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UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO)
      CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE                      PRIMEIRA VERSÃO
                                                               ISSN 1517-5421     lathé biosa    17
          PRIMEIRA VERSÃO
     ANO I, Nº17 - SETEMBRO - PORTO VELHO, 2001
                        VOLUME II

                       ISSN 1517-5421


                         EDITOR
                   NILSON SANTOS


                 CONSELHO EDITORIAL
            ALBERTO LINS CALDAS - História
             ARNEIDE CEMIN - Antropologia
            FABÍOLA LINS CALDAS - História
         JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL - Geografia
                MIGUEL NENEVÉ - Letras
            VALDEMIR MIOTELLO - Filosofia

Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times
New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows”
           deverão ser encaminhados para e-mail:

                     nilson@unir.br                                 A UNIVERSIDADE E O DIREITO

                     CAIXA POSTAL 775
                     CEP: 78.900-970
                      PORTO VELHO-RO                                             ALBERTO LINS CALDAS

                TIRAGEM 200 EXEMPLARES

      EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA
Alberto Lins Caldas                                                                                               A UNIVERSIDADE E O DIREITO
        Professor de Teoria da História
        caldas@unir.br




        Uma sociedade frágil, roída, consumida e abastardada por infindáveis quarteladas e golpes de estado fascistas como o de 1964; politicamente corrupta, porque
o dinheiro vem antes da comunidade e seu sentido; intelectualmente capacho, porque jamais conseguiu abandonar a subserviência desde a pronúncia até as principais
idéias; popularmente servil, amansada duramente por séculos de crença, favores e milagres; secularmente injusta, porque a lei não pode jamais ser feita "para o pobre",
pois é coisa de Classe e de Estado; capada e recapada até não restar senão um gemido ridículo, humilde e metido a besta; curvada e recurvada, batida e rebatida. Sobre
esta massa podre (que é o povo, sempre o povo!) impera, momento sim momento não, cada fatia de um Poder qualquer: uma vez é o momento dos coronéis, depois dos
tenentes, depois dos generais; chega o momento do imperador, do governador, do presidente, do prefeito; passa o momento dos estudantes, dos jovens, das modas e
chega o momento das mídias; passa o momento dos senhores de terra e chega o momento dos senhores das fábricas; passa o momento do Executivo, chega o do
Legislativo; passa o momento do narcotráfico chega o momento do Judiciário. Cada momento destes, que não passam e se completam e se interpenetram, é o Horror! A
supremacia da ignorância, do fascismo, da brutalidade, da insensibilidade, da delação: o momento da lei, da ordem, da pátria, da terra, da bandeira, da tortura, do exílio,
da cotidiana passividade: momentos que causam dor, causam angústia, causam descrédito.
        Estamos num destes grandes momentos na Universidade: o momento do Direito! Vamos a ele! Compreendamos isso mais profundamente. Por partes, como
deve agir o bom açougueiro.
        Primeiro, a "história" da UFRO (pronunciem U EFE ERRE Ó!) é rasgada por professores e alunos se processando numa velocidade vertiginosa. Havia um
tempo onde praticamente todos estavam processados. A UFRO passou por uma lavagem desmoralizante inimaginável. E todos os processantes ainda não entenderam
que agindo assim desmoralizavam, diminuíam e afundavam a Universidade, seu poder e sua autonomia: as ratazanas não se remedaram e ainda não entenderam que
deve ser na Universidade o âmbito e o campo das nossas lutas. E se denunciavam e se processavam como quem escova ou palita os dentes: somente um "professor de
segundo grau" deixa o espaço acadêmico e processa um aluno ou um professor (a não ser em raríssimos casos que clamem realmente a Justiça e isso não diga respeito
ao universo acadêmico): com isso o Estado sempre saiu ganhando: com isso certa posição fascista do Estado sempre saiu ganhando: com isso a Cidade sempre saiu
ganhando: a inteligência foi deslocada do seu campo e foi jogada aos leões da polícia, dos tribunais e dos quartéis. Delegamos nosso poder, nossa capacidade, nossa
inteligência, nosso talento, nosso campo: perdemos tudo quando "pomos na justiça";
Segundo, nesses últimos anos, com o enfraquecimento dos outros poderes, a Justiça tomou os espaços vagos: seja nos espaços legislativos, seja nos espaços
executivos, seja nos espaços populares, seja nos espaços universitários: o Direito (entenda-se certos advogados e certos juizes!) avançaram nos campos vazios e
plantaram suas regras, suas normas, suas leis, seus regimes, sua lógica, sua materialidade, sua experiência: encontrando espaços vazios pensaram que jamais haviam
nele estado uma vida, uma experiência, uma lógica, uma filosofia, uma visão de mundo exata e precisamente oposta a sua. E passaram a criar o mundo a sua "imagem e
semelhança": assim também na Universidade, onde o justo e o injusto, o verdadeiro e o falso, o certo e o errado têm sua lógica própria, seu sentido íntimo, seu
sentimento e seu corpo numa história somente sua, numa razão que somente a ela pertence;
       Terceiro, unindo os dois pontos anteriores temos o inferno: não somente a justiça encontrou terreno vazio, baldio, inexplorado, como recebeu sesmaria, poder e
mando de quem foi sempre uma maioria: os "professores de segundo grau". Desconhecedora tanto a justiça quanto os "professores de segundo grau" do que é uma
Universidade, trataram de inventar uma que fosse o paraíso de cada um desses segmentos: os advogados a processarem em nome do justo e do verdadeiro; os juizes a
julgarem por seus códigos e suas normas; as ratazanas saltando de alegria: tudo em nome da Justiça. E o Estado adorou: o MEC vibra com a Universidade "dentro da
lei": processam uns aos outros como se fossem cada um por suas razões, quando são "razões de Estado" que os fazem lutarem entre si: o "cada um por si" já mostrou no
capitalismo que é a melhor maneira de destruir todos aqueles que são minoria: um detalhe: na Universidade se somente um aceitar alguma idéia, alguma visão, esse um
deve ser defendido até a morte;
       Quarto, vemos advogados e juizes sem saberem o que é a Universidade: foram somente "alunos de direito": não criaram conhecimento: não pesquisaram: não
geraram visões de mundo: não possuem a experiência da Universidade, sua autonomia intelectual que tanto incomoda exércitos, polícias e fascistas de todas as
camisas: em vez de defendê-la deixando-a com sua liberdade, sua democracia, seu talento, tratam de arrasta-la para a Lei, para o Estado, para o campo onde a
Universidade fenece, para o campo que deve ser exatamente aquilo que a Universidade deve combater: somente uma Universidade livre pode garantir o Direito, pode
ensinar o Direito, pode formar o próprio Direito, antecedendo aos futuros juizes e advogados, um campo de liberdade, de Ética e de inteligência que deve anteceder o
seu próprio universo: sem a Universidade plena, o Direito não existe: enquanto não entenderem isso não se tornarão verdadeiros juizes e advogados. Enquanto sem o
Legislativo e sem o Executivo o Judiciário levantaria uma Nação, sem uma Universidade (entenda-se bem mais que uma instituição!), em pouco tempo toda a vida que
levantou a Nação teria desaparecido no Terror (em todos os Terrores dos últimos duzentos e cinqüenta anos havia sempre um Judiciário eficiente e uma Universidade
castrada: sempre um Legislativo atuante e uma Universidade exilada: sempre um Executivo executando e uma Universidade silenciada);
       Quinto, enquanto os professores da Universidade não entenderem sua importância na "ventilação" democrática, nas sutilezas da liberdade e da inteligência, não
serão, por sua vez, Professores de Universidade, mas ratazanas de "segundo grau", antas da floresta. Enquanto não pudermos nós mesmos apanhar nossas ratazanas,
não teremos nosso Direito; enquanto nos acompanharem como crianças, não teremos autonomia, enquanto nos inquirirem com a Lei, não seremos livres para criar;
enquanto cortarem nossa voz, não teremos consciência; enquanto nos coagirem com o Direito (o Estado, a Nação, a Ética, a Política, a Educação) não seremos
                                                                                                                                                                   3
Universidade, mas um campus avançado do Judiciário e o próprio judiciário não será nem pleno nem viverá o Direito, mas os sintomas dos regimes de força e das
ilusões das corporações. É na Universidade onde nascem as fontes que circularão na Cidade: não é somente os "Três Poderes" livres que garantem a Democracia, mas a
inteligência livre, diluidora, contestadora, protegida, respeitada e entendida que é a função primordial da Universidade: é na Universidade onde se sente em primeiro
lugar os sintomas de uma sociedade viciada, fascista, truculenta, policialesca e burra. É a Universidade que, além do Direito, cria, ensina, protege e modifica a Justiça.
        Para que se retome o sentido do Direito e a vocação da Universidade é preciso que tanto cidadãos quanto juizes, advogados e professores entendam
profundamente o que é a Universidade e, com isso, se entenderá o próprio sentido do Direito. Não interferindo, não marcando, não ferrando com sua lógica e seu Poder
aquilo que é sutil demais para resistir, e se não resistir é porque estamos numa nova fase ditatorial, seja do Exército, seja dos Coronéis, seja dos Juizes ou Advogados,
seja dos professores. As ditaduras se vestem sempre com o alfaiate que se dispõe a vesti-las!




                                                                                                                                                                             4
UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO)
      CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE                      PRIMEIRA VERSÃO
                                                                   EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA
          PRIMEIRA VERSÃO                                      ISSN 1517-5421           lathé biosa      18
     ANO I, Nº18 - SETEMBRO - PORTO VELHO, 2001
                        VOLUME II

                       ISSN 1517-5421


                         EDITOR
                   NILSON SANTOS


                 CONSELHO EDITORIAL
            ALBERTO LINS CALDAS - História
             ARNEIDE CEMIN - Antropologia
            FABÍOLA LINS CALDAS - História
         JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL - Geografia
                MIGUEL NENEVÉ - Letras
            VALDEMIR MIOTELLO - Filosofia

Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times
New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows”
           deverão ser encaminhados para e-mail:
                                                                    CONVERSANDO COM HUMBOLDT
                     nilson@unir.br

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                     CEP: 78.900-970                                                    WALTERLINA BRASIL
                      PORTO VELHO-RO



                TIRAGEM 200 EXEMPLARES


                                                                                                              5
Walterlina Brasil                                                                                                CONVERSANDO COM HUMBOLDT
wal@unir.br


        Era um dia chato. As pessoas iam e vinham na Universidade com aquela pressa de quem tem sempre a responsabilidade de pensar o mundo (ou de contrariá-lo
ou até mesmo negociá-lo, quem sabe ?). Andei lentamente em direção a um buraco reservado para os que passam uma boa parte do tempo ali, enfiados na esperança de
conseguir concluir alguns dos inúmeros expedientes que a dita Instituição envolvia (ou revolvia). Ri sozinha. Era uma espécie de relação franksteinica, ou o médico e o
monstro revelada no dueto “instituição-instituido” ou em algo que considero pior “instituidor-instituição” ou no imperativo “in(sti)tuição-in(sti)tuidor”. Algo que
perfura (um desenho semelhante aquele que torna o amor romântico um ícone do idealizado que para existir no real parte do pressuposto que não deve consentir-se
pleno ou feliz: coração traspassado por uma flecha que alguns, com maior requinte, ainda permitem o desenho de algumas gotas de sangue). Mas, enfim, não me
preocupei com isto. Encontrei aquela professora que está há dois anos tentando ter uma boa idéia para um livro e de tanto falar disso todos já lemos o seu livro (como
vêem não sou a única que sei), menos ela. Vendo-a, num relance vi Platão... Uau! Deve ser isso! O livro da professora existe, está na realidade das suas idéias e vai ver
isto lhe basta. Por alguns segundos caminhei com um anjinho e um diabinho sobre os meus ombros – um em cada lado - pensando horrores e ao mesmo tempo tendo
piedade da professora. Caros leitores, um a parte: É que na Universidade é possível [também] demônios e anjos em uma mesma atitude (ou será o Charada, do
Batman?) em uma mesma pessoa: parecem as mais doces e solidárias (e empáticas) criaturas, até que a porta se feche atrás de nós e possam dizer sozinhos ou sozinhas,
em comparsa: “Estou livre deste (ou desta) idiota!” e certamente nunca saberemos o que realmente eles (ou elas) pensam sobre você, porque a única preocupação que
têm é que eles (ou elas) confirmem para si mesmos, o tempo todo, incansavelmente, que saibam o que são e acreditem nisto (acho que assisti demais Matrix...). Eles
(ou elas) não tem nada a ver conosco. Te suportam, nos suportam. Ponto. Preferi naquele momento, espanar ambos coleguinhas, antes que me atolassem com seus
pesos. Nas leis da convivência “acadêmica” talvez os convoque quando for necessário uma boa idéia (que é aquela que reúne o desequilíbrio dos dois mundos – ou
personagens).
        Pois bem. Era um dia chato. Como aqueles onde os alunos te procuram desejosos que você faça no lugar deles o que eles devem fazer sozinhos para superar-se.
Como aqueles em que você tem que implorar que liguem seu ar-condicionado lembrando-os que sua sala é dois por cinco metros, que a arquitetura não foi uma
referência para pensar-se a ocupação do espaço e a prevenção sobre (ou a convivência com) o calor na região está nas cucuias, que você não quer ter menopausa
precoce, que suar muito às vezes fede, que conforto – para trabalhar em paz – é um direito ! mas, como os memorandos sempre vão me vencer... aí vou tentando as
relações mais amigáveis.


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Era um dia chato. Passei pela professora, preparei-lhe meu melhor sorriso e antes que me falasse do seu mais reiterado capítulo (a introdução), fui para a sala na
qual me encerro (“minha sala”, uau!) dizendo que estaria disponível para ouvi-la assim que fizesse meu computador funcionar, sem ter que enviá-lo para manutenção,
senão o pobrezinho dormiria o sono das máquinas culpadas de gerarem homens e mulheres dependentes. De repente, sentado numa mureta, olhando para baixo, com
seus óculos envelhecidos escorregando até a ponta do nariz, com aquela expressão de covarde, arfando, vi o Walter ! O Walter Benjamin! Ao tocar a parede daquele
prédio pude penetrá-la através de uma teia de experiências que passavam na minha mente, enquanto via o Walter. (Caro amigo/amiga, não estou tendo visões da
última hora, da morte ou de fome. Walter Benjamin me levou a pensar sobre a experiência e como ela se revela através das histórias nas coisas que falamos,
vemos, interagimos, sentimos. Ainda não morri e logo, logo chegarei a Humboldt. Tenha paciência). Foi bom vê-lo. Aquele homem já percebia que o tempo eram
relações sucessivas de futuro, portanto está naquilo que posso sentir e fazer sentir, algo que vai além dos objetos (ou sujeitos) e suas representações. Então aquele
prédio era algo mais do que um lugar para professores universitários. Vi as salas sem portas – como foram concebidas -; vi as salas de aulas sem cadeiras enfileiradas –
como foram concebidas -; vi as janelas sem grade – como foram concebidas. Onde as concepções se perderam ? E me dei conta (insigth?): foram concebidas por
alguns e quando alguns se vão ou se forem, seguem com estes suas concepções. Daí talvez que, para alguns (outros/outras), seja importante criar insubstituíveis ou
fazê-los crer. Pois pode haver algo no reino de Alice que confirme que “os fins justificam os meios”, e se ampare qualquer um (outros/outras), de qualquer escrúpulo e
convicção, que os permitam sugar as energias humanas, pois dos humanos, somente necessitam das energias, afinal não são inteligentes como os humanos (e sua luta é
crer veementemente que são mais que humanos e fazer-se mais que inteligentes). Portanto, torna-se fundamental dispensar (e descrer) qualquer tipo de participação e
interesse efetivamente coletivo (em qualquer forma e tempo verbal) cuja legitimidade esteja enxertada com a informação limpa e a permanente coragem de olhar e
acender o atrevimento de todos.
         Olhei para o Walter e disse: “Colega, você é um gênio”. Ele me olhou: “Obrigada pelo verbo no presente... lembra da brincadeira: no princípio, tudo era o
verbo ? Figura forte, não é ?”. Eu disse: “Pôxa, eu estou numa Universidade e lembro...” Ele me interrompeu, pela primeira vez levantou a cabeça (tinha olhos bonitos)
e concluiu (pois desaparecia): “Você está em um conceito, ou uma rede deles e a disputa por conceitos é intestina, visceral.. não lembre de nada, experencie, conte,
fale”.
         Depois dessas visões (que neste texto me parece mais uma inspiração influenciada pelo “Ghost” ou coisas e filmes pelo estilo), achei que o dia não estava mais
chato. E achei menos ainda que estava recebendo uma missão ou tomando a pílula da Emília (sem que ninguém me venha dar, através de uma pergunta fatal) da minha
consciência, porque já havia tomado-a na exposição e construção de experiências participativas, enfrentadoras, crédulas, tolas, quaisquer que sejam, pois, e sobretudo,
coletivas. Liberei endorfina, no máximo.
         Não era um dia chato. Entrei na sala. Sentei em frente ao computador (ele funcionou e a rede também, viva !). Vi minha caixa de correios. Fui vendo pelos
temas (ou subject ?): nenhuma ameaça de morte; nenhum show de circo; nenhuma visita ao porão; nenhum aluno entregando trabalho atrasado; nenhum expediente,
                                                                                                                                                                         7
convocação ou circular (nem os anônimos...); nada para rir... hum... hum... [isso quer dizer que estou procurando] ah! Uma troca de idéias com um colega que bom !
um agendamento com meu grupo de pesquisa, que bom! Um retoque no meu livro, que bom! Apesar de nenhuma piada na rede (pois descontrai), estava bom. “É isso
aí Walter” – pensei – “convivo com uma teia de conceitos, né ?, pois vou seguir a trilha... afinal tem uma porção de coisas que empanam isto: ideologia, poder, pecados
capitais. Lá estava: Humboldt. (Eu não disse leitor/leitora, para você ser paciente? está aí o homem). Pensei exercer o meu estereotipado direito ao chilique
feminino, antecipado de um grito, mas antes disto, vi o rosto de um homem abatido, magro, tinha canas (parecem que os abatidos sempre trazem canas...), não muito
alto, com a esperada (por mim) elegância alemã (e sem essa idiotia de perfil ariano) e que me olhava. Não demonstrava estranhar o ambiente, móveis, vestimentas,
equipamentos. Do nada pegou um copo (com água) e tomava lentamente, como aquelas pessoas que tragam um líquido para acalmar uma intranquilidade. O cachimbo
havia desaparecido. Ele sentou (naquela cadeira que está quase para quebrar, não deu tempo para avisá-lo, não estou na sala da reitoria ou de pró-reitorias, ou na sala
dos conselhos... aí pode-se ter cadeiras mais confortáveis, por razões ditas como “óbvias”). Mas não caiu. Continuou: “Parece que falar de Universidade retorna ao
centro de alguns debates. Qual sua função como instituição ? Para que vai servir ? O que seja ? Há materialidade na Universidade ? Volta aos princípios da criação da
Universidade medieval? (analisastes o encontro sobre o ensino superior na França, em 1998 ? Estive lá), há relação “científica” entre as pessoas? [suspirou] Uma crise
essencialmente pessoal (ou existencial) abala o que-fazer da universidade. E onde estamos? em que tempo estamos? e o que pensamos fazer ? Tive uma conversa um
dia desses com o Weber (o Max) e o Émile (ele detesta ser chamado de Durkheim, como o povo diz) e disse a eles que poderiam ter sido mais claros na sua abordagem,
conversado um pouco mais com o Hobbes, o Maquiavel, o Locke. As pessoas tendem a conciliar o inconciliável, ou pelos menos tentam aproximá-los [franziu a testa,
acenou com a cabeça seu inconformismo]. Falam de Universidade e de Estado como um fato intrínseco e de certo modo ensimesmado. A indissociabilidade entre
ensino, pesquisa e extensão parece estar arraigada e articulada a característica e existência do Estado. Veja: uma função universal: o conhecimento e o processo de
conhecer do ente existente, vinculada a algo como a “capacidade de saber” ?! Que loucura! Condições absolutamente díspares” [colocou a mão no queixo, fitou-me
como que inquirindo-me]. Cheguei a pensar que Humboldt era Francês e não alemão.
       “Eu me surpreendo com o que você diz, pois sempre o conheci como alguém que trata de dizer sobre o que é e a necessidade do vínculo científico no
desempenho da universidade. E o que você me diz das idéias de Jaspers, Newman, Whitehead tão citados quando você ?”. Sua voz ainda estava triste. Acho que ainda
há uma miscelânea teórica onde se tenta impor (alguns pretendem criar) uma teoria que seja imperativa (ou ridicularmente explicativa) quanto ao sentido da instituição
em termos de sua natureza, sem alertar para os conceitos. As palavras lançadas por mim já deixaram de ser minhas há muito tempo. Nunca falei de Universidade.
Pensei em Academia. A Universidade tornou-se impossível. Já o era quando eu o disse. Há pressões sobre o desenvolvimento e a forma de viver das pessoas que não
há como a Universidade dar conta! Há respostas sociais a serem proporcionadas, cuja inscrição não está assentada no papel da Universidade ! Não pensei numa
Universidade política. Pensei numa universidade científica [e os/as leitores/as não inventem de interferir com aquela onda de que político e científico não se
desvinculam que não é esta a questão, hein ]. Isto não seria uma idéia. Seria um propósito. A essência da história da expansão do homem sobre a terra é que tem
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justificado de alguma maneira o princípio “natural” de perdedores e ganhadores de algo. Walter tem razão quando diz que a briga quando se refere a conceitos é
intestinal, visceral, pois é a manipulação em algum momento e a imposição em outro de paradigmas que proporcionem assegurar a sobrevivência comercial do trabalho
acadêmico. Por isso que me referi ao Max (Weber) e ao Èmile. Entender que o rol social se curva perante a burocracia e a certificação é descompreender a construção
desse rol, por outro lado achar que a explicação da história da Universidade está no seu fazer exclusivamente pedagógico é também um equívoco.”
        Tentei uma intervençãozinha pois nesse momento Humboldt parecia muito chateado. “Mas veja, a Alemanha marcou com modelo e pensamento importantes
sobre a universidade que influenciou inclusive a Universidade Latinoamericana”, fiz de pitaco. “A idéia de América Latina é uma estultícia ![espalmou a mesa]. São
tão sectárias quanto as idéias imperialistas. Lembre-se que há sempre quem acredite nelas, para torná-las impositivas. Crêem, mas não sabem nada”. Nunca pensei que
Humboldt fosse grosseiro. Insisti: “Mas você há de convir que a Universidade é apenas uma entre várias instituições e que por isto deverá por-se a termo e a campo
para saber qual seu papel como uma atitude permanente e vigilante sobre a condição humana. Na América Latina, atrevem-se diante do escravismo intelectual e
tecnológico e são as únicas formas de resistência evidente sobre a realidade da exclusão e do preço pago para alimentar a ganância humana”.
        “Querida” - falou em um tom de grande pai, perfurei-o com um olhar reprovador, alegando a inconveniência; corrigiu-se e mudou o tom – “O pecado preferido
do Diabo é a vaidade, lembra ? Uma fogueira de várias delas fez com que Napoleão entendesse a função e a resposta que a universidade teria que dar vinculada ao
poder estatal representado por ele. Eu falei apenas de pesquisa ! Eu falei de pensar sobre o constituído e julgar sua pertinência. Nunca propus uma Universidade ideal,
parasitária do Estado ou dos indivíduos, propus uma atitude. Veja os que realmente fizeram a Universidade (ou o pensamento superior), não estiveram nela. Alguns
foram instados, convidados, seduzidos, mas não dependeram dessa instituição para ser o que são em termos de propostas para as grandes idéias. Quem trata estas
questões ou as vincula a Universidade é tão tolo quanto a própria convicção de existência pessoal a partir disto”.
        De certa forma, comecei a achar que a história de “alma penada” poderia colar na visita do Humboldt. “E porque você não fala com Deus ?” Instiguei. “Porque
ele sempre fica deprimido quando uma boa idéia não vem dele. Ele ficou assim com o Einstein e a teoria da relatividade”. Compreendi que Humboldt apostava que
algo poderá ser feito em função do que está dado para a Universidade e o que se disfarça no cenário de pretensas preocupações com a ela. Sentindo que estava cansado
por hoje e que se ía, fulminei: “E daí? Mas e o que fazer diante da tão famigerada inquietação (de outros/outras) frente ao [suposto] silêncio?” Ele disse: “As vezes, há
que silenciar-se diante dos débeis, alguns deles podem ser violadores da palavra e isto pode ser um passo para o estupro do sujeito”




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UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO)
         CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE                           PRIMEIRA VERSÃO
                                                                          EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA

              PRIMEIRA VERSÃO                                         ISSN 1517-5421           lathé biosa      19
        ANO I, Nº19 - SETEMBRO - PORTO VELHO, 2001
                            VOLUME II

                          ISSN 1517-5421


                            EDITOR
                       NILSON SANTOS


                    CONSELHO EDITORIAL
               ALBERTO LINS CALDAS - História
                 ARNEIDE CEMIN - Antropologia
               FABÍOLA LINS CALDAS - História
            JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL - Geografia
                    MIGUEL NENEVÉ - Letras
                VALDEMIR MIOTELLO - Filosofia

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                         PORTO VELHO-RO



                    TIRAGEM 200 EXEMPLARES
                                                                                                                     10
Valdemir Miotello
Professor de Filosofia
miotello@unir.br
                                                                                                                 A QUESTÃO DOS DISCURSOS HEGEMÔNICOS


        1 - Vamos procurar olhar, nesse pequeno artigo, a questão da constituição do sujeito dentro de um mundo absolutamente em renovação. Olhando a situação
apresentada socialmente, a forma como a sociedade se organiza e a estrutura que ela mantém, vemos que há por trás um discurso explicador, que vem pelas
informações trazidas do passado, transportadas pelo baú da história e das interações havidas; por outro lado, há em perspectiva de jogo social e interativo um discurso
formador que toma como parâmetro o futuro, o por-vir, os projetos de ser. Na prática discursiva social parece que se produz uma inversão para a produção de novos
sentidos: os discursos formadores, que olham para o futuro, tomam como base os mitos explicadores, que buscam deixar claro onde se quer chegar; já os discursos
explicadores tomam como base os mitos formadores, que buscam afirmar de onde estamos vindo e por que somos do jeito que somos. Vejamos na prática da
bibliografia: Para entender os mitos formadores (que são os produtores dos discursos explicadores de nossa situação atual) se deve ler Gilberto Freyre (Casa Grande &
Senzala), Marilena Chauí (Mitos Formadores), Dante M. Leite (Caráter Nacional), Raimundo Faoro (Os donos do Poder), Darcy Ribeiro (O Processo Civilizatório) e
Sérgio Buarque de Holanda (Visões do Paraíso), entre outros, e buscar as raízes de nossa brasilidade (mito das raças, povo católico, paraíso terrestre, gente pacífica,
pessoas alegres); já para entender os mitos explicadores (que são os produtores dos discursos formadores de nosso futuro a ser construído) precisamos buscar em cada
tempo as projeções discursivas (Brasil, país do futuro; A nação rumo ao Primeiro Mundo; País verde).

        2 - Vamos tomar a reflexão por outra ponta: Na história alguns discursos hegemônicos foram produzidos; Aqui é bom pensar em algumas características
marcantes desses discursos: i) a fala vem sempre do setor dominante, incluído; ii) esta fala inclui no discurso os excluídos, falando por eles e falando para eles; iii)
aparentemente também há um lugar de inclusão dos discursos dos excluídos nesse discurso hegemônico; iv) esse discurso, por ser discurso absolutamente ideológico,
esconde mais que revela; v) o discurso é intermediação mais eficaz que as armas para garantir subalternização.
a) Discurso católico na Idade Média; esse discurso igualava a todos pela filiação ao mesmo Pai, pela existência da alma, pela possibilidade do pecado; exigia de
   todos orações, sacrifícios e penitências e cobrava de todos uma vida de privações; o que ficava apagado nesse discurso era o mundo real, a vida mesma, o sentido
   corporal (que até devia ser negado, rejeitado, castigado, por ser o reino e de posse do demônio); dessa forma garantia-se um sentido celestial para as diferenças
   terrestres (criou-se o purgatório para ampliar as possibilidades de igualdade na outra vida);


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b) Discurso do Estado nos séc. XVII e XVIII; aqui a discurseira da igualdade passa pela cidadania, pela afirmação de que todos são iguais perante a lei; de que não
   se fará lei para prejudicar alguém por crimes anteriores; além disso todos são sujeitos de direitos e deveres; cria-se a sociedade pelo pacto social (contratualismo
   hobbesiano ou rousseauniano); apaga-se, no entanto o sujeito, e se garante um assemelhamento legal (do cidadão) para as diferenças reais de vida, protegendo-se o
   patrimônio (dos que têm bens);
c) Discurso Industrial no século XIX; nesse discurso a igualdade se desloca para o mundo do trabalho (vagabundo e miserável é quem não trabalha); as chances de
   todos para obter bens estão postas no trabalho; as oportunidades estão aí (se alguns conseguem, todos podem conseguir); nesse discurso apaga-se a diferença,
   apagando-se a propriedade dos bens de produção por um lado, e apagando-se a exploração do trabalho, por outro;
d) Discurso do Mercado no século XX; aqui se prega a igualdade pelo consumo (os bens estão na vitrine para quem quiser [mesmo que não possa] consumir;
   apresentam-se índices gerais de melhoria de qualidade de vida (acesso a bens coletivos); mas esse discurso apaga o próprio consumo e o lucro proveniente do
   consumo dirigido, e as diferenças ficam por conta das necessidades individuais);
e) Discurso da Tecnologia na última década do século XX; esse discurso se apresenta com uma diferença fundamental na produção da hegemonia: não há
   necessidade de se produzir hegemonia; e isso porque não há necessidade de se incluir o excluído e o exército de reserva é absolutamente desnecessário; o que se
   precisa aqui é do “funcionário criativo”; o trabalho intelectual criativo ganha status; vale o saber criativo; logo a criatividade tem que ser apagada, já que é ela que
   produz lucro; as diferenças tem o sentido garantido no uso (cada um usa de forma diferente a tecnologia posta à disposição).

       3 - No entanto circulam nesse período de discursos hegemônicos outros discursos, que se apresentam como contrapalavras ativas e responsivas:
a) Contrapalavra ao discurso religioso: discurso e postura de São Francisco e de outras ordens religiosas; Igreja que se coloca ao lado dos pobres e oprimidos;
   hereges, bruxos, alquimistas; ignorantes religiosos; não-praticantes; Reforma Protestante;
b) Contrapalavra ao discurso hegemônico do Estado: Rousseau e a manutenção do sujeito bom e autônomo perante o Estado (direito de Resistência); Marx e o fim
   do Estado enquanto constructo e propriedade burguesa, passando pela ditadura do proletariado; Freud e o inconsciente, botando a Razão (enquanto racionalidade
   ocidental) de molho; Guerras, ditaduras; ação sindical; partidos comunistas;
c) Contrapalavra ao discurso hegemônico do industrialismo: o marxismo e a denúncia da exploração da mais-valia; os movimentos de luta pela terra; os
   trabalhadores se organizando em sindicatos; a ciência não dando conta de resolver problemas centrais;
d) Contrapalavra ao discurso hegemônico do Mercado: grupos de não-consumo; estímulo à poupança; aquisição de bens duráveis; luta entre Estado e Mercado na
   sua regulamentação; Estados preocupados com capitais voláteis; regulamentação de remessa de dinheiro ao exterior;



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e) Contrapalavra ao discurso não-hegemônico da tecnologia: apelo ao escancaramento das mazelas sociais (fome, moradia, saúde, educação, pobreza em geral);
     luta pelo perdão das dívidas dos países do III Mundo; ataques ao FMI, Banco Mundial; países falidos; desemprego;
f) Contrapalavra geral e universal: “E nós?”, gritam todos os excluídos da história inteira; os gritos dos que não trabalham; dos que não consomem; dos que não
     detém o saber; dos que são escravos; dos que não são gente; “Quem é o dono do Poder? a quem ele serve?” perguntam todos os que se acham fora do alcance de
     sua ação; “A tecnologia em ação na atualidade produz o quê, e produz para quem?”, perguntam todos hoje.

         4 - Será isso o fim da história, como quer afirmar Fukuyama? De verdade, se a luta de classes é o motor da história, então o fim das classes sociais (patrões e
operários) poderia representar também o fim da história; afinal, hoje o que domina é o Mercado, o Consumo, e não mais a produção. Logo, devemos olhar hoje quem
está dentro do mercado (os incluídos) e os que dele não participam (os excluídos). Os que estão dentro do mercado se dividem entre os que têm bens a oferecer ao
consumo (vendedores/ou tecnólogos criativos) e os que adquirem bens pelo consumo (consumidores). Os excluídos estão absolutamente fora desse jogo.
1. Há grupos de incluídos privilegiados nesse jogo:
a)   os que acumularam fortunas financeiras com o desenvolvimento do industrialismo;
b) os que conseguiram pelo trabalho acumular poupança ou plano de previdência público ou privado;
c)   os que detém o saber criativo;
d) os que foram constituídos como empreendedores (e não como empregados, serviçais, ocupantes de vagas de trabalho);
e)   os que criativamente cruzam equipamentos (não importa quais, de que onda civilizatória) com tecnologia, e com isso elaboram novas funções para tais
     equipamentos com novos programas tecnológicos;
f)   os info-ricos, que detém o uso tecnológico, em oposição aos info-pobres que não possuem e nem usam equipamentos com tecnologia;


         5 - Ainda divagando, agora com arcabouço de Bakhtin. Considerando: a) a situação de rigidez política e de hegemonia política na Rússia de então; b) a
homogeneização do discurso e seu controle; c) a forte intervenção estatal sobre as ações individuais dos sujeitos... O que Bakhtin buscava conseguir ao trabalhar com
sua proposta de sujeito e de linguagem? e porquê e que uso faz da consciência (como em-si; como trabalhada pelo social; como EU pelo OUTRO)? que oposição ele
buscava construir? Era de anti-hegemonia? Ou buscava emergir com nova postura política de dentro da hegemonia instalada? Isso é: Diante de sistemas hegemônicos
– e a preocupação bakhtiniana, e também a minha, é a hegemonia social presente na linguagem - que alternativa Bakhtin propõe e qual alternativa nós
estamos propondo?
a) A hegemonia da classe dominante é produzida, aparece e se mantém duradoura no/pelo discurso?

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b) Ou a hegemonia aparece nas relações sociais e produtivas, passa a ser veiculada nos mecanismos de dominação, e se reflete e se refrata na linguagem, um signo
    ideológico permanente e universal, dentro dos quais se trava a luta de classes?
c) A linguagem é um mecanismo de dominação (está na super-estrutura da sociedade, como queria crer Marx?) ou apenas carrega em si a ideologia da dominação
    (assim como também a ideologia da libertação), de forma disfarçada, embutida, naturalizada (atravessando dessa forma toda a estrutura social, e não sendo ou
    estando nem na infra-estrutura e nem na super-estrutura, mas atravessando de alto a baixo toda a sociedade, e se mostrando como o mecanismo de dominação por
    excelência?)
d) Se o campo da linguagem é a arena onde se trava a luta de classes, como essa luta aparece na linguagem? Como se dá o jogo entre sentido e significação, entre
    reconhecimento e compreensão?
e) Como se dá o encontro entre linguagem carregando de simbologias dominadoras e consciência? Como se produz a contrapalavra do dominado? Essa, uma vez
    pronunciada, manifestando dessa forma que se deu alguma (pode ser a que o dominador quer e anseia) compreensão, quebra a hegemonia do discurso ideológico
    oficial? Ou pode alimentá-lo apenas com uma compreensão de dominação, quando o dominado introjetou dentro de si (Paulo Freire já refletiu demais sobre essa
    possibilidade) o mundo e a consciência do dominador?
f) E como se dá o encontro entre o estético (jogo de palavras e de contrapalavras) e o ético (jogo das ideologias que se debatem nos acontecimentos, na vida)?

        6 - Bem que poderia ser interessante poder dividir o mundo discursivamente em Grandes Hegemonias, à maneira que Toffler e Ribeiro fazem com as
sociedades: a) Hegemonia do Discurso Mítico, que dominou todo o mundo agrícola, tendo sua extensão poderosa no discurso religioso; b) Hegemonia do Discurso
Racionalista, com extensão sofisticada no discurso empirista e científico, que dominou todo o mundo Industrial, que se deu com extensão também poderosa no
discurso do Estado e no discurso do Mercado; c) Hegemonia do Discurso Tecnológico, que se estende no discurso da globalização e que domina todo o atual período
da Revolução Digital, carregando consigo o sofisticado e atual discurso ecológico. Seria muito produtivo para a análise se fosse possível identificar na história essas
três Hegemonias discursivas, estabelecidas e fundadas em imperativos ideológicos que forjaram sujeitos construtores de sociedades e de tecnologias, e estabelecendo
entre si relações sociais distintas.
        O professor Plínio Soares de Arruda Sampaio, na Folha em 30 de Abril de 2000, na seção Debates, escrevendo sob o título "Dependência e Barbárie", afirma
que "A especificidade desse novo ciclo de modernização dos padrões de consumo (que introduz o país no universo do computador pessoal, do telefone celular e do
automóvel computadorizado), em contraste com tantos outros que marcaram a história brasileira, é a sua incompatibilidade com a continuidade dos processos
responsáveis pela formação da nação". Quebrados os processos de formação da nação, quebrados também estarão os processos de formação dos sujeitos que interagem
no espaço e no tempo dessa mesma nação.

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO)
      CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE                      PRIMEIRA VERSÃO
                                                               ISSN 1517-5421         lathé biosa   20
          PRIMEIRA VERSÃO
     ANO I, Nº20 - SETEMBRO - PORTO VELHO, 2001
                        VOLUME II

                       ISSN 1517-5421


                         EDITOR
                   NILSON SANTOS


                 CONSELHO EDITORIAL
            ALBERTO LINS CALDAS - História
             ARNEIDE CEMIN - Antropologia
            FABÍOLA LINS CALDAS - História
         JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL - Geografia
                MIGUEL NENEVÉ - Letras
            VALDEMIR MIOTELLO - Filosofia

Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times
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                                                               A CONCEPÇÃO DA PALAVRA EM BAKHTIN
                     nilson@unir.br

                     CAIXA POSTAL 775                                           MARINALVA VIEIRA BARBOSA
                     CEP: 78.900-970
                      PORTO VELHO-RO



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      EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA

                                                                                                         15
Marinalva Vieira Barbosa                                                                                    A CONCEPÇÃO DE PALAVRA EM BAKHTIN
        Professora de Língua Portuguesa e Literatura
        marialvab@bol.com.br




        Todorov, no prefácio da Estética da Criação Verbal, define Bakhtin como uma das figuras mais múltipla e enigmática da cultura européia de meados do século
XX. Procurando romper com a concepção de homem que adquire uma linguagem ideal, pronta e acabada, e com a dicotomia que toma a linguagem como forma e
conteúdo, Bakhtin concebe um homem que dialoga com a realidade por meio da linguagem. Este teórico provoca fascínio, talvez, pela sua capacidade de ver o mundo,
o homem e a linguagem como sendo partes de um mesmo processo dialético.
        As concepções de Bakhtin exigem do leitor um olhar múltiplo sobre o mundo e sobre o outro. Trata-se de uma teoria que vê o mundo a partir de ruídos, vozes,
sentidos, sons e linguagens que se misturam, (re)constroem-se, modificam-se e transformam-se. Dentro desse burburinho, a palavra assume papel primordial, pois é a
partir dela que o sujeito se constitui e é constituído. Para pensar a palavra a partir dessa perspectiva, faz-se necessário considerar o direito e o avesso não como partes
distintas, mas como elementos que se complementam por meio de uma relação dialógica.
        Essa visão dialógica supera a descrição dos elementos estritamente lingüísticos e busca também os elementos extralingüísticos que, direta ou indiretamente,
condicionam a interação nos planos social, econômico, histórico e ideológico. Para pensar a concepção de palavra para Bakhtin, é preciso abandonar a noção de
codificação e decodificação que dá margem a uma percepção de língua como sendo um código fechado. Assim, a linguagem e a história são pontos fundamentais na
compreensão das questões humanas e sociais. Por ser polissêmica e dialógica, a palavra traz marcas culturais, sociais e históricas. Neste ponto Bakhtin estabelece o
maior divisor de águas na construção de sua teoria sobre a língua, pois ao afirmar que o contexto histórico é parte constitutiva da linguagem, ele questiona as
concepções estruturalistas que tomam a palavra como parte de um sistema abstrato de formas, em que o falante não tem poder de intervenção. O contexto histórico
transforma a palavra fria do dicionário em fios dialógicos vivos que refletem e refratam a realidade que a produziu. (Bakhtin, 1995)
        A palavra, em situação de uso, é um espaço de produção de sentido. Dela emergem as significações que, conseqüentemente, se fazem no espaço criado pelos
interlocutores em um contexto sócio-histórico dado. Por ser espaço gerador de sentido é controlada, selecionada por meio dos mecanismos sociais. Diante disso, há o
que poderíamos chamar de determinismo social, ou seja, dependendo do interlocutor, da situação de uso, o falante determina qual a melhor palavra a ser utilizada.
        Não podemos pensar em um total assujeitamento do sujeito falante ao contexto social. Ao contrário, se por um lado ele se submete, modifica-se para adequar-
se à ordem social em que está inserido, por outro, também interfere e muda tal contexto. Trata-se de uma relação que constitui e é constituída, uma vez que a linguagem
não é sistema fixo e abstrato, por isso permite ao sujeito falante abrir fissuras, construir outros sentidos, romper o cerco do sentido já dado.
Daí Bakhtin falar do processo de reflexão e refração. Neste caso, a palavra, quando entra na arena discursiva, passa por constantes transformações. Ela é
lançada pelo locutor, mas quando devolvida pelo interlocutor, que já tem mudado de posição, passando a ocupar a posição daquele, não é mais a mesma. É a palavra do
primeiro locutor, que a proferiu considerando o seu interlocutor, mais o sentido do segundo locutor, que a devolve com uma carga a mais de sentido. Assim, podemos
afirmar que, em situação de uso, a palavra se vai revestindo de sentidos, tons e valores. Ela é prenhe de significados.
        Para Bakhtin, a palavra não é somente um universo de sentidos ou signo puro, é também um signo neutro. Ela é neutra em relação a qualquer função ideológica
determinada, aceita qualquer carga ideológica. Daí Bakhtin considerá-la como o modo mais sensível de relação social, uma vez que se faz presente em todos em todos
os domínios sociais. É por meio da palavra que percebemos as mudanças mais efêmeras que ocorrem na sociedade.
        Para compreender como se dá o processo de construção do sentido, é preciso ver a palavra como um signo ideológico, pois só assim é possível perceber a sua
capacidade de assumir múltiplas tonalidades em diferentes campos como o político, o moral e o religioso. Os sentidos funcionam como camadas superpostas que se vão
juntando. É o contexto, a situação social, o lugar ocupado pelo falante que determinam qual o sentido que deve ser dado à palavra.
        Em situação de uso, a neutralidade da palavra não é possível porque o processo de interação não acontece de forma simétrica entre os interlocutores. Por meio
da linguagem as divergências, a materialização das lutas de classes, a disputa pelo poder por grupos antagônicos, as crenças religiosas e as demonstrações de
preconceitos são colocadas em evidência.
        A mobilidade da palavra faz com que nenhum falante seja o primeiro a proferir determinado tópico discursivo. Ao usar a palavra, encontramo-la já habitada
pelas falas de outrem, pois ela penetra em todos os domínios da sociedade, por isso é indicadora das transformações que a sociedade infere no ser humano; a palavra
associa o traço visível à coisa invisível, à coisa desejada ou temida como uma frágil passarela improvisada sobre o abismo. (Calvino, 1995; p. 90)
        Se para Calvino a palavra é a coisa visível e invisível, para Bakhtin ela é a ponte que, quando lançada, de um lado está o locutor e do outro encontra-se o
interlocutor. Em cima dessa ponte se dão as tramas sociais e ideológicas que determinam os sentidos da palavra. É interessante observar que tanto Bakhtin como
Calvino vêem a palavra como algo que mostra e oculta, que é clara e escura. É no entremeio dessa dualidade que está o território comum dos falantes.
        Diante dessa dupla face, Calvino (1995) defende a necessidade de respeito no uso das palavras, pois elas permitem aproximar-nos das coisas presentes e das
coisas ausentes. Isso exige cautela, pois as coisas ausentes, embora não ditas, estão presentes, não se distanciam, comunicam-se, mesmo não estando explícitas na
materialidade da palavra. O horizonte social mais imediato e o mais distante se fazem presentes na palavra.
           Bakhtin fala em auditório social imediato e mediato. Se no processo de interação o interlocutor presente direciona a palavra do outro, este também não
   perde de vista falas, vozes, valores, concepções que se fazem ouvir, embora distantes. Como a palavra traz as marcas históricas, sociais e culturais, a gama de
   sentido que ela denota é algo que vai sendo produzido de acordo com os processos de mudanças sociais, ou seja, os vários sentidos das palavras são construídos ao
   longo da história, em momentos singulares, pelos sujeitos sociais em interação verbal.
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A palavra possui uma gama de rumores que perturbam a constituição do discurso. Ao refletir e refratar a densidade do mundo que a produziu, revela-se
lacunosa e fragmentária. Em situação de uso, ela abre fissuras e brechas que permitem a interferência do outro na construção do sentido. Em cada palavra há vozes,
vozes que podem ser infinitamente longínquas, anônimas, quase despersonalizadas ..., inapreensíveis, e vozes próximas que soam simultaneamente. (Bakhtin in
Kramer,1996; p.109)
        Dentro desse jogo dialético - da palavra que liga a palavra - o sujeito falante, que apreende o discurso do outro, não é um ser mudo e passivo. Ao contrário, é
um ser perpassado, cindido pelas suas palavras e pelas de outrem. Podemos afirmar, utilizando-se da voz de Chico Buarque, que no processo de apreensão é
estabelecida uma relação em que a palavra viva/ palavra com temperatura/ que se produz/ muda/ feita de luz mais que de vento/ palavra... que indo a palavra permite a
constituição do sujeito por meio da e na linguagem.
   Esse processo de interação não ocorre fora do contexto social e histórico, é fruto da interlocução de dois falantes pertencentes a um mesmo contexto. Nesse
   caso, questões como classe social, hierarquia e afetividade são determinantes para a construção dos sentidos. Não existe interlocutor abstrato, uma vez que
   o horizonte social é determinante no processo de uso da palavra. Esse horizonte é internalizado pelo falante, que passa a fazer suas deduções e
   considerações com base no contexto que o cerca.
        Ao orientar a sua palavra a partir do seu interlocutor, o falante constitui a sua subjetividade considerando o seu outro. Esse processo funciona como um espelho
em que o falante busca refletir-se, daí o fato de a palavra ter dupla face, pois é determinada tanto pelo fato de preceder de alguém, como por dirigir-se a alguém.
Podemos afirmar, assim, que a sua existência está intrinsecamente ligada à realidade social, fora do contexto de uso é destituída de sentido. A palavra é uma arena em
miniatura onde se perpassam e lutam os valores sociais de orientações contraditórias. É a partir do momento em que o sujeito falante entra nessa corrente ideológica,
uma vez que a palavra é um signo ideológico por excelência, que constrói a sua visão de mundo. Neste sentido, a palavra, quando proferida, traz as marcas inalienáveis
da vida. (Bakhtin, 1995; p. 49)
        Tais fatores extralingüísticos determinam socialmente as palavras dos interlocutores, uma vez que eles também são sujeitos sócio-históricos e trazem valores,
ideais, desejos, culturas e marcas de pertencimento sócio-político-econômico diferentes. Tais pertencimentos, que marcam singularmente os sujeitos, se fazem
presentes na materialidade de suas palavras.
        As palavras refletem, não de forma mecânica, os conflitos e apontam as marcas ideológicas distintas de cada sujeito em interação. Nessa visão bakhtiniana não
existe pensamento e linguagem inatos. A atividade mental do sujeito pertence totalmente ao campo social, pois a palavra e o material semiótico, externos aos sujeitos,
são elementos determinantes para a organização do pensamento que, posteriormente, retorna ao campo social.
        A palavra, em sua condição de signo, é adquirida no meio social que, interiorizada pelo sujeito, retorna ao meio social por meio do processo de interação, numa
forma diferenciada, ou seja, ela é dialeticamente alterada devido às colorações ideológicas que marcam as condições de produção.


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Em razão desses condicionamentos sociais e históricos que perpassam tanto os sujeitos quanto as palavras, somente o acontecimento enunciativo dará a
   significação da palavra que, muitas vezes, será diferente da significação registrada no léxico; a significação é construída no processo de interação social.
   Assim, a palavra é constitutiva tanto da consciência quanto do desenvolvimento humano. A linguagem é constitutiva dos sujeitos sociais.



BIBLIOGRAFIA
BAKHTIN, Mikhail (Volochinov). Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo, Hucitec. 1995.
CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo, Companhia da Letras. 1995.
KRAMER, Sônia & LEITE, Maria Isabel. Infância: fios e desafios da pesquisa. Campinas, Papirus. 1996.




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UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO)
      CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE                      PRIMEIRA VERSÃO
                                                               ISSN 1517-5421        lathé biosa   21
          PRIMEIRA VERSÃO
     ANO I, Nº21 - OUTUBRO - PORTO VELHO, 2001
                        VOLUME II

                       ISSN 1517-5421


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                   NILSON SANTOS


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         JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL - Geografia
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Rubens Vaz Cavalcante (Binho)                                                                                         O CRÍTICO E O CRIADOR
           Professor de Teoria da Literatura
           ohnib@unir.br


           Vivemos neste instante a civilização da imagem. Radicalizamos as figuras de som e imagem que a poesia nos ensinou. Agora vemos e ouvimos mais do que
lemos. Lemos o referente. O signo verbal se amalgamou ao vocal e ao visual para sobreviver ao descaso com a leitura “tradicional”. As perguntas vão e vêm: pêndulos.
O crítico e o criador sonham saber o que se passa na cabeça do leitor e do século. Como se constrói uma escritura que atenda à economia discursiva solicitada por esse
leitor? E como se lê essa escritura? Questões difíceis de responder. Talvez, por essa razão, a criação literária contemporânea seja sinônimo da complexidade e da
diversidade do presente. Multiplicidade é a sua marca. “Somos inclassificáveis”1, diz Arnaldo Antunes em uma de suas letras de música, referindo-se à etnologia
múltipla do ser. Vale para a arte e a ciência essa afirmativa. Isso é mais real na medida em que aproximamos a lente do olhar à produção artística e científica do nosso
tempo. As teorias se multiplicam evolutiva e iterativamente, e as experiências estéticas se sobrepõem ou se contrapõem, estilisticamente, aos cânones universais: é a
arte conceitual; dá-se margens a que o espaço discursivo literário seja melhor otimizado pelas teorias e não pela própria literatura: problemas, hipóteses, métodos,
conceitos e reflexões sobre o ato da criação literária são veiculados em grande quantidade, na intenção de articular a formação de uma opinião crítica teoricamente
“embasada”.
      Cada uma dessas teorias aspira parte das verdades e validades na interpretação de um texto. A trama teórica é tecida para revelar a cara do nosso tempo,
      estampada nas obras, mas o tiro, muitas das vezes, sai pela culatra. Depara-se, por exemplo, diariamente com a excitante peleja entre os teóricos,
      simpatizantes da modernidade perene ou da pós-modernidade inconteste, que reclamam a autoria do desvelamento da época corrente. Que tempo vivemos
      neste instante? Afinal, somos ou não somos pós-modernos? As respostas são tantas quanto são os olhares dos teóricos e críticos. A intenção é
      operacionalizar características e procedimentos que justifiquem a existência ou não de uma nova estética. Nesse ambiente de conceitos e contradições é que
      se constroem os críticos, sob o estranho signo da pretensão de interpretar o mundo.
           Assim construído, o crítico contemporâneo, um poço de citações e paixões, tenta convencer o outro que consegue pôr a nu, com os instrumentos e os métodos
organizados da teoria literária, a criação simbólica ou mitológica do sujeito instalado historicamente na escritura literária. Seu impressionismo, aos poucos, vai sendo
posto de lado. Aprende a ler com filtros teóricos. Reclama a perda de algo que nunca teve de verdade: a leitura “inocente”, a relação de puro prazer com a literatura.
Não existe nenhum ato de linguagem inocente: toda leitura é crítica. Falar, escrever, ler e interpretar são ações que acontecem à luz da ideologia que nos constitui, até
mesmo quando pregamos a não-ideologia. O crítico às vezes esquece disso e reflete um vazio de sentido naquilo que rabisca.


1
    Na música Inclassificável do CD O silêncio, 1996.
Veiculando uma crítica que pouco esclarece ao leitor e a si mesmo - é a política do obscurecimento acadêmico -, o crítico escreve para manter a pose de
intelectual sintonizado com o próprio tempo. Experimenta uma inteligência artificial que periga apagar sua sensibilidade. Fica, muitas vezes, confuso e impotente com
tantas teorias da interpretação e, por extensão, desatento ao que elas provocam em sua recepção estética. Escreve para uma academia que declarou o fim do crítico leigo
e instaurou o discurso da crítica academicamente especializada.
           Se tudo é complexo e diverso aos olhos do teórico/crítico, a diversidade e a complicação advêm dos conceitos tautológicos e do pragmatismo impenetrável que
regem sua visada. Impossibilitado de ver com os olhos de tatear sons e sentidos do poeta, o teórico/crítico registra a sinestesia, mas não visualiza o gesto realizado pela
escritura que a simultaneidade dos signos perpetua. Só lhe é dado ver a planta baixa dessa arquitetura de sons e sentidos. Denomina “processo” o plano de vôo da
poesia. Supervaloriza a linguagem à imaginação. É capaz de falar, com propriedade, de intertextualidade, plurissignificação, metalinguagem, transracionalidade,
desconstrução, mas muitas vezes cala seus sentidos diante da invenção existencial que fere de letal leveza o verso do rapper nas urbes e diante da improvisação
filosofal que tange a lira do cego nos sertões. Se o poeta é a antena do planeta, como queria Ezra Pound, o teórico/crítico, via de regra, é a estação mal sintonizada da
sensibilidade.
           Em meio a essas vozes destoantes a propósito da literatura contemporânea, nem sempre atentos aos vituperos dos teóricos e dos críticos, “com um olho aberto,
outro acordado”2 (diz o poeta citado na introdução), os criadores vão construindo suas obras concomitantes às suas identidades históricas. O poeta observa as evoluções
de uma literatura que se plasma no velho paradigma dos novos tempos. Adequa-se à civilização da imagem. Não existe resistência nem ruptura com o multimeio: o
criador tem consciência da inevitabilidade da linguagem cibernética, aceita-a como instrumento de otimização na expressão da sua arte. O fazer artístico é a sua
resistência e a morte das vanguardas, sua ruptura. Ao artista cabe sintonizar o momento em que arte e técnica se unem para realizar a festa do intelecto. O criador é um
crítico do ambiente estético e estilístico em que se dá a sua criação. Uma crítica que vai por dentro da operacionalização do suporte dado pela técnica à arte: meio
paródia, meio ironia. O conceito de interatividade aplicado à arte conduz o discurso artístico em direção ao discurso publicitário: ao criador começa a parecer normal
que não importa o suporte, e sim a veiculação da criação. Outdoor, livro, muro, parede de edifício, vídeo, luminoso, vinheta de televisão, cd-rom, camiseta, boné ou
seus similares servem ao criador do século XXI como base para a circulação do seu discurso artístico. Faz tempo a arte perdeu a aura do ineditismo: é feita em série
como os objetos e fetichizada pelo espetáculo do consumo. O artista continua antenado com a subjetividade do mundo da criação, mas transcria ritmos e imagens com
os instrumentos de comunicação dos médias. É o que mais o difere do teórico/crítico. Com um olho na objetiva e outro na subjetiva, o criador alterna suas lentes na
leitura dos mundos que o cercam, sem perder de vista o momento mágico da criação. O poeta, assim como o papa, é pop.




2
    No livro 2 ou + corpos no mesmo espaço, 1997, p. 23.
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Diante da estranha trama de sentidos na ciência e na criação, Harold Bloom (apud TADIÉ, 1992, p. 313), festejado crítico coetâneo, na tentativa de reabilitar a
subjetividade, propõe que se veja o poeta como um crítico em verso e o crítico como um poeta em prosa. Soa interessante sua proposta, contudo, sabemos da
dificuldade em aliar essas duas entidades. O criador e o crítico têm sintonias diferentes. É uma questão de freqüência: eles não se freqüentam bem. Trabalham com o
mesmo objeto – a criação – sob óticas diferentes. Um é a lavra das palavras; o outro, a larva das palavras.
        O pensamento de Jean-Yves Tadié, em A crítica literária no século XX (1992, p. 313), quando argumenta que “Talvez seja necessário retornar ao prazer
proporcionado pelas artes que não pertencem à linguagem para ser e se fazer sensível à literatura, para propiciar ao leitor forma e significação mantidas vivas”, é
também muito tentador. Porém, se propiciar as formas “mantidas vivas” não é problemático, propiciar significações às obras de arte é uma missão complexa. E quando
se trata de poesia a complexidade parece aumentar. O pouco trato com a linguagem poética do leitor contemporâneo gera uma pergunta-bordão: onde a significação da
poesia? Muitas trilhas se encontram abertas na direção do desvendamento desta problemática. Jacques Derrida, por exemplo, com relação ao significado, diz na sua
Gramatologia (1973, p. 199) “que não há nada fora do texto”. Isso reverbera assustadoramente. A auto-suficiência do texto como morada do sentido é questionada por
várias correntes da crítica. Muitos preferem acreditar num sentido em construção no momento do diálogo entre leitor e texto. Octavio Paz, em A outra voz (1993, p.
147), relativiza: “O poema reflete a solidariedade das ‘dez mil coisas que compõem o universo’, como diziam os antigos chineses”. Soa bonito isso. Como os orientais
são sábios! Mas, pensando com os neurônios ocidentais, como seríamos capazes de solidarizar as “dez mil coisas que compõem o universo” se não somos solidários
nem uns com os outros? A escritura de criação é, antes de tudo, um palco para os conflitos do criador.
        Se dar sentido a um poema é complexo, definir o que ele é também não é fácil. No reino da prosa, o que é um poema? Benedetto Croce (apud BOSI, 1996, p.
8) nos ensina que “Se nos dispomos a considerar qualquer poema para determinar o que nos faça julgá-lo como tal, discernimos ao primeiro olhar, constantes e
necessários, dois elementos: um complexo de imagens e um sentimento que o anima”. O pensador italiano abre um novo horizonte de expectativa que esbarra no
pequeno alcance das lentes do leitor comum e mortal. Silêncio. Perguntas brotam. O que é exatamente “um complexo de imagem”? E “um sentimento que o anima”?
Silêncio de novo. Dizer o que caracteriza um poema ainda não é defini-lo.
        Mesmo com tantos caminhos abertos, a verdade é que nós, teóricos, críticos ou leitores, nos sentimos numa situação desconfortável ao ficarmos diante de um
texto de criação, na condição de intérprete. Talvez pelo fato de não ser da natureza do texto artístico, necessariamente, ser explicitado, mas sim vivido, ou mesmo
porque, na maioria das vezes, sejamos arrogantes a ponto de não reconhecermos nossa incompetência dialógica diante do significado da criação. Ou ainda porque
devêssemos, a exemplo do criador, também criar e nos deixar envolver pela magia da criação, sem racionalizar seus encantos e calar a voz que ecoa em nós os credos
repetitivos da teoria e da crítica. Apenas buscar o lugar mágico onde o crítico e o criador sejam uníssonos, sem alimentar a idéia de que o criador precisa
desesperadamente de nosso juízo de valor para continuar criando, nem criar uma pendência genética em que apenas o descompasso de sintonias é diagnosticado.


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O que nos falta em humildade, sobra-nos em vaidade. A rima é boa, mas a resultante é desastrosa e pobre. E se o artista é o agenciador dos sentidos do mundo,
a quem critica cabe a honrosa função de refletir sobre esses sentidos, estendendo essa reflexão ao outro sem a obrigação de revelá-los. Ocorre-me que o Paul Valéry, no
livro Variedades (1999, p. 25), argumenta que o que caracterizava o escritor clássico era o fato de já trazer “um crítico em si mesmo, associando-o intimamente ao seu
trabalho”. Seria o ideal se assim fosse ainda hoje, mas não é. Um crítico sensível precisa surgir para coexistir com o novo criador e o novo leitor. O parto promete ser
difícil. A convivência também. É uma questão de natureza!



BIBLIOGRAFIA
BOSI, Alfredo (Org.). Leitura da Poesia. São Paulo, Ática, 1996.
DERRIDA, Jacques. Gramatologia. São Paulo, Perspectiva e Edusp, 1973.
TADIÉ, Jean-Yves. A crítica literária no século XX. São Paulo, Bertrand Brasil, 1992.
VALÉRY, Paul. Variedades. São Paulo, Iluminuras, 1999.




                                                                                                                                                                    24
UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO)
      CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE                      PRIMEIRA VERSÃO
                                                               ISSN 1517-5421       lathé biosa    22
          PRIMEIRA VERSÃO
     ANO I, Nº22 - OUTUBRO - PORTO VELHO, 2001
                        VOLUME II

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                         EDITOR
                   NILSON SANTOS


                 CONSELHO EDITORIAL
            ALBERTO LINS CALDAS - História
             ARNEIDE CEMIN - Antropologia
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         JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL - Geografia
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Alberto Lins Caldas                                                                                              DO TEXTO AO HIPERTEXTO
        Professor de Teoria da História                                                                                  DA LEITURA À HIPERLEITURA
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   (...) quando um Coelho Branco (...) passou a correr (...). Não era assim uma coisa muito notável (...). Mas quando o Coelho tirou mesmo o relógio da algibeira do
   colete (...) Alice levantou-se como uma mola; (...) os coelhos não costumam andar de colete nem de relógio. A arder de curiosidade, correu pelos campos (...)
   atrás do Coelho e só teve tempo de o ver enfiar-se num grande buraco. (...) Alice pôs-se atrás dele (...) o buraco era direito como um túnel (...) parecia um poço
   profundíssimo (...) ou o poço era muito fundo ou então o tombo de Alice era muito devagar. (...) olhou depois para as paredes do poço e reparou que estavam
   cheias de armários e prateleiras, com mapas e gravuras pendurados. (...) Fundo, fundo, cada vez mais fundo.
                                                                                                                                           Alice no País das Maravilhas
                                                                                                                                                            Lewis Carroll

        O hipertexto, conquista e desnudamento dos instáveis labirintos do texto, chama certo tipo de leitura/interpretação por se expor sedutoramente como auto-
organização, afastando a ilusão científica das Lingüísticas e Ciências Humanas, indo além dos constrangimentos da voz num convite aos desvios infindáveis, às
dessimetrias, às simetrias assimétricas, às instabilidades, às dissipações da leitura/leitor: emaranhado entre as vidas da experiência, as vidas da cultura e as vidas
ficcionais [sem a Fé, sem a confiança num Deus (eixo de Dostoievski), numa Escrita, num Livro, numa História, e num Homem, todas as forças são centrí-fugas, se
mantendo o “conjunto”, o “sistema”, a “estrutura” da mesma maneira que o hipertexto, fluindo (aceitando flu-ir), se perdendo, se reorganizando a cada momento, sem
Saber ou Natureza que o justifique, que o explique, que o retenha, que o retese].
        Hipertextualizar não é concentrar, mas espalhar, dilatar em todas as direções: onívoro e carnavalizado: como o caminhante de Rousseau que se deliciava com
idéias, imagens e sensações [o solitário enfrentando o silêncio e a incompreensão: a descorporificação do corpo: o deslimite como prazer: mais um corpo ainda preso às
dicotomias naturalizantes do eu-mundo, interior-exterior, sociedade-natureza, presente-passado: o sofrimento de Rousseau: somente um “cidadão” incompreendido; um
“ser natural” irrealizado; um adolescente velho] ou o flaneur de Baudelaire dispersava-se nas ruas da cidade, devorando-a sempre outra, com calma e multidão [sem
domínio e sem exatidão, pensando-se livre da casa, do lar e do pequeno destino: sempre e ainda vestido do seu tempo, do seu limite, do seu ar, mas já em dissolução,
atravessado de dúvidas, camaleão em nascimento, polpa moderna em formação, começo e fim de certo homem]. Vagabundear nas internetes, nas bibliotecas ou nos
livros; nos sonhos, nas interioridades, devaneios ou imagens; não é dominar esses espaços, não é inscrever essa face, esse nome, esse corpo, essa ilusão de poder [a


                                                                                                                                               ISSN 1517 - 5421      26
inscrição textual]: é dissolvê-los, vê-los como intertextos em fluxo: interatividade essencial: além do limite, incompletos, sempre incompletos: cada “instante” é um
verbete, um link, um buraco de coelho: além da identidade, em plena diferença e desejo. Não mais uma máquina, mas um fora que é um dentro: a virtualidade
computacional exterioriza o “mecanismo de funcionamento” daquilo que nos faz ser. Haver alargado, complexificado, ficcionalizado a virtualidade é aquilo que nos
cria ao pormo-nos a fluir, esse flu-ir que somos nós, mesmo ao nos cristalizamos numa “cultura” ou num “momento cultural”, num “estágio evolutivo”, ou “momento
histórico”, numa forma, maneira, sistema, estrutura, modelo, sociedade ou linguagem.
        Entrar no hipertexto é se estender e se espalhar nos meandros que nós mesmos vamos criando com um caminhamento que vai prendendo e soltando, atando e
desatando, trazendo e levando, inspirando e expirando. O hipertexto é esse caminhamento, movimento de criação que existe somente enquanto espaço de desvios, sem
suporte (ilusão naturalista), sem teto (recurso religioso), sem solo (artifício arquitetônico) e sem nome (a questão do autor e do leitor: Deus e a Natureza: a escrita e o
suporte: o nome e a nominação) [há um poder fechando o texto, dobrando a interpretação, disciplinando os fluxos, garantindo os sentidos, falsificando as
multiplicidades, resolvendo as contradições, freando as polifonias, criando fantasmas [“temporários” invisíveis, “por baixo” do visível do programa] dóceis do texto
(que não aparece como hipertexto, mas simplesmente como texto, como aquilo que pode, mas não deve ser ilimitado)]. A hiperleitura, como o próprio “existir
humano”, não se conclui, não termina, não “fecha o ponto”: ao pensarmos o começo estamos no fim: ao pensarmos o fim estamos no começo, e fim e começo são
somente momentos de um meio que deságua, deságua sempre numa rede sem entrada e sem saída, sem estrutura e móvel nos infinitos desvios sinuosos: hemorragia das
identidades: qualquer ponto final é ilusão textual.
        Mas o hipertexto não é feito de “páginas encadeadas”, textos que levam a outros textos: esta é a mecânica hipertextual, aquilo que é a visibilidade do hipertexto
[o que conseguimos ver embriagados da milenar experiência do texto]: torná-lo uma enciclopédia faz parte das astúcias sobreviventes dos procedimentos da leitura, da
escrita e da interpretação do texto: o hipertexto é a própria hiperleitura em seu movimento, em seu momento; o resíduo é a mecânica hipertextual: aquilo que fica no
caminho é a rede e sua visibilidade textual [sempre pronta para reiniciar percursos]: a hiperleitura está sempre depois da materialidade textual sentida como mostruário,
arquivo, biblioteca, “série de textos”: é por isso que o visível do hipertexto se parece com um encadeamento de simples textos, verbetes, comentários, notas: o
hipertexto não está no fluxograma, mas no fluxo que se dissipa e se auto-recria. A rosácea em metástase, a rede, é a ilusão imóvel do movimento hipertextual; aquilo
que fica é somente um encadeamento morto de textos: o hipertexto é o movimento que já atravessou a rede criando outros movimentos [assim como o livro é somente a
carcaça do Livro; aquilo que atravessa: e a hiperleitura é aquilo que é somente enquanto é atravessado, enquanto é dito/escrito/inscrito].
        O hipertexto exige, mais do que na tradicional “leitura do texto” [a hiperleitura se faz para dentro e para fora, modificando-os], uma atenção dispersiva, uma
ação de hachi [não de garfo e faca: instrumentos de análise: linguagens, gestos e instrumentos de certa cozinha científica e filosófica]: o hipertexto ao fluir conosco
como máquina caótica, heterogeneidades e diferenças, põe a fluir as imobilidades falsas da “página”, do “corpo”, da “leitura” (o dentro - o fora): ao acompanharmos o
fluxo, as linhas de fuga, os alargamentos dos horizontes, as expansões, nos tornamos mais que leitores, mas o que sempre fomos e não víamos: hiperleitores escondidos
                                                                                                                                                                       27
tanto pela escrita religiosa (científica, filosófica, técnica), quanto pela leitura de prazer. E nosso corpo tradicional também se multiplica: não mais um só olhar, um
devaneio metodológico, um corpo anatômico [esquecido que o anatômico é hipertexto, é “criação histórica”, é momento da “tribo ocidental” e não “realidade
biológica”, sequer uma “hegemonia tribal”], mas virtual numa busca que dispersa o fascismo monofônico da unidade e da identidade: somos e sempre fomos legião: a
voz única, o único corpo, a escrita centrada são efeitos de discursos, cristalizações virtuais e não “realidade natural” [nossa grande criação: nosso “meio natural”:
linguagens cristalizadas: pele, cútis, crosta: cosmética fundacional esquecida de si mesma: toda “estrutura científica da realidade” é tão somente uma “dobra material”
[a virtualidade se apresentando como realidade; o concreto como fundamento: a pele como o real], isto é, algo que esconde o virtual, criando uma “sociedade regida
por leis”, uma Natureza material: a compreensão virtual do mundo repolitiza o olhar para esses encobrimentos que não nos deixam ver que o mundo é mais fácil (ou
mais difícil!) de revolucionar do que sempre teorizou nossa filosofia vã.].
        A leitura/interpretação nunca foi “ato acabado”, é verdade, mas sempre tendeu a uma “conclusão”, a um “fechamento”, a um “acerto”, a uma “representação”
[com uma linguagem própria, com idéias compatíveis, gestos tradicionais e normas convencionais: atividade disciplinada e disciplinar] curvando-se sobre si mesma;
alegorizando como afastamento, mas sempre dentro do conhecido e respeitável; enquadrada por sintaxes e gramáticas fundadas no sujeito ocidental, cristão, burguês,
universal e naturalmente histórico; criando conteúdos, matérias, objetos que alinhassem sua função, seu deleite; aceitando a “resistência dos materiais” sem avaliar
completamente o próprio material da resistência como constitutiva, ou quase aparente, da leitura enquanto aquilo que naturaliza para se realizar na ação mesma de ler;
não como uma reescritura que põe dessimetrias no limite de certos fluxos, mas como movimento eternamente tendendo ao circular [a leitura sempre diz dizer o mesmo,
sempre deseja dizer o mesmo (sempre proclamando o diferente), reforçando identidades e criando uma aparência hipócrita de deslimite, de deslize, quando criava e cria
tão somente notas, comentários, relações, comparações, divagações: glosas somente gulosas: diz aquilo-que-encontra, aquilo-que-está-lá, o existente: o piccolo mondo
do antigo “pequeno-burguês” se transformando no Universo “único e possível”]. Da mesma maneira que sempre lemos o mesmo livro de formas diferentes (sentindo
que não há um livro único, uma mesma matéria, mas movimento de reescritura, recombinações), sempre e novamente reformatado por nós, resignificado, o hipertexto
ao não esconder que é sempre algo-se-fazendo e não algo-feito, algo que difere e somente diferindo existe [da mesma maneira que somos nós: mantemos o idêntico
reconvertendo a diferença como se ela não existisse ou significasse], supera as ilusões tanto da autoria e do leitor quanto do suporte e do “texto crítico”, exigindo com
isso outra maneira de pensar e escrever.
        A transformação do texto em hipertexto, dissolução daquilo que entendíamos como “suporte”, limite e leitura, exige também e tanto a multiplicação da “voz
hermenêutica” quanto a do “tecido crítico”. Uma só linha, um só movimento, um só desdobramento, uma só temporalidade, uma só lógica, um só autor, um só método
são suficientes somente para permitir ao texto unidimensões, pouco movimento, ações de engessamento e articulações tradicionais: leitura daquilo que está-no-texto,
aceitando a seleção sob um nome, um corpo, uma voz. Torna-se claro que é preciso mover (ler, interpretar, analisar, escrever, surfar, deslizar, diferir) o hipertexto de
maneiras diferentes do texto. Mas esbarramos em limites que não são somente limites da interpretação/leitura, mas limites fundamentais do imaginário e as regras dos
                                                                                                                                                                     28
antigos suportes e das maneiras como tínhamos para fazê-los “funcionar”: lemos, escrevemos e refletimos com o hipertexto de uma maneira completamente diversa do
texto [apesar do hipertexto haver desvendado o mistério do texto: todo texto sempre foi hipertexto: o texto é um momento de certa leitura e da visibilidade do
hipertexto: uma dobra hipertextual: uma cristalização hipertextual, assim como o corpo é somente momento de certa virtualidade].
        O hipertexto (diferente do texto, não sendo também uma “nova forma de produzir, armazenar e consumir informações”, um além do texto), é forma de
virtualidade singular, holograma polidimensional em constante crescimento e convulsão de infindáveis formigueiros; atmosfera virtual; fluxo de múltiplos “universos”
se ligando a outros múltiplos “universos” além, antes, depois, dentro e a “universo” algum. A conexão entre esses “universos” não sendo objetiva, natural, histórica,
social, cartográfica, mas virtual, se faz por “buracos de coelho” em fluxos e interpenetrações, como em Alice no País das Maravilhas. Sendo assim, comunga (esp[e-
a]lha, re/produz, imita, possibilita) com a “natureza” da pele virtual que cobre o caos e que chamamos o real/o concreto [: o real é hipertextual: não somente enquanto
ser mas enquanto “vida social”, fluxo comunitário, manutenção e suporte].
        [Enquanto é possível se fazer um mapa do texto, com o hipertexto isso seria absolutamente impossível (o hipertexto não é somente um labirinto, mas um
encadeamento multidimensional de labirintos que se confunde com o escrito, o falado, o vivido, o inventado, o humano e o próprio existente). Um mapa exige
constância, limite, código, algo que jamais está-lá, representando somente seus próprios códigos, apresentando somente a si mesmo: algo que esteja continuamente se
desconfigurando e reconfigurando pode somente ilusoriamente pensar uma cartografia, um fluxograma, uma maquete, um modelo, um esqueleto, um projeto, uma
analítica. Uma ciência do hipertexto seria absolutamente ridícula, possível somente enquanto redução do hipertexto ao texto, da hiperleitura à leitura (nunca a leitura
como reescritura). A “leitura científica do texto”, a “leitura ideológica do texto”, a “leitura religiosa do texto”, a “leitura filosófica do texto”, a “leitura política do
texto” são tão somente regulamentações de um jogo pre[s]escrito, com regras bem delimitadas dando a impressão de não caberem em si: tudo pre-figurações onto-
lógicas da nossa ocidental maneira de existir].
        O hipertexto (como um além do texto, pois desnaturalizado, posto fora da competência, do corpo, do mesmo e do Estado) é verdadeiro e falso ao mesmo
tempo: nele está e não está todos os outros hipertextos, todos os possíveis buracos de coelho. No texto, para que houvesse uma leitura, uma verdade, uma realidade
(coisas estranhas ao hipertexto) foi e é preciso que exista um Deus, uma Natureza, uma Realidade, uma Cultura, um Tempo, uma Verdade, uma Linguagem, uma
Língua, um Dinheiro, um Leitor, um Código, uma Identidade, um Suporte, um Homem, uma Crítica, uma Disciplina: a “superinterpretação”, horror de todo limite
tornado texto, o horror de Umberto Eco, é a própria essência desvendada tanto da linguagem [que é o próprio ser da virtualidade: modulações, ritmos, seleções,
ordenamentos, limitações, regras que aparecem separadas das suas cristalizações, aparece como objeto, como algo-que-diz-o-ser e não como o próprio ser na sua
dimensão de existir] quanto de qualquer “texto” (hipertexto), que não tem dentro nem fora; não é em camadas, em planos; não tem origem ou função; não é corpo nem
espírito. Sendo fluxo polidimensional sem domínio não é “folha de papel” ou “tela de computador, não são “palavras escritas”, não são “palavras”, “frases”, “imagens”,
pixels. Todas as dimensões do hipertexto se cruzam, se interligam, interagem, procriam, destroem-se, completam-se sem cessar numa dimensão virótica, cancerígena,
                                                                                                                                                                        29
pestilenta: o horror dos baudrilards [: a ocidentalidade se apavora quando diante da alteridade, da diferença, da incomunicabilidade, da intraduzibilidade entre seres e
mundo, entre tribos e linguagens, entre corpos e almas, entre presentes e passados].
        Dessa maneira, a própria interpretação deve seguir a tendência de desdobramento hipertextual: a interpretação torna-se também hipertexto, pondo-se e
transpondo, em todos os “elementos” possíveis e impossíveis, a si mesmo e ao hipertexto. Como virtualidade o hipertexto é rede, campo multidimensional conectado a
outras redes, outros campos multidimensionais, outras atmosferas, todos instáveis e em movimentos diferentes em si mesmo. A interpretação deve fazer fluir os campos
vivos do hipertexto e todos os campos que se conectam a ele, em novos hipertextos, conflituando e multiplicando assim seus estilos, objetos, perspectivas, tempos,
vozes, leituras, tornando-se também interdimensional: multiplica-se para fazer fluir criando e recriando as multidimensões do hipertexto: hipertextualizando-se, o texto
crítico perde sua lógica e sua pretensão a uma linguagem científica [como se fosse possível haver alguma “linguagem científica”, a não ser enquanto ilusão de certo
discurso!], seus tradicionais limites, tornando-se, enfim, também “texto literário”: o texto crítico sobre o hipertexto passa a fazer parte da hipertextualidade do
hipertexto analisado e vice-versa, aceitando o inconcluso e o ilimitado como uma das suas “maneiras de ser”.
        O hipertexto, como qualquer “texto literário”, é o não-lugar, o inominável, o intocado, o intraduzível, o entre-mundos: exatamente porque é o lugar do fluxo, o
traço da negatividade, o deslocamento do “sujeito humano universal” para os devires. Onde o universal, o nacional, o natural não se realiza, não se completa, não
convence. [O hipertexto e sua reescritura são a própria essência do literário, daí porque nenhuma teoria conseguiu desvendá-lo, apreende-lo, explicá-lo: a “literatura”
está sempre depois das linguagens estruturadas, saturadas de teoria, de mesmidade, de conformismo, de enquadramento. Ao mesmo tempo, o “literário” do hipertexto
aponta para outra questão: ao não ser limite, objeto, coisa natural; ao não “provir” de nenhum “campo natural” (mas natural porque naturalizado!), o contexto, o meio
histórico, a autoria, a formação discursiva, a ideologia, a classe social como fundamentos, como essência, como apoio teórico, como crítica, como explicação
desaparecem, tornam-se momentos discursivos sobre o texto entendido como tecido, com bordas, centro, utilidade e posição num espaço-tempo: instituição com suas
regras, matérias, verdades e mentiras, dizeres e não dizeres, poderes e não poderes. O hipertexto não é discurso, mas fluxo discursivo que é “utilizado” conforme sua
produção, circulação, consumo: seu caráter (se tornar discurso) é dado segundo sua apreensão: é a apreensão que condiciona a força interna de configuração e
expansão: é ela que cristaliza o fluxo em discurso, o flu-ir em estrutura, os devires em disciplina e corpo.]
        O hipertexto conecta seus elementos através da leitura/escrita, mas essas conexões não são objetivas, reais, palpáveis: elas não “pertencem ao texto” mas a
leitura/escrita, à interpretação, ao espaço entre hipertextos, aos campos entre os “buracos de coelho”. É a leitura/escrita que multiplica e faz fluir o hipertexto: em si
mesmo ele não é, ele não é nada. Ou melhor, sendo fruto da escrita/leitura, sendo leitura viva, o hipertexto é possibilidade indeterminada do fluir: basta dar o primeiro
passo: saltos e quedas, subidas e descidas no hiperespaço.
        Todas as “teorias” podem e devem ser chamadas ao mesmo tempo para dialogarem com as instâncias hipertextuais. Cada momento dos desdobramentos é
desdobrado por uma idéia diferente, por um mundo da leitura diferente, por vozes diferentes, por diferentes autores, diferentes tempos e experiências, diferentes
                                                                                                                                                                      30
métodos, procedimentos, teorias, principalmente porque o hipertexto não-existe: desnaturalizado, desistoricizado, fora da “sociedade”, o hipertexto se faz
provisoriamente nos fluxos da hiperleitura e é dessa mesma maneira que o texto reflexivo, analítico, teórico pode alcançar sua “função”, seu “objeto”, sua “matéria”.
        É próprio da hiperleitura criar deslizamentos anacrônicos (sem dizer que “existe” no “texto”, na “época” ou no “autor”). Sem anacronismo não haveria
hiperleitura (movimento): sem a justaposição de enganos, ilusões, inarticulações; sem o diálogo entre fantasmas, corpos, matérias, sensibilidades distantes no tempo, no
texto, na palavra; sem a separação daquilo que está unido, articulado, em ordem; sem alteridade se unindo e egos se desdobrando nenhuma leitura se realiza, nenhuma
interpretação é possível [nenhuma “unidade textual” é possível a não ser enquanto naturalização].
        A leitura é sempre uma leitura de enquadramento. Exige um autor, uma instituição, uma sociedade, uma história, um homem; um saber que delimite e conheça
os códigos; uma matéria, uma competência, uma sincronia; um jogo com regras; poderes e espaços próprios.
        O hipertexto é tapeçaria holográfica, “terreno poroso” (pântanos, areias movediças, labirintos, rizomas: pesadelos e sonhos: a passagem de um movimento, um
ritmo, de sincronias diacrônicas) onde o leitor-coelho (o hiperleitor) fura seus buracos e galerias, sem que isso esteja no hipertexto, mas somente nos “formigueiros” em
fluxos procriativos. Esses buracos e galerias não preexistem no hipertexto como materialidade textual (sentido, significado, código, signo, materialidades), mas como
possibilidades virtuais, isto é, o hipertexto, sendo polidimensional, só pode ser lido/compreendido multidimensionalmente, mesmo que aparentemente siga um único
método, uma única lógica, um único autor ou “escola interpretativa”: sem ser hipertextual a dimensão crítica não consegue ler o hipertexto, precisando torna-lo sempre,
e camufladamente, texto: o hipertexto exige tanto uma hiperleitura quanto uma “análise hipertextual”.
        Lewis Carroll em Alice no País das Maravilhas nos aponta movimentos nesse jogo, nessa viagem, nessa inesgotável reescritura: quando um Coelho Branco
passou a correr: o coelho branco é a hiperligação, o punctum bartesiano que nos arrasta por passar correndo: esse passar, esse flu-ir já é por ter se configurado a
rede: o que se põe a flu-ir não é mais um simples ponto, mas o próprio ponto, o buraco de coelho e aquilo que se descortinará em relação: o coelho aqui inicia a história
(a hiperligação, a rede, os fluxos) enquanto hiperleitura: sempre fluxo textual mais amplo que ela mesma, vomitando e devorando, gritando e sussurrando criando e
recriando, pondo e dispondo, sendo somente enquanto rede de devires: e com isso atrai todas as imagens do passar, do correr, dos coelhos brancos e tudo que
nascer/procriar dessas “recordações”; Não era assim uma coisa muito notável: nunca é coisa notável: qualquer ponto aleatório se conecta a outro ponto aleatório (na
hiperleitura) criando outro plano: a hiperleitura cria e abre articulações em movimento que unem e desunem o sentimental, o singular, as impressões, o emocional, os
sentidos, os desejos, os sonhos, as memórias, as insignificâncias, os cotidianos à tradição, à cultura, ao pensamento, aos métodos, às disciplinas, ao escrito e à escrita,
ao lido: ler-escrever-criar: hipertexto/hiperleitura; Mas quando o Coelho tirou mesmo o relógio da algibeira do colete Alice levantou-se como uma mola: o
hermeneuta deve estar atento e “levantar como uma mola” atrás dos seus traços (talvez os punctum e os biografemas de Barthes, ou as clivagens de Bachelard) assim
que seja acionado, buscando não somente as “visões de conjunto”, a “filosofia do texto” ou mesmo as microgramáticas [ponto hipnótico de certas Análises do
Discurso] mas um processo de imersão e submersão, expandindo o minúsculo e miniaturizando o amplo: atraindo “visões de mundo”, mitologias, religiões,
                                                                                                                                                                        31
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  • 1. UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa 17 PRIMEIRA VERSÃO ANO I, Nº17 - SETEMBRO - PORTO VELHO, 2001 VOLUME II ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS - História ARNEIDE CEMIN - Antropologia FABÍOLA LINS CALDAS - História JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL - Geografia MIGUEL NENEVÉ - Letras VALDEMIR MIOTELLO - Filosofia Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” deverão ser encaminhados para e-mail: nilson@unir.br A UNIVERSIDADE E O DIREITO CAIXA POSTAL 775 CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO ALBERTO LINS CALDAS TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA
  • 2. Alberto Lins Caldas A UNIVERSIDADE E O DIREITO Professor de Teoria da História caldas@unir.br Uma sociedade frágil, roída, consumida e abastardada por infindáveis quarteladas e golpes de estado fascistas como o de 1964; politicamente corrupta, porque o dinheiro vem antes da comunidade e seu sentido; intelectualmente capacho, porque jamais conseguiu abandonar a subserviência desde a pronúncia até as principais idéias; popularmente servil, amansada duramente por séculos de crença, favores e milagres; secularmente injusta, porque a lei não pode jamais ser feita "para o pobre", pois é coisa de Classe e de Estado; capada e recapada até não restar senão um gemido ridículo, humilde e metido a besta; curvada e recurvada, batida e rebatida. Sobre esta massa podre (que é o povo, sempre o povo!) impera, momento sim momento não, cada fatia de um Poder qualquer: uma vez é o momento dos coronéis, depois dos tenentes, depois dos generais; chega o momento do imperador, do governador, do presidente, do prefeito; passa o momento dos estudantes, dos jovens, das modas e chega o momento das mídias; passa o momento dos senhores de terra e chega o momento dos senhores das fábricas; passa o momento do Executivo, chega o do Legislativo; passa o momento do narcotráfico chega o momento do Judiciário. Cada momento destes, que não passam e se completam e se interpenetram, é o Horror! A supremacia da ignorância, do fascismo, da brutalidade, da insensibilidade, da delação: o momento da lei, da ordem, da pátria, da terra, da bandeira, da tortura, do exílio, da cotidiana passividade: momentos que causam dor, causam angústia, causam descrédito. Estamos num destes grandes momentos na Universidade: o momento do Direito! Vamos a ele! Compreendamos isso mais profundamente. Por partes, como deve agir o bom açougueiro. Primeiro, a "história" da UFRO (pronunciem U EFE ERRE Ó!) é rasgada por professores e alunos se processando numa velocidade vertiginosa. Havia um tempo onde praticamente todos estavam processados. A UFRO passou por uma lavagem desmoralizante inimaginável. E todos os processantes ainda não entenderam que agindo assim desmoralizavam, diminuíam e afundavam a Universidade, seu poder e sua autonomia: as ratazanas não se remedaram e ainda não entenderam que deve ser na Universidade o âmbito e o campo das nossas lutas. E se denunciavam e se processavam como quem escova ou palita os dentes: somente um "professor de segundo grau" deixa o espaço acadêmico e processa um aluno ou um professor (a não ser em raríssimos casos que clamem realmente a Justiça e isso não diga respeito ao universo acadêmico): com isso o Estado sempre saiu ganhando: com isso certa posição fascista do Estado sempre saiu ganhando: com isso a Cidade sempre saiu ganhando: a inteligência foi deslocada do seu campo e foi jogada aos leões da polícia, dos tribunais e dos quartéis. Delegamos nosso poder, nossa capacidade, nossa inteligência, nosso talento, nosso campo: perdemos tudo quando "pomos na justiça";
  • 3. Segundo, nesses últimos anos, com o enfraquecimento dos outros poderes, a Justiça tomou os espaços vagos: seja nos espaços legislativos, seja nos espaços executivos, seja nos espaços populares, seja nos espaços universitários: o Direito (entenda-se certos advogados e certos juizes!) avançaram nos campos vazios e plantaram suas regras, suas normas, suas leis, seus regimes, sua lógica, sua materialidade, sua experiência: encontrando espaços vazios pensaram que jamais haviam nele estado uma vida, uma experiência, uma lógica, uma filosofia, uma visão de mundo exata e precisamente oposta a sua. E passaram a criar o mundo a sua "imagem e semelhança": assim também na Universidade, onde o justo e o injusto, o verdadeiro e o falso, o certo e o errado têm sua lógica própria, seu sentido íntimo, seu sentimento e seu corpo numa história somente sua, numa razão que somente a ela pertence; Terceiro, unindo os dois pontos anteriores temos o inferno: não somente a justiça encontrou terreno vazio, baldio, inexplorado, como recebeu sesmaria, poder e mando de quem foi sempre uma maioria: os "professores de segundo grau". Desconhecedora tanto a justiça quanto os "professores de segundo grau" do que é uma Universidade, trataram de inventar uma que fosse o paraíso de cada um desses segmentos: os advogados a processarem em nome do justo e do verdadeiro; os juizes a julgarem por seus códigos e suas normas; as ratazanas saltando de alegria: tudo em nome da Justiça. E o Estado adorou: o MEC vibra com a Universidade "dentro da lei": processam uns aos outros como se fossem cada um por suas razões, quando são "razões de Estado" que os fazem lutarem entre si: o "cada um por si" já mostrou no capitalismo que é a melhor maneira de destruir todos aqueles que são minoria: um detalhe: na Universidade se somente um aceitar alguma idéia, alguma visão, esse um deve ser defendido até a morte; Quarto, vemos advogados e juizes sem saberem o que é a Universidade: foram somente "alunos de direito": não criaram conhecimento: não pesquisaram: não geraram visões de mundo: não possuem a experiência da Universidade, sua autonomia intelectual que tanto incomoda exércitos, polícias e fascistas de todas as camisas: em vez de defendê-la deixando-a com sua liberdade, sua democracia, seu talento, tratam de arrasta-la para a Lei, para o Estado, para o campo onde a Universidade fenece, para o campo que deve ser exatamente aquilo que a Universidade deve combater: somente uma Universidade livre pode garantir o Direito, pode ensinar o Direito, pode formar o próprio Direito, antecedendo aos futuros juizes e advogados, um campo de liberdade, de Ética e de inteligência que deve anteceder o seu próprio universo: sem a Universidade plena, o Direito não existe: enquanto não entenderem isso não se tornarão verdadeiros juizes e advogados. Enquanto sem o Legislativo e sem o Executivo o Judiciário levantaria uma Nação, sem uma Universidade (entenda-se bem mais que uma instituição!), em pouco tempo toda a vida que levantou a Nação teria desaparecido no Terror (em todos os Terrores dos últimos duzentos e cinqüenta anos havia sempre um Judiciário eficiente e uma Universidade castrada: sempre um Legislativo atuante e uma Universidade exilada: sempre um Executivo executando e uma Universidade silenciada); Quinto, enquanto os professores da Universidade não entenderem sua importância na "ventilação" democrática, nas sutilezas da liberdade e da inteligência, não serão, por sua vez, Professores de Universidade, mas ratazanas de "segundo grau", antas da floresta. Enquanto não pudermos nós mesmos apanhar nossas ratazanas, não teremos nosso Direito; enquanto nos acompanharem como crianças, não teremos autonomia, enquanto nos inquirirem com a Lei, não seremos livres para criar; enquanto cortarem nossa voz, não teremos consciência; enquanto nos coagirem com o Direito (o Estado, a Nação, a Ética, a Política, a Educação) não seremos 3
  • 4. Universidade, mas um campus avançado do Judiciário e o próprio judiciário não será nem pleno nem viverá o Direito, mas os sintomas dos regimes de força e das ilusões das corporações. É na Universidade onde nascem as fontes que circularão na Cidade: não é somente os "Três Poderes" livres que garantem a Democracia, mas a inteligência livre, diluidora, contestadora, protegida, respeitada e entendida que é a função primordial da Universidade: é na Universidade onde se sente em primeiro lugar os sintomas de uma sociedade viciada, fascista, truculenta, policialesca e burra. É a Universidade que, além do Direito, cria, ensina, protege e modifica a Justiça. Para que se retome o sentido do Direito e a vocação da Universidade é preciso que tanto cidadãos quanto juizes, advogados e professores entendam profundamente o que é a Universidade e, com isso, se entenderá o próprio sentido do Direito. Não interferindo, não marcando, não ferrando com sua lógica e seu Poder aquilo que é sutil demais para resistir, e se não resistir é porque estamos numa nova fase ditatorial, seja do Exército, seja dos Coronéis, seja dos Juizes ou Advogados, seja dos professores. As ditaduras se vestem sempre com o alfaiate que se dispõe a vesti-las! 4
  • 5. UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa 18 ANO I, Nº18 - SETEMBRO - PORTO VELHO, 2001 VOLUME II ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS - História ARNEIDE CEMIN - Antropologia FABÍOLA LINS CALDAS - História JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL - Geografia MIGUEL NENEVÉ - Letras VALDEMIR MIOTELLO - Filosofia Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” deverão ser encaminhados para e-mail: CONVERSANDO COM HUMBOLDT nilson@unir.br CAIXA POSTAL 775 CEP: 78.900-970 WALTERLINA BRASIL PORTO VELHO-RO TIRAGEM 200 EXEMPLARES 5
  • 6. Walterlina Brasil CONVERSANDO COM HUMBOLDT wal@unir.br Era um dia chato. As pessoas iam e vinham na Universidade com aquela pressa de quem tem sempre a responsabilidade de pensar o mundo (ou de contrariá-lo ou até mesmo negociá-lo, quem sabe ?). Andei lentamente em direção a um buraco reservado para os que passam uma boa parte do tempo ali, enfiados na esperança de conseguir concluir alguns dos inúmeros expedientes que a dita Instituição envolvia (ou revolvia). Ri sozinha. Era uma espécie de relação franksteinica, ou o médico e o monstro revelada no dueto “instituição-instituido” ou em algo que considero pior “instituidor-instituição” ou no imperativo “in(sti)tuição-in(sti)tuidor”. Algo que perfura (um desenho semelhante aquele que torna o amor romântico um ícone do idealizado que para existir no real parte do pressuposto que não deve consentir-se pleno ou feliz: coração traspassado por uma flecha que alguns, com maior requinte, ainda permitem o desenho de algumas gotas de sangue). Mas, enfim, não me preocupei com isto. Encontrei aquela professora que está há dois anos tentando ter uma boa idéia para um livro e de tanto falar disso todos já lemos o seu livro (como vêem não sou a única que sei), menos ela. Vendo-a, num relance vi Platão... Uau! Deve ser isso! O livro da professora existe, está na realidade das suas idéias e vai ver isto lhe basta. Por alguns segundos caminhei com um anjinho e um diabinho sobre os meus ombros – um em cada lado - pensando horrores e ao mesmo tempo tendo piedade da professora. Caros leitores, um a parte: É que na Universidade é possível [também] demônios e anjos em uma mesma atitude (ou será o Charada, do Batman?) em uma mesma pessoa: parecem as mais doces e solidárias (e empáticas) criaturas, até que a porta se feche atrás de nós e possam dizer sozinhos ou sozinhas, em comparsa: “Estou livre deste (ou desta) idiota!” e certamente nunca saberemos o que realmente eles (ou elas) pensam sobre você, porque a única preocupação que têm é que eles (ou elas) confirmem para si mesmos, o tempo todo, incansavelmente, que saibam o que são e acreditem nisto (acho que assisti demais Matrix...). Eles (ou elas) não tem nada a ver conosco. Te suportam, nos suportam. Ponto. Preferi naquele momento, espanar ambos coleguinhas, antes que me atolassem com seus pesos. Nas leis da convivência “acadêmica” talvez os convoque quando for necessário uma boa idéia (que é aquela que reúne o desequilíbrio dos dois mundos – ou personagens). Pois bem. Era um dia chato. Como aqueles onde os alunos te procuram desejosos que você faça no lugar deles o que eles devem fazer sozinhos para superar-se. Como aqueles em que você tem que implorar que liguem seu ar-condicionado lembrando-os que sua sala é dois por cinco metros, que a arquitetura não foi uma referência para pensar-se a ocupação do espaço e a prevenção sobre (ou a convivência com) o calor na região está nas cucuias, que você não quer ter menopausa precoce, que suar muito às vezes fede, que conforto – para trabalhar em paz – é um direito ! mas, como os memorandos sempre vão me vencer... aí vou tentando as relações mais amigáveis. 6
  • 7. Era um dia chato. Passei pela professora, preparei-lhe meu melhor sorriso e antes que me falasse do seu mais reiterado capítulo (a introdução), fui para a sala na qual me encerro (“minha sala”, uau!) dizendo que estaria disponível para ouvi-la assim que fizesse meu computador funcionar, sem ter que enviá-lo para manutenção, senão o pobrezinho dormiria o sono das máquinas culpadas de gerarem homens e mulheres dependentes. De repente, sentado numa mureta, olhando para baixo, com seus óculos envelhecidos escorregando até a ponta do nariz, com aquela expressão de covarde, arfando, vi o Walter ! O Walter Benjamin! Ao tocar a parede daquele prédio pude penetrá-la através de uma teia de experiências que passavam na minha mente, enquanto via o Walter. (Caro amigo/amiga, não estou tendo visões da última hora, da morte ou de fome. Walter Benjamin me levou a pensar sobre a experiência e como ela se revela através das histórias nas coisas que falamos, vemos, interagimos, sentimos. Ainda não morri e logo, logo chegarei a Humboldt. Tenha paciência). Foi bom vê-lo. Aquele homem já percebia que o tempo eram relações sucessivas de futuro, portanto está naquilo que posso sentir e fazer sentir, algo que vai além dos objetos (ou sujeitos) e suas representações. Então aquele prédio era algo mais do que um lugar para professores universitários. Vi as salas sem portas – como foram concebidas -; vi as salas de aulas sem cadeiras enfileiradas – como foram concebidas -; vi as janelas sem grade – como foram concebidas. Onde as concepções se perderam ? E me dei conta (insigth?): foram concebidas por alguns e quando alguns se vão ou se forem, seguem com estes suas concepções. Daí talvez que, para alguns (outros/outras), seja importante criar insubstituíveis ou fazê-los crer. Pois pode haver algo no reino de Alice que confirme que “os fins justificam os meios”, e se ampare qualquer um (outros/outras), de qualquer escrúpulo e convicção, que os permitam sugar as energias humanas, pois dos humanos, somente necessitam das energias, afinal não são inteligentes como os humanos (e sua luta é crer veementemente que são mais que humanos e fazer-se mais que inteligentes). Portanto, torna-se fundamental dispensar (e descrer) qualquer tipo de participação e interesse efetivamente coletivo (em qualquer forma e tempo verbal) cuja legitimidade esteja enxertada com a informação limpa e a permanente coragem de olhar e acender o atrevimento de todos. Olhei para o Walter e disse: “Colega, você é um gênio”. Ele me olhou: “Obrigada pelo verbo no presente... lembra da brincadeira: no princípio, tudo era o verbo ? Figura forte, não é ?”. Eu disse: “Pôxa, eu estou numa Universidade e lembro...” Ele me interrompeu, pela primeira vez levantou a cabeça (tinha olhos bonitos) e concluiu (pois desaparecia): “Você está em um conceito, ou uma rede deles e a disputa por conceitos é intestina, visceral.. não lembre de nada, experencie, conte, fale”. Depois dessas visões (que neste texto me parece mais uma inspiração influenciada pelo “Ghost” ou coisas e filmes pelo estilo), achei que o dia não estava mais chato. E achei menos ainda que estava recebendo uma missão ou tomando a pílula da Emília (sem que ninguém me venha dar, através de uma pergunta fatal) da minha consciência, porque já havia tomado-a na exposição e construção de experiências participativas, enfrentadoras, crédulas, tolas, quaisquer que sejam, pois, e sobretudo, coletivas. Liberei endorfina, no máximo. Não era um dia chato. Entrei na sala. Sentei em frente ao computador (ele funcionou e a rede também, viva !). Vi minha caixa de correios. Fui vendo pelos temas (ou subject ?): nenhuma ameaça de morte; nenhum show de circo; nenhuma visita ao porão; nenhum aluno entregando trabalho atrasado; nenhum expediente, 7
  • 8. convocação ou circular (nem os anônimos...); nada para rir... hum... hum... [isso quer dizer que estou procurando] ah! Uma troca de idéias com um colega que bom ! um agendamento com meu grupo de pesquisa, que bom! Um retoque no meu livro, que bom! Apesar de nenhuma piada na rede (pois descontrai), estava bom. “É isso aí Walter” – pensei – “convivo com uma teia de conceitos, né ?, pois vou seguir a trilha... afinal tem uma porção de coisas que empanam isto: ideologia, poder, pecados capitais. Lá estava: Humboldt. (Eu não disse leitor/leitora, para você ser paciente? está aí o homem). Pensei exercer o meu estereotipado direito ao chilique feminino, antecipado de um grito, mas antes disto, vi o rosto de um homem abatido, magro, tinha canas (parecem que os abatidos sempre trazem canas...), não muito alto, com a esperada (por mim) elegância alemã (e sem essa idiotia de perfil ariano) e que me olhava. Não demonstrava estranhar o ambiente, móveis, vestimentas, equipamentos. Do nada pegou um copo (com água) e tomava lentamente, como aquelas pessoas que tragam um líquido para acalmar uma intranquilidade. O cachimbo havia desaparecido. Ele sentou (naquela cadeira que está quase para quebrar, não deu tempo para avisá-lo, não estou na sala da reitoria ou de pró-reitorias, ou na sala dos conselhos... aí pode-se ter cadeiras mais confortáveis, por razões ditas como “óbvias”). Mas não caiu. Continuou: “Parece que falar de Universidade retorna ao centro de alguns debates. Qual sua função como instituição ? Para que vai servir ? O que seja ? Há materialidade na Universidade ? Volta aos princípios da criação da Universidade medieval? (analisastes o encontro sobre o ensino superior na França, em 1998 ? Estive lá), há relação “científica” entre as pessoas? [suspirou] Uma crise essencialmente pessoal (ou existencial) abala o que-fazer da universidade. E onde estamos? em que tempo estamos? e o que pensamos fazer ? Tive uma conversa um dia desses com o Weber (o Max) e o Émile (ele detesta ser chamado de Durkheim, como o povo diz) e disse a eles que poderiam ter sido mais claros na sua abordagem, conversado um pouco mais com o Hobbes, o Maquiavel, o Locke. As pessoas tendem a conciliar o inconciliável, ou pelos menos tentam aproximá-los [franziu a testa, acenou com a cabeça seu inconformismo]. Falam de Universidade e de Estado como um fato intrínseco e de certo modo ensimesmado. A indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão parece estar arraigada e articulada a característica e existência do Estado. Veja: uma função universal: o conhecimento e o processo de conhecer do ente existente, vinculada a algo como a “capacidade de saber” ?! Que loucura! Condições absolutamente díspares” [colocou a mão no queixo, fitou-me como que inquirindo-me]. Cheguei a pensar que Humboldt era Francês e não alemão. “Eu me surpreendo com o que você diz, pois sempre o conheci como alguém que trata de dizer sobre o que é e a necessidade do vínculo científico no desempenho da universidade. E o que você me diz das idéias de Jaspers, Newman, Whitehead tão citados quando você ?”. Sua voz ainda estava triste. Acho que ainda há uma miscelânea teórica onde se tenta impor (alguns pretendem criar) uma teoria que seja imperativa (ou ridicularmente explicativa) quanto ao sentido da instituição em termos de sua natureza, sem alertar para os conceitos. As palavras lançadas por mim já deixaram de ser minhas há muito tempo. Nunca falei de Universidade. Pensei em Academia. A Universidade tornou-se impossível. Já o era quando eu o disse. Há pressões sobre o desenvolvimento e a forma de viver das pessoas que não há como a Universidade dar conta! Há respostas sociais a serem proporcionadas, cuja inscrição não está assentada no papel da Universidade ! Não pensei numa Universidade política. Pensei numa universidade científica [e os/as leitores/as não inventem de interferir com aquela onda de que político e científico não se desvinculam que não é esta a questão, hein ]. Isto não seria uma idéia. Seria um propósito. A essência da história da expansão do homem sobre a terra é que tem 8
  • 9. justificado de alguma maneira o princípio “natural” de perdedores e ganhadores de algo. Walter tem razão quando diz que a briga quando se refere a conceitos é intestinal, visceral, pois é a manipulação em algum momento e a imposição em outro de paradigmas que proporcionem assegurar a sobrevivência comercial do trabalho acadêmico. Por isso que me referi ao Max (Weber) e ao Èmile. Entender que o rol social se curva perante a burocracia e a certificação é descompreender a construção desse rol, por outro lado achar que a explicação da história da Universidade está no seu fazer exclusivamente pedagógico é também um equívoco.” Tentei uma intervençãozinha pois nesse momento Humboldt parecia muito chateado. “Mas veja, a Alemanha marcou com modelo e pensamento importantes sobre a universidade que influenciou inclusive a Universidade Latinoamericana”, fiz de pitaco. “A idéia de América Latina é uma estultícia ![espalmou a mesa]. São tão sectárias quanto as idéias imperialistas. Lembre-se que há sempre quem acredite nelas, para torná-las impositivas. Crêem, mas não sabem nada”. Nunca pensei que Humboldt fosse grosseiro. Insisti: “Mas você há de convir que a Universidade é apenas uma entre várias instituições e que por isto deverá por-se a termo e a campo para saber qual seu papel como uma atitude permanente e vigilante sobre a condição humana. Na América Latina, atrevem-se diante do escravismo intelectual e tecnológico e são as únicas formas de resistência evidente sobre a realidade da exclusão e do preço pago para alimentar a ganância humana”. “Querida” - falou em um tom de grande pai, perfurei-o com um olhar reprovador, alegando a inconveniência; corrigiu-se e mudou o tom – “O pecado preferido do Diabo é a vaidade, lembra ? Uma fogueira de várias delas fez com que Napoleão entendesse a função e a resposta que a universidade teria que dar vinculada ao poder estatal representado por ele. Eu falei apenas de pesquisa ! Eu falei de pensar sobre o constituído e julgar sua pertinência. Nunca propus uma Universidade ideal, parasitária do Estado ou dos indivíduos, propus uma atitude. Veja os que realmente fizeram a Universidade (ou o pensamento superior), não estiveram nela. Alguns foram instados, convidados, seduzidos, mas não dependeram dessa instituição para ser o que são em termos de propostas para as grandes idéias. Quem trata estas questões ou as vincula a Universidade é tão tolo quanto a própria convicção de existência pessoal a partir disto”. De certa forma, comecei a achar que a história de “alma penada” poderia colar na visita do Humboldt. “E porque você não fala com Deus ?” Instiguei. “Porque ele sempre fica deprimido quando uma boa idéia não vem dele. Ele ficou assim com o Einstein e a teoria da relatividade”. Compreendi que Humboldt apostava que algo poderá ser feito em função do que está dado para a Universidade e o que se disfarça no cenário de pretensas preocupações com a ela. Sentindo que estava cansado por hoje e que se ía, fulminei: “E daí? Mas e o que fazer diante da tão famigerada inquietação (de outros/outras) frente ao [suposto] silêncio?” Ele disse: “As vezes, há que silenciar-se diante dos débeis, alguns deles podem ser violadores da palavra e isto pode ser um passo para o estupro do sujeito” 9
  • 10. UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa 19 ANO I, Nº19 - SETEMBRO - PORTO VELHO, 2001 VOLUME II ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS - História ARNEIDE CEMIN - Antropologia FABÍOLA LINS CALDAS - História JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL - Geografia MIGUEL NENEVÉ - Letras VALDEMIR MIOTELLO - Filosofia Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” deverão ser encaminhados para e-mail: nilson@unir.br A QUESTÃO DOS DISCURSOS HEGEMÔNICOS CAIXA POSTAL 775 CEP: 78.900-970 VALDEMIR MIOTELLO PORTO VELHO-RO TIRAGEM 200 EXEMPLARES 10
  • 11. Valdemir Miotello Professor de Filosofia miotello@unir.br A QUESTÃO DOS DISCURSOS HEGEMÔNICOS 1 - Vamos procurar olhar, nesse pequeno artigo, a questão da constituição do sujeito dentro de um mundo absolutamente em renovação. Olhando a situação apresentada socialmente, a forma como a sociedade se organiza e a estrutura que ela mantém, vemos que há por trás um discurso explicador, que vem pelas informações trazidas do passado, transportadas pelo baú da história e das interações havidas; por outro lado, há em perspectiva de jogo social e interativo um discurso formador que toma como parâmetro o futuro, o por-vir, os projetos de ser. Na prática discursiva social parece que se produz uma inversão para a produção de novos sentidos: os discursos formadores, que olham para o futuro, tomam como base os mitos explicadores, que buscam deixar claro onde se quer chegar; já os discursos explicadores tomam como base os mitos formadores, que buscam afirmar de onde estamos vindo e por que somos do jeito que somos. Vejamos na prática da bibliografia: Para entender os mitos formadores (que são os produtores dos discursos explicadores de nossa situação atual) se deve ler Gilberto Freyre (Casa Grande & Senzala), Marilena Chauí (Mitos Formadores), Dante M. Leite (Caráter Nacional), Raimundo Faoro (Os donos do Poder), Darcy Ribeiro (O Processo Civilizatório) e Sérgio Buarque de Holanda (Visões do Paraíso), entre outros, e buscar as raízes de nossa brasilidade (mito das raças, povo católico, paraíso terrestre, gente pacífica, pessoas alegres); já para entender os mitos explicadores (que são os produtores dos discursos formadores de nosso futuro a ser construído) precisamos buscar em cada tempo as projeções discursivas (Brasil, país do futuro; A nação rumo ao Primeiro Mundo; País verde). 2 - Vamos tomar a reflexão por outra ponta: Na história alguns discursos hegemônicos foram produzidos; Aqui é bom pensar em algumas características marcantes desses discursos: i) a fala vem sempre do setor dominante, incluído; ii) esta fala inclui no discurso os excluídos, falando por eles e falando para eles; iii) aparentemente também há um lugar de inclusão dos discursos dos excluídos nesse discurso hegemônico; iv) esse discurso, por ser discurso absolutamente ideológico, esconde mais que revela; v) o discurso é intermediação mais eficaz que as armas para garantir subalternização. a) Discurso católico na Idade Média; esse discurso igualava a todos pela filiação ao mesmo Pai, pela existência da alma, pela possibilidade do pecado; exigia de todos orações, sacrifícios e penitências e cobrava de todos uma vida de privações; o que ficava apagado nesse discurso era o mundo real, a vida mesma, o sentido corporal (que até devia ser negado, rejeitado, castigado, por ser o reino e de posse do demônio); dessa forma garantia-se um sentido celestial para as diferenças terrestres (criou-se o purgatório para ampliar as possibilidades de igualdade na outra vida); ISSN 1517 - 5421 11
  • 12. b) Discurso do Estado nos séc. XVII e XVIII; aqui a discurseira da igualdade passa pela cidadania, pela afirmação de que todos são iguais perante a lei; de que não se fará lei para prejudicar alguém por crimes anteriores; além disso todos são sujeitos de direitos e deveres; cria-se a sociedade pelo pacto social (contratualismo hobbesiano ou rousseauniano); apaga-se, no entanto o sujeito, e se garante um assemelhamento legal (do cidadão) para as diferenças reais de vida, protegendo-se o patrimônio (dos que têm bens); c) Discurso Industrial no século XIX; nesse discurso a igualdade se desloca para o mundo do trabalho (vagabundo e miserável é quem não trabalha); as chances de todos para obter bens estão postas no trabalho; as oportunidades estão aí (se alguns conseguem, todos podem conseguir); nesse discurso apaga-se a diferença, apagando-se a propriedade dos bens de produção por um lado, e apagando-se a exploração do trabalho, por outro; d) Discurso do Mercado no século XX; aqui se prega a igualdade pelo consumo (os bens estão na vitrine para quem quiser [mesmo que não possa] consumir; apresentam-se índices gerais de melhoria de qualidade de vida (acesso a bens coletivos); mas esse discurso apaga o próprio consumo e o lucro proveniente do consumo dirigido, e as diferenças ficam por conta das necessidades individuais); e) Discurso da Tecnologia na última década do século XX; esse discurso se apresenta com uma diferença fundamental na produção da hegemonia: não há necessidade de se produzir hegemonia; e isso porque não há necessidade de se incluir o excluído e o exército de reserva é absolutamente desnecessário; o que se precisa aqui é do “funcionário criativo”; o trabalho intelectual criativo ganha status; vale o saber criativo; logo a criatividade tem que ser apagada, já que é ela que produz lucro; as diferenças tem o sentido garantido no uso (cada um usa de forma diferente a tecnologia posta à disposição). 3 - No entanto circulam nesse período de discursos hegemônicos outros discursos, que se apresentam como contrapalavras ativas e responsivas: a) Contrapalavra ao discurso religioso: discurso e postura de São Francisco e de outras ordens religiosas; Igreja que se coloca ao lado dos pobres e oprimidos; hereges, bruxos, alquimistas; ignorantes religiosos; não-praticantes; Reforma Protestante; b) Contrapalavra ao discurso hegemônico do Estado: Rousseau e a manutenção do sujeito bom e autônomo perante o Estado (direito de Resistência); Marx e o fim do Estado enquanto constructo e propriedade burguesa, passando pela ditadura do proletariado; Freud e o inconsciente, botando a Razão (enquanto racionalidade ocidental) de molho; Guerras, ditaduras; ação sindical; partidos comunistas; c) Contrapalavra ao discurso hegemônico do industrialismo: o marxismo e a denúncia da exploração da mais-valia; os movimentos de luta pela terra; os trabalhadores se organizando em sindicatos; a ciência não dando conta de resolver problemas centrais; d) Contrapalavra ao discurso hegemônico do Mercado: grupos de não-consumo; estímulo à poupança; aquisição de bens duráveis; luta entre Estado e Mercado na sua regulamentação; Estados preocupados com capitais voláteis; regulamentação de remessa de dinheiro ao exterior; 12
  • 13. e) Contrapalavra ao discurso não-hegemônico da tecnologia: apelo ao escancaramento das mazelas sociais (fome, moradia, saúde, educação, pobreza em geral); luta pelo perdão das dívidas dos países do III Mundo; ataques ao FMI, Banco Mundial; países falidos; desemprego; f) Contrapalavra geral e universal: “E nós?”, gritam todos os excluídos da história inteira; os gritos dos que não trabalham; dos que não consomem; dos que não detém o saber; dos que são escravos; dos que não são gente; “Quem é o dono do Poder? a quem ele serve?” perguntam todos os que se acham fora do alcance de sua ação; “A tecnologia em ação na atualidade produz o quê, e produz para quem?”, perguntam todos hoje. 4 - Será isso o fim da história, como quer afirmar Fukuyama? De verdade, se a luta de classes é o motor da história, então o fim das classes sociais (patrões e operários) poderia representar também o fim da história; afinal, hoje o que domina é o Mercado, o Consumo, e não mais a produção. Logo, devemos olhar hoje quem está dentro do mercado (os incluídos) e os que dele não participam (os excluídos). Os que estão dentro do mercado se dividem entre os que têm bens a oferecer ao consumo (vendedores/ou tecnólogos criativos) e os que adquirem bens pelo consumo (consumidores). Os excluídos estão absolutamente fora desse jogo. 1. Há grupos de incluídos privilegiados nesse jogo: a) os que acumularam fortunas financeiras com o desenvolvimento do industrialismo; b) os que conseguiram pelo trabalho acumular poupança ou plano de previdência público ou privado; c) os que detém o saber criativo; d) os que foram constituídos como empreendedores (e não como empregados, serviçais, ocupantes de vagas de trabalho); e) os que criativamente cruzam equipamentos (não importa quais, de que onda civilizatória) com tecnologia, e com isso elaboram novas funções para tais equipamentos com novos programas tecnológicos; f) os info-ricos, que detém o uso tecnológico, em oposição aos info-pobres que não possuem e nem usam equipamentos com tecnologia; 5 - Ainda divagando, agora com arcabouço de Bakhtin. Considerando: a) a situação de rigidez política e de hegemonia política na Rússia de então; b) a homogeneização do discurso e seu controle; c) a forte intervenção estatal sobre as ações individuais dos sujeitos... O que Bakhtin buscava conseguir ao trabalhar com sua proposta de sujeito e de linguagem? e porquê e que uso faz da consciência (como em-si; como trabalhada pelo social; como EU pelo OUTRO)? que oposição ele buscava construir? Era de anti-hegemonia? Ou buscava emergir com nova postura política de dentro da hegemonia instalada? Isso é: Diante de sistemas hegemônicos – e a preocupação bakhtiniana, e também a minha, é a hegemonia social presente na linguagem - que alternativa Bakhtin propõe e qual alternativa nós estamos propondo? a) A hegemonia da classe dominante é produzida, aparece e se mantém duradoura no/pelo discurso? 13
  • 14. b) Ou a hegemonia aparece nas relações sociais e produtivas, passa a ser veiculada nos mecanismos de dominação, e se reflete e se refrata na linguagem, um signo ideológico permanente e universal, dentro dos quais se trava a luta de classes? c) A linguagem é um mecanismo de dominação (está na super-estrutura da sociedade, como queria crer Marx?) ou apenas carrega em si a ideologia da dominação (assim como também a ideologia da libertação), de forma disfarçada, embutida, naturalizada (atravessando dessa forma toda a estrutura social, e não sendo ou estando nem na infra-estrutura e nem na super-estrutura, mas atravessando de alto a baixo toda a sociedade, e se mostrando como o mecanismo de dominação por excelência?) d) Se o campo da linguagem é a arena onde se trava a luta de classes, como essa luta aparece na linguagem? Como se dá o jogo entre sentido e significação, entre reconhecimento e compreensão? e) Como se dá o encontro entre linguagem carregando de simbologias dominadoras e consciência? Como se produz a contrapalavra do dominado? Essa, uma vez pronunciada, manifestando dessa forma que se deu alguma (pode ser a que o dominador quer e anseia) compreensão, quebra a hegemonia do discurso ideológico oficial? Ou pode alimentá-lo apenas com uma compreensão de dominação, quando o dominado introjetou dentro de si (Paulo Freire já refletiu demais sobre essa possibilidade) o mundo e a consciência do dominador? f) E como se dá o encontro entre o estético (jogo de palavras e de contrapalavras) e o ético (jogo das ideologias que se debatem nos acontecimentos, na vida)? 6 - Bem que poderia ser interessante poder dividir o mundo discursivamente em Grandes Hegemonias, à maneira que Toffler e Ribeiro fazem com as sociedades: a) Hegemonia do Discurso Mítico, que dominou todo o mundo agrícola, tendo sua extensão poderosa no discurso religioso; b) Hegemonia do Discurso Racionalista, com extensão sofisticada no discurso empirista e científico, que dominou todo o mundo Industrial, que se deu com extensão também poderosa no discurso do Estado e no discurso do Mercado; c) Hegemonia do Discurso Tecnológico, que se estende no discurso da globalização e que domina todo o atual período da Revolução Digital, carregando consigo o sofisticado e atual discurso ecológico. Seria muito produtivo para a análise se fosse possível identificar na história essas três Hegemonias discursivas, estabelecidas e fundadas em imperativos ideológicos que forjaram sujeitos construtores de sociedades e de tecnologias, e estabelecendo entre si relações sociais distintas. O professor Plínio Soares de Arruda Sampaio, na Folha em 30 de Abril de 2000, na seção Debates, escrevendo sob o título "Dependência e Barbárie", afirma que "A especificidade desse novo ciclo de modernização dos padrões de consumo (que introduz o país no universo do computador pessoal, do telefone celular e do automóvel computadorizado), em contraste com tantos outros que marcaram a história brasileira, é a sua incompatibilidade com a continuidade dos processos responsáveis pela formação da nação". Quebrados os processos de formação da nação, quebrados também estarão os processos de formação dos sujeitos que interagem no espaço e no tempo dessa mesma nação. 14
  • 15. UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa 20 PRIMEIRA VERSÃO ANO I, Nº20 - SETEMBRO - PORTO VELHO, 2001 VOLUME II ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS - História ARNEIDE CEMIN - Antropologia FABÍOLA LINS CALDAS - História JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL - Geografia MIGUEL NENEVÉ - Letras VALDEMIR MIOTELLO - Filosofia Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” deverão ser encaminhados para e-mail: A CONCEPÇÃO DA PALAVRA EM BAKHTIN nilson@unir.br CAIXA POSTAL 775 MARINALVA VIEIRA BARBOSA CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA 15
  • 16. Marinalva Vieira Barbosa A CONCEPÇÃO DE PALAVRA EM BAKHTIN Professora de Língua Portuguesa e Literatura marialvab@bol.com.br Todorov, no prefácio da Estética da Criação Verbal, define Bakhtin como uma das figuras mais múltipla e enigmática da cultura européia de meados do século XX. Procurando romper com a concepção de homem que adquire uma linguagem ideal, pronta e acabada, e com a dicotomia que toma a linguagem como forma e conteúdo, Bakhtin concebe um homem que dialoga com a realidade por meio da linguagem. Este teórico provoca fascínio, talvez, pela sua capacidade de ver o mundo, o homem e a linguagem como sendo partes de um mesmo processo dialético. As concepções de Bakhtin exigem do leitor um olhar múltiplo sobre o mundo e sobre o outro. Trata-se de uma teoria que vê o mundo a partir de ruídos, vozes, sentidos, sons e linguagens que se misturam, (re)constroem-se, modificam-se e transformam-se. Dentro desse burburinho, a palavra assume papel primordial, pois é a partir dela que o sujeito se constitui e é constituído. Para pensar a palavra a partir dessa perspectiva, faz-se necessário considerar o direito e o avesso não como partes distintas, mas como elementos que se complementam por meio de uma relação dialógica. Essa visão dialógica supera a descrição dos elementos estritamente lingüísticos e busca também os elementos extralingüísticos que, direta ou indiretamente, condicionam a interação nos planos social, econômico, histórico e ideológico. Para pensar a concepção de palavra para Bakhtin, é preciso abandonar a noção de codificação e decodificação que dá margem a uma percepção de língua como sendo um código fechado. Assim, a linguagem e a história são pontos fundamentais na compreensão das questões humanas e sociais. Por ser polissêmica e dialógica, a palavra traz marcas culturais, sociais e históricas. Neste ponto Bakhtin estabelece o maior divisor de águas na construção de sua teoria sobre a língua, pois ao afirmar que o contexto histórico é parte constitutiva da linguagem, ele questiona as concepções estruturalistas que tomam a palavra como parte de um sistema abstrato de formas, em que o falante não tem poder de intervenção. O contexto histórico transforma a palavra fria do dicionário em fios dialógicos vivos que refletem e refratam a realidade que a produziu. (Bakhtin, 1995) A palavra, em situação de uso, é um espaço de produção de sentido. Dela emergem as significações que, conseqüentemente, se fazem no espaço criado pelos interlocutores em um contexto sócio-histórico dado. Por ser espaço gerador de sentido é controlada, selecionada por meio dos mecanismos sociais. Diante disso, há o que poderíamos chamar de determinismo social, ou seja, dependendo do interlocutor, da situação de uso, o falante determina qual a melhor palavra a ser utilizada. Não podemos pensar em um total assujeitamento do sujeito falante ao contexto social. Ao contrário, se por um lado ele se submete, modifica-se para adequar- se à ordem social em que está inserido, por outro, também interfere e muda tal contexto. Trata-se de uma relação que constitui e é constituída, uma vez que a linguagem não é sistema fixo e abstrato, por isso permite ao sujeito falante abrir fissuras, construir outros sentidos, romper o cerco do sentido já dado.
  • 17. Daí Bakhtin falar do processo de reflexão e refração. Neste caso, a palavra, quando entra na arena discursiva, passa por constantes transformações. Ela é lançada pelo locutor, mas quando devolvida pelo interlocutor, que já tem mudado de posição, passando a ocupar a posição daquele, não é mais a mesma. É a palavra do primeiro locutor, que a proferiu considerando o seu interlocutor, mais o sentido do segundo locutor, que a devolve com uma carga a mais de sentido. Assim, podemos afirmar que, em situação de uso, a palavra se vai revestindo de sentidos, tons e valores. Ela é prenhe de significados. Para Bakhtin, a palavra não é somente um universo de sentidos ou signo puro, é também um signo neutro. Ela é neutra em relação a qualquer função ideológica determinada, aceita qualquer carga ideológica. Daí Bakhtin considerá-la como o modo mais sensível de relação social, uma vez que se faz presente em todos em todos os domínios sociais. É por meio da palavra que percebemos as mudanças mais efêmeras que ocorrem na sociedade. Para compreender como se dá o processo de construção do sentido, é preciso ver a palavra como um signo ideológico, pois só assim é possível perceber a sua capacidade de assumir múltiplas tonalidades em diferentes campos como o político, o moral e o religioso. Os sentidos funcionam como camadas superpostas que se vão juntando. É o contexto, a situação social, o lugar ocupado pelo falante que determinam qual o sentido que deve ser dado à palavra. Em situação de uso, a neutralidade da palavra não é possível porque o processo de interação não acontece de forma simétrica entre os interlocutores. Por meio da linguagem as divergências, a materialização das lutas de classes, a disputa pelo poder por grupos antagônicos, as crenças religiosas e as demonstrações de preconceitos são colocadas em evidência. A mobilidade da palavra faz com que nenhum falante seja o primeiro a proferir determinado tópico discursivo. Ao usar a palavra, encontramo-la já habitada pelas falas de outrem, pois ela penetra em todos os domínios da sociedade, por isso é indicadora das transformações que a sociedade infere no ser humano; a palavra associa o traço visível à coisa invisível, à coisa desejada ou temida como uma frágil passarela improvisada sobre o abismo. (Calvino, 1995; p. 90) Se para Calvino a palavra é a coisa visível e invisível, para Bakhtin ela é a ponte que, quando lançada, de um lado está o locutor e do outro encontra-se o interlocutor. Em cima dessa ponte se dão as tramas sociais e ideológicas que determinam os sentidos da palavra. É interessante observar que tanto Bakhtin como Calvino vêem a palavra como algo que mostra e oculta, que é clara e escura. É no entremeio dessa dualidade que está o território comum dos falantes. Diante dessa dupla face, Calvino (1995) defende a necessidade de respeito no uso das palavras, pois elas permitem aproximar-nos das coisas presentes e das coisas ausentes. Isso exige cautela, pois as coisas ausentes, embora não ditas, estão presentes, não se distanciam, comunicam-se, mesmo não estando explícitas na materialidade da palavra. O horizonte social mais imediato e o mais distante se fazem presentes na palavra. Bakhtin fala em auditório social imediato e mediato. Se no processo de interação o interlocutor presente direciona a palavra do outro, este também não perde de vista falas, vozes, valores, concepções que se fazem ouvir, embora distantes. Como a palavra traz as marcas históricas, sociais e culturais, a gama de sentido que ela denota é algo que vai sendo produzido de acordo com os processos de mudanças sociais, ou seja, os vários sentidos das palavras são construídos ao longo da história, em momentos singulares, pelos sujeitos sociais em interação verbal. 17
  • 18. A palavra possui uma gama de rumores que perturbam a constituição do discurso. Ao refletir e refratar a densidade do mundo que a produziu, revela-se lacunosa e fragmentária. Em situação de uso, ela abre fissuras e brechas que permitem a interferência do outro na construção do sentido. Em cada palavra há vozes, vozes que podem ser infinitamente longínquas, anônimas, quase despersonalizadas ..., inapreensíveis, e vozes próximas que soam simultaneamente. (Bakhtin in Kramer,1996; p.109) Dentro desse jogo dialético - da palavra que liga a palavra - o sujeito falante, que apreende o discurso do outro, não é um ser mudo e passivo. Ao contrário, é um ser perpassado, cindido pelas suas palavras e pelas de outrem. Podemos afirmar, utilizando-se da voz de Chico Buarque, que no processo de apreensão é estabelecida uma relação em que a palavra viva/ palavra com temperatura/ que se produz/ muda/ feita de luz mais que de vento/ palavra... que indo a palavra permite a constituição do sujeito por meio da e na linguagem. Esse processo de interação não ocorre fora do contexto social e histórico, é fruto da interlocução de dois falantes pertencentes a um mesmo contexto. Nesse caso, questões como classe social, hierarquia e afetividade são determinantes para a construção dos sentidos. Não existe interlocutor abstrato, uma vez que o horizonte social é determinante no processo de uso da palavra. Esse horizonte é internalizado pelo falante, que passa a fazer suas deduções e considerações com base no contexto que o cerca. Ao orientar a sua palavra a partir do seu interlocutor, o falante constitui a sua subjetividade considerando o seu outro. Esse processo funciona como um espelho em que o falante busca refletir-se, daí o fato de a palavra ter dupla face, pois é determinada tanto pelo fato de preceder de alguém, como por dirigir-se a alguém. Podemos afirmar, assim, que a sua existência está intrinsecamente ligada à realidade social, fora do contexto de uso é destituída de sentido. A palavra é uma arena em miniatura onde se perpassam e lutam os valores sociais de orientações contraditórias. É a partir do momento em que o sujeito falante entra nessa corrente ideológica, uma vez que a palavra é um signo ideológico por excelência, que constrói a sua visão de mundo. Neste sentido, a palavra, quando proferida, traz as marcas inalienáveis da vida. (Bakhtin, 1995; p. 49) Tais fatores extralingüísticos determinam socialmente as palavras dos interlocutores, uma vez que eles também são sujeitos sócio-históricos e trazem valores, ideais, desejos, culturas e marcas de pertencimento sócio-político-econômico diferentes. Tais pertencimentos, que marcam singularmente os sujeitos, se fazem presentes na materialidade de suas palavras. As palavras refletem, não de forma mecânica, os conflitos e apontam as marcas ideológicas distintas de cada sujeito em interação. Nessa visão bakhtiniana não existe pensamento e linguagem inatos. A atividade mental do sujeito pertence totalmente ao campo social, pois a palavra e o material semiótico, externos aos sujeitos, são elementos determinantes para a organização do pensamento que, posteriormente, retorna ao campo social. A palavra, em sua condição de signo, é adquirida no meio social que, interiorizada pelo sujeito, retorna ao meio social por meio do processo de interação, numa forma diferenciada, ou seja, ela é dialeticamente alterada devido às colorações ideológicas que marcam as condições de produção. 18
  • 19. Em razão desses condicionamentos sociais e históricos que perpassam tanto os sujeitos quanto as palavras, somente o acontecimento enunciativo dará a significação da palavra que, muitas vezes, será diferente da significação registrada no léxico; a significação é construída no processo de interação social. Assim, a palavra é constitutiva tanto da consciência quanto do desenvolvimento humano. A linguagem é constitutiva dos sujeitos sociais. BIBLIOGRAFIA BAKHTIN, Mikhail (Volochinov). Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo, Hucitec. 1995. CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo, Companhia da Letras. 1995. KRAMER, Sônia & LEITE, Maria Isabel. Infância: fios e desafios da pesquisa. Campinas, Papirus. 1996. 19
  • 20. UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa 21 PRIMEIRA VERSÃO ANO I, Nº21 - OUTUBRO - PORTO VELHO, 2001 VOLUME II ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS - História ARNEIDE CEMIN - Antropologia FABÍOLA LINS CALDAS - História JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL - Geografia MIGUEL NENEVÉ - Letras VALDEMIR MIOTELLO - Filosofia Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” O CRÍTICO E O CRIADOR deverão ser encaminhados para e-mail: nilson@unir.br RUBENS VAZ CAVALCANTE (BINHO) CAIXA POSTAL 775 CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA 20
  • 21. Rubens Vaz Cavalcante (Binho) O CRÍTICO E O CRIADOR Professor de Teoria da Literatura ohnib@unir.br Vivemos neste instante a civilização da imagem. Radicalizamos as figuras de som e imagem que a poesia nos ensinou. Agora vemos e ouvimos mais do que lemos. Lemos o referente. O signo verbal se amalgamou ao vocal e ao visual para sobreviver ao descaso com a leitura “tradicional”. As perguntas vão e vêm: pêndulos. O crítico e o criador sonham saber o que se passa na cabeça do leitor e do século. Como se constrói uma escritura que atenda à economia discursiva solicitada por esse leitor? E como se lê essa escritura? Questões difíceis de responder. Talvez, por essa razão, a criação literária contemporânea seja sinônimo da complexidade e da diversidade do presente. Multiplicidade é a sua marca. “Somos inclassificáveis”1, diz Arnaldo Antunes em uma de suas letras de música, referindo-se à etnologia múltipla do ser. Vale para a arte e a ciência essa afirmativa. Isso é mais real na medida em que aproximamos a lente do olhar à produção artística e científica do nosso tempo. As teorias se multiplicam evolutiva e iterativamente, e as experiências estéticas se sobrepõem ou se contrapõem, estilisticamente, aos cânones universais: é a arte conceitual; dá-se margens a que o espaço discursivo literário seja melhor otimizado pelas teorias e não pela própria literatura: problemas, hipóteses, métodos, conceitos e reflexões sobre o ato da criação literária são veiculados em grande quantidade, na intenção de articular a formação de uma opinião crítica teoricamente “embasada”. Cada uma dessas teorias aspira parte das verdades e validades na interpretação de um texto. A trama teórica é tecida para revelar a cara do nosso tempo, estampada nas obras, mas o tiro, muitas das vezes, sai pela culatra. Depara-se, por exemplo, diariamente com a excitante peleja entre os teóricos, simpatizantes da modernidade perene ou da pós-modernidade inconteste, que reclamam a autoria do desvelamento da época corrente. Que tempo vivemos neste instante? Afinal, somos ou não somos pós-modernos? As respostas são tantas quanto são os olhares dos teóricos e críticos. A intenção é operacionalizar características e procedimentos que justifiquem a existência ou não de uma nova estética. Nesse ambiente de conceitos e contradições é que se constroem os críticos, sob o estranho signo da pretensão de interpretar o mundo. Assim construído, o crítico contemporâneo, um poço de citações e paixões, tenta convencer o outro que consegue pôr a nu, com os instrumentos e os métodos organizados da teoria literária, a criação simbólica ou mitológica do sujeito instalado historicamente na escritura literária. Seu impressionismo, aos poucos, vai sendo posto de lado. Aprende a ler com filtros teóricos. Reclama a perda de algo que nunca teve de verdade: a leitura “inocente”, a relação de puro prazer com a literatura. Não existe nenhum ato de linguagem inocente: toda leitura é crítica. Falar, escrever, ler e interpretar são ações que acontecem à luz da ideologia que nos constitui, até mesmo quando pregamos a não-ideologia. O crítico às vezes esquece disso e reflete um vazio de sentido naquilo que rabisca. 1 Na música Inclassificável do CD O silêncio, 1996.
  • 22. Veiculando uma crítica que pouco esclarece ao leitor e a si mesmo - é a política do obscurecimento acadêmico -, o crítico escreve para manter a pose de intelectual sintonizado com o próprio tempo. Experimenta uma inteligência artificial que periga apagar sua sensibilidade. Fica, muitas vezes, confuso e impotente com tantas teorias da interpretação e, por extensão, desatento ao que elas provocam em sua recepção estética. Escreve para uma academia que declarou o fim do crítico leigo e instaurou o discurso da crítica academicamente especializada. Se tudo é complexo e diverso aos olhos do teórico/crítico, a diversidade e a complicação advêm dos conceitos tautológicos e do pragmatismo impenetrável que regem sua visada. Impossibilitado de ver com os olhos de tatear sons e sentidos do poeta, o teórico/crítico registra a sinestesia, mas não visualiza o gesto realizado pela escritura que a simultaneidade dos signos perpetua. Só lhe é dado ver a planta baixa dessa arquitetura de sons e sentidos. Denomina “processo” o plano de vôo da poesia. Supervaloriza a linguagem à imaginação. É capaz de falar, com propriedade, de intertextualidade, plurissignificação, metalinguagem, transracionalidade, desconstrução, mas muitas vezes cala seus sentidos diante da invenção existencial que fere de letal leveza o verso do rapper nas urbes e diante da improvisação filosofal que tange a lira do cego nos sertões. Se o poeta é a antena do planeta, como queria Ezra Pound, o teórico/crítico, via de regra, é a estação mal sintonizada da sensibilidade. Em meio a essas vozes destoantes a propósito da literatura contemporânea, nem sempre atentos aos vituperos dos teóricos e dos críticos, “com um olho aberto, outro acordado”2 (diz o poeta citado na introdução), os criadores vão construindo suas obras concomitantes às suas identidades históricas. O poeta observa as evoluções de uma literatura que se plasma no velho paradigma dos novos tempos. Adequa-se à civilização da imagem. Não existe resistência nem ruptura com o multimeio: o criador tem consciência da inevitabilidade da linguagem cibernética, aceita-a como instrumento de otimização na expressão da sua arte. O fazer artístico é a sua resistência e a morte das vanguardas, sua ruptura. Ao artista cabe sintonizar o momento em que arte e técnica se unem para realizar a festa do intelecto. O criador é um crítico do ambiente estético e estilístico em que se dá a sua criação. Uma crítica que vai por dentro da operacionalização do suporte dado pela técnica à arte: meio paródia, meio ironia. O conceito de interatividade aplicado à arte conduz o discurso artístico em direção ao discurso publicitário: ao criador começa a parecer normal que não importa o suporte, e sim a veiculação da criação. Outdoor, livro, muro, parede de edifício, vídeo, luminoso, vinheta de televisão, cd-rom, camiseta, boné ou seus similares servem ao criador do século XXI como base para a circulação do seu discurso artístico. Faz tempo a arte perdeu a aura do ineditismo: é feita em série como os objetos e fetichizada pelo espetáculo do consumo. O artista continua antenado com a subjetividade do mundo da criação, mas transcria ritmos e imagens com os instrumentos de comunicação dos médias. É o que mais o difere do teórico/crítico. Com um olho na objetiva e outro na subjetiva, o criador alterna suas lentes na leitura dos mundos que o cercam, sem perder de vista o momento mágico da criação. O poeta, assim como o papa, é pop. 2 No livro 2 ou + corpos no mesmo espaço, 1997, p. 23. 22
  • 23. Diante da estranha trama de sentidos na ciência e na criação, Harold Bloom (apud TADIÉ, 1992, p. 313), festejado crítico coetâneo, na tentativa de reabilitar a subjetividade, propõe que se veja o poeta como um crítico em verso e o crítico como um poeta em prosa. Soa interessante sua proposta, contudo, sabemos da dificuldade em aliar essas duas entidades. O criador e o crítico têm sintonias diferentes. É uma questão de freqüência: eles não se freqüentam bem. Trabalham com o mesmo objeto – a criação – sob óticas diferentes. Um é a lavra das palavras; o outro, a larva das palavras. O pensamento de Jean-Yves Tadié, em A crítica literária no século XX (1992, p. 313), quando argumenta que “Talvez seja necessário retornar ao prazer proporcionado pelas artes que não pertencem à linguagem para ser e se fazer sensível à literatura, para propiciar ao leitor forma e significação mantidas vivas”, é também muito tentador. Porém, se propiciar as formas “mantidas vivas” não é problemático, propiciar significações às obras de arte é uma missão complexa. E quando se trata de poesia a complexidade parece aumentar. O pouco trato com a linguagem poética do leitor contemporâneo gera uma pergunta-bordão: onde a significação da poesia? Muitas trilhas se encontram abertas na direção do desvendamento desta problemática. Jacques Derrida, por exemplo, com relação ao significado, diz na sua Gramatologia (1973, p. 199) “que não há nada fora do texto”. Isso reverbera assustadoramente. A auto-suficiência do texto como morada do sentido é questionada por várias correntes da crítica. Muitos preferem acreditar num sentido em construção no momento do diálogo entre leitor e texto. Octavio Paz, em A outra voz (1993, p. 147), relativiza: “O poema reflete a solidariedade das ‘dez mil coisas que compõem o universo’, como diziam os antigos chineses”. Soa bonito isso. Como os orientais são sábios! Mas, pensando com os neurônios ocidentais, como seríamos capazes de solidarizar as “dez mil coisas que compõem o universo” se não somos solidários nem uns com os outros? A escritura de criação é, antes de tudo, um palco para os conflitos do criador. Se dar sentido a um poema é complexo, definir o que ele é também não é fácil. No reino da prosa, o que é um poema? Benedetto Croce (apud BOSI, 1996, p. 8) nos ensina que “Se nos dispomos a considerar qualquer poema para determinar o que nos faça julgá-lo como tal, discernimos ao primeiro olhar, constantes e necessários, dois elementos: um complexo de imagens e um sentimento que o anima”. O pensador italiano abre um novo horizonte de expectativa que esbarra no pequeno alcance das lentes do leitor comum e mortal. Silêncio. Perguntas brotam. O que é exatamente “um complexo de imagem”? E “um sentimento que o anima”? Silêncio de novo. Dizer o que caracteriza um poema ainda não é defini-lo. Mesmo com tantos caminhos abertos, a verdade é que nós, teóricos, críticos ou leitores, nos sentimos numa situação desconfortável ao ficarmos diante de um texto de criação, na condição de intérprete. Talvez pelo fato de não ser da natureza do texto artístico, necessariamente, ser explicitado, mas sim vivido, ou mesmo porque, na maioria das vezes, sejamos arrogantes a ponto de não reconhecermos nossa incompetência dialógica diante do significado da criação. Ou ainda porque devêssemos, a exemplo do criador, também criar e nos deixar envolver pela magia da criação, sem racionalizar seus encantos e calar a voz que ecoa em nós os credos repetitivos da teoria e da crítica. Apenas buscar o lugar mágico onde o crítico e o criador sejam uníssonos, sem alimentar a idéia de que o criador precisa desesperadamente de nosso juízo de valor para continuar criando, nem criar uma pendência genética em que apenas o descompasso de sintonias é diagnosticado. 23
  • 24. O que nos falta em humildade, sobra-nos em vaidade. A rima é boa, mas a resultante é desastrosa e pobre. E se o artista é o agenciador dos sentidos do mundo, a quem critica cabe a honrosa função de refletir sobre esses sentidos, estendendo essa reflexão ao outro sem a obrigação de revelá-los. Ocorre-me que o Paul Valéry, no livro Variedades (1999, p. 25), argumenta que o que caracterizava o escritor clássico era o fato de já trazer “um crítico em si mesmo, associando-o intimamente ao seu trabalho”. Seria o ideal se assim fosse ainda hoje, mas não é. Um crítico sensível precisa surgir para coexistir com o novo criador e o novo leitor. O parto promete ser difícil. A convivência também. É uma questão de natureza! BIBLIOGRAFIA BOSI, Alfredo (Org.). Leitura da Poesia. São Paulo, Ática, 1996. DERRIDA, Jacques. Gramatologia. São Paulo, Perspectiva e Edusp, 1973. TADIÉ, Jean-Yves. A crítica literária no século XX. São Paulo, Bertrand Brasil, 1992. VALÉRY, Paul. Variedades. São Paulo, Iluminuras, 1999. 24
  • 25. UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa 22 PRIMEIRA VERSÃO ANO I, Nº22 - OUTUBRO - PORTO VELHO, 2001 VOLUME II ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS - História ARNEIDE CEMIN - Antropologia FABÍOLA LINS CALDAS - História JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL - Geografia MIGUEL NENEVÉ - Letras VALDEMIR MIOTELLO - Filosofia Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times DO TEXTO AO HIPERTEXTO New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” deverão ser encaminhados para e-mail: DA LEITURA À HIPERLEITURA nilson@unir.br CAIXA POSTAL 775 ALBERTO LINS CALDAS CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA 25
  • 26. Alberto Lins Caldas DO TEXTO AO HIPERTEXTO Professor de Teoria da História DA LEITURA À HIPERLEITURA caldas@unir.br (...) quando um Coelho Branco (...) passou a correr (...). Não era assim uma coisa muito notável (...). Mas quando o Coelho tirou mesmo o relógio da algibeira do colete (...) Alice levantou-se como uma mola; (...) os coelhos não costumam andar de colete nem de relógio. A arder de curiosidade, correu pelos campos (...) atrás do Coelho e só teve tempo de o ver enfiar-se num grande buraco. (...) Alice pôs-se atrás dele (...) o buraco era direito como um túnel (...) parecia um poço profundíssimo (...) ou o poço era muito fundo ou então o tombo de Alice era muito devagar. (...) olhou depois para as paredes do poço e reparou que estavam cheias de armários e prateleiras, com mapas e gravuras pendurados. (...) Fundo, fundo, cada vez mais fundo. Alice no País das Maravilhas Lewis Carroll O hipertexto, conquista e desnudamento dos instáveis labirintos do texto, chama certo tipo de leitura/interpretação por se expor sedutoramente como auto- organização, afastando a ilusão científica das Lingüísticas e Ciências Humanas, indo além dos constrangimentos da voz num convite aos desvios infindáveis, às dessimetrias, às simetrias assimétricas, às instabilidades, às dissipações da leitura/leitor: emaranhado entre as vidas da experiência, as vidas da cultura e as vidas ficcionais [sem a Fé, sem a confiança num Deus (eixo de Dostoievski), numa Escrita, num Livro, numa História, e num Homem, todas as forças são centrí-fugas, se mantendo o “conjunto”, o “sistema”, a “estrutura” da mesma maneira que o hipertexto, fluindo (aceitando flu-ir), se perdendo, se reorganizando a cada momento, sem Saber ou Natureza que o justifique, que o explique, que o retenha, que o retese]. Hipertextualizar não é concentrar, mas espalhar, dilatar em todas as direções: onívoro e carnavalizado: como o caminhante de Rousseau que se deliciava com idéias, imagens e sensações [o solitário enfrentando o silêncio e a incompreensão: a descorporificação do corpo: o deslimite como prazer: mais um corpo ainda preso às dicotomias naturalizantes do eu-mundo, interior-exterior, sociedade-natureza, presente-passado: o sofrimento de Rousseau: somente um “cidadão” incompreendido; um “ser natural” irrealizado; um adolescente velho] ou o flaneur de Baudelaire dispersava-se nas ruas da cidade, devorando-a sempre outra, com calma e multidão [sem domínio e sem exatidão, pensando-se livre da casa, do lar e do pequeno destino: sempre e ainda vestido do seu tempo, do seu limite, do seu ar, mas já em dissolução, atravessado de dúvidas, camaleão em nascimento, polpa moderna em formação, começo e fim de certo homem]. Vagabundear nas internetes, nas bibliotecas ou nos livros; nos sonhos, nas interioridades, devaneios ou imagens; não é dominar esses espaços, não é inscrever essa face, esse nome, esse corpo, essa ilusão de poder [a ISSN 1517 - 5421 26
  • 27. inscrição textual]: é dissolvê-los, vê-los como intertextos em fluxo: interatividade essencial: além do limite, incompletos, sempre incompletos: cada “instante” é um verbete, um link, um buraco de coelho: além da identidade, em plena diferença e desejo. Não mais uma máquina, mas um fora que é um dentro: a virtualidade computacional exterioriza o “mecanismo de funcionamento” daquilo que nos faz ser. Haver alargado, complexificado, ficcionalizado a virtualidade é aquilo que nos cria ao pormo-nos a fluir, esse flu-ir que somos nós, mesmo ao nos cristalizamos numa “cultura” ou num “momento cultural”, num “estágio evolutivo”, ou “momento histórico”, numa forma, maneira, sistema, estrutura, modelo, sociedade ou linguagem. Entrar no hipertexto é se estender e se espalhar nos meandros que nós mesmos vamos criando com um caminhamento que vai prendendo e soltando, atando e desatando, trazendo e levando, inspirando e expirando. O hipertexto é esse caminhamento, movimento de criação que existe somente enquanto espaço de desvios, sem suporte (ilusão naturalista), sem teto (recurso religioso), sem solo (artifício arquitetônico) e sem nome (a questão do autor e do leitor: Deus e a Natureza: a escrita e o suporte: o nome e a nominação) [há um poder fechando o texto, dobrando a interpretação, disciplinando os fluxos, garantindo os sentidos, falsificando as multiplicidades, resolvendo as contradições, freando as polifonias, criando fantasmas [“temporários” invisíveis, “por baixo” do visível do programa] dóceis do texto (que não aparece como hipertexto, mas simplesmente como texto, como aquilo que pode, mas não deve ser ilimitado)]. A hiperleitura, como o próprio “existir humano”, não se conclui, não termina, não “fecha o ponto”: ao pensarmos o começo estamos no fim: ao pensarmos o fim estamos no começo, e fim e começo são somente momentos de um meio que deságua, deságua sempre numa rede sem entrada e sem saída, sem estrutura e móvel nos infinitos desvios sinuosos: hemorragia das identidades: qualquer ponto final é ilusão textual. Mas o hipertexto não é feito de “páginas encadeadas”, textos que levam a outros textos: esta é a mecânica hipertextual, aquilo que é a visibilidade do hipertexto [o que conseguimos ver embriagados da milenar experiência do texto]: torná-lo uma enciclopédia faz parte das astúcias sobreviventes dos procedimentos da leitura, da escrita e da interpretação do texto: o hipertexto é a própria hiperleitura em seu movimento, em seu momento; o resíduo é a mecânica hipertextual: aquilo que fica no caminho é a rede e sua visibilidade textual [sempre pronta para reiniciar percursos]: a hiperleitura está sempre depois da materialidade textual sentida como mostruário, arquivo, biblioteca, “série de textos”: é por isso que o visível do hipertexto se parece com um encadeamento de simples textos, verbetes, comentários, notas: o hipertexto não está no fluxograma, mas no fluxo que se dissipa e se auto-recria. A rosácea em metástase, a rede, é a ilusão imóvel do movimento hipertextual; aquilo que fica é somente um encadeamento morto de textos: o hipertexto é o movimento que já atravessou a rede criando outros movimentos [assim como o livro é somente a carcaça do Livro; aquilo que atravessa: e a hiperleitura é aquilo que é somente enquanto é atravessado, enquanto é dito/escrito/inscrito]. O hipertexto exige, mais do que na tradicional “leitura do texto” [a hiperleitura se faz para dentro e para fora, modificando-os], uma atenção dispersiva, uma ação de hachi [não de garfo e faca: instrumentos de análise: linguagens, gestos e instrumentos de certa cozinha científica e filosófica]: o hipertexto ao fluir conosco como máquina caótica, heterogeneidades e diferenças, põe a fluir as imobilidades falsas da “página”, do “corpo”, da “leitura” (o dentro - o fora): ao acompanharmos o fluxo, as linhas de fuga, os alargamentos dos horizontes, as expansões, nos tornamos mais que leitores, mas o que sempre fomos e não víamos: hiperleitores escondidos 27
  • 28. tanto pela escrita religiosa (científica, filosófica, técnica), quanto pela leitura de prazer. E nosso corpo tradicional também se multiplica: não mais um só olhar, um devaneio metodológico, um corpo anatômico [esquecido que o anatômico é hipertexto, é “criação histórica”, é momento da “tribo ocidental” e não “realidade biológica”, sequer uma “hegemonia tribal”], mas virtual numa busca que dispersa o fascismo monofônico da unidade e da identidade: somos e sempre fomos legião: a voz única, o único corpo, a escrita centrada são efeitos de discursos, cristalizações virtuais e não “realidade natural” [nossa grande criação: nosso “meio natural”: linguagens cristalizadas: pele, cútis, crosta: cosmética fundacional esquecida de si mesma: toda “estrutura científica da realidade” é tão somente uma “dobra material” [a virtualidade se apresentando como realidade; o concreto como fundamento: a pele como o real], isto é, algo que esconde o virtual, criando uma “sociedade regida por leis”, uma Natureza material: a compreensão virtual do mundo repolitiza o olhar para esses encobrimentos que não nos deixam ver que o mundo é mais fácil (ou mais difícil!) de revolucionar do que sempre teorizou nossa filosofia vã.]. A leitura/interpretação nunca foi “ato acabado”, é verdade, mas sempre tendeu a uma “conclusão”, a um “fechamento”, a um “acerto”, a uma “representação” [com uma linguagem própria, com idéias compatíveis, gestos tradicionais e normas convencionais: atividade disciplinada e disciplinar] curvando-se sobre si mesma; alegorizando como afastamento, mas sempre dentro do conhecido e respeitável; enquadrada por sintaxes e gramáticas fundadas no sujeito ocidental, cristão, burguês, universal e naturalmente histórico; criando conteúdos, matérias, objetos que alinhassem sua função, seu deleite; aceitando a “resistência dos materiais” sem avaliar completamente o próprio material da resistência como constitutiva, ou quase aparente, da leitura enquanto aquilo que naturaliza para se realizar na ação mesma de ler; não como uma reescritura que põe dessimetrias no limite de certos fluxos, mas como movimento eternamente tendendo ao circular [a leitura sempre diz dizer o mesmo, sempre deseja dizer o mesmo (sempre proclamando o diferente), reforçando identidades e criando uma aparência hipócrita de deslimite, de deslize, quando criava e cria tão somente notas, comentários, relações, comparações, divagações: glosas somente gulosas: diz aquilo-que-encontra, aquilo-que-está-lá, o existente: o piccolo mondo do antigo “pequeno-burguês” se transformando no Universo “único e possível”]. Da mesma maneira que sempre lemos o mesmo livro de formas diferentes (sentindo que não há um livro único, uma mesma matéria, mas movimento de reescritura, recombinações), sempre e novamente reformatado por nós, resignificado, o hipertexto ao não esconder que é sempre algo-se-fazendo e não algo-feito, algo que difere e somente diferindo existe [da mesma maneira que somos nós: mantemos o idêntico reconvertendo a diferença como se ela não existisse ou significasse], supera as ilusões tanto da autoria e do leitor quanto do suporte e do “texto crítico”, exigindo com isso outra maneira de pensar e escrever. A transformação do texto em hipertexto, dissolução daquilo que entendíamos como “suporte”, limite e leitura, exige também e tanto a multiplicação da “voz hermenêutica” quanto a do “tecido crítico”. Uma só linha, um só movimento, um só desdobramento, uma só temporalidade, uma só lógica, um só autor, um só método são suficientes somente para permitir ao texto unidimensões, pouco movimento, ações de engessamento e articulações tradicionais: leitura daquilo que está-no-texto, aceitando a seleção sob um nome, um corpo, uma voz. Torna-se claro que é preciso mover (ler, interpretar, analisar, escrever, surfar, deslizar, diferir) o hipertexto de maneiras diferentes do texto. Mas esbarramos em limites que não são somente limites da interpretação/leitura, mas limites fundamentais do imaginário e as regras dos 28
  • 29. antigos suportes e das maneiras como tínhamos para fazê-los “funcionar”: lemos, escrevemos e refletimos com o hipertexto de uma maneira completamente diversa do texto [apesar do hipertexto haver desvendado o mistério do texto: todo texto sempre foi hipertexto: o texto é um momento de certa leitura e da visibilidade do hipertexto: uma dobra hipertextual: uma cristalização hipertextual, assim como o corpo é somente momento de certa virtualidade]. O hipertexto (diferente do texto, não sendo também uma “nova forma de produzir, armazenar e consumir informações”, um além do texto), é forma de virtualidade singular, holograma polidimensional em constante crescimento e convulsão de infindáveis formigueiros; atmosfera virtual; fluxo de múltiplos “universos” se ligando a outros múltiplos “universos” além, antes, depois, dentro e a “universo” algum. A conexão entre esses “universos” não sendo objetiva, natural, histórica, social, cartográfica, mas virtual, se faz por “buracos de coelho” em fluxos e interpenetrações, como em Alice no País das Maravilhas. Sendo assim, comunga (esp[e- a]lha, re/produz, imita, possibilita) com a “natureza” da pele virtual que cobre o caos e que chamamos o real/o concreto [: o real é hipertextual: não somente enquanto ser mas enquanto “vida social”, fluxo comunitário, manutenção e suporte]. [Enquanto é possível se fazer um mapa do texto, com o hipertexto isso seria absolutamente impossível (o hipertexto não é somente um labirinto, mas um encadeamento multidimensional de labirintos que se confunde com o escrito, o falado, o vivido, o inventado, o humano e o próprio existente). Um mapa exige constância, limite, código, algo que jamais está-lá, representando somente seus próprios códigos, apresentando somente a si mesmo: algo que esteja continuamente se desconfigurando e reconfigurando pode somente ilusoriamente pensar uma cartografia, um fluxograma, uma maquete, um modelo, um esqueleto, um projeto, uma analítica. Uma ciência do hipertexto seria absolutamente ridícula, possível somente enquanto redução do hipertexto ao texto, da hiperleitura à leitura (nunca a leitura como reescritura). A “leitura científica do texto”, a “leitura ideológica do texto”, a “leitura religiosa do texto”, a “leitura filosófica do texto”, a “leitura política do texto” são tão somente regulamentações de um jogo pre[s]escrito, com regras bem delimitadas dando a impressão de não caberem em si: tudo pre-figurações onto- lógicas da nossa ocidental maneira de existir]. O hipertexto (como um além do texto, pois desnaturalizado, posto fora da competência, do corpo, do mesmo e do Estado) é verdadeiro e falso ao mesmo tempo: nele está e não está todos os outros hipertextos, todos os possíveis buracos de coelho. No texto, para que houvesse uma leitura, uma verdade, uma realidade (coisas estranhas ao hipertexto) foi e é preciso que exista um Deus, uma Natureza, uma Realidade, uma Cultura, um Tempo, uma Verdade, uma Linguagem, uma Língua, um Dinheiro, um Leitor, um Código, uma Identidade, um Suporte, um Homem, uma Crítica, uma Disciplina: a “superinterpretação”, horror de todo limite tornado texto, o horror de Umberto Eco, é a própria essência desvendada tanto da linguagem [que é o próprio ser da virtualidade: modulações, ritmos, seleções, ordenamentos, limitações, regras que aparecem separadas das suas cristalizações, aparece como objeto, como algo-que-diz-o-ser e não como o próprio ser na sua dimensão de existir] quanto de qualquer “texto” (hipertexto), que não tem dentro nem fora; não é em camadas, em planos; não tem origem ou função; não é corpo nem espírito. Sendo fluxo polidimensional sem domínio não é “folha de papel” ou “tela de computador, não são “palavras escritas”, não são “palavras”, “frases”, “imagens”, pixels. Todas as dimensões do hipertexto se cruzam, se interligam, interagem, procriam, destroem-se, completam-se sem cessar numa dimensão virótica, cancerígena, 29
  • 30. pestilenta: o horror dos baudrilards [: a ocidentalidade se apavora quando diante da alteridade, da diferença, da incomunicabilidade, da intraduzibilidade entre seres e mundo, entre tribos e linguagens, entre corpos e almas, entre presentes e passados]. Dessa maneira, a própria interpretação deve seguir a tendência de desdobramento hipertextual: a interpretação torna-se também hipertexto, pondo-se e transpondo, em todos os “elementos” possíveis e impossíveis, a si mesmo e ao hipertexto. Como virtualidade o hipertexto é rede, campo multidimensional conectado a outras redes, outros campos multidimensionais, outras atmosferas, todos instáveis e em movimentos diferentes em si mesmo. A interpretação deve fazer fluir os campos vivos do hipertexto e todos os campos que se conectam a ele, em novos hipertextos, conflituando e multiplicando assim seus estilos, objetos, perspectivas, tempos, vozes, leituras, tornando-se também interdimensional: multiplica-se para fazer fluir criando e recriando as multidimensões do hipertexto: hipertextualizando-se, o texto crítico perde sua lógica e sua pretensão a uma linguagem científica [como se fosse possível haver alguma “linguagem científica”, a não ser enquanto ilusão de certo discurso!], seus tradicionais limites, tornando-se, enfim, também “texto literário”: o texto crítico sobre o hipertexto passa a fazer parte da hipertextualidade do hipertexto analisado e vice-versa, aceitando o inconcluso e o ilimitado como uma das suas “maneiras de ser”. O hipertexto, como qualquer “texto literário”, é o não-lugar, o inominável, o intocado, o intraduzível, o entre-mundos: exatamente porque é o lugar do fluxo, o traço da negatividade, o deslocamento do “sujeito humano universal” para os devires. Onde o universal, o nacional, o natural não se realiza, não se completa, não convence. [O hipertexto e sua reescritura são a própria essência do literário, daí porque nenhuma teoria conseguiu desvendá-lo, apreende-lo, explicá-lo: a “literatura” está sempre depois das linguagens estruturadas, saturadas de teoria, de mesmidade, de conformismo, de enquadramento. Ao mesmo tempo, o “literário” do hipertexto aponta para outra questão: ao não ser limite, objeto, coisa natural; ao não “provir” de nenhum “campo natural” (mas natural porque naturalizado!), o contexto, o meio histórico, a autoria, a formação discursiva, a ideologia, a classe social como fundamentos, como essência, como apoio teórico, como crítica, como explicação desaparecem, tornam-se momentos discursivos sobre o texto entendido como tecido, com bordas, centro, utilidade e posição num espaço-tempo: instituição com suas regras, matérias, verdades e mentiras, dizeres e não dizeres, poderes e não poderes. O hipertexto não é discurso, mas fluxo discursivo que é “utilizado” conforme sua produção, circulação, consumo: seu caráter (se tornar discurso) é dado segundo sua apreensão: é a apreensão que condiciona a força interna de configuração e expansão: é ela que cristaliza o fluxo em discurso, o flu-ir em estrutura, os devires em disciplina e corpo.] O hipertexto conecta seus elementos através da leitura/escrita, mas essas conexões não são objetivas, reais, palpáveis: elas não “pertencem ao texto” mas a leitura/escrita, à interpretação, ao espaço entre hipertextos, aos campos entre os “buracos de coelho”. É a leitura/escrita que multiplica e faz fluir o hipertexto: em si mesmo ele não é, ele não é nada. Ou melhor, sendo fruto da escrita/leitura, sendo leitura viva, o hipertexto é possibilidade indeterminada do fluir: basta dar o primeiro passo: saltos e quedas, subidas e descidas no hiperespaço. Todas as “teorias” podem e devem ser chamadas ao mesmo tempo para dialogarem com as instâncias hipertextuais. Cada momento dos desdobramentos é desdobrado por uma idéia diferente, por um mundo da leitura diferente, por vozes diferentes, por diferentes autores, diferentes tempos e experiências, diferentes 30
  • 31. métodos, procedimentos, teorias, principalmente porque o hipertexto não-existe: desnaturalizado, desistoricizado, fora da “sociedade”, o hipertexto se faz provisoriamente nos fluxos da hiperleitura e é dessa mesma maneira que o texto reflexivo, analítico, teórico pode alcançar sua “função”, seu “objeto”, sua “matéria”. É próprio da hiperleitura criar deslizamentos anacrônicos (sem dizer que “existe” no “texto”, na “época” ou no “autor”). Sem anacronismo não haveria hiperleitura (movimento): sem a justaposição de enganos, ilusões, inarticulações; sem o diálogo entre fantasmas, corpos, matérias, sensibilidades distantes no tempo, no texto, na palavra; sem a separação daquilo que está unido, articulado, em ordem; sem alteridade se unindo e egos se desdobrando nenhuma leitura se realiza, nenhuma interpretação é possível [nenhuma “unidade textual” é possível a não ser enquanto naturalização]. A leitura é sempre uma leitura de enquadramento. Exige um autor, uma instituição, uma sociedade, uma história, um homem; um saber que delimite e conheça os códigos; uma matéria, uma competência, uma sincronia; um jogo com regras; poderes e espaços próprios. O hipertexto é tapeçaria holográfica, “terreno poroso” (pântanos, areias movediças, labirintos, rizomas: pesadelos e sonhos: a passagem de um movimento, um ritmo, de sincronias diacrônicas) onde o leitor-coelho (o hiperleitor) fura seus buracos e galerias, sem que isso esteja no hipertexto, mas somente nos “formigueiros” em fluxos procriativos. Esses buracos e galerias não preexistem no hipertexto como materialidade textual (sentido, significado, código, signo, materialidades), mas como possibilidades virtuais, isto é, o hipertexto, sendo polidimensional, só pode ser lido/compreendido multidimensionalmente, mesmo que aparentemente siga um único método, uma única lógica, um único autor ou “escola interpretativa”: sem ser hipertextual a dimensão crítica não consegue ler o hipertexto, precisando torna-lo sempre, e camufladamente, texto: o hipertexto exige tanto uma hiperleitura quanto uma “análise hipertextual”. Lewis Carroll em Alice no País das Maravilhas nos aponta movimentos nesse jogo, nessa viagem, nessa inesgotável reescritura: quando um Coelho Branco passou a correr: o coelho branco é a hiperligação, o punctum bartesiano que nos arrasta por passar correndo: esse passar, esse flu-ir já é por ter se configurado a rede: o que se põe a flu-ir não é mais um simples ponto, mas o próprio ponto, o buraco de coelho e aquilo que se descortinará em relação: o coelho aqui inicia a história (a hiperligação, a rede, os fluxos) enquanto hiperleitura: sempre fluxo textual mais amplo que ela mesma, vomitando e devorando, gritando e sussurrando criando e recriando, pondo e dispondo, sendo somente enquanto rede de devires: e com isso atrai todas as imagens do passar, do correr, dos coelhos brancos e tudo que nascer/procriar dessas “recordações”; Não era assim uma coisa muito notável: nunca é coisa notável: qualquer ponto aleatório se conecta a outro ponto aleatório (na hiperleitura) criando outro plano: a hiperleitura cria e abre articulações em movimento que unem e desunem o sentimental, o singular, as impressões, o emocional, os sentidos, os desejos, os sonhos, as memórias, as insignificâncias, os cotidianos à tradição, à cultura, ao pensamento, aos métodos, às disciplinas, ao escrito e à escrita, ao lido: ler-escrever-criar: hipertexto/hiperleitura; Mas quando o Coelho tirou mesmo o relógio da algibeira do colete Alice levantou-se como uma mola: o hermeneuta deve estar atento e “levantar como uma mola” atrás dos seus traços (talvez os punctum e os biografemas de Barthes, ou as clivagens de Bachelard) assim que seja acionado, buscando não somente as “visões de conjunto”, a “filosofia do texto” ou mesmo as microgramáticas [ponto hipnótico de certas Análises do Discurso] mas um processo de imersão e submersão, expandindo o minúsculo e miniaturizando o amplo: atraindo “visões de mundo”, mitologias, religiões, 31