Sociolinguística: variações
culturais
UNIVERSIDADE ESTADUALDO MARANHÃO
DEPARTAMENTO DE LETRAS
PROCESSO SELETIVO PARAPROFESSOR SUBSTITUTO – EDITAL68/2024
ÁREADO CONHECIMENTO: LINGUÍSTICA, LETRAS EARTES/LINGUÍSTICA
Candidato(a): Maria Ozório de Sousa
Mestranda em Letras (UESPI)
TIMON – MA
2024
ROTEIRO DE APRESENTAÇÃO
INTRODUÇÃO
Sociolinguística
Estuda a língua em seu uso
real, levando em consideração
as relações entre estrutura
linguística e s aspectos sociais
e culturais.
(Cezário; Votre, 2011)
Variação e
mudança são
inerentes à
língua.
Um de seus objetivos é
entender os principais
fatores que motivam a
variação.
(Cezário; Votre, 2011)
Todas as sociedades são heterogêneas sob dois pontos de vista:
odiacrônico – elas variam ao longo do tempo;
osincrônico – em um mesmo momento histórico, elas apresentam
realidades distintas.
• Por serem a expressão da identidade das sociedades que as usam, as
línguas naturais também são heterogêneas.
• Em consequência, todas as línguas naturais apresentam algum
grau de variação.
INTRODUÇÃO
• Duas forças agem sobre as línguas (CUNHA; CINTRA, 2001):
 uma força inovadora, que corresponde à variação linguística e é
determinada pela diversidade dos falantes e pela própria evolução da
sociedade;
 uma força conservadora, que reprime a primeira e zela pela obediência
à norma padrão. É exercida por instituições como escola, imprensa,
editoras, governos e órgãos públicos.
Força
conservadora
(norma padrão)
Força inovadora
(variação
linguística)
INTRODUÇÃO
O português brasileiro é (TEYSSIER, 1993):
Por um lado,
conservador: mantém
traços característicos do
português falado na
Europa do século XVI.
Por outro lado, inovador:
passou a apresentar traços
próprios, inéditos na Europa.
INTRODUÇÃO
VARIAÇÃO LINGUÍSTICA
1. Não é vista como um efeito do acaso, mas um
fenômeno cultural motivado por fatores linguísticos
(estruturalismo) e por fatores extralinguísticos.
2. Mostra a adaptação da língua como código de
comunicação e, portanto, não é assistemático.
Variante: uma forma
que é usada ao lado de
outra sem causar
mudança.
Por exemplo: “a
gente fala” e “nós
falamos”
TIPOS DE VARIAÇÃO
Há cinco tipos básicos de variação:
Diatópica ou regional: diferenças no modo de falar de acordo com a
região.
Diatrástica ou social: variação de acordo com o nível socioeconômico
do falante, faixa etária, sexo, escolaridade, entre outros.
Diafásica ou registro: variação do modo de falar ou registro a
depender do contexto interacional.
Diacrônica ou histórica: variação da língua de acordo com a passagem
do tempo.
TIPOS DE VARIAÇÃO
Por exemplo: “tu” vs. “você”
Do ponto de vista regional: RJ preferência por você; PI
preferência por tu.
Do ponto de vista social: menos escolarizados pela
forma que usa o tu.
Do ponto de vista de registro: “você”=formalidade;
“tu”=informalidade.
(Cezário; Votre, 2011)
NIVEIS DE VARIAÇÃO
• Lexical: “jerimum” e “abóbora”;
• Gramatical: “elas brincam” e “elas brinca”;
• Fonético-fonológico: Mar (-r retroflexivo-carioca/ aspirado-
vibrante simples)
• Morfológico: “andar” e andá” (presença/ausência do –r
final)
• Sintático: “Essa é a pessoa em cuja casa fiquei quando viajei
à Europa” e “Essa é a pessoa que eu fiquei na casa dela
quando viajei à Europa”
PORTUGUÊS BRASILEIRO E NORMA CULTA
Norma padrão é o jeito de falar e escrever uma língua que se definiu
como sendo o “correto”.
Geralmente, o estabelecimento da norma padrão tem como objetivos:
• uniformizar a língua, para que documentos, leis, materiais didáticos,
discursos, livros e outros textos sejam compostos de maneira
padronizada;
• construir uma identidade para a língua, diferenciando-a das demais;
• valorizar a língua, sua literatura e, em última instância, o próprio povo
que a usa.
PORTUGUÊS BRASILEIRO E NORMA CULTA
Como se estabelece a norma-padrão de uma língua?
Faz-se uma seleção entre as inúmeras
variantes (formas diferentes) de falar e
escrever (BAGNO, 2007).
Por exemplo: no português, entre as
variantes “praca” e placa, foi selecionada
placa.
Em geral, as variantes escolhidas são as empregadas pela
elite cultural da comunidade.
PORTUGUÊS BRASILEIRO E NORMA CULTA
No Brasil, porém, a norma culta não corresponde à norma padrão. Por quê?
Porque a norma padrão consagrada no Brasil se baseia
quase totalmente na norma culta portuguesa, ou seja,
nos hábitos linguísticos da elite cultural portuguesa,
não de nossa elite cultural.
Por exemplo: todos os brasileiros (inclusive os mais
escolarizados) falam “Me esqueci de comprar pão”.
No entanto, nossa norma padrão estabelece como
correta a forma “Esqueci-me de comprar pão”, usada
em Portugal.
VARIAÇÃO DIATÓPICA: USOS
• Pode ser percebida em diversos níveis da língua:
No fonético-fonológico: O “r” retroflexo;
No léxico: “mexerica, bergamota, tangerina”;
Na sintaxe: posição dos pronomes oblíquos
átonos. No Brasil, tendemos coloca-lo antes do
verbo (te amo), já em Portugal após os verbos
(amo-te);
FALARES URBANOS VERSUS
FALARES RURAIS
Regionalismos podem ou não ser estigmatizados, isto é, “vistos com maus
olhos” pela população em geral.
Com frequência, as marcas típicas da zona rural são estigmatizadas, em razão
da situação de exclusão social tradicionalmente vivida pelas populações do
campo.
Veja esta comparação: Bah! Tô tri
atrasado,
guria!
Regionalismos não
estigmatizados
(em geral urbanos)
Já punhô
água no
fijão, fia?
Regionalismos estigmatizados
(em geral rurais)
VARIAÇÃO DIASTRÁTICA
Sob a perspectiva diastrática (dos estratos sociais), o modo de usar a língua
varia conforme:
• o nível de escolaridade;
• a faixa etária;
• o sexo;
• a profissão;
• o grupo social a que a pessoa pertence (surfistas, “funkeiros”,
evangélicos, fãs de música sertaneja etc.) entre outros fatores.
VARIAÇÃO DIAFÁSICA
• As variações de registro perpassam todas as outras variações:
independentemente de sermos mais ou menos escolarizados, de
morarmos nessa ou naquela região, de sermos jovens ou velhos, homens
ou mulheres, surfistas ou roqueiros, todos nós mudamos nossa maneira
de falar e escrever conforme a formalidade da situação.
• Não há uma divisão radical entre registro formal e informal: é mais
correto pensar em um continuum de formalidade. Além disso, é diferente
ser formal oralmente e ser formal por escrito.
VARIAÇÃO DIAFÁSICA
Fonte: Bowen apud Travaglia (2002, p. 54).
REFERÊNCIAS
BAGNO, Marcos. Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação linguística. 3. ed. São
Paulo: Parábola, 2007.
CEZÁRIO, Maria Maura; VOTRE, Sebastião. Sociolinguística. In: MARTELOTTA, Mário Eduardo.
(Org.). Manual de Linguística. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2011.
CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. 3. ed. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
TEYSSIER, Paul. História da língua portuguesa. Trad. de Celso Cunha. 5. ed. Lisboa: Liv. Sá da
Costa, 1993.
TRAVAGLIA, L. C. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º e 2º graus.
8. ed. São Paulo: Cortez, 2002.

A Sociolinguística e suas interfaces e divisões

  • 1.
    Sociolinguística: variações culturais UNIVERSIDADE ESTADUALDOMARANHÃO DEPARTAMENTO DE LETRAS PROCESSO SELETIVO PARAPROFESSOR SUBSTITUTO – EDITAL68/2024 ÁREADO CONHECIMENTO: LINGUÍSTICA, LETRAS EARTES/LINGUÍSTICA Candidato(a): Maria Ozório de Sousa Mestranda em Letras (UESPI) TIMON – MA 2024
  • 2.
  • 3.
    INTRODUÇÃO Sociolinguística Estuda a línguaem seu uso real, levando em consideração as relações entre estrutura linguística e s aspectos sociais e culturais. (Cezário; Votre, 2011) Variação e mudança são inerentes à língua. Um de seus objetivos é entender os principais fatores que motivam a variação. (Cezário; Votre, 2011)
  • 4.
    Todas as sociedadessão heterogêneas sob dois pontos de vista: odiacrônico – elas variam ao longo do tempo; osincrônico – em um mesmo momento histórico, elas apresentam realidades distintas. • Por serem a expressão da identidade das sociedades que as usam, as línguas naturais também são heterogêneas. • Em consequência, todas as línguas naturais apresentam algum grau de variação. INTRODUÇÃO
  • 5.
    • Duas forçasagem sobre as línguas (CUNHA; CINTRA, 2001):  uma força inovadora, que corresponde à variação linguística e é determinada pela diversidade dos falantes e pela própria evolução da sociedade;  uma força conservadora, que reprime a primeira e zela pela obediência à norma padrão. É exercida por instituições como escola, imprensa, editoras, governos e órgãos públicos. Força conservadora (norma padrão) Força inovadora (variação linguística) INTRODUÇÃO
  • 6.
    O português brasileiroé (TEYSSIER, 1993): Por um lado, conservador: mantém traços característicos do português falado na Europa do século XVI. Por outro lado, inovador: passou a apresentar traços próprios, inéditos na Europa. INTRODUÇÃO
  • 7.
    VARIAÇÃO LINGUÍSTICA 1. Nãoé vista como um efeito do acaso, mas um fenômeno cultural motivado por fatores linguísticos (estruturalismo) e por fatores extralinguísticos. 2. Mostra a adaptação da língua como código de comunicação e, portanto, não é assistemático. Variante: uma forma que é usada ao lado de outra sem causar mudança. Por exemplo: “a gente fala” e “nós falamos”
  • 8.
    TIPOS DE VARIAÇÃO Hácinco tipos básicos de variação: Diatópica ou regional: diferenças no modo de falar de acordo com a região. Diatrástica ou social: variação de acordo com o nível socioeconômico do falante, faixa etária, sexo, escolaridade, entre outros. Diafásica ou registro: variação do modo de falar ou registro a depender do contexto interacional. Diacrônica ou histórica: variação da língua de acordo com a passagem do tempo.
  • 9.
    TIPOS DE VARIAÇÃO Porexemplo: “tu” vs. “você” Do ponto de vista regional: RJ preferência por você; PI preferência por tu. Do ponto de vista social: menos escolarizados pela forma que usa o tu. Do ponto de vista de registro: “você”=formalidade; “tu”=informalidade. (Cezário; Votre, 2011)
  • 10.
    NIVEIS DE VARIAÇÃO •Lexical: “jerimum” e “abóbora”; • Gramatical: “elas brincam” e “elas brinca”; • Fonético-fonológico: Mar (-r retroflexivo-carioca/ aspirado- vibrante simples) • Morfológico: “andar” e andá” (presença/ausência do –r final) • Sintático: “Essa é a pessoa em cuja casa fiquei quando viajei à Europa” e “Essa é a pessoa que eu fiquei na casa dela quando viajei à Europa”
  • 11.
    PORTUGUÊS BRASILEIRO ENORMA CULTA Norma padrão é o jeito de falar e escrever uma língua que se definiu como sendo o “correto”. Geralmente, o estabelecimento da norma padrão tem como objetivos: • uniformizar a língua, para que documentos, leis, materiais didáticos, discursos, livros e outros textos sejam compostos de maneira padronizada; • construir uma identidade para a língua, diferenciando-a das demais; • valorizar a língua, sua literatura e, em última instância, o próprio povo que a usa.
  • 12.
    PORTUGUÊS BRASILEIRO ENORMA CULTA Como se estabelece a norma-padrão de uma língua? Faz-se uma seleção entre as inúmeras variantes (formas diferentes) de falar e escrever (BAGNO, 2007). Por exemplo: no português, entre as variantes “praca” e placa, foi selecionada placa. Em geral, as variantes escolhidas são as empregadas pela elite cultural da comunidade.
  • 13.
    PORTUGUÊS BRASILEIRO ENORMA CULTA No Brasil, porém, a norma culta não corresponde à norma padrão. Por quê? Porque a norma padrão consagrada no Brasil se baseia quase totalmente na norma culta portuguesa, ou seja, nos hábitos linguísticos da elite cultural portuguesa, não de nossa elite cultural. Por exemplo: todos os brasileiros (inclusive os mais escolarizados) falam “Me esqueci de comprar pão”. No entanto, nossa norma padrão estabelece como correta a forma “Esqueci-me de comprar pão”, usada em Portugal.
  • 14.
    VARIAÇÃO DIATÓPICA: USOS •Pode ser percebida em diversos níveis da língua: No fonético-fonológico: O “r” retroflexo; No léxico: “mexerica, bergamota, tangerina”; Na sintaxe: posição dos pronomes oblíquos átonos. No Brasil, tendemos coloca-lo antes do verbo (te amo), já em Portugal após os verbos (amo-te);
  • 15.
    FALARES URBANOS VERSUS FALARESRURAIS Regionalismos podem ou não ser estigmatizados, isto é, “vistos com maus olhos” pela população em geral. Com frequência, as marcas típicas da zona rural são estigmatizadas, em razão da situação de exclusão social tradicionalmente vivida pelas populações do campo. Veja esta comparação: Bah! Tô tri atrasado, guria! Regionalismos não estigmatizados (em geral urbanos) Já punhô água no fijão, fia? Regionalismos estigmatizados (em geral rurais)
  • 16.
    VARIAÇÃO DIASTRÁTICA Sob aperspectiva diastrática (dos estratos sociais), o modo de usar a língua varia conforme: • o nível de escolaridade; • a faixa etária; • o sexo; • a profissão; • o grupo social a que a pessoa pertence (surfistas, “funkeiros”, evangélicos, fãs de música sertaneja etc.) entre outros fatores.
  • 17.
    VARIAÇÃO DIAFÁSICA • Asvariações de registro perpassam todas as outras variações: independentemente de sermos mais ou menos escolarizados, de morarmos nessa ou naquela região, de sermos jovens ou velhos, homens ou mulheres, surfistas ou roqueiros, todos nós mudamos nossa maneira de falar e escrever conforme a formalidade da situação. • Não há uma divisão radical entre registro formal e informal: é mais correto pensar em um continuum de formalidade. Além disso, é diferente ser formal oralmente e ser formal por escrito.
  • 18.
    VARIAÇÃO DIAFÁSICA Fonte: Bowenapud Travaglia (2002, p. 54).
  • 19.
    REFERÊNCIAS BAGNO, Marcos. Nadana língua é por acaso: por uma pedagogia da variação linguística. 3. ed. São Paulo: Parábola, 2007. CEZÁRIO, Maria Maura; VOTRE, Sebastião. Sociolinguística. In: MARTELOTTA, Mário Eduardo. (Org.). Manual de Linguística. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2011. CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. TEYSSIER, Paul. História da língua portuguesa. Trad. de Celso Cunha. 5. ed. Lisboa: Liv. Sá da Costa, 1993. TRAVAGLIA, L. C. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º e 2º graus. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2002.