E-readers: a revolução da imitação do papel

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Reportagem para a Revista Continente (www.revistacontinente.com.br), publicada em junho de 2010. Tem o ponto de vista de players do mercado como Livraria Cultura, editora Gato Sabido, editora Hedra, e de escritores como Marcelino Freire, Daniel Galera e Nelson Oliveira.

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E-readers: a revolução da imitação do papel

  1. 1. Images.com/Corbis/Corbis(DC)/Latinstock con ti nen te TECNOLOGIA 1 co n t i n e n t e j u l h o 2 0 1 0 || 3 0 co n t i n e n t e j u l h o 2 0 1 0 3 1
  2. 2. 2 E-READERS A revolução da imitação do papel Editores, livreiros e escritores avançam na discussão sobre o fim do livro impresso e defendem que o mercado de e-books é um bem-vindo caminho irreversível texto Márcia Lira co n t i n e n t e j u l h o 2 0 1 0 | 3 1
  3. 3. con TECNOLOGIA ti nen te divulgação douglas luccena/divulgação 1 mercadO O diretor de operações da Cultura, Sérgio Herz, lembra que há seis anos não se vendia livros digitais no país 2 gato sabidO Carlos Eduardo Ernanny lançou a editora apenas com e-books e leitor digital próprios 3 ALICE para o IPAD Em estilo de marketing viral, propaganda do e-book Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, tem milhares de acessos no Youtube 1 A revolução no consumo da música, ocorrida à revelia de tanta gente, desconstruiu conceitos e abriu passagem para outro terremoto. Desta vez, no mercado editorial. Sorte que a experiência anterior deixou algumas lições: ninguém quer seguir o mau exemplo das gravadoras, que subestimaram o poder do MP3 e colheram prejuízos. Então, editoras, livrarias, autores e leitores entendem que livros eletrônicos e leitores digitais são um caminho sem volta. O difícil é saber onde esse caminho vai dar. O fato é que não há como negar o potencial do e-reader – um equipamento menor, mais fino e mais leve que um netbook, com bateria de longa duração e capaz de carregar uma biblioteca inteira de mais de mil títulos para qualquer lugar. Ora, a nova geração deles usa uma tecnologia que imita o papel físico e, assim, derruba o principal argumento de resistência – a dificuldade de leitura em telas eletrônicas. São displays da fabricante E-Ink, mais agradáveis aos olhos por não refletirem a luz. Esses leitores 2 permitem fazer o download de um livro no formato digital com alguns cliques e poucos segundos. Levam, ainda, uma pitada da tecnologia DRM (Digital Rights Management), que impede cópias ilimitadas dos e-books através de criptografia. Os avanços os tornaram atraentes e empresas gigantes pelo mundo não param de lançar modelos, renovando o fôlego dos livros digitais. Apesar dos holofotes recebidos recentemente, as obras em arquivos eletrônicos estão longe de serem novidade. Vagam pela internet há décadas e remontam a 1971, quando o Projeto Gutenberg – grande biblioteca online, resultado de um esforço voluntário – disponibilizou os primeiros títulos na web. O diretor de operações da Livraria Cultura, Sérgio Herz, lembra que o site da empresa oferecia e-books há uns seis anos. “Não vendia nada”, diz. E hoje? Herz responde, sem divulgar números, que “não dá nem para comparar. É outro mundo”. Certamente, as rápidas transformações da sociedade, agora ultraconectada e co n t i n e n t e j u l h o 2 0 1 0 | 3 2 3 tecnológica, deram mais sentido à ideia do livro virtual. O novo cenário levou a empresa a lançar cerca de 20 mil títulos em vários idiomas. Mas, apesar da decisão, o diretor acha difícil definir como lidar com o novo mercado. “A gente não sabe qual o tamanho dele. Se o consumidor vai ficar bem ou não diante dessas novidades.” NEGÓCIOS EM QUESTÃO A dúvida de Herz é apenas uma entre as que pairam nas cabeças dos que jogam as cartas do setor no Brasil. Quanto o leitor está disposto a pagar por um livro digital? Os e-readers são realmente imunes à pirataria? E o percentual do autor? Qual o modelo de negócio ideal? “Não se sabe ainda como funcionará, ao mesmo tempo em que ninguém tem dúvida de que será em termos ainda não estabelecidos e sequer imaginados. Precisamos ser muito maleáveis e dispostos a rever nossos paradigmas de negócio”, comenta Iuri Pereira, da editora Hedra, que está em fase de preparação para comercializar obras eletrônicas.
  4. 4. reprodução 3 A editora Conrad se adiantou como a primeira brasileira a lançar um livro em quadrinhos para o iPad, com Sábado dos meus amores, do niteroiense Marcello Quintanilha. Mesmo não sendo um e-reader, o computador de mão da Apple agrega a função, entre várias, com a sua portabilidade e design em forma de prancheta. O lançamento de uma versão colorida e animada de Alice no País das Maravilhas para o tablet reforçou a sua função de suporte para livros multimídia. Mais dois quadrinhos vão estar disponíveis em breve para os adeptos do iPad, segundo o diretor editorial da Conrad, Rogério de Campos: Chibata – João Cândido e a revolta que abalou o Brasil e o romance dele, Revanchismo. As investidas, segundo Rogério, não significam que o equipamento virou um foco. “Para focar, é preciso ter certeza, para ter certeza é preciso entender. Estamos naquele momento em que o negócio é fazer para depois entender.” Esse parece ser o raciocínio que norteou o empresário Carlos Eduardo Ernanny ao lançar a Gato Sabido. A Até o momento, equipamentos como Sony Reader ou o próprio iPad ainda não estão disponíveis para venda no Brasil referência ao suposto complexo de inferioridade do brasileiro. As vantagens dos e-books são citadas pelo empresário com a própria experiência: “Eu fui para a Europa e pela primeira vez levei só um e-reader com 30 livros. No meio da viagem, eu decidi que livro eu queria ler”. e-bookstore entrou no mercado editorial brasileiro comercializando o próprio leitor digital Cool-er e apenas livros eletrônicos. Cansado do mercado financeiro, no qual trabalhou por 17 anos, e amante da literatura, ele resolveu investir, após várias pesquisas, nos livros sem papel. “Todo mundo sempre soube que o e-book algum dia iria acontecer”, diz. A empresa surgiu na mesma época em que os e-readers começaram a pipocar pelo mundo, no final do ano passado. Fato que colaborou, acredita Carlos Eduardo, para “acordar” concorrentes e parceiros no país, evitando a famosa “síndrome do viralata” – termo tomado emprestado do escritor Nelson Rodrigues, em As questões ainda sem resposta deixam morno um negócio em plena febre em países como os Estados Unidos. Para começar, o Cooler é um dos poucos três e-readers comercializados oficialmente no Brasil até o momento, junto com o Kindle, da Amazon, e o pernambucano recémlançado Mix Leitor D (leia no quadro da página 36). Equipamentos como Sony Reader ou o próprio iPad ainda não estão disponíveis no país. Os preços deles também não são muito atraentes: o mais em conta é o Cool-er, que sai por R$ 750, o Mix Leitor D custa R$ 990 e o Kindle vale cerca de R$ 1 mil. Outro entrave é a quantidade tímida de obras digitais em português. Dos 20 mil títulos lançados co n t i n e n t e j u l h o 2 0 1 0 | 3 3 VERSÃO BRASILEIRA
  5. 5. con TECNOLOGIA ti nen te reprodução MODELO DE leitor digital PERNAMBUCANO Há um público que pode ser especialmente beneficiado com os e-readers e livros eletrônicos. Imagine um estudante indo para o colégio: na mochila, todos os livros didáticos guardados num leitor digital de apenas 300 gramas. Situações como essa inspiraram a criação do Mix Leitor D, o modelo pernambucano lançado em junho. Ele é produto de dois anos de desenvolvimento do hardware pela Mix Tecnologia e do conceito voltado para a educação, pensado pela Carpe Diem Edições e Produções. Se considerarmos que o Brasil é o maior mercado consumidor de obras didáticas do mundo, a aposta é acertada. Na configuração, o aparelho não deixa a dever a nenhum concorrente, com a tela de papel eletrônico de seis polegadas e teclado QWERTY. Suporta até 16 GB, com cartão de memória, conexão Wi-Fi e aceita vários formatos de e-books, além de outras mídias como áudio MP3 e imagens JPG. A bateria deve atender às necessidades do público, pois permite a troca de até oito mil páginas. Possui dois softwares patenteados 100% nacionais: o Interquiz e o WiAA. O primeiro permite buscar questões sobre o conteúdo lido na hora, respondendo a perguntas e visualizando respostas. O segundo é uma rede acadêmica, na qual é possível conferir notas, horários, diários de presença. Os destinos do primeiro lote do equipamento foram as pré-vendas e as parcerias firmadas antes mesmo do lançamento com colégios, cursos, empresas de mídia. A grande maioria fora de Pernambuco. Um dos destaques do equipamento, segundo o diretor da Carpe Diem e idealizador da Fliporto, Antônio Campos, é o fato de ser híbrido: possibilita a aquisição de conteúdo no portal próprio, com conexão à internet, e também através de arquivos via entrada USB. Chega ao público em geral por R$ 990. Site: www. mixleitord.com.br (M L) 4 pela Livraria Cultura, nem 100 são no nosso idioma. Técnicos e infantis são a maioria, autores de literatura conhecidos são poucos. É um A cidade ilhada (R$ 24,50), de Milton Hatoum, aqui, um recém-lançado Leite derramado (R$ 29), de Chico Buarque, ali. Um pouco mais generosa com a língua portuguesa, a Gato Sabido disponibiliza cerca de mil obras no idioma, segundo Carlos Eduardo, de um total de 100 mil. Porém, quem for procurar um best-seller talvez não ache: além de livros técnicos, boa parte do acervo é de novos autores – que contam com um canal para oferecer suas obras sem intermediários. Mas tudo indica que essa é uma fase passageira. Afinal, até a Google anunciou ter um e-reader em desenvolvimento e prometeu lançar uma loja de livros digitais. Ponto para o acervo público, que representa um reforço significativo ao disponibilizar milhares de obras gratuitamente para download. A biblioteca digital mais antiga é o projeto colaborativo Gutenberg, que reúne mais de 30 mil obras em domínio público. Basta entrar no site, buscar e baixar. Em português, encontra-se Machado de Assis à vontade, além de Eça de Queiroz, Júlio Verne, Shakespeare, Dostoiévski. Outra coleção importante é a Brasiliana digital, da USP, da qual constam centenas de títulos, inclusive a coleção de livros e documentos raros doados à universidade pelo falecido co n t i n e n t e j u l h o 2 0 1 0 | 3 4 A biblioteca digital mais antiga é o projeto colaborativo Gutenberg, que reúne mais de 30 mil obras em domínio público bibliófilo José Mindlin. Gradualmente, as obras são convertidas para o formato e disponibilizadas. Uma aquisição recente do espaço virtual foi a obra poética completa de Vinicius de Moraes. SOB DEMANDA Ao mesmo tempo em que a cautela existe, vantagens se descortinam em torno do negócio dos livros digitais. Há quem defenda, por exemplo, que a impressão sob demanda será o negócio do futuro. Ou do presente, no caso da editora E-papers, que há quase 11 anos vende livros acadêmicos eletrônicos ou colocados no papel quando pedidos. O projeto nasceu incubado na UFRJ e depois se consolidou no nicho. “No início, foi bastante difícil. A minha intenção era só ter livros eletrônicos, mas ainda era um conceito muito novo. Nos anos 2000, quase nenhum dos primeiros aparelhos leitores de livros digitais chegou ao Brasil”, lembra a editora-chefe da E-papers, Ana Cláudia Ribeiro, “A gente ainda tinha que convencer o leitor, uma espécie de catequese. Hoje
  6. 6. 4 omércio c O Cool-er é um dos três e-readers comercializados oficialmente no Brasil, e o mais barato deles, custa R$ 750 em dia, todo mundo entende o que é um e-book.” As vendas de livros digitais da editora aumentaram muito, segundo Ana Cláudia, de modo que representam hoje 50% dos pedidos. São cerca de 400 títulos disponíveis, praticamente todos em português. A fórmula também tem funcionado para a Singular Digital, criada em 2009, tendo a Ediouro como principal acionista. A editora publica autores independentes, cuidando de todo o processo a partir dos textos do escritor até a distribuição para os canais de venda, como livrarias físicas e virtuais. “Existe um potencial enorme que envolve universidades, alunos de graduação e pós-graduação, teses, dissertações, num número difícil de mensurar”, explica o diretor-geral da Singular, Newton Neto. A empresa é pioneira na digitalização e conversão de e-books, prestando serviços para outras editoras. Historiadora e professora da UFRJ, Heloísa Buarque de Hollanda acredita que a impressão sob demanda pode espantar dois fantasmas: livros esgotados e livros encalhados. “A figura do estoque, que é horrível, um carma de todas as editoras, vai acabar. Um amigo economista escreveu num artigo que o estoque é o único investimento que eu alugo por centímetro, e pago para não render”, afirma, sobre o preço de armazenamento de livros, com a propriedade de quem comanda a editora Aeroplano. ARTIGO DE LUXO De sua parte e em geral, os escritores parecem abertos às mudanças sem maiores traumas. Paulo Coelho provou que não há o que temer ao disponibilizar gratuitamente uma edição digital russa do seu último divulgação Entrevista MARCELINO FREIRE “NÃO TENHO ESSA COISA DO CHEIRO DO LIVRO” Com o bom humor que lhe é peculiar, o escritor Marcelino Freire falou por telefone sobre e-books para a Continente. Estava a caminho de uma palestra numa biblioteca na comunidade de Paraisópolis, em São Paulo, onde mora. Ao estrear no formato digital a convite da Mojo Books, ficou surpreso com os 14 mil downloads em menos de dois meses de É só isso o meu baião, romance que escreveu inspirado na faixa homônima do disco Getz/ Gilberto, de Stan Getz e João Gilberto. CONTINENTE Você já teve contato com algum e-reader? MARCELINO FREIRE Uns dois amigos meus têm o Kindle: eu olhei, ele é muito bonitinho, pequenininho, leve. Trabalha com uma tecnologia que deixa a tela fosca, a luz não cega o leitor. Eu gosto do formato, acho que é muito importante, principalmente para professores e pesquisadores. Imagine os livros todos armazenados ali dentro, podem ser lidos tranquilamente no avião, sem problema de peso, de coluna. Para um homem que está ficando cego, eu estou ficando cego, é uma maravilha: você pode aumentar a letra e, se quiser, ouvir também. CONTINENTE Tem sentido falar no fim do livro em papel? MARCELINO FREIRE Creio que essa coisa de que o livro em papel vai acabar não é verdade. O livro vai sempre existir, aquele que você carrega para o banheiro. Só que o homem é inteligente e precisa avançar nas suas necessidades. Eu não sou muito nostálgico, não tenho essa coisa do cheiro do livro. Qualquer coisa faz uma essência. Não ligo se o que eu escrevo vai co n t i n e n t e j u l h o 2 0 1 0 | 3 5 para a tela de um Kindle ou para a página de um livro. Desde sempre é a mesma inquietação. Agora, se o cara puxa um Kindle, você não sabe o que ele está lendo, a gente fica curioso para ver a capa. Outra vez, eu estava no avião e uma senhora levantou – quando ela tirou o livro, era do Lourenço Mutarelli (autor de O Cheiro do Ralo, entre outros), que milagre! Comecei a rezar um pai-nosso para o avião não cair. CONTINENTE Como você encara o livro eletrônico? MARCELINO FREIRE A única coisa que pega para o autor é o seguinte, preste bem atenção. Com essas novas mídias, a gente está discutindo junto ao Governo sobre os direitos autorais. A porcentagem costumeira para o livro impresso é de 10 %, mas nesse caso não é a mesma despesa. Não há despesa de distribuidor, impressão. Como é que o autor vai ganhar apenas 10% daquilo que criou, se todos esses atravessadores, os caminhos onerosos, deixarão de existir? Vai se chegar a um acordo nesse sentido. Os Estados Unidos são mais rápidos, já existe um olhar eletrônico. Faço parte do Movimento Literatura Urgente, e os autores ainda são muito amadores na hora da discussão. Não há organização nenhuma dos escritores. Imagina! Tirar eles de casa já é um sacrifício. Até organizar esses escritores todos, minha filha, “Inês já é morta”. (ML)
  7. 7. con TECNOLOGIA ti nen te Fotos: divulgação E-readers no Brasil Cool-er Produto da Gato Sabido, pesa 178 gramas e possui um software que melhora a visualização de arquivos PDFs. Ajusta a formatação e permite aumentar o tamanho das letras. Também com tela de 6 polegadas de papel eletrônico, custa R$ 750 e dispõe de versões em várias cores. Não tem teclado físico, mas conta com um virtual acionado quando necessário. Visualiza mais do que os principais arquivos: PDF, ePub, TXT, além de MP3 e JPG. Permite comprar livros direto da e-bookstore Gato Sabido. Site: www. gatosabido.com.br Kindle 5 O mais famoso e-reader oferece experiência de leitura próxima do livro em papel, na tela de 6 ou de 9,7 polegadas. Com ele, o usuário tem à disposição boa parte do catálogo da maior livraria virtual do mundo, a Amazon (principalmente na língua inglesa). Não tem Wi-Fi, mas conta com acesso 3G pago pela própria fabricante. Permite comprar e-books facilmente através do cartão de crédito. Pesa 200 gramas, aceita USB e conta com teclado físico. Uma das críticas direcionadas a ele é o fato de que só aceita o arquivo com extensão AZW, formato da própria fabricante – e recentemente passou a ler PDF. Não visualiza o formato ePub, apontado como padrão. Custa cerca de R$ 1 mil. Site: www.amazon.com livro por conta da falta de papel no país, numa espécie de autopirataria. Quando o livro foi reeditado na Rússia, bateu 1 milhão de vendas. Best-sellers à parte, Daniel Galera conta que se ofereceu para ser um pouco cobaia da sua editora para negócios do tipo. “Eu acho que para os autores isso só traz benefício. Eles estão juntos com o risco das editoras: se elas estiverem mal, eles têm um problema.” Com quatro livros publicados, sendo o último Cordilheira (2008), Galera resolveu abrir o download do e-book de Dentes guardados no seu site Rancho Carne. Como era edição independente e está esgotada, a coletânea de contos publicada em 2001 foi convertida para o formato PDF e disponibilizada. Mas mesmo sendo um entusiasta das novas mídias, Daniel Galera não acredita que o livro em papel vai acabar – questão inevitável quando se toca no assunto e-books. “O que deve mudar é o comportamento do consumidor. É provável que, a longo prazo, o livro se torne um pouco artigo de luxo, como é considerado co n t i n e n t e j u l h o 2 0 1 0 | 3 6 Heloísa Buarque de Hollanda percebe nas pessoas um “medo louco” de que a tecnologia destrua a literatura o CD. Você gosta do artista e faz questão de ter”, aposta o escritor. A tranquilidade em relação à permanência do livro tradicional também é manifestada pelo escritor Nelson de Oliveira, que negocia com a Ateliê Editorial o lançamento de três obras no formato virtual. Em contrapartida, o recémlançado título de sua autoria Poeira: Demônios e maldições (2010) é sobre um mundo tão abarrotado de livros – nos quartos, banheiros, corredores, ruas –, que os governos precisam proibir novas obras. Empolgado com o Kindle que ganhou da esposa, Oliveira observa que o e-paper não acabará com o papel de celulose da mesma maneira
  8. 8. 5 ENTUSIASTa Com quatro livros publicados, Galera resolveu disponibilizar o download do e-book de Dentes guardados no seu site Rancho Carne 6 lançamentos O escritor Nelson de Oliveira, que possui um Kindle, está em negociação com o Ateliê Editorial para lançar três livros em formato e-book 6 que o MP3 não acabou com o CD e o vinil. “Mas fará diminuir bastante as edições em papel. Ainda bem. Atualmente são publicados perto de 20 mil novos livros por ano, segundo a Câmara Brasileira do Livro. É papel demais!” Para defender da digitalização esse artigo de valor simbólico tão forte, que é o livro, o escritor italiano Umberto Eco e o roteirista francês Jean-Claude Carrière escreveram Não contem com o fim do livro (2010). Numa declaração de amor ao objeto, os dois garantem que os formatos vão conviver. Sempre que fala em público, Heloísa Buarque de Hollanda sente um “medo louco” nas pessoas de que a tecnologia destrua a literatura. “Ela não está minimamente ameaçada. O que vai acontecer é a expansão de uma arte narrativa e poética nova, em que entram muito som e imagem. Sai da tela e volta”, afirma, exemplificando a ideia com a antologia digital Enter, que ela organizou no final de 2009. Hospedada na web, reúne textos, áudio, vídeos e imagens, criações de artistas contemporâneos. Essa abertura criativa tem dado espaço para projetos como a Mojo Books, uma editora digital que indaga: se música fosse literatura, que história contaria? Ao escolher um álbum e escrever um livro inspirado nele, qualquer pessoa pode ter um e-book editado e publicado na Mojo. Basta ser bom para os editores Danilo Corci e Ricardo Giassetti, que lançam em média quatro dos 40 textos que recebem por mês. “Se não estiver bom, pedimos para o autor retrabalhar. Vai da vontade dele insistir ou desistir”, Corci dá a dica. Resta ao poder público garantir coisas como a ampliação do próprio conceito do livro para abranger o digital na regulamentação da Política Nacional do Livro, segundo o diretor de Livro, Leitura e Literatura do Ministério da Cultura, Fabiano dos Santos. Na opinião dele, nessa discussão, o mais importante é o acesso ao livro e, sobretudo, a formação dos leitores. “É aquela velha frase do Monteiro Lobato: ‘Um país se faz com homens e livros’. Eu gosto de dizer que se faz com homens, mulheres, crianças, livros e leitura.” co n t i n e n t e j u l h o 2 0 1 0 | 3 7 onde encontrar Sites que oferecem diversos títulos de livros digitais no país Brasilianas Digital www.brasiliana.usp.br Conrad www.lojaconrad.com.br Daniel Galera www.ranchocarne.org Enter www.oinstituto.org.br/enter E-Papers www.e-papers.com.br Gato Sabido www.gatosabido.com.br Heloísa Buarque de Hollanda www.heloisabuarquedehollanda.com.br Livraria Cultura www.livrariacultura.com.br Mojo Books www.mojobooks.com.br

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