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SOELHA DE FÁTIMA CEDRAZ ALELUIAENTRE UMA MISSA DE GALO, A CARTOMANTE E OUTRAS       LEITURAS: DIÁLOGOS ENTRE TRADIÇÃO E   ...
Pensamentos valem e vivem pela observação exata ounova, pela reflexão aguda ou profunda; não menos querema originalidade, ...
Dedico com muito carinho esse trabalho a minha mestraEugênia Mateus, que se dedicou com muito amor, nãosomente como uma si...
AGRADECIMENTOS                 Agradeço primeiramente a meu grande companheiro, o                 meu Deus da vida, Ele qu...
RESUMOO desafio lançado aos contistas brasileiros Amador Ribeiro Neto, Lygia Fagundes Teles,Moacyr Scliar, Nelson de Olive...
RESUMENEl reto lanzado a los cuentistas brasileños Amador Ribeiro Neto, Lygia Fagundes Teles,Moacyr Scliar, Nelson de Oliv...
SUMÁRIOINTRODUÇÃO ...........................................................................................................
8INTRODUÇÃO                                            [...] o gênio não é uma longa paciência, é uma perseverante        ...
9se faz possível esse redimensionamento se alguns dos elementos narrativos podem ser outros?E mais: A reescritura dialógic...
10         A cartomancia às avessas: releituras machadianas pelos fios intertextuais intitula osegundo capítulo. Nesse blo...
111 ARTE LITERÁRIA: tradição e ruptura          A palavra tradição remonta uma história incompatível, ao menos, semanticam...
12contemporâneas dos contos machadianos incentivam a reatualização de discussões queatravessam o tempo e se renovam juntam...
13linguagem peculiar, encanta o leitor com sua beleza e com um colorido especial quetransforma a linguagem comum, utilizad...
14dos outros escritores, em sua escrita havia um estilo ímpar que o tornou marco na literaturabrasileira, como um divisor ...
15                           esforço. Ela envolve, em primeiro lugar, o sentido histórico, que podemos                    ...
16         O diálogo entre as obras se entrelaçam atribuindo-lhes novo vigor, novos olhares,novas perspectivas. Uma propri...
17         O escritor, embriagado das diversas vozes que cruzam no jogo dialógico e polifônicode suas leituras prepara-se ...
18         Um labirinto de enredos se desdobra num jogo de espelhos para os quais os leitoresse deparam e se revezam na pe...
19         Segundo o professor Cid Seixas, o conto não se esgota na fábula; ao contrário, é ummundo com suas próprias leis...
20haja vista sua independência e toda escrita ser resultante de leituras. O estilo perscrutador doolhar machadiano e a iro...
21Missa do Galo e A Cartomante, de Machado de Assis, revitalizam-se, rejuvenescem. Contudonão se afirma aqui que os textos...
22        Os contos machadianos são excepcionais. Neles, a leitura oscila entre expectativa,emoção e reflexão, além de per...
232 A CARTOMANCIA ÀS AVESSAS: Releituras machadianas pelos fios   intertextuais         O fluxo de ideias no imaginário cr...
24         A literatura atual está presenteada com a vasta fortuna clássica e canônica para serrevisitada sem se tornar na...
25imitações do fazer humano, pessoas em ação, sejam essas ações boas ou ruins, tudo éapreendido pela literatura para recri...
26Assis. Seu estilo provoca impacto, estranhamento, expectativas, pois não só traça diálogoscom outros autores de épocas d...
27         Os comportamentos humanos revisados e comprovados como aspecto intrínseco àsua natureza. A literatura, nesta re...
28despertar expectativas, ter excelência estética e originalidade, Bloom (2001, p. 33) ressaltaque “TODA ORIGINALIDADE lit...
29                        cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos                       ...
30estranhamento. A cada releitura que se faz é como se fosse a primeira leitura, tudo é novidade,são cenas inéditas a se p...
31sociedade, “o envolvimento amoroso entre duas pessoas” (tema universal), mas não se apegaa essa realidade, apenas recons...
32resíduos que representam a essência que faz parte do presente e não pode ser apagado. Muitasvezes, maqueia, reveste de n...
33                          O escritor é aquele que plagia, parodia, pasticha, monta e desmonta modelos,                  ...
34                       teve vontade de fazer-lhe cafuné, mas limitou-se ao abraço apertado, testa                       ...
35para o texto ações da vida humana, como faz o escritor, com seu dom de criar transpõe para aarte, o espetáculo de repres...
36                       anunciou que iria assistir a uma comédia, pediu-lhe que o levasse consigo.                       ...
373 AUMENTAM OS PONTOS, OS CONTOS, OS GALOS E AS  CARTOMANTES:leituras comparadas da reinvenção literária         Com quan...
38oportunidade e de tempo para se ler tudo: previsão (ou vidência?) bem anterior acontemporaneidade. Aparecem muitos galos...
39          Em Missa do Galo, de Machado, o narrador-personagem protagonista Nogueirarelembra um fato passado. O narrador ...
Entre missa de galo, a cartomante e outras leituras diálogos entre tradição e contemporaneidade
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  1. 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIVCOLEGIADO DE LETRAS COM HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURAS - LICENCIATURA SOELHA DE FÁTIMA CEDRAZ ALELUIAENTRE UMA MISSA DE GALO, A CARTOMANTE E OUTRAS LEITURAS: DIÁLOGOS ENTRE TRADIÇÃO E CONTEMPORANEIDADE Conceição do Coité 2012
  2. 2. SOELHA DE FÁTIMA CEDRAZ ALELUIAENTRE UMA MISSA DE GALO, A CARTOMANTE E OUTRAS LEITURAS: DIÁLOGOS ENTRE TRADIÇÃO E CONTEMPORANEIDADE Monografia apresentada ao Componente Curricular Seminário Interdisciplinar de Pesquisa VIII (SIP VIII), ministrado pelo Prof. Deijair Ferreira, como requisito obtenção de grau de Licenciatura em Letras com habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas e conclusão das atividades do semestre 2011.2, do Departamento de Educação, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB).. Orientadora: Profa. Ms. Eugênia Mateus de Souza Conceição do Coité 2010 Conceição do Coité 2012
  3. 3. Pensamentos valem e vivem pela observação exata ounova, pela reflexão aguda ou profunda; não menos querema originalidade, a simplicidade e a graça do dizer.(Machado de Assis)A grande literatura é apenas uma linguagem carregada desentido até ao mais elevado grau possível. (Ezra Pound)A literatura antecipa sempre a vida. Não a copia, amolda-aaos seus desígnios. (Oscar Wilde)A literatura nasce da literatura. Cada obra nova écontinuação, por consentimento ou contestação, das obrasanteriores. Escrever é, pois, dialogar com a literaturaanterior e com a contemporânea. (Leyla Perrone-Moisés)
  4. 4. Dedico com muito carinho esse trabalho a minha mestraEugênia Mateus, que se dedicou com muito amor, nãosomente como uma simples orientadora, mas como umamãe que ajuda seu filho a dá os primeiros passos. Semvocê minha eterna mestra, eu não teria alcançado o meuobjetivo.
  5. 5. AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente a meu grande companheiro, o meu Deus da vida, Ele que foi minha força, minha luz que guiou todos os meus passos durante essa grande jornada. Obrigada meu Senhor por depositar em mim a cada amanhecer a certeza que estará sempre ao meu lado. Agradeço a minha mãezinha querida, Maria Eliza, que acreditou que eu seria capaz de concluir esse trabalho, as minhas filhas, ao meu amor e a todos que contribuíram e que estiveram ao meu lado recarregando as minhas energias com seus carinhos, afagos, aconchego. A todos, muito obrigada por terem contribuído para a concretização do meu sonho!
  6. 6. RESUMOO desafio lançado aos contistas brasileiros Amador Ribeiro Neto, Lygia Fagundes Teles,Moacyr Scliar, Nelson de Oliveira, Deonísio da Silva, Glauco Mattoso e Ivana Arruda Leitede recriarem os contos machadianos, Missa do galo e A cartomante, tornou-se elemento depesquisa deste trabalho que, articulado com os estudos de Cortázar (1993), Moisés (1997),Hutcheon (1991; 1985), Schneider (1990), Jameson (2006; 1985), Kristeva (1974),Aristóteles; Horácio; Longino (2005), Barthes (2004), Bloom (2001; 2003), Brait (2005),Calvino (1993), Carvalhal (1992), Eagleton (2001), Eliot (1989), Gotlib (1990), Nejar (2011),Perrone-moisés (2005), Reis (1992), Rogel (2002), rendeu questões que se pretendemrespondidas, ao menos, inicialmente, neste trabalho inconcluso de pesquisa, mas que desafia anovos estudos. O passeio pela revisão crítica e pela fundamentação teórica permitiucompreender o quanto o talento individual se faz presente seja na tradição seja nacontemporaneidade e ainda que o inenarrável das cenas fografadas para os contos podem serrevitalizadas sem que a essência venha à camada superficial da escrita. O cruzamento entre“galos” e “cartomantes” rendeu ao imaginário contístico do pós-modernismo a fruição doprazer intertextual que mantiveram diálogos parodiados, pastichados em alusões favoráveis àcriação literária, De leitura e reinvenções literárias, enfim, a revisitação contemporâneaestabeleceu os diálogos esperados na pesquisa descrita e relatada nos capítulos deste trabalhoresultados de muita pesquisas bibliográficas.palavras-chave: Intertextualidade. Paródia. Pastiche.
  7. 7. RESUMENEl reto lanzado a los cuentistas brasileños Amador Ribeiro Neto, Lygia Fagundes Teles,Moacyr Scliar, Nelson de Oliveira, Deonísio da Silva, Glauco Mattoso y Ivana Arruda Leitede recrearen los cuentos machadianos, Missa do galo y A cartomante, se volvió elemento depesquisa de este trabajo que, articulado a los estudios de Cortázar (1993), Moisés (1997),Hutcheon (1991; 1985), Schneider (1990), Jameson (2006; 1985), Kristeva (1974),Aristóteles; Horácio; Longino (2005), Barthes (2004), Bloom (2001; 2003), Brait (2005),Calvino (1993), Carvalhal (1992), Eagleton (2001), Eliot (1989), Gotlib (1990), Nejar (2011),Perrone-moisés (2005), Reis, (1992), Rogel (2002) surgieron cuestiones que se creencontestadas, al menos, inicialmente, en esta sencilla obra, todavía inconclusa, pero queprovoca nuevos estudios. El viaje por la revisión crítica y por la fundamentación teóricapermitió la comprensión de como la capacidad de uno se hace presente, sea en la tradiciónsea en la contemporaneidad y,además, lo inefable de las escenas fotograbadas para loscuentos pueden ser revitalizadas sin que lo esencial se lo transborde a lo dicho. El cruce entre“gallos” y “pitonisas” dio a la imaginación cuentística del postmodernismo el goce del placerintertextual que mantuvieron diálogos con parodias y pastiches que aluden favorablemente ala creación literaria, de lectura y reinvenciones literarias, o sea, la revisitación contemporáneaestableció los diálogos esperados en la pesquisa descripta y referida en los capítulos de estetrabajo resultado de muchas pesquisas bibliográficas.palabras clave: Intertextualidad. Parodia. Pastiche.
  8. 8. SUMÁRIOINTRODUÇÃO ................................................................................................................. 081 ARTE LITERÁRIA: tradição e ruptura ............................................................... 111.1 “Não se sabe da missa a metade”: as polêmicas questões entre tradição, contemporaneidade/ruptura ....................................................................................... 121.2 “... muitos outros galos se cruzem” e teçam novos contos: a literatura comparada e suas contribuições ................................................................................................... 151.3 “Quem conta um conto, aumenta um ponto”: a imagem comparada na contística .... 182 A CARTOMANCIA ÀS AVESSAS: Releituras machadianas pelos fios intertextuais.............................................................................................................. 232.1 Recriação versus imitação: o difícil diálogo entre os textos .................................... 242.2 Simulações intertextuais como atualização de leituras canônicas ........................... 272.3 Pastiche, paródias e todos intertextos: a reinvenção literária ................................... 313 AUMENTAM OS PONTOS, OS CONTOS, OS GALOS E AS CARTOMANTES: leituras comparadas da reinvenção literária ....................... 373.1 Missa do Galo e outras missas ................................................................................. 383.2 A cartomante e outras fotografias ............................................................................ 463.3 Machado e sua tradição revisitada na contemporaneidade ...................................... 53CONCLUSÃO ................................................................................................................... 59REFERÊNCIAS
  9. 9. 8INTRODUÇÃO [...] o gênio não é uma longa paciência, é uma perseverante explosão (NEJAR, 2011, p. 155). A genialidade de cada artista desemboca em especificidades calculadasmilimetricamente em um estilo apurado desafiante e que desfila em páginas sedutoras àleitura. Esse critério poderia entrar para o julgamento de valor dos escritos literários. Orareconhece-se a genialidade do bruxo do Cosme Velho, como, pois, encontrar a originalidadedos escritores que o revisitam sem ao menos copiá-lo? Esta questão secular sobre plágio e cópia não descansa ao longo da existência dacrítica literária. Busca-se a diferença entre originalidade e cópia, não seria bem diferença, maselementos concernentes a um e outro (enquanto recriação) e aos dois ao mesmo tempo. Nos cem anos da morte de Machado, Rinaldo de Fernandes lançou a proposta a umasérie de escritores brasileiros. Do resultado, a motivação para esta pesquisa que, a partir daliteratura comparada, entrega-se aos diálogos entre os contos de Machado de Assis (Missa doGalo e A Cartomante) e os contemporâneos (Missa do Galo, Juca, Missa do Galo: um outroenfoque, Sonos leves, Os sinais do sobrenatural, O Podomante e O Goiabão) reescritos apartir da tradição. Impossível um estudo insipiente dissecar a temática, portanto, nadelimitação, restringe-se o estudo ao mapeamento dos elementos narrativos, sob a óticaintertextual e suas interfaces, como processo de ressignificação dos contos machadianosMissa do galo e A Cartomante, reescritos na contemporaneidade numa construção literário-dialogal. Dá-se o pontapé inicial ao projeto que lança o primeiro desafio – encontrar um títuloa incorporar o objeto de estudo, a proposta de trabalho e o método a guiar os trabalhos: “Entreuma Missa de Galo, A cartomante e outras leituras: diálogos entre tradição econtemporaneidade”. A problemática fora um despertar para a própria pesquisa. A pesquisacentrou interesse na procura de respostas: quais possibilidades encontraram esses escritorespós-modernistas para lançarem um outro olhar sobre os contos machadianos e os criaremainda assim outros contos também originais? Quais fatores levaram esses escritores à tessiturade narrativas com outros viéses de interpretação? Quais recursos intertextuais utilizaram? Aparódia? O pastiche? A alusão? Como os estilos realista e pós-modernista dialogam entre sinos contos em análise? Se o conto, como apresenta Cortázar, compara-se à fotografia, como
  10. 10. 9se faz possível esse redimensionamento se alguns dos elementos narrativos podem ser outros?E mais: A reescritura dialógico-literária desses contos torna-se cópia ou mais uma criaçãooriginal? Quando da organização da problemática, já se predefinira os objetivos da pesquisa:Mapear os elementos narrativos, sob a ótica intertextual e suas interfaces, como processo deressignificação dos contos machadianos Missa do Galo e A Cartomante, reescritos nacontemporaneidade por contistas brasileiros numa construção literário-dialogal. Pari passu,construir-se-ia o texto: para tanto a leitura e o fichamento a fim de organizar ideias e opiniõese, por fim, conceituar o conto sob ótica literária contemporânea em contraposição à literaturatradicional; comparar os contos mediante conceitos realista e pós-modernista; identificarelementos dialogais da narrativa contemporânea, sob a ótica intertextual do pastiche e daparódia nos contos estudados; analisar o processo de intertextualidade na construção doscontos selecionados com base em Machado de Assis; explicar o conceito de conto a partir dafotografia nesse processo intertextual de escrita com elementos narrativos diferentes e deépocas distintas; Revisar a literatura tradicional (Missa do Galo e A Cartomante, de Machadode Assis) a partir da reescrita contemporânea (Juca, Amador Ribeiro Neto; Missa do Galo, deLygia Fagundes Teles; Missa do galo: um outro enfoque, de Moacyr Scliar; Sonos leves, deNelson de Oliveira; Os sinais do sobrenatural, de Deonísio da Silva; O Pondomante, deGlauco Mattoso e o Goiabão de Ivana Arruda Leite) como processo de intertextualidadeprogramada, mas centrada na originalidade poética. Com fundamentação em Cortázar (1993), Moisés (1997), Hutcheon (1991; 1985),Schneider (1990), Jameson (2006; 1985), Kristeva (1974), Aristóteles; Horácio; Longino(2005), Barthes (2004), Bloom (2001; 2003), Brait (2005), Calvino (1993), Carvalhal (1992),Eagleton (2001), Eliot (1989), Gotlib (1990), Nejar (2011), Perrone-moisés (2005), Reis,(1992), Rogel (2002) e outros, a pesquisa se estrutura em três capítulos em busca deconfirmação ou refutação das possíveis respostas pensadas no início do projeto. No primeiro capítulo Arte literária: tradição e ruptura, discute-se a polêmicaentre a tradição e a contemporaneidade, como a literatura comparada intervém nesses estudosalém de ainda entender os (des)caminhos da criação como processo de atualização dosclássicos inclusive da revitalização do cânone. Essas discussões se apresentam organizadasem três seções: “Não se sabe da missa a metade”: as polêmicas questões entre tradição,contemporaneidade/ruptura; “... muitos outros galos se cruzem” e teçam novos contos: aliteratura comparada e suas contribuições; e, “Quem conta um conto, aumenta um ponto”: aimagem comparada na contística.
  11. 11. 10 A cartomancia às avessas: releituras machadianas pelos fios intertextuais intitula osegundo capítulo. Nesse bloco de estudos, aponta-se para conceitos sobre imitação, recriação,simulações, intertextualidade, pastiche, parodia e reinvenção literária como sistematizaçãopara o encaminhamento das análises comparadas entre os contos tradicionais machadianos e arecriação na contistica contemporânea. Assim, as seções seguem a ordem: Recriação versusimitação: o difícil diálogo entre os textos; Simulações intertextuais como atualização deleituras canônicas; e Pastiche, paródias e todos intertextos: a reinvenção literária. No terceiro capítulo Aumentam os pontos, os contos, os galos e as cartomantes:leituras comparadas da reinvenção literária, busca-se compreender, com base nafundamentação teórica selecionada, a recriação contemporânea dos contos machadianos;primeiro, Missa do galo, depois, A cartomante. Numa última abordagem, a apresentação doescritor tradicional comparado pela revisitação, espaço onde aparecem a biografia do contistascontemporâneos, em nota de rodapé, e o cruzamento de estilo. Todas estas abordagens seapresentam nas seções intituladas: Missa do Galo e outras missas; A cartomante e outrasfotografias; e, Machado e sua tradição revisitada na contemporaneidade. Quando da conclusão da pesquisa, entende-se melhor a citação de Nejar, posta comoepígrafe desta introdução. De fato, a genialidade se constrói ao longo de uma exercícioincansável que se destina ao estranhamento, elemento singular da literariedade.
  12. 12. 111 ARTE LITERÁRIA: tradição e ruptura A palavra tradição remonta uma história incompatível, ao menos, semanticamente, àmodernidade. Essa adversidade semântica apresenta fissuras cujos espaços ínfimos trazem apossibilidade de interrelação. A tradição narra um povo e um lugar na história; a modernidadelê e relê esta narrativa – a representação do novo. A ruptura de uma tradição – a tradiçãomediante ruptura. A singularidade da prática da literatura contemporânea renova o centro discursivodas críticas; ora a arte literária sempre se valeu do passado para sua (re)criação. O imagináriorealiza-se concernentemente à atualidade de quem escreve e de quem lê. A leitura do presenteou do passado referencia a escrita da nova obra. Os autores de literatura brasileira contemporânea vivem as exigências de umatradição e as tensões de personagens que, reflexos de um processo de migração, isolam-se ouassimilam sua nova condição. A reescrita choca-se com o enfrentamento de si mesma e dooutro – assimilação e ruptura. A travessia do passado para o presente lembra fissuras,mediante a interpretação secular sob um olhar crítico. As interseções fortalecem a necessidadede convivência entre tradição e ruptura. O tecido da ficção espelha-se no dicotômico par. Capitu mandou flores: contos para Machado de Assis nos 100 anos de sua mortereúne contos de Machado, reescritos por um conjunto de escritores brasileiros. Há caso demudanças textuais. Trata-se, pois, de arte e, mesmo através dos jogos intertextuais, continuamúnicas, singulares a sua própria existência, contudo.Machado de Assis desperta interesse peloseu olhar perscrutador sobre o existir humano, e a ironia – recurso recorrente em seus textos –destaca o retrato social e humano, material de investigação do escritor. Os autores1cujos contos são recriações de escritos machadianos fizeram narrativasinstigantes, mantiveram uma interdiscursividade2com o autor realista. As leituras1 Por opção, os comentários acerca desses escritores, sua biografia e algumas insinuações sobre seus estilosencontram-se no último capítulo, com o objetivo de deixar os leitores mais atentos a sua escrita narrativa (afábula) para, em seguida, compreender melhor suas interfaces literário-dialógicas com Machado de Assis quetem nesses novos contos, sua obra revisitada em Capitu mandou flores: contos para Machado de Assis nos 100anos de sua morte, livro organizado por Rinaldo de Fernandes (doutor em Teoria e História Literária pelaUNICAMP e professor de literatura brasileira (UFPE), dentre seus trabalhos, outras coletâneas: Contos cruéis:as narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea (2006), Quartas histórias: contos baseadosem narrativas de Guimarães Rosa (2006) e Capitu mandou flores: contos para Machado de Assis nos cem anosde sua morte (2008). Atualmente assina a coluna “Rodapé/Ponto de vista crítico” nos suplementos literáriosRascunho, de Curitiba, e Correio das Artes, de João Pessoa.2 Um diálogo vivo entre discursos combinados ou o modo de determinado discurso de constituir em relação aooutro. Em literatura, o termo é mais utilizado como intertextualidade. São os fios de base estrutural para aconstrução de qualquer discurso. A interdiscursividade interna depende de subsídios de redundância textual
  13. 13. 12contemporâneas dos contos machadianos incentivam a reatualização de discussões queatravessam o tempo e se renovam juntamente com o movimento dos novos dias ecircunstâncias das necessidades humanas. Uma poética do pós-modernismo sustentada pelas faces intertextuais queconsubstanciam a essência dessa análise sem perder o foco artístico, a tradição, acontemporaneidade ruptora, a literatura comparada e as leituras e releituras.1.1 “Não se sabe da missa a metade”3: as polêmicas questões entre tradição, contemporaneidade/ruptura A literatura contemporânea surgiu com mudanças que romperam a distância quesempre existiu entre discurso erudito e popular. Com isso, temas antes consideradosinadequados à literatura são tirados de trás da cortina e inseridos na ficção. São tendênciasque dão caráter inovador, novas linguagens, novas formas de ver e entender o mundo, além deuma revisitação à literatura mais clássica. Existem diversas maneiras de narrar acontecimentos do cotidiano. A arte de contarhistórias, prática muito antiga, vem desde tempos primitivos (antes mesmo do surgimento daescrita) e perduram até nossos dias. O conto é uma forma breve de se narrar as histórias,apesar de ser uma narrativa curta, é capaz de levar o leitor a abrir um conjunto depossibilidades de interpretações. É nessa intensidade de se narrar os instantes, que Machadode Assis, segundo a crítica literária, um dos melhores contistas que já existiu, desperta, nosleitores, expectativas e surpresas com a riqueza de seus contos. Todo texto, seja ele oral ou escrito, segue uma ideologia, uma linha de pensamentotransmitida ao leitor, direta ou indiretamente, através da linguagem. A literatura é uma dasformas de linguagem usada para expressar uma ideologia. Durante muito tempo e até os dias atuais são muitas as tentativas de se chegar a umadefinição unânime do que seja realmente Literatura. Eagleton (2001, p. 1) traz essequestionamento: “O que é Literatura?”. Literatura não é somente a arte de escrever comcriatividade e imaginação, mas, principalmente, por ser uma arte que faz uso de umanuma repetição de temas ou ideias de um outro preexistente e daí nasce a exigência da capacidade hermenêuticado leitor (BRAIT, 2005).3 Adágio popular.Título de conto machadiano (Publicado originalmente em Jornal das Famílias, fevereiro, 1873),cujo enredo desenrola-se por uma perspectiva de ilustrar tal adágio. Um senhor faz percurso reverso para subtrairos pontos aumentados na história da sua sobrinha e prova o quanto aumentaram o fato.
  14. 14. 13linguagem peculiar, encanta o leitor com sua beleza e com um colorido especial quetransforma a linguagem comum, utilizada no cotidiano. Ainda acrescenta que as obrasliterárias são capazes de conservar seu valor por séculos, ou seja, elas são atemporais,constroem um passado histórico, uma tradição. Todas as obras literárias, em outras palavras, são “reescritas”, mesmo que inconscientemente, pelas sociedades que as lêem; na verdade, não há releitura de uma obra que não seja também uma reescritura (EAGLETON, 2001, p. 17). Se existe na arte literária obras capazes de perpassar o tempo, sendo revisitadas pordiversas gerações, como se explica o fato de haver tantas polêmicas a cerca de romper atradição? Segundo Eliot (1989, p. 38), critico literário modernista: “se a única forma detradição, de legado à geração seguinte, consiste em seguir os caminhos da geraçãoimediatamente anterior à nossa graças a uma tímida e cega aderência a seus êxitos, a‘tradição’ deve ser positivamente desestimulada”. A história é parte indispensável da tradição,porque a atemporalidade segue caminhos propensos à sustentação da narração dos sujeitosque se completam na existência do outro. Mortos estão apenas os corpos dos autores, suaimortalidade persiste nas obras que acariciam a contemporaneidade como sustentáculo donovo. Além da história, há o princípio estético: harmonia, coesão. O valor literário reajustadono poder harmônico entre o velho e o novo a ser respeitado pela crítica e aceito pela ordem;portanto, não se trata de abandono do passado. A história das manifestações literárias foi sempre romper com uma tradição jáexistente, como exemplo, o Arcadismo com sua arte conservadora rompe com os exageros doBarroco; o Romantismo que expressava o sentimentalismo, a emoção, o subjetivismo vaicontra a ideologia do Arcadismo; o Realismo opõe-se totalmente ao Romantismo, poisprevalecerá o objetivismo, a valorização da ciência, o pensamento racionalista, a verdadeimpessoal e universal, quando traz à tona os desvios e as mazelas de uma sociedade burguesadominante e sustentadora do Romantismo. Nesse contexto de transformação da sociedade, da arte compromissada, engajada nosproblemas sociais, não mais “a arte pela arte”, mas uma“arte viva!”, surge Machado de Assis,escritor sensível ao mesmo tempo inquieto e angustiado com o comportamento humano.Embora iniciada sua carreira literária no final do Romantismo, foi no Realismo que Machadoconquistou seu apogeu literário. Nem romântico nem realista completamente; ele se distinguia
  15. 15. 14dos outros escritores, em sua escrita havia um estilo ímpar que o tornou marco na literaturabrasileira, como um divisor de águas. A ironia presente em suas obras, incomum aoRomantismo, revolve o plano artístico da época. Observador e satírico, desencantado com aforma que a sociedade burguesa vivia, Machado escreveu romances e contos, dando vida apersonagens nas quais buscava sondar seu interior. Um olhar perscrutador a desvendar osenigmas humanos encobertos pela hipocrisia. Esta investigação do íntimo do homem naescrita machadiana induz o leitor a diversas interpretações, pois suas narrativas são revestidasde uma linguagem plurissignificativa na forma como descrevia o comportamento humano. O uso do histórico e do estético renovado, comentado por Eliot (1989), foi umprocedimento intercalado por Machado, ato que contribuiu para a conquista da tradição alémda atualização de suas obras. Em Machado de Assis tem-se a tradição de uma ruptura.Rompeu a tradição de sua contemporaneidade, persistindo no novo que se tradicionalizariatambém. Seu estilo revestiu-se o tradicionalmente com o novo e aos poucos foi se perdendoum estilo, para que um outro fosse surgindo, entretanto, sem perder a essência de tradição, deoriginalidade. A arte literária vive, é um baú recheado de diversas artes. Ela vai desde um passadohistórico, no qual se construiu uma tradição, até os tempos modernos, a contemporaneidade, aruptura. Portanto, mesmo que alguns poetas rompam com o passado, é preciso conhecê-lo,previamente, pois, para inovar a arte, não se nega uma tradição que já existente, isto é, o seupassado. Acontece a ruptura em parte, novas tendências ganham força, mas sempre resistiráum vestígio da história. Eliot salienta o perigo de se abraçar o novo, jogando fora um passado histórico,porque nenhum escritor se consagra sozinho, nem se cria uma obra literária apenas com osconhecimentos do presente; é preciso que se mergulhe nas experiências dos poetastradicionais para enriquecer suas criações. Um presente que se orienta com o passado e umpassado que é modificado pelo presente, uma relação harmônica entre o velho e o novo. De acordo com Eliot, essa revisitação ao passado não torna o escritor repetitivo,copista, pois a tradição não é para ser como uma aderência cega, ela deve ser vista como umcaminho para fazer nascer um novo artista, criador de seu próprio talento individual. Essetalento único, próprio de cada um, difere um artista do outro; o poder de criar como um fiocondutor para a conquista do seu lugar no tempo, tornando as obras atemporais. A tradição implica um significado muito mais amplo. Ela não pode ser herdada, e se alguém a deseja deve conquistá-la através de um grande
  16. 16. 15 esforço. Ela envolve, em primeiro lugar, o sentido histórico, que podemos considerar quase indispensável a alguém que pretenda continuar poeta depois dos vinte e cinco anos [...] (ELIOT, 1989, p. 38-39). A literatura tradicional, rica em suas narrativas, traz escritores brilhantes queutilizaram arte da escrita para a criação de textos tão originais que o processo de releiturapermanece ativo através dos tempos. Dentre esses escritores, Machado de Assis abrilhantaesse elenco e tem suas obras revigoradas com a estética contemporânea que as recria.1.2 “... muitos outros galos se cruzem” 4 e teçam novos contos: a literatura comparada e suas contribuições A literatura comparada nasce e ganha espaço mundo afora a partir de estudosrealizados na Europa, berço onde iniciou esse método de se confrontar duas ou mais obrasliterárias. Muitas discussões foram e são traçadas acerca da literatura comparada. SegundoCarvalhal (1992), há muitas dificuldades de se chegar a um consenso no que se refere a suadefinição, técnicas utilizadas e seus objetivos. A literatura comparada não tem como objetivo eleger ou comprovar que umanação/escritor/obra é superior a outra, mas se sabe que, inicialmente a literatura comparada,por vezes, era utilizada para encontrar traços, influências de uma nação em outra, a fim deexaltar a obra que serviu como suporte para a criação de uma nova, colocando-a no apogeu,ou seja, em posição de superioridade, como uma obra lida, ou melhor, relida, como apontaCalvino. O objetivo essencial da literatura comparada, seu objeto de analise, é estudar diversasobras literárias. Através desses estudos, análises e pesquisas, ela contribui para que o textoliterário seja revisitado, estabelece inclusive um diálogo, uma interação com as diversasmanifestações artísticas e culturais. Eis a grande importância: passado e presente se fundem,diversas vozes se cruzam e novas criações com outros viéses de interpretação vão surgindo.“[...] a literatura comparada é uma forma específica de interrogar os textos literários na suainteração com outros textos, literários ou não, e outras formas de expressão cultural eartística” (CARVALHAL, 1992, p. 74).4 Título de conto machadiano (Publicado originalmente em Jornal das Famílias, fevereiro, 1873), cujo enredodesenrola-se por uma perspectiva de ilustrar tal adágio. Um senhor faz percurso reverso para subtrair os pontosaumentados na história da sua sobrinha e prova o quanto aumentaram o fato.
  17. 17. 16 O diálogo entre as obras se entrelaçam atribuindo-lhes novo vigor, novos olhares,novas perspectivas. Uma propriedade singular da textualidade. Criação/recriação formambloco do novo ininterruptamente. O imaginário literário, nesses parâmetros, retém um jogosecreto realimenta os jogos frasais e articula estruturas estéticas integralmente movediças noprocesso leitor. Carvalhal (1992) afirma que “comparar é um procedimento que faz parte da estruturado pensamento do homem e da organização da cultura”. Qualquer que seja a situação vividapor qualquer sujeito, haverá sempre a necessidade de se comparar, de se fazer relações comoutro fato semelhante, ou seja, a comparação sempre existiu e vai existir em qualquercontexto. Comparar é um processo que já está arraigado no pensamento do ser humano, já éuma prática cultural fazer comparações, pois a imagem do homem só pode ser vista através deum espelho. Quando se compara as obras de autores importa destacar dois aspectos: semelhançase diferenças. No caso de semelhanças procura-se identificar se uma obra produzida teve aoutra como fonte, influência, cópia ou distanciamento: “[...] os limites entre imitação,adaptação, assimilação e originalidade” (MEYER, 1958, p.22-23 apud CARVALHAL, 1992,p. 26). A literatura comparada deve levar em conta que não se cria a partir do nada, semprehaverá alguma obra ou texto, literário ou não a ser referenciado. Contudo, as peculiaridadesdas obras e do autor também determinam a originalidade como fronteira estética que renova obelo da expressão artística. A arte de escrever, produzir textos literários, é resultado da arte leitora. O processode leitura é como um agricultor que sai para a colheita, vários frutos são colhidos, cada umcom sua especificidade, seu gosto característico. Assim o literato com esse fio condutor seleva por caminhos ainda desconhecidos e na troca de experiências, na dialética entre tradiçãoe contemporaneidade esses sabores se misturam e nasce um novo fruto, com um sabordiferenciado no pomar literário. Essa mistura de sabores remete ao dialogismo bakhtiniano; o escritor ao criar seutexto se apropria de outros, várias vozes se cruzam independentemente do período. JuliaKristeva faz uso desse dialogismo e denomina intertextualidade, os diálogos existentes entreos textos. “Todo texto é absorção e transformação de outro texto. Em lugar da noção deintersubjetividade, se instala a de intertextualidade, e a linguagem poética se lê, pelo menos,como dupla” (KRISTEVA apud CARVALHAL 1992, p. 50).
  18. 18. 17 O escritor, embriagado das diversas vozes que cruzam no jogo dialógico e polifônicode suas leituras prepara-se para gerar um novo texto; fazer nascer sua criação, transformar ovelho no novo; moldar, revestir com criatividade, espontaneidade e originalidade o passado. Na verdade, os conceitos de originalidade e individualidade estão intimamente vinculados à ideia de subversão da ordem anterior, pois o texto inovador é aquele que possibilita uma leitura diferente dos que o precederam e, desse modo, é capaz de revitalizar a tradição instaurada (CARVALHAL, 1992, p. 63). O confronto entre obra não é processo recente nem vantagem contemporânea. Ocomparativismo como método realça o vigor singular a cada obra/estilo, criandopossibilidades que alicerçam uma reflexão convergente sobre o ato literário em si mesmo ouainda sobre o tema de abordagem. Ao criar “Tecendo a manhã”, João Cabral de Melo Neto traz em seu verso “muitosoutros galos se cruzem”. E quem são estes galos? A metáfora do galo tanto pode direcionar aocriador quanto à criatura. Os autores ora apresentam estilos ora temáticas que permitem oestudo comparativo. O mesmo processo se dá com a criação. As obras se apresentam numviés dialógico que cruzam estudos e análises. Assim os galos se cruzam atemporalmente. No caso do estudo em questão, a gênese dos contos selecionados é fruto de umaprovocação. Lançou-se um desafio de recreação de alguns dos contos machadianos. Houveum propósito criador irreverente, condicionado, entretanto, distante de um plágio ou docopismo. A inovação desse processo da literatura de fins de século XX e inicio do século XXIprojeta o desafio de copiar não copiando. Tal qual argumentara-se em Pierre Menard, autorde Quixote, de Jorge Luís Borges. Por mais que se escrevesse linha a linha não seria o mesmotexto: Ele não queria compor outro Quixote – o que seria fácil – mas o Quixote. Inútil acrescentar que nunca levou em conta uma transcrição mecânica do original, não se propunha copiá-lo. Sua admirável ambição era produzir páginas que coincidissem – palavra por palavra e linha por linha – com as de Miguel de Cervantes (BORGES, 2007, p. 38).
  19. 19. 18 Um labirinto de enredos se desdobra num jogo de espelhos para os quais os leitoresse deparam e se revezam na perspectiva de adicionados os pontos, descobrem a essência doconto.1.3 “Quem conta um conto, aumenta um ponto”3: a imagem comparada na contística A Literatura Comparada é utilizada como instrumento para sustentação dos diálogosentre os contos de Machado de Assis (Missa do Galo e A Cartomante) e a contísticacontemporânea em Missa do Galo, Juca, Missa do Galo: um outro enfoque, Sonos leves, deLygia Fagundes Teles, Amador Ribeiro Neto, Moacyr Scliar e Nelson Oliveira, e Os sinais dosobrenatural, O Podomante e O Goiabão, de Deonísio da Silva, Glauco Mattoso e IvanaArruda Leite, respectivamente. Com o recurso da recriação, um novo enfoque fora dirigidoaos textos. Abrem-se novos caminhos, outros viéses de interpretação. Os elementos narrativos mapeados sob a perspectiva intertextual e suas interfacessustentam uma análise do processo de ressignificação dos contos machadianos Missa do galoe A Cartomante, reescritos na contemporaneidade por contistas brasileiros numa construçãodialógico-literária. A literatura comparada movimenta as releituras e dá subsídio aos jogos de influênciade autores e obras. A literatura contemporânea percorre esse caminho de revisar textosclássicos com o propósito de personificá-lo na perspectiva de não retroceder, mas ratificar oprincípio da atualização literária. As representações literárias estruturadas em contos trazemem seu bojo o “inenarrável” (SEIXAS, 1986), isto é, a sua essência capta-se durante umaleitura de único fôlego (CORTÁZAR, 1974). “... o conto é uma antinarrativa, porque seuverdadeiro sentido, sua essência, é inenarrável. Ou ainda, é uma metanarrativa. O que estáalém da narrativa” (SEIXAS, 1986) e, ainda, a proposta de Cortázar (1974, p. 154) completa: O excepcional reside numa qualidade parecida à do ímã; um bom tema atrai todo um sistema de relações conexas, coagula no autor, e mais tarde no leitor, uma imensa quantidade de noções, entrevisões, sentimentos e até ideias que lhe flutuavam virtualmente na memória e na sensibilidade; um bom tema é como o sol, um astro em torno do qual gira um sistema planetário de que muitas vezes não se tinha consciência até que o contista, astrônomo de palavras nos revela sua existência.
  20. 20. 19 Segundo o professor Cid Seixas, o conto não se esgota na fábula; ao contrário, é ummundo com suas próprias leis, sua própria estrutura. O cotidiano serve como matéria-prima àobra-de-arte, que o recria em dimensões outras possíveis. E se o conto “não vale pelo queconta”, seria este “inenarrável” que se entranha no leitor par lhe aflorar a sensibilidade: aessência do conto. Tal essência só se torna possível quando o leitor possui uma “alquimiasecreta”, dita por Cortázar, que o habilita a captar o “excepcional”, e a atração dos opostosgarantirá a sensibilidade primordial ao entendimento daquilo que não se conta. Assim, escritores pós-modernistas, embriagados pelos contos machadianos, utilizam-se da intertextualidade para a criação de novos contos. Foucault (apud HUTCHEON, 1991, p.167) postula: [...] as fronteiras de um livro nunca são bem definidas: por trás do título, das primeiras linhas e do último ponto final, por trás de sua configuração interna e de sua forma autônoma, ele fica preso num sistema de referências a outros livros, outros textos, outras frases: é um nó dentro de uma rede. A produção literária contemporânea também se sustenta no processo intertextualpara, a partir de narrativas já existentes, criar com arte e beleza outras narrativas consideradastão originais quanto às primeiras. Os contos Missa do Galo e A Cartomante, de Machado deAssis, foram reescritos, possivelmente, não como cópia ou plágio, mas de uma forma artística,dinâmica e criativa. A leitura aberta de obras literárias permite inúmeras interpretações.Assim, seriam esses escritores contemporâneos, embebidos pela arte machadiana, recriadoresde contos tão originais como os primeiros, embora estejam focalizados sob outros ângulos enovos olhares. Ao se ler Missa do Galo e A Cartomante como qualquer outra narrativa tem-se apossibilidade de buscar respostas, ou seja, dar sentido ao texto lido. Esses contemporâneos,assumindo a condição de leitores/escritores, partindo dos contos tradicionais de Machado deAssis se apropriaram do pastiche e da paródia (recursos muito utilizados na literaturacontemporânea) para a reescritura de seus contos e, com seus jogos irônicos e persuasivos,fizeram renascer a tradição e tornaram estas narrativas novas e originais. Embora toda obra seja aberta a interpretações, seria sua reescritura o nascimento deuma nova obra com novos elementos que, talvez, obriguem a retomada da primeira para abusca de novas pistas ou, ainda, com sua singularidade, a recriação abra-se a novas leituras,
  21. 21. 20haja vista sua independência e toda escrita ser resultante de leituras. O estilo perscrutador doolhar machadiano e a ironia do ponto de vista sobre os comportamentos humanos nasociedade, provavelmente, tenham subsidiado os diálogos contemporâneos que alimentaramestas recriações com recursos intertextuais discutidos por Júlia Kristeva e Linda Hutcheon. Apoética pós-modernista se cerca dos clássicos, revisita-os e lhes dá uma repaginada, semintenção de desmerecimentos, mas uma reverência ao passado clássico para releitura e maiorcircularidade. O Realismo, enquanto estilo de uma época, buscava uma representação mais próximado real, o diálogo com a literatura pós-modernista aproxima-os devido ao posicionamentotambém acentuadamente crítico da arte contemporânea, haja vista a procura doreestabelecimento social em meio ao caos. Cada fotografia é única e a sua singularidade, provavelmente, faça surgir imagensoutras à lembrança, como no processo de leitura. A cada narrativa lida novas histórias se(des)montam, porquanto em algum outro espaço, tempo possam outras pessoas tertestemunhado histórias aproximadas de outros sujeitos ou de si mesmos. Podem estes novoscontos retratarem outras histórias que trazem à lembrança narrativas já vividas, ouvidas oulidas. O processo literário conta com a originalidade e se causa estranheza à leitura dessasrecriações, o movimento artístico respalda-se na linguagem figurada, na catarse, na mimesis, eabstrai o novo, a arte na sua essência inenarrável, mas se valendo pelo que representa noespaço verossímil que lhe é concedido para espelhar a beleza do artístico. Sabe-se da grande importância da leitura na vida humana. É por meio dela que setem a oportunidade de viajar (sem deslocamento físico) por lugares fantásticos onde jamais seimaginava estar. Além disso, o ato de ler torna o homem um eterno aprendiz, amplia seussaberes e constrói o senso crítico. Através da leitura literária pode-se transportar para dentroda narrativa, dialogar com os personagens e sentir-se participante da história. A literatura temo poder de levar a um mergulho profundo pelas águas da imaginação, faz acreditar que tudo épossível e pela arte, a verdade se constrói, pelo jogo semântico, ou mesmo, pela apresentaçãoverossímil da realidade. Dada a linguagem de final de semana, tirada a “linguagem de em dia-de-semana”,como disse Guimarães Rosa, em Famigerado, os contos contemporâneos (Juca, de AmadorRibeiro Neto, Missa do Galo, de Lygia Fagundes Telles, Missa do Galo: Um outro Enfoque,de Moacyr Scliar, Sonos leves, de Nelson de Oliveira, Os Sinais do Sobrenatural, de Deonísioda Silva, O Podomante, de Glauco Mattoso e O Goiabão,de Ivana Arruda Leite) baseados em
  22. 22. 21Missa do Galo e A Cartomante, de Machado de Assis, revitalizam-se, rejuvenescem. Contudonão se afirma aqui que os textos machadianos estejam em linguagem arcaica ou muitocomum, mas recebe uma nova roupagem, com uma discussão mais atualizada da temática.Demonstra o poder da literatura em fazer com que uma escrita de outro século se atualize,sem perder sua originalidade. A intertextualidade abre a perspectiva sobre a leitura do clássico que, revisitado, fazdecolar uma triagem de outras leituras as quais definem o perfil deste trabalho. A narrativabreve surge da tradição oral para encantar a audição nas rodas de espaços abertos. O tempodeu-lhe o mérito de garantir-se imortal para as gerações futuras. A brevidade com quealgumas narrativas seguram o fôlego de ouvintes/leitores não cabe em explicações palpáveis,sabe-se, contudo, que a impossibilidade de contar a sua essência seduz o público que adota oconto como leitura diária, haja vista o pequeno espaço temporal dedicado a esta atividade. Para a acepção literária, o conto é um modo específico de relatar brevementedeterminados acontecimentos, e, por conta de suas características estruturais, possivelmente,foi a matriz das demais formas literárias, principalmente, da prosa e da ficção. De origemdesconhecida, tomou conotação literária mais contundente a partir do século XVI e ganhamaior status e nobreza no século XIX, deixando de ser produto folclórico para se tornar umresultado tipicamente literário. Na concepção de Cortázar (1993, p.150-151), metaforicamente, o conto assemelha-se à vida, no que tange ao seu caráter intenso e efêmero, como é possível constatar no trechoabaixo: [...] porque um conto, em última análise, se move nesse plano do homem onde a vida e a expressão escrita dessa vida travam uma batalha fraternal, se me for permitido o termo; e o resultado dessa batalha é o próprio conto, uma síntese viva ao mesmo tempo que uma vida sintetizada, algo assim como um tremor de água dentro de um cristal, uma fugacidade numa permanência. O autor ainda afirma que o conto costuma ser comparado à fotografia e o romance aocinema, pois, no filme bem como no romance, “a captação da realidade é alcançada medianteo desenvolvimento de elementos parciais, acumulativos, que não excluem, por certo, umasíntese que dê o ‘clímax’ da obra” (CORTÁZAR, 1993, p. 151). Já para a fotografia é precisoestabelecer os limites para que cause impacto ao ser vista, assim como deve ser o conto bemelaborado ao ser lido, ou seja, restrito, mas profundo.
  23. 23. 22 Os contos machadianos são excepcionais. Neles, a leitura oscila entre expectativa,emoção e reflexão, além de permitir imaginarmos um determinado final, quando somosbruscamente surpreendidos por outro. Conforme Umberto Eco (apud HUTCHEON, 2000, p. 167), a intertextualidadesempre foi utilizada pelos escritores, e sobre ela afirma: “Descobri o que os escritores sempresouberam (e nos disseram muitas e muitas vezes): os livros sempre falam sobre outros livros,e toda estória conta uma estória que já foi contada”. Desta afirmativa, depreende-se, portanto,que sempre haverá intertextualidade na escrita literária, em maior ou menor grau.
  24. 24. 232 A CARTOMANCIA ÀS AVESSAS: Releituras machadianas pelos fios intertextuais O fluxo de ideias no imaginário criador do artista conjectura das mais excelentesnarrativas. A cerimônia fica por conta do leitor cujas expectativas serão, ou não, satisfeitas.Uma chuva mágica de segredos alegóricos é derramada sobre o imaginário de cada sujeitoexposto ao mundo da verossimilhança para numa perspectiva catártica. As leituras realizadas num único fôlego em busca do inenarrável determinam ospassos para encontros com as interfaces dos caminhos entre o criador e a criatura. Nessespercursos a interdiscursividade impulsiona às hipóteses que desejam a confirmação ou arefutação e esse processo só se concretiza com uma leitura ininterrupta, no caso dos contos –narrativas curtas. A vidência é inviável inclusive para as cartomantes e seguidores dos mesmosdesenhistas de futuro alheio. Ora conhecedores dos textos de Machado em questão nopresente estudo não deram pistas para o desfecho da narrativa recriada, posto que ali se postouum outro clímax, outros acontecimentos, e só uma leitura circular e completa dá possibilidadede interpretações. A prova se confirma quando para cada um dos dois contos, outros (plural) foramrecriados e, para cada um deles um enredo, um clímax, um desfecho... O sentidointerdiscursivo concretizado no processo fruidor entre o texto e a leitura. O intervalo entre uma e outra criação, ou recriação, cruza entre os jogos imitativos,próximos àquilo que se chama intertextualidade, um diálogo bem difícil entre os textos paranão cair na ridicularização do plágio ou mesmo da cópia. Os termos simulação e simulacro foram definidos Jean Baudrillard (1991) quandoargumenta que as sociedade do Ocidente submeteram-se uma “precessão de simulacros”, emtrês etapas: imitação, cópia mecânica e simulação (espaço de representações, símbolos,imagens, ícones). Ao passar pelos procedimentos, acredita que é o original. Ainda nesses recursos intertextuais, a criação se apropria de jogos que incentivam abusca pelo elemento que se tornara o foco, isto é, o texto-base para a recriação. Seja pelopastiche seja pela paródia a criação intertextual como reinvenção literária encontra-se muitopresente, aliás, cada dia mais usado como recursos para revistar a literatura canônica. Umametodologia frequente na contemporaneidade.
  25. 25. 24 A literatura atual está presenteada com a vasta fortuna clássica e canônica para serrevisitada sem se tornar na mesmice, mas sempre na tentativa antropofágica de trazer o novopara surpreender, estranhar.2.1 Recriaçãoversus imitação: o difícil diálogo entre os textos O homem é um ser de relações, não consegue viver sozinho, guarda dentro de si umgrande tesouro, a linguagem. Por meio dela, forma palavras, seleciona-as, organiza-as paraacontecer a comunicação, a qual abre caminhos para o conhecimento, a arte do saber. A sabedoria, fruto do conhecimento, constrói-se através das diversas linguagens eideologias produzidas pelo homem. A literatura utiliza-se dessas linguagens, permite aosujeito organizar seus pensamentos, criar novas perspectivas, novas possibilidades de ver,sentir e entender os outros e a si mesmo. Toda esta linguagem produzida, nesse caso,artisticamente. A literatura potencializa uma causa de experiências do leitor. Inúmeras possibilidades de leituras a obra oferece a obra literária oferece, e em cada uma delas o leitor tem uma experiência nova, em cada leitura o leitor toca o coração da matéria estética (ROGEL, 2002, p.14). A literatura, assim como a música, a pintura, a arquitetura, proporciona prazer,retrata o belo, é a representação da realidade. A arte literária tem sua própria linguagem,recheada de sentidos, é a expressão do homem que se utiliza da criatividade, joga com aspalavras para seduzir o leitor; algo mágico capaz de provocar sensações nunca antes sentidas.Em cada obra nova que se lê, entra-se em um mundo ficcional criado pelo escritor, autorcriador em potencial. Ele se desprende de si e incita a sensibilidade, verve perspicaz decaptura dos sentidos invisíveis ao sentimento de olho comum. O literato, para fazer nascer sua obra, dá vida e voz a sua escrita, mergulha no íntimodas ações humanas, participa do mundo real, representa o fazer humano e, através darepresentação, recria essas realidades. Segundo o filósofo Aristóteles, na sua poética, toda arte expressa pelo homem, seja,pelo ritmo, pela melodia, por gestos, ações e emoções, mesmo diferenciada são imitações daação humana, pois a arte de imitar encontra-se intrínseca à natureza humana. Seja por meio dadança, da voz, da arte de tocar instrumentos, ou na arte da escrita, tudo é expresso a partir de
  26. 26. 25imitações do fazer humano, pessoas em ação, sejam essas ações boas ou ruins, tudo éapreendido pela literatura para recriar o mundo original em um mundo ficcional que só épossível através da arte. “Imitar é natural ao homem desde a infância – e nisso difere dosoutros animais, em ser o mais capaz de imitar e de adquirir os primeiros conhecimentos pormeio da imitação – e todos têm prazer em imitar” (ARISTÓTELES, 2005, p. 21-22). Tudo que se faz desde a infância, buscando saber quem é, o que fazer e comoencontrar as respostas que surgem durante toda a existência humana é fruto da imitação.Imita-se a vida... Enquanto felicidade, infelicidade, harmonia, desarmonia, paz, guerra,angústias, sofrimentos, prazeres; sejam momentos positivos ou negativos, vive-se areprodução do já vivido, do já dito. A arte literária apropria-se da linguagem e reproduz o homem e suas ações nasociedade, através da mímese, a arte de imitar, leva-se obras literárias a conquistar seu espaço,proporcionando prazer e despertando paixões nos leitores. Os poetas imitam, sim, o que outros poetas já disseram. Mas, cada um tem seu estilo,sua forma de dizer o que já foi dito tantas outras vezes; cria-se, inventa-se a partir da ideia dooutro, mas não como cópia, como se xerocopia algum material, é uma escrita nova, original,um jeito novo de dizer algo comentado outrora, mas com a simplicidade melódica e artísticade fazer-se novo. Essa forma fantástica, contagiante que embebeciam tantos leitores é a arteliterária! A comunicação entre os textos não é algo novo; essa interrelação sempre existiu, sãovários discursos traçados em épocas e áreas diferentes, presentes em novo um texto. Os textosliterários desde o início dialogam entre si (dialogismo bakhtiniano), ou seja, a literatura recebeinfluência da própria literatura, são vários pedacinhos de uma obra em outra, como afirmaKristeva (apud PERRONE, 2005, p. 68): “todo texto é absorção e transformação de umamultiplicidade de outros textos”, esse diálogo na literatura é denominado de intertextualidade.Perrone (2005, p. 68) enfatiza: “Entende-se por intertextualidade este trabalho constante decada texto com relação aos outros, esse imenso e incessante diálogo entre obras queconstituem a literatura”. Naturalmente, o interdiscurso é comum, como fora postulado por Bakhtin, ainfluência recebida pelas leituras realizadas e na relação entre prazer – do escritor – e afruição – intervalo entre a escrita e o interdiscurso do leitor (BARTHES, 2004). Os cem anosda morte do mestre da literatura representou para escritores e leitores machadianos um marcoem suas vidas, um momento apropriado para se deleitar nessa relação entre o prazer e afruição. Capitu mandou flores presenteia todos os apaixonados pela escrita de Machado de
  27. 27. 26Assis. Seu estilo provoca impacto, estranhamento, expectativas, pois não só traça diálogoscom outros autores de épocas distantes, mas, dialoga, principalmente com o leitor; suaspalavras são sempre banhadas de sedução, mistério, um jogo fascinante a quem lê compalavras visíveis ou não que ora se revelam, ora se escondem, os diálogos traçados entre ospersonagens são construídos também através do silêncio, é no calar que muitos caminhos sãoabertos para que o leitor adentre na narrativa. Rogel (2002, p. 21) enfatiza que “A riqueza daescrita tanto se faz mais criadora quanto mais profunda for o nível de onde ela fala e silencia”.Possuídos por este estilo enigmático de Machado de Assis, escritores5 contemporâneosdialogam com seus contos. A literatura, enquanto elemento veiculador das discussões sobre o comportamentohumano, relata sob signos e símbolos a mágica secreta de se poder olhar o comum, ocotidiano e vê-los descortinar-se num impacto leitor de único fôlego. Ao se deparar com otrecho: “Quando fica calada, quando os olhos se reduzem, parece dormir mas está emmovimento, as máquinas não param, o navio navega embora transmita ao passageiro aquelaquietude de âncora” (TELLES, 2008, p. 43) vê-se retratar a escrita de Machado. Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressadamente ou vagarosamente (MACHADO, 2008, p. 25). Tanto em Missa do Galo, de Machado, quanto no homônimo de Lygia FagundesTelles, a presença, a lembrança dos textos se cruzam. Na verdade, entender o texto da autoracitada não requer a leitura prévia do texto de Machado, a independência artística consiste nasua originalidade, aspecto mantido na essência de cada conto. Comparando-se os trechos de Juca, de Ribeiro Neto (2008, p. 34) e Missa do Galo,de Machado de Assis (2008, p. 27), respectivamente, observa-se uma referência ao realismo: Chegam a ser ridículos. Já estão há um tempão parado aí com os olhos estalados em cima de mim. Agora são as mãos pegando nas minhas. Chegamos a ficar algum tempo, – não posso dizer quanto, – inteiramente calados. [...] Conceição parecia estar devaneando.5Descritos com mais detalhe no último capitulo deste trabalho.
  28. 28. 27 Os comportamentos humanos revisados e comprovados como aspecto intrínseco àsua natureza. A literatura, nesta recriação de “Missa do Galo”, um cânone brasileiro, revela-seautêntica, original, com interligações semânticas próprias da arte.2.2 Simulações intertextuais como atualização de leituras canônicas A arte de escrever bem é dom precioso; o homem quando desperta e alimenta essedom, torna-se um eterno viajante em busca de criar e recriar um mundo fascinante, um mundopossível só na ficção. São muitos escritores, novos talentos, que ganham espaço na literatura; textosdiversos, autores com escrita e estilos diferenciados, cada um com seu valor, seu talentoindividual. Nesse surgimento de novos talentos, nasce o desejo de conquistar um lugar nocampo literário, tornam-se competitivos, como se fossem adversários dos escritores canônicosou reconhecidos, e, consequentemente, detêm de alguma forma, certo poder na área literária. Segundo Reis (1992), nos primórdios, os escribas e os sacerdotes eram os únicosque tinham a capacidade de escrever; desde essa época, a escrita de alguma forma tornou-seuma arma de dominação, ou seja, o poder era exercido por aqueles que sabiam fazer uso daescrita. Nesse contexto, surge o termo (do grego kanon, espécie de vara de medir). Com acristandade, sacerdotes utilizaram-se desse termo para escolher autores e obras que deviamfazer parte da bíblia, iniciando um processo de exclusão, pois, para que essa seleçãoacontecesse, seguiu-se uma ideologia, eliminando os que iam contra essa linha depensamento. O cânone são obras literárias selecionadas com a finalidade de preservar porséculos e séculos textos clássicos que se tornaram atemporais, ou seja, nunca deixam de seremrevisitados. O processo de escolha de obras primas para o cânone é uma exclusão, uma áreafechada; poucos escritores alcançam esse mérito: [...] cânon significa um perene exemplar conjunto de obras – os clássicos, as obras-primas dos grandes mestres – um patrimônio da humanidade (e, hoje percebemos com mais clareza, esta “humanidade” é muito fechada e restrita) a ser preservado para as futuras gerações, cujo valor é indisputável (REIS, 1992, p. 70). Bloom (2001) se opõe a Reis (1992) quando defende a maneira de selecionar ocânone, uma obra para entrar na lista de escolha, dentre tantas outras precisa ser lida, relida,
  29. 29. 28despertar expectativas, ter excelência estética e originalidade, Bloom (2001, p. 33) ressaltaque “TODA ORIGINALIDADE literária forte se torna canônica”, é por meio de leitura ereleituras que se prolonga a vida de um autor canônico, tornando-o imortal. O cânone sempre foi e continuará sendo “escolha dos melhores livros” – e escolher édeixar de fora algumas obras literárias. “Quem lê tem de escolher, pois não há, literalmente, temposuficiente para ler tudo, mesmo que não se faça mais nada além disso” (BLOOM, 2001, p. 23). Oprocesso canônico está a serviço da arte para imortalizá-la. É como se cânone fosse a arte damemória, não deixa esquecido, não deixa morrer o belo, o estético, o que causa expectativa noleitor. O cânone não está para servir grupos elitistas sociais, políticos: O movimento de dentro da tradição não pode ser ideológico nem colocar-se a serviço de qualquer objetivos sociais, por mais moralmente admiráveis que sejam. A gente só entra no cânone pela força poética, que se constitui basicamente de um amálgama [...] (BLOOM, 2001, p. 36). Os textos literários não estão acabados, sempre haverá um espaço a ser preenchidopelo leitor, é um processo contínuo de interação. Os textos machadianos deixam sempre esseespaço vazio; sua ficção apresenta sempre um narrador que finge e engana o leitor; umnarrador sob suspeita. Quando se pensa estar indo na direção certa, depara-se com um enigma,“decifra-me ou devoro-te” – enigma da esfinge, mitologia grega. A narrativa de Machado, umeterno vai e volta, é um suspense que causa apreensão, diz o que não está escrito. Seuspersonagens agem subjetivamente, são mãos, olhares, e pernas que se cruzam. O silêncio dizmuito mais que palavras. As lacunas deixadas pelas descrições e/ou narrações estampamsutilmente pistas a serem desvendadas pelo leitor perspicaz. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. [...] Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante (MACHADO, 2008, p. 71-72). Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem o tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os
  30. 30. 29 cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos (MACHADO, 2008, p. 23). Tanto nos trechos destacados de “A Cartomante”, como em “Missa do Galo”,acentua-se um silêncio comunicativo e sublinear e compete à concentração leitora de umúnico fôlego extrair a inenarrável dos contos que asseguram no não dito uma diretrizinterpretativa acercada da hermenêutica de uma época de grandes rigores, mas apontados paraalém de uma possibilidade assertiva de poder sobre a capacidade humana de agir e reagirmediante situações. Os suspeitosos narradores não permitem uma alienação leitora, porémembriaga o leitor de palavras silentes impactantes de realidades a serem discutidas. Machado é um artista na arte da escrita, suas obras encantam, causam impacto,inquietam, têm o poder de iludir quem as lê. Sua escrita fez conquistar o topo literário, o ápicedo cânone brasileiro. São muitos os críticos literários que consideram Machado de Assis omaior escritor brasileiro, a exemplo de Harold Bloom que, em uma entrevista a RevistaÉpoca, demonstra todo respeito quando o qualifica como gênio da literatura e elenca os pré-requisitos machadianos: exuberância, concisão e uma visão irônica, impar do mundo, eacrescenta ainda que procura um grande poeta brasileiro que esteja vivo, mas que ainda não oencontrou. Assim também como Kothe (2000) que reconhece em Machado, o valor que suasobras representam para a literatura, salienta que o lugar ocupado por Machado no cânonebrasileiro é fruto de seu talento e de sua luta para divulgar e proporcionar a literaturabrasileira um lugar de prestigio. Machado de Assis merece maior atenção não por ter sido um grande escritor, mas porque foi decisivo para a consolidação do sistema: ao lado de sua atividade de ficcionista e cronista, atua também como teórico e critico, organizou e presidiu a “Academia Brasileira de Letras” (ABL). Ele é considerado o topo do cânone porque está também no seu fundamento (KOTHE, 2000, p. 509). O cânone abre às obras literárias caminho para os “clássicos” – livros capazes deperpassar o tempo, não importa quem somos e a que tempo pertencemos, eles serão semprenovos, em qualquer época que forem lidos. Segundo Bloom (2001, p. 37), para que uma obraliterária se torne um cânone é preciso que a releitura aconteça, “se não exige releitura, asobras não se qualificam”, não se tornam clássicas; escapa-lhe o magnetismo próprio de
  31. 31. 30estranhamento. A cada releitura que se faz é como se fosse a primeira leitura, tudo é novidade,são cenas inéditas a se processarem. Calvino (1993, p.11) afirma de forma brilhante que os grandes mestres canônicos, nariqueza de seus escritos, deixam sempre uma lacuna a ser preenchida pelo leitor, pois “Umclássico é um livro que nunca termina de dizer aquilo que tinha para dizer”, é o que acontecenas narrativas machadianas, a cada leitura que se faz é uma nova descoberta, é uma buscaconstante para desvendar os mistérios e penetrar no mundo ficcional dos clássicosmachadianos. Uma obra clássica exercer sobre o leitor uma magia, capaz de fazer esquecer quem é,e a que época pertence. Por meio de reflexões individuais a partir dos temas, que fazem partedo cotidiano de qualquer pessoa o leitor busca respostas para suas crises existências e traçammudanças. Calvino (1993, p. 16) grifa que “[...] deixando bem claro que os clássicos servempara entender quem somos [...]”. É notório que as novas tecnologias da atualidade nos distanciam cada vez mais doslivros. No entanto, a mágica exercida pelos clássicos é tão contagiante que conseguemacompanhar esses avanços e não perde o seu espaço, é uma voz silenciosa, um barulhinho quevai permanecer em qualquer tempo. Calvino (1993, p.15) postula: “É clássico aquilo quepersiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível”. Cabe perguntar, por que os clássicos continuam despertando essa magia, mesmodiante dos entretenimentos oferecidos pela atualidade? Sabe-se que a literatura se apossa defatos reais para dar vida às obras literárias, vive-se a realidade por meio da ficção, são cenas,imagens, atos humanos criados e recriados. Essas simulações não são cópias, pois os fatos sãoapresentados de forma diferenciada do original, é uma semelhança simulada, que a literaturadenomina como “Simulacro” – a arte de simular – são essas simulações da vida real, queprende o publico e desperta o interesse pelas leituras. “O simulacro nega o original e a cópia,o modelo prévio e sua reprodução, subvertendo todas as hierarquias e inaugurando a vertigemdo descentramento” (PERRONE-MOISÉS, 2005, p. 7). O simulacro utiliza-se da essência do fato que quer reapresentar, mas não se apega aesse fato original, não os toma como centro de suas criações, por meio do simulacro o artistadeixa fluir sua imaginação, se descentraliza dessa realidade que utilizou. “O consenso geral éque o simulacro não é apenas uma cópia da cópia ele de alguma forma evita o contato com aforma original” (EDGAR & SEDGWICK, 2003, p. 307). Os contos machadianos Missa do Galo e A Cartomante são exemplos de simulacro.O mestre da arte de representar utiliza-se de uma realidade que é comum em qualquer
  32. 32. 31sociedade, “o envolvimento amoroso entre duas pessoas” (tema universal), mas não se apegaa essa realidade, apenas reconstrói, simulando-a, mas de forma independente, desassociando-se do original. Assim também são os escritores contemporâneos que reconstroem os contosmachadianos, fazem uma releitura desses contos, utilizando da intertextualidade, percebendonessas obras uma brecha para continuar em frente, como afirma Perrone (2005, p. 81): “Aprimeira condição para a intertextualidade é que as obras se dêem como inacabadas, isto é,que elas permitam e solicitem um prosseguimento”. O simulacro é a brecha que esses escritores encontram para continuar em frente, parasaciarem sua sede, mas conseguem também se desvincular do original, pois cada contorecriado tem seu brilho próprio, seu valor estilístico, que mesmo sendo semelhante terásempre um significado diferenciado.2.3 Pastiche, paródias e todos intertextos: a reinvenção literária O pós-modernismo é um movimento que surgiu trazendo mudanças, inovações, nasciências, na arquitetura, na música, em tudo que envolve a arte. Ele conseguiu acabar com adistância que existia entre a cultura de elite e a cultura popular. “[...] pós-modernismo é aabolição de algumas fronteiras ou separações essenciais, notadamente a erosão da distinçãoanterior entre a alta cultura e a chamada cultura de massa popular” (JAMESON, 2006, p. 18). A literatura assim como qualquer outra expressão artística era privilégio somente daelite letrada que direcionava tudo que dizia respeito a arte da escrita, ficando as classes menosfavorecidas de fora desse privilégio de provar, mergulhar, beber, vivenciar o espetáculo darepresentação da vida através da arte. Com o advento do pós-modernismo muda-se essarealidade, como afirma Hutcheon (1991, p. 69): “O pós-modernismo é, ao mesmo tempoacadêmico e popular, elitista e acessível”. A autora enfatiza que no pós-modernismo há uma abertura para todas as classessociais, todo e qualquer sujeito, independente de sua etnia, classe social, ou que faça parte dequalquer cultura é introduzido na literatura, cuja arte se empenha em representar a vida, ocotidiano, o fazer humano. O pós-modernismo explora uma cultura que oportunize a todossem distinção, deixando um espaço, a arte literária ganha uma nova cara, se relacionando commuitas outras artes, outras culturas. O pós-modernismo, processo paradoxal, não rompe com o passado, mas também nãosegue por completo a mesma linha de pensamento. Faz um tratamento desse passado, retira os
  33. 33. 32resíduos que representam a essência que faz parte do presente e não pode ser apagado. Muitasvezes, maqueia, reveste de novo o que já foi dito antes de uma outra forma. A poética pós-modernista também questiona e critica os discursos dominantes (tantodo passado como do presente) de forma irônica, mas ao mesmo tempo necessita dessesdiscursos para se reafirmar. Revisita-se o passado e o traz de volta metamorfizado, comocontinuidade desse passado, como Hutcheon (1991, p. 31) enfatiza: “A arte pós-modernaafirma de maneira idêntica, e depois ataca de maneira deliberada, princípios como valor,ordem, sentido, controle e identidade [...]”. É uma contradição, pois o pós-moderno espelha-se no passado, mas o subverte,apropria-se do que considera positivo para o presente e faz com que o negativo, através daparódia, seja o canal para levar os leitores a reflexão. De forma ilariante o velho contagia esurpreende. Jameson (2006, p. 25) assegura: “[...] a arte pós-moderna ou contemporânea sepautará pela própria arte”. Vive-se no mundo globalizado, efêmero, são muitos os movimentos sociais quebuscam seus próprios interesses: o individualismo toma conta de tudo e de todos; valoresdistorcidos; uma desordem em todas as áreas; um mundo acelerado, sufocado pelocapitalismo. As pessoas correm não se sabe para onde, buscam corresponder às exigênciasdesse capitalismo. O sujeito se perde, perde sua identidade, não sabe quem é; busca várioseus, um para cada situação, é o sujeito fragmentado de uma sociedade caótica. Nesse caos, opós-modernismo subsidia a arte, desenha toda essa confusão numa linguagem literáriareconfigurada e, por vezes, chocante para o leitor habitual da literatura de tradição. Nessa confusão, a intertextualidade (diálogo entre textos) ganha espaço, através daparódia, do pastiche, dos intertextos. O entrelaçamentos intertextual, o discurso pós-modernoalimenta a força artística de criar um texto a partir de outro texto, que faz parte de um outrotexto, que veio de outro texto e assim por diante... Os escritores/leitores tornam-se ao mesmotempo produtores e consumidores de textos; é como uma teia, um fio que vai ter sempre umacontinuidade. É como postula Foucault (apud HUTCHEON, 1991, p. 167), na citação noprimeiro capítulo (seção 1.3) sobre as fronteiras indefinidas de um livro que, desde o título aoperíodo final, está amarrado a ideias de outrosescritos, uma relação hipertextual. Na obra Capitu mandou flores, os contos organizados por Rinaldo Fernandesganham cara nova, pois seus escritores utilizam-se da intertextualidade e através desse recursorecriam contos de Machado de Assis, de forma magnífica, tão originais, que confundem: qualtexto veio primeiro? Quem veio de quem? Schneider faz considerações:
  34. 34. 33 O escritor é aquele que plagia, parodia, pasticha, monta e desmonta modelos, e com isso faz livros que não somente não parecem com os de ninguém, como dão a impressão de que os modelos os copiaram e que os livros futuramente serão forçados a se parecerem com eles (1990, p. 89). O pastiche, um dos recursos utilizados pelos escritores, segundo Moisés, (2004, p.342): PASTICHE – It. Pasticcio, de paste, pasta, massa, pelo fr. Pastiche. Em vernáculo também se emprega a forma pasticho. Designa uma obra que imita servilmente a outra, ou mistura canhestramente trechos de várias procedências. [...]. De sentido pejorativo, corresponde, até certo ponto, à paródia. Assim também como define o e-dicionário eletrônico de termos literários: “[...]etimologicamente derivado da palavra italiana pasticcio (massa ou amálgama de elementoscompostos)”; antigamente era utilizado de forma pejorativa nas artes das pinturas, imitandoobras de artes de pintores famosos vendidos como originais. Depois o conceito se expandiu econverteu-se para o galicismo tornando-se pastiche. A literatura pós-moderna faz uso do pastiche para reafirmar/contradizer o que outrorafoi dito. Jameson (2006, p. 21) salienta que “Um dos aspectos ou prática mais significativosdo pós-modernismo hoje é o pastiche”. Esta técnica apropria-se de obras do passado e fazadaptações, modificações, manipulando as linguagens. Monta e desmonta para fazer renascero já esquecido no passado, com a finalidade de revigorar/homenagear obras clássicas deforma lúdica e prazerosa, como também incitar o processo formador de criação de novosescritores. Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor. (MACHADO, 2008, p. 71). Aproximaram-se os três; convivência trouxe intimidade. Liam os mesmos livros, saíam juntos para jantar ou para o cinema. [...]. Rute não estranhou a amizade dos dois. Ao invés de alimentar ciúmes, comovia-se com a deficiência visual de Danilo. Era sua enfermeira moral, e, quando o rapaz voltou do consultório, mais desanimado que de hábito, fez-lhe cafuné até que desabafasse tudo e esmiuçasse o resultado da consulta: a cirurgia tinha perdido o efeito e a pressão voltava a subir perigosamente. Vladimir também
  35. 35. 34 teve vontade de fazer-lhe cafuné, mas limitou-se ao abraço apertado, testa contra testa (MATTOSO. 2008, p. 87). No primeiro trecho, no conto A Cartomante, de Machado de Assis, o narradorapresenta três personagens, Camilo, Rita e Vilela, que se tornam íntimos após a morte da mãedo primeiro, depois acabam por formar um triângulo amoroso. No segundo trecho, temos umexemplo de pastiche, que, segundo Ceia: “[...] o pastiche literário em termos genéricos, refere-se a obras artísticas criadas pela reunião e colagem de trabalhos pré-existentes”. GlaucoMattoso, possuído pelo estilo de Machado, recria A Cartomante, dando vida a um novo conto:O Podomante. Com sua capacidade de criar faz modificações no comportamento dospersonagens, que recebem nomes semelhantes a do primeiro conto – Danilo, Rute e Vladimir.Esse jogo de nomes reforça a ludicidade com que a escrita do pastiche permite, ao passo quese encaminha à paródia, uma vez que a substituição da leitura de mãos, própria dascartomantes, passa a mais uma versão: leitura dos pés, feita pelo podomante; além da sugestãodo homossexualismo, senão a bissexualidade, um confronto aos casos amorosos do séculoXIX, mas não raros. Também considerada como modelo da literatura pós-moderna, a paródia, outrorecurso utilizado pela literatura para fazer renascer obras clássicas, imita textos com afinalidade de provocar risos, divertir, mas ao mesmo tempo tem como objetivo maior levar asociedade a refletir sobre determinados comportamentos humanos. “A paródia é a deformaçãode um texto preexistente [...]. A paródia deforma, censura, imita (criativamente), desenvolve,referencia e não transcreve um texto preexistente” (CEIA). A pós-modernidade configura um sujeito que constantemente levantaquestionamentos, busca respostas para suas inquietações, não consegue seguir os avanços eas mudanças sofridas pela sociedade capitalista, individualista e desumana. O homem torna-sedividido, não sabendo que caminho seguir, de faces variadas, um ser fragmentado. O artista pós-moderno busca na paródia uma forma de protestar, ir contra tudo queconsidera imoral na sociedade, por meio da ironia, ridiculariza o texto que toma como base.Diante da diversidade de recursos que a literatura pós-moderna utiliza por meio daintertextualidade para criar, recriar, transpor textos de outras épocas para a atualidade; seráque se perdeu o valor que o autor conquista com suas obras, como também sua autoria? Segundo Bakhtin (apud BRAIT,2008), o autor-pessoa (o artista-escritor) é diferentedo autor-criador, esse tem como função trabalhar o estilo da obra, ele não é quem transcreve
  36. 36. 35para o texto ações da vida humana, como faz o escritor, com seu dom de criar transpõe para aarte, o espetáculo de representar a vida, fatos do cotidiano. O autor-criador é, assim, quem dá forma ao conteúdo: ele não apenas registra passivamente os eventos da vida (ele não é um estenógrafo desses eventos), mas, a partir de uma certa posição axiológica, recorta-os e reorganiza-os esteticamente (BRAIT, 2008, p. 39). O autor-criador desmonta, monta, reelabora esteticamente esses eventos da sociedadepara dar vida a obra literária, fazer acreditar em uma verdade, que só na arte literária épossível, é o extraordinária da ficção, a verossimilhança. O autor-pessoa (o escritor) é quem busca o conhecimento para fazer fluir, isto é,aflorar a inspiração no autor-criador; o escritor estuda e o criador esteticamente transporta osacontecimentos da vida para a arte. É como se fosse uma parceria, é um só que se transformaem dois ou mais, é um ser fragmentado, que está no entrelugar, não é autor-escritor, nemtampouco autor-criador, é alguém com vários eus, vários estilos de escrever. O autor na pós-modernidade não se prende a um só estilo, uma única forma deescrever, ele bebe na fonte de outro autor, mas não perde e nem tão pouco faz com que o autorparodiado, pastichado perca seu valor, seu estilo, seu talento individual, ao contrário, o autorpós-moderno desperta no leitor, através de suas reinvenções, o desejo de conhecer o fantásticomundo dos clássicos literários. Na arte pós-moderna, o autor se apropria de textos alheios, considerados clássicoscom o intuito de recriar, reinventar intertextualmente. Novas obras que, apesar de sereconhecer a sua literariedade, só o tempo e a continuidade leitora na sua permanênciagarantirá um dia se tornarem ou não clássicas e ou canônicas. Tomemos como exemplo doistrechos, o primeiro do conto Missa do Galo, de Machado de Assis e o segundo umareivenção/recriação, Missa do Galo: Um Outro Enfoque, de Moacyr Scliar. A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. [...]. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa [...] (MACHADO, 2008, p. 21). O rapaz era nosso hóspede. Eu estava casada com o escrivão Meneses, que desposara, em primeiras núpcias, uma das primas do jovem. [...]. Eu não ia ao teatro, nem o nosso hóspede; uma vez, porém, quando o Meneses
  37. 37. 36 anunciou que iria assistir a uma comédia, pediu-lhe que o levasse consigo. Minha mãe fez uma careta, as escravas riram à socapa [...] (SCLIAR, 2008, p. 48). No primeiro trecho, observa-se um narrador personagem que lembra e narra osacontecimentos do passado; no segundo, o autor-criador através do pastiche, recurso utilizadopela intertextualidade, traz uma versão diferenciada sobre o mesmo acontecimento, mas, comum olhar de uma narradora personagem que narra os mesmos fatos, porém sob outro enfoque. O autor torna-se um copista, mas com originalidade; seu talento individual reveste-sedo estilo de Machado e pasticha brilhantemente seu conto. Nesse instante, Moacyr Scliardeixa o seu eu e busca o seu outro eu, no outro, reinventando o novo conto, com tamanhabeleza e valor estético que não é igual, melhor ou pior do que Missa do Galo, de Machado deAssis, autor que nunca morrerá, pois seu nome perpetuará para sempre.
  38. 38. 373 AUMENTAM OS PONTOS, OS CONTOS, OS GALOS E AS CARTOMANTES:leituras comparadas da reinvenção literária Com quantos pontos se faz um conto? Resposta indefinida. A essência de um conto éo que o completa. Mas a frase secular continua a inquietar as mentes humanas: “Quem contaum conto aumenta um ponto”. A literatura se atém a esse aspecto na esperança de se manter aoriginalidade literária cujos interesses recaem na arte. O desafio de escrever outros contos a partir de contos machadianos resultou emoutras intrigantes narrativas cujos empreendimentos textuais encaminham o leitor aoslabirintos interpretativos. Haverá uma saída? Ora, muitos descaminhos conduziram apseudoanálises. Encontrar o veio narrativo dos contos canônicos que atraíram recriações tãonovas e originais que suas independências garantem vida própria a cada um mundoimaginário da contemporaneidade deixou a leitura rápida mais atenta em busca de direçãointerpretativa. Em sinal de respeito ao clássico, a leitura aponta cruzamentos literários aopasso que descobre elementos novos para digerir a singularidade interpretativa. Muitas missas são celebradas num mesmo natal em ponto distantes do mundo e umasó finalidade, cada uma depende de seu celebrante, assim como as narrativas recriadas a partirde Missa do Galo, de Machado de Assis. Este último, único no seu estilo, assim como cadaum dos outros – Lygia Fagundes Teles, Amador Ribeiro Neto, Moacyr Scliar e Nelson deOliveira. Todos estão no mercado literário, alguns mais conhecidos que outros, por questão decrítica e/ou divulgação, mas com seu estilo impar de criar e permanente em suas obras.Embora estivesse no ato recriador, não deixaram seus estilos de fora da sua arte. Se imaginarmos situações fotográficas, a exemplo de uma festa de aniversário ou dacerimônia de casamento, muitas fotos e posições esperadas, porém cada uma com seu recorteseu personagens, sua própria cena aprisionada. De quantas cartomantes já se ouviu falar equantas são as mesmas? Deonísio da Silva, Glauco Mattoso e Ivana Arruda Leite exercitarama resposta intrigante dessa fotografia. A imagem aprisionada por Machado em seu conto serecusa à imitação barata e através de um diálogo literário apareceram versões para a prática davidência das mais instigantes possíveis. Machado, nos cem anos de sua morte, se pudesse, teria visto o quanto se tornaraimortal a sua obra. A revisitação de sua tradição na contemporaneidade rendeu-lhe mais emais dialéticas discursivas empreendidas em reler diretamente a sua criação ou recriar leiturasde sua obra. O exercício leitor se torna tão mais abrangente quanto a prática escritora no país,haja vista a quantidade de autores e obras que se encontram desconhecidas pela falta de
  39. 39. 38oportunidade e de tempo para se ler tudo: previsão (ou vidência?) bem anterior acontemporaneidade. Aparecem muitos galos e missas e outros contos a serem lidos e tecidosdiariamente.3.1 Missa do Galo e outras missas A revisitação aos textos literários enriquece a base leitora dos sujeitos e quando dosprocessos intertextuais, a implantação interdiscursiva revela a dinâmica hermenêuticaenquanto ciência organizadora dos princípios, leis e métodos de interpretação, isto é, trata dateoria da interpretação de sinais, símbolos de uma cultura e leis. As possibilidadesinterpretativas fomentam os diálogos, alguns fissurados pelos desvios, outros cristalizadospela essência dos conhecimentos. A qualquer tempo, as escritas dialogam com pensamentos equidistantes ou mesmomais próximos dos instantes de criação consciente ou inconscientemente. A intertextualidadede que estão revestidos os textos analisados concretiza o diálogo da pós-modernidade com atradição e põe em discussão a noção de autoria e originalidade. O recurso da intertextualidade, que norteia esse estudo, apresenta-se como elementoprimordial a relação estabelecida entre o conto Missa do Galo, de Machado de Assis, e suasreleituras: Juca, de Amador Ribeiro Neto, Missa do Galo, de Lygia Fagundes Telles, Missado Galo: um outro enfoque, de Moacyr Scliar e Sonos Leves, de Nelson de Oliveira. Entre oconto de Machado e os que a partir dele foram recriados existem fatores que os distanciam eos aproximam. A recriação é responsável por remeter à memória do leitor o conto machadiano erevisitá-lo, sob um outro olhar, como salienta Carvalhal (1992) ao afirmar que a literaturacomparada tem como objetivo principal visitar diversas obras literárias a fim de fazeracontecer as releituras dos clássicos tradicionais, muitas vezes, desconhecidos por muitosleitores, o que não é o caso de Machado de Assis, um dos escritores mais conhecidos daliteratura brasileira. Sem esgotar as possibilidades de análise, podem-se notar algumasdiferenças na forma como cada escritor estruturou seu conto, haja vista o imaginário criadorque cria um mundo cheio de segredos próprios da arte literária, cujo interesse está,inicialmente, segundo Bloom (2001), na função individual, numa relação de co-criação, oumelhor, na abertura de um espaço intermediário entre o criador e a criatura, no processamentointerdiscursivo.
  40. 40. 39 Em Missa do Galo, de Machado, o narrador-personagem protagonista Nogueirarelembra um fato passado. O narrador inicia a história com a descrição dos hábitos cotidianos,dos moradores e da casa onde vive como hóspede. O episódio narrado aconteceu na noite deNatal, quando ele, ainda jovem de apenas dezessete anos, combinara de ir, com o vizinho, àMissa do Galo. Enquanto esperava o horário da missa, resolvera ler Os três mosqueteiros6, deAlexandre Dumas. D. Conceição (proprietária da casa, era uma mulher bondosa, assim comodescreve o narrador, embora, nesse caso, sob suspeita) sai de seu quarto e aparece na sala;começa a traçar um diálogo com o jovem Nogueira (revelando-se como ingênuo, o narradordiz não entender o que se passava) e desperta-lhe um interesse que lhe proporcionava umasensação agradável. Antes, ele que via nessa mulher, uma boa senhora, simpática e passiva, derepente descobre-a sob um outro olhar: tornara-se bela e desperta-lhe paixões, desejos. Erauma mulher capaz de seduzi-lo com seu olhar, suas palavras e seu andar de um lado para ooutro, uma visão de um narrador “inocente”, na flor da idade. Tarde da noite, a casa toda dorme, com exceção do Sr. Meneses, esposo de D.Conceição, que havia saído para um encontro amoroso (adultério aberto, já que era deconhecimento de todos, mas tratado com o recurso do eufemismo); por estarem todosdormindo, a boa senhora pediu que falasse baixinho, o que leva o leitor a concluir suasintenções7 (como se a senhora precisasse esconder-se). O diálogo envolvera de tal forma ojovem que o fez esquecer-se da missa, envolvimento esse que contagia também o leitorinduzido a acreditar que algo acontecerá entre os dois; mesmo sendo a esposa de Sr. Menesesuma mulher discreta enquanto dialoga, ela encanta e seduz o jovem, mas, toda expectativa seacaba quando batem à porta. Estava na hora da Missa do Galo. O narrador lembra enquantoconta a sua história da irritação evidente no rosto da mulher. Toma-se em análise para fazer relação com o conto Machadiano, a recriação deAmador Ribeiro Neto, intitulado por Juca. Abre uma cena fotográfica que, num único fôlego,dá lugar a duas personagens: Juca, jovem de apenas catorze anos e seu tio. Ocupando o lugardo Sr. Nogueira, Juca, o narrador-personagem, é quem relembra e narra, vinte e nove anosdepois, a conversa incompreensiva que ocorreu com seu tio na noite de Natal. O tempohistórico da narrativa é outro, portanto, novo contexto: época da Bossa Nova, do6 Ora, nesse momento, parece oportuno ao narrador mostrar-se um leitor romântico, sensível, portanto,influenciado pelo autor Alexandre Dumas, e suscetível a aventuras do coração.7 Obviamente, tais intenções se tornam mais claras quando do momento presente, anos posteriores ao fatoocorrido, e o narrador já perdera sua inocência.

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