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RAGO, Margareth. Do cabaré ao lar. A utopia da cidade disciplinar-Brasil 1890-1930. SãoPaulo,Paz e Terra. 1997.SANTOS, Car...
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“Precisa-se de creada branca. Prefere-se estrangeira.”Os libertos e as relações de trabalho doméstico no pós-abolição nos anúncios dos jornais paulistanos. São Paulo (1888-1910)

  1. 1. 1 “Precisa-se de creada branca. Prefere-se estrangeira.”Os libertos e as relações de trabalho doméstico no pós-abolição nos anúncios dos jornais paulistanos. São Paulo (1888-1910) Maira Oliveira Santos*Resumo: Após o fim da escravidão no Brasil, e mesmo antes da assinatura da Lei Áurea, odestino dos negros libertos era amplamente discutido. As teorias raciais e positivistas do fimdo século XIX endossaram o ideal de branqueamento almejado pela sociedade brasileira efomentou a vinda massiva de imigrantes europeus para as lavouras e indústrias. A exclusão damão de obra negra foi sumária e nos jornais paulistanos a faceta mais cotidiana destarealidade se ilustra e exemplifica através dos anúncios de empregos domésticos.Palavras-chave: Trabalho doméstico, pós-abolição, São Paulo. A abolição da escravidão no Brasil não foi um evento aleatório ou isolado, como aprópria historiografia mais recente comprova. Até a assinatura da Lei Áurea em 13 de Maiode 1888, desenrolaram-se diversos processos e movimentos pró-abolição em todo o país,levando o tema a ser discutido e analisado tanto nas esferas políticas e sociais quanto nopanorama econômico. A arquitetura legislativa que culminou na lei final foi um processo gradualista deerradicação do trabalho escravo. Tal processo idealizava a transição lenta e gradual,amortizando os impactos dos movimentos abolicionistas, o fim da relação senhor/escravo, aspossíveis perturbações da ordem e o avanço das ações violentas e revoltas que aconteciam portodo o país principalmente em regiões com maior concentração de escravos. No que diz respeito aos conflitos e revoltas de escravos, a manutenção da ordempública e dos direitos dos senhores sobre suas propriedades demandou a ação das forçaspoliciais na repressão de movimentos abolicionistas e prisão de escravos, como bem nosmostra Maria Helena Machado. A ruína evidente da escravidão desestabilizou as relaçõessociais criando casos em que a questão do direito dos senhores e as reivindicações dosescravos não poderiam mais ser ignoradas ou minimizadas pela sociedade.*Graduanda de Licenciatura em História pela Universidade Nove de Julho. Artigo apresentado como Trabalho deConclusão de Curso sob a orientação do Professor Ms. Juliano Custódio Sobrinho. 1
  2. 2. O acirramento das tensões envolvendo escravos, já nos primeiros anos da década de 80, colocando a questão servil na ordem do dia, atraía para as atividades policiais de controle dos movimentos escravos a atenção da opinião pública que, informada pelos jornais, os quais no seu dia-a-dia procuravam acompanhar a evolução dos conflitos entre senhores e escravos, sensibilizava-se pelas denúncias das arbitrariedades policiais. De fato, a atuação dos jornais com relação à questão servil, no decorrer da década de 80, foi bastante expressiva, buscando acompanhar o mais detalhadamente possível a atuação policial e, através dela, os conflitos envolvendo escravos, libertos e abolicionistas.1 Mesmo com o apoio de diversos grupos e tendo o acompanhamento da imprensa e daopinião pública a discussão da abolição e as opiniões a respeito desta eram conflitantes.Pensar a economia brasileira sem o trabalho escravo era muito difícil para muitosconservadores que não acreditavam em relações de trabalho livre entre negros e brancos apósa abolição. Por isso mesmo o Estado Imperial dá início desde meados do século XIX a umlongo processo gradualista que consistiu basicamente em uma forma legal de experimentar alibertação de negros e mediar os poderes dos senhores, assim como tomar a dianteira doprocesso abolição da escravidão, evitando o crescimento dos movimentos populares. Todoeste conjunto de ações acabaram por dar ao processo abolicionista brasileiro um aspecto deluta lenta e, de fato, gradual para os que acompanhavam a evolução das discussões. Tão longo e socialmente penoso foi o processo de abolição que, aos contemporâneos – acostumados a décadas de intermináveis discussões parlamentares que acabavam resultando em tentativas fracassadas ou tímidos projetos emancipacionistas e/ou gradualistas, que a todos frustravam e a ninguém atendiam –, parecia que não viria nunca. Talvez por isso, apesar de tão tardia, tenha sido tão comemorada pelos populares como evento auspicioso e surpreendente que, de certa forma, parecia anunciar nova onda de esperança e otimismo, capaz de restaurar a crença na sociedade brasileira. No entanto, ao contrário do que apontavam as aparências e afirmavam os parlamentares e a burocracia imperial, que correram para assumir as glórias do feito, o fato social da abolição foi realizado em outra parte, nas esferas menos visíveis da sociedade, nas dobras do mundo parlamentar, no contexto das militâncias populares nascentes e nas franjas da política formalista e excludente do império.21 MACHADO, Maria Helena. O plano e o pânico: os movimentos sociais na década da abolição. Rio de Janeiro:UFRJ, EDUSP, 1994. p. 722 MACHADO, Maria Helena. “Teremos grandes desastres, se não houver providências enérgicas e imediatas”: arebeldia dos escravos e a abolição da escravidão. In: Brasil Imperial. Vol.3. GRINBERG, Keila. SALLES,Ricardo (orgs). RJ. Civilização Brasileira, 2010.p.369 2
  3. 3. A existência dos movimentos em prol do fim da escravidão e as ações de resistênciados próprios escravos contribuíram para que este contexto estivesse permeado pela tensãoentre os grupos que defendiam o gradualismo como forma de sustentar este sistema porquanto tempo fosse possível e os que lutavam para que o processo fosse acelerado e que otrabalhador negro fosse inserido numa nova dinâmica de relações de trabalho. Somou-se aisso a própria negativação do elemento de cor como um sujeito incapaz de estar nestadinâmica de trabalho mais compatível com as expectativas liberais de mercado de trabalho,por sua presença nos movimentos e por sua própria resistência cotidiana. Diante disso, ainda seguindo o processo gradualista de transição de escravidão paratrabalho livre, a possibilidade mais acertada para que a abolição não colapsasse a economiabrasileira por falta de braços seria a imigração endossada pelo conjunto de idéias higienistas,raciais, civilizatórias e modernizadoras que vieram a fundamentar o ideal de branqueamentosocial. O texto de Wlamyra Albuquerque traz o panorama tanto do gradualismo quanto daimigração como partes de um processo para substituir o escravo como força de trabalho e baseda produção nacional sem necessariamente incluí-lo no mundo do trabalho Às vésperas da abolição, a busca de alternativas ao trabalho escravo fazia-se então mais incisiva, mais direta. As expectativas dos barões (...) tiveram eco na presidência da província, João Capistrano Bandeira, que desde então não poupou esforços para impulsionar a imigração de europeus. Em fevereiro de 1887, ele enviou a todas as Câmaras Municipais um questionário sobre as necessidades da agricultura e do comércio, a nacionalidade dos estrangeiros e as possibilidades de acomodarem imigrantes “laboriosos e civilizados” 3 O que podemos perceber pela historiografia é que os escravos urbanos, tanto homenscomo mulheres, mas em especial as mulheres, tinham uma mobilidade pela cidade, quepoderia incomodar aos idealizadores da modernidade e urbanização de São Paulo. Estasmulheres estavam presentes pelos espaços, ocupando lugares públicos, trabalhando para si oupara suas senhoras, traçando relações e conexões, transitando de forma quase impossível de sereprimir pelas autoridades, causando pequenas confusões e discussões. O espaço de sobrevivência das mulheres pobres, brancas, escravas e forras na cidade de São Paulo coincidia com a margem tolerada da relativa autonomia dos desclassificados sociais; difícil, se não impossível, de ser devidamente policiada, cresceu com a urbanização, multiplicando3 ALBUQUERQUE, Wlamyra R. de. O jogo da dissimulação: abolição e cidadania negra no Brasil. São Paulo:Companhia das Letras, 2009. p. 101-2 3
  4. 4. oportunidades de improvisação de papeis informais; na cidade as mulheres pobres circulavam pelo espaço social – fontes, lavadouros, ruas e praças –, onde se alteravam e se sobrepunham o convívio das vizinhanças e dos forasteiros, do fisco municipal e do pequeno comercio clandestino, as fimbrias da escravidão e do comércio livre. 4 Podemos então relacionar todo este panorama social do período pré e pós abolição noqual as mulheres negras estavam inseridas como uma das razões pelas quais as classesdominantes paulistanas acharam justo e plausível determiná-las como trabalhadorasindesejáveis e não confiáveis. Seguindo os ecos das ruas, os jornais começam a trazer a visãodas elites para esta movimentação dos negros no espaço urbano. A imprensa paulista e paulistana demorou a se tornar forte e sólida. Apenas após achegada da família real em 1808 é que os jornais em todo Brasil, e principalmente em SãoPaulo, tornaram-se um veículo de grande alcance e influência na vida cotidiana. O jornal doséculo XIX era muito diferente do jornal que conhecemos, porém algumas característicascontinuam as mesmas. O jornal é um segmento desta sociedade, uma extensão de seuspensamentos, sua mentalidade, a ideologia de seu tempo e de seus anseios por modernidade ecivilização. No século XIX, era pelos jornais que as notícias do mundo chegavam, sobrepolítica, sobre tecnologia e ciência. Mesmo sendo um veículo relativamente novo no Brasil, aimprensa foi muito disputada pelos grupos políticos que queriam propagar suas ideias eacabaram ilustrando como a sociedade brasileira do século XIX realmente via e entendia oescravo negro e seu lugar na hierarquia social. Apesar do grande número de analfabetos noBrasil e as tiragens pequenas, os jornais já tinham um alcance considerável, sendo passado deum leitor para o outro e muitas vezes lido para grupos. Esse alcance servia em muitos casospara criar redes de relações sociais, troca de informações e divulgação de ideias de ambos oslados. Na obra de Lilia M. Schwarcz “Retrato em branco e negro” traz um panorama dosprimórdios da imprensa paulista e de como os negros eram retratados pelos jornais e toda aideologia cientificista do período apresentada pelos editoriais publicados nos principaisperiódicos paulistas. Os conceitos sobre a evolução das espécies, o positivismo filosófico e osrecentes estudos antropológicos sobre as raças e culturas eram os assuntos mais comuns e osjornais eram uma das formas mais eficientes de divulgar tais teorias entre o público.4 DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX. São Paulo: Brasiliense,1984.p.11 4
  5. 5. Os diversos jornais, no entanto, não só se utilizavam das teorias evolucionistas para informar os diferentes artigos buscavam mostrar que na verdade compactuavam com essas novas ideias. Ou seja, principalmente a Província de São Paulo, (...), aparentava manipular cotidianamente esses conceitos que a “aproximavam dos países mais desenvolvimentos”. Nesse sentido, a noção de civilização transformava-se aos poucos num dos valores mais “caros”, sendo que São Paulo parecia ter, nesse ponto, uma de suas grandes metas.5 Estas teorias e novas ideias eram a base de políticas sociais muito sólidas paradisciplinar os nacionais pobres, em especial os negros recém libertos. Tal disciplina eravoltada para a devoção ao trabalho, como forma de ser útil à sociedade, e também de repúdiototal ao ócio e a vadiagem, renunciando aos hábitos “incivilizados e primitivos”, com aadoção de práticas sociais mais condizentes com o modelo moderno e europeu que sedesejava à época. Rago demonstra as nuances desta política social ideológica de disciplina pensada eexecutada pelas elites paulistas e endossadas pelo estado, como forma de por os trabalhadoreslivres em seus lugares, indicando-lhes quais posturas deveriam ter daquele momento emdiante, uma vez que, com o fim da escravidão, toda a dinâmica do trabalho livre estava sendoreestruturada. Era mais do que necessário que o trabalhador estivesse focado apenas em suasfunções, obediente aos seus superiores e nunca vinculado aos crescentes movimentos decontestação. Se, pelo lado dos patrões, o período que vai de 1918 a 1922 aproximadamente assiste a uma redefinição dos procedimentos de disciplinarização do trabalho, que apela para as noções de ciência, de técnica e de progresso, configurando um projeto de construção da “nova fábrica”, pelo lado dos operários, a intensificação das formas de resistência aponta para a luta pelo controle do processo de trabalho. Ao lado do trabalho subterrâneo da resistência cotidiana que se trava no interior da produção, evidencia-se nos horizontes do movimento operário a questão da toada das fábricas e da reorganização do processo produtivo, neste momento histórico preciso. 65 Este trabalho apresenta desde a história da imprensa paulista e paulistana como também as várias maneiras queos grandes jornais faziam referência aos escravos e negros livres e libertos, destacando as teorias científicas dofim do século XIX e início do XX. SCHWARCZ, Lilia Moritz. Retrato em branco e negro: jornais, escravos ecidadãos em São Paulo no final do século XIX. São Paulo, Cia das Letras, 1987.p109.6 A temática do trabalho citado está focada no operariado formado basicamente por imigrantes, porém, no quediz respeito aos processos de disciplinarização dos trabalhadores, tanto europeus quanto nacionais, esta temáticase aproxima do tema deste trabalho. RAGO, Margareth. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar: Brasil1890-1930 São Paulo, Paz e Terra. 1997.p.47. 5
  6. 6. Uma das sessões dos jornais que serve de termômetro para o que acontecia nas ruaspaulistanas é a dos classificados que, no período estudado, chamavam-se anúncios. O espaçodestinado variava de acordo com o jornal e a quantidade de anúncios, principalmente secomparada aos espaços ocupados por anúncios publicitários de grandes empresas, lojas efábricas, mas mesmo assim conseguiam demonstrar o que permeava as relações entresociedade, economia e trabalho do período do pós-abolição e início da imigração europeia.O negro nas páginas dos jornais George Andrews traz à tona o plano imigrantista já como parte das políticas detransição e gradualistas para o fim da escravidão e uma realidade após a abolição. Numapossibilidade de o negro, uma vez livre do trabalho forçado, não se adequar a rotina detrabalho livre e regrado e pensando nas situações em que os negros já livres não permaneciamnas fazendas, a salvação seria trazer um contingente de imigrantes europeus que garantiriam aforça de trabalho da economia brasileira. Mais nefasto ainda era um artigo escrito um ano depois da abolição, intitulado “A Segregação do Liberto”, que anunciava a conclusão virtual da competição do mercado de trabalho e a vitória definitiva dos imigrantes. Ignorando a substância dos debates legislativos anteriores, o artigo dizia que tal competição não havia sido pretendida ou antecipada. (...)E agora “o vazio deixado pelo primitivo trabalhador foi preenchido para sempre... O liberto esta seggregado, inutilizado, perdido para a vida produtiva. 7 Desde antes do fim da escravidão o negro já era um elemento presente nas páginas dosjornais e não só como personagem das notícias de crimes e atividades “selvagens” ou nosartigos sobre inferioridade racial e as estranhas culturas dos países africanos, mas apareciamtambém nos anúncios sobre fugas e como “artigos” de compra e venda. Neste aspecto asreferências claras às características físicas e aos hábitos do escravo em questão já fazem parteda linguagem de tais anúncios e esta linguagem permanece após a abolição demonstrando quetais características eram importantes na relação de trabalho livre que se estabeleceria. Mas ainda no tema da disciplina para o trabalho, Gilberto Freyre apresenta um estudoreferente aos escravos nos jornais e sobre os instrumentos de controle para que os negrosfossem normatizados de acordo com a relação senhor-escravo/patrão-empregado.7 ANDREWS, George Reid. Negros e brancos em São Paulo (1888-1988). Bauru, SP: EDUSC, 1998.p 101. 6
  7. 7. Aculturação dirigida. Trabalho forçado. Mas aculturação e trabalho dirigidos que preparavam o escravo para a própria liberdade dentro da nova sociedade ou da nova cultura de que ele passava a ser elemento ou membro; e à qual trazia ou acrescentava alguma coisa de seu, ao mesmo tempo que adquiria dela, juntamente com a língua portuguesa, nem sempre bem aprendida, e com a religião cristã, nem sempre bem assimilada, todo um conjunto de ritos, de técnicas, de valores, de hábitos de trajo e de alimentação, que importavam na sua maior ou menor integração num novo gênero de vida. 8 Nesta sessão de anúncios e classificados, que neste período não era tão extensa ouelaborada como veio a ser no futuro, encontram-se, lado a lado, anúncios de “precisa-se”,“compra-se” ou “vende-se”, dos mais diversos produtos e serviços, cebolas, velocípedes,jumentos e professores, ilustrando a fase de transição que a capital paulista passava, entre omoderno e o rural ao mesmo tempo. Mas destes anúncios de “precisa-se” os que chamam aatenção são os que solicitam empregados para serviços domésticos. Mesmo antes de 13 deMaio de 1888 os anúncios que declaravam intenção de contratar escravos ou livres paratrabalhos como cozinhar, lavar ou para serviços da roça superavam os de escravos fugidos. Emesmo que “os jornais não dessem conta de todo o mercado de trabalho eles ajudam aentender o mundo do trabalho na cidade” 9 A abolição da escravatura foi não só um ato político como o resultado de movimentossociais e transformações econômicas internas e externas, simbolizando também umareformulação nas estruturas sociais da época. O lugar dos negros no novo cenário social eeconômico mostrou-se uma questão complicada para o pensamento modernizadorinfluenciado pelas teorias cientificistas e as correntes racistas. Tanto industriais quantosenhores de terras não acreditavam que os ex-escravos ou até mesmo os negros já livresfossem capazes de serem introduzidos na lógica do trabalho livre, sendo assim, a imigração deeuropeus supriria tanto a demanda por mão de obra qualificada quanto a do branqueamento dasociedade brasileira, pré-requisito para a formação de um Estado forte e moderno.8 O texto trás o olhar antropológico sobre as relações estabelecidas entre escravos e senhores no Brasil e como asparticularidades destas relações ficavam referenciadas nos anúncios de jornais, destacando também as nuancesculturais e os discursos que se fazem notar através destes. FREYRE, Gilberto. Os escravos nos anúncios dejornais brasileiros do século XIX. São Paulo. Global. 2010.p.719 As dinâmicas cotidianas do mercado de trabalho as quais os escravos e negros livres estavam submetidos e seapresentavam de formas variadas tanto em jornais da época como em documentos de órgãos do estado e relatosde viajantes e cronistas, ilustrando o processo de substituição do trabalhador negro pelo branco europeu.JACINO, Ramatis. O Branqueamento do Trabalho. São Paulo. Nefertiti. 2008.p.108-109. 7
  8. 8. Ao seguirmos esta linha podemos ver que é aqui que se abre um grande paradoxo, poisa intenção disciplinadora apresentada anteriormente era a de adequar o ex-escravo ao mundodo trabalho, porém o que se viu na prática foi uma preferência pela mão de obra imigrante ebranca, desconsiderando o que, anteriormente, “tratava-se simplesmente de tornar ocupadosos desocupados ou manter ocupados aqueles que se fossem alforriando, de modo a se instituirum controle estrito e cotidiano do Estado sobre suas vidas”, para agora ser a exclusão domercado de trabalho. Em 1888, nas páginas d’A Província de São Paulo10 os anúncios de emprego poderiampassar despercebidos, mas depois da Lei Áurea os anúncios de “precisa-se” ganham umacaracterística que traduzia alguns pensamentos correntes na época. Tal particularidade quechamou minha atenção ao examinar as fontes foram os anúncios que faziam clara referência àcor da pele ou da nacionalidade do empregado que se desejava contratar, quando antes sepedia apenas que o candidato à vaga fosse qualificado e com boas referências. Através dosanúncios de jornais pesquisados, foi possível entender como a substituição acontecia notocante ao trabalho doméstico, mas dando uma ideia do que ocorria em todo o mercado dacidade de São Paulo 11. Sob a influência das teorias cientificas raciais que então se produziam na Europa e nos Estados Unidos (...), vários reformadores passaram a tratar o tema do negro livre não mais do ângulo inicialmente proposto – o da coação do ex-escravo e demais nacionais livres ao trabalho –, mas sim da perspectiva de sua substituição física pelo imigrante tanto na agricultura como nas diversas atividades urbanas.12 A historiografia sobre as relações de trabalho neste período diz que os negros libertosforam excluídos da crescente industrialização e de São Paulo e também do comércio,acusados de indolentes, indisciplinados e incivilizados. A preferência pelos trabalhadoreseuropeus era endossada pela ideia de que estes seriam mais disciplinados para o trabalho livre,acostumados com as rotinas das fábricas e postos de trabalho regrados, serem originários desociedades civilizadas e culturalmente evoluídas e serem brancos. O branqueamento do10 O jornal em questão, assim como o Diário Popular e o Correio Paulistano citados neste artigo, encontra-se noacervo da hemeroteca do Arquivo Público do Estado de São Paulo, tendo sido pesquisadas edições entre os anosde 1888 e 1910.11 JACINO, Ramatis. Op.cit.p.60.12 As perspectivas destes processos de exclusão baseavam-se em parte pelo caráter “selvagem” e “incivilizado”dos nacionais livres, fossem eles indígenas ou afro-brasileiros, o que era indesejado e temido pela burguesiabrasileira e pelo Estado. AZEVEDO, Célia Maria Marinho de. Onda negra, medo branco; o negro noimaginário das elites – século XIX. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1987. 8
  9. 9. trabalho parecia ser a solução, mas óbvia para esta questão uma vez que a pauta do dia era aeuropeização da sociedade brasileira como um todo. Antes do fim da escravidão o que se tem em toda a sociedade brasileira é o escravoinserido em relações sociais de diversos graus, resistindo às opressões da relação senhor-escravo e galgando sua liberdade através destas relações estabelecidas no cotidiano comoutros escravos e homens livres. O estudo de Maria Cristina Wisselbach sobre essas relaçõessociais nas quais os negros escravos estavam inseridos demonstram como a opressão dotrabalho forçado levou os cativos a buscarem novas formas de vivência que os permitissemuma situação menos sofrida. Sujeitos a um regime baseado na coerção, que os obrigava ao trabalho e às punições vistas como necessárias, que delimitavam suas vidas por condicionantes, das quais na maior parte das vezes não conseguiam escapar, os escravos tinham a possibilidade de desenvolver outras relações e práticas sociais, seja no âmbito do grupo de parceiros ou de escravos de uma mesma vizinhança, seja ainda nos contatos mantidos, num sentido mais amplo, com os homens livres com os quais conviviam. No interior dessa complexa rede social, de caráter aparentemente residual, construíam os elementos mais significativos para remir, em parte, sua escravidão, dimensionando uma série de estratégias de independência no lastro dos vínculos sociais primários que acabavam por estabelecer.13 Voltando mais uma vez ao período anterior a abolição, temos os escravos em todos ospostos disponíveis no mercado de trabalho brasileiro, convivendo ou competindo comtrabalhadores livres, muitas vezes brancos pobres e imigrantes. Neste quadro os escravosdomésticos que não tinham uma produção economicamente interessante poderiam sernumerosos em casas mais abastadas e, “apesar da preocupação ostentatória, tamanhaabundância de domésticos induzia, numa medida ou noutra o seu aproveitamento rentável”14,“aí o interesse lucrativo prevaleceu e, justamente pela grande demanda, tornou-se bomnegocio vender ou alugar escravos domésticos”. Podemos então vislumbrar um mercado detrabalho doméstico quase que exclusivamente dominado pela mão de obra negra. Se, após a abolição da escravidão, nas fábricas e no comércio as vagas de empregoseram dos imigrantes brancos, deduz-se que trabalhos domésticos mais subalternos e pesados13 WISSELBACH, Maria Cristina. O escravo e o mundo caipira na comarca de São Paulo. In: Sonhos africanosvivências ladinas. Escravos e forros em São Paulo (1850 – 1880). São Paulo. Hucitec, 2009.p.11014 As relações de trabalho escravo durante o período colonial pouco ou nada mudaram durante o Império,sugerindo que após o fim da escravidão as disparidades e contradições destas relações vazaram para as relaçõesde trabalho livre entre brancos e negros. GORENDER, Jacob. O escravismo colonial. 4ed. São Paulo: FundaçãoPerseu Abramo, 2010.p.505. 9
  10. 10. que não exigisse grandes conhecimentos técnicos continuariam para os negros, como já oeram antes do fim da escravidão. Cozinheiras, criadas, amas de leite e secas e lavadeiraspareciam ser os destinos profissionais das mulheres negras, mas o que se vê pelos anúnciosdos jornais não é bem isso. Uma preferência discriminatória acontece de forma muito clara e simples nos anúnciosde empregos confirmando que era uma tendência social crescente e comum, respaldada pelasteorias cientificistas e racistas da época a ideia de livrar o país da presença dos negros emestiços. Temos então o seguinte panorama: Na Europa e EUA o pensamento positivista, oscrescentes estudos sobre a saúde e higiene, as teorias antropológicas acerca da evolução dasculturas, os determinismos geográficos e genéticos ou hereditários e superioridade das ditas“raças-puras” eram uma pauta discutida e praticada, no Brasil todos esses discursos foramapenas adaptados para a realidade mestiça do povo brasileiro, passando também a ser umaprática. Em outro trabalho, Lilia M. Schwarcz apresenta as dinâmicas entre essas teoriascinetificas e realidade social e cultural brasileira. Neste contexto, onde ficariam os pobres brasileiros, constituídos em sua maioria pornegros indígenas e mestiços? A suposta inferioridade destes era “comprovada” e afirmadatomando como base os manuais e tratados científicos inquestionáveis naquele período, sendoassim, estariam todos que não fossem brancos desqualificados e/ou inadequados paraqualquer atividade de trabalho ou convívio social “civilizado”. Representavam o que o Brasilnão deveria mais ser. Para as famílias burguesas da Europa “a conduta indicada na contratação de uma amade leite era apresentada de forma igualmente direta (...). A mãe que fosse privada do prazer deamamentar seu bebê deve procurar uma ama de leite e examiná-la cuidadosamente”15 ,ou seja,já existia uma preocupação com saúde e higiene. Mas quando transportamos para a realidadenacional, a carga das teorias raciais e do branqueamento associadas aos preconceitosestabelecidos ainda no período da escravatura, temos a necessidade da elite paulistana deexcluir os negros livres também dos trabalhos domésticos.15 GAY, Peter. O século de Schnitzler: a formação da cultura da classe media: 1815-1914. São Paulo:Companhia das Letras, 2002.p.66. 10
  11. 11. Na edição da Província de São Paulo 16, de 29 de janeiro de 1888, encontram-se doisanúncios do mesmo endereço sobre a intenção de se contratar uma criada e um copeiro. Osanúncios são simples e não fazem qualquer menção de cor da pele ou nacionalidade. Nomesmo jornal, mas da data de 15 de Maio de 1888 17, somente dois dias após a assinatura daLei Áurea pela Princesa Isabel, encontra-se o anúncio que requisita a contratação de uma“creada allemã que saiba costurar”. Os anúncios que se seguem nas datas posteriores, tanto naProvíncia quanto no Correio Paulistano e no Diário Popular 18 continuam em padrões bastanteparecidos, fazendo vez outra menção a cor da pele ou a nacionalidade, quando nãomencionam as duas coisas. Uma família anunciava que precisava com urgência de uma“Cozinheira, boa em sua arte, branca, preferindo-se estrangeira”; uma mãe procurando “Amade leite com leite novo, prefere-se italiana ou alemã”; criadas e lavadeiras também deveriamser brancas, limpas e estrangeiras. Esta linguagem tão direta e crua pode parecer estranha aosnossos olhos hoje, mas transparecem as intenções das elites paulistas do fim do século XIX einício do XX, sem margem para muitas dúvidas. Sendo assim, fica claro que o branqueamentodo povo brasileiro não era apenas uma teoria, um ideal distante, era uma realidade e umobjetivo a ser alcançado. Não bastava apenas impedir que negros e mestiços fizessem parte damodernização de São Paulo, era preciso bani-los dos lares das “boas” famílias paulistanas.Como as teorias afirmavam “os grupos negros, amarelos e miscigenados "seriam povosinferiores não por serem incivilizados, mas por serem incivilizáveis, não perfectíveis e nãosuscetíveis ao progresso" (Renan, 1872/1961).”19 À primeira vista os anúncios das seções de classificados têm sua versãodiscriminatória para cada tipo de ocupação, apresentando os “precisa-se” de padeiro francêsou os trabalhadores rurais no dia 20 de Abril de 1895 na Província de São Paulo. Trabalhadores para um sítio. – Precisa-se um casal de trabalhadores italianos, portuguezes ou Ilhéos para tomarem conta de16 Província de São Paulo, 29/01/1888. Microfilme 01.01.014. Acervo Arquivo Público do Estado de São Paulo.17 Província de São Paulo, 15/05/1888. Microfilme.01.01.014. Acervo Arquivo Público do Estado de São Paulo.18 Os referidos títulos fazem parte do acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo – Setor de Biblioteca eHemeroteca, tendo sido pesquisadas as edições entre os anos 1888 e 1910. Podem ser visualizados no originalimpresso ou em microfilmes.19 A discussão sobre a negatividade da miscigenação do povo brasileiro e suas consequências para o futuro dopaís enquadradas pela distorção sobre a “Origem das Espécies” de Darwin, por exemplo, que deu origem aoevolucionismo social, e tantos outros trabalhos científicos que acabaram por se tornar as bases de discursosetnocêntricos eugênicos. SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questãoracial no Brasil – 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p.32 11
  12. 12. zm pequeno sítio à meia. Para tratar-eu ao Largo do S. Francisco n.1120 Mas estes anúncios de vagas mais variadas são raros no que diz respeito às menções acor da pele e nacionalidade, ficando a maioria deles para os anúncios para trabalhosdomésticos, sendo estes o ponto de maior interesse deste trabalho. Para melhor exemplificar oque foi encontrado na pesquisa, dividi os anúncios em dois tipos: “Precisa-se” e “Oferece-se”, sendo, respectivamente, de empregadores a procura de trabalhadores e de trabalhadores aprocura de colocação, contendo ou não especificações ou descrições quanto a cor da pele ounacionalidade. Na edição do dia 12 de Janeiro de 1893, os classificados de empregos do CorreioPaulistano21 traziam um anúncio com a palavra “CREADA” em destaque e logo abaixo otexto dizia que desejava-se contratar uma “à rua Marechal Deodoro (antiga Imperador), n.12– Prefere-se extrangeira, e paga-se bem – Não sendo boa é inútil apresentar-se.” . Algumasvezes ainda era acrescentada ao anúncio um “paga-se bem” ou “para serviços leves” de modoa atrair as candidatas pelas possíveis vantagens. O Correio Paulistano era o que apresentava menos anúncios, espremidos entre artigosdiversos, noticiários e publicidades maiores, os discriminatórios aparecem esporadicamente.A Província de São Paulo tem uma sessão maior e com os anúncios preferindo imigrantesmais frequentes, alguns até mais destacados do que os demais. Já o Diário Popular tem umasessão muito maior do que os jornais supracitados, chegando a ser o equivalente a uma páginainteira de anúncios de empregos apresentados em tamanhos diferentes fazendo menção abrancos e/ou europeus. Vale a pena dizer que estes anúncios não eram maioria nos jornais,eles dividiam espaços com outros que traziam a intenção de uma família em contratar umaempregada, mas não faziam qualquer menção a cor ou nacionalidade, algumas vezes exigindoapenas que fosse bom em seu ofício. É importante destacar que alguns anúncios persistem sendo publicados diariamentepor longos períodos. Tanto os que requisitam empregados brancos quanto os que não citamcor ou nacionalidade, seguem sendo publicados por meses. Isso leva a levantar a hipótese deque poderiam ocorrer duas situações: primeira, de que os anúncios que exigem que ascandidatas à vaga sejam brancas, no momento em que a mulher comparecia ao endereço20 Província de São Paulo, 29/01/1888. Microfilme 01.01.014. Acervo Arquivo Público do Estado de São Paulo.21 Correio Paulistano. 12/01/1893. Microfilme 04.01.045. Acervo Arquivo Público do Estado de São Paulo. 12
  13. 13. respondendo ao classificado do jornal, a contratante não ficava plenamente satisfeita, apesarde a candidata ser branca e estrangeira; segunda, ao responder ao classificado que não fezqualquer menção racial, a mulher negra ou mestiça era rejeitada na contratação. Nesse aspecto percebe-se que o que se queria deste trabalhador ideal era a salvaçãomodernizadora do Brasil, e São Paulo em franco processo de modernização precisava distomais do que tudo. Desqualificar os pobres nacionais, negros ou mestiços, negativar seusmodos de vida e o lugar onde viviam fazia parte do discurso corrente da sociedade paulistanaaté os anos 1930. Queria-se que fosse imigrante europeu branco supostamente já bemqualificado e disciplinado para as rotinas de trabalho, porém, “se assim fosse, não seriamnecessárias as várias tentativas de reorientar, disciplinar e controlar esses trabalhadores.” Assim, a ressaltada e, na maioria das vezes, elogiada modernização e a expansão incessante de São Paulo sugerem, ao mesmo tempo, a constante tentativa de superar o que era considerado indesejável, bem como a provável resistência do que se procurava transformar. Buscando perceber a presença dos nacionais neste processo, é possível surpreender duas situações: a primeira é quase um silêncio sobre os despossuídos dessa parcela da população e a segunda um discurso desmerecendo e excluindo seus modos de vida em determinados lugares do perímetro urbano municipal. 22 Volto mais uma vez para as fontes deste trabalho, os anúncios de empregos dos jornaispaulistanos. O conteúdo dos anúncios vez ou outra traz a exigência de que o candidato tenhaboas referências ou que “dê fiança de sua conduta”, às vezes mais do que apresentarqualificação ou experiência para a função. Parece muito significativo que esses termoscomecem a fazer parte do anúncio justamente quando a imigração está em seu auge,levantando, então, a hipótese de que nesse período as primeiras manifestações detrabalhadores imigrantes contra as odiosas condições de trabalho nas fábricas começassem adesabonar os estrangeiros da imagem feita pelos defensores da imigração. É fato que os imigrantes que foram para as lavouras do interior de São Paulo e para asfrentes de trabalho da indústria paulista não se submeteram às condições subumanas e aotratamento que antes era dirigido aos escravos. É bem conhecida a luta das organizações detrabalhadores e das greves do período que reivindicavam não só para si como grupo, mastambém para outros trabalhadores, independente de suas nacionalidades ou etnias, melhores22 A política social que pretendia limitar cada vez mais o acesso do negro ao mercado e trabalho livre, tanto emfábricas quanto no comércio, nas lavouras ou nos lares. SANTOS, Carlos José Ferreira dos. Nem tudo eraitaliano: São Paulo e pobreza: 1890-1915. Annablume, 1998. p.62 13
  14. 14. condições de trabalho e de vida estando “bastante conscientes das oportunidades táticas queuma classe trabalhadora étnica e racialmente dividida oferecia aos patroes e ao Estado” O domínio dos imigrantes no movimento operário paulista, sua insegurança diante das políticas de imigração do governo e o resultante excesso de mão de obra, e ao lado da marginalização dos trabalhadores afro- brasileiros em São Paulo, poderia facilmente ter levado a resultados como aqueles dos EUA e da África do Sul, onde os trabalhadores brancos exigiram – e receberam – barreiras institucionalizadas contra a competição dos negros. Entretanto, não foi isso que aconteceu. Em busca de estratégias para melhorar sua posição e enfrentar seus patrões e o estado, os trabalhadores de São Paulo parecem nunca ter considerado a possibilidade da exclusão e segregação racial que estava sendo buscada em outros lugares.23 Como que confirmando esta possível desilusão das elites com os imigrantes e suasuposta disciplina é que surgem alguns anúncios como publicado no Correio Paulistano de 19de Setembro de 1891 que dizia “Precisa-se de uma cosinheira, não se faz questão da cor, na Rua Carneiro Leão, 2K”24 Ou este outro publicado na Província de São Paulo/OESP em 7 de Outubro de 1902 “Ama. Precisa-se de uma, na Alameda dos Andradas, 44. Dá-se preferência às brasileiras, não se fazendo questão da cor.”25 Mas mesmo com as manifestações de descontentamento e as reivindicações dostrabalhadores, os anúncios dando preferência aos imigrantes continuam a estampar as páginasdos periódicos diariamente. Na edição da Província de São Paulo/OESP de 15 de Setembro de1891 foi publicado o seguinte anúncio: “Lavadeira e engommadeira. Precisa-se de uma, preferindo-se allemã. Para tratar na Rua dos Andradas i5-G”26 O texto deste anúncio nos leva a pensar a mentalidade das classes média paulistanasdeste período. Pessoas letradas, com certo nível de educação, leitoras de um periódico quetrazia artigos sobre as novas descobertas da ciência, o desenvolvimento da tecnologia e amodernidade, que agora que não tinham mais escravos, e também não contrataria negroslivres, decidia que a lavadeira deveria ser uma moça branca e alemã, que a cozinheira deveriaser francesa e que a ama seca que cuidaria das crianças seria italiana. E as italianas tinham23 ANDREWS, George. op.cit.p.103.24 Correio Paulistano, 19/09/1891. Microfilme 04.01.043. Acervo Arquivo Público do Estado de São Paulo.25 Província de São Paulo, 07/10/1902. Microfilme 01.01.036. Acervo Arquivo Público do Estado de São Paulo.26 Província de São Paulo. 15/09/1891. Microfilme 01.01.017. Acervo Arquivo Público do Estado de São Paulo. 14
  15. 15. ainda uma especificação a mais. Em anúncio publicado pelo Diário Popular no primeirosemestre de 1908, pede-se uma “Creada da alta Itália, de meia idade, decente e limpa”. Nãofoi possível entender o que esta especificação quanto à geografia da Itália interveria notrabalho da dita criada, porém, vendo está preferência por imigrantes como um todo e além doobjetivo de branquear o Brasil, levanto a hipótese de que está sociedade, esta elite econômicaestava tão fascinada pelo que vinha de fora, pelo que era europeu que alimentava o fetiche de“consumir” empregados domésticos estrangeiros, assim como uma vez usava-se comoostentação de poder e riqueza vestir seus escravos com luxo. Esta segregação no mercado de trabalho doméstico da capital teve como consequênciaa formação de redes de resistência em modos de vida alternativos e, por isso mesmo,negativados pelas elites e seus modelos sociais civilizatórios e modernizadores. Expulsos dasfunções que antes exerciam como escravos, relegados a rua, os negros organizaram-se demodo a prover sua subsistência. Homens e mulheres pobres, livres, nacionais ou africanos, com todas as singularidades, resistiam e marcavam nas ruas, praças, pontes e chafarizes. Viviam m chácaras e casebres no centro e nos arredores da cidade, causando desconforto às elites que sonhavam e planejavam um país de brancos, “morigerados”, subordinados, sem questionamentos à hierarquia social por elas estabelecida.27 Novamente se abre uma contradição no painel ideológico das elites paulistanas. Comofoi discutido anteriormente, o objetivo era disciplinar e adequar os negros para o trabalho livreciviliza-los para a modernidade, mas o que se vê é que estes eram considerados naturalmenteincapazes para qualquer função, mesmo as mais subalternas e simples como o trabalhodoméstico, sendo então substituídos por imigrantes europeus. Em toda esta dinâmica segregacionista estabelecida e ilustrada pelos anúncios declassificados de empregos dos jornais pesquisados, nota-se que assim como havia umademanda de empregadores que desejavam contratar brancos, também surgem os brancos quese oferecem nos classificados descrevendo sua cor ou nacionalidade como parte da suaqualificação. Saiu na Província de São Paulo de 5 de Janeiro de 1889 o seguinte anúncio:27 Não só a segregação no trabalho era uma das facetas do branqueamento como também a negativização dasatividades que os negros exerciam muitas vezes nas ruas ou locais públicos como a prestação de pequenosserviços e o comercio ambulante, considerando estas atividades como vadiagem ou vagabundagem a sercombatida. JACINO, Ramatis. op.cit.p.140 15
  16. 16. “Ama de leite. Offerece-se uma que tem muito leite. É italiana. Bom Retiro, venda Camillo Antonio, Largo da Immigração.”28 Já em uma edição do Diário Popular do 2º semestre de 1889 encontra-se outroexemplo deste nicho de mercado de trabalho doméstico formado aparece no seguinte anúncio: “Offerece-se um casal, ambos italianos, moços, sem filhos, o marido como jardineiro, a mulher como cosinheira. Tratar-se no Hotel da Hospedaria de Immigrantes, no Braz.”29 Por outro lado, na categoria “Oferece-se”, existe um grande número de anúnciospublicados e que não fazem nenhuma menção a raça/cor da pele ou nacionalidade. Acreditoque, pelas mesmas razões que levaram os imigrantes a expor sua condição étnica nosclassificados de modo a conseguir melhores colocações, os trabalhadores nacionais talvezomitissem tais características visando os empregadores que não faziam questão delas. Porém,assim como a categoria “Precisa-se” com ou sem especificação étnica, estes anúncios sedemoravam nos jornais por meses a fio. Há ainda que se levar em conta alguns pouco anúncios onde o empregador anunciavadesta maneira como saiu no Diário Popular do segundo semestre de 1907 “CREADA – Precisa-se de uma para copeira e arrumadeira de quartos. Prefere-se de 15 ou 16 annos. É para casa de pequena família estrangeira; rua Augusta, 192 (perto da Avenida Paulista)”30 Quando o temos a nacionalidade do empregador destacando-se no anúncio pode-seconcluir que a intenção era excluir os candidatos que não estivessem aptos a lidar com afamília estrangeira, supondo que estes seriam mais exigentes do que as famílias brasileiras.No caso do anúncio a seguir, publicado na Diário Popular do ano seguinte, a intenção dafamília estrangeira em contratar trabalhadoras também de origem europeia demonstra que estafamília também não tinha intenção de ter vínculos de trabalho com os nacionais. “Precisa-se numa família ingleza, a rua Pirapitinguy 18, Liberdade, de uma creada como copeira e arrumadeira de quartos, que seja perita e dê referências. Deve ser branca e prefere-se alleman.”31 Em menor número, mas mesmo assim significativos, estão os anúncios de “precisa-se”publicados em outros idiomas, normalmente inglês e francês, destinados claramente a um tipo28 Microfilme 01.01.015 Acervo Arquivo Público do Estado de São Paulo.29 Diário Popular 2º semestre de 1889. Original. Acervo Arquivo Público do Estado de São Paulo.30 Diário Popular 2º semestre de 1907. Original. Acervo Arquivo Público do Estado de São Paulo.31 Diário Popular 1º semestre 1908. Original. Acervo Arquivo Público do Estado de São Paulo. 16
  17. 17. específico de trabalhadores, estrangeiros e/ou letrados, como professores, governantas eacompanhantes de senhoras ricas em viagens para a Europa, fechando assim um ciclo deexclusão da trabalhadora negra ou mestiça. E neste ritmo o projeto de modernização da Paulicéia seguiu seu curso, sendoaplaudido e aplicado sem ressalvas ou maiores protestos além dos próprios nacionaisexcluídos. Alinha-se com esta perspectiva o texto de Carlos José Ferreira dos Santos sobre amarcha conservadora-modernizadora paulistana. Ao que tudo indica, por um lado seriam conservadas as antigas desigualdades sociais e o status quo, por outro buscariam o moderno e a prosperidade ao estilo europeu. O que e quem não pertencessem ao anterior status e nem possuísse características europeias, confundidas com modernidade, não teria por que permanecer naqueles espaços mais centrais. Representava, aliás, um obstáculo e por isso deveria ser removido. 32 Com o avançar dos anos, após a virada do século, as sessões de classificados dosjornais parece engessar-se. Talvez sofrendo os agravos das crises econômicas dos primeirosanos da república ou por uma crescente oferta de mão de obra disponível na capital, o fato éque os anúncios passam a repetir-se com maior frequência, indicando que as vagas não erampreenchidas por algum motivo, ou pela falta de qualificação exigida pelas patroas ou porqueas promessas de bons pagamentos e serviços leves e poucos eram tão vãs quanto pareciam. E,talvez sendo uma consequência disto, os anúncios que não se referem à cor da pele ou anacionalidade aumentam significativamente. No Diário Popular do primeiro semestre de 1908até 1910 os anúncios deste tipo são maioria esmagadora diante dos discriminatórios. É notáveltambém observar o aumento significativo dos anúncios de trabalhadores se oferecendo parapossíveis vagas de emprego.Conclusão A historiografia sobre a escravidão os processos de abolição e emancipação traçamum panorama de como esses processos ocorreram e suas consequências na formação dasociedade brasileira após séculos de escravidão negra como uma das bases da economia.Percebo através dos textos analisados para este trabalho que, tendo sido a propriedade depessoas por outras, baseada em diferenças étnicas e culturais, fez com que o fim da escravidãotenha sido, em alguns aspectos, traumático para aqueles que perdiam suas propriedades e seu32 SANTOS, Carlos José Ferreira dos. Op.cit. p.74. 17
  18. 18. sacro santo direito sobre elas. Tratar com negros como livres ter relações de trabalho onde oex-escravo agora era um trabalhador comum, que não poderia mais ser coisificado e, muitoprovavelmente, reagiria aos maus tratos de seu patrão, não pareceu soar bem aos ouvidos dosagora ex-senhores de escravos. Somando-se a isto temos o florescer da ciência na forma de ideologias sociaisexcludentes divulgadas largamente pelos jornais. A ideia do negro como um sujeito de poucaconfiança e de hábitos estranhos e selvagens, que já fazia parte do imaginário das elites bemantes da abolição, contribui significativamente para a construção paranoica de que a presençado elemento negro na sociedade é fator negativo. Sendo assim toda e qualquer ação que venhaa excluir esse elemento é considerada positiva e sua prática difundida e encorajada. No que diz respeito às relações de trabalho doméstico, o que posso afirmar diante doque foi pesquisado é que o encorajamento à imigração e a substituição dos negros libertos portrabalhadores europeus era não só uma medida de branqueamento e de modernização, sendoestas ideias levadas a cabo de maneira muitas vezes exagerada e desmedida, mas umaexpulsão daqueles que agora são legalmente livres e, como tal, são (ainda que virtualmente)cidadãos portadores de direitos. O que antes era uma propriedade, agora era um alguém. Umalguém com hábitos culturais, condutas sociais que por mais que se tentou reprimir resistiu epermaneceu. Sendo assim, levando em conta as transformações que a dinâmica de trabalhodeveriam sofrer para que o negro livre fosse incluído no mercado de trabalho e ospreconceitos das elites quanto a eles, foi mais fácil tentar retirar as negras de dentro das casaspaulistanas, do convívio com as famílias e trazer as brancas imigrantes para as funções maisbásicas e cotidianas, num esforço pelo progresso e modernização do Brasil republicano. Parece óbvio que a febre de modernidade e branqueamento arrefeceu ao longo daprimeira década do século XX, com a contribuição dos movimentos operários, da insujeiçãodos imigrantes às condições precárias de trabalho e de vida nos centros urbanos e daresistência de negros e mestiços à exclusão pretendida. É óbvio também que os resultados alongo prazo desses projetos não foram muito longe, ficando no meio do caminho. São Paulorealmente se tornou uma metrópole moderna, um grande centro de negócios e de agitaçãocultural, advinda justamente da quantidade impressionante de nacionalidades distintas que acidade atrai desde os tempos da imigração. Por outro lado a capital paulista cresceu desigual, 18
  19. 19. conservando e aumentando os abismos entre centro e periferia, brancos e negros, ricos epobres.Bibliografia:Fontes:Arquivo Público do Estado de São Paulo – Seção de Acervo: Biblioteca eHemeroteca Jornais:“A Província de São Paulo/ O Estado de São Paulo” (1888-1910)“Correio Paulistano” (1888-1910)“Diário Popular” (1888-1910)Livros:ALBUQUERQUE, Wlamyra R. de. O jogo da dissimulação: abolição e cidadania negra noBrasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.ANDREWS, George Reid. Negros e Brancos em São Paulo (1888-1988). Bauru, SP. EDUSC.1998.AZEVEDO, Célia Maria Marinho de. Onda Negra, medo branco; o negro no imaginário daselites – século XIX. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1987.DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX. SãoPaulo: Brasiliense, 1984.FREYRE, Gilberto. Os escravos nos anúncios de jornais brasileiros do século XIX. SãoPaulo. Global. 2010.GAY, Peter. O século de Schnitzler: a formação da cultura da classe media: 1815-1914. SãoPaulo: Companhia das Letras, 2002.GORENDER, Jacob. O escravismo colonial. 4ed. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2010.GRINBERG, Keila & SALLES, Ricardo. Brasil Imperial. Vol.3. Rio de Janeiro: CivilizaçãoBrasileira, 2010.JACINO, Ramatis. O branqueamento do trabalho. São Paulo: Nefertiti, 2008.MACHADO, Maria Helena. O plano e o pânico: movimentos sociais na década daabolição.Rio de Janeiro: Editora UFRJ, EDUSP,1994. 19
  20. 20. RAGO, Margareth. Do cabaré ao lar. A utopia da cidade disciplinar-Brasil 1890-1930. SãoPaulo,Paz e Terra. 1997.SANTOS, Carlos José Ferreira dos. Nem tudo era italiano: São Paulo e pobreza: 1890-1915.Annablume, 1998.SCHWARCZ, Lilia Moritz. Retrato em branco e negro. Jornais, escravos e cidadãos SãoPaulo no Final do século XIX. Cia das Letras, São Paulo. 1987._______________________. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racialno Brasil – 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. 20

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