Universidade Presbiteriana MackenzieANÁLISE DO TÓPICO DE BIOÉTICA PRESENTE NO MATERIAL DIDÁTICO DEFILOSOFIA DAS ESCOLAS PÚ...
VII Jornada de Iniciação Científica - 2011INTRODUÇÃOEm seu texto, Artificiais por Natureza, o filósofo Fernando Savater ch...
Universidade Presbiteriana Mackenziedevem respeitar e preservar todas as formas de vida e os sistemas de sustentação da vi...
VII Jornada de Iniciação Científica - 2011O ensino de Bioética no Brasil tem se restringido às áreas de medicina e afins, ...
Universidade Presbiteriana MackenzieREFERENCIAL TEÓRICOFilosofia PráticaDesde a Grécia antiga falamos de ética e moral. Só...
VII Jornada de Iniciação Científica - 2011A concepção de bem aristotélico não envolve somente o homem em sua forma individ...
Universidade Presbiteriana Mackenziealimentos geneticamente modificados, a nanotecnologia, clonagem, manipulação genética,...
VII Jornada de Iniciação Científica - 2011Segundo Pessini e Barchifontaine (2007),                       A expressão bioét...
Universidade Presbiteriana MackenzieAmerica Latina ainda no modelo principialista, de origem norte-americana, redesenhou-s...
VII Jornada de Iniciação Científica - 2011Bioética de Proteção: destaca o conceito de vulnerabilidade, assim:             ...
Universidade Presbiteriana Mackenzieprincipalmente em expulsar o acaso, decifrar a todo custo uma legalidade sob o fortuit...
VII Jornada de Iniciação Científica - 2011METODOLOGIAO estudo trata-se de uma pesquisa exploratória e bibliográfica (Gil, ...
Universidade Presbiteriana Mackenzie                                                    2ª SÉRIE                  1° BIMES...
VII Jornada de Iniciação Científica - 2011sofrendo inclusive violência sexual. Aos 17 anos Cecinha foi morar na rua, passa...
Universidade Presbiteriana MackenzieAlgumas características da Bioética foram possíveis de identificar a partir da análise...
VII Jornada de Iniciação Científica - 2011CONCLUSÃOAntes de tudo há que se destacar a iniciativa da inserção da Bioética n...
Universidade Presbiteriana MackenzieAssim como Silva (2008), muitos estão cientes que o ensino de Bioética em si mesmo, nã...
VII Jornada de Iniciação Científica - 2011Bioética – Actas do 9º Seminário do Conselho Nacional de Ética para as Ciências ...
Universidade Presbiteriana MackenzieSILVA, P. F. Percepções dos alunos de Ensino Médio sobre questões bioéticas. São Paulo...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

Nereide siqueira

2.345 visualizações

Publicada em

Em parceria com a Professora Helena Abascal, publicamos os relatórios das pesquisas realizados por alunos da fau-Mackenzie, bolsistas PIBIC e PIVIC. O Projeto ARQUITETURA TAMBÉM É CIÊNCIA difunde trabalhos e os modos de produção científica no Mackenzie, visando fortalecer a cultura da pesquisa acadêmica. Assim é justo parabenizar os professores e colegas envolvidos e permitir que mais alunos vejam o que já se produziu e as muitas portas que ainda estão adiante no mundo da ciência, para os alunos da Arquitetura - mostrando que ARQUITETURA TAMBÉM É CIÊNCIA.

0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
2.345
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
2
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
5
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Nereide siqueira

  1. 1. Universidade Presbiteriana MackenzieANÁLISE DO TÓPICO DE BIOÉTICA PRESENTE NO MATERIAL DIDÁTICO DEFILOSOFIA DAS ESCOLAS PÚBLICAS PAULISTAS – LIMITES EPOSSIBILIDADES PARA O ENSINO DE BIOÉTICANereide Siqueira Campos da Silva (IC) e Paulo Fraga da Silva (Orientador)Apoio: PIBIC CNPqResumoNa década de setenta a expressão Bioética surgiu em resposta às questões angustiantes ligadas adilemas que passaram a envolver a vida de um modo geral. Naquela época, cientistas maispreocupados com a questão social e humana questionaram sobre os avanços na biotecnociência,bem como suas possíveis ameaças. Sendo assim, hoje se entende que os avanços técnico-científicostendem a mudar de forma acelerada o rumo de todos os seres vivos em nosso planeta. Não se tratade negar os avanços da tecnociência, mas sim de avaliar os benefícios e impactos causados por ela.Na medida em que os seres humanos podem se beneficiar e arcar com suas possíveisconseqüências negativas, esta discussão pertence a toda sociedade e para que se discuta énecessário o mínimo de conhecimento. Este trabalho teve a finalidade de avaliar a iniciativa daSecretaria de Educação do Estado de São Paulo de estimular o ensino da Bioética, por meio dautilização de material didático de Filosofia no qual foi incluso o tópico de Bioética. Para tanto foramanalisados os materiais utilizados nos anos de 2008, 2009 e 2010. A análise indicou a perda deconteúdo ao longo dos anos e uma abordagem reducionista e superficial da Bioética perdendo-se ariqueza de seu potencial, o que invariavelmente prejudicaria a reflexão do aluno sobre o assunto. Háde se questionar se o uso do material por parte dos professores exigiria uma formação mínima emBioética dos mesmos.Palavra-chave: ensino de Bioética; ensino de Filosofia; EducaçãoAbstractIn the seventies the term bioethics emerged in response to questions linked to distressing dilemmasthat came to involve the life in general. At that time, scientists concerned about the social and humanquestioned about the advances in biotechnoscience, and its possible threats. Now a days weunderstand that the technical-scientific advances tend to change of accelerated way the directions ofall living beings on our planet. This is not to deny the advances of technoscience, but rather to assessthe benefits and impacts caused by it. To the extent that humans can benefit from and assume theirpossible negative consequences, this discussion belongs to the whole society and to discuss it isnecessary the slightest knowledge. This study aimed to evaluate the initiative of the Department ofEducation of the State of São Paulo to stimulate the teaching of bioethics, through the use of didacticmaterial of Philosophy in which was included the topic of bioethics. Therefore, it were analyzed thematerials used in the years 2008, 2009 and 2010. The analysis indicated the loss of content over theyears and a reductionist and also a superficial approach of Bioethics, losing the richness of itspotential, which invariably jeopardize the students reflection on the subject. It should to question if theuse of the material by teachers wouldnt require minimal training in Bioethics of them.Key-word: Bioethics education, teaching of Philosophy, Education 1
  2. 2. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011INTRODUÇÃOEm seu texto, Artificiais por Natureza, o filósofo Fernando Savater chama a atenção para otermo “natureza”, que está muito em moda hoje em dia, e por este mesmo motivo cercadode controvérsias. Tal processo foi desencadeado pelos alertas ecológicos a respeito deabusos técnicos, poluição, manipulações genéticas e etc. Alguns dizem que o homem sofrepor ter virado as costas para a natureza e que devemos retornar e deixar que ela nos guie.Este mesmo grupo prega ainda, que devemos manejar energia natural e consumir produtos“naturais”. Há outro grupo, que diz que tal medida nos faz voltar à idade da pedra noslevando a regredir no progresso científico que não deve ser detido (SAVATER, 2001).Toda esta discussão se deve ao fato de que cada vez mais tomamos consciência que o queafeta algum ser vivo, por mais longínquo que esteja, acaba por afetar a todos os seres vivosde alguma forma. Então, mais do que nunca, a reflexão e o debate acerca da utilização dosavanços tecnológicos e científicos se fazem necessários, na medida em que a ação humanapode estar contribuindo para um desequilíbrio em nosso planeta.Não é possível negar os benefícios que o desenvolvimento tecnológico e científico trouxenão só para a espécie humana, mas para todos os seres vivos. Por outro lado, se vivemosmais e melhor em função de tais avanços, também é certo que se não levarmos emconsideração todo o sistema em que vivemos, podemos acabar por impactar de forma gravenosso planeta e consequentemente a nós mesmos. Portanto, as discussões acerca dasinovações científicas e tecnológicas têm sido objeto de debate também pelo seu potencialde danos. Esse contexto faz com que o homem, a cada momento, seja confrontado comdecisões e responsabilidades para com a manutenção da vida digna e dos direitoshumanos. Cada vez mais estamos chegando a um consenso que esta responsabilidadepertence a todos nós, já que, em favor principalmente de nosso bem-estar, caminhamos deforma acelerada no desenvolvimento técnico-científico.É neste cenário que se coloca a Bioética, como sendo um importante instrumento parareflexão e socialização do debate sobre as tecnociências. As questões bioéticas estãoligadas aos efeitos sociais, políticos, econômicos e éticos dos atuais saberes científicos,assim como aos valores que conduzem a ação humana na interação com o ambiente.Levando-se em conta que somos responsáveis pelo que fazemos com o nosso planeta e portodos os seres que nele vivem, a questão da Bioética deixa de ser assunto restrito as áreastecnológicas e científicas e passa a ser o ponto de encontro envolvendo a política, o direto,a medicina, a educação e a sociedade de um modo geral. A Declaración sobre La ciência de1 de julho de 1999 da UNESCO, coloca em seu artigo 23 que “as investigações científicas 2
  3. 3. Universidade Presbiteriana Mackenziedevem respeitar e preservar todas as formas de vida e os sistemas de sustentação da vidaem nosso planeta”, portanto toda sociedade deve estar envolvida nesta discussão.A Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos, adotada em 19 de outubro de2005 pela 33ª Sessão da Conferência Geral da UNESCO, em seu artigo 23 o qual trata daInformação, Formação e Educação em Bioética, estabelece que: De modo a promover os princípios estabelecidos na presente Declaração e alcançar uma melhor compreensão das implicações éticas dos avanços científicos e tecnológicos, em especial para os jovens, os Estados devem envidar esforços para promover a formação e educação em bioética em todos os níveis, bem como estimular programas de disseminação da informação e conhecimento sobre bioética.No texto Educação e Emancipação, que se refere ao fenômeno da indústria cultural e dasemiformação, Adorno (2006) coloca que o modelo de formação vigente apenas prepara oindivíduo para o exercício da profissão, ou seja, visa somente uma formação técnica, semdar entretanto meios para que a consciência crítica seja de fato formada. Semiformado, oindivíduo não alcança a emancipação, tanto emocional como social e cultural, mantendo-sedesta forma na heteronomia, sem condições de exercer de fato sua cidadania.Dentro do fenômeno da indústria cultural, o que se pode observar são indivíduossemiformados. Para o autor, semiformação não quer dizer falta de informação e sendoassim, ter formação técnica não significa ser emancipado. Hoje, a importância que se dá aoconhecimento técnico impede que a cultura do espírito ocupe seu lugar de fundamentalimportância o que tornaria o indivíduo esclarecido. Adorno (2206) deixa claro que aadaptação, isto é, a formação técnica, evidentemente é importante e que o problema nãoestá restrito à educação e sim a todo um contexto social, apesar de que a emancipação, ouseja, a autonomia, não acontece porque o modelo de formação vigente não é capaz de levaro sujeito ao distanciamento crítico, deixando de fazer com que o indivíduo se distancie emantendo-o na heteronomia, na irresponsabilidade.Hoje se entende que não só a formação técnica prepara o indivíduo para uma vidaautônoma, que culmina com o exercício da cidadania. Não se trata de negar a importânciada educação técnica, mas sim de aceitar que, além dela, também se faz necessário educarpara a autonomia do indivíduo, dando-lhe condições de sair da heteronomia por meio deuma educação que promova a formação de valores e consequentemente levem a atitudeséticas, necessárias ao dia-a-dia e aos avanços técnico-científicos presenciados por todosneste início de século.Portanto é neste contexto que os problemas éticos tendem cada vez mais a fazer parte denosso cotidiano, logo também se faz necessário um ritmo avançado em tais discussões. 3
  4. 4. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011O ensino de Bioética no Brasil tem se restringido às áreas de medicina e afins, porém poroutro lado, ao reconhecer que Bioética assenta-se sobre um original saber transdisciplinar,isto é, não está circunscrita a um campo delimitado, mas se interliga num plano superiorcom vários outros saberes, ela acaba por se tornar um rico instrumento metodológico noensino das disciplinas em geral bem como no ensino de filosofia. Como campo deconhecimento a Bioética oferece a possibilidade de integrar atividades de ensino eaprendizagem de diferentes áreas que tratam do fenômeno da vida, não só na suadimensão biológica, mas, sobretudo na reflexão de sua dimensão filosófica e social.Em um estudo, Silva (2002) se propôs a investigar quais as percepções de estudantes doensino médio sobre questões bioéticas, indicando-nos, entre outros aspectos, que há nosestudantes valores “explícitos e implícitos” que são utilizados para determinadosjulgamentos diante de situações que lhes exijam posicionamentos. Percebeu-se que osalunos, ao se posicionarem, expressam seus sentimentos e valores, e, ao justificarem suasposições, fazem uso de princípios bioéticos.Isto posto, é compreensível a necessidade de introduzir, o mais breve possível, na formaçãodos jovens as relações entre os fenômenos biológicos e sua interface com as ciênciashumanas, especialmente a ética no espaço daquilo que estamos chamando de Bioética.Especificamente no Estado de São Paulo, em suas diretrizes curriculares para o Ensino deFilosofia, a Bioética aparece como um conteúdo a ser abordado na 2ª série do EnsinoMédio. Desde 2008, a Secretaria instituiu como material didático aos professores e alunos,os cadernos de cada disciplina, no caso, cadernos de Filosofia na série mencionadaaparece o tópico Bioética. Assim, a presente pesquisa teve como objeto o referido material,publicado nos anos de 2008, 2009 e 2010.Ao empreender tal análise, o objetivo central de nossa pesquisa foi identificar limites epossibilidades no uso do respectivo material, dentro de uma proposta de efetivo ensino deBioética, isto é, se o mesmo permite um ensino de bioética contextualizadoinstrumentalizando os estudantes para o exercício de tomada de decisão diante de dilemasapresentados pela tecnociência. Outros objetivos desdobraram-se neste empreendimento,transformados em questões a serem respondidas, tais como: quais concepções de Bioéticao material apresenta? O material permite o desenvolvimento da capacidade de reflexão ecrítica dos alunos, pertinentes a um pensamento autônomo?Uma das justificativas para a execução deste projeto foi a sua possibilidade de aprofundar eenriquecer o saber filosófico, já que a Bioética faz parte da Filosofia, bem como fundamentara importância de um consenso neste momento onde a ciência avança rapidamente. 4
  5. 5. Universidade Presbiteriana MackenzieREFERENCIAL TEÓRICOFilosofia PráticaDesde a Grécia antiga falamos de ética e moral. Sócrates, Platão e mais recentementeKant, dentre outros, discutiram o assunto, mas ainda hoje nos preocupamos e continuamosa tratar destes conceitos. Entretanto neste inicio de sec. XXI somos impelidos a discutir nãosomente a ética e a moral, mas também a Bioética, que em verdade continua tratando daética e da moral entre os indivíduos, mas também se ampliada a toda forma de vida. Estaampliação, talvez se deva ao fato de que o homem passou a ser consciente de suainterferência no curso da vida de um modo geral, modificando-a e muitas vezes atéaniquilando-a.De modo algum o legado da Grécia antiga deve ser abandonado e fatalmentecontinuaremos recorrendo aos grandes pensadores para avaliarmos nossas escolhas eações, mas a questão Bioética se dá a partir do momento que diante de tantos avançostécnico-científicos sentimos a necessidade de repensar, ampliar e mesmo adequar muitosdaqueles conceitos, os quais acabaram por se expandir para nosso dia-a-dia, surpreendoinclusive profissionais que a princípio estariam bem distante de tais reflexões.Esta discussão se torna urgente e se renova a cada momento em conseqüência de umavanço técnico-científico acelerado, onde as dúvidas humanas se multiplicam a cadainstante. Aristóteles já nos alertava, conforme Berti (2002), que a filosofia prática se dá pormeio da dialética e tem como princípio a busca pela verdade, diferenciando-se desta formada filosofia teorética, no sentido de que para a primeira a verdade não é o fim, e sim o pontode partida para a ação no presente, que tem como preocupação promover “um novo estadode coisas”. Portanto para Aristóteles a filosofia prática tem como característica fundamentala ação, que a diferencia da filosofia teorética. Berti conclui que, em virtude desta intenção a filosofia prática é tudo menos “neutra”, “calculadora”, nas relações com a realidade (humana), mas ao contrário, julga o valor desta última. Avalia o que nela é bom e o que é mau, a fim de melhorá-la. Ao fazê-lo, no entanto, não renuncia a conhecer a verdade, isto é, a ser ciência, a verificar não apenas como estão as coisas, mas também quais são suas causas (BERTI, 2002, p. 118).O próprio Aristóteles declara ainda, segundo Berti (2002), que a filosofia prática se tornaciência por meio da política e o objeto da “ciência política” é o bem supremo do homem. Falar de “bem”, entendido como fim do homem, significa falar de algo que é objeto de desejo, de tendência, por parte do homem, isto é, de algo que ainda não se realizou, mas que justamente por isso quer realizar-se e deve poder ser realizado, ou seja, é praticável e “deve” praticar-se” (Berti, 2002 p. 118). 5
  6. 6. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011A concepção de bem aristotélico não envolve somente o homem em sua forma individual,mas sim toda a cidade, toda a pólis. Dentro deste contexto é objeto da ciência política nãosomente conhecer o bem supremo, mas também realizá-lo “ocupando-se das ações belas,isto é, nobres e justas” (BERTI, 2002, p.118), levando em conta também os bens que sãomúltiplos e isso acarreta que o que pode ser justo em determinada circunstância, pode nãoser em outra, e o que é bom para uns pode não ser para outros. Partindo-se então desteprincípio, esta ciência busca o que é belo, justo e bom de um modo geral, pois seriaimpossível diante de tantas particularidades determinar tais conceitos com precisão. Porisso o método dialético se faz presente em sua forma dialógica, partindo de opiniõesdiversas com a intenção de buscar a verdadeira, já que, se houver concordância entre elas“podem muito bem ser todas verdadeiras” (IBID, 2002, p.132).Natureza, Natural e ArtificialSavater (2001) define os termos “Natureza” e “Natural” de duas formas: na primeira o autorrecorre a Stuart Mill e define o termo natureza como ligado a tudo que existe no universo, ouainda ao que possa vir a existir. Ela abrange as coisas animadas bem como as inanimadase ainda àquelas que podem ser produzidas pelo homem, sendo que estas últimas contempropriedades químicas ou físicas constantes no universo. Para Mill, nada que o homem fazpode ir contra a natureza ou prejudicá-la. Na segunda definição o autor recorre a Aristóteles,que propõe natureza ou natural como tudo que tem seu princípio e finalidade em si mesmo,que são espontaneamente o que são e portanto não sofreram a intervenção do homem.Então, para o filósofo grego, natural é tudo que está na natureza de forma espontânea, já oartificial é fruto da capacidade de criar do homem (techné).Em face de alguns alertas que foram dados pela comunidade científica, e algunsquestionamentos que surgiram quanto às intervenções do homem no meio em que vive,estas definições passaram a ser questionadas. Savater (2001) nos faz recordar que a uréiafoi sintetizada em laboratório em 1826, mas que também existe na natureza. Ao questionaro que é natural ele pergunta: a uréia sintetizada em laboratório e que também existe nanatureza de forma espontânea, deve ser considerada natural, artificial ou artificialmentenatural? Se tudo que o homem transforma perde seu status de natural, então vivemos emum mundo artificial, já que o que não foi modificado pelo homem segue intacto comoconsequência quase exclusiva de sua vontade? (SAVATER, 2001).Além destas questões, outras também permeiam o imaginário do individuo do século XXIcomo relatos dos horrores vividos por milhões de pessoas na segunda guerra mundial,experiências com seres humanos, o uso da bomba atômica, os danos na camada de ozônio, 6
  7. 7. Universidade Presbiteriana Mackenziealimentos geneticamente modificados, a nanotecnologia, clonagem, manipulação genética,eutanásia e etc. Devemos parar o avanço técnico-científico? Quantas vidas foram salvas apartir do primeiro transplante de coração, quando a medicina ainda não era capaz de definircom total segurança a morte cerebral? Portanto é bem claro que tais questões e taisavanços envolvem questões éticas e morais, que acabam por confrontar a sociedade comdecisões e dilemas que colocam em evidência os valores humanos. E é neste ambiente deexpectativas e contradições que está inserido o individuo do século XXI, sendo a falta deinformação apontada por alguns cientistas, como a origem dos mitos e temores vividos hojepela sociedade de um modo geral. Portanto, é no sentido de minimizar esta falta deconhecimento e como tudo se interconecta, que o ensino de Bioética, com sua característicainterdisciplinar, torna-se um instrumento de grande importância.Bioética – breves consideraçõesSilva (2008) enfatiza a contribuição da Bioética como uma maneira de atenuar adesinformação referente aos avanços técnico-científicos e suas conseqüências. (...). O surgimento da Bioética se dá num contexto em que os avanços tecnológicos na área das ciências da vida apontam que o que está em jogo é aprender a avaliar as possíveis conseqüências das descobertas científicas e suas aplicações, de acordo com uma determinada metodologia ou certos valores básicos (SILVA, 2008, p.74).Neste estudo, o ensino de Bioética é endossado com bases na promoção da autonomia doindivíduo e conseqüentemente no exercício de sua cidadania, no qual os valores moraispodem ser repensados na medida em que são chamados a atender as exigências do mundomoderno (ANJOS e SIQUEIRA, 2007; BISHOP, 2006; ELSTER, 2006; FABBRINI, 2005;FAVARETTO, 1995; GARRAFA e PESSINI, 2003; KOTTOW, 2003; PESSINI EBARCHIFONTAINE, 2007; SAVATER, 2001; SILVA 2008; UNESCO, 2005).Vale ressaltar o caráter interdisciplinar da Bioética, caráter esse já identificado na definiçãoda enciclopédia de Bioética: Pode-se defini-la como sendo o estudo sistemático das dimensões morais – incluindo, visão, decisão, conduta e normas morais – das ciências da vida e do cuidado da saúde, utilizando uma variedade de metodologias éticas num contexto interdisciplinar (Reich, W.T., 1995, p.21 apud Silva, 2008, p. 73).Há algumas definições para a Bioética, mas, assim como Kottow (2003), adotamos nestetrabalho a Bioética como “ética aplicada aos atos humanos que podem ter conseqüênciasirreversíveis sobre os próprios homens ou sobre qualquer ser vivo” (KOTTOW, 2003). 7
  8. 8. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011Segundo Pessini e Barchifontaine (2007), A expressão bioética surgiu na década de 70 em respostas às questões angustiantes ligadas a dilemas que passaram a envolver a vida de um modo geral. Nesta época cientistas mais preocupados com as questões sociais e humanas se questionam sobre os avanços na Biologia Molecular, onde desde a década de 50 trabalhava-se com o DNA. A questão da Revolução atômica também passou a ser analisada. Se por um lado a medicina nuclear trouxe grande contribuição, por outro protagonizou o horror e o pavor das bombas atômicas. Em resposta às indagações e angústias a respeito das Revoluções Molecular e Atômica, nasce o Neologismo “Bioética”, proposto pelo bioquímico e bioeticista Van Rensselaer Potter (PESSINI e BARCHIFONTAINE, 2007, p.11).Os autores alertam para as discordâncias com relação ao surgimento da Bioética, que podeter acontecido inclusive há algumas décadas antes, pois alguns apontam seu nascimento nadécada de 60, quando do início da hemodiálise em Seattle (EUA), onde a comunidademédica se viu diante do dilema de ter que escolher quem a princípio receberia o tratamento,tal dilema foi apresentado por haver escassez de equipamentos. A solução encontrada foirecorrer a um grupo formado por pessoas anônimas da sociedade que não eram médicos,portanto a escolha dos pacientes seria feita com bases em outros critérios que não osmédicos. Outros ainda acreditam que este nascimento encontra-se na promulgação docódigo de Nuremberg - um conjunto de princípios éticos que regem a pesquisa com sereshumanos, sendo considerado como uma das consequências dos Processos de Guerra deNuremberg, ocorridos no fim da Segunda Guerra Mundial. de 1947. Mas apesar de algumasdiscordâncias em torno de seu surgimento é fato que Potter foi o primeiro a publicar oneologismo, em 1970 e que ano de 1971 foi utilizado por Andre Hellegers obstetra,fisiologista fetal e demógrafo holandês, fundador do Instituto Kennedy na Universidade deGeorgetown em Washington.Assim, a origem da Bioética pode ser identificada e relacionada às pesquisas com sereshumanos realizadas nas décadas de 1940, 1960 e 1972. Silva (2008) nos lembra da“criação da comissão Nacional para proteção dos seres humanos da pesquisa biomédica ecomportamental” (p.77), a qual deu origem ao Relatório Belmont, que continha os trêsprincípios básicos da bioética, a “trindade bioética”: a autonomia, beneficência e a justiça.“Esta corrente, chamada principialista, constituiu-se como um paradigma clássico edominante na Bioética, sendo importante e útil ao seu desenvolvimento” (Ibid, 2008, p.77).Vale destacar que numa segunda versão, a ética principialista acrescenta um quartoprincípio, o da não-maleficência.Depois de seu nascimento na América, a Bioética encontrou a Europa e a partir daíestabeleceu-se em outros continentes, o que lhe trouxe algumas mudanças. Chegando a 8
  9. 9. Universidade Presbiteriana MackenzieAmerica Latina ainda no modelo principialista, de origem norte-americana, redesenhou-sena medida em que estes países são marcados pela desigualdade e exclusão social e ondeas políticas públicas deixam a desejar quanto a investimentos em saúde e infra-estrutura.Conceitos como justiça, eqüidade e solidariedade ocupam na America Latina, um lugarimportante (IBID, 2008). Neste aspecto as necessidades são outras, a preocupação estárelacionada à mortalidade infantil, pobreza, educação e serviços básicos de saúde.A Bioética brasileira, mesmo sendo um tanto jovem, - pois de fato se firma há partir dosanos 90 com o nascimento da Sociedade Brasileira de Bioética - tem as mesmaspreocupações da bioética mundial, no que se referem a conflitos morais (a exemplo ocomeço e fim da vida, biotecnociência, etc.). Mas, além disso, desenvolveu característicaspróprias o que permite identificar suas linhas temáticas no Brasil.Segundo Anjos e Siqueira (2007) por muitos anos a Bioética brasileira esteve vinculada aomodelo bioético dos Estados Unidos, que é o da ética dos princípios. A ética principialistaidealizada por Thomas L. Beauchamp e James F. Childress, do Instituto Kennedy daUniversidade de Georgetown que publicaram em 1979 uma obra referente Principles ofbiomedical ethics, Este sintetizava em quatro princípios as bases para a solução de conflitosmorais em situações clinicas. Este modelo está voltado para as dificuldades éticasindividuais na prática clínica, ou na pesquisa, portanto teve um peso relevante sobre osprofissionais de saúde e tem como base cuidar das questões morais, levando emconsideração principalmente os interesses dos pacientes.Sendo assim, a Bioética ficou praticamente vinculada à área da saúde, passando a ser vistacomo um apêndice dos códigos deontológicos utilizada para identificar e sanar conflitoséticos nesta área, o que causou certo mal-estar nos bioeticistas brasileiros, muitos delesenvolvidos em movimentos sociais. Este mal-estar gerou um movimento que culminou coma reavaliação da ética principialista e com propostas que atendessem às questões morais danossa sociedade, já que, com a Reforma Sanitária evidenciou-se que os problemas na áreada saúde tinham raízes na desigualdade social de nosso país.Portanto, conforme Anjos e Siqueira (2007), a criação da Sociedade Brasileira de Bioéticaem 1995 e o aparecimento de cursos de Bioética em pós-graduação, acabariam porenvolver profissionais de diversas áreas, acentuando a reflexão e promovendo oaparecimento de seis escolas do pensamento bioético em nosso país, apresentadas aquiresumidamente (ANJOS e SIQUEIRA, 2007):A Bioética da reflexão autônoma: “defende o pressuposto que a eticidade das açõeshumanas está condicionada à percepção dos conflitos da vida psíquica” (ANJOS ESIQUEIRA, 2007, p.163). 9
  10. 10. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011Bioética de Proteção: destaca o conceito de vulnerabilidade, assim: (...) pessoas vulneráveis são pessoas relativa ou absolutamente incapazes de proteger seus próprios interesses. De modo mais formal, podem ter poder, inteligência, educação, recursos e forças insuficientes ou outros atributos necessários à proteção de seus interesses (MACKLIN, 2003, p.60, apud SILVA, 2008, p.81).A Bioética de proteção alerta que o indivíduo vulnerável deve ser protegido por meio deprogramas sociais que o tirem da situação de exclusão “social, econômica, biológica e“educacional”, mas Silva (2008) alerta que de modo algum, essa proteção deve setransformar em paternalismo, sob pena de tal conduta se impor e “silenciar” decisõesautônomas. “O importante é que tais indivíduos vulneráveis precisam de assistência pararemover a causa de sua fraqueza. Enfim, atitudes de proteção devem permear programaseducacionais” (SILVA, 2008, p.82).Bioética de Intervenção: Silva (2008) coloca que, especificamente no Brasil, conforme Schramm, Anjos e Zoboli (2007), uma das características mais marcantes da literatura Bioética refere-se à relação entre Bioética e Saúde Pública. Neste sentido as exigências de propostas em termos de Bioética de intervenção que preconiza como moralmente justificável, na esfera pública, a priorização de políticas públicas que privilegiem a promoção da equidade para toda a coletividade (2008, p. 81).A Bioética de Intervenção alerta para a importância de políticas públicas que privilegiem apromoção da eqüidade para toda a coletividade (SILVA, 2008).Bioética e Teologia da Libertação: “esta linha tem como representante o teólogo MarcioFabri dos Anjos, que com sólida argumentação oferece a teologia como protagonistaessencial para o diálogo bioético” (ANJOS. M. F., SIQUEIRA J. E. (orgs.), 2007, p.174)Bioética Feminista: “a Bioética feminista no Brasil apresenta duas importantes vertentes: aBioética crítica de Inspiração Feminista e a Bioética Feminista e Anti-Racista” (ANJOS. M.F., SIQUEIRA J. E. (orgs.), 2007, p.176).Bioética de Proteção Ambiental: “esta corrente de reflexão bioética brasileira tem sua linhaargumentativa voltada à proteção do meio ambiente” (ANJOS. M. F., SIQUEIRA J. E.(orgs.), 2007, p.180).Bioética e o Ensino de FilosofiaFavaretto (1995), assim como Gérard Lebrun, acredita que o pensamento crítico requerargumentação, que se viabiliza por meio de textos coerentes e para ele “filosofar consiste 10
  11. 11. Universidade Presbiteriana Mackenzieprincipalmente em expulsar o acaso, decifrar a todo custo uma legalidade sob o fortuito quese dá na superfície” (FAVARETTO, 1995, p. 79). Portanto na medida em que o aluno nãoconsegue formar seu repertório não consegue se expressar o que prejudica de formadrástica seu pensamento. Por isso é necessário a construção de um arcabouço conceitualfilosófico mínimo que seja.O ensino de filosofia, segundo Fabbrini (2005), deve desenvolver no aluno uma habilidade técnica na interpretação de diferentes modalidades discursivas equivalente ao exercício de escuta, no sentido psicanalítico que lhe permita a experiência da “dominação Intelectual”’ (p.7).Ao citar Lebrun, por intermédio de Favaretto (1995), o autor expressa sua dúvida a respeitodaquele que parece chegar à filosofia em busca de respostas, e ao que parece aqueles quese “orientam” para a filosofia buscam um repertório ou uma linguagem que lhes dêsegurança, que faça com que percebam a “ingenuidade” ou a “ideologia” de quem nãopensa como ele” (FABBRINI, 2002, p.8 apud FAVARETTO, 1995), e para isso se lhesapresenta o discurso filosófico. Assim, para que isto ocorra, o professor de filosofia devecolocar seu aluno em contato com distintos discursos filosóficos, de maneira que ele passea contar com um repertório que lhe permita evidenciar o oculto. Mas, como alerta Favaretto(1995), isto não quer dizer que se deva somente lançar mão de textos filosóficos, ou seja, deautores representantes da história da filosofia. Muitas vezes pode-se ler textos filosóficossem filosofar e em outras ler jornais, textos artísticos ou revistas, lançando mão do exercíciofilosófico. Portanto o que faz a diferença na leitura filosófica não é o texto em si, mas simseus questionamentos, que por conseguinte levam ao desenvolvimento da atividadefilosófica. A leitura filosófica em seu exercício de escuta, denuncia o subentendido,permitindo assim a transformação do leitor, e a partir disso a filosofia se torna uma operaçãoinesgotável uma visada ou interpretação marcada pela consciência da impossibilidade do confinamento da linguagem. Nem um “falso saber”, sofístico que tudo pode provar, nem uma doutrina oficial com a pretensão a um saber absoluto (FABBRINI, 2005, p.9 apud Ibidem, p. 148-9).Portanto, como alerta Fabbrini (2002), a filosofia tem como tarefa primordial a desmontagemdos discursos, ajudando o aluno a construir discursos coerentes que seguem a “ordem darazão”. Ela promove a consciência de que certos conhecimentos técnico-científicos, quandoutilizados sem critérios, podem ser discutíveis. 11
  12. 12. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011METODOLOGIAO estudo trata-se de uma pesquisa exploratória e bibliográfica (Gil, 2002) envolvendo umaabordagem qualitativa, já que se propôs a verificar se o ensino de Bioética, por meio domaterial didático oferecido aos alunos do ensino médio da rede pública estadual, contemplade forma satisfatória, informações pertinentes, claras e variadas a respeito da Bioética.Os dados para análise foram coletados diretamente dos cadernos de Filosofia dos anos de2008, 2009 e 2010, distribuídos pelas escolas da rede estadual aos alunos e professores da2ª série do ensino médio, nos quais, se encontra o tópico de Bioética. Especificamente noano de 2008 foi também analisado o caderno do professor que o orienta no uso do material.A análise se deu de forma comparativa com o material de cada ano, a partir da leitura dostextos e exercícios propostos, sendo relacionados com o referencial teórico apresentado.Vale ressaltar que que análise teve como base as diretrizes para a leitura de textospropostas por Severino (2008), a saber: análise textual, temática, interpretativa ereelaboração reflexiva. Na análise textual identificamos os elementos que permitem acontextualização do texto. Na análise temática buscamos a compreensão mais objetivapossível do mesmo, identificando o seu conteúdo. A última etapa da leitura foi a análiseinterpretativa, tornando-se a leitura um processo crítico, fornecendo-nos categoria de análise(SEVERINO, 2002).RESULTADOS E DISCUSSÃOO conteúdo de Bioética proposto pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, nosanos de 2008, 2009 e 2010, se encontra no currículo da 2ª série do ensino médio e éabordado no 4° bimestre.Neste trabalho não foram analisadas apostilas de outros bimestres, nem outras séries, masse verifica por meio da tabela a seguir, que conceitos como, moral, liberdade e umaintrodução à ética foram vistos no 1° 2° e 3° bimestres da 2° série, o que se entende ser ,condição fundamental para se trabalhar o conteúdo de bioética que será apresentado no 4°bimestre. 12
  13. 13. Universidade Presbiteriana Mackenzie 2ª SÉRIE 1° BIMESTRE 2° BIMESTRE - O eu racional: introdução ao sujeito ético. - Introdução à teoria do indivíduo. - Introdução à ética. - Tornar-se indivíduo. - A liberdade. - Condutas massificadas. - Autonomia. - Alienação moral. 3° BIMESTRE 4° BIMESTRE - Filosofia e humilhação. - Introdução à bioética*. - Filosofia e racismo. - A técnica. - Filosofia entre homens e mulheres. - A condição humana e a banalidade do mal. - Filosofia e educação.Tabela 1 – Fonte: Proposta curricular da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (PEREIRA, 2010) *grifo nossoJá em sua apresentação, o Caderno do professor do ano de 2008, intitulada Situação deAprendizagem 1 Introdução à Bioética, há um diálogo com o professor no sentido de mostrarde que forma a referida introdução deve ser feita junto aos alunos. Há perguntas como: “Oque é certo e o que é errado?” “Como agir em determinadas situações que podem sererradas do ponto de vista moral, mas que parecem corretas do ponto de vista moral?” “Qualé o conceito de vida humana?” “Como avaliar os resultados do avanço tecnológicos?” “Aquem esses avanços beneficiam?”. Também há indicação para que o professor incentive adiscussão de temas que envolvam as tecnologias e que, segundo o caderno, vem trazendodúvidas que provocam debates “sem que se chegue a qualquer conclusão definitiva ouunânime” (São Paulo, 2008, p.9).Seis textos fazem parte do caderno, sendo o primeiro deles intitulado Leis Nazistas sobre apurificação da raça, escrito por PALÁCIOS, REGO, e SCHRAMM em 2002, refere-se a trêsleis formuladas e aprovadas por Hitler que visavam à esterilização de judeus e ciganos,proibição de casamentos entre alemães e estes povos e criação de campos de extermínio.O segundo texto, sem autoria, intitulado Algumas Experiências com seres humanos, revelaexperiências feitas com seres humanos nos Estados Unidos no período de 1932 a 1972. Oterceiro, também sem autor, intitulado Uma história real descreve a vida de uma menina de12 anos que foi abandonada pelos pais na casa de uma família, onde era mal tratada, 13
  14. 14. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011sofrendo inclusive violência sexual. Aos 17 anos Cecinha foi morar na rua, passando a serconsumidora de drogas e bebidas alcoólicas. Em uma briga a menina levou um tiro e ficouparaplégica e quando chegou ao hospital ao saber que estava grávida pediu que a gravidezfosse interrompida, mas não foi atendida pelos médicos.O quarto, intitulado A Bioética, de Adilton Luis Martins escrito especialmente para oCaderno, apresenta a Bioética como sendo “um ramo da Ética, cuja reflexão central são asciências da vida e da saúde” (São Paulo, 2008, p.12), e que sua importância se dá a partirdo momento em que debate a dor e a morte. Em seguida, o quinto texto retirado do JornalFolha de São Paulo, intitulado O primado da vida com subtítulo Com a Aids disseminada, éhora de o magistério católico se perguntar se o preservativo não seria mesmo “um malmenor” de Frei Betto, discute a proibição do uso de preservativo pela igreja Católica. E porúltimo, o sexto texto, intitulado Como analisar a mercantilização da vida promovida pelaindústria farmacêutica, pelos planos de saúde e por parte considerável das pesquisas? deAdilton Luis Martins, escrito também especialmente para o Caderno, trata da questão daindústria farmacêutica em nosso país, quanto aos valores dos medicamentos, a quebra depatentes e os genéricos. E finalmente neste ano o caderno propõe uma avaliação, comquestões referentes aos textos lidos.No caderno do ano seguinte, isto é, 2009, os textos sobre as leis nazistas, a experiênciacom seres humanos e o primado da vida permaneceram, sendo que, os textos Uma históriareal, A Bioética e Como analisar a Mercantilização da vida foram retirados, e em contrapartida é colocado um texto intitulado Por que Bioética? de Joaquim Clotet escrito em 1993que discute o desafio da ética em promover um padrão moral comum, na medida em que amedicina e as ciências biológicas enfrentam um problema ético devido a seus progressosnos últimos tempos. Finalizado o texto, são pedidos exercícios referentes ao assunto.Um deles requisita uma pesquisa individual pedindo uma reflexão sobre a pergunta “Quaisas principais polêmicas enfrentadas pela Bioética no mundo contemporâneo”. Para tantosugerem consulta a dois autores: Edmund Pellegrino e Volnei Garrafa e dois sites parapesquisa: www.bioética.ufrgs/textos.htm e www.bioetica.org.br, do Centro de Bioética doConselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo. Finalizando a situação deaprendizagem são formuladas questões de múltiplas escolhas envolvendo interpretação detextos referentes às áreas de biomédica e pesquisas envolvendo seres humanos. No ano de2010, o caderno não sofre qualquer alteração em relação ao do ano anterior. Importanteressaltar que todos os cadernos inserem o filme Mar adentro nas atividades propostas, natentativa de promover o incentivo para que o aluno “venha, a saber, mais” sobre o assunto.O filme conta a vida de Ramón Sampedro, um tetraplégico que luta pelo direito de morrer,ou seja, trabalha entre outros assuntos a questão da eutanásia e do direito de morrer. 14
  15. 15. Universidade Presbiteriana MackenzieAlgumas características da Bioética foram possíveis de identificar a partir da análise domaterial. Convém ressaltar que essas características estão voltadas apenas aosprofessores, pois se encontravam apenas no Caderno do professor do ano de 2008. Entreelas podemos destacar o caráter reflexivo da Bioética, bem como sua característica laica.Os autores compreendem a Bioética como “tema de grande atualidade que perpassa oconhecimento médico, os valores culturais, a legislação e os próprios significadosexistenciais” (SÃO PAULO, 2008, p.8). Consideram-na como uma boa base para reflexãocrítica sobre a sociedade tecnológica e o pensamento tecnicista.O material percebe a característica dialógica da Bioética ao propor aos alunos atividade emgrupo solicitando inclusive que os mesmos se posicionem quanto às questões levantadas.Neste sentido reconhece-se o potencial da Bioética no exercício de tomada de posição porparte dos alunos (SILVA, 2008) salientando o processo e não necessariamente o produto,além do mais a aprendizagem de conteúdos procedimentais e atitudinais, não há respostas certas ou erradas (...) é quase certo que não se chegará a nenhuma conclusão sobre elas, mas o simples fato – sob orientação do professor – poderem discutir abertamente suas posições e refletir sobre seus compromissos já é algo positivo para sua formação (SÃO PAULO, 2008, p.12).No que se refere à concepção de Bioética, o material ao abordar o seu histórico, recorreinevitavelmente à perspectiva principialista, pois ela se situa no centro das questõesapresentadas nos textos que envolvem o debate sobre o uso de seres humanos empesquisas, enfatizando o exercício nazista e alguns casos norte-americanos. Essaconcepção está presente na maior parte dos textos aos alunos.A análise do material permitiu-nos também identificar indícios de uma Bioética deIntervenção, pois ao inquirir o aluno ao papel da medicalização crescente do corpo e aideologia subjacente, com sua conseqüente mercantilização nos induz à uma forma maissócio-política, típico dessa concepção. O texto intitulado Bioética, infelizmente presenteapenas no caderno do professor, Martins aponta que: “o tratamento desses temas precisaser considerado em sua mais urgente característica educacional, pois visa, sobretudo, àlegislação e à ação efetivas do Estado, fazendo com que um dos fins mais generalizados dabioética acabe sendo político (São Paulo, 2008, p.12, grifo nosso). Infelizmente os textosprecários selecionados aos alunos não dão conta dessa perspectiva, muito embora naatividade proposta, isto é, consulta aos autores de Bioética, propõe um dos autoresprecursores dessa corrente de Bioética, isto é, Volnei Garrafa. 15
  16. 16. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011CONCLUSÃOAntes de tudo há que se destacar a iniciativa da inserção da Bioética na proposta curricularda secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Entretanto nos parece que de 2008 a2010 houve uma perda de conteúdo no referido material. O conteúdo ao ser já pré-definido,e ao fornecer passo a passo de como o professor deve proceder pode tornar o ensinoengessado incompatível com o ensino filosófico, conduzindo-o a uma perda crucial. Dada avariedade de correntes bioéticas, onde a filosofia se adequaria perfeitamente, já que ela ébastante diversificada, verifica-se que as questões ecológicas e de políticas públicas,envolvendo saúde e serviços básicos, não são amplamente desenvolvidas. Caso estasquestões fossem adequadamente abordadas, seguramente ampliaria a visão do aluno noque se refere aos temas tratados pela bioética. A partir daí o aluno tenderia a refletir sobre arealidade político-social em que toda sociedade está inserida, passando assim a ter umavisão macro dos problemas enfrentados por milhões de brasileiros.Segundo Favaretto (1995), é de suma importância que haja um conteúdo mínimoespecificado, ou seja, um conteúdo filosófico mínimo, e por certo temos filósofos quetrabalham a questão em sua forma mais ampla, com textos que podem de fato expandir avisão da questão Bioética no aluno, inclusive ampliando a discussão com outras áreas doconhecimento. Na construção de um arcabouço conceitual filosófico mínimo, o ensino defilosofia deve permitir o desenvolvimento de habilidade técnica na interpretação de texto, eisso se dá a partir de diferentes modalidades discursivas, característica essa ausente nomaterial analisado.Para Schramm, “a Bioética pode ser concebida de várias maneiras, em princípio todasválidas, de acordo com as características de seu objeto, os métodos adotados ou o contextoem que se queira inscrever suas atividades” (2009, p.15). Portanto vimos que a Bioética,dada sua amplitude, acaba por oferecer vários tipos de abordagens. A partir disto entãoverifica-se que há de se ter cuidado com o reducionismo, quando se relaciona a Bioética esuas questões, apenas à área de saúde e afins.Suas variantes, ainda a partir da visão de Schramm (2009), são múltiplas, mas podemtambém ser específicas, ou seja, ligadas a ética da sacralidade da vida. Podem ser gerais,relacionadas à ética da vida ou ainda ligadas diretamente às variantes morais, que têmcomo característica a valorização das normas e dos atos humanos diante dos “sistemasvivos”. No caso desta última, possibilitaria uma abordagem dentro de um contextointerdisciplinar com a Biologia, mas é apenas citada no material analisado. Por outro lado háuma menção para que o professor de História ajude quanto à questão nazista, o queendossa a interdisciplinaridade da Bioética. 16
  17. 17. Universidade Presbiteriana MackenzieAssim como Silva (2008), muitos estão cientes que o ensino de Bioética em si mesmo, nãogarante que o aluno será um indivíduo que preza os valores morais, mas provavelmente oconhecimento dos conceitos que fundamentam estes valores fomentará de alguma formaseu senso crítico, sua capacidade de argumentação e seu raciocínio lógico e, portanto, suaautonomia e cidadania, promovendo assim a solidariedade, o diálogo e o respeito entre osindivíduos.Deste modo, o ensino de Bioética deve ser visto como uma oportunidade de se formarcidadãos autônomos. Como já dito, há de se louvar a iniciativa do governo do Estado deSão Paulo, que deu o primeiro passo rumo a uma sociedade melhor, quando incluiu nadisciplina de Filosofia, a discussão sobre Bioética. O que notamos é que esta tentativainfelizmente ao longo destes três anos caminhou para uma redução, na medida em que foiperdendo conteúdo o que, a rigor, deveria ser ampliado. Vimos que desde seu início omaterial tendeu a abordar a Bioética por meio de somente uma perspectiva, quando suaspossibilidades são muito mais diversas e, infelizmente, de forma superficial perdendo-se ariqueza de seu potencial inclusive sem a presença de temas mais atraentes ao público alvo,isto é, jovens e adolescentes.O percurso investigativo permitiu atingir os objetivos ora propostos, mas, cabe destacar quedesdobraram-se outras inquietações que poderiam ser transformadas em questões parainvestigações futuras. Uma delas seria se o uso, ou a forma de utilização, do material porparte dos professores exigiria uma formação mínima em Bioética dos mesmos. Outraquestão seria a observação in loco de como o Caderno de Filosofia vem sendo utilizado ecomo tem sido o ensino efetivo da Bioética isto é, suas potencialidades em permitir ampliaro senso crítico do aluno, contribuindo para sua formação ético-moral e sua consciênciasocial.Tendo em vista o retorno da Filosofia como disciplina obrigatória no currículo escolarregular, o que reflete preocupação em formar pensamentos críticos, faz-se necessáriopesquisar como o ensino da Bioética na Filosofia se dá, já que por meio dele, os alunospoderiam ter consciência de valores, de responsabilidade, liberdade e emancipação.REFERÊNCIASANJOS, M.F; SIQUEIRA, J.E. (Orgs.). Bioética no Brasil: tendências eperspectivas. Aparecida: Idéias & Letras, 2007.ADORNO, T.W. Educação e Emancipação. São Paulo: Paz e Terra, 2006.BERTI, E. As Razões de Aristóteles. São Paulo: Edições Loyola, 2002BISHOP, L. Teaching Bioethics in High School: an American experience. The High SchoolBioethics Curriculum Project at the Kennedy Institute of Ethics. IN: Educação e formação em 17
  18. 18. VII Jornada de Iniciação Científica - 2011Bioética – Actas do 9º Seminário do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida,Lisboa, Portugal, 2006.BRASIL. Guia de livros didáticos: PNLD 2010. Brasília: Ministério da Educação, Secretariade Educação Básica, 2009.ELSTER, J. Teaching Bioethics in the secondary education- the Norwegian experience. INEducação e formação em Bioética – Actas do 9º Seminário do Conselho Nacional de Éticapara as Ciências da Vida, Lisboa, Portugal, 2006.FABBRINI R. N. O Ensino de Filosofia: A Leitura e o Acontecimento. São Paulo:Trans/Form/Ação, 2005FAVARETTO, C. F. Notas sobre o ensino de filosofia. In: MUCHAIL, S. T. Filosofia e seuensino. São Paulo: Educ, 1995GARRAFA, V. e PESSINI, L. (orgs.) Bioética: Poder e Injustiça. São Paulo: Loyola eSociedade Brasileira de Bioética, 2003GARRAFA, V., KOTTOW, M. SAADA, A. (orgs.) Bases conceituais da Bioética – enfoquelatino-americano. São Paulo: Gaia, 2006.GIL, A.C. Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo: Atlas, 2002HABERMAS, J. O Futuro da Natureza Humana. São Paulo: Martins Fontes, 2004.KOTTOW, Michael H. Comentários sobre Bioética, Vulnerabilidade e Proteção IN:GARRAFA, V. e PESSINI, L. (orgs.) Bioética: Poder e Injustiça. São Paulo: Loyola eSociedade Brasileira de Bioética, 2003.NÚÑEZ, I. B.; RAMALHO, B.L.; SILVA, I.K.P.; CAMPOS, A. P. N. A seleção dos livrosdidáticos: um saber necesario ao profesor. O caso do ensino de ciências. RevistaIberoamericana de Educación (ISSN: 1681-5653), disponível emhttp://www.rieoei.org/deloslectores/427Beltran.pdf acesso em 03 mai 2010.PEREIRA, M. C. A Educação Bioética no Ensino Médio [monografia] São Paulo:Universidade de São Paulo, 2010 Curso de Especialização em Bioética.PESSINI, L.; BARCHIFONTAINE, C. P. Problemas Atuais de Bioética. 8ed. São Paulo:Loyola, 2007.REDE DO SABER, disponível em:http://www.rededosaber.sp.gov.br/portais/Portals/18/arquivos/Grade_FILO_Volume_1_cor.pdf (visitado em: 12/07/2010).SÃO PAULO, Secretaria da Educação. Caderno do professor e aluno. Filosofia, ensinomédio, 2ª série, 4º bimestre / Secretaria da Educação; coordenação geral, Maria Inês Fini;equipe, Adilton Luis Martins, Paulo Miceli, São Paulo: SEE, 2008.SÃO PAULO, Secretaria da Educação. Caderno do professor e aluno. Filosofia, ensinomédio, 2ª série, 4º bimestre / Secretaria da Educação; coordenação geral, Maria Inês Fini;equipe, Adilton Luis Martins, Paulo Miceli, São Paulo: SEE, 2009.SAVATER, F. As perguntas da vida. São Paulo: Martins Fontes, 2001.SCHRAMM, F. R.; REGO, S.; BRAZ, M.; PALÁCIOS, M. (orgs) Bioética - riscos e proteção.Rio de Janeiro: UFRJ, 2009.SEVERINO, A.J. Como ler um texto de filosofia. São Paulo: Paulus,2008.SEVERINO, A.J. Metodologia do Trabalho Científico. São Paulo: Cortez, 2002.SILVA, P. F. Bioética e valores: um estudo sobre a formação de professores de Ciências eBiologia. São Paulo. (tese de Doutorado). Faculdade de Educação da Universidade de SãoPaulo; 2008. 18
  19. 19. Universidade Presbiteriana MackenzieSILVA, P. F. Percepções dos alunos de Ensino Médio sobre questões bioéticas. São Paulo.(dissertação de Mestrado). Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2002.UNESCO. Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos. Brasília: CátedraUNESCO da UnB e Sociedade Brasileira de Bioética. Outubro de 2005.UNESCO/ICSO. Declaracion Sobre la Ciência y el uso del Saber Cientifico, 1999. Disponívelem: http://www.unesco.org/science/wcs/esp/declaracion_s.htm. Acesso em: 01 de maio de2010.UNESCO. Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos, 2005. Disponível em:http://www.anvisa.gov.br/.../Declaracao%20Bioetica%20e%20Direitos%20Humanos%202006 out 2009.Contato: nereidesc@yahoo.com.br e paulo.silva1@mackenzie.br 19

×