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agroecológica externa, sua capacidade de promover
mudanças sociais, constituindo-se tanto
em conseqüências como em alavancas de
políticas voltadas para a re-estruturação e re-
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de consumo e do próprio desenvolvimento
rural. Será ainda apresentada a importância
das ligações em diversos níveis (da consciência
pública, mercados e infra-estruturas; mudanças
no ensino, pesquisa e extensão rural;
legislação; e reforma agrária) no processo de
transição agroecológica externa.

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Transição agroecológica externa e mudança social

  1. 1. 56 CLAUDINO, Livio Sergio Dias 1 , LEMOS, Walkymário de Paulo 2 , DARNET-FERREIRA, Laura Angélica 3 Resumo Apesar do significativo avanço tecnológico para o aumento da produção e produtividade de alimentos, a fome e a degradação ambien- tal ainda persistem em diferentes regiões do planeta. Por tais motivos, e contrariando o modelo atual de desenvolvimento agrícola, a 1 Eng. Agrônomo, MSc. em Agriculturas Familiares e Desenvolvimento Sustentável (UFPA) e Doutorando em Desenvolvimento Rural, Pós-graduação em De- senvolvimento Rural, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Bolsista doutorado FAPER- GS/CAPES, E-mail: livioclaudino@hotmail.com 2 Eng. Agrônomo, DSc. em Entomologia (UFV), pesqui- sador A da Embrapa Amazônia Oriental e professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Agri- culturas Familiares e Desenvolvimento Sustentável (UFPA). E-mail: wplemos@cpatu.embrapa.br 3 Zootecnista, DSc em Sistema de Criação e Desenvol- vimento Rural (INA-PG, França), Docente do Núcleo de Ciências Agrárias e Desenvolvimento Rural da Uni- versidade Federal do Pará. E-mail: laurange@ufpa.br Agroecologia surge como uma proposta cien- tífico–metodológica em busca de diretrizes para a transição rumo à sustentabilidade em suas múltiplas dimensões. Este artigo anali- sa como a consciência pública; os mercados e as infra-estruturas; as mudanças no ensino, pesquisa e extensão rural; a legislação; e a re- forma agrária, podem se constituir em fatores relevantes no processo de transição agroeco- lógica externa, por serem tanto consequên- cias como alavancas do processo de mudança social, estando relacionados às (re)formula- ções de políticas públicas no país. Palavras-chave: Agroecologia. Transição Agroecológica Externa. Políticas Públicas. Abstract Although the technological progresses for the increase of production and productivity of foods have been significant, the hunger and environmental degradation still persist in different regions of the planet. For such reasons and contradicting the current model Fatores capazes de interferir na transição agroecológica externa e mudança social Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 56-62, jan./abr. 2012
  2. 2. 57 of agricultural development, the Agroecology appears as a scientific-methodological propo- sal aiming to provide guidelines for the tran- sition in direction for the sustainability in its multiple dimensions. This manuscript ai- med to analyze as the public conscience, the markets and its infrastructures; the changes in the teaching, researches and rural exten- sion; the legislation; and the agricultural reform can be constituted in relevant fac- tors in the external agroecological transition process, due they can be consequences and/ or effects of the processes of social change, being related to the (re)formulations of pu- blic politics in Brazil. Keywords: Agroecology. External Agroecolo- gical Transition. Public Politics. 1 INTRODUÇÃO Os avanços alcançados na produção agríco- la após a modernização da agricultura, como o aumento na produtividade de diversas es- pécies da base alimentar humana, alimentos geneticamente modificados, super fertilizan- tes e agrotóxicos, mapeamento de genomas (animal e vegetal), entre outros, são deveras notáveis (GLIESSMAN, 2001). Porém, ape- sar de todo aparato tecnológico, das altas pro- duções alcançadas, os problemas relacionados com a fome crônica ainda são persistentes em diferentes regiões do planeta (FAO, 2005). Somando-se a isso, deflagrou-se um processo de degradação ambiental em curtos espaços de tempo, como nunca antes verificado na história da humanidade. Esse paradoxo de alimentos em abundância e tecnologias mo- dernas resultando em fome e destruição dos recursos naturais, tem se caracterizado como um evidente processo de “crise socioambien- tal” (CHONCHOL, 2005). Diversas publicações sugerem que o proble- ma consiste nas bases paradigmáticas norte- adoras do modelo de desenvolvimento global, pela forte dependência e degradação dos re- cursos naturais renováveis e não renováveis que esse modelo se baseia, às vezes consumin- do mais energia do que produz (REDCLIFT, 2001) 4 . No caso da produção de alimentos na agricultura industrial, cada prática, como fer- tilização química, irrigação e/ou emprego de pesticidas químicos levam à necessidade de utilização de outras, criando uma cadeia de dependência catastrófica no longo prazo. Partindo-se de princípios e lógicas distin- tos, a Agroecologia surge como ciência pro- pondo a adoção de princípios que forneçam as bases científico-metodológicas rumo à tran- sição do modelo de desenvolvimento agrícola atual para modelos de desenvolvimento rural sustentáveis (MATTOS et. al., 2006; TETRE- AULT, 2008; HAVERROTH, 2011). A Agroe- cologia, busca dentre outras coisas, a transi- ção no sentido de mudança, passagem de uma fase para outra, ou, alteração nas caracterís- ticas culturais, estruturais e/ou ecológicas em sistemas já estabelecidos. Quando essa tran- sição acontece fora das unidades de produção agrícola é chamada de transição agroecológica externa (CAPORAL; COSTABEBER, 2004). Esse artigo caracteriza e analisa diferentes fatores capazes de contribuir para a transição agroecológica externa, sua capacidade de pro- mover mudanças sociais, constituindo-se tan- to em conseqüências como em alavancas de políticas voltadas para a re-estruturação e re- -configuração dos modelos de produção agríco- la, de consumo e do próprio desenvolvimento rural. Será ainda apresentada a importância das ligações em diversos níveis (da consciên- cia pública, mercados e infra-estruturas; mu- danças no ensino, pesquisa e extensão rural; legislação; e reforma agrária) no processo de transição agroecológica externa. Os gargalos para a sua implementação vão além da produ- ção de alimentos, por abranger um conjunto amplo de políticas ambientais, educacionais, 4 RedClift (2001, p.234), criticando modelo atual de ex- ploração dos recursos naturais e produção de alimentos, afirma que o desenvolvimento econômico “gerado pela dependência de combustíveis fósseis conduziu a socieda- de ao longo de um caminho que ignora os limites impos- tos pela energia solar (em todas as suas formas). Em vez disto, canalizou a riqueza material que os hidrocarbonos fósseis ajudaram a produzir em direção à criação de bens de capital, eles mesmos dependentes de maior explora- ção de combustíveis fósseis”. Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 56-62, jan./abr. 2012
  3. 3. 58 constitucionais, econômicas e sociais, que es- tão no cerne da crise socioambiental,mas com os quais é possível superá-la. 2 FATORES CAPAZES DE INTERFERIREM NA TRANSIÇÃO AGROECOLÓGICA EXTERNA 2.1 Consciência Pública, Organização, Mercados e Infra-Estrutura A ação pública do ato de comprar alimentos pode ser capaz de modificar, pela pressão de consumo e criação de demandas, a produção de alimentos atual buscando-se alimentos mais saudáveis, cuja produção seja consciente e ali- cerçada na conservação dos recursos naturais (GLIESSMAN, 2001; MATTOS et al., 2006). Nos últimos anos, os meios de comunicação têm publicado matérias incentivando o consumo de produtos e alimentos produzidos com tecnolo- gias e práticas de bases ecológicas 5 , com des- taque para os orgânicos, os biodegradáveis e com certificação sócio-ambiental. Este movi- mento tem formado uma “consciência públi- ca” sobre os prejuízos ambientais e na saú- de humana, contribuindo para o processo de transição agroecológica externa. A conscientização da sociedade constitui- -se, portanto, em um passo inicial a ser dado, com as ressalvas de que: i) o processo de cons- ciência pública não pode (como está sendo fei- to atualmente) constituir-se em dinâmicas de diferenciação e exclusão social, pela formação de nichos de produção e de consumo, a exem- plo do mercado de produtos orgânicos; ii) se objetivarmos produção com os preceitos da agroecologia, os valores éticos, sociais, políti- cos e culturais devem ser levados em conta no processo de conscientização, e não apenas os fatores econômicos e ambientais (BLOCH, 2008, CAPORAL; COSTABEBER, 2004). Problematizando esta questão, Gliessman (2001, p. 596), diz que “as forças em ação na economia de mercado (...) freqüentemente es- tão em discordância com os objetivos da sus- tentabilidade (...) [já que] os produtores são forçados a tomar decisões baseados na reali- dade econômica presente e não em princípios ecológicos”. Almeida (2009), por sua vez, suge- re que reflitamos sobre “circuitos de mercado” pensados em suas especificidades, fugindo da armadilha de substantivação de estudos de viabilidade econômica dos produtos oficial- mente orientados. Experiências atuais têm alcançado êxito no enfrentamento do grande desafio de fazer parte do mercado capitalista sem se tornar dependente dele. Algumas comunidades têm fortalecido a organização e cooperação, obten- do diferenciação e maior valorização nos pro- dutos pela certificação solidária, feiras de pro- dutos de bases ecológicas, conhecidas como “feiras verdes”, e os mercados institucionais ou comercialização para o governo (KARAM, 2002; MATTOS et al., 2006; BLOCH, 2008). Bloch (2008) apresenta três experiências re- alizadas na região do nordeste brasileiro, nas quais a inserção dos produtores no mercado de produtos de base agroecológica vem ocor- rendo de maneira diferenciada, através de princípios de economia solidária, na qual o objetivo são os ganhos coletivos com ênfase no comércio justo, associativismo, coopera- tivismo. Os principais desafios a serem en- frentados são a escassez de políticas públicas voltadas para este tipo de economia e as difi- culdades na capacitação e gestão de empreen- dimentos coletivos. 2.2 Mudanças no Ensino, Pesquisa e Extensão Rural Para que a transição agroecológica externa possa ocorrer de maneira consistente é neces- sário que mudanças profundas, no nível para- digmático 6 , ocorram nas bases do processo de 5 A publicação de imagens de famílias “felizes e sau- dáveis” exibindo produtos orgânicos, tem se tornado cena comum (p. ex. Revista Época nº 575, 25 de maio 2009, p.118-119). 6 Para Kuhn (1995 apud Kasper, 2000, p.255) a defini- ção de ‘paradigma’ pode assumir dois significados: “uma constelação de crenças, valores, técnicas, etc., partilha- das pelos membros de uma comunidade”; ou a noção do desenvolvimento de “soluções concretas de quebra-cabe- ças que, empregadas como modelos ou exemplos, podem substituir regras explícitas como base para a solução dos restantes quebra-cabeças da Ciência normal”. Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 56-62, jan./abr. 2012
  4. 4. 59 ensino, pesquisa e extensão do país (CAPO- RAL, 2011). A introdução, nos últimos anos, do enfoque sistêmico em alguns currículos de ensino superior e em projetos de pesquisas e extensão rural são indicadores que esse pro- cesso já foi iniciado (SILVA, 2011). O enfoque sistêmico da realidade é importante por per- mitir perceber as inter-relações e fluxos re- gulatórios dos fenômenos complexos naturais ou sociais (KASPER, 2000), possibilitando a criação de quadros institucionais formados para a compreensão de sistemas sociocultu- rais e ecológicos complexos. Os papéis dos mediadores sociais, incluin- do educadores, técnicos de instituições de pes- quisa e extensão, lideranças de movimentos sociais e comunidades, enquanto atores em- penhados no exercício de contraposição entre os universos de significação, são bastante re- levantes. A esses caberão exercitar e facilitar a constituição, consagração e divulgação de novos ideais; metas e modos de organização; se constituindo militantes fundamentais no processo de transição para agriculturas sus- tentáveis, pois são responsáveis pela inter- venção e mediação entre esferas políticas e sociais (NEVES, 2006). O ensino em Agroecologia, pela necessi- dade de posicionamento frente ao modelo atual de desenvolvimento rural e de agri- cultura, tem exigido uma abordagem cien- tífica que considere aspectos não discipli- nares (OLIVEIRA, 2006). A não linearidade da produção e socialização dos conhecimen- tos implica priorizar o reconhecimento dos diferentes processos sociais, técnicos, ecoló- gicos, históricos e culturais, que constituem as relações entre homem/homem/meio am- biente. Isso se aplica de maneira mais sig- nificativa ao ensino já que os indivíduos socializados agora serão os educadores, os agricultores, as lideranças políticas e os co- ordenadores de equipes técnicas do futuro. Além do ensino, a pesquisa científica cons- titui-se importante etapa no processo de tran- sição agroecológica. O Marco Referencial em Agroecologia da Embrapa (MATTOS et al., 2006) é emblemático dessa possibilidade de transição nas pesquisas em sistemas de pro- dução agrícola brasileira. A perspectiva dos envolvidos na elaboração desse documento permeia a mudança paradigmática, em nível institucional (nacional), das noções acerca de desenvolvimento rural, com ênfase na in- terdisciplinaridade e pesquisa participativa, para construção e sistematização dos conhe- cimentos em agroecossistemas (MATTOS et al., 2006). Um evidente avanço nesse aspecto foi a aprovação, no ano de 2009, do projeto em rede “Transição agroecológica - construção participativa do conhecimento para a sus- tentabilidade”, liderado pela Embrapa Clima Temperado (RS), que conta com a participa- ção de outras 25 Unidades da Embrapa e 26 instituições parceiras do Brasil, que traba- lham com o tema Agroecologia 7 . As recentes mudanças nos “sujeitos da ação ambiental 8 ” traduziram algumas problemá- ticas recentes que carecem de novas respos- tas. Por exemplo, a valorização e construção das territorialidades, surgimento de novas identidades coletivas e os novos temas rela- cionados aos direitos de propriedade intelec- tual e imaterial como os conhecimentos tradi- cionais, são exemplos de ações que põem em xeque algumas das “boas intenções” relativas à apropriação e valorização do conhecimento tradicional por parte de pesquisadores. Emer- ge, assim, a necessidade de se planejar o pro- cesso de pesquisa redemocratizada, para que esta não redunde em “usurpação” de formas de conhecimento tradicional a serem paten- teadas pela ciência (ALMEIDA, 2008; 2009). No mesmo sentido que o ensino e a pesqui- sa, e por meio destes, a Extensão Rural com enfoque agroecológico passa a ser peça fun- damental no processo de transição. Por meio dos extensionistas, enquanto protagonistas chaves da transmissão dos conhecimentos em agroecologia, boa parte das técnicas e inova- 7 ver http://transicaoagroecologica.wordpress.com 8 ALMEIDA (2009) afirma que a ação ambiental até antes de 1985 era concebida como sem sujeitos e após esse período passa a ser percebida a partir de sujeitos específicos heterogêneos em suas formas de relação com a natureza. Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 56-62, jan./abr. 2012
  5. 5. 60 ções tecnológicas chegam, são experimen- tadas, reformuladas e propagadas para e pelos agentes sociais no meio rural. Trata- -se, portanto, de um processo em curso, iniciado em 2003, quando o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) passou a liderar as atividades de ATER (MATTOS et al., 2006). No entanto, para Caporal (2011) atualmente observa-se um retrocesso meto- dológico para a implementação da transi- ção agroecológica com a nova Lei de ATER de 2010. Para o autor, houve perda do mais preciso e vigoroso conteúdo da Lei, que se- ria o direcionamento do desenvolvimento rural a partir de enfoques multidisciplina- res englobando princípios agroecológicos com maior participação social. 2.3 Legislação As mudanças ocorridas no Brasil após a abertura democrática são emblemáticas da “emergência de inúmeros movimentos sociais e populares, que trouxeram à cena política não apenas a questão das liberdades demo- cráticas, mas também um conjunto de ban- deiras e reivindicações setoriais [...], passan- do pela reforma agrária, até a demarcação de terras indígenas” (Santilli, 2005, p. 56). Os novos direitos incluem a proteção ao patrimô- nio social, cultural e ambiental, sendo chama- dos de “direitos socioambientais”, dotados de titularidade coletiva e não individual. O arti- go 215 da Constituição Federal, por meio dos direitos coletivos, representa um “movimen- to”, que mesmo tênue, caminha no sentido de mudanças no modelo universalista, por pos- sibilitarem a consideração das diversidades territoriais, sociais e culturais. Mudanças promovidas pela sociedade e Estado na legislação ainda são necessárias neste longo caminho rumo à sustentabilida- de (MATTOS et al., 2006), e a legitimação dos direitos coletivos, incluindo um meio ambiente equilibrado, ainda estão em am- pla discussão e busca de indicadores. Em- bora limitada, a legislação ambiental bra- sileira tem sido considerada uma das mais avançadas do mundo 9 e, o fato das prerro- gativas legais apregoarem a noção de sus- tentabilidade socioambiental indicam uma brecha que pode favorecer os processos de transição agroecológica externa no Brasil. 2.4 Reforma Agrária A luta por reforma agrária, enquanto mo- vimento contestatório ao modelo dominante de constituição do mundo rural não é rei- vindicação recente dos movimentos sociais ligados aos agricultores. Gomes e Silveira (2002, p. 5-6) mostraram que as primeiras lutas pela terra no Brasil surgiram ainda no início do século XX, e já naquele tempo se reconhecia a necessidade da redistribuição do recurso terra, pois é principalmente deste que dependem e se assentam as mais diver- sas formas de produção no país. No entanto, os recentes exemplos ainda observados no Brasil indicam que além de distribuir terra, muito mais se faz necessário. Se no início, a luta pela terra foi pilar quase exclusivo e central dos movimentos sociais, atualmente as pautas de reivindicações foram reformu- ladas, apropriando-se de noções de sustenta- bilidade ambiental e social. Os próprios movimentos sociais que se le- gitimaram como representantes dos agricul- tores, a exemplo do Movimento dos Traba- lhadores Sem-Terra (MST), vêm passando por reformulações ao colocarem o paradigma agroecológico como ponto central nas estra- tégias de lutas e reivindicações (BORGES, 2009; VALADÃO; MOREIRA, 2009). Gomes e Silveira (2002) apontaram que, embora a conquista da terra seja objetivo central do MST, é um projeto de reforma agrária mais abrangente que se busca, o qual requer uma modificação no próprio modelo de produção agropecuária do país, e das visões de relação entre a sociedade e a natureza. Tais reivin- dicações são coerentes e aderentes às discus- sões propostas pela Agroecologia, fato que poderá contribuir sobremaneira para avanços na transição agroecológica externa no Brasil. 9 Conferir <http://portal.abes-rs.org.br/?p=1952> (aces- so em: 12 fev. 2012) Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 56-62, jan./abr. 2012
  6. 6. 61 Atualmente, as propostas teóricas dos principais movimentos sociais são bastante similares àquelas que sustentam o conceito de Agroecologia, indicando a importância da proposta de reforma agrária, que, res- significada pelos movimentos sociais, toma corpo mais abrangente. As próprias ban- deiras levantadas sobre as formas alter- nativas de produzir, como a produção para subsistência, não plantar transgênicos, não usar venenos químicos sintéticos, diversifi- car a produção, conservar o solo, etc. (GO- MES; SILVEIRA, 2002), coadunam com o processo de transição agroecológica, já que se opõem à forma atual predominante de produção, controle e consumo. 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS Mesmo com avanços nos setores produ- tivos e tecnológicos, o modelo atual de de- senvolvimento agrícola não tem sido capaz de sanar problemas relacionados à fome e à pobreza, além de se constituírem cata- lisadores da “crise socioambiental” atual representada pela grande desigualdade socioeconômica e degradação dos recursos naturais. Nesse contexto de crise, a Agroe- cologia surge como uma proposta capaz de propiciar as bases científico-metodológicas para alcançar a transição para modelos de desenvolvimento rural sustentáveis. No entanto, além de modificações internas nas “formas de produzir”, a mudança no modelo de desenvolvimento requer transformações nas configurações e estruturas externas da sociedade, o que vem sendo denominada de transição agroecológica externa. Esta publicação apresentou e discutiu os fatores relevantes para se implantar o pro- cesso de transição agroecológica externa no Brasil, destacando-se entre eles: i) as mu- danças na consciência pública, mercados e infra-estruturas; ii) as mudanças no ensi- no, pesquisa e extensão rural; iii) a legisla- ção; e iv) a reforma agrária. Tais fatores se relacionam com políticas públicas por evi- denciarem a geração, organização, distri- buição e uso de algum tipo de poder coletivo com intermediação do Estado. O entrelaça- mento desses fatores em relações comple- xas, onde a interdependência dos fatores não pode ser desconsiderada, faz desses conseqüências e ao mesmo tempo alavanca de mudanças rumo à transição agroecoló- gica. Uma feira, um mercado, uma escola, um centro de pesquisa, por exemplo, podem se constituir em mecanismos gerados pela negociação entre organismos públicos e re- presentações sociais, servindo como centros geradores da mudança social necessária (SEVILLA GUZMÁN, 2006). Os investimentos demandados para a conquista de qualquer uma das etapas re- levantes para o processo de transição agro- ecológica externa são inúmeros, e, sem dúvida, não podem ser conquistados indivi- dualmente. Como um dos grandes objetivos da Agroecologia é a mudança de paradig- ma de desenvolvimento, faz-se necessário rever as as bases que constituem as dire- trizes orientadoras das políticas públicas, a começar pelos fatores abordados nesta publicação, visto que, os acertos e desacer- tos serão considerados por todos os sujeitos da ação (agricultores, lideranças políticas e sindicais, representantes de ONGs, gover- nantes, pesquisadores, etc.) no momento da implantação ou não das propostas de de- senvolvimento rural. Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 56-62, jan./abr. 2012
  7. 7. 62 ALMEIDA, A. W. B. de. Biologismos, geografismos e dua- lismos: notas para uma leitura crítica de esquemas inter- pretativos da Amazônia que dominam a vida intelectual. In: PORRO, R. (Org.). Alternativa Agroflorestal na Amazônia em Transformação. Brasília: Embrapa In- formação Tecnológica, 2009. ALMEIDA, A. W. B. de. Amazônia: a dimensão política dos “conhecimentos tradicionais”. In:_________ (Org.). Conhecimento tradicional e biodiversidade: normas vigentes e propostas. 1. vol. Manaus: UFAM, 2008. BORGES, J. O MST e a transição agroecológica. Rev. Bras. de Agroecologia, vol. 4, n. 2, nov. 2009. BLOCH, D. Agroecologia e acesso a mercados: três experiências na agricultura familiar na região Nordeste do Brasil. Oxfam. 2008. Disponível em: <http://www. territoriosdacidadania.gov.br/o/901166>. Acesso em: 10 jan. 2010. CAPORAL, F. R. Lei de ATER: exclusão da agroecologia e outras armadilhas. Rev. Agroecologia e Desenvolvi- mento Rural Sustentável, ano 4, vol. 1, set./dez. 2011. Disponível em: < http://www.emater.tche.br/hotsite/re- vista/index.php>. Acesso em: 10 fev. 2012. CAPORAL, F. R.; COSTABEBER, J. A. Agroecologia: al- guns conceitos e princípios. Brasília: SAF/DATER/MDA/ IICA, 2004. CHONCHOL, J. A soberania alimentar. Estudos Avan- çados, vol.19, n. 5, 2005. Disponível em: <http://www. scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103- -40142005000300003&lng=en&nrm=iso> . Acesso em: 21 ago. 2011. FAO. El estado de la inseguridad alimentaria en el mundo 2005. Roma, 2005. GLIESSMAN, S. R. Agroecologia: processos ecológi- cos em agricultura sustentável. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2ed. 2001. GOMES, E.; SILVEIRA, P. R. Os desafios para a implan- tação e consolidação da agricultura sustentável nos as- sentamentos de reforma agrária. In: IESA/SBSP, 5. 2002, Santa Catarina. Anais... Epagri: Santa Catarina, 2002. HEVERROTH, C. Agroecologia: o paradigma e o sa- ber ambiental. Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável, ano 4, vol. 1, set./dez. 2011. Dispo- nível em: < http://www.emater.tche.br/hotsite/revista/ index.php>. Acesso em: 10 fev. 2012. KARAM, K. F. A Agricultura Orgânica como Estratégia de Novas Ruralidades: – um estudo de caso na Região Metropolitana de Curitiba. In: V IESA/SBSP, 2002, Santa Catarina. Anais... Epagri: Santa Catarina, 2002. KASPER, H. O processo de pensamento sistêmico: um estudo das principais abordagens a partir de um quadro de referência proposto. 2000. 308 f. Disserta- ção (Mestrado em Engenharia), Escola de Engenharia, Pós-graduação em Engenharia de Produção, Universi- dade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. MATTOS, L. et al. Marco referencial em agroeco- logia. Brasília: Embrapa Informação Tecnológica, 2006. NEVES, D. P. Importância dos mediadores culturais para a promoção do desenvolvimento social. In: MOURA, E. G. de; AGUIAR, A. das C. F. (Org.). O desenvolvimen- to rural como forma de ampliação dos direitos no campo: princípios e tecnologias. São Luís: UEMA, 2006. (Série Agroecologia, vol. II). OLIVEIRA, J. A. S. A influência da pós-graduação em Agroecologia no ensino de Ciências Agrárias do Ma- ranhão. In: MOURA, E. G. de; AGUIAR, A. das C. F. (Org.). O desenvolvimento rural como forma de ampliação dos direitos no campo: princípios e tec- nologias. São Luís: UEMA, 2006. (Série Agroecologia, vol. II). REDCLIFT, M. Feitos à nossa imagem: o meio ambien- te e a sociedade como discurso global. In: ARIZPE, L. (org.). As dimensões culturais da transformação global: uma abordagem antropológica. Brasília: UNES- CO, 2001. p. 217-239. SANTILLI, J. Socioambientalismo e novos direitos: proteção Jurídica à diversidade biológica e cultural. São Paulo: Peirópolis, 2005. SEVILLA GUZMÁN, E. La agroecología como estra- tegia metodológica de transformación social. 2006. Disponível em: <http://www.agroeco.org/socla/pdfs/ la_agroecologia_como.pdf.>. Acesso em: 09 fev. 2012. SILVA, L. M. S. A abordagem sistêmica na forma- ção do agrônomo no Século XXI. Curitiba: APPRIS, 2011. TETREAULT, D. V. Escuelas de pensamiento ecológico en las Ciencias Sociales. Estudios sociales, vol.16, n.32, 2008. Disponível em: <http://www.scielo.org.mx/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S0188-45572008000200008 &lng=es&nrm=iso>. Acesso em 21 ago. 2011. VALADÃO, A. da C.; MOREIRA, S. dos S. Reflexões sobre a compreensão de agroecologia pelo MST. Rev. Bras. de Agroecologia, vol. 4, n. 2, nov. 2009. Referências Agroecologia e Desenv. Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 56-62, jan./abr. 2012

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