Suicídio - Dimensão do problema e o que fazer

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Fabio Souza
Professor Associado de Psiquiatria da Universidade Federal do Ceará;
PhD Universidade de Edinburgh;
Coordenador do PRAVIDA (Projeto de Apoio à Vida)

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Suicídio - Dimensão do problema e o que fazer

  1. 1. 6 | debate hoje O suicídio constitui uma importante questão de saúde pública no mundo inteiro. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, até 2020, mais de 1,5 milhões de pessoas irão cometer suicídio por ano. O número de suicídios no mundo cresceu em 60% nos últimos anos - cerca de três mil pessoas se suicidam por dia e 60 mil tentam, mas não conseguem. Este número representa quase 50% do total de mortes violentas. No ano 2000, 14,5 mortes por 100 mil ha- bitantes (uma morte a cada 40 segundos) ocorreram no mundo. Atualmente, nos Estados Unidos, para cada homicídio há dois sui- cídios (cerca de 18 mil e 34 mil por ano, respectivamente). Em 2001, o suicídio foi a 11ª causa de morte entre todas as idades nos Estados Unidos, com uma taxa de 10,8 suicídios por 100 mil habitantes. E a terceira causa de morte entre 15-24 anos e a se- gunda entre 25-34 anos. O Brasil ocupa a 67ª posição em uma classificação mundial em taxa de suicídio. No entanto, em números absolutos, o Brasil está entre os 10 países com mais suicídios. No Brasil, cerca de 25 pessoas se matam por dia, fazendo do país o 11º colocado no ranking mundial de suicídios. No Brasil, a taxa de homicídios (25 por cem mil habitantes) supera a de suicídios (6 por cem mil habitantes), mas a distância entre as duas taxas tem se reduzido progressivamente. A taxa de suicídio no Brasil tem se elevado nos últimos anos, mais ainda entre os jovens com idades entre 15 e 24 anos, passando de 4,0 por 100 mil habitantes em 2000 para 4,7 em 2005. Ha subnotificação e o difícil reconhecimento do suicídio em nosso país em relação, por exemplo, aos acidentes (ocorrên- cia deveria ser a correta denominação) de trânsitos e quedas. Preconceitos de natureza religiosa, cultural e social infelizmente impedem o correto dimensionamento do problema. Entre 1980 e 2006, um total de 158.952 casos de suicídio foi ob- servado no Brasil. O índice total de suicídio cresceu de 4,4 para 5,7 mortes por 100 mil habitantes (29,5%). Os índices mais altos de suicídio foram registrados nas regiões Sul (9,3) e Centro-Oeste (6,1). Os homens são os que têm a maior probabilidade de cometer suicídio. Os índices mais altos de suicídio foram registrados na faixa etária de 70 anos ou mais, enquanto que os maiores aumentos aconteceram na faixa etária dos 20 aos 59 anos. As taxas de suicídio cresceram mais entre os indivíduos com idades entre 20 e 59 anos (30%) do que entre aqueles com idade maior que 60 anos (19%). Para os que têm 75 anos ou mais, o índice passa dos 15/100 mil . A taxa de suicídio mais baixa foi observada no grupo com idades entre 10-14 e 15-19, com um crescimento de 20% e 30%, respectivamente. DimensãodoProblemaeoqueFazer Suicídio Artigo Suicídio – Dimensão do Problema e o que Fazer No período de 2000 a 2008, houve 73.261 óbitos por suicídios no Brasil: 57.937 homens e 15.324 mulheres, o que significa 22 mortes por dia. No mesmo período, houve 435.069 óbitos por homicídios, 132 por dia, resultando em 5,9 pessoas mortas por homicídios para cada uma que tenta suicídio (6,9 entre os ho- mens e 2,3 entre as mulheres). No Brasil, 43 crianças de 0-9 anos entre 2000 e 2008 (média anual de cinco) morreram por suicídio, o que corresponde a 0,1% do total de mortes por essa causa. O enforcamento foi a forma utilizada por 80% dos meninos. As meninas utilizaram preferen- cialmente intoxicação medicamentosa, objetos cortantes e afo- gamento. No mesmo período, morreram 6.574 adolescentes de 10-19 anos por suicídio. Em média, anualmente, 730 adolescentes morrem por suicídio. A taxa nos anos 2000 a 2008 foi, em média, de 2/100 mil, 9% do total de todos os suicídios que ocorreram no país. Entre 2000-2008 morreram 17.557 adultos jovens (20- 29 anos) e 38.449 pessoas entre 30-59 anos em decorrência de suicídio. A taxa média encontrada entre os adolescentes (2/100 mil) salta para 6/100 mil entre adultos jovens e 6,8/100 mil en- tre adultos com mais idade. O impacto da mortalidade se eleva com o aumento da idade: 24% do total de mortes por suicídio ocorreram na faixa mais jovem e 52,6% entre pessoas de 30-59 anos. O número de idosos que se suicidaram foi de 10.434 neste período. As taxas oscilam em torno de 7/100 mil habitantes (pico de 8,2/100 mil em 2005). Os idosos possuem as mais elevadas taxas de mortalidade por suicídio comparando-se a outras faixas etárias, e são responsáveis por 14,3% do total de óbitos. Em todo o mundo, a taxa de suicídio é mais alta entre os indivíduos mais velhos do que entre os mais jovens; contudo, esta tendência vem se alterando em escala mundial desde os anos 90. O suicídio é um fenômeno que não depende de uma única cau- sa. Há uma combinação de fatores – biológicos, psicológicos e sociais. Entre as principais causas psiquiátricas preveníeis está a depressão, transtorno bipolar, a esquizofrenia e o alcoolismo. Indivíduos com dois transtornos mentais têm um risco de tentar o suicídio 3,5 vezes mais alto do que aqueles que não têm nenhum transtorno. Embora os transtornos mentais estejam associados a mais de 90% de todos os casos de suicídio, o suicídio pode ser resultado de muitos fatores culturais e sociais muito complexos. O suicídio é mais provável durante os períodos de crises socioeco- nômicas, familiares e crises individuais, por exemplo, a perda de relacionamento afetivo. O suicídio afeta todo mundo, sem distinção. Acredita-se que o meio cultural influencie as taxas de suicídio. Altos níveis de coe-
  2. 2. debate hoje | 7 são social e nacional reduzem as taxas de suicídio. Essas são mais elevadas junto às pessoas aposentadas, desempregadas, divorcia- das, sem filhos, urbanas, vivendo sozinhas. As seguintes caracte- rísticas foram predominantes nos casos analisados (1980-2006): homens (77,3%), idade entre 20 e 29 (34,2%), sem companheiro/ companheira (44,8%) e ter tido pouca educação formal (38,2%). Em relação às características epidemiológicas, a própria casa foi o lugar de suicídio mais predominante (51%), seguido pelo suicídio em hospital (26,1%). Os seguintes métodos foram mais usados para o suicídio no perí- odo 1980-2006: enforcamento (47,2%), armas de fogo (18,7%), outros métodos (14,4%) e envenenamento (14,3%). Quando o envenenamento foi o método de suicídio utilizado, 41,5% come- teram suicídio usando pesticidas e 18% usando medicamentos. Em relação ao número total de mortes ocorridas em casa, 64,5% foram causadas por enforcamento e 17,8% por armas de fogo. Por outro lado, de todas as mortes por envenenamento, 37,1% aconteceram no hospital e apenas 5,8% em casa. Nas ruas ou áreas públicas, a maioria das mortes envolveu o uso de armas de fogo (24,7%). As regiões que apresentaram as taxas de suicídio mais baixas fo- ram a região Nordeste, com uma média de 2,7, e a região Norte, com uma média de 3,4. No entanto, os maiores aumentos foram vistos na região Nordeste, que experimentou um incremento de 130%, e na região Centro-Oeste, com um aumento de 68% entre 1980 a 2006. As taxas médias mais altas entre as capitais foram Boa Vista (7,6), Porto Alegre (7,3) e Florianópolis (6,5). As capitais com as taxas médias mais baixas foram Salvador (1,2) e Rio de Janeiro (2,4). A Bahia tem a menor taxa de suicídio do Brasil – 1,8 para cada 100 mil habitantes. Entretanto, registra-se em torno de 100 a 120 novos casos de tentativa de suicídio por mês naquele Estado. Embora Rio de Janeiro e Salvador tenham as mais baixas taxas de suicídio, relatam taxas de homicídio que estão entre as mais altas do Brasil (38,1 e 42,3 por 100 mil habitantes, respectivamente). Os pesquisadores têm discutido a possibilidade da existência de conexões inversamente proporcionais entre homicídio e suicídio. A tentativa de suicídio é mais frequente entre as mulheres, no entanto, os homens conseguem um índice maior de morte por utilizarem métodos mais agressivos, como armas de fogo ou en- forcamento, enquanto as mulheres utilizam de meios como remé- dios ou veneno. Os homens apresentaram taxas de mortalidade por suicídio mais altas em todas as regiões, particularmente na região Sul, com uma média de 11,7, e na região Centro- Oeste, com uma média de 7,1. A menor taxa de mortalidade por suicídio entre os homens foi encontrada na região Nordeste, com uma média de 3,3. Contudo, homens do Nordeste experimentaram o maior aumento (190%) durante o período do estudo. As mulheres apresentaram as maio- res taxas médias na região Sul, a saber, 3,2. Na maioria das regiões, os métodos de suicídio mais comumente utilizados foram o enforcamento, armas de fogo e envenenamen- to, enquanto que na região Nordeste enforcamento (48,8%), en- venenamento (18,2%) e armas de fogo (16,9%) foram os métodos de suicídio predominantes. No Sudeste, enforcamento (39,6%), outros métodos (24,2%) e armas de fogo (16,5%) predomina- ram. Nos casos de suicídio por envenenamento, destacou-se o uso de pesticidas, particularmente nas regiões Sudeste (29,7%), Sul (28,6%) e Nordeste (19,8%). As maiores taxas de suicídio com uso de medicamentos foram encontradas nas regiões Sudeste (7%), Sul (4,1%) e Nordeste (3,7%). Os homens predominaram em todos os métodos utilizados, com a exceção do uso de medi- cação, no qual as mulheres registraram porcentagens mais altas (48,6% x 51,4%). Medidasaserem tomadas Em 1999, a Organização Mundial de Saúde (OMS) lançou o Progra- ma de Prevenção do Suicídio (Supre, em inglês), com o objetivo de alertar o mundo sobre o problema do suicídio. Aqui no Brasil ainda falta muito para um programa de prevenção de suicídio integrado. O treinamento de equipes especializadas em suicídio, bem como a integração de todos os serviços – linhas de telefone, emergências, ambulatórios especializados, Caps e outros serviços comunitários –, deve ter a máxima urgência. Estão listadas abaixo algumas medidas a serem tomadas. Prevençãoprimária 1) Acesso à informação. A mídia, os serviços de saúde, a escola , bem como serviços comunitários, têm um papel fundamental em qualquer programa de prevenção de suicídio. A escola pode ser um instrumento na identificação precoce de indivíduos em risco de suicídio. 2) Acesso a armas. Em 2005, suicídio por arma de fogo foi a segunda causa de morte entre americanos abaixo de 40 anos. Entre americanos de todas as idades, mais da metade de todos os suicídios é provocada por armas de fogo. Em 2005, 46 americanos por dia cometeram suicídio com armas de fogo. Existe uma enor- me quantidade de evidências demonstrando que a posse de armas de fogo aumenta substancialmente a probabilidade de suicídio. Deste modo, métodos rígidos de controle na autorização de posse de armas são necessários. 3) Álcool. O álcool esta intimamente correlacionado com violên- cia hetero e auto dirigida. Devemos aumentar progressivamente o controle sobre venda, incrementar impostos (e não como recen- temente o Ceará fez ao reduzir o imposto cobrado para bebidas quentes que serão exportadas para outros estados da Federação). 4) Chumbinho e pesticidas. O carbamato é uma das principais formas de tentativa de suicídio no Brasil. Sua venda deve ser dis- ciplinada para evitar que qualquer ponto comercial possa vendê- lo sem qualquer controle. A Associação Brasileira de Psiquiatria deve fazer uma campanha nacional para sensibilizar o congresso sobre a urgência e necessidade de criar legislação a este respeito. Fabio Souza Professor Associado de Psiquiatria da Universidade Federal do Ceará; PhD Universidade de Edinburgh; Coordenador do PRAVIDA (Projeto de Apoio à Vida)
  3. 3. 8 | debate hoje Prevençãosecundária 1) Diagnóstico precoce de transtornos psiquiátricos. Depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia e dependência alcoólica estão extremamente associados ao suicídio, assim o diagnóstico e tra- tamento precoce deverão diminuir de maneira importante a con- sumação do suicídio. 2) Antidepressivos e suicídio. Na Finlândia, em 15.390 pacientes acompanhados por 3,4 anos, houve uma redução do risco relativo de mortalidade em pacientes que estavam tomando antidepres- sivos (31% a 41%). Nos Estados Unidos, o aumento da taxa de suicídio em jovens coincide com a redução da prescrição de anti- depressivos nesta população. Deste modo, não devemos deixar de tratar a depressão com todas as medidas adequadas. 3) Integração das linhas de socorro imediato com os serviços de atendimento médico-psiquiátrico. Prevençãoterciária 1) Tentativa anterior. Pessoas que tentaram suicídio constituem um grupo de altíssimo risco em relação a cometerem suicídio em uma tentativa posterior. Assim, em cada emergência médica, de- veria haver uma equipe especializada em suicídio que faria o pri- meiro atendimento, e em uma etapa posterior seria encaminhado para um seguimento em um Caps ou ambulatório especializado. Referências:■■ Lovisi GM, Santos SA, Legay L, Abelha Lucia A, Valen- cia E Análise epidemiológica do suicídio no Brasil entre 1980 e 2006 Rev Bras Psiquiatr. 2009;31(Supl II):S86-93 ■■ Mann JJ, Apter A, Bertolote J, et al. Suicide prevention stra- tegies: a systematic review. JAMA 2005;294:2064-2074 ■■ Mello-Santos C, Bertolote JM, Wang Y. Epidemiology of suici- de in Brazil (1980-2000): characterization of age and gender ra- tes of suicide. Rev Bras Psiquiatr. 2005;27(2):131-4. ■■ Miller M, Hemenway D. The relationship between firearms and suici- de: a review of the literature. Aggress Violent Behav 1999;4:59-75. ■■ Tiihonen J, Lönnqvist J, Wahlbeck K, Klaukka T, Tanskanen A, Haukka J Anti- depressants and the Risk of Suicide, Attempted Suicide, and Overall Mortality in a Nationwide Cohort Arch Gen Psychiatry. 2006 Dec;63(12):1358-67 ■■ Wunderlich U, Bronisch T, Wittchen HU. Comorbidity pat- terns in adolescents and young adults with suicide attempts. Eur Arch Psychiatry Clin Neurosci. 1998;95:248-87. Artigo Suicídio – Dimensão do Problema e o que Fazer Fabio Souza Professor Associado de Psiquiatria da Universidade Federal do Ceará; PhD Universidade de Edinburgh; Coordenador do PRAVIDA (Projeto de Apoio à Vida)

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