Policarpo quaresma um embate entre a utopia e a realidade

5.837 visualizações

Publicada em

0 comentários
1 gostou
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
5.837
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
1
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
39
Comentários
0
Gostaram
1
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Policarpo quaresma um embate entre a utopia e a realidade

  1. 1. POLICARPO QUARESMA: UM EMBATE ENTRE A UTOPIA E AREALIDADE. Vera Lúcia Reis de A. Oliveira 1RESUMO A proposta deste artigo é, a partir da análise da obra de Lima Barreto, Triste fim dePolicarpo Quaresma, estabelecer uma relação entre os personagens criados pelo autor edeterminados aspectos da sociedade dos primeiros anos da República Brasileira, levando emconta a concepção de literatura defendida pelo escritor, que era a de uma literatura utilitária,capaz de contribuir para o combate às distorções do regime republicano.Palavras chave: Lima Barreto, Policarpo Quaresma, literatura, Brasil, República.ABSTRACT The purpose of this article is from the analyses to work of Lima Barreto, Triste Fim dePolicarpo Quaresma, establish a relationship between the characters created by author andcertain aspects of society the early years of the Brazilian Republic. Considering the concept ofliterature advocated by the writer, it was the literature of a utilitarian, able to contribute tocombating the distortions of the republican regime.Key-words: Lima Barreto, Policarpo Quaresma, literature, Brazil, Republic.1 Aluna do 8° semestre do curso de Licenciatura em História, UNEB – Campus XIV- Conceição do Coité.Orientadora: Sharyse Amaral.
  2. 2. 2Introdução “A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete, nem a física, nem a moral, nem a intelectual, nem a política que julgava existir havia.” (BARRETO, 1998. P.175) A epígrafe colocada acima foi extraída da obra de Lima Barreto “Triste fim de PolicarpoQuaresma”, que será utilizada como fonte para as discussões abordadas neste artigo, porexprimir, com critério histórico e sutil ironia, a percepção do personagem Quaresma e donarrador com relação aos desvios que o novo regime republicano representava especialmente noque dizia respeito à promessa de “governo para o povo”. Como o presente trabalho pretende discutir as representações de alguns aspectos sociais epolíticos da República presentes na obra citada acima, inevitavelmente a discussão passa muitopróxima dos recentes debates historiográficos envolvendo história e literatura. Sendo assim,talvez seja importante fazer algumas considerações a respeito destas discussões: Hayden White eDominick LaCapra (HUNT, 2001, p. 157-158) chamam a atenção para o papel ativo dalinguagem nas descrições e concepções da realidade histórica. Eles defendem a idéia de que oshistoriadores devem ultrapassar as fronteiras metodológicas de sua disciplina e estabelecerrelações com a literatura moderna e com a crítica literária, tanto no que se refere ao uso demétodos desta última, no sentido de auxiliar o historiador a interpretar a realidade histórica,quanto à liberdade de recorrer ao uso da literatura moderna como uma forma de se conhecer edescrever o mundo, usando a linguagem imaginativamente. Ainda de acordo com os autores citados acima, o grande valor da literatura moderna estáem sua “predisposição em explorar o movimento da linguagem em todos os aspectos daexperiência social, política e pessoal”. Sendo assim, os escritores criativos vão muito além dasantigas e estáveis concepções de mundo, rompendo com a falsa crença de que a representação darealidade deveria ser uma cópia fiel desta. Para White os historiadores, continuaram a procurar anarrativa do mundo, tal como de fato aconteceu, em vez de admitirem que suas descrições sãoparciais, e que umas vão prevalecer em detrimento de outras. (HUNT. 2001, p. 159-160) Ainda, com relação à descrição da realidade histórica do passado, LaCapra (HUNT, 2001,p.154), observa que é impossível se ter uma compreensão absoluta e real de como esse passadoaconteceu, e que as representações do mesmo vêm à tona através de vários textos. Contudo, abase textual de todo o conhecimento sobre o contexto é, em geral, “obscurecida ou reprimida”
  3. 3. 3entre os historiadores que concentram a sua atenção em busca de uma realidade estática. O autorconsidera importante o “dialogo” com o passado, permitindo que este se manifeste a partir devárias perspectivas e não reduzido a um único significado. Embora as reflexões apontadas por White e LaCapra sejam importantes para se repensaras questões historiográficas acerca da representação do passado, chamando a atenção para asnovas concepções a respeito da escrita da história e dos limites de representação do mundo, éimportante estar atento a algumas advertências feitas por historiadores como Roger Chartier,citado por Ana Carolina Verani, em sua Dissertação de Mestrado O triste fim de Lima Barreto:literatura, loucura e sociedade no Brasil da Belle Époque (2003, p.16), de acordo com elaembora Chartier reconheça que a escrita da história passe pela narrativa e que a descrição dopassado se apresente em forma de representação, ele chama a atenção para o perigo daradicalização desses princípios que podem levar ao relativismo de transformar o processo doconhecimento histórico do passado em pura construção discursiva. Contra essa dissolução do estatuto de conhecimento, freqüentemente considerada nos Estados Unidos como uma figura do pós- modernismo, deve-se sustentar com força que a história é comandada por uma intenção e por um principio de verdade, que o passado que ela estabelece como objeto é uma realidade exterior ao discurso, e que seu conhecimento pode ser controlado (CHARTIER, apud, VERANI, 2003, p.16). Assim, Chartier defende a afirmação da especificidade da análise histórica, não sendopossível negar que essa obedece a critérios científicos e que o historiador tem um compromissocom o passado que ele estabelece como objeto de estudo. Por isso, as técnicas e estratégiasusadas nos discursos históricos não podem ser igualadas as mesmas utilizadas pelos literatos, poismesmo sendo as suas narrativas carregadas de historicidade elas não têm compromisso com averdade, e podem, sem cerimônia, mesclar realidade e ficção no mesmo texto. Embora a proposta do trabalho não seja discutir a relação entre literatura e história, foifeita uma breve introdução a esse respeito, pois a proposta do trabalho tem como fonte uma obraliterária. Desse modo, como defende Sidney Chalhoub e Leonardo Pereira, (1998, p.7), que aobra literária é um testemunho histórico, e como tal deve ser historicizada - seja ela conto poesiaou romance – inserindo-a no movimento social, investigando suas redes de interlocução social,mostrando, não a sua suposta autonomia em relação à sociedade, mas sim, a forma como constrói
  4. 4. 4ou representa a sua relação com a realidade social. Portanto, literatura e literato estão entrelaçados pela trama da história, são sujeitos epersonagens inseridos nos conflitos sociais de sua contemporaneidade. Com isso, mesmo estandoàs obras literárias carregadas de subjetividade, quando tomadas como fonte, constituem-se comojanelas que se abrem para o historiador, dando-lhe um leque de possibilidades de ver o “mesmo”evento ou estrutura a partir de perspectivas diferentes. Assim, a obra literária de Lima Barreto foi tomada como fonte por considerá-la possívela análise histórica, e para que se tenha um maior conhecimento da época, os “critérios específicosdo conhecimento histórico”, permitem recorrer a outras informações e recursos além da obraliterária analisada, sendo possível a partir do texto construir uma reflexão histórica buscando umamaior compreensão de determinada realidade social. Conscientes de que a análise feita será a partir da visão do autor, portanto se restringirá aalguns aspectos da sociedade em detrimento de outros, o que não descarta a possibilidade dopresente trabalho contribuir para o enriquecimento do conhecimento histórico, permitindo umamelhor compreensão da realidade brasileira nos primeiros anos da República.Quaresma: Um triste relato da República Triste fim de Policarpo Quaresma é uma obra pré-modernista, na qual Lima Barretoantecipa a temática básica do modernismo de 1922, isto é, um nacionalismo crítico, mostrando oBrasil não oficial. O romance foi escrito em 1911, e aborda a representação de alguns aspectosexpressivos do contexto histórico-social dos primeiros anos da República Brasileira. Assim,através da trajetória nacionalista de Quaresma, o autor traz a tona as várias fissuras e tensões darealidade brasileira. O texto narra o esforço do Major Quaresma para contribuir com a grandeza do Brasil, seupatriotismo exagerado, totalmente empenhado em resgatar a “alma nacional”. Esse patriotismotransparece em algumas atitudes: ele se alimenta com produtos nacionais, dedica-se a aprender oviolão, as modinhas e a valorizar o folclore brasileiro. Após anos de leitura e reflexões,invocando argumentos históricos e filosóficos, bem ao gosto cientificista da época, Quaresmadirige um requerimento a Câmara Federal propondo a recuperação dos costumes e da línguaindígena, por acreditar que esta era a verdadeira língua do Brasil. Seu forte sentimento cívico o
  5. 5. 5impulsiona a buscar soluções para resolver os problemas do país: Policarpo era patriota. Desde moço, ai pelos vinte anos, o amor da Pátria tomou-o todo inteiro. Não fora o amor comum, palrador e vazio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de ambições políticas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou melhor: o que o patriotismo o fez pensar, foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remédios, as medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa. (BARRETO, 1998, p.22) Quaresma é o único personagem no romance, cujas ações visam algo além dele mesmo, obem do Brasil como um todo. Em contraste com ele movem-se ao seu redor grupos depersonagens como: o dos militares, dos funcionários públicos, dos profissionais liberais e dosgrandes proprietários de terra, que associavam o patriotismo ao carreirismo político e aosinteresses individuais. Essa noção distorcida de patriotismo era comum entre a elite republicana,pois havia uma fusão do interesse público com o particular. De acordo com José Murilo deCarvalho, (1990, p.30) o contexto da proclamação da República foi marcado pelo espírito daespeculação, do enriquecimento pessoal a todo custo, denunciando amplamente na imprensa, natribuna e nos romances. “Predominava a mentalidade predatória, o espírito do capitalismo sem aética protestante”. Lima Barreto, assim como Quaresma não tinha ambições políticas e nem ganância poracumular riquezas, o que movia criador e criatura era o desejo de ter um país mais justo queolhasse para a população menos favorecida. De acordo com Nicolau Sevcenko (1998, p. 192) asobras de Lima Barreto são pautadas pelo seu compromisso com a crítica social. “Todos os seuspersonagens concorrem para consagrar o destino “militante” da sua literatura.” Nesse sentido, o autor se expressava através de suas obras estabelecendo um vínculoestreito entre sua movimentação no espaço social e a observação atenta das questões queemergiam nesse contexto. A sua vida literária foi marcada por uma crença incansável numaliteratura utilitária e missionária, capaz de ligar e envolver os homens em torno de valoresuniversais, como justiça, ética e solidariedade, por isso ele desejava que suas obras atingissem omaior número possível de pessoas como observa Sevcenko: Mas por que a preocupação pertinaz de atingir tão intimamente a um público tão vasto? Por que essa ambição, essa cobiça tão furiosa de comunicação que marcou toda sua vida literária? Sua concepção cruelmente utilitária da arte o fazia concebê-la como uma força de libertação e de ligação entre os homens. Permitia-lhe escapar das
  6. 6. 6 injunções particulares e cotidianas para o próprio centro das decisões sobre o destino da humanidade. Ensejava a cada indivíduo isolado que se sentisse incorporado profundamente no seio da natureza e do universo. Por isso mesmo, ele chegava a supor a literatura como um complemento ou um sucedâneo para a religião. (SEVCENKO, 1198, P. 199-200) De acordo com o seu biógrafo Francisco de Assis Barbosa, Lima Barreto teve sua vidamarcada pelo drama íntimo da loucura de seu pai, e a sua advinda ou não do alcoolismo, mas nãose curvou aos preconceitos de seu tempo, muitas vezes se rebelou contra os mesmos através desua arte, deixando transparecer em muitas de suas obras suas magoas e ressentimentos e “semque se dessa conta, ia armazenando o seu “stock” de observações e de emoções”. (BARBOSA,2002, p. 222). Voltando ao Major Quaresma, a sua atitude ingênua de escrever um ofício para a Câmara,solicitando a autonomia cultural do Brasil, provocou a crítica, ironia e escárnio de todos oscolegas de repartição, e como as suas manias sugerem um desvio de comportamento, Quaresmafoi considerado louco e internado no hospício. Refeito e curado dos delírios, Quaresma ao sair do hospício dá continuidade ao seuprojeto de lutar por um país melhor. Centra-se agora na agricultura, aposentado compra um sítiodenominando “O Sossego”, com intuito de demonstrar a fertilidade das terras nacionais, e decontribuir para a expansão da nossa economia, e servir ele mesmo de exemplo demonstrando aospequenos proprietários rurais o potencial agrícola do país. Adquiriu vários instrumentos e livros,planejou com exatidão, pensou nas vantagens e ônus, e viu com satisfação que seu projeto eraviável e rentável, não por ambição de fazer fortuna, mas por haver nisso mais uma demonstraçãodas excelências do Brasil: Então pensou que foram vãos aqueles seus desejos de reformas capitais nas instituições e costumes: o que era principal à grandeza da pátria estremecida, era uma forte base agrícola, um culto pelo solo ubérrimo para alicerçar fortemente todos os outros destinos que ela tinha de preencher. (BARRETO 1998 p.76) Apesar de Quaresma ter se cercado de conhecimentos sobre agricultura e compradoinstrumentos para auxiliá-lo na lida da terra, o seu projeto agrícola cai por terra, e uma sucessãode fracassos assola os seus planos de prosperidade: impostos exorbitantes, falta de uma políticade incentivo ao pequeno proprietário, a invasão das formigas, as pestes das galinhas e sobretudoainda havia um mal bem mais avassalador; a intervenção dos políticos locais, nos personagens do
  7. 7. 7tenente Antônimo e do Dr. Campos representantes da Oligarquia rural local que usam os seuscargos político para tentar coagir Quaresma a fazer política partidária. Com todas essas decepções a alma patriota de Quaresma se angustiava. Ele consegue teruma visão crítica acerca da atitude do governo em relação à questão rural e preocupado, constatao abandono em que vivem as populações rurais, sem o apoio do governo para cuidar das terras, emuitos trabalhadores sem terras próprias para cultivar, enquanto grandes proprietários mantinhamlatifúndios improdutivos. A dura realidade vivenciada por Quaresma no “Sossego” o fez despertar do seu ufanismobovarista, impulsionando-o a adquirir uma consciência crítica da realidade e buscar alternativaspara melhorar as condições de vida da população pobre que vivia a margem do regimerepublicano: De fato, essa passagem do ufanismo à lucidez crítica resume a própria trajetória do Major Quaresma, símbolo de uma intelectualidade que reformula suas posturas. Ela implicava sobretudo uma mudança na forma de olhar, exigindo que se saísse das páginas dos livros e da cultura letrada, das tribunas, das bibliotecas, e dos gabinetes, para um contato direto com a realidade do país, sua natureza, sua gente, seus campos, suas cidades. A experiência existencial dessa intimidade com o homem e a terra se encarregaria de traduzir-se por se mesma em consciência crítica e avaliação das condições reais do país, como ocorreu com Quaresma no seu sítio do “Sossego”. (SEVCENKO, 1998, p. 213) Assim, toda a escrita de Lima Barreto é permeada pelo seu compromisso político decidadão preocupado em trazer a tona o maior volume possível da realidade social do país, comsuas várias fissuras e tensões. Durante toda a sua vida Lima Barreto combateu os preconceitos que teve que enfrentarpor ser pobre, suburbano e “mulato sem disfarce”, com isso, a sua própria movimentação noespaço social e sua observação atenta das questões que emergiam no contexto, contribuiu paraum olhar mais próximo dos “homens vencidos” de seu tempo. O autor condenava as atitudes, ossímbolos, os objetos, ou qualquer critério utilizado pelos homens para estabelecer divisões nointerior da sociedade. Daí nasce o seu incansável esforço de dispor da literatura como uma forçamotriz capaz de despertar a solidariedade entre os homens. A sua posição a esse respeito é clara:“A grande força da humanidade é a solidariedade [...] cheio dessa concepção venho para as letrasdisposto a reforçar esse sentimento com as minhas pobres e modestas obras”. (BARRETO, apud,SEVCENKO, 1998, p. 220).
  8. 8. 8 Com efeito, Lima Barreto deixa transparecer, em muitas de suas obras, a sua visão críticaacerca do regime republicano e de seus representantes, principalmente por não identificar nesse osentimento de solidariedade, que para ele deveria predominar em um regime que se pretendiademocrático. Em um artigo que escreveu em 1918 ele demonstra a sua indignação com ospolíticos que estavam à frente do regime republicano: “A república, porém trazendo à tona dospoderes públicos, a bôrra do Brasil, transformou completamente os nossos costumesadministrativos e todos os “arrivistas” se fizeram políticos para enriquecer (BARRETO, 1956. p,78). A República surgiu em uma sociedade profundamente desigual, hierarquizada e logoficou claro que ela não estava concretizando os ideais em nome dos quais surgira. Com isso, asinsatisfações e frustrações foram se manifestando em forma de revoluções e de protestos, nacapital da república e em várias partes do país. De acordo com José Murilo de Carvalho, (1987, p.16) as insatisfações e frustrações foram se manifestando em forma de revoluções e protestos:Canudos (1893-1897), guerra civil no sul, instabilidade política, greves, tumultos e tentativas degolpes. As agitações eram visíveis na capital da República, que teve sua população aumentadarapidamente em função da abolição, eram muitas pessoas sem colocação para trabalhar, ouquando conseguiam se empregar a remuneração era muito baixa. A cidade foi preenchida porindivíduos mais ou menos “perigosos” que formavam a maioria marginalizada da populaçãofluminense: ladrões, prostitutas, ciganas, malandros, desertores, ambulantes, floristas, pequenosfuncionários públicos, pivetes, capoeiristas, jogadores. Nesse sentido, Sevcenkco (1998, p. 21) observou que essa população extremamente pobree marginalizada vivia amontoada nos casarões do centro da cidade, mas com o projeto demodernização da capital da República, esses indivíduos foram expulsos para os subúrbios e osmorros da cidade. “Para as autoridades, eles significavam uma ameaça permanente à ordem, àsegurança e a moralidade pública”. Lima Barreto descreve os subúrbios insalubres da capital da República, onde aspessoas viviam amontoadas em verdadeiros “Caixotes humanos”. O personagem RicardoCoração dos Outros, amigo de Quaresma, era morador em um desses subúrbios, o tipo demoradia é descrito por Barreto, com riqueza de detalhes, assim como o estilo de vida de seusmoradores.
  9. 9. 9 Casas que mal dariam para uma pequena família, são divididas, subdivididas, e os minúsculos aposentos assim obtidos, alugados a população miserável da cidade. Aí, nesses caixotins humanos, é que se encontra a fauna menos observada da nossa vida, sobre a qual a miséria paira com um rigor londrino. Não se podem imaginar profissões mais tristes e mais inopinadas da gente que habita tais caixinhas. Além dos serventes de repartições, contínuos de escritórios, podemos deparar velhas fabricantes de rendas de bilros compradores de garrafas vazias, castradores de gatos, cães e galos, mendigueiros, catadores de ervas medicinais, enfim uma variedade de profissões miseráveis que as nossas pequenas e grande burguesias não podem adivinhar. Às vezes num cubículo dessas se amontoam uma família, e há ocasiões em que seus chefes vão a pé para a cidade por falta do níquel do trem. (BARRETO, 1998, P. 84). Com relação à retirada dos cortiços do centro da cidade Chalhoub (1996, p. 17)observou que o processo de extirpar os cortiços cariocas do centro da cidade foi aclamado pelaimpressa, que elogiou a atitude do Prefeito da Capital Federal, por ter varrido aquela “sujeira” domapa. “Assim ele havia prestado a cidade “serviços inolvidáveis”, algo inesquecível, pois nembem chegava ao fim à era dos cortiços e a cidade do Rio já entrava no século das favelas.” Nas primeiras décadas da República uma das preocupações das autoridades públicas era amodernização da cidade a todo custo, afinal, o seu embelezamento favorecia a entrada derecursos dos países ricos e civilizados. No entanto, as autoridades republicanas não fizeram umprojeto para acolher essa população pobre desabrigada, que foi expulsa do centro da cidade, odestino das mesmas simplesmente foi negligenciado, e assim esses indivíduos foram ocupando osmorros e encostas, construindo suas casas sem urbanização, sem saneamento básico,abandonados à própria sorte e sujeitos às epidemias, pois continuavam vivendo amontoados.Porém, havia uma diferença: estavam distantes do centro da cidade e, portanto não iria “enfear”as avenidas elegantes da capital da República. Na trajetória patriota de Quaresma, quando este, já mais lúcido quanto aos reaisimpedimentos à forte base agrícola que idealizara, mas ainda acreditando no potencial do país ede sua gente, reanima-se ao idealizar um projeto de reforma administrativa. Ao ficar ciente daRevolta da Armada, Quaresma percebe a oportunidade para realizar suas novas idéias através deum governo forte e sábio. Associando Floriano aos déspotas esclarecidos do século XV e XVI(Henrique IV e seu primeiro ministro Sully), redige-lhe um telegrama pedindo “energia” eafirmando a sua ida imediata a capital. No Rio, Quaresma apresenta-se ao chefe da nação comum memorial contendo uma detalhada análise da situação agrária do país, bem como as medidaspara solucionar os problemas apontados e, embora o Marechal Floriano Peixoto não dê
  10. 10. 10importância ao projeto de Quaresma, convoca-o à resistência contra os traidores da pátria. Empenhado em defender a pátria, Quaresma dedica-se aos manuais sobre artilharias,logística, infantaria e ciências afins com grande motivação patriótica para melhor servir ao país,mas, Quaresma começa a duvidar do governo forte de Floriano, quando este demonstra o seudesprezo pela população rural, considerada por ele como composta por vadios nas palavras doMarechal: “Mas pense você, Quaresma que eu hei de pôr a enxada na mão de cada um dessesvadios?... - Você Quaresma é, um visionário...” (BARRETO, 1998, p.150). Apesar de decepcionado, Quaresma tinha esperança de que, quando passasse a crisepolítica, o marechal daria atenção ao seu projeto. Impulsionando pelo seu espírito patriótico, lutaao lado do Marechal Floriano para defender a República e a partir daí inicia-se o seu calvário emdireção à conscientização e a morte.Floriano ditador ou “liberal” No livro História Geral da Civilização Brasileira, o capitulo escrito por FernandoHenrique Cardoso (2004, pp.42-43) trás informação sobre os métodos utilizados pelo vice-presidente Floriano Peixoto, para se manter no poder: Em “defesa” da República e pararestabelecer o “império da lei” ele violou a constituição e assumiu a vaga de presidente. Alegislação previa uma nova eleição presidencial quando menos da metade do mandato de quatroanos fosse cumprido. Diante da atitude arbitrária de Floriano, alguns militares, insatisfeitos comos rumos da política republicana, assinaram um manifesto solicitando eleições presidenciais equestionando a legalidade do seu governo. Mas, Floriano imbuído de plenos poderes concedidospelos parlamentares e endossado pela elite cafeeira de São Paulo, usou toda sua determinação eobjetividade para se manter no poder, perseguindo os sediciosos e combatendo as revoltas que sealastravam na capital da República e nos Estados. Assim, tomando como exemplo o fato histórico da Revolta da Armada (1893-1894),rebelião liderada por Custódio de Melo e Saldanha da Gama, estes representantes da marinha, noqual os sediciosos ocuparam a baía da Guanabara e com canhões apontados para a capital daRepública exigiram a renuncia de Floriano. Lima Barreto se apóia nesse fato histórico e, atravésda ficção demonstra de forma esclarecedora os métodos utilizados por Floriano para se manter nopoder e “proteger” a República.
  11. 11. 11 A cidade andava inçada de secretas, “familiares” de Santo ofício Republicano e as detenções eram moedas com que se obtinham postos e recompensas. Bastava à mínima crítica, para se perder o emprego, a liberdade – quem sabe? – a vida também. Ainda estávamos no começo da revolta, mas o regime já publicava o seu prólogo e todos estavam avisados. O chefe de polícia organizara a lista dos suspeitos. Não havia distinção de posição e talentos. Mereciam as mesmas perseguições do governo, um pobre contínuo e influente senador; um lente e um simples empregado de escritório. Demais surgiram as vinganças mesquinhas, o revide de pequenas implicâncias... (BARRETO, 1958 p, 120) Floriano se dizia um liberal convicto, mas não hesitava em perseguir civis, militares e aimprensa. Assim os que se manifestassem contra suas atitudes eram vistos como inimigos daRepública e deveriam ser perseguidos e até executados. De acordo com Maria de Lourdes Janotti,(1999, p.88) sob a alegação de que a República estava sendo ameaçada por inimigos internos eexternos o Marechal Floriano depôs governadores, efetuou numerosas prisões nos Estados,cercou-se de jovens militares positivistas e livrou-se dos políticos liberais do executivo. Assim o Marechal Floriano muito habilidoso para tirar proveito das situações,manifestava-se favorável à ditadura da espada, mesmo se declarando um liberal, como pode serobservado na carta que enviou ao General Neiva, em 10 de junho de 1887. Vi a solução da questão de classe, excedeu sem dúvida a expectativa de todos. Fato único que prova exuberantemente a podridão que vai por este pobre país e, portanto a necessidade da ditadura militar para expurgá-la. Como liberal que sou não posso querer para o meu país o governo da espada, mas não há quem desconheça, aí estão os exemplos, de que é ela que sabe purificar o sangue do corpo social que como o nosso, está corrompido. (A. XIMENO. Apud. COSTA. 2007 p.403-404). Mesmo o Marechal Floriano se dizendo liberal, não hesitou em usar da sua autoridadepara perseguir seus opositores, impor censura a imprensa, intervir nos Estados e declarar estadode sítio na capital da República. De acordo com Elio Chaves Flores, (2008, pp.61-62) não se deveesquecer que Floriano, impôs a sua ditadura com a conivência dos parlamentares que concederamplenos poderes ao executivo para combater as revoltas e “consolidar” o regime republicano.Nesse sentido percebe-se que a ditadura da espada estava cercada por cúmplices e adeptos. Retomando a trajetória de Quaresma, esse, após combater ao lado do governo paradefender a unidade do país, é designado para assumir o posto de carcereiro na Ilha das Enxadas.
  12. 12. 12Lá, Quaresma tomará consciência de que lutou por um país e um governo que só existia na suaimaginação, e que as pessoas com quem estivera coligado tinham ideais muito distintos dos seus: Todos tinham vindo ou com pueris pensamentos políticos, ou por interesse; nada de superior os animava. Mesmo entre os moços, que eram muitos, se não havia baixo interesse, existia uma adoração fetíchica pela forma republicana, um exagero das virtudes dela, um pendor para o despotismo que os seus estudos e meditação não podiam achar justos. Era grande a sua desilusão. (BARRETO, 1998, p.171). Revoltado com o fuzilamento de prisioneiros, Quaresma escreve novamente a Florianodesta vez para protestar veementemente contra as atrocidades que presenciou. E por ter serebelado contra o poder, constituído em defesa dos seus valores e ideais, Quaresma foiconsiderado um traidor e condenado à morte. Lima Barreto escreveu Triste fim... em 1911, período em que o país estava sendogovernado pelo Marechal Hermes da Fonseca. De acordo com Edgar Salvadori de Decca (1997pp. 55-57), este governo foi marcado pelo uso das forças militares para apoiar políticos leais, como objetivo de derrubar as oligarquias estaduais opositoras e fortalecer o governo federal. Eletambém usou a força militar para repreender os marinheiros que haviam participado da Revoltada Chibata (1910), nessa revolta, centenas de marinheiros que lutavam pelo fim dos castigoscorporais e por melhores condições de trabalho foram mortos e aprisionados. Nesse sentido, Edgar de Decca chama a atenção para o período em que Lima Barretoescreveu Triste fim.., que foi marcado pela violência do regime republicano. A narrativa de Quaresma e o acontecimento do massacre dos marinheiros deslocam-se um em relação ao outro, mas o acontecimento não é, necessariamente, o referente da narrativa. Essas narrativas de massacre tornavam-se comuns no início da república e representavam o sinal do cidadão comum na cena da história. (DECCA, 1997 p.56-57) Dessa forma, o contexto histórico em que a obra foi escrita e o período que ela retrataforam marcados pelo autoritarismo, a violência política e a falácia da cidadania. Nesse contexto histórico nem Quaresma e nem Lima Barreto se ajustaram, foram rebeldesaté o fim de suas vidas. O primeiro morreu como traidor da pátria que tanto amava; e o seucriador a sua maneira se expressava para combater as desigualdades do regime republicano, emorreu sem o reconhecimento literário que tanto almejou durante toda sua vida. Ele acreditava
  13. 13. 13em uma literatura utilitária, capaz de libertar os homens. Eis suas convicções sobre os poderes eos fins da literatura: [...] “O homem, por intermédio da Arte, não fica adstrito aos preceitos epreconceitos de seu tempo, de seu nascimento, de sua pátria, de sua raça; ele vai, além disso,mais longe que pode, para alcançar a vida total do universo e incorporar a sua vida na domundo”. (BARRETO, 1993 p.393) De acordo com Francisco de Assis Barbosa, a literatura para Lima Barreto não eraescrever bonito, ele criticava intelectuais de sua época como Afrânio Peixoto que concebia aliteratura como mero entretenimento, a literatura “sorriso da sociedade”. “Ele se rebelava contraessa deturpação da missão do escritor, não podia admitir a literatura contemplativa, a literaturaplástica, a literatura apenas pela literatura.” (BARBOSA, 2002 p. 259) Assim, com a sua concepção de literatura “militante”, Lima Barreto procurou retratar nassuas obras com maior fidedignidade possível a sociedade brasileira, trazendo em suaspersonagens a marca do seu meio, o que constitui o objeto privilegiado da sua crítica social nosprimeiros anos da República.A visão “utilitarista” da coisa pública No decorrer da trajetória de Quaresma ele vai se relacionar com pessoas que vãorevelar a verdadeira face das classes médias aspirantes à nata da sociedade. Pessoas preocupadasapenas em defender os seus interesses pessoais, de grupo ou de classe social. Estas estãorepresentadas pelos militares, profissionais liberais, funcionários públicos e pelos grandesproprietários de terra. Nas suas ações revelam-se o “gosto” pelos privilégios, a alienação política,a reverência ao título de doutor, a vontade generalizada do emprego público, a falta deconsciência para separar os interesses públicos dos interesses particulares. Essa realidade medíocre de pessoas de pouco talento, que estão sempre querendose dar bem a qualquer custo, é tratada as vezes com ironia, e outras vezes com rancor pelo autor.Como está retratado no personagem do General Albernaz que conhece a guerra apenas de ouvircontar, e tem por objetivo casar as filhas e arranjar um “pistolão” para o filho entrar no colégioMilitar.
  14. 14. 14 O altissonante título do general, que lembrava coisas sobre-humanas dos Césares, dos Turennes e dos Gustavos Adolfos, ficava mal naquele homem plácido, medíocre, bonachão, cuja única preocupação era casar as cinco filhas e arranjar “pistolões” para fazer passar o filho nos exames do colégio Militar. (BARRETO. 1998. p, 32) O autor desprezava esses arranjos para se dar bem a qualquer custo. Ele acreditavana meritocracia, combatia e denunciava, através de seus escritos, o protecionismo, os favorespessoais e os privilégios de toda ordem, que permeavam as relações sociais das camadaspróximas ao poder. Nesse contexto, os pretensos propósitos democráticos do regime republicanoeram minados. Lima Barreto carregava uma magoa por não ter se formado, fora reprovado variasvezes na cadeira de Mecânica Racional. E não aceitava que o título de “doutor” que lhe fugirapudesse condenar para sempre um homem de capacidade intelectual superior. Muitas vezesdeixou transparecer através de suas obras sua ira e frustração por não ter conseguido o canudoque talvez diminuísse os complexos de cor e de classe. De acordo com Ana Carolina Verani(2003, pp.55-56) Lima Barreto não era contra ao diploma o que o incomodava era o fato de quequem o possuía, nem sempre tinha competência. No entanto, adquiria prestigio, privilégios ehonras na sociedade da época que venerava os símbolos e os títulos de doutor, impondograduações aos homens. Segundo Sevcenko (1998, p. 215) Lima Barreto, acreditava que os objetos esímbolos “tornavam externos e superficiais a avaliação das qualidades pessoais de cada um e,sobretudo ocultava à incompetência, o nepotismo, a influência, oferecendo uma cobertura para aconcussão”. Assim, a valorização dos símbolos e dos títulos de doutor, “os aristocratas docanudo” é retratado com ironia pelo autor. O personagem de Cavalcante, noivo de Ismênia filhado general Albernaz era admirado por todos graças ao diploma de dentista que o investia de umasegunda natureza, indefinida, porém superior à dos meros mortais, os que não têm canudo. O Dr.Armando Borges marido de Olga, afilhada de Quaresma também fazia parte da classe dos“superiores” portador do título de doutor: Dona Adelaide, mulher velha, do tempo em que o império armava essa nobreza escolar, possuía em si uma particular reverência, um culto pelo doutorado; e não lhe foi, pois, difícil demonstrá-lo quando se viu adiante do doutor Armando Borges, de cujas notas e prêmios ela tinha exata notícia.
  15. 15. 15 Quaresma mesmo recebeu-o com as maiores marcas de admiração e o doutor, gozando aquele seu sobre-humano prestígio, ia conversando pausadamente, sentenciosamente, dogmaticamente; e à proporção que conversava, talvez para que o efeito não se dissipasse, virava a mão direita com o grande anelão “simbólico”, o talismã, que cobria a falange do dedo indicador esquerdo, ao jeito de marquise (BARRETO, 1998, p.100). Cavalcante e o Dr. Armando Borges circulavam em uma sociedade quesupervalorizava os títulos, onde os seus portadores eram vistos como “seres superiores”. Nessesentido, percebe-se a relação recíproca personagem-sociedade, confirmando-se a intençãodominante de Lima Barreto: representar criticamente a sociedade brasileira da PrimeiraRepública. Entre os funcionários públicos, salienta-se Genelício, noivo de uma das filhas dogeneral Albernaz, que estava sempre com um caderninho a anotar datas de aniversário doschefes, e publicava em jornais artigos de contabilidade em linguagem tão adornada quanto vazia.Para se dar bem fazia todos os arranjos e manobras possíveis. Na bajulação e nas manobras para subir, tinha verdadeiramente gênio. Não se limitava ao soneto, ao discurso; buscava outros meios, outros processos. Um dos que se servia, eram as publicações nas folhas diárias. No intuito de anunciar aos ministros e diretores que tinha uma erudição superior, de quando em quando desovava nos jornais longos artigos sobre contabilidade pública. Eram meras compilações de bolorentos decretos, salpicadas aqui e ali com citação de autores franceses ou portugueses. (BARRETO, 1998. P, 49). Em uma sociedade repleta de pessoas ignorantes, aqueles que como Genelíciotivessem uma boa oratória eram vistos como gênio e viviam cercados de respeito. Lima Barretoironizava o culto às mostras de erudição e aqueles que usavam a palavra para ascendersocialmente. Ele combatia os escritores da sua época que produziam uma literatura decontemplação, cheia de estereótipos eletrizantes. O escritor Coelho Neto era um dos alvos da suacrítica. Em um artigo escrito 1918, na Revista Contemporânea o escritor expressa todoseu desprezo pelo escritor Coelho Neto, que para ele produzia literatura apenas pela literatura,instrumento de prazer dos ricos: “O senhor Coelho Neto é o sujeito mais nefasto que tem aparecido em nosso meio intelectual.
  16. 16. 16 “Sem visão da nossa vida, sem simpatia por ela, sem vigor de estudos, sem um critério filosófico ou social seguro, o Senhor Neto transformou toda a arte de escrever em pura Chinoiserie de estilo e fraseado”. (BARRETO, apud, BARBOSA, 2002 p.259). Nesse sentido, Lima Barreto combatia seus pares que viam a literatura comoinstrumento de prazer para os ricos. Ele desafiou o convencionalismo literário da época,impregnado de uma falsa concepção estética. De acordo com Francisco de Assis (2002, p. 257)“o estilo simples, direto e objetivo de Lima Barreto nada tinha a ver com a pompa e o brilho daretórica usual. Ele era anticonvenciaonal, antiacadêmico, ele era um revolucionário”. Segundo Ana Carolina Verani, Lima Barreto, acreditava que a literatura seria ummeio para expor de forma crítica as contradições e as varias formas de opressão presentes nasociedade. Tendo como munição a palavra escrita, a sátira a ironia, para que estes atingissem o maior número de pessoas possível. Na sua missão de aproximar os homens em torno da idéia de uma sociedade sem confinamentos, preconceitos, desigualdades, regida por princípios de ética e igualdade e não de autoridade, ele se recusou, também, a enquadrar a sua literatura e a sua linguagem em rígidas formas, aprisionastes estilos, rótulos, genros. (VERANI. 2003, p. 104) A escrita de Lima Barreto tem um cunho político, é clara a sua intenção de seposicionar diante da realidade social na qual estava inserido. Assim a narrativa da trajetória deQuaresma nos remete ao encontro de cidadãos comuns, que como ele deu a sua vida lutando porum país com mais justiça social, no qual a cidadania não se restringisse apenas aos discursosvazios.Conclusão Lima Barreto compõe em Triste Fim de Policarpo Quaresma uma obra empenhada, comoautor militante o seu objetivo é através da narrativa denunciar o autoritarismo, a violência políticaa falácia da cidadania e as mazelas do regime republicano. Dessa forma, a intenção foi mostrar que os personagens criados por Lima Barretoestabelecem uma relação recíproca personagem–sociedade, confirmando-se assim, a intençãopersistente do autor que era a de representar criticamente a sociedade brasileira dos primeirosanos da República.
  17. 17. 17 Nesse sentido, o autor utilizava a sua arte como uma “arma” para combater as distorçõesda sociedade. Ele se expressava através de suas obras estabelecendo uma conexão entre a suamovimentação no espaço social e a observação atenta das questões que emergia no contexto.Como mostra Idilva Germano a sua produção foi marcada por um certo grau de compromissocom a realidade incorporada criticamente em seus textos: Com efeito, o estilo “realista memorialista” marca toda a produção de Lima Barreto, inclusive os textos mais propriamente de observação social, como as sátiras e as crônicas. No Triste Fim..., a ressonância afetiva descolou-se do tema racional e de classe para o tema das ideologias de Brasil. O major, como ele próprio, é vitima por exceder-se nas suas fantasias de país, a dor de as ver ruírem não pode ser impedida pelo caráter moralmente elevado dos seus sonhos ( GERMANO, 200 p. 46) Sendo assim, Lima Barreto acreditava no papel missionário da sua escrita paratransformar o país, e fez de suas obras e de seus personagens um veículo para comunicar aosleitores suas críticas e reflexões a cerca de questões sociais e políticas da sociedade carioca e dogoverno republicano. Apesar de se tratar de questões particulares de seu tempo, muito do que oautor expôs não sofreu grandes mudanças até os nossos dias. E a sua certeza da necessidade deuma sociedade mais justa e igualitária, onde todas as pessoas, sem distinção pudessem exercer defato e de direito a sua cidadania continuam presente e atual em nossa sociedade.
  18. 18. 18BIBLIOGRAFIAFONTES:BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. 19° Ed. São Paulo: Ática, 1998.________. Marginália, artigos e crônicas. São Paulo: Gráfica Urupês, 1956.________. Um longo sonho do futuro: Diários, cartas, entrevistas e confissões dispersas. Rio deJaneira: Graphia, 1993.LIVROS:BARBOSA, Francisco de Assis. A vida de Lima Barreto. 8ª Ed. Rio de Janeiro: José Olympio,2002.CARDOSO, Fernando Henrique. Dos Governos Militares a Prudente – Campos Sales. In:FAUSTO, Boris. (org.) História geral da civilização brasileira; t. 3 v.1. Rio de Janeiro: BertrandBrasil, 2004.CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: O Rio de Janeiro e a República que não foi. SãoPaulo: Companhia das Letras, 1987.________. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: companhiadas Letras. 1990CHALHOUB, Sidney. Cidade febril: cortiços e epidemias na Corte imperial. SãoPaulo: companhia das Letras. 1996.CHALHOUB, Sidney e PEREIRA, Leonardo AM. (org.). A história contada: Capítulos dehistória social da literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.COSTA, Emília Viotti da. Da monarquia á república: momentos decisivos. 8ª Ed. São Paulo:UNESP, 2007. DECCA, Edgar Salvadori de. Quaresma: um relato de massacre republicano. In: Anos 90,revista do PPG História da UFRGS. Porto Alegre: editora da Universidade UFRGS, n° 8, p. 61-61, dez. 1997. Disponível em: http://nuevomundo.revues.org/index1513.html, acesso em: 22 deset. 2009.FLORES, Elio Chaves. A consolidação da República: rebeliões de ordem e progresso. In:FERREIRA, Jorge e DELGADO, Lucilia de A.N. (org.). O tempo do liberalismo excludente: daproclamação da República. Revolução de 1930. 3° Ed. Rio de janeiro: Civilização Brasileira,2008.
  19. 19. 19GERMANO, Idilva Maria Pires. Alegorias do Brasil: imagens de brasilidade em “Triste fim dePolicarpo Quaresma e viva o povo brasileiro. São Paulo: Annablume, 2000.HUNT, Lynn. A nova história cultural, 2° Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.JANOTTI, Maria de Lourdes Mônaco. Sociedade e Política na Primeira República. São Paulo:Atual, 1999.SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na PrimeiraRepública. 2ª ed. São Paulo: companhia das letras, 2003._______. Nicolau. O prelúdio republicano, astúcias da ordem e ilusões do progresso. In:NOVAIS, Fernando A. História da Vida Privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letrasm,1998. VERANI, Ana Carolina, O triste fim de Lima Barreto: literatura, loucura e sociedade no Brasilda Belle Époque. Rio de Janeiro, 2003. 110 p. Dissertação de mestrado. PUC _ Rio,Departamento de História. Disponível em: http://www2.dbd.puc-rio.br/pergamum/tesesabertas/0115370_03 pretextual.pedf , acesso em: 08 de set. 2009.

×