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ARTIGO
Gênero feminino no século XXI: Os feminismos e as múltiplas formas de
coexistir entre as mulheres
Resumo:
Sobre u...
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Afinal, por que tantas vertentes? O que há de novo no feminismo que não
representa mais todas as mulheres? O que vem se ...
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O intuito é quebrar com paradigmas quase que institucionalizados em nossa
cultura e que impossibilitam o feminismo de re...
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Quanto ao acesso a educação, mesmo que segregado¹, com diversas falhas
e barreiras internas, já se indignavam com as for...
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Vemos portanto, uma busca emancipadora de mulheres da elite e de classe
média, entretanto inspiradas por certa liberdade...
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e impulsionando a migração para centros urbanos, além das imigrações europeias,
num contexto de duas Grandes Guerras.
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Havia mais companheirismo entre os casais, mesmo que aparentasse apenas
em teoria, afinal, em prática, até hoje alguns h...
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isso é o que define a ‘condição feminina’, e não a biologia como
acreditava o senso comum.” (PEDRO, Joana M. 2012, pp. 2...
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construir “marcos teóricos.”5 Ou seja, é mais fácil dizer para que serve o feminismo,
do que discorrer sobre o que é em ...
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social do caráter humano7. Elas entendiam, em sua maioria, que só as diferenças
biologias entre homens e mulheres não d...
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mulheres transexuais e mulheres pobres, mulheres do campo, e etc. Ou seja,
mulheres que faziam parte de vários esquemas...
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diante, foi feito para compreender o que perdura no imaginário social feminino,
selecionei diferentes mulheres que tem ...
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2-Contexto Atual.
No início do século XXI, nos âmbitos urbanos industriais do país, as
diferenças de classe são cada ve...
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produções artísticas, na música, cinema, arte moderna e etc, propagam discursos de
igualdade para descontruir parâmetro...
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“Legitimada pela ideologia patriarcal, institucionalizada e garantida por
leis, a dominação masculina fez do espaço do ...
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periferia, são as musicas da Feminina. Um grupo de Hip Hop que teve inicio no ano
2000, DF. As mesmas fazem mais sucess...
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O meu pai embriagado, nem lembrava da filha
O meu príncipe encantado, meu ator principal
Me chamava de "filé" e eu acha...
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Valesca Poposuda é uma grande artista contemporânea e revolucionou o funk
carioca, possuí 13 anos de carreira e já part...
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agora também pode ser medida, por ela, pela independência que conquistou, não
aceitando mais ser chacota de ridiculariz...
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“Eu vou mostrar pra você o que sou
E eu exijo ser tratada com amor
Eu vou mostrar pra você o que sou
Mulher guerreira, ...
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Preconceito não rola, não cola, não é durex
Talento no hip-hop é unisex(...)”
A produção artística fala por si só, adve...
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antes do casamento já não era tão repudiado. Havia informalidade de
relacionamentos agora, onde o termo “ficar” já era ...
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No local do pega pega eu esculacho tua mina
No completo, ou no mirante, outro no muro da esquina
Na primeira tu já cans...
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homens eram mais requisitados em vista dos trabalhos árduos que exigiam muito
esforço físico, sem contar que elas eram ...
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Muitas resistiram e persistiram, na medida do possível, para se libertarem da
dualidade opressora que sofriam.
Entretan...
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Em uma tentativa de resgate à memória e da valorização da cultura Afro,
utiliza sons com estimulante energias positivas...
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“(...)A participação na Conferência provou que as militantes negras
brasileiras das décadas de 1980 e 90 haviam aprendi...
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“Eu não gosto de meninos
Não é nada com você
Nem com você
Eu prefiro as garotas
Vocês devem entender
Vocês também prefe...
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lésbicas e mulheres transexuais também levam suas pautas quanto ao gênero
feminino e a orientação, afinal elas estão ex...
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Sinbora DJ que eu quero cantar
Mulher com mulher é bom de beijar
Se joga na pista e venha ser free
Bate cabelo comigo é...
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Não encontrei uma produção artística brasileira que mencionasse a
sexualidade do ser trans gênero. Apenas uma cantora m...
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Peito pra dar de mamar
Peito só pra enfeitar
Mulher faz bem pra vista
Tanto faz se ela é machista ou se é feminista
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Outro movimento de mulheres que batalhou para conquistar espaço público,
mas obteve grande repulsa de muitas feministas...
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Ela rebola, rebola, rebola
Ela quer dólar, quer dólar, quer dólar
Moça do bem
Cria os filhos com atenção
Não zoa com ni...
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trabalho, também encontra-se crianças e adolescentes. Segundo a ONU em 2000,
haviam cerca de cem mil mulheres e criança...
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tinham um grande número de mulheres ativistas e militantes. Muitas não se
intitulavam feministas, pois não se viam repr...
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humano é individual e tem haver com as relações do homem com o meio, e vice-
versa. Sendo o ser único, a identidade nun...
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sequência apontam certas diferenças entre homens e mulheres, não como vítimas
ou vilãs, apenas como diferentes:
“Mexo, ...
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Ou por que não transformar esses feminismos em um “feminismo das
diferenças26” capaz de compreender as diversificadas r...
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Sobre um feminismo que, no Brasil, se inicio no fim do século XIX e já sofreu diversas transformações, reformulações e divergências, o intuito é compreende-lo no início do século XXI. Percorrendo o imaginário social popular observaremos produções musicais do período cantadas por mulheres, para entendermos como se manifestam os discursos de gênero feminino, além de problematizar a dificuldade deste movimento social e intelectual em se disseminar e abranger todas as mulheres atualmente.

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  1. 1. 1 ARTIGO Gênero feminino no século XXI: Os feminismos e as múltiplas formas de coexistir entre as mulheres Resumo: Sobre um feminismo que, no Brasil, se inicio no fim do século XIX e já sofreu diversas transformações, reformulações e divergências, o intuito é compreende-lo no início do século XXI. Percorrendo o imaginário social popular observaremos produções musicais do período cantadas por mulheres, para entendermos como se manifestam os discursos de gênero feminino, além de problematizar a dificuldade deste movimento social e intelectual em se disseminar e abranger todas as mulheres atualmente. O contexto nos permite enxergar um movimento fragmentado que leva à pauta questões diferentes, nos possibilitando chamar de “feminismos” graças a tamanha diversidade, sem contar que também nos propicia a entender quais as principais lutas intituladas feministas no início deste século. Palavras chave: Feminismos; mulheres; música; imaginário popular; patriarcado; diversidade. Introdução: No jornal da Folha de São Paulo, texto publicado dia 8 de março de 2015, dia da mulher, a jornalista Ursula Passos nos apresenta uma problemática, bem discorrida nas mídias de socialização digital, a dificuldade de se discutir o feminismo atualmente. “RESUMO: Após uma primeira onda marcada por reinvindicações de direitos políticos, e de uma segunda onda concentrada na luta por igualdade de papéis e liberdade sexual, o feminismo atual incorpora novos temas. Potencializado pela internet, o discurso contemporâneo é mais diversificado e se entrelaça com reinvindicações específicas.” (p. 6) Nas vias de comunicação social, principalmente conectados à internet, como comenta a jornalista, nos deparamos com vertentes e discursos que hora são extremistas e propagam um feminismo mais tradicional, hora promovem o velho e conservador machismo (que vem sendo descontruído aos poucos), ou até vertentes que por hora até viabilizam a igualdade entre homens e mulheres, porém não se intitulam feministas.
  2. 2. 2 Afinal, por que tantas vertentes? O que há de novo no feminismo que não representa mais todas as mulheres? O que vem se transformando afinal no embasamento teórico que o torna um discurso com diversas facetas? O que propôs um dia e o que propõe atualmente? Quais as principais barreiras para que se desenvolva e passe a representar todas as pessoas enquanto gênero feminino? Para responder essas e outras perguntas que assombram feministas ou outros grupos que pensam o conceito de “ser mulher”, proponho rever o feminismo em seus primórdios, as teorizações desse discurso e como vem sendo compreendidas no presente, principalmente no Brasil no início do século XXI, e como as mulheres se compreendem neste contexto navegando no imaginário popular da música brasileira deste período. Traçado o seguimento contextual, observamos o decorrer dos processos no feminismo passando pelas transformações/conquistas no espaço público e o feminismo de primeira onda, até as modificações e obtenções de direitos na vida privada e o feminismo de segunda onda. Tal seguimento é de suma importância para compreendermos permanências e modificações, além de perceber como se estruturou a diversidade dos discursos atualmente. Até para analisar os embates no campo teórico e abrir questionamentos tais quais: como se comportou o discurso feminista diante das rupturas e permanências dos padrões sociais femininos? De que modo o discurso contribuiu com as transformações? Quais os principais argumentos científicos que discorrem as feministas? Relacionando as letras musicais interpretadas apenas por artistas femininos com as produções historiográficas dos estudos feministas mais recente desenvolvido por mulheres, tentaremos compreender a pluralidade dos discursos e até mesmo as diversas formas em que mulheres se compreendem como agentes históricos sociais. Tal analise nos possibilita entender que o próprio feminismo é um produto de seu tempo e também se modifica conforme as transformações históricas. Atualmente existem ramificações dos discursos, alguns com forte influência às mais tradicionais teorizações e outros com propostas diversificadas que cabem ao contexto presente, que também agregam outras problemáticas, mas que só foram possíveis graças aos anteriores. Sendo assim podemos nos desprender de valores antigos, que foram importantes, mas não cabem mais ao tempo presente, para então fazer valer o feminismo a todas as mulheres. Elas que compõe uma unidade no quesito gênero, mas que são ao mesmo tempo plurais, pois a construção do caráter social é única e esbarra-se com diversas realidades.
  3. 3. 3 O intuito é quebrar com paradigmas quase que institucionalizados em nossa cultura e que impossibilitam o feminismo de representar todas as mulheres respeitando às maneiras de coexistir, formando assim uma unidade de luta política mais fortificada à medida que se entrelaça a outras batalhas sociais atualmente. Conquistando espaços públicos: Fim do século XIX, no Brasil a chegada da República trouxe novas aspirações às futuras transformações, se não ainda de gênero, no mínimo algumas mulheres conseguiram iniciar suas conquistas no espaço público. Por mais que ainda fossem, em muitos aspectos, alvos do modelo estrutural da família patriarcal, iniciam-se neste período as transformações. Modelo este que as coloca em condição secundaria além de contribuí com a construção do papel social e do que é pertencer ao universo feminino. Com um Brasil em processo de “modernização”, o fim da escravidão e da monarquia, um passado que era necessário esconder, em vista do numero grande de imigrantes e a crescente urbanização como no sudeste, acabou por não trazer somente mudanças de cunho politico e econômico. Transforma-se rapidamente as maneiras com que o indivíduo se relaciona com o meio. Um novo modo de produção vem para transformar as relações com o mundo, com ideias de “liberdade, igualdade e fraternidade”, mesmo que não fosse válido para todos, ou atingisse todas as camadas sociais do vasto país. Aos poucos mulheres além de cuidar da casa, filhos e do marido (respeitando e obedecendo), podiam trabalhar para complementar a renda familiar, desde que não se pecasse nos outros afazeres, no caso haviam também as que já trabalhavam por necessidade e não eram bem vistas, como descendentes de escravos livres ou libertos e mulheres pobres. Nas fábricas e nos campos, trabalhos árduos, precários, com jornada de trabalho extensiva para as que não podiam dispor, e ainda não eram bem vista, além de ganharem menos que os homens. Havia também as que se dedicavam ao comércio como: armazém, açougues, quitandas, vendas, e etc. Sendo que muito desses empreendimentos levavam nome de suas proprietárias.1 Ao poucos, mulheres da alta burguesia almejavam desenvolver uma vida profissional e conquistar certa liberdade econômica, além da autossuficiência. Mas profissões como operária, costureira, lavadeira, doceira, florista, artistas (dançarinas, cantoras, atrizes) foram alvos de estereótipos que logo a sociedade as via como prostitutas e as culpavam de “perdição moral”. 1 BORELLI, Andrea & MATOS, Maria Izilda. 2012.
  4. 4. 4 Quanto ao acesso a educação, mesmo que segregado¹, com diversas falhas e barreiras internas, já se indignavam com as formas diferentes que tratavam os sexos. No fim do séc. XIX poucas eram as mulheres que obtinham acesso à educação de nível primário e secundário, das poucas, eram em maioria mulheres elitizadas. Muitas acabavam por se tornar professoras, afinal a profissão dispunha de certa autonomia intelectual e também possibilitava trabalhar meio período, ou seja, podiam dedicar-se também à família. O magistério acaba tornando-se uma profissão quase que inteiramente feminina e adequava-se aos tipos de vida que levavam essas mulheres da elite e da burguesia. Feminismo de primeira onda: Na luta pelo direito ao voto, por exemplo, foram negadas emendas à Constituição em assembleia no ano de 1891, que viabilizavam voto feminino. Entretanto, não faltaram mulheres dispostas a modificar tais realidades, a primeira advogada reconhecida pela OAB em 1906, Myrthes de Campos e a professora Leolinda Deltro tentaram conquistar o alistamento eleitoral2. A professora, por exemplo, organizou uma luta política. Fundando em 1910 o Partido Republicano Feminino, que até promoveu passeatas em 1917 no Rio de Janeiro totalizando 84 mulheres, e por mais não tivessem sido reconhecidas perante a ordem pública e que as pautas nem tivessem chegado a ser discutidas, surpreenderam muitos. Bertha Lutz, no mesmo contexto do início do século XX, após ter chegado da Europa onde teria ido para estudar Biologia, chega ao país dando início a campanha de emancipação feminina. Bertha foi a segunda mulher a entrar no serviço púbico no Brasil, passando no concurso para o Museu Nacional em primeiro lugar, tornou-se uma das principais referencias no movimento de mulheres do período. Percebemos que mulheres conquistavam o espaço público com luta, mesmo em frente a uma sociedade que as inferiorizavam, com coragem e tamanho brilho da capacidade intelectual como estas e outras da época. Como cita Rachel Soihet: “A educação feminina, considerada essencial para emancipação das mulheres, foi outro ponto de destaque da atuação feminista que pleiteavam, passa as mulheres, direitos idênticos aos dos homens, a fim de que estas dispusessem dos mesmos meios para o exercício do trabalho, com isso, obtivessem a mesma remuneração.” (SOIHET, Rachel. 2012. P.221) 2 SOIHET, Rachel. 2012
  5. 5. 5 Vemos portanto, uma busca emancipadora de mulheres da elite e de classe média, entretanto inspiradas por certa liberdade econômica e de autossuficiência que tinham as mulheres pobres, em vista as necessidades do trabalho para sobreviver. Apesar de certas resistências, até meados do século XX no Brasil, no imaginário social que percorria intensamente não restavam dúvidas de que “por natureza” as mulheres estavam destinadas ao casamento e a reprodução, tinham a maternidade e a boa dona de casa como modelos a serem seguidos. A construção desse imaginário, que percorre entrelaçado aos moldes do patriarcado, define a mulher um papel social baseado funcionamento biológico do corpo humano, onde se define uma condição do que é ser mulher e um modelo a ser seguido. Antes da metade do século XX, existia um molde mais rígido, e parecia ir contra as aspirações de modernidade que o país visava para República, mas que aos poucos eram desconstruídos na medida em que mulheres conquistavam o espaço público. Como cita Pinsky: “Os novos hábitos das ‘moças de família’, como ir sozinha às compras ou à escola tinham, como contrapartida, submeter-se aos olhares controladores, não ó dos familiares, mas também dos médicos, políticos e autoridades jurídicas(...)” (PINSKY, Carla B. 2012. P.476) “Moças de família”, “boas esposas”, “boas mães”, “ donas de casa” e outros modelos do que é ser mulher, de como agir, eram tão presentes no cotidiano da sociedade que era algo naturalizado . Podemos especular que o desenvolvimento do capitalismo no Brasil, em certo nível possibilitou a emancipação feminina, mesmo que a fins acumulativos de tarefas, em vista ao novo público consumidor e trabalhador, mas que não poderia dar-se ao luxo de priorizar trabalhos ou estudos que não aspirassem o casamento. O capitalismo aceitava a mulher trabalhadora, mas não descontruía a visão que muitos partilhavam, que a colocavam como auxiliar ou secundária, porém fora o suficiente para que mulheres iniciassem as desconstruções dos estereótipos implícitos a mentalidade da modernidade e pós- modernidade. Conquistando espaços íntimos e o controle da vida privada: Implantada a ditadura militar no país e o chamado Estado Novo (1937) propiciou um contexto conturbado, de muita repressão social e com níveis extremos nas estruturas econômicas do país, deixando algumas regiões em máxima pobreza3 3 MELLO, J. M. C. de; NOVAIS, F. “Capitalismo tardio e sociabilidade moderna”. In: SCHWARCZ, L. M. História da vida privada: contraste da intimidade contemporânea. São Paulo: Cia. Das Letras, 1998. p 574-586.
  6. 6. 6 e impulsionando a migração para centros urbanos, além das imigrações europeias, num contexto de duas Grandes Guerras. Após 1945, intensificam-se os movimentos sociais em busca de uma democracia no país, paralelos aos movimentos feministas, como movimentos juvenis, movimentos pacifistas, pelas lutas dos direitos civis dos negros e outras minorias no mundo todo. Na América latina, os movimentos de resistências aos governos ditatoriais. As mulheres obtiveram grande participação nesses movimentos, muitas vezes não tão aceitas por homens que tomavam frente, mesmo assim participaram de mobilizações organizadas no Rio de Janeiro e em São Paulo, para enviar roupas de lã aos soldados na Itália, por exemplo, lutavam também contra elevação do custo de vida, mulheres negras na luta pela desigualdade social e etc. Grupos específicos femininos que discutiam pautas quanto a discriminação sexual, crianças, famílias, saúde, intensificam-se após a 2º Guerra mundial. Apesar da década de 60 ter sofrido forte repressão militar, o que pairava entre os jovens era uma espécie de rebeldia, passavam por uma revolução na intimidade sexual, a sexualidade era reconhecida agora para além da reprodução da espécie, homens e mulheres podiam dispor de sua sexualidade onde ambos sentiriam prazer, por mais que fosse cobrada fidelidade plena da mulher de maneira hipócrita já que os homens não possuíam os mesmos deveres, e se o marido fosse adultero, a culpa era sempre da esposa. A industrialização intensificou-se, cada vez mais a mulher tornava-se alvo de propagandas, produtos específicos, seja para beleza, saúde, utensílios domésticos, produtos de limpeza, etc. As roupas também começavam modificar, e cada vez mais a trabalhadora e dona de casa era “aceita”, apesar de possuir salários mais baixos que os dos homens e ter que realizar as tarefas de casa sozinha. Entretanto uma novidade chegara para desmistificar o destino que parecia inerente a todos os seres femininos: a gravidez. Métodos contraceptivos, os anticoncepcionais e pílulas pareciam dispor de um poder agora para moças controlarem suas próprias vidas, decidir se gostariam de ter filhos e quando os teriam, podendo planejar-se, gozar da vida sexual e do prazer íntimo. Porém, alguns movimentos de emancipação da mulher, que até aceitavam essa revolução da sexualidade e a trabalhadora que “controla” a própria vida e começavam a mostrar repulsa ao que se chamava de feminismo, como nos apresenta Mary Del Priory4, ao analisar a revista “Ele&Ela” iniciada em 1969, percebe que continuam a ditar o que as mulheres deveriam fazer ou como agir, onde havia até distinções claras do tipo de mulher que era modelo para casar e para se divertir. 4 DEL PRIORE, Mary. 2001, pp.179-186.
  7. 7. 7 Havia mais companheirismo entre os casais, mesmo que aparentasse apenas em teoria, afinal, em prática, até hoje alguns homens, esperam que as mulheres se dediquem mais aos serviços domésticos e algumas mulheres monopolizam os cuidados dos filhos. Claro que não em um modelo tão rígido quanto há algumas décadas, todavia, ainda sim permanente. Carla B. Pinsky apresenta três possíveis problemáticas desta nova mulher, superpoderosa, moderna, mãe de família e trabalhadora. Primeiro, a desvalorização das tarefas domésticas pelas donas de casa, acabam por desvalorizar e não reconhecer também as mulheres que de fato querem se dedicar ao lar. Segundo, os homens agora não se sentiam tão “obrigados” a ajudar na renda para os filhos, ainda mais quando divorciados, afinal não tinham mais que honrar seus valores como anteriormente. Terceiro, como já citado, a mulher acumulava tarefas e novos modelos deveriam ser seguidos: uma profissional bem sucedida, mãe exemplar, mulher bem resolvida e dentro de padrões estéticos, tanto de vestimenta quanto na forma como o corpo físico se apresenta. Feminismo de segunda onda: Seria necessário travar outra batalha: desconstruir e transformar o imaginário social, para conquistar plena liberdade no âmbito individual e na vida privada, se desprendendo das moralidades, valores e ideologias do patriopoder que dificultavam a busca pela igualdade e cada vez mais eram discorrido até por mulheres a favor da emancipação feminina, quase sempre ditavam modelos à serem seguidos. Os primeiros grupos que se tem noticias surgiram em São Paulo em 1972, onde muitas mulheres intelectualizadas, que na maioria das vezes havia viajado para Europa e entrado em contato com um discurso de libertação e emancipação da mulher, passaram a discutir e idealiza-los aqui no Brasil, contribuindo para a construção de uma consciência social do agente histórico feminino. Com experiências, livros e discursos que pautavam o feminismo (uma questão discutida já entre europeias e norte americanas), possibilitou-se realizar reuniões e encontros para simpatizantes do movimento no Brasil. Preocupavam-se também em discutir questões sobre a sexualidade feminina, o corpo, e etc, o intuito era desenvolver um grupo de consciência e reflexão. Joana Maria Pedro discorre sobre o que debatiam estas mulheres: “Essas mulheres consideravam que a vida privada era fruto da sociedade. Abraçaram, então, slogan feminista difundido internacionalmente: ‘O pessoal é político’. Além disso, questionavam os preconceitos machistas e preocupavam divulgar para além do circulo restrito dos grupos, a ideia do ‘orgulho de ser mulher’, entendendo que
  8. 8. 8 isso é o que define a ‘condição feminina’, e não a biologia como acreditava o senso comum.” (PEDRO, Joana M. 2012, pp. 244-245) Quanto às imagens que atribuíam ao modelo feminino e que continuam sendo atribuídos, Pinsky faz uma boa colocação: “Há muito mais à dizer sobre a trajetória das imagens femininas no Brasil. E é de grade relevância uma Historia das transformações de representação da mulher negra, da execração ao resgate orgulhoso. Também das diferentes concepções que envolvem a figura da ‘mulata’(...). Ou os distintos modos de encarar a mulher do campo nos séculos XX e XXI. E por que não uma História das imagens das mulher brasileiras que fizeram nossa fama no exterior(...) Fartamente corroborada por campanhas publicitárias, fotos e filmes de nossas praias ou desfiles de carnaval(...) a ‘brasileira’ é internacionalmente famosa por seus atributos físicos e ausência dos pudores puritanos(...)” (PINSKY, Carla B. 2012, p.541) E concluí com relação aos tipos de transformações e permanências dos períodos rígidos e flexíveis que marcaram e marcam a historia das mulheres, e compreender ter sido fundamental: “(...)Estabelecer o processo histórico da configuração das imagens femininas e o contraste entre os dois períodos(...). Claro, o tradicional insiste em conviver com o moderno, mas os modelos são frutos de seu tempo, podem sofrer mudanças e ser controlado por diferentes sujeitos históricos.(...)” (PINSKY, Carla B. 2012, p.541) Percebemos que o feminismo sofreu rupturas, transformações e ganhou várias vertentes, como um produto de seu próprio tempo, mas como chegou no que é hoje? Por que tantos seguimentos que preferem manter-se longe da conotação linguística “feminismo”? Bases teóricas e os conflitos de segunda onda: Maria Odila Leite da Silva Dias ao teorizar os conceitos feministas, nos diz ser uma tarefa difícil, e que aventurar-se nessas pesquisas é no mínimo complicado, afinal trata-se mais de uma tentativa de descontruir “parâmetros herdados do que
  9. 9. 9 construir “marcos teóricos.”5 Ou seja, é mais fácil dizer para que serve o feminismo, do que discorrer sobre o que é em linhas teóricas. Até porque divergem muitos pensamentos, ainda mais quando se atreve o feminismo a descontruir estereótipos naturalizados e cotidianos, na esfera da vida privada. Mesmo assim, as relações teóricas e metodológicas que utilizamos tem forte ligação com o Marxismo, materialismo histórico e conceito dialético, interdisciplinar também quando utiliza a psicanalise e os estudos das mentalidades. Tudo isso porque entre as potencialidades básicas do feminismo, pretende-se na realidade, criticar relações de gênero herdadas da cultura do pátrio poder, analisando as construções históricas socioculturais, a fim de compreendê-las e por fim desconstruí- las ou desmistifica-las, no intuito de contribuir para as transformações deste processo histórico. Consiste também em reconhecer a mulher enquanto ser social e agente histórico, na tentativa de resgatar a consciência histórica, para compreender o passado como uma temporalidade passível de transformações do que um dia foi condicionado à mulher, ou melhor, ao gênero. Para compreendermos “gênero”, entrelaço minhas pesquisas ao artigo de Linda Nicholson6, que se faz clara o suficiente na compreensão contemporânea de dois conceitos inerentes aos estudos feministas: mulher e gênero. Para ela, “gênero foi desenvolvido e é sempre usado em oposição a ‘sexo’, para descrever o que é socialmente construído, em oposição ao que é biologicamente dado. Aqui ‘gênero’ é tipicamente pensado como referencia a personalidade e comportamento, não ao corpo.” (p, 1) Na historia europeia do século XVII, XVIII e principalmente XIX, as teorias cientificistas do homem como matéria física, colocavam em pauta a importância de se compreender a natureza biológica e as configurações específicas do ser humano. O corpo já carregava em si dados “determinantes” do ser, as teorias que definiam as diferenças físicas do ser reforçavam a cultura de dominação do gênero masculino, tendo o macho como o mais forte e a fêmea condicionada a gestação, um ser mais frágil, servindo de álibis para opressão, além de contribuir para conceitos de dominação por raça, por exemplo, no século XIX, mais um álibi para dominação. As influencias são imensas, o órgão sexual biológico determinava sua posição no mundo, ou no mínimo ditaria sua funcionalidade, e as feministas do século XIX compreenderam muito bem a opressão pelo sexismo, porém entendiam que a identidade sexual era definida pela biologia em concomitância à uma construção 5 DIAS, Maria Odila da Silva. Teorias e método dos estudos feministas (perspectiva histórica e hermenêutica do quotidiano). São Paulo, 1990. Mimeo. p, 39. 6 NICHOLSON, Linda. 2000.
  10. 10. 10 social do caráter humano7. Elas entendiam, em sua maioria, que só as diferenças biologias entre homens e mulheres não davam conta de explicar as diferenças sociais que se estabeleceram. Entretanto, é incrível perceber como existem divergências e como o próprio feminismo vem apresentando falhas. Como já disse, foi de suma importância para chegar no que somos hoje mas, como todo processo, exige transformações em fronte as novas necessidades. Feministas mais radicais, principalmente a partir dos anos 60,compreender bem as diferenças sociais que foram construídas, mas definem a mulher a partir de seu funcionalismo biológico e generalizam, através da história, as diferenças e definiam o que é ser mulher ao seu modo. Como cita Linda Nicholson: “Dizer que ‘as mulheres são diferentes dos homens desse ou daquele jeito’ é dizer que mulheres são ‘desse ou daquele jeito’”. (NICHOLSON, Linda. 2000, p. 20) Ou seja, mesmo o feminismo de segunda onda inicialmente, visando descontruir parâmetros herdados do patriarcado, baseava-se em uma generalização histórica em comum do que é ser mulher e não levava em consideração as diferenças que existem entre as próprias mulheres, até porque as que mais pensavam o feminismo, me sua maioria, eram intelectuais, burguesas, elitistas, brancas, cisgênero8 e heterossexuais. E como percebeu Mary Del Priori, ao falar da cultura massificada que se expressava nos meios de comunicação mais comuns dos anos 70 e 80, como TV, rádio, jornais e revistas: “Aos trancos e barrancos, discutiam-se um novo modelo de feminilidade, mas também de masculinidade”.(p.179) Isso fez com que mulheres, principalmente no período citado, tivessem grande repulsa pelo feminismo, muitas se desvincularam e preferiam participar de movimentos de mulheres, para não ficarem taxadas, afinal o feminismo virou sinônimo de mal amadas, lésbicas e masculinizadas. Muitas teóricas não relativizavam a importância de outras realidades sociais, e não compreendiam a pluralidade do ser humano quando se deparavam com: mulheres negras, lésbicas, 7 Simone de Beauvoir, a corrente filosófica do existencialismo e os pensamentos de Marx que discorrem sobre a forte influencia da sociedade na construção do caráter humano, são suporte que dão asas ao feminismo no século XX. 8 “Cisgênero: Pessoa cuja identidade de gênero coincide com o sexo biológico. Aquelas que são biologicamente mulheres e possuem identidade de gênero feminina ou biologicamente homens e possuem identidade de gênero masculina.”( APUD.Coordenação de Políticas para a Diversidade Sexual. Diversidade Sexual e cidadania LGBT. São Paulo: SJDC/SO, 2014. P 16.)
  11. 11. 11 mulheres transexuais e mulheres pobres, mulheres do campo, e etc. Ou seja, mulheres que faziam parte de vários esquemas de dominação social, por outras realidades além do sexismo, que também contribuíram para a formação do caráter social destas pessoas não se sentiam representadas pelo feminismo. Apesar dessas mulheres estarem presentes, contribuindo , servindo de inspiração e enfrentando o modelo de dominação, desde os primórdios do feminismo, mesmo que não compreendessem o termo cientifico e teorizado. Linda Nicholson defende: “(...) o feminismo precisa abandonar o funcionalismo biológico junto com o determinismo biológico. Defendo que a população humana difere dentro de si mesma, não só em termos de expectativas sobre como pensamos, sentimos e agimos; há também diferenças de como entendemos o corpo(...)” (p.6) As mulheres são diferentes dos homens, e isso não é álibi para opressão, pois o biológico não define sozinho o caráter humano, mas também a formação do caráter não é apresentada apenas por uma faceta da construção sociocultural da raça humana, afinal somos seres plurais, possuímos semelhanças, mas também diferenças. Podemos partilhar as mesmas experiências, o que nos une como grupo, mas isso não define nossa realidade total. . Mulheres no início do século XXI: 1-Metodologia A história social das mulheres é uma temática de multiplicidades temporais, é um processo de longa duração, mas também está vinculado à conjunturas e estruturas que sofreram simultâneas transformações ao longo de sua existência. Para entendermos essas vertentes, me dispus a pesquisar essas continuidades nos discursos feministas9, compreendendo como o gênero feminino se reconhece atualmente e que efeitos surtiram na sociedade atual os processos que foram sendo alterados, no fim do século XIX até dado presente. Atentei-me analisar apenas nos cenários urbanos brasileiros, centros industriais, bem povoados e onde os feminismos davam seus primeiros passos. Um levantamento de algumas músicas cantadas por mulheres, dos anos 2000 em 9 . Proponho nomeá-los de “feminismos” a partir de agora, frente ao caráter plural e divergente dos discursos.
  12. 12. 12 diante, foi feito para compreender o que perdura no imaginário social feminino, selecionei diferentes mulheres que tem reconhecimento popular bem repercutido no Pop, Funk, Hip Hop, Rap, Forró, Sertanejo e MPB. Estas fontes primarias podem ser encontradas no Youtube 10. É de cunho duvidoso quanto ao ano exato de lançamento das produções musicais, porém o site certifica de que o material de fato é popular pois disponibiliza em quantidade as visualizações e usuários inscritos no canal onde o conteúdo digital foi postado. Além de indicar o ano de lançamento para alguns video clipes e data da postagem, preferi definir a periodização pensando apenas no recorte, como uma produção do inícios do século XXI. A cultura popular pode ser compreendida por suas obras, afinal, tais tem um sentido social, ideológico e histórico, sendo a música “sincrônica” e “diacrônica”. Sincrônica porque está ligada à um tempo/espaço determinado, o que possibilita ser uma fonte histórica. Diacrônica porque torna-se patrimônio cultural, sendo transmitido ao longo do tempo e podendo sofrer releituras com outros sentidos e significados socioculturais.11Entretanto, há de se relevar, irei utilizar da historiografia recente, dos estudos feministas e entrelaça-los às músicas. Até porque, como disse Marco Napolitano: “A partir desse procedimento, o historiador pode perceber quais parâmetros foram destacados numa canção ou peça instrumental, quais foram os critérios de julgamento de uma determinada época, como foram produzidos os sentidos sociais, culturais e políticos a partir da circulação social da obra e de sua transmissão como patrimônio cultural coletivo. No caso da música popular, sua natureza industrial deve ser pensada como parte da estrutura de criação e circulação da obra, emprestando- lhe um estudo de “obra de arte na era da reprodutibilidade técnica” que não pode ser abstraído na análise e submetido aos imperativos puramente estéticos.” (p.260) Essas obras servirão para compreendermos esses feminismos, possibilitando quebrar paradigmas, desconstruir visões que não cabem mais ao tempo presente e contribuir com a produção do conhecimento crítico à história das mulheres no Brasil. 10 Site que possibilita seus usuários carregarem ou compartilharem videos, em formato digital desde 2005. Há grande quantidade de filmes, videoclipes, conteúdos caseiros e etc. Está entre os sites mais populares na internet e o própria empresa de serviços online “Google”, comprou o Youtube em 2006. 11 . NAPOLITANO, Marcos. ; “Fontes audiovisuais: a história depois do papel”.; IN: PINSKY, Carla (org); Fontes Históricas.; São Paulo; Contexto; 2005. P, 254-260.
  13. 13. 13 2-Contexto Atual. No início do século XXI, nos âmbitos urbanos industriais do país, as diferenças de classe são cada vez maiores apesar da aparente ‘ascensão’ social, podemos agora falar em classes médias ou burguesias12. Vivemos tempos de continuidades às lutas sociais, frequentes passeatas e marchas, por reforma agrária, greves por um ensino público de qualidade e para todos, mulheres manifestando por direito ao corpo e sexualidade com lutas cada vez mais unidas ao público LGBT13, estes buscam direitos civis de igualdade na união do casal homo afetivo perante o Estado, além de visarem a desconstrução do patriarcado que também oprime homens/mulheres transexuais, orientação homossexual, etc. O movimento negro também é forte neste século, agora com mais conquistas, finalmente adquiridas, realização de cotas estudantis nas universidades públicas, um forte resgate a memoria Africana, entre outros, porém ainda na tentativa de descontruir o racismo mascarado do Brasil. Em contrapartida, a classe média também repudia suas insatisfações quanto ao governo da primeira mulher na presidência da República Democrática e vão as ruas pedir intervenção militar. As grandes mídias tem forte influencia neste contexto, manipulam e distorcem realidades, onde muitas destas (des)informações são discutidas nas vias de comunicação digital, outro fenômeno de grande relevância. Não são todos que estão conectados à rede, mas cada vez mais o capitalismo contribui na formação de um mundo digital, tecnológico e globalizado. Em busca de novos mercados? Provavelmente, porém a internet “democrática” torna-se um veículo para outras mídias alternativas se expressarem, organizarem movimentos, encontros, passeatas, desenvolverem ideias, contribuírem para disseminar o conhecimento. Com pontos negativos também, a internet, ou mais precisamente, as mídias sociais mostram o lado perverso, preconceituoso, com discursos de ódio sendo vociferados, entre insultos e podendo até gerar violência física. Pessoas que se sentem protegidas pelas telas de seus computadores ou smarthfones, e discorrem intolerância, desrespeito e conservadorismo no presente mundo moderno e tecnológico da era digital em nossa sociedade brasileira. E as mulheres? Cada vez mais presentes e mais viabilizadas. Continuam as formulações publicitárias hipersexualizando o corpo feminino, porém algumas 12 . Peter Gay já usava do termo para falar da diversificada classe de maneira categórica, hierárquica e com aspirações distintas na Europa. GAY, Peter. O século de Schnitzler. A formação da cultura da classe média.1819-1914. Tradução: S. Duarte – São Paulo :Companhia das Letras, 2002. 13 . LBGT: Sigla Internacionalmente utilizada para se referir aos cidadãos e cidadãs Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. In: Diversidade Sexual e Cidadania LGBT. São Paulo : SJDC/SP, 2014.
  14. 14. 14 produções artísticas, na música, cinema, arte moderna e etc, propagam discursos de igualdade para descontruir parâmetros machistas, além de forte militância nas redes de comunicação social, mulheres denunciam as desigualdades sexuais. Luta contra a violência à mulher A dupla Simone e Simaria, já com grande repercussão na música nacional, misturam o tradicional forró pé de serra com os ritmos do sertanejo universitário. As irmãs nordestinas do interior da Bahia começaram a carreira cedo e estão juntas há sete anos quando iniciaram ao lado do cantor Frank Aguiar. Desde 2012 apostaram uma carreira independente e, em seu canal no YouTube, já possuem mais de 90 mil inscritos com mais de 20 milhões de visualizações entre seus videoclipes. Na música “Ele bate nela” descrevem melodicamente o relacionamento de um casal, no qual o homem após o casamento mostrou-se possessivo e que agredia a esposa. Inicialmente o mesmo demostrava amor, mas com o passar do tempo parecia reconhecer a esposa sob sua tutela, violentando fisicamente e psicologicamente. Este tipo de atitude está estritamente relacionado com a cultura do patriarcado que estrutura as relações conjugais desde o Brasil colônia, como vimos, vem dando poder aos homens sobre as mulheres. Importante referencial à esta compreensão, foi a legislação que criminalizava o adultério, apenas por parte das mulheres, entre os códigos peinais do Império (1830-1890), anteriormente eram casos resolvidos na esfera da vida privada. Nas consolidações penais de 1932, a mulher que traísse o marido poderia sofrer pena de um a três anos de detenção, só em 1940 essa penalidade diminui para 6 meses, estendendo-se até 2005 onde o adultério deixou de ser crime no Brasil. As lutas feministas foram de suma importância para as transformações dessas leis, que tomaram mais força no movimento de segunda onda. Lana Lage e Maria Beatriz Nader analisam as mudanças e permanências na sociedade brasileira, e os casos de violência contra mulher em crimes “passionais” veiculados pela imprensa, muitas vezes de forma sensacionalista. As autoras comentam dos casos de morte entre Joana Maria Ramos(1905), anunciada pela mídia como : “(...)uma dengosa mulata, abundante de formas e de seduções(...) metida vaidosamente em seu vestido vermelho de bolinhas brancas, e com farto ramalhante de cravos-pernóstico(...)”14. Até as mortes que ocorreram após a criação da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres(2003) e a Lei Maria da Penha(2006), como o caso de Eliza Samudio (2010). Ambas dizem que a violência contra mulher foi até pouco tempo: 14 .Jornal: “La reine du bal”, APUD: LAGE&NADER. 2012, p.290)
  15. 15. 15 “Legitimada pela ideologia patriarcal, institucionalizada e garantida por leis, a dominação masculina fez do espaço do lar um locus privilegiado para a violência contra a mulher, tida como necessária para a manutenção da família e o bom funcionamento da sociedade” (LAGE, Lana & NADER, Maria Beatriz. 2012.p.287) É interessante relacionar essa citação de Lage e Nader, pensando a passagem da música onde as irmãs cantam: “E agora ele bate, bate nela E ela chora, querendo voltar para os braços de sua mãe E agora, eu tô sem saída, e se eu for embora Ele vai acabar com minha vida AAi aai Quanto dor eu sinto no meu peito Devia ter feito as coisas direito AAi aai Óh Deus me tire desse sofrimento Porque viver assim eu não aguento Só quero ser feliz” A vítima parece inserida de certa forma nessa ideologia institucionalizada, se vê sem saída diante da situação e ainda acredita que a culpa é dela ao dizer que deveria ter feito as coisas direito, afinal estaria o marido apenas utilizando do corretivo para manter a ordem da família15. Mulheres que talvez não compreendem os feminismos e que talvez entendem as opressões sexistas como naturalizadas no mundo. No fim do videoclipe , há a mensagem: “ Não se cale. Denuncie. Ligue 180.” Ou seja, as irmãs retratam a realidade de muitas mulheres ainda no país, denunciando os maus tratos e ainda encorajam as que partilham dessa experiência desastrosa para transformarem suas vidas, denunciando os abusos e violências na central de atendimento a mulher. Afinal isso só foi possível porque houve uma batalha travada por milhares de brasileiras, que contribuíram para as transformações no cenário público e criaram centrais tratando das violências . A Lei Maria da Penha n.11.340, aprovada em 7 de setembro de 2006, foi a principal vitória do movimento feminista segundo as autoras, porém ainda vem enfrentando inúmeros obstáculos para sua aplicação. Uma produção artística muito interessante de ser analisada, porque além de denunciar a violência contra mulher, as letras descrevem a realidade da mulher da 15 . “Família” neste sentido, compreendo como apresentou Arilda Ines Miranda Ribeiro(2000) em Mulheres educadas na colônia, onde a palavra provem do latim famulus que significa escravos domésticos de um mesmo senhor (p.82).
  16. 16. 16 periferia, são as musicas da Feminina. Um grupo de Hip Hop que teve inicio no ano 2000, DF. As mesmas fazem mais sucesso entre os jovens de comunidade, tiveram varias participações entre programas de violência e abuso contra adolescentes. As mulheres do grupo são bem conscientes e tomam frente às lutas dos direitos humanos da população periférica, direitos civis do negro e direitos da mulher, além de descrever a realidade dura, o envolvimento com drogas e a criminalidade em que estão expostos esta população. Elas não possuem canal no YouTube, seus videoclipe são postados por DJ’s, próprios de gravadoras que se propuseram a dirigi-los. A música “Rosas”, as levou ganhar o Premio Hutúz em 2005 na categoria de melhor demo feminino. Particularmente, uma letra forte, que propõe descrever a realidade de uma mulher da periferia que convivia com a embriaguez do pai, que batia na mãe e seu irmão se envolvendo com drogas e a criminalidade, até que conhece um rapaz que talvez trouxesse a esperança de mudar sua vida, até que fugiu com o mesmo, porém não bastou muito tempo, se viu na mesma situação de sua mãe, e seu “marido” a espancou. Continuaram, ela desistiu dos estudos, e engravidou. Porém quando deu a noticia, o homem drogado agrediu novamente, “amor de tolo, amor de louco” e a matou. “Hoje meu amor veio me visitar E trouxe rosas para me alegrar E com lágrimas pede pra eu voltar Hoje o perfume eu não sinto mais Meu amor já não me bate mais Infelizmente eu descanso em paz! Tudo era lindo no começo, lembra? Das coisas que me falou que era bom, sedução Uma história de amor, vários planos, desejo, ilusão E daí? Não tinha nada a perder, queria sair dali No lugar onde eu morava me sentia tão só Aquele cheiro de maconha e o barulho de dominó A molecada brincava na rua e eu cheia de esperança De encontrar no futuro a paz, sem tiroteio, vingança E ele veio como quem não quisesse nada Me deu um beijo e me deixou na porta de casa Os meus olhos brilhavam, estava apaixonada! "Deixa de ser criança!" - a minha mãe falava Que "no começo tudo é festa" e eu ignorava Deixa eu viver meu futuro, Zipá Muda nada, menina boba, iludida, sabe de nada da vida Uma proposta, ambição de ter uma família Entreguei até a alma e ele não merecia
  17. 17. 17 O meu pai embriagado, nem lembrava da filha O meu príncipe encantado, meu ator principal Me chamava de "filé" e eu achava legal No começo tudo é festa, sempre é bom lembrar! Hoje estou feliz, o meu amor veio me visitar Hoje meu amor veio me visitar E trouxe rosas para me alegrar E com lágrimas pede pra eu voltar Hoje o perfume eu não sinto mais Meu amor já não me bate mais Infelizmente eu descanso em paz! Numa atitude impensada, sai de casa pra ser feliz Não dever satisfação, ser dona do meu nariz Não aguentava mais ver a minha mãe sofredora Levar porrada do meu pai embriagado e à toa Meu irmão se envolvendo com as paradas erradas: Cocaína, maconha, 157, armas Eu estava feliz no meu lar doce lar Sua roupa, olha só, tinha prazer de lavar Mas "alegria de pobre dura pouco", diz o ditado Ele ficou diferente, agressivo, irritado Chegava tarde da rua, aquele bafo de pinga Batom na camisa e cheiro de rapariga Nem um ano de casado, ajuntado, sei lá Não sei pra que cerimônia, o importante é amar Amor de tolo, amor de louco, o que foi que aconteceu? Me mandou calar a boca e não me respondeu Insisti, foi mal, ele me bateu No outro dia me falou que se arrependeu Quem era eu pra julgar? Queria perdoar Hoje estou feliz o meu amor veio me visitar.” Neste caso, a narrativa é o desenrolar de uma história que acaba em morte. Mas há uma denuncia dupla que a vítima sofre: violência por ser mulher e dificuldades de enfrentar a vida, se esquivar das drogas e da criminalidade, por conta de sua classe social e a alta exposição à estes meios. Percebe-se que a jovem vê em seu “amor” uma expectativa para fugir dos problemas em que a classe esta exposta, mas acaba perdendo as aspirações de vida quando é também oprimida por ser mulher. Mulheres autossuficientes e advertências às condutas sociais do patriarcado
  18. 18. 18 Valesca Poposuda é uma grande artista contemporânea e revolucionou o funk carioca, possuí 13 anos de carreira e já participou do grupo Gaiola das Poposudas, repercutiu o funk internacionalmente entre EUA e Europa e é mundialmente conhecida. A mesma intitula-se feminista e é grande simpatizante do movimento LGBT, como mostrarei mais a frente. Nasceu em região periférica no Rio de Janeiro e é considerada rainha do funk pelos fãs e seu canal no Youtube tem mais de 162 mil inscritos, com mais de 65 milhões de visualizações. Na música “Ta pra nascer homem que vai mandar em mim” , o discurso percorre diante da quebra de estereótipos machistas em que a mulher se interessa pelo homem por seus bens materiais, não importando seu status social, muito menos seus poderes aquisitivos, este não tem mais o direito sobre a mulher, muito menos o direito de diminuí-la e ridiculariza-la. Valesca descreve uma mulher autossuficiente que nunca precisou da tutela masculina. “Tá para nascer homem que vai mandar em mim Tá para nascer alguém que vai me esculachar Tá para nascer e eu já falei pra tu Se ficar me enchendo o saco Mando tomar Tá para nascer homem que vai mandar em mim Tá para nascer alguém que vai me esculachar Tá para nascer e eu já falei pra tu Se ficar me enchendo o saco Mando tomar Vergonha na cara é coisa rara de se ver Mal sabe meu nome e já tá querendo me ter Nunca dependi de homem pra coisa nenhuma Se tuas negas são tudo assim, desacostuma.” Carla Bassaneze Pinsky comenta que: “Na virada para o século XXI, as piadas machistas contra esse tipo feminino não eram mais tão engraçadas ou escapavam incólumes de uma resposta contundente. E quando, finalmente uma mulher chegou à presidência da Republica no Brasil, as considerações depreciativas e os debates(...) parecem rançosos e ultrapassados.”(PINSKY, Carla B. 2012, p.540) Muitas mulheres do século XXI não aceitam mais serem subordinadas às vontade masculinas, ao menos não as mais explicitas como costumavam ser anteriormente, ao compreendermos os modelos rígidos. A auto realização feminina
  19. 19. 19 agora também pode ser medida, por ela, pela independência que conquistou, não aceitando mais ser chacota de ridicularizadores machistas. Mulheres usam inclusive seu próprio dinheiro para promover encontros, essa não é mais uma obrigação masculina. Como bem nos lembra Joana Maria Pedro talvez uma das melhores conquistas feministas que tivemos a partir dos anos 70 e 80 é o reconhecimento de outras maneiras de ser mulher, além das idealizadas à vida domestica ligada ao bom casamento com homem virtuoso que lhe sustentasse graças ao seu grande poder aquisitivo. “Vou te provar que eu não sou do tipo de mulher Que você paga uma bebida e eu dou o que tu quer Enfia teu malote no saco e lambe o cheque Tenho nojo de moleque Pode ser pagodeiro, empresário ou cantor Pode ser funkeiro, milionário ou jogador O que você faz da sua vida não interessa Vou mandar tu se f**** porque sou dessas.” Paradoxalmente, as mulheres em sua maioria, ainda estão submetidas a ocupações com menor remuneração, ou há casos em que recebe menos porém desenvolvendo a mesma ou mais funções que um homem e são as mais atingidas na taxa de desemprego, mas não desistem, assumem responsabilidades que as levam viver uma dupla jornada, vivem pro trabalho, para os estudos e para os filhos16. Não cairemos no erro de desvalorizar perspectiva da vida conjugal, apenas devemos reconhecer que há outras aspirações que podem almejar as mulheres do século XXI. Muito menos purificar os feitos femininos, até porque, atualmente, elas assumem altos cargos públicos, dirigem grandes empresas além de automóveis, são artistas renomadas, mas também, estão ligadas a esquemas de corrupção no país, perseguem inimigos políticos e participam de crimes organizados17. Novamente utilizo o grupo Atitude feminina com outra música, “Mulher Guerreira” para compreendermos estas diversas formas de ser mulher que presenciamos. 16 BORELLI, Andrea & MATOS, Maria Izilda. 2012, p.146. 17 PINSKY, Carla B. 2012, p. 540.
  20. 20. 20 “Eu vou mostrar pra você o que sou E eu exijo ser tratada com amor Eu vou mostrar pra você o que sou Mulher guerreira, tenho o meu valor No espaço que eu trilhei, experiência acumulei, Na guerra da vida errei e acertei E sei que as coisas não são fáceis pra mim Mas ergo a cabeça, isso não é o fim Provando a cada dia que tenho o meu valor Por amor, vou cantar onde quer que eu for Que a liberdade conquistada por “nóiz” é um direito E antes de falar qualquer coisa, quero respeito Sou determinada. Vulgar? Nem pensar escolha qual mentira você quer acreditar que mulher só existe pra pilotar fogão ou pra ser pôster de revista pra causar tesão Tome vergonha na sua cara E trate melhor a mulher dentro de casa Irmã, filha, mãe, esposa Sempre tem uma mulher do seu lado, fique de boa “Cês” não vive sem “nóiz”, você veio de “nóiz” E pra você ter um herdeiro, você precisa de “nóiz” Sou dona de casa, secretária, presidente É? mulher simplesmente! (...) Essa é pra dizer, mulher baby Ninguém “taria” aqui não fosse você Porque todo homem, mesmo que não assuma Já chorou ou já passeou no colo de alguma Que luta, enfrenta, busca, amamenta E mesmo quando o companheiro se ausenta Ela é mulher, MC, mãe, às vezes pai, não é fácil Ser M. Aço, mas vai É profissão perigo três vez Levar alguém na barriga por nove “mês” Ligado só por um cordão, por um fio Tipo um microfone, é, você conseguiu Resistiu, passou, marcas da adolescência Cantou Dina Di sobre essas consequências E o homem ingrato te chuta, desde o útero Cresce, maltrata, marido adúltero Comédia, romance, gênero, não importa mais Masculino, feminino, tanto faz
  21. 21. 21 Preconceito não rola, não cola, não é durex Talento no hip-hop é unisex(...)” A produção artística fala por si só, advertindo o patriarcado e mostrando a atuação feminina de imensa importância na sociedade, com as diversas formas que coexistem as mulheres. Liberdade Sexual A Cantora Ludmila de 18 anos é outra revelação do funk carioca. Carismática, animada, festeira e despreocupada quanto aos valores conservadores que reprimem a sexualidade feminina, fez sucesso inicialmente com um vídeo postado no Youtube que possuiu recordes de visualizações, participa periodicamente do programa de TV na emissora Globo, “Esquenta” apesentado por Regina Casé. Atualmente sua página no Youtube possuí mais de 78 mil inscritos e tem mais de 15 milhões de visualizações. Em sua letra “Hoje” a artista demonstra suas claras intenções para com um homem que já havia “ficado” anteriormente: satisfazer seus desejos sexuais. “Hoje, é hoje, é hoje, é hoje! Hoje eu tenho uma proposta A gente se embola E perde a linha a noite toda Hoje eu sei que você gosta Então vem cá, encosta Que assim você me deixa louca E faz assim De um jeito com sabor de quero mais Sem fim Não fala nada e vem Que hoje eu tô afim Eu tô na intenção de ter você pra mim Só pra mim” Tal possibilidade parece possível porque o contexto contemporâneo é fruto de um processo iniciado no fim dos anos 1960, onde a pílula anticoncepcional e a revolução dos costumes sexuais modificaram os hábitos de socialização e contribuíram com a modificação de alguns paradigmas ligados a imagem da mulher. Esta podia controlar o próprio corpo, gozar de seus prazeres sexuais e fazer sexo
  22. 22. 22 antes do casamento já não era tão repudiado. Havia informalidade de relacionamentos agora, onde o termo “ficar” já era usado. Mas como nos lembra bem Carla B. Pinsky: “Com o sexo entre os solteiros(...)as atitudes variavam da condenação pura e simples à aceitação irrestrita, que implicava uma verdadeira luta para livra-lo do estigma do pecado e do proibido. É claro que o problema, novamente, era a mulher, já que a iniciação dos rapazes estava garantida pelos costumes.(p.518) As mulheres que aderiam liberdade sexual eram mal vistas e definidas na categoria das que não serviam para casar. Na mídia o sexo casual não possuía defensores, estes se davam mais entre os hippies e alguns intelectuais. Para os homens não havia condenação, era comum da natureza masculina, o problema era das mulheres que aderissem as aventuras prazerosas do corpo feminino fora do matrimonio e que não viabilizassem a gestação. Entretanto, de uma forma ou de outra, transformavam-se os valores, e os jovens pareciam os mais aptos à aceitação da liberdade sexual. Falar de sexo passou a ser comum e nas escolas haviam aulas de Educação Sexual nos anos 80 e 90. Produções artísticas na música e no cinema levavam a temática para discussão e, a indústria de automóvel e motéis, facilitou a vida desses casais informais. Ainda falando em liberdade, apresento mais uma letra da cantora Valesca Popozuda: “Agora eu tô solteira”. Bem polêmica e tem forte repulsa pelas feministas mais radicais, afinal estas pensam que a mesma está contribuindo com o imaginário machista e a afirmação da mulher como objeto sexual. “Eu vou pro baile, eu vou pro baile, de sainha Agora eu sou solteira e ninguém vai me segurar Daquele jeito De, de sainha Daquele jeito (Eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu) Eu vou pro baile procurar o meu negão Vou subir no palco ao som do tamborzão Sou cachorrona mesmo E late que eu vou passar Agora eu sou solteira e ninguém vai me segurar DJ aumenta o som Eu já tô de sainha Daquele jeito De, de sainha
  23. 23. 23 No local do pega pega eu esculacho tua mina No completo, ou no mirante, outro no muro da esquina Na primeira tu já cansa Eu não vou falar de novo Ai que homem gostoso, vem que vem quero de novo (Ai, vai) Ai que homem gostoso, vem que vem quero de novo(...).” Ora, se as mulheres por muito lutaram para adquirir sua liberdade sexual, se desprendendo da moralidade tradicional que não reconheciam nem seu direito de sentir prazer e de escolhas, as viam apenas como reprodutoras da espécie e a família quem decidia com quem casaria, porque não deixa-las usufruir de sua sexualidade da maneira que bem entendem? Ser feminista também é reconhecer e aceitar o direito da outra de fazer o que quiser, por mais que você não fizesse. O patriarcado oprime, não temos dúvidas e sabemos que há uma construção da imagem da mulher, que percorre na mentalidade machista, quanto fruto do prazer masculino e objeto sexual, as feministas compreendem e disseminam isto bem, entretanto continuam a ditar como as mulheres devem se comportar. Esta fragmentação dos discursos feministas se dá a partir destas divergências, mas se a mulher possuí uma consciência reflexiva sobre a construção sociocultural e histórica do pátrio poder, que oprime pelo sexo, e mesmo assim quer ir para o baile de sainha, que vá. O que de fato não se tolera é o opressor que adverte mulheres e de maneira hipócrita dita regras para estas, mas como já vimos, Valesca se posiciona bem quanto a isto. Negras e as múltiplas formas de resistir aos sistemas de opressão. Sendo Ludmila uma mulher negra e proveniente de uma das favelas do Rio de Janeiro, não poderia dar andamento à analise sem comentar sobre o maravilhoso texto de Maria Odila Silva Dias, “Resistir e sobreviver”, que nos concebe o entendimento de como viviam as escravas no fim do XIX. O numero de escravas comercializadas internamente na África era maior e as mulheres eram mais caras, tidas como reprodutoras e trabalhadoras agrícolas.18 Segundo a autora, sobreviver já era uma vitória, enquanto atravessavam de um continente à outro, como muitos africanos, sofriam de diversas formas e morriam centenas, por isso havia uma demanda enorme e a lotação nos navios negreiros que atendia o trafico à América. No Brasil, havia um desequilíbrio grande em relação ao gênero dos escravos, os 18 Vale ressaltar que a escravidão na África não se fazia por bases raciais. Como compreendeu Paul LoveJoy(2002), os meios de escravidão no continente podiam ser por guerra, sequestro, punições judiciais ou religiosas ou de maneira “voluntária” conforme as necessidades.
  24. 24. 24 homens eram mais requisitados em vista dos trabalhos árduos que exigiam muito esforço físico, sem contar que elas eram cerca de 20% mais baratas, porém das poucas que vinham, podiam desenvolver trabalhos domésticos e agrícolas como também tão pesados quanto os deles. Gravidas trabalhavam, muitas vezes até a hora do parto, ou até davam a luz enquanto realizavam as tarefas demandadas. Além de propriedade privada dos senhores de engenho, muitos companheiros ou parceiros de plantel as tinham como suas no quesito afetivo. Era difícil manter famílias, por conta da forma que se distribuíam os afazeres, entretanto no geral os parceiros se encontravam algumas horas à noite e muitos senhores e capatazes não se sensibilizavam em desmembrar as famílias, na realidade, há vários casos em que ambos serviam-se sexualmente das negras e os seus companheiros de plantel ou maridos reagiam de maneira violenta. Casos em que escravos matavam os donos por conta dos abusos ou pelos maus tratos que sofriam suas mulheres e filhas. Há também casos de negras que foram abusadas por seus senhores e depois mortas pelos ciúmes que os escravos sentiam. O numero pequeno de escravas nos planteis, também era outro agravante quanto aos sentimentos de posse por parte dos homens, eram disputadas por mais que um escravo e os donos, muitas vezes as mandavam para outras fazendas para terem filhos de outros escravos e assim multiplicar os que já possuíam como propriedade privada. Quanto às resistências, muitas envenenavam os donos já que conheciam plantas que poderiam causar doenças e ate matar, em resposta aos ataques abusivos. O direito de receber por pequenos trabalhos e vendas de produtos caseiros foi reconhecido pela Lei do Ventre Livre em 1871, e muitas negras, trabalhavam muitos anos a tal ponto que compravam sua liberdade. Tanto que no século XIX, a persistência destas fez com que a alforria fosse um fenômeno mais feminino que masculino, nos centros urbanos. Mas como relembra Maria Odila: “(...) a dificuldade de se afirmar como pessoa livre muitas vezes ocorria no interior da própria família. Os processos criminais do final do século XIX estão cheios de historias de homens agredindo mulheres em razão da liberdade por elas adquirida. Os motivos variavam: uma vez estando livre, a mulher se negava a fazer sexo com o conjugue, o companheiro resolvia proibir a mulher de circular pela cidade ou opor-se a que ela trabalhasse. Muitas vezes elas apanhavam sem saber o motivo. (...) Quando finalmente ocorreu a Abolição no Brasil, as libertas encontraram outras tantas dificuldades para se inserir na sociedade em condições mais dignas. Seus problemas iam desde os obstáculos para passar seus bens para os descendentes até o preconceito sofrido em virtude de seu sexo e sua cor. (...) Quando tudo conspirava contra suas vidas, abriam caminhos, combateram preconceitos e afirmaram posições conquistadas. (...)” (p. 378-379)
  25. 25. 25 Muitas resistiram e persistiram, na medida do possível, para se libertarem da dualidade opressora que sofriam. Entretanto, mesmo com o fim da escravidão, a mentalidade escravista colaborava e muito com a exclusão da população negra no país, em vista do trafico proibido que continuou acontecer, internamente. Como nos mostra Babel Nepomuceno, em um censo de 1890, 48% da população negra economicamente ativa trabalhava de doméstica, 17% na indústria, 9% atividades agrícolas e 16% outros serviços não declarados. De certa forma, à nova República dava-se preferencia ao trabalho de imigrantes, do que à população que lhes faziam lembrar o passado escravista e imperial. Fazendo uma ponte com a atualidade, o trabalho domestico ainda é correlacionado com as mulheres negras de maneira estereotipada, e estas estão mais exposta a receber salários baixos comparadas aos homens negros e as mulheres brancas. Em outro Consenso de 1940 e 1950 que incluía o quesito cor da pele, a fez compreender que a exclusão do sistema educacional recaia mais sobre as mulheres negras. Nos anos de 1980 outro consenso, relacionando à pigmentação do corpo, 80% das mulheres negras estavam entre a faixa de até 4 anos de estudos. Na questão do analfabetismo, as negras somavam o dobro das mulheres brancas e ainda tinham mais probabilidade de abandonar os estudos. A primeira negra a conquistar o título de Bacharel no Brasil foi Maria Rita de Andrade, pela faculdade de Direito na Bahia em 192619. Ou seja, em suma a realidade das mulheres negras e pobres pareciam mais duras, do que de outras mulheres burguesas e brancas, tanto para o trabalho quanto para educação. A imagem da mulher negra ficou atrelada à insultos, até hoje são discriminadas por conta do corpo, cabelos e traços afrodescendente. “(...)hoje, mesmo com todas as mudanças culturais, mulheres afrodescendentes, principalmente as mestiças ou “mulatas”, continuam a ser alvos do estereótipo de as mais sensuais e libidinosas entre as mulheres, perpetuado, principalmente, através da mídia, particularmente a televisão.(...)” (NEPOMUCENO, Bebel. 2012, p. 404) Nesta passagem Bebel Nepomuceno, nos leva a observar um dos papeis que ficou trelado à estas mulheres brasileiras. Mas para compreender o imaginário feminino, negro e periférico, utilizarei uma outra artista, curitibana, reconhecida nacionalmente desde 2002 e com recente turnê realizada, na Europa. “Karol Conka”20 é uma rapper negra e nos deixa claro a mensagem que quer passar ao seu público. 19 Flávia Rosemberg. 2012, p.337. 20 . A mesma não possuí um canal no Youtube ou site oficial. O videoclipe da música “Tombei” possuí mais de um milhão de visualizações, até presente data.
  26. 26. 26 Em uma tentativa de resgate à memória e da valorização da cultura Afro, utiliza sons com estimulante energias positivas, nos remetendo às religiões afrodescendentes, além de mencionar grandes rappers em suas letras. Na produção “Tombei”, com participação especial de um projeto de música eletrônica chamado “Tropkillas”, a cantora demonstra autoridade sobre seu corpo, suas escolhas e ainda adverte aos homens de maneira corajosa: “Se é pra entender o recado Então, bota esse som no talo Mas vem sem cantar de galo Que eu não vou admitir Faça o que eu falo E se tiver tão complicado É porque não tá preparado Se retire, pode ir. Causando um tombamento, oh Também tô carregada de argumento, oh Seu discurso não convence, só lamento, oh Segura a onda, se não ficará ao relento, oh Depois que ela lhe tocar Não adianta fugir Vai ter que se misturar Ou, se bater de frente, periga cair.” (...) “Já falei que é no meu tempo As minhas regras vão te causar um efeito É quando eu quero, se conforma, é desse jeito Se quer falar comigo então fala direito, fala direito.” Os movimentos sociais intensos a partir da década de 60 articulavam junto às minorias, mas travavam dificuldades ao se correlacionarem, como já vimos. Nepomuceno diz que um marco da luta e estratégias de ação feminina lideradas por negras foi a participação na Terceira Conferencia Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e as Formas Conexas de Intolerância, em 2001 na África do sul, onde discutiram levar ao governo brasileiro a pauta de implementação às políticas públicas. A autora ainda comenta:
  27. 27. 27 “(...)A participação na Conferência provou que as militantes negras brasileiras das décadas de 1980 e 90 haviam aprendido a se articular em nível local e global, com resultados evidentes.”(NEPOMUCENO, Bebel. 2012, p.401) E por entre estas décadas, tais mulheres ganhavam mais visibilidade. No Rio de Janeiro, em 1983 a médica Edialeda do Nascimento foi nomeada à Secretaria de Promoção Social. Em São Paulo, o movimento feminino e negro promoveu a criação de uma Comissão da Mulher Negra no Conselho Estadual da Condição Feminina (CECF), liderado por uma negra psicóloga chamada Maria Aparecida de Laia. No Senado Federal em 1994 a primeira negra Benedita da Silva ocupa uma cadeira, deixando o mandato para assumir o cargo de vice-governadora em 1999 no estado do Rio. Enfim, Nepomuceno cita 7 mulheres com conquistas no campo político entre 1980-2008, além das outras 7 no meio artístico cultural, entre elas compositora sambista Lecy Brandão e a escritora mineira Ana Maria Gonçalves que teve seu livro de estreia compreendido como uma obra-prima mundial21. Pensando por estas conquistas, é evidente que o discurso atual da Artista Karol Conka, remete a esta já então ultrapassada e errônea imagem que possuíram as negras durante tanto tempo, em respeito de sua sexualidade e “inferioridade” determinada pela sociedade brasileira, excludente e desigual, mas que mesmo assim resistem e enfrentam essas múltiplas formas de opressão. Diversidade na forma de amar Se a liberdade sexual foi uma conquista mutua dos movimentos feministas, avanços medicinais e transformações socioculturais, as maneira de expressar sua sexualidade também foram ganhando espaços, apesar de serem excluídas lésbicas das pautas entre os movimentos de mulheres. Como já vimos o feminismo era associado as “mulheres masculinizadas” de forma negativa. Uma música interessante para relacionar a orientação sexual homo afetiva, é “A Garota Que Não Gosta De Meninos”, cantada pela atriz, humorista, compositora e roteirista Clarice Falcão. Vale ressaltar que se a artista ao interpretar a letra e dispõe-se a canta-la significa que concorda ou no mínimo simpatiza-se com a produção, independente de sua sexualidade, passa a representar um grupo ou dar visibilidade a este, usando a música como a expressão de uma temporalidade. Interpretada por covers no Youtube, de onde retirei a fonte, a letra é destinada aos homens para compreensão e aceitação da liberdade de gostar de quem quiser. 21 NEPOMUCENO, Bebel. 2012, p.403.
  28. 28. 28 “Eu não gosto de meninos Não é nada com você Nem com você Eu prefiro as garotas Vocês devem entender Vocês também preferem Não adianta me dar flores Não adianta me cantar Eu já tô bem decidida É melhor deixar pra lá” A homossexualidade era tida como uma doença. Tanto que a nomenclatura carregava o sufixo “ismo” que denota como tal. Até que em 1990 a Organização Mundial de Saúde (OMS) modificou a Classificação Internacional de Doenças (CID) dizendo que “a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão.”22 A diversidade sexual reconhece que sexo biológico, orientação sexual e identidade de gênero como coisas distintas. Como já vimos com Linda Nicholson, Gênero é a conotação para distinguir como a pessoa se reconhece dado a formação de seu caráter humano, construído socialmente. Orientação sexual coincide com a atração afetiva, podendo ser heterossexual, homossexual e bissexual, lembrando que não se opta por quem vai sentir atração. Finalmente, sexo biológico faz referencia ao modelo fisiológico do ser humano que o distingue “macho” e “fêmea”, há também as pessoas que nascem com a combinação dos dois órgãos biológicos que são chamadas de “intersexos”. Dado o recente processo de desconstrução do senso comum, senso esse estruturado por discursos religiosos e bíblicos, que encontram fundamentos no molde patriarcal, há de se relevar que muitos estão expostos a preconceitos e discriminações. O público LGBT muito sofre não só nas ruas onde as violências e discriminações são constantes como também no âmbito familiar, tidos como uma vergonha para muitas famílias tradicionais brasileiras. Homofobia, Transfobia, Bifobia e Lesbofobia são realidades da nossa sociedade, que vem sendo descontruídas em um lento processo. Uma grande vitória para a população do Estado de São Paulo, foi a Lei nº10.948, de 5 de novembro de 2001 que proíbe a discriminação e pune as ações de fobia, seja por violência verbal, moral ou física. Felizmente os feminismos atualmente estão mais sensíveis a estas realidades, já que o movimento homossexual vem quebrando barreiras. Muitas 22 . Coordenação de Políticas para a Diversidade Sexual. Diversidade sexual e cidadania LGBT. São Paulo : SJDC/SP, 2014. P-11.
  29. 29. 29 lésbicas e mulheres transexuais também levam suas pautas quanto ao gênero feminino e a orientação, afinal elas estão expostas a múltipla realidade opressora também. No movimento de segunda onda, Joana Maria Pedro comenta que havia a tentativa por parte de algumas feministas de formular uma identificação coletiva, para criar um sentimento de irmandade entre as mulheres, mas que era facilmente quebrado: “Esse sentimento, entretanto, era ameaçado dentro dos próprios grupos por causa do preconceito de algumas integrantes contra o lesbianismo. A crítica tantas vezes ouvidas pelas feministas, de que todas seriam lésbicas fazia com que algumas quisessem a todo custo se afastar desse rótulo, o que causava sérias divisões nos grupos de mulheres. Haviam dentre elas, inclusive, as que acusavam as companheiras realmente lésbicas de serem “pessoas doentes”.”(PEDRO, Joana M. 2012, p.250) Para dar visibilidade à causa dos movimentos homossexuais, a cantora e feministas Valesca Popozuda levanta bandeira colorida e também se manifesta na letra: “Sou gay” (ANO) “Vem, meu bem, não tem ninguém Apaga a luz relaxa e vem Suei, beijei, gostei, gozei Sou bi, sou free, sou tri, sou gay Cheguei na boate E ao som do bate cabelo eu vi Não sei o que senti, Mona, aquenda o que vi Senti um calor e na pista desci Ao som do DJ me liberei Te olhei e percebi, que aqui posso ser free Dança comigo, sente meu som Dança comigo, e sente o que é bom No bate cabelo na pista senti Seus lábios aos meus senti que sou free Beijei uma mulher Um gosto bom eu senti Eu posso ser livre ou posso ser bi Vem DJ coloca o bate cabelo Vem DJ aqui todo mundo é free É homem com homem arrasa as bee
  30. 30. 30 Sinbora DJ que eu quero cantar Mulher com mulher é bom de beijar Se joga na pista e venha ser free Bate cabelo comigo é assim.” No inicio da música, há um chamado com a pronunciação do Projeto de Lei da Câmara(PLC) n.º 122/06 que visa criminalizar a discriminação e o preconceito motivados pela orientação sexual, identidade de gênero, sexo, cor, raça, etnia, religião, crime contra idosos ou pessoas com deficiência física. Acontece que os movimentos LGBT são bem mais ativos atualmente, possuem um grande número de mulheres e simpatizantes feministas, além de mães (pais também) que compreendem a sexualidade de seus filhos, os respeitam e os apoiam nas diversas formas de amar. Mas, como a própria Joana Maria Pedro diz, as redes feministas continuam a existir, mesmo que fragmentadas. Se a luta por visibilidade entre as mulheres lésbicas foi difícil, imagina o reconhecimento às transexuais. Linda Nicholson, em seu artigo cientifico, que já comentei bastante, traz uma feminista dos anos 70 americana, Janice Raymond que é extremamente crítica em relação aos trans e as lésbicas. Cita seus escritos onde a mesma expressa: “O homem andrógino e a feminista lésbica transexualmente construída enganam as mulheres praticamente da mesma forma, porque levam as mulheres acreditarem que são verdadeiramente como nós- não só em espirito e em convicção. (...)Sabemos que somos mulheres que nascemos com cromossomos e anatomia femininos, e que, tenhamos ou não sido socializadas para sermos consideradas ‘mulheres normais’, o patriarcado nos tratou e nos trata como mulheres. Os transexuais não tiveram a mesma história. Nenhum homem pode ter história de ter nascido e se colocado nessa cultura como mulher. Ele pode ter história de ter desejado ser mulher e de ter agido como mulher, mas essa experiência de gênero é própria a um transexual, não a uma mulher.” (RAYMOND, 1986, p. 100. APUD: NICHOLSON, Linda. Interpretando o gênero. LOCAL : Editora, ANO. pp.) Raymond, como muitas, rejeitou incluir à esta categoria de mulheres, em vista de uma crença no funcionalismo biológico do ser feminino, a transexualidade. Muitas feministas por mais que usassem o termo “Gênero”, não compreenderam por completo.
  31. 31. 31 Não encontrei uma produção artística brasileira que mencionasse a sexualidade do ser trans gênero. Apenas uma cantora mexicana, Gloria Trevi considerada diva pop no país, com “Todos me miran”.23 Porém, poucas produções só demonstram que o assunto pouco é abordado, como vimos, algumas feministas das décadas 60, 70 e 80 nem as reconheciam como mulher. Em São Paulo, um decreto Estadual assegura às pessoas transexuais e travestis o direito de escolher o nome para ser tratada socialmente24. Uma grande vitória, mas como já comentei, é um processo e ainda necessita de muitas transformações. Além de uma deliberação25 que dispõe incluir o nome social da pessoa em instituição escolares públicas e privadas. Outra cantora e compositora que se dispõe a interpretar e até representar as diversas formas de amar também, é Ana Carolina. Iniciou sua carreira nos anos 2000 e atualmente são 15 anos de sucessos, sendo reconhecida inclusive internacionalmente. Seu canal no Youtube possuí mais de 130 mil inscritos e mais de 56 milhões de visualizações. A artista se dispõe a interpretar a letra “Eu gosto é de mulher”, que já foi interpretada também pelos artistas que compõe a banda “Ultrage a Rigor” e “Raimundos” onde modificam a letra e o agente passa a ser masculino. Na interpretação de Ana Carolina, uma mulher descreve sua preferência por se relacionar com outras mulheres, independente da forma como esta se compreende no mundo ou como se comporta. “Vou te contar o que me faz andar Se não é por mulher não saio nem do lugar Eu já não tento nem disfarçar Se em tudo que eu me meto é só pra impressionar Mulher de corpo inteiro Se não fosse por mulher eu não era roqueiro Mulher que se atrasa, mulher que vai na frente Mulher dona-de-casa, mulher pra presidente Mulher de qualquer jeito Ninguém sabe o que ela tem no peito 23 Descreve um ser que não se reconhecia no gênero que atribuíram, até que enfrenta a família e traveste/veste “de rainha” para sair a noite que não era mais escura e sim “de lantejoula”. Todos a olham, porque é linda e as pessoas a admiram, por sua coragem ou a olham por inveja, mas no fim, todos a amam. 24 Decreto Estadual nº 55.588/10 25 Deliberação CEE de nº 125/2014
  32. 32. 32 Peito pra dar de mamar Peito só pra enfeitar Mulher faz bem pra vista Tanto faz se ela é machista ou se é feminista 'cê pode até achar que é um pouco de exagero Mas eu sei lá, eu sei que não sei, Eu gosto de mulher, eu gosto de mulher Ôooo eu gosto é de mulher (2x) Mulher eu já provei Eu sei que é bom demais, agora o resto eu não sei Sei que eu não vou mudar Sei que eu não vou nem tentar Desculpe esse meu defeito Eu juro que não é bem preconceito Eu tenho amigo homem, eu tenho amigo gay Mas eu sei lá, eu sei que eu não sei, Eu gosto é de mulher eu gosto é de mulher Ôoo eu gosto é de mulher(3x) Eu sei como pisar no coração de uma mulher já fui mulher eu sei (2x)” Além de tudo, a produção musical descreve as diversas formar de ser mulher e que estas podem ser de qualquer jeito, comprovando essa diversidade de coexistência entre elas. Mais uma vez a sexualidade, aqui, não é vista como uma opção, pelo contrário, não sabe ao certo por que não prefere homens, o fato é que existem lésbicas e isso não vai mudar, na realidade como descreve a letra, ela não quer nem tentar. A atração afetiva ou sexual se manifesta de maneira involuntária ao desejo humano. A escolha não é por se sentir atraído ou não, opta-se na realidade por expor sua sexualidade ou omiti-la. Como percorre em termos não acadêmicos, “Sair do armário” é uma expressão popular entre os LGBT’s para aqueles que optam não viverem sua orientação às escondidas. Assim como não se escolhe ser homossexual, não há como optar por ser heterossexual. O ser humano no geral, simplesmente nasce e vai se construindo socialmente. Profissionais do Sexo
  33. 33. 33 Outro movimento de mulheres que batalhou para conquistar espaço público, mas obteve grande repulsa de muitas feministas radicais, mesmo pelo movimento pós-moderno, foi os das “cigarras”. Vender sexo na década de 70 não era crime e em São Paulo por exemplo, não era coibido pela policia. Estes calcularam em 73, cerca de 10.000 prostitutas na capital, sendo 4.000 cadastradas, afinal à região muitas “cigarras” do interior migravam no período de férias, e entre boates e nigthclubs, alimentavam a indústria da prostituição. Mary Del Priori analisa uma reportagem da “Veja” no período, que discorre sobre a região paulista ter maior oportunidade de crescimento econômico no desenvolver destas atividades e ainda traçava o perfil das moças que exerciam este trabalho: “elas vivem da prostituição porque foram defloradas e abandonadas ou porque se separaram do marido e tinham filho para sustentar, ou simplesmente porque estavam aponto de se desesperar por não poder ganhar dinheiro suficiente para comer. Quase sempre, também, todas pretendem ficar por pouco tempo na profissão e lamentam que estão fazendo”. (p. 221) Vender a prática do sexo não era crime mas em 1979 o Brasil assinou a Convenção contra o Tráfico de Pessoas e Exploração da Prostituição, portanto a exploração e trafico de mulheres e crianças é criminalizado conforme o Código Penal Brasileiro dos artigos 227 e 231. Assim na década de 80, ainda mais com a chegada da AIDS o comercio do sexo caiu, em contra partida aumentaram-se as discriminações e o preconceito. Porém no mesmo contexto, onde os debates sobre violência à mulher são constantes e de uma luta intensa, muitas encorajam-se à organizar e denunciar abusos de cafetões, policiais, e inclusive clientes, além de levarem à pauta questões como cidadania e direitos. Assim passam existir encontro nacionais entre as prostitutas, em diversos estados, até que conseguem em 89 formar a Rede Nacional de Profissionais do Sexo. Outra revista analisada por Mary Del Priori, Época sobre “Prostitutas do século XXI”, a matéria trazia outra perspectiva, moças que não viam a hora de completar 18 anos para assumir, sem falsos documentos e sem o estereotipo de necessidade que a torna vitima. Ana Carolina canta “Pole Dance” e descreve uma mulher de bem, que trabalha, cria os filhos e respeita à todos, sem distinção de raça, gênero, classe social, levando uma vida normal tal qual é de fato, mas trabalhando com o corpo. “Ela rebola, rebola, rebola Ela quer dólar, quer dólar, quer dólar
  34. 34. 34 Ela rebola, rebola, rebola Ela quer dólar, quer dólar, quer dólar Moça do bem Cria os filhos com atenção Não zoa com ninguém Só quer ganhar o pão Da vila vintém Até chegar o calçadão Enfrenta van e trem No inferno e no verão Não faz distinção, porém Se pintar um alemão Amém! Ela rebola, rebola, rebola Ela quer dólar, quer dólar, quer dólar Ela rebola, rebola, rebola Ela quer dólar, quer dólar, quer dólar Sabe entreter Tem troco pra cem Bota pra ferver Não troca o nome de ninguém Pra distrair ela lê, seu olhar de estilingue Acerta todo o cabaré, homem e mulher É muito mais do que bilíngue Faz com a língua o que quiser Ela rebola, rebola, rebola Ela quer dólar, quer dólar, quer dólar Ela rebola, rebola, rebola Ela quer dólar, quer dólar, quer dólar.” Além de tudo, a cantora de MPB retrata uma mulher autônoma e intelectual, que leva uma vida como todos os cidadãos, portanto passível à deveres e diretos como todo ser, exigindo respeito por todos em poder fazer o que quiser com o corpo sem ser julgada ou alvo da moralidade social, afinal são elas também passíveis desta múltipla realidade opressora. É claro que, em contra partida, mesmo com o Código Penal dos artigos 227 e 231, existe a exploração do sexo ilegalmente, principalmente nos garimpos do Norte do país e entre grandes estradas, sendo que além de mulheres forçadas ao
  35. 35. 35 trabalho, também encontra-se crianças e adolescentes. Segundo a ONU em 2000, haviam cerca de cem mil mulheres e crianças sexualmente exploradas no Brasil. ( APUD: PRIORE, Mary Del. 2001). Considerações finais Entre rupturas e permanências, transformações e estagnações, o feminismo inicialmente se desenvolveu e divergiu de maneira muito ampla, nos possibilitando compreender as diferenças existentes entre as próprias mulheres. Como bem analisamos, os discursos que viabilizavam desconstruir os parâmetros que herdamos da cultura do patriarcado, foram diversificados e coincidiam com seu tempo, cada qual com argumentações e exigências específicas, além do conceito que, ao menos anteriormente serviria para atender todas as mulheres, parecia não ser tão universal assim. Desde o fim do século XIX até os dias atuais, como uma unidade, os feminismos buscam uma emancipação do gênero que a muito foi e vem sendo oprimido. Porém procuram as feministas em pauta atender necessidades específicas, sejam elas qual forem. Pretendeu-se lutar pela visibilidade do gênero feminino e o fazer perceber com igual importância e não como secundário, almejaram a libertação dos valores culturais tradicionais opressores e controladores, para então com autonomia, mulheres controlassem suas próprias vidas. Estes feminismos deixam de ser uma unidade quando se limitam a tratar mulheres específicas, não levando em consideração o caráter plural do ser humano. Como bem compreendemos no que chamamos de feminismo de primeira onda, as mulheres que se propuseram pensar a cultura opressora do patriarcado e a lutar por visibilidade no espaço público foram as brancas, intelectuais e de classe média ou da elite. Estas muito conquistaram dentro do espaço e tempo no qual militaram, entretanto buscavam atender reinvindicações como o direito ao trabalho, participação política e acesso a educação. Não que outras mulheres além das feministas não almejassem isto, mas dentro de sua temporalidade também haviam as que estavam expostas às opressões raciais e de classe, por exemplo. Nos movimentos de segunda onda, com as primeiras conquistas se tornando possíveis, pretendiam-se também outras reinvindicações agora na esfera da vida privada, tentando desprender-se daquilo que parecia até então inerente à natureza feminina: a gravidez e o matrimônio. Em meados do século XX, até as militantes de primeira onda pareciam não se familiarizar com essas novas exigências feministas ou aos novos modelos de ser mulher. Os movimentos sociais em grande desenvolvimento nas décadas de 60 e 70, intensificando-se até o fim do século,
  36. 36. 36 tinham um grande número de mulheres ativistas e militantes. Muitas não se intitulavam feministas, pois não se viam representadas pelo tradicional, além da opressão sexista, havia opressão racial, de classe, por trabalho, por orientação sexual, por religião, entre outras. “O Feminismo” parece não ter sido claro o suficiente desde seus primórdios para muitas pessoas, que inclusive não compreendiam sua utilidade e no senso comum pairavam estereótipos de mulheres masculinizadas, que odiavam homens e que pretendiam domina-los. A pluralidade dos discursos por liberdade e para desconstrução do imaginário cultural brasileiro, que possuí um sistema opressor por diversas circunstancias, contribuí até hoje com essa dificuldade de se entender o que pretende o “feminismo”. Tudo porque partilhamos uma cultura da semelhança, onde organizamos ou definimos o conhecido e excluímos o diferente, os que encontram-se fora dos padrões simplesmente são banidos ou julgados como anormais, por não seguirem os padrões ou porque historicamente foram minimizados ou considerados inferiores. E incompreendido continuará, principalmente se continua a negar outras realidades a serem enfrentadas, realidades que muitas vezes bloqueamos para não enxergar. Diante da perspectiva do outro a interpretação que se faz pode variar e muito. Lino Macedo ao discorrer sobre como nos relacionamos com as diferenças nos leva a entender que: “Por isso a lógica das semelhanças é a lógica das classes; a lógica das diferenças é a lógica das relações. Na multiplicidade relacional, em relação a uma pessoa eu sou o pai, a outra eu sou irmão, a outra eu sou filho, a outra eu sou amigo, a outra eu sou amante, a outra eu sou... Quem sou eu? Depende da multiplicidade das relações nessa teia infinita que me coloca no universo de possibilidades, em um repertório de seres em que me defino por aquilo em que o outro me complementa nesta relação, portanto, naquilo que está entre nós.” (MACEDO, Lino. Ano, p. 14.) Parece ilógico para muitos, compreender que há diferenças inclusive naquilo que se julga semelhante e historicamente a realidade das mulheres varia entre sua multiplicidade. Existiram e existem mulheres-negras, mulheres-brancas, mulheres- pobres, mulheres-classe média, mulheres-elitistas, mulheres-lésbicas, mulheres- transexuais, mulheres-católicas, mulheres-evangélicas, mulheres-umbandistas, mulheres-solteiras, mulheres-prostitutas, mulheres-mães, mulheres-filhas, mulheres- irmãs, mulheres-operárias, mulheres- rurais, mulheres- sindicalistas e etc, e essas existências tiveram pesos e significados diferentes de acordo com a temporalidade inerente a eles. A coexistência destas identidades e outras, no universo subjetivo e político do ser humano tem peso fundamental e não podem ser esquecidas. Somos semelhantes, porém, também somos diferentes, pois a construção do caráter
  37. 37. 37 humano é individual e tem haver com as relações do homem com o meio, e vice- versa. Sendo o ser único, a identidade nunca será mesma. “A cultura da diferença supõe a cultura da fraternidade, em que diversidade, singularidade, diferenças e semelhanças podem conviver em uma inclusão, formando um todo, quais quer que sejam as diferenças escalas que o compõem.” (MACEDO, Lino. Ano, p.15) Em uma cultura da diferença, as coexistências seriam consideradas e incluídas na pauta feminista, sem a necessidade de um movimento social e intelectual tão fragmentado como é atualmente. A consciência histórica e social da diversidade existente no gênero feminino é de suma importância para então descontruir padrões ideológicos herdados e que constituem uma natureza feminina. Mas para unificar e fortificar esses feminismos devemos enxergar, analisar, compreender, respeitar e dar espaço inclusive para aqueles que são diferente de nós, devemos nos desprender de padrões, de conceitos institucionalizados e que definem e limitam o que é ser mulher no mundo. No século XXI, o gênero feminino é mais abrangente do que fora nos séculos anteriores e muito já se desfruta dos direitos conquistados, entretanto, como compreendemos com as analises das músicas, mulheres continuam a existir de formas diferentes e ainda há muito que batalhar para diminuir ou dissipar as relações desiguais e preconceituosas no mundo. Respeitar a multiplicidade existencial é fundamental, afinal deveriam, não só os homens, mas as feministas também, compreender o direito de outras pessoas poderem fazer ou escolherem o que quiserem da vida, por mais que não necessariamente os fizessem. Já que muitas lutaram por liberdade no âmbito da vida pública e privada, por que não deixar que mulheres exerçam autonomia e decidam como seguir suas próprias vidas da maneira que bem entendem? Até porque, como se não bastasse o machismo que contribui com a construção do caráter social de maneira opressora, muitas feministas, principalmente as mais tradicionais, contribuíram para a construção do papel social da “nova mulher” poderosa, capaz de fazer tudo ao mesmo tempo, por exemplo. Não que seja uma realidade inexistente, porém não deve ser institucionalizada como vem sendo ou padronizada, como se existisse um molde único e universal. Devemos nos policiar e evitar generalizações ao falar em nome de todas as mulheres e simplesmente respeitar, aceitando as diferenças. A canção interpretada pelas artistas Rita Lee e Zélia Duncan, “Pagu” expressam uma consciência histórica e opressiva que une o gênero e dando
  38. 38. 38 sequência apontam certas diferenças entre homens e mulheres, não como vítimas ou vilãs, apenas como diferentes: “Mexo, remexo na inquisição Só quem já morreu na fogueira Sabe o que é ser carvão Hum! Hum! Eu sou pau pra toda obra Deus dá asas à minha cobra Hum! Hum! Hum! Hum! Minha força não é bruta Não sou freira, nem sou puta.” Em contrapartida, seguem a canção negando diversos modelos padronizados de mulheres, frutos das transformações entre os modelos rígidos e flexíveis. “Nem toda feiticeira é corcunda Nem toda brasileira é bunda Meu peito não é de silicone Sou mais macho que muito homem Ratatá! Ratatá! Ratatá! Taratá! Taratá! Sou rainha do meu tanque Sou Pagu indignada no palanque Hanhan! Ah! Hanran! Fama de porra louca, tudo bem! Minha mãe é Maria Ninguém Hanhan! Ah! Hanran!” Parece claro a necessidade que há atualmente dos feminismos se reformularem, para atender todas as mulheres em suas particularidades e, em uma unidade, fortificar a luta continuada por plena liberdade e igualdade entre, não apenas aos gêneros, mas às raças, classes, religiões, sexualidade e etc. Sempre respeitando a diversidade. Ou como bem propõe Linda Nicholson: “Talvez seja a hora de assumirmos explicitamente que nossas propostas sobre as ‘mulheres’ não são baseadas numa realidade dada qualquer, mas que elas surgem de nossos lugares na história e na cultura; são atos políticos que refletem os contextos dos quais nós emergimos e os futuros que gostaríamos de ver.” (NICHOLSON, Linda. 2000, p. 30)
  39. 39. 39 Ou por que não transformar esses feminismos em um “feminismo das diferenças26” capaz de compreender as diversificadas reinvindicações femininas do contexto atual? Claro que algumas pautas são mais urgentes que outras em vista do que já foi conquistado, como constatado ao observar o imaginário feminino na música popular. Mas com fortalecimento do “feminismo das diferenças” aderindo outras pautas e outros movimentos sociais, além de constituir uma irmandade entre as mulheres, há nele a possibilidade de transformações sociais em diversas categorias, contribuindo para um futuro menos desigual. 26 Termologia utilizada pela própria Linda Nicholson em seu artigo. p, 25.

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