- Capítulo 4 -   SÓ DANÇO SE EU FOR MESTRA, EXIGIU A BORBOLETA        A primeira infância da pequenina Aline, bembaixinha,...
sapatinhos de pulseira, impecavelmente polidos por seuJoão Engraxate.       Depois de prontas, as duas sentavam-se nacalça...
Em dias de chuva, reuniam-se em torno de donaQuinquina, mãe de Maria Andrade, para ouvirem,atentas, as estórias de Trancos...
As outras colegas havia se aproximado ecercavam, receosas, a pequena enferma. Denisecontinuou insistente:      - É não, is...
teve a menor dúvida; saiu empurrando todo mundo queestava em sua frente, chegou até o quarto daagonizante e, mui calmament...
braços de Morfeu. Durante a noite, o máximo que podiaacontecer, era alguma moçoila noiva ou comprometida,ser roubada pelo ...
sua estatura “mignon”, e para que se cumprisse aprevisão de seu João Severo no dia de seu nascimento,ela deveria ficar bal...
- De jeito nenhum, se eu não for a mestra, nãodanço, pronto! Podem arranjar outra borboleta que euestou indo embora.      ...
Pois é, e você acha que ia ficar balançandoasinhas pra lá e pra cá, eu mesma não. Está pensandoque eu sou zig-zag, é? Ora,...
E a festa prosseguia noite afora até o final daapresentação, com muitos gritos e palmas dos partidáriosdo cordão azul e do...
- Capítulo 3 -     A PRIMEIRA INFÂNCIA E SEU “DÉBUT” CATÓLICO       Os primeiros anos da infância da mini “ninha”foram den...
Naquela época, o sonho de muitas famíliascatólicas era ter um padre ou uma freira na família.Aqueles que não conseguiam ta...
Usina Bonfim. Já à tarde, a pequena coroante e demaiscolegas de solenidade, após participar do ensaio finalcom o coro, aju...
delicadamente por um dos fiéis e colocada no suporteque ficava ao lado da santa. A mamãe, do lado debaixo do suporte, olha...
A essa altura, a coroante já havia concluído suamissão, e estava sendo conduzida para baixo do suporte,quando se ouviu um ...
- “Pixiiiiiiit”. Funcionou: anjos, arcanjos e querubinsse reorganizaram em seus lugares e mais uma vez a corteceleste esta...
Dona Lourdes Araújo, responsável pelas flores dadecoração da igreja, cercada por meia dúzia desenhoras que se desmanchavam...
- Capítulo 2 -               O BATIZADO DA BORBOLETA        Naqueles velhos tempos, a religião católica quepretendia ser a...
frutificavam as melhores goiabas da região. Narealidade, não era época da fruta e todos, olhandoansiosos para os galhos ma...
pé-de-moleque, manuê, grude de goma, ponches delimão e laranja, os “pirulitos” de dona Toinha e as“chupetas de açúcar” de ...
Sinfronina”, uma antiga lavadeira da família, que tinhafama de ser catimbozeira e fazer uns despachos.       - Dando uma f...
- Ela vai sê muito intiligente, vai estudá e se formá,vai sê muito populá, vai vencê na vida, vai viajar muitopor esse mun...
- Dapaz, minha santa, já está passando muito dahora do padre Clodoaldo comer. Ele tem gastrite eterminar passando mal se n...
- Ô minha gente, esses filhos de vocês não temestilo não, é? Ficam todas de beleza aí na sala enquantoos meninos parecem q...
- É verdade, estão na mala do carro, Alguém meajude aqui, por favor!        E os convidados que já se preparavam pra fazer...
Difícil descobrir, afinal tinha criança demais nafesta. Ela trocou o timão da menina e foi falar com J. L.sobre o ocorrido...
- Capítulo 1 -         JINGLE BELLS, NASCEU A “MINI” NINHA...       Era uma vez, numa cidadezinha da mata sul,torrão bendi...
As primeiras visitas recebidas foram: MariaAndrade, Quinquina e Dona Elvira; seu Alcides, Saló, Cila,já mocinha, e Concinh...
Aline e a maninha Ana Maria, primogênita docasal, encheram de alegria a vida dos pais e de todos osvizinhos de rua.      M...
do sul do país, sem esquecer naturalmente o RepórterEsso, responsável pelo noticiário do que estavaocorrendo no Brasil e n...
decidia sobre todas as questões e acontecimentos dapropriedade.        Tempos amenos, bucólicos e românticos Ainexistente ...
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  1. 1. - Capítulo 4 - SÓ DANÇO SE EU FOR MESTRA, EXIGIU A BORBOLETA A primeira infância da pequenina Aline, bembaixinha, cintura roliça, bochechinhas acentuadas e jáusando seus óculos miudinhos no estilo olho de gato, foipassada no solar da Rua 15 de Novembro, sob os olharesatentos e cuidadosos da dileta mamãe, da secretariaMery, substituta de Ivanise, e dos bons vizinhos: seuCorocochô, do “hotel estrela única” da esquina; seuLuizinho, alfaiate, e dona Terezinha; dona Maria doCarmo; seu Eurico, Corina e Corinto; dona Elvira Fontes eMaria Andrade (Neném, a guardiã da família); seuAvelino da padaria; seu Mário Telegrafista, dona Áurea eAurinha; seu Zé Goiana e dona Laura; seu Manoel Firminochefe do clã dos Amaros e Amaras Silveira; os fervorososcrentes da Igreja Batista; dona Olindina, Permínia eClaudionor; dona Toinha e as tias Zezé e Santinha, eAlaíde Brito da vendinha da esquina. O dia a dia na província era mais ou menoscorriqueiro. Pela manhã, as aulas no Grupo Escolar DomLuiz de Brito, à tarde, os deveres escolares de casa, cujasdúvidas eram tiradas com as mestras Bernadete e Rita,hóspedes do hotel. À tardezinha, auxiliadas por Mery, elas seaprontavam, penteando os cabelos cortados à modacapelinha, que eram presos por diademas de galalite ouligeiras largas, vestidinhos de organdi bordados de crivoou ponto de cruz, com faixa de tafetá na cintura e
  2. 2. sapatinhos de pulseira, impecavelmente polidos por seuJoão Engraxate. Depois de prontas, as duas sentavam-se nacalçada, saboreando os deliciosos pãezinhos da padariade seu Alcides, recheados de manteiga e açúcar,gentilmente preparados pela bondosa Mery. Assim, asduas manas esperavam o retorno da mamãe, quepassava o dia trabalhando no Grupo Escolar. À noite, em frente ao solar, as manas Aline e Anae as amigas Denise, Lourdes Alves, Elêusis, Cleide daBorboleta, Maria Ângela e outras coleguinhas, brincavamde roda, de pega, de academia, de manja, barra-bandeira, boca de forno ou de esconder. De longe se escutavam os sons das cantorias: “Pai Francisco entrou na roda...” ou “Samba Lelê, tá doente, tá com a cabeçalascada.. .” ou “Apareceu a Margarida, olê, olê, olâ...”, ou ainda “Boca de forno! Forno! Tirando o bolo! Bolo!...” Quando não corriam na rua, simplesmentesentavam-se na calçada, brincando de anel, contandoestórias ou arrepiando-se de medo, ao falar sobre a“Comadre Florzinha”, o “Pantel” da mata ou o últimocapítulo do Mistério do Além. Às vezes, comentavam sobre algum estranho quehavia aparecido na rua de mochila nas costas e malencarado. Será que não era o “papa-figo” mandadopelos Amorim da capital para pegar criancinhas earrancar-lhes o fígado, paliativo para aquela doençahorrível que fazia suas orelhas crescerem?
  3. 3. Em dias de chuva, reuniam-se em torno de donaQuinquina, mãe de Maria Andrade, para ouvirem,atentas, as estórias de Trancoso, narradas pela bondosavelhinha. De vez em quando, em torno das oito horas,escutava-se a voz de dona Elvira que gritava: - Denise, está na hora da novela, venha prá casa! Ninguém perdia o horário de “O Direito deNascer” e todas suspiravam com Albertinho Limonta eIsabel Cristina, seus amores e desventuras. Em outras ocasiões, era Maria Andrade queaparecia perguntando: - Oh, Aline e Ana, vocês já fizeram o dever decasa? E a poesia da hora de arte, Aline? Já decoroutoda? Quando Aline chegava atrasadas à brincadeira,significava que estava escutando o Repórter Esso. Mesmosem entender tudo ainda, adorava uma notícia. Uma ocasião ela atrasou-se uma meia hora. Asoutras coleguinhas que já se sentavam na calçada einiciavam a brincadeira do anel, estranharam a ausênciada baixinha. De repente lá vem a menina respirandocom dificuldade, erguendo os ombros, com os olhosmarejando. As amigas ficaram preocupadas e Deniseaproximando-se perguntou curiosa: - Que é isso, Aline, você está com puxado? AveMaria, será que isso pega? Aline, enraivecida, respondeu irritada: - Deixe de ser lesa! Que puxado, que nada? Estoucom uma crise de asma alérgica.
  4. 4. As outras colegas havia se aproximado ecercavam, receosas, a pequena enferma. Denisecontinuou insistente: - É não, isso é puxado. Eu vi o menino de BauAmaro lá em Estivas, impando desse mesmo jeito, e erapuxado. E a menina foi se irritando mais ainda. - Vamos perguntar a mamãe? Nesse momento, Maria Andrade ia passando.Aline, cada vez mais brava, gritou: - Oh, Neném, isso que eu tenho não é uma asmaalérgica? E Maria Andrade, sem dar muita atenção,abanando a saia, respondeu: - Sei lá, Aline, é uma dessas coisas mesmo. Masvocê devia era estar dentro de casa agasalhada porcausa da frieza. Entre logo, vamos. - Oh, Dapaz ... Aline vestiu um agasalho e teimosa como ela só,ainda voltou para a prosa. O assunto da noite foi a brigado padre. O vigário da paróquia de origem holandesa foraavisado de que dona Serafina, uma viúva muito devota emembro do apostolado da oração, estava se ultimando.Decidiu, então, fazer uma visita à enferma para confessá-la e dar a santa extrema unção. Seus familiares eramevangélicos. Na porta da residência da enferma foibarrado pelos parentes da moribunda que não queriamsua presença. O reverendo muito bravo e muitorevoltado e com a rudez flamenga à flor da pele, não
  5. 5. teve a menor dúvida; saiu empurrando todo mundo queestava em sua frente, chegou até o quarto daagonizante e, mui calmamente, fez sua orações. Asmeninas comentavam com orgulho a atitude do padre. De repente, duas das meninas do grupocomeçaram a cochichar e rir o que chamou a atençãodo restante do grupo. - Que cochicho é esse? Grande falta deeducação, reclamou Aline. - Você não pode saber, Aline, é muito criançaainda. - Essa não, apartou Ana Maria tomando as dores.O que? Aline não tem nada de criança, ele é muitointeligente e sabida. - Depois de muita adulação ficaram sabendo queuma das garotas mais velhas do cochichado havia “sidomoça” recentemente. Foi uma festa, todo mundo queriasaber os mínimos detalhes do acontecimento. Mas nemtodas concordaram com aquele tipo de conversa. - Ave Maria, isso é conversa de moça direita,minha gente. Já pensou se a chefe da cruzada sabe quevocês estão falando disso? Não quero nem pensar... Muitas vezes a brincadeira se estendia até depoisdas nove, quando as pequenas infantes começavam aretornar a seus lares, pois às 22 horas em ponto, Corinto,encarregado do motor que fornecia energia elétricapara a cidade, dava o sinal, fazendo as lâmpadaspiscarem três vezes e, em seguida, as luzes eramdesligadas. Vinte e duas e trinta, luzes apagadas, grilos esapos se orquestrando, a província se entregava aos
  6. 6. braços de Morfeu. Durante a noite, o máximo que podiaacontecer, era alguma moçoila noiva ou comprometida,ser roubada pelo pretendente, evitando, com essa fuga,as despesas do casamento. E nessa tranqüilidade paradisíaca, o anotranscorria e chegava o mês de dezembro com seusfestejos natalinos e folclóricos. O pastoril religioso era umdeles. Era um acontecimento que movimentava toda acomunidade provinciana. Papais e mamães torciampara que suas filhas pequenas fossem escolhidas parafazer parte do evento organizado por algumas jovens esenhoras da comunidade católica. Afinal, tudo tinha desair perfeito para as pessoas que participavam e torciampelo “encarnado” ou “azul”, comprassem muitos lacinhosde fita de sua cor preferida para ajudar a vencer ocordão escolhido, no qual, normalmente dançava umade suas filhas. A renda era destinada as obras paroquiais. Usando vestidos confeccionados de papelcrepon, saias rodadas, muita areia prateada ornando asorlas dos babados franzidos e fitas da cor do partido queenfeitavam a indumentária. Os pandeiros, enfeitados defitas das duas cores, ajudavam a marcar o ritmo dadança. Era uma trabalheira a sua confecção. Assenhoras Belisa Rolin, Sônia Dantas, Salete Coelho eDasdores, entre outras, eram as encarregadas do eventofolclórico. Rômulo Barbosa, sempre no comando daanimação, fazia a platéia ir ao delírio aos gritos de: azul,azul, azul, ou encarnado, encarnado, ou o taxativo jáganhou. Era um verdadeiro leilão de venda de lacinhos,para a alegria geral das pastorinhas. A pequena Aline já chegando aos oito anos foiconvidada para fazer parte do tradicional festejo. Pela
  7. 7. sua estatura “mignon”, e para que se cumprisse aprevisão de seu João Severo no dia de seu nascimento,ela deveria ficar balançando as asinhas em volta daspastoras, no papel da borboleta. No dia da reunião para escolha das pastoras e dopersonagem de cada uma no evento, o papel daborboleta ficou para ela, claro. Pelo seu tipo, sua altura,ia ser a borboleta mais qualificada dos últimos tempos. Mas, de personalidade forte que tinha, já desdecriança, a menina embirrou, emperrou fez ver que só seapresentaria se lhe dessem o papel da “mestra”.Nenhuma das promotoras do pastoril conseguiaconvencê-la do contrário. A reunião parou e ninguémsabia o que fazer. Dasdores Teixeira, com muita calma e delicadeza,tentou convencer a pequena pastorinha: - Olhe, Aline, você vai ficar uma gracinha deborboleta. A saia franzidinha, as asinhas douradas e assapatilhas também. Já pensou, Dapaz vai lhe achar linda.Ainda vamos colocar uma coroa de pedrinhas em suacabeça. Vai ficar parecendo uma rainha, não émeninas? E as outras pastorinhas responderam em coro: - É, dona Dasdores. A essa altura ela já tinha se levantado, ido parafrente do grupo com passadas largas, firmes edeterminadas e com uma das mãos na cintura e o dedoda outra mão apontando para as senhoras, bateu o pé efalou em tom decidido e definitivo:
  8. 8. - De jeito nenhum, se eu não for a mestra, nãodanço, pronto! Podem arranjar outra borboleta que euestou indo embora. E a baixinha deu dois sopapinhos na cabeça,ajeitou o franzido da saia e encarou as organizadorasuma a uma. Em seguida, deu meia volta, apanhou seuchale minúsculo e caminhou em direção à saída dosalão paroquial. Dona Sônia Dantas tentou argumentar, masquando sentiu o olhar de desafio da quase borboleta,calou-se e comentou baixinho: - É melhor não insistir, Dasdores, deixa ela ser amestra e Denise fica sendo a borboleta. E agora, quemvai avisar a ela? E Dasdores saiu apressada alcançando a meninaque já estava passando ao lado do bilhar de seu Aristeu. - Oh, Aline, um momento, por favor, exclamouDasdores. Ela virou-se e já se sentiu vencedora. - Escute, Aline, o pessoal resolveu que você vai sera borboleta. Vamos voltar para o salão e agradeça adona Sônia, pois foi ela quem decidiu. O que? Eu mesma não. Ela queria que a mestrafosse a filha de dona Minervina. Só porque ela é maior doque eu e já tem busto, é? Grande coisa, eu sou pequena,mas canto muito melhor do que ela. E assim ela voltou para o salão e terminou deassistir a reunião. Na volta para casa, uma das colegas falou, tu épeia, não é, Aline? Consegue tudo que quer...
  9. 9. Pois é, e você acha que ia ficar balançandoasinhas pra lá e pra cá, eu mesma não. Está pensandoque eu sou zig-zag, é? Ora, pinóia! E nos primeiros dias de dezembro, depois demuitos ensaios, o pastoril começou a se apresentar nopalanque construído em frente ao salão paroquial. E lá se foi Aline triunfante, puxando o cordãoencarnado. O seu fã clube era imenso. Vinha atétorcedores da vizinha Caracituba. Seu padrinho João Itoe o jovem Luiz Jacinto. Maria Andrade, a mamãe Dapaze Mery eram do mesmo modo, torcedoras exaltadas, semcontar dona Bernadete Silva, sua professora. DeniseFontes foi por muito tempo, a detentora das asinhas daborboleta. E quando a apresentação começava echegava a vez da mestra, a voz da menina ecoava pelapraça: Boa noite meu senhores todos, Boa noite senhoras também, Somos pastoras, pastorinhas belas Que alegremente vamos a Belém. Somos pastoras, pastorinhas belas Que alegremente vamos a Belém. Sou a mestra do cordão encarnado, O meu cordão eu sei dominar, Eu peço palmas, peço bis e flores Aos partidários peço proteção. Eu peço palmas, peço bis e flores Aos partidários, peço proteção. - Mas a mestra canta demais, comentava MariaJoaquina. É verdade, a filha de dona Dapaz canta quenem um passarinho, comentou Durrei.
  10. 10. E a festa prosseguia noite afora até o final daapresentação, com muitos gritos e palmas dos partidáriosdo cordão azul e do cordão encarnado. Depois, a troca de roupa, os parabéns e a alegriados familiares e amigos e a “mestra” mal cabia em si decontente. Estava bestinha, não tirava o sorriso da boca e,de vez em quando, davas umas piscadinhas maisagitadas. O vigário apareceu e dona Belisa passou para elea renda da noite. Tinham conseguido vender muitoslacinhos. Dasdores havia preparado um lanche e lá seforam os participantes do show tomar guaraná FratelliVita com sanduíches de pão com carne enlatada ebolinhos de bacia. Era uma alegria só. Cada uma que de se exibissemais. E a mestra já se imaginava, no próximo ano, indo seapresentar na usina Nossa Senhora do Carmo e emBonfim.
  11. 11. - Capítulo 3 - A PRIMEIRA INFÂNCIA E SEU “DÉBUT” CATÓLICO Os primeiros anos da infância da mini “ninha”foram dentro da normalidade. Ela havia perdido o pai, J.L., quando tinha dois anos de idade. A mamãe Dapaz foiuma grande guerreira e batalhou muito para criar eeducar as duas manas. Trabalhou no comércio e depoisfoi contratada pela Secretaria de Educação para prestarserviços no Grupo Dom Luiz de Brito. As festinhas de aniversário ficavam restritas aosprimos e amiguinhos mais próximos da família, sem muitabadalação. Mesmo depois de um dia de trabalho na lojade tecidos e miudezas “A Borboleta”, Dapaz aindaencontrava tempo para ensinar as primeiras letras àsduas meninas. Aline, aos quatro anos de idade, já haviaaprendido a ler as primeiras palavras e, mais tarde,quando se matriculou no Grupo Escolar para estudar aprimeira série primária com a professora Maria Bernadeteda Silva, já estava alfabetizada. Ela idolatrava a mestra.Ainda hoje, ela lembra a fragrância do perfume usadopor ela. Olha a profecia de sinhá Fronina se realizando. Dona Bernadete era de Caruaru. Uma jovem depele clara, olhos esverdeados, cabelos encaracolados,extremamente paciente e dedicada aos alunos. Ela erahóspede de Hotel de Seu Corocochô, que ficavalocalizado no local onde, hoje, existe o supermercado daPraça Pereira de Araújo. Lembro da professora, pois euestudava na mesma turma.
  12. 12. Naquela época, o sonho de muitas famíliascatólicas era ter um padre ou uma freira na família.Aqueles que não conseguiam tal “benção”, ficavamconformados com a “dádiva dos céus”, se uma de suasfilhas pequenas pudessem participar da coroação deNossa Senhora no último dia do mês maio. Aos oito anos de idade, como filha de toda boafamília cristã, a ainda pequenina Aline, foi convidadapelo vigário para coroar Nossa Senhora, naqueleinesquecível dia 31 de maio. Ela era detentora dascaracterísticas exigidas pela tradição da igreja e possuíao perfil perfeito para colocar a coroa sobre a cabeça daVirgem. Cor branca, cabelos claros, e voz maviosa. Naépoca, ninguém deu muita atenção ao fato, mas nuncauma menina de cor “morena” ou afro-descendentelegítima, foi escolhida para coroar a santa. Preconceito?Não, apenas “tradição” da igreja. Os anjos do céutinham a pele branca desde a criação. E assim, a borboletinha foi escolhida paraparticipar daquele evento tão disputado pelas meninasde sua idade. Seria o seu “début” católico na sociedadeinfantil da Igreja. O ato litúrgico exigia toda uma preparação. Elafoi auxiliada por Santinha Silveira, responsável pelaCruzada Eucarística e com o assessoramento daprofessora Belisa Rolin, Sabina Andrade, do Apostoladoda Oração, da professora Dasdores Teixeira e de MariaJoaquina. Os noiteiros, famílias encarregadas da decoraçãoda igreja e da organização geral da festa doencerramento do mês de maio, eram: seu Raul e donaLourdes do engenho Riachão do Sul; seu Bequinho doengenho Sete Ranchos e a família de seu Luiz Dubeux da
  13. 13. Usina Bonfim. Já à tarde, a pequena coroante e demaiscolegas de solenidade, após participar do ensaio finalcom o coro, ajudavam na decoração do altar,fabricando buchas de papoula para a incrustação decravos e céssias em forma de meias guirlandas que eramcolocadas em todos os recantos da matriz. Os castiçaiseram polidos e longos brandões de espermacete nelescolocados. Feita a limpeza final da igreja, espalhavam-sefolhas de canela e eucalipto pelo chão para que oambiente ficasse naturalmente aromatizado. A solenidade religiosa era preparada combastante antecedência, desde o ensaio dos cânticos atéo da coroação propriamente dita. No coro da igreja, oshinos, cantados em latim, estavam sob o comando daorganista Ivone Oliveira que era coadjuvada pelascantoras Teresinha, Dos Anjos, Agenilda e Quiterinha,entre outras. Na ocasião, encontrava-se na cidade ummissionário alemão, responsável pela celebração dasolenidade, enquanto o cura local, Padre José,acompanhava os cânticos com o violino. O altar de nossa senhora fartamente decorado debranco e azul, reunia um verdadeiro séquito de acólitos,solenemente paramentados de vermelho, com seusroquetes impecavelmente brancos, além de uma dúziade anjinhos espalhados por toda parte. Integrava a cortede celeste: Ana Maria, irmã da coroante, Denise Fontes,Cleide da Borboleta, Eleuses Vasconcelos, Neném de seuBelmiro, entre outras. E após a ladainha, o magnificat e acoroação propriamente dita. A pequena “anjinha” trajando uma túnica longade laquê branco, ornada de galões dourados; portandoum par de asas brancas nas costas e uma coroa de floresclaras na cabeça, um pouco de carmim nas bochechase uma leve sombra de batom nos lábios era elevada
  14. 14. delicadamente por um dos fiéis e colocada no suporteque ficava ao lado da santa. A mamãe, do lado debaixo do suporte, olhava ansiosa e repetidamente paracima, receosa de que a garotinha pudesse escorregar.Silêncio sepulcral no adro da matriz. O missionárioteutônico elevava a voz de barítono e dizia: - Caríssimos irmaos, agôra vamos iniciarr acoroaçon de Nôssa Senhôra. Do alto do coro, a organista dedilhava unsacordes da melodia na velha sarafina e o público,atento, dirigia os olhares para o altar da virgem. O coroiniciava a solenidade, cantando a primeira estrofe daconhecida música. Aí, então, a pequena cantora comvoz um pouco tímida, mas bastante firme cantava asegunda: “Virgem recebe esta coroa, Que te oferece o nosso amor, Seja do céu, ó mãe tão boa, Pra todo nós feliz penhor”. O coro apresentava a segunda estrofe e agarotinha prosseguia com a última parte, desta vez, jábastante desenvolta e dona da situação: “Aceitai esta coroa, Virgem santa mãe querida, Para que seja a rainha. O penhor de eterna vida.” Ao tempo em que entoava os versos do hino, suamão direita ia aos poucos erguendo a coroa de NossaSenhora até a mesma ser depositada sobre a cabeça dasanta. Naquele momento, o vigário bradava vivas àsanta, a São José, à igreja, ao papa, etc.
  15. 15. A essa altura, a coroante já havia concluído suamissão, e estava sendo conduzida para baixo do suporte,quando se ouviu um grito: - Cuidado com o “barandão”! Vai queimar a asado anjo! Era a voz aflita e estridente de Maria Joaquina,uma beata, membro da Pia União das Filhas de Maria, Mas nada de mais grave aconteceu. A asinha dacoroante foi levemente chamuscada pela chama de umbrandão, no momento em que seu José Fiel trazia amenina para baixo. Todos respiraram aliviados,principalmente a mamãe que ainda olhou apreensivapara a asinha atingida pela chama. - Cadê meus óculos? Não estou enxergandonada. Questionou a menina. - Está aqui, Aline, apressou-se a mãe. E a coroante, já refeita do susto, colocou os óculosde armação estilo olho de gato e foi cercada por todoum pelotão de coleguinhas aladas, que seacotovelaram, hilariantes, barulhentas e quase histéricasem torno da pequena “star”, elogiando sua atuação.Muitas delas já fazendo planos para ser a sucessora dacoroante no próximo ano. Frei Johann Werner, ocelebrante, olhava de lado para os anjos e meioimpaciente repetia: - Silência, meninos, a coroaçon ainda non acabar,silência! Naquele instante, o vigário parou o solo de violinoe do alto do coro bateu palmas três vezes com força esibilou aquele conhecido:
  16. 16. - “Pixiiiiiiit”. Funcionou: anjos, arcanjos e querubinsse reorganizaram em seus lugares e mais uma vez a corteceleste estava em ordem. O frade terminou a solenidade, abençoando ospresentes e ajudantes, acólitos e anjos posicionaram-seem fila dupla para retornar à sacristia. Começanovamente a barulheira de anjos e ajudantes. Mais umavez o Padre José entra em cena, determinando que asbatinas e roquetes fossem guardados nos armários, asasas e túnicas dos anjos nas caixas. Em seguida,agradeceu a colaboração de todos e desejou que nopróximo ano a solenidade tivesse o mesmo brilho. Coroar a santa era como “concurso de miss”. Sóacontecia uma vez na vida de uma criança e a mãeestava sempre por perto com medo que garotinhadespencasse do suporte ou alguma vela pudesseincendiar suas asinhas. Entretanto, anos depois de Alinehouve uma menininha que entrou no livro dos recordeslocal, repetindo a proeza por três vezes. Quem foi? Apequena Alice Batista, filha de Gilberto e Niza Batista. Mas a festa de último dia de maio não parava poraí. No final da solenidade a apresentação do showpirotécnico: girândolas barulhentas, fogos de lágrimas,etc., todo aquele espetáculo, comandado por seu JoãoBracinho. O auge do espetáculo era a soltura dosfamosos balões de Seu Né Coelho. A subida daquelesartefatos coloridos e iluminados fazia a alegria dagarotada. Ainda na calçada, alguns políticos locais seacercavam de seu Luiz Dubeux, um dos donos da usinaBom Fim, tentando puxar conversa e solicitando dele queo trenzinho de passageiros passasse a trafegardiariamente, em vez de apenas três vezes por semana.
  17. 17. Dona Lourdes Araújo, responsável pelas flores dadecoração da igreja, cercada por meia dúzia desenhoras que se desmanchavam em elogios e pediammudinhas de rosas e outras variedades para seus jardins.Seu Bequinho, com aspirações políticas para o futuro,cumprimentava a todos, esbanjando simpatia. O padre José e o Frei Werner passam pelos meioda multidão em direção à casa paroquial. Seu NéCoelho, o fabricante de balões, anuncia a subida doúltimo da noite. Um enorme balão de papel de sedamulticolorido. Precisa da ajuda de várias pessoas parasegurá-lo e atear fogo na bucha. O balão subiu e amultidão acompanhou com os olhos até o seudesaparecimento no firmamento. Naquela época, soltar balões não era ilegal nempoliticamente incorreto. A cidade era cercada de matasverdes e úmidas. O inverno, muito rigoroso e, no mês demaio, as chuvas eram intensas. Quando os balõesentravam em combustão e caiam, suas chamas eramapagadas pela umidade do solo ou simplesmente erammolhados pela neblina permanente do inverno. São os bons tempos que não voltam mais; hoje, sóna foto e na “telinha da TV”. Quem, entretanto, viveuaqueles momentos, conserva na memória para sempre.
  18. 18. - Capítulo 2 - O BATIZADO DA BORBOLETA Naqueles velhos tempos, a religião católica quepretendia ser a única, era levada muito a sério. Ou se eracatólico ou crente e, estes, nunca eram bem aceitosentre os membros da santa madre igreja. A segregação ediscriminação eram explícitas e tinha a aprovação geralde todos. Havia até uns mais radicais que apelidavam osnão seguidores do Vaticano de “bodes”. E é claro que nahora das compras básicas o bom católico não ia buscaro pão da tarde na padaria do irmão Joab ou comprarrendas e bicos na lojinha da irmã Midiã. E foi nesse ambiente de Irlanda do Norte semarsenal bélico que, novinha ainda, a pequenina miniAline foi levada à Pia Batismal, por seus zelosos pais,guardiães da fé cristã. Na época do batizado, a família havia mudadode residência e estava habitando uma ampla casa, estilosolar, na Rua 13 de Maio. Quebrando uma tradição da época, os pais deAline não tiraram o nome da criança da folhinha denomes de santos. Seu nome tem a seguinte origem.Maria, por que a menina havia nascido laçada e, casonão lhe fosse dado aquele nome, ela poderia vir a morrerqueimada. Quanto à Aline, originou-se de um desejo damamãe, quando estava grávida da pequena. Dapazsentiu desejos de comer goiabas e juntamente com J. L.dirigiu-se à casa de seu Né Coelho e dona Toinha, onde
  19. 19. frutificavam as melhores goiabas da região. Narealidade, não era época da fruta e todos, olhandoansiosos para os galhos mais altos da goiabeira,começaram a procurar uma frutinha por pequena quefosse. De repente, papai João Luiz exclamou eufórico eentusiasmado: - “Ali, Né”, tem uma goiaba madura! Foi daquela exclamação que a mamãe Dapaz,além de obter a fruto do seu desejo de gestante,conseguiu uma boa inspiração para colocar o segundonome do futuro rebento: Aline. Este fato desconhecidode muitos, foi fruto de longa pesquisa da estudiosa degenealogia e heráldica, Leda Maria. Os padrinhos da garotinha, escolhidos entreamigos próximos, moravam no vizinho distrito deCaracituba, futura cidade de Primavera de SantoAntônio. Seu José Rocha e dona Nina, juntamente com ojovem Luiz Jacinto e outros convidados, vieram de “carrode linha”, gentilmente cedido por seu Frederico Dubeux.Padre Clodoaldo oficiou a liturgia, colocando os sais e ossantos óleos e vertendo a água benta sobre as lourasmadeixas da garotinha, que se esganava de tanto gritar,sem contar que, dona Nina sua madrinha, quase quedeixa a pequena se afogar na pia batismal, não fosse orápido auxílio de Cila Rodrigues que ajudou a segurá-la. Aneo batizanda tinha seis meses de idade e já pesavadoze quilos e meio. Todos os presentes elogiavam o timãobranco, decorado de renda francesa e lacinhos cor-de-rosa, obra-prima de dona Elvira Fontes, a mais famosamodista da cidade. Era dia de festa no solar de J. L. e Dapaz. Umgrande almoço, com aquele cardápio regional:buchada, cabidela, peru assado, fritada, bolo de milho,
  20. 20. pé-de-moleque, manuê, grude de goma, ponches delimão e laranja, os “pirulitos” de dona Toinha e as“chupetas de açúcar” de seu Heleno para a criançada. Na cozinha, aquele exército de comadres eafilhadas: dona Severina Cavalcanti, Maria Calixto,Santa, Zefinha e outras, ajudando a mexer o pirão,decorar os pratos, encher a buchada e carregar oscopinhos de bebidas fortes para os homens, e asgarrafinhas de gasosa e guaraná para as damas e ospimpolhos. Afinal, à época, o uso de bebidas fortes nãohavia se tornado moda ainda entre as damas e estas, sóingeriam bebidas leves, tipo ponches e refrigerantescomo Fratteli Vita e Gasosa. Maria Andrade e dona Quinquina cortavam osdoces de batata e as goiabadas em lata, verdadeirasdelícias da culinária de seu Laurindo Doceiro. Na sala o papai J. L. recepcionava os convidadosdo sexo masculino, oferecendo bebidas quentes; dosesde vinho Quinado Imperial e conhaque Palhinha eCastelo, além de cerveja Pielsen esfriada. Os canapéseram torresmo, bode assado, e sarapatél. Para osfumantes, caixas de cigarilhas, cigarros Petisco, Caruso,Bom Marché, Cara Preta e charutos Suerdick Bahia. Haviaaté uns maços de Gesira e Pour la Noblesse, importadosraros da época. Presentes o prefeito da cidade, Dr. PlínioAraújo e a esposa, seu José de Assunção e dona NelyGomes de Sá, seu Erasmo e dona Levina, seu AlcidesRodrigues e Saló, além de alguns amigos da prefeitura,comerciantes, senhores de engenhos e, naturalmente, osprimos e parentes do engenho e de Recife. Em meio à festança, enquanto os convivas sedeleitavam bebendo e dançando a polca, a porta seabriu e adentrou o recinto, bastante irritada, “Sinhá
  21. 21. Sinfronina”, uma antiga lavadeira da família, que tinhafama de ser catimbozeira e fazer uns despachos. - Dando uma festa e nem mim convidam, né? Intéeu que ajudei a engomar os lençó de linhe do enxová dacriança!, berrou a velha. Qui ingratidão. Cadê a minina?Cadê cumade Santa. To a pui de dá um bale nela. - Sente-se, Sinhá Fronina, convidou dona Elvira.Aceita um pedacinho de peru assado ou uma fatia debolo? - Inhora não, já cumi meu prato de pirão de ovo,respondeu ela, fumaçando de raiva. Só vim dá umaispiada e rezar a minima pru meu Padim Ciço e MãeDasdore portregê a bruguela. Adonde ela tá? - Venha comigo, Sinhá Fronina, convidou donaElvira. E as duas se dirigiram para o quarto onde estava oberço da neném. - Oxente, mai qui tanta caxa é essa dento dobeço? “São as lembrancinhas que ela recebeu, SinháFronina! - Mai num pode não, essa tuia de brebote vaiterminá sofocando a minina”. E a velha foi logo retirandoas caixas e os presentes e jogando tudo na cama aolado. Agora sim, nói pode vê ela. Meu Padim Ciço, cumaele gorda. Benza Deus!” A benzedeira concentrou-se e olhou a recém-nascida demoradamente. Então puxou um galhinho dearruda preso pelo turbante junto da orelha e começou aaspergir a garotinha, enquanto rezava sua prece. Depoispersignou-se e exclamou solenemente:
  22. 22. - Ela vai sê muito intiligente, vai estudá e se formá,vai sê muito populá, vai vencê na vida, vai viajar muitopor esse mundo de meu Deus, vai inté se casar, mai numvai passá de um metro e meio de artura. Mai aiguente ospovo vai impelidá-la de Baxinha e Nina Bolinha.” Tem maiainda, ela vai sê muito braba; quando ela apontar odedo fura bolo, der três piscadinha cum as pestana e umpiqueno supapo no peito, corram de perto, que vai sobrápra arguém. É o castigo pru tere se isquecido de mim. E a velha Fronina retirou-se como um pé-de-vento,deixando os convidados pasmos. Será que os augúrios da velha iriam se tornarrealidade? Os convidados entre assustados e pasmosnão paravam de cochichar entre si, mas o papai J. L.logo pediu que o sanfoneiro tocasse um baião e a festavoltou à animação inicial. Já quase uma hora da tarde, os homens iam seanimando com os repetidos tragos e com grandesbaforadas de charuto e cigarros. As senhoras,acomodadas na sala, conversavam discretamenteenquanto enxugavam o suor do colo e do pescoço comtoalhinhas de feltro. As crianças, já “adocicadas” detanto pirulito e chupeta de açúcar, corriam enquantoesbarravam nos mais velhos e promoviam a aquelabaguncinha organizada. Num recanto da sala, sentado numa poltrona, opadre Clodoaldo de batina preta com dezenas debotões que iam do colarinho até o abanhado, barretepreto na cabeça, enxugava o rosto com um lenço e seabanava com o breviário. De vez em quando dava umaolhada no relógio de algibeira. Salomé de seu Alcidesnotou aflição do reverendo e correu esbaforida para acozinha:
  23. 23. - Dapaz, minha santa, já está passando muito dahora do padre Clodoaldo comer. Ele tem gastrite eterminar passando mal se não forrar logo o estômago. Maria Andrade logo tomou a frente e começou apreparar um prato para o vigário. Colocou numabandeja e levou até a mesa da sala. O reverendo foiconvidado para sentar e recebeu o prato sorrindo, jáestava passando o lenço na testa e na iminência de teruma oria. Maria Andrade, apressada, gritou para donaZefinha: - Prepara uma sangria para o padre. E dona Zefinha, espantada, respondeu: - Mas dona Maria, o sangue todo foi colocado nacabidela. - Santa ignorância, Zefinha, sangria é um ponchede vinho com água e açúcar. Não bote gelo, o padretem problemas de garganta. Afinal, toda a comunidade religiosa tinha umhistórico completo da saúde do pároco. PadreClodoaldo começou a se servir e, quando, preparava ocopo para tomar o primeiro gole de sangria, passa ummenino correndo e bate no braço do reverendo. Atoalha de linho da mesa ficou lilás. Dapaz apareceu nasala e lamentou o estado se sua toalha de linhoengomada. O padre, pálido, quase perdeu o apetite,ficou sem ação. Mais uma vez Maria Andrade contornoua situação. - Não se preocupe, padre, aqui está outra sangria.Vou ficar por aqui pra domar estes meninos.
  24. 24. - Ô minha gente, esses filhos de vocês não temestilo não, é? Ficam todas de beleza aí na sala enquantoos meninos parecem que estão correndo no prado. O padre almoçou, fez uma rápida leitura nobreviário e começou a se despediu dos convidados e dosanfitriões. Ao sair ainda benzeu os que estavam por perto. Quase catorze horas, estava na hora de servir oalmoço. Mas como iria caber tanta gente à mesa? Foiquando apareceu dona Frederica Faneca, esposa doprefeito, e apresentou a solução. - Por que vocês não fazem um almoçoamericano? Os nativos entreolharam-se e ficaram sementender nada. De novo Maria Andrade em cena. - Que história é essa de almoço americano, donaFrederica? - Muito simples, colocam-se os pratos e talheres namesa, em seguida, vão trazendo os pratos das iguarias ecada um se serve e vai comer em algum lugar da casaque não seja na mesa. - Que idéia maravilhosa, dona Frederica,exclamou Dapaz. Os pratos, talheres, guardanapos e as iguarias doalmoço foram colocados na mesa da sala de jantarsobre a toalha de linho branco engomada e com umaenorme mancha de sangria. Os convidados famintoscomo estavam, nem perceberam. - O Clodomiro, cadê as grades de coca-cola?Perguntou dona Lita.
  25. 25. - É verdade, estão na mala do carro, Alguém meajude aqui, por favor! E os convidados que já se preparavam pra fazeros pratos, pararam e ficaram admirados com asgarrafinhas de coca. - Eu vou tomar uma coca em lugar da gasosa,fala dona Minervina, enquanto enchia o copo,espantada com a espuma. - Ave Maria, fica fervendo no copo e na boca.Queima e arde. - Dona Minervina, fala seu Clodomiro, é pra tomargelada. Quente, ninguém agüenta. Quando nada, boteuma pedra de gelo no copo. - E a coca-cola roubou a cena do almoço. Afinalela só tinha chegado ao Brasil há dois anos e, naprovíncia, pouca gente tinha experimentado o novorefrigerante. E assim foi servido o primeiro almoço no “estiloamericano” em Amaraji. - De repente, um grito estridente e um choro decriança. Dapaz e outras mães correram para o quarto e,espantadas, viram a mini “nina” muito vermelha, sedebatendo no berço, engasgada e quase sufocada comuma chupeta de açúcar. - Quem foi que fez uma barbaridade dessas?Perguntou a mamãe. Deve ser cria de alguma daquelasindolentes que estão na sala e não se levantam paranada.
  26. 26. Difícil descobrir, afinal tinha criança demais nafesta. Ela trocou o timão da menina e foi falar com J. L.sobre o ocorrido. - Tá bom de tanta festa e de dança, João Luiz,esses meninos já bagunçaram demais e a casa está umlixo, além do que a bebida já acabou. Tá na hora detodo mundo voltar pra suas casas. João Luiz pediu que o sanfoneiro parasse que afesta já ia acabar. Aos poucos os convidados iamagradecendo e se retirando. Lá pelas quatro da tarde não restava maisninguém, a não ser os familiares e as comadres quecomeçavam a fazer a faxina. Dapaz, bastante cansada,repetia: - Outra festa dessas aqui em casa, nunca mais.Teve gente que pareciam não ter se alimentado há ummês. Parece que vieram tirar a barriga da miséria mesmo.O filho de dona Regina estava lavando as mãos na jarra.Tem jeito? E a sobrinha de dona Davina, usou metade domeu vidro de Madeira do Oriente. Quem era aquele debigode que fumava e cuspia lá no canto da sala? JoãoLuiz convidou cada um... E os comentários foram se amenizando, enquantoa faxina estava quase concluída. O tempo passou e muitos esqueceram aquelacena insólita e curiosa da velha Fronina, histérica,saracoteando pela sala, mas algumas pessoas ainda seperguntavam: será que algo daquilo iria acontecer?
  27. 27. - Capítulo 1 - JINGLE BELLS, NASCEU A “MINI” NINHA... Era uma vez, numa cidadezinha da mata sul,torrão bendito, cercada de montanhas, poesia, matasverdejantes e rio a correr, um casal muito feliz que trouxeao mundo uma “mini” garotinha, fim de rama, caçulinha,cheia de graça e encantamento. A menininha veio ao mundo na residência de seusgenitores, situada à Rua Prefeito Rocha Pontual, juntinhodo cartório de seu Samuel Coelho. Seu papai era comerciante do ramo dapanificação e assessor do prefeito da província, e amamãe, de prendas domésticas. Como rezava a tradição da época, ela foi“pegada” por Mãe Dedé, a parteira mais famosa daregião e nasceu tão miudinha, tão bolotudinha, tãorechonchudinha, que cabia na palma da mão. Era, notodo, de aparência muito saudável, com madeixasgalegas e tez rosada. Parecia uma calunga de louça. Os felizardos pais, João Luiz e Maria da Paz, deramà nenenzinha, o nome de Maria Aline. Era o dia 27 deoutubro de mil novecentos e bauzes, exatamente doisanos após a chegada da coca-cola no Brasil. Como acontece em todo lugarejo do interior, anotícia espalhou-se com rapidez e, pelo fato do casal termuitos amigos, logo começou a aparecer pessoas paraver a mais nova moradora da casa.
  28. 28. As primeiras visitas recebidas foram: MariaAndrade, Quinquina e Dona Elvira; seu Alcides, Saló, Cila,já mocinha, e Concinha, bem novinha. Do vizinho distritode Caracituba: seu João Rocha e dona Nina, futurospadrinhos da recém-nascida. Do engenho Amora: seuJoão Vieira, dona Mariinha e as pequenas, Socorro,Josete e Anália. Da capital: os tios Clodomiro e Lita, e aprima Maria Alice ainda de braço. Cada visitante que aparecia (os homensevidentemente) eram agraciados pelo pai da garotinha,com um cálice de excelente cachimbada de mel deuruçu com cachaça de cabeça preparada na hora,charutos Suerdick Bahia ou cigarros Asa, dependendo dogosto de cada um. Um fato inusitado é que a menina era tãopequenina, tão curtinha, que todos os presentes ficaramcuriosos a respeito do futuro da garotinha. O que ela iriaser quando crescesse? E, em meio ao cochichado geraldas visitas, uma voz fanhosa e estridente gritou lá de trás:“Ela vai ser borboleta de pastoril!” A exclamação haviasido proferida por seu João Severo, o dono doenchimento, que estava entrando para ver a neném eescutara parte da conversa dos presentes. “Oxente, seuJoão Severo, ela vai ser é uma fleira, uma madresuperiora, isso sim, se Deus quiser,” afirmou a jovem e boaAurinha, futura moradora da Vila São Vicente, que haviachegado correndo para ver o novo rebento. Os presentes recebidos: lençóis e camisinhas depagão, mamadeiras, toucas e consolos coloridos,sapatinhos de crochet, chiquitos, maracás e uma figa deouro. Maria Andrade levou uma boneca de panograúda, confeccionada por Amara da Boneca e umvidro de alfazema da loja de seu Alcides. Levou tambémum capão gordo, para a canja do resguardo da mamãe.
  29. 29. Aline e a maninha Ana Maria, primogênita docasal, encheram de alegria a vida dos pais e de todos osvizinhos de rua. Maria Andrade, amiga e guardiã da família,ajudava a mamãe Dapaz na criação da “mini” Ninha eDona Maria Calixto, foi a sua ama-de-leite. Quando a gordinha começou a ficar maispesada, mamãe Dapaz contratou a ama Ivanise paracuidar das duas manas. Como ela teria de dormir nosolar, Dapaz encomendou uma cama-de-lona a seuAmaro Feitosa e, na feira, comprou um baú amareloornado de gregas, daqueles fabricados lá para asbandas do agreste, para as fardas da ama. A menininha crescia (perdão), se tornava a cadadia, mais saudável e rechonchuda, cabeleira farta commadeixas louras e as bochechas rosadas. A essa altura ela já se alimentava do leite gordo enutritivo da vacaria de seu Samuel, que, todas as manhãsera distribuído por meio de uma carrocinha, puxada porum robusto carneiro. A cidadezinha era muito pequena e quase nadade novo acontecia. As notícias eram trazidas poralgumas pessoas, geralmente comerciantes eautoridades municipais, que viajavam semanalmentepara a capital e, no retorno, compravam algum jornal ourevista que era repassado para amigos. Havia poucosrádios na cidade, mas duas pessoas possuíam aparelhosde rádio possantes da marca RCA Victor, seu João Luiz eseu Victor Alves. Muitas noites, o casal João Luiz e MariaDapaz convidava a jovem Elza Dorotéia e algumasamigas para ouvirem a programação do rádio que eracomposta de serestas e transmissão de apresentações deprogramas de calouros ou de outros artistas que vinham
  30. 30. do sul do país, sem esquecer naturalmente o RepórterEsso, responsável pelo noticiário do que estavaocorrendo no Brasil e no mundo. Nestes saraus radiofônicos, escutavam-se novelas,programas de auditório e músicas de sucesso da época.Um dos programas inesquecíveis foi quando seapresentou “Dilu Melo”, famosa artista de São Paulo, queveio daquele estado apresentar-se na PRA-8, RádioClube de Pernambuco. E deleitou a todos os ouvintes,cantando: “Fiz a cama na varanda, Esqueci o cobertor Deu o vento na roseira Me cobriu todo de flor.” Nas noites de verão, cadeiras eram colocadas nascalçadas, onde amigos e vizinhos se reuniam para atradicional prosa. Naquelas ocasiões, os homens falavamsobre a administração do prefeito, as notícias nacionais einternacionais escutadas no Repórter Esso e, as senhoras,discutiam as atividades da paróquia, os sermões dopadre Teodoro, as últimas peças bordadas ou algumareceita culinária nova recortada do Diário dePernambuco. Nossa história se passa no final da primeirametade do século passado. Não é um tempo tãodistante, mas a realidade das pequenas cidades dointerior era bem diversa. Na zona urbana uma populaçãopequena, poucas casas e um comércio diminuto. Na zona rural, grande engenhos com seuscasarões e muitos moradores. Estas propriedadesassemelhavam-se a pequenos feudos da idade média. Osenhor de engenho era o patrão, o conselheiro, o juiz que
  31. 31. decidia sobre todas as questões e acontecimentos dapropriedade. Tempos amenos, bucólicos e românticos Ainexistente poluição ambiental e mental fazia com que omeio se conservasse puro e paradisíaco; puras e arejadaseram também as mentes e o pensar da época.

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