gênero e sexualidade
SOCIOLOGIA
SEXO E GÊNERO
Sigmund Freud
No século XIX, o tema da sexualidade e dos
comportamentos humanos em relação a desejos e afetos
passou a ser o objeto central de uma nova ciência, a
Psicanálise, criada por Sigmund Freud. Segundo ele, a
relação entre a sexualidade e o sexo se estabelece pela
relação da criança com o pai e a mãe, assim como pelo
reconhecimento de ter ou não um falo (pênis). Para ele,
os comportamentos feminino e masculino se
manifestariam a partir do momento em que a criança
reconhece que tem ou não um pênis, no chamado estágio
fálico.
SEXO E GÊNERO
Sigmund Freud
O masculino, portanto, estaria associado ao falo,
enquanto o feminino sempre se definiria pela falta e
“inveja” deste. Essa diferença ganhou grande espaço
na Psicanálise para explicar os comportamentos ditos
femininos, causados por essa “castração”, e aqueles
ditos masculinos, relacionados ao fato de ter um falo.
Ao longo do século XX, a Psicanálise e a teoria de
Freud foram revisadas por psicanalistas feministas e
também questionadas por feministas ligadas a outras
áreas do conhecimento. O
SEXO E GÊNERO
Simone de Beauvoir
O sexo e gênero são a mesma coisa. É preciso observar como o
ambiente cultural e educacional é responsável pela construção e
imposição de padrões a meninos e meninas. O sexo corresponderia
aos traços biológicos e às genitálias distintas do macho e da fêmea,
enquanto o gênero teria a ver com as construções e expectativas
sociais sobre comportamentos femininos e masculinos. Assim, a
identidade de gênero é formada principalmente por elementos
culturais, pela sociedade e pela experiência familiar, desde a
infância, ou seja, pelo processo de socialização pelo qual adultos
influenciam crianças a adotar certos comportamentos e usos do
corpo: cabelo curto para meninos e longo para meninas; passividade
para meninas, agressividade para meninos; bonecas para meninas,
carrinhos para meninos
SEXO E GÊNERO
Simone de Beauvoir
“Ninguém nasce mulher, torna-se mulher.” Essa é a famosa
frase de Simone de Beauvoir que distingue as duas dimensões
da natureza e da cultura. Assim, o processo de construção de
identidade de gênero, embora se relacione com a
diferenciação ou identificação com os órgãos genitais, tem
com eles uma relação simbólica, ou seja, cultural. Desse
ponto de vista, por exemplo, o comportamento menos
carinhoso de um homem ou o comportamento maternal de
uma mulher não pode ser corretamente explicado pela
presença de certos hormônios ou de qualquer outro traço
biológico: a explicação se encontra na repressão de desejos e
comportamentos imposta pela sociedade.
SEXO E GÊNERO
Margaret Mead
Na Sociologia, até os anos 1970, o conceito de “papéis sociais de
sexo”, apresentado pela antropóloga cultural estadunidense
Margaret Mead (1901-1978), era o termo mais utilizado. É a
partir dessa década que as teorias sociais passam a utilizar o
conceito de gênero, influenciadas pela chamada segunda onda
do feminismo. Desse modo, o conceito de gênero passa a
enfatizar os processos de construção dos comportamentos em
relação ao corpo e aos afetos, justamente para superar o
“congelamento” das categorias de homem e mulher que advêm
de descrições biológicas. Essas novas teorias procuraram
desnaturalizar os padrões de “normalidade” que uma visão
androcêntrica impõe por utilizar a aparência de homens e
mulheres para legitimar uma relação de dominação masculina.
IDENTIDADE DE GÊNERO
A identidade de gênero se refere à
experiência de uma pessoa com o seu
próprio gênero. Indivíduos trans possuem
uma identidade de gênero que é diferente
do sexo que lhes foi designado no momento
de seu nascimento. A identidade de gênero é
diferente de orientação sexual — pessoas
trans podem ter qualquer orientação
sexual, incluindo heterossexual,
homossexual, bissexual e assexual.
IDENTIDADE DE GÊNERO
É nas instituições sociais que podemos
observar um processo mais rigoroso e
sistemático de normas em relação ao
gênero e à sexualidade. A família e a
escola podem ser tomadas como duas
grandes instituições que são
responsáveis por reproduzir
marcadores de gênero, assim como
estereótipos em relação a homens e
mulheres.
IDENTIDADE DE GÊNERO
Na família, a definição da identidade do bebê passa a ser
debatida antes mesmo do seu nascimento: todos se
perguntam se será menino ou menina, prevendo sua
possível personalidade (“vai puxar ao pai/à mãe”), seus
gostos e até mesmo sua profissão. Esse fato revela como
nossa identidade central será construída de acordo com as
expectativas em relação ao nosso gênero/sexo. Na escola,
os uniformes se distinguem, assim como as conhecidas
organizações de filas para meninos e para meninas. O
banheiro, antes compartilhado por toda a família, torna-se
um importante marcador de gênero nos primeiros espaços
públicos que a criança vai frequentar.
O PATRIARCADO E SEUS
EFEITOS
O patriarcado é um sistema social baseado em uma
cultura, estruturas e relações que favorecem os homens,
em especial o homem branco, cisgênero e heteressexual.
Na sociedade patriarcal, prevalecem as relações de
poder e domínio dos homens sobre as mulheres e todos
os demais sujeitos que não se encaixam com o padrão
considerado normativo de raça, gênero e orientação
sexual. Por essa perspectiva, se o mundo fosse avaliado
como uma escada de privilégios, o homem branco
cisgênero e heteressoxual seria o que mais acumula
benefícios e que estaria no topo dos degraus. Logo,
todos aqueles que não possuirem alguma(s) dessas
características, em relação ao gênero, raça ou
orientação sexual, estariam abaixo nessa escada.
O PATRIARCADO E SEUS
EFEITOS
A origem da palavra “patriarcado” está conectada
com essa organização doméstica e social centrada na
autoridade do homem através da figura do pai, do
chefe de família. As mulheres, crianças, servos e
escravos eram considerados os agregados, aqueles
que circulam a órbita do patriarca e a quem devem
obediência. Passando por outras sociedades, desde os
Vikings até a antiga Babilônia, é possível perceber que
o valor da mulher está historicamente associado à sua
capacidade reprodutiva, enquanto o homem
permaneceu em uma posição de poder e controle de
diversos aspectos da vida social.
O PATRIARCADO E SEUS
EFEITOS
O conceito de patriarcado é um dos principais pontos de
partida do pensamento feminista do século XX. Para as
teorias feministas, o patriarcado é um sistema de poder
análogo ao escravismo por submeter as mulheres aos
homens e legitimar o poder masculino nas esferas
privada e pública, justificando, por exemplo, a violência
doméstica e outras modalidades de agressão,
perpetuadas pela frequente impunidade nos crimes
cometidos contra mulheres, justificados por argumentos
que se fundamentam em uma suposta “legítima defesa
da honra masculina”. O patriarcado se expressa na ideia
de que o homem é superior à mulher e essa hierarquia se
espalha por amplos e variados espaços sociais.
O PATRIARCADO E SEUS
EFEITOS
O patriarcado se expressa na ideia de que o homem é superior à mulher
e essa hierarquia se espalha por amplos e variados espaços sociais.
Embora as definições tradicionais dos papéis de mulheres e homens
estejam se diluindo em virtude de um contínuo e crescente processo de
oposição de grupos sociais, ainda hoje permanecem as estruturas do
patriarcado, que, além de manterem a dominação masculina,
reproduzem a violência contra a mulher. A exploração sexual de
mulheres no turismo, as desigualdades entre homens e mulheres no
mercado de trabalho, assim como a predominância da responsabilidade
da mulher nas atividades domésticas e sua exclusão na vida política,
são exemplos de que o sistema patriarcal ainda persiste. Seus efeitos
podem ser observados também no Código Civil de 1916, no artigo no 242,
que coloca a mulher em segundo plano e em total dependência do
marido. Essas determinações só foram alteradas em 1962, com o
Estatuto da Mulher Casada.
A DIVISÃO SEXUAL DO TRABALHO:
A MULHER ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO
A divisão do trabalho fundamentada nos sexos, com base na
propriedade privada e na família monogâmica, teria sido,
historicamente, a primeira forma de desigualdade de classes,
segundo Friedrich Engels (1820-1895), teórico e cofundador, com Karl
Marx (1818-1883), do socialismo científico. Com o estabelecimento
do patriarcado e da família monogâmica, a mulher passou a ser
desvalorizada, assim como seu papel na sociedade: a função do
cuidado e da reprodução familiar. Enquanto as funções associadas
aos homens – os assuntos públicos e produtivos, que seriam
“geradores” de riquezas passam a legitimar sua dominação, as
funções associadas às mulheres – os assuntos domésticos e de
reprodução – tornam-se desvalorizadas.
A DIVISÃO SEXUAL DO TRABALHO:
A MULHER ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO
O advento do capitalismo na Europa, em particular a partir do capitalismo
industrial, levou mulheres para fora do espaço doméstico, principalmente na
indústria. Para o capitalismo, mulheres (e crianças) formavam uma mão de
obra genérica e barata que podia ser empregada em funções não
especializadas ou naquelas que elas já exerciam no espaço da casa: costura,
confecção de tecidos e limpeza. Aliás, essas ocupações industriais
empregavam mais mulheres do que homens. A divisão técnica e social do
trabalho se desenvolveu rapidamente no capitalismo: as tarefas se tornaram
cada vez mais especializadas e fragmentadas. Essa divisão pormenorizada
reforçou a divisão sexual do trabalho, porque, progressivamente, dividiu os
espaços de “fora” da família como produtivos e aqueles relativos à família
como reprodutivos. Se nas sociedades pré-industriais a família era, ao mesmo
tempo, uma unidade produtiva e reprodutiva, isso se modificou profundamente
com o capitalismo: as tarefas produtivas tornaram-se masculinas, e as
reprodutivas, femininas.
A DIVISÃO SEXUAL DO TRABALHO:
A MULHER ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO
Os movimentos de emancipação feminina na Europa, particularmente nos
anos 1960, questionaram a falta de liberdade e as normas rígidas
adotadas em relação às mulheres. Inúmeras conquistas já haviam sido
alcançadas em boa parte do mundo ocidental, como o direito ao voto, à
licença maternidade e ao divórcio. Entretanto, o mercado de trabalho
ainda era muito restrito. Foi somente a partir dos anos 1980, com o
movimento intenso da globalização, que a participação feminina na
população economicamente ativa (PEA) e na população ocupada (PO)
cresceu em boa parte do mundo. A maior participação feminina no
mercado de trabalho global trouxe contradições: embora as mulheres
tenham adquirido poder financeiro e passado a ocupar empregos que não
eram habituais, continuaram a ser responsáveis pelas tarefas domésticas,
o que levou a uma dupla jornada (no trabalho e em casa) ou, ainda, a uma
tripla jornada (trabalho, universidade ou escola e cuidados com a casa).
INTERSECCIONALIDADES: RAÇA,
CLASSE E GÊNERO
Como vimos anteriormente, a análise das feministas radicais era de que o patriarcado e a
dominação masculina colocavam mulheres de culturas e classes sociais diversas em uma
mesma situação. Existiria, assim, uma “identidade” entre mulheres com base em sua posição
nesse sistema de poder: seria possível, portanto, falar em “mulher” e “homem” como
categorias universais de referência. Mas, afinal, existem padrões ou estruturas válidas para
todas as culturas que permitam falar em uma identidade feminina ou em uma opressão
masculina universal? As mulheres passam pelas mesmas experiências de violência e são
igualmente subjugadas apenas por serem mulheres? As análises e teorias do feminismo,
embora criticassem o “essencialismo” biológico da definição homem e mulher, também
estavam limitadas por não considerarem a interdependência das relações de poder que
perpassam as diferenças de raça, de sexo e de classe. Foram as feministas negras que, no
final da década de 1970, criticaram radicalmente o feminismo branco, de classe média e
heteronormativo. Em contraponto, as lutas sociais deveriam considerar as diferentes
identidades, as interseções de raça, de gênero, de classe e de sexualidades.
INTERSECCIONALIDADES: RAÇA,
CLASSE E GÊNERO
Nesse momento, surgiram rupturas importantes nas teorias feministas,
dando origem a diversas vertentes: para além do chamado feminismo
radical, de origem europeia, nos Estados Unidos desenvolveu-se o
feminismo socialista, o feminismo negro e, mais tardiamente, o
transfeminismo; nos países periféricos, o feminismo pós-colonial. Essas
novas vertentes indicavam que as experiências de opressão se davam de
formas diferentes em virtude também de fatores como raça e classe. Surgiu,
então, o enfoque da interseccionalidade. O enfoque da interseccionalidade
percebe as diferenças de gênero, raça, classe e orientação sexual de forma
integrada, considerando suas interações na realidade social e tendo a
preocupação de não hierarquizar as diversas formas de opressão. Analisar
as diferenças entre homens e mulheres, por exemplo, mostrou-se
insuficiente por não se observarem as diversidades específicas que existem
entre homens brancos e negros e mulheres brancas e negras.
INTERSECCIONALIDADES: RAÇA,
CLASSE E GÊNERO
Enquanto o feminismo branco e ocidental – expressão
que as feministas negras e do terceiro mundo usavam
para qualificar o feminismo produzido na Europa –
ressaltava que os espaços públicos tinham sido
dominados pelos homens e os espaços domésticos
deixados às mulheres, desvalorizando-os, o feminismo
negro perguntava: no espaço doméstico não há ainda a
hierarquia da mulher branca que paga à mulher negra ou
à imigrante para servi-la?
INTERSECCIONALIDADES: RAÇA,
CLASSE E GÊNERO
A contribuição da socióloga brasileira Lélia Gonzalez também enriquece o debate
sobre interseccionalidade, fundamentando-se no lugar e nas experiências da mulher
afro-americana, chamada por ela de “amefricana”. A socióloga apontou os limites
do conceito de patriarcado, que, embora seja importante para explicar a dominação
masculina, não inclui a questão racial como parte do sistema de opressões que
coloca em um lugar específico a mulher negra. Lélia também contempla em suas
análises a mulher indígena, que se encontra em situação análoga à das mulheres
negras no sistema colonial capitalista e patriarcal. Hoje podemos observar como as
reflexões da interseccionalidade são necessárias para interpretarmos as
experiências dos grupos na base da pirâmide de desigualdade social. O programa
Bolsa Família, que fornece benefícios a famílias em situação de pobreza extrema,
traz importantes indícios das relações entre classe social, raça/etnia e gênero: entre
os beneficiários do programa, 93% são mulheres, das quais 68% são negras.
Ocupando trabalhos sub-remunerados e menos prestigiados, além de contarem, em
geral, com um orçamento familiar oriundo de uma única fonte de renda, são as
mulheres negras aquelas que enfrentam o ciclo de pobreza com menores condições
de mudança.

Sociologia — Gênero e Sexualidade hghggh

  • 1.
  • 2.
    SEXO E GÊNERO SigmundFreud No século XIX, o tema da sexualidade e dos comportamentos humanos em relação a desejos e afetos passou a ser o objeto central de uma nova ciência, a Psicanálise, criada por Sigmund Freud. Segundo ele, a relação entre a sexualidade e o sexo se estabelece pela relação da criança com o pai e a mãe, assim como pelo reconhecimento de ter ou não um falo (pênis). Para ele, os comportamentos feminino e masculino se manifestariam a partir do momento em que a criança reconhece que tem ou não um pênis, no chamado estágio fálico.
  • 3.
    SEXO E GÊNERO SigmundFreud O masculino, portanto, estaria associado ao falo, enquanto o feminino sempre se definiria pela falta e “inveja” deste. Essa diferença ganhou grande espaço na Psicanálise para explicar os comportamentos ditos femininos, causados por essa “castração”, e aqueles ditos masculinos, relacionados ao fato de ter um falo. Ao longo do século XX, a Psicanálise e a teoria de Freud foram revisadas por psicanalistas feministas e também questionadas por feministas ligadas a outras áreas do conhecimento. O
  • 4.
    SEXO E GÊNERO Simonede Beauvoir O sexo e gênero são a mesma coisa. É preciso observar como o ambiente cultural e educacional é responsável pela construção e imposição de padrões a meninos e meninas. O sexo corresponderia aos traços biológicos e às genitálias distintas do macho e da fêmea, enquanto o gênero teria a ver com as construções e expectativas sociais sobre comportamentos femininos e masculinos. Assim, a identidade de gênero é formada principalmente por elementos culturais, pela sociedade e pela experiência familiar, desde a infância, ou seja, pelo processo de socialização pelo qual adultos influenciam crianças a adotar certos comportamentos e usos do corpo: cabelo curto para meninos e longo para meninas; passividade para meninas, agressividade para meninos; bonecas para meninas, carrinhos para meninos
  • 5.
    SEXO E GÊNERO Simonede Beauvoir “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher.” Essa é a famosa frase de Simone de Beauvoir que distingue as duas dimensões da natureza e da cultura. Assim, o processo de construção de identidade de gênero, embora se relacione com a diferenciação ou identificação com os órgãos genitais, tem com eles uma relação simbólica, ou seja, cultural. Desse ponto de vista, por exemplo, o comportamento menos carinhoso de um homem ou o comportamento maternal de uma mulher não pode ser corretamente explicado pela presença de certos hormônios ou de qualquer outro traço biológico: a explicação se encontra na repressão de desejos e comportamentos imposta pela sociedade.
  • 6.
    SEXO E GÊNERO MargaretMead Na Sociologia, até os anos 1970, o conceito de “papéis sociais de sexo”, apresentado pela antropóloga cultural estadunidense Margaret Mead (1901-1978), era o termo mais utilizado. É a partir dessa década que as teorias sociais passam a utilizar o conceito de gênero, influenciadas pela chamada segunda onda do feminismo. Desse modo, o conceito de gênero passa a enfatizar os processos de construção dos comportamentos em relação ao corpo e aos afetos, justamente para superar o “congelamento” das categorias de homem e mulher que advêm de descrições biológicas. Essas novas teorias procuraram desnaturalizar os padrões de “normalidade” que uma visão androcêntrica impõe por utilizar a aparência de homens e mulheres para legitimar uma relação de dominação masculina.
  • 7.
    IDENTIDADE DE GÊNERO Aidentidade de gênero se refere à experiência de uma pessoa com o seu próprio gênero. Indivíduos trans possuem uma identidade de gênero que é diferente do sexo que lhes foi designado no momento de seu nascimento. A identidade de gênero é diferente de orientação sexual — pessoas trans podem ter qualquer orientação sexual, incluindo heterossexual, homossexual, bissexual e assexual.
  • 8.
    IDENTIDADE DE GÊNERO Énas instituições sociais que podemos observar um processo mais rigoroso e sistemático de normas em relação ao gênero e à sexualidade. A família e a escola podem ser tomadas como duas grandes instituições que são responsáveis por reproduzir marcadores de gênero, assim como estereótipos em relação a homens e mulheres.
  • 9.
    IDENTIDADE DE GÊNERO Nafamília, a definição da identidade do bebê passa a ser debatida antes mesmo do seu nascimento: todos se perguntam se será menino ou menina, prevendo sua possível personalidade (“vai puxar ao pai/à mãe”), seus gostos e até mesmo sua profissão. Esse fato revela como nossa identidade central será construída de acordo com as expectativas em relação ao nosso gênero/sexo. Na escola, os uniformes se distinguem, assim como as conhecidas organizações de filas para meninos e para meninas. O banheiro, antes compartilhado por toda a família, torna-se um importante marcador de gênero nos primeiros espaços públicos que a criança vai frequentar.
  • 10.
    O PATRIARCADO ESEUS EFEITOS O patriarcado é um sistema social baseado em uma cultura, estruturas e relações que favorecem os homens, em especial o homem branco, cisgênero e heteressexual. Na sociedade patriarcal, prevalecem as relações de poder e domínio dos homens sobre as mulheres e todos os demais sujeitos que não se encaixam com o padrão considerado normativo de raça, gênero e orientação sexual. Por essa perspectiva, se o mundo fosse avaliado como uma escada de privilégios, o homem branco cisgênero e heteressoxual seria o que mais acumula benefícios e que estaria no topo dos degraus. Logo, todos aqueles que não possuirem alguma(s) dessas características, em relação ao gênero, raça ou orientação sexual, estariam abaixo nessa escada.
  • 11.
    O PATRIARCADO ESEUS EFEITOS A origem da palavra “patriarcado” está conectada com essa organização doméstica e social centrada na autoridade do homem através da figura do pai, do chefe de família. As mulheres, crianças, servos e escravos eram considerados os agregados, aqueles que circulam a órbita do patriarca e a quem devem obediência. Passando por outras sociedades, desde os Vikings até a antiga Babilônia, é possível perceber que o valor da mulher está historicamente associado à sua capacidade reprodutiva, enquanto o homem permaneceu em uma posição de poder e controle de diversos aspectos da vida social.
  • 12.
    O PATRIARCADO ESEUS EFEITOS O conceito de patriarcado é um dos principais pontos de partida do pensamento feminista do século XX. Para as teorias feministas, o patriarcado é um sistema de poder análogo ao escravismo por submeter as mulheres aos homens e legitimar o poder masculino nas esferas privada e pública, justificando, por exemplo, a violência doméstica e outras modalidades de agressão, perpetuadas pela frequente impunidade nos crimes cometidos contra mulheres, justificados por argumentos que se fundamentam em uma suposta “legítima defesa da honra masculina”. O patriarcado se expressa na ideia de que o homem é superior à mulher e essa hierarquia se espalha por amplos e variados espaços sociais.
  • 13.
    O PATRIARCADO ESEUS EFEITOS O patriarcado se expressa na ideia de que o homem é superior à mulher e essa hierarquia se espalha por amplos e variados espaços sociais. Embora as definições tradicionais dos papéis de mulheres e homens estejam se diluindo em virtude de um contínuo e crescente processo de oposição de grupos sociais, ainda hoje permanecem as estruturas do patriarcado, que, além de manterem a dominação masculina, reproduzem a violência contra a mulher. A exploração sexual de mulheres no turismo, as desigualdades entre homens e mulheres no mercado de trabalho, assim como a predominância da responsabilidade da mulher nas atividades domésticas e sua exclusão na vida política, são exemplos de que o sistema patriarcal ainda persiste. Seus efeitos podem ser observados também no Código Civil de 1916, no artigo no 242, que coloca a mulher em segundo plano e em total dependência do marido. Essas determinações só foram alteradas em 1962, com o Estatuto da Mulher Casada.
  • 14.
    A DIVISÃO SEXUALDO TRABALHO: A MULHER ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO A divisão do trabalho fundamentada nos sexos, com base na propriedade privada e na família monogâmica, teria sido, historicamente, a primeira forma de desigualdade de classes, segundo Friedrich Engels (1820-1895), teórico e cofundador, com Karl Marx (1818-1883), do socialismo científico. Com o estabelecimento do patriarcado e da família monogâmica, a mulher passou a ser desvalorizada, assim como seu papel na sociedade: a função do cuidado e da reprodução familiar. Enquanto as funções associadas aos homens – os assuntos públicos e produtivos, que seriam “geradores” de riquezas passam a legitimar sua dominação, as funções associadas às mulheres – os assuntos domésticos e de reprodução – tornam-se desvalorizadas.
  • 15.
    A DIVISÃO SEXUALDO TRABALHO: A MULHER ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO O advento do capitalismo na Europa, em particular a partir do capitalismo industrial, levou mulheres para fora do espaço doméstico, principalmente na indústria. Para o capitalismo, mulheres (e crianças) formavam uma mão de obra genérica e barata que podia ser empregada em funções não especializadas ou naquelas que elas já exerciam no espaço da casa: costura, confecção de tecidos e limpeza. Aliás, essas ocupações industriais empregavam mais mulheres do que homens. A divisão técnica e social do trabalho se desenvolveu rapidamente no capitalismo: as tarefas se tornaram cada vez mais especializadas e fragmentadas. Essa divisão pormenorizada reforçou a divisão sexual do trabalho, porque, progressivamente, dividiu os espaços de “fora” da família como produtivos e aqueles relativos à família como reprodutivos. Se nas sociedades pré-industriais a família era, ao mesmo tempo, uma unidade produtiva e reprodutiva, isso se modificou profundamente com o capitalismo: as tarefas produtivas tornaram-se masculinas, e as reprodutivas, femininas.
  • 16.
    A DIVISÃO SEXUALDO TRABALHO: A MULHER ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO Os movimentos de emancipação feminina na Europa, particularmente nos anos 1960, questionaram a falta de liberdade e as normas rígidas adotadas em relação às mulheres. Inúmeras conquistas já haviam sido alcançadas em boa parte do mundo ocidental, como o direito ao voto, à licença maternidade e ao divórcio. Entretanto, o mercado de trabalho ainda era muito restrito. Foi somente a partir dos anos 1980, com o movimento intenso da globalização, que a participação feminina na população economicamente ativa (PEA) e na população ocupada (PO) cresceu em boa parte do mundo. A maior participação feminina no mercado de trabalho global trouxe contradições: embora as mulheres tenham adquirido poder financeiro e passado a ocupar empregos que não eram habituais, continuaram a ser responsáveis pelas tarefas domésticas, o que levou a uma dupla jornada (no trabalho e em casa) ou, ainda, a uma tripla jornada (trabalho, universidade ou escola e cuidados com a casa).
  • 17.
    INTERSECCIONALIDADES: RAÇA, CLASSE EGÊNERO Como vimos anteriormente, a análise das feministas radicais era de que o patriarcado e a dominação masculina colocavam mulheres de culturas e classes sociais diversas em uma mesma situação. Existiria, assim, uma “identidade” entre mulheres com base em sua posição nesse sistema de poder: seria possível, portanto, falar em “mulher” e “homem” como categorias universais de referência. Mas, afinal, existem padrões ou estruturas válidas para todas as culturas que permitam falar em uma identidade feminina ou em uma opressão masculina universal? As mulheres passam pelas mesmas experiências de violência e são igualmente subjugadas apenas por serem mulheres? As análises e teorias do feminismo, embora criticassem o “essencialismo” biológico da definição homem e mulher, também estavam limitadas por não considerarem a interdependência das relações de poder que perpassam as diferenças de raça, de sexo e de classe. Foram as feministas negras que, no final da década de 1970, criticaram radicalmente o feminismo branco, de classe média e heteronormativo. Em contraponto, as lutas sociais deveriam considerar as diferentes identidades, as interseções de raça, de gênero, de classe e de sexualidades.
  • 18.
    INTERSECCIONALIDADES: RAÇA, CLASSE EGÊNERO Nesse momento, surgiram rupturas importantes nas teorias feministas, dando origem a diversas vertentes: para além do chamado feminismo radical, de origem europeia, nos Estados Unidos desenvolveu-se o feminismo socialista, o feminismo negro e, mais tardiamente, o transfeminismo; nos países periféricos, o feminismo pós-colonial. Essas novas vertentes indicavam que as experiências de opressão se davam de formas diferentes em virtude também de fatores como raça e classe. Surgiu, então, o enfoque da interseccionalidade. O enfoque da interseccionalidade percebe as diferenças de gênero, raça, classe e orientação sexual de forma integrada, considerando suas interações na realidade social e tendo a preocupação de não hierarquizar as diversas formas de opressão. Analisar as diferenças entre homens e mulheres, por exemplo, mostrou-se insuficiente por não se observarem as diversidades específicas que existem entre homens brancos e negros e mulheres brancas e negras.
  • 19.
    INTERSECCIONALIDADES: RAÇA, CLASSE EGÊNERO Enquanto o feminismo branco e ocidental – expressão que as feministas negras e do terceiro mundo usavam para qualificar o feminismo produzido na Europa – ressaltava que os espaços públicos tinham sido dominados pelos homens e os espaços domésticos deixados às mulheres, desvalorizando-os, o feminismo negro perguntava: no espaço doméstico não há ainda a hierarquia da mulher branca que paga à mulher negra ou à imigrante para servi-la?
  • 20.
    INTERSECCIONALIDADES: RAÇA, CLASSE EGÊNERO A contribuição da socióloga brasileira Lélia Gonzalez também enriquece o debate sobre interseccionalidade, fundamentando-se no lugar e nas experiências da mulher afro-americana, chamada por ela de “amefricana”. A socióloga apontou os limites do conceito de patriarcado, que, embora seja importante para explicar a dominação masculina, não inclui a questão racial como parte do sistema de opressões que coloca em um lugar específico a mulher negra. Lélia também contempla em suas análises a mulher indígena, que se encontra em situação análoga à das mulheres negras no sistema colonial capitalista e patriarcal. Hoje podemos observar como as reflexões da interseccionalidade são necessárias para interpretarmos as experiências dos grupos na base da pirâmide de desigualdade social. O programa Bolsa Família, que fornece benefícios a famílias em situação de pobreza extrema, traz importantes indícios das relações entre classe social, raça/etnia e gênero: entre os beneficiários do programa, 93% são mulheres, das quais 68% são negras. Ocupando trabalhos sub-remunerados e menos prestigiados, além de contarem, em geral, com um orçamento familiar oriundo de uma única fonte de renda, são as mulheres negras aquelas que enfrentam o ciclo de pobreza com menores condições de mudança.