quarta-feira, 14 de abril de 2010                                          Diário Oficial Poder Executivo - Seção II                                                                                       São Paulo, 120 (69) – III



Assentados de Cordeirópolis superam os
próprios limites e chegam à universidade
No assentamento, dez




                                                                                                     FOTOS: FERNANDES DIAS PEREIRA
pessoas já cursam o
ensino superior. Iniciativa
motivou outras famílias
a concluírem o ensino
fundamental e médio



“P
              ara viver precisamos acredi-
              tar que tudo é possível”, afir-
              ma Marta Leixo dos Santos,
48 anos, ao se preparar para mais um
dia de aula na Faculdade Municipal de
Cordeirópolis (Famuc), onde cursa o primeiro
ano de Pedagogia. O sorriso dela e de mais
nove pessoas não esconde a felicidade do
desejo realizado: estudar numa universida-
de. A área de 262 hectares, onde a futura
pedagoga e outras 20 famílias (distribuídas
em 21 lotes) moram fica no Assentamento
XX de Novembro. A região foi destinada aos        Rosa Maria, uma nova vida                                                    Maria Antônia com os filhos Marcos e Alberto ao lado da criação de aves e suínos
assentados em 1998 e é de responsabilida-
de da Fundação Instituto de Terras (Itesp),        “Não devemos desistir
vinculada à Secretaria de Estado da Justiça
e da Defesa da Cidadania. Buscar formação
                                                    dos nossos sonhos”
escolar para melhorar de vida passou a fazer           Com 14 anos, Rosa Maria vivia um
parte das prioridades dos moradores do            pesadelo a cada dia. Percorria as ruas do
local, um objetivo que, às vezes, exige ultra-    interior do Piauí consumindo álcool e cigar-
passar os próprios limites.                       ro. Uma vida que parecia levá-la a um cami-
     Marta tem dois bons motivos para             nho sem volta. Num momento de reflexão,
acreditar que tudo é possível: persistência       decidiu que era hora de mudar o destino
e apoio familiar. A aptidão para os estudos       se ainda quisesse continuar viva. Deixou os
ela trazia desde criança, mas a necessida-        pais no interior do Piauí e veio com os tios
de de trabalhar também veio muito cedo.           para o Assentamento XX de Novembro, em
Já casada, estimulada pelo marido e pelos         Cordeirópolis. Para o recomeço, Rosa acre-
filhos, decidiu em 2008 que voltaria à sala       ditava que a sua vida só poderia melhorar
de aula. Concluiu o ensino fundamental e          se concluísse os estudos. Foi o que fez.
médio e foi além: em dezembro de 2009,                 Matriculou-se no ensino fundamen-
depois de terminar o ensino médio e pas-          tal, passou para o médio – e foi adiante.
sar pelo curso de Educação para Jovens            Decidiu prestar vestibular para o curso
e Adultos – EJA (programa da Secretaria           de Gestão de Recursos Humanos. Após
de Estado da Educação) prestou vestibular         o exame, achou que não seria aprovada.                                       Moradores do assentamento retomam os seus estudos e chegam à universidade
para Pedagogia. Nem acreditou quando viu          Desiludida, quase entrou em desespero.
seu nome na lista de aprovados. “Chorei                Um telefonema, dois dias depois, infor-
de emoção. Não imaginava que tudo isso            mava que ela estava na lista dos aprovados.
                                                                                                                                                              Plantando o futuro
pudesse acontecer. Sinto-me vencedora pelo        Rosa chegou a pensar que não passava de                                                 O Assentamento Cordeirópolis,
que realizei. Acredito que o estudo é o melhor    um trote de mau gosto. Para tirar a dúvi-                                          batizado de XX de Novembro pelos pró-
caminho para exercer nossos direitos na socie-    da resolveu ir à faculdade: lá estava o seu                                        prios assentados em 1999, recebeu esse
dade. Farei de tudo para que meus filhos          nome. “A vida me deu uma lição naquele                                             nome em homenagem ao dia em que
tenham as mesmas oportunidades”, garante          dia. Percebi que a gente nunca deve duvi-                                          eles tiveram a permissão para se estabe-
Marta, que dias depois recebeu a notícia de       dar da própria capacidade, nunca deve                                              lecerem na região. No entanto os lotes
que sua nora Maria do Socorro, 28 anos, tam-      desistir dos sonhos”, conta emocionada.                                            foram disponibilizados para moradia
bém fora aprovada no mesmo curso.                      Hoje, com 18 anos, casada desde os                                            ainda em 1998.
                                                  16 anos, cursa o primeiro ano na Famuc,                                                 A área (exatos 261,76 hectares) per-
     Inclusão social – Para estudar na            é líder do grupo Ponto de Cultura e                                                tencia à antiga Fepasa, sendo dividida em     Computadores e internet no assentamento
Famuc, os assentados participam de curso          realiza trabalhos voluntários no assenta-                                          21 lotes. Os ocupantes são originários de
pré-vestibular fornecido pela própria ins-        mento. A moça garante que ainda não                                                várias partes do Pais e têm a geração de            Todos possuem e-mail e aprendem a
tituição. Segundo o diretor da faculda-           chegou ao fim dos seus sonhos: para o                                              renda familiar focada principalmente no       utilizar as máquinas por meio de cursos
de, Cyriaco Antônio Hespanhol, o traba-           futuro, planeja fazer um curso de Direito                                          plantio de mandioca. Muitos se dedicam        realizados no local. Nos próximos meses
lho realizado na região reforça a propos-         e atuar como advogada.                                                             também à criação de aves, além da produ-      será construída uma cozinha para aumen-
ta de inclusão social. “Precisamos acreditar                                                                                         ção de frutas e verduras.                     tar a renda do orçamento familiar das
no potencial dos seres humanos. O caso                                                                                                    O assentamento oferece ainda peque-      mulheres do assentamento. Além disso,
do Assentamento XX de Novembro é prova           Universidade Federal de São Carlos (Ufscar)                                         na sede com biblioteca e espaço de leitura,   haverá também uma sala de cinema para
disso e nos enche de orgulho”.                   e não foi aprovada. Porém, engana-se quem                                           brinquedoteca e sala de computadores          exibição de filmes, palestras e debate de
     Outra assentada, Maria Antônia de           pensa que por esse motivo ela vai desistir de                                       com acesso à internet.                        assuntos de interesse da comunidade local.
Oliveira, 47 anos, fez o vestibular para a       se tornar agrônoma. “Vou tentar até quando
                                                 puder. Desde a adolescência sempre gostei de
                                                 trabalhar no campo, com animais e plantas.                                    da mãe como um caminho a seguir. “Ela é o           referências, pois é um local onde as pessoas
                                                 Nos próximos vestibulares continuarei corren-                                 nosso maior exemplo de perseverança e dedi-         são organizadas e dedicadas. “Temos orgulho
                                                 do atrás desse objetivo”, afirma Maria, que,                                  cação. O apoio para o estudo que recebemos          em conviver com esses moradores. Eles são
                                                 enquanto a sua vez não chega segue tocando                                    dela nos colocou em contato com o mundo             persistentes, se respeitam, não consomem
                                                 a vida no lote, onde se dedica à criação de fran-                             que não sabíamos que existia”, argumenta            drogas e vivem com o pensamento no futuro”.
                                                 gos e suínos e ao cultivo de mandioca e milho.                                Marcos, que não trabalha na profissão, mas               O coordenador ressalta o empenho
                                                      A satisfação dela é completada pelo                                      espera em breve uma oportunidade.                   de cada assentado em concluir os estudos.
                                                 desempenho dos filhos Marcos, 27 anos, e                                           No assentamento, todos garantem o sus-         “Ficamos felizes ao saber que estão conse-
                                                 Alberto, 19 anos. Marcos formou-se como                                       tento e a geração de renda por meio da agri-        guindo vagas nas faculdades, pois sabemos
                                                 técnico de segurança do trabalho e já está                                    cultura familiar, plantio de verduras, frutas e     quanto esforço de cada um isso custou”.
                                                 no segundo curso de Gestão de Recursos                                        criação de animais. Segundo o coordenador
                                                 Humanos. Alberto está no último ano do                                        regional do Itesp, Antônio Carlos Bertocco.         Anderson Moriel Mattos
Antônio Carlos: orgulho dos assentados           ensino médio. Os jovens se espelham na garra                                  o Assentamento XX de Novembro tem boas              Da Agência Imprensa Oficial

Assentamento modelo

  • 1.
    quarta-feira, 14 deabril de 2010 Diário Oficial Poder Executivo - Seção II São Paulo, 120 (69) – III Assentados de Cordeirópolis superam os próprios limites e chegam à universidade No assentamento, dez FOTOS: FERNANDES DIAS PEREIRA pessoas já cursam o ensino superior. Iniciativa motivou outras famílias a concluírem o ensino fundamental e médio “P ara viver precisamos acredi- tar que tudo é possível”, afir- ma Marta Leixo dos Santos, 48 anos, ao se preparar para mais um dia de aula na Faculdade Municipal de Cordeirópolis (Famuc), onde cursa o primeiro ano de Pedagogia. O sorriso dela e de mais nove pessoas não esconde a felicidade do desejo realizado: estudar numa universida- de. A área de 262 hectares, onde a futura pedagoga e outras 20 famílias (distribuídas em 21 lotes) moram fica no Assentamento XX de Novembro. A região foi destinada aos Rosa Maria, uma nova vida Maria Antônia com os filhos Marcos e Alberto ao lado da criação de aves e suínos assentados em 1998 e é de responsabilida- de da Fundação Instituto de Terras (Itesp), “Não devemos desistir vinculada à Secretaria de Estado da Justiça e da Defesa da Cidadania. Buscar formação dos nossos sonhos” escolar para melhorar de vida passou a fazer Com 14 anos, Rosa Maria vivia um parte das prioridades dos moradores do pesadelo a cada dia. Percorria as ruas do local, um objetivo que, às vezes, exige ultra- interior do Piauí consumindo álcool e cigar- passar os próprios limites. ro. Uma vida que parecia levá-la a um cami- Marta tem dois bons motivos para nho sem volta. Num momento de reflexão, acreditar que tudo é possível: persistência decidiu que era hora de mudar o destino e apoio familiar. A aptidão para os estudos se ainda quisesse continuar viva. Deixou os ela trazia desde criança, mas a necessida- pais no interior do Piauí e veio com os tios de de trabalhar também veio muito cedo. para o Assentamento XX de Novembro, em Já casada, estimulada pelo marido e pelos Cordeirópolis. Para o recomeço, Rosa acre- filhos, decidiu em 2008 que voltaria à sala ditava que a sua vida só poderia melhorar de aula. Concluiu o ensino fundamental e se concluísse os estudos. Foi o que fez. médio e foi além: em dezembro de 2009, Matriculou-se no ensino fundamen- depois de terminar o ensino médio e pas- tal, passou para o médio – e foi adiante. sar pelo curso de Educação para Jovens Decidiu prestar vestibular para o curso e Adultos – EJA (programa da Secretaria de Gestão de Recursos Humanos. Após de Estado da Educação) prestou vestibular o exame, achou que não seria aprovada. Moradores do assentamento retomam os seus estudos e chegam à universidade para Pedagogia. Nem acreditou quando viu Desiludida, quase entrou em desespero. seu nome na lista de aprovados. “Chorei Um telefonema, dois dias depois, infor- de emoção. Não imaginava que tudo isso mava que ela estava na lista dos aprovados. Plantando o futuro pudesse acontecer. Sinto-me vencedora pelo Rosa chegou a pensar que não passava de O Assentamento Cordeirópolis, que realizei. Acredito que o estudo é o melhor um trote de mau gosto. Para tirar a dúvi- batizado de XX de Novembro pelos pró- caminho para exercer nossos direitos na socie- da resolveu ir à faculdade: lá estava o seu prios assentados em 1999, recebeu esse dade. Farei de tudo para que meus filhos nome. “A vida me deu uma lição naquele nome em homenagem ao dia em que tenham as mesmas oportunidades”, garante dia. Percebi que a gente nunca deve duvi- eles tiveram a permissão para se estabe- Marta, que dias depois recebeu a notícia de dar da própria capacidade, nunca deve lecerem na região. No entanto os lotes que sua nora Maria do Socorro, 28 anos, tam- desistir dos sonhos”, conta emocionada. foram disponibilizados para moradia bém fora aprovada no mesmo curso. Hoje, com 18 anos, casada desde os ainda em 1998. 16 anos, cursa o primeiro ano na Famuc, A área (exatos 261,76 hectares) per- Inclusão social – Para estudar na é líder do grupo Ponto de Cultura e tencia à antiga Fepasa, sendo dividida em Computadores e internet no assentamento Famuc, os assentados participam de curso realiza trabalhos voluntários no assenta- 21 lotes. Os ocupantes são originários de pré-vestibular fornecido pela própria ins- mento. A moça garante que ainda não várias partes do Pais e têm a geração de Todos possuem e-mail e aprendem a tituição. Segundo o diretor da faculda- chegou ao fim dos seus sonhos: para o renda familiar focada principalmente no utilizar as máquinas por meio de cursos de, Cyriaco Antônio Hespanhol, o traba- futuro, planeja fazer um curso de Direito plantio de mandioca. Muitos se dedicam realizados no local. Nos próximos meses lho realizado na região reforça a propos- e atuar como advogada. também à criação de aves, além da produ- será construída uma cozinha para aumen- ta de inclusão social. “Precisamos acreditar ção de frutas e verduras. tar a renda do orçamento familiar das no potencial dos seres humanos. O caso O assentamento oferece ainda peque- mulheres do assentamento. Além disso, do Assentamento XX de Novembro é prova Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) na sede com biblioteca e espaço de leitura, haverá também uma sala de cinema para disso e nos enche de orgulho”. e não foi aprovada. Porém, engana-se quem brinquedoteca e sala de computadores exibição de filmes, palestras e debate de Outra assentada, Maria Antônia de pensa que por esse motivo ela vai desistir de com acesso à internet. assuntos de interesse da comunidade local. Oliveira, 47 anos, fez o vestibular para a se tornar agrônoma. “Vou tentar até quando puder. Desde a adolescência sempre gostei de trabalhar no campo, com animais e plantas. da mãe como um caminho a seguir. “Ela é o referências, pois é um local onde as pessoas Nos próximos vestibulares continuarei corren- nosso maior exemplo de perseverança e dedi- são organizadas e dedicadas. “Temos orgulho do atrás desse objetivo”, afirma Maria, que, cação. O apoio para o estudo que recebemos em conviver com esses moradores. Eles são enquanto a sua vez não chega segue tocando dela nos colocou em contato com o mundo persistentes, se respeitam, não consomem a vida no lote, onde se dedica à criação de fran- que não sabíamos que existia”, argumenta drogas e vivem com o pensamento no futuro”. gos e suínos e ao cultivo de mandioca e milho. Marcos, que não trabalha na profissão, mas O coordenador ressalta o empenho A satisfação dela é completada pelo espera em breve uma oportunidade. de cada assentado em concluir os estudos. desempenho dos filhos Marcos, 27 anos, e No assentamento, todos garantem o sus- “Ficamos felizes ao saber que estão conse- Alberto, 19 anos. Marcos formou-se como tento e a geração de renda por meio da agri- guindo vagas nas faculdades, pois sabemos técnico de segurança do trabalho e já está cultura familiar, plantio de verduras, frutas e quanto esforço de cada um isso custou”. no segundo curso de Gestão de Recursos criação de animais. Segundo o coordenador Humanos. Alberto está no último ano do regional do Itesp, Antônio Carlos Bertocco. Anderson Moriel Mattos Antônio Carlos: orgulho dos assentados ensino médio. Os jovens se espelham na garra o Assentamento XX de Novembro tem boas Da Agência Imprensa Oficial