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Desindustrialização, rearranjo industrial e
desemprego no Brasil. O caso do ABC paulista
flávio antunes estaiano de rezende*
flávio dos santos**

Resumo l Houve no Brasil vários planos de estabilização com o objetivo de controlar a inflação e suas
externalidades, e para alcançar o equilíbrio externo. Somente houve êxito na implementação do Plano
Real em 1994, que necessariamente só poderia alcançar os louros de seu sucesso com reestruturações
dos parques produtivos industriais nos moldes internacionais, já que anteriormente, no Brasil, as gestões
fabris não eram eficientemente comparáveis aos padrões internacionais. Com avanços tecnológicos cada
vez mais rápidos, ficaram evidentes a disparidade tecnológica do setor produtivo brasileiro, a desqualificação do trabalhador em relação às novas formas e técnicas de trabalhos especializados e a crescente
necessidade de diminuição dos custos produtivos para se ter uma indústria mais competitiva, tendo
como conseqüência o aumento da taxa de desemprego, o que pode ser observado, por exemplo, no ABC
paulista. Diversas empresas, com vistas a diminuir seus custos, fecharam suas fábricas no ABC, causando uma taxa desproporcional de desemprego em relação à geração de trabalho nas novas fábricas, em
outras regiões; nesse fenômeno de transferência industrial, verifica-se que dificilmente um trabalhador
desempregado encontrará novo emprego nas mesmas condições profissionais, e com os mesmos rendimentos. Neste aspecto a desindustrialização mostra sua face, serve de ferramenta ao desenvolvimento
capitalista contemporâneo.
Palavras-chave l desindustrialização, reestruturação produtiva, desemprego.

Nos últimos vinte anos foram implementados vários
planos de estabilização no Brasil, com destaque para
os planos Cruzado (1989), Collor (1990) e Real
(1994), com o objetivo de controlar a inflação, e
também de alcançar o equilíbrio externo.
No entanto, a despeito da propaganda política
que se fez em torno dos planos Cruzado e Collor,
estes mal lograram êxito. Somente em 1994, com
a implementação do Plano Real, é que a estabilização obteve o sucesso desejado, com o controle
da inflação e o ajuste do setor externo, apesar de
este último ter sido alcançado somente na segunda fase do plano, que se realizou também no segundo mandato do presidente Fernando Henrique
Cardoso, o responsável direto pela criação deste
plano. O sucesso alcançado por meio das políticas
implantadas com o Plano Real, com destaque para

* Aluno de graduação em Ciências Econômicas e Regime de
Iniciação Científica (RIC) na USJT.
E-mail: flavio_estaiano@yahoo.com.br
** Professor da USJT, Doutor em Ciências Econômicas e orientador
da pesquisa.
E-mail: flaviosantos34@hotmail.com

as políticas voltadas para o setor externo, exigiram
uma substancial reestruturação do parque produtivo, já que este necessitava modernizar-se para
adequar-se aos novos padrões de competitividade
internacional, uma vez que o modelo de gestão
anteriormente praticado no Brasil não se pautava
pela busca de eficiência nos moldes praticados nos
grandes centros produtivos internacionais.
Com os avanços tecnológicos cada vez mais
rápidos e a inserção do Brasil num novo cenário
de mercado mundial a partir dos anos 90, tornouse evidente a inegável disparidade tecnológica do
setor produtivo e a desqualificação do trabalhador
diante das novas técnicas exigidas no trabalho
especializado. Fortaleceu-se a consciência da necessidade de adequação da economia às novas
tecnologias e de diminuir os custos produtivos para
se ter uma indústria mais competitiva. Tudo isto
obrigou muitos setores da economia a buscarem
adaptar-se aos novos padrões de competitividade,
adotando políticas de gestão que implicaram uma
significativa reestruturação da indústria e o conseqüente aumento da taxa de desemprego.
Um exemplo concreto de desindustrialização e
desemprego em massa foi o ocorrido no ABC
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paulista. Diversas empresas, com vistas a diminuir
seus custos de planta de produção e na busca de
mão-de-obra mais barata, procuraram outras regiões, que oferecessem mais subsídios fiscais e mobiliários. Com isto,fecharam suas fabricas no ABC e
abriram outras nas regiões mais favoráveis, conseguindo assim a reestruturação tão desejada das
plantas de produção, e com custos mais baixos.
O que se observou, no entanto, foi um aumento desproporcional do desemprego em relação à
geração de trabalho nas novas fábricas, ou seja, não
só as empresas que saíram do ABC, mas as que
permaneceram, investiram em novas tecnologias
de produção para se tornarem mais competitivas
no mercado, aumentaram o nível de desemprego,
e criaram uma lacuna entre produtividade e geração de emprego. Ou seja, dificilmente um trabalhador desempregado encontrará novo emprego
nas mesmas condições profissionais, e com os
mesmos rendimentos.
Nesse contexto geral de rearranjos industriais,
que tendem a não absorver a crescente oferta de
mão-de-obra desempregada, não só no ABC, mas
no Brasil como um todo, causa espanto a afirmação
de que o Estado deve se retirar da economia, deixando que o mercado se auto-regule. Mas surgiram
vozes pedindo que o governo não interfira onde é
necessário para criar oportunidades de emprego nas
localidades que precisam crescer e se desenvolver, e,
da mesma forma, não incentive as empresas a não
sair de onde elas estão instaladas, amenizando assim,
os inevitáveis impactos do desemprego.
Mas o que verificamos, na verdade, é a inevitabilidade do fenômeno de rearranjos industriais, e
diante isso não podemos negar a importância dos
mecanismos de ajustamentos das plantas as exigências de competitividade das empresas no novo
ambiente econômico gerado com a estabilização e
abertura econômica.
Tendo em vista a extrema necessidade de investigar-se a fundo as tendências modernas em torno
do que se chama desindustrialização e as medidas
tomadas em política econômica pelos governos
atuais na América Latina a partir de 1990, com a
abertura econômica e os ajustamentos monetários
destes governos conjuntamente com a dinâmica
contemporânea dos mercados internacionais no

Revista Eletrônica

Brasil, torna-se urgente um esforço de conceituação e explicação do tema para futuras práticas de
políticas econômicas racionais.
O que se nota e se evidencia no Brasil, após o
sucesso da estabilização promovida pelo Plano
Real, é um vigoroso processo de ajustamentos
industriais, nos tamanhos das empresas, em busca de menores custos médios, que sejam suficientes para encontrar condições propiciadoras de
economias de escala. Houve na maioria das grandes e médias empresas essa mudança estrutural
que pôde orientá-las a adentrarem o mercado
aberto mundializado e altamente competitivo,
reajustando-se a esse novo mercado graças às
políticas adotadas, principalmente, no governo do
presidente Fernando Henrique Cardoso. Nesse
período a entrada de investimentos externos foi
beneficiada por políticas de câmbio flexível e de
juros altos, possibilitando privatizações em larga
escala com o intuito de aumentar a eficiência das
empresas estatais, diminuindo o ônus do Estado
na economia e ajustando o Brasil ao “consagrado”
ideal promovido pelo chamado “Consenso de
Washington” na década de 1970 e mostrando ao
mercado o novo ideal brasileiro, no que se refere
às orientações políticas.
Nesse aspecto, ficou clara a necessidade de
ajustamentos industriais, e tornou-se evidente que
muitas das empresas não teriam condições de se
adequar a essa nova dinâmica mundial a partir da
abertura comercial de 1990.
Observa-se nos dados fornecidos por instituições de pesquisa como IBGE, Ipea, Sebrae, Acisa e
Dieese que houve o fechamento de muitas empresas nas regiões metropolitanas. O fechamento
dessas empresas, contudo, não significou necessariamente que elas não existam mais ou que não se
abriram outras no mesmo período. Muitas das
empresas fechadas nas regiões metropolitanas, por
exemplo, no ABC paulista, reabriram seus parques
industriais em outras localidades, realinhando seus
interesses de reajustamentos, do tamanho da empresa, com a chamada guerra fiscal, promovidas
pelos Estados em busca de novos investimentos
locais e receitas tributárias. Neste aspecto, a desindustrialização ocorrida no ABC paulista promoveu
a industrialização em outros estados, e até mesmo
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 

em outras cidades do próprio estado, onde houvesse a possibilidade de tais ajustamentos.
No que se refere ao Brasil como um todo, com
as industrializações e desindustrializações ocorridas, o que se verifica, na verdade, é que não houve
significativa desindustrialização (ver André Nassif). Houve, sim, a diminuição dos ganhos médios
das empresas, graças à abertura comercial e à alta
competitividade de países como a China e a Índia,
grandes concorrentes comerciais do Brasil. É interessante notar, neste aspecto, que, com a estruturação das empresas no Brasil, o número de postos
de trabalho diminuiu, evidentemente, eliminandose quantidades consideráveis de consumidores.
Esta sensação de desemprego em massa só não foi
mais agravada, com piores condições de vida, além
daquelas sentidas naturalmente, com o desemprego, por causa de práticas monetaristas praticadas
nesses períodos. O incremento de crédito pessoal
conduziu ao fomento de bens de utilidade doméstica como nunca se viu na história, provocando a
sensação falsa de melhoria da relação salário/
consumo. Com isso, o número de inadimplentes
aumenta a passos largos, enquanto o número de
postos de trabalho continua diminuindo, ou,
quando são criados postos de trabalho, estes trazem
achatamentos cada vez maiores de salário e péssimas condições de planejamento pessoal.
As empresas de setores diversos na economia,
como as de agropecuária avançada (agrobusiness) e
as indústrias de transformação, não têm as mesmas
condições de incentivo advindas dos investimentos
externos, a não ser quando objetivam atender às
demandas internacionais dos mercados consumidores externos, como os da Europa e dos Estados
Unidos, por exemplo. O poder de consumo externo
ultrapassa o poder de consumo brasileiro por conta das péssimas condições de renda nacional, redução da renda média per capita, somada à sua má
distribuição (Relatório Anual da ONU 2006)
É importante salientar que a análise do fenômeno da desindustrialização não deve, de modo, nenhum, ser observada somente num aspecto regional,
e sim no conjunto da economia, relacionando-se,
de forma racional, os fatores de origem, ou seja, os
fatores que implicam mudanças de caráter estrutural na economia, e a forma como se manifestam

33

estes fenômenos. Somente assim podem ser efetivamente postas em prática políticas de fomento
industrial de crescimento do produto em prol do
desenvolvimento econômico e social do país.
Dado esse cenário mundial, não devemos negar
a importância da grande empresa na contribuição
para a evolução e o desenvolvimento de novas
tecnologias, nem afirmar que esta nova tendência
de mudança dos padrões tecnológicos seja de todo
má. Pelo contrário, é por meio da geração de tecnologia que se percebe o nível de desenvolvimento
de um país. Os investimentos em tecnologia, na
criação de patentes, geram muitos empregos, tanto
diretos quanto indiretos. O Brasil sofre, porém, uma
tendência de queda do número de patentes, o que
é um mau sinal para a geração de novos postos de
trabalho e o aumento da renda nacional. Outro
agravante à piora das condições de vida da população brasileira são as expectativas de queda na
produção de alimentos para consumo interno,
provocadas principalmente pela opção de produzirse para exportação, passando a responsabilidade
pela produção de alimentos para toda a população
ao pequeno agricultor, desfavorecido pelos incentivos fiscais e pelo acesso ao crédito.

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Desindustrialização, rearranjo industrial e desemprego no Brasil. O caso do ABC paulista

  • 1.
    . l l  , º  l -   31 Desindustrialização, rearranjo industrial e desemprego no Brasil. O caso do ABC paulista flávio antunes estaiano de rezende* flávio dos santos** Resumo l Houve no Brasil vários planos de estabilização com o objetivo de controlar a inflação e suas externalidades, e para alcançar o equilíbrio externo. Somente houve êxito na implementação do Plano Real em 1994, que necessariamente só poderia alcançar os louros de seu sucesso com reestruturações dos parques produtivos industriais nos moldes internacionais, já que anteriormente, no Brasil, as gestões fabris não eram eficientemente comparáveis aos padrões internacionais. Com avanços tecnológicos cada vez mais rápidos, ficaram evidentes a disparidade tecnológica do setor produtivo brasileiro, a desqualificação do trabalhador em relação às novas formas e técnicas de trabalhos especializados e a crescente necessidade de diminuição dos custos produtivos para se ter uma indústria mais competitiva, tendo como conseqüência o aumento da taxa de desemprego, o que pode ser observado, por exemplo, no ABC paulista. Diversas empresas, com vistas a diminuir seus custos, fecharam suas fábricas no ABC, causando uma taxa desproporcional de desemprego em relação à geração de trabalho nas novas fábricas, em outras regiões; nesse fenômeno de transferência industrial, verifica-se que dificilmente um trabalhador desempregado encontrará novo emprego nas mesmas condições profissionais, e com os mesmos rendimentos. Neste aspecto a desindustrialização mostra sua face, serve de ferramenta ao desenvolvimento capitalista contemporâneo. Palavras-chave l desindustrialização, reestruturação produtiva, desemprego. Nos últimos vinte anos foram implementados vários planos de estabilização no Brasil, com destaque para os planos Cruzado (1989), Collor (1990) e Real (1994), com o objetivo de controlar a inflação, e também de alcançar o equilíbrio externo. No entanto, a despeito da propaganda política que se fez em torno dos planos Cruzado e Collor, estes mal lograram êxito. Somente em 1994, com a implementação do Plano Real, é que a estabilização obteve o sucesso desejado, com o controle da inflação e o ajuste do setor externo, apesar de este último ter sido alcançado somente na segunda fase do plano, que se realizou também no segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, o responsável direto pela criação deste plano. O sucesso alcançado por meio das políticas implantadas com o Plano Real, com destaque para * Aluno de graduação em Ciências Econômicas e Regime de Iniciação Científica (RIC) na USJT. E-mail: flavio_estaiano@yahoo.com.br ** Professor da USJT, Doutor em Ciências Econômicas e orientador da pesquisa. E-mail: flaviosantos34@hotmail.com as políticas voltadas para o setor externo, exigiram uma substancial reestruturação do parque produtivo, já que este necessitava modernizar-se para adequar-se aos novos padrões de competitividade internacional, uma vez que o modelo de gestão anteriormente praticado no Brasil não se pautava pela busca de eficiência nos moldes praticados nos grandes centros produtivos internacionais. Com os avanços tecnológicos cada vez mais rápidos e a inserção do Brasil num novo cenário de mercado mundial a partir dos anos 90, tornouse evidente a inegável disparidade tecnológica do setor produtivo e a desqualificação do trabalhador diante das novas técnicas exigidas no trabalho especializado. Fortaleceu-se a consciência da necessidade de adequação da economia às novas tecnologias e de diminuir os custos produtivos para se ter uma indústria mais competitiva. Tudo isto obrigou muitos setores da economia a buscarem adaptar-se aos novos padrões de competitividade, adotando políticas de gestão que implicaram uma significativa reestruturação da indústria e o conseqüente aumento da taxa de desemprego. Um exemplo concreto de desindustrialização e desemprego em massa foi o ocorrido no ABC
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    32   paulista. Diversasempresas, com vistas a diminuir seus custos de planta de produção e na busca de mão-de-obra mais barata, procuraram outras regiões, que oferecessem mais subsídios fiscais e mobiliários. Com isto,fecharam suas fabricas no ABC e abriram outras nas regiões mais favoráveis, conseguindo assim a reestruturação tão desejada das plantas de produção, e com custos mais baixos. O que se observou, no entanto, foi um aumento desproporcional do desemprego em relação à geração de trabalho nas novas fábricas, ou seja, não só as empresas que saíram do ABC, mas as que permaneceram, investiram em novas tecnologias de produção para se tornarem mais competitivas no mercado, aumentaram o nível de desemprego, e criaram uma lacuna entre produtividade e geração de emprego. Ou seja, dificilmente um trabalhador desempregado encontrará novo emprego nas mesmas condições profissionais, e com os mesmos rendimentos. Nesse contexto geral de rearranjos industriais, que tendem a não absorver a crescente oferta de mão-de-obra desempregada, não só no ABC, mas no Brasil como um todo, causa espanto a afirmação de que o Estado deve se retirar da economia, deixando que o mercado se auto-regule. Mas surgiram vozes pedindo que o governo não interfira onde é necessário para criar oportunidades de emprego nas localidades que precisam crescer e se desenvolver, e, da mesma forma, não incentive as empresas a não sair de onde elas estão instaladas, amenizando assim, os inevitáveis impactos do desemprego. Mas o que verificamos, na verdade, é a inevitabilidade do fenômeno de rearranjos industriais, e diante isso não podemos negar a importância dos mecanismos de ajustamentos das plantas as exigências de competitividade das empresas no novo ambiente econômico gerado com a estabilização e abertura econômica. Tendo em vista a extrema necessidade de investigar-se a fundo as tendências modernas em torno do que se chama desindustrialização e as medidas tomadas em política econômica pelos governos atuais na América Latina a partir de 1990, com a abertura econômica e os ajustamentos monetários destes governos conjuntamente com a dinâmica contemporânea dos mercados internacionais no Revista Eletrônica Brasil, torna-se urgente um esforço de conceituação e explicação do tema para futuras práticas de políticas econômicas racionais. O que se nota e se evidencia no Brasil, após o sucesso da estabilização promovida pelo Plano Real, é um vigoroso processo de ajustamentos industriais, nos tamanhos das empresas, em busca de menores custos médios, que sejam suficientes para encontrar condições propiciadoras de economias de escala. Houve na maioria das grandes e médias empresas essa mudança estrutural que pôde orientá-las a adentrarem o mercado aberto mundializado e altamente competitivo, reajustando-se a esse novo mercado graças às políticas adotadas, principalmente, no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Nesse período a entrada de investimentos externos foi beneficiada por políticas de câmbio flexível e de juros altos, possibilitando privatizações em larga escala com o intuito de aumentar a eficiência das empresas estatais, diminuindo o ônus do Estado na economia e ajustando o Brasil ao “consagrado” ideal promovido pelo chamado “Consenso de Washington” na década de 1970 e mostrando ao mercado o novo ideal brasileiro, no que se refere às orientações políticas. Nesse aspecto, ficou clara a necessidade de ajustamentos industriais, e tornou-se evidente que muitas das empresas não teriam condições de se adequar a essa nova dinâmica mundial a partir da abertura comercial de 1990. Observa-se nos dados fornecidos por instituições de pesquisa como IBGE, Ipea, Sebrae, Acisa e Dieese que houve o fechamento de muitas empresas nas regiões metropolitanas. O fechamento dessas empresas, contudo, não significou necessariamente que elas não existam mais ou que não se abriram outras no mesmo período. Muitas das empresas fechadas nas regiões metropolitanas, por exemplo, no ABC paulista, reabriram seus parques industriais em outras localidades, realinhando seus interesses de reajustamentos, do tamanho da empresa, com a chamada guerra fiscal, promovidas pelos Estados em busca de novos investimentos locais e receitas tributárias. Neste aspecto, a desindustrialização ocorrida no ABC paulista promoveu a industrialização em outros estados, e até mesmo
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    . l l  , º  l -   em outras cidades do próprio estado, onde houvesse a possibilidade de tais ajustamentos. No que se refere ao Brasil como um todo, com as industrializações e desindustrializações ocorridas, o que se verifica, na verdade, é que não houve significativa desindustrialização (ver André Nassif). Houve, sim, a diminuição dos ganhos médios das empresas, graças à abertura comercial e à alta competitividade de países como a China e a Índia, grandes concorrentes comerciais do Brasil. É interessante notar, neste aspecto, que, com a estruturação das empresas no Brasil, o número de postos de trabalho diminuiu, evidentemente, eliminandose quantidades consideráveis de consumidores. Esta sensação de desemprego em massa só não foi mais agravada, com piores condições de vida, além daquelas sentidas naturalmente, com o desemprego, por causa de práticas monetaristas praticadas nesses períodos. O incremento de crédito pessoal conduziu ao fomento de bens de utilidade doméstica como nunca se viu na história, provocando a sensação falsa de melhoria da relação salário/ consumo. Com isso, o número de inadimplentes aumenta a passos largos, enquanto o número de postos de trabalho continua diminuindo, ou, quando são criados postos de trabalho, estes trazem achatamentos cada vez maiores de salário e péssimas condições de planejamento pessoal. As empresas de setores diversos na economia, como as de agropecuária avançada (agrobusiness) e as indústrias de transformação, não têm as mesmas condições de incentivo advindas dos investimentos externos, a não ser quando objetivam atender às demandas internacionais dos mercados consumidores externos, como os da Europa e dos Estados Unidos, por exemplo. O poder de consumo externo ultrapassa o poder de consumo brasileiro por conta das péssimas condições de renda nacional, redução da renda média per capita, somada à sua má distribuição (Relatório Anual da ONU 2006) É importante salientar que a análise do fenômeno da desindustrialização não deve, de modo, nenhum, ser observada somente num aspecto regional, e sim no conjunto da economia, relacionando-se, de forma racional, os fatores de origem, ou seja, os fatores que implicam mudanças de caráter estrutural na economia, e a forma como se manifestam 33 estes fenômenos. Somente assim podem ser efetivamente postas em prática políticas de fomento industrial de crescimento do produto em prol do desenvolvimento econômico e social do país. Dado esse cenário mundial, não devemos negar a importância da grande empresa na contribuição para a evolução e o desenvolvimento de novas tecnologias, nem afirmar que esta nova tendência de mudança dos padrões tecnológicos seja de todo má. Pelo contrário, é por meio da geração de tecnologia que se percebe o nível de desenvolvimento de um país. Os investimentos em tecnologia, na criação de patentes, geram muitos empregos, tanto diretos quanto indiretos. O Brasil sofre, porém, uma tendência de queda do número de patentes, o que é um mau sinal para a geração de novos postos de trabalho e o aumento da renda nacional. Outro agravante à piora das condições de vida da população brasileira são as expectativas de queda na produção de alimentos para consumo interno, provocadas principalmente pela opção de produzirse para exportação, passando a responsabilidade pela produção de alimentos para toda a população ao pequeno agricultor, desfavorecido pelos incentivos fiscais e pelo acesso ao crédito. Referências bibliográficas ALENCAR, F. História da sociedade brasileira. 14. ed. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. BIONDI, A. O Brasil privatizado: um desmonte do Estado. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2003 (Coleção Brasil Urgente). CANO, W. Raízes da concentração industrial em São Paulo. Rio de Janeiro: Difel, 1977. FURTADO, C. Subdesenvolvimento e estagnação na América Latina. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. FURTADO, C. Teoria e política do desenvolvimento econômico. São Paulo: Abril Cultural, 1983. FURTADO, C. Dialética do desenvolvimento. 2. ed. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1964. HUGON, P. História das doutrinas econômicas. 13. ed. São Paulo: Atlas, 1976. SCHUMPETER, J. A. Teoria do desenvolvimento econômico. São Paulo: Nova Cultural, 1997. PRADO JUNIOR, C. História econômica do Brasil. 10. ed. São Paulo: Brasiliense, 1967. KUPFER, D. S. & HASENCLEVER, L. Economia industrial: fundamentos teóricos e práticas no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Campus, c2002.
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    34   LIMA, H.F. Formação industrial do Brasil: período colonial. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1961. MUSGRAVE, R. A. Finanças públicas. Teoria e prática. São Paulo: Edusp, 1980. RIFKIN, J. O fim dos empregos: o declínio inevitável dos níveis dos empregos e a redução da força global de trabalho. São Paulo: Makron, 1996. RODRIGUES, L. M. Conflito industrial e sindicalismo no Brasil. São Paulo: Difusão Européia, 1966. SZMRECSÁNYI, T. & SUZIGAN, W. História econômica do Brasil contemporâneo. 2. ed. revista. São Paulo: Hucitec, 2002. ALVES, J. F. A invasão cultural norte-americana. São Paulo: Moderna, 1988 (Col. Polêmica). Revista Eletrônica LEFTWICH, R. H. O. Sistema de preços e a alocação de recursos. 4. ed. São Paulo: Pioneira, 1976. PINTO, L. A. C. & BAZZANELLA, W. Teoria do desenvolvimento. Rio de Janeiro. Zahar, 1967. PINHO, D. B. & VASCONCELLOS, M. A. S. de. Manual de economia: equipe de professores da USP. 5. ed. São Paulo: Saraiva. VELHO, O. G. (org.). O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar, 1967. VOGEL, A. & YANNOULAS, S. C. Políticas públicas de trabalho e renda e controle demográfico: a qualificação dos conselheiros estatais de Trabalho no Brasil. São Paulo: Editora Unesp, 2001.