Metafísica
A ação humana — análise e compreensão do
agir
Professora Margarida Ochoa Nunes| Filosofia | Ano Letivo 2023/2024 CSA
Metafísica
• Metafisica: domínio
da
filosofia que se
ocupa do
ser enquanto ser, isto é,
dos princípios essenciais
do ser e do conhecer.
Acontecimento:
Um acontecimento é um evento que
ocorre num determinado lugar durante
um determinado período e pode, ou
não, envolver agentes.
No entanto, nem todos estes
acontecimentos que envolvem agentes
se podem classificar como ações
humanas.
Ação:
As ações humanas também são
acontecimentos. O que difere uma
ação humana de um acontecimento é
que uma ação humana necessita de
possuir os seguintes requisitos:
• Ser realizada por um agente. • Ser
realizada de forma consciente. • Ser
realizada de forma voluntária. • Ser
realizada de forma intencional.
Constituintes
da ação humana1) As
ações humanas
envolvem um agente. O
agente é o autor da
ação. As ações
humanas são
voluntárias, conscientes
e intencionais.
2) Estas ações são
causadas devido a
motivos ou intenções.
3) Os motivos são as
razões que um
agente possui para
agir.
4) A intenção é o
projeto ou propósito
que o agente
pretende alcançar
através da ação.
5) Os motivos que
levam o agente a
agir estão
interligados com os
seus desejos e com
as suas crenças.
6) A intenção, os
motivos, as crenças e
os desejos do agente
são os fatores que
explicam e orientam a
ação.
7) Os fins são os
objetivos últimos que
o agente pretende
alcançar com uma
ação.
Perspetivas sobre a ação humana
Perspetiva causalista
A ação é um
acontecimento
causado
intencionalmente por
um agente
Um acontecimento só é uma ação se e
só se existir a concretização do
acontecimento que um agente tinha a
intenção de realizar.
Perspetiva
volicionista
A ação é uma volição,
um querer, intencional
de um agente para
realizar um
acontecimento
Um acontecimento é uma ação se
existir a intenção do agente de
realizar algo, independentemente de
o agente conseguir realizar o que
desejava ou não.
Envolve um agente –
o sujeito da ação.
Ação
É consciente,
voluntária e
intencional.
Será livre?
Resulta
muitas
vezes
de uma
deliberação.
Estamos inteiramente submetidos à causalidade que
rege os fenómenos naturais ou, para além de um
certo conjunto de condicionantes e limitações, a ação
humana é livre?
• Sou
livre quando...
ou
Sinto-me livre
quando...
bom ponto de partida para reflexã
atividade dos postits - explicar
O
PROBLEMA
DO
LIVRE-ARBÍTRIO
• Habitualmente, consideramos que,
sob certos limites, somos agentes
dotados de livre-arbítrio: avaliamos
alternativas que cremos ter ao
nosso dispor e, deliberando
racionalmente, decidimo-nos por
uma delas.
• Contudo, esta convicção entra em
conflito com uma importante teoria
científica e filosófica conhecida
como determinismo.
O PROBLEMA DO
LIVRE-ARBÍTRIO• Determinismo: Postula
que todos os
acontecimentos do universo
são efeitos de eventos ou
estados anteriores e das leis
da natureza. Os
acontecimentos podem, por
isso, ser explicados em
função de cadeias causais.
(glossário)
Causa
Efeito
O problema
do
livre-arbítrio
• Se o determinismo for
verdadeiro e levado às últimas consequências, parece contradizer a
nossa crença na liberdade de escolha, no estatuto moral das
pessoas e na responsabilidade.
- Será o ser humano efetivamente livre?
- Teremos, de facto, controlo sobre as nossas ações?
- O livre-arbítrio é compatível com o determinismo?
Definições:
Livre-arbítrio
É a liberdade da vontade. Ter
livre-arbítrio é ter
possibilidade de escolha:
poder optar entre fazer uma
coisa ou fazer outra.
(glossário)
Determinismo
É a ideia de que todos os
acontecimentos, incluindo
as ações humanas, são
determinadas por
causas anteriores e
pelas leis da natureza.
Problema do livre
arbítrio
Será que temos livre-arbítrio?
Será possível
compatibilizar o
determinismo com o
livre arbítrio?
Determinismo
radical Libertismo
Determinismo moderado
Incompatibilismo Compatibilismo
Youtube filosófico
Incompatibilismo:
Determinismo Radical
Ideias a Reter:
• As decisões (volições) são meros efeitos de causas anteriores, que por sua
vez são meros efeitos de causas anteriores, e assim por diante sem parar.
• Existem ações que parecem livres, mas não o são de facto.
• As pessoas pensam ser livres só porque têm consciência do que fazem,
mas não têm consciência das causas que as levaram a agir da maneira que
agiram.
⮚ Argumento da Ilusão da Escolha
Bento Espinosa
Na mente não há vontade absoluta ou livre. A
mente é determinada uma ou outra volição
por uma causa, que é também determina apor
outra causa, e esta por outra, e assim por
diante ad infnitum. […]
Um bebé pensa que procura livremente o
leite, uma criança birrenta que procura
livremente a vingança e um homem tímido
que procura livremente retirar-se. […] A
experiência diz-nos não menos claramente do
que a razão que é só pelo seguinte que os
homens pensão que são livres: é que têm
consciência das suas ações, mas
desconhecem as causas que as determinam.
Bento de Espinosa, Etica, IIP48,IIIP2
(1632-1677)
Incompatibilismo:
Determinismo Radical
1. Todos os eventos do universo são
determinados, isto é, têm na sua
origem outros fenómenos que os
causam e explicam.
2. Agir é um evento do universo.
3. Logo, o agir tem de ter uma causa.
⮚ Argumento da Causalidade Universal (argumento a favor)
Determinismo radical: Esta posição defende que o livre-arbítrio
humano é incompatível com um mundo regido por leis, onde os
acontecimentos (incluindo as ações) se sucedem em cadeias causais
tais que da ocorrência de uma certa causa se segue necessariamente a
ocorrência de um dado efeito, sem que possamos interferir nessas
ocorrências (mesmo que tenhamos consciência delas) e sem que as leis
que regem as relações causais estejam minimamente na nossa
dependência.
Incompatibilismo: Objeções ao
Determinismo Radical
O determinismo radical parece incompatível com a responsabilidade moral.
Se as nossas ações são meros efeitos de causas anteriores, então não somos
moralmente responsáveis pelo que fazemos na medida em que as nossas ações
são efeitos de determinadas causas que não podemos evitar.
Objeções ao
Determinismo Radical
Não existem boas provas de que todos os acontecimentos são, de facto,
efeitos de causas anteriores. Apesar desta ideia harmonizar com o
desenvolvimento científico, conseguimos identificar alguns fenómenos que não
estão inteiramente determinados. O princípio da incerteza de Heisenberg
indica que não podemos determinar simultaneamente, com precisão arbitrária,
a energia de uma partícula e o instante de tempo no qual ela tem essa energia.
Incompatibilismo:
Libertismo
Ideias a Reter:
• As leis da natureza e os acontecimentos
de um passado remoto, tal como o nosso
nascimento, não dependem de nós e, por
isso, os efeitos desses acontecimentos
também poderiam não depender de nós.
• Porém, uma vez lançado no mundo, o
homem é livre, pois, mesmo que tenha de
considerar vários aspetos da vida na sua
deliberação, em última análise pode
escolher o curso da sua ação.
Jean- Paul Sartre (1905-1980)
O homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si próprio; e
no entanto livre, porque uma vez lançado no mundo, é responsável por tudo quanto
fizer. Jean-Paul Sartre, O Existencialismo E Um Humanismo, Quetzal Editores, Lisboa, 2012, p. 228
Incompatibilismo:
Libertismo
⮚ Argumento da sensação liberdade/responsabilidade:
A experiência da liberdade é um sentimento presente
durante a vida humana, sentimos que podemos escolher o
curso dos acontecimentos e, por isso, ponderamos sobre os
diferentes cursos de ação antes de escolhermos o modo
como queremos agir.
Argumentos a Favor do
Libertismo
⮚ Argumento da responsabilidade
moral:
Nós organizamos a nossa sociedade
num sistema de responsabilização,
moral e legal, que pressupõe a
existência de liberdade. Se não
formos livres, não somos
responsáveis pelos nossos atos e
não faz sentido elogiar/punir as
pessoas pelas suas escolhas. Mas
faz sentido que essa
responsabilização exista.
Objeções ao Libertismo
Incompatibilismo:
Libertismo
⮚ Argumento da Insuficiência da
Experiência da Liberdade:
Do facto de termos um sentimento de
que poderíamos ter agido de maneira
diferente caso a nossa vontade
assim o determinasse não implica
que sejamos de facto livres de
exercer a nossa vontade. Podemos
achar que sim porque
desconhecemos as causas que nos
levaram a agir.
⮚ Argumento do Risco do
Indeterminismo:
Se as ações/decisões não causadas,
então são o resultado do acaso, e
não o resultado do que o ser humano
quer (não são livres).
O indeterminismo quântico não
fornece nenhum apoio à crença no
livre arbítrio porque se baseia no
acaso.
Tanto o determinismo
radical quanto o
libertismo conduzem ao
resultado de que não
somos responsáveis
pelas nossas
ações, pois:
1. Ou as nossas
ações são
consequências
necessárias de
causas anteriores
🡪 determinismo
radical
Dilema
de
determinismo
3. Logo, não somos
responsáveis pelas nossas
ações.
2. Ou as
nossas ações
não são
consequências necessárias
de
causas anteriores 🡪
libertismo
Youtube
filosófico
Compatibilismo:
Determinismo ModeradoIdeias a Reter:
• O livre-arbítrio não é agir de maneira totalmente independente dos motivos,
inclinações e circunstâncias da pessoa. É a capacidade para agir
consoante os objetivos que se pretende alcançar.
• As ações que resultam dos motivos, inclinações e circunstâncias da pessoa
são livres.
• Só não temos livre-arbítrio quando estamos
presos ou somos impedidos de fazer o que
queremos (=agir consoante os nossos
objetivos).
David Hume (1711 – 1766)
O que se quer dizer com “liberdades”, quando se aplica o conceito a ações voluntárias? Não podemos certamente
querer dizer que as ações têm uma conexão tão ténue com os motivos, inclinações e circunstâncias, que a primeira não
se segue dos segundos com um certo grau de uniformidade, e que não se consegue inferir a primeira dos segundos.
Pois estas são questões de facto óbvias e reconhecidas. Assim, por “liberdade” só podemos querer dizer um poder para
agir ou não agir segundo as determinações da vontade; ou seja, se escolhemos ficar em repouso, podemos fica-lo; se
decidirmos deslocar-nos, também podemos. Ora, esta liberdade hipotética considera-se universalmente que pertence a
qualquer pessoa que não seja um prisioneiro acorrentado.
David Hume, Investigação Sobre o Entendimento Humano, p.85
Determinismo moderado
Estamos determinados.
Temos a liberdade necessária
para sermos moralmente
responsáveis.
Um ato pode ser, ao mesmo tempo, livre e determinado.
Ações livres: Aquelas que
fazemos com vontade de as
fazer e sem que nada nem
ninguém nos force ou
obrigue.
Ações
não-livres: Aquelas em que
somos forçados ou
constrangidos a escolher.
As ações livres resultam do exercício da vontade de um
agente, das suas crenças e dos seus desejos, surgindo por
um processo natural, sem coações, apesar de serem
determinadas.
Compatibilismo:
Determinismo Moderado
Liberdade sem alternativas:
“Smith é um neurocirurgião genial. Sendo um acérrimo
defensor do Partido Democrata, ele pr etende que Joe
Biden ganhe as
eleições
presidenciais nos
EUA contra
Donald
Trump. Ele
insere
secretamente um chip no cérebro de algumas ce
lebridades, entre elas Beyoncé. Esse chip permite-lhe
monitorizar e controlar as atividades da artista através
de um computador ultramoderno que ele criou para,
entre outras coisas, vigiar o seu pensamento e o seu
comporta mento. Se Beyoncé demonstrasse qualquer
inclinação para votar em Trump (ou, digamos, em q
ualquer outro que não Biden), o computador, por meio
do chip instalado no seu cérebro, interv iria para
garantir que ela realmente decidisse votar em Biden e
concretizasse o voto. Mas, se ela decidir por si própria
votar em Biden (como Smith prefere), o computador
não fará nada além
de continuar a monitorizar sem afetar o que está a
acontecer na cabeça de Beyoncé. Agora, supo nha
que ela decide votar em Biden, e, portanto, não sofre
nenhuma interferência do chip impla ntado no seu
cérebro.
Parece óbvio que Beyoncé pode ser considerada
moralmente responsável pela sua escolha e pel o ato
de votar em Biden, embora ela não pudesse ter
escolhido outra opção e não pudesse ter agido de
outra forma.“
Harry G. Frankfurt,“Alternate Possibilities and Moral
Responsibility”, The Journal of Philosophy,Vol. 66, n.º 23. (
Dec. 4, 1969), pp. 829 -839 (texto adaptado pelos autores)
Harry Frankfurt (1929-2023)
O compatibilismo
de Harry Frankfurt:
Compatibilismo:
Determinismo
ModeradoO compatibilismo de Harry Frankfurt:
Frankfurt é um autor compatibilista que põe em causa o
princípio das possibilidades alternativas.
Mesmo que não pudesse ter agido de modo diferente do que
agiu, o agente tem livre-arbítrio e pode ser responsabilizado.
Afirmar o livre-arbítrio do ser humano é afirmar que ele é
capaz de determinar as suas vontades e agir em função
dessa determinação.
Compatibilismo: Determinismo
Moderado
⮚ Argumento de Frankfurt (argumento da rejeição
do
princípio das alternativas possíveis):
Este argumento defende que o livre-arbítrio não
exige que o
agente tenha reais alternativas de escolha, mas apenas que
tenha o controlo sobre a sua decisão.
Argumentos a Favor do
Determinismo
Moderado
⮚Argumento das Razões e
Orientação:
Ser livre implica ser capaz de agir por
razões e ser capaz de responder
apropriadamente por essas razões,
independentemente de o fazermos ou
não
O livre-arbítrio consiste em ser capaz
de responder pela orientação que
damos às nossas ações, apesar
delas serem determinadas.
Compatibilismo: Determinismo
Moderado
⮚ Objeção aos Casos de Frankfurt:
Os casos imaginados por Frankfurt são sequências
causais
deterministas, pelo
que não provam
nada acerca da definição de livre-arbítrio.
Em última análise, a escolha de Beyoncé seria ilusória.
Objeções face ao Determinismo Moderado
⮚Objeção do Determinismo
“Envergonhado”: O Argumento das
Razões e Orientação implica a
alteração da definição de livre-arbítrio,
contornando o problema e não o
resolvendo.
O controlo de uma decisão que não foi
“criada” por nós não é um verdadeiro
controlo, é apenas a execução de
eventos que as cadeias causais que
governam o Universo determinam.
Esquema - síntese
O determinismo é compatível com o livre-arbítrio?
Não
Incompatibilismo
Determinismo
radical Libertismo
Sim
Compatibilismo
Determinismo moderado
Se há determinismo,
então não há
livre-arbítrio.
Há determinismo e
o livre-arbítrio é
uma ilusão.
Se há determinismo,
então não há
livre-arbítrio.
Há livre-arbítrio e o
determinismo é
falso.
Se há determinismo,
então não há
livre-arbítrio.
Há determinismo
(causalidade) e há
livre arbítrio
(ausência de
constrangimento).
Verificação das
aprendizagens
1. Calvin defende que não é
culpado pelas ações que
pratica. Porquê?
2. Qual é a medida imposta pelo
pai de Calvin para este formar o
caráter?
3. Tendo em conta as afirmações que
Calvin o faz, será que ele considera os
seres humanos livres? Tendo em
conta, as aprendizagens adquiridas,
concordas ou discordas com ele?
Porquê?
Glossário:
• Metafisica
• Livre-arbítrio
• Determinismo
• Determinismo radical
• Libertismo
• Incompatibilismo
• Determinismo moderado
• Compatibilismo
Trabalho de grupo:
1.ª fase: Dividir a turma em dois grupos – os que concordam com
o determinismo moderado e os que não concordam. (5 minutos)
2.ª fase: Pedir para cada um dos grupos escrever cinco razões por que concordam com a teoria ou
por que não concordam. Depois dos grupos escreverem,
apresentam-nas oralmente. (5 minutos)
3.ª fase: Cada grupo deve criar três críticas para as razões apresentadas pelo grupo contrário. Depois
dos grupos escreverem, apresentam-nas oralmente.
Cada grupo deve apontar as críticas que recebeu. (10 minutos)
4.ª fase: Cada grupo deve escolher duas das cinco razões que tinham dito no início e devem, com o
auxílio do manual, voltar a formular as suas razões,
desta vez em forma de argumento. (20 minutos)
5.ª fase: Cada grupo deve pensar e escrever possíveis respostas às críticas que lhes foram feitas
anteriormente. (10 minutos)
6.ª fase: Cada um dos dois grupos irá selecionar um porta-voz para irem apresentar os argumentos à
frente da turma e aí começará a fase de debate. Os porta-vozes, de modo, a conseguirem responder
aos argumentos e críticas do grupo oposto, após as primeiras intervenções de cada grupo estarem
concluídas, cada porta-voz poderá voltar a conferenciar com o seu respetivo grupo. (duração: 20
minutos)

10ºano-livre-arbítrio e determinismo.pdf

  • 1.
    Metafísica A ação humana— análise e compreensão do agir Professora Margarida Ochoa Nunes| Filosofia | Ano Letivo 2023/2024 CSA Metafísica
  • 2.
    • Metafisica: domínio da filosofiaque se ocupa do ser enquanto ser, isto é, dos princípios essenciais do ser e do conhecer. Acontecimento: Um acontecimento é um evento que ocorre num determinado lugar durante um determinado período e pode, ou não, envolver agentes. No entanto, nem todos estes acontecimentos que envolvem agentes se podem classificar como ações humanas.
  • 3.
    Ação: As ações humanastambém são acontecimentos. O que difere uma ação humana de um acontecimento é que uma ação humana necessita de possuir os seguintes requisitos: • Ser realizada por um agente. • Ser realizada de forma consciente. • Ser realizada de forma voluntária. • Ser realizada de forma intencional. Constituintes da ação humana1) As
  • 4.
    ações humanas envolvem umagente. O agente é o autor da ação. As ações humanas são voluntárias, conscientes e intencionais. 2) Estas ações são causadas devido a motivos ou intenções. 3) Os motivos são as razões que um agente possui para agir. 4) A intenção é o projeto ou propósito que o agente pretende alcançar através da ação. 5) Os motivos que levam o agente a agir estão interligados com os seus desejos e com as suas crenças. 6) A intenção, os motivos, as crenças e os desejos do agente são os fatores que explicam e orientam a ação. 7) Os fins são os objetivos últimos que o agente pretende alcançar com uma ação. Perspetivas sobre a ação humana Perspetiva causalista A ação é um acontecimento causado intencionalmente por um agente Um acontecimento só é uma ação se e só se existir a concretização do acontecimento que um agente tinha a
  • 5.
    intenção de realizar. Perspetiva volicionista Aação é uma volição, um querer, intencional de um agente para realizar um acontecimento Um acontecimento é uma ação se existir a intenção do agente de realizar algo, independentemente de o agente conseguir realizar o que desejava ou não. Envolve um agente – o sujeito da ação. Ação É consciente, voluntária e intencional. Será livre? Resulta muitas vezes de uma
  • 6.
    deliberação. Estamos inteiramente submetidosà causalidade que rege os fenómenos naturais ou, para além de um certo conjunto de condicionantes e limitações, a ação humana é livre? • Sou livre quando... ou Sinto-me livre
  • 7.
    quando... bom ponto departida para reflexã atividade dos postits - explicar O PROBLEMA DO
  • 8.
    LIVRE-ARBÍTRIO • Habitualmente, consideramosque, sob certos limites, somos agentes dotados de livre-arbítrio: avaliamos alternativas que cremos ter ao nosso dispor e, deliberando racionalmente, decidimo-nos por uma delas. • Contudo, esta convicção entra em conflito com uma importante teoria científica e filosófica conhecida como determinismo. O PROBLEMA DO
  • 9.
    LIVRE-ARBÍTRIO• Determinismo: Postula quetodos os acontecimentos do universo são efeitos de eventos ou estados anteriores e das leis da natureza. Os acontecimentos podem, por isso, ser explicados em função de cadeias causais. (glossário) Causa Efeito
  • 10.
  • 11.
    verdadeiro e levadoàs últimas consequências, parece contradizer a nossa crença na liberdade de escolha, no estatuto moral das pessoas e na responsabilidade. - Será o ser humano efetivamente livre? - Teremos, de facto, controlo sobre as nossas ações? - O livre-arbítrio é compatível com o determinismo? Definições: Livre-arbítrio É a liberdade da vontade. Ter livre-arbítrio é ter possibilidade de escolha: poder optar entre fazer uma coisa ou fazer outra. (glossário) Determinismo É a ideia de que todos os
  • 12.
    acontecimentos, incluindo as açõeshumanas, são determinadas por causas anteriores e pelas leis da natureza. Problema do livre arbítrio Será que temos livre-arbítrio? Será possível compatibilizar o determinismo com o livre arbítrio? Determinismo radical Libertismo Determinismo moderado Incompatibilismo Compatibilismo
  • 13.
  • 14.
  • 15.
    Ideias a Reter: •As decisões (volições) são meros efeitos de causas anteriores, que por sua vez são meros efeitos de causas anteriores, e assim por diante sem parar. • Existem ações que parecem livres, mas não o são de facto. • As pessoas pensam ser livres só porque têm consciência do que fazem, mas não têm consciência das causas que as levaram a agir da maneira que agiram. ⮚ Argumento da Ilusão da Escolha Bento Espinosa Na mente não há vontade absoluta ou livre. A mente é determinada uma ou outra volição por uma causa, que é também determina apor outra causa, e esta por outra, e assim por diante ad infnitum. […] Um bebé pensa que procura livremente o leite, uma criança birrenta que procura livremente a vingança e um homem tímido que procura livremente retirar-se. […] A experiência diz-nos não menos claramente do que a razão que é só pelo seguinte que os homens pensão que são livres: é que têm
  • 16.
    consciência das suasações, mas desconhecem as causas que as determinam. Bento de Espinosa, Etica, IIP48,IIIP2 (1632-1677) Incompatibilismo: Determinismo Radical 1. Todos os eventos do universo são determinados, isto é, têm na sua origem outros fenómenos que os causam e explicam. 2. Agir é um evento do universo. 3. Logo, o agir tem de ter uma causa. ⮚ Argumento da Causalidade Universal (argumento a favor) Determinismo radical: Esta posição defende que o livre-arbítrio humano é incompatível com um mundo regido por leis, onde os acontecimentos (incluindo as ações) se sucedem em cadeias causais tais que da ocorrência de uma certa causa se segue necessariamente a ocorrência de um dado efeito, sem que possamos interferir nessas
  • 17.
    ocorrências (mesmo quetenhamos consciência delas) e sem que as leis que regem as relações causais estejam minimamente na nossa dependência.
  • 18.
  • 19.
    Determinismo Radical O determinismoradical parece incompatível com a responsabilidade moral. Se as nossas ações são meros efeitos de causas anteriores, então não somos moralmente responsáveis pelo que fazemos na medida em que as nossas ações são efeitos de determinadas causas que não podemos evitar. Objeções ao Determinismo Radical Não existem boas provas de que todos os acontecimentos são, de facto, efeitos de causas anteriores. Apesar desta ideia harmonizar com o desenvolvimento científico, conseguimos identificar alguns fenómenos que não estão inteiramente determinados. O princípio da incerteza de Heisenberg indica que não podemos determinar simultaneamente, com precisão arbitrária, a energia de uma partícula e o instante de tempo no qual ela tem essa energia. Incompatibilismo: Libertismo Ideias a Reter: • As leis da natureza e os acontecimentos de um passado remoto, tal como o nosso nascimento, não dependem de nós e, por isso, os efeitos desses acontecimentos também poderiam não depender de nós. • Porém, uma vez lançado no mundo, o
  • 20.
    homem é livre,pois, mesmo que tenha de considerar vários aspetos da vida na sua deliberação, em última análise pode escolher o curso da sua ação. Jean- Paul Sartre (1905-1980) O homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si próprio; e no entanto livre, porque uma vez lançado no mundo, é responsável por tudo quanto fizer. Jean-Paul Sartre, O Existencialismo E Um Humanismo, Quetzal Editores, Lisboa, 2012, p. 228 Incompatibilismo:
  • 21.
    Libertismo ⮚ Argumento dasensação liberdade/responsabilidade: A experiência da liberdade é um sentimento presente durante a vida humana, sentimos que podemos escolher o curso dos acontecimentos e, por isso, ponderamos sobre os diferentes cursos de ação antes de escolhermos o modo como queremos agir. Argumentos a Favor do Libertismo ⮚ Argumento da responsabilidade moral: Nós organizamos a nossa sociedade num sistema de responsabilização, moral e legal, que pressupõe a existência de liberdade. Se não formos livres, não somos responsáveis pelos nossos atos e não faz sentido elogiar/punir as pessoas pelas suas escolhas. Mas faz sentido que essa responsabilização exista. Objeções ao Libertismo
  • 22.
    Incompatibilismo: Libertismo ⮚ Argumento daInsuficiência da Experiência da Liberdade: Do facto de termos um sentimento de que poderíamos ter agido de maneira diferente caso a nossa vontade assim o determinasse não implica que sejamos de facto livres de exercer a nossa vontade. Podemos achar que sim porque desconhecemos as causas que nos levaram a agir. ⮚ Argumento do Risco do Indeterminismo: Se as ações/decisões não causadas, então são o resultado do acaso, e não o resultado do que o ser humano quer (não são livres). O indeterminismo quântico não fornece nenhum apoio à crença no livre arbítrio porque se baseia no acaso. Tanto o determinismo radical quanto o libertismo conduzem ao resultado de que não somos responsáveis pelas nossas
  • 23.
    ações, pois: 1. Ouas nossas ações são consequências necessárias de causas anteriores 🡪 determinismo radical Dilema de determinismo 3. Logo, não somos responsáveis pelas nossas ações. 2. Ou as nossas ações não são consequências necessárias de causas anteriores 🡪 libertismo Youtube
  • 24.
  • 25.
    Determinismo ModeradoIdeias aReter: • O livre-arbítrio não é agir de maneira totalmente independente dos motivos, inclinações e circunstâncias da pessoa. É a capacidade para agir consoante os objetivos que se pretende alcançar. • As ações que resultam dos motivos, inclinações e circunstâncias da pessoa são livres. • Só não temos livre-arbítrio quando estamos presos ou somos impedidos de fazer o que queremos (=agir consoante os nossos objetivos). David Hume (1711 – 1766) O que se quer dizer com “liberdades”, quando se aplica o conceito a ações voluntárias? Não podemos certamente querer dizer que as ações têm uma conexão tão ténue com os motivos, inclinações e circunstâncias, que a primeira não se segue dos segundos com um certo grau de uniformidade, e que não se consegue inferir a primeira dos segundos. Pois estas são questões de facto óbvias e reconhecidas. Assim, por “liberdade” só podemos querer dizer um poder para agir ou não agir segundo as determinações da vontade; ou seja, se escolhemos ficar em repouso, podemos fica-lo; se decidirmos deslocar-nos, também podemos. Ora, esta liberdade hipotética considera-se universalmente que pertence a qualquer pessoa que não seja um prisioneiro acorrentado. David Hume, Investigação Sobre o Entendimento Humano, p.85 Determinismo moderado
  • 26.
    Estamos determinados. Temos aliberdade necessária para sermos moralmente responsáveis. Um ato pode ser, ao mesmo tempo, livre e determinado. Ações livres: Aquelas que fazemos com vontade de as fazer e sem que nada nem ninguém nos force ou obrigue. Ações não-livres: Aquelas em que somos forçados ou constrangidos a escolher. As ações livres resultam do exercício da vontade de um agente, das suas crenças e dos seus desejos, surgindo por um processo natural, sem coações, apesar de serem determinadas. Compatibilismo: Determinismo Moderado Liberdade sem alternativas: “Smith é um neurocirurgião genial. Sendo um acérrimo defensor do Partido Democrata, ele pr etende que Joe Biden ganhe as eleições presidenciais nos EUA contra Donald Trump. Ele insere
  • 27.
    secretamente um chipno cérebro de algumas ce lebridades, entre elas Beyoncé. Esse chip permite-lhe monitorizar e controlar as atividades da artista através de um computador ultramoderno que ele criou para, entre outras coisas, vigiar o seu pensamento e o seu comporta mento. Se Beyoncé demonstrasse qualquer inclinação para votar em Trump (ou, digamos, em q ualquer outro que não Biden), o computador, por meio do chip instalado no seu cérebro, interv iria para garantir que ela realmente decidisse votar em Biden e concretizasse o voto. Mas, se ela decidir por si própria votar em Biden (como Smith prefere), o computador não fará nada além de continuar a monitorizar sem afetar o que está a acontecer na cabeça de Beyoncé. Agora, supo nha que ela decide votar em Biden, e, portanto, não sofre nenhuma interferência do chip impla ntado no seu cérebro. Parece óbvio que Beyoncé pode ser considerada moralmente responsável pela sua escolha e pel o ato de votar em Biden, embora ela não pudesse ter escolhido outra opção e não pudesse ter agido de outra forma.“ Harry G. Frankfurt,“Alternate Possibilities and Moral Responsibility”, The Journal of Philosophy,Vol. 66, n.º 23. ( Dec. 4, 1969), pp. 829 -839 (texto adaptado pelos autores) Harry Frankfurt (1929-2023)
  • 35.
    O compatibilismo de HarryFrankfurt: Compatibilismo: Determinismo
  • 36.
    ModeradoO compatibilismo deHarry Frankfurt: Frankfurt é um autor compatibilista que põe em causa o princípio das possibilidades alternativas. Mesmo que não pudesse ter agido de modo diferente do que agiu, o agente tem livre-arbítrio e pode ser responsabilizado. Afirmar o livre-arbítrio do ser humano é afirmar que ele é capaz de determinar as suas vontades e agir em função dessa determinação. Compatibilismo: Determinismo Moderado ⮚ Argumento de Frankfurt (argumento da rejeição do princípio das alternativas possíveis): Este argumento defende que o livre-arbítrio não
  • 37.
    exige que o agentetenha reais alternativas de escolha, mas apenas que tenha o controlo sobre a sua decisão. Argumentos a Favor do Determinismo Moderado ⮚Argumento das Razões e Orientação: Ser livre implica ser capaz de agir por razões e ser capaz de responder apropriadamente por essas razões, independentemente de o fazermos ou não O livre-arbítrio consiste em ser capaz de responder pela orientação que damos às nossas ações, apesar delas serem determinadas. Compatibilismo: Determinismo Moderado ⮚ Objeção aos Casos de Frankfurt: Os casos imaginados por Frankfurt são sequências causais deterministas, pelo que não provam
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    nada acerca dadefinição de livre-arbítrio. Em última análise, a escolha de Beyoncé seria ilusória. Objeções face ao Determinismo Moderado ⮚Objeção do Determinismo “Envergonhado”: O Argumento das Razões e Orientação implica a alteração da definição de livre-arbítrio, contornando o problema e não o resolvendo. O controlo de uma decisão que não foi “criada” por nós não é um verdadeiro controlo, é apenas a execução de eventos que as cadeias causais que governam o Universo determinam. Esquema - síntese O determinismo é compatível com o livre-arbítrio? Não Incompatibilismo Determinismo radical Libertismo Sim
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    Compatibilismo Determinismo moderado Se hádeterminismo, então não há livre-arbítrio. Há determinismo e o livre-arbítrio é uma ilusão. Se há determinismo, então não há livre-arbítrio. Há livre-arbítrio e o determinismo é falso. Se há determinismo, então não há livre-arbítrio. Há determinismo (causalidade) e há livre arbítrio (ausência de constrangimento). Verificação das aprendizagens 1. Calvin defende que não é culpado pelas ações que pratica. Porquê? 2. Qual é a medida imposta pelo
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    pai de Calvinpara este formar o caráter? 3. Tendo em conta as afirmações que Calvin o faz, será que ele considera os seres humanos livres? Tendo em conta, as aprendizagens adquiridas, concordas ou discordas com ele? Porquê? Glossário: • Metafisica • Livre-arbítrio
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    • Determinismo • Determinismoradical • Libertismo • Incompatibilismo • Determinismo moderado • Compatibilismo
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    Trabalho de grupo: 1.ªfase: Dividir a turma em dois grupos – os que concordam com o determinismo moderado e os que não concordam. (5 minutos)
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    2.ª fase: Pedirpara cada um dos grupos escrever cinco razões por que concordam com a teoria ou por que não concordam. Depois dos grupos escreverem, apresentam-nas oralmente. (5 minutos) 3.ª fase: Cada grupo deve criar três críticas para as razões apresentadas pelo grupo contrário. Depois dos grupos escreverem, apresentam-nas oralmente. Cada grupo deve apontar as críticas que recebeu. (10 minutos) 4.ª fase: Cada grupo deve escolher duas das cinco razões que tinham dito no início e devem, com o auxílio do manual, voltar a formular as suas razões, desta vez em forma de argumento. (20 minutos) 5.ª fase: Cada grupo deve pensar e escrever possíveis respostas às críticas que lhes foram feitas anteriormente. (10 minutos) 6.ª fase: Cada um dos dois grupos irá selecionar um porta-voz para irem apresentar os argumentos à frente da turma e aí começará a fase de debate. Os porta-vozes, de modo, a conseguirem responder aos argumentos e críticas do grupo oposto, após as primeiras intervenções de cada grupo estarem concluídas, cada porta-voz poderá voltar a conferenciar com o seu respetivo grupo. (duração: 20 minutos)