CAPÍTULO 3     "Viver não é necessário. Necessário é criar."     (Fernando Pessoa)     Enquanto deixava o computador a enc...
com chá quentinho completavam a recepção de boas-vindas. Mais logo teriaoportunidade de lhe agradecer, já que não o podia ...
— Então, Rodolfo — disse-lhe ela, enquanto ele se virava para a encarar,visivelmente surpreendido por aquela recepção calo...
profunda depressão em que Rodolfo entrara, ao atropelar uma criança de dez anos quese lhe atravessara na estrada. A culpa ...
Teresa fez como Rodolfo lhe pediu. Os dois cliques seguintes revelaram duasnovas palavras.     — “INCÊNDIO”, “VINGANÇA”.  ...
— De facto, extraordinário será a palavra adequada, pois tudo isto me parececompletamente extra ordinário! Só não consigo…...
— “Espera, espera, espera. Não estás a vingar-te da minha brincadeira, pois não?Não? Então, não me digas mais nada por tel...
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Capítulo 3 aleascript

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Capítulo 3 aleascript

  1. 1. CAPÍTULO 3 "Viver não é necessário. Necessário é criar." (Fernando Pessoa) Enquanto deixava o computador a encerrar, Rodolfo pegou num pijama, na escovade dentes, numa t-shirt, cuecas e meias, meteu tudo dentro de uma mochila, regressou àsala para arrumar o computador na mala própria e dirigiu-se à garagem. Não conseguiadeixar de pensar no que lhe tinha acontecido, embora a imagem de Teresa, a quem nãovia há mais de duas semanas, competisse fortemente com o sucedido pela primazia doseu pensamento. A casa de Teresa ficava no outro extremo da cidade, mas, àquela horada noite, vinte minutos seriam tempo mais do que suficiente para cobrir a distância queos separava. Com efeito, não precisou de mais de quinze para chegar ao seu destino,lembrando-se muito vagamente do trajecto realizado. O seu pensamento deambulara aosabor do balanço da curta viagem, alternando entre a extraordinária e intimidante proezado seu Aleascript e as imagens longínquas, no tempo e no espaço, da sua aventuraafricana, reavivadas pela forma aparentemente pouco aleatória de extracção de palavras. Tal como Teresa dissera, a chave estava no sítio habitual. Apesar de viver nacidade há muitos anos, mantinha alguns hábitos do tempo em que vivera numa pequenaaldeia no interior de Portugal. Rodolfo pegou na chave, abriu cuidadosamente a porta eentrou. Durante alguns segundos, às escuras, aspirou prazenteiramente aquele odorcaracterístico da casa de Teresa, mescla de perfume primaveril e de madeira recém-cortada. Teresa vivia numa casinha acolhedora de granito e madeira, forma queencontrou de, mesmo na cidade, manter uma ligação emocional à aldeia da sua infância.Licenciada em Matemática, adorava a paixão de Rodolfo pelos números. Conheciam-sedesde que Teresa viera viver para a cidade, há quase 15 anos. Na altura, uma palestrasobre a matemática dos astros fê-los cruzar caminhos. Desde aí, passaram a encontrar-se com alguma regularidade, sendo raro estarem mais de uma semana sem conversar. Evitou acender a luz, para não acordar Teresa. Às apalpadelas, deu com a sala deestar e entrou. Por sorte, Teresa tivera a lareira acesa e um calor aconcheganteenvolveu-o de imediato. Com a pressa, tinha pegado num pijama demasiado fino paraaquele tempo frio outonal, mas, com aquela temperatura da sala, seria mais do quesuficiente. Além disso, um cobertor de aspecto hospitaleiro convidava-o a entregar-serapidamente nos braços de Morfeu. Um pires com bolachinhas de chocolate e um termo
  2. 2. com chá quentinho completavam a recepção de boas-vindas. Mais logo teriaoportunidade de lhe agradecer, já que não o podia fazer agora… Rodolfo foi o primeiro a acordar. Na verdade, se dormiu duas horas terá sidomuito, pois a agitação provocada pelos acontecimentos da madrugada impediu-o derelaxar o suficiente para dormir mais. Levantou-se, dobrou o cobertor, pegou no termo eno pires e dirigiu-se para a cozinha. Apetecia-lhe imenso tomar um belo banho mas nãoqueria acordar Teresa, pelo que decidiu começar a preparar o pequeno-almoço, tal comoela o tinha intimado a fazer. Ligou a torradeira, colocou água na cafeteira eléctrica,abriu o armário do canto superior direito e retirou a caixa de madeira onde Teresaguardava uma imensa variedade de chás. Em pezinhos de lã, com a leveza que os seussetenta e cinco quilos comodamente lhe permitiam, foi até à porta de casa e abriu-a.Como calculava, o saco de pano, vazio, que Teresa deixara, à noite, preso na maçanetada porta, estava agora recheado de pãezinhos com ar estaladiço e ainda a fumegar.Apesar de viver sozinha, Teresa encomendava sempre, no mínimo, uns seis pães pordia. Muitas vezes acabavam por sobrar dois ou três, pois, tirando os dois que comia aopequeno-almoço e o que acabava por comer antes de se deitar, raramente tinhadisponibilidade para preparar um lanche caseiro. Não admirava, por isso, que tivessesempre uma boa reserva de pão congelado, óptima ajuda para quando tinha visitassurpresa. Na verdade, a par de um belo pão acabado de cozer, Teresa adorava comertorradas bem tostadinhas, besuntadas com um dos muitos de doces de frutos queguardava, em boiões de vidro, na sua despensa. Rodolfo pegou no saco e regressou à cozinha. Abriu o frigorífico e tirou umpacote de manteiga. Depois, abriu o congelador e tirou seis fatias de pão. Descongelou-as no micro-ondas e começou a colocá-las na torradeira. Entretanto, ligou a cafeteiraeléctrica e foi à despensa buscar os doces. Quando estava entretido a barrar as primeirasfatias com um fantástico doce de abóbora de chila, pintalgado de nozes que lheconferiam um efeito crocante delicioso, sentiu os lábios de Teresa na sua nuca.Normalmente cumprimentavam-se com dois beijos na cara, ocasião sempre aproveitadapor Rodolfo para, dando a entender casualidade, rodar pouco a cabeça e tocar, ao deleve, no canto dos lábios. Teresa, ou não percebia ou não desgostava. Também ela nãotinha um relacionamento mais duradouro fazia muito tempo, mas decidira que Rodolfoera um amigo a preservar a todo o custo e não deixava que essa fronteira fosseultrapassada.
  3. 3. — Então, Rodolfo — disse-lhe ela, enquanto ele se virava para a encarar,visivelmente surpreendido por aquela recepção calorosa —, metido novamente emalhadas, heim? O que te vale é a tua Teresinha, confessa lá. Rodolfo sorriu. Estaria, de facto, metido em alhadas, pensou, se não tivesse a sortede estar a usar um pijama que permitia dissimular o efeito que Teresa lhe provocara.Primeiro, o beijo quente na nuca. Depois, a cereja em cima do bolo, ou melhor, duascerejas em cima do bolo. Em abono da verdade, o bolo era mesmo a camisa de dormirde Teresa e as cerejas não estavam em cima, mas por dentro… — Vá lá, Teresa, não sejas má para mim. Nem imaginas o que se está a passar.Quando souberes vais dar-me razão! — Quando me falaste em bruxaria, calculei que estivesses a ser perseguido poralguma daquelas velhotas com que às vezes te metes — disse-lhe Teresa, aludindo aoaparente gosto de Rodolfo em namoriscar mulheres mais velhas. — Ou pelo marido! — Nada disso, Teresa, desta vez a história é outra. Durante o pequeno-almoçoconto-te tudo. À medida que Rodolfo ia contando a Teresa o que se passara na noite anterior,esta, embora não querendo mostrar-se completamente céptica, não deixava de lhecolocar algumas questões. — Mas, Rodolfo, não pões a possibilidade de se tratar, mesmo, de coincidência? Elogo tu, que tens uma capacidade inventiva enorme! Não te seria nada difícil, quaisquerque fossem as palavras que saíssem, achares uma forma de compor um texto de algoque se tivesse passado contigo! — Bem, Teresa, postas as coisas dessa forma, tenho de reconhecer que pode haverum fundo de verdade no que dizes. O que me dizes de fazermos mais umas tentativas? Com o consentimento de Teresa, Rodolfo foi buscar o seu computador. Quandovoltou à cozinha, Teresa tinha desimpedido um dos cantos da mesa. Ligado ocomputador e aberto o software, ficou tudo pronto para se iniciar a utilização doAleascript. — Aqui vai — disse Rodolfo, pressionando a tecla habitual, uma e outra vez.“PASSEIO", "BICICLETA", "CRIANÇA", "TRIBUNAL", "PSIQUIATRA.” Um silêncio pesado instalou-se naquela cozinha. Olharam um para o outro e nãoprecisaram de dizer nada. Se Teresa tinha dúvidas, obviamente legítimas, acerca dofuncionamento enviesado do Aleascript, dissipou-as num ápice ao olhar para o ecrã docomputador. Lembrava-se bem de, há cerca de 10 anos, ter sofrido bastante com a
  4. 4. profunda depressão em que Rodolfo entrara, ao atropelar uma criança de dez anos quese lhe atravessara na estrada. A culpa não tinha sido sua, como os próprios pais dacriança acidentada lhe afiançaram, mas isso não foi suficiente para impedir o seucolapso emocional. Foram precisos mais de dois anos e quase uma centena de consultaspsiquiátricas para Rodolfo recuperar desse grave acontecimento. — Ok, Rodolfo, não me restam dúvidas. Desculpa teres tido que relembrar esteepisódio para me fazeres acreditar no que dizias. — Não te preocupes com isso, Teresa. Como sabes tão bem, já ultrapassei esseinfortúnio. De qualquer maneira, ia sempre querer testar mais um pouco este programa.Para te dizer a verdade, neste momento nem sei bem o que fazer com ele… — Diz-me uma coisa, Rodolfo, o que achas que acontecerá se for eu a clicar?Quero dizer, isto se me deixares… Rodolfo não a deixou terminar a frase. — Claro que te deixo experimentar, Teresa, embora pense que o programa iráfuncionar da mesma forma, continuando a passar em revista os momentos marcantes daminha vida. Vá, força, o computador é todo teu. Teresa sentou-se em frente ao computador. Quase como se receasse levar umchoque, clicou e retirou o dedo de imediato. Uma palavra surgiu. — “DÍVIDA”. Olharam um para o outro.: — Bem, dívidas, quem as não tem? — comentou Rodolfo. — Continua, por favor. Novo clique, nova palavra. — “FIADOR” Desta vez, foi Teresa a comentar. — Toda a gente sabe que, na maior parte dos casos, para ser concedido umempréstimo tem de haver um fiador, para pagar a dívida em caso de incumprimento dapessoa que o contraiu. Avanço? Perante o assentimento de Rodolfo, Teresa fez mais um clique. — “ANGOLA”. — Angola não me diz muito — disse Rodolfo, intrigado. — Nunca lá fui e, quesaiba, talvez seja das poucas pessoas em Portugal que não teve familiares a voltar de ládepois do 25 de Abril. Dá dois cliques seguidos, por favor. Talvez fosse impressão sua mas pareceu-lhe que Teresa estava um pouco inquieta.Ansiosa pelo que poderia dali advir?
  5. 5. Teresa fez como Rodolfo lhe pediu. Os dois cliques seguintes revelaram duasnovas palavras. — “INCÊNDIO”, “VINGANÇA”. — Decididamente, Teresa, tinhas razão. Tudo não terá passado de uma grandecoincidência, pois, desta vez, não consigo rever nada do meu passado retratado por estaspalavras. Assim sendo, resta-me usar o programa para o fim que tinha idealizado, ouseja, inspirar-me para… Teresa cortou-lhe, bruscamente, a palavra. — É incrível, Rodolfo. Nem acredito que isto esteja a acontecer! — O que se passa, Teresa, o que queres dizer com isso? — Há mais ou menos cinco anos, um primo do meu pai quis comprar umautomóvel. Como no banco lhe exigiram um fiador, lembrou-se do meu pai e foi tercom ele. Sabes bem como é o meu pai, não sabe dizer que não a ninguém, muito menosa um familiar. O empréstimo foi feito e tudo correu bem durante um ano. Depois, de ummomento para o outro, o primo deixou de pagar e teve de ser o meu pai a assegurar asprestações. Como o empréstimo fora feito para um período de três anos, lá andou o meupai a pagar mensalidades durante dois. Ao assegurar o pagamento, o meu pai ganhou odireito ao carro, que o primo não levou quando desapareceu. Ao que parece, esse primoterá fugido para Angola, de onde era originário, e por lá terá ficado. Misteriosamente, oano passado, o carro do meu pai ardeu completamente. O carro ficava sempre na rua e,numa noite de Agosto, alguém o terá incendiado, de acordo com o relatório que aPolícia fez. Nunca encontraram o culpado, embora o meu pai suspeitasse do primo. Eagora… De novo um silêncio constrangedor invadiu aquela cozinha. Se, da primeira vez,havia sido a confirmação do poder do Aleascript, agora tudo parecia indicar não serRodrigo o exclusivo alvo daquele inexorável revelador de passados. — Teresa — disse-lhe Rodolfo, ao fim de alguns segundos que pareceram horas—, se bem percebi a história que contaste, o que o Aleascript parece estar a querer dizeré que terá sido mesmo o teu primo a incendiar o automóvel do teu pai, por vingança deter ficado com ele. — Sim, também é essa a leitura que faço. Depois veremos o que fazer com estarevelação. Para já, mais importante é que, aparentemente, o Aleascript consegueidentificar QUEM está a utilizar o computador, independentemente do dono do mesmo,o que é extraordinário!
  6. 6. — De facto, extraordinário será a palavra adequada, pois tudo isto me parececompletamente extra ordinário! Só não consigo… Teresa ficou sem saber o que Rodolfo não conseguia, pois o telefone dele tocou,interrompendo-lhe o discurso. No visor, Rodolfo leu Paulo infor, percebendo que achamada vinha do seu amigo informático que lhe havia criado o Aleascript. Nem depropósito! — Então, Paulo, queria mesmo falar contigo, rapaz. — “A sério? Que coincidência, não achas?” Rodolfo pareceu detectar algo de jocoso na forma como Paulo pronunciou apalavra “coincidência”. — Então diz lá por que é que ligaste. É por causa do programa? — “Sim, Rodolfo, é por causa do programa. Queria saber se estava a funcionarbem…” Uma vez mais, a sensação de um leve toque de ironia… — O mínimo que posso dizer é que funciona bem… ou, talvez, bem de mais. — “Não me digas que, por sorte, já tiveste a ideia para uma história. És umamáquina! Espero que o livro tenha grande saída”. Rodolfo identificou imediatamente as cinco palavras que lhe haviam surgido daprimeira vez que utilizara o Aleascript. Resolveu colocar a chamada em alta-voz. — Bem me parecia, pela tua voz, que tinhas uma carta na manga. Quer dizer quefoste tu quem manipulou as palavras que o Aleascript deveria extrair, é isso? Mas comque objectivo, Paulo? “Bem, na verdade foi apenas uma brincadeira. De qualquer forma, aquilo de que atua criatividade estava a precisar era de um empurrãozinho. Para isso, quaisquerpalavras serviriam. Lembrei-me, então, de programar, à partida, algumas sequências.Como te conheço bem, não foi difícil criar duas. Mas, pronto, a partir daí, estás por tuaconta e risco. Será caso para dizeres ao Aleascript “Give me five!” — Duas? Queres dizer que, para além da que referiste e da do meu casamentorelâmpago, não preparaste mais nenhuma sequência? — “Exacto, foi isso mesmo. Por que é que perguntas isso”? — Porque a coisa não ficou por aí. Além disso, uma amiga minha, que nãoconheces, experimentou e …
  7. 7. — “Espera, espera, espera. Não estás a vingar-te da minha brincadeira, pois não?Não? Então, não me digas mais nada por telefone. Precisamos de nos encontrarurgentemente. Podes passar aqui”? Rodolfo olhou para Teresa, que lhe deu sinal positivo. — Ok, Paulo. Daqui a meia hora estou aí. Se não te importares, levo a minhaamiga Teresa comigo. Ao que parecia, sair de casa à pressa começava a ser uma rotina na vida deRodolfo. Se bem que “rotina” fosse uma palavra completamente desadequada emrelação ao que a vida de Rodolfo seria a partir daquele dia…

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