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MÔNICA DE OLIVEIRA SOUZA   O LÉXICO DE UM AUTO DE DEFLORAMENTO:TENTATIVA DE RESGATE DA CULTURA DE UM POVO                 ...
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Aos meus pais Julival e Maria José                   Por todo apoio.
AGRADECIMENTOS      As palavras às vezes não são o suficiente para expressar o tamanho dosnossos sentimentos, mas espero a...
RESUMOO presente trabalho tem como objetivo realizar um estudo do léxico de um autode defloramento da cidade de Conceição ...
ABSTRACTThis work aims to conduct a study of the lexicon of a deflowering certificate inConceição do Coité, when it was st...
SUMÁRIOINTRODUÇÃO............................................................................................................
8                                INTRODUÇÃO      O presente trabalho tem como objeto de estudo o Auto de Defloramentode nº...
9culturais, históricos e de vocabulário e como estes podem interferir de maneiradireta na sociedade. Como estes elementos ...
10     1 SOCIEDADE: RELAÇÃO ENTRE CULTURA, HISTÓRIA E LÍNGUA       Este capítulo trata da possível influência que a cultur...
11                        históricos e com o próprio contato entre povos diferentes. (p.1-                        2)      ...
12cultura abriga resquícios de uma transição histórica relevante, além de codificarvárias questões filosóficas e comportar...
13                    A história é a substância da sociedade. A sociedade não                    dispõe de nenhuma substân...
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16casamento, ou mesmo da mulher, e a postura a ser tomada perante asociedade. A autora (2002) cita as personagens das obra...
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18        2 DOCUMENTOS RESGATANDO A HISTÓRIA: UM AUTO DE                       DEFLORAMENTO      O tema abordado neste cap...
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23em um determinado período em Conceição do Coité. Esta Villa que, segundoSilva (2009), hoje é a cidade de Conceição do Co...
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28         3 A LEXICOLOGIA E A TEORIA DOS CAMPOS LEXICAIS      A partir da leitura de um Auto de Defloramento da Villa de ...
29para esse estudo, pois a análise dessas lexias é o que faz se perceber o realsentido do léxico e o que se pretende reali...
30as palavras de modo conceitual que constituem um conjunto estruturado quesão dependentes entre si. Desse modo, a mudança...
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32      Neste convívio social, o ser humano adéqua o que está ao seu redor deacordo às necessidades que possui. É nesse co...
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37                         CONSIDERAÇÕES FINAIS      Como já foi citado neste trabalho, de acordo com Abbade (2006, p.213)...
38culturais, como bem, é através da fala que se pode perceber traços da culturade determinado povo, ou seja, o modo como e...
REFERÊNCIASABBADE, Celina Márcia de Souza. Aplicação prática da Teoria dos CamposLexicais. In: SANTANA NETO, João Antonio ...
EAGLETON, Terry. A ideia de cultura. São Paulo: UNESP, 2005.ELEUTÉRIO Fernando. Análise do conceito de crime. <Disponível ...
SILVA, Nilzete Cruz. O vocabulário de uma escritura de compra e venda deescravos da região sisaleira baiana. In: ABBADE, C...
ANEXOS
O léxico de um auto de defloramento tentativa de resgate da cultura de um povo
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  1. 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA- UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO CAMPUS XIVLETRAS COM HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURAS - LICENCIATURA MÔNICA DE OLIVEIRA SOUZA O LÉXICO DE UM AUTO DE DEFLORAMENTO: TENTATIVA DE RESGATE DA CULTURA DE UM POVO Conceição do Coité 2012
  2. 2. MÔNICA DE OLIVEIRA SOUZA O LÉXICO DE UM AUTO DE DEFLORAMENTO:TENTATIVA DE RESGATE DA CULTURA DE UM POVO Monografia apresentada ao Departamento de Educação, Campus XIV, Curso de Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas – Licenciatura da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), como instrumento da avaliação final do Componente Curricular Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) para obtenção do grau de Licenciada. Orientadora: Profa. Dra. Celina Márcia de Souza Abbade Conceição do Coité 2012
  3. 3. Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma Tem mil faces secretas sob a face neutra. CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
  4. 4. Aos meus pais Julival e Maria José Por todo apoio.
  5. 5. AGRADECIMENTOS As palavras às vezes não são o suficiente para expressar o tamanho dosnossos sentimentos, mas espero através delas conseguir demonstrar o mínimopossível de gratidão a algumas pessoas que sempre foram e outras que estãosendo muito importantes em minha caminhada em busca de conhecimento. Em primeiro lugar agradeço a Deus autor e doador da vida. Depois aosmeus muito amados pais Julival e Maria José, obrigada pelo carinho, apoio,paciência, conselhos e investimentos, sem os quais não teria chegado até aqui.Juntamente com eles meus queridos irmãos Jean, Mirian e Maely. Aos meus queridos professores que desde o começo da minha jornadaescolar estiveram comigo e àqueles que tive o prazer de conhecer na UNEB,em especial a Dra. Celina Abbade minha orientadora neste trabalho pelo tempoe paciência a mim dedicados. Meus sinceros agradecimentos a todos os meus amigos que sempreestiveram ao meu lado, mas em especial a: Sandra Kelly, Rosenice, Rosana eEliane. Enfim agradeço a todos que direta ou indiretamente contribuíram dealguma forma nesta jornada importantíssima de minha vida.
  6. 6. RESUMOO presente trabalho tem como objetivo realizar um estudo do léxico de um autode defloramento da cidade de Conceição do Coité, quando esta ainda eraapenas uma Vila. Esse estudo aborda a influência que a língua recebe do meioextralinguístico, dando nova significação às palavras a partir do contexto aoqual estão inseridas. Nestes termos surge a cultura com forte influência nalinguagem cotidiana das pessoas que vivem em uma determinada comunidade.Para a realização deste estudo levantou-se um campo lexical específico, asaber, o campo lexical dos qualificadores dos envolvidos no processo dedefloramento. A partir desta abordagem, levantou-se as lexias presentes notexto para a designação das pessoas diretamente envolvidas no processo dedefloramento, ou seja, o réu, a vítima, o pai e a mãe da vítima. O trabalhomostra também que fatores Socioculturais tendem a colocar a mulher emposição inferior ao homem e isso pode ser percebido através das lexias usadasno documento, para se referir a cada um dos envolvidos no processo.Palavras - chave: Defloramento. Cultura. Léxico.
  7. 7. ABSTRACTThis work aims to conduct a study of the lexicon of a deflowering certificate inConceição do Coité, when it was still a village. This study approach theinfluence that the language gets through the extra linguistic, giving newmeaning to the words from the context to which are inserted, in these termsthere is a strong influence of the culture about people‟s daily language who livein a community. To realize this study it was raised a specific lexical area,namely, the lexical area of the qualifiers of the involved in the deflorationprocess. From this lifting, emerged the lifting of the lexical terms inserted in thetext for people‟s designation directly involved in the defloration process, i.e., thedefendant, the victim, and victim‟s parents. The work also shows that socio-cultural factors tend to put the woman in an inferior position in relationship toman and it can be perceived through the lexical terms that were used in thedocument to refer everyone involved in the process.Key – words: deflowering. Culture. Lexicon.
  8. 8. SUMÁRIOINTRODUÇÃO...............................................................................................................081 SOCIEDADE: RELAÇÃO ENTRE CULTURA, HISTÓRIA E LÍNGUA........................101.1 Vocabulário e sociedade..........................................................................................101.2 Os papéis homem versus mulher na sociedade: relações de poder.......................142 DOCUMENTOS RESGATANDO A HISTÓRIA: UM AUTO DE DEFLORAMENTO......................................................................................................................182.1 A contribuição da preservação de documentos.......................................................182.2 Documentos jurídicos: Processos da Vara crime....................................................212.3 O Auto de Defloramento de nº 40............................................................................233 A LEXICOLOGIA E A TEORIA DOS CAMPOS LEXICAIS........................................283.1 O Léxico e suas ciências.........................................................................................283.2 A teoria dos Campos lexicais...................................................................................294 O CAMPO LEXICAL DOS QUALIFICADORES DOS ENVOLVIDOS NO PROCESSO DE DEFLORAMENTO..................................................................................................33CONSIDERAÇÕES FINAIS...........................................................................................37REFERÊNCIASANEXOS
  9. 9. 8 INTRODUÇÃO O presente trabalho tem como objeto de estudo o Auto de Defloramentode nº 40, datado de 1917, que aconteceu na Villa de Conceição do Coité,situada no sertão baiano, distante duzentos e dez quilômetros da capitalbaiana, Salvador. O trabalho tem caráter lexical, ao dar ênfase à relação existente entrelíngua, cultura e a história, que influencia uma sociedade, sendo que estes trêsfatores são dependentes entre si na construção dos sentidos, através da váriaspossibilidades que o léxico proporciona aos falantes de uma dada língua. O objetivo maior deste estudo é analisar o léxico de um Auto dedefloramento do século XX, em busca de resgatar algumas marcas históricas eculturais do povo coiteense do século referido. Para isso, foi feito umlevantamento do campo lexical dos qualificadores das pessoas envolvidas noprocesso e após, fez-se o levantamento das lexias do campo lexical dosqualificadores dos envolvidos no processo de defloramento, observando-setraços culturais para descrever o perfil destas pessoas. Após ter sido feito o levantamento das lexias concernentes ao campolexical mencionado, inicia-se o procedimento de definir cada uma das lexiasencontradas de acordo o contexto sugerido pelo texto analisado, ou seja, deacordo com o contexto, com o perfil social e talvez até econômico do grupo queutilizou essas lexias. Esta é a proposta do estudo do léxico, ou seja, nãoapenas significados isolados, mas o sentido que uma palavra pode adquirir adepender de quem a utiliza e em que momento a utiliza. Isto porque alinguagem recebe influência direta do meio social em que é usada. A Monografia está estruturada em quatro capítulos que tratam dacomposição do documento e de algumas marcas culturais impregnadas efacilmente percebidas através da maneira como este foi redigido. O primeiro capítulo deste trabalho mostra o documento manuscrito emsua estrutura física, quanto ao número de fólios e um breve relato do processoentre outros. O segundo capítulo trata da relação existente entre elementos
  10. 10. 9culturais, históricos e de vocabulário e como estes podem interferir de maneiradireta na sociedade. Como estes elementos podem de algum modo revelarcostumes presentes no cotidiano das comunidades, neste caso da sociedadecoiteense do século XX. Através do estudo do manuscrito em questão, nota-seque algumas dessas marcas ficam expostas na redação deste documento. Oterceiro capítulo trabalha com os aspectos referentes a Lexicologia e a Teoriados Campos Lexicais, já que no quarto capítulo do trabalho se faz necessário acompreensão destes termos para que se entenda melhor este queprovavelmente é o que mais se relaciona à cultura da comunidade já citada,ou seja, o campo lexical dos qualificadores das pessoas que estão inseridasneste processo. Teremos então as definições de cada uma das lexiasempregadas para qualificar estes envolvidos.
  11. 11. 10 1 SOCIEDADE: RELAÇÃO ENTRE CULTURA, HISTÓRIA E LÍNGUA Este capítulo trata da possível influência que a cultura e a história podemexercer sobre a língua. Outro fato abordado no mesmo é a relação de poderque foi estabelecida entre homem e mulher na sociedade que ocorre demaneira vertical. Neste encontra-se ainda a definição de alguns termosfundamentais para este estudo, no sentido de situar o leitor na temática dapesquisa realizada.1.1 Vocabulário e sociedade As palavras podem exercer em determinados meios sociais sentidosdiversos e, segundo Bordonal (2009)1, para o estudo de qualquer assunto émuito importante que antes se faça a definição dos mesmos. Tendo em vistaesta premissa serão definidos alguns termos utilizados neste trabalho. Paratanto, se utilizará a definição do citado autor para povo. A palavra “povo” é derivada do latim, populus. A definição mais simples que se tem desse conceito é a de que “povo” é uma união de alguns indivíduos que compartilham entre si alguns símbolos, práticas e crenças, formando, neste grupo, um sentimento de unidade, de identidade. No entanto, esse sentimento compartilhado não gera barreiras rígidas e fixas; pode sofrer transformações de acordo com os períodos1 Guilherme Cantieri Bordonal é Graduado em História pela Universidade Estadual de Londrina,especialização em História e Teoria da Arte e Mestre em História Social pela UniversidadeEstadual de Londrina. Atualmente é Professor de ensino superior da Universidade do Norte doParaná.
  12. 12. 11 históricos e com o próprio contato entre povos diferentes. (p.1- 2) Bordonal (2009) apresenta outras definições para o termo “povo”, mas aque melhor expressa o sentido para esse trabalho é a definição acima. Ou seja,a que se refere a um grupo de pessoas que convivem e partilham diariamenteas mesmas coisas, recebem a mesma educação e compartilham a mesmacultura. Nesta perspectiva, as particularidades dos indivíduos são suprimidas,visto que neste aspecto é impossível levar em conta as individualidades decada ser que compõem uma dada sociedade. Então, se analisa os aspectoscomuns que são compartilhados por todos os indivíduos de um determinadogrupo. Para o referido autor isso possibilita a prática historiográfica. Tylon (apud LARAIA, 2002, p.24) define cultura da seguinte forma: [...] no vocábulo inglês culture, que tomado em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade. Assim, o sujeito é capaz de reproduzir seus hábitos e costumes numasociedade, tendo visão e atitude capaz de mudar e gerar conhecimentos. Laraia (2002)2 prossegue falando a respeito de cultura e ressalta que amesma “condiciona a visão de mundo do homem”, ele cita Ruth Benedict “queassegura que a cultura é como uma lente através da qual o homem vê omundo. Homens de culturas diferentes usam lentes diversas e, portanto, têmvisões desencontradas das coisas”. Terry Eagleton (2005, p. 11)3 fala que o conceito original de cultura“significa lavoura, cultivo agrícola [...] que sugere tanto regulação comocrescimento espontâneo”. Partindo desse pressuposto, percebe-se que essecrescimento é denotado pelas mudanças que ocorrem nas diversas sociedadese que estas são diferentes umas das outras. O autor (2005) afirma que o termo2 Roque de Barros Laraia é antropólogo bacharelado em História pela UFMG, Ph. D. emSociologia pela USP e professor emérito da Universidade de Brasília-UNB.3 Terry Eagleton é um Filosofo crítico integra estudos culturais com a teoria literária maistradicional.
  13. 13. 12cultura abriga resquícios de uma transição histórica relevante, além de codificarvárias questões filosóficas e comportar ainda, uma série de outras questõescomo liberdade, determinismo, mudança, identidade, dentre outros. Eliot (1948, p.12 apud EAGLETON 2005) fala que existe uma constanteoscilação do conceito de cultura e classifica a mesma como algo que “antes detudo, o que os antropólogos entendem: o modo de vida de um determinadopovo vivendo junto em certo lugar” (p.159). E é com base neste conceito quese busca descobrir a relação que existe entre o modo de vida e o vocabulárioutilizado por um povo. Sofreria então o vocabulário a influência do modo devida adotado pelo povo? Diante de tudo que já foi exposto, fica a necessidade de um estudoaprofundado acerca dessa possível relação entre a cultura, a história e ovocabulário. O vocabulário, diz respeito à variação que ocorre na língua deacordo com o contexto ao qual é utilizada. Como diz Abbade (2006, p. 213) 4,“a linguagem é entendida como uma atividade social, intersubjetiva e históricado homem”. Significa, portanto, um instrumento de cultura que veicularepresentações, concepções e valores socioculturais, lembrando que a língua éum sistema que sofre variações dentro de uma determinada localidade, emuma perspectiva de contextualizá-la em uma dada região através dos fatoressociais e culturais de um indivíduo, já que desde o nascimento, o sujeito entraem contato com a cultura, marcando sua identidade. “A língua, a história e acultura do ser humano, caminham juntas” (ABBADE, 2006, p. 214.), e paraconhecer esses aspectos, faz-se necessário interligá-los uns aos outros.Portanto, “o estudo da língua de um povo, é consequentemente, um mergulhona história e cultura desse povo”. Segundo Abbade (2006, p. 213) "[...] estudaro Léxico de uma língua é estudar também a História do povo que a fala”. A história por sua vez é uma ciência que estuda fatos ocorridos nopassado referente ao homem e à sua vida. Heller (1970, p.07)5 diz que4 Celina Márcia de Souza Abbade é professora titular da Universidade do Estado da Bahia,atua no Programa de Pós-Graduação em Língua e Linguagens e no Campus XIV; também éprofessora do Instituto de Letras da Universidade Católica do Salvador. Doutora e Mestre emLetras pela UFBA.5 Agnes Heller é pesquisadora do Instituto Sociológico de Budapeste e faz parte do conselhode redação da revista Praxis.
  14. 14. 13 A história é a substância da sociedade. A sociedade não dispõe de nenhuma substância além do homem, pois os homens são os portadores da objetividade social, cabendo-lhes exclusivamente a construção e transmissão de cada estrutura social. [...] a história é, entre outras coisas, história da explicação da essência humana, mas sem identificar-se com esse processo. A substância não contém apenas o essencial, mas também a continuidade de toda a heterogênea estrutura social, a continuidade dos valores. Por conseguinte, a substância da sociedade só pode ser a própria história. (p. 07) A história é, portanto, algo que não pode ser deixado de lado ao se fazerum estudo acerca do homem e das atividades por ele realizadas. Um dosprincipais objetivos desta ciência é resgatar aspectos culturais de umdeterminado povo ou região na tentativa de entender o momento presenteatravés de estudos do passado. Neste contexto, a história aparece como algo próprio do ser humano,fazendo parte de sua origem até o fim de sua vida, ou seja, as pessoas tendema adotar os costumes dos antepassados. Isso acontece sem grandes esforços,pois já ao nascer, o indivíduo é inserido em uma determinada cultura, a partirdeste momento adota os valores sociais e morais. Isto, mesmo que de modoinconsciente lhe acompanhará durante a vida em doses maiores ou menores adepender do meio que passará a frequentar ao longo da vida. Mas, mesmo quemude em alguns aspectos ou atitudes, irá trazer marcas que denotam ahistória, tanto de sua vida pessoal quanto do modo de vida em comum comdeterminado grupo de pessoas. Relacionando história e estudo do léxico da língua de um grupo énecessário também estudar muitos aspectos. Sendo assim, Examinar o léxico de uma língua é enveredar pela história, costumes, hábitos e cultura de um povo, partindo-se de suas lexias. É mergulhar na vida da população em um determinado período da história, através do seu léxico. (ABBADE, 2006, p.213).
  15. 15. 14 Diante disso, pensa-se acerca do que fala Xavier (2011, p. 96)6, quandoa autora esclarece que “Existem tipos diferentes de léxico de acordo com asituação social, idade e instrução de cada falante.” A autora ainda acrescentaque “o léxico é um processo contínuo de aquisição através de vocabulário ativo(de uso) e passivo (de compreensão)”. De acordo com essa afirmativa é muito provável que fatores culturais,sociais e históricos influenciem na maneira de falar da população. Dessa formao vocabulário é influenciado diretamente por alguns fatores como o local deorigem dos falantes, a classe socioeconômica, a idade, a escolaridade, entreoutros.1.2 Os papéis homem versus mulher na sociedade: relações de poder Desde o surgimento da humanidade, os indivíduos estabelecerampapéis diferentes para homens e mulheres. A sociedade foi organizada emgrupos e, nestes, nota-se que ocorreram atribuições diferentes para cadagênero, no qual foram impostos modelos de comportamentos para cada um deforma hierárquica. Na análise do texto de base percebe-se, como afirma Jesus (2010,p.397)7, que “O defloramento é visto como humilhação da mulher”. Diantedesta premissa, faz-se necessário refletir sobre algumas questões que marcamfortemente a imagem da mulher em uma sociedade machista, como porexemplo: a mulher só seria considerada uma pessoa honrada se controlasseos desejos, fossem eles de qualquer natureza. Em oposição, o homem deveriaexpor suas conquistas, principalmente as amorosas para firmar-se como tal.Diante disso, quais critérios a sociedade utiliza para estabelecer os padrões deconduta para cada gênero? E quem está por trás ou idealizou tais padrões? Assim, afirma a autora (2010):6 Vanessa Regina Duarte Xavier é Doutoranda em Filologia e Língua Portuguesa pelaUniversidade de São Paulo7 Ivanete Martins de Jesus é bolsista do PROBIC, Graduada em Letras Vernáculas,Universidade Estadual de Feira de Santana.
  16. 16. 15 Foi possível verificar que havia uma política moralizante no final do século XIX e início do século XX, através do controle sexual da mulher. Esta deveria conter sua libido a fim de obter uma conduta moral perante a sociedade e, para a preservação do caráter feminino era necessário resistir às investidas masculinas até o casamento. E quando ocorria o fato de alguma mulher ser desvirginada e levar o caso à resolução da justiça, aquela deveria manter um discurso convincente de que era honesta e fora vítima do poder masculino por força ou pela arte da sedução. A mulher depois de seduzida, desvirginada e abandonada pelo homem passava por grandes constrangimentos ao passar pela pericia médica, a fim de comprovar o rompimento ou não da membrana hímen. (p.397) Segundo Bauer (2001, p.111)8 “a história da mulher no Brasil éinseparável da própria história social, econômica política e cultural brasileira”.Sabe-se que a mulher tem papel importantíssimo na sociedade e sempredesempenhou funções vitais para a continuidade da espécie humana. Porém, olugar que ocupa na sociedade às vezes não é reconhecido com a importânciaque tem e em algumas ocasiões só é vista como um ser que foi criado com afunção de satisfazer os caprichos masculinos e realizar lhe os desejos maisprofundos. De acordo com Alves (2002)9 a imagem feminina que foi construída,serve como modelo para controlar o comportamento da mulher que deve seinserir no espaço doméstico e, a autora trás algumas descrições de mulher,sendo que a primeira trata da mulher virgem pura e a mãe de família, emseguida fala sobre a mulher livre como a prostituta, a livre pensadora que nãoserve para assumir papel diante da família, por ser esta o núcleo fundamentalda sociedade. Sendo assim estas mulheres imediatamente são lançadas àmargem da sociedade, visto que não possuem o perfil adequado para talposição. Em um passeio pela literatura brasileira, percebe-se claramente aimagem da mulher destinada ao lar, pois os romances brasileiros são escritosde modo que mostram como foi construída a imagem da virgem destinada ao8 Carlos Bauer é Graduado em Licenciatura e Bacharelado em História pela PontifíciaUniversidade Católica de São Paulo.9 Ivia Alves é Professora e pesquisadora do Instituto de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguísticas da UFBA.
  17. 17. 16casamento, ou mesmo da mulher, e a postura a ser tomada perante asociedade. A autora (2002) cita as personagens das obras Diva, Senhora, Amoreninha, e A escrava Isaura. Miguel-Pereira (1950, p. 54, apud ALVES 2002, p.86), declara que A honra feminina consistindo na virgindade das mulheres solteiras e na fidelidade das mulheres casadas, constituía um dos assuntos preferidos dos romances do final do século passado e início da década de 20. Talvez se explique em parte essa predileção pelos casos amorosos bem como a maneira reservada de os tratar, pela convicção em que estavam os escritores de escrever principalmente para mulheres, num tempo em que a educação visava mantê-las em permanente menoridade social e moral. A sociedade burguesa capitalista construiu um modelo para a mulheramparado pelas práticas e organizações institucionais. Modelo esse quedelimita o campo de ação das mulheres, tornando-as objetos manipuláveis. Deacordo com Alves (2002): a sociedade está subdividida e essas subdivisõessão mantidas sob a ótica de práticas que se multiplicam constantemente, dessaforma alimentam, ou seja, fazem crescer e se propagar ainda mais essas ideiasbaseadas em ideologias mascaradas. Alves (2002) afirma que essas divisõesocorrem da seguinte maneira: Primeiro, pela organização desta sociedade através da divisão sexual do trabalho, delimitando o espaço de atuação do homem e da mulher; segundo, estabelecida a forma de participação através de papeis, os modelos passaram a ser perpetuados pelas instituições que sustentam e alimentam as práticas sociais desta sociedade (p. 87). A sociedade limitou os horizontes femininos e criou um padrão para seradotado e seguido sem questionamentos. A ideia que se formou foi a de que amulher é um ser inferior que deve seguir regras constantemente. A quebra dequalquer uma dessas regras implica em “manchas” em sua conduta moral,fazendo com que os olhares se voltem para a mesma de forma discriminada.Isso consequentemente trará efeitos trágicos para uma imagem que foifragilmente construída, pode ser citado aqui o exemplo de um cristal que deve
  18. 18. 17ser cuidadosamente manuseado, caso contrário se parte em inúmerospedaços. As questões que surgem em relação à imagem feminina na leitura destedocumento, induzem a crer que existe um tipo de ideologia propagada atravésda língua em uso por determinado grupo social, ou seja, existem gruposmanipuladores e manipulados. Neste caso o grupo manipulador é a sociedadeque cria regras para moldar o comportamento feminino. Diante disso percebe-se, que as posições sociais são estabelecidas através da cultura, elementoindispensável em qualquer comunidade humana. A história por sua vez seencarrega de repassar esses costumes culturais para as gerações futuras.Com isso as tradições, sejam elas boas ou ruins são repassadas ao longo dosanos. Estes resquícios que são repassados de uma geração para outra fazcom se torne quase impossível se retirar as marcas prejudiciais que seestabelecem com o decorrer dos anos. Sendo assim, a sociedade bloqueia osindivíduos que por motivos diversos considera sem prestígio social.
  19. 19. 18 2 DOCUMENTOS RESGATANDO A HISTÓRIA: UM AUTO DE DEFLORAMENTO O tema abordado neste capítulo é a importância de conservardocumentos manuscritos de séculos passados, pois estes são fontesinestimáveis de conhecimento. Isso pelo fato de que mantêm sempre viva amemória e a identidade de qualquer povo. Além de trazem outras informaçõesque podem ser indispensáveis para estudos. Este capítulo apresenta ainda demodo resumido o documento em estudo para que se conheça o processo demodo geral.2.1 A contribuição da preservação de documentos O texto que serve como base para este trabalho é um documentomanuscrito, diante dessa afirmativa é oportuno dizer que é um material rico,uma fonte de conhecimento. Queiroz (2007) assim define documento: A palavra documento deriva do latim documentum, derivado por sua vez do latim docere, que significa „ensinar‟. Com a evolução adquiriu o significado „prova‟, muito usado no vocabulário legislativo. O documento afirma-se essencialmente como um testemunho escrito. Deve-se extrair tudo o que ele contém e lhe acrescentar nada. (p. 26) Para este estudo realizou-se o levantamento do campo lexical dosqualificadores dos envolvidos no processo de defloramento, seguido dadefinição das lexias, remetendo ao texto de base a partir dos exemplosencontrados. O vocabulário é extenso, assim, fez-se apenas o levantamento deum dos campos lexicais. A partir desse campo delimitado, chega-se aopropósito de relacionar as lexias com o contexto histórico do povo coiteense do
  20. 20. 19século XX. Nisto, ressalta-se uma possível ligação das característicasreferentes aos participantes do processo com a situação da realidadeextralinguística, organizadas lexicalmente entre as expressões e seussignificados. De acordo com Silva (2009) 10: Estudar o léxico de documentos históricos é também compreender toda a dinâmica social e cultural de uma comunidade em um tempo passado e descobrir suas referências, seus símbolos e signos linguísticos que são próprios daquele momento histórico. É também preservar esses documentos da ação do tempo, em benefício da memória, da cultura e da história dessa mesma comunidade. Esses documentos apresentam-se como um material importante para um estudo lexicológico, partindo-se do pressuposto de que eles reservam fatos que delineiam o perfil sociocultural daquele grupo social (p.150). A proposta aqui é de fazer uma análise estrutural do texto de base dopresente trabalho, ou seja, um Auto de Defloramento do século XX, maisprecisamente do ano 1917. Assim como, a importância de se preservardocumentos como este, por ser o mesmo um elemento de fundamentalimportância para o conhecimento de outras culturas. Vale salientar, que aleitura de materiais como este denota marcas da forte influência da cultura quepodem ser facilmente percebidas na leitura do mesmo. A partir de um olharmais atento percebe-se que estes manuscritos são ricas fontes de informações. A escrita é algo muito importante e registrar fatos ocorridos nas maisvariadas culturas, é um hábito que ocorre desde os costumes mais primitivosaté os dias atuais, portanto se percebe que esta é uma prática muito antiga doser humano. Isto ocorre no intuito de tornar conhecidos os feitos de umadeterminada comunidade para outras gerações. Um dos meios possíveis de conhecer uma cultura anterior é o estudo detextos antigos, o que possibilita ao estudioso o conhecimento de práticas,costumes e tradições, dentre muitos outros fatores culturais e sociais de umadada comunidade em um momento específico. A partir desses estudos põe-se10 Nilzete Cruz Silva é professora assistente da UNEB com doutorado em andamento emDINTER PUCRS/UNEB Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, PUCRS, Brasilem 2010.
  21. 21. 20em evidência uma determinada cultura, o que ajudará as gerações presentes efuturas, a conhecerem o passado de seus antecessores e, a partir disso,compreenderem suas origens. Qual a importância de se preservar esse tipo de documentos? Aresposta é bem simples, o interesse pela preservação de documentosmanuscritos tem sido cada vez maior, tendo em vista que, além da suapreservação material, mantém viva a tradição de um povo. É muito importanteque se resgate e preserve os documentos manuscritos, pois eles contêm umaparte da história de um determinado povo. Queiroz (2006)11, em um estudo demanuscritos de cidades do recôncavo e do sertão da Bahia dos séculos XVIIIao XX, fala que É inegável a contribuição desses manuscritos dos séculos XVIII ao XX para a compreensão da evolução da língua portuguesa, pois eles representam parte da realidade linguística da época em que foram escritos, revelando elementos arcaicos e populares, vacilações ortográficas, ultracorreções etc.; assim como de uma parcela significativa da história da Bahia [...] (p.42). Ainda segundo a mesma autora, uma civilização não se desfaz de seusvalores, mas vai preservando fatos do passado que são resgatados atravésdestes documentos históricos que são patrimônio cultural. Magalhães (1985apud QUEIROZ, 2006, p.42), diz que “coisas do passado, podem, de repente,tornarem se altamente significativas para o presente e estimulante do futuro”. É necessário ressaltar que a recuperação e/ou preservação dedocumentos que se encontram esquecidos em acervos públicos é de sumaimportância e segundo Queiroz (2007), esta atividade é praticada há muitotempo pelo menos desde a Grécia na Antiga Biblioteca de Alexandria. É esteum trabalho de valor inestimável em diversas áreas do conhecimento, aosquais dentre essas áreas cita-se a Filologia.11 Rita de Cássia Ribeiro de Queiroz é Doutora em Filologia e Língua Portuguesa. ProfessoraOrientadora do Departamento de Letras e Artes da Universidade Estadual de Feira de Santana.
  22. 22. 21 A Filologia é definida pelo professor Pereira (2009)12, como a ciência queestuda as “sociedades e civilizações antigas através de documentos e textos”que foram por elas produzidos e deixados para os seus sucessores sendo quea língua escrita nestes termos é tida “como fonte de estudos”, e a partir do qualse faz um estudo minucioso de documentos antigos e de sua expedição, a fimde “estabelecer, interpretar e editar esses textos”. Pode também serconsiderada como o estudo de uma língua através de pesquisas da históriamorfológica e fonológica da mesma realizada em documentos, bem comoatravés da crítica textual, que por sua vez consiste em um trabalho de reediçãode textos antigos com o intuito de preservar a fidedignidade aos documentosoriginais o máximo possível. O propósito de estudo filológico é chegar o maispróximo das ideias que o autor do texto, pretendia expressar, seja qual for essetexto. Portanto preservar documentos antigos contribuem em diversos estudospara preservar a memória cultural e histórica das comunidades. Tendo em vistaque são patrimônio devem ser bem guardados e protegidos a fim de se evitar aperda de algo que é extremamente valoroso.2.2 Documentos jurídicos: processos da vara crime Quanto aos processos das diversas áreas, Queiroz (2007) fala dearquivos que guardam alguns tipos de documento e discute sobre aclassificação dos mesmos, pois esses documentos se encontram guardados deacordo com a categoria a que pertencem, sendo que as áreas estão divididaspor tipos que são: eclesiástico, cível, crime. Sendo assim “[...] nos arquivos públicos brasileiros os documentos são classificados por períodos históricos (colonial, imperial e republicano) e conforme as origens (executivo, judiciário, fazendário e militar), com subdivisões como ministérios ou12 José Pereira é graduado em Letras Português e Literatura pela Faculdade de HumanidadesPedro II Mestrado em Linguística e Filologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, édoutor em Linguística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
  23. 23. 22 secretarias no executivo, cível, crime e outros juizados, no judiciário [...] (p.16). Ainda segundo Queiroz (2007), o trabalho com a escrita possibilita àhumanidade armazenar e conhecer a história, estando esta, “repleta deemoções, intrigas, pensamentos, feitos heroicos, descobrimentos, conquistas[...]” (p.23). Portanto seria ela (a escrita) um meio de “representar a própriamemória do homem”. Já que o processo em estudo neste trabalho pertence à vara crime éimportante atentar para a definição de crime dada por Eleutério (2009, p.01)13 Além de um fenômeno social, o crime é na realidade, um episódio na vida de um indivíduo. Não podendo, portanto, ser dele destacado e isolado, nem mesmo ser estudado em laboratório ou reproduzido. Não se apresenta no mundo do dia- a-dia como apenas um conceito, único, imutável, estático no tempo e no espaço. Ou seja: "cada crime tem a sua história, a sua individualidade; não há dois que possam ser reputados perfeitamente iguais." Evidentemente, cada conduta criminosa faz nascer para as vítimas, resultados que jamais serão esquecidos, pois delimitou-se no espaço a marca de uma agressão, seja ela de que tipo for (moral; patrimonial; física; etc...). A partir dessa definição de crime apresentada pelo autor(2009), inicia-sea análise deste delito como sendo uma agressão moral no qual o presentetrabalho baseia-se no relato que se encontra em um Auto de Defloramento noProcesso de nº 40, caixa 76, seção judiciária, série crime da Villa de Conceiçãodo Coité. Este documento manuscrito atualmente está sob a guarda do Acervode Documentos da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) no Departamentode Educação do Campus XIV, situado na Avenida Luís Eduardo Magalhães,988, Bairro Jaqueira, no município de Conceição do Coité- BA. O referido Acervo possui vários documentos jurídicos cíveis do FórumDurval da Silva Pinto que foram entregues pela Justiça local ao Departamentode Educação citado com o intuito de que estes documentos manuscritos sejampreservados e estudados e assim conhecida a história de povos que viveram13 Fernando Eleutério é assessor de planejamento da Prefeitura de Municipal de Bela Vista deGoiás, Fiscal Estadual Agropecuário e na Agrodefesa, graduado pela Universidade Estadual doCentro-Oeste.
  24. 24. 23em um determinado período em Conceição do Coité. Esta Villa que, segundoSilva (2009), hoje é a cidade de Conceição do Coité, emancipada há poucomais de setenta anos, localiza-se no Norte do Estado baiano, maisprecisamente na região conhecida como Região Sisaleira. Situada a duzentose dez quilômetros da capital baiana com uma média aproximada de sessentamil habitantes.2.3 O Auto de defloramento de Nº 40 Como o documento em análise trata-se de um auto de defloramento éoportuna à definição do termo auto. Este se trata de um texto escrito eautenticado, seja ele de qualquer ato, sendo assim as partes do conjunto deum processo que vão a júri no tribunal. Os autos de defloramento contêm uma gama de informações, quepodem ser utilizadas por pesquisadores de diversas áreas do conhecimento. Oestudo dos autos de defloramento faz com se enverede por caminhos sociais,culturais e históricos, que são trazidos ao conhecimento das pessoas por meioda memória. O Auto de Defloramento em questão teve início em 13 de maio de 1917e finalizou em 12 de novembro de 1918. Foi redigido pelo Adjunto do PromotorPúblico da Villa de Conceição do Coité o Sr. Augusto Antônio de Oliveira. O processo geral consta de 124 (cento e vinte quatro) fólios escritos norecto e no verso. Com isto, faz-se necessário definir alguns termos que sãoutilizados nesta análise e para isso Spaggiari e Peruzi (2004)14, podem sercitados, pois estes autores explicam que para a Codicologia, (disciplina queestuda os manuscritos) existe uma terminologia apropriada para o estudo demanuscritos antigos.14 Barbara Spaggiari e Maurizio Peruzi, dois dos mais representativos discípulos da escolaitaliana de crítica textual, são conhecidos internacionalmente pelas edições críticas e ensaiossobre textos que vão do medieval ao moderno.
  25. 25. 24 Para exemplificarmos, entre os termos próprios da codicologia, derivantes na sua maioria do grego e do latim, figuram manuscritos „qualquer texto escrito à mão‟, [...] folha ou „fólio‟‟ cada uma das páginas de um ms.‟, „recto‟ „parte anterior da folha, ou página ímpar‟ e „verso‟ „parte posterior da folha, ou página par‟[...] (p.16). Feitos esses esclarecimentos faz-se necessário dizer que a primeiraparte do texto de base trata-se de uma denúncia do fato ocorrido, feita pelo paida vítima à delegacia de policia da Villa de Conceição do Coité e o adjunto dopromotor por sua vez faz um relato dirigido ao juiz da comarca local já citada.Apenas esta primeira parte será estudada neste trabalho devido à extensão domesmo e de sua temática, pois, para se realizar um estudo de todo odocumento seriam necessários muitos anos, visto que o mesmo muito amplo. No relato do processo, ocorre a exposição dos fatos com a apresentaçãodos nomes dos envolvidos no processo. Inicia-se pelo réu Cosmo Bertholino daSilva, acusado de deflorar a vítima Deolina Maria de Jesus com quinze anos deidade, que, segundo o escritor do documento, não tinha condições nenhuma dese defender. O réu já é considerado culpado por outro crime que é rapidamentecitado no processo em questão, supõe-se que seja como um meio deevidenciar ainda mais a culpa do mesmo. Além da vítima e do réu, aparecem opai da vítima, o Sr. Antônio Avelino dos Santos e a mãe da vítima cujo nomenão foi revelado nesta primeira parte, só posteriormente, sendo denominadacomo a Sr.ª Hictalina Maria de Jesus. Existem também várias testemunhasarroladas para prestarem depoimento acerca deste defloramento, mas tambémnão são referidas na primeira parte do processo. Diante da análise deste Auto de Defloramento, faz-se necessário pensaracerca do que fala Mattos e Silva (1996): que existem algumas tipologias dedocumentação, que podem ser considerados como um representante daHistória e da língua de um povo, como os documentos jurídicos, escritosantigos do Latim até serem escritos para o português, que perpassam umainvestigação nos dias atuais da língua que era falada em outro período. [...] esses textos [...] são significativos e informativos para a história da língua porque trazem a data em que foram exarados, além de serem localizados ou de poderem ser
  26. 26. 25 localizados com certa precisão. Em segundo dado é importante para aproximação ao conhecimento da provável variação dialetal existente no período arcaico (p. 34). Na análise deste documento surgem muitas questões que merecemdestaque e, entre elas, pensa-se na figura feminina e na vida social e moral,pois com o momento histórico do início do século XX, em que a mulher aindaera submetida a julgamentos morais, tendo que se manter “pura e honrada”para ser bem vista pela sociedade, qualquer irregularidade levaria até mesmo aprocessos, como o caso em análise, na qual a vítima fora deflorada. Lima-Hernandes (2005, p.134) fala sobre o papel feminino na sociedade no qual amulher, deveria ser dona de casa “predestinadas à marca „do Lar‟, com asimples função de pilotar o fogão”. Segundo Lima-Hernandes (2005), nota-seque poderia ocorrer também o inverso do processo em estudo, pois o maridopoderia pedir anulação do matrimônio caso tivesse dúvida após o casamentode que a esposa não fosse mais virgem, como cita a autora: “Também muitocomum foi à anulação de casamentos calcada numa suposta não virgindade”.A autora ainda mostra que este fato era amparado pela lei e era um direito domarido. A autora chega a citar o Artigo 178 do Código Civil Brasileiro. Abaixo se encontra um trecho do Auto de Defloramento em estudo: (fólio 1r, l. 20 - 24).15 O trecho em destaque evidencia uma intenção por parte do redator doAuto, para que seus possíveis leitores tomem partido em favor de uma daspartes.15 Fólio: folha ou „fólio‟‟ cada uma das páginas de um manuscrito. Quanto às siglas utilizadasreferem-se a (r) recto, ou parte anterior da folha; (l) linha, a linha do documento em que seencontra a citação referida
  27. 27. 26 Como se pode perceber, as qualificações dos envolvidos no processopossibilitam uma análise do campo em que essas palavras se referem. Sendoassim, nota-se que as palavras ganham sentidos a partir do momento em quedeterminam a estrutura de todo o corpo do texto de base. De acordo com o quefoi exposto é pertinente citar Abbade (2009, p.38), que diz: "as palavras queocupam determinado campo e estão individualmente determinando seussignificados pelo número e pela situação", ou seja, as palavras ganhamsignificado de acordo com o contexto lexical em que estão inseridas. Notrabalho com esse Auto se pretende analisar os significados de cada lexiautilizada para qualificar os envolvidos no processo aqui referido. A leitura do manuscrito possibilita o contato com os costumes sociais depessoas que viveram no interior da Bahia no século XX. E isso faz com que seperceba que é realmente importante atribuir um cuidado especial para essesdocumentos quebrando os estereótipos que se referem a estes como velhos esem utilidade alguma. A partir da leitura do texto de base, nota-se que o povo coiteense doséculo em questão (como a maioria da sociedade daquela época, e, emalguns, casos até hoje) vê no defloramento um fator de desprestígio e/ouhumilhação moral, no qual a mulher deflorada perde o seu valor perante asociedade. Pensa-se que seja sem exagero fazer essa afirmativa. Um fator queinduz a este pensamento é a preocupação do pai da vítima levar o caso àjustiça em busca de solução para o mesmo. E a preocupação do relator doprocesso na busca pelas palavras “certas” que pudessem convencer a quemestivesse lendo o processo, para atribuir toda a culpa ao réu e inocência àvítima.
  28. 28. 27(fólio 2 v,16 l. 28 - 31.) A mulher deflorada, neste caso Deolina Maria, não é ofendida sozinha,mas traz vergonha, tristeza e dor também aos pais e precisava casar-se com oautor de sua desonra, a fim de „reparar os danos‟ que ele causara para a vítimae para a família da mesma. De certo modo, esse mal havia sido feito tambémcontra a sociedade que não aceita que uma mulher „direita‟ fique nestascondições. Esta expressão “nestas condições” é usada aqui porque odefloramento faz com que esta jovem fique à margem da sociedade, pois jánão é mais bem vista para casar-se com outro rapaz, visto que após perder avirgindade deixa de ser uma mulher de bons princípios morais e fica excluídade tudo que antes tinha direito, ou seja, não serve mais para o casamento. Deolina agora passa a ser vítima de um processo e além de ter a suaimagem exposta para toda a sociedade e para o júri, ela precisa passar peloexame da pericia médica que é algo constrangedor pela forma como o mesmoé realizado. Com isso, surge a necessidade de se pensar em termos culturais, o quevem a ser o defloramento. Provavelmente não se parou ainda para pensarnesse assunto. Mas o que se pode constatar é que o defloramento provocamarcas irreversíveis para imagem feminina, que fica manchada e vulnerável,como se agora necessitasse de um favor, de alguém que queira casar com elapor pena.16 Fólio: folha ou „fólio‟‟ cada uma das páginas de um manuscrito. As siglas referem-se: (v)verso e (l) linha, a linha do documento em que se encontra a citação referida.
  29. 29. 28 3 A LEXICOLOGIA E A TEORIA DOS CAMPOS LEXICAIS A partir da leitura de um Auto de Defloramento da Villa de Conceição doCoité, datado de 1917, pode ser levantado um campo lexical que se refere aosqualificadores dos envolvidos no processo de defloramento e encontra-se novocabulário do povo coiteense, realizando assim, um estudo lexical. Peranteos fatos, verificam-se as lexias inerentes para situar a sua estrutura efuncionalidade na representação cultural desse contexto.3.1 O Léxico e suas ciências Para comprender melhor o que é o léxico, faz-se necessário definir aciência Lexicologia, que tem o léxico por objeto de estudo. Abbade (2011) dizque A Lexicologia, enquanto ciência do léxico, estuda as diversas relações deste léxico com os outros sistemas da língua e, sobretudo as relações internas do próprio léxico. [...] é uma ciencia recente, mas os estudos acerca das palavras remontam a Antiguidade Clássica. Sem o lugar merecido, os estudos lexicais permaneceramem em segundo plano durante um bom tempo da história linguística. (p.1) É essencial a partir de agora definir alguns termos que são inerentes aoléxico e suas ciências e que serão de fundamental importância para melhorentender esse estudo. Observa-se que Abbade (2006, p. 218) define “palavracomo um termo utilizado na língua que faz parte do vocabulário de todos osfalantes” a autora prossegue e diz que, diferentemente da palavra, “a lexia é aunidade significativa do léxico de uma língua, ou seja, é uma palavra quepossui um significado social”. Essa definição da autora (2006) é o ponto chave
  30. 30. 29para esse estudo, pois a análise dessas lexias é o que faz se perceber o realsentido do léxico e o que se pretende realizar com o campo lexical escolhido. Com esse propósito, faz-se necessário questionar: como a cultura dopovo coiteense pode ser refletida em seu vocabulário e estudada a partir desuas lexias? Será que o Auto de Defloramento a ser analisado traz marcas dacultura desse povo que possam ser reveladas a partir de suas lexias? Paramelhor explicar o estudo do léxico neste trabalho cita-se Coseriu (1987)17 quediz: Ahora bien, hacer de lãs lenguas objeto de estudio significa analizar cada lengua em su peculiaridad, estabelecer sus estructuras paradigmáticas y, por tanto, precisamente, no partir de um pensamiento prelinguístico <<universal>> ni de La realidad extralinguística designada.(p.216).18 O texto base procura mostrar justamente as particularidades da línguafalada, no caso, pelos coiteenses de 1917. Nota-se que fatoresextralinguísticos influenciam no modo de falar das pessoas. Isso é um indicadorde que a língua não possui um limite, mas sim, que existem inúmeraspossibilidades de significados para cada palavra. E isto só será determinadoem comum acordo com o contexto e os fatores a ele inerentes. Coseriu (1987)pontua que “O estudo funcional do vocabulário é uma investigação de conteúdodo léxico das línguas” (p.206).3.2 A teoria dos campos lexicais O estudo do léxico segundo Abbade (2009) permite conhecer a históriasocial de um povo através do vocabulário. A autora cita um estudo realizadopor Jost Trier (1931) acerca da teoria dos campos linguísticos, na qual estuda17 Eugênio Coseriu é um linguísta romeno, tornou-se Professor de Linguística da Universidadede Montevidéu (Uruguai).18 “Agora bem, ter as línguas como objeto de estudo significa analisar cada língua em suapeculiaridade, estabelecer suas estruturas paradigmáticas e, por tanto, precisamente em umpensamento prelinguístico universal da realidade extralinguística designada”. (trad. Livre)
  31. 31. 30as palavras de modo conceitual que constituem um conjunto estruturado quesão dependentes entre si. Desse modo, a mudança em um conceito modificariaos conceitos vizinhos. Autora (2009) ainda diz que essa teoria teria dadoorigem ao conceito de campos lexicais pelo estudo realizado por L.Weisgerber. Xavier (2011, p.95) acrescenta que [...] algumas peculiaridades dahistória podem ser reveladas através do estudo lexical de documentos dopassado [...]. Com isso nota-se que estes são fatores essenciais para oconhecimento do passado e o léxico pode abrir caminhos para estes estudos.Isso se dá devido ao fato de que o vocabulário utilizado por determinado grupode pessoas mostra coisas que vão além das palavras, ou seja, sentimentos,maneira de pensar, o modo de agir, dentre outros fatores que são trazidos àtona através do léxico. A significação do léxico está relacionada ao conteúdo que designa alíngua dentro da situação como a significação das palavras perante odicionário, enquanto a designação, provém do estado em que o léxico seencontra, referindo-se aos aspectos extralinguísticos, ou seja, contextualizandoo léxico de acordo à situação histórica. Estas questões abrem discussões referentes aos campos lexicais, quepor sua vez dizem respeito a um “corpo articulado” que se relaciona e coordenade forma hierárquica segundo Abbade (2009). E a autora ressalta que “Osignificado de cada palavra vai depender do significado de suas vizinhasconceituais” (p.02), para entender a lexia é necessário “observá-la no seuconjunto de campo”. Segundo Bechara (2005, p.387)19 “Um campo léxico éuma estrutura paradigmática constituída por unidades léxicas que se repartemnuma zona de significação comum e que se encontram em oposição imediataumas com as outras”. Trabalhar com questões lexicais na língua de um povo significaconhecer as palavras através da junção das mesmas para formar significados,como afirma Abbade (2009)19 Evanildo Bechara é professor titular e emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro(UERJ) e da Universidade Federal Fluminense (UFF), atua nos cursos de pós-graduação e deaperfeiçoamento para professores universitários e de ensino de 1º e 2º graus.
  32. 32. 31 [...] a teoria dos campos propõe a organização das palavras em um campo com mútua dependência, ou seja, elas adquirem uma determinação conceitual a partir da estrutura do todo e só terão sentido como parte desse todo (p. 387). Portanto, a palavra não tem sentido completo isoladamente e fora docontexto, não se pode atribuir-lhe um sentido de modo independente. [...] compreende campos como realidades linguísticas vivas, situadas entre palavras e conjunto do vocabulário que, enquanto totalidades parciais, têm como característica comum com a palavra o articular-se [...] (p. 39). Os campos lexicais se articulam entre si para dar sentido às palavrasem uma esfera nova, dando outros sentidos para as palavras, que ganham vidaem seu todo organizado. Através do estudo do léxico é possível se conhecer traços culturais ehistóricos do ser humano, mudanças ocorridas na língua ao longo do tempo,como também a diversidade linguística de uma dada comunidade. Portanto,estudar o léxico é compreender melhor a dinamicidade das línguas. A língua pode ser vista como identidade de um grupo social, pelo fato deser o meio através do qual as pessoas expressam o que pensam e o quesentem, sejam estes sentimentos de dor, tristeza, alegria, desabafo, entreoutros. É por ela que os indivíduos expõem anseios que se encontram nointerior de cada ser. Faz-se necessário ressaltar que esse aspecto da vida humana acontecede modo individual e também coletivo. Não importa quem seja o indivíduo, elese expressa através da linguagem. Cada um com suas particularidades, massempre através desta. Mas, que ao partir para o coletivo, unem-se com o quepossuem em comum. É pertinente dizer que o ser humano consegue se adaptar em gruposcom facilidade, pela necessidade de conviver com outros seres de sua espécie.As atividades que o mesmo realiza em grupo, lhe permitem compartilharobjetos, atividades, momentos, dentre outras coisas das quais cita-se a língua.Esta por sua vez, faz dele um ser social e lhe atribui identidade.
  33. 33. 32 Neste convívio social, o ser humano adéqua o que está ao seu redor deacordo às necessidades que possui. É nesse contexto que o léxico aparececomo algo indispensável na dinâmica da língua com as relações socioculturaise históricas, tendo em vista que o léxico de uma língua é construído atravésdas dinâmicas dessas relações humanas. Enfim, um estudo aprofundado do léxico coloca em evidências coisasinimagináveis que estão envoltas em uma atmosfera de mistérios da sociedadee que as vezes ela própria desconhece.
  34. 34. 33 4 O CAMPO LEXICAL DOS QUALIFICADORES DOS ENVOLVIDOS NO PROCESSO DE DEFLORAMENTO A partir de agora, podem ser observadas as lexias que foram utilizadasno documento que serve de base para este estudo, aos quais servem paraqualificar cada um dos envolvidos diretamente neste processo de defloramentode Nº 40. São quatros pessoas, apresentadas de modo totalmente diferenteumas das outras. Veja-se as definições seguem abaixo.A vítima: Deolina Maria de Jesus FILHA MENOR - exp. „filha que ainda não alcançou a maioridade‟. “[...] sua filha menor / Deolina Maria de Jesus[...]” (Auto de nº 40 f.1r, l. 07- 08).DEFLORADA - s.f. „pessoa que perdeu a virgindade, rompeu o hímen‟. “[...] vê-se que a mesma fora de - / florada [...]” (Auto de nº 40, f.2r, l. 35- 36).DESHONRADA – s.f.„refere-se a pessoa que perdeu a honra, a virgindade‟ “Pelo auto de corpo de delicto se evidencia que / Deolina Maria de Jesus, fora deshonrada[...]” (Auto de nº 40, f 2r, l.31, 32).ESTADO INTERESSANTE DE GRAVIDEZ – exp. „que está grávida‟. “[...] e / que acha-se em estado interessante de gravidez / fructo desta junção illicita”. (Auto de nº 40, f.2r, l.32 - 34).
  35. 35. 34OFFENDIDA – s.f. „o fato de ter sido deflorada é visto como ofensa à vítima, ou seja, alguém que foi ferido em sua dignidade‟ “pelo auto de per / guntas a offendida, vê-se que a mesma fora de / florada por Cosmo[...] (Auto de nº 40, f.2r, l.34 - 36).POBRE MENINA – expr. „pessoa digna de pena, compaixão, a coitadinha‟. “e num instante desman- / chava toda essa felicidade deshonrando uma pobre / menina [...]” (Auto de nº 40, f.1r, l. 22 - 24).O réu: Cosmo Bertholino da SilvaATREVIDO – s.m. „alguém ousado e que insultou a família‟. “Vê portanto Exmº Snº quanto é barba/ ro, infame, atrevido e finalmente sem classificação [...](Auto de nº 40, f.2r, l.27 - 28).AUCTOR DA DESHONRA - expr. „indica o responsável por causar a desonra da vítima, ou seja, tirar-lhe a virgindade. “[...] e denunciou o Cosmo / de tal como auctor da deshonra de sua filha menor [...]” (Auto de nº 40, f.1r, l.6-7).BÁRBARO – adj. „pessoa cruel e desumana que não tem sentimentos pelas outras pessoas‟. “Vê portanto Exmº Snº quanto é barba / ro, infame[...]” (Auto de nº 40, f.2r, l.27,28).DESOCUPADO - adj. ‟pessoa que não possui ocupações‟. “[...] esse typo desocupado que sempre foi propenso a / valentia e deshonra[...]” (Auto de nº 40, f. 2r, l.29 - 30).INFAME – adj. „pessoa vil e torpe que pratica atos vergonhosos que atentam contra a honra de outrem‟, „alguém que praticou atos indecentes‟
  36. 36. 35 “Vê portanto Exmº Snº quanto é barba / ro, infame, atrevido e finalmente sem classificação[...]” (Auto de nº 40, f.2r, l.27-28).PROPENSO A VALENTIA E DESHONRA – exp. „alguém acostumado aprovocar desordens‟, „desordeiro‟. “[...] esse typo desocupado que sempre foi propenso a / valentia e deshonra que se diz chamar Cosmo. [...]” (Auto de nº 40, f.2r, l. 29 - 30).O pai da vítima: Antônio Avelino dos SantosINFELIX – s.m „pessoa que não é feliz, um desgraçado‟ “No dia 13 de Maio deste anno / o infelix pai Antonio Avelino dos Santos [...]” (Auto de nº 40, f.1r, l.3 - 4).A mãe da vítima: Hictalina Maria de JesusENFERMA – s.f. „o termo aqui é utilizado para referi-se a saúde física da mulher‟. “[...] Deolina procurava na roça umas hervas para / fazer um chá a pedido de sua velha mãe que jazia enferma.” (Auto de nº 40, f.2r, l.25 - 27).VELHA - adj. a lexia indica a faixa etária da mulher. “[...] Deolina procurava na roça umas hervas para / fazer um chá a pedido de sua velha mãe que jazia enferma.” (Auto de nº 40, f.2r, l.25 - 27). As lexias que foram empregadas para qualificar os envolvidos noprocesso de defloramento analisado demonstram a visão de mundo dedeterminado grupo social em um dado momento histórico. O modo de pensar
  37. 37. 36das pessoas está refletido na forma como escrevem, é, portanto a escrita ummeio de expressão de ideias, sentimentos, emoções e conflitos. Através do contato com esses documentos por meio de estudos épossível se compreender melhor o universo do pensamento humano. SegundoQueiroz (2009, p.21) “O homem ao nomear os seres e os objetos que estão asua volta, o fez a partir dos fluxos sociais, culturais e históricos. Quando seestuda a língua a partir de seu uso no contexto pode-se reconstruir a sociedadeatravés de seu léxico”. Desta forma pode-se afirmar que o léxico traz arealidade vivida pelas pessoas e isso fica visível em seu modo de falar eescrever sobre aquilo que pensa. A autora (2009) ainda acrescenta que “osautos de defloramento são arcabouços que contém valores e crenças dassociedades”. Por isso são uma fonte de riqueza cultural.
  38. 38. 37 CONSIDERAÇÕES FINAIS Como já foi citado neste trabalho, de acordo com Abbade (2006, p.213)“a linguagem é algo pessoal, intersubjetiva e histórica do homem”, issoacontece porque a mesma revela elementos de histórias e de vida muito maisdo que se pensa. Cada palavra, ou melhor, no caso em estudo, cada lexiacomo define Abbade (2006), é palavra com valor social. Nisto percebe-se queas palavras as quais as pessoas usam diariamente estão carregadas designificados. Um destes é o sentido original, mas com este vêm outros que comcerteza demonstram sentimentos e emoções. Como também, se percebe, há uma forte ligação no modo de pensardas pessoas que viveram no passado com as pessoas que vivem no presente,ou seja, fatos passados principalmente fatores culturais, princípios de vida,ideais e sentimentos diversos. Porém, o principal, provavelmente diz respeitoàs questões de gênero, à moral, que vêm à tona através das palavrasutilizadas para definir certos comportamentos e atitudes das pessoas. Os resultados que foram encontrados através do estudo das lexiaspresentes no Auto de defloramento de Nº 40, revelam aspectos de uma dadacomunidade. Esses resultados são importantes pelo valor documental, além demostrar como viviam e pensavam essas pessoas. Ficam evidentes,principalmente os valores morais e as regras da sociedade em relação àmulher. Diante de tudo isso, é pertinente concluir através dessa análise que oléxico desse povo se relaciona à sua realidade extralinguística. Por meio doléxico é possível revelar a história e a cultura de um povo, mesmo que já tenhase passado muitos anos após a escritura deste documento. Sendo assim a cultura do povo coiteense do século XX pode ser refletidaatravés de seu vocabulário presente no Auto de defloramento em estudo porser a língua algo vivo que faz parte da sociedade e por isso transmitir valores
  39. 39. 38culturais, como bem, é através da fala que se pode perceber traços da culturade determinado povo, ou seja, o modo como estes falantes se referem àspessoas mediante ao gênero. E isso mostra que as palavras utilizadas paraexpressar ideias, estão carregadas de valores significativos. Fator este queacontece porque a sociedade privilegia, ou pelo contrário, tira o prestígio dealguns grupos, ao passo que os condiciona às margens sociais e políticas. E osgrupos, mesmo que de modo inconsciente repassam esses conceitos. É nessecontexto que um grupo reflete sua origem, etnia, faixa etária e seus hábitosatravés da língua.
  40. 40. REFERÊNCIASABBADE, Celina Márcia de Souza. Aplicação prática da Teoria dos CamposLexicais. In: SANTANA NETO, João Antonio de; MAGALHÃES, CarlosAugusto. (Org.). Redemoinho de Linguagens. 1 ed. Curitiba: Apris, 2011._____________. Estruturação dos campos lexicais: O estudo funcional doléxico. In: ABBADE, Celina Márcia de Souza. Um estudo lexical do primeiromanuscrito da culinária portuguesa medieval: O livro de cozinha da Infanta D.Maria. Salvador: Quarteto, 2009____________. O Estudo do Léxico. In: ABBADE, Celina Márcia de Souza.Diferentes Perspectivas dos Estudos Filológicos. Salvador: Quarteto, 2006.ALVES, Ivia. Imagens da mulher na literatura na modernidade econtemporaneidade. In: FERREIRA, Silvia Lúcia e NASCIMENTO EnildaRosendo do (org.). Imagens da mulher na cultura contemporânea. Salvador:UFBA, 2002.BAUER, Carlos. Breve história da mulher no mundo ocidental. São Paulo:Xamã: Edições Pulsar, 2001.BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 37. Ed. Rio de Janeiro:Lucerna, 2005.BORDONAL, Guilherme Cantieri. Povo, cultura e religião: história IV. SãoPaulo: Pearson Prentice Hall, 2009.BRASIL. Auto de Defloramento. Villa de Conceição do Coité. Processo de nº40, de 13 de maio de 1917. Poder Judiciário, Fórum Durval da Silva Pinto,1917.COSERIU, Eugênio. Gramática, semântica, universales: estúdios delinguística funcional. 1987.
  41. 41. EAGLETON, Terry. A ideia de cultura. São Paulo: UNESP, 2005.ELEUTÉRIO Fernando. Análise do conceito de crime. <Disponível em:http://www.uepg.br/rj/a1v1at09.htm>. Acesso em 10/01/2012, às 14:51.HELLER, Agnes. O cotidiano e a história. 4. ed. São Paulo: Paz e terra, 1970. JESUS, Ivanete Martins de. Documentos jurídicos: edição e estudo dodiscurso dos autos de defloramento de Josefha Esmina Ribeiro e Maria Dias.Feira de Santana: UEFS, 2010.LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 15. ed. Rio dejaneiro: Jorge Zahar, 2002.LIMA-HERNANDES, Maria Célia. A dimensão social das palavras In: SILVA,Luiz Antonio da (org.). A língua que falamos português: história variação ediscurso. [S.l.]: Globo, 2005.MATTOS e SILVA, Rosa Virginia. O português arcaico: fonologia. 3. ed. SãoPaulo: Contexto, 1996.QUEIROZ, Rita de Cássia Ribeiro de. Documentos do Acervo de MonsenhorGalvão: Edição Semidiplomática. Feira de Santana: UEFS, 2007.__________. Preservar a memória baiana: a edição de documentosmanuscritos dos séculos XVIII ao XX. In: Scripta philologica. Feira de Santana:UFBA, 2006.___________. Autos de defloramento: um estudo léxico-semântico dedocumentos cíveis do início de séc. XX. In: Revista Virtua. Feira de Santana:UEFS, 2009. <Disponível em:www.uefs.br/colplet/revista/ed01_102009/artigos/artigo_02.pdf>. Acesso em30/05/2011, às 20:31.SILVA, José Pereira da. O filólogo e o filologista.2009. <Disponível em:http://www.filologia.org.br / revista /artigo/9.> Acesso em 29/04/2011, ás 11:23.
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  43. 43. ANEXOS

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