17Domingo, 27 de abril de 2008
MORARBEMMORARBEM
O GLOBO G MORAR BEM G PÁGINA 17 - Edição: 27/04/2008 - Impresso: 25/04/2008 — 22: 35 h AZUL MAGENTA AMARELO PRETO
Elaécariocaecheiadebossa
Cobertura dos
anos 50 no
Leblon reflete
o estilo do
dono, o
escritor
Ruy Castro
. E M C A S A .
Isabel Kopschitz
I
mpossível não se admirar: o
traço mais marcante da casa
de Ruy Castro, no Leblon, são
as estantes que abrigam, no
total, cerca de 20 mil livros,
segundo cálculo de um amigo,
proprietário de sebo. Nas duas salas
de estar, no escritório, num cantinho
do corredor, elas surgem como em
profusão. Comprada por Ruy em
1996, a cobertura — de onde ele
afirma, com seu humor negro ca-
racterístico, que “só sai para o São
João Batista” — é de 1959. Foi o único
imóvel que atendeu a todos os pré-
requisitos do escritor mineiro, quan-
do ele veio de São Paulo, decidido a
ficar de vez no Rio: tinha que ser
dúplex, no Leblon, em prédio antigo
e ficar na quadra da praia — mas não
de frente, para reduzir a maresia.
— Queria, também, ter a sensação
de que, olhando da minha janela
lateral, veria os preços da tabela da
carrocinha da Kibon — brinca Ruy,
referindo-se à sua preferência por
prédios baixos.
De fato, o apartamento de fundos
na Delfim Moreira tem “tudo o que o
Ruy gosta”, na definição de sua mu-
lher, Heloísa Seixas: uma arquitetura
entre os anos 50 e os 60”, com
paredes de lambris feitos de pinho-
de-riga, pisos de cerâmica e de tá-
bua corrida (das antigas), além de
paredes de azulejos azuis e brancos,
com padrões que lembram os por-
tugueses. Tudo foi mantido exata-
mente da forma original.
Mas a menina dos olhos do autor
do livro “Ela é carioca” fica no cor-
redor do primeiro pavimento: era
um armário que escondia um pe-
sado ar-condicionado central e hoje
é uma estante recheada de ficções e
crônicas de escritores cariocas.
A compra do imóvel foi, desde o
começo, feita por empatia. Quando
estava visitando o local — que per-
tencia ao falecido Ivan Lamounier,
diretor da Condor Films no Brasil —
ele se deparou com a placa do res-
taurante dinamarquês Helsingor, de
onde foi assíduo freqüentador nas
décadas de 70 e 80. A placa figurava
num canto do quarto do filho de Ivan,
que hoje é o local de trabalho de Ruy.
O atual escritório era chamado pelos
antigos moradores de Bósnia-Her-
zegovina, tal era a bagunça que to-
mava conta do ambiente.
— Era apaixonado pelo Helsingor
e freqüentei os dois endereços: tan-
to em Ipanema quanto no Leblon.
Era um lugar que reunia muita gente
interessante. Quando dei de cara
com a placa, falei: “Compro esta
placa agora. O apartamento vem de
troco” — relembra, entre risos.
O letreiro de madeira hoje or-
namenta a sala de estar do andar de
cima da cobertura: é a primeira visão
de quem termina de subir a escada. É
nessa sala que Ruy cumpre, reli-
giosamente, a rotina de assistir, to-
das as noites, a algum filme lançado
entre 1915 e 1970 — “adoro cinema
mudo alemão e francês”, diz.
Na mesma sala, dividem espaço
relíquias como uma vitrola do início
do século XX, movida a manivela —
presente do jornalista Carlos Heitor
Cony — e um grande baú de madeira,
com mais de 300 LPs, cujas capas
fazem referência à cidade do Rio. I
ESTANTES NA SALA do segundo andar (em primeiro plano) e no escritório de Ruy (ao fundo). Na lateral esquerda da porta da sala, parede de lambri de pinho-de-riga
A SALA de estar do primeiro andar e seu ar de anos 50. A estante tem dezenas de títulos sobre o Rio A MENINA dos olhos do dono: no lugar de um armário, prateleiras com livros só de autores cariocas
RUY CASTRO em seu escritório, que apelidou de Bósnia-Herzegovina, tal a confusão
O LETREIRO é parte da história do imóvel
A VITROLA
dos anos 20, movida
a manivela: a relíquia
fica na sala de estar
NO LAVABO do segundo andar, e em outros ambientes da casa, ladrilhos originais
Fotos de Ana Branco

ruy_castro

  • 1.
    17Domingo, 27 deabril de 2008 MORARBEMMORARBEM O GLOBO G MORAR BEM G PÁGINA 17 - Edição: 27/04/2008 - Impresso: 25/04/2008 — 22: 35 h AZUL MAGENTA AMARELO PRETO Elaécariocaecheiadebossa Cobertura dos anos 50 no Leblon reflete o estilo do dono, o escritor Ruy Castro . E M C A S A . Isabel Kopschitz I mpossível não se admirar: o traço mais marcante da casa de Ruy Castro, no Leblon, são as estantes que abrigam, no total, cerca de 20 mil livros, segundo cálculo de um amigo, proprietário de sebo. Nas duas salas de estar, no escritório, num cantinho do corredor, elas surgem como em profusão. Comprada por Ruy em 1996, a cobertura — de onde ele afirma, com seu humor negro ca- racterístico, que “só sai para o São João Batista” — é de 1959. Foi o único imóvel que atendeu a todos os pré- requisitos do escritor mineiro, quan- do ele veio de São Paulo, decidido a ficar de vez no Rio: tinha que ser dúplex, no Leblon, em prédio antigo e ficar na quadra da praia — mas não de frente, para reduzir a maresia. — Queria, também, ter a sensação de que, olhando da minha janela lateral, veria os preços da tabela da carrocinha da Kibon — brinca Ruy, referindo-se à sua preferência por prédios baixos. De fato, o apartamento de fundos na Delfim Moreira tem “tudo o que o Ruy gosta”, na definição de sua mu- lher, Heloísa Seixas: uma arquitetura entre os anos 50 e os 60”, com paredes de lambris feitos de pinho- de-riga, pisos de cerâmica e de tá- bua corrida (das antigas), além de paredes de azulejos azuis e brancos, com padrões que lembram os por- tugueses. Tudo foi mantido exata- mente da forma original. Mas a menina dos olhos do autor do livro “Ela é carioca” fica no cor- redor do primeiro pavimento: era um armário que escondia um pe- sado ar-condicionado central e hoje é uma estante recheada de ficções e crônicas de escritores cariocas. A compra do imóvel foi, desde o começo, feita por empatia. Quando estava visitando o local — que per- tencia ao falecido Ivan Lamounier, diretor da Condor Films no Brasil — ele se deparou com a placa do res- taurante dinamarquês Helsingor, de onde foi assíduo freqüentador nas décadas de 70 e 80. A placa figurava num canto do quarto do filho de Ivan, que hoje é o local de trabalho de Ruy. O atual escritório era chamado pelos antigos moradores de Bósnia-Her- zegovina, tal era a bagunça que to- mava conta do ambiente. — Era apaixonado pelo Helsingor e freqüentei os dois endereços: tan- to em Ipanema quanto no Leblon. Era um lugar que reunia muita gente interessante. Quando dei de cara com a placa, falei: “Compro esta placa agora. O apartamento vem de troco” — relembra, entre risos. O letreiro de madeira hoje or- namenta a sala de estar do andar de cima da cobertura: é a primeira visão de quem termina de subir a escada. É nessa sala que Ruy cumpre, reli- giosamente, a rotina de assistir, to- das as noites, a algum filme lançado entre 1915 e 1970 — “adoro cinema mudo alemão e francês”, diz. Na mesma sala, dividem espaço relíquias como uma vitrola do início do século XX, movida a manivela — presente do jornalista Carlos Heitor Cony — e um grande baú de madeira, com mais de 300 LPs, cujas capas fazem referência à cidade do Rio. I ESTANTES NA SALA do segundo andar (em primeiro plano) e no escritório de Ruy (ao fundo). Na lateral esquerda da porta da sala, parede de lambri de pinho-de-riga A SALA de estar do primeiro andar e seu ar de anos 50. A estante tem dezenas de títulos sobre o Rio A MENINA dos olhos do dono: no lugar de um armário, prateleiras com livros só de autores cariocas RUY CASTRO em seu escritório, que apelidou de Bósnia-Herzegovina, tal a confusão O LETREIRO é parte da história do imóvel A VITROLA dos anos 20, movida a manivela: a relíquia fica na sala de estar NO LAVABO do segundo andar, e em outros ambientes da casa, ladrilhos originais Fotos de Ana Branco