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ERA UMA VEZ
UMA PRAIA ATLÂNTICA
SOPHIA De �eLLO BRelNeR
ERA UMA VEZ
UMA PRAIA ATLÂNTICA
@EXPO'ij"S·
© 1996. Sophla de r'olello Brevner e Panlue EXPO 98. S.A.
Ilustração e Deslgn
Luis FIlipe Cunha
Tiragem
5000 exemplares
Composiç;o
Fotocompogr.iflca
Impressão e Acabamento
Prlnce.- Portuguesa
Depósito legal
106 612./97
ISDN
972-01.1.7-80-,­
Llshoa, Narro de 1997
Um duro Atlântico, turvamente verde, com as
quatro fileiras de ondas da maré alta sacudin­
do e desenrolando as crinas de espuma. Ou,
às horas de maré vasa, o extático mar trans­
parente, detido entre rochedos escuros onde
as anémonas eram como pupilas deslumbradas
e videntes.
Dos banhos nas manhãs de maré alta saía­
mos entontecidos e um tanto exaltados. Se­
guíamos com atenção o inchar de cada onda,
s o P 1 IA O E IA E LLO BR E YI IER
pois éramos arrastados à rola se nào mergu­
lhávamos a tempo. O espraiar da água enro­
lava à volta das nossas pernas longas algas
verdes, achatadas como fitas. A rebentação
criava em nossa volta um halo de bruma e tu­
multo e habitávamos o interior dos pulmões
da maresia.
Atrás de nós, e um passo atrás da orla da
vaga, e recuando um passo quando a vaga su­
bia, estava um povo de mestras, criadas e fa­
miliares que nos faziam sinais que não víamos
e nos gritavam ordens e avisos que não ou­
víamos.
Um pouco à frente, o banheiro Manuel Bo­
te, vestido, com as calças arregaçadas, metido
na água até aos joelhos mas molhado até à
cintura vigiava a posiçao de cada banhista e
algumas vezes nos ia buscar à boca da onda.
Nesse tempo da minha infância ele era já
uma figura venerável.
E RA UMA V E Z UM A P RA I A A TLÁ II TI C A
A sua barba começara já a embranquecer,
a sua valentia e a força da sua braçada per­
tenciam já ao mundo das histórias que se
contam como lendas. Sabíamos que, na sua
pequena casa ao. pé da praia, as paredes esta­
vam cobertas de diplomas e medalhas que
lembravam as vidas que tinha salvo. E nós
próprios, no mar do equinócio, o tínhamos
visto furar as quatro terríveis fileiras de on­
das para puxar para terra o nadador incauto.
Mesmo envelhecido era um homem belo,
alto, de ombros largos e costas direitas. Ti­
nha os olhos de um cinzento nebuloso como o
mar de Inverno mas, às vezes, um sorriso os
azulava e então pareciam muito claros na pe­
le queimada. A sua estatura, o seu porte de
mastro, as suas veias grossas como cabos e os
anéis da barba e do cabelo, a aura marítima
que o rodeava, davam-lhe um certo ar de mo­
numento manuelino mas, simultaneamente, ti-
SOPIIIA OE MELLO OREYII ER 10
nha a beleza tosca e tocante de um barco de
pescadores, construído com as mãos, pintado
com as mãos e deslavado por muito mar e
muitos sóis.
Era ele que marcava o fim do banho.
Do Atlântico frio mesmo quando agitado
saíamos quase sempre gelados e felizes, a ba­
ter os dentes, com a ponta dos dedos branca,
os beiços roxos.
Então corríamos para as barracas de ma­
deira onde nos vestíamos e que ficavam à en­
trada da praia em duas filas, antes das barra­
cas de lona e dos toldos.
Estas barracas de madeira eram estreitas e
altas, pintadas de verde-escuro e tinham na
porta um óculo redondo. Dentro, ao fundo,
havia um banco, de cada lado cabides, no chão
uma esteira. Junto da porta estava sempre
uma celha de madeira cheia de água do mar
onde, antes de entrar, lavávamos os pés para
ERA UMA VEZ UMA PRAIA ATLAIITICA
tirar a areia. Havia em tudo isto um conforto
rudimentar e fresco, um cheiro a sal, a ervas
e a madeira e uma beleza feita de ainda não
haver plástico e de o contraplacado, o croma­
do e outras invenções serem reservadas para
usos diferentes.
Enquanto éramos mais pequenos, mestras,
criadas ou familiares entravam connosco para
a barraca para nos esfregarem bem o cabelo e
as costas e nos ajudarem a vestir. O espaço
era apertado, a luz que entrava pelo óculo
pouca, o ar um tanto húmido. Por isso as
mestras, apressadas, davam-nos enquanto nos
vestiam alguns arrepelões. As mães multipli­
cavam ralhos. As criadas contavam histórias.
Mas, às vezes, era a Ana Bote que nos vi­
nha vestir. Esfregava com vigor o cabelo e
não podíamos ficar com a cabeça molhada.
Limpava os pés dedo por dedo e contava que
não podíamos ficar com os pés frios. Depois
s o P II I A O E M E LLO BR E Y" E R 12
- ó maravilha - tirava do regaço plantas da
sua horta: manjericão, hortelã, alfazema, ale­
crim, que nos esfregava na testa, no pescoço
e nos braços. Para nos dar saúde e felicidade,
segundo dizia. E os perfumes misturados de
alfazema, maresia, hortelã e alecrim eram o
próprio aroma e incenso da felicidade.
A Ana não contava histórias de princesas e
fadas: contava usos e costumes, nomes de
pessoas, coisas e lugares. Por ela eu sabia das
procissões, d,
da aflita dos pescadores. Por ela eu sabia on­
de morava a Rosa aguadeira, e que coisas se
podiam comprar na feira de Espinho, e qual a
maneira de atar o lenço da cabeça à moda
das mulheres daqueles sítios. Mas nas suas
conversas comigo o tema preferido da Ana
Bote era a infância da minha mãe e tias e
tios.
Porque ela conhecia todas as famílias de
13 E RA UMA V E Z U I� A P RAIA A TL Á IIT I C A
todas as classes, sabia os nomes e os paren­
tescos, e as casas e as quintas e quintais.
Pois já tinha passado o meio da sua vida e
tinha visto muitas coisas, lembrava-se de mui­
tas coisas. Mas, embora já náo fosse nova há
muito tempo, era uma mulher activa, risonha
e alegre como se a vida recomeçasse limpa e
lisa todos os dias.
Era, conforme se dizia, grande trabalha­
deira. A limpeza meticulosa e fresca das bar­
racas e a água continuamente renovada das
celhas eram obra sua. Assim como os cantei­
ros arrumados do seu quintal e da horta que
com ele confinava.
Embora os costumes estivessem já bem mu­
dados ela continuava vestida à maneira anti­
ga, com a saia de roda bem enfaixada, com o
lenço atado a preceito, com brincos de oiro
tilintando junto à cara e com o grosso cordão
de oiro de muitas voltas e muitas medalhas
SOPtllA OE IHLLO OREYIIER
brilhando e oscilando ao sabor de cada gesto
sobre o peito.
Brincos e medalhas lhe dera o marido mas
o cordão - me disse - o herdara da avó que
era lavradeira para os lados de S. Clemente.
Pois ela vivia com todo o seu passado, que
não lhe era morte nem saudade mas espaço e
presença como uma grande pintura animada,
viva e inspiradora.
E simultaneamente vivia todo o seu pre­
sente. No seu sorriso havia sempre um fundo
de surpresa e as coisas comuns que eu lhe
contava eram acolhidas com espanto e entu­
siasmo como se o mundo todos os dias, atra­
vés de gestos, objectos, encontros, confirmas­
se a sua positividade fundamental. Se eu dizia
que, tinha colhido amoras nas silvas dos pi­
nhais, ou que tinha visto um cão castanho,
pequenino, ou que a minha cozinheira tinha
comprado mexilhão para o almoço, estas notí-
IS ERA UMA VEZ UMA PRA IA A TLÁUTICA
cias eram acolhidas com júbilo e alvoroço co­
mo se fossem acontecimentos reveladores e
surpreendentes, como se o facto de haver
amoras nos pinhais, cachorros castanhos nas
ruas e mexilhão nas canastras das peixeiras
fosse motivo de inesgotável regozijo e de es­
panto inesgotável. Eu era minuciosamente in­
terrogada sobre o lugar onde encontrara amo­
ras, sobre o seu amadurecimento, sobre a raça
do cão, sobre o tamanho do mexilhão e sobre
se iria ser cozinhado em arroz ou de caldei­
rada.
É possível que gostasse tanto de conversar
com crianças porque não tinha filhos. Mas em
sua casa vivia uma sobrinha órfã, filha de um
irmão do marido, a Cecília, que era a terceira
maravilha da família.
Quando eu tinha cinco anos ela teria cator­
ze ou quinze e era grande para a idade e forte
e bela e ao longo dos anos a sua beleza foi
crescendo.
SOPII IA OE MEllO BREYIIER /I
A brancura dos seus dentes via-se de lon­
ge. Ao contrário do Manuel e da Ana Bote que
tinham os olhos claros, era morena e os seus
olhos escuros talhados em amêndoa viam-se
de lado, como os olhos dos barcos, na cara
oval, um pouco comprida, uma cara clássica
com todos os traços acentuados e ligeiramen­
te grandes. Era aliás alta e rija, não gorda
mas um tanto entroncada. Direita e forte car­
regava enormes cântaros de água que todas as
tardes ia buscar ao fontanário que fica do ou­
tro lado da linha. Havia nela um brilho de
saúde que luzia na claridade da praia.
A sua estatura e rijeza certamente as her­
dara da .família paterna. Mas fora com a tia
que ela aprendera a alegria.
Pois, como a Ana Bote, a Cecília parecia
viver em contínuo regozijo, um regozijo que
para mim se confundia com a grande festa do
Verão. Acolhia-nos de longe com grandes sau-
17 ER A UMA VEZ UMA P R A IA A T LÁIITICA
dações, ria incessantemente mostrando a bran­
cura luminosa dos dentes, como a tia lavava
com grandes baldes de água do mar as barra­
cas de madeira, dobrava e arrecadava a lona
dos toldos que todos os dias eram armados e
desarmados pelo Manuel Bote, dado que era ta­
refa masculina, exigindo altura, força e ciência
de complicados nós.
Quando me considerava suficientemente
enxuta, a Ana Bote tirava a minha roupa dos
cabides de ferro que, altos demais, estavam
fora do meu alcance. E eu enfiava o vestido
de linho amarelo e virava as costas para que
ela me abotoasse os dois botões de aselha, e
virava-me depois de frente para que ela me
penteasse, alisando bem a franja.
Depois abria a porta e cá fora dava-me um
pé de hortelã, um ramo de alecrim, um ramo
de alfazema e uma folha de limoeiro:
SO P II I A OE MELLO OREYII ER
- Adeus, Ana, obrigada.
- Adeus, minha linda, até amanhã.
18
Eu corria para o toldo onde estava a minha
mãe e estendia-lhe as mãos para ela cheirar.
- Cheire, cheire, mãezinha - pedia eu.
- Que bem que cheira a minha filha! - ex-
clamava a minha mãe.
- São ervas do jardim da Ana - respon­
dia eu.
Eu estava sentada à sombra do toldo ao
lado da minha mãe. As ondas inchavam o seu
dorso e desabavam sobre a praia. A areia
molhada luzia. A vida era celestemente ter­
restre. Onde estávamos, cheirava a maresia
e a jardim. O perfume da felicidade invadia
o mundo.
Foi assim durante mais alguns Verões.
Mesmo quando depois dos seis anos passei
a vestir-me sozinha, a Ana Bote vinha à porta
I' E R A UMA VEZ UMA PR A I A A TLAtlTI CA
da minha barraca e, através do óculo, dava­
-me um ramo de hortelã e alecrim. Dizia:
- Esfregue-os bem no pescoço, nas mãos e
na testa. Dá saúde e felicidade.
Depois, teria eu então onze ou doze anos,
houve um Inverno em que o Manuel Bote
morreu.
No Verão seguinte não encontrámos a Ana
junto das barracas de madeira. Havia um
novo casal de banheiros, aliás parentes do
falecido Manuel Bote. Chamavam-se Manuel e
Maria, eram novos e belos como se naquela
terr� para chegar a banheiro fosse preciso
passar por um concurso de beleza. Tinham
ambos o cabelo escuro e os olhos intensamen­
te azuis e eram parecidos como irmãos, de tal
forma que nos seus três filhos pequenos era
impossível distinguir onde estava a parecença
com o pai, onde a parecença com a mãe, pois
ambas se confundiam. Mas o Maneie a Maria,
5 O P II I A O E IA E LLO BR E Y"ER 20
apesar da juventude e beleza, não tinham a
alegria nem o ânimo da Ana Bote.
À saída da praia, numa rua, encontrámos a
Cecília com o cântaro à cabeça. Estava toda
vestida de preto e entre tanto preto o branco
dos seus dentes luzia ainda mais. Falou à mi­
nha mãe com a simpatia compassada de quem
está de luto, falou com ar grave da doença e
da morte do tio. Mas a mim falou-me com os
risos e alvoroços do costume, extasiou-se so­
bre o meu crescimento, perguntou por toda a
família, irmãos, primos, criados.
- Como está a tua tia? - interrogou a mi­
nha mãe.
- Ai, mal. Mal e mal. Mesmo mal - suspi­
rou a Cecília.
- Coitada - lamentou a minha mãe.
- Não come, não fala, não sai de casa, não
quer saber de nada. Nem o lenço da cabeça
ata direito. Quem havia de dizer que uma mu-
21 E RA UMA VEZ UM A P RAIA A TL A IIT I C A
lher como a minha tia ia quebrar desta ma­
neira? Mas quebrou.
- Diz-lhe que amanhã a vou ver - disse a
minha mãe.
Na tarde do dia seguinte, como combina­
do, a minha mãe foi visitar a Ana Bote e le­
vou-me com ela.
Encontrámos uma mulher tão diferente que
era como se tivesse mudado não de situação
mas de identidade. Uma mulher inerte, dis­
traída de nós e das coisas. Tinha envelhecido
e emagrecido. e o azul dos seus olhos estava
deslavado e um tanto cego. Falou apenas da
morte do marido, mas falou como se estivesse
sozinha e falasse consigo própria para reexa­
min�r e entender o que tinha acontecido. Ela
antes tão atenta a tudo agora não atendia a
mais nada. Dizia:
- Eu estava ali de pé. De repente, caiu
SO P tllA O E MELLO BR E Ytl E R 22
aqui ao comprido. Foi um estrondo. Foi como
se rebentasse o mundo.
Quando saímos, perguntei à minha mãe:
- E agora?
- Vai-se habituar. Como toda a gente.
Mas não se habituou. O seu mundo era uno
e não aceitava uma falha. O escândalo tinha in­
vadido o real até seus últimos confins. A praia,
a luz, o perfume da hortelã tinham perdido o
sentido, já não lhe diziam respeito.
No entanto, passado um ano sobre a sua
viuvez, durante algum tempo pareceu recom­
por-se. Ia e vinha, tratava da sua casa, trata­
va de um bando de galinhas e do jardim e da
horta. .Já não era a banheira e devia ter mui­
to tempo livre. Às vezes em Agosto, quando
havia mais banhistas, aparecia de manhã na
praia para ajudar os sobrinhos. Mas era evi-
23 E RA UMA VEZ U I�A P R A I A A TLÁIITICA
dente que naquilo que fazia já não punha es­
mero, nem gosto, nem jogo. Antes no seu tra­
balho existira um elemento lúdico, uma parte
de teatro e liberdade. Agora havia apenas ta­
refa, obrigação.
Vinha à praia trabalhar nesse Agosto não
porque precisasse de ganhar a vida, pois além
da pensão do marido tinha alguns haveres
herdados dos pais lavradores - e a Cecília di­
zia sempre: «De dinheiro a minha tia está
bem» - vinha mas pelo dever sagrado de aju­
dar a família.
Enchia e despejava as celhas de madeira e
limpava as barracas como antes, mas sem
conversa e sem risos. Não havia nela propria­
mente tristeza que se visse mas sim uma pesa­
da indiferença.
Primeiro ela tinha sido o actor que vivera a
peça, agora era apenas a empregada do teatro.
E assim foi por vários anos.
SOP I I IA O E M E L L O O R E YI I E R 24
Porém, era visível que esse puro durar lhe
era inabitável. Por isso em certo Inverno co­
meçou a constar que a Ana bebia.
Ao princípio, bebia de longe a longe. Eram
grandes bebedeiras de caixão à cova e per­
dia-se cambaleando nas praias desertas de
Dezembro. A sobrinha partia em sua busca e
lutava longamente com ela até conseguir arras­
tá-la para casa. E era coisa terrível e fantástica
ver no escuro da noite as duas mulheres gri­
tando e gesticulando ao longo da rebentação
e do clamor do mar.
- Mas que quer a tia do mar? - pergunta­
ra-lhe a Cecília no meio da noite, tentando
afastá-la da orla da vaga onde caminhava en­
sopando a saia preta.
- Vim fazer pranto com ele para não gri­
tar sozinha.
Só a saúde, a força e a alegria da Cecília
conseguiam aguentar o mau vinho da Ana.
Quem no dia seguinte a via com o cântaro à
25 E R A UMA V E Z UMA P R A I A A TLÁ I I T I C A
cabeça e o rosto liso, clássico e trigueiro, ro­
sado pela manhã fria, nunca adivinharia o
combate com as fúrias, loucuras e temporais
da noite.
Depois o beber da Ana tornou-se quotidia­
no mas mais comedido. Começava a beber ao
fim da tarde como um inglês metódico e no
fim do jantar, bebido o último copo, titubea­
va um pouco, deitava-se e dormia.
Por essa época, recolheu um cachorro va­
dio, em cujo pêlo encaracolado e branco as
plantas da duna se prendiam e que parecia
um pouco um carneiro. Um cão de que só ela
gostava e de que nunca se separava. Com ele
a víamos passar pela estrada da praia ou pe­
las dunas, trôpega, apoiada num pau, falando
sozinha, gesticulando.
Surgiu então uma questão de partilhas. Um
parente do seu marido, o primo Abílio, recla­
mara a posse da sua horta, do quadrado de
SO P HI A OE MELLO BREYIIER
terra junto ao seu quintal, que há mais de trin­
ta anos ela plantava, cavava e regava com es­
mero e sabedoria.
Ana, certa da sua razão e legítimo direito,
ouviu com espanto as argúcias do advogado da
parte contrária e pasmou com fúria perante as
malícias da lei e a malícia dos parentes. Deba­
teu-se como pôde, arranjou um advogado (no
qual nunca confiou muito) e sobretudo recor­
reu a outras malícias mais ingénuas e popula­
res. Em cartas aplicadamente ditadas a Cecília
dirigia-se às pessoas mais importantes que co­
nhecia pedindo o seu testemunho, influências,
empenhos para os juízes.
Tudo isto lhe enchia os dias fornecendo
inesgotável assunto para as conversas do serão
com a sobrinha e obrigando-a a múltiplas dili­
gências, frequentes visitas às suas testemunhas
e idas semanais à cidade ao consultório do ad­
vogado. Havia agora mesmo nos seus dias uma
certa azáfama, uma certa febre.
27 ER A UMA VEZ UMA P R A I A A TLÁII TI CA
- Afinal - comentava Cecília - a questão
tem feito bem à minha tia. Até parece que
acordou, anda mais animada.
De facto Ana, embrenhada em suas novas
andaças, quase deixara de beber, retomara na
luta um pouco da sua antiga paixão pelas coi­
sas e recomeçara a cuidar da sua aparência.
- Em tempos eu tinha amor à horta - di­
zia. - Mas isso foi dantes. Agora não tenho
apego a nada. Se me tivessem pedido a horta
até a tinha dado, pois sempre são gente da
família. Mas virem com leis e com mentiras
e julgarem que me calo porque estou velha e
doente, isso não, a tanto não me acovardo.
Mesmo velha, doente e sem amor a nada, que­
ro o que é direito.
Aliás como bem se sabia Ana tinha razão.
Confiando na sua razão e conservando do seu
amor à vida uma certa fé na justiça imanente,
em dada manhã de Março, vestida com a sua
s o P II I A O E M E LL O O R E YIIER 26
melhor roupa e com o melhor lenço de seda
atado a preceito, acompanhada por Cecília,
partiu para o tribunal da cidade próxima.
Estava um frio fino e arisco que lhes deu
ânimo.
Mas o julgamento estava atrasado confor­
me lhes explicou o advogado que, depois de as
instalar num banco do corredor que dava para
o pátio do tribunal. se afastou, recomendando
que esperassem ali sentadas, pois a audiência
ainda demoraria mais de uma hora e a seu
tempo ele as viria ou mandaria chamar.
E acrescentou:
- Se precisarem de alguma coisa estou ali
na sala dos advogados, do outro lado do pátio,
na última porta à direita.
O advogado afastou-se e elas, sem pressa
nem impaciência, dispuseram-se a esperar o
que fos§e preciso, apenas um pouco intimida­
das pelos mistérios do lugar.
11 E R A UM A V E Z UM A P R A IA A T LÁ IIT I C A
Primeiro distraiu-as o número e o vai e
vem das pessoas, as passagens azafamadas dos
contínuos e oficiais de diligências, as passa­
gens decorosas de advogados que lhes parece­
ram imponentes nas suas togas pretas. E da
ponta do corredor onde estavam sentadas ad­
miraram e comentaram as divisões espaçosas,
a altura do tecto, mas admiraram sobretudo a
largueza do pátio e as colunas de pedra que
nos quatro cantos sustinham a galeria do an­
dar de cima.
- Isto - comentou Ana - é obra antiga e
bem construída. Mas é um bocado triste. E es­
tá bastante desleixado.
- Pois está - concordou Cecília. - Lá em
casa não se vê tanto papel no chão. E ali na
parede que grande nódoa de humidade! E o
chão tão escuro! A nossa casa é pequena, mas
não há humidade nas paredes e o chão está
bem varrido e bem esfregado. Cheira a limpo.
SO P II IA O E MELLO BREYtlER 30
- Mas ó rapariga nós também não temos
tantas visitas - riu-se Ana. - E não trabalha­
mos com papel p'ra aqui papel p'ra acolá -
e não há nada que faça tanto lixo como o pa­
pel! Sabes, isto aqui não me agrada. Há qual­
quer coisa esquisita.
- É esquisito é - concordou Cecília.
E ficaram as duas caladas.
Ana, embora disso não tivesse consciência,
acreditava firmemente que o mundo se com­
preende com os olhos.
Por isso olhava avidamente aquele mundo
de estranhos, que não era o seu, para ver se
entendia em que é que estava metida.
O seu olhar ia de rosto em rosto: rostos
circunspectos, rostos baços, rostos sonsos com
a manha a rir em cada ruga, caras de gente
importante olhando de alto, rosto desenvolto
de quem sabe navegar naquelas águas, caras
mortiças como velas apagadas. E aqui e além
31 ER A UMA VEZ UMA P R A I A ATLÁIITI CA
rosto aflito, sozinho e hesitante de um homem
ou de uma mulher que pareciam perdidos no
meio daquilo tudo. Mas o que mais assustou
Ana foram os inumeráveis rostos enviesados e
obsequiosos, untados de manha e sonsa es­
perteza.
- Ó Cecília já viste que aqui quasi toda a
gente se parece com o primo Abílio!
- Pois é - disse Cecília estarrecida.
- Com ele e com o compadre dele, o Ro-
drigues!
- Está ali um, vê, à direita que é mesmo o
focinho do Rodrigues.
- Valha-nos Deus, vamos embora.
- Ai tia sossegue. Vamos falar de outras
coisas.
- De que é que tu queres que eu fale? Não
digas nada.
E recomeçou a olhar. Tinha um sentimento
atroz de estranheza, sentia-se perdida num
SOPII I A D E M E LLO DR E YIIER
mundo alheio que não podia e não queria en­
tender.
Mas devagar começou a avistar aqui e além
mais caras solitárias e aflitas. Eram quasi to­
das gente pobre ou modesta com ar cansado e
tresmalhado de quem teme tudo e não reco­
nhece nada à sua volta. Mas não era só gente
pobre ou modesta. Encostadas a uma das co­
lunas do pátio estavam duas mulheres, uma
de certa idade, outra muito nova. Ana viu co­
mo ambas eram elegantes e bem vestidas. Não
riam, não choravam nem falavam. Mas a cara
delas parecia de pedra e mostrava a mesma
angústia, a mesma aflição. Pouco depois Ana
avistou encostado a outra coluna um rapaz al­
to, magro, bonito, também ele bem-vestido
mas a sua cara estava tensa de tormento e ele
parecia só como no fim do mundo.
De súbito Ana sentiu-se todos aqueles afli­
tos, os pobres, os remediados e os ricos, sen-
33 E R A UMA VEZ UMA PR AI A ATLÁII TICA
tiu-se ela própria não só como eles mas eles,
sentiu-se na pele deles e na confusão e na so­
lidão da sua mente. E compreendeu que não os
podia ajudar como também não se podia aju­
dar a si própria. Então puxou do bolso da lar­
ga saia preta o seu terço.
- Tia, não esteja nessa aflição - disse Ce­
cília sentindo como Ana estava agitada.
- Há aqui muitos aflitos - respondeu Ana -
vou rezar por eles. Vai dar uma volta.
- Vou ver se vejo as nossas testemunhas.
Ainda não as avistámos - nem avistámos as
nossas amigas, a Deolinda, a Inês do Bazar, a
Joaquina que prometeram vir assistir para nos
acompanhar.
- Vai mas não demores. Só o tempo de eu
rezar um terço. Vai ligeira.
Mal acabou de rezar Ana virou-se para o
pátio a ver se Cecília já vinha vindo. Mas de
novo tudo quanto vira lhe dava uma sensação
de mal-estar e de estranheza.
SO P II I A O E M E L LO OR E YIIE R 34
- Deus do Céu, por que vim eu meter-me
nisto - pensou ela.
Mas logo Cecília surgiu com a Inês do Ba­
zar, a Deolinda e a Joaquina.
- Ó senhora Ana, a sua sobrinha diz que
vocemecê está desanimada. Anime-se - olhe
que vai ganhar - disse Deolinda abraçando-a.
- Sei lá se vou - respondeu. - Sinto-me
aqui tão mal disposta. Tudo isto me põe tonta.
Joaquina. e .Maria do Céu tentaram anim,á­
-Ia. Mas Ana era impaciente e voluntariosa e
estar naquele lugar parecia-lhe insuportável.
Levantou-se e pôs termo às consolações
das amigas.
- Sinto-me aqui mal. Se me vejo daqui pa­
ra fora nem acredito. Por isso vou-me embo­
ra. Fiquem vocês aqui com a Cecília para ve­
rem como tudo corre. Vocês são mais novas,
têm mais ânimo para estas coisas.
- Ó minha tia, sempre era melhor a se­
nhora estar presente.
35 E R A U IAA V E Z UIA A PR A I A A T L Á111 I C A
- O advogado disse que nem era preciso
eu vir. Por isso vou-me embora.
- Mas como é que há-de ir assim sozinha.
A minha tia não conhece estes sítios, não vai
dar com a estação.
- Deixa estar que vou eu com ela. Eu co­
nheço estes sítios palmo a palmo. Venho aqui
todos os meses aviar-me para a minha loja -
atalhou a Joaquina que tinha uma loja de pa­
nos e fitas, botões, nastros, colchetes, agu­
lhas, linhas e dedais.
- Então vamos já - disse Ana.
Mas antes de ter dado três passos, parou,
virou-se para trás e perguntou:
- Vocês viram o Tomé e o João? Eles são
as minhas testemunhas, já deviam aqui estar.
- Quando chegámos já eles cá estavam. li­
nham vindo duas horas adiantadas com medo
de qualquer atraso, mas depois sumiram.
- Bem, devem estar a aparecer. Mas eu
SOPII I A D E IHLLO DR EYlIER
quero é ir-me embora depressa. Digam-lhes
que tive pena de não os ver, mas que amanhã
os irei procurar.
- Nós dizemos - responderam Cecília e as
duas amigas.
- Vamos Joaquina - disse Ana.
E partiram.
Ao chegar a casa Ana, em vez de entrar,
sentou-se cá fora nos degraus de granito da
escada e pôs-se a olhar o mar.
O Sol tinha subido no Céu, tinha aquecido
a terra e as pedras mas o ar continuava fres­
co e sobre o mar havia ainda o fino brilho de
Inverno. A maré alta descia devagar e as on­
das quando estavam no cimo, mesmo antes de
quebrar, tornavam-se por um instante trans­
parentes e verdes.
Ana respirou fundo e como era seu costu­
me quando estava só, começou a falar em voz
alta. E disse:
37 ER A UMA VEZ UMA PR A I A A TLÁII T I CA
- Bem fiz eu de me vir embora daquele
sítio excomungado. Só de ver as ondas e de
respirar este cheiro já me sinto melhor. Aqui
é que eu estou bem. Nunca tive inveja de nin­
guém porque tenho esta casa de frente para
o mar.
Depois anunciou:
- Vou até à praia. Depois do que passei
esta manhã preciso de ir à praia.
Descalçou-se e poisou os sapatos com as
meias lá dentro no degrau da escada, atraves­
sou o caminho de terra e pedrinha solta, en­
trou na praia, desceu para o mar.
Atravessou a linha de algas, cascas de ou­
riços, búzios, conchas, pedaços de madeira,
pedaços de cortiça.
A areia molhada luzia. Então Ana arrega­
çou as mangas bem acima do cotovelo, arre­
gaçou um pouco a saia comprida e entrou na
orla da onda quebrada. Curvou-se e com as
SOPUIA O E MELLO OREYtl E R 38
duas mãos em concha cheias de água lavou e
esfregou a cara três vezes seguidas. Quando
as mãos lhe trouxeram a quarta concha de água
bebeu-a. Depois endireitou-se e olhou a exten­
são azul de mar até ao horizonte e disse:
- Bendito seja Deus, já me sinto lavada
daquilo tudo.
Respirou fundo para sorver bem o cheiro
da maresia e ficou um tempo quieta, enlevada
como sempre no inchar, no desabar e no es­
praiar-se das ondas. Enquanto assim estava
uma onda mais forte molhou-lhe a saia até
aos joelhos. Ela riu-se.
Mas de repente lembrou-se que «aquilo tu­
do» ainda não tinha acabado. E de novo se
sentiu confusa e cansada. Então devagar subiu
a praia, atravessou a pequena entrada, pegou
nos sapatos que deixara no degrau e entrou
em casa.
Em voz alta disse:
E RA UMA V E Z UM A P RA I A A TL Á 111 I C A
- A Cecília está a chegar, tenho de prepa­
rar o almoço.
Foi à cozinha e, com os gestos mil e mil
vezes repetidos acendeu o lume, preparou
o almoço e pôs os pratos, os talheres, o pão
e o vinho na mesa.
Depois mudou de saia, limpou os pés e sem
se calçar foi ao jardim pôr a saia molhada a
secar na corda. Deu uma volta na horta, co­
lheu hortelã e salsa e voltou para dentro, es­
preitou as panelas e pôs a hortelã na sopa,
no arroz pôs a salsa e deu-lhe uma volta com
a colher de pau.
Depois ficou sem nada para fazer. Sentou­
-se numa cadeira da salinha da entrada. Revia
sem cessar as imagens do pátio do tribunal e
o mau presságio era um peso dentro do seu
peito.
Esperou uma hora. Mal Cecília entrou per­
cebeu que tinha corrido mal.
5 OP II I A D E MEL LO BREYII E'R
- Então? - perguntou Ana.
40
- Ai minha tia, não trago boas notícias -
respondeu Cecília.
Sentou-se em frente de Ana e desatou a
chorar.
- Não chores. O que é que correu mal?
- As suas testemunhas - disse Cecília en-
tre soluços.
- Não chores, conta - disse Ana.
Então Cecília começou a contar que no tri­
bunal o João e o Tomé pareciam transtorna­
dos - mal respondiam às perguntas que lhes
fazia o juiz: ficavam calados e quando res­
pondiam a sua voz era sumida e as respostas
desajeitadas. Depois quando o advogado do
primo Abílio os interrogou não acertaram
uma, baralharam tudo. Quando o julgamento
acabou o advogado delas chamou-a à parte e
disse-lhe que lhe parecia tudo muito mal pa­
rado. Perguntou-lhe se as testemunhas de Ana
41 E R A UM A V E Z UMA P R AIA A TL A I I TI C A
não teriam bebido. Ela tinha respondido que
João e Tomé eram seus vizinhos há muitos
anos e que nunca os tinha visto com vinho a
mais. Eram dois homens muito assentes e mui­
to sérios. Mas o advogado tinha comentado
com ar duvidoso: «No tribunal pareciam mes­
mo sem norte». Ela tinha perguntado se esta­
va tudo perdido, ele tinha respondido que ia
pensar melhor nisso, mas que era preciso es­
perar que saísse a sentença. E no fim tinha
acrescentado que ainda havia esperança pois
se perdessem podiam recorrer da sentença.
Quando Cecília acabou de falar Ana ficou
muda e com ar sombrio e cara um pouco pá­
lida.
Houve um longo e pesado silêncio até que
Cecília, habituada ao génio falador e explosi­
vo da tia, se espantou com tanta mudez. Per­
guntou:
- Ai minha tia, está bem? Está tão branca.
s o P II I A O E MELLO B R E YII E R 42
- Não estou bem, como queres que esteja
bem?
- Ai, mas não se arrelie - disse Cecília. -
Se perder pode recorrer.
- Se perder, perdi e não recorro. Acabou-
-se. Não quero mais nada com tribunais, ou-
viste - respondeu Ana exaltada. - E hoje não
me fales mais nisto. Vamos almoçar.
Cecília calou-se e foi encher os pratos de
sopa. Comeram em silêncio sentadas uma em
frente da outra na mesa da cozinha. No fim
disse:
- Vou à minha lida.
E Ana foi sentar-se no cadeirão da salinha
em frente do retrato do marido.
Era uma grande e bela fotografia que num
dia de um Verão antigo lhe tirara e lhe ofere­
cera um veraneante muito celebrado pelo seu
talento de fotógrafo. Até fizera uma exposi­
ção no Porto e tinha sido muito gabado nos
43 EnA U IA A V E Z U IA A P n AIA A TL Á II TIC A
jornais. E mais uma vez Ana, como todos os
dias, se perdeu enlevada na contemplação do
retrato. A modulação subtil da fotografia a
preto e branco era fiel à sua memória. Ali es­
tava Manuel Bote, entre a rebentação da va­
ga, belo, firme e distante como um deus do
mar rodeado pela luz viva da manhã marinha.
Ali como na sua memória nada mudara o ins­
tante eterno, apenas o tornara intocável e
distante. E de novo a imagem do homem, do
mar e da luz trouxeram à sua boca o mesmo
antigo sabor de sal e de alegria.
E sentada no cadeirão Ana sorriu. Mas de­
vagar o seu sorriso desfez-se: pareceu-lhe de
repente que algo mudara e que o seu marido
agora a fitava com olhar triste e severo. Ela
reconheceu a acusação.
Então baixou a cabeça e o seu coração
apertou-se. Desesperada culpou-se a si pró­
pria. O que lhe doía não era ir perder a sua
s o P II O E M E LL O O R E Y" E R
horta. O que lhe doía era ter arrastado o Tomé
e o João para aquela aventura. Sabia que
aquele dia era para eles um dia de humilhação
que nunca mais esqueceriam. E não suportava
que aqueles homens que sempre tinha visto
serenos e de cabeça levantada estivessem ago­
ra confusos e cabisbaixos.
O que lhe importava a ela não era perder a
questão mas sim manter intacta a ordem do
mundo tal como ela a imaginava.
Sentada olhava lá para fora através do vi­
dro da janela, um vidro um tanto fosco de sal
mas onde o vai e vem do mar tremeluzia. E no
azul das águas, no brilhar irisado da luz, no
quadrado da janela, no tremular das ervas sel­
vagens da duna tentava encontrar uma saída
para o seu remorso, uma abertura.
Nessa mesma manhã, quando Ana seguia
para a estação com a Joaquina ao voltar para
casa, um amigo dela, o marceneiro Zé Vieira,
45 E� A U IA A V E Z UIA A P� A I A A TLÁ IIT I C A
que viera à cidade para assistir ao julgamen­
to, e de caminho comprar uma plaina nova de
que precisava, terminada a compra, dirigiu-se
para o tribunal. Mas na rua nova encontrou
um conhecido que lhe disse que o julgamento
estava atrasado.
Zé Vieira, vendo que ainda tinha tempo
resolveu ir à esplanada espairecer um pouco
e tomar uma bica. Mal entrou no bar Maré
viu logo o Rodrigues com o seu bigodinho,
acompanhado por dois homens que estavam
de costas para a entrada. Percebeu que o Ro­
drigues fingia não o ver e, maio avistara, ti­
nha chamado o criado e pedido a conta.
Zé Vieira que não gostava do Rodrigues,
fingiu também não o ver, sentou-se no outro
lado da sala e, passado um minuto, chamou
o criado. Este que já estava a levar um prato
com a conta ao Rodrigues, fez-lhe sinal que
esperasse.
s o P I I O E MELLO OREY" E R
Como era impaciente José Vieira começou
a tamborilar com os dedos no tampo de pedra
da mesa. E não querendo olhar para o lado do
Rodrigues, virou a cara e reparou nas suas
próprias mãos ágeis e finas, de marceneiro.
Sorriu lembrando-se de Ana que muita vez lhe
dissera: - Ó Zé tens umas mãos mesmo inteli­
gentes! E ele sempre lhe respondia: - É que
isto de ser marceneiro apura a pessoa.
Logo a seguir sentiu o arrastar das cadei­
ras. Levantando a cabeça viu que o Rodrigues
já se dirigia para a porta, mas estarrecido viu
também que atrás dele iam Tomé e João. E se­
guindo-os com o olhar até saírem reparou que
iam os dois aos bordos. Então olhou para a
mesa de onde tinham saído e viu-a atulhada
de copos e tigelinhas.
Nessa
'
altura chegou o criado com o café e
o marceneiro, a puxar-lhe pela língua, co­
mentou:
47 E R A UM A VEZ UM A r RAIA A Tl Á 111 I C A
- Muito beberam aqueles seus fregueses!
- Lá isso! - respondeu o criado - mas
olhe que o do bigodinho só bebeu dois cafés
e um copo de água. Mas sempre a puxar os
outros para beberem mais. Pedia tigelas de
azeitonas bem salgadinhas, mais uma e mais
outra. Vinho verde de Amarante bem geladi­
nho e mais um copo senhor João e mais um
copo senhor Tomé, e agora vamos experimen­
tar o verde de Ponte da Barca. E depois de
tantos copos o senhor João e o senhor Tomé
que aqui tinham chegado tão compostos e de­
licados estavam avariados de todo!
O marceneiro percebeu logo que fora de
propósito que Rodrigues tinha embriagado as
duas testemunhas. Enervado bebeu a bica de
um só trago, pediu outra com mais um copo
de água e a conta, pagou, agradeceu e saiu
correndo para o tribunal. Mas quando lá che­
gou o julgamento já tinha começado.
SOPIIIA OE M E L LO BR E YII E R 48
Quando Cecília saiu Ana deixou-se ficar na
cadeira ora remoendo a sua arrelia ora cisman­
do o divagar das suas memórias. Lentamente
começou a escurecer mas não acendeu o can­
deeiro suspenso de tecto - pois não gostava
daquela claridade que, como sempre dizia, tor­
nava tudo cinzento. Mas gostava de ficar no
lusco-fusco olhando através do vidro da janela
a lenta transformação da luz que lá fora se re­
flectia oblíqua sobre o mar.
Até que Cecília entrou de rompante acendeu
a electricidade, sentou-se a seu lado, disse que
tinha encontrado o marceneiro e relatou tudo
quanto ele lhe tinha contado e acabou dizendo:
- O José Vieira diz que se a tia perder a
questão e quiser recorrer ele irá ser sua teste­
munha. E crê que o criado do bar Maré também
estará disposto a ir, se lhe pedirem. Espero que
agora, se perder a questão, a minha tia vá re­
correr.
E R A UMA V E Z UM A P R A I A A TL Á IIT I C A
Ana primeiro deixou-se ficar calada: a histó­
ria não a espantava, já estava à espera de tu­
do. E, ao cabo de um curto silêncio respondeu:
- Não recorro.
- Mas a minha tia sempre disse que queria
a justiça e agora não quer justiça para si?
Irada Ana levantou-se:
- Quero justiça mas só à minha maneira.
Não quero mais nada com o tribunal, já disse.
Não me arreliem mais. Eu tenho razão, não
preciso que m'a dêem. E deixem lá ir a horta.
Não me falem mais nisso.
No dia seguinte pela tardinha, quando Ce­
cília partiu para a fonte, Ana foi sozinha
a casa de Tomé e pediu-lhe que chamasse o
João que morava ao lado. Mal chegaram os
dois, ela mandou-lhes que se sentassem em
sua frente e disse:
- Vim cá agradecer-lhes terem ido de tão
s o P II D E IA E LL O BREY" E R 50
boa vontade ao tribunal defender-me. Peço
desculpa de os ter metido nestes trabalhos.
Disseram-me que tinham ficado os dois aflitos
com medo de não terem falado bem. Mas não
se aflijam. O advogado disse-me que falaram
bem. Aliás se eu perder a questão não é por
causa disso. É por causa de outras complica­
ções que surgiram e que o advogado me expli­
cou mas que eu não sei explicar. Sou muito
tapada para essas coisas. Mas se perder, perdi
e não recorro. Não quero mais nada com tri­
bunais. Tenho razão e por isso não preciso
que ma dêem. E já não se me dói nada da hor­
ta. Amanhá-Ia cansava-me e já me custa andar
curvada sobre a terra, faz-me tonturas. Agora
o que me dá alegria é sentar-me nos degraus
da minha porta a olhar a maré cheia ou cami­
nhar rente ao mar e ver os rochedos da maré
vaza. E dá-me alegria saber que tenho bons
amigos, leais e verdadeiros, como vocês os
51 E R A UM A V E Z U I� A P RAIA A TL A 111IC A
dois. Temos muita sorte de viver numa terra
tão bonita. Aqui cheira a mar e a fruta. Aqui
tudo é lindo e perfumado. São lindas as nos­
sas casas, tão brancas e bem caiadas. E são
lindas as casas maiores dos mais ricos. A mi­
nha preferida é a casa da senhora D. Luísa
com aquela varanda virada para o mar e
aquela escada de pedra e grades feitas de ri­
pas de madeira cruzadas e pintadas de verde.
Um dia disse-lhe: «Ai senhora D. Luísa, é tão
bonita a sua varanda, é mesmo boa para ver o
pôr do Sol. É pena a senhora não passar cá
mais tempo» e ela respondeu: «Olha Ana,
quando eu não estiver cá vem tu por mim,
senta-te na minha varanda a ver o pôr do Sol
- a casa fica fechada mas a cancela da varan­
da fica só no trinco». E assim, agora, muita
vez me sento ali, é mais alto, vê-se melhor.
Mas também é lindo o pinhal da Igreja, e o
jardim da condessa, e tanto alpendre, e tanta
s o PII D E I� E LL O B R E Y" E R 51
varanda e varandinha que aqui há. O senhor
arquitecto costuma dizer: «Isto é uma terra
linda porque não há aqui nenhuma coisa
feia». Sabem vocês, só viver aqui já é uma fe­
licidade. Para que quero eu a horta se tenho
isto tudo?
E à medida que falava e a si própria se
convencia com a justeza das suas palavras,
Ana foi vendo que também convencia Tomé e
João e que as caras deles se iam desanuvian­
do. Aliviada de os sentir aliviados despediu­
-se deles com muitos abraços e palavras ale­
gres.
Depois os meses foram correndo até que
saiu a sentença. Ana tinha perdido a questão
mas, como prometera, não recorreu.
Parecia impávida e ninguém lhe viu lágrima
nem cara ensombrada nem lhe ouviu lamento.
Mas entre a faca viva do antigo desgosto, a
53 E � A UMA V E Z U ,�A P � A , A A T LÁ " T , C A •
confusa desilusão perante a desordem do mun­
do, a desocupação e os ventos uivantes do In­
verno pouco a pouco recomeçou a beber.
Viveu ainda mais alguns anos, trôpega, qua­
se sempre com alguns copos a mais. Às tardes,
ela e o cão percorriam as dunas, a esplanada,
a praia. Falava sozinha, discursava no vento,
interpelava as pessoas que passavam, ameaça­
va com o seu pau os desconhecidos.
Quando a avistavam, as vizinhas sacudiam
a cabeça e suspiravam. E embora de longe ela
as chamasse com grandes brados, só uma ou
outra se aproximava.
Quando caiu à cama pouco durou.
Ao terceiro dia da doença, Cecília aperce-
beu-se de que ela começava a respirar mal.
- Que tem, minha tia? - perguntou, aflita.
- Vou morrer - respondeu.
Ficou um instante calada. Depois olhou
Cecília e disse:
SOPII IA O E M E LLO BR E YII E R 54
- Sabes, se o teu tio fosse vivo eu não
morria.
E não voltou a falar.
Na sua horta foi construído um palacete
em estilo modernaço que desfigura toda a li­
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zonte.
Era uma vez uma praia atlântica

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Era uma vez uma praia atlântica

  • 1. ERA UMA VEZ UMA PRAIA ATLÂNTICA
  • 2. SOPHIA De �eLLO BRelNeR ERA UMA VEZ UMA PRAIA ATLÂNTICA
  • 3. @EXPO'ij"S· © 1996. Sophla de r'olello Brevner e Panlue EXPO 98. S.A. Ilustração e Deslgn Luis FIlipe Cunha Tiragem 5000 exemplares Composiç;o Fotocompogr.iflca Impressão e Acabamento Prlnce.- Portuguesa Depósito legal 106 612./97 ISDN 972-01.1.7-80-,­ Llshoa, Narro de 1997
  • 4. Um duro Atlântico, turvamente verde, com as quatro fileiras de ondas da maré alta sacudin­ do e desenrolando as crinas de espuma. Ou, às horas de maré vasa, o extático mar trans­ parente, detido entre rochedos escuros onde as anémonas eram como pupilas deslumbradas e videntes. Dos banhos nas manhãs de maré alta saía­ mos entontecidos e um tanto exaltados. Se­ guíamos com atenção o inchar de cada onda,
  • 5. s o P 1 IA O E IA E LLO BR E YI IER pois éramos arrastados à rola se nào mergu­ lhávamos a tempo. O espraiar da água enro­ lava à volta das nossas pernas longas algas verdes, achatadas como fitas. A rebentação criava em nossa volta um halo de bruma e tu­ multo e habitávamos o interior dos pulmões da maresia. Atrás de nós, e um passo atrás da orla da vaga, e recuando um passo quando a vaga su­ bia, estava um povo de mestras, criadas e fa­ miliares que nos faziam sinais que não víamos e nos gritavam ordens e avisos que não ou­ víamos. Um pouco à frente, o banheiro Manuel Bo­ te, vestido, com as calças arregaçadas, metido na água até aos joelhos mas molhado até à cintura vigiava a posiçao de cada banhista e algumas vezes nos ia buscar à boca da onda. Nesse tempo da minha infância ele era já uma figura venerável.
  • 6. E RA UMA V E Z UM A P RA I A A TLÁ II TI C A A sua barba começara já a embranquecer, a sua valentia e a força da sua braçada per­ tenciam já ao mundo das histórias que se contam como lendas. Sabíamos que, na sua pequena casa ao. pé da praia, as paredes esta­ vam cobertas de diplomas e medalhas que lembravam as vidas que tinha salvo. E nós próprios, no mar do equinócio, o tínhamos visto furar as quatro terríveis fileiras de on­ das para puxar para terra o nadador incauto. Mesmo envelhecido era um homem belo, alto, de ombros largos e costas direitas. Ti­ nha os olhos de um cinzento nebuloso como o mar de Inverno mas, às vezes, um sorriso os azulava e então pareciam muito claros na pe­ le queimada. A sua estatura, o seu porte de mastro, as suas veias grossas como cabos e os anéis da barba e do cabelo, a aura marítima que o rodeava, davam-lhe um certo ar de mo­ numento manuelino mas, simultaneamente, ti-
  • 7. SOPIIIA OE MELLO OREYII ER 10 nha a beleza tosca e tocante de um barco de pescadores, construído com as mãos, pintado com as mãos e deslavado por muito mar e muitos sóis. Era ele que marcava o fim do banho. Do Atlântico frio mesmo quando agitado saíamos quase sempre gelados e felizes, a ba­ ter os dentes, com a ponta dos dedos branca, os beiços roxos. Então corríamos para as barracas de ma­ deira onde nos vestíamos e que ficavam à en­ trada da praia em duas filas, antes das barra­ cas de lona e dos toldos. Estas barracas de madeira eram estreitas e altas, pintadas de verde-escuro e tinham na porta um óculo redondo. Dentro, ao fundo, havia um banco, de cada lado cabides, no chão uma esteira. Junto da porta estava sempre uma celha de madeira cheia de água do mar onde, antes de entrar, lavávamos os pés para
  • 8. ERA UMA VEZ UMA PRAIA ATLAIITICA tirar a areia. Havia em tudo isto um conforto rudimentar e fresco, um cheiro a sal, a ervas e a madeira e uma beleza feita de ainda não haver plástico e de o contraplacado, o croma­ do e outras invenções serem reservadas para usos diferentes. Enquanto éramos mais pequenos, mestras, criadas ou familiares entravam connosco para a barraca para nos esfregarem bem o cabelo e as costas e nos ajudarem a vestir. O espaço era apertado, a luz que entrava pelo óculo pouca, o ar um tanto húmido. Por isso as mestras, apressadas, davam-nos enquanto nos vestiam alguns arrepelões. As mães multipli­ cavam ralhos. As criadas contavam histórias. Mas, às vezes, era a Ana Bote que nos vi­ nha vestir. Esfregava com vigor o cabelo e não podíamos ficar com a cabeça molhada. Limpava os pés dedo por dedo e contava que não podíamos ficar com os pés frios. Depois
  • 9. s o P II I A O E M E LLO BR E Y" E R 12 - ó maravilha - tirava do regaço plantas da sua horta: manjericão, hortelã, alfazema, ale­ crim, que nos esfregava na testa, no pescoço e nos braços. Para nos dar saúde e felicidade, segundo dizia. E os perfumes misturados de alfazema, maresia, hortelã e alecrim eram o próprio aroma e incenso da felicidade. A Ana não contava histórias de princesas e fadas: contava usos e costumes, nomes de pessoas, coisas e lugares. Por ela eu sabia das procissões, d, da aflita dos pescadores. Por ela eu sabia on­ de morava a Rosa aguadeira, e que coisas se podiam comprar na feira de Espinho, e qual a maneira de atar o lenço da cabeça à moda das mulheres daqueles sítios. Mas nas suas conversas comigo o tema preferido da Ana Bote era a infância da minha mãe e tias e tios. Porque ela conhecia todas as famílias de
  • 10. 13 E RA UMA V E Z U I� A P RAIA A TL Á IIT I C A todas as classes, sabia os nomes e os paren­ tescos, e as casas e as quintas e quintais. Pois já tinha passado o meio da sua vida e tinha visto muitas coisas, lembrava-se de mui­ tas coisas. Mas, embora já náo fosse nova há muito tempo, era uma mulher activa, risonha e alegre como se a vida recomeçasse limpa e lisa todos os dias. Era, conforme se dizia, grande trabalha­ deira. A limpeza meticulosa e fresca das bar­ racas e a água continuamente renovada das celhas eram obra sua. Assim como os cantei­ ros arrumados do seu quintal e da horta que com ele confinava. Embora os costumes estivessem já bem mu­ dados ela continuava vestida à maneira anti­ ga, com a saia de roda bem enfaixada, com o lenço atado a preceito, com brincos de oiro tilintando junto à cara e com o grosso cordão de oiro de muitas voltas e muitas medalhas
  • 11. SOPtllA OE IHLLO OREYIIER brilhando e oscilando ao sabor de cada gesto sobre o peito. Brincos e medalhas lhe dera o marido mas o cordão - me disse - o herdara da avó que era lavradeira para os lados de S. Clemente. Pois ela vivia com todo o seu passado, que não lhe era morte nem saudade mas espaço e presença como uma grande pintura animada, viva e inspiradora. E simultaneamente vivia todo o seu pre­ sente. No seu sorriso havia sempre um fundo de surpresa e as coisas comuns que eu lhe contava eram acolhidas com espanto e entu­ siasmo como se o mundo todos os dias, atra­ vés de gestos, objectos, encontros, confirmas­ se a sua positividade fundamental. Se eu dizia que, tinha colhido amoras nas silvas dos pi­ nhais, ou que tinha visto um cão castanho, pequenino, ou que a minha cozinheira tinha comprado mexilhão para o almoço, estas notí-
  • 12. IS ERA UMA VEZ UMA PRA IA A TLÁUTICA cias eram acolhidas com júbilo e alvoroço co­ mo se fossem acontecimentos reveladores e surpreendentes, como se o facto de haver amoras nos pinhais, cachorros castanhos nas ruas e mexilhão nas canastras das peixeiras fosse motivo de inesgotável regozijo e de es­ panto inesgotável. Eu era minuciosamente in­ terrogada sobre o lugar onde encontrara amo­ ras, sobre o seu amadurecimento, sobre a raça do cão, sobre o tamanho do mexilhão e sobre se iria ser cozinhado em arroz ou de caldei­ rada. É possível que gostasse tanto de conversar com crianças porque não tinha filhos. Mas em sua casa vivia uma sobrinha órfã, filha de um irmão do marido, a Cecília, que era a terceira maravilha da família. Quando eu tinha cinco anos ela teria cator­ ze ou quinze e era grande para a idade e forte e bela e ao longo dos anos a sua beleza foi crescendo.
  • 13. SOPII IA OE MEllO BREYIIER /I A brancura dos seus dentes via-se de lon­ ge. Ao contrário do Manuel e da Ana Bote que tinham os olhos claros, era morena e os seus olhos escuros talhados em amêndoa viam-se de lado, como os olhos dos barcos, na cara oval, um pouco comprida, uma cara clássica com todos os traços acentuados e ligeiramen­ te grandes. Era aliás alta e rija, não gorda mas um tanto entroncada. Direita e forte car­ regava enormes cântaros de água que todas as tardes ia buscar ao fontanário que fica do ou­ tro lado da linha. Havia nela um brilho de saúde que luzia na claridade da praia. A sua estatura e rijeza certamente as her­ dara da .família paterna. Mas fora com a tia que ela aprendera a alegria. Pois, como a Ana Bote, a Cecília parecia viver em contínuo regozijo, um regozijo que para mim se confundia com a grande festa do Verão. Acolhia-nos de longe com grandes sau-
  • 14. 17 ER A UMA VEZ UMA P R A IA A T LÁIITICA dações, ria incessantemente mostrando a bran­ cura luminosa dos dentes, como a tia lavava com grandes baldes de água do mar as barra­ cas de madeira, dobrava e arrecadava a lona dos toldos que todos os dias eram armados e desarmados pelo Manuel Bote, dado que era ta­ refa masculina, exigindo altura, força e ciência de complicados nós. Quando me considerava suficientemente enxuta, a Ana Bote tirava a minha roupa dos cabides de ferro que, altos demais, estavam fora do meu alcance. E eu enfiava o vestido de linho amarelo e virava as costas para que ela me abotoasse os dois botões de aselha, e virava-me depois de frente para que ela me penteasse, alisando bem a franja. Depois abria a porta e cá fora dava-me um pé de hortelã, um ramo de alecrim, um ramo de alfazema e uma folha de limoeiro:
  • 15. SO P II I A OE MELLO OREYII ER - Adeus, Ana, obrigada. - Adeus, minha linda, até amanhã. 18 Eu corria para o toldo onde estava a minha mãe e estendia-lhe as mãos para ela cheirar. - Cheire, cheire, mãezinha - pedia eu. - Que bem que cheira a minha filha! - ex- clamava a minha mãe. - São ervas do jardim da Ana - respon­ dia eu. Eu estava sentada à sombra do toldo ao lado da minha mãe. As ondas inchavam o seu dorso e desabavam sobre a praia. A areia molhada luzia. A vida era celestemente ter­ restre. Onde estávamos, cheirava a maresia e a jardim. O perfume da felicidade invadia o mundo. Foi assim durante mais alguns Verões. Mesmo quando depois dos seis anos passei a vestir-me sozinha, a Ana Bote vinha à porta
  • 16. I' E R A UMA VEZ UMA PR A I A A TLAtlTI CA da minha barraca e, através do óculo, dava­ -me um ramo de hortelã e alecrim. Dizia: - Esfregue-os bem no pescoço, nas mãos e na testa. Dá saúde e felicidade. Depois, teria eu então onze ou doze anos, houve um Inverno em que o Manuel Bote morreu. No Verão seguinte não encontrámos a Ana junto das barracas de madeira. Havia um novo casal de banheiros, aliás parentes do falecido Manuel Bote. Chamavam-se Manuel e Maria, eram novos e belos como se naquela terr� para chegar a banheiro fosse preciso passar por um concurso de beleza. Tinham ambos o cabelo escuro e os olhos intensamen­ te azuis e eram parecidos como irmãos, de tal forma que nos seus três filhos pequenos era impossível distinguir onde estava a parecença com o pai, onde a parecença com a mãe, pois ambas se confundiam. Mas o Maneie a Maria,
  • 17. 5 O P II I A O E IA E LLO BR E Y"ER 20 apesar da juventude e beleza, não tinham a alegria nem o ânimo da Ana Bote. À saída da praia, numa rua, encontrámos a Cecília com o cântaro à cabeça. Estava toda vestida de preto e entre tanto preto o branco dos seus dentes luzia ainda mais. Falou à mi­ nha mãe com a simpatia compassada de quem está de luto, falou com ar grave da doença e da morte do tio. Mas a mim falou-me com os risos e alvoroços do costume, extasiou-se so­ bre o meu crescimento, perguntou por toda a família, irmãos, primos, criados. - Como está a tua tia? - interrogou a mi­ nha mãe. - Ai, mal. Mal e mal. Mesmo mal - suspi­ rou a Cecília. - Coitada - lamentou a minha mãe. - Não come, não fala, não sai de casa, não quer saber de nada. Nem o lenço da cabeça ata direito. Quem havia de dizer que uma mu-
  • 18. 21 E RA UMA VEZ UM A P RAIA A TL A IIT I C A lher como a minha tia ia quebrar desta ma­ neira? Mas quebrou. - Diz-lhe que amanhã a vou ver - disse a minha mãe. Na tarde do dia seguinte, como combina­ do, a minha mãe foi visitar a Ana Bote e le­ vou-me com ela. Encontrámos uma mulher tão diferente que era como se tivesse mudado não de situação mas de identidade. Uma mulher inerte, dis­ traída de nós e das coisas. Tinha envelhecido e emagrecido. e o azul dos seus olhos estava deslavado e um tanto cego. Falou apenas da morte do marido, mas falou como se estivesse sozinha e falasse consigo própria para reexa­ min�r e entender o que tinha acontecido. Ela antes tão atenta a tudo agora não atendia a mais nada. Dizia: - Eu estava ali de pé. De repente, caiu
  • 19. SO P tllA O E MELLO BR E Ytl E R 22 aqui ao comprido. Foi um estrondo. Foi como se rebentasse o mundo. Quando saímos, perguntei à minha mãe: - E agora? - Vai-se habituar. Como toda a gente. Mas não se habituou. O seu mundo era uno e não aceitava uma falha. O escândalo tinha in­ vadido o real até seus últimos confins. A praia, a luz, o perfume da hortelã tinham perdido o sentido, já não lhe diziam respeito. No entanto, passado um ano sobre a sua viuvez, durante algum tempo pareceu recom­ por-se. Ia e vinha, tratava da sua casa, trata­ va de um bando de galinhas e do jardim e da horta. .Já não era a banheira e devia ter mui­ to tempo livre. Às vezes em Agosto, quando havia mais banhistas, aparecia de manhã na praia para ajudar os sobrinhos. Mas era evi-
  • 20. 23 E RA UMA VEZ U I�A P R A I A A TLÁIITICA dente que naquilo que fazia já não punha es­ mero, nem gosto, nem jogo. Antes no seu tra­ balho existira um elemento lúdico, uma parte de teatro e liberdade. Agora havia apenas ta­ refa, obrigação. Vinha à praia trabalhar nesse Agosto não porque precisasse de ganhar a vida, pois além da pensão do marido tinha alguns haveres herdados dos pais lavradores - e a Cecília di­ zia sempre: «De dinheiro a minha tia está bem» - vinha mas pelo dever sagrado de aju­ dar a família. Enchia e despejava as celhas de madeira e limpava as barracas como antes, mas sem conversa e sem risos. Não havia nela propria­ mente tristeza que se visse mas sim uma pesa­ da indiferença. Primeiro ela tinha sido o actor que vivera a peça, agora era apenas a empregada do teatro. E assim foi por vários anos.
  • 21. SOP I I IA O E M E L L O O R E YI I E R 24 Porém, era visível que esse puro durar lhe era inabitável. Por isso em certo Inverno co­ meçou a constar que a Ana bebia. Ao princípio, bebia de longe a longe. Eram grandes bebedeiras de caixão à cova e per­ dia-se cambaleando nas praias desertas de Dezembro. A sobrinha partia em sua busca e lutava longamente com ela até conseguir arras­ tá-la para casa. E era coisa terrível e fantástica ver no escuro da noite as duas mulheres gri­ tando e gesticulando ao longo da rebentação e do clamor do mar. - Mas que quer a tia do mar? - pergunta­ ra-lhe a Cecília no meio da noite, tentando afastá-la da orla da vaga onde caminhava en­ sopando a saia preta. - Vim fazer pranto com ele para não gri­ tar sozinha. Só a saúde, a força e a alegria da Cecília conseguiam aguentar o mau vinho da Ana. Quem no dia seguinte a via com o cântaro à
  • 22. 25 E R A UMA V E Z UMA P R A I A A TLÁ I I T I C A cabeça e o rosto liso, clássico e trigueiro, ro­ sado pela manhã fria, nunca adivinharia o combate com as fúrias, loucuras e temporais da noite. Depois o beber da Ana tornou-se quotidia­ no mas mais comedido. Começava a beber ao fim da tarde como um inglês metódico e no fim do jantar, bebido o último copo, titubea­ va um pouco, deitava-se e dormia. Por essa época, recolheu um cachorro va­ dio, em cujo pêlo encaracolado e branco as plantas da duna se prendiam e que parecia um pouco um carneiro. Um cão de que só ela gostava e de que nunca se separava. Com ele a víamos passar pela estrada da praia ou pe­ las dunas, trôpega, apoiada num pau, falando sozinha, gesticulando. Surgiu então uma questão de partilhas. Um parente do seu marido, o primo Abílio, recla­ mara a posse da sua horta, do quadrado de
  • 23. SO P HI A OE MELLO BREYIIER terra junto ao seu quintal, que há mais de trin­ ta anos ela plantava, cavava e regava com es­ mero e sabedoria. Ana, certa da sua razão e legítimo direito, ouviu com espanto as argúcias do advogado da parte contrária e pasmou com fúria perante as malícias da lei e a malícia dos parentes. Deba­ teu-se como pôde, arranjou um advogado (no qual nunca confiou muito) e sobretudo recor­ reu a outras malícias mais ingénuas e popula­ res. Em cartas aplicadamente ditadas a Cecília dirigia-se às pessoas mais importantes que co­ nhecia pedindo o seu testemunho, influências, empenhos para os juízes. Tudo isto lhe enchia os dias fornecendo inesgotável assunto para as conversas do serão com a sobrinha e obrigando-a a múltiplas dili­ gências, frequentes visitas às suas testemunhas e idas semanais à cidade ao consultório do ad­ vogado. Havia agora mesmo nos seus dias uma certa azáfama, uma certa febre.
  • 24. 27 ER A UMA VEZ UMA P R A I A A TLÁII TI CA - Afinal - comentava Cecília - a questão tem feito bem à minha tia. Até parece que acordou, anda mais animada. De facto Ana, embrenhada em suas novas andaças, quase deixara de beber, retomara na luta um pouco da sua antiga paixão pelas coi­ sas e recomeçara a cuidar da sua aparência. - Em tempos eu tinha amor à horta - di­ zia. - Mas isso foi dantes. Agora não tenho apego a nada. Se me tivessem pedido a horta até a tinha dado, pois sempre são gente da família. Mas virem com leis e com mentiras e julgarem que me calo porque estou velha e doente, isso não, a tanto não me acovardo. Mesmo velha, doente e sem amor a nada, que­ ro o que é direito. Aliás como bem se sabia Ana tinha razão. Confiando na sua razão e conservando do seu amor à vida uma certa fé na justiça imanente, em dada manhã de Março, vestida com a sua
  • 25. s o P II I A O E M E LL O O R E YIIER 26 melhor roupa e com o melhor lenço de seda atado a preceito, acompanhada por Cecília, partiu para o tribunal da cidade próxima. Estava um frio fino e arisco que lhes deu ânimo. Mas o julgamento estava atrasado confor­ me lhes explicou o advogado que, depois de as instalar num banco do corredor que dava para o pátio do tribunal. se afastou, recomendando que esperassem ali sentadas, pois a audiência ainda demoraria mais de uma hora e a seu tempo ele as viria ou mandaria chamar. E acrescentou: - Se precisarem de alguma coisa estou ali na sala dos advogados, do outro lado do pátio, na última porta à direita. O advogado afastou-se e elas, sem pressa nem impaciência, dispuseram-se a esperar o que fos§e preciso, apenas um pouco intimida­ das pelos mistérios do lugar.
  • 26. 11 E R A UM A V E Z UM A P R A IA A T LÁ IIT I C A Primeiro distraiu-as o número e o vai e vem das pessoas, as passagens azafamadas dos contínuos e oficiais de diligências, as passa­ gens decorosas de advogados que lhes parece­ ram imponentes nas suas togas pretas. E da ponta do corredor onde estavam sentadas ad­ miraram e comentaram as divisões espaçosas, a altura do tecto, mas admiraram sobretudo a largueza do pátio e as colunas de pedra que nos quatro cantos sustinham a galeria do an­ dar de cima. - Isto - comentou Ana - é obra antiga e bem construída. Mas é um bocado triste. E es­ tá bastante desleixado. - Pois está - concordou Cecília. - Lá em casa não se vê tanto papel no chão. E ali na parede que grande nódoa de humidade! E o chão tão escuro! A nossa casa é pequena, mas não há humidade nas paredes e o chão está bem varrido e bem esfregado. Cheira a limpo.
  • 27. SO P II IA O E MELLO BREYtlER 30 - Mas ó rapariga nós também não temos tantas visitas - riu-se Ana. - E não trabalha­ mos com papel p'ra aqui papel p'ra acolá - e não há nada que faça tanto lixo como o pa­ pel! Sabes, isto aqui não me agrada. Há qual­ quer coisa esquisita. - É esquisito é - concordou Cecília. E ficaram as duas caladas. Ana, embora disso não tivesse consciência, acreditava firmemente que o mundo se com­ preende com os olhos. Por isso olhava avidamente aquele mundo de estranhos, que não era o seu, para ver se entendia em que é que estava metida. O seu olhar ia de rosto em rosto: rostos circunspectos, rostos baços, rostos sonsos com a manha a rir em cada ruga, caras de gente importante olhando de alto, rosto desenvolto de quem sabe navegar naquelas águas, caras mortiças como velas apagadas. E aqui e além
  • 28. 31 ER A UMA VEZ UMA P R A I A ATLÁIITI CA rosto aflito, sozinho e hesitante de um homem ou de uma mulher que pareciam perdidos no meio daquilo tudo. Mas o que mais assustou Ana foram os inumeráveis rostos enviesados e obsequiosos, untados de manha e sonsa es­ perteza. - Ó Cecília já viste que aqui quasi toda a gente se parece com o primo Abílio! - Pois é - disse Cecília estarrecida. - Com ele e com o compadre dele, o Ro- drigues! - Está ali um, vê, à direita que é mesmo o focinho do Rodrigues. - Valha-nos Deus, vamos embora. - Ai tia sossegue. Vamos falar de outras coisas. - De que é que tu queres que eu fale? Não digas nada. E recomeçou a olhar. Tinha um sentimento atroz de estranheza, sentia-se perdida num
  • 29. SOPII I A D E M E LLO DR E YIIER mundo alheio que não podia e não queria en­ tender. Mas devagar começou a avistar aqui e além mais caras solitárias e aflitas. Eram quasi to­ das gente pobre ou modesta com ar cansado e tresmalhado de quem teme tudo e não reco­ nhece nada à sua volta. Mas não era só gente pobre ou modesta. Encostadas a uma das co­ lunas do pátio estavam duas mulheres, uma de certa idade, outra muito nova. Ana viu co­ mo ambas eram elegantes e bem vestidas. Não riam, não choravam nem falavam. Mas a cara delas parecia de pedra e mostrava a mesma angústia, a mesma aflição. Pouco depois Ana avistou encostado a outra coluna um rapaz al­ to, magro, bonito, também ele bem-vestido mas a sua cara estava tensa de tormento e ele parecia só como no fim do mundo. De súbito Ana sentiu-se todos aqueles afli­ tos, os pobres, os remediados e os ricos, sen-
  • 30. 33 E R A UMA VEZ UMA PR AI A ATLÁII TICA tiu-se ela própria não só como eles mas eles, sentiu-se na pele deles e na confusão e na so­ lidão da sua mente. E compreendeu que não os podia ajudar como também não se podia aju­ dar a si própria. Então puxou do bolso da lar­ ga saia preta o seu terço. - Tia, não esteja nessa aflição - disse Ce­ cília sentindo como Ana estava agitada. - Há aqui muitos aflitos - respondeu Ana - vou rezar por eles. Vai dar uma volta. - Vou ver se vejo as nossas testemunhas. Ainda não as avistámos - nem avistámos as nossas amigas, a Deolinda, a Inês do Bazar, a Joaquina que prometeram vir assistir para nos acompanhar. - Vai mas não demores. Só o tempo de eu rezar um terço. Vai ligeira. Mal acabou de rezar Ana virou-se para o pátio a ver se Cecília já vinha vindo. Mas de novo tudo quanto vira lhe dava uma sensação de mal-estar e de estranheza.
  • 31. SO P II I A O E M E L LO OR E YIIE R 34 - Deus do Céu, por que vim eu meter-me nisto - pensou ela. Mas logo Cecília surgiu com a Inês do Ba­ zar, a Deolinda e a Joaquina. - Ó senhora Ana, a sua sobrinha diz que vocemecê está desanimada. Anime-se - olhe que vai ganhar - disse Deolinda abraçando-a. - Sei lá se vou - respondeu. - Sinto-me aqui tão mal disposta. Tudo isto me põe tonta. Joaquina. e .Maria do Céu tentaram anim,á­ -Ia. Mas Ana era impaciente e voluntariosa e estar naquele lugar parecia-lhe insuportável. Levantou-se e pôs termo às consolações das amigas. - Sinto-me aqui mal. Se me vejo daqui pa­ ra fora nem acredito. Por isso vou-me embo­ ra. Fiquem vocês aqui com a Cecília para ve­ rem como tudo corre. Vocês são mais novas, têm mais ânimo para estas coisas. - Ó minha tia, sempre era melhor a se­ nhora estar presente.
  • 32. 35 E R A U IAA V E Z UIA A PR A I A A T L Á111 I C A - O advogado disse que nem era preciso eu vir. Por isso vou-me embora. - Mas como é que há-de ir assim sozinha. A minha tia não conhece estes sítios, não vai dar com a estação. - Deixa estar que vou eu com ela. Eu co­ nheço estes sítios palmo a palmo. Venho aqui todos os meses aviar-me para a minha loja - atalhou a Joaquina que tinha uma loja de pa­ nos e fitas, botões, nastros, colchetes, agu­ lhas, linhas e dedais. - Então vamos já - disse Ana. Mas antes de ter dado três passos, parou, virou-se para trás e perguntou: - Vocês viram o Tomé e o João? Eles são as minhas testemunhas, já deviam aqui estar. - Quando chegámos já eles cá estavam. li­ nham vindo duas horas adiantadas com medo de qualquer atraso, mas depois sumiram. - Bem, devem estar a aparecer. Mas eu
  • 33. SOPII I A D E IHLLO DR EYlIER quero é ir-me embora depressa. Digam-lhes que tive pena de não os ver, mas que amanhã os irei procurar. - Nós dizemos - responderam Cecília e as duas amigas. - Vamos Joaquina - disse Ana. E partiram. Ao chegar a casa Ana, em vez de entrar, sentou-se cá fora nos degraus de granito da escada e pôs-se a olhar o mar. O Sol tinha subido no Céu, tinha aquecido a terra e as pedras mas o ar continuava fres­ co e sobre o mar havia ainda o fino brilho de Inverno. A maré alta descia devagar e as on­ das quando estavam no cimo, mesmo antes de quebrar, tornavam-se por um instante trans­ parentes e verdes. Ana respirou fundo e como era seu costu­ me quando estava só, começou a falar em voz alta. E disse:
  • 34. 37 ER A UMA VEZ UMA PR A I A A TLÁII T I CA - Bem fiz eu de me vir embora daquele sítio excomungado. Só de ver as ondas e de respirar este cheiro já me sinto melhor. Aqui é que eu estou bem. Nunca tive inveja de nin­ guém porque tenho esta casa de frente para o mar. Depois anunciou: - Vou até à praia. Depois do que passei esta manhã preciso de ir à praia. Descalçou-se e poisou os sapatos com as meias lá dentro no degrau da escada, atraves­ sou o caminho de terra e pedrinha solta, en­ trou na praia, desceu para o mar. Atravessou a linha de algas, cascas de ou­ riços, búzios, conchas, pedaços de madeira, pedaços de cortiça. A areia molhada luzia. Então Ana arrega­ çou as mangas bem acima do cotovelo, arre­ gaçou um pouco a saia comprida e entrou na orla da onda quebrada. Curvou-se e com as
  • 35. SOPUIA O E MELLO OREYtl E R 38 duas mãos em concha cheias de água lavou e esfregou a cara três vezes seguidas. Quando as mãos lhe trouxeram a quarta concha de água bebeu-a. Depois endireitou-se e olhou a exten­ são azul de mar até ao horizonte e disse: - Bendito seja Deus, já me sinto lavada daquilo tudo. Respirou fundo para sorver bem o cheiro da maresia e ficou um tempo quieta, enlevada como sempre no inchar, no desabar e no es­ praiar-se das ondas. Enquanto assim estava uma onda mais forte molhou-lhe a saia até aos joelhos. Ela riu-se. Mas de repente lembrou-se que «aquilo tu­ do» ainda não tinha acabado. E de novo se sentiu confusa e cansada. Então devagar subiu a praia, atravessou a pequena entrada, pegou nos sapatos que deixara no degrau e entrou em casa. Em voz alta disse:
  • 36. E RA UMA V E Z UM A P RA I A A TL Á 111 I C A - A Cecília está a chegar, tenho de prepa­ rar o almoço. Foi à cozinha e, com os gestos mil e mil vezes repetidos acendeu o lume, preparou o almoço e pôs os pratos, os talheres, o pão e o vinho na mesa. Depois mudou de saia, limpou os pés e sem se calçar foi ao jardim pôr a saia molhada a secar na corda. Deu uma volta na horta, co­ lheu hortelã e salsa e voltou para dentro, es­ preitou as panelas e pôs a hortelã na sopa, no arroz pôs a salsa e deu-lhe uma volta com a colher de pau. Depois ficou sem nada para fazer. Sentou­ -se numa cadeira da salinha da entrada. Revia sem cessar as imagens do pátio do tribunal e o mau presságio era um peso dentro do seu peito. Esperou uma hora. Mal Cecília entrou per­ cebeu que tinha corrido mal.
  • 37. 5 OP II I A D E MEL LO BREYII E'R - Então? - perguntou Ana. 40 - Ai minha tia, não trago boas notícias - respondeu Cecília. Sentou-se em frente de Ana e desatou a chorar. - Não chores. O que é que correu mal? - As suas testemunhas - disse Cecília en- tre soluços. - Não chores, conta - disse Ana. Então Cecília começou a contar que no tri­ bunal o João e o Tomé pareciam transtorna­ dos - mal respondiam às perguntas que lhes fazia o juiz: ficavam calados e quando res­ pondiam a sua voz era sumida e as respostas desajeitadas. Depois quando o advogado do primo Abílio os interrogou não acertaram uma, baralharam tudo. Quando o julgamento acabou o advogado delas chamou-a à parte e disse-lhe que lhe parecia tudo muito mal pa­ rado. Perguntou-lhe se as testemunhas de Ana
  • 38. 41 E R A UM A V E Z UMA P R AIA A TL A I I TI C A não teriam bebido. Ela tinha respondido que João e Tomé eram seus vizinhos há muitos anos e que nunca os tinha visto com vinho a mais. Eram dois homens muito assentes e mui­ to sérios. Mas o advogado tinha comentado com ar duvidoso: «No tribunal pareciam mes­ mo sem norte». Ela tinha perguntado se esta­ va tudo perdido, ele tinha respondido que ia pensar melhor nisso, mas que era preciso es­ perar que saísse a sentença. E no fim tinha acrescentado que ainda havia esperança pois se perdessem podiam recorrer da sentença. Quando Cecília acabou de falar Ana ficou muda e com ar sombrio e cara um pouco pá­ lida. Houve um longo e pesado silêncio até que Cecília, habituada ao génio falador e explosi­ vo da tia, se espantou com tanta mudez. Per­ guntou: - Ai minha tia, está bem? Está tão branca.
  • 39. s o P II I A O E MELLO B R E YII E R 42 - Não estou bem, como queres que esteja bem? - Ai, mas não se arrelie - disse Cecília. - Se perder pode recorrer. - Se perder, perdi e não recorro. Acabou- -se. Não quero mais nada com tribunais, ou- viste - respondeu Ana exaltada. - E hoje não me fales mais nisto. Vamos almoçar. Cecília calou-se e foi encher os pratos de sopa. Comeram em silêncio sentadas uma em frente da outra na mesa da cozinha. No fim disse: - Vou à minha lida. E Ana foi sentar-se no cadeirão da salinha em frente do retrato do marido. Era uma grande e bela fotografia que num dia de um Verão antigo lhe tirara e lhe ofere­ cera um veraneante muito celebrado pelo seu talento de fotógrafo. Até fizera uma exposi­ ção no Porto e tinha sido muito gabado nos
  • 40. 43 EnA U IA A V E Z U IA A P n AIA A TL Á II TIC A jornais. E mais uma vez Ana, como todos os dias, se perdeu enlevada na contemplação do retrato. A modulação subtil da fotografia a preto e branco era fiel à sua memória. Ali es­ tava Manuel Bote, entre a rebentação da va­ ga, belo, firme e distante como um deus do mar rodeado pela luz viva da manhã marinha. Ali como na sua memória nada mudara o ins­ tante eterno, apenas o tornara intocável e distante. E de novo a imagem do homem, do mar e da luz trouxeram à sua boca o mesmo antigo sabor de sal e de alegria. E sentada no cadeirão Ana sorriu. Mas de­ vagar o seu sorriso desfez-se: pareceu-lhe de repente que algo mudara e que o seu marido agora a fitava com olhar triste e severo. Ela reconheceu a acusação. Então baixou a cabeça e o seu coração apertou-se. Desesperada culpou-se a si pró­ pria. O que lhe doía não era ir perder a sua
  • 41. s o P II O E M E LL O O R E Y" E R horta. O que lhe doía era ter arrastado o Tomé e o João para aquela aventura. Sabia que aquele dia era para eles um dia de humilhação que nunca mais esqueceriam. E não suportava que aqueles homens que sempre tinha visto serenos e de cabeça levantada estivessem ago­ ra confusos e cabisbaixos. O que lhe importava a ela não era perder a questão mas sim manter intacta a ordem do mundo tal como ela a imaginava. Sentada olhava lá para fora através do vi­ dro da janela, um vidro um tanto fosco de sal mas onde o vai e vem do mar tremeluzia. E no azul das águas, no brilhar irisado da luz, no quadrado da janela, no tremular das ervas sel­ vagens da duna tentava encontrar uma saída para o seu remorso, uma abertura. Nessa mesma manhã, quando Ana seguia para a estação com a Joaquina ao voltar para casa, um amigo dela, o marceneiro Zé Vieira,
  • 42. 45 E� A U IA A V E Z UIA A P� A I A A TLÁ IIT I C A que viera à cidade para assistir ao julgamen­ to, e de caminho comprar uma plaina nova de que precisava, terminada a compra, dirigiu-se para o tribunal. Mas na rua nova encontrou um conhecido que lhe disse que o julgamento estava atrasado. Zé Vieira, vendo que ainda tinha tempo resolveu ir à esplanada espairecer um pouco e tomar uma bica. Mal entrou no bar Maré viu logo o Rodrigues com o seu bigodinho, acompanhado por dois homens que estavam de costas para a entrada. Percebeu que o Ro­ drigues fingia não o ver e, maio avistara, ti­ nha chamado o criado e pedido a conta. Zé Vieira que não gostava do Rodrigues, fingiu também não o ver, sentou-se no outro lado da sala e, passado um minuto, chamou o criado. Este que já estava a levar um prato com a conta ao Rodrigues, fez-lhe sinal que esperasse.
  • 43. s o P I I O E MELLO OREY" E R Como era impaciente José Vieira começou a tamborilar com os dedos no tampo de pedra da mesa. E não querendo olhar para o lado do Rodrigues, virou a cara e reparou nas suas próprias mãos ágeis e finas, de marceneiro. Sorriu lembrando-se de Ana que muita vez lhe dissera: - Ó Zé tens umas mãos mesmo inteli­ gentes! E ele sempre lhe respondia: - É que isto de ser marceneiro apura a pessoa. Logo a seguir sentiu o arrastar das cadei­ ras. Levantando a cabeça viu que o Rodrigues já se dirigia para a porta, mas estarrecido viu também que atrás dele iam Tomé e João. E se­ guindo-os com o olhar até saírem reparou que iam os dois aos bordos. Então olhou para a mesa de onde tinham saído e viu-a atulhada de copos e tigelinhas. Nessa ' altura chegou o criado com o café e o marceneiro, a puxar-lhe pela língua, co­ mentou:
  • 44. 47 E R A UM A VEZ UM A r RAIA A Tl Á 111 I C A - Muito beberam aqueles seus fregueses! - Lá isso! - respondeu o criado - mas olhe que o do bigodinho só bebeu dois cafés e um copo de água. Mas sempre a puxar os outros para beberem mais. Pedia tigelas de azeitonas bem salgadinhas, mais uma e mais outra. Vinho verde de Amarante bem geladi­ nho e mais um copo senhor João e mais um copo senhor Tomé, e agora vamos experimen­ tar o verde de Ponte da Barca. E depois de tantos copos o senhor João e o senhor Tomé que aqui tinham chegado tão compostos e de­ licados estavam avariados de todo! O marceneiro percebeu logo que fora de propósito que Rodrigues tinha embriagado as duas testemunhas. Enervado bebeu a bica de um só trago, pediu outra com mais um copo de água e a conta, pagou, agradeceu e saiu correndo para o tribunal. Mas quando lá che­ gou o julgamento já tinha começado.
  • 45. SOPIIIA OE M E L LO BR E YII E R 48 Quando Cecília saiu Ana deixou-se ficar na cadeira ora remoendo a sua arrelia ora cisman­ do o divagar das suas memórias. Lentamente começou a escurecer mas não acendeu o can­ deeiro suspenso de tecto - pois não gostava daquela claridade que, como sempre dizia, tor­ nava tudo cinzento. Mas gostava de ficar no lusco-fusco olhando através do vidro da janela a lenta transformação da luz que lá fora se re­ flectia oblíqua sobre o mar. Até que Cecília entrou de rompante acendeu a electricidade, sentou-se a seu lado, disse que tinha encontrado o marceneiro e relatou tudo quanto ele lhe tinha contado e acabou dizendo: - O José Vieira diz que se a tia perder a questão e quiser recorrer ele irá ser sua teste­ munha. E crê que o criado do bar Maré também estará disposto a ir, se lhe pedirem. Espero que agora, se perder a questão, a minha tia vá re­ correr.
  • 46. E R A UMA V E Z UM A P R A I A A TL Á IIT I C A Ana primeiro deixou-se ficar calada: a histó­ ria não a espantava, já estava à espera de tu­ do. E, ao cabo de um curto silêncio respondeu: - Não recorro. - Mas a minha tia sempre disse que queria a justiça e agora não quer justiça para si? Irada Ana levantou-se: - Quero justiça mas só à minha maneira. Não quero mais nada com o tribunal, já disse. Não me arreliem mais. Eu tenho razão, não preciso que m'a dêem. E deixem lá ir a horta. Não me falem mais nisso. No dia seguinte pela tardinha, quando Ce­ cília partiu para a fonte, Ana foi sozinha a casa de Tomé e pediu-lhe que chamasse o João que morava ao lado. Mal chegaram os dois, ela mandou-lhes que se sentassem em sua frente e disse: - Vim cá agradecer-lhes terem ido de tão
  • 47. s o P II D E IA E LL O BREY" E R 50 boa vontade ao tribunal defender-me. Peço desculpa de os ter metido nestes trabalhos. Disseram-me que tinham ficado os dois aflitos com medo de não terem falado bem. Mas não se aflijam. O advogado disse-me que falaram bem. Aliás se eu perder a questão não é por causa disso. É por causa de outras complica­ ções que surgiram e que o advogado me expli­ cou mas que eu não sei explicar. Sou muito tapada para essas coisas. Mas se perder, perdi e não recorro. Não quero mais nada com tri­ bunais. Tenho razão e por isso não preciso que ma dêem. E já não se me dói nada da hor­ ta. Amanhá-Ia cansava-me e já me custa andar curvada sobre a terra, faz-me tonturas. Agora o que me dá alegria é sentar-me nos degraus da minha porta a olhar a maré cheia ou cami­ nhar rente ao mar e ver os rochedos da maré vaza. E dá-me alegria saber que tenho bons amigos, leais e verdadeiros, como vocês os
  • 48. 51 E R A UM A V E Z U I� A P RAIA A TL A 111IC A dois. Temos muita sorte de viver numa terra tão bonita. Aqui cheira a mar e a fruta. Aqui tudo é lindo e perfumado. São lindas as nos­ sas casas, tão brancas e bem caiadas. E são lindas as casas maiores dos mais ricos. A mi­ nha preferida é a casa da senhora D. Luísa com aquela varanda virada para o mar e aquela escada de pedra e grades feitas de ri­ pas de madeira cruzadas e pintadas de verde. Um dia disse-lhe: «Ai senhora D. Luísa, é tão bonita a sua varanda, é mesmo boa para ver o pôr do Sol. É pena a senhora não passar cá mais tempo» e ela respondeu: «Olha Ana, quando eu não estiver cá vem tu por mim, senta-te na minha varanda a ver o pôr do Sol - a casa fica fechada mas a cancela da varan­ da fica só no trinco». E assim, agora, muita vez me sento ali, é mais alto, vê-se melhor. Mas também é lindo o pinhal da Igreja, e o jardim da condessa, e tanto alpendre, e tanta
  • 49. s o PII D E I� E LL O B R E Y" E R 51 varanda e varandinha que aqui há. O senhor arquitecto costuma dizer: «Isto é uma terra linda porque não há aqui nenhuma coisa feia». Sabem vocês, só viver aqui já é uma fe­ licidade. Para que quero eu a horta se tenho isto tudo? E à medida que falava e a si própria se convencia com a justeza das suas palavras, Ana foi vendo que também convencia Tomé e João e que as caras deles se iam desanuvian­ do. Aliviada de os sentir aliviados despediu­ -se deles com muitos abraços e palavras ale­ gres. Depois os meses foram correndo até que saiu a sentença. Ana tinha perdido a questão mas, como prometera, não recorreu. Parecia impávida e ninguém lhe viu lágrima nem cara ensombrada nem lhe ouviu lamento. Mas entre a faca viva do antigo desgosto, a
  • 50. 53 E � A UMA V E Z U ,�A P � A , A A T LÁ " T , C A • confusa desilusão perante a desordem do mun­ do, a desocupação e os ventos uivantes do In­ verno pouco a pouco recomeçou a beber. Viveu ainda mais alguns anos, trôpega, qua­ se sempre com alguns copos a mais. Às tardes, ela e o cão percorriam as dunas, a esplanada, a praia. Falava sozinha, discursava no vento, interpelava as pessoas que passavam, ameaça­ va com o seu pau os desconhecidos. Quando a avistavam, as vizinhas sacudiam a cabeça e suspiravam. E embora de longe ela as chamasse com grandes brados, só uma ou outra se aproximava. Quando caiu à cama pouco durou. Ao terceiro dia da doença, Cecília aperce- beu-se de que ela começava a respirar mal. - Que tem, minha tia? - perguntou, aflita. - Vou morrer - respondeu. Ficou um instante calada. Depois olhou Cecília e disse:
  • 51. SOPII IA O E M E LLO BR E YII E R 54 - Sabes, se o teu tio fosse vivo eu não morria. E não voltou a falar. Na sua horta foi construído um palacete em estilo modernaço que desfigura toda a li­ nha da costa até aos últimos confins do hori­ zonte.