Revista Canavieiros - Junho de 2016
19
Ponto de Vista II
RC
RC
promissoras, tendo em vista a fragilida-
de da economia brasileira. No acumula-
do do ano até abril, a demanda por com-
bustíveis de Ciclo Otto caiu 2% sobre
2015, e, no caso do hidratado, a redução
foi de 13%, muito inluenciada pelos
elevados preços na entressafra (piora
da paridade com a gasolina). Ainda que
esperemos que o consumo por hidrata-
do já tenha voltado a crescer no mês de
maio sobre as médias do início do ano,
diante da desvalorização das cotações
do produto, o consumo total do ano
deve oscilar ao redor ou até um pouco
abaixo do que foi observado em 2015.
Mesmo assim, a melhor remuneração
do ATR para o açúcar sugere um preço
sombra maior pelo etanol, possibilitan-
do uma preciicação média melhor por
esse combustível em 2016. Não se pode
descartar também a possibilidade de um
novo aumento da CIDE, o que abriria a
possibilidade para uma provável eleva-
ção do etanol, e o que poderia compen-
sar perdas de competitividade com o im
do crédito presumido de PIS/Coins.
É nesse contexto que a situação do se-
tor sucroenergético tende a voltar a me-
lhorar e, consequentemente, a dos forne-
cedores de cana. De acordo com nossas
estimativas, preços do ATR no acumula-
do da safra acima de R$0,60/kg de ATR
já voltam a propiciar margens bem su-
periores às observadas nos últimos anos.
Além disso, o risco de crédito, ou seja,
de pagamento pelo volume de ATR en-
tregue à usina, também deverá cair.
Essa expectativa de melhora de mar-
gens e o alívio que isso trará ao bolso
do produtor devem abrir uma boa opor-
tunidade de “colocar a casa em ordem”.
Isso signiica voltar a investir na reno-
vação de canaviais e a adotar práticas
agronômicas e tecnologias de ponta,
visando sempre a elevar os níveis de
produtividade e, portanto, a eiciência
da operação. O relexo disso será a me-
lhora da competitividade do fornecedor,
tornando-o mais forte para enfrentar
períodos de “vacas magras” que podem
assolar o setor no futuro.
*analista sênior na Diretoria de
Produtores Rurais do Itaú BBA
Agora vamos para o século XXI
Coriolano Xavier*
Coriolano Xavier
D
ê no que der a questão do im-
peachment daqui a 166 dias,
toda a fervura política para a
organização de uma nova governan-
ça brasileira já provocou um resultado
positivo: a discussão da estratégia co-
mercial brasileira no exterior, que, nos
últimos 10 a 15 anos, priorizou as “re-
lações Sul-Sul”, dando peso maior aos
países emergentes (além do Mercosul).
Muitos acham que foi um equívoco,
pois teria impedido o país de avançar
em acordos multilaterais com os polos
mais dinâmicos da economia mundial –
uma tendência que marcou o comércio
global na última década, com o impasse
das negociações no âmbito da OMC –
Organização Mundial do Comércio.
Tanto é que, nesse período, lores-
ceram vários pactos multilaterais de
comércio em todos os continentes, até
o recente e gigante Tratado Transpací-
ico, entre EUA, Japão e mais dez paí-
ses (2015), envolvendo economias que
representam cerca de 40% da produção
mundial. Foram cerca de 80 Acordos
Internacionais Preferenciais de Comér-
cio desde 2005 e, de um modo geral, o
Brasil esteve fora desse jogo, apesar de
ser uma das grandes potencias do mun-
do. Pior: os países com os quais temos
acordos representam somente cerca de
10% do comércio mundial.
Agora, parece que esse tema voltou à
pauta e já se falam em estratégias para
se fortalecerem exportações, por meio
de acordos comerciais com os principais
mercados do mundo. Uma boa notícia
é que o agronegócio engaja-se nesse
debate com fé e atitude. Apesar do pro-
tagonismo atual do Brasil no comércio
internacional de produtos agropecuários,
o setor ainda pode construir muito em
termos de oportunidades em novos mer-
cados e integração nas cadeias globais
de produção alimentar e de ibras.
Não vamos ter ilusões: em todo o
mundo, o Brasil é visto como potência
do agronegócio. Portanto, o país não
terá vida fácil em negociações globais
como a OMC. De outro lado, o Brasil
é, ao mesmo tempo, um parceiro rele-
vante e pode buscar oportunidades e
alianças estratégicas em todo o globo.
E não se pode pensar pequeno em uma
hora dessas. Claro que é fundamental
crescer e rentabilizar o comércio bra-
sileiro de commodities agropecuárias,
pois temos uma expertise única nisso,
mas também é preciso “descomoditi-
zar” e comercializar produtos e serviços
de valor agregado, como mostram casos
bem-sucedidos como o da rede Giraffas
(fast food e casual food) nos Estados
Unidos. Ou o exemplo da Agropecu-
ária AH, que produz café com certi-
icação internacional, conferindo um
diferencial de origem ao seu produto,
que hoje está abastecendo diretamente
clientes europeus. Sem falar das opor-
tunidades em inteligência agropecuária
tropical, como uma EMBRAPA ou um
pequeno CEA-IAC, cuja expertise em
avaliação de equipamentos para prote-
ção de cultivos já cruzou o Atlântico.
Esses são apenas alguns exemplos.
O agronegócio tem muitos outros e
pode ampliar o seu papel de protagonis-
ta também sob esse novo olhar para o
nosso comércio internacional. Ainal, o
país é o segundo maior player do co-
mércio agrícola mundial (atrás apenas
dos EUA) e tem muito a dar (e a ga-
nhar) em uma real estratégia multila-
teral de comércio exterior. Em política
comercial, o Brasil precisa entrar dei-
nitivamente no século XXI.
*Vice-Presidente de Comunicação do
CCAS (Conselho Cientíico para Agricul-
tura Sustentável), professor do Núcleo de
Estudos do Agronegócio da ESPM.

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    Revista Canavieiros -Junho de 2016 19 Ponto de Vista II RC RC promissoras, tendo em vista a fragilida- de da economia brasileira. No acumula- do do ano até abril, a demanda por com- bustíveis de Ciclo Otto caiu 2% sobre 2015, e, no caso do hidratado, a redução foi de 13%, muito inluenciada pelos elevados preços na entressafra (piora da paridade com a gasolina). Ainda que esperemos que o consumo por hidrata- do já tenha voltado a crescer no mês de maio sobre as médias do início do ano, diante da desvalorização das cotações do produto, o consumo total do ano deve oscilar ao redor ou até um pouco abaixo do que foi observado em 2015. Mesmo assim, a melhor remuneração do ATR para o açúcar sugere um preço sombra maior pelo etanol, possibilitan- do uma preciicação média melhor por esse combustível em 2016. Não se pode descartar também a possibilidade de um novo aumento da CIDE, o que abriria a possibilidade para uma provável eleva- ção do etanol, e o que poderia compen- sar perdas de competitividade com o im do crédito presumido de PIS/Coins. É nesse contexto que a situação do se- tor sucroenergético tende a voltar a me- lhorar e, consequentemente, a dos forne- cedores de cana. De acordo com nossas estimativas, preços do ATR no acumula- do da safra acima de R$0,60/kg de ATR já voltam a propiciar margens bem su- periores às observadas nos últimos anos. Além disso, o risco de crédito, ou seja, de pagamento pelo volume de ATR en- tregue à usina, também deverá cair. Essa expectativa de melhora de mar- gens e o alívio que isso trará ao bolso do produtor devem abrir uma boa opor- tunidade de “colocar a casa em ordem”. Isso signiica voltar a investir na reno- vação de canaviais e a adotar práticas agronômicas e tecnologias de ponta, visando sempre a elevar os níveis de produtividade e, portanto, a eiciência da operação. O relexo disso será a me- lhora da competitividade do fornecedor, tornando-o mais forte para enfrentar períodos de “vacas magras” que podem assolar o setor no futuro. *analista sênior na Diretoria de Produtores Rurais do Itaú BBA Agora vamos para o século XXI Coriolano Xavier* Coriolano Xavier D ê no que der a questão do im- peachment daqui a 166 dias, toda a fervura política para a organização de uma nova governan- ça brasileira já provocou um resultado positivo: a discussão da estratégia co- mercial brasileira no exterior, que, nos últimos 10 a 15 anos, priorizou as “re- lações Sul-Sul”, dando peso maior aos países emergentes (além do Mercosul). Muitos acham que foi um equívoco, pois teria impedido o país de avançar em acordos multilaterais com os polos mais dinâmicos da economia mundial – uma tendência que marcou o comércio global na última década, com o impasse das negociações no âmbito da OMC – Organização Mundial do Comércio. Tanto é que, nesse período, lores- ceram vários pactos multilaterais de comércio em todos os continentes, até o recente e gigante Tratado Transpací- ico, entre EUA, Japão e mais dez paí- ses (2015), envolvendo economias que representam cerca de 40% da produção mundial. Foram cerca de 80 Acordos Internacionais Preferenciais de Comér- cio desde 2005 e, de um modo geral, o Brasil esteve fora desse jogo, apesar de ser uma das grandes potencias do mun- do. Pior: os países com os quais temos acordos representam somente cerca de 10% do comércio mundial. Agora, parece que esse tema voltou à pauta e já se falam em estratégias para se fortalecerem exportações, por meio de acordos comerciais com os principais mercados do mundo. Uma boa notícia é que o agronegócio engaja-se nesse debate com fé e atitude. Apesar do pro- tagonismo atual do Brasil no comércio internacional de produtos agropecuários, o setor ainda pode construir muito em termos de oportunidades em novos mer- cados e integração nas cadeias globais de produção alimentar e de ibras. Não vamos ter ilusões: em todo o mundo, o Brasil é visto como potência do agronegócio. Portanto, o país não terá vida fácil em negociações globais como a OMC. De outro lado, o Brasil é, ao mesmo tempo, um parceiro rele- vante e pode buscar oportunidades e alianças estratégicas em todo o globo. E não se pode pensar pequeno em uma hora dessas. Claro que é fundamental crescer e rentabilizar o comércio bra- sileiro de commodities agropecuárias, pois temos uma expertise única nisso, mas também é preciso “descomoditi- zar” e comercializar produtos e serviços de valor agregado, como mostram casos bem-sucedidos como o da rede Giraffas (fast food e casual food) nos Estados Unidos. Ou o exemplo da Agropecu- ária AH, que produz café com certi- icação internacional, conferindo um diferencial de origem ao seu produto, que hoje está abastecendo diretamente clientes europeus. Sem falar das opor- tunidades em inteligência agropecuária tropical, como uma EMBRAPA ou um pequeno CEA-IAC, cuja expertise em avaliação de equipamentos para prote- ção de cultivos já cruzou o Atlântico. Esses são apenas alguns exemplos. O agronegócio tem muitos outros e pode ampliar o seu papel de protagonis- ta também sob esse novo olhar para o nosso comércio internacional. Ainal, o país é o segundo maior player do co- mércio agrícola mundial (atrás apenas dos EUA) e tem muito a dar (e a ga- nhar) em uma real estratégia multila- teral de comércio exterior. Em política comercial, o Brasil precisa entrar dei- nitivamente no século XXI. *Vice-Presidente de Comunicação do CCAS (Conselho Cientíico para Agricul- tura Sustentável), professor do Núcleo de Estudos do Agronegócio da ESPM.