O neurônio do Suicídio

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Cientistas acreditam que pessoas que se
matam têm uma diferença anatômica no
cérebro: maior concentração de células
neurais fusiformes, conhecidas como
Von Economo, em regiões associadas à
empatia e interação social

Artigo lido em: http://abp.org.br/2011/medicos/archive/5500
Publicado na revista Mente e Cérebro

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O neurônio do Suicídio

  1. 1. N E U R O B I O L O G I A O neurônio do suicídio Cientistas acreditam que pessoas que se matam têm uma diferença anatômica no cérebro: maior concentração de células neurais fusiformes, conhecidas como Von Economo, em regiões associadas à empatia e interação social A // por Fernanda Teixeira Ribeiro cada 40 segundos uma pessoa se mata. Há 1 milhão de suicídios por ano no mundo e pelo menos 20 milhões de tentativas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Essa é a terceira maior causa de morte na faixa etária entre 15 e 35 anos, atrás apenas de ferimentos por armas de fogo e acidentes de trânsito. No Brasil, a cada 100 mil mortes, 4,6 são por suicídio, uma estatística que aumentou 43,8% nas o monge à beira-mar (detalhe), óleo sobre tela, caspar últimas duas décadas. david friedrich, c.1809, galeria nacional, berlim O comportamento suicida resulta da combinação de fatores psíquicos, culturais, sociais e neurobiológicos. Uma pesquisa feita na Dinamarca mostra que os riscos de uma pessoa se matar são maiores se há casos de suicídio entre seus parentes biológicos, mesmo que ela tenha sido adotada quando recém-­ nascida. Em um estudo da Universidade Federal de Minas a AUTORa Gerais (UFMG), o psiquiatra Humberto Corrêa observou que É jornalista, editora-assistente de homens e mulheres com depressão e esquizofrenia que tenta- Mente e Cérebro ram se matar tinham a função serotoninérgica diminuída, ou 56 l mentecérebro l março 2012
  2. 2. N E U R O B I O L O G I A 57
  3. 3. N E U R O B I O L O G I A seja, deficiência no processo de síntese, transpor- te e ligação com receptores de serotonina. Níveis Problema de saúde pública baixos dessa substância neuroquímica estão rela- No Brasil há em média 24 suicídios por dia, o equivalente cionados a sintomas depressivos, que são fatores a 9 mil mortes por ano. Uma estatística alta, já que a de risco para o suicídio (veja quadro ao lado). aids, por exemplo, é causa de pouco mais de 10 mil Mais recentemente, pesquisadores come- óbitos. Ao contrário do que ocorre na maioria dos países, çaram a analisar se alterações em áreas neurais o número de suicídios juvenis supera o de adultos, ligadas à empatia e à interação social podiam segundo o relatório Mapa da violência/2011, elaborado estar relacionadas ao comportamento suicida. pelo Instituto Sangari e pelo Ministério da Justiça; e os índices cresceram 17% nos últimos dez anos. Estudos com neuroimageamento mostraram Apesar dos dados, o país não investe em estratégias que pessoas com Alzheimer e autismo apresen- de prevenção. “Não há campanhas veiculadas na tam menor ativação das áreas do córtex cingula- televisão, como as que alertam sobre a transmissão de do anterior e do córtex frontoinsular. Essas duas doenças. O assunto é tido como tabu, e quando uma regiões são as únicas onde é encontrado um pessoa é encaminhada ao sistema de saúde público por tipo especial de neurônio fusiforme de função tentativa de suicídio ela é liberada após se recuperar. desconhecida – os neurônios de Von Economo Um em cada quatro pacientes tenta se matar outra (VENs, na sigla em inglês). Agora, pesquisado- vez em menos de um ano”, diz o psiquiatra Antônio res da Universidade de Bochum, na Alemanha, Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de constataram que o cérebro de pessoas que se Psiquiatria (ABP), ressaltando que, entre a população suicidaram tinha maiores quantidades dessas indígena, há 20 suicídios para cada 100 mil mortes, o células neurais. equivalente a quatro vezes a média nacional. Os altos índices de suicídio entre a população economicamente ativa podem ter impactos sociais a MAPA DAS EMOÇÕES longo prazo. Para cada suicídio, cinco a dez pessoas, Uma das hipóteses é que os neurônios fusifor- entre parentes, vizinhos e colegas de trabalho, mes fornecem a interconexão entre as áreas do desenvolvem transtorno de estresse pós-traumático cérebro ativadas pelo contato social. Segundo (TEPT), o que gera afastamento do trabalho e gastos o neurocientista John Allman, do Instituto de com medicamentos e favorece os fatores de risco Tecnologia da Califórnia, eles podem funcionar para o comportamento suicida. Suécia, Estados como rastreadores de experiências sociais, Unidos, Irlanda e Japão, por exemplo, consideram proporcionando a base da aprendizagem social o comportamento suicida urgência médica. No país intuitiva quando observamos e copiamos os escandinavo, as mortes foram reduzidas em 39,5% outros. Essas células, analisadas pela primeira nas últimas duas décadas graças a estratégias vez em 1925 pelo neurologista romeno Cons- como tratamento de pessoas diagnosticadas com depressão e dependentes de álcool, restrição ao tantin von Economo, são encontradas apenas acesso dos métodos mais comuns de suicídio, como pesticidas, e, no caso de tentativa, acompanhamentonephron/creative commons de psicólogos e assistentes sociais por meio de telefonemas e visitas domiciliares. Os sintomas de risco de suicídio se confundem com os de transtornos de humor. A comorbidade é de mais de 90%. Segundo Silva, o principal indício é uma primeira tentativa. “Ela geralmente é precedida de outros comportamentos autolesivos e da expressão de pensamentos suicidas”, diz. Estes costumam ser fatores de risco, que podem tomar maiores proporções em caso de desemprego, separação conjugal e anomia (estado de falta de objetivos e expectativas). Pesquisadores do Laboratório de Saúde Mental e Medicina da Universidade Estadual de Campinas (LSMM-Unicamp), em parceria com o Ministério da Saúde, elaboraram Circuito do sofrimento: há maior número de neurônios fusiformes em áreas ligadas à percepção de exclusão social e à uma cartilha de prevenção direcionada a profissionais autodepreciação, como o córtex cingulado anterior e a ínsula anterior da saúde mental, disponível no endereço http://bvsms. saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_editoracao.pdf. 58 l mentecérebro l março 2012
  4. 4. autorretrato, óleo sobre tela, vincent van gogh, 1887, instituto de arte de chicago associados a altos índices de suicídio – cerca de 5% dos diagnosticados com esquizofrenia mor- rem dessa forma; no caso do transtorno bipolar, a estatística é de 19%, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). O neurocientista Martin Brüne comparou o cérebro de 9 suicidas ao de 30 pessoas que tinham um dos dois transtornos mas morreram de causas naturais. A densidade de neurônios fusiformes no córtex cingulado anterior e no córtex frontoinsular foi significa- tivamente maior no primeiro grupo. Segundo Brüne, os neurônios de Von Economo podem estar envolvidos no processamento de expe- riências subjetivas complexas, como culpa excessiva, autodepreciação e sentimento de rejeição social. vergonha e culpa O comportamento suicida tem sido associado a transtornos mentais por vários estudos. A relação é mais estreita entre os distúrbios caracterizados pela alternância entre crises psicóticas e intervalos de lucidez. Segundo artigo publicado no The American Journal of Psychiatry, a consciência da própria situação O holandês Vincent Van Gogh atirou no próprio peito depois de passar anos internado em instituições para doentes mentais; crises psicóticas são fator de risco costuma despertar sentimentos de culpa, vergonha e desesperança. Entre pessoas com em espécies que se socializam, como grandes esquizofrenia, a prevalência de depressão é de símios, elefantes e baleias. Em humanos, elas mais de 50%, e o risco de suicídio é 20% maior aumentaram de quantidade ao longo da evolu- em comparação com a população em geral. ção. Sua concentração se multiplica por volta Em outra pesquisa, o grupo coordenado dos 4 anos de idade, período considerado por por Brüne observou que esquizofrênicos com especialistas um divisor de águas nas habili- maior concentração de neurônios fusiformes dades de intuição social. “A dificuldade dos no córtex cingulado anterior direito obtinham autistas em distinguir emoções e estabelecer melhor desempenho em testes que avaliavam vínculos afetivos coincide com a menor quan- a consciência da própria psicose. “Essa percep- tidade desses neurônios”, diz Allman. ção tem se revelado um risco potencial para o Outros estudos relacionaram as habilidades suicídio, principalmente quando a qualidade de empáticas às áreas do cérebro onde há maior vida é baixa”, diz o neurocientista. concentração de VENs. Segundo artigo publica- PARA SABER MAIS Seria uma conclusão limitada estabelecer do na Science em 2003, pessoas com depressão Neuroanatomical correlates relação de causalidade entre a densidade de e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) of suicide in psychosis: the neurônios fusiformes e o comportamento role of Von Economo neurons. conseguem distinguir emoções negativas em Martin Brüne, em PLoS ONE, suicida. No entanto, as pesquisas com essas rostos com mais facilidade e apresentam maior 22 de junho de 2011. células podem revelar mecanismos envolvidos ativação dessas regiões ao ver fotografias que Por quê? Angústia e suicí- na percepção de emoções e na consciência. Até dio. Carol Ezzel, em Especial exprimam raiva, ameaça ou tristeza. Por fim, o Scientific American – Em agora, os resultados sugerem que elas integram estudo da Universidade de Bochum, divulgado busca da consciência, no 40, um circuito neural que sustenta faculdades so- págs. 78-81. na revista PLoS ONE, analisou tecidos cerebrais ciocognitivas sofisticadas, esculpidas ao longo Suicídio, uma morte evitá- de pessoas com esquizofrenia e transtorno bipo- vel. Humberto Corrêa e Sér- da evolução – entre elas, a intenção de terminar lar que se mataram. Esses dois distúrbios estão gio Barrero. Atheneu, 2006. com a própria vida. e m c 59

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