O PLANEJAMENTO AMBIENTAL DA CIDADE
Os problemas ambientais urbanos sempre estiveram presentes na cidade,
porém, no mundo ocidental, certos momentos históricos intensificaram a crise e podem
ser mais facilmente identificados. A modificação da cidade murada medieval para a
cidade barroca se apresenta como a primeira grande transformação. A imposição de uma
racionalidade geométrica de traçado sobrepondo o antigo tecido urbano carregado de
significados históricos marca o começo de uma profunda transformação nos valores
culturais da sociedade pré-industrial.
A Revolução Industrial iniciada no Século XVIII surge como um outro
significativo momento de transformação da cidade. A migração da população rural para os
centros urbanos, o agravamento dos problemas sanitários e ambientais, bem como o
avanço científico e tecnológico vieram justificar nesse período as grandes remodelações
urbanas e alimentaram posteriormente os ideais do movimento moderno que no campo
da arquitetura e urbanismo determinarão a partir daí outro período importante de
transformação urbana.
Absorvidas as críticas à modernidade, a cidade contemporânea encerra o
século XX e inicia o novo milênio com uma infinitude de inquietudes e desafios. O
reconhecimento de uma ordem global na economia mundial contrapondo-se a uma crise
social e ambiental sem precedentes coloca em xeque o papel do planejamento urbano e
os modelos de gestão. A carta de Atenas e os modelos de planejamento moderno que
dominaram o desenvolvimento das cidades no último século não se mostram mais
pertinentes para a cidade contemporânea e foi daí que a partir das três últimas décadas
se vê surgir indícios de um planejamento cujas intervenções humanas devem estar dentro
da capacidade de suporte dos ecossistemas. A esse planejamento tem se dado o nome
de planejamento ambiental e o seu papel principal é alcançar o desenvolvimento
sustentável nos ecossistemas em que o homem possui interferência, sobretudo o
ecossistema urbano.
As ações de um planejamento urbano ambiental transcendem os limites
técnicos e específicos de cada área científica de atuação na cidade, assim como os
aspectos de ordem políticos e administrativos tradicionais de governos locais. A
democracia participativa, a trans e interdisciplinariedade das áreas e a atenção às
discussões e recomendações de uma governância internacional, legitimada pela
sociedade desde a última Conferência Mundial do Rio de Janeiro em 1992, se colocam
como elementos inovadores do planejamento urbano para a cidade sustentável do novo
milênio.
A cidade como paisagem urbana está constituída de elementos naturais,
construídos e culturais; intrínsecos e indissociáveis. A forma de interferência nesta
paisagem, desde o momento em que a natureza começou a ser transformada, está
relacionada com os valores culturais da população que certamente determinam os índices
de ambiência urbana e de qualidade de vida. A Arquitetura paisagística surge no intuito de
dar forma e vida a esses espaços, estabelecendo daí a possibilidade de se ter uma
ambiência ou uma permanência prazerosa. Desta forma, e mediante uma matéria viva, o
paisagismo propicia situações diferenciadas oferecendo importância ao simbólico e
identidade do lugar.
Na história urbana o trabalho humano como atividade orientada e
transformadora da matéria determina que a natureza adquira uma forma específica,
conforme as possibilidades tecnológicas, as habilidades artísticas e os desejos ou
necessidades sociais. A relação estabelecida entre essa produção e o meio ambiente é,
pois, dialética e os resultados ou consequências refletem diretamente no ser humano.
No processo de evolução da cidade não se sabe muito bem se o homem
conseguiu, de fato, dominar a natureza. Porém, é nítido a desastrosa e ininterrupta
destruição de espécies vivas e ecossistemas, bem como, os prejuízos acumulados no
meio ambiente ao longo do tempo, incluindo o urbano. As cidades tornaram-se parasitas
do campo e do meio natural, retirando daí tudo que se pode ou necessita e nada
devolvendo.
Num planejamento ambiental ou numa concepção bioclimática do espaço
urbano o edifício deve tornar-se num mediador do espaço público emoldurado a partir da
introdução de uma concepção sensorial polivalente. O meio natural deve ser bem
compreendido e os fatores climáticos controlados no projeto de arquitetura do edifício e
da cidade. A arquitetura bioclimática ao reconhecer e respeitar os significados urbanos se
oferece então como apropriada ao lugar favorecendo a arquitetura se estabelecer como
elemento conciliador entre o ser humano e o ambiente.
Num tipo de relação harmoniosa assim, em que a paisagem resulta da
atividade sensorial do ser humano, o nível de humanização e de sustentabilidade do
espaço urbano se eleva e as possibilidades de maiores alterações na estrutura social e da
própria paisagem se veem mais reduzidas.
Arquiteto e Urbanista John Mivaldo da Silveira
Professor, Mestre em Arquitetura e Presidente do IAB-GO

Planejamento ambiental urbano

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    O PLANEJAMENTO AMBIENTALDA CIDADE Os problemas ambientais urbanos sempre estiveram presentes na cidade, porém, no mundo ocidental, certos momentos históricos intensificaram a crise e podem ser mais facilmente identificados. A modificação da cidade murada medieval para a cidade barroca se apresenta como a primeira grande transformação. A imposição de uma racionalidade geométrica de traçado sobrepondo o antigo tecido urbano carregado de significados históricos marca o começo de uma profunda transformação nos valores culturais da sociedade pré-industrial. A Revolução Industrial iniciada no Século XVIII surge como um outro significativo momento de transformação da cidade. A migração da população rural para os centros urbanos, o agravamento dos problemas sanitários e ambientais, bem como o avanço científico e tecnológico vieram justificar nesse período as grandes remodelações urbanas e alimentaram posteriormente os ideais do movimento moderno que no campo da arquitetura e urbanismo determinarão a partir daí outro período importante de transformação urbana. Absorvidas as críticas à modernidade, a cidade contemporânea encerra o século XX e inicia o novo milênio com uma infinitude de inquietudes e desafios. O reconhecimento de uma ordem global na economia mundial contrapondo-se a uma crise social e ambiental sem precedentes coloca em xeque o papel do planejamento urbano e os modelos de gestão. A carta de Atenas e os modelos de planejamento moderno que dominaram o desenvolvimento das cidades no último século não se mostram mais pertinentes para a cidade contemporânea e foi daí que a partir das três últimas décadas se vê surgir indícios de um planejamento cujas intervenções humanas devem estar dentro da capacidade de suporte dos ecossistemas. A esse planejamento tem se dado o nome de planejamento ambiental e o seu papel principal é alcançar o desenvolvimento sustentável nos ecossistemas em que o homem possui interferência, sobretudo o ecossistema urbano. As ações de um planejamento urbano ambiental transcendem os limites técnicos e específicos de cada área científica de atuação na cidade, assim como os aspectos de ordem políticos e administrativos tradicionais de governos locais. A democracia participativa, a trans e interdisciplinariedade das áreas e a atenção às discussões e recomendações de uma governância internacional, legitimada pela sociedade desde a última Conferência Mundial do Rio de Janeiro em 1992, se colocam como elementos inovadores do planejamento urbano para a cidade sustentável do novo milênio.
  • 2.
    A cidade comopaisagem urbana está constituída de elementos naturais, construídos e culturais; intrínsecos e indissociáveis. A forma de interferência nesta paisagem, desde o momento em que a natureza começou a ser transformada, está relacionada com os valores culturais da população que certamente determinam os índices de ambiência urbana e de qualidade de vida. A Arquitetura paisagística surge no intuito de dar forma e vida a esses espaços, estabelecendo daí a possibilidade de se ter uma ambiência ou uma permanência prazerosa. Desta forma, e mediante uma matéria viva, o paisagismo propicia situações diferenciadas oferecendo importância ao simbólico e identidade do lugar. Na história urbana o trabalho humano como atividade orientada e transformadora da matéria determina que a natureza adquira uma forma específica, conforme as possibilidades tecnológicas, as habilidades artísticas e os desejos ou necessidades sociais. A relação estabelecida entre essa produção e o meio ambiente é, pois, dialética e os resultados ou consequências refletem diretamente no ser humano. No processo de evolução da cidade não se sabe muito bem se o homem conseguiu, de fato, dominar a natureza. Porém, é nítido a desastrosa e ininterrupta destruição de espécies vivas e ecossistemas, bem como, os prejuízos acumulados no meio ambiente ao longo do tempo, incluindo o urbano. As cidades tornaram-se parasitas do campo e do meio natural, retirando daí tudo que se pode ou necessita e nada devolvendo. Num planejamento ambiental ou numa concepção bioclimática do espaço urbano o edifício deve tornar-se num mediador do espaço público emoldurado a partir da introdução de uma concepção sensorial polivalente. O meio natural deve ser bem compreendido e os fatores climáticos controlados no projeto de arquitetura do edifício e da cidade. A arquitetura bioclimática ao reconhecer e respeitar os significados urbanos se oferece então como apropriada ao lugar favorecendo a arquitetura se estabelecer como elemento conciliador entre o ser humano e o ambiente. Num tipo de relação harmoniosa assim, em que a paisagem resulta da atividade sensorial do ser humano, o nível de humanização e de sustentabilidade do espaço urbano se eleva e as possibilidades de maiores alterações na estrutura social e da própria paisagem se veem mais reduzidas. Arquiteto e Urbanista John Mivaldo da Silveira Professor, Mestre em Arquitetura e Presidente do IAB-GO