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Areflexofilosfica 120219080955-phpapp01 (2)

  1. 1. A REFLEXÃOFILOSÓFICA O QUE É FILOSOFIA? Prof. Marcelo Boia
  2. 2. Antes de respondermos a essa pergunta, vamos partirpara outro questionamento: o que é filosofar? De maneirageral, pode-se dizer que, por sermos pessoas racionais esensíveis, procuramos sempre atribuir sentido às coisas. Aesse filosofar espontâneo de todos nós poderíamoschamar filosofia de vida.
  3. 3. Então as questões filosóficas fazem parte do nossocotidiano? Fazem sim. Quando decidimos votar nocandidato de um partido político e não de outro; quandodeixamos o emprego bem pago por outro não tão bemremunerado, se bem mais atraente; quando altemamos ajornada de trabalho com a prática de esporte ou com adecisão de ficar em casa assistindo à tv, e assim pordiante. E preciso reconhecer que existem critérios bemdiferentes fundamentando tais decisões.
  4. 4. A propósito desse assunto, o filósofo italiano AntonioGramsci diz: “não se pode pensar em nenhum homem quenão seja também filósofo, que não pense, precisamenteporque pensar é próprio do homem como tal”.
  5. 5. A filosofia de vida não se confunde com o tipo de reflexãodo filósofo, porque este conhece a história da filosofia esempre levanta problemas que tenta resolver por meio deargumentos e conceitos rigorosos, que vão além dosimples bom senso, além do que chamamos filosofia devida. Talvez você esteja se perguntando: como entãodefinir o que é filosofia?
  6. 6. Comecemos por uma citação do filósofo alemãocontemporâneo EdmundHusserl: “O que pretendo sob o título de filosofia, como fim ecampo das minhas elaborações, sei-o, naturalmente. Econtudo não o sei... Qual o pensador para quem, na suavida de filósofo, a filosofia deixou de ser um enigma?... Sóos pensadores secundários que, na verdade, não sepodem chamar filósofos, estão contentes com as suasdefinições”.
  7. 7. O que Husserl quer dizer? Que a pergunta “O que é afilosofia?” desencadeia por si mesma uma questãofilosófica. Ainda assim, os pensadores arriscam darrespostas, sabendo que são sempre provisórias, porque seaproximam do conceito de filosofia de modo tateante paraexaminar suas características.
  8. 8. Pitágoras (século VI a.C.), um dos mais antigospensadores gregos, teria usado pela primeira vez a palavrafilosofia (philo-sophia) , que significa amor a sabedoria. Poressa razão, a filosofia não é pura racionalidade, mas aprocura amorosa da verdade.
  9. 9. Muitos identificam a filosofia como uma atividade racional eteórica, mas isso não significa que ela esteja à margem domundo, nem que constitua uma doutrina, um saberacabado, ou que seja um conjunto de conhecimentosincontestáveis.
  10. 10. À primeira vista, entendemos a filosofia comoalgo enigmático, profundamente abstrato edistante da realidade. Essa visão da filosofiadecorre dos complexos trabalhos depensadores que, ao longo da história, refletirame buscaram diferentes respostas sobrequestões que continuamente fazemos ao longode nossa existência. Indagações sobre oconhecimento, sobre os valores, sobre anatureza, sobre a beleza, sobre o homem.
  11. 11. Essas inquietações decorrem da necessidadeque todo ser humano tem de compreender osignificado do mundo e de si mesmo. Na buscadessa compreensão criamos novossignificados, questionando e tecendo uma teiade relações cada vez mais abrangentes que nosindiquem respostas, mesmo que provisórias.
  12. 12. Desta forma, o primeiro passo para afilosofia é a inquietação que conduzao questionamento. O objeto dafilosofia é a reflexão, o movimento dopensamento que nos permiterecuar, nos distanciarmos dos fatosaparentemente banais parabuscarmos seus fundamentos.
  13. 13. Pelo contrário, a filosofia pressupõe constantedisponibilidade para a indagação. Por isso, segundoPlatão, a primeira virtude do filósofo é admirar-se, sercapaz de se surpreender com o óbvio e questionar o que jáexiste como verdade. Essa é a condição paraproblematizar, o que marca a filosofia não como posse daverdade, e sim como sua busca.
  14. 14. Kant, filósofo alemão do século XVIII, assim se refere aofilosofar:(...) não é possível aprender qualquer filosofia; só épossível aprender a filosofar, ou seja, exercitar o talento darazão, fazendo-a seguir os seus princípios universais emcertas tentativas filosóficas já existentes, mas semprereservando à razão o direito de investigar aquelesprincípios até mesmo em suas fontes, confirmando-os ourejeitando-os”.KANT, lmmanuel. Critica da razão pura. São Paulo: Abril
  15. 15. Podemos dizer então que filosofia é sobretudo umaatitude, um pensar permanente. É uma experiênciadiferente de um olhar sobre o mundo, no sentido desempre questionar o já sabido.
  16. 16. O filosofarA filosofia surge quando o pensar é posto emcausa, tomando-se objeto de reflexão. Não setrata, porém, de qualquer reflexão.Examinemos a palavra reflexão: quando vemos nossaimagem refletida no espelho, há um“desdobramento”, porque estamos aqui e estamoslá. Refletida pela luz, ela vai até o espelho e retorna— reflectere, em latim, significa fazerretroceder, voltar atrás, Portanto refletir é retomar opróprio pensamento, pensar o já pensado, voltarpara si mesmo e questionar o já conhecido.
  17. 17. Características do pensamento filosóficoO filósofo brasileiro Dermeval Saviani (no livro Educaçãobrasileira: estrutura e sistema), na tentativa de seaproximar de uma definição possível, conceitua a filosofiacomo uma reflexão radical, rigorosa e de conjunto sobre osproblemas que a realidade apresenta.
  18. 18. RadicalEm latim, radix, radicis significa raiz e, em sentidofigurado, quer dizer fundamento, base. A filosofiaé, pois, radical, não no sentido corriqueiro de serinflexível— nesse caso seria a antifilosofia!, mas porque buscaexplicitar os conceitos fundamentais usados em todosos campos do pensar e do agir. Por exemplo, afilosofia das ciências examina os pressupostos dosaber cientifico: é ela que define o que éciência, como a ciência se distingue da filosofia e deoutros tipos de saber, quais são as características dosdiversos métodos científicos, qual a dimensão deverdade das teorias científicas e assim por diante. Omesmo se dá com a psicologia, ao abordar oconceito de liberdade: indagar se o ser humano élivre ou determinado já é fazer filosofia.
  19. 19. RigorosaSão inúmeros os métodos filosóficos em que se apóiam ospensadores para desenvolver um pensamentorigoroso, justificado por argumentos, coerente em suasdiversas partes e sistemático, O filósofo usa de linguagemrigorosa para evitar as ambigüidades das expressõescotidianas, o que lhe permite discutir com outros filósofos apartir de conceitos claramente definidos. Por isso semprecria expressões novas ou altera o sentido de palavrasusuais. Por exemplo, Platão criou o conceito eidos, quesignifica “idéia”, para referir-se à intuiçãointelectual, distinta da intuição sensível.
  20. 20. No entanto, o conceito de idéia seria reinventado aolongo da história da filosofia, assumindo conotaçõesdiferentes em Descartes, Kant, Hegel e assim pordiante. Enquanto a “filosofia de vida” não leva asconclusões até as últimas consequências e nemsempre examina os fundamentos delas, o filósofoespecialista deve dispor de um método claramenteexplicitado a fim de proceder com rigor. É assim quese inovam os caminhos de reflexão, tal como ofizeramPlatão, Descartes, Espinosa, Kant, Hegel, Husserl, Wittgenstein.
  21. 21. De conjuntoA filosofia é de conjunto, globalizante, porque examina osproblemas relacionando os diversos aspectos entre si.Nesse sentido, a filosofia visa ao todo, à totalidade. Maisainda, o objeto da filosofia é tudo, porque nada escapa aseu interesse.
  22. 22. Por exemplo, o filósofo se debruça sobre assuntos tãodiferentes como a moral, a política, a ciência, omito, a religião, o cômico, a arte, a técnica, aeducação e tantos outros. Daí seu carátertransdisciplinar, por ser capaz de estabelecer o eloentre as diversas expressões do saber e do agir. Porexemplo, o avanço da biologia genética desperta adiscussão filosófica da bioética; a produção artísticaprovoca a reflexão estética e assim por diante.
  23. 23. ReflitaVocê já ouviu falar em ética aplicada? É um ramocontemporâneo da filosofia que discute problemasde natureza prática que, por sua vez, exigemjustificação racional. É o caso da nossaresponsabilidade pera preservaçao da naturezadiscutida na etica amblental.
  24. 24. Para que serve a filosofia?Há quem zombe da filosofia por considerá-la umsaber inútil. Afinal, ela é ou não é útil?
  25. 25. Vivemos num mundo que valoriza pragmaticamenteas aplicações imediatistas do conhecimento. O sensocomum aplaude a pesquisa científica que visa à curado câncer ou da aids; a matemática no ensinomédio é considerada importante porque é exigida novestibular; a formação técnica do advogado, doengenheiro ou das disciplinas está voltada para oexercício de determinada atividade prática.Resultado: não é raro que o estudante se pergunte“Para que estudar filosofia se não vou precisar delana minha profissão ?”
  26. 26. A necessidade da filosofiaDe acordo com essa linha de pensamento, a filosofiaseria realmente “inútil”, já que não serve paranenhuma alteração imediata de ordem prática. Sobesse aspecto, ela é semelhante à arte. Seperguntarmos qual é a finalidade de uma obra dearte, veremos que ela tem um fim em si mesma.Entretanto, não ter utilidade imediata não significa serdesnecessário. E tanto a arte como a filosofia sãonecessárias.
  27. 27. Onde está a necessidade da filosofia? Está no fato deque, por meio da reflexão (aquele desdobrar-se, lembra-se?), a filosofia nos permite ter mais deuma dimensão, além da que é dada pelo agirimediato no qual o indivíduo prático se encontramergulhado. E assim se torna capaz de superar asituação dada e de “pensar o pensamento”. Afilosofia recupera o que foi perdido no imobilismo dascoisas feitas e, portanto, mortas, porque jáultrapassadas. A filosofia impede a estagnação.O filosofar sempre se confronta com o poder, e suainvestigação não fica alheia à ética e à política.
  28. 28. o que afirma o historiador da filosofia FrançoisChâtelet:“Desde que há Estado — da cidade grega àsburocracias contemporâneas—, a idéia de verdadesempre se voltou, finalmente, para o lado dospoderes (...). Por conseguinte, a contribuiçãoespecífica da filosofia que se coloca ao serviço daliberdade, de todas as liberdades, é a de minar, pelasanálises que ela opera e pelas ações quedesencadeia, as instituições repressivas esimplificadoras: quer se trate da ciência, doensino, da tradução, da pesquisa, da medicina, dafamilia, da polícia, do fato carcerário, dos sistemasburocráticos, o que importa é fazer aparecer amáscara, deslocá-la, arrancá-la...”(CHÂTELET, François. História da filosofia: idéias, doutrinas.Rio de Janeiro: Zahar, s. d., v. 8. p. 309.)
  29. 29. Atentando para a etimologia do vocábulo gregocorrespondente à verdade (alétheia), encontramos osentido de “desnudar”, porque a verdade consiste em pôra nu o que está escondido. A vocação do filósofo é odesvelamento do que está encoberto pelo costume, peloconvencional, pelo poder.Finalmente, a filosofia exige coragem. Filosofar não é umexercício puramente intelectual. Descobrir a verdade é tera coragem de enfrentar as formas estagnadas do poderque tentam manter o status quo, é aceitar o desafio damudança.É bem verdade, alguns dirão, sempre houve e haverápensadores que bajulam o poder e que emprestam suasvozes e argumentos para defender tiranos. Nessecaso, porém, estamos diante das fraquezas do serhumano, seja por estar sujeito a se enganar, seja porsucumbir ao temor ou ao desejo de prestígio e glória.
  30. 30. Um filósofoLembremos a figura de Sócrates. Viveu em Atenas noséculo V a.C. Dizem que era um homem feio, masquando falava, exercia estranho fascínio. Procuradopelos jovens, passava horas discutindo na praçapública. Interpelava os transeuntes, dizendo-seignorante, e fazia perguntas aos que julgavamentender determinado assunto. Ao final, o interlocutorconcluía não haver saída senão reconhecer aprópria ignorância. Dessa maneira, Sócratesconseguiu alguns discípulos, mas também rancorososinimigos.
  31. 31. Essa primeira parte do seu método, conhecida comoironia, consiste em destruir a ilusão do conhecimento.A ela se segue a maiêutica, centrada nainvestigação sobre os conceitos. O interessante nessemétodo é que nem sempre as discussões levam defato a uma conclusão efetiva. Sabemos disso nãopelo próprio Sócrates, que nunca escreveu livros, maspor seus discípulos, sobretudo Platão e Xenofonte.
  32. 32. O destino de Sócrates é conhecido: acusado decorromper a mocidade e negar os deuses oficiais dacidade, foi condenado à morte. A história de suadefesa e condenação à morte é contada no diálogode Platão, Defesa de Sócrates. Em outrodiálogo, Fédon, Platão relata como, na prisão, omestre discutia com os discípulos questões sobre aimortalidade da alma.
  33. 33. A partir desse relato, podemos fazer algumas observações:• Sócrates não está ensimesmado como um pensadoralheio ao mundo, e sim na praça pública.• Seu conhecimento não deriva de um saberacabado, porque é vivo e em processo de se fazer; e tempor conteúdo a experiência cotidiana.• Guia-se pelo princípio de que nada sabe e, dessaperplexidade primeira, inicia a interrogação e oquestionamento de tudo que parece óbvio.• Ao criticar o saber dogmático, não quer com isso dizerque ele próprio seja detentor de um saber. Desperta asconsciências adormecidas, mas não se considera umfarol que ilumina: o caminho novo deve ser construidopela discussao, que é intersubjetiva, e pela busca criativasdas soluções,• Sócrates é “subversivo” porque “desnorteia”, perturba a“ordem” do conhecer e do fazer e por isso incomodatanto os poderosos.
  34. 34. Sócrates e a filosofiaSe fizermos um paralelo entre Sócrates e afilosofia, concluiremos que o lugar da filosofia também éa praça pública, por isso sua vocação política. Porquealteradora da ordem, perturba, mesmo quando aspessoas se riem do filósofo ou o consideramsimplesmente inútil. Por via das dúvidas, oamordaçam, cortam o mal pela raiz, e até retiram afilosofia das escolas, como costuma acontecer nasditaduras. Mas há outras maneiras de “matar” afilosofia: quando a tomamos pensamento dogmático ediscurso do poder; ou, ainda, quando a consideramos“coisa do passado” ou “fora de moda”; ou quandocinicamente reabilitamos Sócrates morto, já que entãose tomou inofensivo.
  35. 35. Mais que um saber, a filosofia é urna atitude dianteda vida, tanto no dia-a-dia como nas situações-limiteque exigem decisões cruciais. Por isso, no encontrocom a tradição filosófica, é preferível não recebê-lapassivamente como um produto, como algoacabado, mas compreendê-la comoprocesso, reliexão crítica e autônoma a respeito darealidade.• Para Karl jaspers, filósofo alemão contemporâneo, a filosofia é a procura, mas nâo aposse da verdade, porque “fazer filosofia é estar a caminho; as perguntas em filosofia são mais essenciais que as respostas e cada resposta transforma-se numa nova pergunta”.
  36. 36. FonteAranha, Maria Lúcia de Arruda. Introdução àFilosofia, São Paulo: Moderna, 2008.

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