Gigantomaquia história de mei

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Gigantomaquia história de mei

  1. 1. 2
  2. 2. 4
  3. 3. 6
  4. 4. 8
  5. 5. 10
  6. 6. Esta é uma obra de ficção, sem nenhuma relação com pessoas, entidades e/ou eventos reais.12
  7. 7. INTRODUÇÃO ORESTES14
  8. 8. C ontam as lendas gregas que foi na famosa Acrópole que aconteceu a disputa entre a deusa Atena e Poseidon, odeus dos mares, pelas terras da Ática. Atena teria sido escolhida pelo povo como sua protetoradepois de fazer nascer uma oliveira na pedra nua. Em suahomenagem, os atenienses construíram um enorme santuáriode mármore, originalmente pintado em cores vibrantes emuma rocha de 800 metros de diâmetro. A Acrópole, ou “cidadealta”, ergue-se a uma altura de 70 metros da capital grega. Mesmo desbotadas pelo tempo e castigadas por séculosde história, as construções da Acrópole continuam a seradmiradas e reconhecidas até os dias de hoje como um dosmaiores feitos da humanidade. É noite. - Está fazendo menos calor agora, não é? - os cabeloscor de linho de Shun balançam com o vento no teatro a céuaberto. Ele faz o comentário bem baixinho, virando-se paratrás, desviando seu olhar do palco para avistar a Acrópole. É verão. O Sol custa a se pôr em Atenas. Nessa época do ano, só começa a escurecer depois dasoito da noite, quando um tom de azul profundo se espalhalentamente pela cidade. Intensas luzes douradas se acendemna Acrópole, iluminando as colunas do Partenon, os baixos-relevos e cada detalhe desfigurado pelo tempo. - Senhor Nikol, obrigado por me acompanhar. - Não por isso - diz Nikol, sorrindo. - É sempre bom virao teatro. Nikol está sentado ao lado de Shun na platéia. É umhomem elegante e simpático, apesar de sua roupa toda preta
  9. 9. parecer um pouco pesada demais para o verão do Mar Egeu. Com cabelos castanhos e um olhar tranqüilo, é o que podemos chamar de um verdadeiro “intelectual”. - Na verdade eu convidei o Seiya... Mas ele disse que ia morrer de tédio. - Ora, trazer um moleque como ele a uma peça de teatro clássico seria jogar o ingresso fora. Shun sorri e seu rosto adolescente brilha na luz refletida pela pedra. Apesar de muito jovem, ele não tem o ar infantil da maioria dos garotos de sua idade. Os dois estão sentados lado a lado no ponto mais alto do auditório. - O que você sabe sobre o Odeon? - pergunta Nikol. - Não muito. Construído em 161a.C., o enorme teatro tem capacidade para 6 mil espectadores e uma acústica impressionante. - Dá até pra escutar o som de uma moeda caindo no palco - explica Nikol. - Também é chamado de Odeon de Herodes Atticus, em homenagem ao político romano que doou os recursos para sua construção. Foi reformado depois da Segunda Guerra Mundial e hoje recebe artistas do mundo inteiro. - Parece que o gosto dos gregos pelo teatro é o mesmo desde a Antigüidade até os dias de hoje... -comenta Shun. - Aqui nós vamos ao teatro como se vai a um jogo de futebol. Peças clássicas, como a de hoje, são geralmente apresentadas em teatros a céu aberto, sem correr muito risco de cancelamento por causa de chuva: na Grécia cerca de trezentos dias por ano são ensolarados. - Mas elas só podem começar quando as luzes se acendem, depois do pôr-do-sol, e por isso acabam bem tarde. - Este espetáculo tem cinco horas de duração... - A noite vai longe! - diz Nikol, sorrindo. - Todos os gregos, até mesmo as crianças, dormem muito, muito tarde. Este é o intervalo entre a primeira e a segunda parte da Trilogia Orestéia, de Ésquilo. Nikol quer saber o que Shun, um garoto japonês, acha do teatro clássico grego.16
  10. 10. - Muito interessante - diz Shun. - Acha mesmo? As obras de Ésquilo são grandiosas, semdúvida, mas também podem ser bastante cansativas... Ésquilo viveu no século 5a.C. e foi um dos três grandesautores de tragédias. Suas peças continuam a ser encenadas,não apenas na forma clássica, mas também nas mais diversasinterpretações contemporâneas. A Orestéia se passa um pouco depois da Guerra de Tróia,aquela de Ulisses, Heitor e Helena. O conflito é desencadeadopor uma maçã de ouro dedicada “à mais bela”, atirada entreas divindades por Éris, a deusa da discórdia - e acaba de fatoenvolvendo a mulher mais bela do mundo, Helena de Tróia. A primeira parte da trilogia se chama “Agamenon”.Nela, o personagem-título, comandante-chefe dos gregos erei de Micenas, oferece sua filha Ifigênia em sacrifício. A rainhaClitenestra fica indignada e arma um plano para assassinarAgamenon, com a ajuda de seu amante, Egisto. - O Seiya teria dormido só de ouvir essa explicação -diz Shun. - Da próxima vez tente levá-Io a uma comédia, daquelasbem vulgares. É o tipo de coisa que as crianças da idade delegostam – Nikol já tinha ouvido falar muito de Seiya, e se referiaao garoto de um jeito inocente e brincalhão. Depois do intervalo, começa a segunda parte da peça:“Coéforas”. Nove anos se passaram desde a morte de Agamenon.Seu filho Orestes, que havia sido enviado secretamente a umpaís vizinho, jura ao Oráculo de Delfos que irá vingar a mortedo pai. O estilo da apresentação é fiel ao teatro clássico, comatores mascarados e os mesmos efeitos de palco daAntigüidade. Orestes retorna ao seu país às escondidas para eliminarEgisto, com ajuda da irmã Electra, e acaba encontrando averdadeira assassina de seu pai: sua mãe, Clitenestra. Clitenestra suplica pela própria vida. Orestes ficadividido por alguns momentos, mas não abandona a convicçãode vingar a morte do pai, conforme ordenado pelo Oráculo.
  11. 11. - Dei à luz uma serpente - diz a desesperada Clitenestra. - Você matou quem nunca poderia ter matado. Por isso será condenada a um sofrimento que não deveria existir - Orestes golpeia Clitenestra com a espada, dizendo que ela não está sendo assassinada por seu filho, e sim por si mesma. A rainha Clitenestra cai morta, espalhando o vermelho do sangue pelo palco. Matricídio. Todos os olhares da platéia se voltam para o Orestes mascarado, ainda segurando a espada com a qual matou a mãe. A notícia de seu ato hediondo chegará aos ouvidos das três Erínias, as deusas da vingança, que o levarão à loucura na terceira parte da Orestéia. Mas tem algo de muito errado na apresentação de hoje. Nikol se levanta abruptamente, perplexo. No teatro clássico grego, um assassinato nunca pode ser encenado abertamente diante do público. É um tabu. A cena deve ficar implícita na narrativa ou acontecer fora do campo de visão da platéia. Pode se ouvir o grito da vítima, por exemplo, mas é terminantemente proibido encenar a morte, os detalhes do crime. Nikol sabe que trair essa regra numa peça clássica seria algo inconcebível para uma companhia teatral grega, ainda mais numa apresentação no Odeon. E as coisas ficam cada vez mais estranhas. - São dois? - sussurra Nikol, incrédulo. No palco agora estão dois Orestes, usando a mesma máscara. Desde quando o outro estava lá? De onde ele surgiu? O ator que interpretava Orestes até agora parece congelado pelo assassinato que acaba de presenciar. Mal consegue gritar quando seu outro “eu” vira a espada em sua direção e arranca sua cabeça, com máscara e tudo, num golpe preciso. O teatro vem abaixo. Não é mais uma peça, a tragédia hoje é pra valer. O público desperta da comoção causada pela apresentação, passando da ilusão para a realidade em segundos. O falso Orestes pula do palco e corre pela platéia agitando a espada suja de sangue. Shun sente que aquela energia mortífera é dirigida a ele. De fato, o homem por trás18
  12. 12. da máscara se aproxima rapidamente do ponto mais alto doanfiteatro. A espada do assassino solta faíscas diante dos olhos deShun, que se defende do golpe mortal com uma corrente queninguém parece saber de onde surgiu. Ninguém entende,também, como um garoto franzino consegue conter todo opeso e a força do agressor. - Quem é você? - pergunta o falso Orestes, com seusbraços musculosos e poderosíssimos saltando do traje de palco. O odor sutil que chega às narinas de Shun é o de umafera faminta. Ele estica um pouco mais a fina corrente, que,neste momento, contrariando toda a lógica e surpreendendoa todos, acaba reduzindo a pó a pesada espada de bronze. O assassino não parece se intimidar, e passa a lutarcom as próprias mãos. Shun é o único que consegueacompanhar seus movimentos ultra-rápidos. Apenas Shunpercebe quando ele se vira para Nikol e suspende o corpo dogrego no ar, atirando-o com uma força sobre-humana contrauma parede de pedra. Mas nem mesmo Shun sabe onde está oagressor alguns segundos depois, em meio à confusão e aocaos generalizado do anfiteatro. - Para onde ele foi? O garoto, alerta, mantém a posição de luta com suascorrentes enquanto protege Nikol. Nem sinal do Orestesmascarado, que já sumiu na escuridão da noite de verão emAtenas. As Vontades dos Deuses, liberadas pelo Universo nomomento de seu nascimento, chocaram-se contra as fagulhasde vida espalhadas por toda a tarde, e se abrigaram nasEstrelas. Em Uranus - o Céu - refugiaram-se as estrelas. Em Pontus - o Oceano - teve início a vida. Ao som e ao ritmo suave do Tempo, o Mundo sedesenvolveu - e nele todas as pessoas nasciam, morriam etinham seu destino determinado pelas Estrelas. E seguiram as estrelas o seu fluxo pela vida, e a vida,pelo fluxo das estrelas.
  13. 13. Antes que as próprias pessoas se dessem conta, foram surgindo aqueles que traziam em seus corpos as Vontades dos Deuses. Eram receptáculos de suas Almas Imortais, seus Profetas, ou os próprios Deuses adquirindo existência terrena. Quando surgiam essas encarnações dos Deuses, elas procuravam guiar o “Mundo” de acordo com suas vontades, confrontando-se e lutando entre si. Apareceram então guerreiros para proteger os Deuses, também escolhidos pelas constelações. Havia também Atena, e os Sagrados Guerreiros de Atena. O embate mortal entre os Deuses pela supremacia no Mundo se estendeu por espaços temporais inconcebíveis para a mente humana. Nos campos de batalha, Atena estava sempre cercada de jovens guerreiros que vinham de todos os cantos da Terra para protegê-la. Eram jovens verdadeiramente dotados de Coragem e Força. Seus golpes cortavam o ar, seus chutes rachavam o solo. Esses Guerreiros da Esperança surgiam sempre que o Mal ameaçava se espalhar pelo Mundo. Mas seus nomes se perderam no Tempo e são ignorados até mesmo pela Mitologia Grega. Esses jovens lendários e es- quecidos... Os Sagrados Cavaleiros de Atena.20
  14. 14. I OS SANTOS DE ATENA22
  15. 15. 1 A “Mitologia” é a própria sistematização da cultura e de suas ramificações desde o surgimento da humanidade. É, por definição, algo tão vasto que nem o mais dedicado poeta épico poderia narrar cada uma de suas histórias, e com certeza seria impossível reunir todos os relatos em um mesmo livro. Por estar em evolução constante, nela coexistem teorias díspares e até contraditórias, e qualquer esforço em discutir ou alinhar as diferentes versões não seria mais do que um divertido passatempo.N a Antigüidade, os gregos eram chamados de “helenos”, ou “povo de Hellas”, forma como se referiam à sua terranatal. Até os dias de hoje, a Grécia se intitula “RepúblicaHelênica” cada vez que sua delegação de atletas lidera o desfilede abertura dos Jogos olímpicos.O nome que usamos tem origem latina e foi adotadoinicialmente por estrangeiros. Na verdade. a palavra “Grécia”só existe na língua portuguesa, sendo “traduzida” de diferentesformas em outros idiomas, como Greece, em inglês. Essaconfusão é mais comum do que se pode imaginar. Osjaponeses, por exemplo, chamam sua terra de Nippon, ouNihon, e não de Japão (e suas variações, dependendo dalíngua, como o país é conhecido no resto do planeta. Conta a Mitologia que o mundo como nós o conhecemosteve início quando Zeus provocou um dilúvio para destruir ahumanidade. Ele era o mais poderoso dos deuses gregos, econsiderava a espécie humana cruel e medíocre. Apenas um casal conseguiu escapar dessa catástrofe:Deucalião, filho do sábio titã Prometeu - aquele que dera aos
  16. 16. homens o fogo, até então um dom exclusivo dos seres imortais - e Pirra, filha de Pandora - a primeira mulher, que recebera dos deuses inúmeros presentes. O primogênito desses sobreviventes recebeu o nome Heleno, e se tornou o lendário pai do povo grego. O Santuário. A morada da deusa Atena não fica muito longe de Atenas, a maior cidade da Grécia, mas não aparece em nenhum mapa conhecido dos homens. É uma montanha sagrada, completamente isolada do resto do universo, separada do nosso mundo por estrelas e grossas camadas de nuvens. Nem mesmo os mais avançados e precisos satélites de espionagem seriam capazes de encontrar esse lugar, inteiramente coberto pela Vontade Superior dos Deuses e protegido por barreiras divinas que repelem qualquer tipo de interferência externa. Esse é o Santuário, cuja existência está além da lógica e da compreensão humanas. Procurar por ele é o mesmo que buscar a Deus, e duvidar de sua existência algo tão perigoso quanto questionar o criador. Anoitece. - Por que as estrelas estão tão agitadas? - sussurra Yuuri, balançando levemente seus cabelos prateados. Sua pergunta fica sem resposta: ela está sozinha no observatório astronômico, um espaço circular ao ar livre localizado no cume da montanha. O céu noturno lembra um planetário, límpido e povoado de estrelas, como se a terrível poluição urbana de Atenas não existisse. No piso sob seus pés, há o mosaico delicadíssimo de um mapa duo decimal indicando os quatro pontos cardeais. Áries, Touro, Gêmeos, Câncer... - É como se as estrelas estivessem caindo da Via Láctea... Yuuri está em pé no posto de observadora estelar. Seu traje lembra os usados pelos antigos gregos: um quitão branco24
  17. 17. sobre o qual descansa uma túnica escarlate, presa por umbroche na altura do ombro direito. Sobre seu rosto há umamáscara, mas muito diferente daquelas que vemos em festivaisou no teatro. É uma máscara de silêncio, feita unicamentepara esconder qualquer expressão de sentimento humano. -... De novo! - outra estrela “cai” rumo ao oeste. Todos os seres humanos nascem, morrem e reencarnamde acordo com os desígnios das estrelas. Observá-las é uma forma de enxergar melhor o nossomundo. Em nenhum momento Yuuri desvia seu olhar atentodo céu. - O mestre Nikol bem que poderia estar aqui, mas foiao teatro com aquele garoto bonitinho... No alto do firmamento está o triângulo de pontosbrilhantes formado por Deneb, Vega e Altair, estrelas dasconstelações de Cisne, Lira, e Águia, respectivamente. Háum espaço opaco no mapa estelar, logo abaixo da constelaçãode Virgem, que está perto de se esconder no horizonte. Énesse pedaço de céu esvaziado que Yuuri vê estrelas caindoem frangalhos, formando uma calda em chamas. - Preciso avisar Atena - ela é oficiante auxiliar doSantuário, e essa é sua missão. Yuuri chama a deusa dizendoseu nome em voz alta. Atena existe em carne e osso, assim como seuscavaleiros. É a deusa protetora do Amor e da Paz na Terra, ese faz presente nesta região sagrada. Num sobressalto, Yuuri sente a chegada de um instintoassassino. Um arrepio percorre sua espinha, uma sensaçãoreal como a lâmina de uma faca contra sua nuca. Um inimigo:e ela está bem na mira dele. “Mas como? Eu nem percebi...”, pensa transtornada. - Você é uma amazona - diz o invasor. - Sim. Sou Yuuri do Sextante - paralisada, ela não temalternativa senão falar com o estranho às suas costas. - Vocêtem consciência de que invadiu o Santuário de Atena? O invasor não responde. Yuuri se sente ainda maisacuada, sabendo que fez uma pergunta idiota. Ninguém
  18. 18. penetraria a região sagrada “por acaso”. Seria impossível ultrapassar suas redomas espirituais “sem querer”. - Quem enviou você...? - Toda mulher deve usar a máscara para poder se juntar aos Cavaleiros, abandonando completamente sua feminilidade. Essa é a regra... Yuuri está cada vez mais confusa. Um ruído abafado e sua máscara de silêncio cai no chão, partindo-se ao meio. -... E esse é o seu rosto. Ela levanta as mãos para cobrir o próprio rosto, num movimento instintivo. Seu oponente aproveita a oportunidade e atinge com um soco seu abdome desprotegido, erguendo seu corpo e atirando-o com tanta força no chão que Yuuri perde os sentidos. O invasor olha para o mosaico no chão com desdém, soltando um riso de deboche. - Ha! - o grito produz uma onda de energia que lembra o impacto de um meteorito, destruindo o piso do observatório, até o mapa zodiacal desaparecer numa nuvem de pó.26
  19. 19. 2 O homem acorda de sua soneca com um chute que o lança mais de dez degraus escada abaixo: - Levanta, cara! - Nossa, essa doeu! E eu estava dormindo tão bem... -uma pausa. Seu tom de voz muda completamente ao perceberquem o acordou. - Ai, ai, ai...! - Quantas vezes eu tenho que acordar vocês? Parecemmacacos! - diz, sem cerimônia, o garoto japonês de corpodelgado. - B-boa noite, senhor Seiya. - responde o homem naescada, enquanto sacode rapidamente seus dois colegas, quetambém cochilavam. Os três vestem armaduras de couro, ouniforme dos soldados defensores do Santuário de Atena. Se freqüentasse a escola, Seiya estaria cursando oginásio. O aspecto franzino e seus menos de 1,70m de alturanão lembram em nada os imponentes e musculosos lutadoresprofissionais. Seus cabelos formam ondas que dão impressãode intenso dinamismo e seu olhar penetrante transbordaaquela energia típica dos jovens. Com seu traje e protetoresde couro, parece pronto para uma festa à fantasia. - Ô moçada! Vocês são a guarda noturna, têm que vigiaro Santuário sem dormir. - C-claro, senhor. A gente sabe. - Então por que ficam cochilando? - continua o garoto.- Vocês andam muito moles! Não é porque ultimamente estátudo em paz que nunca mais vai aparecer um inimigo! Seiya fala com autoridade, como se fosse um sargentocomandando sua tropa. - É por essas e outras que vocês nunca deixam de sersoldados rasos - completa ao se afastar do grupo, deixando
  20. 20. para trás os soldados, assustados até o último fio dos cabelos. - Se bem que esta noite de verão está mesmo perfeita para uma soneca Seiya também está em serviço, mas sua vigilância é solitária. Foi muito azar ter sido escalado para a patrulha noturna neste calor. Talvez tivesse sido melhor aceitar o convite de Shun, com certeza seria divertido passear em Atenas. “Mas assistir uma peça de teatro fedendo de tão velha? Que graça o Shun vê nisso?” Parecendo se esquecer da bronca que deu nos soldados ainda há pouco, Seiya solta um bocejo sossegado e tranqüilo. No céu, uma imensidão de estrelas. Este sempre foi o Santuário de Atena. Os doze templos da abóbada celeste compõem uma trilha íngreme ao redor da montanha rochosa. São as chamadas Casas Zodiacais: Áries, Touro, Gêmeos, Câncer, Leão, Virgem, Libra, Escorpião, Sagitário, Capricórnio, Aquário e Peixes. Esse caminho tortuoso leva à Sala do Mestre e ao Templo de Atena, o mais sagrado de todos. O Odeon fica ao pé da montanha, ao lado de outras construções comuns, como casas e a torre do relógio. Assim como acontece em Delfos, famosa por seu oráculo, a cidade parece se erguer em torno do monumento sagrado. Neste mesmo espaço convivem diferentes estilos arquitetônicos, alguns de períodos separados por milênios. As ruínas de edificações antigas são testemunhas do uso contínuo desta região ao longo de muitas e muitas eras. Esta é a Sé dos cavaleiros que defendem a Terra. Desde os mais antigos mitos e fábulas, Atena saiu sempre vencedora dos combates entre deuses em fúria. Todos os relatos dão conta de que a deusa guerreira nunca falhou em sua luta pela defesa da paz. E em nenhuma ocasião o Santuário caiu diante de forças maléficas. Seiya interrompe abruptamente sua caminhada vigilante. . “Que sensação é essa?” Um pressentimento desagradável. O jovem volta seu olhar na direção do observatório celeste, no cume da montanha.28
  21. 21. - Aaaaahhhhh! Os gritos pegam Seiya de surpresa. - Mas o que... - alarmado, ele sobe a escadaria o maisrápido que pode, pulando quatro ou cinco degraus a cadapasso. Um odor penetrante e espesso de sangue faz com queprenda a respiração por um instante. O cheiro é tão forte queparece vir de sua própria boca. - Mais um rato - diz uma voz vindo das sombras,enquanto são atirados na direção de Seiya os pobres coitadosresponsáveis pelos berros horripilantes. - Esses caras são os... O primeiro tem todos os ossos em pedaços,aparentemente esmagados por uma força devastadora. Osegundo está todo perfurado, cada centímetro de seu corpoatravessado por agulhas. O terceiro é um cadáver desfigurado,com a pele arrancada como a casca de uma romã. São os três guardas que há pouco cochilavam. Mortos.Soldados de Atena, derrotados em seu santuário! - Quem está aí?! - grita Seiya na direção dos inimigos,até agora ocultos nas sombras. Só então consegue enxergardois dos invasores que ousaram sujar de sangue a regiãosagrada. - Ágrios, a força brutal - apresenta-se com uma vozgrossa o gigante de dois metros e meio, tão grande que chegaa encobrir as estrelas. - Toas, o relâmpago célere - diz o outro, também alto,mas não como o primeiro. - Quirri! Eu sou Pallas, o parvo - a terceira voz éesganiçada, e a mais aterrorizante de todas. Seiya engoleseco diante da última criatura a ser revelada pela luz dasestrelas. Trata se de um demônio. Pallas tem braços desproporcionalmente compridos ecostas curvadas como as dos corcundas em fábulas européias.O torso distorcido está tão dobrado para frente que o rostominúsculo e esquelético fica na altura da cintura de Seiya,fazendo com que a criatura lance seu olhar doentio de baixopara cima. O monstro parece exercer uma atração terrível,
  22. 22. talvez pela paixão que os seres humanos têm por tudo o que é bizarro, a mesma fascinação que nos atraiu à Quimera. - Essa armadura? - balbucia Seiya. - Eis o traje de Adamas! Quirri! A Armadura da Grã- Terra que protege os Gigas! - responde Pallas, abrindo ameaçadoramente os braços compridos como os de uma aranha. É a armadura de diamante, que também poderia ser chamada de “armadura de cristal”. Um traje composto de polígonos de cristal com um brilho hipnotizante. Seiya percebe que os outros dois invasores vestem a mesma armadura. - Os Gigas? - pergunta o garoto, perplexo. - O que são os Gigas? A ignorância de Seiya a respeito dos Gigas provoca em Ágrios uma reação encolerizada. - Atena! E os cavaleiros! Como ousam esquecer o nome dos Gigas?! - Contenha-se, Ágrios. - Mas, Toas...! - Parece-me de certa forma inevitável - continua o segundo gigante. - Nós, os Gigas, fomos aprisionados por Atena na Gigantomaquia de tempos longínquos. Imagine quantas eras percorreu o mundo enquanto vagávamos por nosso cativeiro mortal, no vão entre Gaia e o Tártaro. Basta olhar para o céu. Até mesmo a Estrela Polar mudou de lugar desde que partimos. Inúmeros astros já extinguiram sua chama e se perderam no firmamento... - Quirri! Chega de bancar o poeta, Toas - interrompe PalIas, ao mesmo tempo em que aponta suas garras afiadas na direção de Seiya. Os dedos do monstro são absurdamente longos, muito maiores que os de uma pessoa, e cada movimento produz um agudo som metálico gerado pelo atrito de uns com os outros. A armadura de diamante brilha num aterrorizante tom vermelho-escuro, fazendo com que a mão da criatura se assemelhe a uma aranha venenosa. - Você usou essas garras contra eles! - protesta o menino.30
  23. 23. - Sabe, pele de moleque é fácil de arrancar! -respondea criatura, soltando então um grito maníaco. - Quirri! Garrasmarionetes! Seiya escapa por um triz da primeira investida de PalIas,que chega a arranhar seu nariz e cortar alguns fios de seucabelo. Sem a menor chance de se recompor, o garoto é quaseimediatamente atingido por Ágrios, que se atira contra elecomo uma fera gigantesca, lançando-o ao ar. - Ohhhhhhhhh! - o corpo de Seiya cai no chão com força.- Que força incrível tem esse Ágrios! E pensar que ele só mepegou de raspão... - Vejo que suportou bem o ataque! Você parece ser umpouco menos molenga que esses mortos aí no chão. - Pode calar a boca, grandalhão - responde Seiya,enquanto se levanta com um olhar de deboche. - Você nãoestá me comparando com soldados rasos, não é? - Seu macaquinho! - Seiya! - o bate-boca é interrompido por uma nova vozsurgindo na noite. - Kiki? É você? Um garoto de cabelos curtos e eriçados olha os invasorescom uma expressão assustada. Deve ser uns cinco anos maisnovo que Seiya. Suas sobrancelhas foram raspadas, talvez poralgum significado cerimonial, e em seu lugar há um desenhocurioso e peculiar. - Vim porque senti presenças suspeitas... Quem sãoesses caras? - seu rosto parece combinar a originalidade dediversos povos, podendo ser considerado tanto oriental quantoocidental. Em japonês, o nome Kiki quer dizer “demôniohonrado”. Incrivelmente, o menino paira no ar sem qualquerapoio, depois de ter surgido do nada no céu. - Teletransporte? Quirri! Esse tampinha é pára normal? - Nem precisa dizer, Seiya. Usa a minha telecinese! -grita Kiki, antes que o amigo possa falar qualquer coisa. Nesse instante, uma espécie de baú rompe o espaço,surgindo numa esfera de luz sobre a cabeça de Seiya. A
  24. 24. claridade faz com que os Gigas cubram seus olhos ofuscados. É uma caixa feita de bronze, decorada com imagens de um cavalo alado em baixo relevo. De sua tampa entreaberta escapa um brilho ainda mais forte. Os invasores assistem, estupefatos, à aparição no céu de uma enorme estátua na forma de um cavalo alado, coberta por uma aura flamejante de raios azuis e brancos. Um verdadeiro legado da era dos mitos... a prova da existência dos Cavaleiros. A mais poderosa fonte de energia do mundo. - Pégaso! Com isso a estátua ganha vida e relincha, atendendo ao chamado de Seiya, para então se dividir em várias partes que aderem ao corpo do rapaz. Cabeça. Ombros. Peito. Braços. Cinturão. Pernas. - Rá! - o gigantesco corpo de Ágrios é atirado contra a montanha, num impacto tão poderoso que por pouco não abre uma fenda na rocha. Ele tosse e comprime o abdome com força entre os braços, tentando impedir que o conteúdo de seu estômago seja regurgitado. - Não é possível! Um soco invisível? - Eu não disse, grandalhão? Nem o melhor praticante de luta ou arte marcial, seja caratê, boxe ou muay thai, é capaz de derrotar numa única investida um oponente que tenha o triplo do seu peso. Mas Sejya é diferente: ele domina a luta de Atena. Quando seu punho cortou o vazio, passando bem perto da cabeça de Ágrios, o movimento enviou uma onda de choque - sinal de que o soco fora desferido a uma velocidade superior à do som. O golpe prova que ele é um guerreiro escolhido pelas constelações espalhadas pela abóbada celeste. - Ah, é assim? É assim, moleque? - Ágrios se levanta furioso, expulsando com força o ar dos pulmões. Apesar da queda ele está inteiro. Na verdade, seus músculos parecem ter se expandido e seu corpo, crescido ainda mais. - Você é um cavaleiro. - Seiya! Meu nome é Seiya, da Constelação de Pégaso. Esse é um jovem de poder lendário. Sua força vem da estátua de Pégaso, que sai de sua caixa dourada e se rompe32
  25. 25. em pedaços para formar uma impenetrável armaduraprotetora. As asas do cavalo se dobram magistralmente como umleque, encaixando-se em suas costas. Sua cabeça toma a formade um elmo e seu corpo se transforma num escudo peitoral:O que era o pescoço do animal agora cobre o braço direito deSeiya, enquanto a cauda adere ao braço esquerdo e o peito éum cinturão. As patas dianteiras e traseiras se mesclam deforma complexa, protegendo as pernas do jovem das unhasdos pés até os quadris. A poeira estelar se espalha, cintilandono ar. O traje celestial de Seiya está completo. É sua aarmadura sagrada permitida apenas aos cavaleiros escolhidosde Atena. - É bom que vocês saibam - grita o garoto. - Eu estouMUITO bravo! O traje branco-azulado de Pégaso provoca em Seiyauma explosão de energia. - Meteoro de Pégaso! . - Como?! Os punhos se multiplicaram? - pergunta-se abesta enquanto fachos de luz se espalham por todos os lados. De repente um ruído abafado interrompe o golpesupersônico do punho de Seiya. O movimento é contido pelaarmadura de Toas, “o relâmpago célere”, que até então selimitava a assistir à luta. - Esfrie a cabeça, Ágrios. - diz o segundo gigante,colocando-se diante de Seiya. - Você nem percebe como esseataque é limitado! Punhos multiplicados que nada! A mimpareceu que cada soco se arrastava como uma lesma. - Como esse cara pode ser tão veloz...? - Seiya estásurpreso e confuso. Toas fora capaz de repelir todo o fluxo degolpes e ainda segurar seu punho. - É verdade que não se deve subestimar o poder de umcavaleiro em seu traje sagrado - continua Toas, apertandocom mais força ainda o punho do garoto. - Você vai ver umacoisa, moleque! - Quirri! Analise bem a situação... - provoca Pallas. -Você acha que um cavaleiro tem chance contra três de nós? - Droga! - Seiya está cercado.
  26. 26. Os três Gigas começam a exercer uma pressão invisível que faz com que Kiki perca a concentração e caia com tudo no chão. - Ai! O que foi essa telepatia?! - antes de conseguir se recompor, o menino assiste, perplexo, à chegada de mais um invasor, que aparece trazendo nos ombros Yuuri do Sextante, desmaiada. - Senhorita Yuuri?! - reconhece a garota por seu cabelo prateado e a túnica escarlate dos oficiantes do Santuário, mas ela está inconsciente e não reage à menção de seu nome. Seiya não entende por que não detectou de antemão a presença deste quarto inimigo. É realmente difícil de acreditar. Somente se tivesse uma força avassaladora alguém conseguiria se aproximar de um cavaleiro sem ser percebido. O novo invasor desaparece logo em seguida, rápida e silenciosamente, levando Yuuri consigo. - Sumiu! Como? - Seiya não sabe o que pensar. - Bom, agora Ágrios, Pallas, a nossa brincadeira fica por aqui - diz Toas a seus companheiros. -Esqueceram-se do nosso objetivo original? - Saco! - Quirrirri... Tem razão. Os gigantes recolhem seus punhos, para grande surpresa de Seiya. - Moleque... Vai ter volta... - Quirrirri! Você escapou desta vez, mas por pouco tempo. Ágrios e Pallas se cobrem novamente de sombras e desaparecem na noite. Toas se detém por mais alguns segundos. - Seiya de Pégaso. Vamos deixar que você viva para que leve o nosso nome a Atena. - diz. - Diga a ela que vá à Sicília se quiser a menina de volta. Nós, os Gigas, estaremos lá. Nós, a descendência dos Deuses Antigos, nascidos da Grã- Terra, aprisionados nas profundezas do vazio fantasma. Com isso a imagem do último invasor penetra a escuridão, para sumir completamente.34
  27. 27. - Mas que droga! O que vocês...? - a voz de Seiya ecoaem vão. Não há mais sinal algum dos inimigos. O garoto parecedespertar de um pesadelo. Não fosse pelos cadáveres dossoldados rasos e pelo odor hostil deixado pelas criaturas,poderia jurar que nada daquilo tinha acontecido. - Gigas... Das profundezas do navio fantasma...
  28. 28. 3 A Sala do Mestre fica logo na entrada do Templo de Atena, além das Doze Casas Zodiacais. O Mestre é o líder supremo dos Cavaleiros, o servo mais importante de Atena. - A senhora Yuuri foi seqüestrada? - Shun voltou ao Santuário logo após a confusão no teatro da Acrópole, apresentando-se imediatamente com sua armadura de Andrômeda. O traje tem um brilho cor-de-rosa que lembra mais um vestido de donzela do que a armadura de um guerreiro. - Droga! Eu estava lá e não pude fazer nada! -Seiya cerra os punhos, inconformado por ter deixado os inimigos escaparem. Ele também está vestido com seu traje celestial, que é essencialmente um uniforme de combate. O fato de os Cavaleiros estarem usando suas armaduras significa que esta é uma reunião de guerra. - O senhor não está ferido, Sr. Nikol? - Está tudo bem comigo. Foi mais um susto, o ataque me pegou de surpresa. Assim como Shun e Seiya, Nikol é um Cavaleiro de Atena. A Sala do Mestre é cercada por colunas dóricas e adornada com cortinas. No centro do recinto existe um patamar mais alto, coberto por um tapete, onde fica o assento do Mestre. Mas não tem ninguém sentado ali. O cargo de Mestre está vago. Nikol, chefe dos oficiantes, é quem tem cuidado da administração do Santuário. Você, leitor; saberia dizer quantas constelações existem no céu? Segundo os astrônomos, são 88. Mas esse não é um fator absoluto, cientificamente falando, assim como não existe uma opinião predominante36
  29. 29. sobre a descrição de cada constelação. Na verdade, o número“88” foi uma padronização adotada pela União AstronômicaInternacional em sua Assembléia Geral de 1930, e se baseiano modelo do astrônomo clássico Ptolomeu. Essa contagem“oficial” mantém aquilo que já era conhecido das civilizaçõesantigas, ao mesmo tempo em que acrescenta descobertas maisrecentes, especialmente no que diz respeito às constelaçõesmeridionais. De qualquer forma, não faz muito sentido usar essedado para contar a história das Armaduras, uma tradiçãoque remonta à Era dos Deuses. Uma pessoa se torna um Cavaleiro ao ser escolhidacomo representante de uma constelação específica. O tempotodo esses guerreiros enfrentam batalhas mortais paraproteger nosso mundo do Mal. Quando sua própria força nãoé suficiente, eles recorrem à Graça Divina, através de suasarmaduras sagradas - por isso cada Cavaleiro tem sua própriaconstelação padroeira, seja ela Boreal, Austral ou Zodiacal(teoricamente seriam 24, 48 e 12 de cada tipo,respectivamente). Existem três gradações entre os Cavaleiros: Ouro, Pratae Bronze. Os Cavaleiros de Ouro estão acima de todos os outros esão representados pelas doze casas zodiacais as constelaçõesda astrologia, que também representam os signos, como Áries,Touro e Gêmeos. Os Cavaleiros de Prata são os próximos naordem hierárquica, seguidos dos Cavaleiros de Bronze. Aindamais abaixo estão os soldados rasos. O Mestre é responsável pelo comando de todos essesníveis - portanto é sempre um Cavaleiro de Ouro, geralmenteescolhido por seu antecessor no cargo. Já os Oficiantes podemser Cavaleiros de Prata ou de Bronze. Suas responsabilidadesincluem prever a trajetória das estrelas, monitorar sinais deatividade maligna, registrar a história e transmitir o legadodos segredos místicos do Santuário para gerações futuras. Alguns acreditam que existem 24 Cavaleiros de Bronzee 48 Cavaleiros de Prata, mas, com exceção dos dozeCavaleiros de Ouro, não se sabe exatamente quantos são os
  30. 30. guerreiros de cada estirpe. Aparentemente nem mesmos os Mestres conhecem o número total de trajes sagrados existentes. O Histórico do Santuário, cujos dados são relativamente novos, também não oferecem uma resposta exata. Segundo um relato recente, a quantidade máxima possível de Guerreiros Sagrados seria 78. Em outro registro, esse número pula para 88. Há quem diga que os astrônomos se basearam de alguma forma indireta nessa anotação para estabelecer a contagem “oficial” de constelações, mas não existem provas. Além disso, essas teorias se contradizem: por exemplo, sabe- se que existiu até muito pouco tempo atrás um Cavaleiro de Cérbero, embora essa constelação não esteja na lista “oficial” dos astrônomos. O único ponto em comum entre as diferentes versões é a crença de que em nenhum momento todas as armaduras foram utilizadas simultaneamente. Também não podemos nos esquecer de que o universo não é algo estático. O mapa celeste está em constante transformação: muitas estrelas se incendeiam e se perdem como Novas, e nem mesmo a Estrela Polar permanece imóvel num período de milhões, ou mesmo milhares, de anos. Todas as pessoas nascem e morrem sob o destino das estrelas. O firmamento e o mundo em que vivemos refletem um ao outro. Se o mundo muda, mudam as estrelas e seu desenho no céu, ou seja, mudam as constelações que determinam os trajes sagrados. Com isso, a própria natureza das armaduras dos Cavaleiros é mutante. e os Guerreiros Sagrados sabem disso. Apesar de tudo isso, o número “88” se tornou a resposta padrão para a quantidade de constelações e Cavaleiros existentes. Mas, nos dias de hoje, período em que se passa a nossa história, não existe nem mesmo a metade desses guerreiros com Atena na Terra. - Pelo que o Seiya está dizendo, pode haver uma relação entre a pessoa que me atacou no teatro e os invasores que seqüestraram Yuuri - diz Nikol, que ainda sente alguma dor e por isso vez por outra comprime os músculos do rosto.38
  31. 31. - Mas você é um Cavaleiro de Prata, como ficou emdesvantagem? - Seiya, nem sei o que dizer - Nikol ainda está confusoe envergonhado. - Sinto muito... Por Yuuri também. Yuuri é uma Amazona de Bronze, equiparando-se a Shunem hierarquia e poder de combate, mesmo sendo mulher.Como demonstrado no golpe que Seiya acertou em Ágrios, aessência divina das técnicas de luta dos Guerreiros Sagradosnão tem relação alguma com força bruta ou capacidademuscular. - o que está acontecendo? Qual é o objetivo dessesinimigos? - Pelo menos nada aconteceu a nossa Atena. Felizmente. - Como você pode dizer a palavra “felizmente” numahora dessas, Nikol? - a voz suave inunda a sala com uma cargade afeto e bondade. As cortinas se abrem, revelando a figura de umamenina-moça. É a deusa da guerra e da sabedoria. A eternavirgem. Zeus, deus dos céus; Poseidon, senhor dos mares; Hades,mestre do inferno. Atena, protetora da Terra - com poderequiparado ao dessas três entidades supremas. - Atena - Nikol dobra o joelho na reverência que seacostumou há muito a fazer. - Não se pode falar em algo “feliz” quando a vida deum dos meus amados Cavaleiros está em perigo. - continuaAtena, mantendo uma postura altiva. A figura feminina da deusa é de uma beleza singular.Aparenta mais ou menos a mesma idade de Seiya e Shun, temlongos cabelos castanhos na altura da cintura e veste umgracioso vestido branco. Não é nada diferente de uma garotacomum, mesmo considerando sua extraordinária beleza. - Foram palavras impensadas. Perdoe-me, Atena -desculpa-se Nikol, curvando-se ainda mais. - Não se culpe. Por favor, levante a cabeça. A deusa transmite sua autoridade no modo comoestende a mão a Nikol, um homem aparentemente muito maisvelho que ela (o que não poderia estar mais distante darealidade, como se sabe).
  32. 32. - Os Gigas... - Sim, eu já sei. - Sua voz envolvente também transmite uma característica divina, manifestando sua vontade de deusa a cada palavra pronunciada. Afinal, a jovem é a própria Atena, a encarnação dessa divindade nos dias de hoje. - Quem são esses tais Gigas? - São os gigantes das fábulas gregas, Seiya - responde Nikol. - Ah... Fábulas... - Qualquer dia você vem comigo até a biblioteca para aprender a história da criação do céu e da terra. - Ããã... Acho que não vai dar - responde Seiya, tocando o próprio rosto num gesto meio constrangido. - Os Gigas são a própria origem etimológica da palavra “gigante” - explica Nikol com sua paciência inabalável. - Gigantes como os das histórias para crianças? Tudo bem, os caras que vieram aqui são grandes, mas dizer que são gigantes é exagero. - Deixe-me contar a história dos Gigas - continua Nikol, como se fosse um professor. - Ela começa na longínqua Era dos Deuses, algum tempo depois do surgimento dos Cavaleiros e de sua primeira luta, a batalha contra o exército de Poseidon, travada nas terras da Ática. Na sala agora se ouve apenas a voz de Nikol, enquanto os outros escutam com atenção. - Foi nessa época que os Gigas declararam guerra contra os Cavaleiros, com o objetivo de dominar o mundo. Esses antigos deuses malignos eram diferentes das entidades olímpicas como Poseidon e Hades. Chamavam a si mesmos de “Filhos da Grã-Terra” e se protegiam com armaduras de Adamas, material ainda mais resistente que o Oricalco. Eram seres dotados de uma força avassaladora, e a batalha entre eles e os Cavaleiros teve proporções épicas. Nossa vitória foi conquistada com muito custo, e apenas graças à presença da própria Atena nos campos de batalha. Quase nenhum Cavaleiro sobreviveu. - Nem consigo imaginar uma guerra tão difícil. - Mesmo tendo saído vencedora, Atena não pôde destruir os seres malignos, que eram deuses, portanto, imortais. Ela40
  33. 33. não teve escolha senão exilá-los nas profundezas além doTártaro, para que sua vontade diabólica jamais invadisse Gaianovamente. Essa é a história da Gigantomaquia. - Gigantomaquia? - É o nome da guerra contra os Gigas na mitologia -responde Nikol, solenemente. - Segundo o historiador gregoApolodoro, durante a Gigantomaquia, Atena atirou sobre osGigas o Monte Etna, que fica na Sicília, para aprisioná-Ios. - Peraí, você disse Sicília? - pergunta Seiya. -Atena...Os invasores do Santuário, esses Gigas de que vocês estãofalando, eles disseram que estavam levando a Yuuri para aSicília. - Mas eu não entendo - neste momento, a voz da deusacarrega o peso de sua dor pelo que pode estar acontecendo aYuuri. - Por que não me atacaram diretamente? - Estamos todos preocupados com a segurança de Yuuri,mas, antes de qualquer coisa, precisamos descobrir por queos Gigas estão de volta justo agora, eles que estavamaprisionados desde tempos imemoriais. - Vamos até a Sicília - diz Atena em um tom subitamenteconfiante. - Você quer ir pessoalmente, deusa?! Nuncapermitiríamos uma coisa dessas. - Nikol... - a voz da jovem transborda compaixão. -Fico feliz que você se preocupe comigo, mas não possoabandonar meus Cavaleiros. Que espécie de mãe deixaria seusfilhos para trás? A imagem da garota se referindo aos Guerreiros Sagradoscomo seus filhos é muito poética, e demonstra sua inabaláveldeterminação em protegê-los. Uma deusa disposta a lutarpor aqueles que ama. - É o seguinte...! - o tom mais alto de Seiya interrompeo momento solene. - Ainda não saquei qual é a desses Gigasaí, mas não dá pra ficar sentado aqui sabendo exatamenteonde os caras estão. Eu vou até lá! - Eu também - concorda Shun. Ainda temendo pela segurança de Atena, Nikol decidetomar as rédeas da situação, usando sua autoridade comoMestre interino.
  34. 34. - Então vão os dois - e com isso a missão é oficialmente transferida a Seiya e Shun, que a aceitam com vigor. - O primeiro passo é investigar as forças inimigas - acrescenta Nikol. - Só então submeteremos a decisão ao juízo de Atena. -Mas... -Já está tudo decidido e providenciado, senhora. - completa, ignorando a tentativa de protesto da deusa. - Chegueeeei! - uma voz estridente do lado de fora. Kiki se junta aos outros na Sala do Mestre. - Bom trabalho, Kiki. - Nossa, senhor Nikol, você gosta de abusar da gente, hein? - diz o menino em seu tom infantil e animado. - Tudo bem que a Sicília fica a meros 800 quilômetros daqui, mas deu um trabalho danado atravessar duas vezes o Mar Iônico e a Península Italiana! - Você já foi e voltou da Sicília, Kiki? - Pois é! - Kiki lança uma piscadela para Seiya. - Você parece estar muito bem - diz Nikol, sorrindo. - Tem energia de sobra para reclamar... O teletransporte provoca um enorme cansaço espiritual, especialmente em uma jornada de ida e volta sem descanso como essa. - Eu pedi a Kiki que trouxesse um guia de lá. - explica Nikol. - E eu vou falar uma coisa, teletransportar alguém cansa duas vezes mais! - Kiki não pára de tagarelar, sentando-se no chão. - Não, cansa quatro vezes mais! - Um guia? - Seiya ainda está bastante confuso. - Vocês vão precisar de alguém para mostrar o caminho. - a resposta é dada por uma nova voz. - A Sicília é a maior ilha do Mediterrâneo. Você não quer ficar perdido por lá, né Seiya? O garoto recém-chegado fala com ironia e dá um tapinha no ombro de Seiya, demonstrando intimidade. Mas o Cavaleiro de Pégaso parece não ter a menor idéia de quem se trata. O “estranho” é uns 10 centímetros mais alto que ele e aparenta ser dois ou três anos mais velho. Tem uma tatuagem no braço e usa roupas esfarrapadas que poderiam pertencer a um42
  35. 35. menino de rua. Seu cabelo comprido e tingido de prateadoestá penteado para trás, fazendo com que sua expressãolembre a de um lobo. - Quem é você? - Ha! Ha! Não faz essa cara feia! Você continua igualzinhoa quando era moleque, já vem querendo arrumar briga logode cara. - O jovem caçoa de Seiya num tom amigável enitidamente saudoso. - Quando eu era moleque...? Ei, você é o Mei! Aconstatação faz com que Seiya, Shun e até mesmo Atenavoltem no tempo por alguns instantes. A presença do amigode infância traz lembranças antigas que iluminam etransformam o rosto de todos. A encarnação da deusa, tãoimponente até há pouco, parece se tornar a garotinha depoucos anos atrás. - É você mesmo, Mei? - Você continua o mesmo, Seiya. E você, Shun, nossa,como você era chorão! E... - o jovem de cabelos prateadosfica mais sério ao se virar na direção de Atena. - É um enormeprazer reencontrá-la, Senhorita Saori.
  36. 36. II SICÍLIA44
  37. 37. 1-Nbeber. em acredito que você está vivo, Mei! - diz, retornando seu lugar no avião depois de ter ido buscar algo para Estamos em pleno vôo. Este avião não tem janelas,nem poltronas. Os assentos são lonas esticadas, suspensas portubos fixos nos dois lados da cabine. O espaço é apertado: seSeiya estivesse sentado de frente para os amigos, estariapraticamente batendo seus joelhos nos deles. Pela decoração,parece mais uma aeronave militar do que um avião depassageiros. - Não tem nada que ficar surpreso não, cara. Você e oShun não estão vivos? O mais normal era mesmo eu sobreviver. - Normal, você? Aaiii! - grita Seiya quando Mei apertacom alguma força o punho contra sua bochecha. - Pensa bem, Seiya! Alguma vez você já ganhou de mimnuma briga? - Isso foi quando eu tinha 7 anos! Você é dois anos maisvelho, e naquela idade isso faz muita diferença! - Ha! Mas você continua sendo um pirralho. Shun não resiste e dá uma risadinha ao ver a caraemburrada de Seiya. Os dois Cavaleiros estão usando seustrajes sagrados, e levam as caixas de Pégaso e Andrômeda nocompartimento de carga, na traseira da aeronave. Trata-sede um Tiltrotor, com capacidade para cerca de dezpassageiros. Suas asas possuem rotores móveis, e do lado defora lê-se a inscrição “Fundação Graad”. Falta menos de meiahora para o pouso na Sicília. - Só que se eu chamasse vocês pra briga hoje em dia iaperder com certeza. Mesmo do Shun, que vivia chorando...Vocês agora são Cavaleiros. Eu não consegui.
  38. 38. - Não conseguiu? - Eu sobrevivi, mas não recebi a armadura - continua Mei, num tom ligeiramente sarcástico. - Não passo de um soldado raso. Uma estrela anã - e então, olhando de relance para Shun, de um jeito surpreendentemente sério: - Quantos...? - pergunta, cabisbaixo - Quantos sobreviveram? - Dez. - Com você, onze. - diz Shun, bem baixinho. - Nossa, só dez... Neste ponto se faz necessário interromper a nossa história e fazer uma pequena jornada ao passado. As lutas travadas entre Atena e outros deuses pela posse da Terra são as chamadas “Guerras Santas”. A última desse tipo aconteceu pouco mais de dez anos atrás, quando a nova reencarnação de Atena desceu sobre o Santuário. A deusa era apenas um bebê, e de cara teve que enfrentar um ataque. A sombra do Mal dominou a Região Sagrada quando Saga de Gêmeos, um dos Cavaleiros de Ouro, foi tomado por sentimentos perversos, querendo se tornar o senhor da Terra. Possuído pela ambição, Saga assassinou secretamente o Mestre daquela época, voltando-se depois contra a indefesa Atena. Felizmente, o Cavaleiro de Ouro Aiolos de Sagitário conseguiu salvar a deusa antes que ela se tornasse vítima da lâmina afiada de Saga. Atena foi confiada a um senhor chamado Mitsumasa Kido, que a levou para o distante Japão, batizou-a de Saori Kido e a criou como sua neta. Mitsumasa Kido, criador da Fundação Graad, era um dos homens mais ricos e poderosos do mundo. Depois de colocar Atena sob sua proteção, Kido ofereceu os cem filhos que tivera com amantes em sacrifício, pedindo em troca que fossem consagrados como Cavaleiros da deusa e retornassem com as Armaduras Sagradas. O velho jamais reconheceu a paternidade desses meninos, tratando-os como órfãos e lançando-os à própria sorte pelos quatro cantos da Terra. As táticas de treinamento nas artes de combate de Atena superam o absurdo. Fraquejar é sinônimo de morte na busca46
  39. 39. de se juntar aos mais poderosos guerreiros da Terra. Osaspirantes foram submetidos a florestas povoadas de animaisselvagens, desertos impiedosos, montanhas onde respirar éum suplício, planícies gélidas onde o frio leva uma pessoa àmorte em menos de cinco minutos, ilhas vulcânicas com calorinfernal e gases tóxicos. Praticamente todos os filhos de Mitsumasa Kidomorreram nesse processo, enviados ao inferno pelo própriopai. Apenas dez deles conseguiram completar esse treinamentoextremo e, eleitos pelas Constelaçôes, retornarammilagrosamente com os trajes sagrados. Entre esses poucosestão Seiya e Shun. Não há espaço aqui para descrever em detalhes oconflito que aconteceu no Santuário e ficou conhecido como“a Revolta de Saga”. O leitor interessado pode procurar seinformar numa biblioteca, onde certamente encontraráregistros dessa série de batalhas. Foram treze anos, desde oencontro do herói Aiolos com o velho Kido, passando peloDespertar de Atena (Saori Kido) e culminando na derrota deSaga, quando finalmente a deusa conseguiu retornar à RegiãoSagrada. Entre os aspectos mais dramáticos desse período estáa descoberta, por parte dos dez órfãos sobreviventes, de quea neta do velho Kido, a quem alguns chegaram a odiar, era naverdade a deusa Atena. Ou a consciência de que seu pai osoferecera em sacrifício para criar os Santos Guerreiros queviriam a defendê-la. Ao reconhecerem Saori como a verdadeira Atena, Seiyae seus companheiros conseguiram superar a própria infânciainfeliz e, o mais importante, derrotaram o maligno Saga,tirando o Santuário de seu poder. Não podemos esquecer que é a custo de inúmerossacrifícios e incontáveis perdas, e graças ao grandioso amorde Atena, que a paz na Terra vem sendo preservada. - Seiya, você foi mandado para a Grécia, certo? E Shun. você foi para... a ilha de Andrômeda, é isso? - E você foi parar na Sicilia.
  40. 40. - Isso. Mas eu não fui chamado de volta pela Fundação Graad depois do treinamento. O que eles disseram que tinha acontecido comigo? - Acho que fizeram um atestado de óbito em seu nome. Quem quer ser Cavaleiro tem que conquistar a Armadura de qualquer jeito. As outras alternativas são fugir, morrer, ou viver totalmente isolado, como um soldado anônimo. - Sei, entendi - os olhos de Mei parecem perder-se no vazio. - Meu mestre foi morto na Revolta de Saga e eu não tinha ninguém para me treinar. - O jovem faz uma breve pausa para respirar. - Acabei ficando na Sicília, servindo como uma espécie de espião do Santuário. O que hoje eles chamam de “agente operacional de campo”, eu acho. - O mais importante é que você está vivo, Mei. Cara, eu estou muito feliz com isso, de verdade. - Valeu. A empatia que os três meninos sentem um pelo outro tem raízes ainda mais profundas que a camaradagem conquistada por terem sobrevivido ao treinamento para se tornarem Cavaleiros. Apesar de terem mães diferentes, são todos irmãos. - Você sabia sobre o nosso pai? - pergunta Shun, cuidadosamente. - Eu sempre soube. Desde quando estava num dos orfanatos da Fundação Graad. - Mei continua, agora abrindo um sorriso. - Mas que a senhorita Saori era a reencarnação viva da Atena, isso eu não sabia! - completa, soltando uma risada insolente. - Nossa, essa aí pegou todo mundo de surpresa! - Olha o respeito, Seiya - diz Shun, num tom bastante sério. - Até parece, Shun! Fala sério, você lembra muito bem que ela era uma menina mimada, arrogante e cheia das vontades! De fato, a Saori Kido de hoje é a imagem perfeita da grande deusa Atena, símbolo de amor e confiança absolutos, mas ela não foi sempre assim. Quando criança, chamava a atenção apenas pela beleza física, causando impressão de48
  41. 41. grande soberba. O Despertar da Vontade de Atena só aconteceudepois de seu desenvolvimento físico. Antes disso, para órfãoscomo Seiya e os outros, Saori - que recebia amor e mimo deMitsumasa Kido - não passava de alvo de ciúme e de rancor. - Não foi com você, Seiya, aquela história do “seja omeu cavalo”? - Se liga, foi o Jabu! Nem se ela me chicoteasse eufingiria que era um cavalo! - Jabu... É, eu lembro de um cara com esse nome... -Mei está cabisbaixo, os olhos virados na direção dos braços,dobrados sobre os joelhos. Só depois de fazer uma pequenapausa, cria coragem para fazer a pergunta mais difícil: - Quemsão os outros oito que sobreviveram? - Você não sabe? - Eu nunca saí da Sicília, não sei quase nada sobre osCavaleiros do Santuário. Eu nem sabia que vocês estavambem até nos encontrarmos agora há pouco. De fato, nem todos têm acesso ao nome dos Cavaleiros.É uma espécie de segredo militar, como muitas dasinformações sobre a Região Sagrada. Soldados de hierarquiainferior, como Mei, em geral conhecem um número mínimode Cavaleiros. Shun diz os nomes dos seus irmãos sobreviventes, umpor um: - Shiryu, Hyoga, Ikki. - O seu irmão? - pergunta Mei, lembrando que Ikki éirmão de pai e de mãe de Shun - e também que os dois nãosão nada parecidos em termos de temperamento, muito pelocontrário: enquanto Shun tem maneiras delicadas, chegandoa lembrar uma menina, Ikki é o seu oposto perfeito, um rapazbruto e durão, grande apreciador de artes marciais. Mei se emociona com a lista de Cavaleirossobreviventes. Consegue se lembrar direitinho do rosto decada um deles. - ... e o Jabu. Dez no total - é Seiya quem conclui acontagem. - Qual é a estrela dele? - Unicórnio.
  42. 42. - Haha! - Mei não consegue conter o riso. - Não é perfeito? - concorda Seiya. - Com certeza! Unicórnio é o bicho que só aceita ser cavalgado por donzelas, né? E aquele cara sempre ficava abanando o rabo para a Saori, até corria pra brincar de cavalinho com ela. - E continua o mesmo até hoje. Não mudou nadinha. - Nem vocês - completa Mei - Conseguiram virar Cavaleiros, mas não mudaram nem um pouco! - Nem você, Mei - confirma Shun. - O Jabu está na Argélia - conta Seiya. - O Shiryu está nos Cinco Picos Antigos de Rozan, na China, e o Hyoga, na Sibéria Oriental. A maioria dos outros também continua cumprindo seu papel de Cavaleiro nos lugares onde foram treinados. - Só não conseguimos descobrir onde está o meu irmão Ikki. - Bom, desde moleque ele gosta de bancar o lobo solitário... Neste momento, o alto-falante anuncia que já estão sobrevoando espaço aéreo siciliano. O vôo da Grécia até ali foi curto demais para matar saudades. Seiya e Shun correm em direção a suas armaduras, enquanto Nikol, que não participou da conversa por estar pilotando o avião, anuncia secamente: - Vamos abrir a porta traseira e diminuir a altitude. Vocês três vão pular. - É brincadeira, né? - Seiya faz uma careta. Mas a coisa é séria: - Este bichinho bebe muito combustível a cada aterrissagem e decolagem - explica Nikol. - Temos medo de que não tenhamos o suficiente para voltar ao Santuário. - Mas você só pensa em si mesmo, Nikol? Quem vai garantir a nossa segurança? - resmunga Seiya. Talvez o leitor esteja surpreso como que um Cavaleiro como Nikol, da Constelação de Altar, seja capaz de pilotar uma aeronave de tecnologia avançada como este Tiltrotor. Mas, embora os Guerreiros de Atena sejam entidades50
  43. 43. completamente isoladas do cotidiano mundano, isso nãosignifica que não se relacionem com ele. Sua missão não éproteger um universo fantasioso de conto de fadas, e sim oplaneta onde vivemos. Os Cavaleiros também são mutantes,assim como o céu e a Terra, e evoluem com eles. Mais conformado com a idéia de mergulhar no vazio,Seiya avança com Shun para a porta traseira, que está abertae deixa entrar na cabine intensas correntes de ar. Estão a dezmetros do chão, por isso não adiantaria tentar usar pára-quedas. - Prontos? - pergunta Mei, sua voz abafada pelo som dovento cortante, e então: - Fui! - e salta do avião. - Que Atena os proteja. - diz Nikol, enquanto Seiya eShun se atiram atrás de Mei no escuro mar da Sicília.
  44. 44. 2 S e pensarmos na Península Italiana com seu formato de bota, a ilha de Sicília fica a poucos quilômetros do bico do sapato, separada do continente pelo Estreito de Messina. É uma localização privilegiada no Mar Mediterrâneo: do seu extremo oeste, é possível enxergar o continente africano. Essa é a maior ilha da região, com mais ou menos a mesma área do estado de Sergipe, no Brasil. Seu formato triangular lhe valeu a alcunha Trinacria (“ilha de três pontas”). A Sicília tem clima ameno e solo fértil, o que, juntamente com sua posição estratégica no mapa europeu, fez com que fosse objeto de inúmeras disputas e guerras ao longo da história. Na Antigüidade, prosperavam aqui colônias gregas. Anos mais tarde, a região ficou conhecida como “Celeiro de Roma”, Depois houve as invasões bárbaras e a dominação pelo Império Bizantino. Na Idade Média, a ilha foi conquistada por árabes vindos da África, e, no século XI, os normandos, descendentes de vikings nórdicos, aliaram-se às forças islâmicas para estabelecer o Reino da Sicília, que em certo ponto chegou até mesmo a dominar o sul da Itália. O trono siciliano passou por várias famílias e tradições monárquicas: o Sacro Império Romano Germânico; a casa de Anjou, francesa; os de Arasão, espanhóis; e a de Habsburgo. No século XIX fundiu-se à região Nápoles, tendo origem o que ficou conhecido como “O Reino das Duas Sicílias”. Finalmente, em 1861, a Sicília foi anexada à Itália, país do qual ainda faz parte nos dias de hoje, apesar de sua cultura e trajetória histórica completamente independentes. Habitada por povos de múltiplas origens e línguas, a Sicília é diversificada, colorida, e freqüentemente complexa52
  45. 45. como um mosaico. Seu próprio nome já teve inúmerasvariações, como Siquéria, adotado quando era uma colôniagrega, ou Siquília, na época da dominação romana. Da mesmaforma, a cidade de Siracusa, ao sudeste da ilha e famosa porser a terra de Arquimedes, recebeu diferentes denominaçõesao longo de sua história, como surakusai, Siragosa, Siracuza. A arquitetura siciliana é um de seus grandes destaques,uma combinação harmoniosa das culturas mediterrâneasmedievais - bizantina, islâmica e gótica - e do casario barroco,adotado a partir da Idade Moderna. Ao mesmo tempo, poucoslugares conservam tantos traços da Grécia Antiga. Espalham-se pela ilha ruínas de monumentos erguidos em honra aosdeuses do Olimpo, como os templos encontrados no vale deAgrigento, além de inúmeros e grandiosos teatros e arenas. Vários episódios da mitologia grega têm a Sicília comocenário, como a já mencionada Gigantomaquia. Por exemplo,diz a lenda que Odisseu, um dos maiores heróis dos poemasépicos gregos, travou uma batalha dificílima com o monstromarinho Scylla bem aqui no estreito de Messina. - O que vem à sua mente quando ouve falar na Sicília?- pergunta Mei. Os amigos se refugiaram em uma ilhotapequena e escura, de onde Mei observa o antigo teatro deTaormina. Chegaram ali nadando depois do arriscado salto: oque seria suicídio para as pessoas comuns não era nada secomparado ao treinamento a que os três tinham se submetidopara se tornarem Cavaleiros. Seiya pensa um pouco e diz: - Máfia. - Por causa de O Poderoso Chefão, né? - brinca Mei. -Na verdade esse assunto é tabu por aqui! Mas a Sicilia é muitomais segura do que o continente, sabia? Taormina fica na costa leste da ilha, com população decerca de 10 mil habitantes. Incrustada em um declive no MonteTauro, a 400 metros de altitude, a cidade tem uma magníficavista para o mar. Sua beleza natural já lhe valeu inclusãocomo cenário de muitos filmes, e fez da região um centroturístico mundialmente famoso.
  46. 46. A área urbana de Taormina é antiga e, como acontece com muitas cidades européias, predominam calçadas e ruas estreitas. O calçamento é todo feito de pedra e cheio de degraus, completamente inadequado para os automóveis de hoje em dia, e praticamente não existem estacionamentos ali. Da estrada número 114, à beira-mar, partem gôndolas levando turistas que visitam a cidade. - Tem uma frase legal sobre a Sicília - conta Mei -, “Nas terras ocupadas pelas oliveiras e pelos deuses do Olimpo, podem nascer estúpidos e gênios, mas jamais verdadeiros criminosos”. É algo que o meu falecido mestre dizia. - Olha... Mei. Nós não viemos aqui fazer turismo - suspira Shun. - Eu sei, cara. Os Cavaleiros foram mandados para a Sicília depois do ataque ao Santuário, mas não têm idéia do paradeiro dos invasores. - Você sabe onde podemos encontrar esses Gigas? - Shun, se eu não soubesse, não teria sido chamado à Região Sagrada. Não um mero soldado raso como eu - Mei aponta na direção da fachada do teatro. Através da parede de arcos é possível ver o Mar Iônico à esquerda e Taormina à direita, separados pela faixa litorânea que se estende na direção sudoeste. Ainda mais adiante nesta espetacular paisagem está uma montanha que passa impressão de intensa personalidade. - O Monte Etna - sussurra Shun. Trata-se do maior vulcão ativo de toda a Europa, com 3.340 metros de altura. Por suas muitas erupções e grande quantidade de lava derramada, o monte tem um aclive muito suave e não exageradamente inclinado. Do seu cume brota uma intensa fumaça cinzenta. - Segundo as lendas gregas - explica Mei - os Gigas soterrados por Atena sob o Etna sofrem tanto que cospem chamas e fumaça. - Nossa, como está escuro - interrompe Seiya. - Já era para ter amanhecido, ou não? O Sol é pouco mais do que um círculo apagado no céu,54
  47. 47. e toda a ilha está coberta por uma espécie de meia-luz. Apesarde estarmos no auge do verão, não tem quase ninguém emTaormina, e o lugar parece mais uma cidade fantasma. - O Etna está numa fase de intensa atividade, eu vi naTV - explica Mei. - A terra treme a toda hora, o aeroportoestá fechado por causa das cinzas vulcânicas e a corrente delava já chegou à beira da cidade, que declarou estado deemergência. Isso explica por que Taormina está tão desertaneste verão, sendo que normalmente é um agitadíssimo centroturístico. - A população foi evacuada da área? - Exatamente. Normalmente poderíamos subir umaparte do Etna de carro, mas hoje as estradas estão bloqueadaspelo Exército. - Droga - reclama Seiya, coçando a cabeça. - Então a gente vai ter que ir a pé. - Primeiro, um banho de mar. Agora, caminhada pelamontanha. Suas férias de verão estão ficando completas,Seiya! - brinca Mei. - É até melhor... Podemos agir sem termos que nospreocupar com os moradores ou turistas. - Se os Gigas realmente estão de volta, a primeira coisaé verificar se os laços de Atena estão atados. - Como, aliás, o senhor Nikol ordenou. - Segundo o meu mestre - diz Mei, com o olhar nadireção da cratera - os laços de Atena estão nas profundezasdo Etna. - Falou! Então vamos? - mas, antes que Shun e Meipossam responder... - Bem-vindos, cachorros de Atena! Com o susto, os garotos se levantam em posição dealerta. Sombras saltam de diferentes pontos do teatro a céuaberto. - Preciso parabenizá-lo por ter vindo tão rápido aoencontro da morte, Pégaso! - Ágrios! - Seiya reconhece o gigante com quem lutouno Santuário. E ele não está sozinho. - Só mandaram três pessoas? Os Cavaleiros devem estar
  48. 48. com falta de pessoal. - E esses menininhos ainda! Mamãe mandou fazer compras, foi? Quirrirri... No palco estão Ágrios, “a força brutal”; Toas, “o relâmpago célere”, e Pallas, “o parvo”, armado com as “garras marionetes”. Seus trajes de Adamas refletem um brilho turvo sob o céu escurecido. - Shun, são Gigas que invadiram o Santuário ontem! - mais uma vez Seiya é interrompido, agora por uma nova presença que surge do poço no centro do palco. - O quê? Argh, que cheiro horrível! - Seiya cobre sua boca instintivamente, sentindo uma terrível ânsia de vômito. É como se estivessem empurrando seu rosto para dentro de um saco de carniça e excrementos. - Espera aí...! - diz Shun - Minha corrente está reagindo a esta presença... A corrente amarrada ao traje sagrado de Andrômeda treme como se tivesse sido atingida por um relâmpago. - É ele! É o cara que me atacou no teatro! A sombra do quarto Giga aparece de repente em meio a um redemoinho de fumaça negra. Seu vozeirão poderosíssimo reverbera na arena e faz com que todo o lugar trema com a vibração: - Meu nome é Encélado, o “brado de combate”.56
  49. 49. 3S ou Encélado! o sumo sacerdote dos Gigas!- com isso, ondas vibratórias percorreram o ar, chocando-se contra asruínas e causando várias explosões concêntricas. A força inacreditável dessa voz arremessa Seiya, Shune Mei até o último degrau da arquibancada. - Que raio de voz é essa? Meu corpo está formigando... - Ele é o chefe dos Gigas? Neste momento, Mei é arremessado novamente, agoracontra a parede, e seu corpo cai pesadamente no chão. - De onde está vindo essa pressão...? - pergunta o jovem,cuspindo uma mistura de saliva e sangue. Mei está particularmente vulnerável por não ter umtraje sagrado para protegê-lo, como Shun e Seiya, que vestemas armaduras mais poderosas da Terra, feitas de uma liga desupermetais hoje desconhecidos da humanidade, comoOricalco, Gamanion e Poeira Estelar. - Onde está a vadia da Atena? - Encélado carrega umabengala esculpida com imagens de monstros de terrasdesconhecidas. Seu rosto se esconde atrás de uma máscaracom as feições de Orga, o demônio devorador de pessoas. Suaarmadura de Adamas, ricamente adornada, tem coramarelada, como um topázio eclipsado, e é comprida comouma batina de padre. - Aquela burra mandou Bronze para nosatacar! A hierarquia mais baixa! Pelo jeito, ela ainda nãoacredita que nós, os Gigas, retornamos! - Ei, pode xingar a gente, mas deixa a Atena fora disso!- Seiya sente o sangue subir à cabeça. - Há! Uma meretriz ordinária posando de protetora daTerra. E vocês são piores ainda, meros cachorrinhos dela! ODeus primordial que honramos nem sequer reconhece a sua
  50. 50. laia! - Encéfalo está claramente tentando irritar os Cavaleiros com essas ofensas. - Atena nos trancafiou nas profundezas do Vazio... Imperdoável! Agora queremos vingança! - o monstro continua seu jogo de provocações: - Arrancaremos as vestes de Atena e a humilharemos como uma filha comum de homens mortais! - Como pode... - mesmo o olhar de Shun, normalmente calmo e sereno, arma-se de uma forte animosidade. - Então os Gigas estão mesmo de volta... - diz Mei, levantando-se e limpando o sangue do rosto. - Isso significa que o Selo de Atena foi rompido! - Como conseguiram quebrar o selo da antiga Gigantomaquia? - O que vocês fizeram com a senhorita Yuuri? - Seiya faz a pergunta olhando fixamente para o sumo sacerdote dos Gigas. - Aquela criança...? - Quirrirri! Medíocre, medíocre, medíocre, medíocre, medíocre! Os pretensos protetores da Terra são meros covardes que se apavoram com uma refém? Faça-me rir - intromete-se Pallas, “o parvo”. - Não a matamos. Aquela criança está numa caverna subterrânea - Encélado aponta com a bengala para o Monte Etna. - Se querem salvá-Ia, é melhor que sejam rápidos. Mesmo sendo uma Amazona, logo morrerá se continuar aspirando aos gases venenosos do vulcão. Isso se as cavernas não forem para os ares em uma erupção. Mei percebe que não podem continuar ali, precisam ir em busca de Yuuri imediatamente: - Seiya, Shun! Sigam-me! É difícil dar as costas a Encélado depois de todas as provocações, mas esta luta tem que ficar para depois. Os meninos correm em direção ao Monte Etna, evitando a zona urbana de Taormina, numa velocidade tão incrível que não deixam nem sombras no chão. Mesmo sem poderes extra- sensoriais como o teletransporte, a agilidade e os saltos de um Cavaleiro são imensamente superiores aos de um ser humano comum.58
  51. 51. A cidade fica para trás rapidamente, dando lugar acolinas com plantações cercadas de muros de pedra e arbustos.Tudo ali está coberto por cinzas do vulcão. - Não tenham tanta pressa, garotos. - Para surpresados três, os Gigas os seguem de perto. - Mas como?! - pergunta-se Shun, enquanto Toas, “orelâmpago célere”, vem atrás dele, como uma sombra. Pallas,por sua vez, está na cola de Mei. - Ainda não terminamos a explicação... Se quiseremsalvar aquela garota... - Nem precisa dizer. Precisamos derrotar vocês, nãoé?! - Você sabe conversar, garoto! - Ágrios, “a força brutal”,arranca em um só golpe uma enorme quantidade de terra,cavando assim uma vasta cratera. - Agora, o seu adversário, obviamente, serei eu, Pégaso! Seiya não está a fim de conversa e salta na direção dosGigas. Se quiserem lutar agora, que sejam breves, para quepossam finalmente salvar a senhorita Yuuri. O brilho dos trajes de Adamas é de um azul tenebroso.A pesada armadura, com cravos expostos por toda a suasuperfície, sinaliza claramente a natureza agressiva dascriaturas. Sob o elmo ornado com chifres, Ágrios encara Seiyacom um sorriso malicioso. - Pois venha. - Meteoro de Pégaso! - o grito do Cavaleiro faz comque surja um ofuscante facho de luz. É o seu golpe maispoderoso. Nenhum oponente resiste em pé aos mais de cemsocos por segundo, cada um com a força de Pégaso, caindosobre seu corpo como uma chuva de estrelas cadentes... - É só isso? - Ágrios pergunta, sem se mostrarminimamente abalado pelo Meteoro de Pégaso. Cada vez maisfica claro que os Gigas despertaram para um poder equivalenteao dos Cavaleiros. O Adamas da armadura de Ágrios não tem sequer umarranhão. Seiya engole seco diante da dor aguda que atravessaseu punho. Por mais poderoso que seja, nenhum corpoconsegue resistir ao soco de um Guerreiro sagrado - a essência
  52. 52. da destruição, capaz de romper átomos. A única forma de barrar um ataque como esse é com uma força igual ou superior à dos Cavaleiros. Estamos falando da força interior, o chamado Cosmo. - Eu senti na Região Sagrada - balbucia Seiya, erguendo os braços numa posição defensiva -, mas o Cosmo dele é ainda maior e mais agressivo do que eu imaginava. Neste momento, Ágrios se inclina para baixo, expirando vigorosamente. Coloca uma das mãos na terra, agachando- se. Seiya assiste horrorizado enquanto explosões internas de força fazem os músculos de aço do Giga se expandir ainda mais. - Sinta a diferença de forças entre os Cavaleiros... e os Gigas - Ágrios diz, antes de gritar: - Pressão de Penhascos! O Giga salta na direção de Seiya, chutando o chão para impulsionar seu impetuoso avanço. Seu golpe acerta em cheio o Cavaleiro, que só consegue soltar uma espécie de espasmo abafado.60
  53. 53. 4D e volta ao Santuário, na Sala do Mestre. Ao retornar da Sicília, Nikol de Altar encontra Saori Kido - ou seja, Atena- em pé, na mesma posição em que estava quando ele partiu. - Obrigada pelo seu empenho - diz a deusa. - Comoestão Seiya e os outros? - Levei-os a salvo até a ilha - responde Nikol. - Estãoverificando a integridade do Selo de Atena no Monte Etna. - Parece que o monte está em erupção, com muitosdanos. - É verdade, deusa. - Será que não é muito perigoso? Fiquei sabendo que apopulação foi evacuada por causa da lava e dos gasesvulcânicos. - Os Cavaleiros de Atena não temem nenhum perigo oudificuldade. Além disso, a Fundação Graad já está trabalhandoem conjunto com o Exército italiano. A região está isoladanum raio de dez quilômetros, certamente não teremosdistúrbios desnecessários. - Muito obrigada, Nikol. O senhor foi muito rápido eprestimoso. - É o papel do Mestre Substituto - agradece, curvando-se diante da garota. - Pediremos que Kiki nos traga notíciasdos acontecimentos na Sicília. - Sinto muito - diz Atena, ligeiramente cabisbaixa. -Dei outras ordens a Kiki - e continua, depois de uma pausa: -Se os Gigas realmente retornaram, são inimigos terríveis. Pormais que Seiya e Shun sejam Guerreiros Sagrados de inúmerasbatalhas, enfrentá-los sozinhos seria... - Compreendo - interrompe Nikol - Apenas gostaria quetivesse me consultado a respeito antes.
  54. 54. - Acho que sou sentimental demais. - diz a deusa - Não quero que ninguém se machuque... e com isso se derrama sempre o sangue de um grande número de Cavaleiros... Saori Kido pode parecer emotiva demais para ser uma divindade, mas é exatamente essa a “vontade” de Atena. - Justamente por serdes assim, Atena, é que nós, Cavaleiros, vos seguimos e vos protegemos - responde Nikol, com a mais absoluta sinceridade e lealdade. - Que as estrelas os protejam - Atena faz uma prece com seu grandioso Cosmo, desejando aos seus amados Cavaleiros um retorno rápido e seguro.62
  55. 55. 5N ão é fácil explicar em palavras a natureza do Cosmo, uma vez que se trata do Sétimo Sentido. Palavras são a própriaexpressão da sabedoria humana, e estamos lidando com algocompletamente alheio à humanidade nos dias de hoje. O ser humano comum possui basicamente cincosentidos: visão, audição, paladar, olfato e tato. Existe um sextosentido, que costuma ser chamado de intuição ou capacidadede premonição, mas apenas aqueles consideradosparanormais têm essa dimensão mais desenvolvida. Em um passado longínquo, todas as pessoas eramdotadas do Sétimo Sentido - estávamos na era dos mitos,quando ainda não havia fronteiras nítidas entre os deuses eos seres humanos. Embora esteja presente ainda hoje, de formasutil, na própria fonte da vida na Terra, o desenvolvimentoda civilização fez com que os homens acabassem perdendo essamaravilhosa capacidade. O Sétimo Sentido é a origem dos poderes sobre-humanos dos Cavaleiros de Atena. Através dele, os Guerreiros sagrados dominam atécnica de despedaçar átomos, sendo capazes de manipular,queimar e explodir a energia da origem da vida - e por issosão tão poderosos. É dessa incrível habilidade que nasce oCosmo, uma força grandiosa e ímpar. No Monte Etna, as plantas da paisagem se tornam cadavez mais esparsas à medida que avançamos em direção aocume do vulcão. Aqui terremotos ocorrem com freqüência. As encostas negras estão cobertas de cinzas, cascalhos,pedregulhos e pedaços de lava endurecidos. - Chega de brincar de pega-pega, garoto de Bronze -
  56. 56. Toas, “o relâmpago célere”, coloca-se à frente de Shun, bloqueando seu caminho. O Adamas de sua armadura é de malaquita escura, com pedras incrustadas que lembravam olhos esverdeados. O traje é estranhamente belo e elegante, contrastando com as formas agressivas dotadas de garras e cravos que adornam as armaduras dos demais Gigas. A expressão de Toas também é diferente da dos outros Gigas. Com longos cabelos pretos e pele extremamente branca, seu semblante se mantém geralmente sereno. Seu olhar, emoldurado por sobrancelhas marcantes e escuras, pode até mesmo ser considerado tranqüilo. Com certeza - e isso vale para todos os Gigas - sua aparência não lembra em nada a dos gigantes de pinturas inspiradas na mitologia grega, comumente retratados como assustadores demônios de cabelos brancos. - Este ser possui um Cosmo impressionante - pensa Shun, assustado. Os Cavaleiros se valem mais do Sétimo Sentido do que dos olhos, ouvidos, nariz, pele ou intuição. É através do Cosmo que sua sensibilidade alcança o ponto máximo. - Será que o Seiya e o Mei estão bem? - Preocupado com seus companheiros? - Toas lê os pensamentos de Shun com facilidade, usando principalmente o Sétimo Sentido. - Que tranqüilidade a sua, ficar pensando nos outros... - continua o gigante. - É melhor se preocupar primeiro com a própria vida. - Por que vocês estão provocando este conflito? São responsáveis também pela erupção do Monte Etna? - E se formos? - Muitas pessoas vivem aqui! As vítimas das batalhas são sempre pessoas que não têm como se defender. Por que querem destruir tantos inocentes? Querem conquistar a Terra? Toas responde com outra pergunta: - Rapaz, você está falando da Guerra Santa? - Sim, estou. - O esquecimento é o pior dos crimes, Santo Guerreiro de Atena. Você parece disposto a nos enfrentar sem mesmo saber o motivo. - Giga solta um riso maldoso e começa sua64
  57. 57. explicação tortuosa. - Antes da Gigantomaquia, antes desermos exilados nas profundezas do além-Tártaro, já haviaAtena na terra, Poseidon no mar e Hades no reino dos mortos.Mais poderoso que eles havia apenas Zeus, nos céus, e osdeuses do Olimpo reinavam sobre os três mundos. Poseidon eHades declararam guerra a Atena inúmeras vezes, comoobjetivo de dominar a terra... Vocês, Cavaleiros, expulsaramos inimigos e chamaram esses conflitos de Guerras Santas. - Os Cavaleiros sempre lutaram contra “vontades”malignas e viciadas para proteger o amor e a paz na Terra -Shun não entende aonde Toas quer chegar com tudo isso. - Sem dúvida, Atena é a guerreira protetora da terra,isso todos admitem. Agora me diga... quem Atena e osCavaleiros defendem? - Os seres humanos. - responde Shun. - Tem razão. Os seres humanos, as pessoas da Terra. -faz uma pausa breve. - Rapaz, lute e me mate. - Como? - E eu lutarei, e o matarei. Arrancaremos a carne dosossos um do outro. Basta sobreviver sugando o sangue doinimigo. Não precisa de pretextos edificantes e de linguagemdifícil para se justificar. - O quê...? - Porém, lembre-se que seremos nós, os Gigas, osvencedores desta batalha. - depois disso, Toas atira o corpode Shun pelo ar. O Cavaleiro cai no chão escorregadio decascalho e cinza vulcânica, deslizando pela encosta. - O que aconteceu? - Shun está cada vez mais confuso.Simplesmente não percebeu o movimento do ataque de Toas. - Vou matá-Io. - Toas golpeia o Cavaleiro no pescoçoantes que ele possa se levantar. Neste momento, um somestridente de metal reverbera enquanto faíscas saltam peloar. Toas recua, protegendo o pulso ferido na corrente de Shun,que agora rodeia o cavaleiro em uma espiral frenética quelembra um ciclone. - Essa corrente é uma excelente defesa,garoto. O leitor que conhece o mapa das constelações celestesdeve saber que Andrômeda, que por sinal compartilha uma
  58. 58. estrela com a constelação de Pégaso, é representada por uma donzela com as mãos acorrentadas. Contam as lendas gregas que a rainha Cassiopéia da Etiópia provocara a ira de Poseidon, que passou a devastar o seu país com maremotos e inundações. O rei Cefeus consultou então um oráculo procurando uma forma de apaziguar o poderoso deus dos mares, e o oráculo lhe respondeu que devia oferecer ao grande Poseidon a princesa Andrômeda em sacrifício. Com isso, Cefeus ordenou que a princesa fosse acorrentada a um rochedo, na beira do mar. Andrômeda foi salva pelo herói Perseu, que a resgatou montado em seu cavalo Pégaso. Todos os personagens citados nessa história foram alçados ao céu e transformados em constelações. - Meu nome é Shun... Shun de Andrômeda. Não é “garoto”. - Ah, isso explica a corrente. Mesmo as flores mais frágeis se vestem de espinhos para se defender. Sua armadura acabou de salvar sua vida. - Lamento informar que a corrente de Andrômeda não é apenas para defesa. - o Cosmo interior de Shun aumenta a cada palavra. - Ela pode atravessar qualquer espaço para atacar um inimigo, não importa a quantos anos-luz esteja. Foi essa mesma corrente que suportou a pesada espada do Orestes mascarado na Acrópole. Ela atende à elevação do Cosmo daquele que a possui, rompendo o espaço por si só para protegê-lo. Os trajes sagrados dos Cavaleiros são mais do que armaduras feitas de supermetais. Eles possuem mistério divino, vida e vontade próprias. - Corrente de Andrômeda! - lançada ao chão, a corrente se arrasta pelo solo vulcânico, levantando as cinzas e formando um redemoinho brilhante. - Esta é a minha Nebulosa de Andrômeda - explica Shun. A imagem da galáxia formada na penumbra da montanha amplia infinitamente seu alcance, com poder proveniente de uma dimensão desconhecida. - De fato, não podemos menosprezar Cavaleiros com o traje sagrado - apesar de toda a demonstração de força de66
  59. 59. Shun, Toas mantém um tom misteriosamente calmo e emnenhum momento assume qualquer posição de combate. -Melhor assim. É preciso que seja assim! Do contrário, nãohaveria razão para trazê-los até o Etna... Jovem e beloAndrômeda, mostre seu Cosmo para Toas, o “relâmpagocélere”. - Nós realmente precisamos lutar? - como sempre, Shunresiste ao combate. - Ou você me mata, ou eu mato você. Forças internas estalam. Os Cosmos de Shun e Toas sechocam com violência na luta, envolvendo a corrente deAndrômeda.
  60. 60. 6 A o recuperar os sentidos, Yuuri de Sextante não tem idéia de onde esteja. Sente-se tonta, com uma dor aguda na cabeça, e tem uma tremenda dificuldade de respirar. É como se seus pulmões estivessem queimando. -... É gás? - pergunta-se, baixinho. De fato, o interior da caverna está repleto de gases vulcânicos com um acentuado odor de enxofre. Ao tentar levar as mãos ao rosto para cobrir a boca, Yuuri percebe que seus braços estão acorrentados a uma rocha. Normalmente ela não teria dificuldade alguma em romper essas correntes de ferro, mas seu corpo está entorpecido, talvez por efeito dos gases. Yuuri olha ao seu redor, voltando a si gradativamente. Não sabe onde está, mas percebe que é uma espécie de gruta. Apesar de não encontrar em seu campo de visão nenhuma tocha ou fonte de luz, consegue enxergar claramente dentro da caverna. “Por que não está escuro aqui?”, pensa a garota. - Porque esta é a Terra Santa dos Gigas - a voz faz com que Yuuri estremeça de pavor, como se fosse uma mulher comum. Volta seu olhar na direção dela: um demônio. Não, uma máscara. Um homem vestindo uma máscara diabólica como um Ouga. É Encélado, “o brado de combate”, em sua longa armadura, que tem o brilho dourado do topázio, e ele observa atentamente sua prisioneira. - Quem é você? Onde estamos? - Yuuri se esforça para aparentar tranqüilidade e firmeza, mas está seriamente transtornada. Sendo uma Amazona, não se assustaria com a fachada rasteira de uma máscra: consegue reconhecer e identificar com precisão o incrível poder do inimigo.68
  61. 61. - Da mesma forma que Atena tem o seu Santuário, nóstemos esta terra, protegida pela vontade do Deus dos Gigas. - Gigas...? - Yuuri mal consegue falar e nem sequertem certeza de que sua pronúncia é inteligível. Até seus lábiosestão entorpecidos. Vasculhando seus conhecimentos deOficiante auxiliar, lembra-se de que os Gigas são seres malignosde morada desconhecida, exilados por Atena na longínquaGigantomaquia. É a história de uma guerra distante, da qualpraticamente não restam registros, nem mesmo no próprioSantuário. Mais uma vez Yuuri olha ao seu redor, sem entender deonde vem a sutil luminosidade do ambiente. Seria a própriarocha brilhando como uma parede luminosa, ou estaria o arsaturado de partículas de luz? De qualquer forma, não é umaluz compreensível pela lógica humana. Certamente está emuma região sagrada, mas a vontade que a preenche é denatureza completamente diferente da de Atena. - O que você pretende me raptando? - pergunta,tossindo. Também não entende como o gigante à sua frente podeestar imune ao efeito dos gases. Lembra-se de que as máscarasdas Amazonas têm efeito neutralizador de tóxicos, talvez amáscara de Orga tenha a mesma função. Só então Yuuri selembra de que sua máscara foi quebrada na luta noObservatório. Seu rosto está exposto, desprotegido. Para umaAmazona, estar sem máscara é como estar nua. - Os Cavaleiros têm uns dogmas esquisitos - dizEncélado, demonstrando que pode ler os pensamentos deYuuri. - As Amazonas usam máscaras para abandonar suafeminilidade - continua, erguendo com sua bengala o queixoda jovem, forçando-a a olhar para a frente, o que faz comque o espírito dela seja invadido por humilhação econstrangimento. - Você é uma presa, uma isca, um chamariz.Este será o túmulo dos Cavaleiros. Mesmo estando enfraquecida, Yuuri não consegueconter o riso. - Eu sou sua refém? O que o faz pensar que uma relesAmazona de Bronze como eu teria tanto valor?
  62. 62. - Não acho que tenha valor algum. Mas Atena não pensa assim. Dizem que seu espírito se contorce de dor cada vez que há uma chance dos seus protetores se ferirem. A prova é que ela enviou Cavaleiros aqui ao Etna para salvá-Ia. - O quê? - Yuuri não entende por que o Oficiante-mor Nikol colocou outros defensores de Atena em perigo. Em contraste com sua atitude pacata no dia-a-dia, quando se trata de zelar pela proteção da deusa, Nikol é severo e totalmente insensível às necessidades individuais dos Cavaleiros e Amazonas. “Isso quer dizer duas coisas”, conclui, em pensamento. “Que esta situação é muito séria, e que, mais uma vez, Atena agiu de acordo com seu enorme coração.” - Sim, com seu enorme coração a sua deusa mandou os Cavaleiros para a morte nas mãos dos Guerreiros Gigas. Hahaha! - Encélado solta uma gargalhada terrível. - Você não pode ser um Giga, um daqueles monstros que cultuavam deuses viciados do passado... - antes que conseguisse terminar, Yuuri é atingida no rosto pela bengala do gigante, cortando o interior de sua boca. - Como ousa chamar meu deus de viciado? - diz, puxando a Amazona pelos cabelos prateados. - Comporte-se, cadela de Atena! Estamos diante da presença divina. Um palpitar. Yuuri consegue sentir o ritmo de um coração batendo. Seu Sétimo Sentido lhe diz que, muito além desta caverna, nos confins perdidos do vão entre Gaita e Tártaro, um Cosmo de escalas nunca antes imaginadas está em gestação. Em algum templo subterrâneo está sendo nutrido um mal de dimensões desconhecidas. - Quando ele ressurgir sobre a Terra, não teremos motivos para ter medo de Atena! - Encélado parece satisfeito pelo fato de a Amazona perceber o poder divino. - Um deus maligno do passado...? - são as últimas palavras de Yuuri. O golpe da bengala diabólica a atinge com um som surdo. A Amazona desmaia, com os cabelos e o quitam manchados de sangue.70
  63. 63. III RESSURREIÇÃO72
  64. 64. 1T erremotos fazem a ilha tremer de forma assustadora, como se estivessem expressando o ódio acumulado dos Gigassob o Etna. Seiya está soterrado sob cinzas recentes quecobrem a encosta do vulcão. Foi arremessado contra a lateralda montanha pelo impacto do corpo de Ágrios, “a forçabrutal”. O sangue que escorre de sua testa é absorvidorapidamente pelo solo esponjoso. - Como é incrível o poder dos Gigas - pensa o Cavaleiro,percebendo uma fissura em sua armadura de Pégaso, na alturado peito. - Pelo jeito a história de que quase todos osCavaleiros foram derrotados não é balela, não... Seiya sabe que só alguém capaz de exteriorizar o seuCosmo, alguém que domine uma técnica de luta capaz dequebrar átomos, seria capaz de afetar seu traje sagrado, maisresistente que qualquer metal do universo. - Olha só aonde você veio parar, Pégaso. - Ágrios seaproxima do garoto em sua Adamas azul, pisando nas cinzas,lentamente. - Se não tivesse batido na montanha, você teriacruzado o Mediterrâneo até a África. - Mas que exagero - diz Seiya, erguendo-se. Seu rostoestá cheio de fuligem. - Ainda consegue falar asneiras depois de receber aPressão de Penhascos? Estou impressionado. Seiya e Ágrios se encaram sobre o declive escorregadio,a dez metros um do outro. Enquanto nenhum ataque de lutaou artes marciais poderia ser travado a essa distância, paraos Cavaleiros, que lutam a velocidades supersônicas, esse éum espaço mínimo. - Meteoro!

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