista. Mas eles insistem, vindo com outra evasiva, quando afirmam que a expressão “desde o ventre da mãe” é um modo de falar da Escritura que significa, “desde a juventude”. Que essa alegação não tem fundamente vê-se do fato de que, quando o anjo falou com Zacarias, afirmou que, ainda estando no ventre de sua mãe, o meni- no seria cheio do Espírito Santo. O certo é que O Senhor santifica a quem Ele deseja santificar, como fez com João, pois a Sua mão não está encolhida.87 a. etiam si captui nostro non subjaceat. Cf. 1536: si assequi non possumus, cogitemus quam... ejus consilia sint abstrusa sensibus nostris. 83 1Co 15.50 (N. do T.). 84 Jo 11.25; 14.6 (N. do T.). 85 Ap 21.27 (N. do T.). 86 Lc 1.15 (N. do T.). 87 Is 59.1 (N. do T.).
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    183 As crianças compartema santificação de Cristo, nele operada em Sua infância Para que terá sido Jesus Cristo santificado em Sua infância? Para que pessoas de todas as idades fossem santificadas nele, segundo o Seu santo querer. Porque, assim como Ele se revestiu da nossa carne e assumiu um corpo em tudo seme- lhante ao nosso, menos no pecado, para dar satisfação pela ofensa cometida em nossa carne e para cumprir toda a justiça com obediência perfeita, assumindo a nossa natureza, que Ele quis salvar, e também para nos fortalecer com ternura e compaixão, assim também, desde a Sua concepção Ele foi plenamente santifica- do em Sua natureza humana para santificar os Seus, as crianças inclusive. Ambos os fatos acima descritos são fartamente testificados na Escritura. Quanto ao pri- meiro, Ele é declarado descendente deAbraão e de Davi. Mais que isso, é chama- do Filho de ambos, porque descende da linhagem e da posteridade deles, como diz o apóstolo Paulo quando declara que Ele veio dos judeus segundo a carne. Em confirmação disso, noutro lugar lemos que “Ele não se revestiu da natureza dos anjos, mas da semente do homem”, e logo após nos é dada a razão disso – “para que em tudo fosse semelhante a nós, exceto no pecado”88 .89 O que acentua o fato de que em nossa própria carne e em nossa real e verdadeira humanidade Ele cumpriu tudo o que diz respeito à nossa redenção.90 Quanto ao segundo ponto, temos que Ele foi concebido pelo Espírito San- to, a fim de que a Sua natureza humana fosse plenamente santificada, para derra- mar sobre nós o fruto da Sua santificação. Ora, se Jesus é o modelo e o exemplo de todas as graças que o Senhor distribui a Seus filhos, nesta parte Ele também pode ser modelo e exemplo, no sentido de que a mão de Deus não está encolhida para com os pequeninos – não mais encolhida que para com os demais. Sendo, pois, assim, é necessário concluir que o Senhor não tira do mundo nenhum dos Seus escolhidosa sem antes santificá-lo e regenerá-lo por Seu Espírito. E a alegação de que a verdade revelada não reconhece outra regeneração senão a que é realizada pela semente incorruptível, que é a Palavra de Deus, a. Cf. 1536: omnes Dei electos per fidem ingredi in vitam æternam. 88 Hb 2.16; 4.15, tradução direta (N. do T.). 89 “O grande amor de Deus para com a humanidade é demonstrado pelo fato de o Filho de Deus não ter vindo à terra como um anjo, e sim como homem – O homem Cristo Jesus – tendo natureza humana como a nossa.” [John Owen, A Glória de Cristo, São Paulo, PES., 1989, p. 8]. 90 “A descrição mais adequada da pessoa de Cristo está contida nas palavras ‘Deus se manifestou em carne’. Em primeiro lugar, temos aqui uma afirmação distinta de ambas as naturezas, pois o apóstolo declara que Cristo é ao mesmo tempo verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Em segundo lugar, ele põe em evidência a distinção entre as duas naturezas, pois primeiramente o denomina de Deus, e em seguida declara sua mani- festação em carne. E, em terceiro lugar, ele assevera a unidade de sua Pessoa, ao declarar que ela era uma e mesma Pessoa que era Deus e que se manifestou em carne. Nesta única frase, a fé genuína e ortodoxa é poderosamente armada contra Ário, Marcião, Nestório e Êutico. Há forte ênfase no contraste das duas palavras: Deus e carne. A diferença entre Deus e o homem é imensa, e todavia em Cristo vemos a glória infinita de Deus unida à nossa carne poluída, de tal sorte que ambas se tornaram uma só.” [João Calvino, As Pastorais, São Paulo, Paracletos, 1998, (1Tm 3.16), p. 100].
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    184 As Institutas– Edição Especial respondemos que os que fazem tal objeção entendem mal as palavras do apóstolo Pedro91 . Ao dizer isso, ele dirige suas palavras unicamente aos que já tinham sido instruídos no Evangelho, para os quais certamente a Palavra de Deus sempre é semente de regeneração espiritual. Não se pode inferir daí, porém, que as crian- ças pequenas não possam ser regeneradas pelo poder do Senhor, oculto e misteri- oso para nós, mas para Ele, claro e fácil. Acresce que não é certo nem seguro afirmar que o Senhor não pode manifestar-se de algum modo às criancinhas. 7°. As crianças não podem exercer fé Mas os nossos opositores insistem, e perguntam: “Como as crianças podem ser objeto do Batismo, uma vez que o apóstolo Paulo afirma que a fé é pelo ouvir92 , e as crianças pequenas não discriminam nem o bem nem o mal? Mas eles não consideram que Paulo aqui fala somente da maneira comum pela qual o Se- nhor age para fazer aos Seus a dádiva da fé. Não significa que Ele não possa usar outros meios, como de fato os tem usado muitas vezes com muitos, tocando o seu íntimo para trazê-los ao conhecimento do Seu nome, sem jamais fazê-los ouvir a Sua Palavra. E, visto que lhes parece que isso contraria a natureza das crianças, as quais, segundo Moisés93 , não sabem distinguir entre o bem e o mal, eu lhes pergunto por que querem restringir o poder de Deus, como se Ele não soubesse fazer em parte às crianças o que Ele realmente lhes faz perfeitamente? Porque, se a plenitude da vida consiste em conhecer perfeitamente a Deus, considerando que o Senhor reserva para a salvação alguns que morrem na infância, sem dúvida eles recebem plena manifestação de Deus. E então, se eles recebem esse conheci- mento perfeitamente na vida futura, por que não podem sentir aqui um pouco do seu gostoa ? Não é que pretendamos afirmar que as criancinhas têm féb (pois não sabemos como Deus trabalha nelas). Mas a nossa intenção é mostrar a temerida- de e a presunção daqueles que, seguindo a sua estulta fantasia, afirmam e negam o que lhes dá na telha, sem dar a mínima atenção a toda a argumentação que se poderia apresentarc . 8º. As criancinhas não podem arrepender-se Mas os tais nos pressionam ainda mais, dizendo que o Batismo é o sacra- mento do arrependimento e da fé, como nos ensina a Escriturad . E como as crian- ças pequenas não podem exercer o arrependimento e a fé, não há propósito em aplicar a elas o sacramento, porque fazê-lo é tornar nula a sua significação. Só a. exígua scintilla. Cf. 1536: cur non illis hic gustum aliquem et primitias dare possit. b. 1539 acrescenta: quam in nobis experimur (quod in suspenso relinquere malim). c. prout inflata bucca. d. …e como Calvino o expunha desde 1536. 91 1Pe 1.23. 92 Rm 10.17. Grego: he pístis ex akoês (N. do T.). 93 Dt 1.39.
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    185 que esse argumentovai mais contra Deus do que contra nós, porque a Circunci- são era símbolo de arrependimento, como o demonstram muitos testemunhos da Escritura, principalmente o que vemos no capítulo quatro de Jeremias. E o pró- prio apóstolo Paulo chama o sacramento da Circuncisão de “selo da justiça da fé”.94 Que se questione a Deus, então, pedindo-lhe a razão pela qual Ele ordenou que fosse aplicada aos pequeninos. Porque a razão é a mesma: se foi razoável aplicar a Circuncisão às crianças, não é menos razoável aplicar-lhes o Batismo. Se recorrerem aos seus costumeiros subterfúgios e afirmarem que as crianças na idade representam as que são espiritualmente crianças, graças à regeneração, esse recurso já foi eliminado. Uma firme declaração a respeito Eis, pois, o que dizemos: Uma vez que o Senhor quis que a Circuncisão, mesmo sendo sacramento do arrependimento e da fé, fosse comunicada aos pequeninos, não há nenhum inconveniente em que o Batismo lhes seja comunicado. Se não é que esses caluniadores prefiram acusar Deus por ter ordenado essa prática. Mas a verdade, a sabedoria e a justiça de Deus refulgem com claríssimo brilho para confundir a loucura, a mentira e a iniqüidade desses tais. Porque, embora os pequeninos ainda não entendam o significado da Circuncisão, eram circuncida- dos na carne para a mortificação interior da sua natureza corrompida, para que, na idade própria, a estudassem e meditassem nela, recebendo assim adequada instrução desde a infância. Dessa maneira podem ser explicadas todas as passagens referentes ao signi- ficado do Batismo e que os nossos opositores citam. Um exemplo é a passagem na qual o apóstolo Paulo descreve o Batismo como “o lavar regenerador e reno- vador do Espírito Santo”.95 Com essa passagem eles pretendem que só devem ser batizados os que estão em condições de ser regenerados e renovados. Mas sem- pre teremos o que responder. No presente caso, lembramos que a Circuncisão é sinal de regeneração e renovação, e só deveria ser aplicada aos que já dessem mostras de que foram regenerados e renovados. E, se fosse como querem os que fazem tal objeção, a ordenança estabelecida por Deus que mandava circuncidar os pequeninos seria tola e irracional. Portanto, todos os argumentos utilizados para combater o Circuncisão de nada valem contra o Batismo. E eles não nos podem caluniar, ou seja, insinuar que agimos com má inten- ção, quando afirmam que se deve tomar como líqüido e certo o que o Senhor instituiua , aceitando-o como algo bom e santo, sem se fazer investigação a respei- to, reverência que não merecem as coisasb não expressamente ordenadas por Ele. a. statum nobis ac fixum, quo Dei authoritate certo nititur. b. nec pædobaptismo debetur neque aliis similibus. 94 Rm 4.11 (N. do T.). 95 Tt 3.5.
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    186 As Institutas– Edição Especial Acusação que, desde logo, não pede outra resposta senão esta: Ou Deus instituiu por bom motivo a Circuncisão ou não. Se foi instituída com bom fundamento, de modo que não se possa alegar nenhum absurdo contra ela, a mesma coisa se pode dizer do Batismo. Ampliando a resposta Ao argumento acima exposto contra o Batismo infantil respondemos da seguinte maneira: Os pequeninos que recebem o sinal da regeneração e da renovação, se passam deste mundo antes de chegarem à idade da razão, caso tenham sido esco- lhidos pelo Senhor, são regenerados e renovados pelo Seu Espírito, como Lhe apraz, segundo o Seu poder, para nós oculto e incompreensível. Se chegarem à idade em que possam ser instruídos na doutrina do Batismo, saberão que em toda a sua vida não deverão fazer outra coisa senão meditar nesta regeneração, cujo sinal trazem em si desde a sua infância. Assim também se deve entender o que o apóstolo diz no capítulo seis de Romanos e no capítulo dois de Colossenses, a saber: “Fomos, pois, sepultados com ele [Cristo] na morte pelo batismo”. Paulo não quer dizer com isso que o sepultamento deve preceder ao Batismo, mas ape- nas ensina a doutrina do Batismo e deixa claro que essa doutrina tanto se pode mostrar e aprender depois de ser recebido o referido sacramento como antes. Por isso mesmo, Moisés e os Profetas96 igualmente demonstravam uma e outra vez ao povo de Israel o significado da Circuncisão, sendo que os israelitas tinham sido circuncidados na infância. Portanto, quem quiser concluir que tudo o que é representado pelo Batismo deve preceder ao mesmo, erra grosseiramente. Basta reparar que essas coisas foram escritas a pessoas que já tinham sido batizadas. Ensina a mesma coisa o apóstolo Paulo quando diz aos gálatas: “Todos quantos fostes batizados em Cris- to de Cristo vos revestistes”.97 Essa é uma verdade apostólica. Mas com que fina- lidade o apóstolo diz isso? Para que daí em diante vivessem em Cristo. Não por- que tivessem vivido antes nele. Tenha-se em conta igualmente que, embora os adultos não devam receber o sinal sem antes terem entendido o seu sentido, dife- rente deve ser o raciocínio com relação aos pequeninos, como explicaremos nou- tro lugar. Portanto, todas as razões alegadas por nossos opositores não passam de perversões da Escritura, como qualquer pessoa pode ver. 9º. Respostas a argumentos sobre o Batismo visto em relação à purifi- cação do pecado Tratemos resumidamente de alguns outros argumentos que podem ser deslindados com facilidade. Os nossos oponentes alegam que o Batismo é a re- 96 Dt 10.16; Jr 4.4. No presente caso e noutros semelhantes, uso inicial maiúscula para “Profetas” por entender que se refere a uma divisão do Velho Testamento. Vide Lc 24.44 (N. do T.). 97 Gl 3.27 (N. do T.).
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    187 missão dos nossospecados. Nisso cometem grande erro. Por que ignorar o san- gue de Jesus Cristo, sendo que unicamente nele temos purificação total e comple- ta? Mas, desculpando sua falta, a qual é comum entre eles, para dar mais realce ao seu argumento vamos formulá-lo baseando-nos na Escritura. O Batismo é um testemunho da remissão dos nossos pecados, dizem eles. Nisso concordamos. E por essa razão dizemos que é próprio aplicá-lo aos pequeninos. Porque, sendo pecadores como são, precisam do perdão e da remis- são das máculas do pecado. Pois bem, se o Senhor declara que quer usar de mise- ricórdia para com os que pertencem a essa tenra idade, por que haveríamos de negar-lhes o sinal, que é muito menos importante que a sua realidade espiritual? Por isso voltamos o argumento dos nossos opositores contra eles. O Batismo é sinal da remissão dos pecados. Os pequeninos têm a remissão dos seus pecados. Logo, o sinal, que deve ser subseqüente à realidade significada, por direito lhes deve ser comunicado. Eles apresentam, como outro argumento, o que está escrito no capítulo cin- co de Efésios, versículo 26, onde lemos que Cristo se entregou à igreja, “para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra”. Mas isso também vai contra eles, porque dessa declaração deduzimos este argu- mento: Se o Senhor deseja que a purificação que Ele faz da Sua igreja seja testificada e confirmada pelo sinal do Batismo, e os pequeninos são da igreja, visto que são contados como pertencentes ao povo de Deus, e que pertencem ao reino dos céus, segue-se que eles devem receber o atestado da sua purificação, como o restante da igreja. Porque em sua declaração o apóstolo inclui, sem ne- nhuma exceção, toda a igreja em geral, quando afirma que o Senhor a purificou pelo Batismo. Do que eles alegam, citando o capítulo doze da Primeira Epístola aos Coríntios – que, “pelo batismo somos incorporados em Cristo”,98 pode-se fazer a mesma dedução. Porque, se os pequeninos pertencem ao corpo de Cristo (como transparece do que foi dito), é próprio e pertinente que eles sejam batizados, para que se unam aos membros do corpo de Cristo. Veja só o leitor como esses opositores lutam fortemente contra nós, citando passagens e mais passagens que eles acumulam, mas de uma forma em que não se vê nem sentido, nem razão de ser, nem inteligência. 10º. Os apóstolos não ministraram o Batismo infantil Depois, apelando para a prática dos apóstolos, os tais querem mostrar que só os adultosa estão aptos para receber o Batismo. Eles citam o apóstolo Pedro e dizem que, sendo ele interrogado pelos que se inclinavam a converter-se ao Se- nhor sobre o que deveriam fazer, respondeu-lhes99 : “Arrependei-vos, e cada um a. 1539 tinha uma frase: nemo nisi fidem ante, pœnitentiamque professus. 98 Rm 12.13, tradução direta (N. do T.). 99 At 2.37,38.
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    188 As Institutas– Edição Especial de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados”. Igualmente, quando o eunuco perguntou a Filipea se não era lícito que ele fosse batizado, Filipe lhe respondeu: “É lícito, se crês de todo o coração”.100 Dessas palavras os nossos oponentes concluem que o Batismo foi instituído somente para os que têm fé e arrependimento. Entretanto, se é para seguir esse procedimento, note-se que, pela primeira passagem, bastaria o arrependimento, uma vez que não se faz menção alguma da fé; e, pela segunda, que a fé seria suficiente, visto que nela não se pede o arrepen- dimento. Eles me dirão que uma passagem presta auxílio à outra e que, por isso, é preciso juntá-las para obter-se bom entendimento. Ao que respondemos dizen- do que, semelhantemente, para haver coerência, é necessário reunir as outras passagens que podem ajudar-nos a eliminar essa dificuldade, pois muitas vezes o entendimento do sentido correto da Escritura depende de elementos circunstanci- ais, ou seja, do contexto.101 Vemos que as pessoas que perguntaram a Pedro o que deveriam fazer para aderir ao Senhor eram pessoas que já tinham chegado à idade da razão. De tais pessoas dizemos que só devem ser batizadas depois que derem testemunho de sua fé e arrependimento, quanto seja possível aos seres humanos. Mas os pequeninos gerados por cristãos devem ser colocados noutra categoria. E para que se veja que assim é, não forjamos argumentos seguindo o que bem agrada ao nosso cére- bro, mas a própria Escritura nos dá segurança e certeza para a defesa dessa distin- ção. Pois vemos que se alguém desejava entrar nas fileiras do povo de Israel para servir ao Deus vivo, era necessário que, antes de receber a Circuncisão, aceitasse a Lei e fosse instruído na doutrina da aliança que o Senhor tinha feito com o Seu povo. Isso porque o candidato não pertencia à nação judaica, para a qual esse sacramento havia sido instituído. Com o próprio Abraão foi assim, porque o Senhor não começou a agir para com ele pela Circuncisão, sem que ele soubesse por quê, mas, sim, começou dando-lhe instrução sobre a aliança, a qual Ele queria que fosse confirmada pela Circuncisão. Só depois que Abraão creu na promessa é que Deus lhe ordenou o sacramento. Consideremos, porém: Por que foi que Abraão só recebeu o sinal depois que passou a ter fé, e Isaque, seu filho, o recebeu sem nada entender? Porque estando o homem na idade da razão, não sendo ainda participante da aliança do Senhor, para passar a fazer parte dela deve primeiro saber em que ela consiste. Por outro lado, o filho pequeno gerado por esse homem, sendo herdeiro da aliança por sucessão, como o comporta a promessa feita a seu pai, por direito é apto a receber o sinal, sem contudo entender a sua significação. a. Philippus. 100 At 8.36,37. 101 Lembremo-nos de que a palavra “contexto” geralmente é empregada com referência aos versículos e parágra- fos próximos do texto em questão. Mas também existe o contexto mais amplo (capítulo, livro) e o contexto remoto (Testamento, Bíblia toda). Neste último caso dá-se ao contexto o nome de “analogia da fé” (N. do T.).
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    189 Ou, para dizê-loresumidamente e com maior clareza – como o filhinho do crente participa da aliança sem entendê-la, não deve ser privado do respectivo sinal, pois é apto para recebê-lo sem que se exija dele que o entenda. Por essa razão o Senhor disse que os filhos pertencentes à linhagem de Israel tinham sido gerados para Ele, eram Seus filhos, considerando-se Ele o Pai de todos os filhos daqueles aos quais tinha prometido ser o seu Deus e o Deus da sua descendên- cia102 . E os descrentes, nascidos de pais descrentes, enquanto não conhecessem a Deus, isto é, enquanto não cressem nele103 , eram estranhos à aliança. Portanto, não admira que não lhes fosse ministrado o sinal, porque seria um símbolo falso e vão. Por isso o apóstolo afirma que os gentios, enquanto estavam na idolatria, estavam sem testamento e sem aliança. Sumário desta parte Toda essa questão agora parece bastante clara. Resumindo: Os adultos que se disponham a converter-se ao Senhor Jesus Cristo não devem ser admitidos ao Batismo se não tiverem fé e arrependimento, visto que só pela fé e pelo arrepen- dimento se pode ter acesso à aliança, a qual é simbolizada e selada pelo Batismo. Mas os filhinhos dos cristãos, aos quais a aliança pertence por direito de herança, em virtude da promessa, por esta razão, e só por esta, são idôneos para admissão ao Batismo. A mesma coisa se deve dizer sobre aqueles que confessavam os seus pecados e ofensas para serem batizados por João, pois neles vemos um exemplo que devemos seguir. Porque, se viesse algum judeu, ou turco, ou qualquer pagãoa , não deveríamos aplicar-lhe o Batismob antes de instruí-lo devidamente e de obter sua confissão de uma forma que nos parecesse satisfatóriac . Por isso, embora Abraão não tenha sido circuncidado senão depois de receber a devida instrução, isso não vem em detrimento do fato de que, depois dele, menininhos fosse cir- cuncidados sem receberem instrução enquanto não fossem capazes de recebê-la. 11º. João 3.5 fala da água como condição para que o pecador possa entrar no reino de Deus, igualando-a à regeneração Mas, querendo mostrar que a natureza do Batismo é tal que requer uma regeneração a ele presente, citam a seu favor o que se lê no capítulo três de João: “Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus”. Aí está, dizem eles, como o Senhor chama o Batismo de regeneração. Dessa manei- ra, visto que as criancinhas não podem receber a regeneração, como julgá-las idôneas para receberem o Batismo, que não subsiste sem aquela? a. Em 1539 só se trata de Turca. b. intingeretur. c. qua Ecclesiæ satisfaciat. 102 Ez 16.20,21; 23.37. 103 É oportuno lembrar que Calvino define fé em termos de conhecimento (N. do T.).
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    190 As Institutas– Edição Especial Em primeiro lugar, dá para agüentar a maneira como eles torcem as Escritu- ras com suas falsas interpretações? Porque nessa passagem o Senhor Jesus Cristo não faz menção alguma do Batismo, mas utiliza uma transposiçãoa , ou seja, uma figura tomada de coisas carnais para com ela indicar coisas espirituais e celestes. Tanto assim que logo depois Ele diz a Nicodemos, com quem estava conversan- do, que só havia tocado em coisas terrenas, pois, embora Seu propósito fosse tratar de realidades espirituais, contudo as simplificou e tratou delas como se fossem carnais ou terrenas, para ajustar-se à rudeza e à pequena capacidade do seu interlocutor. Tendo, então, mostrado que o homem carnal por natureza tende às coisas da terra e não aspira ao céu, ao referir-se ao novo nascimento da água e do Espírito Ele quer dizer que é necessário que, reconhecendo e renunciando à sua corrupção, o homem seja reformadob ou renovado, passando a ter uma natureza superior, mais fina e sublimec .104 Ademais, há outra razão para repudiar a explicação que eles dão, pois, a ser verdadeira, todos os que não receberem o Batismo estarão excluídos do reino de Deus. Suponhamos que fosse legitimamente sustentável a sua opinião de que não se deve batizar os pequeninos, que diriam eles se um jovem, adequadamente instruído em nossa fé, morresse sem ter tido ocasião de ser batizadod ? Porquanto o Senhor diz: “Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em condenação, mas passou da morte para a vida”.105 Em parte alguma Ele con- dena os que não foram batizados. Que ninguém entenda que com isso menospre- zamos o Batismo, como se pudéssemos negligenciá-lo. Só quero mostrar que o Batismo não é tão necessário que não se poderia escusar quem não o tivesse recebido por força de algum impedimento legítimo. Já, por outro lado, segundo a explicação dada pelos nossos opositores, todos os que não fossem batizados, sem exceção, estariam condenados, ainda que tivessem a fé pela qual temos Jesus Cristo. E não somente isso, mas também eles condename os pequeninos, aos quais eles negam o Batismo que, dizem elesf , é necessário para a salvação.Agora, como podem eles harmonizar o que dizem com a Palavra de Cristo, segundo a qual o reino celestial pertence aos pequeninos! E ainda que lhes concedêssemos tudo quanto exigem, vê-se quão falsa é a sua ilação, resultante de um raciocínio a. allegoria. b. A palavra era assim acentuada, somente na última letra, pelos reformés do século XVI. c. In sublimiorem agilioremque naturam esse transeundum. d. dum tinctionis dies appetit. e. æterni mortis reos peragunt. f. sua ipsorum confessione. 104 “A regeneração é a nova vida da alma, e que é por meio daquela que esta ressuscita dos mortos”. [João Calvino, Efésios, São Paulo, Paracletos, 1998, (Ef 2.1), p. 51]. “Não há outra vida na alma senão aquela que é bafejada em nós por Cristo; de modo que só começamos a viver quando somos enxertados nele e passamos a desfrutar vida comum com ele.” [João Calvino, Efésios, (Ef 2.4), p. 56]. 105 Jo 5.24. A palavra condenação é do original francês. ARA: “juízo” (N. do T.).
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    191 estulto e falso,que os leva a afirmar que as criancinhas não podem ser regenera- das, pois, conforme a dedução amplamente exposta acima, sem a regeneração ninguém entra no reino de Deus, nem grandes nem pequenos. Ora, se há aqueles que morrem na mais tenra infância, os quais são herdeiros do reino de Deus, claro está que eles foram regenerados antes do seu passamento. Depois, tendo em vista o mesmo objetivo, eles se armam com os dizeres do apóstolo Pedro106 , segundo os quais o Batismo, correspondendo à figura da arca de Noé, nos é dado para a salvação, “não sendo a remoção da imundícia da carne, mas a indagação de uma boa consciência para com Deus, por meio da ressurrei- ção de Jesus Cristo”. Se a realidade significada pelo Batismo é um atestado de boa consciência diante de Deus, se esta lhe faltar, que restará, senão uma coisa vã e de importância nula? Por isso, se as criancinhas não podem ter boa consciência, seu Batismo se esvai como fumaça. Nisso eles repetem o erro de sempre, pois querem que necessariamente, sem nenhuma exceção, a realidade significada pre- ceda ao respectivo sinal. Erro que já refutamos mais que suficientemente. Porque a Circuncisão, aplicada aos pequeninos, não deixava de ser um sacramento da justiça da fé, sinal e símbolo do arrependimento e da regeneração. Se estas coisas fossem incompatíveis, Deus não a teria instituído. Mas, ensinando-nos que a subs- tância da Circuncisão faz dela justamente o sacramento acima descrito, e atribu- indo-o aos pequeninos, Ele mostra que, no tocante aos referidos pontos, é aplica- do a eles com vista ao seu futuro. Portanto, a realidade que devemos considerar presente no Batismoa , quando este é ministrado aos pequeninos, é que ele é um atestado da sua salvação, selando e confirmando a aliança de Deus neles. O res- tante das coisas simbolizadas terá lugar no tempo que o Senhor tiver determinado para lhes dar o necessário conhecimento. ****** 12º. A instituição do Batismo, segundo Mateus e Marcos, citada como argumento contra o Batismo infantil Sobretudo, para fabricar o seu grande escudo e construir a sua principal fortaleza para defesa da sua opinião, os nossos opositores citam a instituição original do Batismo, quando foi ordenado pela primeira vez, o que eles dizem que foi feito pelas palavras registradas no último capítulo de Mateus: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes orde- nei”.107 A isso eles acrescentam a passagem do último capítulo de Marcos: “Quem crer e for batizado será salvo”.108 Vejam, dizem eles, como o nosso Senhor ordena a. O fim desse parágrafo desenvolve estas linhas de 1539: nihil tamen inde elicient, nisi prius, quod jam constitutum est a nobis dogma de infantium regeneratione, everterint. 106 1Pe 3.20,21. 107 Nova Versão Internacional (NIV) (N. do T.). 108 Mt 28.19,20; Mc 16.16.
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    192 As Institutas– Edição Especial que se dê instrução antes de batizar, e como Ele mostra que a fé deve preceder ao Batismo. E acrescentam: De fato o Senhor demonstrou isso com o Seu exemplo, pois Ele não foi batizado antes dos trinta anos de idade. Nesse ponto eles erram em muitos aspectos. Porque é um erro por demais evidente dizer que o Batismo foi ordenado pela primeira vez na ocasião a que se referem os textos citados, visto que durante todo o tempo da pregação de Jesus Cristo era vigente a sua prática. Então, se a instituição deve preceder à prática, e se o Batismo esteve em uso por tanto tempo, como dizer que a sua instituição primeira, original, ocorreu no tempo alegado por nossos oponentes? É, pois, vão e inútil o esforço que eles fazem para apoiar-se na primeira ordenação para com isso limitar a doutrina do Batismo precisamente nessas passagens. Todavia, deixando de lado esse erro, consideremos bem que força têm os seus argumentos. Ora, se fosse necessário empregar tergiversações ou evasivas, não seria nada difícil escapar deles. Sim, pois, uma vez que eles se fundam tão estritamente na ordem e na disposição das palavras, pretendendo que é preciso primeiro instruir antes de batizar, e crer antes de receber o Batismo, alegando que está escrito, “fazendo discípulos” (instruindo) e depois, “batizando-os”; e na ou- tra passagem, “quem crer e for batizado”, pela mesma razão é fácil replicar-lhes que é necessário batizar antes de ensinar a guardar todas as coisas que Jesus ordenou, pois a passagem diz: “Batizando-os...; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado”. E que seria se tomássemos a explicação que eles dão da passagem de João citada anteriormente, na qual eles entendem como se referindo ao Batismo o que é dito com referência ao novo nascimento da água? Pois, sobre o seu próprio argumento provamos que o Batismo deveria preceder à regeneração espiritual, porquanto é mencionado antes desta. Porque o texto não diz, “Quem não nascer do Espírito e da água...”, mas, “Quem não nascer da água e do Espírito...”. Já com isso o argumento deles dá mostras de grande abatimento. Do argumento fraco apoiado em alheio argumento fraco, passamos a argumentos mais fortes Todavia, não nos detemos aqui, uma vez que temos resposta para defender a verdade de maneira muito mais certeira e mais sólida. O que se deve notar é que o principal mandamento que na passagem em foco o Senhor dá aos Seus apósto- los é que anunciem o Evangelho, ao qual Ele acrescenta o serviço ministerial de batizar, mas como algo subordinado à sua comissão ou incumbência principal. Logo, aqui não se fala em Batismo, a não ser na medida em que sua prática vem junto com o ensino doutrinário e com a pregaçãoa . Pode-se entender melhor isso fazendo-se uma exposição dedutiva mais longa. a. Calvino censura os anabatistas por fundarem a sua recusa do batismo infantil na maneira pela qual é formu- lado o mandamento do Senhor em Mateus 28 e Marcos 16. Porque esse mandamento, diz ele, tem como elemento central a ordem de evangelizar o mundo pagão (é ordenada a missão), e é evidente que não se pode
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    193 O Senhor enviaentão os Seus apóstolos para instruírem os homens de todas as nações da terra. Que homens? Certamente não pensa senão nos que são aptos para receber doutrina. Então diz Ele que, depois de haverem sido instruídos, de- vem ser batizados. E, prosseguindo na declaração do Seu propósito, Ele afirma que os que crerem e forem batizados serão salvos. É feita alguma menção do Batismo infantil numa passagem ou na outra? Note-se a maneira de argumentar dessa gente, quando na verdade dizem: Os adultos devem ser instruídos e devem crer, antes de serem batizados; logo, as criancinhas não têm direito ao Batismo! Ainda que se atormentem quanto queiram, os nossos opositores não poderão tirar dessas passagens outro ensino senão este: Devemos pregar o Evangelho aos que são capazes de ouvi-lo, antes de batizá-los. É só disso que aí se trata. Portanto, é perverter as palavras do Senhor excluir do Batismo os pequeninos, à sombra dessa falsa interpretação. Um exemplo demonstrativo da verdade, num alerta contra a generalização E para que cada leitor possa como que tocar com o dedo ou apalpar a ignorância desses mestres, usarei um exemplo para mostrar em que se apóiam. Quando o apóstolo Paulo diz, “Se alguém não quer trabalhar, também não coma”,109 se dis- so alguém concluir que as crianças não devem receber alimentação, não será digno de zombaria de todo o mundo? Por quê? Por isso: do que é dito de uma parte, tal Fulano estaria generalizando como se abrangesse a todos. Pois as pesso- as às quais contesto não fazem menos que isso no assunto do qual estamos tratan- do. Porquanto o que se diz especificamente a respeito dos adultos elas reportam aos pequeninos, fazendo disso uma regra geral. Resposta à citação do Batismo de Jesus No tocante ao citado exemplo do Senhor, em nada os favorece. É certo que Ele não foi batizado antes dos seus trinta anos de idade, mas isso porque ia dar início à sua pregação e por ela desejou fundamentar o Batismo, que já tinha sido inici- ado por João. Querendo instituir o Batismo com base em Sua própria doutrina, já evangelizar senão pessoas capazes de compreender a mensagem e de crer no Evangelho. Nada mais natural, portanto, que os primeiros batizados tenham sido de adultos, e estes não seriam batizados senão depois de abraçarem a nova fé. A questão do Batismo só vem como item subseqüente; e Calvino entende que, uma vez batizados os pais convertidos, pode-se administrar o Batismo a seus filhos pequenos, como sinal da aliança da graça, da qual os pequeninos fazem parte (em virtude de textos que permitem clara dedução). O Batismo de crianças só extrai a sua eficácia da redenção evangélica, a qual lhes deve ser ensinada em seguida e ao longo de toda a sua educação cristã, até chegarem à idade em que possam exercer fé. Não se trata, pois, da questão de batizar outras crianças que não as de pais cristãos: O Batismo não é um meio de evangelização, mas um sinal presente na família e na igreja cristãs. Não admira, então, que nos mandamentos do Senhor registrados em Mateus 28 e em Marcos 16 o Batismo não figure em primeiro lugar, mas em segundo. 109 2Ts 3.10 (N. do T.).
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    194 As Institutas– Edição Especial no princípio do Seu ministério público, santificou-o primeiro em Seu próprio corpo, para dar-lhe maior autoridade. 13º. Citação de Atos 19.1-7. [1541] Os nossos oponentesa se esforçam igualmente para apoiar-se no exem- plo que temos em Atos, capítulo dezenove. Lemos ali que o apóstolo Paulo rebatizou alguns discípulos em Éfeso, os quais já tinham sido batizados por João. Rebatizou-os porque eles não tinham sido suficientemente instruídos sobre o Espírito Santo. Com esse fato os tais se empenham em mostrar que, se pela igno- rância daqueles discípulos o seu primeiro Batismo não teve valor, por mais forte razão o Batismo das criancinhas deverá ser considerado nulo, visto que lhes falta o devido entendimento. Mas, se a explicação deles fosse válida, cada um de nós precisaria de um rio para se rebatizar, porque, quem de nós não reconhece em si diariamente grande e grosseira ignorância em múltiplas formas?A cada reconhecimento de alguma igno- rância cada um precisaria correr em busca de rebatismo, tendo sido anulado o ante- rior. Portanto, deixando de lado essas absurdidades totalmente ridículas, busque- mos o sentido correto da citada passagem. Alguns explicam que a afirmação de que o apóstolo Paulo os batizou “em o nome do Senhor Jesus” não significa outra coisa que não a ministração de ensino. Embora essa explicação se harmonize com a ma- neira de falar da Escritura, não obstante apresentarei outra, mais própria, que espe- ro demonstrar claramente, de molde a receber a aprovação de todos. Não é novidade que o recebimento das graças visíveis do Espírito Santo, como as que eram dadas naquele tempo, recebiam na Escritura o nome de Batis- mo. Como quando se diz que o Senhor batizou os Seus apóstolos ao lhes enviar o Seu Espírito para lhes conferir tais graças. Ora, conforme a narrativa, o apóstolo Paulo interrogou os discípulos se tinham recebido as graças do Espírito, e eles responderam que nem sequer sabiam da existência do Espírito. Razão pela qual os batizou em nome de Jesus. Não com água, mas como os apóstolos foram batizados no dia de Pentecostes. O que é comprovado pelo procedimento segui- do, porquanto, o que logo em seguida se diz, “E, impondo-lhes as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo”, é uma declaração expressa e explícita desse Batis- mo. Isso corresponde ao hábito da Escritura de apresentar resumidamente uma coisa e depois declará-la mediante narração mais ampla. Caso contrário, O apóstolo Paulo teria agido contra a razão, rebatizando por causa de ignorância, visto que os próprios apóstolos, depois de terem sido batizados, revelaram tal ignorância e rudeza de conhecimento que pouco ou quase nada sabi- am do poder de Jesus Cristo. Mas não temos necessidade de preocupar-nos com isso demoradamente, visto que se deve entender a referência ao Batismo no sentido da imposição das mãos, pela qual o Espírito Santo lhes foi dado. a.As duas páginas que se seguem não têm texto equivalente em 1539.
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    195 14º. Se ospequeninos devem ser batizados, por que não devem receber a Ceia? [1539] Eles objetam que pelo mesmo motivo a Ceia do Senhor deveria ser ministrada aos pequeninos, os quais não queremos permitir que dela participem. Como se a diferença entre uma coisa e outra não estivesse expressamente assina- lada na Escritura, e em todos os aspectos!110 Porque, se considerarmos a natureza e as características do Batismo, veremos que este sacramento é o primeiro ingres- so que temos para sermos reconhecidos como membros da igreja, e para termos lugar entre os que compõem o povo de Deus. Isso porque ele é o símbolo e sinal da nossa regeneração e do nosso nascimento espiritual, que constituem o ato de Deus pelo qual somos feitos Seus filhos. Diversamente, a Ceia foi ordenada para aqueles que, tendo passado pela primeira infância, estão aptos a nutrir-se de ali- mento sólido. Disso a Palavra de Deus nos dá evidente prova. Porque, quando fala do Batismo, ela não faz nenhuma distinção de idade, mas não permite que a Ceia seja comunicada senão aos que podem discernir o corpo do Senhor, podem examinar-se e comer, e podem anunciar a morte do Senhor. Vamos querer pala- vras mais claras que essas? “Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim, coma do pão, e beba do cálice”.111 É necessário, pois, que o participante faça exame de consciência antes de comer do pão e beber do cálice. Também diz o texto bíblico: “Aquele que comer o pão ou beber o cálice, indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor”. Se não se pode participar dignamente sem prévio exame próprio, por que haveríamos de submeter as nossas crianças a juízo e condenação ministrando a elas a Ceia? Diz mais a Escritura: “Fazei isto em memória de mim... Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha”. Como poderiam anunci- ar a morte do Senhor os bebês, que ainda não conseguem nem falar? Nada disso se requer para o Batismo. Portanto, é grande a diferença existen- te entre estes dois sinais, ocorrendo o mesmo sob o Antigo Testamento com os dois sinais que correspondem ao Batismo e à Ceia. Porque a Circuncisão, que se ministrava em lugar do Batismo, era aplicada aos bebês, mas do cordeiro pascal, em lugar do qual temos agora a Ceia, só participavam os filhos capazes de per- guntar pelo seu sentido.112 Se aquela pobre gente que apresenta estas objeções tivesse alguma capacidade de apreciaçãoa do que diz a Palavra de Deus, não seria tão cega ao ponto de não perceber estas coisas, que em si mesmas se mostram tão claramente e a olhos vistos. 110 Ver errata, in loco (N. do T.). 111 1Co 11.28. [Ver os versículos 24 a 29.] N. do T. 112 Êx 12.26 (N. do T.). a. si mica sani cerebri istis restaret.
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    196 As Institutas– Edição Especial a. 1539 tem somente: pædobaptismum. b. 1539 contém uma transição diferente. c. 1539: non verbo tantum. Conclusão e advertências finais sobre o antipedobatismo Como se pode ver, o que dissemos é suficiente para mostrar como os nossos oponentes, sem razão nem propósito, perturbam a igreja do Senhor agitando ques- tões e debates, com o fim de contestar a santa observânciaa que sempre, desde os apóstolos, tem sido cumprida pelos crentes. Visto queb provamos com fartas evidências que o Batismo infantil tem fir- me e seguro fundamento na Escritura Sagrada e que, por outro lado, refutamos com muitos argumentos todas as objeções que costumam levantar contra ele, não temos dúvida de que todos os fiéis servos de Deus, após terem lido este tratadoc , estarão plenamente satisfeitos, e com seus próprios olhos perceberão que todos os ataques feitos para destruir e abolir esta santa ordenança não passam de astutas maquinações do Diabo. Com isso ele quer enfraquecer a consolação que o Se- nhor nos quis dar por meio da Sua promessa e obscurecer a glória do Seu nome, glória que é tanto mais exaltada quanto mais amplamente Ele derrama as Suas misericórdias sobre os homens. Porque, quando o Senhor visivelmente nos testifica com o sinal do Batismo que por amor a nós Ele leva em consideração a nossa posteridade, não temos nós forte motivo para regozijar-nos, a exemplo de Davi? Pois isso nos leva a apreciar o fato de que o Senhor assume para conosco a pessoa de um bom pai de família, estendendo a Sua providência não somente sobre nós, mas também sobre os nossos descendentes, após a nossa morte. Nesse regozijo paterno Deus é glorificado singularmente. Eis por que Satanás se esforça para privar os nossos filhos da comunicação do Batismo: é para que este atestado que o Senhor ordenou para nos confirmar as graças que nos quer dar, tendo sido eliminado de diante dos nossos olhos, pouco a pouco nos esqueçamos também da promessa que Ele nos fez com relação aos nossos filhos. Resultariam daí, não somente uma ingratidão e uma incompreensão da misericórdia do Senhor para conosco, mas também a negligência em instruir os nossos filhos no temor e na disciplina da Sua Lei, bem como no conhecimento do Seu Evangelho. Porque não é pequeno aguilhão, ótimo para nos estimular a cultivar neles a verdadeira piedade e a obediência a Deus, entender que, desde o nascimento dos nossos filhos, o Senhor os recebeu no seio do Seu povo, como membros da Sua igreja. Então, não rejeitando a grande benignidade do nosso Senhor, apresentemos a Ele, confiantes, os nossos filhinhos, aos quais Ele deu, por Sua promessa, ingresso à companhia daqueles que Ele admite como seus familiares e domésticos em Sua casa, que é a igreja cristã.