UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO
               CENTRO DE EDUCAÇÃO
  DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO, POLÍTICA E SOCIEDADE




              MÁRCIO JOSÉ MENDONÇA




PORQUE USAR AS HQs NO ESTUDO DE CONFLITOS
       GEOPOLÍTICOS: UM ENSAIO DO
   MAPA-PAISAGÍSTICO NA FAIXA DE GAZA




                     VITÓRIA
                       2010
MÁRCIO JOSÉ MENDONÇA




PORQUE USAR AS HQs NO ESTUDO DE CONFLITOS
       GEOPOLÍTICOS: UM ENSAIO DO
   MAPA-PAISAGÍSTICO NA FAIXA DE GAZA




                    Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao
                    Departamento de Política, Educação e Sociedade
                    do Centro de Educação da Universidade Federal
                    do Espírito Santo, como requisito parcial para a
                    obtenção do grau de licenciado em Geografia.
                    Orientadora: Profª Drª Marisa Terezinha Rosa
                    Valladares.




                  VITÓRIA
                    2010
MÁRCIO JOSÉ MENDONÇA




PORQUE USAR AS HQs NO ESTUDO DE CONFLITOS
       GEOPOLÍTICOS: UM ENSAIO DO
   MAPA-PAISAGÍSTICO NA FAIXA DE GAZA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao programa de graduação em Geografia do
Centro de Educação da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para
obtenção do título de Licenciado em Geografia.

                                                        Aprovado em 01 de julho de 2010.




                            BANCA EXAMINADORA



                        _______________________________________________
                         Profª. Drª. Marisa Terezinha Rosa Valladares
                         Universidade Federal do Espírito Santo
                         Orientadora

                        _______________________________________________
                         Profª. Drª. Gisele Girardi
                         Universidade Federal do Espírito Santo

                        _______________________________________________
                         Prof. Dr. Paulo César Scarim
                         Universidade Federal do Espírito Santo
A meus pais, Ana e José Lúcio que dedicam seus esforços na minha
educação.

Aos palestinos, que ainda sorriem diante da adversidade.
AGRADECIMENTOS

       Agradecimentos, em especial, para a minha orientadora neste estudo, a Prof.ª Dr.ª
Marisa Terezinha Rosa Valladares, pela sua dedicação e exímia gestão do Laboratório de
Ensino e Aprendizagem de Geografia (LEAGEO) que apoia os graduandos em Geografia nos
estudos voltados para a área de educação. No entanto, essas não são as únicas loas à figura de
Marisa: não poderia deixar de mencionar a autonomia concedida nesse estudo e,
principalmente, à liberdade de “poder pensar” com a qual fui presenteado, pois em nenhum
momento fui refém de obstáculos que truncassem meu raciocínio, ao contrário, suas
observações sempre me provocaram a investir no que eu acredito, com responsabilidade de
autoria.

       Agradeço também a Marcos Cândido Mendonça, meu irmão, pela contribuição que fez
na leitura do trabalho, acrescentando algumas ressalvas.

       Também sou grato a EEEFM Almirante Barroso, que me abriu suas portas para que eu
realizasse a prática em suas turmas, propiciando-me o necessário espaço à experimentação e o
contato dialógico importante para reflexões.

       Por último, agradeço a Mahmoud Ahmadinejad (presidente do Irã) que, apesar de não
ser citado como referência neste estudo, sempre foi fonte de inspiração intelectual para mim,
pois seria impossível dar sequência a esse projeto se não houvesse um estado de esperança
quanto à mudança para um mundo melhor, em uma alternativa de paz respeitosa – que não é
um arremedo de paz, que finge não ser conflito, mas que nada mais é do que submissão
imposta. Só os incrédulos, usurpadores e integristas não acreditam em uma alternativa que
prime por um viés mais solidário e humano, por isso, atacam seu vetor. Existe uma
contribuição de Ahmadinejad na ordem geopolítica, que se está traçando, que resiste aos
flagelos, enquanto as bestas saem da toca...
“A despeito das aparências cuidadosamente mantidas, de que os
problemas da geografia só dizem respeito aos geógrafos, eles
interessam em última análise, a todos os cidadãos. Pois, esse discurso
pedagógico que é a geografia dos professores, que parece tanto mais
maçante quanto mais as mass media desvendam seu espetáculo do
mundo, dissimula, aos olhos de todos, o temível instrumento de
poderio que é a geografia para aqueles que detêm o poder”.
                                                         Yves Lacoste

“Alguns dos buracos mais negros do mundo estão a céu aberto, para
qualquer um ver... Por exemplo, você pode visitar um campo de
refugiados palestinos na Faixa de Gaza... É só ligar para a UNRWA, a
agência da ONU de assistência aos refugiados palestinos, tel.: 051-
861195[.] Eles providenciam tudo [,] levam você até lá de carro [,] a
entrada é grátis... [...]”.
                                                             Joe Sacco
RESUMO

O presente trabalho resgata as origens da formação de uma Geografia despolitizada, que
ossifica práticas de leitura do espaço acríticas para a população em geral, realizada pelos
atores hegemônicos do poder, os quais constroem uma representação homogênea e lisa do que
seria real. Nessa Geografia, precária nas análises do espaço geográfico, o mapa se torna um
instrumento de manipulação dos grupos poderosos, sobre a massa populacional, ao mesmo
tempo em que desumaniza o próprio espaço. Um talho nessa alegoria, contudo, permite a
esperança de construção de uma cartografia menos reducionista, que valoriza espaços e
vivências de grupos oprimidos pela ordem mundial vigente. Nesse contexto, elaboro a ideia
de mapa-paisagístico para “territorializar” uma nova perspectiva espacial. Como metodologia,
proponho olhar para o mundo a partir de alternativas como as histórias em quadrinhos de Joe
Sacco, para revelar a realidade vivida por indivíduos descartados – ou precariamente inseridos
– no sistema. Neste ensaio, tomei o caso do conflito geopolítico entre palestinos e israelenses,
como meu lócus de ruptura da ordem perversa de domínio do poderoso sobre o oprimido.
Estudo a Faixa de Gaza como uma prisão a céu aberto, um lugar de opressão. É a partir daí
que sustento meus aportes teóricos na companhia de autores como Sacco (2003), Lacoste
(1988), Certeau (2008), dentre outros, para analisar geograficamente e cartograficamente
miniespaços políticos que constroem territorialidades ao nível do lugar. Esse estudo, também
desemboca numa prática em sala de aula voltada para a construção de um raciocínio
geográfico crítico na educação. O indivíduo como um outro, que deveria ser um igual, torna-
se questão central na busca de um mundo melhor, menos homogêneo e liso, mais
diversificado e rugoso. Portanto, “territorializar” ideias de libertação, é o objetivo desse
estudo.




Palavras-chave: 1. Conflito geopolítico. 2. Histórias em quadrinhos. 3. Mapa-paisagístico.
LISTA DE FIGURAS

Grupo A - Observando o espaço de vivência (páginas 3 e 73).
Figura 1 – página 3_________________________________________________________38
Figura 2 – página 73________________________________________________________39

Grupo B - Sionismo (páginas 21 e 81).
Figura 3 – página 21________________________________________________________40
Figura 4 – página 81________________________________________________________41

Grupo C - Intifada de 1987 (páginas 49 e 50).
Figura 5 – página 49________________________________________________________42
Figura 6 – página 50________________________________________________________43

Grupo D - meninos de Gaza (páginas 17 e 55).
Figura 7 – página 17________________________________________________________44
Figura 8 – página 55________________________________________________________45

Grupo E - Fronteiras e controle (páginas 22, 77, 78, 100, 129, 130).
Figura 9 – página 22________________________________________________________46
Figura 10 – página 77_______________________________________________________47
Figura 11 – página 78_______________________________________________________48
Figura 12 – página 100______________________________________________________49
Figura 13 – página 129______________________________________________________50
Figura 14 – página 130______________________________________________________51

Grupo F - Expansão dos assentamentos judaicos (página 110).
Figura 15 – página 110______________________________________________________52

Figura 16 - Esquema 1: modelo de representação vertical___________________________55

Figura 17 - Esquema 2: quadro geral do percurso do geral ao lugar____________________58

Figura 18 - Esquema 3: contato entre a 1º linha da realidade e 2º linha
da realidade_______________________________________________________________60

Figura 19 - Mapas trabalhados em aula__________________________________________67
LISTA DE QUADRO

Quadro 1 - Quadro de proposta de temáticas para se trabalhar o conflito
geopolítico entre israelenses e palestinos na Faixa de Gaza, utilizando
“Palestina: na Faixa de Gaza” (SACCO, 2003)__________________________________36
LISTA DE SIGLAS

HQs - Histórias em quadrinhos

IDH - Índice de Desenvolvimento Humano

OLP - Organização de Libertação da Palestina

ONU - Organização das Nações Unidas

URSS - União Soviética
SUMÁRIO

Introdução_____________________________________________________________ 11

Pré-capítulo - A geopolítica do conflito entre israelenses e palestinos____________   15
Capítulo 1 - Crítica ao ensino de Geografia despolitizado______________________       18
Capítulo 2 - Na Faixa de Gaza com Joe Sacco: contemplando o espaço de vivência
politizado______________________________________________________________ 25

Capítulo 3 - Do geral ao lugar: um caminho a se percorrer no estudo de
Geografia______________________________________________________________ 53

Capítulo 4 - Exercitando o raciocínio geográfico: uma pequena amostragem para
reflexão_______________________________________________________________               63
Considerações finais_____________________________________________________ 71

Referências____________________________________________________________               75
11



INTRODUÇÃO1

        O percurso do homem na história foi marcado por práticas de intervenção no meio.
Assim, formas foram produzidas no espaço, equipando este grande globo com estruturas
humanizadas a fim de adequar espaços naturais ao ato de habitar do homem. Uma verdadeira
morfologia humana foi erguida sobre a natureza. Como parte desta grande estrutura
construída pelo e para o uso do homem, podemos também mencionar o movimento intrínseco
de desenvolvimento de linguagens. Essas formas de comunicação, conhecimento e de
expressão simbólica são diversas e seria pretensão catalogar todas. Dentre muitas, a
linguagem gráfica parece ser uma das mais notáveis, pois se materializou como parte dos
fazeres do homem em seus viveres. E seria descuido não destacar um pouco de sua evolução
histórica, no que tange esse objeto de estudo.

        Os primeiros traços da linguagem gráfica foram realizados no tempo dos homens das
cavernas, foram eles os primeiros a dar o seu testemunho por meio dessas práticas,
registrando passagens de sua vida cotidiana nas paredes das cavernas, contando as primeiras
histórias em uma sequência de imagens. Essa técnica foi absorvida e aprimorada pelas
histórias em quadrinhos (HQs) na sociedade contemporânea.

        A ramificação da linguagem gráfica é numerosa, e uma de suas veias de
desenvolvimento veio a dar origem às HQs. A evolução das HQs caminhou junto ao
desenvolvimento das relações capitalistas, movimento potencializado pela evolução da
indústria tipográfica e pelo surgimento de grandes cadeias jornalísticas. Segundo Vergueiro
(2009), foi nos Estados Unidos, no final do século XIX, que esse sistema criou as condições
mais vantajosas para a solidificação das HQs como veículo de comunicação de massa.

        As HQs ganharam espaço no cenário da comunicação desde então, e o período da
Segunda Guerra Mundial (1939-1945) foi um de seus catalisadores, quando personagens
fictícios foram nelas explorados como heróis no conflito. No mesmo período, o governo
norte-americano utilizou as HQs como manuais de treinamento militar.

        Contudo, o período pós-guerra não rendeu bons frutos à indústria das HQs. Crescia um
ambiente de desconfiança em relação às HQs, em boa parte devido ao trabalho do psiquiatra

1
 Correção ortográfica e normatização feita por Selma de Souza Sanglard. Professora de português formada em
1997 pela Faculdade de Filosofia, Ciênciais e Letras de Alegre – FAFIA. Pós-graduada em Letras – Língua
Portuguesa em 2000 pela Federação de Escolas Faculdades Integradas – Simonsen.
12



Fredric Wertham (VERGUEIRO, 2009). Este homem, de origem alemã e radicado nos
Estados Unidos, entrou numa campanha acirrada contra as HQs. A base de seus argumentos
era que as HQs poderiam trazer sérios prejuízos à sociedade americana, pois a leitura de HQs,
como a história do Batman, por exemplo, poderia atrair as crianças e adolescentes para a
homossexualidade, ou como se as HQs do Superman pudessem levar as crianças à morte,
quando buscassem imitar seu herói, jogando-se de uma janela de um alto apartamento.
Wertham identificou nas HQs um grande órgão que agia para degenerar a sociedade
americana e agiu para desmantelar a indústria das HQs.

       Vergueiro (2009) lembra que Wertham usava meios ludibriosos para convencer seu
público de suas ideias. Com base nos atendimentos de jovens problemáticos em seu
consultório, Wertham generalizou conclusões e estabeleceu um conteúdo duvidoso sobre a
questão, que foi posteriormente apresentada em seu famoso livro “A sedução dos inocentes”
(WERTHAM, 1954). Nessa obra, Wertham afirmava que as HQs contribuíam para provocar
anomalias na juventude americana, o que gerou um movimento contra as HQs.

       Essa política resultou em um Comics Code elaborado pela Association of Comics
Magazine, na década de 1940, que proclamava a pais e educadores que o material das HQs
não traria malefícios morais e intelectuais aos seus filhos e alunos. Posteriormente ao Comics
Code, o campo fértil das HQs caiu num grande fosso, levando as HQs a serem descartadas de
qualquer prática educacional séria. No Brasil, por exemplo, foi elaborado um Código de Ética
dos Quadrinhos, que aplicava políticas semelhantes às dos Estados Unidos. O resultado dessa
empreitada foi o descarte das HQs no plano do ensino, figurando como uma penumbra à
margem dos pensadores intelectuais, pois foi acusada de afastar as crianças da leitura de
livros, sendo estigmatizada como uma prática que prejudicava o raciocínio.

       O florescer das HQs só viria com o amadurecimento dos meios de comunicação, que
tornaram as HQs formas de transmissão de conhecimento específico, desmascarando, na
sociedade, a visão imaculada de que as HQs eram apenas instrumentos para o entretenimento.
Sua descoberta como ferramenta educacional também se deu nos Estados Unidos, pela
publicação de revistas em quadrinhos de caráter educacional, ainda na década de 1940.
Revistas em quadrinhos, como a: True Comics, Real Life Comics e Real Fact Comics, traziam
antologias referentes a acontecimentos e personagens famosos da história.
13



       Na China, no governo de Mao Tse-Tung (década de 1950), ela foi intensamente
empregada pelo governo como ferramenta de manobra na formação do ideal comunista
chinês. As historinhas retratavam militares chineses desempenhando um comportamento
exemplar, na busca de forjar, na sociedade da época, valores comunistas para o bem do país.
Dessa forma, histórias e obras de personagens como Lênin e Karl Marx também foram
abordadas pelas HQs.

       Com o passar dos anos, as HQs foram adquirindo credibilidade no meio educacional e
deixaram de ser vistas como práticas educacionais obsoletas, e sim como ferramentas que
auxiliam o estudo e incentivam a leitura, em virtude de sua forma de comunicação fácil e
interativa com os alunos.

       Na prática de ensino voltada para a Geografia, as HQs também venceram barreiras: é
de praxe, hoje, o entendimento de que as HQs são um excelente material para a representação
de ambientes, paisagens e culturas de outros países, desde que se tenha cuidado para não criar
estereótipos de determinados lugares, como as “Aventuras de Tintin”, criado por Hergé.
Nessa historinha em série, o “Tintin” (principal personagem e mocinho do conto) viaja por
vários países do mundo. Em uma de suas viagens, ele visita a União Soviética (URSS), onde
descreve os comunistas como figuras maléficas. Contudo, mesmo com essa falha do autor,
esse material é considerado de boa qualidade. Mas, talvez, o material mais importante das
HQs para se trabalhar com a Geografia e, principalmente, com a geopolítica, sejam os
trabalhos produzidos por Joe Sacco.

       Certamente, uma das maneiras mais valiosas de se trabalhar a Geografia, utilizando-se
as HQs, são as de linguagem cartográfica. Com seu uso adequado, é possível explorar a
representação do espaço, da escala, e visão vertical, visão oblíqua e também leitura de
símbolos, oferecendo uma gama de formas de trabalho viáveis ao professor. A cartografia se
mostra de suma importância, pois é um instrumento que possibilita exercitar a leitura do
espaço, estando também, diretamente ligada aos afazeres da geopolítica.

       As possibilidades de se trabalhar com as categorias geográficas, por meio das HQs,
são múltiplas e de natureza variada. Rama (2009) oferece algumas possibilidades
interessantes. Cabe ao professor de Geografia averiguá-las e desbravá-las.
14



         Por sua vez, o uso das HQs com um parecer histórico também pode ser útil ao
professor de Geografia. Entre as produções de HQs mais interessantes referidas por Vilela
(2009), que tratam do ambiente de vivência de um conflito, que podem ser utilizadas em
abordagens geopolíticas, estão “A guerra dos Farrapos”, escrito por Tabajara Ruas e
desenhado por Flávio Colin, e “Adeus, chamingo brasileiro”, que trata da Guerra do Paraguai,
escrito e desenhado por André Toral. Mas, sem dúvida, duas grandes obras de HQs que tratam
de grandes conflitos geopolíticos são “Maus: a história de um sobrevivente” e “Gen: pés
descalços”. Em “Maus: a história de um sobrevivente”, o autor Art Spielgelman retrata o
drama judeu durante o nazismo. Nessa obra, os personagens são retratados como animais
antropomorfizados: os gatos representam os nazistas e os ratos são encarnados pelos judeus.
Já em “Gen: Pés Descalços”, Nakazawa retrata o sofrimento de sua família na explosão da
bomba atômica, em sua cidade.

         De maneira geral, os trabalhos mencionados por Vilela (2009), apresentam algumas
opções viáveis a práticas de ensino em Geografia, que estão à espera de práticas de ensino
gloriosas por parte do professor de Geografia. No decorrer deste trabalho, vamos contemplar
o trabalho de Joe Sacco, “Palestina: na Faixa de Gaza” (2003), com o qual pretendemos
explorar múltiplas escalas de percepção de um conflito geopolítico e, ao final, alcançar uma
proposta de prática de ensino voltada para a geopolítica, usando o material específico de Joe
Sacco.
15



Pré-capítulo

A geopolítica do conflito entre israelenses e palestinos

       Este pré-capítulo, ou este item, tem como objetivo traçar uma pequena evolução
histórica do conflito na região da Palestina, localizada no Oriente Médio, onde israelenses e
palestinos (Árabes) vêm se digladiando desde a formação do Estado de Israel.

        Nesta ocasião, não farei uma construção histórica da evolução dos povos, nem
tampouco abordarei aspectos culturais de tais povos. A linha de observação ficará no que
tange aos fatos geopolíticos, nas tensões entre esses dois povos que acarretam tal conflito.

       Para que não haja nenhuma dúvida, o objetivo deste item se resume em colocar o leitor
a par da situação. Mas para isso, antes é necessário esclarecer no que consiste a geopolítica,
para só assim, ser possível suscitar um de seus pontos de tensão e também evitar possíveis
confusões.

                        [...] A geopolítica é um saber engajado, comprometido com um pensamento e com
                        objetivos políticos; embora analisando o Estado como produtor de um espaço, ela
                        não tem um rigoroso critério científico. A geografia política, ao contrário, é um dos
                        enfoques da ciência geográfica no qual se estudam a distribuição dos Estados e os
                        tipos de organização do território a que eles dão origem. Ela não é marcada
                        fortemente pelos preconceitos do determinismo geográfico, que tenta explicar a
                        expansão ou a necessidade de expansão dos Estados, com base em condições
                        naturais (ANDRADE, 2001, pag. 9, 10).

       Como pode se notar essas duas práticas se confundem e até mesmo se tocam, pois
ambas dão foco ao papel do Estado como gestor do espaço, todavia, a Geografia política tem
caráter científico da distribuição dos Estados e os tipos de organização do território a que dão
origem, enquanto a geopolítica é vista como saber dos políticos e militares, que se apropriam
de seus conhecimentos para empreenderem práticas estratégicas no espaço que manifestam
em alguma espécie de poder.

       Sendo assim, o desenho que hoje delineia a situação na Palestina, começa a ser pintado
com traços mais claros em 1947, quando a Organização das Nações Unidas (ONU), por
iniciativa dos Estados Unidos, aprovou um plano para a partilha da Palestina, que seria
concretizado em 1948, com a fundação do Estado de Israel. Essa medida se valeu dos
acontecimentos do Holocausto na Europa, comandado pelas forças nazistas de Hitler,
gerando, do meu ponto de vista, um campo de supervalorização do sofrimento judeu e
sensibilização da comunidade global em prol de concessão de um lar nacional para os judeus.
16



       A decisão da ONU satisfez a comunidade judaica, que se aclamava detentora dos
direitos sobre aquelas terras, de onde havia sido expulsa nos anos 50 da Era Cristã, pelo
Império Romano, evento que ficou conhecido como Diáspora. Entretanto, a resolução da
ONU não agradou aos palestinos que habitavam a região. Eles eram maioria na área e viram
seu território ser recortado (os palestinos ficaram com a Cisjordânia e Faixa de Gaza) e
entregue a uma população que entendiam como invasora e que ficou com a maior parte da
divisão do território, enquanto os palestinos foram empurrados para as franjas do território e
não tiveram a concessão de um Estado independente.

       A partir desse período, os palestinos passam a sofrer pressões dos israelenses,
apoiados pelo governo norte-americano, sendo equipados militarmente por este aliado. Como
os palestinos não foram capazes de fazer frente ao aparato militar dos israelenses foram
reduzidos a uma população de segunda classe ou expulsos de suas terras, confiscadas pelo
governo israelense.

       O crescimento dessas tensões entre judeus e palestinos resultou, em 1967, num grande
conflito que ficou conhecido como Guerra dos seis dias. Nessa ocasião, os israelenses levaram
vantagem, destroçando as tropas egípcias, sírias e jordanianas que tinham aderido à causa
palestina. Ao final do conflito, os israelenses passaram a controlar Jerusalém Oriental e a
Cisjordânia (território antes sob a administração da Jordânia), a península do Sinai e a Faixa
de Gaza (Egito) e as Colinas de Golã (Síria). Todavia, em 1973, Egito e Síria tentaram
reverter à situação, na oportunidade lançaram um ataque surpresa no “dia do perdão para os
israelenses”. Mas essa tentativa também fracassou e mais uma vez as forças árabes saíram
derrotadas. Em virtude de pressões diplomáticas, o Sinai foi reincorporado ao Egito na década
de 1980, mediante um acordo de paz com Israel. Já a Faixa de Gaza só foi devolvida aos
palestinos formalmente em 2005, o que não inibiu o governo israelense a realizar incursões
militares e a expandir os assentamentos nesta área. Por outro lado, as Colinas de Golã
continuam sobcontrole de Israel.

       Em 1987, novamente, um grande conflito foi deflagrado, dessa vez pelos palestinos. A
Intifada (que quer dizer “sacudir-se” ou “levantar-se”), como ficou conhecido o movimento
popular de resistência palestina à ocupação israelense, tomou as ruas em protesto à morte de
quatro crianças na Faixa de Gaza. Apesar dos palestinos terem sido ferozmente reprimidos
pelas forças israelenses, o movimento revelou ao mundo a triste condição dos palestinos e deu
início a tentativas diplomáticas mais claras em busca de se solucionar o problema.
17



       Porém, as tentativas de paz não caminharam bem e, em 2000 os palestinos deflagraram
a segunda Intifada – essa mais violenta do que a primeira. Novamente os palestinos foram
brutalmente repelidos. O último grande embate entre israelenses e palestinos foi no final do
ano de 2008, quando o exército israelense bombardeou a Faixa de Gaza supostamente para
desmantelar o “grupo terrorista” Hamas, que opera intensamente na região.

       Esses são alguns fatos históricos marcantes que ressalvamos para relembrar ao leitor,
de maneira resumida, visando situá-lo minimamente na situação do conflito na Palestina e
mais diretamente na Faixa de Gaza. De maneira nenhuma traçamos todos os eventos
consideráveis em toda essa marcha. Acontecimentos importantes, datados de antes de 1945,
não foram relatados, nem mesmo o importante papel outrora da Organização de Libertação da
Palestina (OLP) e do Hamas após 1987, e é claro dos governos de linha-dura de Israel.

       Nessa pequena entrada para o capítulo 1 deste trabalho, o objetivo foi demonstrar que
existe um grande foco de tensão nesta área, isto é, um grande conflito geopolítico que vai
além de suas fronteiras. Com essa premissa, irei tomar a questão na Palestina como meu
aporte de análise. Neste contexto, a Faixa de Gaza será o local onde depositarei minhas bases
teóricas, sempre voltadas para as formas de representação e compreensão do espaço, que vão
além das formas tradicionais da Geografia clássica. Ao leitor que deseja se aprofundar no
estudo histórico do conflito entre palestinos e israelenses, sugiro buscar outras fontes de
informação. Existem excelentes livros sobre o assunto disponíveis em português, dentre os
quais, para o uso do professor no ensino médio, indico “Geopolítica: o mundo em conflito”
(FUSER, 2006) que certamente iniciará qualquer ledor ao conturbado universo das relações
internacionais e, principalmente, acrescentará ao leitor mais informações sobre os fatos
históricos do conflito entre israelenses e palestinos.
18



Capítulo 1

Crítica ao ensino de Geografia despolitizado

       Alguns dos problemas nas práticas de ensino de Geografia se referem à maneira
despolitizada como a transposição didática dos conteúdos é feita, com forte enfoque no
didatismo e não numa perspectiva crítica, que permita ao professor mediar o conhecimento e
o senso comum. Percebe-se que essa fragilidade tem raízes na formação docente inicial e
continuada. A formação inicial, entendida como o tempo de licenciatura, trata de uma
Geografia que desde algum tempo foi desalojada de qualquer ênfase nos estudos relacionados
às estratégias geopolíticas de ação no espaço, colaborando com o desenvolvimento de uma
Geografia acrítica. Nesse sentido, a crítica dirigida às práticas de ensino de Geografia
despolitizada deve atacar os alicerces de tal mal-estar e para constatar a produção das práticas
de ensino de Geografia apolíticas, cabe-me o retorno as suas condições estanques.

       A Geografia se funda como ciência dentro do quadro positivista, no século XIX, sobre
as bases de seu primeiro pensador moderno, Alexander Von Humboldt, o primeiro a se
preocupar com as questões metodológicas do estudo de assuntos geográficos e a estabelecer
leis gerais e evolutivas para essa ciência. Porém, foi com o fomento de outro grande mentor,
Friedrich Ratzel, que a Geografia alcançou voos mais altos e se firmou definitivamente como
ciência. Foi Ratzel que calcou as pretensões dos estudos geográficos, relacionados à política.

       Em sua concepção, a Geografia política devia se interessar pelas questões do Estado,
dando prioridade aos assuntos referentes às fronteiras, as nações e suas estruturas e
movimentos internos. Assim, para Ratzel, o Estado-nação era um complexo organismo que
funcionava conforme a coesão garantida pela articulação de suas partes. Uma verdadeira
estrutura biológica do espaço onde a morfologia natural se fundia com os equipamentos
criados pelo homem, dando origem a uma estrutura morfológica do Estado, isto é, uma obra
de organização do espaço criada pelo homem.

       Neste viés, Ratzel preconizou o que talvez seja a máxima de seu pensamento “[...]
quando a sociedade se organiza para defender território, transforma-se em Estado [...]”
(RATZEL, apud MORAES, 2007, p. 70). Preocupado com as questões de unicidade da recém
Alemanha unificada, Ratzel valorizou os assuntos de organização do Estado, onde a
população tem papel importante como corpo sólido, tornado nação, considerada como, grupo
19



mais ou menos homogêneo que habita um determinado recorte espacial do globo, que se
desenvolve conforme as riquezas naturais de sua área de vivência, associadas as suas técnicas
específicas de intervenção no espaço.

       Contudo, foi o discurso geopolítico de Karl Haushofer que promoveu uma visão da
Geografia associada ou vinculada diretamente a práticas militares da Alemanha na Segunda
Guerra Mundial. É Haushofer que materializa mais claramente alguns dos ideais do
expansionismo alemão, associando-a a geopolítica alemã. Destarte, os estudos geopolíticos
desse período são vistos como manuais de práticas e ações de intervenção no espaço, como
uma verdadeira campanha pelo poder, empreendida pela política hitlerista.

       Essas são algumas das primeiras chagas que causaram aversão ao estudo de assuntos
geopolíticos pela academia e, consequentemente, para o ensino escolar. Como lembra Lacoste
(1988), essas práticas foram denunciadas como não científicas e avaliadas como ferramentas
de manobra do poder dos Estados, cabendo à Geografia se distanciar de tais propósitos e se
fundar como uma verdadeira ciência acadêmica, tendo como seu objeto de estudo o espaço
regional. Segundo Lacoste (1988), coube ao pai da Geografia francesa, Vidal de La Blache,
na obra “Quadro de Geografia da França” (1905), a consolidação e difusão dessa Geografia
regional que se distanciou das abordagens relacionadas ao papel do homem no espaço,
preconizando uma análise naturalista de certos recortes do espaço, entendidos como únicos e
prontos.

       Assim, para Lacoste (1988), esta geopolítica agressiva do Estado alemão poderia ter
causado aversões ao estudo de assuntos geopolíticos, o que teria escamoteado qualquer prática
séria de estudo de assuntos políticos por parte da Geografia. Entretanto, o próprio Lacoste
chega a se perguntar se isso seria de fato verdade. Suas críticas dirigidas a Vidal e,
posteriormente a Lucien Febvre, acusam esses dois de terem promovido um campo de estudo
apolítico para a Geografia. O primeiro, como já ressaltei, teria banalizado o campo de estudo
da Geografia e amputado desta ciência qualquer tipo de análise de ação no espaço, produzindo
um conceito-obstáculo para qualquer avaliação espacial crítica, pois o objeto da Geografia de
Vidal, que é a região, estabeleceu uma Geografia essencialmente descritiva em detrimento de
uma analítica. Com essa implicação, as ações do homem, empreendidas no espaço, ficam
numa penumbra na qual os geógrafos não podem tocar. Já o segundo, Lucien Febvre, teria
definido a Geografia como uma ciência modesta, que não se preocupa com os estudos
relacionados à política, cabendo esses à História.
20



       Enfim, considerando a participação desses dois personagens e o contexto histórico de
desenvolvimento da política hitlerista, o embasamento geopolítico resultante criou traumas e
afastou os geógrafos dos assuntos geopolíticos. É de responsabilidade, também, de grande
parte da comunidade geográfica, a formação dessa Geografia despolitizada, pelo desinteresse
e falta de olhar crítico no estudo de temas políticos que essa classe se absteve – e ainda se
abstém – de fazer.

       Para Lacoste (1988), existem duas Geografias atualmente, mas elas emanam do século
XIX. A primeira é a Geografia dos Estados-maiores, como ele a define. Esta é a Geografia
antiga, constituindo

                       [...] um conjunto de representações cartográficas e de conhecimentos variados
                       referentes ao espaço; esse saber sincrético é claramente percebido como
                       eminentemente estratégico pelas minorias dirigentes que o utilizam como
                       instrumento de poder (LACOSTE, 1988, p. 31).

       O geógrafo francês apelida essa Geografia como a dos reis, pois essa seria, há muito
tempo praticada por esses antigos homens do poder. Era privilégio do rei, conhecer todo o seu
vasto ou pequeno território, para articular práticas que garantissem a sua organização e seu
controle. Por meio de cartas, elaboradas por cartógrafos, os reis tomavam conhecimento do
seu território administrativo e podiam empreender suas atividades militares, econômicas,
políticas, etc. Dessa forma, cabia ao geógrafo-cartógrafo fornecer ao rei uma representação da
realidade do território em uma carta, função importante na época, que cabia ao geógrafo
realizar como homem de confiança do rei.

       Já a outra Geografia é a dos professores,

                       [...] que apareceu há menos de um século, se tornou um discurso ideológico no qual
                       uma das funções inconscientes, é a de mascarar a importância estratégica dos
                       raciocínios centrados no espaço. Não somente essa geografia dos professores é
                       extirpada de práticas políticas e militares como de decisões econômicas (pois os
                       professores nisso não têm participação), mas ela dissimula, aos olhos da maioria, a
                       eficácia dos instrumentos de poder que são as análises espaciais. Por causa disso a
                       minoria no poder tem consciência de sua importância, é a única a utilizá-las em
                       função dos seus próprios interesses e este monopólio do saber é bem mais eficaz
                       porque a maioria não dá nenhuma atenção a uma disciplina que lhe parece tão
                       perfeitamente „inútil‟ (LACOSTE, 1988, p. 31).

       Nos ditames de disciplina desinteressante, em especial pela prática de inúmeras
catalogações de elementos espaciais e suas localizações, é que a Geografia vai ser
reconhecida pelas outras disciplinas, como um saber de enumeração de diversos elementos de
outras ciências. Uma ciência inútil, para geógrafos semianalfabetos no que se refere às
21



apreciações do espaço. É neste bojo que a Geografia se difunde em diversas escolas pelo
mundo, como prática de decoreba de nome de capitais, rios, climas, etc. Uma representação
homogênea diluindo a imagem real posta em diversas telas de fenômenos históricos: tais telas,
mal sobrepostas, encobrem as ações do poder. Este teatro de observações, onde os bastidores
não são vistos, manipula e descaracteriza a razão de ser da Geografia: um conhecimento
estratégico do espaço, que permite agir eficazmente nele.

       É nesta crise de leitura do espaço político que práticas obsoletas de interpretação do
espaço são absorvidas pelo consumismo de massa. A Geografia do espetáculo, assinalada por
Lacoste (1988), ganha espaço entre os manuais de Geografia, sendo difundidos pelo mercado
em formato de belas imagens de diversas partes do mundo. Esses cartões postais ou imagens
televisivas de diversos lugares oferecem ao público uma visão de lugares nunca antes vistos,
mas escondem as relações de poder quando desprovidas de raciocínio crítico do espaço e de
uma representação adequada do real.

       De todo modo, para Lacoste (1988), a representação do espaço não é tão simples
assim. Ela advém de uma carta onde se tem uma representação vertical, mais ou menos
refinada, da realidade espacial a qual se pretende inferir. Essa abstração do espaço é, acima de
tudo, cartográfica, mas ela no máximo atinge ao nível de representatividade de 1 metro.
Estando o homem excluído desse mapeamento em suas maiores escalas, pois não faz parte do
espaço absoluto de objetos imóveis.

       A técnica de interpretação de uma realidade espacial exposta em uma carta deve levar
em conta o método de diferenciação espacial. Este consiste em prender em uma carta um
determinado fenômeno, sobrepondo-o a outros conjuntos que deem foco a outros fenômenos.
Só assim é possível elaborar um complicado quebra-cabeça que associe esses fenômenos a
outros fenômenos, em cartas de variadas escalas, onde se busca a correlação entre tais
fenômenos. Essa prática se assemelha a uma pilha de papéis transparentes mal organizados,
onde todos estão empilhados, mas de maneiras diferentes. Esses papéis têm dimensões e
formatos diversos, mas estão empilhados na mesma coluna, esta coluna claro, é a escala de
uso. Cabe ao raciocínio geográfico perfurar esses papéis e achar a interseção entre eles,
construindo a delimitação de tais fenômenos sobrepostos. É como montar um conjunto de
quebra-cabeças sobrepostos e fazer a relação entre eles. Contudo, quando se muda de escala, a
relação entre esses conjuntos também se modifica, pois as colunas ganham ou perdem
algumas folhas.
22



                       Entre todas essas cartas de escala tão desigual, não somente diferenças quantitativas,
                       de acordo com o tamanho do espaço representado, mas também diferenças
                       qualitativas, pois um fenômeno só pode ser representado numa determinada escala;
                       em outras escalas ele não é representável ou seu significado é modificado [...]
                       (LACOSTE, 1988, p. 74, grifos do autor).

       São essas representações de espaços diferenciais que põem em destaque a análise de
assimilação de diversos conjuntos espaciais em multiescalas de representação.

                       Contudo, essa representação do espaço, já bem complexo, não é suficiente para ser
                       operacional. Não é suficiente, de fato, raciocinar como fizemos até agora, sobre as
                       interseções entre as diferentes espécies de conjuntos espaciais, no âmago de um
                       mesmo território é preciso também considerar suas dimensões, que podem se referir
                       a ordens de grandeza muito diversas [...] (LACOSTE, 1988, p. 70).

Essas são desde grandes dimensões, como a de um continente, ou de pequeninas dimensões,
como de uma vila. Como se percebe “[...] a representação mais operacional e mais científica
do espaço não é a de uma divisão simples em „regiões‟, em compartimentos justapostos uns
aos outros, mas a de uma superposição de vários quebra-cabeças bem diferencialmente
recortados”. (LACOSTE, 1988, p. 70). Essa concepção sistêmica de leitura do espaço é que
possibilita o geógrafo combinar diferentes níveis de análise com diferentes ordens de
grandeza, acoplada ao exame de múltiplos conjuntos espaciais.

       As práticas vidalinas de descrição das regiões, como conjuntos harmoniosos, sopram
para longe qualquer exercício de raciocínio estratégico por parte dos geógrafos. As
interseções de relações entre as cartas são maquiadas por traços firmes que sucumbem o
geógrafo de realizar uma pesquisa aplicada. E quando este atinge a escala de observação do
lugar, uma maquiagem da paisagem naturalista, que evoca em muito pouco o papel do
homem, o faz míope na observação das manifestações do poder no espaço, e seu diagnóstico
fica apenas no nível de observação das energias dos fenômenos naturais. O que parecia ser o
apanágio da Geografia se revela como um infortúnio dessa ciência.

       De fato, a Geografia do professor ou acadêmica promoveu a difusão dessa ciência em
diversos países do mundo, mas sob-bases ideológicas que camuflam o papel do geógrafo na
sociedade como interventor no espaço. Contudo, ao crer que a Geografia deve cumprir o seu
papel na sociedade como ferramenta de apoio ao cidadão, busca-se, o amadurecimento de um
olhar crítico na educação, algo que possibilite as pessoas referir-se a diversos conjuntos
espaciais complexos de seu dia-dia. Mas, frequentemente, esta ciência se abstém dessa função
fazendo com que o cidadão, na lida com conjuntos espaciais complexos, nos quais está
inserido, se sinta no meio de um furacão.
23



       A carta é o instrumento de trabalho do geógrafo, com a qual deve buscar encontrar as
inter-relações dos fenômenos entre diferentes cartas de escalas variadas. Somente assim, pode
se construir um verdadeiro raciocínio geográfico, tomando conhecimento da superposição
espacial de diferentes categorias de fenômenos em extensões desiguais. Todavia, a carta é
uma representação abstrata do espaço como realidade, construída por inúmeras escolhas, onde
não se pode alcançar o nível mais fundo da representação do real. A carta tem limitações de
representação do fino do ambiente de vivência, muitas vezes, não alcança uma representação
adequada do meio em que o homem age e faz parte.

       Num mapeamento de uma pequena aldeia pode se obter uma excelente
representatividade do espaço, entretanto, esta não incluirá o homem, se detendo na descrição
da superfície terrestre. Isso se torna um problema, na medida em que certos movimentos são
perdidos na transposição da representatividade do real em sua fase de transformação (ação),
somente alcançando o seu resultado final, isto é, sua forma (ato).

       A Geografia vem se preocupando, nas últimas décadas, com outras formas de
representação do espaço, não somente aquelas que tangem os recortes da geopolítica
tradicional, onde os Estados são a praxe de estudo. Se as fronteiras políticas de um Estado são
um recorte no espaço de um determinado modo de produção do espaço geográfico, existem
outras internas a essa, as quais muitas vezes são focos de tensões e de conflitos diversos.

       Diversos recortes coexistem dentro de outros recortes no espaço, e assim
sucessivamente. Todos estão mais ou menos relacionados com as suas partes, o que
normalmente gera uma forma que se subentende seja uma representatividade da realidade
espacial. Estando esta representação em certa escala, ela vai valorizar certas medidas, o que
pode distorcer ou esconder algumas formas. Vai camuflar ainda mais se essa representação do
que se entende como real for alguma que deprecie alguma comunidade ou grupo, que não
consegue fazer voz diante da representação da classe ou grupo dominante.

       Portanto, a Geografia dos que são dominados vai ser ocultada pelas classes
dominantes, por essa representação do espaço imprecisa, tomada como conjunto da realidade.
Num Estado, uma representação dos limites de suas fronteiras internacionais vai gerar
determinada representação de realidade, esboço em um recorte do espaço. Entretanto, as
regiões que constituem esse mesmo Estado, não necessariamente vão ser representadas neste
mesmo nível, ficando num nível de análise em segundo plano; as suas subregiões já seriam
24



um nível mais abaixo e subsequentemente, os lugares, (isso se ficarmos apenas no nível da
organização política). A tarefa mais difícil é representar os lugares, ou seja, os míni recortes
do espaço, como partes integrantes de um grande corpo espacial, e ressaltar os seus conflitos
internos a este grande recorte espacial, quando esses fazem parte do cotidiano de grupos que
não se deseja cartografar.

       Escalas de representação da realidade espacial, muitas vezes são telas de formas
dominantes de se ler o mundo, conforme o alfabeto dos atores hegemônicos do poder.
Normalmente, os grupos excluídos de algum tipo de apreciação da realidade-espaço, se
encontram no nível mais baixo de leitura, não sendo cartografados pelos de cima. Quando se
alcança algum tipo de representação desses grupos, suas representações são moldadas com
conotações estereotipadas, que muitas vezes os definem com argumentos negativos, sendo
vistos pela totalidade, como inimigos do grande conjunto da massa, e não como parte
integrante do todo.

       Suas reivindicações são abafadas por uma forma de compreender o mundo que não
lhes cabe. A educação e a ciência como ferramenta do discurso das classes dominantes
também inculca nas pessoas a sua maneira de apresentar o mundo. Indivíduos descartáveis
são riscados do mapa, sua cultura e sua identidade são vistas como invasoras e não convém
representá-las, pois essas seriam tratadas como uma enfermidade do grande organismo.

       Pode se dizer então, que a Geografia aguarda ansiosa por novas formas de apreciação
da realidade que descrevam todos os recortes espaciais em seus mais diversos níveis de
percepção. Esta nova forma de entender o mundo deve permear todas as camadas de
observação da realidade espacial, sejam elas formas de representação vertical, por meio de um
mapa, ou outras maneiras multifacetadas e multiescalares de aprender e construir uma visão
coerente do mundo.
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Capítulo 2

Na Faixa de Gaza com Joe Sacco: contemplando o espaço de vivência
politizado

       Como se utiliza a cartografia para representar um dado espaço, pode-se destacar que
esse é um dos campos que reúne muitos problemas para o ensino de Geografia. Considerando
que um mapa é uma representação de uma determinada área do mundo, com o uso de uma
escala para transposição do registro em um papel, é preciso entendê-lo como algo que
descreve uma realidade espacial, sendo obra do olhar geográfico de quem seleciona os
elementos para mapear (uma carta temática, por exemplo), além de representar o desejo ou o
critério de quem detêm os meios estratégicos para produção dos mapas. A cartografia mapeia
os conjuntos espaciais homogeneizando as particularidades, sendo o trabalho final de
representação do espaço, muitas vezes, o resumo de um ou vários conjuntos espaciais. Então,
como realizar a cartografia de uma particularidade, soterrada pelas representações verticais de
atores dominantes?

       Seja como for, esses não são os únicos ônus que pesam sobre a Geografia e sua
principal ferramenta de trabalho. Os problemas na Cartografia vão além das formas
inadequadas de seleção de escalas, tipos de representação e de símbolos, entre outras
dificuldades. Os elementos de representação se atolam em uma confusa malha de conjuntos
espaciais verticalmente sobrepostos e, ao final do trabalho de enquadramento, revelam pouco
das práticas de ação do homem no espaço.

       Em todo caso, acredito, que a melhor maneira de se representar uma realidade espacial
num mapa, seja a dos famosos “quebra-cabeças” de Lacoste (1988), nos quais são sobrepostos
conjuntos espaciais de variadas formas e dimensões, e se verifica a interseção entre eles,
utilizando uma escala adequada para tal propósito. Como se percebe, a representação do
espaço não implica numa cartografia simplista, mais num emaranhado de recortes espaciais,
que constituem um jogo de quebra-cabeças sobre quebra-cabeças, e assim sucessivamente.
Entretanto, esses também têm limites de abstração da realidade espacial, pois revelam como
qualquer outro mapa, apenas o nível de visão vertical.

       Em decorrência dessa opacidade das formas de representar o espaço verticalmente,
tendo o homem incluso nele, se somam aos mapas, outras fontes de enriquecimento de
26



informações, que focam o homem no espaço. Aliás, não é incomum, ver em atlas
(principalmente infantis) imagens de diversos lugares do mundo, que já se encontram
representados num mapa do local fotografado. Essas fotografias, normalmente, focalizam as
práticas de produção do espaço geográfico pelo homem, buscando revelar uma prática de ação
do homem no seu meio, que não é expresso no mapa.

       No entanto, essa representação do trabalho do homem no espaço por meio de
fotografias, revela apenas pontos específicos no mapa: é como se o cartógrafo escolhesse
certos lugares para uma representação mais aprofundada das práticas de vivência de um
indivíduo ou de determinado grupo em seu meio. Todavia, essas fotografias paisagísticas
pouco revelam as ações de poder no espaço, pois a imagem estática do homem no espaço não
explica a conexão de suas ações no mesmo. Assim, como o “quebra-cabeça” de Lacoste
(1988) necessita de uma interseção entre mapas de escalas diferentes, que revelem a
operacionalidade dos conjuntos espaciais, essas imagens também pedem uma sequência de
imagens, de ângulos, de dimensões, e de realidades sócio-espaciais diversas para possibilitar a
construção de um raciocínio geográfico dinâmico por meio da imagem.

       Quando se observa uma imagem de determinado lugar do globo, sempre se busca
alcançar um horizonte que se encontra espremido em algum canto da fotografia. A falta de
sequência de imagens angustia quem busca entender uma realidade espacial, já que esta
permanece num ostracismo visual, impedida de fazer relação entre os fatos, pois, essa
captação, no máximo foca os objetos do espaço em uma situação estática do homem em
relação a eles.

       Estando a cartografia clássica numa situação, onde encontra problemas em representar
o homem em interação com o espaço, na qual reduz esse homem a números quantitativos,
distribuídos sobre determinado território, em uma representação em pequena escala. No nível
da grande escala, o resultado é ainda mais desastroso, estando esse homem ausente de tal
representação. Se uma representação geopolítica se refere à organização do espaço, ainda que
se reportando ao papel do Estado como gestor territorial, os homens que efetuam tal
organização, simbolizando a ação da máquina estatal, não podem ser esquecidos no
mapeamento, sob pena de naturalização dos fatos, tornando-os como se fossem efeito de
fantasmas que ninguém vê. Dessa forma, acredito as interseções das quais Lacoste (1988)
tanto deu ênfase na representação do espaço em sua visão vertical, também podem caber ao
homem, em outros moldes.
27



       Fazer a relação entre conjuntos espaciais mais ou menos sobrepostos, usando escalas
variadas para alcançar as interseções horizontais, verticais ou oblíquas, consiste em um
verdadeiro raciocínio geográfico. Mas esse raciocínio deve incluir o homem, em todo seu
pacote, pois somente assim será possível realizar a transformação ou metamorfose do formato
de representação vertical da realidade espacial para uma multiorientada, quando essa atinge as
maiores escalas. Como já salientei, as imagens estilo fotografias não são suficientes, porque
não captam o movimento das ações desenvolvidas no espaço geográfico.

       Creio que será interessante para a Geografia, pensar em outras formas de
representação do homem no espaço, formas que rompam com esses obstáculos de
mapeamento, que não dão ênfase ao homem em suas práticas.

       Invisto, neste estudo, em promover uma representação da realidade espacial que
mescle a capacidade de descrição do cartógrafo, com pontos de fuga da paisagem estática
representados por uma ferramenta que demonstre a dinâmica de movimento dos
acontecimentos. Busco, assim, uma alternativa para romper com esse gargalo que não insere o
homem no espaço, em interação com seus sistemas de vivências. A representação de
determinado conjunto, como o proletariado ou o campesinato, desprovido da interação do
homem com o espaço, não revela a situação desses grupos, porque não se consegue ligá-los,
por meio de suas ações, às diversas estruturas às quais estão submetidos, sejam elas do espaço
físico ou dos modos de produção. Como entender a situação de um trabalhador de uma
fábrica, se a representação vertical demonstra apenas o telhado da fábrica?

       Parece, no mínimo, contraditório, mas penso que, Lacoste já tinha apontado esse
caminho, apenas não se aprofundou nele, como se pode analisar em seus estudos:

                       [...] Sem dúvida, pode se facilmente fazer a carta das estruturas agrárias nesta ou
                       naquela área, mas ela não explica completamente a situação na qual se encontram os
                       camponeses. É preciso também levar em consideração as condições climáticas,
                       pedológicas, topográficas, que não derivam, fundamentalmente, da análise dos
                       marxistas e que estes tendem a negligenciar, em prol do estudo das relações de
                       produção [...] (LACOSTE, 1988, p. 147).

       A questão fundamental, não é dar foco a esse ou aquele elemento, mas sim constatar,
no caso duma representação em grande escala, mas não necessariamente vertical, uma
realidade espacial, que insira o homem dentro da estrutura da qual ele faz parte e que constrói
todos os dias, por meio de suas práticas no espaço de vivência. Esses espaços, mesmo que
sejam miniespaços, também são políticos, pois fazem parte de uma complexa estrutura de
28



camadas confusas, onde cada ser humano integra o todo como uma célula que compõem um
corpo. “[...] Em suma, tudo é político, mas toda política é ao mesmo tempo macropolítica e
micropolítica” (DELEUZE e GUATTARI, apud HAESBAERT, 2007, p. 115, grifos dos
autores).

       Esses miniespaços politizados são carregados de valores simbólicos e estéticos, que a
população local deposita por meio de suas práticas de vivência ao longo do tempo. Como
constatou Corrêa, existe um sentido de pertencer a um determinado local, com o qual se criou
vínculos, originando um significado que é expresso num modo de viver em determinado
recorte espacial. Dessa maneira, um rio, uma montanha, uma praça, uma esquina, um óculos,
todas essas formas ganham sentido quando conectados aos afazeres cotidianos no espaço de
vivência (informação verbal) 2.

       Esses significados se situam em escalas variadas, é como se os significados
percorressem vastos espaços os conectando, pois “[...] uma cultura nacional atua como uma
ponte de significados culturais, um foco de identificação e um sistema de representação [...]”
nacional (HALL, 2006, p. 58). Contudo, a peculiaridade é que todo lugar tem um significado
ancorado no conjunto nacional, mas também possui seu significado interno, sendo assim, para
vislumbrar esse entroncamento, articule-se o uso da escala a uma representação (possível) do
significado que emana de um conjunto.

       Ao falar que sou brasileiro, construo uma ligação com todos os brasileiros que habitam
o território nacional, mas quando falo, sou capixaba originário da Região do Caparaó,
construo uma ligação mais estreita com um grupo menor de pessoas, em um recorte espacial
também menor, que se afunila ainda mais se me refiro a minha cidade-natal (Guaçuí) ou ao
meu bairro. Esse enquadramento cria reciprocidade entre envolvidos e atinge o mais alto
nível, quando eu mantenho contato intenso com um lugar, que me garante e no qual
desenvolvo uma identidade particular.

       É fácil representar o território nacional e generalizar vivências homogêneas de grandes
espaços de vivência: basta realizar determinado recorte para concluir, por exemplo, que o
registro de muitas indústrias e empresas de serviços nos estados que compõem a região


2
   CORRÊA, R. L. Processo, Forma e Significado – Uma Breve Consideração. Aula proferida na
Universidade Federal do Espírito Santo. 2009.
29



Sudeste fazem dela a mais industrializada do país e que a região Nordeste é menos
industrializada. Pronto, já se criou uma visão superficial de um espaço de vivência em
pequena escala. Porém, como realizar tal tarefa numa grande escala, quando os homens
desaparecem do espaço absoluto, e o espaço de vivência é dissociado dos grupos que o
constroem e o habitam, ao mesmo tempo em que a pequena estrutura do grande corpo
estrutural ganha diversidade e até identidades próprias? Ora, minha cidade natal faz parte da
região Sudeste, que é industrializada. Suas pouquíssimas indústrias não são como as de São
Paulo, por exemplo. Entretanto, ela faz parte dessa rede, estando a ela conectada por meio de
linhas complicadas de se visualizar: situação geográfica, localização territorial, inserção na
rede de bacias hidrográficas, inclusão na dinâmica de movimentação de ventos, pela
disposição no relevo, do clima tropical da região, etc. Como, então, explicar e conectar o meu
espaço vivido, com tantos outros estruturados em uma complexa rede de economias, climas,
geomorfologias, etc. que desvalorizam as formas de representação do lugar e suas
particularidades?

       A Geografia humanista valoriza diversos espaços e se “o espaço vivido deve, portanto,
ser compreendido como um espaço de vida, construído e representado pelos atores sociais que
circulam neste espaço, mas também vivido pelo geógrafo, que, para interpretar, precisa
penetrar completamente este ambiente [...]” (GOMES, 2003, p. 319), como a Geografia vai
“descrever o mundo”, se suas formas de representação não atingem as finas ranhuras do
espaço, e se o geógrafo também não vai a todas as partes do mundo.

        Sendo o lugar, o lócus onde se germina a construção do espaço político, este fica
encoberto por meios inadequados de mapeamento, porque não há como expressar a totalidade
das ações de poder no espaço territorial e se não é devidamente representado, a cadeia
estrutural da realidade perde sentido. Como é sabido, o geógrafo não pode estar em todas as
partes do mundo. O mapa é que tem a finalidade de informar ao leitor um conhecimento
mínimo sobre uma realidade expressa em uma imagem. Todavia, devido a essas reduções da
representação cartográfica, os lugares mapeados são frequentemente dissociados da realidade
que tentam captar e apresentar.

       Para tentar responder a essas questões, proponho um olhar ao passado, resgatando
duas expressões de Humboldt. Não se trata aqui de realizar uma discussão epistemológica
sobre a dualidade da concepção geográfica, mas apenas jogar luz sobre dois aportes teóricos
desse prussiano. Humboldt enfatiza que o geógrafo, determinado a realizar um estudo
30



geográfico, deve se valer, de duas abstrações da realidade; a primeira, o prazer da
contemplação que o olhar geográfico minucioso pode proporcionar ao observador, quando
esse constata a numerosa diversidade das formas e dos fenômenos, que poderiam ser descritos
poeticamente. A segunda é o prazer intelectual de compreender as leis gerais da natureza, que
podem dar a ideia de supremacia sobre outras ciências, porque a Geografia é incumbida com
do papel de síntese.

       Assinaladas a capacidade de descrição e relação dos fenômenos pelos geógrafos, uma
representação adequada dessa simbiose seria de suma importância para solucionar alguns dos
problemas de representação cartográfica da realidade espacial. Tal representação deve
repousar no que circunda o espaço de vivência, o que implica numa descrição política de
miniespaços, onde o homem age.

       A paisagem a que me refiro, e para a qual defendo a elaboração de uma cartografia por
meios alternativos, não é uma paisagem naturalizada, tendo o homem como observador
apenas. É uma paisagem política, onde o homem estende sua mão e toca o espaço palpável.
Para o qual ele simplesmente não vira as costas quando tira uma fotografia, na qual quer
captar ao fundo certo horizonte da paisagem. Esse homem deve segurar a câmera e tocar o
ponto no qual pretende inferir; somente assim pode explicá-lo e moldá-lo quando o flash
acontece. Tirar apenas uma fotografia de uma paisagem é como, se no ato do flash, o
camponês fizesse pose para a câmera e deixasse de realizar o seu trabalho em seu ambiente de
vivência.

       Também não estou sugerindo, uma sequência de imagens em ângulos diferentes para
explicar um lugar: isso não seria suficiente, pois esta possibilidade descaracterizaria o papel
do geógrafo e de seu olhar geográfico. Outrossim, reconheço a impossibilidade de representar
tudo do espaço geográfico em um pedaço de papel. Por isso, a capacidade técnica de síntese
do geógrafo precisa ser valorizada, uma vez que sua competência profissional deve permitir-
lhe realizar a interseção entre diversas formas de representar a realidade espacial
cartograficamente, sejam elas verticais, horizontes, oblíquas, panorâmicas, etc.

       Por outro lado, não estou querendo inculcar na cartografia, desenhos desprovidos de
caráter científico. Saliento apenas que a cartografia não pode ficar refém do modelo de
representação vertical, quando a gama de realidades vivenciadas que ela quer/deve/precisa
explicar é tão complexa. Sustento que seja valioso para o geógrafo fazer uso de outras formas
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de captação da realidade espacial, relacionando-as com as ações de poder no meio, que
empreguem a arte e a técnica da descrição, impregnadas e impressoras do raciocínio
geográfico: esse, é o mapa-paisagístico que procuro e para o qual, neste trabalho, proponho
uma alternativa de elaboração.

         À inquietude que esse encaminhamento de proposta possa estar proporcionando, é que
me movimentou nessa pesquisa, e na qual busco esboçar algumas considerações. Nos estudos
até aqui realizados para esta pesquisa, constatei que existem problemas na representação da
realidade espacial pelas técnicas da cartografia tradicional, disponibilizadas para o curso de
graduação de Geografia. A principal dificuldade em representar a realidade espacial parece
acontecer quando essa busca atinge o nível do lugar, possível apenas numa representação em
grande escala. Essa dificuldade existe mesmo quando o mapa é obra de um raciocínio
geográfico maduro e complexo. Então, para captar a realidade espacial vivida em uma folha
de papel, que seja contundente com a realidade do lugar, em especial para instrumentalização
da Geografia Escolar, proponho novas alternativas de leitura do espaço local, ou do lugar.

         É aqui que o mapa-paisagístico se insere, revelando uma malha de ações sobre a
estrutura humanizada, onde pode se notar o peso das energias humanas agindo sobre o espaço
e com as pessoas. Diferente das formas tradicionais de mapeamento, que se prendem no
formato de representação vertical, o mapa-paisagístico está livre desta lei. Como ele busca
descrever a comunhão de interações numa relação de totalidade-totalizante com o lugar, suas
necessidades de absorção do indivíduo-real-espaço são outras e mais diversas (SANTOS,
2004).

         Esta construção se encontra no último nível de descrição da realidade espacial, seu
propósito é absorver as relações de poder pessoa a pessoa e também suas relações com o
espaço – esta última contida nos objetos espaciais. Cabe ao mapa-paisagístico descrever o
lugar, demonstrando a transparência de uma sequência de ações humanas empreendidas pelo
homem no espaço. Sendo assim, sua finalidade última é apresentar o significado que o espaço
tem para os homens, por meio das ações desses no espaço, ações que repousam em certos
ambientes, dando sentido à vida em determinados lugares.

         A verdadeira anatomia do espaço, da qual o homem também faz parte como um agente
transformador e peça importante em toda a dinâmica, que não é mecânica, só pode ser descrita
pela gama e comunhão de todas as imagens, sejam elas: verticais, horizontais, oblíquas,
32



panorâmicas, etc. Ressaltar as ações humanas que moldam o espaço, dando-lhe um
significado e uma identidade ao homem, é o grande objetivo a se alcançar neste trabalho.
Portanto, representar o “espaço real”, não estático, por meio das ações, entendido como o
espaço de vida, reforça o entendimento da produção do espaço geográfico pelo homem.

       Porém, como fazer isso? Entendo que instrumentos como as HQs podem servir como
material concreto que possibilite aprimorar a visão da realidade espacial e temporal,
principalmente quando o indivíduo leitor não se encontra em contato direto com o espaço.
Para isso, usarei, para exemplificar a compreensão do raciocínio geográfico que busco
desenvolver para composição de um mapa-paisagístico, o trabalho do cartunista e jornalista
Joe Sacco, “Palestina: na Faixa de Gaza” (SACCO, 2003), considerando-o como bastante
apropriado como aporte instrumental.

       Sacco nasceu na ilha de Malta, em 1962, passou sua infância na Austrália, mas, ainda
jovem, mudou-se para os Estados Unidos, onde se formou em jornalismo pela Universidade
de Oregon. Seu primeiro grande trabalho que retratou conflitos geopolíticos foi “Palestina:
Uma Nação Ocupada” (SACCO, 2000). Este trabalho lhe consagrou o Prêmio HQ Mix 2000.
Em 2001, novamente recebeu o mesmo prêmio com seu segundo grande trabalho “Área De
Segurança Gorazde” ou “Gorazde: A Guerra Na Bósnia Oriental” (SACCO, 2001). Na
sequência, produziu ainda outro trabalho importante envolvendo conflitos geopolíticos: “Uma
História De Sarayevo” (SACCO, 2005).

       Os trabalhos de Sacco, mencionados acima, reúnem o que denomino elementos
básicos do mapa-paisagístico: valorizam a forma e geometria dos objetos espaciais; são multi
representativos; captam a ação do homem no espaço, por meio de uma sequência de ações
descritas que revelam uma particularidade, isto é, a identidade do lugar construída pelas
pessoas; apresentam pontos de fuga, que constroem a noção de profundidade da imagem;
estabelecem relações proporcionais entre pequenas estruturas e conjuntos do miniespaço em
interação com o homem.

       O crivo de seu método é acentuar as formas do espaço, em conexão com as ações de
seres humanos, à medida que a projeção do indivíduo-realidade se aprofunda. Mas não num
sentido do homem habitando a tela da superfície terrestre, pois como se pode notar, a obra de
Sacco pode ser entendida como um conjunto de mini quebra-cabeças do lugar, acrescido de
enquadramentos multiformes em diversas orientações visuais. A realidade vivencial
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apresentada por Sacco, não é esboçada em uma única tela, ainda mais numa tela plana visível
apenas na visão vertical, ela é composta por diversas telas maleáveis, orientadas em diversos
sentidos que se entrelaçam por meio de nós, construindo assim uma representação de uma
dada realidade socioespacial que se pode dizer conectada com o quadro de vivência de um
lugar.

         Seu trabalho é, sobretudo político, carregado de uma estética precursora e
revolucionária, contendo informações históricas enquadradas no cotidiano comum, vivido de
indivíduos ordinários. O cotidiano e o indivíduo ordinário são conceitos desenvolvidos por
Certeau (2008) que visa apresentar o que é a vida, no rés do chão, no dia-a-dia. Segundo ele, o
cotidiano se constrói como espaço e como tempo, sem glamour de excepcionalidade, sem a
artificialidade de uma criação intencional para descrição. Com esse entendimento, é possível
compreender, também, ações de poder no espaço; que em momento algum são desprovidas de
enfoque, sejam elas um ato violento, uma simples fala, ou mesmo, um olhar atento.

         Em “Palestina: na Faixa de Gaza”, Edward W. Said faz uma homenagem crítica do
trabalho de Sacco no prefácio da obra.

                          [...] Suas imagens são com certeza mais gráficas do qualquer coisa que você possa
                          ler ou ver na televisão. Joe é uma presença atenta, às vezes cética, ás vezes saturada,
                          mas na maior parte do tempo compreensiva e engraçada, como quando ele nota que
                          uma xícara de chá palestina quase sempre é atolada de açúcar, ou que os homens,
                          talvez involuntariamente, se reúnem para trocar histórias de pesar e sofrimento
                          assim como os pescadores comparam o tamanho dos peixes, e caçadores, o porte de
                          suas caças (SAID, 2003, p. x).

         Said também advoga que, Sacco absorve a

                          [...] realidade existencial vivenciada pelo palestino médio quando em sua descrição
                          da vida em Gaza, o inferno nacional. A ociosidade do tempo, a pobreza (para não
                          dizer a sordidez) da vida cotidiana em campos de refugiados, a rede de trabalhadores
                          voluntários, mães desoladas, homens jovens desempregados, professores, policiais,
                          o onipresente de chá ou café, a sensação de confinamento, lama e feiúra transmitida
                          pelo campo de refugiados, algo que simboliza toda a experiência palestina - isso
                          tudo é descrito com precisão quase assustadora e, paradoxalmente, de forma
                          delicada [...] (SAID, 2003, p. xi).

         E salienta, se o leitor

                          [...] prestar atenção, vai perceber a descrição cuidadosa de diferentes gerações: como
                          crianças e adultos fazem suas escolhas e vivem sua pobre existência, como alguns
                          falam e outros ficam em silêncio, como vestem casacos velhos, jaquetas de todos os
                          tipos e hattas quentes. Numa vida improvisada nos limites de sua terra natal, onde se
                          tornaram as criaturas mais tristes, desprovidas de poder e contraditórios, com um
                          forasteiro que não é bem-vindo [...] (SAID, 2003, p. xi).
34



       Em suma, o trabalho de Sacco pode ser considerado uma descrição poética
estruturalista, isto é, uma estrutura espacial do lugar, pois suas representações descrevem o
indivíduo condicionado aos seus espaços vividos, numa espécie de cadeia de objetos
espaciais, com suas formas bem destacadas em contado com as práticas do homem num meio.
Esta geometria das formas espaciais e de ações humanas integradas por meio de práticas de
poder no espaço de vivência, é que caracterizam sua obra como única, no que se aloca um
paralelo político oculto, mas presente e atuante.

       Destaca-se que Sacco não fica preso às referências políticas que abrangem ações
militares: sua percepção é mais profunda, ele aborda o cotidiano do conflito – justamento o
que interessa mais a este trabalho, pois na maioria das vezes, só se toma conhecimento do
conflito na Faixa de Gaza, quando os jornais informam sobre algum “homem bomba” ou
coisa do tipo. Sacco elaborou um trabalho minucioso, em dois volumes, durante sua estada em
Jerusalém, na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, entre o fim de 1991 e início de 1992. Parte de
sua jornada é relatada em “Palestina: na Faixa de Gaza”, onde ficou pouco mais de uma
semana em dois campos de refugiados, Nuseirat e Jabalia.

       É nesta vivência de Sacco, que vou realizar uma breve análise voltada para fins de
trabalho na educação básica (ensino médio mais apropriadamente). Os recortes escolhidos não
devem ser vistos como resumo da obra de Sacco e tampouco como programa de um conteúdo
fechado para se utilizar HQs na sala de aula. A obra de Sacco é multifacetada e não pode ser
aprendido aqui em sua totalidade. Vou expor, apenas, algumas sugestões de assuntos que
podem ser trabalhados na sala de aula utilizando a HQ de Sacco, tendo como foco principal,
desenvolver a sensibilidade crítica dos alunos.

       Mas antes, cabe ressaltar que foi

                        [...] entre os séculos XV e XVII, [que,] o mapa ganhou autonomia. Sem dúvida, a
                        proliferação das figuras „narrativas‟ que o povoam durante muito tempo (navios,
                        animais e personagens de todo o tipo) tem ainda por função indicar as operações –
                        viagem, guerreiras, construtoras, políticas ou comerciais – que possibilitam a
                        fabricação de um plano geográfico. Bem longe de serem „ilustrações‟, glosas
                        icônicas do texto, essas figurações, como fragmentos de relatos, assinalam no mapa
                        as operações históricas de que resulta. Assim a caravela pintada no mar fala da
                        expedição marítima que permitiu a representação das costas. Equivale a um descritor
                        de tipo „percurso‟. Mas o mapa ganha progressivamente dessas figuras: coloniza o
                        espaço delas, elimina aos poucos as figurações pictóricas das práticas que o
                        produzem. Transformado pela geometria euclidiana e mais tarde descritiva,
                        constituído em conjunto formal de lugares abstratos, é um „teatro‟ (este era
                        antigamente o nome dos atlas) onde o mesmo sistema de projeção justapõe no
                        entanto dois elementos diversos: os dados fornecidos por uma tradição (a Geografia
35



                        de Ptolomeu, por exemplo) e aqueles que provinham de navegadores (os portulanos,
                        por exemplo). No mesmo plano o mapa junta lugares heterogêneos, alguns recebidos
                        de uma tradição e outros produzidos por uma observação. Mas o essencial aqui é que
                        se apagam os itinerários que, supondo os primeiros e condicionando os segundos,
                        asseguram de fato a passagem de uns aos outros. O palco, cena totalizante de origem
                        vária são reunidos para formarem o quadro de um „estado‟ do saber geográfico,
                        afasta para a sua frente ou para trás, como nos bastidores, as operações de que é
                        efeito ou possibilidade. O mapa fica só. As descrições de percursos desapareceram
                        (CERTEAU, 2008. p. 206, 207, grifos do autor).

       Após esse longo parágrafo de Certeau, que ajuda a esclarecer algumas questões de
como o mapa surgiu e se expandiu, é necessário frisar, que o mapa-paisagístico não consiste
num retrocesso do modelo de representação espacial ancorado no itinerário de percursos no
espaço, como se esse fosse uma linha ligando pontos entre os lugares. Mas sim, num modelo
de complemento das cartografias do lugar, nesse sentido, os relatos ajudam não apenas a
conectar pontos no espaço, mais também (usando a expressão de seu livro) a triturá-los, por
isso ele é vivencial, multiorientado e multifacetado.

       Esclarecido algumas questões que pudessem gerar ambiguidade, passo à apresentação
de representações. Selecionei quinze páginas da obra de Sacco para trabalhar. Elas estão
divididas em seis grupos. Advirto que algumas apresentam um teor de violência maior,
cabendo ao professor julgar se devem ser usadas ou não na sala de aula. Não creio que haja
problemas no trabalho de Sacco, pois ele sabe poupar o leitor de cenas desnecessárias, sem
prejudicar o seu trabalho.

       Insisto que o trabalho de Sacco não deva ser utilizado apenas como manual de
denúncia. Ele é isso também, mas se destaca como um verdadeiro documento da triste
realidade de opressão aos palestinos. De tal maneira que, o professor não deve se apoiar nele
para fazê-lo seu palco de denúncia. Em minha concepção, Sacco possibilita uma conexão
entre uma realidade em ampla dimensão, de pequena escala, e a do espaço de vivência de um
lugar, por meio de uma rica malha de trações que revelam um ambiente, que fica oculto em
representações tradicionais da cartografia. Acima de tudo, este é um material didático, que
propicia ao professor de Geografia trabalhar assuntos do campo desta ciência de forma crítica
e politizada, desde que esse utilize outras fontes junto ao trabalho de Sacco, na sala de aula.
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 Quadro de proposta de temáticas para se trabalhar o conflito geopolítico entre israelenses e
  palestinos na Faixa de Gaza, utilizando “Palestina: na Faixa de Gaza” (SACCO, 2003).

   Grupo             Temática                                   Contextualização
A - páginas   Observando o espaço    Escolhi essas duas páginas para servirem como instrumento de leitura
3 e 73        de vivência            do espaço de vivência. Na p.3, a visão é panorâmica, como se fosse
                                     um quadro feito do terceiro andar de um prédio. A p.73 representa um
                                     nível mais baixo, uma imagem horizontal que revela uma
                                     profundidade em seu ponto de fuga: esta se parece com uma visão de
                                     uma pessoa em cima de uma escadinha. Ambas revelam uma
                                     estrutura do ambiente, onde o homem está presente e agindo. No
                                     entanto, a p.3 se parece mais com um mapa, pois sua visão se
                                     aproxima do tipo vertical. Isso é notável quando se observa o telhado
                                     das casas. Sua estrutura paisagística é mais clara, embora apresente
                                     uma menor dimensão. A p.73 é mais poluída, pois as estruturas estão
                                     sobrepostas pelo sentido da imagem horizontal, esta se parece mais
                                     com a visão que temos cotidianamente no ambiente urbano.
B - páginas   Sionismo (a formação   Nas páginas 21 e 81, o professor de Geografia terá um excelente
21 e 81       de Israel)             material didático para trabalhar o conteúdo histórico do conflito entre
                                     israelenses e árabes. Tanto na página 21, como na página 81, a
                                     história do conflito é narrada por personagens que vivenciaram tal
                                     acontecimento. Fazendo uso de um material adequado que preencha
                                     as lacunas das experiências relatadas, o professor de Geografia pode
                                     construir uma aula de grande teor crítico, trabalhando com o fato
                                     histórico associado às experienciais particulares vividas. Observe que
                                     as duas histórias são muito semelhantes, o que ajuda a compreender
                                     melhor a história dos indivíduos associada à cartografia de um povo.
                                     Nessas duas páginas, como nas dos conjuntos C, D, E e F. Sacco afina
                                     sua percepção e se aprofunda na cartografia do lugar, ao enxergar
                                     indivíduos vivendo em miniespaços do lugar. Também concede
                                     visibilidade as suas vivências ao expor seus modos de vida
                                     condicionados em certa medida pelo ambiente de conflito, da voz a
                                     indivíduos descartados pelas cartografias verticais representando seus
                                     corpos no lugar, associando-os a produção histórica do mesmo,
                                     revelando a identidade desses com o meio. Em suma, pode se dizer
                                     que Sacco percorre diversas salas de um grande compartimento, ele
                                     desbrava diversos planos de visão que nas representações verticais
                                     são reduzidas.
C - páginas   Intifada de 1987       Nessas duas páginas, mais uma vez, Sacco volta no tempo para
49 e 50                              explicar um fato histórico do conflito entre israelenses e árabes por
                                     meio de experiências vividas. Tudo tem início quando quatro crianças
                                     palestinas são mortas por um caminhão israelense, o que inflama a
                                     população da Faixa de Gaza. Contudo, os primeiros alvos são um
                                     grupo de palestinos que se divertiam jogando cartas, situação que é
                                     entendida pela massa revoltada como desagregação pela causa
                                     palestina, sendo essas pessoas repremidas fisicamente. Como essas
                                     duas páginas vão deixar claro, a Intifada foi um movimento
                                     espontâneo, ao mesmo tempo em que é também um resultado
                                     histórico das submissões dos palestinos aos israelenses. Dificilmente
                                     outro conteúdo será tão revelador e didático como essa passagem da
                                     obra de Sacco para explicar o início da Intifada. Obs.: Sacco relata
                                     apenas a Intifada de 1987, pois na segunda Intifada de 2000, ele não
                                     retornou a Faixa de Gaza para realizar trabalho semelhante.
D - páginas   Meninos de Gaza        As páginas 17 e 55 relatam a triste experiência dos meninos militantes
17 e 55                              pela causa palestina na Faixa de Gaza. Chamo a atenção para o crime
                                     dos direitos humanos quando vários desses meninos são punidos
                                     sobcondições de tortura. Sacco demonstrou uma atenção especial aos
                                     meninos da Faixa de Gaza: em várias passagens eles estão presentes,
                                     seja em primeiro plano ou como figurantes na densa paisagem de seu
37



                                       quadrinho. Mais uma vez o trabalho de Sacco se mostra pioneiro,
                                       dando visibilidade a indivíduos “descartáveis”. Pode se ressalvar
                                       nessas duas páginas, que o espaço pode ser adaptado aos afazeres
                                       humanos, tudo dependerá do encaminhamento da ação. Assim, um
                                       hospital pode se tornar lugar de tortura, isso dependerá das geometrias
                                       do poder se alojando em pequenas formas espaciais, que geram
                                       territórios.
E - páginas   Fronteiras e controle    Nessas seis páginas, talvez, esteja o conteúdo mais interessante para
22, 77, 78,                            desenvolver o olhar crítico dos alunos. Na p. 22 se percebe logo que a
100, 129 e                             fronteira pode ser a porta de sua casa, quando é noite. Nas ps. 77, 78 e
130                                    100 fica claro que a Faixa de Gaza é uma área de total vigilância, pois
                                       o território é recortado por uma malha de fronteiras físicas, que,
                                       porém, só são eficientes quando vigiadas. Isso fica claro na p. 100,
                                       quando a menina acha uma falha no cercado e rompe o bloqueio, não
                                       por causa do buraco na cerca, mas porque ela não estava sendo
                                       vigiada no momento. É interessante pensar como a Faixa de Gaza é
                                       extremamente controlada por cercas, muros e olhares, mas que num
                                       segundo se transforma em terra incógnita, onde ninguém sabe o que
                                       se passa. Por fim, as ps. 129 e 130 concluem a temática, agora
                                       tomando como exemplo as vias de transporte de veículos motores: a
                                       mobilidade para os palestinos se mostra extremamente tênue e
                                       dispendiosa, seja internamente ao território de Gaza ou nas suas
                                       fronteiras internacionais.
F - página    Expansão           dos   Em toda sua obra, Sacco aborda as questões do expansionismo
110           assentamentos judaicos   israelenses sobre terras palestinas. Isso é notável na construção do
                                       território da Faixa de Gaza, quando os palestinos são empurrados e
                                       espremidos para a franja do território na fronteira com o Egito.
                                       Entretanto, isso fica mais claro quando ele sai da Faixa de Gaza e
                                       conversa com duas judias em Jerusálem. Cabe pensar aqui, na
                                       produção de um espaço passivo aos judeus, e outro, oneroso aos
                                       palestinos.

       Essas são algumas das temáticas, selecionadas como hipótese para se desenvolver um
trabalho em sala de aula utilizando “Palestina: na Faixa de Gaza” (SACCO, 2003). Saliento,
mais uma vez, que não discuto todas as possibilidades e assuntos que podem ser trabalhados
na sala de aula. Temáticas importantes como a política de Israel no controle da água potável e
a economia do território da Faixa de Gaza limitada por Israel, também podem ser
desenvolvidas tomando como base a obra de Sacco.

       Segue-se nas próximas páginas o conteúdo trabalhado e discutido acima, lembrando
que esses estão divididos em seis grupos (A, B, C, D, E, F). Caberá agora ao professor de
Geografia analisá-los e fazer a sua avaliação.
38



Grupo A – Observando o espaço de vivência (páginas 3 e 73).
39
40



Grupo B - Sionismo (páginas 21 e 81).
41
42



Grupo C - Intifada de 1987 (páginas 49 e 50).
43
44



Grupo D - meninos de Gaza (páginas 17 e 55).
45
46



Grupo E - Fronteiras e controle (páginas 22, 77, 78, 100, 129, 130).
47
48
49
50
51
52



Grupo F - Expansão dos assentamentos judaicos (página 110).
53



Capítulo 3

Do geral ao lugar: um caminho a se percorrer no estudo de Geografia

        Novas formas de cartografar o mundo, não apenas pelo método da visão vertical,
implicam também, novas projeções da realidade, por meio de outros modelos de
representação. Questionar o uso da visão vertical como fórmula, senão única, mas primordial
ou preferencial, que possibilite o exame dos fenômenos, não necessariamente significa
dispensar a representação vertical, mas sim, integrá-la a outras projeções, mapeamentos e
cartografias da realidade. Na proposta deste trabalho, uma que valorize a realidade espacial
vivida de indivíduos descartáveis.

        No percurso teórico, até aqui empreendido, que vai da análise mais geral da Geografia,
num âmbito global ou internacional, até a categoria lugar, destaco, insistentemente, que
alcançar a representação de uma realidade, significa, sobretudo, vasculhar todos os
desdobramentos do espaço, em busca de conexões entre fatores do lugar e do grande conjunto
espacial. É claro, que em determinadas representações, o modelo vertical será o bastião
básico, mas em outros, isso não necessariamente ocorrerá. O mais importante, é fazer a leitura
do espaço associando conjuntos espaciais por meio de escalas diversas, e variadas formas de
representação da realidade que conectam o geral ao lugar.

        Abranjo que a primeira leitura de um dado espaço implica o uso da representação
vertical. Contudo, se o objetivo é alcançar um determinado ponto, e atingir a esfera do lugar,
isso indica que se faz necessário avançar através de diversas camadas de entendimento da
realidade socioespacial. Tal manobra conduz a uma releitura do espaço, para que ela seja
condizente com a realidade do espaço de vivência, sua tutela não pode ficar presa a apenas a
uma forma de representação da realidade espacial.

        Numa guerra, a representação vertical é a arma dos generais – seja por meio de um
mapa ou da imagem de um satélite –, dominar essa técnica se mostra um artifício louvável
para a estratégia militar. Realizar uma operação militar cirúrgica, como por exemplo, jogar
uma bomba na cabeça de Saddam Hussein3, em Bagdá, tornou-se algo possível com as novas


3
  Estou me referindo ao tempo em que Saddam era vivo, quando o presidente iraquiano nunca dormia no mesmo
local que tivera passado a noite anterior, pois temia ser alvejado pelo exército norte-americano.
54



tecnologias. No entanto, interferir nesse mesmo espaço, por outros caminhos que não sejam
verticais, se mostra tarefa mais árdua. Avançar sobre terras rugosas é uma atividade que
demanda grande esforço e tempo, estando sempre à mercê de surpresas e armadilhas. A
representação vertical é o alicerce dos moldes estratégicos de se intervir no espaço, porém,
quando se adentra no lugar, logo se percebe que a representação vertical é insuficiente, pois
no nível do lugar, como venho procurando mostrar, a realidade vivencial não é construída
apenas por abstrações verticais.

       Com o viés de compreensão do espaço político em sua integridade, levando em conta
as micropolíticas, instaladas nos lugares, nota-se que o mapeamento vertical não alcança a
complexidade do viver, por isso o viver é amputado das representações. Assim, dês-socializa-
se miniespaços políticos, ao nível do lugar onde se busca uma realidade rugosa e não
aplainada como um papel liso. Nesse nível não se pode empregar apenas os meios de
representação do espaço que usam a visão vertical, pois há necessidade de se alcançar,
também, a descrição da paisagem altamente humanizada, onde os homens estão em ação, por
meio de algo que revele outras dimensões, outras vivências, outra realidade.

       Para atingir esta meta, muito mais complexa do que mapear um dado espaço de forma
tão milimetricamente definida, como o objetivo de jogar uma bomba ou sequestrar Saddam
Hussein, por exemplo, não basta apenas pular do avião e descer em Bagdá. Para a
complexidade de compreensão e representação ensejada, torna-se necessário “fatiar” as
diversas camadas de entendimento da realidade socioespacial, constatando suas conexões
múltiplas em diversos níveis. No nível do lugar, a malha de ações se apresenta muito mais
densa e diversificada, estando essa agarrada a cotidianos, viveres, culturas e etc.

       Quando se alcança o nível do lugar, se vivência a estrutura do meio, se faz parte e
também se sofre as energias do mesmo: assim, modos de vida que pareciam escondidos nas
representações verticais, se revelam a cada momento. Busca-se então, que os conjuntos
espaciais se conectem por meio das miniestruturas do lugar. Essa codificação é que pode
romper o entendimento de realidade espacial como plana, como se fora a superfície de um
papel liso.

       Todavia, as cartografias tradicionais, debruçadas sobre a visão vertical, elaboram uma
representação plana do espaço, em acordo com a escala utilizada. Dessa forma, podem
representar um espaço mais vasto, embora com menor riqueza de detalhes, se a escala
55



utilizada é pequena. Se a escala é grande, a riqueza de detalhes será maior, porém, a extensão
representada será menor. Em meu entendimento, a preocupação de Lacoste (1988) era nivelar
essas disparidades na associação de fenômenos em conjuntos espaciais variados, que
necessitam de escalas variadas para serem representados e articulados a outros conjuntos
espaciais em tais circunstâncias. Por isso, a finalidade de se construir um quebra-cabeça, onde
os conjuntos espaciais se encontram sobrepostos e integrados por suas interseções em diversas
escalas. Daí que se assemelhem a um nó, numa peça de tricô.

       Como se não bastassem às dificuldades de atingir a representação de espaços
diferenciais, outro problema se aloja no nível do lugar: à medida que a representação vertical
se aprofunda em sua descrição, se apresentam mais obstáculos em inserir o homem nesse
mapeamento. Se o espaço ganha formas mais precisas no nível do lugar, concomitantemente
há uma tendência de invisibilização do homem nesta representação.

                            Esquema 1: modelo de representação vertical




       Para ilustrar o raciocínio, valho-me do esquema 1 que consiste num modelo de
representação vertical das cartografias clássicas. Nele estão contidos dois modelos simbólicos
de determinado espaço: o quadro interior esboça uma representação em grande escala,
56



enquanto o quadro externo esboça uma representação em pequena escala. Ambos estão
impregnados de objetos espaciais. O primeiro valoriza as formas, o segundo valoriza a
extensão. Cada um deles se torna o mais indicado para uma espécie de ação no espaço: se a
pretensão é de interferir num bairro, o primeiro (o quadro interno) é o ideal, mas se o anseio é
intervir na cidade, o segundo (o quadro externo) é o indicado. Tomando como exemplo o
esquema 1, nota-se que um mesmo conjunto espacial pode receber descrições cartográficas
diferentes e que isso vai depender da escala utilizada, visando determinados fins.

         Mas como Lacoste (1988) demonstra4, que é possível achar a interseção entre
conjuntos espaciais de diferentes ordens de grandeza, para agir estrategicamente no espaço.
Para explicar isso, ele se vale de um exemplo da Guerra do Vietnã (anos de 1965, 1966, 1967
e 1972) quando o exército estadunidense orquestrou um plano de destruição de diques naquele
país, com o objetivo de inundar as planícies densamente povoadas do Vietnã nos períodos de
cheia. Assim, o bombardeio era dirigido a pontos estratégicos, buscando causar o máximo de
estrago. Mesmo o conjunto espacial do homem estando presente nesta representação, note que
ele permanece no nível da visão vertical, sendo mais legível a presença do homem, na
representação espacial em pequena escala, e decaindo de representatividade à medida que se
atinge a grande escala. Isso é notável, pois a população das planícies vietnamitas, naquele
tempo, era em torno de 15 milhões, ocupando uma extensão relevante, mas ali também o
espaço era a forma no objetivo, e, no nível do lugar, o prejuízo econômico e a matança era o
objetivo: o homem, meta a ser atingida na manobra ofensiva, era apenas um elemento
espacial, continuava não representado.

        Constata-se que a cartografia clássica estabelece relações entre conjuntos espaciais
apenas no nível da representação vertical, seja ela em menor ou em maior escala. Fica assim
inibida de atuar com outras representações, permanecendo entrincheirada numa adequação da
realidade que não experimenta outros caminhos de interpretação do espaço além da descrição
da visão vertical, não fornecendo, portanto, outros modos de se ler e de se intervir no mundo.




4
  O método dos “quebra-cabeças”: Lacoste estabeleceu sete ordens de grandeza e diferentes níveis de análise
espacial, as quais, neste trabalho, se reduzem aos dois extremos da hierarquia com elas montada, ou seja,
pequena escala e grande escala ou grande ordem e pequena ordem. Saliento que essa noção é relativa, como, por
exemplo, no esquema 1, onde a pequena escala é o quadro externo e a grande escala é o quadro interno. Ambas
não circundam os extremos da hierarquia das sete ordens de grandeza estabelecidas por Lacoste, mas, neste
trabalho, essa adaptação é constante e necessária para os objetivos traçados.
57



          Como discutido anteriormente, superar as imperícias de representar os miniespaços,
que são os lugares, não é tarefa fácil. No entanto, tais dificuldades podem ser minimizadas a
partir de trabalhos gráficos como o de Sacco, que buscam representar os indivíduos que são
dominados e afligidos pela representação vertical de determinados centros de poder, através
de um corte na tela dos atores hegemônicos do poder, criando uma espécie de vácuo de saída
para outra cartografia da realidade, que se mostre mais significativa para com a realidade
social.

          Neste trabalho, a questão palestina pode representar bem a situação de um lugar. Os
palestinos são uma particularidade, cujas forças do entorno territorial tendem a suprimir do
mapa, por diversas razões, dentre as quais questões políticas, econômicas, culturais
envolvendo as relações de poder sobre o território. Entretanto, sua existência e presença, os
fazem ser parte do universo espacial, estando, contudo, cartograficamente, apenas no nível do
que denomino de segunda linha de realidade, isto é, numa representação elitista, construída
pelos atores hegemônicos do poder em escala mundial, onde se tornam invisíveis no seu
cotidiano, só adquirindo representação como foco de tensão. Cartografar as pessoas e não
apenas o conjunto espacial de Gaza, pode significar imprimir-lhes visibilidade no cenário
mundial, problematizando sua situação, mesmo à custa de avaliações diversificadas. Resumi-
los a um ponto no grande conjunto espacial, por outro lado, possibilita maquiar realidades,
projetando esse povo apenas por meio de concepções estereotipadas e forjadas por grupos
hegemônicos do poder.

          Desobstruir essa visão induz romper o gargalo dos modelos de representação vertical,
que não inserem as particularidades em sua cartografia, tal limite se encontra no nível da
menor representação possível num mapa tradicional, algo em torno de aproximadamente de
alguns metros. Quando a profundidade de observação do espaço gira em torno de um espaço
tão pequeno, se faz necessário reverter às projeções, pois nesse nível, apesar do espaço ter
adquirido melhor forma, ele deixou de fazer relação entre os conjuntos espaciais (incluindo o
homem), sendo no máximo descritos alguns objetos desse espaço. Tal alienação do que se
vislumbra como real, só pode propor multirrepresentatividades orientadas em diversos níveis.

          Essa é a locação onde o mapa-paisagístico se insere. Estando claro isso, um esquema
generalista, que represente o percurso do geral ao lugar, pode ajudar a compreender a árdua
tarefa que se deseja alcançar. Também ajuda a visualizar as permutas realizadas entre os
níveis de compreensão da realidade espacial. No esquema abaixo, é possível verificar que um
58



lugar, numa representação vertical, fica resumido a um ponto, seja em pequena escala ou em
grande escala. Mesmo quando se utiliza uma grande escala para acentuar a descrição do
espaço, ele continuará sendo um ponto, só que agora maior, mas ainda assim um ponto numa
representação plana. Isso ocorre porque não se inverteu a maneira de ler o mundo, apenas se
variou de escala.

                      Esquema 2: quadro geral do percurso do geral ao lugar




       Por isso, se faz necessário, compreender que as práticas desenvolvidas num lugar,
como na Faixa de Gaza, são ações humanas, carregadas de significados, que se instalam em
determinadas geometrias estruturais, dando uma configuração particular ao lugar (a
morfologia espacial). Pela incorporação do quadro de vivência na análise da carta
59



conformasse um rompimento da representação simplista, alheia ao conjunto de relações,
constituindo o que se denomina neste trabalho de fissuras da representação espacial
tradicional, que corresponde mais precisamente a uma leitura de maior profundidade da
realidade socioespacial. Superando a visão extremamente banalizada de uma “zona de tensão”
como polígono hachurado no mapa. Tais fissuras são decorrentes da transplantação de
cenários que compõem a realidade em movimento sobre as representações hegemônicas.
Dessa forma, tomando o caso da Faixa de Gaza, são fissuras na representação banal, e que no
método elaborado neste trabalho, primou pela introdução da vida cotidiana dos palestinos no
nível da representação cartográfica.

       A Faixa de Gaza como compartimento catalisador de energia humana, permite o mais
fácil desenvolvimento de fissuras da representação espacial tradicional, onde fluem, no
sentido de uma revindicação ou luta de uma causa de identidade de um grupo que habita o
lugar. Ao adquirirem corpo e potência, superam a primeira linha da realidade de seu espaço de
vivência oculto, onde se encontram suprimidos pelas cartografias dominantes. Nessa
cavalgada, ao emergirem para a segunda linha da realidade, entram em conflito com a
estrutura do status quo.

       Para postular sobre esse entendimento, é necessário ressaltar, que os quebra-cabeças,
sejam os maiores ou os pequeninos, existem em decorrência de recortes espaciais e temporais
mais profundos, que são depósitos de volumes de intensidade de ação de diversos fenômenos
na superfície terrestre. A realidade espacial, não é construída apenas pela associação de
fenômenos em suas linhas de ocorrência verticais, horizontais, ou mesmo, multiorientadas,
mas, também, pelo peso de fusão e de atuação de tais fenômenos, onde o homem interage
ativamente. De fato, existe um peso dos conjuntos espaciais e temporais agindo sobre a
superfície terrestre, onde o homem também age modelando esses espaços.

       Achar a interseção entre alguns conjuntos espaciais em determinada escala e atingir o
nível do lugar, implica relacionar essa construção a volumes de intensidade agindo na
superfície terrestre, mesmo quando se consegue descrever o lugar. Tal descrição deve se ater,
também, ao peso das energias que agem e modelam o lugar em ressonância com o espaço.
Dessa maneira, quando se encontra a interseção entre alguns conjuntos espaciais – sejam eles
clima tropical, vegetação de mata atlântica, relevo acidentado de mares e morros, hidrografia
de rios volumosos e caudalosos, economia predominantemente agrícola, etc. – busca-se
entender, o peso desses fenômenos agindo sobre o recorte espacial e temporal, indo desde o
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geral ao local, pairando sobre o lugar – se faz necessário entendê-lo por meio de múltiplas
representações.

       Num conjunto espacial, onde atua o clima tropical, por exemplo, este tipo climático
não vai ter uma ação homogênea no espaço delimitado por sua atuação, mesmo estando sua
ação espacial presa a certas leis, mais ou menos gerais, numa generalização. Ainda assim,
existem linhas de fuga, que incluem as particularidades locais. Apresentando então, estações
de seca e chuva, cujos, volumes de intensidades agem temporalmente e espacialmente de
formas diferenciadas, além de agirem localmente diferenciadas, produzem fenômenos que
repercutem em frases tais como: “em meu bairro não choveu”. Do mesmo modo, também, é
ação do homem no espaço, diferenciada por estar em interação com esses e os outros
elementos da interseção espacial. Tais pesos de intensidade, dos volumes depositados na
superfície   terrestre,   geram   trabalho   entre   a   natureza+homem,    natureza+natureza,
homem+homem..., e assim sucessivamente, sendo que nessa interação, nessa comunhão entre
elementos é que se formam as paisagens com significados para o homem.

       As fissuras da representação espacial tradicional que estamos trabalhando, buscam
inserir nas representações o cotidiano da vida e relações de poder que permeiam a sociedade.
A vivência ao ascender e atingir o nível da segunda linha da realidade, a linha de uma
representação lisa da realidade. Infiltra-se num ideal travestido do lugar, que ganha forma
espraiada no espaço, de uma causa comum ao lugar, como, por exemplo, o movimento
nacionalista dos palestinos.

       Essas fissuras são representativas da teia de relações na dimensão do lugar, que estão
sempre se deslocando e ganhando corpo. Como os homens não são estáticos no espaço, seu
deslocamento no lugar também deposita nele volumes de intensidade. Isso me permite afirmar
que quanto maior o contraste entre o representado e o vivido no espaço, maior a condição de
inserir o cotidiano e a estrutura de poder na representação cartográfica.

       O esquema 3 esboça o processo pelo qual se insere na representação cartográfica
situações do vivido, ou seja, da própria realidade como ela é, envolvida por antagonismos e
conflitos. Embora, o esquema ainda seja superficial e incompleto, ajuda a ilustrar melhor o
raciocínio desenvolvido neste estudo. Suscintamente, o retângulo superior diz respeito à
segunda linha da realidade, isto é, a representação que se faz, geralmente, banalizada, da
realidade. Já a primeira linha da realidade corresponde ao retângulo inferior, ou a própria
61



vivência e realidade do lugar. O retângulo inferior, o que ilustra a primeira linha da realidade,
constitui uma espécie de mosaico político, cultural e social. Ele, ao contrário das
representações tradicionais, não pode ser entendido como algo liso, no sentido que esta última
não abarca apenas o espaço e seus objetos imóveis, mas também, o cotidiano.

               Esquema 3: contato entre a 1º linha da realidade e 2º linha da realidade




       A questão do papel do lugar na organização espaço, e, sobretudo, como ponto de
encontro entre o geral o local, age como pino de explicação do complexo geo-histórico,
ganhando mais sentido, se o raciocínio caminha por essa linha. Por isso mesmo, a questão
envolvendo os miniespaços, ou melhor, os lugares, são tão importantes como ação política.
Como exemplo, o genocídio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial, conceituado
como holocausto, só foi descoberto nos campos de concentração nazistas, ao nível de lugar.

       Para Certeau (2008) os percursos dos relatos organizam lugares numa ordem espacial.
Seu raciocínio segue paralelo ao desse trabalho, quando afirma: “[...] os relatos [...]
atravessam e organizam lugares; eles os selecionam e os reúnem num só conjunto; deles
fazem frases e itinerários. São percursos de espaços” (CERTEAU, 2008, p. 199). Tomando
esse aporte de Certeau, isso poderia ser postulado a esse trabalho como o discurso
hegemônico dos atores dirigentes organizando lugares em escala mundial, no qual pretendem
construir um grande espaço ordenado por um lócus de poder, isso é, um lugar.
62



       Por isso não é possível abarcar toda a explicação de algum fato, por meio apenas de
representações verticais de um espaço, mesmo quando realizadas através da sobreposição de
vários conjuntos espaciais. Ainda que essa construção estabeleça conectividade entre os
conjuntos espaciais da ordem de grandeza do continente europeu até a ordem de grandeza
suficientemente pequena para atingir Auschwitz, e mesmo que essa relação entre os
fenômenos dos conjuntos espaciais fosse construída por uso de associação de escalas variadas
e adequadas, parece estar faltando algo. A vivência desses indivíduos no lugar, num tempo
específico do lugar, em interação com a cadeia de geometrias espaciais do lugar, não implica
em nada.

       Foi quando se atingiu o nível do lugar, com sua configuração espacial específica e
também com suas práticas de vivência exclusivas, que os judeus superaram a condição de
indivíduos descartáveis, superando um espaço ordenado por uma lógica de poder. Deste
modo, se espraiaram pelos conjuntos espaciais produzindo uma “quase” totalidade espacial,
acentuada pela colocação do povo judeu como vítima do nazismo durante a Segunda Guerra
Mundial.

       Dito de outra forma, a realidade não é invertida: os judeus não saem da posição de
vilões a mocinhos, ela é apenas descoberta, o que gera um ordenamento num sentido
semelhante aos dos relatos de Certeau (2008). Quantas Auschwitz não esperam serem
descobertas também? Pergunto-me se serão criados novos conceitos para se referir ao
massacre de outros povos, sejam eles palestinos, iraquianos, ou outros. Parece, portanto,
existir um lugar aqui, ali, em todo lugar, existe um lugar em mim e em você. Assim, quando a
realidade for apresentada de maneira espraiada como lócus político de um único lugar, é
preciso suspeitar.

       Não é possível, pensar a realidade espacial, mesmo no sentido amplo desse trabalho,
como se ela fosse um papel liso: é preciso pensar em diversos lugares. É preciso pensar o
lugar como se fosse uma bolinha de papel amassada. Pode-se sempre amassá-la e depois
desdobrá-la, porém, sua forma nunca será a mesma após a ação. Quando se desdobra a
folhinha de papel, é preciso notar que o tipo de papel será o mesmo de antes da ação, as
palavras escritas também permanecem nele, mas a folha estará diferente: ela ganhou algumas
rugas, tornando-se mais viscosa. Do mesmo modo, também é o espaço-lugar onde o homem
habita e ao qual confere sentido.
63



Capítulo 4

Exercitando o raciocínio geográfico: uma pequena amostragem para
reflexão

       Neste ponto da pesquisa, pode se afirmar, que a perspectiva de Geografia crítica,
adotada e desenvolvida neste trabalho, se alojou numa determinada cavidade de criticidade;
numa incessante perseguição da busca de uma nova leitura do espaço e de seus ambientes,
com uma espécie de cartografia das geometrias dos lugares, que ganha significado nos
espaços de vivência.

       Como estandarte desse viés, a cartografia dos que são dominados, se apresenta como
uma projeção de uma realidade socioespacial que se pretende emancipatória. A abordagem
desenvolvida neste trabalho permite explorar outras percepções e ir ao encontro de uma
fórmula menos reducionista de representação da realidade espacial vivida, o cálculo não é de
subtração, é de multiplicação, carregado de estética. Assim, a maior dificuldade dessa
premissa se encontra nas cartografias verticais dos atores hegemônicos: transpor esse
obstáculo, provém em tornar a representação mais condizente e próxima da realidade
socioespacial.

       Além disso, atingir o nível do lugar e desbravar suas potencialidades se mostra uma
vertente rica em novas descobertas. A Geografia Escolar pode ter um papel neste rumo, na
qual

                       [...] deve ser trabalhada de forma a instrumentalizar os alunos para lidarem com a
                       espacialidade e com suas múltiplas aproximações: eles devem saber operar o espaço!
                       Tal postura procura dar conta da compreensão de vida social refletida sobre os
                       diferentes sujeitos, agentes responsáveis pelas (trans)formações. Com isso, parece
                       ficar mais fácil para o sujeito reconhecer as contradições e os conflitos sociais e
                       avaliar constantemente as formas de apropriação e de organização estabelecidas
                       pelos grupos sociais e, quando desejar, buscar mecanismos de intervenção
                       (CASTRIOGIOVANNI, 2007, p. 43).

       Com esse propósito, deve se estimular o exercício do raciocínio geográfico reflexivo,
com um aporte pelo professor de Geografia, que coloca em pauta, o objetivo de buscar um
raciocínio geográfico por parte dos alunos. Não é o caso do professor de Geografia elaborar
um sistema fechado que fermente o raciocínio crítico. Estaria incorrendo num erro, se esse
fosse o foco. Ao contrário, acredita-se sim, na importância de se instrumentalizar a construção
de um raciocínio crítico. Para isso, o professor pode elaborar uma proposta que conduza e
64



propicie o desenvolvimento da análise, seguindo até mesmo um determinado caminho,
entretanto, sem cair em barreiras que fechem fronteiras.

       Tendo essa preliminar, um dos papéis de contribuição da Geografia Escolar,

                       [...] reside na identificação e caracterização das constelações de regulação, isto é,
                       dos múltiplos lugares de opressão nas sociedades capitalistas e das interligações
                       entre eles. Além disso, propõe a „invenção de novos sentidos que resultem destas
                       constelações‟, pois elas „são sementes de novos sensos comuns [sic] (SANTOS apud
                       CHAIGAR, 2007, p. 79).

       Daí, a escolha do lugar “Faixa de Gaza” (local em estado de tensão e conflito
permanente), na elaboração desse projeto de cartografia, que busca representar os que são
dominados. Com a natureza do trabalho de Sacco (2003), articulado ao raciocino geográfico
de Lacoste (1988), proponho uma cartografia do indivíduo. Busco uma cartografia mais rica e
menos reducionista, que permita descrever pequenos espaços, onde habitam indivíduos
descartados pelas representações disseminadas por grupos dominantes. Trabalho na
perspectiva de produzir uma alternativa numa cartografia de representação das geometrias
espaciais do lugar, altamente politizadas em um ambiente de vivência. O objetivo do mapa-
paisagístico é inserir esses indivíduos no mapa, para que eles sejam representados e
identificados, possibilitando assim, uma reflexão crítica da realidade espacial vivida, que
caminhe em direção à formação de um senso comum mais humano e politizado.

       Para tanto, é preciso investir e considerar uma dada

                       [...] sociedade midiática da qual a imagem é parte fundamental, ver algo significa,
                       um pouco, a legitimação de sua existência. É nesse sentido que compreendo como
                       importante conferir visibilidade [...] aos movimentos sociais de cunho emancipatório
                       articulados nos espaços vividos. Afinal, aos olhos e ouvidos acostumados ao „deu na
                       TV‟, o que não é visto não é lembrado, como diz aliás um ditado bastante antigo e
                       popular (CHAIGAR, 2007, p. 82).

       Uma vez que se realiza a cartografia desses indivíduos, em seu espaço de vivência,
eles deixam o estado de seres inanimados, como por exemplo, nos índices de população nos
mapas que apresentam o homem em forma numeral, ou como, nos mapas que demonstram o
Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Faixa de Gaza. Como se o palestinos
estivessem vivendo uma condição natural de suas pobres vidas, como simples objetos, num
lugar fechado em determinada posição do Oriente Médio, próprio ao sofrimento dos
palestinos.
65



       Como pode se notar, os problemas geopolíticos envolvendo os palestinos mudam
quando as escalas se alteram. Os fenômenos já não são os mesmos na variação de escala. Isso
tudo, porque a forma do espaço também se altera na representação, adquirindo outra natureza.
Um mapa vertical da Palestina pode demonstrar a perda de território do povo palestino, mas
um retrato de uma viela na Faixa de Gaza revela um desastre humanitário ou genocídio. A
reunião de alguns elementos do conflito geopolítico, envolvendo israelenses e palestinos,
pode ser descrita como uma prática de destruição do espaço habitável dos palestinos, uma
incessante tentativa de desterritorialização (HAESBAERT, 2007) desse povo.

       Portanto, explorar uma prática de ensino Geografia tomando o rumo deste trabalho,
não é tarefa fácil. O meu desafio e objetivo é uma prática de ensino de Geografia voltada para
uma construção de um raciocínio geográfico, que possibilite estabelecer uma ordem, entre os
conjuntos espaciais, por meio de associação de escalas diversas. Seguindo uma linha de
raciocínio relativamente simples, resumida, mas impregnado de teor de julgamento crítico,
invisto nesse trabalho, que entendo mais adequado para o 3º ano do Ensino Médio,
considerando também, o reduzido tempo que tinha para realizar a prática em sala de aula.

       Apesar da prática ter sido realizada em um ambiente escolar, em uma escola do
sistema de ensino público do município de Vitória-ES, penso que resumir a aplicação desse
estudo como viável a apenas em um único lugar, é desconstruir os alicerces dessa proposta. A
prática de se pensar o espaço não se aloja em um grupo específico (estudantes), tampouco em
um lugar próprio (a escola), mesmo que esse seja o lócus principal dos campos de lutas da
Geografia Escolar. Afinal, pensar assim seria descartar as particularidades da proposta e
conduzir o escopo desse trabalho a uma visão vertical, tendo a escola como o único lócus de
se aprender e os alunos como grupo fechado e depósito de informações desse lugar. Desejo
também, que outras possibilidades permitam a socialização e a vivência do que nele
proponho, tal como livros, artigos, programas educativos em diferentes mídias.

       Então, o que proponho na sequência desse trabalho, é apenas uma amostragem de
como se trabalhar o raciocínio geográfico do ponto de vista adotado nesse estudo. Com esse
propósito, saliento que estabeleci alguns contornos na formulação da prática em sala de aula,
visando atender o público desejado.
66



       Em todo caso, focalizei a elaboração da prática em sala de aula, tomando o corpo da
pesquisa como meu baluarte, visando à experimentação de uma proposta didático-pedagógica
da aplicação do mapa-paisagístico.

       A prática em sala de aula se realizou na EEEFM Almirante Barroso, localizada em
Goiabeiras, município de Vitória, no dia 6 de maio. A escolha desse estabelecimento não esta
isenta de intencionalidade. Além dessa escola possuir o público desejável (alunos do Ensino
Médio, no caso o 3º ano) e estrutura necessária para a realização da atividade, esse
estabelecimento apresenta histórico de abertura a pesquisadores docentes e de aplicação das
propostas das pesquisas.

       O exercício em sala de aula foi dividido em três momentos: no primeiro momento da
aula, para inserir os alunos no contexto do conteúdo trabalhado, desenvolvi uma breve aula
expositiva, onde construí uma linha do tempo, contendo os fatos mais relevantes do conflito
entre israelenses e palestinos. Sendo uma temática praticamente semanal nos telejornais, parti
do pressuposto que os alunos detinham algumas informações mínimas sobre o conteúdo, o
que contribuiria nessa fase do trabalho. Contudo, a compreensão do problema, como um
estudo de assuntos políticos, se mostrou delicada. Os alunos apresentaram baixo nível de
informação, não apenas porque a professora não havia trabalhado, até aquele momento, o
assunto de conflitos geopolíticos, mas também, porque parece que o público jovem (assim
como a população em geral) encontra dificuldades de se identificar com o outro cidadão em
situação de conflito dessa natureza, dificultando então, o desenvolvimento de análises de
relações de poder no espaço.

       No segundo momento da aula, fiz uso do retroprojetor, para apresentar aos alunos uma
sequência de cinco mapas em transparência colorida, que recortei do site da National
Geographic Magazine.
67



                                         Mapas trabalhados em aula




Fonte: National Geographic Magazine (2010).


        Por meio desses mapas, instiguei o raciocínio dos alunos e trabalhei com eles as
representações dos conjuntos espaciais possíveis no uso de uma determinada escala. Dessa
forma, a relação entre as escalas utilizadas para representar determinado(s) conjunto(s)
espacial(is), foi salientada por mim, e também desenvolvida pelos próprios alunos.
Encaminhei a análise das representações, indo da pequena escala, isto é, a do mapa-múndi, até
a grande escala do mapa que corresponde a um recorte espacial da Faixa de Gaza.

        Destaquei que as grandes extensões do espaço são representadas por pequenas escalas,
onde é possível representar um espaço maior, mas com menor riqueza de detalhes. Por sua
vez, se o objetivo é representar uma pequena extensão, se utiliza uma grande escala, que
possibilita a descrição do espaço mais detalhado. No primeiro mapa, se verificam grandes
conjuntos espaciais, da ordem dos continentes, oceanos e maiores países, inseridos no grande
68



conjunto espacial do planeta Terra. Salientei que eles são representados devido ao uso de
determinada escala, que é pequena, na qual é possível representar grandes extensões
abarcando esses conjuntos espaciais.

       No segundo mapa, que realçava o Oriente Médio, mostrei-lhes um novo recorte
espacial, menor em extensão espacial, porém, com mais detalhes. Nessa representação, novos
conjuntos espaciais transbordam no uso de uma escala maior.

       E no terceiro mapa, que destaca os territórios da Palestina e Israel, outro recorte,
também menor e com mais riqueza de detalhes, diferentes conjuntos espaciais aparecem
inseridos dentro de outros conjuntos espaciais. Chamei a atenção deles, para observarem que
no terceiro mapa existe uma mancha esverdeada. Um novo conjunto espacial surge quando se
aumenta a escala, mas sua forma não é precisamente delimitada ainda. O uso da escala não
permite que ela (a mancha) se apresente claramente, falta riqueza de detalhes na representação
desse conjunto, apesar dele ser visível nessa escala.

       Nesse mesmo sentido, no quarto mapa, onde seguimos o caminho de aprofundamento,
estamos na fronteira da Faixa de Gaza com Israel. Ali se notam novos conjuntos espaciais, de
ordem menor, inseridos dentro de outros conjuntos espaciais. A mancha esverdeada do mapa
anterior ganhou mais detalhes e diversidade, onde se notam mais conjuntos espaciais inseridos
nele. Aquela mancha esverdeada ganha mais forma e se percebe que são campos de
agricultura. Já do lado da Faixa de Gaza. Os conjuntos ainda são pequeninos, não
possibilitando sua identificação. No último mapa, a grande escala utilizada no recorte
espacial, possibilita a identificação dos pequeninos conjuntos espaciais de uma porção do
território da Faixa de Gaza. Assim, estando à representação mais detalhada, avalia-se pelas
características dos objetos representados, que esse espaço é predominantemente urbano.
Como é possível avaliar nessa construção escalar, o uso das escalas propicia a representação
vertical de determinados conjuntos espaciais revelando certa realidade do espaço, através da
descrição da superfície terrestre.

       Neste ponto, problematizei com os alunos, se essa representação vertical seria
suficiente para descrever a realidade espacial (em sentido amplo e geral), caso continuasse a
me aprofundar-me na representação. A resposta foi “sim”, mas indaguei sobre o homem, ele
vai ser representado nesse modelo vertical? Então, para responder a pergunta e colocar o
69



homem em representação no seu espaço de vivência, estando ele num pequenino recorte
espacial, lancei mão do trabalho de Sacco (2003).

       Selecionei cinco páginas do trabalho de Sacco (2003, p. 3, 21, 50,78, 81), e distribui
uma para cada dupla (a turma era de 10 alunos em sala). Após conceder um tempo para que os
alunos analisassem as imagens e buscassem uma problematização dessa cartografia, expliquei
o viés do meu estudo, qual seja apresentar uma “nova cartografia” de determinados indivíduos
por meio das HQs.

       Salientei que, nessa representação, o homem está presente, apesar deles já terem
notado isso no primeiro momento, pois segundo um dos alunos essa representação descreve o
homem e o espaço mais detalhadamente. E eu endossei, porque ela é multirrepresentativa, não
estando presa à representação vertical, possibilitando descrever o espaço de vivência onde o
homem esta incluído na representação, revelando assim, uma malha de vivências num
cotidiano de conflito, onde as ações não são descartadas na representação, mas permanecem
em certa medida submetidas a pequenas e grandes estruturas de diversos conjuntos espaciais.

       Cabe também ressaltar, que a minha preocupação, na prática, foi destacar uma relação
causal na construção de um raciocínio capaz de ajudar os alunos a se situaram nos conjuntos
espaciais que eles percorrem todos os dias. Se enxergar o homem nos miniespaços foi tarefa
fácil com auxílio do mapa-paisagístico, analisar as relações de poder dos mesmos careceu de
criticidade. Pode se reportar a essa falta de olhar sobre as ações, ao ensino de Geografia
despolitizado que Lacoste (1988) enfoca, do qual ressalvei, no capítulo 1, algumas das
principais implicações de um olhar acrítico e das necessidades e cuidados para formação do
olhar crítico e politizado.

       Ao que parece, existe uma dificuldade dos alunos identificarem as relações de poder
no espaço. A Geografia Escolar parece ter contribuído pouco na formação de um cidadão
capaz de intervir no seu meio. Porém, não se deve perder as esperanças no didatismo crítico:
essa dificuldade só acentua a necessidade de endossar propostas comprometidas com esse
enfoque, dentre as quais incluo-a nessa pesquisa.

       Uma das dificuldades e fragilidades deste trabalho foi o curto tempo de aplicação e
única aplicação. Ainda assim, partindo do princípio de que estudos desse caráter podem e
70



devem ser feitos de maneira inicial e continuada, em busca de se desenvolver um olhar crítico
cotidiano.

       No todo, está foi a prática realizada em sala de aula. Não vou dizer até onde os alunos
entenderam a mensagem, seria muita ousadia entrar nas cabeças deles, e porque também,
entendo que cada sujeito aprende em tempos diferentes. Mas para posicionar, o meu ponto de
vista como sujeito (professor), acredito que o resultado foi satisfatório, tomando como
referência o diálogo desenvolvido com os alunos durante a prática. Portanto, a mensagem que
fica, é que vale a pena trabalhar em sala de aula com outras vertentes que não apenas o estudo
com mapas.

       Enfim, para desenvolver essa prática, ou alguma de porte semelhante, que articule
agenciamentos, que buscam a projeção de uma realidade indivíduo-espaço menos
reducionista, é preciso estimular o raciocínio crítico reflexivo dos sensos comuns cristalizados
por anos de estudo com uma Geografia acrítica e essencialmente enciclopédica. É de suma
importância que o professor de Geografia, articule e realize relações entre os conjuntos
espaciais representados em escalas variadas, revelando conjuntos espaciais, contextualizando-
os à medida que a escala se altera. No nível do lugar, tal raciocínio também pode e deve ser
adotado no mapa-paisagístico, tomando multiorientações.
71



Considerações finais

       As representações espaciais devem ser tomadas como um arranjo, não apenas através
da construção vertical de conjuntos espaciais sobrepostos, que refletem uma única natureza
espraiada, mas também, numa construção de uma representação da realidade espacial mais
rica em sua diversidade. Onde é possível dar foco a acurados estágios de socialização,
interligados a construção de territórios no plano do lugar. É o que proponho por meio do
mapa-paisagístico, que descreve os viveres de indivíduos descartados pelas cartografias
tradicionais.

       A alçada dessa proposta circunda uma zona trivial para projeção do espaço de vivência
menos reducionista. Essa zona consiste na articulação de uma tríade: conjuntos espaciais -
territórios - geometrias. Os conjuntos espaciais são aqueles que vão determinar a escala de uso
na representação; os territórios são os agenciamentos realizados num sentido de posse (em
sentido amplo) nos conjuntos espaciais e seus atributos e as geometrias são as formas que
ganham significados na territorialização.

       Estes três elementos em estado de entroncamento vão possibilitar a projeção do
homem no espaço, pois todo conjunto espacial, para ser representado, demanda o uso de uma
escala adequada. Ao se fazer isso, pode se identificar as formas espaciais desse conjunto, e, se
for o caso, fazendo-se o uso do mapa-paisagístico, identificando territórios não agregados à
Geografia clássica dos mapas verticais. Igualmente, é preciso se ater às geometrias que
provém dos agenciamentos resultantes da construção territorial do contato dos homens com as
formas espaciais. Isso é algo que constrói fronteiras, numa espécie de geometria maleável ou
em dobra, mas que nem sempre são notadas por causa de suas aspirações flutuantes.

                        Jamais nos desterritorializamos sozinhos, mas no mínimo com dois termos: mão-
                        objeto de uso, boca-seio, rosto-paisagem. E cada um dos dois termos se
                        reterritorializa sobre o outro. De forma que não se deve confundir a
                        reterritorialização com o retorno a uma territorialidade primitiva ou mais antiga: ela
                        implica necessariamente um conjunto de artifícios pelos quais um elemento, ele
                        mesmo desterritorializado, serve de territorialidade nova ao outro que também
                        perdeu a sua. Daí todo um sistema de reterriorializações horizontais e
                        complementares, entre a mão e a ferramenta, a boca e o seio (DELEUZE e
                        GUATARRI, apud HAESBAERT, 2007, p. 128).

       Afinal, a criança se territorializa no seio da mãe, numa geometria especifica que ganha
um significado, o que também faz parte de um conjunto espacial (os corpos da criança e da
mãe num local, um sofá, por exemplo), ou quando escrevo num papel, no qual também existe
72



uma territorialidade oriunda de um agenciamento que envolve um conjunto espacial. Não
escrevo em qualquer lugar, mas numa sala que é um pequeno conjunto espacial, que tem uma
mesa onde me debruço e faço uso de alguns objetos, como: lápis, borracha, folha etc. Quando
pego o lápis realizo uma agenciamento, o movimento de fechar dos dedos envolve o objeto ao
espaço da palma de minha mão, o espaço se dobra para envolver o lápis, ocorrendo uma
territorialização.

        O feliz exemplo do surfista de Deleuze (1988) ilustra muito bem essa situação.
“Estamos sempre nos insinuando nas dobras da natureza. Para nós, a natureza é um conjunto
de dobras móveis. Nós nos insinuamos na dobra da onda, é esta nossa tarefa. Habitar a dobra
da onda [...]” (DELEUZE, 1988). Para Deleuze, o surfista constrói uma territorialidade na
onda do mar, quando ele a habita, lhe acrescenta um significado que envolve a articulação de
alguns elementos (homem, prancha, onda etc.) num espaço maleável que se dobra.

        Portando, se as territorialidades ganham importância na explicação do cotidiano, é
porque, “[...] toda desterritorialização [destruição de territórios ou saída de um território] é
acompanhada de uma reterritorialização [...]” (HAESBAERT, 2007, p. 131), isto é, a
construção de um novo território ou a entrada num novo território na situação de pertencente a
este. Dentre os tipos de desterritorialização, uma importante, é

                        a desterritorialização absoluta [que] refere-se ao pensamento, à criação. Para
                        Deleuze e Guatarri, o pensamento se faz no processo de desterritorialização. Pensar
                        é desterritorializar. Isto quer dizer que o pensamento só é possível na criação, e para
                        se criar algo novo é necessário romper com o território existente, criando outro.
                        Desta forma, da mesma maneira que os agenciamentos funcionavam como
                        elementos constitutivos do território, eles também vão operar uma
                        desterritorialização. Novos agenciamentos são necessários. Novos encontros, novas
                        funções, novos arranjos. No entanto, a desterritorialização do pensamento, tal como
                        a desterritorialização, é sempre acompanhada por uma reterritorialização [...]. Esta
                        reterritorialização é a obra criada, é o novo conceito, é a canção pronta, o quadro
                        finalizado (HAESBAERT, 2007, p. 131).

        Então, pode-se afirma que realizei uma desterritorialização e uma nova
reterritorialização com a conclusão desse trabalho. Fiz agenciamentos com o que aprendi com
Lacoste (1988) e com Sacco (2003), donde retirei pressupostos e elaborei ideias, que
resultaram no mapa-paisagístico, instrumento que me possibilita atravessar fronteiras e
enxergar o outro, numa ousadia que me atrevo a compartilhar, propor, expor, socializar.

        No entanto, tal construção emana de um desejo no sentido que Deleuze (1988) coloca.
Ao se desejar algo,
73



                         só se pode desejar em um conjunto. Então, sempre se deseja um todo [...] Proust
                         disse, e é bonito em Proust: não desejo uma mulher, desejo também uma paisagem
                         que posso não conhecer, que pressinto enquanto não tiver desenrolado a paisagem
                         que a envolve, não ficarei contente, ou seja, meu desejo não terminará, ficará
                         insatisfeito. Aqui considero um conjunto com dois termos, mulher, paisagem, mas é
                         algo bem diferente. Quando uma mulher diz: desejo um vestido, [...] é evidente que
                         não deseja tal vestido em abstrato. Ela o deseja em um contexto de vida dela, que ela
                         vai organizar o desejo em relação com, não apenas uma paisagem, mas com pessoas
                         que são suas amigas, ou não são suas amigas, com sua profissão, etc. Nunca desejo
                         algo sozinho, desejo bem mais, também não desejo um conjunto, desejo em um
                         conjunto [...] (DELEUZE, 1988).

       Essa noção de desejo também pode ser empregada na cartografia, ao se fazer um
mapeamento: não se deve desejar apenas representar a superfície terrestre, mas em conjunto
as sociedades, a vida. Se a cartografia tem por finalidade representar uma dada realidade
espacial, deveria se buscar a descrição quase total, aquela que inclui os homens, espaços de
vivências, territórios, objetos espaciais, significados, etc.

       Parece-me ser isto uma questão de se territorializar o olhar: quando Deleuze (1988)
fala, a respeito da arte barroca, que essa se constitui de dobras sobre dobras, eu trago a
questão para a arte clássica, uma estátua, por exemplo, desse movimento artístico. É
normalmente um corpo liso, sem dobras. Contudo, quando o olhar repousa o foco num dado
detalhe, por exemplo, no rosto da estátua, fica claro que essa apresenta dobras, por mais lisa
que seja essa face. Existe uma dobra, que se deposita embaixo das narinas da face da estátua,
não apenas porque o nariz da estátua consiste numa forma acentuada da face, mas porque,
revela um mundo ao dividir o espaço, a vida acontece de “baixo do nariz da estátua”, é tudo
uma questão de territorializar o olhar e encontrar um ponto de fuga, um ângulo.

       Assim, o mapa-paisagístico não deve ser entendido como um ornamento estético do
espaço, mas como, um ângulo de visão que se territorializa em um lugar, e descreve a
realidade socioespacial “em conjunto”. Portanto, a noção de realidade que se buscou alcançar
nesse trabalho, advém de uma territorialização que descreve os conjuntos em arranjo no plano
do lugar.

       Nesse projeto piloto, coloquei-me defronte à questão dos palestinos, os célebres
indivíduos descartados. Não é exagero dizer: que a Geografia esta entrelaçada com a arte, não
é o mapa uma obra de arte política e ao mesmo tempo conteúdo de uma estética objetiva? Mas
nunca uma alegoria.
74



       A incessante busca é numa espécie de testemunho do espaço, onde se adentra o lugar e
se vislumbra suas estruturas como se fossem de uma célula. Onde existem posições estruturais
e movimentos dentro do corpo fechado, mas que também se comunicam com o mundo
externo.

       Há algum tempo os geógrafos descobriram a obra prima de Lacoste, espero que o
mesmo aconteça com Sacco, na formulação de uma cartografia política de miniespaços. É
claro, que Sacco não descreve todos os lugares do mundo, mas seus trabalhos já realizados
são suficientes como suporte teórico para novas reflexões no campo da Geografia.

       Por fim, esclareço, que ideias, como as de fissuras das representações espaciais
tradicionais e mapa-paisagístico, não devem ser tomados como únicos e acabados, porque
estão em trabalho de maturação e ainda estão sendo forjados pelo martelo do pensamento que
vai ossificar tais posicionamentos. Existe uma querela, onde essas ideias mais se parecem com
uma sala cheia de portas: a cada momento, um ser estranho entra por uma das portas e
conversa comigo, por alguns instantes, e de repente se levanta e sai sem me dizer-me adeus. O
seu rosto, eu não consigo distinguir, mas creio que está tentando me dizer-me algo. Talvez da
próxima vez eu possa ouvi-lo melhor e quem sabe dialogar, por enquanto fico a espreita.
75



REFERÊNCIAS

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CASTROGIOVANNI, Antonio.; KAERCHER, Nestor.; REGO, Nelson. (Org). Geografia:
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médio. Porto Alegre: Artmed, 2007. p. 35-47.

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FUSER, Igor. Geopolítica: o mundo em conflito. São Paulo: Editora Salesiana, 2006.

GOMES, Paulo Cesar da Costa. Geografia e modernidade. 4. ed. Rio de Janeiro: Bertrand
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76



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<http://www.nationalgeographic.com/>. Acesso em: 01 de maio de 2010.

Porque usar

  • 1.
    UNIVERSIDADE FEDERAL DOESPÍRITO SANTO CENTRO DE EDUCAÇÃO DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO, POLÍTICA E SOCIEDADE MÁRCIO JOSÉ MENDONÇA PORQUE USAR AS HQs NO ESTUDO DE CONFLITOS GEOPOLÍTICOS: UM ENSAIO DO MAPA-PAISAGÍSTICO NA FAIXA DE GAZA VITÓRIA 2010
  • 2.
    MÁRCIO JOSÉ MENDONÇA PORQUEUSAR AS HQs NO ESTUDO DE CONFLITOS GEOPOLÍTICOS: UM ENSAIO DO MAPA-PAISAGÍSTICO NA FAIXA DE GAZA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Política, Educação e Sociedade do Centro de Educação da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para a obtenção do grau de licenciado em Geografia. Orientadora: Profª Drª Marisa Terezinha Rosa Valladares. VITÓRIA 2010
  • 3.
    MÁRCIO JOSÉ MENDONÇA PORQUEUSAR AS HQs NO ESTUDO DE CONFLITOS GEOPOLÍTICOS: UM ENSAIO DO MAPA-PAISAGÍSTICO NA FAIXA DE GAZA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao programa de graduação em Geografia do Centro de Educação da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do título de Licenciado em Geografia. Aprovado em 01 de julho de 2010. BANCA EXAMINADORA _______________________________________________ Profª. Drª. Marisa Terezinha Rosa Valladares Universidade Federal do Espírito Santo Orientadora _______________________________________________ Profª. Drª. Gisele Girardi Universidade Federal do Espírito Santo _______________________________________________ Prof. Dr. Paulo César Scarim Universidade Federal do Espírito Santo
  • 4.
    A meus pais,Ana e José Lúcio que dedicam seus esforços na minha educação. Aos palestinos, que ainda sorriem diante da adversidade.
  • 5.
    AGRADECIMENTOS Agradecimentos, em especial, para a minha orientadora neste estudo, a Prof.ª Dr.ª Marisa Terezinha Rosa Valladares, pela sua dedicação e exímia gestão do Laboratório de Ensino e Aprendizagem de Geografia (LEAGEO) que apoia os graduandos em Geografia nos estudos voltados para a área de educação. No entanto, essas não são as únicas loas à figura de Marisa: não poderia deixar de mencionar a autonomia concedida nesse estudo e, principalmente, à liberdade de “poder pensar” com a qual fui presenteado, pois em nenhum momento fui refém de obstáculos que truncassem meu raciocínio, ao contrário, suas observações sempre me provocaram a investir no que eu acredito, com responsabilidade de autoria. Agradeço também a Marcos Cândido Mendonça, meu irmão, pela contribuição que fez na leitura do trabalho, acrescentando algumas ressalvas. Também sou grato a EEEFM Almirante Barroso, que me abriu suas portas para que eu realizasse a prática em suas turmas, propiciando-me o necessário espaço à experimentação e o contato dialógico importante para reflexões. Por último, agradeço a Mahmoud Ahmadinejad (presidente do Irã) que, apesar de não ser citado como referência neste estudo, sempre foi fonte de inspiração intelectual para mim, pois seria impossível dar sequência a esse projeto se não houvesse um estado de esperança quanto à mudança para um mundo melhor, em uma alternativa de paz respeitosa – que não é um arremedo de paz, que finge não ser conflito, mas que nada mais é do que submissão imposta. Só os incrédulos, usurpadores e integristas não acreditam em uma alternativa que prime por um viés mais solidário e humano, por isso, atacam seu vetor. Existe uma contribuição de Ahmadinejad na ordem geopolítica, que se está traçando, que resiste aos flagelos, enquanto as bestas saem da toca...
  • 6.
    “A despeito dasaparências cuidadosamente mantidas, de que os problemas da geografia só dizem respeito aos geógrafos, eles interessam em última análise, a todos os cidadãos. Pois, esse discurso pedagógico que é a geografia dos professores, que parece tanto mais maçante quanto mais as mass media desvendam seu espetáculo do mundo, dissimula, aos olhos de todos, o temível instrumento de poderio que é a geografia para aqueles que detêm o poder”. Yves Lacoste “Alguns dos buracos mais negros do mundo estão a céu aberto, para qualquer um ver... Por exemplo, você pode visitar um campo de refugiados palestinos na Faixa de Gaza... É só ligar para a UNRWA, a agência da ONU de assistência aos refugiados palestinos, tel.: 051- 861195[.] Eles providenciam tudo [,] levam você até lá de carro [,] a entrada é grátis... [...]”. Joe Sacco
  • 7.
    RESUMO O presente trabalhoresgata as origens da formação de uma Geografia despolitizada, que ossifica práticas de leitura do espaço acríticas para a população em geral, realizada pelos atores hegemônicos do poder, os quais constroem uma representação homogênea e lisa do que seria real. Nessa Geografia, precária nas análises do espaço geográfico, o mapa se torna um instrumento de manipulação dos grupos poderosos, sobre a massa populacional, ao mesmo tempo em que desumaniza o próprio espaço. Um talho nessa alegoria, contudo, permite a esperança de construção de uma cartografia menos reducionista, que valoriza espaços e vivências de grupos oprimidos pela ordem mundial vigente. Nesse contexto, elaboro a ideia de mapa-paisagístico para “territorializar” uma nova perspectiva espacial. Como metodologia, proponho olhar para o mundo a partir de alternativas como as histórias em quadrinhos de Joe Sacco, para revelar a realidade vivida por indivíduos descartados – ou precariamente inseridos – no sistema. Neste ensaio, tomei o caso do conflito geopolítico entre palestinos e israelenses, como meu lócus de ruptura da ordem perversa de domínio do poderoso sobre o oprimido. Estudo a Faixa de Gaza como uma prisão a céu aberto, um lugar de opressão. É a partir daí que sustento meus aportes teóricos na companhia de autores como Sacco (2003), Lacoste (1988), Certeau (2008), dentre outros, para analisar geograficamente e cartograficamente miniespaços políticos que constroem territorialidades ao nível do lugar. Esse estudo, também desemboca numa prática em sala de aula voltada para a construção de um raciocínio geográfico crítico na educação. O indivíduo como um outro, que deveria ser um igual, torna- se questão central na busca de um mundo melhor, menos homogêneo e liso, mais diversificado e rugoso. Portanto, “territorializar” ideias de libertação, é o objetivo desse estudo. Palavras-chave: 1. Conflito geopolítico. 2. Histórias em quadrinhos. 3. Mapa-paisagístico.
  • 8.
    LISTA DE FIGURAS GrupoA - Observando o espaço de vivência (páginas 3 e 73). Figura 1 – página 3_________________________________________________________38 Figura 2 – página 73________________________________________________________39 Grupo B - Sionismo (páginas 21 e 81). Figura 3 – página 21________________________________________________________40 Figura 4 – página 81________________________________________________________41 Grupo C - Intifada de 1987 (páginas 49 e 50). Figura 5 – página 49________________________________________________________42 Figura 6 – página 50________________________________________________________43 Grupo D - meninos de Gaza (páginas 17 e 55). Figura 7 – página 17________________________________________________________44 Figura 8 – página 55________________________________________________________45 Grupo E - Fronteiras e controle (páginas 22, 77, 78, 100, 129, 130). Figura 9 – página 22________________________________________________________46 Figura 10 – página 77_______________________________________________________47 Figura 11 – página 78_______________________________________________________48 Figura 12 – página 100______________________________________________________49 Figura 13 – página 129______________________________________________________50 Figura 14 – página 130______________________________________________________51 Grupo F - Expansão dos assentamentos judaicos (página 110). Figura 15 – página 110______________________________________________________52 Figura 16 - Esquema 1: modelo de representação vertical___________________________55 Figura 17 - Esquema 2: quadro geral do percurso do geral ao lugar____________________58 Figura 18 - Esquema 3: contato entre a 1º linha da realidade e 2º linha da realidade_______________________________________________________________60 Figura 19 - Mapas trabalhados em aula__________________________________________67
  • 9.
    LISTA DE QUADRO Quadro1 - Quadro de proposta de temáticas para se trabalhar o conflito geopolítico entre israelenses e palestinos na Faixa de Gaza, utilizando “Palestina: na Faixa de Gaza” (SACCO, 2003)__________________________________36
  • 10.
    LISTA DE SIGLAS HQs- Histórias em quadrinhos IDH - Índice de Desenvolvimento Humano OLP - Organização de Libertação da Palestina ONU - Organização das Nações Unidas URSS - União Soviética
  • 11.
    SUMÁRIO Introdução_____________________________________________________________ 11 Pré-capítulo -A geopolítica do conflito entre israelenses e palestinos____________ 15 Capítulo 1 - Crítica ao ensino de Geografia despolitizado______________________ 18 Capítulo 2 - Na Faixa de Gaza com Joe Sacco: contemplando o espaço de vivência politizado______________________________________________________________ 25 Capítulo 3 - Do geral ao lugar: um caminho a se percorrer no estudo de Geografia______________________________________________________________ 53 Capítulo 4 - Exercitando o raciocínio geográfico: uma pequena amostragem para reflexão_______________________________________________________________ 63 Considerações finais_____________________________________________________ 71 Referências____________________________________________________________ 75
  • 12.
    11 INTRODUÇÃO1 O percurso do homem na história foi marcado por práticas de intervenção no meio. Assim, formas foram produzidas no espaço, equipando este grande globo com estruturas humanizadas a fim de adequar espaços naturais ao ato de habitar do homem. Uma verdadeira morfologia humana foi erguida sobre a natureza. Como parte desta grande estrutura construída pelo e para o uso do homem, podemos também mencionar o movimento intrínseco de desenvolvimento de linguagens. Essas formas de comunicação, conhecimento e de expressão simbólica são diversas e seria pretensão catalogar todas. Dentre muitas, a linguagem gráfica parece ser uma das mais notáveis, pois se materializou como parte dos fazeres do homem em seus viveres. E seria descuido não destacar um pouco de sua evolução histórica, no que tange esse objeto de estudo. Os primeiros traços da linguagem gráfica foram realizados no tempo dos homens das cavernas, foram eles os primeiros a dar o seu testemunho por meio dessas práticas, registrando passagens de sua vida cotidiana nas paredes das cavernas, contando as primeiras histórias em uma sequência de imagens. Essa técnica foi absorvida e aprimorada pelas histórias em quadrinhos (HQs) na sociedade contemporânea. A ramificação da linguagem gráfica é numerosa, e uma de suas veias de desenvolvimento veio a dar origem às HQs. A evolução das HQs caminhou junto ao desenvolvimento das relações capitalistas, movimento potencializado pela evolução da indústria tipográfica e pelo surgimento de grandes cadeias jornalísticas. Segundo Vergueiro (2009), foi nos Estados Unidos, no final do século XIX, que esse sistema criou as condições mais vantajosas para a solidificação das HQs como veículo de comunicação de massa. As HQs ganharam espaço no cenário da comunicação desde então, e o período da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) foi um de seus catalisadores, quando personagens fictícios foram nelas explorados como heróis no conflito. No mesmo período, o governo norte-americano utilizou as HQs como manuais de treinamento militar. Contudo, o período pós-guerra não rendeu bons frutos à indústria das HQs. Crescia um ambiente de desconfiança em relação às HQs, em boa parte devido ao trabalho do psiquiatra 1 Correção ortográfica e normatização feita por Selma de Souza Sanglard. Professora de português formada em 1997 pela Faculdade de Filosofia, Ciênciais e Letras de Alegre – FAFIA. Pós-graduada em Letras – Língua Portuguesa em 2000 pela Federação de Escolas Faculdades Integradas – Simonsen.
  • 13.
    12 Fredric Wertham (VERGUEIRO,2009). Este homem, de origem alemã e radicado nos Estados Unidos, entrou numa campanha acirrada contra as HQs. A base de seus argumentos era que as HQs poderiam trazer sérios prejuízos à sociedade americana, pois a leitura de HQs, como a história do Batman, por exemplo, poderia atrair as crianças e adolescentes para a homossexualidade, ou como se as HQs do Superman pudessem levar as crianças à morte, quando buscassem imitar seu herói, jogando-se de uma janela de um alto apartamento. Wertham identificou nas HQs um grande órgão que agia para degenerar a sociedade americana e agiu para desmantelar a indústria das HQs. Vergueiro (2009) lembra que Wertham usava meios ludibriosos para convencer seu público de suas ideias. Com base nos atendimentos de jovens problemáticos em seu consultório, Wertham generalizou conclusões e estabeleceu um conteúdo duvidoso sobre a questão, que foi posteriormente apresentada em seu famoso livro “A sedução dos inocentes” (WERTHAM, 1954). Nessa obra, Wertham afirmava que as HQs contribuíam para provocar anomalias na juventude americana, o que gerou um movimento contra as HQs. Essa política resultou em um Comics Code elaborado pela Association of Comics Magazine, na década de 1940, que proclamava a pais e educadores que o material das HQs não traria malefícios morais e intelectuais aos seus filhos e alunos. Posteriormente ao Comics Code, o campo fértil das HQs caiu num grande fosso, levando as HQs a serem descartadas de qualquer prática educacional séria. No Brasil, por exemplo, foi elaborado um Código de Ética dos Quadrinhos, que aplicava políticas semelhantes às dos Estados Unidos. O resultado dessa empreitada foi o descarte das HQs no plano do ensino, figurando como uma penumbra à margem dos pensadores intelectuais, pois foi acusada de afastar as crianças da leitura de livros, sendo estigmatizada como uma prática que prejudicava o raciocínio. O florescer das HQs só viria com o amadurecimento dos meios de comunicação, que tornaram as HQs formas de transmissão de conhecimento específico, desmascarando, na sociedade, a visão imaculada de que as HQs eram apenas instrumentos para o entretenimento. Sua descoberta como ferramenta educacional também se deu nos Estados Unidos, pela publicação de revistas em quadrinhos de caráter educacional, ainda na década de 1940. Revistas em quadrinhos, como a: True Comics, Real Life Comics e Real Fact Comics, traziam antologias referentes a acontecimentos e personagens famosos da história.
  • 14.
    13 Na China, no governo de Mao Tse-Tung (década de 1950), ela foi intensamente empregada pelo governo como ferramenta de manobra na formação do ideal comunista chinês. As historinhas retratavam militares chineses desempenhando um comportamento exemplar, na busca de forjar, na sociedade da época, valores comunistas para o bem do país. Dessa forma, histórias e obras de personagens como Lênin e Karl Marx também foram abordadas pelas HQs. Com o passar dos anos, as HQs foram adquirindo credibilidade no meio educacional e deixaram de ser vistas como práticas educacionais obsoletas, e sim como ferramentas que auxiliam o estudo e incentivam a leitura, em virtude de sua forma de comunicação fácil e interativa com os alunos. Na prática de ensino voltada para a Geografia, as HQs também venceram barreiras: é de praxe, hoje, o entendimento de que as HQs são um excelente material para a representação de ambientes, paisagens e culturas de outros países, desde que se tenha cuidado para não criar estereótipos de determinados lugares, como as “Aventuras de Tintin”, criado por Hergé. Nessa historinha em série, o “Tintin” (principal personagem e mocinho do conto) viaja por vários países do mundo. Em uma de suas viagens, ele visita a União Soviética (URSS), onde descreve os comunistas como figuras maléficas. Contudo, mesmo com essa falha do autor, esse material é considerado de boa qualidade. Mas, talvez, o material mais importante das HQs para se trabalhar com a Geografia e, principalmente, com a geopolítica, sejam os trabalhos produzidos por Joe Sacco. Certamente, uma das maneiras mais valiosas de se trabalhar a Geografia, utilizando-se as HQs, são as de linguagem cartográfica. Com seu uso adequado, é possível explorar a representação do espaço, da escala, e visão vertical, visão oblíqua e também leitura de símbolos, oferecendo uma gama de formas de trabalho viáveis ao professor. A cartografia se mostra de suma importância, pois é um instrumento que possibilita exercitar a leitura do espaço, estando também, diretamente ligada aos afazeres da geopolítica. As possibilidades de se trabalhar com as categorias geográficas, por meio das HQs, são múltiplas e de natureza variada. Rama (2009) oferece algumas possibilidades interessantes. Cabe ao professor de Geografia averiguá-las e desbravá-las.
  • 15.
    14 Por sua vez, o uso das HQs com um parecer histórico também pode ser útil ao professor de Geografia. Entre as produções de HQs mais interessantes referidas por Vilela (2009), que tratam do ambiente de vivência de um conflito, que podem ser utilizadas em abordagens geopolíticas, estão “A guerra dos Farrapos”, escrito por Tabajara Ruas e desenhado por Flávio Colin, e “Adeus, chamingo brasileiro”, que trata da Guerra do Paraguai, escrito e desenhado por André Toral. Mas, sem dúvida, duas grandes obras de HQs que tratam de grandes conflitos geopolíticos são “Maus: a história de um sobrevivente” e “Gen: pés descalços”. Em “Maus: a história de um sobrevivente”, o autor Art Spielgelman retrata o drama judeu durante o nazismo. Nessa obra, os personagens são retratados como animais antropomorfizados: os gatos representam os nazistas e os ratos são encarnados pelos judeus. Já em “Gen: Pés Descalços”, Nakazawa retrata o sofrimento de sua família na explosão da bomba atômica, em sua cidade. De maneira geral, os trabalhos mencionados por Vilela (2009), apresentam algumas opções viáveis a práticas de ensino em Geografia, que estão à espera de práticas de ensino gloriosas por parte do professor de Geografia. No decorrer deste trabalho, vamos contemplar o trabalho de Joe Sacco, “Palestina: na Faixa de Gaza” (2003), com o qual pretendemos explorar múltiplas escalas de percepção de um conflito geopolítico e, ao final, alcançar uma proposta de prática de ensino voltada para a geopolítica, usando o material específico de Joe Sacco.
  • 16.
    15 Pré-capítulo A geopolítica doconflito entre israelenses e palestinos Este pré-capítulo, ou este item, tem como objetivo traçar uma pequena evolução histórica do conflito na região da Palestina, localizada no Oriente Médio, onde israelenses e palestinos (Árabes) vêm se digladiando desde a formação do Estado de Israel. Nesta ocasião, não farei uma construção histórica da evolução dos povos, nem tampouco abordarei aspectos culturais de tais povos. A linha de observação ficará no que tange aos fatos geopolíticos, nas tensões entre esses dois povos que acarretam tal conflito. Para que não haja nenhuma dúvida, o objetivo deste item se resume em colocar o leitor a par da situação. Mas para isso, antes é necessário esclarecer no que consiste a geopolítica, para só assim, ser possível suscitar um de seus pontos de tensão e também evitar possíveis confusões. [...] A geopolítica é um saber engajado, comprometido com um pensamento e com objetivos políticos; embora analisando o Estado como produtor de um espaço, ela não tem um rigoroso critério científico. A geografia política, ao contrário, é um dos enfoques da ciência geográfica no qual se estudam a distribuição dos Estados e os tipos de organização do território a que eles dão origem. Ela não é marcada fortemente pelos preconceitos do determinismo geográfico, que tenta explicar a expansão ou a necessidade de expansão dos Estados, com base em condições naturais (ANDRADE, 2001, pag. 9, 10). Como pode se notar essas duas práticas se confundem e até mesmo se tocam, pois ambas dão foco ao papel do Estado como gestor do espaço, todavia, a Geografia política tem caráter científico da distribuição dos Estados e os tipos de organização do território a que dão origem, enquanto a geopolítica é vista como saber dos políticos e militares, que se apropriam de seus conhecimentos para empreenderem práticas estratégicas no espaço que manifestam em alguma espécie de poder. Sendo assim, o desenho que hoje delineia a situação na Palestina, começa a ser pintado com traços mais claros em 1947, quando a Organização das Nações Unidas (ONU), por iniciativa dos Estados Unidos, aprovou um plano para a partilha da Palestina, que seria concretizado em 1948, com a fundação do Estado de Israel. Essa medida se valeu dos acontecimentos do Holocausto na Europa, comandado pelas forças nazistas de Hitler, gerando, do meu ponto de vista, um campo de supervalorização do sofrimento judeu e sensibilização da comunidade global em prol de concessão de um lar nacional para os judeus.
  • 17.
    16 A decisão da ONU satisfez a comunidade judaica, que se aclamava detentora dos direitos sobre aquelas terras, de onde havia sido expulsa nos anos 50 da Era Cristã, pelo Império Romano, evento que ficou conhecido como Diáspora. Entretanto, a resolução da ONU não agradou aos palestinos que habitavam a região. Eles eram maioria na área e viram seu território ser recortado (os palestinos ficaram com a Cisjordânia e Faixa de Gaza) e entregue a uma população que entendiam como invasora e que ficou com a maior parte da divisão do território, enquanto os palestinos foram empurrados para as franjas do território e não tiveram a concessão de um Estado independente. A partir desse período, os palestinos passam a sofrer pressões dos israelenses, apoiados pelo governo norte-americano, sendo equipados militarmente por este aliado. Como os palestinos não foram capazes de fazer frente ao aparato militar dos israelenses foram reduzidos a uma população de segunda classe ou expulsos de suas terras, confiscadas pelo governo israelense. O crescimento dessas tensões entre judeus e palestinos resultou, em 1967, num grande conflito que ficou conhecido como Guerra dos seis dias. Nessa ocasião, os israelenses levaram vantagem, destroçando as tropas egípcias, sírias e jordanianas que tinham aderido à causa palestina. Ao final do conflito, os israelenses passaram a controlar Jerusalém Oriental e a Cisjordânia (território antes sob a administração da Jordânia), a península do Sinai e a Faixa de Gaza (Egito) e as Colinas de Golã (Síria). Todavia, em 1973, Egito e Síria tentaram reverter à situação, na oportunidade lançaram um ataque surpresa no “dia do perdão para os israelenses”. Mas essa tentativa também fracassou e mais uma vez as forças árabes saíram derrotadas. Em virtude de pressões diplomáticas, o Sinai foi reincorporado ao Egito na década de 1980, mediante um acordo de paz com Israel. Já a Faixa de Gaza só foi devolvida aos palestinos formalmente em 2005, o que não inibiu o governo israelense a realizar incursões militares e a expandir os assentamentos nesta área. Por outro lado, as Colinas de Golã continuam sobcontrole de Israel. Em 1987, novamente, um grande conflito foi deflagrado, dessa vez pelos palestinos. A Intifada (que quer dizer “sacudir-se” ou “levantar-se”), como ficou conhecido o movimento popular de resistência palestina à ocupação israelense, tomou as ruas em protesto à morte de quatro crianças na Faixa de Gaza. Apesar dos palestinos terem sido ferozmente reprimidos pelas forças israelenses, o movimento revelou ao mundo a triste condição dos palestinos e deu início a tentativas diplomáticas mais claras em busca de se solucionar o problema.
  • 18.
    17 Porém, as tentativas de paz não caminharam bem e, em 2000 os palestinos deflagraram a segunda Intifada – essa mais violenta do que a primeira. Novamente os palestinos foram brutalmente repelidos. O último grande embate entre israelenses e palestinos foi no final do ano de 2008, quando o exército israelense bombardeou a Faixa de Gaza supostamente para desmantelar o “grupo terrorista” Hamas, que opera intensamente na região. Esses são alguns fatos históricos marcantes que ressalvamos para relembrar ao leitor, de maneira resumida, visando situá-lo minimamente na situação do conflito na Palestina e mais diretamente na Faixa de Gaza. De maneira nenhuma traçamos todos os eventos consideráveis em toda essa marcha. Acontecimentos importantes, datados de antes de 1945, não foram relatados, nem mesmo o importante papel outrora da Organização de Libertação da Palestina (OLP) e do Hamas após 1987, e é claro dos governos de linha-dura de Israel. Nessa pequena entrada para o capítulo 1 deste trabalho, o objetivo foi demonstrar que existe um grande foco de tensão nesta área, isto é, um grande conflito geopolítico que vai além de suas fronteiras. Com essa premissa, irei tomar a questão na Palestina como meu aporte de análise. Neste contexto, a Faixa de Gaza será o local onde depositarei minhas bases teóricas, sempre voltadas para as formas de representação e compreensão do espaço, que vão além das formas tradicionais da Geografia clássica. Ao leitor que deseja se aprofundar no estudo histórico do conflito entre palestinos e israelenses, sugiro buscar outras fontes de informação. Existem excelentes livros sobre o assunto disponíveis em português, dentre os quais, para o uso do professor no ensino médio, indico “Geopolítica: o mundo em conflito” (FUSER, 2006) que certamente iniciará qualquer ledor ao conturbado universo das relações internacionais e, principalmente, acrescentará ao leitor mais informações sobre os fatos históricos do conflito entre israelenses e palestinos.
  • 19.
    18 Capítulo 1 Crítica aoensino de Geografia despolitizado Alguns dos problemas nas práticas de ensino de Geografia se referem à maneira despolitizada como a transposição didática dos conteúdos é feita, com forte enfoque no didatismo e não numa perspectiva crítica, que permita ao professor mediar o conhecimento e o senso comum. Percebe-se que essa fragilidade tem raízes na formação docente inicial e continuada. A formação inicial, entendida como o tempo de licenciatura, trata de uma Geografia que desde algum tempo foi desalojada de qualquer ênfase nos estudos relacionados às estratégias geopolíticas de ação no espaço, colaborando com o desenvolvimento de uma Geografia acrítica. Nesse sentido, a crítica dirigida às práticas de ensino de Geografia despolitizada deve atacar os alicerces de tal mal-estar e para constatar a produção das práticas de ensino de Geografia apolíticas, cabe-me o retorno as suas condições estanques. A Geografia se funda como ciência dentro do quadro positivista, no século XIX, sobre as bases de seu primeiro pensador moderno, Alexander Von Humboldt, o primeiro a se preocupar com as questões metodológicas do estudo de assuntos geográficos e a estabelecer leis gerais e evolutivas para essa ciência. Porém, foi com o fomento de outro grande mentor, Friedrich Ratzel, que a Geografia alcançou voos mais altos e se firmou definitivamente como ciência. Foi Ratzel que calcou as pretensões dos estudos geográficos, relacionados à política. Em sua concepção, a Geografia política devia se interessar pelas questões do Estado, dando prioridade aos assuntos referentes às fronteiras, as nações e suas estruturas e movimentos internos. Assim, para Ratzel, o Estado-nação era um complexo organismo que funcionava conforme a coesão garantida pela articulação de suas partes. Uma verdadeira estrutura biológica do espaço onde a morfologia natural se fundia com os equipamentos criados pelo homem, dando origem a uma estrutura morfológica do Estado, isto é, uma obra de organização do espaço criada pelo homem. Neste viés, Ratzel preconizou o que talvez seja a máxima de seu pensamento “[...] quando a sociedade se organiza para defender território, transforma-se em Estado [...]” (RATZEL, apud MORAES, 2007, p. 70). Preocupado com as questões de unicidade da recém Alemanha unificada, Ratzel valorizou os assuntos de organização do Estado, onde a população tem papel importante como corpo sólido, tornado nação, considerada como, grupo
  • 20.
    19 mais ou menoshomogêneo que habita um determinado recorte espacial do globo, que se desenvolve conforme as riquezas naturais de sua área de vivência, associadas as suas técnicas específicas de intervenção no espaço. Contudo, foi o discurso geopolítico de Karl Haushofer que promoveu uma visão da Geografia associada ou vinculada diretamente a práticas militares da Alemanha na Segunda Guerra Mundial. É Haushofer que materializa mais claramente alguns dos ideais do expansionismo alemão, associando-a a geopolítica alemã. Destarte, os estudos geopolíticos desse período são vistos como manuais de práticas e ações de intervenção no espaço, como uma verdadeira campanha pelo poder, empreendida pela política hitlerista. Essas são algumas das primeiras chagas que causaram aversão ao estudo de assuntos geopolíticos pela academia e, consequentemente, para o ensino escolar. Como lembra Lacoste (1988), essas práticas foram denunciadas como não científicas e avaliadas como ferramentas de manobra do poder dos Estados, cabendo à Geografia se distanciar de tais propósitos e se fundar como uma verdadeira ciência acadêmica, tendo como seu objeto de estudo o espaço regional. Segundo Lacoste (1988), coube ao pai da Geografia francesa, Vidal de La Blache, na obra “Quadro de Geografia da França” (1905), a consolidação e difusão dessa Geografia regional que se distanciou das abordagens relacionadas ao papel do homem no espaço, preconizando uma análise naturalista de certos recortes do espaço, entendidos como únicos e prontos. Assim, para Lacoste (1988), esta geopolítica agressiva do Estado alemão poderia ter causado aversões ao estudo de assuntos geopolíticos, o que teria escamoteado qualquer prática séria de estudo de assuntos políticos por parte da Geografia. Entretanto, o próprio Lacoste chega a se perguntar se isso seria de fato verdade. Suas críticas dirigidas a Vidal e, posteriormente a Lucien Febvre, acusam esses dois de terem promovido um campo de estudo apolítico para a Geografia. O primeiro, como já ressaltei, teria banalizado o campo de estudo da Geografia e amputado desta ciência qualquer tipo de análise de ação no espaço, produzindo um conceito-obstáculo para qualquer avaliação espacial crítica, pois o objeto da Geografia de Vidal, que é a região, estabeleceu uma Geografia essencialmente descritiva em detrimento de uma analítica. Com essa implicação, as ações do homem, empreendidas no espaço, ficam numa penumbra na qual os geógrafos não podem tocar. Já o segundo, Lucien Febvre, teria definido a Geografia como uma ciência modesta, que não se preocupa com os estudos relacionados à política, cabendo esses à História.
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    20 Enfim, considerando a participação desses dois personagens e o contexto histórico de desenvolvimento da política hitlerista, o embasamento geopolítico resultante criou traumas e afastou os geógrafos dos assuntos geopolíticos. É de responsabilidade, também, de grande parte da comunidade geográfica, a formação dessa Geografia despolitizada, pelo desinteresse e falta de olhar crítico no estudo de temas políticos que essa classe se absteve – e ainda se abstém – de fazer. Para Lacoste (1988), existem duas Geografias atualmente, mas elas emanam do século XIX. A primeira é a Geografia dos Estados-maiores, como ele a define. Esta é a Geografia antiga, constituindo [...] um conjunto de representações cartográficas e de conhecimentos variados referentes ao espaço; esse saber sincrético é claramente percebido como eminentemente estratégico pelas minorias dirigentes que o utilizam como instrumento de poder (LACOSTE, 1988, p. 31). O geógrafo francês apelida essa Geografia como a dos reis, pois essa seria, há muito tempo praticada por esses antigos homens do poder. Era privilégio do rei, conhecer todo o seu vasto ou pequeno território, para articular práticas que garantissem a sua organização e seu controle. Por meio de cartas, elaboradas por cartógrafos, os reis tomavam conhecimento do seu território administrativo e podiam empreender suas atividades militares, econômicas, políticas, etc. Dessa forma, cabia ao geógrafo-cartógrafo fornecer ao rei uma representação da realidade do território em uma carta, função importante na época, que cabia ao geógrafo realizar como homem de confiança do rei. Já a outra Geografia é a dos professores, [...] que apareceu há menos de um século, se tornou um discurso ideológico no qual uma das funções inconscientes, é a de mascarar a importância estratégica dos raciocínios centrados no espaço. Não somente essa geografia dos professores é extirpada de práticas políticas e militares como de decisões econômicas (pois os professores nisso não têm participação), mas ela dissimula, aos olhos da maioria, a eficácia dos instrumentos de poder que são as análises espaciais. Por causa disso a minoria no poder tem consciência de sua importância, é a única a utilizá-las em função dos seus próprios interesses e este monopólio do saber é bem mais eficaz porque a maioria não dá nenhuma atenção a uma disciplina que lhe parece tão perfeitamente „inútil‟ (LACOSTE, 1988, p. 31). Nos ditames de disciplina desinteressante, em especial pela prática de inúmeras catalogações de elementos espaciais e suas localizações, é que a Geografia vai ser reconhecida pelas outras disciplinas, como um saber de enumeração de diversos elementos de outras ciências. Uma ciência inútil, para geógrafos semianalfabetos no que se refere às
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    21 apreciações do espaço.É neste bojo que a Geografia se difunde em diversas escolas pelo mundo, como prática de decoreba de nome de capitais, rios, climas, etc. Uma representação homogênea diluindo a imagem real posta em diversas telas de fenômenos históricos: tais telas, mal sobrepostas, encobrem as ações do poder. Este teatro de observações, onde os bastidores não são vistos, manipula e descaracteriza a razão de ser da Geografia: um conhecimento estratégico do espaço, que permite agir eficazmente nele. É nesta crise de leitura do espaço político que práticas obsoletas de interpretação do espaço são absorvidas pelo consumismo de massa. A Geografia do espetáculo, assinalada por Lacoste (1988), ganha espaço entre os manuais de Geografia, sendo difundidos pelo mercado em formato de belas imagens de diversas partes do mundo. Esses cartões postais ou imagens televisivas de diversos lugares oferecem ao público uma visão de lugares nunca antes vistos, mas escondem as relações de poder quando desprovidas de raciocínio crítico do espaço e de uma representação adequada do real. De todo modo, para Lacoste (1988), a representação do espaço não é tão simples assim. Ela advém de uma carta onde se tem uma representação vertical, mais ou menos refinada, da realidade espacial a qual se pretende inferir. Essa abstração do espaço é, acima de tudo, cartográfica, mas ela no máximo atinge ao nível de representatividade de 1 metro. Estando o homem excluído desse mapeamento em suas maiores escalas, pois não faz parte do espaço absoluto de objetos imóveis. A técnica de interpretação de uma realidade espacial exposta em uma carta deve levar em conta o método de diferenciação espacial. Este consiste em prender em uma carta um determinado fenômeno, sobrepondo-o a outros conjuntos que deem foco a outros fenômenos. Só assim é possível elaborar um complicado quebra-cabeça que associe esses fenômenos a outros fenômenos, em cartas de variadas escalas, onde se busca a correlação entre tais fenômenos. Essa prática se assemelha a uma pilha de papéis transparentes mal organizados, onde todos estão empilhados, mas de maneiras diferentes. Esses papéis têm dimensões e formatos diversos, mas estão empilhados na mesma coluna, esta coluna claro, é a escala de uso. Cabe ao raciocínio geográfico perfurar esses papéis e achar a interseção entre eles, construindo a delimitação de tais fenômenos sobrepostos. É como montar um conjunto de quebra-cabeças sobrepostos e fazer a relação entre eles. Contudo, quando se muda de escala, a relação entre esses conjuntos também se modifica, pois as colunas ganham ou perdem algumas folhas.
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    22 Entre todas essas cartas de escala tão desigual, não somente diferenças quantitativas, de acordo com o tamanho do espaço representado, mas também diferenças qualitativas, pois um fenômeno só pode ser representado numa determinada escala; em outras escalas ele não é representável ou seu significado é modificado [...] (LACOSTE, 1988, p. 74, grifos do autor). São essas representações de espaços diferenciais que põem em destaque a análise de assimilação de diversos conjuntos espaciais em multiescalas de representação. Contudo, essa representação do espaço, já bem complexo, não é suficiente para ser operacional. Não é suficiente, de fato, raciocinar como fizemos até agora, sobre as interseções entre as diferentes espécies de conjuntos espaciais, no âmago de um mesmo território é preciso também considerar suas dimensões, que podem se referir a ordens de grandeza muito diversas [...] (LACOSTE, 1988, p. 70). Essas são desde grandes dimensões, como a de um continente, ou de pequeninas dimensões, como de uma vila. Como se percebe “[...] a representação mais operacional e mais científica do espaço não é a de uma divisão simples em „regiões‟, em compartimentos justapostos uns aos outros, mas a de uma superposição de vários quebra-cabeças bem diferencialmente recortados”. (LACOSTE, 1988, p. 70). Essa concepção sistêmica de leitura do espaço é que possibilita o geógrafo combinar diferentes níveis de análise com diferentes ordens de grandeza, acoplada ao exame de múltiplos conjuntos espaciais. As práticas vidalinas de descrição das regiões, como conjuntos harmoniosos, sopram para longe qualquer exercício de raciocínio estratégico por parte dos geógrafos. As interseções de relações entre as cartas são maquiadas por traços firmes que sucumbem o geógrafo de realizar uma pesquisa aplicada. E quando este atinge a escala de observação do lugar, uma maquiagem da paisagem naturalista, que evoca em muito pouco o papel do homem, o faz míope na observação das manifestações do poder no espaço, e seu diagnóstico fica apenas no nível de observação das energias dos fenômenos naturais. O que parecia ser o apanágio da Geografia se revela como um infortúnio dessa ciência. De fato, a Geografia do professor ou acadêmica promoveu a difusão dessa ciência em diversos países do mundo, mas sob-bases ideológicas que camuflam o papel do geógrafo na sociedade como interventor no espaço. Contudo, ao crer que a Geografia deve cumprir o seu papel na sociedade como ferramenta de apoio ao cidadão, busca-se, o amadurecimento de um olhar crítico na educação, algo que possibilite as pessoas referir-se a diversos conjuntos espaciais complexos de seu dia-dia. Mas, frequentemente, esta ciência se abstém dessa função fazendo com que o cidadão, na lida com conjuntos espaciais complexos, nos quais está inserido, se sinta no meio de um furacão.
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    23 A carta é o instrumento de trabalho do geógrafo, com a qual deve buscar encontrar as inter-relações dos fenômenos entre diferentes cartas de escalas variadas. Somente assim, pode se construir um verdadeiro raciocínio geográfico, tomando conhecimento da superposição espacial de diferentes categorias de fenômenos em extensões desiguais. Todavia, a carta é uma representação abstrata do espaço como realidade, construída por inúmeras escolhas, onde não se pode alcançar o nível mais fundo da representação do real. A carta tem limitações de representação do fino do ambiente de vivência, muitas vezes, não alcança uma representação adequada do meio em que o homem age e faz parte. Num mapeamento de uma pequena aldeia pode se obter uma excelente representatividade do espaço, entretanto, esta não incluirá o homem, se detendo na descrição da superfície terrestre. Isso se torna um problema, na medida em que certos movimentos são perdidos na transposição da representatividade do real em sua fase de transformação (ação), somente alcançando o seu resultado final, isto é, sua forma (ato). A Geografia vem se preocupando, nas últimas décadas, com outras formas de representação do espaço, não somente aquelas que tangem os recortes da geopolítica tradicional, onde os Estados são a praxe de estudo. Se as fronteiras políticas de um Estado são um recorte no espaço de um determinado modo de produção do espaço geográfico, existem outras internas a essa, as quais muitas vezes são focos de tensões e de conflitos diversos. Diversos recortes coexistem dentro de outros recortes no espaço, e assim sucessivamente. Todos estão mais ou menos relacionados com as suas partes, o que normalmente gera uma forma que se subentende seja uma representatividade da realidade espacial. Estando esta representação em certa escala, ela vai valorizar certas medidas, o que pode distorcer ou esconder algumas formas. Vai camuflar ainda mais se essa representação do que se entende como real for alguma que deprecie alguma comunidade ou grupo, que não consegue fazer voz diante da representação da classe ou grupo dominante. Portanto, a Geografia dos que são dominados vai ser ocultada pelas classes dominantes, por essa representação do espaço imprecisa, tomada como conjunto da realidade. Num Estado, uma representação dos limites de suas fronteiras internacionais vai gerar determinada representação de realidade, esboço em um recorte do espaço. Entretanto, as regiões que constituem esse mesmo Estado, não necessariamente vão ser representadas neste mesmo nível, ficando num nível de análise em segundo plano; as suas subregiões já seriam
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    24 um nível maisabaixo e subsequentemente, os lugares, (isso se ficarmos apenas no nível da organização política). A tarefa mais difícil é representar os lugares, ou seja, os míni recortes do espaço, como partes integrantes de um grande corpo espacial, e ressaltar os seus conflitos internos a este grande recorte espacial, quando esses fazem parte do cotidiano de grupos que não se deseja cartografar. Escalas de representação da realidade espacial, muitas vezes são telas de formas dominantes de se ler o mundo, conforme o alfabeto dos atores hegemônicos do poder. Normalmente, os grupos excluídos de algum tipo de apreciação da realidade-espaço, se encontram no nível mais baixo de leitura, não sendo cartografados pelos de cima. Quando se alcança algum tipo de representação desses grupos, suas representações são moldadas com conotações estereotipadas, que muitas vezes os definem com argumentos negativos, sendo vistos pela totalidade, como inimigos do grande conjunto da massa, e não como parte integrante do todo. Suas reivindicações são abafadas por uma forma de compreender o mundo que não lhes cabe. A educação e a ciência como ferramenta do discurso das classes dominantes também inculca nas pessoas a sua maneira de apresentar o mundo. Indivíduos descartáveis são riscados do mapa, sua cultura e sua identidade são vistas como invasoras e não convém representá-las, pois essas seriam tratadas como uma enfermidade do grande organismo. Pode se dizer então, que a Geografia aguarda ansiosa por novas formas de apreciação da realidade que descrevam todos os recortes espaciais em seus mais diversos níveis de percepção. Esta nova forma de entender o mundo deve permear todas as camadas de observação da realidade espacial, sejam elas formas de representação vertical, por meio de um mapa, ou outras maneiras multifacetadas e multiescalares de aprender e construir uma visão coerente do mundo.
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    25 Capítulo 2 Na Faixade Gaza com Joe Sacco: contemplando o espaço de vivência politizado Como se utiliza a cartografia para representar um dado espaço, pode-se destacar que esse é um dos campos que reúne muitos problemas para o ensino de Geografia. Considerando que um mapa é uma representação de uma determinada área do mundo, com o uso de uma escala para transposição do registro em um papel, é preciso entendê-lo como algo que descreve uma realidade espacial, sendo obra do olhar geográfico de quem seleciona os elementos para mapear (uma carta temática, por exemplo), além de representar o desejo ou o critério de quem detêm os meios estratégicos para produção dos mapas. A cartografia mapeia os conjuntos espaciais homogeneizando as particularidades, sendo o trabalho final de representação do espaço, muitas vezes, o resumo de um ou vários conjuntos espaciais. Então, como realizar a cartografia de uma particularidade, soterrada pelas representações verticais de atores dominantes? Seja como for, esses não são os únicos ônus que pesam sobre a Geografia e sua principal ferramenta de trabalho. Os problemas na Cartografia vão além das formas inadequadas de seleção de escalas, tipos de representação e de símbolos, entre outras dificuldades. Os elementos de representação se atolam em uma confusa malha de conjuntos espaciais verticalmente sobrepostos e, ao final do trabalho de enquadramento, revelam pouco das práticas de ação do homem no espaço. Em todo caso, acredito, que a melhor maneira de se representar uma realidade espacial num mapa, seja a dos famosos “quebra-cabeças” de Lacoste (1988), nos quais são sobrepostos conjuntos espaciais de variadas formas e dimensões, e se verifica a interseção entre eles, utilizando uma escala adequada para tal propósito. Como se percebe, a representação do espaço não implica numa cartografia simplista, mais num emaranhado de recortes espaciais, que constituem um jogo de quebra-cabeças sobre quebra-cabeças, e assim sucessivamente. Entretanto, esses também têm limites de abstração da realidade espacial, pois revelam como qualquer outro mapa, apenas o nível de visão vertical. Em decorrência dessa opacidade das formas de representar o espaço verticalmente, tendo o homem incluso nele, se somam aos mapas, outras fontes de enriquecimento de
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    26 informações, que focamo homem no espaço. Aliás, não é incomum, ver em atlas (principalmente infantis) imagens de diversos lugares do mundo, que já se encontram representados num mapa do local fotografado. Essas fotografias, normalmente, focalizam as práticas de produção do espaço geográfico pelo homem, buscando revelar uma prática de ação do homem no seu meio, que não é expresso no mapa. No entanto, essa representação do trabalho do homem no espaço por meio de fotografias, revela apenas pontos específicos no mapa: é como se o cartógrafo escolhesse certos lugares para uma representação mais aprofundada das práticas de vivência de um indivíduo ou de determinado grupo em seu meio. Todavia, essas fotografias paisagísticas pouco revelam as ações de poder no espaço, pois a imagem estática do homem no espaço não explica a conexão de suas ações no mesmo. Assim, como o “quebra-cabeça” de Lacoste (1988) necessita de uma interseção entre mapas de escalas diferentes, que revelem a operacionalidade dos conjuntos espaciais, essas imagens também pedem uma sequência de imagens, de ângulos, de dimensões, e de realidades sócio-espaciais diversas para possibilitar a construção de um raciocínio geográfico dinâmico por meio da imagem. Quando se observa uma imagem de determinado lugar do globo, sempre se busca alcançar um horizonte que se encontra espremido em algum canto da fotografia. A falta de sequência de imagens angustia quem busca entender uma realidade espacial, já que esta permanece num ostracismo visual, impedida de fazer relação entre os fatos, pois, essa captação, no máximo foca os objetos do espaço em uma situação estática do homem em relação a eles. Estando a cartografia clássica numa situação, onde encontra problemas em representar o homem em interação com o espaço, na qual reduz esse homem a números quantitativos, distribuídos sobre determinado território, em uma representação em pequena escala. No nível da grande escala, o resultado é ainda mais desastroso, estando esse homem ausente de tal representação. Se uma representação geopolítica se refere à organização do espaço, ainda que se reportando ao papel do Estado como gestor territorial, os homens que efetuam tal organização, simbolizando a ação da máquina estatal, não podem ser esquecidos no mapeamento, sob pena de naturalização dos fatos, tornando-os como se fossem efeito de fantasmas que ninguém vê. Dessa forma, acredito as interseções das quais Lacoste (1988) tanto deu ênfase na representação do espaço em sua visão vertical, também podem caber ao homem, em outros moldes.
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    27 Fazer a relação entre conjuntos espaciais mais ou menos sobrepostos, usando escalas variadas para alcançar as interseções horizontais, verticais ou oblíquas, consiste em um verdadeiro raciocínio geográfico. Mas esse raciocínio deve incluir o homem, em todo seu pacote, pois somente assim será possível realizar a transformação ou metamorfose do formato de representação vertical da realidade espacial para uma multiorientada, quando essa atinge as maiores escalas. Como já salientei, as imagens estilo fotografias não são suficientes, porque não captam o movimento das ações desenvolvidas no espaço geográfico. Creio que será interessante para a Geografia, pensar em outras formas de representação do homem no espaço, formas que rompam com esses obstáculos de mapeamento, que não dão ênfase ao homem em suas práticas. Invisto, neste estudo, em promover uma representação da realidade espacial que mescle a capacidade de descrição do cartógrafo, com pontos de fuga da paisagem estática representados por uma ferramenta que demonstre a dinâmica de movimento dos acontecimentos. Busco, assim, uma alternativa para romper com esse gargalo que não insere o homem no espaço, em interação com seus sistemas de vivências. A representação de determinado conjunto, como o proletariado ou o campesinato, desprovido da interação do homem com o espaço, não revela a situação desses grupos, porque não se consegue ligá-los, por meio de suas ações, às diversas estruturas às quais estão submetidos, sejam elas do espaço físico ou dos modos de produção. Como entender a situação de um trabalhador de uma fábrica, se a representação vertical demonstra apenas o telhado da fábrica? Parece, no mínimo, contraditório, mas penso que, Lacoste já tinha apontado esse caminho, apenas não se aprofundou nele, como se pode analisar em seus estudos: [...] Sem dúvida, pode se facilmente fazer a carta das estruturas agrárias nesta ou naquela área, mas ela não explica completamente a situação na qual se encontram os camponeses. É preciso também levar em consideração as condições climáticas, pedológicas, topográficas, que não derivam, fundamentalmente, da análise dos marxistas e que estes tendem a negligenciar, em prol do estudo das relações de produção [...] (LACOSTE, 1988, p. 147). A questão fundamental, não é dar foco a esse ou aquele elemento, mas sim constatar, no caso duma representação em grande escala, mas não necessariamente vertical, uma realidade espacial, que insira o homem dentro da estrutura da qual ele faz parte e que constrói todos os dias, por meio de suas práticas no espaço de vivência. Esses espaços, mesmo que sejam miniespaços, também são políticos, pois fazem parte de uma complexa estrutura de
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    28 camadas confusas, ondecada ser humano integra o todo como uma célula que compõem um corpo. “[...] Em suma, tudo é político, mas toda política é ao mesmo tempo macropolítica e micropolítica” (DELEUZE e GUATTARI, apud HAESBAERT, 2007, p. 115, grifos dos autores). Esses miniespaços politizados são carregados de valores simbólicos e estéticos, que a população local deposita por meio de suas práticas de vivência ao longo do tempo. Como constatou Corrêa, existe um sentido de pertencer a um determinado local, com o qual se criou vínculos, originando um significado que é expresso num modo de viver em determinado recorte espacial. Dessa maneira, um rio, uma montanha, uma praça, uma esquina, um óculos, todas essas formas ganham sentido quando conectados aos afazeres cotidianos no espaço de vivência (informação verbal) 2. Esses significados se situam em escalas variadas, é como se os significados percorressem vastos espaços os conectando, pois “[...] uma cultura nacional atua como uma ponte de significados culturais, um foco de identificação e um sistema de representação [...]” nacional (HALL, 2006, p. 58). Contudo, a peculiaridade é que todo lugar tem um significado ancorado no conjunto nacional, mas também possui seu significado interno, sendo assim, para vislumbrar esse entroncamento, articule-se o uso da escala a uma representação (possível) do significado que emana de um conjunto. Ao falar que sou brasileiro, construo uma ligação com todos os brasileiros que habitam o território nacional, mas quando falo, sou capixaba originário da Região do Caparaó, construo uma ligação mais estreita com um grupo menor de pessoas, em um recorte espacial também menor, que se afunila ainda mais se me refiro a minha cidade-natal (Guaçuí) ou ao meu bairro. Esse enquadramento cria reciprocidade entre envolvidos e atinge o mais alto nível, quando eu mantenho contato intenso com um lugar, que me garante e no qual desenvolvo uma identidade particular. É fácil representar o território nacional e generalizar vivências homogêneas de grandes espaços de vivência: basta realizar determinado recorte para concluir, por exemplo, que o registro de muitas indústrias e empresas de serviços nos estados que compõem a região 2 CORRÊA, R. L. Processo, Forma e Significado – Uma Breve Consideração. Aula proferida na Universidade Federal do Espírito Santo. 2009.
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    29 Sudeste fazem delaa mais industrializada do país e que a região Nordeste é menos industrializada. Pronto, já se criou uma visão superficial de um espaço de vivência em pequena escala. Porém, como realizar tal tarefa numa grande escala, quando os homens desaparecem do espaço absoluto, e o espaço de vivência é dissociado dos grupos que o constroem e o habitam, ao mesmo tempo em que a pequena estrutura do grande corpo estrutural ganha diversidade e até identidades próprias? Ora, minha cidade natal faz parte da região Sudeste, que é industrializada. Suas pouquíssimas indústrias não são como as de São Paulo, por exemplo. Entretanto, ela faz parte dessa rede, estando a ela conectada por meio de linhas complicadas de se visualizar: situação geográfica, localização territorial, inserção na rede de bacias hidrográficas, inclusão na dinâmica de movimentação de ventos, pela disposição no relevo, do clima tropical da região, etc. Como, então, explicar e conectar o meu espaço vivido, com tantos outros estruturados em uma complexa rede de economias, climas, geomorfologias, etc. que desvalorizam as formas de representação do lugar e suas particularidades? A Geografia humanista valoriza diversos espaços e se “o espaço vivido deve, portanto, ser compreendido como um espaço de vida, construído e representado pelos atores sociais que circulam neste espaço, mas também vivido pelo geógrafo, que, para interpretar, precisa penetrar completamente este ambiente [...]” (GOMES, 2003, p. 319), como a Geografia vai “descrever o mundo”, se suas formas de representação não atingem as finas ranhuras do espaço, e se o geógrafo também não vai a todas as partes do mundo. Sendo o lugar, o lócus onde se germina a construção do espaço político, este fica encoberto por meios inadequados de mapeamento, porque não há como expressar a totalidade das ações de poder no espaço territorial e se não é devidamente representado, a cadeia estrutural da realidade perde sentido. Como é sabido, o geógrafo não pode estar em todas as partes do mundo. O mapa é que tem a finalidade de informar ao leitor um conhecimento mínimo sobre uma realidade expressa em uma imagem. Todavia, devido a essas reduções da representação cartográfica, os lugares mapeados são frequentemente dissociados da realidade que tentam captar e apresentar. Para tentar responder a essas questões, proponho um olhar ao passado, resgatando duas expressões de Humboldt. Não se trata aqui de realizar uma discussão epistemológica sobre a dualidade da concepção geográfica, mas apenas jogar luz sobre dois aportes teóricos desse prussiano. Humboldt enfatiza que o geógrafo, determinado a realizar um estudo
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    30 geográfico, deve sevaler, de duas abstrações da realidade; a primeira, o prazer da contemplação que o olhar geográfico minucioso pode proporcionar ao observador, quando esse constata a numerosa diversidade das formas e dos fenômenos, que poderiam ser descritos poeticamente. A segunda é o prazer intelectual de compreender as leis gerais da natureza, que podem dar a ideia de supremacia sobre outras ciências, porque a Geografia é incumbida com do papel de síntese. Assinaladas a capacidade de descrição e relação dos fenômenos pelos geógrafos, uma representação adequada dessa simbiose seria de suma importância para solucionar alguns dos problemas de representação cartográfica da realidade espacial. Tal representação deve repousar no que circunda o espaço de vivência, o que implica numa descrição política de miniespaços, onde o homem age. A paisagem a que me refiro, e para a qual defendo a elaboração de uma cartografia por meios alternativos, não é uma paisagem naturalizada, tendo o homem como observador apenas. É uma paisagem política, onde o homem estende sua mão e toca o espaço palpável. Para o qual ele simplesmente não vira as costas quando tira uma fotografia, na qual quer captar ao fundo certo horizonte da paisagem. Esse homem deve segurar a câmera e tocar o ponto no qual pretende inferir; somente assim pode explicá-lo e moldá-lo quando o flash acontece. Tirar apenas uma fotografia de uma paisagem é como, se no ato do flash, o camponês fizesse pose para a câmera e deixasse de realizar o seu trabalho em seu ambiente de vivência. Também não estou sugerindo, uma sequência de imagens em ângulos diferentes para explicar um lugar: isso não seria suficiente, pois esta possibilidade descaracterizaria o papel do geógrafo e de seu olhar geográfico. Outrossim, reconheço a impossibilidade de representar tudo do espaço geográfico em um pedaço de papel. Por isso, a capacidade técnica de síntese do geógrafo precisa ser valorizada, uma vez que sua competência profissional deve permitir- lhe realizar a interseção entre diversas formas de representar a realidade espacial cartograficamente, sejam elas verticais, horizontes, oblíquas, panorâmicas, etc. Por outro lado, não estou querendo inculcar na cartografia, desenhos desprovidos de caráter científico. Saliento apenas que a cartografia não pode ficar refém do modelo de representação vertical, quando a gama de realidades vivenciadas que ela quer/deve/precisa explicar é tão complexa. Sustento que seja valioso para o geógrafo fazer uso de outras formas
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    31 de captação darealidade espacial, relacionando-as com as ações de poder no meio, que empreguem a arte e a técnica da descrição, impregnadas e impressoras do raciocínio geográfico: esse, é o mapa-paisagístico que procuro e para o qual, neste trabalho, proponho uma alternativa de elaboração. À inquietude que esse encaminhamento de proposta possa estar proporcionando, é que me movimentou nessa pesquisa, e na qual busco esboçar algumas considerações. Nos estudos até aqui realizados para esta pesquisa, constatei que existem problemas na representação da realidade espacial pelas técnicas da cartografia tradicional, disponibilizadas para o curso de graduação de Geografia. A principal dificuldade em representar a realidade espacial parece acontecer quando essa busca atinge o nível do lugar, possível apenas numa representação em grande escala. Essa dificuldade existe mesmo quando o mapa é obra de um raciocínio geográfico maduro e complexo. Então, para captar a realidade espacial vivida em uma folha de papel, que seja contundente com a realidade do lugar, em especial para instrumentalização da Geografia Escolar, proponho novas alternativas de leitura do espaço local, ou do lugar. É aqui que o mapa-paisagístico se insere, revelando uma malha de ações sobre a estrutura humanizada, onde pode se notar o peso das energias humanas agindo sobre o espaço e com as pessoas. Diferente das formas tradicionais de mapeamento, que se prendem no formato de representação vertical, o mapa-paisagístico está livre desta lei. Como ele busca descrever a comunhão de interações numa relação de totalidade-totalizante com o lugar, suas necessidades de absorção do indivíduo-real-espaço são outras e mais diversas (SANTOS, 2004). Esta construção se encontra no último nível de descrição da realidade espacial, seu propósito é absorver as relações de poder pessoa a pessoa e também suas relações com o espaço – esta última contida nos objetos espaciais. Cabe ao mapa-paisagístico descrever o lugar, demonstrando a transparência de uma sequência de ações humanas empreendidas pelo homem no espaço. Sendo assim, sua finalidade última é apresentar o significado que o espaço tem para os homens, por meio das ações desses no espaço, ações que repousam em certos ambientes, dando sentido à vida em determinados lugares. A verdadeira anatomia do espaço, da qual o homem também faz parte como um agente transformador e peça importante em toda a dinâmica, que não é mecânica, só pode ser descrita pela gama e comunhão de todas as imagens, sejam elas: verticais, horizontais, oblíquas,
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    32 panorâmicas, etc. Ressaltaras ações humanas que moldam o espaço, dando-lhe um significado e uma identidade ao homem, é o grande objetivo a se alcançar neste trabalho. Portanto, representar o “espaço real”, não estático, por meio das ações, entendido como o espaço de vida, reforça o entendimento da produção do espaço geográfico pelo homem. Porém, como fazer isso? Entendo que instrumentos como as HQs podem servir como material concreto que possibilite aprimorar a visão da realidade espacial e temporal, principalmente quando o indivíduo leitor não se encontra em contato direto com o espaço. Para isso, usarei, para exemplificar a compreensão do raciocínio geográfico que busco desenvolver para composição de um mapa-paisagístico, o trabalho do cartunista e jornalista Joe Sacco, “Palestina: na Faixa de Gaza” (SACCO, 2003), considerando-o como bastante apropriado como aporte instrumental. Sacco nasceu na ilha de Malta, em 1962, passou sua infância na Austrália, mas, ainda jovem, mudou-se para os Estados Unidos, onde se formou em jornalismo pela Universidade de Oregon. Seu primeiro grande trabalho que retratou conflitos geopolíticos foi “Palestina: Uma Nação Ocupada” (SACCO, 2000). Este trabalho lhe consagrou o Prêmio HQ Mix 2000. Em 2001, novamente recebeu o mesmo prêmio com seu segundo grande trabalho “Área De Segurança Gorazde” ou “Gorazde: A Guerra Na Bósnia Oriental” (SACCO, 2001). Na sequência, produziu ainda outro trabalho importante envolvendo conflitos geopolíticos: “Uma História De Sarayevo” (SACCO, 2005). Os trabalhos de Sacco, mencionados acima, reúnem o que denomino elementos básicos do mapa-paisagístico: valorizam a forma e geometria dos objetos espaciais; são multi representativos; captam a ação do homem no espaço, por meio de uma sequência de ações descritas que revelam uma particularidade, isto é, a identidade do lugar construída pelas pessoas; apresentam pontos de fuga, que constroem a noção de profundidade da imagem; estabelecem relações proporcionais entre pequenas estruturas e conjuntos do miniespaço em interação com o homem. O crivo de seu método é acentuar as formas do espaço, em conexão com as ações de seres humanos, à medida que a projeção do indivíduo-realidade se aprofunda. Mas não num sentido do homem habitando a tela da superfície terrestre, pois como se pode notar, a obra de Sacco pode ser entendida como um conjunto de mini quebra-cabeças do lugar, acrescido de enquadramentos multiformes em diversas orientações visuais. A realidade vivencial
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    33 apresentada por Sacco,não é esboçada em uma única tela, ainda mais numa tela plana visível apenas na visão vertical, ela é composta por diversas telas maleáveis, orientadas em diversos sentidos que se entrelaçam por meio de nós, construindo assim uma representação de uma dada realidade socioespacial que se pode dizer conectada com o quadro de vivência de um lugar. Seu trabalho é, sobretudo político, carregado de uma estética precursora e revolucionária, contendo informações históricas enquadradas no cotidiano comum, vivido de indivíduos ordinários. O cotidiano e o indivíduo ordinário são conceitos desenvolvidos por Certeau (2008) que visa apresentar o que é a vida, no rés do chão, no dia-a-dia. Segundo ele, o cotidiano se constrói como espaço e como tempo, sem glamour de excepcionalidade, sem a artificialidade de uma criação intencional para descrição. Com esse entendimento, é possível compreender, também, ações de poder no espaço; que em momento algum são desprovidas de enfoque, sejam elas um ato violento, uma simples fala, ou mesmo, um olhar atento. Em “Palestina: na Faixa de Gaza”, Edward W. Said faz uma homenagem crítica do trabalho de Sacco no prefácio da obra. [...] Suas imagens são com certeza mais gráficas do qualquer coisa que você possa ler ou ver na televisão. Joe é uma presença atenta, às vezes cética, ás vezes saturada, mas na maior parte do tempo compreensiva e engraçada, como quando ele nota que uma xícara de chá palestina quase sempre é atolada de açúcar, ou que os homens, talvez involuntariamente, se reúnem para trocar histórias de pesar e sofrimento assim como os pescadores comparam o tamanho dos peixes, e caçadores, o porte de suas caças (SAID, 2003, p. x). Said também advoga que, Sacco absorve a [...] realidade existencial vivenciada pelo palestino médio quando em sua descrição da vida em Gaza, o inferno nacional. A ociosidade do tempo, a pobreza (para não dizer a sordidez) da vida cotidiana em campos de refugiados, a rede de trabalhadores voluntários, mães desoladas, homens jovens desempregados, professores, policiais, o onipresente de chá ou café, a sensação de confinamento, lama e feiúra transmitida pelo campo de refugiados, algo que simboliza toda a experiência palestina - isso tudo é descrito com precisão quase assustadora e, paradoxalmente, de forma delicada [...] (SAID, 2003, p. xi). E salienta, se o leitor [...] prestar atenção, vai perceber a descrição cuidadosa de diferentes gerações: como crianças e adultos fazem suas escolhas e vivem sua pobre existência, como alguns falam e outros ficam em silêncio, como vestem casacos velhos, jaquetas de todos os tipos e hattas quentes. Numa vida improvisada nos limites de sua terra natal, onde se tornaram as criaturas mais tristes, desprovidas de poder e contraditórios, com um forasteiro que não é bem-vindo [...] (SAID, 2003, p. xi).
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    34 Em suma, o trabalho de Sacco pode ser considerado uma descrição poética estruturalista, isto é, uma estrutura espacial do lugar, pois suas representações descrevem o indivíduo condicionado aos seus espaços vividos, numa espécie de cadeia de objetos espaciais, com suas formas bem destacadas em contado com as práticas do homem num meio. Esta geometria das formas espaciais e de ações humanas integradas por meio de práticas de poder no espaço de vivência, é que caracterizam sua obra como única, no que se aloca um paralelo político oculto, mas presente e atuante. Destaca-se que Sacco não fica preso às referências políticas que abrangem ações militares: sua percepção é mais profunda, ele aborda o cotidiano do conflito – justamento o que interessa mais a este trabalho, pois na maioria das vezes, só se toma conhecimento do conflito na Faixa de Gaza, quando os jornais informam sobre algum “homem bomba” ou coisa do tipo. Sacco elaborou um trabalho minucioso, em dois volumes, durante sua estada em Jerusalém, na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, entre o fim de 1991 e início de 1992. Parte de sua jornada é relatada em “Palestina: na Faixa de Gaza”, onde ficou pouco mais de uma semana em dois campos de refugiados, Nuseirat e Jabalia. É nesta vivência de Sacco, que vou realizar uma breve análise voltada para fins de trabalho na educação básica (ensino médio mais apropriadamente). Os recortes escolhidos não devem ser vistos como resumo da obra de Sacco e tampouco como programa de um conteúdo fechado para se utilizar HQs na sala de aula. A obra de Sacco é multifacetada e não pode ser aprendido aqui em sua totalidade. Vou expor, apenas, algumas sugestões de assuntos que podem ser trabalhados na sala de aula utilizando a HQ de Sacco, tendo como foco principal, desenvolver a sensibilidade crítica dos alunos. Mas antes, cabe ressaltar que foi [...] entre os séculos XV e XVII, [que,] o mapa ganhou autonomia. Sem dúvida, a proliferação das figuras „narrativas‟ que o povoam durante muito tempo (navios, animais e personagens de todo o tipo) tem ainda por função indicar as operações – viagem, guerreiras, construtoras, políticas ou comerciais – que possibilitam a fabricação de um plano geográfico. Bem longe de serem „ilustrações‟, glosas icônicas do texto, essas figurações, como fragmentos de relatos, assinalam no mapa as operações históricas de que resulta. Assim a caravela pintada no mar fala da expedição marítima que permitiu a representação das costas. Equivale a um descritor de tipo „percurso‟. Mas o mapa ganha progressivamente dessas figuras: coloniza o espaço delas, elimina aos poucos as figurações pictóricas das práticas que o produzem. Transformado pela geometria euclidiana e mais tarde descritiva, constituído em conjunto formal de lugares abstratos, é um „teatro‟ (este era antigamente o nome dos atlas) onde o mesmo sistema de projeção justapõe no entanto dois elementos diversos: os dados fornecidos por uma tradição (a Geografia
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    35 de Ptolomeu, por exemplo) e aqueles que provinham de navegadores (os portulanos, por exemplo). No mesmo plano o mapa junta lugares heterogêneos, alguns recebidos de uma tradição e outros produzidos por uma observação. Mas o essencial aqui é que se apagam os itinerários que, supondo os primeiros e condicionando os segundos, asseguram de fato a passagem de uns aos outros. O palco, cena totalizante de origem vária são reunidos para formarem o quadro de um „estado‟ do saber geográfico, afasta para a sua frente ou para trás, como nos bastidores, as operações de que é efeito ou possibilidade. O mapa fica só. As descrições de percursos desapareceram (CERTEAU, 2008. p. 206, 207, grifos do autor). Após esse longo parágrafo de Certeau, que ajuda a esclarecer algumas questões de como o mapa surgiu e se expandiu, é necessário frisar, que o mapa-paisagístico não consiste num retrocesso do modelo de representação espacial ancorado no itinerário de percursos no espaço, como se esse fosse uma linha ligando pontos entre os lugares. Mas sim, num modelo de complemento das cartografias do lugar, nesse sentido, os relatos ajudam não apenas a conectar pontos no espaço, mais também (usando a expressão de seu livro) a triturá-los, por isso ele é vivencial, multiorientado e multifacetado. Esclarecido algumas questões que pudessem gerar ambiguidade, passo à apresentação de representações. Selecionei quinze páginas da obra de Sacco para trabalhar. Elas estão divididas em seis grupos. Advirto que algumas apresentam um teor de violência maior, cabendo ao professor julgar se devem ser usadas ou não na sala de aula. Não creio que haja problemas no trabalho de Sacco, pois ele sabe poupar o leitor de cenas desnecessárias, sem prejudicar o seu trabalho. Insisto que o trabalho de Sacco não deva ser utilizado apenas como manual de denúncia. Ele é isso também, mas se destaca como um verdadeiro documento da triste realidade de opressão aos palestinos. De tal maneira que, o professor não deve se apoiar nele para fazê-lo seu palco de denúncia. Em minha concepção, Sacco possibilita uma conexão entre uma realidade em ampla dimensão, de pequena escala, e a do espaço de vivência de um lugar, por meio de uma rica malha de trações que revelam um ambiente, que fica oculto em representações tradicionais da cartografia. Acima de tudo, este é um material didático, que propicia ao professor de Geografia trabalhar assuntos do campo desta ciência de forma crítica e politizada, desde que esse utilize outras fontes junto ao trabalho de Sacco, na sala de aula.
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    36 Quadro deproposta de temáticas para se trabalhar o conflito geopolítico entre israelenses e palestinos na Faixa de Gaza, utilizando “Palestina: na Faixa de Gaza” (SACCO, 2003). Grupo Temática Contextualização A - páginas Observando o espaço Escolhi essas duas páginas para servirem como instrumento de leitura 3 e 73 de vivência do espaço de vivência. Na p.3, a visão é panorâmica, como se fosse um quadro feito do terceiro andar de um prédio. A p.73 representa um nível mais baixo, uma imagem horizontal que revela uma profundidade em seu ponto de fuga: esta se parece com uma visão de uma pessoa em cima de uma escadinha. Ambas revelam uma estrutura do ambiente, onde o homem está presente e agindo. No entanto, a p.3 se parece mais com um mapa, pois sua visão se aproxima do tipo vertical. Isso é notável quando se observa o telhado das casas. Sua estrutura paisagística é mais clara, embora apresente uma menor dimensão. A p.73 é mais poluída, pois as estruturas estão sobrepostas pelo sentido da imagem horizontal, esta se parece mais com a visão que temos cotidianamente no ambiente urbano. B - páginas Sionismo (a formação Nas páginas 21 e 81, o professor de Geografia terá um excelente 21 e 81 de Israel) material didático para trabalhar o conteúdo histórico do conflito entre israelenses e árabes. Tanto na página 21, como na página 81, a história do conflito é narrada por personagens que vivenciaram tal acontecimento. Fazendo uso de um material adequado que preencha as lacunas das experiências relatadas, o professor de Geografia pode construir uma aula de grande teor crítico, trabalhando com o fato histórico associado às experienciais particulares vividas. Observe que as duas histórias são muito semelhantes, o que ajuda a compreender melhor a história dos indivíduos associada à cartografia de um povo. Nessas duas páginas, como nas dos conjuntos C, D, E e F. Sacco afina sua percepção e se aprofunda na cartografia do lugar, ao enxergar indivíduos vivendo em miniespaços do lugar. Também concede visibilidade as suas vivências ao expor seus modos de vida condicionados em certa medida pelo ambiente de conflito, da voz a indivíduos descartados pelas cartografias verticais representando seus corpos no lugar, associando-os a produção histórica do mesmo, revelando a identidade desses com o meio. Em suma, pode se dizer que Sacco percorre diversas salas de um grande compartimento, ele desbrava diversos planos de visão que nas representações verticais são reduzidas. C - páginas Intifada de 1987 Nessas duas páginas, mais uma vez, Sacco volta no tempo para 49 e 50 explicar um fato histórico do conflito entre israelenses e árabes por meio de experiências vividas. Tudo tem início quando quatro crianças palestinas são mortas por um caminhão israelense, o que inflama a população da Faixa de Gaza. Contudo, os primeiros alvos são um grupo de palestinos que se divertiam jogando cartas, situação que é entendida pela massa revoltada como desagregação pela causa palestina, sendo essas pessoas repremidas fisicamente. Como essas duas páginas vão deixar claro, a Intifada foi um movimento espontâneo, ao mesmo tempo em que é também um resultado histórico das submissões dos palestinos aos israelenses. Dificilmente outro conteúdo será tão revelador e didático como essa passagem da obra de Sacco para explicar o início da Intifada. Obs.: Sacco relata apenas a Intifada de 1987, pois na segunda Intifada de 2000, ele não retornou a Faixa de Gaza para realizar trabalho semelhante. D - páginas Meninos de Gaza As páginas 17 e 55 relatam a triste experiência dos meninos militantes 17 e 55 pela causa palestina na Faixa de Gaza. Chamo a atenção para o crime dos direitos humanos quando vários desses meninos são punidos sobcondições de tortura. Sacco demonstrou uma atenção especial aos meninos da Faixa de Gaza: em várias passagens eles estão presentes, seja em primeiro plano ou como figurantes na densa paisagem de seu
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    37 quadrinho. Mais uma vez o trabalho de Sacco se mostra pioneiro, dando visibilidade a indivíduos “descartáveis”. Pode se ressalvar nessas duas páginas, que o espaço pode ser adaptado aos afazeres humanos, tudo dependerá do encaminhamento da ação. Assim, um hospital pode se tornar lugar de tortura, isso dependerá das geometrias do poder se alojando em pequenas formas espaciais, que geram territórios. E - páginas Fronteiras e controle Nessas seis páginas, talvez, esteja o conteúdo mais interessante para 22, 77, 78, desenvolver o olhar crítico dos alunos. Na p. 22 se percebe logo que a 100, 129 e fronteira pode ser a porta de sua casa, quando é noite. Nas ps. 77, 78 e 130 100 fica claro que a Faixa de Gaza é uma área de total vigilância, pois o território é recortado por uma malha de fronteiras físicas, que, porém, só são eficientes quando vigiadas. Isso fica claro na p. 100, quando a menina acha uma falha no cercado e rompe o bloqueio, não por causa do buraco na cerca, mas porque ela não estava sendo vigiada no momento. É interessante pensar como a Faixa de Gaza é extremamente controlada por cercas, muros e olhares, mas que num segundo se transforma em terra incógnita, onde ninguém sabe o que se passa. Por fim, as ps. 129 e 130 concluem a temática, agora tomando como exemplo as vias de transporte de veículos motores: a mobilidade para os palestinos se mostra extremamente tênue e dispendiosa, seja internamente ao território de Gaza ou nas suas fronteiras internacionais. F - página Expansão dos Em toda sua obra, Sacco aborda as questões do expansionismo 110 assentamentos judaicos israelenses sobre terras palestinas. Isso é notável na construção do território da Faixa de Gaza, quando os palestinos são empurrados e espremidos para a franja do território na fronteira com o Egito. Entretanto, isso fica mais claro quando ele sai da Faixa de Gaza e conversa com duas judias em Jerusálem. Cabe pensar aqui, na produção de um espaço passivo aos judeus, e outro, oneroso aos palestinos. Essas são algumas das temáticas, selecionadas como hipótese para se desenvolver um trabalho em sala de aula utilizando “Palestina: na Faixa de Gaza” (SACCO, 2003). Saliento, mais uma vez, que não discuto todas as possibilidades e assuntos que podem ser trabalhados na sala de aula. Temáticas importantes como a política de Israel no controle da água potável e a economia do território da Faixa de Gaza limitada por Israel, também podem ser desenvolvidas tomando como base a obra de Sacco. Segue-se nas próximas páginas o conteúdo trabalhado e discutido acima, lembrando que esses estão divididos em seis grupos (A, B, C, D, E, F). Caberá agora ao professor de Geografia analisá-los e fazer a sua avaliação.
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    38 Grupo A –Observando o espaço de vivência (páginas 3 e 73).
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    40 Grupo B -Sionismo (páginas 21 e 81).
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    42 Grupo C -Intifada de 1987 (páginas 49 e 50).
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    44 Grupo D -meninos de Gaza (páginas 17 e 55).
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    46 Grupo E -Fronteiras e controle (páginas 22, 77, 78, 100, 129, 130).
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    52 Grupo F -Expansão dos assentamentos judaicos (página 110).
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    53 Capítulo 3 Do geralao lugar: um caminho a se percorrer no estudo de Geografia Novas formas de cartografar o mundo, não apenas pelo método da visão vertical, implicam também, novas projeções da realidade, por meio de outros modelos de representação. Questionar o uso da visão vertical como fórmula, senão única, mas primordial ou preferencial, que possibilite o exame dos fenômenos, não necessariamente significa dispensar a representação vertical, mas sim, integrá-la a outras projeções, mapeamentos e cartografias da realidade. Na proposta deste trabalho, uma que valorize a realidade espacial vivida de indivíduos descartáveis. No percurso teórico, até aqui empreendido, que vai da análise mais geral da Geografia, num âmbito global ou internacional, até a categoria lugar, destaco, insistentemente, que alcançar a representação de uma realidade, significa, sobretudo, vasculhar todos os desdobramentos do espaço, em busca de conexões entre fatores do lugar e do grande conjunto espacial. É claro, que em determinadas representações, o modelo vertical será o bastião básico, mas em outros, isso não necessariamente ocorrerá. O mais importante, é fazer a leitura do espaço associando conjuntos espaciais por meio de escalas diversas, e variadas formas de representação da realidade que conectam o geral ao lugar. Abranjo que a primeira leitura de um dado espaço implica o uso da representação vertical. Contudo, se o objetivo é alcançar um determinado ponto, e atingir a esfera do lugar, isso indica que se faz necessário avançar através de diversas camadas de entendimento da realidade socioespacial. Tal manobra conduz a uma releitura do espaço, para que ela seja condizente com a realidade do espaço de vivência, sua tutela não pode ficar presa a apenas a uma forma de representação da realidade espacial. Numa guerra, a representação vertical é a arma dos generais – seja por meio de um mapa ou da imagem de um satélite –, dominar essa técnica se mostra um artifício louvável para a estratégia militar. Realizar uma operação militar cirúrgica, como por exemplo, jogar uma bomba na cabeça de Saddam Hussein3, em Bagdá, tornou-se algo possível com as novas 3 Estou me referindo ao tempo em que Saddam era vivo, quando o presidente iraquiano nunca dormia no mesmo local que tivera passado a noite anterior, pois temia ser alvejado pelo exército norte-americano.
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    54 tecnologias. No entanto,interferir nesse mesmo espaço, por outros caminhos que não sejam verticais, se mostra tarefa mais árdua. Avançar sobre terras rugosas é uma atividade que demanda grande esforço e tempo, estando sempre à mercê de surpresas e armadilhas. A representação vertical é o alicerce dos moldes estratégicos de se intervir no espaço, porém, quando se adentra no lugar, logo se percebe que a representação vertical é insuficiente, pois no nível do lugar, como venho procurando mostrar, a realidade vivencial não é construída apenas por abstrações verticais. Com o viés de compreensão do espaço político em sua integridade, levando em conta as micropolíticas, instaladas nos lugares, nota-se que o mapeamento vertical não alcança a complexidade do viver, por isso o viver é amputado das representações. Assim, dês-socializa- se miniespaços políticos, ao nível do lugar onde se busca uma realidade rugosa e não aplainada como um papel liso. Nesse nível não se pode empregar apenas os meios de representação do espaço que usam a visão vertical, pois há necessidade de se alcançar, também, a descrição da paisagem altamente humanizada, onde os homens estão em ação, por meio de algo que revele outras dimensões, outras vivências, outra realidade. Para atingir esta meta, muito mais complexa do que mapear um dado espaço de forma tão milimetricamente definida, como o objetivo de jogar uma bomba ou sequestrar Saddam Hussein, por exemplo, não basta apenas pular do avião e descer em Bagdá. Para a complexidade de compreensão e representação ensejada, torna-se necessário “fatiar” as diversas camadas de entendimento da realidade socioespacial, constatando suas conexões múltiplas em diversos níveis. No nível do lugar, a malha de ações se apresenta muito mais densa e diversificada, estando essa agarrada a cotidianos, viveres, culturas e etc. Quando se alcança o nível do lugar, se vivência a estrutura do meio, se faz parte e também se sofre as energias do mesmo: assim, modos de vida que pareciam escondidos nas representações verticais, se revelam a cada momento. Busca-se então, que os conjuntos espaciais se conectem por meio das miniestruturas do lugar. Essa codificação é que pode romper o entendimento de realidade espacial como plana, como se fora a superfície de um papel liso. Todavia, as cartografias tradicionais, debruçadas sobre a visão vertical, elaboram uma representação plana do espaço, em acordo com a escala utilizada. Dessa forma, podem representar um espaço mais vasto, embora com menor riqueza de detalhes, se a escala
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    55 utilizada é pequena.Se a escala é grande, a riqueza de detalhes será maior, porém, a extensão representada será menor. Em meu entendimento, a preocupação de Lacoste (1988) era nivelar essas disparidades na associação de fenômenos em conjuntos espaciais variados, que necessitam de escalas variadas para serem representados e articulados a outros conjuntos espaciais em tais circunstâncias. Por isso, a finalidade de se construir um quebra-cabeça, onde os conjuntos espaciais se encontram sobrepostos e integrados por suas interseções em diversas escalas. Daí que se assemelhem a um nó, numa peça de tricô. Como se não bastassem às dificuldades de atingir a representação de espaços diferenciais, outro problema se aloja no nível do lugar: à medida que a representação vertical se aprofunda em sua descrição, se apresentam mais obstáculos em inserir o homem nesse mapeamento. Se o espaço ganha formas mais precisas no nível do lugar, concomitantemente há uma tendência de invisibilização do homem nesta representação. Esquema 1: modelo de representação vertical Para ilustrar o raciocínio, valho-me do esquema 1 que consiste num modelo de representação vertical das cartografias clássicas. Nele estão contidos dois modelos simbólicos de determinado espaço: o quadro interior esboça uma representação em grande escala,
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    56 enquanto o quadroexterno esboça uma representação em pequena escala. Ambos estão impregnados de objetos espaciais. O primeiro valoriza as formas, o segundo valoriza a extensão. Cada um deles se torna o mais indicado para uma espécie de ação no espaço: se a pretensão é de interferir num bairro, o primeiro (o quadro interno) é o ideal, mas se o anseio é intervir na cidade, o segundo (o quadro externo) é o indicado. Tomando como exemplo o esquema 1, nota-se que um mesmo conjunto espacial pode receber descrições cartográficas diferentes e que isso vai depender da escala utilizada, visando determinados fins. Mas como Lacoste (1988) demonstra4, que é possível achar a interseção entre conjuntos espaciais de diferentes ordens de grandeza, para agir estrategicamente no espaço. Para explicar isso, ele se vale de um exemplo da Guerra do Vietnã (anos de 1965, 1966, 1967 e 1972) quando o exército estadunidense orquestrou um plano de destruição de diques naquele país, com o objetivo de inundar as planícies densamente povoadas do Vietnã nos períodos de cheia. Assim, o bombardeio era dirigido a pontos estratégicos, buscando causar o máximo de estrago. Mesmo o conjunto espacial do homem estando presente nesta representação, note que ele permanece no nível da visão vertical, sendo mais legível a presença do homem, na representação espacial em pequena escala, e decaindo de representatividade à medida que se atinge a grande escala. Isso é notável, pois a população das planícies vietnamitas, naquele tempo, era em torno de 15 milhões, ocupando uma extensão relevante, mas ali também o espaço era a forma no objetivo, e, no nível do lugar, o prejuízo econômico e a matança era o objetivo: o homem, meta a ser atingida na manobra ofensiva, era apenas um elemento espacial, continuava não representado. Constata-se que a cartografia clássica estabelece relações entre conjuntos espaciais apenas no nível da representação vertical, seja ela em menor ou em maior escala. Fica assim inibida de atuar com outras representações, permanecendo entrincheirada numa adequação da realidade que não experimenta outros caminhos de interpretação do espaço além da descrição da visão vertical, não fornecendo, portanto, outros modos de se ler e de se intervir no mundo. 4 O método dos “quebra-cabeças”: Lacoste estabeleceu sete ordens de grandeza e diferentes níveis de análise espacial, as quais, neste trabalho, se reduzem aos dois extremos da hierarquia com elas montada, ou seja, pequena escala e grande escala ou grande ordem e pequena ordem. Saliento que essa noção é relativa, como, por exemplo, no esquema 1, onde a pequena escala é o quadro externo e a grande escala é o quadro interno. Ambas não circundam os extremos da hierarquia das sete ordens de grandeza estabelecidas por Lacoste, mas, neste trabalho, essa adaptação é constante e necessária para os objetivos traçados.
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    57 Como discutido anteriormente, superar as imperícias de representar os miniespaços, que são os lugares, não é tarefa fácil. No entanto, tais dificuldades podem ser minimizadas a partir de trabalhos gráficos como o de Sacco, que buscam representar os indivíduos que são dominados e afligidos pela representação vertical de determinados centros de poder, através de um corte na tela dos atores hegemônicos do poder, criando uma espécie de vácuo de saída para outra cartografia da realidade, que se mostre mais significativa para com a realidade social. Neste trabalho, a questão palestina pode representar bem a situação de um lugar. Os palestinos são uma particularidade, cujas forças do entorno territorial tendem a suprimir do mapa, por diversas razões, dentre as quais questões políticas, econômicas, culturais envolvendo as relações de poder sobre o território. Entretanto, sua existência e presença, os fazem ser parte do universo espacial, estando, contudo, cartograficamente, apenas no nível do que denomino de segunda linha de realidade, isto é, numa representação elitista, construída pelos atores hegemônicos do poder em escala mundial, onde se tornam invisíveis no seu cotidiano, só adquirindo representação como foco de tensão. Cartografar as pessoas e não apenas o conjunto espacial de Gaza, pode significar imprimir-lhes visibilidade no cenário mundial, problematizando sua situação, mesmo à custa de avaliações diversificadas. Resumi- los a um ponto no grande conjunto espacial, por outro lado, possibilita maquiar realidades, projetando esse povo apenas por meio de concepções estereotipadas e forjadas por grupos hegemônicos do poder. Desobstruir essa visão induz romper o gargalo dos modelos de representação vertical, que não inserem as particularidades em sua cartografia, tal limite se encontra no nível da menor representação possível num mapa tradicional, algo em torno de aproximadamente de alguns metros. Quando a profundidade de observação do espaço gira em torno de um espaço tão pequeno, se faz necessário reverter às projeções, pois nesse nível, apesar do espaço ter adquirido melhor forma, ele deixou de fazer relação entre os conjuntos espaciais (incluindo o homem), sendo no máximo descritos alguns objetos desse espaço. Tal alienação do que se vislumbra como real, só pode propor multirrepresentatividades orientadas em diversos níveis. Essa é a locação onde o mapa-paisagístico se insere. Estando claro isso, um esquema generalista, que represente o percurso do geral ao lugar, pode ajudar a compreender a árdua tarefa que se deseja alcançar. Também ajuda a visualizar as permutas realizadas entre os níveis de compreensão da realidade espacial. No esquema abaixo, é possível verificar que um
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    58 lugar, numa representaçãovertical, fica resumido a um ponto, seja em pequena escala ou em grande escala. Mesmo quando se utiliza uma grande escala para acentuar a descrição do espaço, ele continuará sendo um ponto, só que agora maior, mas ainda assim um ponto numa representação plana. Isso ocorre porque não se inverteu a maneira de ler o mundo, apenas se variou de escala. Esquema 2: quadro geral do percurso do geral ao lugar Por isso, se faz necessário, compreender que as práticas desenvolvidas num lugar, como na Faixa de Gaza, são ações humanas, carregadas de significados, que se instalam em determinadas geometrias estruturais, dando uma configuração particular ao lugar (a morfologia espacial). Pela incorporação do quadro de vivência na análise da carta
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    59 conformasse um rompimentoda representação simplista, alheia ao conjunto de relações, constituindo o que se denomina neste trabalho de fissuras da representação espacial tradicional, que corresponde mais precisamente a uma leitura de maior profundidade da realidade socioespacial. Superando a visão extremamente banalizada de uma “zona de tensão” como polígono hachurado no mapa. Tais fissuras são decorrentes da transplantação de cenários que compõem a realidade em movimento sobre as representações hegemônicas. Dessa forma, tomando o caso da Faixa de Gaza, são fissuras na representação banal, e que no método elaborado neste trabalho, primou pela introdução da vida cotidiana dos palestinos no nível da representação cartográfica. A Faixa de Gaza como compartimento catalisador de energia humana, permite o mais fácil desenvolvimento de fissuras da representação espacial tradicional, onde fluem, no sentido de uma revindicação ou luta de uma causa de identidade de um grupo que habita o lugar. Ao adquirirem corpo e potência, superam a primeira linha da realidade de seu espaço de vivência oculto, onde se encontram suprimidos pelas cartografias dominantes. Nessa cavalgada, ao emergirem para a segunda linha da realidade, entram em conflito com a estrutura do status quo. Para postular sobre esse entendimento, é necessário ressaltar, que os quebra-cabeças, sejam os maiores ou os pequeninos, existem em decorrência de recortes espaciais e temporais mais profundos, que são depósitos de volumes de intensidade de ação de diversos fenômenos na superfície terrestre. A realidade espacial, não é construída apenas pela associação de fenômenos em suas linhas de ocorrência verticais, horizontais, ou mesmo, multiorientadas, mas, também, pelo peso de fusão e de atuação de tais fenômenos, onde o homem interage ativamente. De fato, existe um peso dos conjuntos espaciais e temporais agindo sobre a superfície terrestre, onde o homem também age modelando esses espaços. Achar a interseção entre alguns conjuntos espaciais em determinada escala e atingir o nível do lugar, implica relacionar essa construção a volumes de intensidade agindo na superfície terrestre, mesmo quando se consegue descrever o lugar. Tal descrição deve se ater, também, ao peso das energias que agem e modelam o lugar em ressonância com o espaço. Dessa maneira, quando se encontra a interseção entre alguns conjuntos espaciais – sejam eles clima tropical, vegetação de mata atlântica, relevo acidentado de mares e morros, hidrografia de rios volumosos e caudalosos, economia predominantemente agrícola, etc. – busca-se entender, o peso desses fenômenos agindo sobre o recorte espacial e temporal, indo desde o
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    60 geral ao local,pairando sobre o lugar – se faz necessário entendê-lo por meio de múltiplas representações. Num conjunto espacial, onde atua o clima tropical, por exemplo, este tipo climático não vai ter uma ação homogênea no espaço delimitado por sua atuação, mesmo estando sua ação espacial presa a certas leis, mais ou menos gerais, numa generalização. Ainda assim, existem linhas de fuga, que incluem as particularidades locais. Apresentando então, estações de seca e chuva, cujos, volumes de intensidades agem temporalmente e espacialmente de formas diferenciadas, além de agirem localmente diferenciadas, produzem fenômenos que repercutem em frases tais como: “em meu bairro não choveu”. Do mesmo modo, também, é ação do homem no espaço, diferenciada por estar em interação com esses e os outros elementos da interseção espacial. Tais pesos de intensidade, dos volumes depositados na superfície terrestre, geram trabalho entre a natureza+homem, natureza+natureza, homem+homem..., e assim sucessivamente, sendo que nessa interação, nessa comunhão entre elementos é que se formam as paisagens com significados para o homem. As fissuras da representação espacial tradicional que estamos trabalhando, buscam inserir nas representações o cotidiano da vida e relações de poder que permeiam a sociedade. A vivência ao ascender e atingir o nível da segunda linha da realidade, a linha de uma representação lisa da realidade. Infiltra-se num ideal travestido do lugar, que ganha forma espraiada no espaço, de uma causa comum ao lugar, como, por exemplo, o movimento nacionalista dos palestinos. Essas fissuras são representativas da teia de relações na dimensão do lugar, que estão sempre se deslocando e ganhando corpo. Como os homens não são estáticos no espaço, seu deslocamento no lugar também deposita nele volumes de intensidade. Isso me permite afirmar que quanto maior o contraste entre o representado e o vivido no espaço, maior a condição de inserir o cotidiano e a estrutura de poder na representação cartográfica. O esquema 3 esboça o processo pelo qual se insere na representação cartográfica situações do vivido, ou seja, da própria realidade como ela é, envolvida por antagonismos e conflitos. Embora, o esquema ainda seja superficial e incompleto, ajuda a ilustrar melhor o raciocínio desenvolvido neste estudo. Suscintamente, o retângulo superior diz respeito à segunda linha da realidade, isto é, a representação que se faz, geralmente, banalizada, da realidade. Já a primeira linha da realidade corresponde ao retângulo inferior, ou a própria
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    61 vivência e realidadedo lugar. O retângulo inferior, o que ilustra a primeira linha da realidade, constitui uma espécie de mosaico político, cultural e social. Ele, ao contrário das representações tradicionais, não pode ser entendido como algo liso, no sentido que esta última não abarca apenas o espaço e seus objetos imóveis, mas também, o cotidiano. Esquema 3: contato entre a 1º linha da realidade e 2º linha da realidade A questão do papel do lugar na organização espaço, e, sobretudo, como ponto de encontro entre o geral o local, age como pino de explicação do complexo geo-histórico, ganhando mais sentido, se o raciocínio caminha por essa linha. Por isso mesmo, a questão envolvendo os miniespaços, ou melhor, os lugares, são tão importantes como ação política. Como exemplo, o genocídio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial, conceituado como holocausto, só foi descoberto nos campos de concentração nazistas, ao nível de lugar. Para Certeau (2008) os percursos dos relatos organizam lugares numa ordem espacial. Seu raciocínio segue paralelo ao desse trabalho, quando afirma: “[...] os relatos [...] atravessam e organizam lugares; eles os selecionam e os reúnem num só conjunto; deles fazem frases e itinerários. São percursos de espaços” (CERTEAU, 2008, p. 199). Tomando esse aporte de Certeau, isso poderia ser postulado a esse trabalho como o discurso hegemônico dos atores dirigentes organizando lugares em escala mundial, no qual pretendem construir um grande espaço ordenado por um lócus de poder, isso é, um lugar.
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    62 Por isso não é possível abarcar toda a explicação de algum fato, por meio apenas de representações verticais de um espaço, mesmo quando realizadas através da sobreposição de vários conjuntos espaciais. Ainda que essa construção estabeleça conectividade entre os conjuntos espaciais da ordem de grandeza do continente europeu até a ordem de grandeza suficientemente pequena para atingir Auschwitz, e mesmo que essa relação entre os fenômenos dos conjuntos espaciais fosse construída por uso de associação de escalas variadas e adequadas, parece estar faltando algo. A vivência desses indivíduos no lugar, num tempo específico do lugar, em interação com a cadeia de geometrias espaciais do lugar, não implica em nada. Foi quando se atingiu o nível do lugar, com sua configuração espacial específica e também com suas práticas de vivência exclusivas, que os judeus superaram a condição de indivíduos descartáveis, superando um espaço ordenado por uma lógica de poder. Deste modo, se espraiaram pelos conjuntos espaciais produzindo uma “quase” totalidade espacial, acentuada pela colocação do povo judeu como vítima do nazismo durante a Segunda Guerra Mundial. Dito de outra forma, a realidade não é invertida: os judeus não saem da posição de vilões a mocinhos, ela é apenas descoberta, o que gera um ordenamento num sentido semelhante aos dos relatos de Certeau (2008). Quantas Auschwitz não esperam serem descobertas também? Pergunto-me se serão criados novos conceitos para se referir ao massacre de outros povos, sejam eles palestinos, iraquianos, ou outros. Parece, portanto, existir um lugar aqui, ali, em todo lugar, existe um lugar em mim e em você. Assim, quando a realidade for apresentada de maneira espraiada como lócus político de um único lugar, é preciso suspeitar. Não é possível, pensar a realidade espacial, mesmo no sentido amplo desse trabalho, como se ela fosse um papel liso: é preciso pensar em diversos lugares. É preciso pensar o lugar como se fosse uma bolinha de papel amassada. Pode-se sempre amassá-la e depois desdobrá-la, porém, sua forma nunca será a mesma após a ação. Quando se desdobra a folhinha de papel, é preciso notar que o tipo de papel será o mesmo de antes da ação, as palavras escritas também permanecem nele, mas a folha estará diferente: ela ganhou algumas rugas, tornando-se mais viscosa. Do mesmo modo, também é o espaço-lugar onde o homem habita e ao qual confere sentido.
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    63 Capítulo 4 Exercitando oraciocínio geográfico: uma pequena amostragem para reflexão Neste ponto da pesquisa, pode se afirmar, que a perspectiva de Geografia crítica, adotada e desenvolvida neste trabalho, se alojou numa determinada cavidade de criticidade; numa incessante perseguição da busca de uma nova leitura do espaço e de seus ambientes, com uma espécie de cartografia das geometrias dos lugares, que ganha significado nos espaços de vivência. Como estandarte desse viés, a cartografia dos que são dominados, se apresenta como uma projeção de uma realidade socioespacial que se pretende emancipatória. A abordagem desenvolvida neste trabalho permite explorar outras percepções e ir ao encontro de uma fórmula menos reducionista de representação da realidade espacial vivida, o cálculo não é de subtração, é de multiplicação, carregado de estética. Assim, a maior dificuldade dessa premissa se encontra nas cartografias verticais dos atores hegemônicos: transpor esse obstáculo, provém em tornar a representação mais condizente e próxima da realidade socioespacial. Além disso, atingir o nível do lugar e desbravar suas potencialidades se mostra uma vertente rica em novas descobertas. A Geografia Escolar pode ter um papel neste rumo, na qual [...] deve ser trabalhada de forma a instrumentalizar os alunos para lidarem com a espacialidade e com suas múltiplas aproximações: eles devem saber operar o espaço! Tal postura procura dar conta da compreensão de vida social refletida sobre os diferentes sujeitos, agentes responsáveis pelas (trans)formações. Com isso, parece ficar mais fácil para o sujeito reconhecer as contradições e os conflitos sociais e avaliar constantemente as formas de apropriação e de organização estabelecidas pelos grupos sociais e, quando desejar, buscar mecanismos de intervenção (CASTRIOGIOVANNI, 2007, p. 43). Com esse propósito, deve se estimular o exercício do raciocínio geográfico reflexivo, com um aporte pelo professor de Geografia, que coloca em pauta, o objetivo de buscar um raciocínio geográfico por parte dos alunos. Não é o caso do professor de Geografia elaborar um sistema fechado que fermente o raciocínio crítico. Estaria incorrendo num erro, se esse fosse o foco. Ao contrário, acredita-se sim, na importância de se instrumentalizar a construção de um raciocínio crítico. Para isso, o professor pode elaborar uma proposta que conduza e
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    64 propicie o desenvolvimentoda análise, seguindo até mesmo um determinado caminho, entretanto, sem cair em barreiras que fechem fronteiras. Tendo essa preliminar, um dos papéis de contribuição da Geografia Escolar, [...] reside na identificação e caracterização das constelações de regulação, isto é, dos múltiplos lugares de opressão nas sociedades capitalistas e das interligações entre eles. Além disso, propõe a „invenção de novos sentidos que resultem destas constelações‟, pois elas „são sementes de novos sensos comuns [sic] (SANTOS apud CHAIGAR, 2007, p. 79). Daí, a escolha do lugar “Faixa de Gaza” (local em estado de tensão e conflito permanente), na elaboração desse projeto de cartografia, que busca representar os que são dominados. Com a natureza do trabalho de Sacco (2003), articulado ao raciocino geográfico de Lacoste (1988), proponho uma cartografia do indivíduo. Busco uma cartografia mais rica e menos reducionista, que permita descrever pequenos espaços, onde habitam indivíduos descartados pelas representações disseminadas por grupos dominantes. Trabalho na perspectiva de produzir uma alternativa numa cartografia de representação das geometrias espaciais do lugar, altamente politizadas em um ambiente de vivência. O objetivo do mapa- paisagístico é inserir esses indivíduos no mapa, para que eles sejam representados e identificados, possibilitando assim, uma reflexão crítica da realidade espacial vivida, que caminhe em direção à formação de um senso comum mais humano e politizado. Para tanto, é preciso investir e considerar uma dada [...] sociedade midiática da qual a imagem é parte fundamental, ver algo significa, um pouco, a legitimação de sua existência. É nesse sentido que compreendo como importante conferir visibilidade [...] aos movimentos sociais de cunho emancipatório articulados nos espaços vividos. Afinal, aos olhos e ouvidos acostumados ao „deu na TV‟, o que não é visto não é lembrado, como diz aliás um ditado bastante antigo e popular (CHAIGAR, 2007, p. 82). Uma vez que se realiza a cartografia desses indivíduos, em seu espaço de vivência, eles deixam o estado de seres inanimados, como por exemplo, nos índices de população nos mapas que apresentam o homem em forma numeral, ou como, nos mapas que demonstram o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Faixa de Gaza. Como se o palestinos estivessem vivendo uma condição natural de suas pobres vidas, como simples objetos, num lugar fechado em determinada posição do Oriente Médio, próprio ao sofrimento dos palestinos.
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    65 Como pode se notar, os problemas geopolíticos envolvendo os palestinos mudam quando as escalas se alteram. Os fenômenos já não são os mesmos na variação de escala. Isso tudo, porque a forma do espaço também se altera na representação, adquirindo outra natureza. Um mapa vertical da Palestina pode demonstrar a perda de território do povo palestino, mas um retrato de uma viela na Faixa de Gaza revela um desastre humanitário ou genocídio. A reunião de alguns elementos do conflito geopolítico, envolvendo israelenses e palestinos, pode ser descrita como uma prática de destruição do espaço habitável dos palestinos, uma incessante tentativa de desterritorialização (HAESBAERT, 2007) desse povo. Portanto, explorar uma prática de ensino Geografia tomando o rumo deste trabalho, não é tarefa fácil. O meu desafio e objetivo é uma prática de ensino de Geografia voltada para uma construção de um raciocínio geográfico, que possibilite estabelecer uma ordem, entre os conjuntos espaciais, por meio de associação de escalas diversas. Seguindo uma linha de raciocínio relativamente simples, resumida, mas impregnado de teor de julgamento crítico, invisto nesse trabalho, que entendo mais adequado para o 3º ano do Ensino Médio, considerando também, o reduzido tempo que tinha para realizar a prática em sala de aula. Apesar da prática ter sido realizada em um ambiente escolar, em uma escola do sistema de ensino público do município de Vitória-ES, penso que resumir a aplicação desse estudo como viável a apenas em um único lugar, é desconstruir os alicerces dessa proposta. A prática de se pensar o espaço não se aloja em um grupo específico (estudantes), tampouco em um lugar próprio (a escola), mesmo que esse seja o lócus principal dos campos de lutas da Geografia Escolar. Afinal, pensar assim seria descartar as particularidades da proposta e conduzir o escopo desse trabalho a uma visão vertical, tendo a escola como o único lócus de se aprender e os alunos como grupo fechado e depósito de informações desse lugar. Desejo também, que outras possibilidades permitam a socialização e a vivência do que nele proponho, tal como livros, artigos, programas educativos em diferentes mídias. Então, o que proponho na sequência desse trabalho, é apenas uma amostragem de como se trabalhar o raciocínio geográfico do ponto de vista adotado nesse estudo. Com esse propósito, saliento que estabeleci alguns contornos na formulação da prática em sala de aula, visando atender o público desejado.
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    66 Em todo caso, focalizei a elaboração da prática em sala de aula, tomando o corpo da pesquisa como meu baluarte, visando à experimentação de uma proposta didático-pedagógica da aplicação do mapa-paisagístico. A prática em sala de aula se realizou na EEEFM Almirante Barroso, localizada em Goiabeiras, município de Vitória, no dia 6 de maio. A escolha desse estabelecimento não esta isenta de intencionalidade. Além dessa escola possuir o público desejável (alunos do Ensino Médio, no caso o 3º ano) e estrutura necessária para a realização da atividade, esse estabelecimento apresenta histórico de abertura a pesquisadores docentes e de aplicação das propostas das pesquisas. O exercício em sala de aula foi dividido em três momentos: no primeiro momento da aula, para inserir os alunos no contexto do conteúdo trabalhado, desenvolvi uma breve aula expositiva, onde construí uma linha do tempo, contendo os fatos mais relevantes do conflito entre israelenses e palestinos. Sendo uma temática praticamente semanal nos telejornais, parti do pressuposto que os alunos detinham algumas informações mínimas sobre o conteúdo, o que contribuiria nessa fase do trabalho. Contudo, a compreensão do problema, como um estudo de assuntos políticos, se mostrou delicada. Os alunos apresentaram baixo nível de informação, não apenas porque a professora não havia trabalhado, até aquele momento, o assunto de conflitos geopolíticos, mas também, porque parece que o público jovem (assim como a população em geral) encontra dificuldades de se identificar com o outro cidadão em situação de conflito dessa natureza, dificultando então, o desenvolvimento de análises de relações de poder no espaço. No segundo momento da aula, fiz uso do retroprojetor, para apresentar aos alunos uma sequência de cinco mapas em transparência colorida, que recortei do site da National Geographic Magazine.
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    67 Mapas trabalhados em aula Fonte: National Geographic Magazine (2010). Por meio desses mapas, instiguei o raciocínio dos alunos e trabalhei com eles as representações dos conjuntos espaciais possíveis no uso de uma determinada escala. Dessa forma, a relação entre as escalas utilizadas para representar determinado(s) conjunto(s) espacial(is), foi salientada por mim, e também desenvolvida pelos próprios alunos. Encaminhei a análise das representações, indo da pequena escala, isto é, a do mapa-múndi, até a grande escala do mapa que corresponde a um recorte espacial da Faixa de Gaza. Destaquei que as grandes extensões do espaço são representadas por pequenas escalas, onde é possível representar um espaço maior, mas com menor riqueza de detalhes. Por sua vez, se o objetivo é representar uma pequena extensão, se utiliza uma grande escala, que possibilita a descrição do espaço mais detalhado. No primeiro mapa, se verificam grandes conjuntos espaciais, da ordem dos continentes, oceanos e maiores países, inseridos no grande
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    68 conjunto espacial doplaneta Terra. Salientei que eles são representados devido ao uso de determinada escala, que é pequena, na qual é possível representar grandes extensões abarcando esses conjuntos espaciais. No segundo mapa, que realçava o Oriente Médio, mostrei-lhes um novo recorte espacial, menor em extensão espacial, porém, com mais detalhes. Nessa representação, novos conjuntos espaciais transbordam no uso de uma escala maior. E no terceiro mapa, que destaca os territórios da Palestina e Israel, outro recorte, também menor e com mais riqueza de detalhes, diferentes conjuntos espaciais aparecem inseridos dentro de outros conjuntos espaciais. Chamei a atenção deles, para observarem que no terceiro mapa existe uma mancha esverdeada. Um novo conjunto espacial surge quando se aumenta a escala, mas sua forma não é precisamente delimitada ainda. O uso da escala não permite que ela (a mancha) se apresente claramente, falta riqueza de detalhes na representação desse conjunto, apesar dele ser visível nessa escala. Nesse mesmo sentido, no quarto mapa, onde seguimos o caminho de aprofundamento, estamos na fronteira da Faixa de Gaza com Israel. Ali se notam novos conjuntos espaciais, de ordem menor, inseridos dentro de outros conjuntos espaciais. A mancha esverdeada do mapa anterior ganhou mais detalhes e diversidade, onde se notam mais conjuntos espaciais inseridos nele. Aquela mancha esverdeada ganha mais forma e se percebe que são campos de agricultura. Já do lado da Faixa de Gaza. Os conjuntos ainda são pequeninos, não possibilitando sua identificação. No último mapa, a grande escala utilizada no recorte espacial, possibilita a identificação dos pequeninos conjuntos espaciais de uma porção do território da Faixa de Gaza. Assim, estando à representação mais detalhada, avalia-se pelas características dos objetos representados, que esse espaço é predominantemente urbano. Como é possível avaliar nessa construção escalar, o uso das escalas propicia a representação vertical de determinados conjuntos espaciais revelando certa realidade do espaço, através da descrição da superfície terrestre. Neste ponto, problematizei com os alunos, se essa representação vertical seria suficiente para descrever a realidade espacial (em sentido amplo e geral), caso continuasse a me aprofundar-me na representação. A resposta foi “sim”, mas indaguei sobre o homem, ele vai ser representado nesse modelo vertical? Então, para responder a pergunta e colocar o
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    69 homem em representaçãono seu espaço de vivência, estando ele num pequenino recorte espacial, lancei mão do trabalho de Sacco (2003). Selecionei cinco páginas do trabalho de Sacco (2003, p. 3, 21, 50,78, 81), e distribui uma para cada dupla (a turma era de 10 alunos em sala). Após conceder um tempo para que os alunos analisassem as imagens e buscassem uma problematização dessa cartografia, expliquei o viés do meu estudo, qual seja apresentar uma “nova cartografia” de determinados indivíduos por meio das HQs. Salientei que, nessa representação, o homem está presente, apesar deles já terem notado isso no primeiro momento, pois segundo um dos alunos essa representação descreve o homem e o espaço mais detalhadamente. E eu endossei, porque ela é multirrepresentativa, não estando presa à representação vertical, possibilitando descrever o espaço de vivência onde o homem esta incluído na representação, revelando assim, uma malha de vivências num cotidiano de conflito, onde as ações não são descartadas na representação, mas permanecem em certa medida submetidas a pequenas e grandes estruturas de diversos conjuntos espaciais. Cabe também ressaltar, que a minha preocupação, na prática, foi destacar uma relação causal na construção de um raciocínio capaz de ajudar os alunos a se situaram nos conjuntos espaciais que eles percorrem todos os dias. Se enxergar o homem nos miniespaços foi tarefa fácil com auxílio do mapa-paisagístico, analisar as relações de poder dos mesmos careceu de criticidade. Pode se reportar a essa falta de olhar sobre as ações, ao ensino de Geografia despolitizado que Lacoste (1988) enfoca, do qual ressalvei, no capítulo 1, algumas das principais implicações de um olhar acrítico e das necessidades e cuidados para formação do olhar crítico e politizado. Ao que parece, existe uma dificuldade dos alunos identificarem as relações de poder no espaço. A Geografia Escolar parece ter contribuído pouco na formação de um cidadão capaz de intervir no seu meio. Porém, não se deve perder as esperanças no didatismo crítico: essa dificuldade só acentua a necessidade de endossar propostas comprometidas com esse enfoque, dentre as quais incluo-a nessa pesquisa. Uma das dificuldades e fragilidades deste trabalho foi o curto tempo de aplicação e única aplicação. Ainda assim, partindo do princípio de que estudos desse caráter podem e
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    70 devem ser feitosde maneira inicial e continuada, em busca de se desenvolver um olhar crítico cotidiano. No todo, está foi a prática realizada em sala de aula. Não vou dizer até onde os alunos entenderam a mensagem, seria muita ousadia entrar nas cabeças deles, e porque também, entendo que cada sujeito aprende em tempos diferentes. Mas para posicionar, o meu ponto de vista como sujeito (professor), acredito que o resultado foi satisfatório, tomando como referência o diálogo desenvolvido com os alunos durante a prática. Portanto, a mensagem que fica, é que vale a pena trabalhar em sala de aula com outras vertentes que não apenas o estudo com mapas. Enfim, para desenvolver essa prática, ou alguma de porte semelhante, que articule agenciamentos, que buscam a projeção de uma realidade indivíduo-espaço menos reducionista, é preciso estimular o raciocínio crítico reflexivo dos sensos comuns cristalizados por anos de estudo com uma Geografia acrítica e essencialmente enciclopédica. É de suma importância que o professor de Geografia, articule e realize relações entre os conjuntos espaciais representados em escalas variadas, revelando conjuntos espaciais, contextualizando- os à medida que a escala se altera. No nível do lugar, tal raciocínio também pode e deve ser adotado no mapa-paisagístico, tomando multiorientações.
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    71 Considerações finais As representações espaciais devem ser tomadas como um arranjo, não apenas através da construção vertical de conjuntos espaciais sobrepostos, que refletem uma única natureza espraiada, mas também, numa construção de uma representação da realidade espacial mais rica em sua diversidade. Onde é possível dar foco a acurados estágios de socialização, interligados a construção de territórios no plano do lugar. É o que proponho por meio do mapa-paisagístico, que descreve os viveres de indivíduos descartados pelas cartografias tradicionais. A alçada dessa proposta circunda uma zona trivial para projeção do espaço de vivência menos reducionista. Essa zona consiste na articulação de uma tríade: conjuntos espaciais - territórios - geometrias. Os conjuntos espaciais são aqueles que vão determinar a escala de uso na representação; os territórios são os agenciamentos realizados num sentido de posse (em sentido amplo) nos conjuntos espaciais e seus atributos e as geometrias são as formas que ganham significados na territorialização. Estes três elementos em estado de entroncamento vão possibilitar a projeção do homem no espaço, pois todo conjunto espacial, para ser representado, demanda o uso de uma escala adequada. Ao se fazer isso, pode se identificar as formas espaciais desse conjunto, e, se for o caso, fazendo-se o uso do mapa-paisagístico, identificando territórios não agregados à Geografia clássica dos mapas verticais. Igualmente, é preciso se ater às geometrias que provém dos agenciamentos resultantes da construção territorial do contato dos homens com as formas espaciais. Isso é algo que constrói fronteiras, numa espécie de geometria maleável ou em dobra, mas que nem sempre são notadas por causa de suas aspirações flutuantes. Jamais nos desterritorializamos sozinhos, mas no mínimo com dois termos: mão- objeto de uso, boca-seio, rosto-paisagem. E cada um dos dois termos se reterritorializa sobre o outro. De forma que não se deve confundir a reterritorialização com o retorno a uma territorialidade primitiva ou mais antiga: ela implica necessariamente um conjunto de artifícios pelos quais um elemento, ele mesmo desterritorializado, serve de territorialidade nova ao outro que também perdeu a sua. Daí todo um sistema de reterriorializações horizontais e complementares, entre a mão e a ferramenta, a boca e o seio (DELEUZE e GUATARRI, apud HAESBAERT, 2007, p. 128). Afinal, a criança se territorializa no seio da mãe, numa geometria especifica que ganha um significado, o que também faz parte de um conjunto espacial (os corpos da criança e da mãe num local, um sofá, por exemplo), ou quando escrevo num papel, no qual também existe
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    72 uma territorialidade oriundade um agenciamento que envolve um conjunto espacial. Não escrevo em qualquer lugar, mas numa sala que é um pequeno conjunto espacial, que tem uma mesa onde me debruço e faço uso de alguns objetos, como: lápis, borracha, folha etc. Quando pego o lápis realizo uma agenciamento, o movimento de fechar dos dedos envolve o objeto ao espaço da palma de minha mão, o espaço se dobra para envolver o lápis, ocorrendo uma territorialização. O feliz exemplo do surfista de Deleuze (1988) ilustra muito bem essa situação. “Estamos sempre nos insinuando nas dobras da natureza. Para nós, a natureza é um conjunto de dobras móveis. Nós nos insinuamos na dobra da onda, é esta nossa tarefa. Habitar a dobra da onda [...]” (DELEUZE, 1988). Para Deleuze, o surfista constrói uma territorialidade na onda do mar, quando ele a habita, lhe acrescenta um significado que envolve a articulação de alguns elementos (homem, prancha, onda etc.) num espaço maleável que se dobra. Portando, se as territorialidades ganham importância na explicação do cotidiano, é porque, “[...] toda desterritorialização [destruição de territórios ou saída de um território] é acompanhada de uma reterritorialização [...]” (HAESBAERT, 2007, p. 131), isto é, a construção de um novo território ou a entrada num novo território na situação de pertencente a este. Dentre os tipos de desterritorialização, uma importante, é a desterritorialização absoluta [que] refere-se ao pensamento, à criação. Para Deleuze e Guatarri, o pensamento se faz no processo de desterritorialização. Pensar é desterritorializar. Isto quer dizer que o pensamento só é possível na criação, e para se criar algo novo é necessário romper com o território existente, criando outro. Desta forma, da mesma maneira que os agenciamentos funcionavam como elementos constitutivos do território, eles também vão operar uma desterritorialização. Novos agenciamentos são necessários. Novos encontros, novas funções, novos arranjos. No entanto, a desterritorialização do pensamento, tal como a desterritorialização, é sempre acompanhada por uma reterritorialização [...]. Esta reterritorialização é a obra criada, é o novo conceito, é a canção pronta, o quadro finalizado (HAESBAERT, 2007, p. 131). Então, pode-se afirma que realizei uma desterritorialização e uma nova reterritorialização com a conclusão desse trabalho. Fiz agenciamentos com o que aprendi com Lacoste (1988) e com Sacco (2003), donde retirei pressupostos e elaborei ideias, que resultaram no mapa-paisagístico, instrumento que me possibilita atravessar fronteiras e enxergar o outro, numa ousadia que me atrevo a compartilhar, propor, expor, socializar. No entanto, tal construção emana de um desejo no sentido que Deleuze (1988) coloca. Ao se desejar algo,
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    73 só se pode desejar em um conjunto. Então, sempre se deseja um todo [...] Proust disse, e é bonito em Proust: não desejo uma mulher, desejo também uma paisagem que posso não conhecer, que pressinto enquanto não tiver desenrolado a paisagem que a envolve, não ficarei contente, ou seja, meu desejo não terminará, ficará insatisfeito. Aqui considero um conjunto com dois termos, mulher, paisagem, mas é algo bem diferente. Quando uma mulher diz: desejo um vestido, [...] é evidente que não deseja tal vestido em abstrato. Ela o deseja em um contexto de vida dela, que ela vai organizar o desejo em relação com, não apenas uma paisagem, mas com pessoas que são suas amigas, ou não são suas amigas, com sua profissão, etc. Nunca desejo algo sozinho, desejo bem mais, também não desejo um conjunto, desejo em um conjunto [...] (DELEUZE, 1988). Essa noção de desejo também pode ser empregada na cartografia, ao se fazer um mapeamento: não se deve desejar apenas representar a superfície terrestre, mas em conjunto as sociedades, a vida. Se a cartografia tem por finalidade representar uma dada realidade espacial, deveria se buscar a descrição quase total, aquela que inclui os homens, espaços de vivências, territórios, objetos espaciais, significados, etc. Parece-me ser isto uma questão de se territorializar o olhar: quando Deleuze (1988) fala, a respeito da arte barroca, que essa se constitui de dobras sobre dobras, eu trago a questão para a arte clássica, uma estátua, por exemplo, desse movimento artístico. É normalmente um corpo liso, sem dobras. Contudo, quando o olhar repousa o foco num dado detalhe, por exemplo, no rosto da estátua, fica claro que essa apresenta dobras, por mais lisa que seja essa face. Existe uma dobra, que se deposita embaixo das narinas da face da estátua, não apenas porque o nariz da estátua consiste numa forma acentuada da face, mas porque, revela um mundo ao dividir o espaço, a vida acontece de “baixo do nariz da estátua”, é tudo uma questão de territorializar o olhar e encontrar um ponto de fuga, um ângulo. Assim, o mapa-paisagístico não deve ser entendido como um ornamento estético do espaço, mas como, um ângulo de visão que se territorializa em um lugar, e descreve a realidade socioespacial “em conjunto”. Portanto, a noção de realidade que se buscou alcançar nesse trabalho, advém de uma territorialização que descreve os conjuntos em arranjo no plano do lugar. Nesse projeto piloto, coloquei-me defronte à questão dos palestinos, os célebres indivíduos descartados. Não é exagero dizer: que a Geografia esta entrelaçada com a arte, não é o mapa uma obra de arte política e ao mesmo tempo conteúdo de uma estética objetiva? Mas nunca uma alegoria.
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    74 A incessante busca é numa espécie de testemunho do espaço, onde se adentra o lugar e se vislumbra suas estruturas como se fossem de uma célula. Onde existem posições estruturais e movimentos dentro do corpo fechado, mas que também se comunicam com o mundo externo. Há algum tempo os geógrafos descobriram a obra prima de Lacoste, espero que o mesmo aconteça com Sacco, na formulação de uma cartografia política de miniespaços. É claro, que Sacco não descreve todos os lugares do mundo, mas seus trabalhos já realizados são suficientes como suporte teórico para novas reflexões no campo da Geografia. Por fim, esclareço, que ideias, como as de fissuras das representações espaciais tradicionais e mapa-paisagístico, não devem ser tomados como únicos e acabados, porque estão em trabalho de maturação e ainda estão sendo forjados pelo martelo do pensamento que vai ossificar tais posicionamentos. Existe uma querela, onde essas ideias mais se parecem com uma sala cheia de portas: a cada momento, um ser estranho entra por uma das portas e conversa comigo, por alguns instantes, e de repente se levanta e sai sem me dizer-me adeus. O seu rosto, eu não consigo distinguir, mas creio que está tentando me dizer-me algo. Talvez da próxima vez eu possa ouvi-lo melhor e quem sabe dialogar, por enquanto fico a espreita.
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    75 REFERÊNCIAS ANDRADE, Manuel Correiade. Geopolítica do Brasil. 3. ed. Campinas, SP: Papirus, 2001. CASTROGIOVANNI, Antonio.; KAERCHER, Nestor.; REGO, Nelson. (Org). Geografia: práticas pedagógicas para o ensino médio. Porto Alegre: Artmed, 2007. CASTROGIOVANNI, Antonio. Para entender a necessidade de práticas prazerosas no ensino de geografia na pós-modernidade. In:____. Geografia: práticas pedagógicas para o ensino médio. Porto Alegre: Artmed, 2007. p. 35-47. CHAIGAR, Vânia. Nossas práticas, nossos desafios: um olhar por dentro de si. In:____. Geografia: práticas pedagógicas para o ensino médio. Porto Alegre: Artmed, 2007. p. 77- 85. CERTEAU, Michel de. I. Um lugar comum: a linguagem ordinária. In:____. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. 14. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008. p. 59-74. CERTEAU, Michel de. IX. Relatos de espaço. In:____. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. 14. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008. p. 199-217. FUSER, Igor. Geopolítica: o mundo em conflito. São Paulo: Editora Salesiana, 2006. GOMES, Paulo Cesar da Costa. Geografia e modernidade. 4. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização: do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. 3. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. L‟ABÉCÉDAIRE de Gilles Deleuze. Filmado por: Claire Parnet. [Paris: s.n., 1988]. LACOSTE, Yves. A geografia – Isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. 14. ed. Campinas, SP: Papirus, 1988. MORAES, Antonio Carlos Robert. Geografia: pequena história crítica. 21. ed. São Paulo: Annablume, 2007. RAMA, Angela.; VERGUEIRO, Waldomiro. (Org.). Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2009. RAMA, Angela. Os quadrinhos no ensino de Geografia. In:____. Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2009. p. 87-104. VERGUEIRO, Waldomiro. Uso dos HQs no ensino. In:____. Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2009. p. 7-30.
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