Capítulo 1: Lulital - a magia começa

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Capítulo 1: Lulital - a magia começa

  1. 1. “Somente os sábios corações, de alma pura e verdadeira, são capazes de enxergar a magia existente além dos muros que cercam o mundo que conhecemos.”
  2. 2. Alguns Anos Antes... Cristal estava alarmada naquele dia. Havia algo de diferente no ar, algoque ela não sabia como explicar. Sua única certeza era que a pequena Cindycorria perigo e que só ela seria capaz de protegê-la. O telefone tocou:  Cristal, é você?  Oi, Suzi, sou eu sim.  Estou preocupada! Tive um sonho estranho com você esta noite.Estou com medo! Essas coisas que estão acontecendo em Luanda... Tenhomedo que seja por causa...  É, eu sei! Também sinto que há algo errado, mas eu sei o que precisaser feito.  Cristal tinha a determinação transmitida na voz.  Você não vai tentar encontrar...  O medo transparecia na voz deSuzi.  Sim, eu vou. É a única opção.  Mas Cris, é perigoso.  Não temos escolha. Estou indo até a cachoeira, talvez eu encontre oque procuro.  Cristal, não faça isso! E a Cindy?  Suzi tentou alertar, mas já eratarde. Cristal havia desligado o telefone. Horas mais tarde, os moradores de Luanda tiveram um choque: Cristalhavia desaparecido! Nas proximidades da cachoeira, encontraram a pequena Cindy, que nodia seguinte completaria seis anos, chorando assustada sem conseguir explicaronde a mãe estava.
  3. 3. Prólogo Até agora, Madre Silva sempre foi meu paraíso, meu refúgio, meu lar!Mudei-me para cá quando tinha seis anos, até então eu morava na pequenacidade de Luanda com meus pais, Téo e Cristal. Em uma determinadaprimavera, às vésperas do meu sexto aniversário, minha mãe desapareceu. Naépoca, a pequena e pacata Luanda se tornou agitada; as buscas eram intensase duraram semanas até que o caso foi arquivado sem solução. Meu pai, coitado, caiu em uma profunda tristeza, embora vivessetentando disfarçar. Vivia me contando histórias de como minha mãe era umanjo e por isso precisava ir para junto das estrelas. Ele não queria que eusofresse, mas no fundo acho que tentava encontrar uma explicação para o queaconteceu. A partir dos meus oito anos, eu já não pensava mais nisso, não acreditavaque ela tivesse virado um anjo. Eu sempre tive certeza que ela estava emalgum lugar maravilhoso olhando por mim e por meu pai, e nessa primaveraem Madre Silva, confesso que esperava que ela conseguisse colocar juízo nacabeça dele, um juízo que eu não conseguia colocar.
  4. 4. CAPÍTULO 1: O Regresso Ao Passado Era meu primeiro dia de férias. Quando acabei de almoçar, meu pai veiocom a terrível notícia:  Cindy, minha filhinha!  Sua voz transmitia uma alegria extremamentefalsa. Quando ouvi aquelas palavras, percebi que algo estava errado, não quemeu pai não costumasse me tratar como a princesinha dele, mas essa históriade filhinha, geralmente não significava coisa muito boa. Inúmeras vezes aquelafrase vinha seguida do sermão sobre as notas baixas na escola ou sobre aviagem que ele precisaria fazer a trabalho. Depois de, provavelmente, terpercebido meu olhar incrédulo diante de suas palavras, ele então continuou:  Vamos fazer uma viagem!  O sorriso estampado em seus rostotransmitia a certeza de que sabia que eu não iria gostar. Bem que meu pensamento havia me alertado. Meu pai sabia quanto euodiava fazer companhia em suas viagens de negócios. Geralmente eu ficavasozinha no hotel enquanto ele participava de alguma palestra sobre novasalternativas para o tratamento do câncer  aliás, esqueci de mencionar, meupai é médico! Já com medo da resposta, tentei parecer otimista:  Para onde vamos dessa vez? Olhou-me com olhos curiosos e apreensivos, com certeza tentandoimaginar qual seria minha reação.  Nós vamos passar um tempo... Aquela palavra “tempo” me congelou. Queria poder sair correndo de láantes de escutar o final da frase, mas já era tarde.  ... Em Luanda! O final foi pior do que eu esperava! O choque foi tão grande que fiqueisem reação durante um tempo que não sei determinar. Só conseguia ouvir apalavra “Luanda” ecoando em minha cabeça. Meu pai devia estar ficandolouco. Justo lá? Desde o desaparecimento de minha mãe, eu nunca mais quis retornaraquela patética cidade, mesmo que fosse para visitar minha avó. Eu levei dez
  5. 5. anos para superar o desaparecimento dela, durante esse tempo tive até quefazer terapias e agora ele queria me obrigar a reviver um passado que eupreferia esquecer. Ele só podia estar brincando! Ele tinha que estar brincando!  Pai, você está brincando, não é? Fechou o sorriso e fez um gesto negativo com a cabeça. Eu nãoconseguia assimilar o que estava acontecendo. Minhas pernas pareceram tervontade própria e quando dei por mim já estava em minha cama chorando. Passei o resto da tarde trancada no quarto, até que recebi umtelefonema: era vovó Pérola. Com certeza, papai havia ligado para ela;geralmente quando não sabia como lidar comigo, o que ele costumava chamarde “chilique aborrescente”, ele ligava para ela. O resultado do telefonema foique ganhei um sermão de pelo menos meia hora, o qual me fez sentir culpadapor estar agindo daquela forma. Na hora do jantar, minha raiva já havia passado, e papai e eu já havíamosvoltado a conversar. Aceitei os argumentos dele de que precisava voltar paraLuanda por causa do hospital que pertencia à família dele há décadas e que omédico responsável havia pedido demissão, pois se mudara para o exterior. Decidi fazer as malas, mas não sem antes o fazer prometer, inúmerasvezes, que voltaríamos assim que ele encontrasse um bom médico parasubstituí-lo. No dia seguinte, com o primeiro raio de sol, já estávamos na estrada.Depois de duas tentativas fracassadas de tentar me animar, decidi me isolar epassei o resto da viagem com o fone no ouvido escutando pop rock no celular. Ao entardecer daquele dia, chegamos a Luanda. Meu desinteresse poraquela patética cidade foi maior quando percebi que a casa em que iríamosficar era a mesma em que moramos há dez anos. Nada havia mudado: o rosa bebê da parede ainda estava lá, assim comoo balanço da árvore em que quebrei o braço aos quatro anos. O que mais mesurpreendeu foi perceber que o jardim, no qual minha mãe sempre dedicavagrande tempo e grande prazer em cuidar, ainda estava com inúmeras florescoloridas que balançavam ao vento e no centro, embora um pouco desbotada,havia a mesma placa em forma de flor escrita “Aqui mora uma família feliz”.Com certeza vovó andava cuidando da casa, devia ter se mudado para láquando deixei de frequentar Luanda.
  6. 6. Quando vi aquilo, meu estômago revirou. Meu pai não podia estar falandosério! Naquele momento, vovó Pérola veio, toda animada, em nossa direçãonos enchendo de abraços.  Cindy, minha querida. Que bom vê-la novamente! Parece que cresceudesde a última vez a vi, mas acho que está um pouco pálida. Você tem sealimentado direito? – Ela estava muito animada. Vovó Pérola era aquela típica “avozinha” de filmes usando vestido florido,chinelo, o cabelo preso em um coque e o sorriso estampado no rosto. Suapreocupação número um? Alimentação!  Sim, vovó! Não se preocupe. Os melhores restaurantes ficam emMadre Silva.  disse eu, um tanto sarcástica, enquanto papai tentava disfarçaruma risada.  Restaurante?  vovó estava incrédula, acho que levou a piada ao péda letra.  Eles não sabem cozinhar! Venham, entrem. Preparei um ótimolanche para vocês, aí sim, saberão o que é comer. Realmente o lanche estava ótimo: bolo, pão caseiro e leite quente; coisastípicas de cidade interiorana. É claro que eu preferia comer em um fast-food. O restante do dia se passou calmamente: desfiz as malas, vovó meencheu de perguntas sobre como andava minha vida na cidade grande, meusamigos, a escola e até sobre meus supostos namorados. Passei a maior partedo dia abrindo as malas e assistindo TV no quarto. Nessa primeira noite, não dormi muito bem, acho que a mudança haviafeito mais mal do que eu imaginava. Tive pesadelos durante toda a noite;acordei inúmeras vezes, muitas delas pensando em minha mãe. Em meuspesadelos, ela estava sempre lá, mas depois era arrancada de mim por umsopro de vento sem dizer uma única palavra que fosse. Quando amanheceu, eu ainda estava cansada, era o resultado de umanoite mal dormida. Desci para a cozinha e encontrei o café pronto com minhaavó me aguardando.  Bom dia, querida!  Disse ela amavelmente.  Bom dia, vovó.  Tentei parecer animada, mas meu tom de voz meentregou.
  7. 7.  Você não parece bem, Cindy. O que foi?  Nada, vovó! Só que não dormi muito bem. Acho que estranhei umpouco a mudança.  Tentei ser persuasiva, odiaria ter que contar meu sonho.Acho que a meia verdade funcionou. O restante do café foi silencioso. Quando terminei, fui arrumar o quarto,coisa que não costumava fazer em Madre Silva, mas como agora não tínhamosempregada, achei que não era justo deixar que vovó o fizesse. De repente, ouvi o telefone tocar e algum tempo depois vovó me chamoulá da sala. Desci rapidamente as escadas e encontrei-a parada ao lado dotelefone. A Senhora me chamou, vovó?  Adivinha quem ligou? Era óbvio que eu nunca saberia, não fazia nem 24 horas em que euestava na cidade. Olhei para ela tentando parecer curiosa.  Brenda!  Disse ela, animada.  Quem?  Não se lembra da Brenda? Vocês eram grandes amigas quandocrianças. Procurei em minhas memórias uma lembrança perdida e finalmente aencontrei. Durante alguns fins de semana quando costumava ir para Luandanós nos encontrávamos e ficávamos colocando os assuntos em dia, não só elacomo também Tatiana, mas isso antes dos meus onze anos, quando decidiabandonar de vez aquela cidade.  Ah, sim, vovó, Brenda. É claro que me lembro dela, fomos grandesamigas. E para que ela telefonou?  Perguntou se poderia vir lhe visitar. Eu disse que não havia problemas.Espero que não se importe. Somente nesta cidade mesmo! Não fazia nem 24 horas que eu haviachegado e provavelmente a cidade toda já estava sabendo.  Tudo bem! Vai ser bom rever as velhas amigas.  Tentei dar umsorriso forçado e fui para o quarto. Meia hora depois, como eu havia previsto, lá estavam Brenda e Tati emmeu quarto. Brenda havia mudado muito desde que me lembrava dela: o
  8. 8. cabelo agora estava curto, estilo rebelde com as pontas desfiadas, o visual aomesmo tempo largado e cheio de estilo com uma bermuda, camiseta e tênis. Olook de Brenda parecia estar a anos-luz da pacata e tradicional cidade deLuanda. Tati, minha melhor amiga de infância, não havia mudado quase nadaalém da estatura: seus cabelos longos e lisos desciam até sua cintura, sua peleparda combinava e realçava perfeitamente seus olhos negros, bem ao estilo“Pocahontas”. Seu visual era bem típico do interior: vestido hippie e sandáliasem salto. Apesar da simplicidade em seu jeito de vestir, minha amiga pareciauma princesa de algum país do oriente. Perfeita! Enquanto eu continuava amesma garota comum de sempre: cabelos dourados, olhos claros como deminha mãe e sem nenhum sonho. Achei que seria chato o reencontro, mas fui surpreendida. No fim datarde, já estávamos tão amigas que era como se eu nunca tivesse ido embora. A primeira semana em Luanda foi melhor do que eu esperava. Brenda,Tati e eu, nos divertimos muito. Elas me mostraram a cidade e as pessoas, nãoque essa cidade tivesse muito a se ver, mas foi divertido! Três semanas haviam se passado, papai já não falava em voltar a MadreSilva e eu também não perguntava. Embora não quisesse admitir, eu estavame divertindo com minhas amigas. Elas faziam com que eu esquecesse atristeza vivida nos últimos anos. Tudo estava perfeito, até aquela manhã de sábado, quando recebi umtelefonema de Tati.  Alô?  Cindy, é você?  Sim. Tudo bem, Tati?  Tudo! Brenda e eu estamos querendo ir a cachoeira depois do almoço,o que acha?  Claro! Vai ser ótimo. Encontro vocês na entrada da floresta, e depois agente janta aqui em casa.  Ok, então. Até lá!
  9. 9. Uma das poucas coisas que eu gostava em Luanda era da cachoeira. Umlugar fantástico, de uma beleza inigualável. Desde que havia retornado, euainda não tinha encontrado forças para chegar lá. Quando criança, aquele era meu refúgio, era onde mamãe e eupassávamos grande parte de nossos fins de semanas aproveitando o sol, quequase sempre estava ótimo para nadar. Almocei rapidamente. Papai precisou ficar no hospital  embora fosseum hospital de cidade pequena, era excelente e recebia pessoas do país todopor ter certo prestígio no campo da medicina e também porque, supostamente,o ar puro da cidade interiorana ajudava no tratamento (era o que meu paidizia). Deixei recado com minha avó, troquei de roupa e saí. Quando me encontrava no jardim, olhei para o canteiro de flores e tive aimpressão de ver bolas brilhantes não maiores que um palmo e que pareciamdançar entre as flores, ao mesmo tempo ouvi uma suave voz vinda não sei deonde.  Princesa! Você não pode ir até lá. É perigoso!  Quem está aí? – Assustei-me. Não havia ninguém e a voz continuou:  Princesa, esqueça a cachoeira. O mal está lá, o mal domina a floresta,você precisa... A voz desapareceu em um sussurro. Apesar de ter achado estranho,ignorei o ocorrido e fui encontrar minhas amigas. Quando cheguei, as meninas já me aguardavam. Subimos a trilha principal. Caminhamos durante algum tempo e enfimchegamos à cachoeira. Passamos o restante da tarde conversando, nadando ecomendo um delicioso bolo que a mãe de Tati havia preparado. A tarde estavamaravilhosa e nada poderia perturbar aquela paz e felicidade que eu estavacomeçando a sentir. Pelo menos, era o que eu achava.
  10. 10. CAPÍTULO 2: O Passado Torna a Assombrar Era por volta das seis horas da noite quando decidimos regressar, o solcomeçava a se pôr e era lindo. Começamos a descer quando, de repente, umnevoeiro começou a surgir e a tomar conta da floresta. Em questão desegundos, estávamos num completo breu.

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